Você está na página 1de 3

SÍNDROME ICTERÍCIA EM GATOS: REVISÃO

DE LITERATURA E RELATO DE CASO.


Thaiza Helena Tavares Fernandes¹*; Maurina Lima Porto² ; Geyanna Dolores Lopes Nunes¹ ; Fabrícia Geovânia
Fernandes Filgueira¹ ; Rosileide dos Santos Carneiro ³ ; Paulo Vinícius Tertuliano Marinho ² ; Angélica Ramalho de
Araújo Leite ² e Marcella Luiz de Figueiredo¹.

Introdução sangue infectado, mas não pela urina ou soro, nem por
excreções corporais. A sintomatologia cursa com anemia
A icterícia caracteriza-se pelo acúmulo de bilirrubina
aguda ou crônica, palidez, perda de peso, anorexia,
no plasma e nos tecidos e com isso conseqüente
esplenomegalia e icterícia [1].
coloração amarela da esclera, da pele e das mucosas. É
O trematódeo Platynosomum spp. é o agente responsável
uma anormalidade freqüente em cães e gatos com
pela platinosomíase, doença hepática dos gatos, que
doenças hepáticas, acometendo cerca de 20% dos cães
necessita de três hospedeiros intermediários para sua
e de 30% a 40% dos gatos [1].
evolução, como: caramujos, crustáceos isópodes terrestres
A Lipidose hepática (LH), Complexo colângio-
e rãs ou lagartos. Este parasita causa obstrução biliar extra-
hepatite (CH), Tríade felina e Micoplasmose são as
hepática, e animal pode exibir sinais clínicos de anorexia,
principais causas de icterícia em pacientes felinos [2].
letargia, vômitos, diarréia, icterícia, cirrose, colangite e
A lipidose hepática atinge gatos aparentemente
colangio-hepatite [6].
sadios, ocorrendo quando o número de lipídios que se
O presente trabalho objetivou relatar o caso de um felino
movimenta em direção ao fígado se torna superior ao
doméstico com icterícia, bem como a importância de uma
número de lipídios que deixam o fígado, por meio da
abordagem diagnóstica correta.
formação de lipoproteínas de muito baixa densidade,
ou pela oxidação. Os animais apresentam anorexia,
perda de peso, icterícia, depressão e vômitos [3]. Material e métodos
Complexo colangio-hepatite (CH) é a segunda causa
Um animal da espécie felina, sem raça definida (SRD),
mais freqüente de doença hepática em felinos,
fêmea, com 15 anos e oito meses de idade, pesando 3,2 kg,
consistindo em inflamação dos ductos biliares e do
foi atendido no Hospital Veterinário do Campus de Saúde e
parênquima hepático circunjacente. A evolução aguda
Tecnologia Rural (CSTR) da Universidade Federal de
ocorre devido infecção bacteriana ascendente por
Campina Grande (UFCG, Patos/PB), apresentando queixa
microrganismos pertencentes à flora comensal do trato
de inapetência há alguns dias, dor na região abdominal e
gastrintestinal, na qual provocam inflamação peribiliar
pequeno nódulo na mama abdominal caudal esquerda. A
e fibrose hepática induzida por citocinas. Os sinais
proprietária relatou que há três dias o animal não se
predominantes são anorexia, letargia, perda de peso,
alimentava, vomitando várias vezes por dia, não
êmese, desidratação, febre e icterícia [4].
apresentando diarréia ou alterações na urina.
A Tríade felina acomete simultaneamente o intestino
O paciente foi submetido ao exame físico de rotina e
delgado (doença inflamatória intestinal), pâncreas
frente aos sinais encontrados, solicitaram-se hemograma
(pancreatite linfocítica) e fígado (doença inflamatória
completo, bioquímica sérica, radiografia do tórax e
hepática). Ela ocorre devido à disposição anatômica do
abdômen, ultrassonografia do abdomên e biópsia hepática.
ducto biliar e dos ductos pancreáticos, que no gato, ao
Logo após iniciou-se o tratamento com ampicilina
contrário das outras espécies, se anastomosam ao se
(20mg/kg, 8/8hs) como antibioticoterapia, cimetidina
aproximarem da parede duodenal. As manifestações
(5mg/kg, 12/12hs), cloridrato de metoclopramida
clínicas são: letargia, inapetência, desidratação, êmese,
(0,5mg/kg, 12/12hs) para efeito antiémetico, fluidoterapia
diarréia, perda de peso, icterícia e febre [2].
com solução fisiológica NaCl 0,9% para corrigir hidratação
A Micoplasmose felina, também conhecida como
e suporte nutricional parenteral. Após 14 dias, houve
anemia infecciosa felina, é causada por uma ricketsia,
melhora significativa do quadro clínico, onde as mucosas
Mycoplasma haemofelis, anteriormente conhecida
não mais se encontravam ictéricas, e o animal recebeu alta,
como Haemobartonella felis [5]. È um parasita
continuando o tratamento em domicílio. Transcorridos
microscópico que invade as células vermelhas do
alguns meses, o animal veio à óbito decorrente de neoplasia
sangue, causando sua destruição. Ele é transmitido pelo
mamária metastática e síndrome paraneoplásica.

________________
1. Thaiza Helena Tavares Fernandes, Geyanna Dolores Lopes Nunes e Fabrícia Geovânia Fernandes Filgueira são médicas veterinárias residentes do
Programa de Aperfeiçoamento em Medicina Veterinária da Universidade Federal de Campina Grande no Campus de Saúde e Tecnologia Rural.
Endereço: Avenida Universitária s/n, Bairro Santa Cecília, Patos, PB, CEP: 58708-110. E-mail: thaizavet@gmail.com;
2. Mauria e Paulo Vinícius Tertuliano Marinho são alunos de graduação do curso de medicina veterinária da Universidade Federal de Campina
Grande no Campus de Saúde e Tecnologia Rural. Endereço: Avenida Universitária s/n, Bairro Santa Cecília, Patos, PB, CEP: 58708-110.
3. Rosileide dos Santos Carneiro é médica veterinária do Hospital Veterinário da Universidade Federal de Campina Grande no Campus de Saúde e
Tecnologia Rural. Endereço: Avenida Universitária s/n, Bairro Santa Cecília, Patos, PB, CEP: 58708-110.
histopatológica de amostras por biópsia hepática. A análise
Resultados e discussão histopatológica do fígado revelou vacuolização de
citoplasma dos hepatócitos, difusos e acentuados, necrose
A icterícia é uma clara indicação de doenças
individual de hepatócitos e colestase biliar, o que condiz
hepatobiliares, e os gatos tendem a apresentar ela com
com o diagnóstico de lipidose hepática descrito por Bunch
mais freqüência do que os cães, porém, em ambas as
[7] e Dimsky [9].
espécies, ocorreu em apenas 10% a 30% dos casos de
Dessa forma, pode-se concluir que é importante a
doenças hepatobiliares [1]. Segundo Barbero [3], gatos
realização de uma série de exames complementares em
de qualquer idade ou raça podem ser acometidos pela
gatos com icterícia, para assim chegar a um diagnóstico
lipidose hepática e a maior incidência é em fêmeas, o
correto. Nesse relato, o animal apresentava como causa da
que concorda com este relato.
icterícia a lipidose hepática idiopática.
O felino descrito neste relato apresentava-se com
icterícia, vômito várias vezes ao dia, dor abdominal e
emagrecimento progressivo, que conforme Sampaio [6] Referências
esses sinais clínicos são consistentes com doença [1] ETTINGER, S. J; FELDMAN, E. C. Tratado de Medicina Interna
hepática difusa em gatos. O quadro clínico manifestado Veterinária – Doenças do Cão e do Gato. 5 ed. Rio de Janeiro:
Guanabara Koogan, 2004, v1 e v2 p. . 218, 1346.
por essa espécie com síndrome icterícia não é [2] OLIVEIRA, R. A.; DANIEL, A. G. T.; RECHE JÚNIOR, A.
específico e pode ocorrer em diversas doenças que Síndrome icterícia em gatos: revisão de literatura e estudo retrospectivo.
provocam icterícia pré-hepática, hepática ou pós- Nosso Clínico. Ano 11, n. 63. p.44-51. 2008.
hepática [6]. No entanto, no estudo retrospectivo de [3] BARBERO,C.C. Lipidose hepática. 52p. (Trabalho deconclusão de
curso) Universidade Castelo Branco, Rio de Janeiro, 2006.
Oliveira, Daniel & Reche Júnior [2], observou-se que a [4] SILVA ILHA, M. R; LORETTI; A. P; BARROS, C. S.
lipidose hepática foi a doença hepática mais comum L;MAZZANTI, A; BREITSAMETER, I. Cirrose biliar em felinos
entre os gatos ictéricos. associada à ectasia do ducto cístico e desvios portossistêmicos extra-
O exame hematológico revelou anemia microcítica hepáticos. Revista Ciência Rural. v.34, n.4, p.1147-1153, jul-ago, Santa
Maria 2004.
hipocrômica, com hematócrito de 18%, plasma ictérico
[5] TANENO, J. C; SACCO, S. R. Micoplasmose Felina: Relato de Caso.
e hemolisado. A bioquímica sérica mostrou as enzimas Revista Científica Eletrônica De Medicina Veterinária. v.7, n.12, janeiro
hepáticas elevadas (ALT - alanina amino transferase e 2009.
FA- fosfatase alcalina) e, uréia e creatinina com valores [6] SAMPAIO, M. A. S.; BERLIM, C. M; ANGELIM, A. J. G. L;
dentro dos padrões normais para a espécie. De acordo GONDIM, L. F. P; ALMEIDA, M. A. O. Infecção natural pelo
Platynosomum Looss 1907, em gato no município de Salvador, Bahia.
com Bunch [7], os achados laboratoriais são Revista Brasileira Saúde Produção Animal. v.7, n.1, p. 01-06, 2006.
inspecíficos, destacando a anemia de discreta a [7] BUNCH, S. E. Distúrbios hepáticos agudos e sistêmicos que
moderada, alterações na leucometria compatíveis com acomentem o fígado. In: Ettinger, S. J. e Feldman, E. C. Tratado de
estresse, e aumento da atividade sérica das enzimas Medicina Interna Veterinária – Doenças do Cão e do Gato. 5 ed. Rio de
Janeiro: Guanabara Koogan, 2004. 1398-1413 Cap. 144. v.2.
hepáticas. [8] PENNINCK, D.; BERRY, C. Liver imaging in the cat. Seminars in
A radiografia e ultrassonografia são os métodos mais Veterinay Medicine and Surgery (Small Animal). v. 12, n. 1, p. 10-21,
comuns usados para analisar as mudanças morfológicas fev., 1997.
dos gatos [8]. Nas radiografias realizadas não foram [9] DIMSKI, D.S. Feline hepatic lipidosis. Seminars in Veterinay
Medicine and Surgery (Small Animal). v. 12, n. 1, p. 28-33, fev., 1997.
observadas alterações, mas foram úteis porque de [10] YEAGER, A. E. ; MOHAMMED, H. Accuracy of ultrasonography
acordo com Dimski [9] elas ajudam a excluir outras in the detecrion of severe hepatic lipidosis in cats. American Journal of
doenças que podem estar associadas com a lipidose Veterinary Research. v.32, n.4, p.597-599, 1992.
hepática. [11] CENTER, S. A.; CRAWFORD, M. A.; GUIDA, L.; ERB, H. N.;
KING, J. A retrospective study of 77 cats with severy hepatic
Já a ultrassonografia mostrou apenas um aumento na lipidosis: 1975 – 1990. Journal of Veterinary Internal Medicine. v. 7,
hiperecogenicidade do parênquima hepático, o que p.349–59, 1993.
corrobora com Yeager & Mohammed [10] e Center et [12] FERREIRA, A. N.; MELLO, M. F. V. Lipidose hepática idiopática
al. [11], na descrição de alterações ultrassonográficas felina. In: SOUZA, H. J. M. Coletânea em medicina e cirurgia felina.
Rio de Janeiro: LF livros, 2003. p. 273-87.
de lipidose hepática.
Ferreira & Mello [12] dizem que o diagnóstico
definitivo da lipidose hepática felina requer avaliação
Figura 2. Aspecto microscópico do parênquima hepático, mostrando vacuolização dos hepatócitos, difuso, e acentuados.

Você também pode gostar