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PEQUENA VIDA DE UMA GRANDE METRÓPOLE

Max de Souza e Ricardo Stanzione

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reservados aos detentores legais dos direitos da obra. Para a representação e comercialização legal
da peça, entrar em contato com os autores.
PERSONAGENS
NARRADORES

JOÃO

JOÃOZINHO

MÃE DE JOÃO

MULHER 1

MULHER 2

JUIZ (A)

PROFESSOR (A)

ENTREVISTADOR (A)

CAFETÃO

SOCIEDADE

FOME

VELHA

VELHO RANZINZA

REPÓRTER

HOMEM MAU HUMORADO

APRESENTADORES DE PROGRAMA DE TELEVISÃO

POLÍTICO

FUNKEIROS

PESSOA 1

PESSOA 2
CENA 1
(música de abertura em ritmo de marchinha)
Extra, extra extra, extra
É segurança e é saúde que não presta
Eu digo: Extra, extra extra, extra
E desse jeito ninguém sai mais vivo desta
Extra, extra extra, extra
É moradia e educação que nunca presta
Extra, extra extra, extra
Assim o pobre nunca pode fazer festa
Extra, extra extra, extra
Corrupção e tanta gente desonesta
Eu digo: Extra, extra extra, extra
E desse jeito ninguém sai mais vivo desta
(repete tudo)

(narradores entram gritando em tom de protesto)

NARRADORES: Abaixo a violência, abaixo o preconceito, abaixo a miséria, abaixo


a corrupção, abaixo a desigualdade!!!
NARRADOR: Extra, extra, extra, uma notícia que já não é novidade para ninguém:
outra enchente em São Paulo mata um monte de gente.
NARRADOR: Extra, extra, um monte de gente desempregada.
NARRADOR: Extra, extra, a violência está tão alta que só falta entrar para o
Guinness.
NARRADOR: Extra, extra, a saúde está tão precária que até ela está doente.
NARRADOR: Nessa mega metrópole que é São Paulo, de carros, farois e muita
poluição. De tiros, assaltos e mortes aos montes...
NARRADOR: Vemos vidas no subúrbio, pequenas vidas, pequenos lares da grande
metrópole.
NARRADOR: Joãozinho é uma dessas pequenas vidas, uma vida discriminada,
porque ele é negro.
JUIZ: Culpado, culpado, culpado.
MULHER 1: Você acha que ele é culpado?
MULHER 2: E isso importa?
MULHER 1: E o que importa?
MULHER 2: Que ele fique na cadeia.
MULHER 1: Tem razão.
JUIZ: Culpado, tem algo a dizer em sua defesa? (antes que João fale o juiz o
interrompe) Culpado! Tem o direito de permanecer calado, calado!
NARRADOR: Mas não vão deixar ele dizer nada?
NARRADOR: E adianta?
NARRADOR: Por que isso está acontecendo?
NARRADOR: Por muitas razões.
NARRADOR: E que razões são essas?
NARRADOR: Se você quer mesmo saber, antes terá que conhecer Joãozinho e sua
mãe.
NARRADOR: Mas essa por acaso, é a história de João e o pé de feijão?
NARRADOR: Não, porque o João da história não era negro e não morava na favela.
E esse João que você vai conhecer não tem o que calçar nos pés e nem feijão para pôr
na mesa.
JOÃOZINHO: (coloca-se em posição extasiado olhando a televisão)
MÃE: Joãozinho, que programa besta é esse?
JOÃOZINHO: É um programa que fala de cultura.
MÃE: Cultura? Quem quer saber de cultura? Coloque em um canal que preste!!!
JOÃOZINHO: (troca de canal)
MÃE E JOÃOZINHO: (dançam) Peito e bunda, peito e bunda, peito e bunda, peito
e bunda.
PROFESSOR (A): Joãozinho.
JOÃOZINHO: Presente.
PROFESSOR (A): Quanto é 2+2?
JOÃOZINHO: Peito e bunda. (vai respondendo num crescendo, como se estivesse
sob pressão)
PROFESSOR (A): Quanto é 3+3?
JOÃOZINHO: Peito e bunda.
PROFESSOR (A): Quanto é 4+4?
JOÃOZINHO: Peito e bunda.
MÃE: Prazer, sou a mãe de Joãozinho. Tenho 16 anos, gostaria de fumar um cigarro
ou tomar um pouco de (dança e vai saindo) peito e bunda, peito e bunda, peito e
bunda, peito e bunda.
NARRADOR: Mas o que vai acontecer com essa criança, crescendo com essas
influências, é só peito e bunda, peito e bunda?
NARRADOR: O mesmo que acontece a todos os outros.
NARRADOR: O que?
NARRADOR: O sistema vai paralisar a mente dela.
NARRADOR: (espantado) Não!
NARRADOR: Sim.
(entram “cantores” de funk e começam a cantar e fazer a batida)
FUNKEIROS: SENTA, SENTA, SENTA, SENTA, SENTA, SEN-TA, SENTA,
SENTA, SENTA, SENTA, SENTA, SEN-TA. (Joãozinho e Mãe sentam e levantam
da cadeira num movimento mecânico como se estivessem em transe. No fim da
música, os funkeiros estalam os dedos e os tira do transe).
NARRADOR: E o que acontece?
NARRADOR: Nada.
NARRADOR: Nada?
NARRADOR: É, ela vai crescer como mais um adulto ignorante que não sabe lutar
pelos seus direitos, então não acontece nada.
NARRADOR: Não!
NARRADOR: Sim.
NARRADOR: E o que nós vamos fazer?
NARRADOR: Como assim o que nós vamos fazer? Nós já estamos fazendo, só que
não depende da gente somente.
NARRADOR: Depende de quem?
NARRADOR: Deles. (aponta para a plateia)
NARRADOR: E porque eles não lutam?
NARRADOR: Alguns lutam.
NARRADOR: E os outros?
NARRADOR: Se tornam Joões a vida.
NARRADOR: Por que Joões?
NARRADOR: Logo, logo vamos saber.

CENA 2
(Joãozinho está sentado fumando cigarro)
JOÃOZINHO: Quer um trago?
NARRADOR: Você não pode fumar, só tem 10 anos.
JOÃOZINHO: Claro que eu posso.
NARRADOR: E se eu disser que faz mal?
JOÃOZINHO: Aí eu paro.
NARRADOR: Seus amigos também fumam.
JOÃOZINHO: Então eu volto a cheirar cola.
NARRADOR: Metade dos seus amigos morreram cheirando cola.
JOÃOZINHO: Eu paro de cheirar cola e fumo maconha.
NARRADOR: Dá câncer.
JOÃOZINHO: Eu paro.
NARRADOR: Sua mãe foi presa.
JOÃOZINHO: Eu cheiro pó.
NARRADOR: O pó acabou.
JOÃOZINHO: Eu roubo e compro crack.
NARRADOR: Cadê seu pai?
JOÃOZINHO: Não sei quem é.
NARRADOR: Roubar é errado.
JOÃOZINHO: Eu sei.
NARRADOR: Por que não para?
JOÃOZINHO: Eu viajo.
NARRADOR: Para onde?
JOÃOZINHO: Lugar nenhum.
NARRADOR: Quem é você?
JOÃOZINHO: (sob os efeitos da droga) Não sei.
JUIZ: Culpado, culpado!
CENA 3
(João entra na sala para ser fazer entrevista)
ENTREVISTADOR(a): Qual é o seu nome?
JOÃO: João.
ENTREVISTADOR(a): Sabe word, windows, excel, powerpoint?
JOÃO: Não.
ENTREVISTADOR(a): Tem algum curso técnico?
JOÃO: Não.
ENTREVISTADOR(a): Fala inglês?
JOÃO: Não.
ENTREVISTADOR(a): Tem o ensino médio completo, o ensino superior ou pós
graduação?
JOÃO: Não, não, não.
ENTREVISTADOR(a): Então sai daqui seu merda, próximo!
JUIZ: Culpado! Culpado!
NARRADOR: Sabe por que ele não conseguiu o emprego?
NARRADOR: Porque não tinha preparação.
NARRADOR: Mas não foi só isso.
NARRADOR: Não?
NARRADOR: Não. Mesmo que ele tivesse preparo e experiência, não seria
contratado.
NARRADOR: Mas por que?
NARRADOR: Porque ele é negro.
NARRADOR: Como você sabe?
NARRADOR: O dono da empresa é racista.
NARRADOR: Sempre o preconceito.
NARRADOR: Mas existe uma série de preconceitos além desse.
NARRADOR: Eu sei. Dá até para fazer uma lista.
NARRADOR: Preconceito racial.
NARRADOR: Neguinho!
NARRADOR: Macaco!
NARRADOR: Preconceito religioso.
NARRADORES: AMÉM!
NARRADOR: Preconceito de escolha sexual.
NARRADOR: Eu sou gay.
NARRADOR: Eu te espanco.
NARRADOR: Eu sou nordestino.
NARRADOR: Mais alguém aí querendo apanhar?
NARRADOR: Preconceito.
NARRADOR: Pré-conceito.
NARRADOR: Opinião...
NARRADOR: Julgamento formado ou manifesto sobre pessoas ou fatos.
NARRADOR: Sem conhecimento prévio de nada.
NARRADORES: Geralmente sem reflexão.
NARRADOR: Mas e o emprego?
NARRADOR: Ele não conseguiu.
NARRADOR: E tentou de novo, certo?
NARRADOR: Tentou mas desistiu.
NARRADOR: Por que?
NARRADOR: Por causa do sistema.
NARRADOR: Sabia.
ENTREVISTADOR(A): Quantos anos?
NARRADOR: 18.
ENTREVISTADOR(A): Tem experiência?
NARRADOR: Não.
ENTREVISTADOR(A): Tchau. Próximo.
ENTREVISTADOR(A): (para a plateia) Tem experiência? Próximo.
ENTREVISTADOR(A):(para a plateia) E você, tem experiência? Próximo.
ENTREVISTADOR(A): (para a plateia) Tem experiência? Próximo.
ENTREVISTADOR(A): Tem experiência?
VELHO: Tenho e muita.
ENTREVISTADOR(A): Quantos anos?
VELHO: 60.
ENTREVISTADOR(A):Próximo.
VELHO: Mas por que, eu disse que tenho experiência.
ENTREVISTADOR(A): Problema de DNA.
VELHO: Problema de DNA?
ENTREVISTADOR(A): É. DNA. Data de Nascimento Antiga. Próximo.
NARRADOR: Viu. Assim não dá.
NARRADOR: Assim como?
NARRADOR: Como ele vai ter experiência com 18 anos se é o primeiro emprego
dele? E quando tem experiência, diz que é velho demais!

CENA 4
NARRADOR: Estamos esquecendo alguma coisa muito importante.
NARRADOR: Mas o que?
NARRADOR: Uma coisa que a sociedade odeia e tem nojo, uma sociedade
medíocre e ignorante, de muitos preconceitos, e esse é um dos mais importantes.
NARRADOR: Para de enrolação e fala logo, que diacho de preconceito é esse?
NARRADOR: Não vai ser eu que vou falar e demonstrar.
NARRADOR: Entao quem vai?
NARRADOR: Vai lá João.
CAFETÃO: Olá rapaz.
JOÃO: Olá.
CAFETÃO: Você é bonito e muito apanhado.
JOÃO: Isso eu já sei.
CAFETÃO: Qual é o seu nome?
JOÃO: João. Prazer!
CAFETÃO: Com prazer é mais caro. O que faz aqui?
JOÃO: Estou tentando arrumar um trabalho, onde eu possa ser explorado por essa
sociedade maravilhosa que eu amo do fundo do meu coração.
CAFETÃO: Trabalho é? Então venha trabalhar comigo.
JOÃO: Beleza!
CAFETÃO: Espero que você goste.
JOÃO: Vai logo, fala logo, o que tenho que fazer?
CAFETÃO: Bom, você tem que acompanhar homens e mulheres e depois tem que
trazer todo dinheiro aqui para mim.
JOÃO: Que máximo. Vou trabalhar do que?
CAFETÃO: Garoto de programa.
JOÃO: (espantado) Não acredito!
CAFETÃO: O que foi, não gostou?
JOÃO: Eu adorei, garoto de programa era tudo que eu sonhava.
CAFETÃO: Então você topa?
JOÃO: Se eu topo? Só se for agora.
CAFETÃO: Mas João, você sabe que vai estar correndo o perigo de pegar HIV.
JOÃO: Que maravilhoso!
CAFETÃO: Pegar qualquer doença sexualmente transmissível.
JOÃO: Melhor ainda.
CAFETÃO: Corre o perigo de ser humilhado e espancado por clientes.
JOÃO: Era tudo o que eu queria. (começa a chorar)
CAFETÃO: Mas João, porque você está chorando? Não era tudo que você queria?
JOÃO: Era, é que finalmente eu estou realizando meu grande sonho.
CAFETÃO: Ah, vem cá meu bebê, que eu vou te ensinar tudinho. (entrega cartão
para alguém da plateia e diz: -Me liga! Sai)
JUIZ: Culpado, culpado, porque você aceitou fazer isso?
NARRADOR: Nunca imaginei que o João fosse chegar a esse ponto.
NARRADOR: Que ponto?
NARRADOR: Vender o próprio corpo.
NARRADOR: Você ainda não viu nada.
NARRADOR: Como assim? Ainda não acabou?
NARRADOR: Não. O João ainda tem muito pra experimentar do que esta sociedade
maravilhosa está reservando para ele.
JUIZ: Culpado, culpado. Não podia ter feito isso.
CENA 5
SOCIEDADE: Prazer, sou a sociedade.
JOÃO: Prazer!
SOCIEDADE: Está ciente dos seus dreitos?
JOÃO: Não!
SOCIEDADE: Você tem direito à saúde, moradia, alimentação, transporte,
igualdade, emprego.
JOÃO: Tudo isso?
SOCIEDADE: Tudo. Certo?
JOÃO: Certo.
SOCIEDADE: Errado. Estamos no Brasil. Você não tem direito à saúde, moradia,
etc, etc, etc.
JOÃO: Não!
SOCIEDADE: Sim. Eu vou citar o que você realmente tem direito.
JOÃO: Agora?
SOCIEDADE: Já.
JOÃO: Mas eu não tinha direitos?
SOCIEDADE: Tinha. Mas não é o que acontece.
JOÃO: Droga!
SOCIEDADE: Está preparado?
JOÃO: Estou.
SOCIEDADE: Está ciente de que sofrerá discriminação?
JOÃO: Estou.
SOCIEDADE: Desemprego?
JOÃO: Estou.
SOCIEDADE: Fome, miséria e outras privações?
JOÃO: Estou.
SOCIEDADE: Então assine aqui, aqui e aqui.
JOÃO: Eu não sei escrever.
SOCIEDADE: Digital.
JOÃO: Em tudo isso?
SOCIEDADE: Burocracia meu caro! (vai saindo)
JOÃO: Aonde você vai?
SOCIEDADE: Tenho muitas coisas para não fazer e ler a desgraça de outros como
você.
JOÃO: E eu?
SOCIEDADE: Nem na desgraça há privilégios.
JOÃO: (faz gestos de fome e sai)
CENA 6
(Fome grotesca entra e corre atrás de João em cena cômica)
FOME: Oi, tudo bem?
JOÃO: Quem é você?
FOME: Prazer, sou a fome.
JOÃO: Cadê a sociedade?
FOME: Está escondida, mas me deixou aqui com você. Foi ela que me deu seu
endereço.
JOÃO: O que você faz aqui?
FOME: Sempre estive aqui.
JOÃO: Aqui onde?
FOME: Em você.
JOÃO: Em mim?
FOME: É. Só nunca me apresentei formalmente.
JOÃO: Trouxe algo para eu comer?
FOME: Não sou suicida.
JOÃO: Mas o que eu fiz?
FOME: Não se trata do que você fez.
JOÃO: Não?
FOME: Não. Se trata do que lhe fizeram e do que você não fez.
JOÃO: Você não vai embora?
FOME: Não. Prefiro dormir com você.
JOÃO: Então tudo bem.
FOME: (espantada) Tudo bem. Quer dizer que você aceita?
JOÃO: É claro.
FOME: Então fica comigo (ambos se abraçam, sorriem, cantam e dançam) Oh abre
alas, que eu quero passar, oh abre alas, que eu quero passar, oh abre alas que eu
quero passar. Fica comigo que a fome não vai passar.
JUIZ: Culpado, culpado, tem algo a dizer?
JOÃO: Eu...
JUIZ: Silêncio, ordem no tribunal!!!
CENA 7
(Velhinha com uma bolsa entra cruzando o palco)
JOÃO: Moça, vem aqui para eu te assaltar.
VELHA: Tá bom.
JOÃO: Passa a bolsa.
VELHA: Sim, claro, aqui está. (entrega a bolsa e vai saindo mas para) Por que?
JOÃO: Porque isso é um assalto.
VELHA: E se eu não desse a bolsa?
JOÃO: Eu te furaria.
VELHA: Você teria coragem?
JOÃO: Não, mas eu tenho que fingir que sim.
VELHA: Por que?
JOÃO: Porque se não você não daria a bolsa.
VELHA: Mas por que você faz isso?
JOÃO: Porque tenho uma nova hóspede em casa.
VELHA: Quem?
JOÃO: A fome.
VELHA: Obrigada pelos esclarecimentos. (grita e João foge) Socorro! Eu estou
sendo assaltada, pega ladrão!
NARRADOR: É, desta vez ele escapou.
NARRADOR: Dessa vez ele teve sorte.
NARRADOR: Da próxima, talvez, ele não tenha.
NARRADOR: É o preço que se paga pelo risco.

CENA 8
NARRADOR: Mas não acontece nada de legal com ele?
NARRADOR: Claro que acontece!
NARRADOR: Em que momento? Porque até agora eu só vi desgraça atrás de
desgraça.
NARRADOR: Teve um momento que foi o mais feliz da vida dele.
NARRADOR: Quando?
NARRADOR: Agora. (um dos narradores incorpora o papel de João)
JOÃO: Viva! Até que enfim.
NARRADOR: Por que você está tão feliz João?
JOÃO: Vai chover!
NARRADOR: E daí?
JOÃO: E daí que quando chove dá enchente.
NARRADOR: Sim, isso todo mundo já sabe, mas e daí?
JOÃO: Como assim e daí? Água por todos os lados, as pessoas gritando, as coisas
boiando na água, a maior animação.
NARRADOR: O que aquele helicóptero faz aqui?
JOÃO: Como o que? Ele vai filmar a festa, a enchente.
NARRADOR: Mas ainda não começou a chover.
JOÃO: Ah, mas se Deus quiser vai, e vai chover muito. Falou que ia chover na
metrobiologia. Você não assiste TV não? E é sempre a mesma coisa, choveu dá
enchente na certa.
NARRADOR: Então eles filmam antes?
JOÃO: Claro. Para depois colocar na TV, aquela coisa do antes e depois da enchente,
sabe?
NARRADOR: E porque dá essas enchentes?
JOÃO: (descascando papel de bala) Sei lá. Eu falo e faço o que todo mundo faz (joga
papel no chão)
NARRADOR: O que?
JOÃO: É culpa do governo.
NARRADOR: O lixo que você joga no chão não piora a situação?
JOÃO: Que nada! Dá até um toque especial. Ah, começou a chover!
NARRADOR: Cadê a sua casa?
JOÃO: (aponta) É aquela boiando ali.
NARRADOR: E você fica feliz?
JOÃO: É claro, nunca vida nada tão maravilhoso.
NARRADOR: É mesmo?
JOÃO: É. Posso te contar um segredo?
NARRADOR: Claro!
JOÃO: Eu nunca fui na praia.
NARRADOR: E o que é que tem?
JOÃO: Eu estou realizando um desejo de infância e nem preciso sair de casa. Se eu
não vou até a água, a água vem até mim.
NARRADOR: Você pode ficar doente.
JOÃO: Essa é a melhor parte.
NARRADOR: Como assim?
JOÃO: No hospital eles dão comida de graça.
NARRADOR: E a sua família?
JOÃO: É mesmo. Obrigado por lembrar (gritando) Mãe, eu estou aqui ó, na TV. Está
me vendo? Coraçãozinho para você! (faz gesto de coraçãozinho com a mão)
NARRADOR: Sua mãe não está presa?
JOÃO: Está. Oi manhê. Será que na prisão eles têm TV?
NARRADOR: Sem dúvida. TV, celulares, churrasco e muito mais.
JOÃO: Que bom. Porque se não, não ia adiantar de nada eu ficar aqui me esgoelando
se minha mão não me ver.
NARRADOR: Tem razão.
JOÃO: Pena que não tem sol.
NARRADOR: Sol para que?
JOÃO: Já viu praia sem sol?
NARRADOR: Meu Deus do céu!
JOÃO: Droga!
NARRADOR: O que foi?
JOÃO: A enchente levou minha TV e agora eu não vou poder assistir o meu
programa predileto.
NARRADOR: E que programa é esse?
JOÃO: (cantando e dançando) Peito e bunda (3x)
NARRADOR: Mas só passa isso na TV?
JOÃO: É claro que não. Também passa o bunda e peitos, grandes peitos, mexendo a
bunda e bundas maduras.
NARRADOR: E a sua casa?
JOÃO: Está boiando.
NARRADOR: E agora, para onde você vai?
JOÃO: Para um alojamento.
NARRADOR: Alojamento?
JOÃO: Claro, quando as pessoas perdem as casas, vão para lá. Não é demais?
NARRADOR: E você fica feliz?
JOÃO: Claro. Lá a gente não paga água, luz, e ainda come de graça.
NARRADOR: (preocupado) Mas e a sua casa?
JOÃO: Aquele barraco velho? Tenho certeza que o alojamento é bem melhor. Lá eu
posso fazer novas amizades e quem sabe até arrumar uma namorada. (desfaz
personagem João)
NARRADOR: Calma aí. Por que ele faz isso?
NARRADOR: Quando tudo vai de mal a pior, o remédio é rir para não chorar.
Infelizmente, às vezes o ser humano se acostuma com o pior, quando deveria saber
que pode tanto.
JUIZ: Culpado. Você não podia ter feito isso. Culpado.

CENA 9
REPÓRTER: Não, assim não dá para gravar. Pinta um pouco a cara dele para
parecer bem sujo (maquiadora pinta). Isso. Agora sim está bem com cara de pobre
mesmo.
REPÓRTER: Pronto. Agora fica assim João (posiciona) Mas assim não João. Faz
cara de bem triste. Muito triste. (João obedece). Isso, assim. Agora podemos começar
a gravar.
REPÓRTER: Estamos aqui ao vivo no alojamento onde estão as vítimas da enchente
e desabamento e com a gente está o João, que é mais uma vítima dessa desgraça.
JOÃO: Desgraça nada. Isso é uma maravilha.
REPÓRTER: Mas você não acha que isso é um descaso com você?
JOÃO: Que nada! Eu acho isso uma maravilha. Tomara que aconteça todos os dias.
REPÓRTER: Porque você está tão feliz feliz com essa desgraça, João?
JOÃO: Olha só, seu repórter, eu não preciso pagar água, luz, tem comida de graça. É
a coisa mais maravilhosa que aconteceu comigo. Depois desta enchente é que eu
consegui um grande amigo.
REPÓRTER: Amigo?
JOÃO: É, ele se chama boia.
REPÓRTER: Por que boia?
JOÃO: Depois da enchente da semana passada, o meu outro cachorro morreu. Se
esse aqui não boia, não estaria vivo até hoje e eu não teria adotado ele, coitadinho.
REPÓRTER: Mas onde vocês vão morar?
JOÃO: Aqui mesmo.
REPÓRTER: Mas como?
JOÃO: Aqui eu tenho tudo de graça.
REPÓRTER: João, aqui não pode. Esse alojamento é temporário.
JOÃO: Eu sei.
REPÓRTER: E então?
JOÃO: E então o que? Você acha que eu vou perder essa mordomia? (pausa) Eu
posso fazer um pedido?
REPÓRTER: Pode.
JOÃO: Eu gostaria de mandar um beijo para a minha mãe que está naquela mansão
espetacular.
REPÓRTER: A sua mãe é rica?
JOÃO: Não. Ela está naquela maravilha de cadeia. Você precisa ver como é lá
dentro. Uma vez eu entrei e não quis mais sair. Tiveram até que me empurrar para
fora, senão eu ficava eu por lá mesmo. Então é isso seu repórter, um beijo para minha
mãe, um beijo para o Brasil, esse país que eu amo tanto e um beijo especial para
você. (beija repórter)
REPÓRTER: (limpando o beijo com nojo) Obrigado pela participação Sr. João.
JOÃO: Qualquer problema ou desgraça maravilhosa que acontecer é só me chamar.
NARRADOR: Então é assim que acontece?
NARRADOR: Claro. A mídia e algumas pessoas transformam a desgraça em uma
coisa banal, até que se torne algo natural.
NARRADOR: E onde está o senso de humanidade?
NARRADOR: Boa parte dela foi junto com a enchente.
NARRADOR: A desgraça vai se tornando um grande mercado de trabalho.
NARRADOR: É gente filmando desgraça e gente querendo ver desgraça.
NARRADOR: É gente prometendo que acaba com a desgraça.
NARRADOR: E se ele não for um bom prefeito, nunca mais vote em mim.
NARRADOR: E a solução é como a lei.
NARRADOR: Nunca funciona.
NARRADOR: É medida provisória para isso.
NARRADOR: É medida provisória para aquilo.
NARRADOR: É medida provisória para melhorar a medida provisória.
NARRADOR: É levando as coisas na base do improviso...
NARRADOR: Para não encarar o público de frente.
NARRADOR: A solução que é bom...
NARRADOR: Nada.
NARRADOR: É melhor esperar sentado. (sentam)
NARRADORES: Porque de pé cansa.
NARRADOR: Mas uma das maiores desgraças que pode ocorrer no mundo é a
guerra.
NARRADOR: Hoje em dia virou moda fazer guerra.
NARRADOR: Arrumam qualquer motivo para fazer guerra.
NARRADOR: É guerra por dinheiro.
NARRADOR: É guerra por petróleo.
NARRADOR: É guerra em nome de Deus.
NARRADORES: Ó meu Deus. Ajudai a matar o meu semelhante.
NARRADOR: Onde diz isso na bíblia ou em qualquer religião?
NARRADOR: Em lugar nenhum.
NARRADOR: Pois é.
NARRADOR: Os motivos são os mais absurdos possíveis.
NARRADOR: Você roubou meu sanduíche.
NARRADORES: Guerra, guerra!
NARRADOR: Sua cor é diferente da minha.
NARRADORES: Guerra, guerra!
NARRADOR: Eu sou líder de uma país e não tenho nada para fazer.
NARRADORES: Guerra, guerra!
NARRADOR: Esse meio metro de terra é meu.
NARRADOR: Nada disso, é meu.
NARRADORES: Guerra, guerra!
NARRADOR: Soltei um pum.
NARRADORES: Guerra, guerra!
NARRADOR: Os motivos para se fazer uma guerra variam ao infinito.
NARRADOR: É a falta de compaixão.
NARRADORES: Quero tudo só para mim, quero tudo só para mim.
NARRADOR: Culpado, culpado. Como você pôde, como você pôde.
NARRADOR: As desgraças generalizadas normalmente vêm de pequenas desgraças.
NARRADOR: Desgraças do dia a dia.
NARRADOR: Ali na esquina.
NARRADOR: Em casa.
NARRADOR: Com o vizinho.
NARRADOR: Em qualquer lugar.
NARRADOR: E tudo por causa de dois males que andam de mãos dadas.
NARRADOR: Intolerância
NARRADOR: Egoísmo (dão as mãos)
NARRADOR: A lei é cada um por si e salve-se quem puder.
NARRADOR: É um por ele mesmo e os outros por eles mesmos.
NARRADOR: Aquela história do um por todos e todos por um não tem vez.
NARRADOR: É olho por olho e dente por dente.
NARRADOR: Em vez de quer um pedaço?
NARRADOR: Me dá que é tudo meu.
NARRADOR: Sou eu, eu, sempre eu.
NARRADOR: É meu, meu, sempre meu.
NARRADOR: Cada um com seus problemas.
NARRADOR: Cada macaco no seu galho.
NARRADOR: Que aqui só tem frutas para mim.
CENA 10
NARRADOR: Bom dia!
VELHO RANZINZA: Bom dia por que? O que é que tem de bom? Ganhou na
loteria? E o que eu tenho a ver com isso? Eu não estou ganhando nada.
NARRADOR: Não, não é isso.
VELHO RANZINZA: Bom para você que ganhou e eu, e eu? Eu nem te conheço.
NARRADOR: Que é isso Senhor?
VELHO RANZINZA: O que é isso mesmo. Não sei porque fico perdendo meu
tempo com gente que fica dando bom dia para todo mundo. Mal passa uma pessoa e
já arreganha os dentes. Eu tenho mais o que fazer.
NARRADOR: Passar bem.
VELHO RANZINZA: E você passe mal, muito mal.
NARRADOR: Nossa! Foi só um bom dia.
NARRADOR: Ou então...
NARRADOR: Bom dia.
VELHO RANZINZA: (de mau humor) Bom dia.
NARRADOR: Um bom dia desses é pior do que “meus pêsames”.
NARRADOR: A boca diz bom dia mas a mente diz – Morra!
NARRADOR: Muitas vezes...
NARRADOR: É economizando um bom dia...
NARRADOR: Para garantir um: - Vai trabalhar seu vagabundo! Para um mendigo
sem ter o que comer.
NARRADOR: Mas há pessoas boas também.
NARRADOR: Pena que são poucas em relação às más.
NARRADOR: É como se as pessoas boas estivessem em extinção.
NARRADOR: A intolerância gera violência.
NARRADOR: A violência gera mais violência.
PESSOA 1: Cadê meu troco?
PESSOA 2: Não tenho.
PESSOA 1: Morra (atira)
PESSOA 1: Isso está muito caro.
PESSOA 2: E o que você vai fazer? Vai chamar a sua mãe?
PESSOA 1: (atira)
PESSOA 2: Filho da... (o outro atira antes da pessoa 2 terminar de falar)
PESSOA 2: Não... (idem)
PESSOA 2: Me... (idem)
PESSOA 2: Mate... (idem)
PESSOA 2: Por... (idem)
PESSOA 2: Favor... (idem)
PESSOA 1: (pára de atirar)
PESSOA 2: Como você é bonzinho. Parou de atirar.
PESSOA 1: Bonzinho nada. Acabaram as balas.
JUIZ: Você é totalmente culpado, algo a declarar? (antes da pessoa 2 falar o juiz
interompe) Totalmente culpado!!!
NARRADOR: E nunca se tem culpa de nada.
NARRADOR: Eu nunca erro. Eu sou perfeito.
NARRADOR: Ao invés de melhorar os próprios erros, só se vê contradições.
VIZINHA 1: Menina, tenho que te contar um babado.
VIZINHA 2: Que babado é esse, minha filha?
VIZINHA 1: Está muito interessada hein?
VIZINHA 2: Imagina, vê lá se eu sou mulher de me meter na vida dos outros.
(olham-se cúmplices) Tá, fala logo vai.
VIZINHA 1: Não que eu seja fofoqueira, longe de mim, mas como aquela mulher é
fofoqueira!
VIZINHA 2: Que mulher?
VIZINHA 1: Aquela vizinha nova.
VIZINHA 2: É mesmo?
VIZINHA 1: Minha filha, a mulher tem uma língua desgraçada.
VIZINHA 2: Nossa, que horror!
VIZINHA 1: Nem a mãe dela escapa. Fala mal até da própria mãe, menina.
VIZINHA 2: Que coisa horrível! Essa daí quando morrer vai precisar de dois
caixões, um para ela e outro só para a língua.
VIZINHA 1: Tem outra coisa.
VIZINHA 2: Que coisa?
VIZINHA 1: Sabe a minha mãe?
VIZINHA 2: Sei.
VIZINHA 1: Pois é minha filha, não que eu seja fofoqueira, longe de mim. Mas
acredita que aquela sem-vergonha me pediu dinheiro emprestado?
VIZINHA 2: (com cara de espanto) Não. De novo?
VIZINHA 1: Verdade.
VIZINHAS 1 e 2: Abafa o caso, ui, ninguém me viu.
NARRADOR: E de contradição em contradição vai se fazendo o que se diz
abominar.
NARRADOR: Até onde isso vai?
NARRADOR: Quem sabe.
NARRADOR: Notícia importante: há vários meios de se morrer na cidade de São
Paulo.
NARRADOR: Bala perdida.
NARRADOR: Assalto ou no trânsito.
NARRADOR: Sequestro relâmpago.
NARRADOR: Más “amizades”. Porém três fatores podem ajudar e muito em uma
morte rápida.
NARRADOR: 1º ser homossexual
NARRADOR: 2º ser negro
NARRADOR: 3º ser nordestino
NARRADOR: Estando em qualquer um dos três grupos, o risco de ser morto por
policiais corruptos, bandidos ou grupos neo-nazistas...
NARRADOR: Neo-babacas...
NARRADOR: Aumenta consideravelmente.
NARRADOR: E se a pessoa fizer parte dos três grupos...
NARRADOR: O risco triplica.
APRESENTADOR 1: Você, telespectador, ligue e dê sua opinião.
APRESENTADOR 2: Se você acha que uma pessoa que faz parte dos três grupos
consegue viver na cidade de São Paulo e atingir uma perspectiva de vida acima dos
30 anos, ligue para 0800-00000.
APRESENTADOR 1: Mas se você acha que uma pessoa que faz parte dos três
grupos não consegue viver até os 30 anos, ligue para 0800-00001.
APRESENTADOR 2: Se você quiser tentar ligar, tudo bem.
APRESENTADOR 1: Duvido que consiga.
APRESENTADOR 2: As linhas de telefone de todo o Brasil vão estar ocupadas...
APRESENTADOR 1: Por políticos corruptos tentando negociar com traficantes.
APRESENTADOR 2: Ou armando esquemas de propina.

CENA 11
CANDIDATO: Meu povo querido!!! Vote em mim para prefeito. Apocalíptico 666.
JOÃO: (povo acompanha as intervenções de João). Aehhh!
CANDIDATO: Se vocês votarem em mim eu prometo.
JOÃO: Muito bom. Maravilhoso!!!
CANDIDATO: Eu promento melhorar as enchentes.
JOÃO: Que da hora! Que da hora!
CANDIDATO: Se eu ganhar como prefeito, as enchentes terão muito mais lixo.
JOÃO: Eu te amo, eu te amo. Você é o prefeito que nós precisa.
CANDIDATO: Não acabou ainda não.
JOÃO: Não?
CANDIDATO: Se eu for prefeito meu povo e minha pova, melhorarei a violência.
Com o meu projeto arma na mão, morte na certa, todos terão armas. Com esse
projeto, todos poderão se matar. E assim, ninguém, ouçam bem, ninguém ficará em
desvantagem. Podem se matar à vontade.
JOÃO: Muito bom. Muito bom.
CANDIDATO: Com esse meu projeto para melhorar a violência eu matarei a fome.
Vocês acreditam ou não?
JOÃO: Eu acredito! Eu acredito! Eu acredito em qualquer coisa que você disser.
CANDIDATO: Porque se todos vão ter armas fica fácil. Sim ou não?
JOÃO: Sim!
CANDIDATO: Quando estiverem com fome é só se matarem. Porque se temos um
problema, é só matá-lo pela raiz. Com isso, as pessoas se matando aos montes,
também acabamos com o problema da superpopulação. Esse meu projeto para acabar
com a fome chama-se fome zero a qualquer custo e iso é ótimo, porque não vai custar
nada para mim.
JOÃO: (canta) Bravo, eu adorei, você é o prefeito que eu sempre sonhei.
CANDIDATO: Não pensem vocês que eu esqueci do mais importante: A saúde.
Como minha avó dizia: sem saúde não se tem nada. Por isso eu criei na área da saúde,
o projeto envenena São Paulo. O projeto é belo pela sua simplicidade. Mandarei
fabricar ao invés de remédios que vendem nas farmácias, veneno, que terá
distribuição gratuita. Você toma o veneno, morre e não enche mais o … quer dizer, e
acaba de vez com o problema. Não se ouvirá, ouçam bem, não se ouvirá em nenhum
hospital, alguém reclamar de dor.
JOÃO: E quanto vai custar esse veneno?
CANDIDATO: Um valor simbólico de R$1.200,00 reais. E para vocês não dizerem
que eu sou desonesto, se a pessoa não morrer dentro de 24 horas eu devolvo o
dinheiro. Pleo menos 50% dele. Mas não vale o morto se arrepender depois.
JOÃO: Bravo! Eu nunca vi um projeto que nem esse. Já ganhou, já ganhou, já
ganhou.
CANDIDATO: Tenho também o projeto: “Nessa ponte eu morarei”. É um projeto
habitacional para melhorar a vida daqueles que não tem onde morar. O projeto é
simples. Pintarei todas as pontes da cidade para que quando todos estiverem morando
debaixo das pontes, possam se orgulhar do lar que tem.
JOÃO: Uh, eu quero uma. Uh, eu quero uma.
CANDIDATO: Outro problema gravíssimo é o desemprego. Foi pensando nisso que
escrevi o pojeto criança feliz. Tem muita gente vagabundando pelas ruas dizendo que
é menor de idade. Com o meu projeto, as crianças acima dos 2 anos de idade terão
que trabalhar no mínimo 12 horas por dia, ganhando um excelente salário mínimo.
Mas o pagamento será feito para os pais, para evitarmos que o empregado gaste todo
o salário em doces.
JOÃO: E vai ter emprego para todo mundo?
CANDIDATO: Bem. Isso já não é problema meu.
JOÃO: E o transporte?
CANDIDATO: Bem lembrado, caro eleitor. Tenho também um excelente projeto
para a área dos transportes. O projeto se chama coração de mãe: sempre cabe mais
um. Para deixar o transporte mais humano. Tenho visto que as pessoas estão cada vez
mais ranzinzas. Você olha as pessoas indo trabalhar naqueles ônibus e metrôs
praticamente vazios e estão todas com cara de cansadas, emburradas, ninguém
conversa com ninguém. Gente, mais amor, por favor. A ideia do projeto é
sensacional: Serão tirados todos os assentos, cadeiras dos ônibus, micro-ônibus, trens
e metrôs, obrigando assim, que todos tenham mais contato uns com os outros,
acabando de vez com essa falta de união e amor ao próximo.
JOÃO: Mas já tem vários ônibus com poucas cadeiras.
CANDIDATO: Infelizmente alguns candidatos invejosos souberam da minha ideia e
começaram a colocar em prática. Fazer o que, projeto bom é assim mesmo, onde
passa vira moda.
JOÃO: Candidato, você já ganhou, tem os projetos que o povo sempre sonhou.
Candidato, você já ganhou, tem os projetos que o povo sempre sonhou.
CANDIDATO: Obrigado, obrigado. Bem, vou-me já.
JOÃO: Não vai embora não, fica mais. Mais um, mais um, mais um.
CANDIDATO: Eu sei que são milhares os pedidos para que eu fique, mas eu vou!
Vote em mim. Nas urnas, lembre-se e vote direito: 666 apocalítico para prefeito.
JOÃO: Eu votarei! Eu votarei!
CENA 12

JUIZ: Culpado! Culpado!


JOÃO: Culpado por que, eu não aguento mais. A peça inteira você está falando
(imita) culpado, culpado. Culpado do que?
JUIZ: Você sabe. Você sempre soube, mas prefere fingir.
JOÃO: Eu não sei de nada.
JUIZ: Sabe sim, você sabe o que você fez.
JOÃO: Eu não fiz nada e não vou pagar pelo que eu não fiz.
JUIZ: Claro que vai.
JOÃO: Como assim?
JUIZ: Vai ter que pagar pelo que você não fez.
JOÃO: Então não é o que eu fiz? (pensativo)
JUIZ: Sim e não.
JOÃO: Então eu não sei o que é.
JUIZ: Sabe sim, mas você prefere não saber.
JOÃO: Saber o que?
JUIZ: Que devia ter lutado quando a sociedade o oprimia, lutado quando a fome
veio, quando a enchente levou seus sonhos, quando o pré-conceito surgiu, acabando
com as suas esperanças, quando a violência te maltratou.
JOÃO: Fingi, fingi sim. Fingi para sobreviver, porque daquele jeito não dava. Eu vi
minha vida se desmoronando e vi que a dor era maior do que eu realmente podia
resistir. Não tive outra opção a não ser aceitar o que a sociedade me obrigava a
aceitar.
JUIZ: Mas você sabia que podia lutar contra tudo isso, não sabia?
JOÃO: Sabia. Mas eu não encontrava forças para lutar.
JUIZ: Mas a força está dentro de você. Só você tem o poder de transformar. Mas
você preferiu ser fantoche da sociedade. Só é derrotado quem para de lutar.
JOÃO: Quem é você?
JUIZ: Eu sou o juiz, mensageiro da morte e vim te buscar.
JOÃO: Mas por que?
JUIZ: Por ter aceitado tudo e não ter lutado.
JOÃO: Não. Me dê mais uma chance, eu prometo mudar.
JUIZ: E se você fizer o mesmo outra vez?
JOÃO: Não. Agora eu entendi o erro que cometi. Mais uma chance eu lhe peço. Eu
mostrarei que sou capaz de transformar.
JUIZ: Como você vai fazer isso?
JOÃO: Mostrando para as outras pessoas que erraram e que erram, assim como eu,
que devemos lutar pelo que é nosso de direito.
NARRADOR: E o que aconteceu com o João?
NARRADOR: Não conseguiu cumprir com o prometido e morreu.
NARRADOR: Como assim, morreu?
NARRADOR: Morreu, partiu desta para melhor, vestiu o paletó de prego, desviveu,
virou presunto, acordou com a boca cheia de formiga, apertou a mão de São Pedro,
sabe? Morreu.
NARRADOR: Você está de brincadeira que todos nós esperamos a peça inteira para
você vir dizer que nosso João morreu.
NARRADOR: E que outro alternativa nós teríamos para mudar esse trágico fim?
NARRADOR: Eu vou te mostrar. Sempre é tempo de ter um final feliz. (entra
música da legião urbana e todos cantam junto).

E nossa história, não estará, pelo avesso assim, sem final feliz, teremos coisas bonitas
para contar. E até lá, vamos viver, temos muito ainda por fazer. Não olhes para trás,
apenas começamos. O mundo começa agora. Ah, ah ah. Apenas começamos.
(música continua tocando de fundo enquanto narradores seguem a narrativa).

NARRADOR: Alguém ajudou João a perceber que sua vida ia de mal a pior e ele
decidiu não ignorar o que lhe acontecia, entendeu que muita coisa estava errada, que
nunca é tarde para mudar e que precisava ter uma vida melhor.
NARRADOR: João começou a gostar de si mesmo e pensou que sua vida não era
pequena, sua vida tinha o tamanho que ele permitia que ela tivesse e decidiu que a
partir daquele momento, ela tinha muita importância.
NARRADOR: João parou de sempre se sentir como vítima e compreendeu que sua
vida estava em suas mãos, independentemente das circunstâncias.
NARRADOR: João então decidiu reagir. Começou a estudar com afinco e percebeu
que antes era um mero passageiro que se deixava guiar rumo ao desfiladeiro, se
levantou e começou a guiar sua vida rumo à felicidade.
NARRADOR: Ele se formou, conseguiu um excelente emprego, comprou uma bela
casa e sua mãe ficou emocionada ao ver como seu único filho presava pelo seu bem
estar e por ter um relacionamento tão harmonioso e amoroso com ela, que nunca pode
dar ao filho a vida que ela queria.
NARRADOR: Agora que João tinha a vida que realmente sempre sonhou, entendeu
que precisava ajudar outras pessoas como ele, que se acomodaram e se contentaram
com qualquer coisa que a vida e a sociedade as oferecia.
NARRADOR: João começou a dar palestras e com elas, conseguiu mudar e muito a
forma distorcida de como as pessoas viam suas próprias vidas e elas também
começaram a tomas as rédeas de suas histórias.
NARRADOR: João se casou, teve dois filhos e os ensinou desde cedo o que era ter
uma vida plena e de sucesso.
NARRADOR: João passou de vítima a transformador.
NARRADOR: Passou de coadjuvante a ator principal.
NARRADOR: João reescreveu a sua história.
NARRADOR: E nessa nova história tinha espaço para um final feliz.
NARRADORES: E ESSA FOU UMA PEQUENA VIDA DE UMA GRANDE
METRÓPOLE.

FIM

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