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XI COLÓQUIO DE EXTENSÃO DA UERN

IV SALÃO DE EXTENSÃO

MOVIOLA: UMA EXPERIÊNCIA FEMINISTA DE CINEMA NO CAMPUS


Área temática: Comunicação

Luane Fernandes Costa;

(fernandesluane6@gmail.com)

Amanda Veríssimo da Silva;

Daiany Ferreira Dantas;

Universidade do Estado do Rio Grande do Norte - UERN

Resumo: O Projeto 'MOVIOLA FEMININA: Cineclube feminista e oficina de produção


audiovisual para mulheres' consta de ações de extensão com três eixos interligados: reuniões
periódicas mensais com alunos e alunas do curso de Comunicação Social da UERN,
constando de estudos dirigidos e debates sobre a temática do projeto; sessões mensais de
cineclube, com longas e curtas metragens (documentários e cinema narrativo ficcional), de
curadoria voltada à divulgação das realizações de diretoras mulheres no circuito regional; e
oficinas de produção audiovisual para mulheres de comunidades periféricas, em parceria com
organizações da sociedade civil. No presente trabalho, descrevemos o processo de
implementação de dois de seus principais eixos: a organização das sessões e a formação
teórica suplementar implicada nessa execução, investigando a relação entre pesquisa e
extensão, compreendendo o recorte e resultados do projeto.

Palavras-chave: Cineclube; Gênero; Mulheres.

Introdução

Os cineclubes são um espaço histórico de formação de plateia, debates e fomento de

novas estéticas e produção. Entretanto, historicamente foram constituídos como mais um

espaço de segregação (DE BAECQUE, 2011)., em que os cinéfilos – dos quais derivaram

diversos críticos e autores, tais como os da geração francesa surgida no final da década de

1960, hoje conhecida como nouvelle vague – geralmente ocupavam-se em estabelecer uma

relação entre autor e musa, sujeito e objeto da obra representada, legando o feminino ao

campo da representação, e elevando a crítica a um espaço que lhe seria exterior, estabelecendo

uma disparidade de gênero, observável no quantitativo de atrizes no papel de interesse

amoroso, não de protagonista, e no baixo percentual de mulheres creditadas como

realizadoras de filmes.

No caso do projeto em questão, há a oportunidade de, a partir do viés da crítica


cultural, refletir acerca da representatividade de gênero das mulheres no cinema, pelo
reconhecimento do debate teórico desta área, de filmografias pouco reconhecidas, como as
obras de cineastas locais e regionais, e, por fim, na apropriação do repertório de produção
audiovisual como meio de registro de suas vivências, experiências e realidades.
No processo de construção do moviola feminista, houve uma preocupação em
estabelecer um ciclo de estudos sobre teoria crítica feminista do cinema associado ao
reconhecimento das diretoras na historiografia do cinema nacional. Debatemos que, também
no Brasil, há uma demanda latente por uma investigação de viés arqueológico e genealógico
em torno das referências de diretoras mulheres. Obras como as de Helena Solberg, Vera
Figueiredo e Tereza Trautman, que produziram filmes de forte teor crítico e abordagens
ousadas quanto à condição das mulheres na sociedade nos anos 1960 e 1970, encontram-se
obscurecidas, não apenas no processo de distribuição, mas na própria historiografia do cinema
nacional, na qual os nomes de mulheres realizadoras vagam escassos, ao longo das décadas,
nas antologias da área.

Desenvolvimento
Também houve a preocupação em fomentar o entrelaçamento entre as exibições e a
agenda do calendário feminista. Três momentos foram relevantes: inicialmente o debate na
FASSO com a exibição do filme À margem do corpo (2009), de Débora Diniz, no dia 27 de
outubro de 2017, que conta sobre Deuseli que ao ser brutalmente estuprada e engravidar, é
impedida de abortar. Traz ao telespectador um forte enredo acerca de questões femininas
marginalizadas. O segundo momento foi a exibição do filme O processo (2016) -
documentário que retrata o golpe de 2016 que destituiu a presidenta Dilma de seu cargo - em
que o grupo foi o responsável por trazer às telas do cinema da cidade Mossoró-RN, no
período de 7 a 13 de junho. Por último, houve a mostra do filme A árvore de Marcação
(1993), produzido por Jussara Queiroz, que aborda a temática do trabalho infantil e do
coronelismo, exibido em julho, no auditório do Departamento de Comunicação da UERN.
O último debate também foi pautado pela interlocução entre extensão e pesquisa,

sendo parte das atividades do PIBIC (2017-2018) O cinema diaspórico de Jussara Queiroz,

realizadora potiguar, que resultou num artigo.

Resultados e discussões

As apresentações dos filmes foram úteis para a articulação de questões comuns ao

debate cinematográfico e o campo macro político em torno do debate sobre feminismo. Na

sessão de exibição na Faculdade de Serviço Social da UERN (FASSO), houve a preocupação

em se avaliar as invisibilidades de protagonismo das mulheres em narrativas sobre o aborto, a


partir da estrutura narrativa da obra, bem como em se apontar o recorte de raça apresentado

pelo filme.

Na exibição do filme O processo, ocorreu uma intensa mobilização social, via evento

criado no facebook e mensagens circuladas no Whatsapp, para a venda antecipada de

ingresso, pré-distribuindo o suficiente para a lotação de uma sala de 137 lugares, exigência

dos distribuidores da rede de cinemas Multicine, única instalada na cidade. As coordenadoras

do projeto deram entrevistas aos meios de comunicação e difundiram o conteúdo em meios

alternativos.

Já o longa a Árvore de Marcação (1987-1993) foi precedido pela leitura do texto O

Olhar opositor (HOOKS, 2017) e pela leitura do capítulo sobre a autora no livro O Cinema da

Retomada (NAGIB, 2002). Na análise no debate, enfatizamos que este é o único longa-

metragem da carreira da cineasta potiguar Jussara Queiroz. Formada em Cinema pela

Universidade Federal Fluminense, a trajetória dessa realizadora é parecida com a de Jocélia,

protagonista do seu longa. Ambas transitam de suas cidades natais e viajam de encontro ao

Rio de Janeiro. É nesse estado que A Árvore de Marcação é idealizado e produzido, durante

quase uma década, entre o período de abertura política do país e o início do governo Collor.

Apesar de ser reconhecida como a primeira cineasta potiguar, as obras dessa

realizadora são pouco conhecidas no Brasil, até mesmo em seu estado, onde uma de suas

obras chegou a ser rejeitada pela curadoria do Festival de Cinema de Natal, de acordo com o

documentário O Voo silenciado do Jucurutu (2007), de Paulo Laguardia, que narra a trajetória

dessa realizadora. A diáspora se faz presente em A Árvore de Marcação nas trajetórias das

personagens que exibem questões de deslocamentos, tanto físicos quanto simbólicos.

Considerações finais

O projeto Moviola Feminina conseguiu ampliar a visibilidade e o debate em torno da

produção cinematográfica das mulheres no cinema nacional – histórica e recente. Seja

fortalecendo laços entre a produção cinematográfica e as demandas feministas, seja na

articulação entre crítica e história do cinema, seja no mapeamento e viabilização de espaços

externos à comunidade universitária para a exibição.

Referências
DE BAEQUE, Antoine. Cinefilia. São Paulo: Cosac e Naify, 2011.

DINIZ, Debora. À margem do corpo. Documentário. ABA/Fundação Ford, 2006. DVD, 43 min, cor.

HOOKS, Bell. O olhar opositivo: a espectadora negra. Fora de quadro. Trad. Carol Almeida.
Disponível em <https://foradequadro.com/2017/05/26/o-olhar-opositivo-a-espectadora-negrapor-bell-
hooks/>, acesso em 08/12/2017.

LAGUARDIA, Paulo. O voo silenciado do jucurutu. 2007, Independente, 50 min

NAGIB, Lúcia. O Cinema da Retomada: Depoimentos de 90 Cineastas dos Anos 90. São Paulo:
Editora 34, 2002.

RAMOS, Maria. O processo. 2018, Enquadramento Produções, 140min.

QUEIROZ, Jussara. A árvore de marcação. 1995, ZDF, 90 min.