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JC Santos, Secção de Português – UNAM, 2004 1

CANTAR DE EMIGRAÇÃO - Literatura sobre os


que partem1

CANTAR DE EMIGRAÇÃO
(Rosalia de Castro, adapt. de José Niza -
José Niza)
voz: Adriano Correia de Oliveira

EMIGRAÇÃO
Este parte, aquele parte (Curros Enriquez, adapt. José Niza -
e todos, todos se vão, José Niza)
voz: Adriano Correia de Oliveira
Galiza, ficas sem homens
que possam cortar teu pão Quando no silêncio das noites de
luar
Tens em troca órfãos e órfãs via uma estrela pelo céu a correr
e campos de solidão dizia minha mãe de mãos
e mães que não têm filhos erguidas:
– Deus te guie por bem!
filhos que não têm pais .
Desde então quando vejo que um
Corações que tens e sofrem homem
longas horas mortais deixa a terra onde infeliz nasceu
e fortuna busca noutras praias,
viúvas de vivos-mortos
digo:
que ninguém consolará. que te guie Deus, também!
Não o culpo, coitado, não o acuso
nem lhe rogo pragas nem
castigos
nem de que é dono de escolher
me esqueço
o que lhe convier!
Porque quem deixa o seu torrão
natal
e fora dos seus caminhos põe os
pés
quando troca o certo pelo incerto
motivos há-de ter!

EXÍLIO
(Manuel Alegre - Luís Cília)
voz: Luís Cília.

1
Fonte: MOUTINHO, José Viale (org.), Cancioneiro de Abril, Lisboa, Ulmeiro,
1999.
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Venho dizer-vos que não tenho


medo
A verdade é mais forte que as
algemas
Venho dizer-vos que não há
degredo
Quando se traz a alma cheia de
poemas

Pode ser uma ilha ou uma prisão


Em qualquer lado eu estou
presente
Tomo o navio da canção
E vou direito ao coração de toda
a gente
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TROVA DO EMIGRANTE Ficam mulheres a chorar


(Manuel Alegre - Manuel Freire) voz: Por aqueles que se foram
Manuel Freire Ai lágrimas que se choram
Parte de noite e não olha Não fazem qualquer mudança
Os campos que vai deixar Já foram donos do mar
Todos por dentro a abanar Vão para terras de França. Ficam
Como a terra em Agadir mulheres a chorar
Folha a folha se desfolha Por aqueles que se foram
Seu coração ao partir Ai lágrimas que se choram
Não fazem qualquer mudança
Não tem sede de aventura Já foram donos do mar
Nem quis a terra distante Vão para terras de França.
A vida o fez viajante
Se busca terras de França.
É que a sorte lhe foi dura
E um homem também se cansa
As rugas que o suor cava
Não são rugas são enganos CANÇÃO DO DESERTOR
São perdas lágrimas danos (Luís Cília) voz: Luís Cília
De suar por conta alheia
Não compensa nunca paga Oh mar .. oh mar ..
Quanto suor se semeia Que beijas a terra
Em vida vive-se a morte Vai dizer à minha mãe
Se o trabalho não dá fruto Que não vou para a guerra
Morre-se em cada minuto
Se o fruto nunca se alcança Diz oh mar à minha mãe
Porque lhe foi dura a sorte Que matar não me apraz
Vai para terras de França
No fundo quem vai à guerra
Não julguem que vai contente É aquele que a não faz
Leva nos olhos o verde
Dos campos onde se perde Vou cantar a Liberdade
Gente que tudo lhe deu
Parte mas fica presente
Para a minha Pátria amada
Em tudo o que não colheu E para a Mãe negra e triste
Que vive acorrentada
Verde campo verde e triste
Em ti ceifou e hoje foi-se
Em ti ceifou mas a foice
Mas a voz do nosso povo
Ceifava somente esperança No dia do julgamento
Nem sempre um homem resiste Te dirá a ti oh mar
Vai para terras de França E dirá de vento a vento
Vai-se um homem vai com ele
A marca de uma raiz Quem são os traidores
Vai com ele a cicatriz Se é quem nos rouba o pão
De um lugar que está vazio Ou se nós os desertores
Leva gravado na pele Que à guerra dizemos «Não»
Uma aldeia um campo um rio
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EMIGRAÇÃO/EXÍLIO

— Em que circunstâncias foste para França?

Francisco Fanhais: Em Abril, fez três anos que fui para lá.
Isso porque em certa altura da minha vida tudo eram sinais
proibidos, quer dizer: de um lado eu estava suspenso das minhas
funções de padre, estava impedido de dar aulas no liceu do Barreiro,
onde tinha estado com uma série de malta, justamente aqueles que
agora estão aqui a cantar, e encontrava-me proibido de cantar.
Pensei: se isto continua assim muito tempo, vou morrer asfixiado, por
isso deixa-me sair um bocado para respirar, para fazer o ponto de
mim próprio e para depois voltar noutros moldes talvez, mais
aliviado e mais repousado interiormente.
Estive por lá esses três anos, pensava vir antes mas por razões
de ordem, sobretudo, política, foi impossível voltar, isso significava o
ser imediatamente vítima de uma forma brutal e directa de repressão
do governo fascista que agora caiu. Daí que tenha optado por ficar
em França durante mais alguns anos. Não sabia até quando, estava
já afazer projectos, não digo a longo prazo, mas a médio prazo, a
pensar que demoraria ainda cerca de cinco ou seis anos esta
mudança radical que me possibilitaria o voltar a Portugal.

— Durante esse tempo que fizeste?

Francisco Fanhais: Aquilo que sempre tinha feito cá em


Portugal, isto é: cantar. Cantar para os emigrantes. Os portugueses
que foram para lá por razões de ordem económica, 800 mil
portugueses, não tinham uma consciência política dos problemas do
seu país. Vamos a ver até quando isto se verificará. E até se
compreende porque foram para a França por uma questão de
sobrevivência económica, ganhar dinheiro e sustentar a mulher e os
filhos. O resto não contava.
Ainda na véspera de eu vir para cá, - saí de Paris na Segunda-
feira, dia 29 de Abril - e no dia 27 fui cantar em algumas festas para
portugueses e tudo aquilo que se tinha passado no dia 25 era para
eles nada. Havia tudo passado por cima da cabeça deles. Nem sequer
tinham consciência disso, não sei sequer se tinham lido ou sabido de
outro modo, acredito que sim, mas não dizia muito à vida deles.
Estavam num baile, no baile continuaram. Eu apareci e há uma
pessoa que diz: Vem aqui este amigo cantar duas canções e
depois contínua o baile. E eu cantei duas canções, de facto não
tive coragem para continuar a fazê-lo porque o ambiente não era
propício a isso. As pessoas queriam era dançar e estavam no seu
direito, após uma semana de trabalho, embora a maneira de se
divertirem fosse totalmente alienante, mas enfim era a sua maneira e
eu ali não tinha nada afazer.
JC Santos, Secção de Português – UNAM, 2004 6

E vim-me embora. Isto para dizer que durante três anos, a


minha preocupação fundamental - não só a minha mas de todos
aqueles que se preocupavam em cantar canções de um certo tipo:
Luís Cília, Zé Mário e outros que por lá estavam a cantar -, foi dizer
às pessoas aquilo que era a realidade portuguesa porque é que eles
estavam em França, porque havia guerra, etc.
In Musicalíssimo, 19/19(sic)/1974,
Apud: José Viale MOUTINHO, (org.), Cancioneiro de Abril, Lisboa,
Ulmeiro, 1999, pp. 29-31.