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UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA

CURSO: DIREITO
DISCIPLINA: TÓPICOS ESPECIAIS (DIREITO E LITERATURA)

RESENHA

DIREITO, LINGUAGEM E LITERATURA: REFLEXÕES


SOBRE O SENTIDO E ALCANCE DAS INTER-RELAÇÕES.
Breve estudo sobre dimensões de criatividade em Direito.
Raquel Barradas de Freitas

Wilson Bruno Oliveira e Menezes


Direito
9º semestre
A presente resenha expõe pontos relevantes da discussão do artigo Direito,
Linguagem e Literatura: Reflexões Sobre o Sentido e Alcance das Inter-
relações da autora angolana Raquel Barradas de Freitas. Raquel estudou e
lecionou Direito na Universidade Nova de Lisboa; é Mestre em Pesquisa
Jurídica e Doutora em Direito (Jurisprudência) pela Universidade de Oxford.

Entre as principais ideias do texto a autora destaca, ainda que de maneira


simplória em nota prévia que a linguagem enquanto arte é um instrumento das
relações entre o mundo jurídico e a linguagem. A linguagem está presente hoje
em todos os níveis da nossa realidade de início de século. No direito do pós
positivismo, às vezes ainda se observa a linguagem como "moldura e medida
de conteúdo". Nesta abordagem, vislumbramos o caráter multidisciplinar do
universo jurídico. Portanto, observando diversas relações linguísticas.

Estabelece-se a íntima relação do direito com a linguagem em todas as suas


manifestações e níveis. Pois, todo fenômeno jurídico se efetiva através da
linguagem orientada a execução de certos objetivos. A linguagem é carregada
de uma pré-compreensão (subjetiva) e um lugar (na tópica).

A relação entre Direito e Literatura é muito rica e abrangente. O foco aqui se dá


na convergência da literatura (enquanto manipulador da linguagem) com o
discurso jurídico (enquanto via de apresentação estilística de estratégias
discursivas e vários outros objetivos). A literatura como arte pode criar
realidades paralelas como formas de realização do ser humano (realidades que
podem não ser as do direito). Por outro lado, o direito, como um reflexo da
liberdade humana (tanto na meta de atingir o direito quanto na criação e
aplicação do processo jurídico).

Ao adentrar o substrato do tema, Raquel passeia pelos diversos aspectos que


permeiam o estudo da linguagem, do direito e da teoria da literatura. Os
símbolos (fônicos/vocais e visuais/gráficos), que sucintamente podemos definir
como a “representação material de uma coisa por outra, em virtude de uma
analogia formal”;

A linguagem surge como manifestação por excelência da natureza racional e


expressiva do ser humano. Por sua vez, a racionalidade caracteriza-o homem
como ser espiritual e corporal concomitantemente. As duas principais funções
da linguagem são a “interna” pela qual ocorre o conhecimento no interior do
sujeito. E a função “secundária” em que a linguagem serve como meio de
comunicação entre os sujeitos. Aborda-se ainda que brevemente o conceito de
semiótica, que nada mais é que a ciência dos signos (sinais) e dedica-se ao
estudo dos sistemas e estruturas significativas que, constituindo ou não
linguagens e textos.

O Direito surge como uma manifestação da racionalidade humana por normas


através da linguagem., buscando-se prevenir a ausência da racionalidade nos
comportamentos humanos, principalmente os instintivos ou emocionais,
impondo padrões de conduta. Mostra-se como uma via de operação da
linguística e talvez ainda um veículo de ideologias.

O termo Teoria da Literatura é um produto do século XX, e trata-se de uma


disciplina que estuda o sistema literário. Visa elaborar conceitos, explicações,
instrumentos e métodos de descrição e análise que buscam adentrar, com rigor
sistemático, a obra de um autor, períodos literários, entre outros, ou seja, é o
fundamento epistemológico e metodológico do campo literário. Esta tentativa
de cientificidade do conhecimento das artes já se vê formulada no decorrer de
setecentos.

O ponto chave apontado pela autora para a intercessão entre a Metodologia do


Direito e a Teoria da Literatura é a interpretação. Na interpretação jurídica, o
jurista encontra o viés criador da linguagem, que se corporifica nas
manifestações e formulações do Direito, resultantes da criação e do
pensamento. O Direito, então, figura-se como linguagem, mas uma linguagem
específica, direcionada, vocacionada e localizada na intenção de uma
aplicação uniforme, sendo a via jurisprudencial a que melhor revela esse
contato com a literatura. Já na relação da linguagem com a literatura temos que
o discurso literário explicita uma das mais belas formas de domínio,
manipulação e vivificação da linguagem.

É através da interpretação que o Direito e a Literatura evidenciam elementos


ligados à linguagem nota-se o sentido e alcance de suas construções.
Cada vez mais tem se dado destaque à jurisprudência em sua relevância na
criação do Direito, em detrimento do mecanismo fixo da aplicação da lei. Em
vista deste aspecto, a teoria da literatura pode revelar-se preciosa, mediante a
abertura de novas possibilidades de criação de novos instrumentos em vista de
uma flexibilidade no uso do Direito. A autora cita Dworkin ao mostrar elementos
de uma proposta de modelo de interpretação que figure num meio termo entre
a rigidez positivista e a extrema liberdade interpretativa: a doutrina do
precedente, o ambiente intelectual em que se insere o juiz, a linguagem
comum, e o conservadorismo da educação jurídica e do processo de seleção
de juristas para cargos.

Os significados de textos literários são produzidos no diálogo que se


estabelece entre o leitor e o texto. Devemos considerar que o objeto
apresentado ao intérprete (jurídico ou literário) se efetiva sob condições
contextualizadas. Assim a noção de contexto servirá como indicação de
elementos que contribuem para a construção feita pelo sujeito quando
confrontado com algum texto. Enquanto o Direito possui um discurso orientado
pela normatividade, o literário busca enriquecer o espírito do leitor, ou talvez
ainda, desconectá-lo (embora possa conter alguma normatividade).

Por fim, diante de toda esta bagagem exposta, interessa apontar a contribuição
para uma melhor visão do Direito. A flexibilidade dada pelo método de
interpretação dos textos literários pode contribuir significativamente para um
Direito mais aberto, visto que os novos desafios lançados pela sociedade sobre
as estruturas jurídicas são inúmeros e exigem reformulações de soluções que
já não se adequam ao panorama vigente. A contribuição é portanto, o
desenvolvimento de novas metodologias, pontos de vista, perspectivas sobre o
direito e para a relevância da jurisprudência no ordenamento. Tanto o Direito
quanto a Literatura encontram uma base comum que é a linguagem como
veículo de origem de construções. A Literatura pode transportar criatividade ao
Direito, dar maior visão ao jurista e fazê-lo conseguir dar respostas que não
conseguiria se ficasse engessado nas molduras do Direito.
Referências Bibliográficas

FREITAS, Raquel Barradas de. DIREITO, LINGUAGEM E LITERATURA:


REFLEXÕES SOBRE O SENTIDO E ALCANCE DAS INTER-
RELAÇÕES: Breve estudo sobre dimensões de criatividade em Direito.
6. ed. Lisboa: Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa,
2002. 27 p. (2002).

EUROPEU, Instituto Universitário. Postdoctoral Max Weber


Programa. 2017. Instituto Universitário Europeu. Disponível em: <
www.eui.eu/ProgrammesAndFellowships/MaxWeberProgramme/People/
MaxWeberFellows/Fellows-2017-2018/BARRADAS-DE-FREITAS >. Acesso
em: 19 ago. 2017.

TINTURÉ, Maris Köpcke. História do JDG: Começos. 2018.


Jurisprudence Discussion Group Oxford University. Disponível em:
<https://www.oxford-jdg.net/p/history-of-jdg.html>. Acesso em: 15 jul.
2019.

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