Você está na página 1de 8

ANA LUÍSA AMARAL

Ana Luísa Amaral nasceu em Lisboa no dia 5 de Abril de 1956. É professora de


estudos anglo-americanos da Faculdade de Letras do Porto, e tem um doutoramento
em Emily Dickinson.
As suas áreas de interesse são a literatura
inglesa e norte-americana, a literatura
comparada e os estudos feministas. O
feminismo e a luta pela igualdade de género são
bastante visíveis nos seus poemas, quando esta
invoca a filha (o que é muito usual),
pretendendo com isso que a fantasia, o amor e
os sonhos sejam superiores ao estereótipo da
mulher e do seu papel social. Ana Amaral tem
como característica usar nos seus poemas
situações do quotidiano e, considera que a
criação dos poemas é uma mistura de prazer e
de angústia.
O seu vocabulário é simples, mas, no entanto, complexo, não necessariamente devido
as palavras que usa, mas sim pela sintaxe invulgar e por alguns significados
subentendidos e com duplo sentido.
A autora inspira-se também na escrita da literatura clássica como a de Camões,
Fernando Pessoa e Petrarca, mas em tantos outros mais.

De forma a analisarmos a escrita e o estilo desta escritora, escolhemos focar-nos em


alguns poemas do seu livro ''Vozes'', de 2011.
''Vozes'' é estruturado como um longo intervalo entre dois poemas, um que carrega o
título do livro, que encerra o volume, e outro chamado “silêncios”, entre eles há 6
seções, intituladas “A impossível sarça”, “Breve exercício em três vozes”, “Trovas de
memória”, “Escrito à régua”, “Outras rotações” e “Outras vozes”. O poema
"Biografia" (presente na secção “A impossível sarça”), o poema "Inês e Pedro:
quarenta anos depois" (presente na seção “Trovas de memória”), e por último o poema
"Dores provocadas" (na secção “Escrito à régua”), que foram os escolhidos que
analisámos e interpretámos e damos aqui a conhecer.
''BIOGRAFIA''
'' Ah quando eu escrevia
De beijos que não tinha
E cebolas em quase perfeição!

Os beijos que eu não tinha:


Subentendidos, debaixo
Das cebolas

(mas hoje penso


Que, se não fossem
Os beijos que eu não tinha,
Não havia poema)

Depois, quando os já tinha,


De vez em quando
Cumpria uma cebola:
Pérola rara, diamante
Em sangue e riso,
Subentendido de razão

Agora, sem contar:


Beijo ou cebolas? ''

No poema ''Biografia'', Ana Luísa Amaral fala sobre cebolas e beijos, deixando
sempre uma questão pertinente ao leitor - o que seriam as cebolas e o que ela quis
dizer com isso?
Segundo a autora, em uma entrevista, as cebolas seriam as várias camadas de que o
mundo é feito, e de que uma pessoa se compõe, ou seja, suas relações, seus
sentimentos, seu meio, etc. Por exemplo: Se cortarmos uma cebola ao meio, veremos
que ela possui diversas camadas. As camadas mais ao centro, ou ''mais profundas'' são
os sentimentos mais profundos de uma pessoa, coisas que só ela mesma sabe, e as
outras seriam aquilo que deixamos expostos ao nosso meio social.
O poema elabora uma ideia de que quanto menos vida amorosa, mais poesia. Porém,
o ''ponto'' ideal seria um meio termo entre os dois. No fim do poema, a poetisa deixa
uma questão: ''Agora sem contar, beijo ou cebolas?'' A autora quis dizer que, ou
escolhe ter vida amorosa ou escolhe não ter, o que mais lembra um paradoxo. Pois, se
com muito amor não há poesia e com muita poesia não há amor, porque viver num
dilema sobre o que escolher ao invés de juntar o que os dois possuem de melhor a
oferecer?

''INÊS E PEDRO: QUARENTA ANOS DEPOIS''

'' É tarde. Inês é velha.


Os joanetes de Pedro não o deixam caçar
e passa o dia todo em solene toada:
«Mulher que eu tanto amei, o javali é duro!
Já não há javalis decentes na coutada
e tu perdeste aquela forma ardente de temperar
os grelhados!»

Mas isto Inês nem ouve:


não só o aparelho está mal sintonizado,
mas também vasto é o sono
e o tricot de palavras do marido
escorrega-lhe, dolente, dos joelhos
que outrora eram delícias,
mas que agora
uma artrose tornou tão reticentes.

Inês é velha, hélas,


e Pedro tem caibras no tornozelo esquerdo.
E aquela fantasia peregrina
que o assaltava, em novo
(quando as chama era alta e o calor
ondeava no seu peito),
de ver Inês em esquife,
de ver as suas mãos beijadas por patifes
que a haviam tão vilmente apunhalado:
fantasia somente,
fulgor que ele bem sabe ser doença
de imaginação.

O seu desejo agora


era um bom bife
de javali macio
(e ausente desse horror de derreter
neurónios).
Mais sábia e precavida (sem três dentes
da frente),
Inês come, em sossego,
uma papa de aveia. ''

No poema ''Inês e Pedro: Quarenta anos depois'', Ana Luísa Amaral retrata o amor
proibido de um dos casais mais conhecidos por todos nós.
Localizados num tempo onde já são ambos de uma certa idade, a poeta transmite-nos
a mensagem de cansaço, mencionando os joanetes de Pedro e a fraca audição de Inês,
devido à velhice de ambos. No entanto, isto pode também ser o indicador do desgaste
do amor entre os dois. No poema, não conseguimos identificar o intrínseco amor
ardente vivido pelo casal e que lhes foi atribuído, e foca-se nos problemas e nas
queixas de cada um, como se o sentimento mútuo se tivesse desvanecido.
A beleza da juventude e a paixão sofreram as suas transformações. Inês já não tem os
dentes da frente e Pedro tem cãibras. Isto pode ser uma crítica ao desgaste numa
relação, onde os parceiros já acomodados um com um outro já não se esforçam para
agradar os parceiros, e descuidam-se até com eles próprios.
Pedro refere:
''Mulher que eu tanto amei, o javali é duro!
Já não há javalis decentes na coutada
e tu perdeste aquela forma ardente de temperar os grelhados!''
É notável o descuido, mesmo que não seja intencional e seja um simples resultado da
evolução dos tempos. Inês simplesmente come as suas papas de aveia, calma e
conformada, enquanto Pedro deseja por um bife de javali.
Talvez seja uma representação de duas perspectivas sobre o assunto: enquanto que
Pedro assume uma posição nostálgica e deseja voltar aos tempos antigos, Inês
conforma-se com a nova realidade, aceitando a vida e a relação como ela é, e que o
amor se desgasta ao longo dos anos.

''DORES PROVOCADAS'':

'' Há horas em que me sabe bem


Sentir-me mal:
É então que se dá enorme tempo
De lembrar coisas de sofrer

Um sentimento tão racional e provocado


Que, não fora alguma lágrima,
Nem sentimento seria

É esse sentir bem por mal sentir,


Ficar doente de paixão por uma hora,
E na hora seguinte adiantar trabalho,
Como quem adianta jantar,
Relógio, morte

Mas é hora maior


Feita de susto e nojo:
Atrasar-me de amor;

Juízo a todo o custo


Em desgoverno
O que eu não tenho
(ou tudo): diário
Surdo e cego:
E mais:
Imperfeição ''

''Dores provocadas” aborda a questão da penitência e do remorso.


A autora começa logo a relatar que sente a necessidade de invocar
pensamentos/lembranças negativas, porque apesar de lhe trazerem sofrimento, relata
que sente uma satisfação ao fazê-lo. Sente essa satisfação porque quando se sente mais
triste, é também quando se sente mais inspirada para escrever. Como relatou a autora
numa entrevista, onde lhe perguntaram se a felicidade amorosa a inspirava, esta disse:
" Quando se está num estado de paixão assolapada, devastadora, a poesia surge como
um excesso, uma excrescência. Não é talvez tão necessária. Acho que a poesia
preenche falhas."
Esta procede a continuação do poema, afirmando que esse sentimento de tristeza/dor
é tão provocado e propositado que quase nem um sentimento pode ser, só o é porque
essa tristeza lhe provoca lágrimas.

A poeta diz ainda: " Ficar doente de paixão durante uma hora e na hora seguinte
adiantar trabalho como quem adiante jantar, relógio, morte."
Pretende reforçar a ideia que o sofrimento alimenta a sua escrita, e o uso de uma
tarefa do quotidiano, ou seja, o jantar, e a comparação depois com o relógio e a morte,
é usada para mostrar a tristeza que esta sente, e a fluidez com que os seus pensamentos
negativos surgem, chegando ao ponto em que só pensa em situações obscuras, como o
tempo a passar e a morte a chegar.
Já quase na conclusão do poema, Ana refere que o pior é atrasar o seu sofrimento com
o amor, pois o amor não lhe traz inspiração e atrasa o seu trabalho. Concluindo, na
última estrofe, a poetisa pretende transmitir a mensagem de que, quando alguém se
sente desnorteado, deve guiar-se pelo juízo e pelo raciocínio, mesmo que este cause
sofrimento ou angústia, do que pelo amor ou pela paixão.

APRECIAÇÃO CRÍTICA

A análise e a leitura destes três poemas proporcionaram-nos um conhecimento mais


profundo sobre esta escritora de renome, que não tem o seu destaque merecido na
comunidade portuguesa, mas sim nos países para lá das nossas fronteiras.
Como um grupo, foi-nos ligeiramente difícil obter informações sobre obras ou dados
relacionados com Ana Luísa Amaral, mas que, no fim, valeu a pena.
Fomos surpreendidos com temáticas abordadas nos seus poemas, que nos suscitaram
o interesse e fizeram-nos questionar o porquê de não serem destacadas, como os livros
infantis, também da autoria da poetisa, que têm maior visibilidade em território
português. Talvez isto se deva à explicação incompleta do conteúdo dos seus poemas,
e a sua sintaxe invulgar, que nos deixa algo confusos sobre o significado ou a
mensagem que pretende transmitir com as suas obras.
Ana Luísa deixa ao nosso critério a interpretação da sua escrita, permitindo que vários
significados sejam atribuídos aos seus poemas.
Tendo escolhido estes poemas, conseguimos observar a diversidade do seu trabalho:
os temas sentimentais, os papéis sociais de cada um na sociedade e a crítica a tal
característica, e também a cultura portuguesa ao mencionar um dos amores proibidos
mais reconhecidos.
Com base em tão poucos poemas, podemos já ver a qualidade literária do seu livro
''Versos'', que interessou bastante a qualquer um que pertenceu a este trabalho, sendo
que também tivemos a oportunidade de tê-lo em mãos e ler outros poemas também. O
livro é bom por isso mesmo, dá sempre vontade de ler mais e ver se o próximo poema
nos toca tanto como o anterior, se nos confunde como os outros, estranhando-os de
início e mais tarde convertendo-nos a ter uma perspectiva mais positiva e curiosa
sobre o próximo.
Sentimos esta autora como uma lufada de ar fresco na literatura portuguesa, sendo
genuína na sua escrita e na expressão das suas ideias e emoções, sem se preocupar
com a interpretação por parte de um público e das suas consequentes críticas. Primeiro
estranha-se, depois entranha-se e recomenda-se!
Cátia Baião
Mara Paias
Vinicius Santos
12ºE