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COMPORTAMENTOS DISFUNCIONAIS DA CRIANÇA

FORMAÇÃO MODULAR CERTIFICADA

MANUAL DE FORMAÇÃO

Formadora: Rute Simão

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ÍNDICE
1. Desenvolvimento Infantil 3
1.1.Condições Básicas do Desenvolvimento na Infância 4
1.2.Desenvolvimento Normal e Patológico 5
2. Formas de Disciplina 19
3. Educação Esfincteriana 31
3.1.A aprendizagem da higiene 32
3.2.Processo de Aquisição do Controlo dos Esfíncteres 32
3.3. Enurese 33
3.3.1. Enurese infantil 33
3.3.2. Conselhos que ajudam as crianças com enurese 34
3.3.3. Enurese na adolescência 34
3.3.4. Quais as consequências da enurese? 35
3.3.5. O papel dos pais 36
3.3.6. Evitar a vergonha 36
3.4. Encoprese 37
3.4.1. Como surge a encoprese? 37
3.5. Origem das perturbações de eliminação 38
3.6. Tratamento 39
3.7. O papel dos pais 39
4. Sono e problemas associados 39
4.1.Distúrbios do sono nas diversas faixas etárias 42
4.1.1. Pré-escolar (três a seis anos) 42
4.1.2. idade escolar (dos 6 aos 13 anos) 44
4.1.3. Sono na Adolescência 49
4.2. Mudanças de atitudes 50
5. Stress e Resiliência 51
5.1. O que é o stress 51
5.2. Causas do Stress 52
5.3. Stress e a Adolescência 53
5.4. Fases de Evolução do Stress 54
5.5. Como Lidar com o Stress? 55
56

5.6.Como Reduzir o Stress


56
5.7.Estratégias de gestão dos sintomas
6. Criança Sobredotada 57
58
6.1.Algumas características das crianças sobredotadas
59
6.2.Problemas comuns nas crianças sobredotadas

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7.Perturbação de hiperatividade e défice de Atenção 60
7.1. Qual é a Causa? 60
7.2. Como se pode tratar a PHDA 62
7.3. Outras perturbações que por vezes acompanham a PHDA 63
7.4. Repercussões da hiperatividade no relacionamento familiar 64
7.5. A hiperatividade e a família 65
66
7.6. O papel da escola
7.7. Estratégias para o professor lidar com hiperativos 68
8. Depressão Infantil 69
8.1 Conceito de Depressão 69
8.2. O que é a depressão Infantil? 70
8.3. Principais sinais e sintomas da depressão infantil 71
8.4. Principais fatores que podem desencadear a depressão infantil 71
8.5. Depressão Infantil e rendimento escolar 75
76
8.6. Papel dos Pais/ educadores na depressão infantil
8.7. Prevenir a depressão infantil 76
9. Criança Isolada 77
10. Papel da Família 79
10.1.Tipos de família 80
10.2. A família e a escola 80
82
12. Referências Bibliográficas 85

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1. Desenvolvimento Infantil

Quando questionamos o que se entende por desenvolvimento, ou quando


argumentamos com profissionais de saúde ou áreas afins o significado do
desenvolvimento da criança, ficamos surpresos com as mais variadas respostas, uma
vez que de fato o desenvolvimento humano tem os mais variados conceitos e das mais
diversas origens. Isto porque o desenvolvimento humano pode ser definido ou
entendido de várias formas, dependendo do referencial teórico que se queira adotar e
de quais aspetos se queira abordar.
Assim sendo para o Pediatra, desenvolvimento "é o aumento da capacidade do
indivíduo na realização de funções cada vez mais complexas" (Marcondes,1994); o
Neuropediatra certamente pensará mais na maturação do sistema nervoso central e
consequente integridade dos reflexos; o Psicólogo dependendo da sua formação e
experiência, pensa nos aspetos cognitivos, na inteligência, adaptação, inter-relação
com o meio ambiente etc. O psicanalista dará mais ênfase às relações com os outros e
à constituição do psiquismo.
Todos eles estão certos. Cada um reflete-se nos aspetos que tem vivenciado na
sua prática profissional, o que nos confirma que o desenvolvimento vai além de uma
determinação biológica e necessita uma abordagem multi-conceitual, e
consequentemente multidisciplinar.
Para serem válidas, as generalizações sobre o desenvolvimento infantil, não nos
podemos apenas basear na avaliação das habilidades pertencentes a um determinado
sistema: motor, percetivo, linguagem, etc. Estes sistemas traduzem determinadas
funções que se apoiam num processo de maturação neurológica, aperfeiçoando-se,
desenvolvendo-se, sofrendo influências ambientais e organizando-se num núcleo
constituído pelo psiquismo. O atraso de uma destas habilidades por si só não significa
necessariamente um problema patológico já que entendemos que cada ser humano se
desenvolve a partir de suas possibilidades e dentro de suas circunstâncias. A criança
deverá sempre ser vista como um todo, e em relação com seu ambiente, os pais e a
família.
E nós, o que entendemos por desenvolvimento? Antes de qualquer coisa
achamos que é preciso diferenciar alguns termos que são muitas vezes usados como
sinónimos embora tenham significados diferentes. Desta forma, definiremos alguns
conceitos próprios do Crescimento e Desenvolvimento:
Crescimento significa aumento físico do corpo, como um todo ou em suas
partes, que pode ser medido em termos de centímetro ou metros, gramas ou quilos.
Maturação é a organização progressiva das estruturas morfológicas, já que,
como o crescimento, seu potencial está determinado geneticamente.
Desenvolvimento é um conceito amplo que se refere a uma transformação
complexa, contínua, dinâmica e progressiva, que incluí além do crescimento, a
maturação, a aprendizagem e os aspetos psíquicos e sociais.
Desenvolvimento psicossocial é o processo de humanização, que inter-relaciona
aspetos biológicos, psíquicos, cognitivos, ambientais, sócio económicos e culturais,
mediante o qual a criança vai adquirindo maior capacidade para se mover, coordenar,

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sentir, pensar e interagir com os outros e o meio que a rodeia; em síntese, é o que lhe
permitirá incorporar de forma ativa e transformadora na sociedade em que vive.
1.1. Condições Básicas do Desenvolvimento na Infância

A palavra "Infante" vem do latim "infans" que significa incapaz de falar.


Geralmente define o período que vai do nascimento até aproximadamente os 2/3 anos
de idade, quando a fala já se transformou num instrumento de comunicação. É onde
muitos eventos ocorrem pela primeira vez: o primeiro sorriso, a primeira palavra, os
primeiros passos, a primeiro alcançar de um objeto, etc. A criança é um ser dinâmico,
complexo, em constante transformação, que apresenta uma sequência previsível e
regular de crescimento físico e de desenvolvimento neuro-psico-motor.
Esse desenvolvimento sofre a influência contínua de fatores intrínsecos e
extrínsecos, que provocam variações de um indivíduo para outro e que tornam único o
curso do desenvolvimento de cada criança.
Os fatores intrínsecos determinam as características físicas da criança, a cor dos
seus olhos, e outros atributos geneticamente determinados.
Os fatores extrínsecos começam a atuar desde a conceção estando diretamente
relacionados com o ambiente da vida intra-uterina proporcionado pela mãe através
das suas condições de saúde e nutrição. Além disso, mãe e feto sofrem os efeitos do
ambiente que os circunda. O bem-estar emocional da mãe também influencia de
forma significativa o bem-estar do feto, embora esse tipo de influência não funcione
necessariamente como causa direta de problemas de desenvolvimento futuros. Após o
nascimento, o ambiente em que a criança vive, os cuidados por parte dos pais, o
carinho, estímulos e alimentação passam a fazer parte significativa no processo de
maturação que leva a criança da dependência à independência.
Para além destes fatores, apresentamos várias características que nos
distinguem dos outros animais, sendo estas, as características biológicas que vão desde
a:
 A Posição Ereta que facilita a locomoção, e permite manter uma série de
atividades efetivas, deixando as mãos livres para construção dos objetos da
cultura, que não são outra coisa senão um prolongamento do equipamento
biológico com o qual a criança nasce.
 O Aparelho visual e flexibilidade manual permitem a coordenação e habilidade
para construir e usar equipamentos. Isto pode ser observado através do que
chamamos de Visão e Movimentos finos motores.
 A Capacidade de se comunicar através da fala, que envolve a competência
auditiva e a escuta, e o uso da fala e da linguagem. Por isso a criança pequena é
chamada infante, porque não fala, embora possa comunicar de outras
maneiras. O surgimento da fala é um dos aspetos importantes no
acompanhamento do bebé e o seu atraso é uma das queixas mais comuns. A
avaliação da fala e da linguagem consta sempre de qualquer escala ou roteiro
de avaliação do desenvolvimento da criança.

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A Evolução Social, ou seja, o homem vive dentro de uma estrutura social
complexa e desde cedo o bebé tem que se adaptar à mãe e aos outros.
Para além das características biológicas, temos também as características
psíquicas, o psiquismo do ser humano constitui-se no decorrer das trocas das crianças
com os outros, desde os primórdios da vida, sendo de extrema importância a
participação daqueles que fazem parte do mundo da criança, que cuidam dela,
especialmente os pais.
Antes mesmo de nascer, o psiquismo de um bebé já está em constituição. Seus
pais desejam, imaginam, pensam e falam desse bebé, antecipando para ele um
determinado lugar no seio familiar. Neste novo ambiente, haverá uma relação, com
muitas trocas, cujo resultado será o de criar um ser humano singular, único, dotado de
um “eu” capaz de se dirigir aos “outros”. Este “eu” terá a função fundamental de
articular todas as funções envolvidas no processo de desenvolvimento.
Devemos portanto, sempre considerar que uma família é composta de crianças
individuais cujas diferenças não são apenas genéticas mas também determinadas pela
maneira como cada criança se relaciona com seus pais e com aqueles que cuidam dela:
como é colocada no contexto das fantasias e crenças de sua família e dos
acontecimentos inesperados. Este contexto nunca é duas vezes o mesmo e orienta o
desenvolvimento emocional único de cada criança.

1.2. Desenvolvimento Normal e Patológico

Entender o que é o desenvolvimento normal e o que é patológico é


compreender as alterações comportamentais e psíquicas, ou seja, se estas são muito
exacerbadas ou são de longa duração. Existem igualmente situações em que o normal
e o patológico se apresentam intimamente ligados, com limites muito ténues, o que
não deixa de sugerir que os critérios de normalidade e de patologia variam em função
da forma como se olha para o individuo, tendo em conta todos os contextos onde este
está inserido.
Sabemos que na fase inicial do desenvolvimento infantil, um bebé depende
inteiramente de uma outra pessoa para se desenvolver e que na maioria das vezes esse
"outro" é sua mãe. Sem ela (ou um seu substituto) o bebé, ao contrário de outros
animais, não é capaz de ir à busca do seu alimento. Ou seja, se um bebé não tem quem
cuide dele (alimente, agasalhe etc.), fale com ele, e o deseje, ele morre.
Desta forma, observamos que o desenvolvimento ocorre por etapas ou fases,
que correspondem a determinados períodos da vida. Cada um desses períodos tem
suas próprias características e seus ritmos. Ainda que não se deva perder de vista que
cada criança tem seu próprio padrão de desenvolvimento.
Iremos então abordar, o período da infância, mais especificamente a partir dos três
anos, e da adolescência.
A infância é o período de grande desenvolvimento físico, marcado
essencialmente pelo gradual crescimento da altura e do peso (especialmente nos
primeiros três anos de vida e durante a puberdade).

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Mais do que isto, é um período onde o ser humano se desenvolve
psicologicamente, envolvendo graduais mudanças no comportamento da pessoa e na
aquisição das bases da sua personalidade.
De uma forma sintetizada, iremos descrever estas etapas:

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Etapa dos 3 /4 anos

PRINCIPAIS MARCOS DO DESENVOLVIMENTO


Desenvolvimento Físico
• Grande atividade motora: corre, salta, começa a trepar escadas, pode começar a
andar de triciclo; grande desejo de experimentar tudo;
• Embora ainda não seja capaz de apertar os atacadores, veste-se sozinha
razoavelmente bem;
• É capaz de comer sozinha com uma colher ou um garfo;
• Faz puzzles simples;
• Copia figuras geométricas simples;
• É cada vez mais independente ao nível da sua higiene; é já capaz de controlar os
esfíncteres (sobretudo durante o dia);
Desenvolvimento Intelectual
• Compreende a maior parte do que ouve e o seu discurso é compreensível para os
adultos;
• Utiliza bastante a imaginação: início dos jogos de faz-de-conta e dos jogos de
papéis;
• Compreende o conceito de "dois";
• Sabe o nome, o sexo e a idade;
• Repete sequências de 3 algarismos;
• Começa a ter noção das relações de causa-efeito:
• É bastante curiosa e inquiridora;
Desenvolvimento Social
• É bastante sensível aos sentimentos dos que a rodeiam relativamente a si própria;
• Tem dificuldade em cooperar e partilhar;
• Preocupa-se em agradar os adultos que lhe são significativos, sendo dependente
da sua aprovação e afeto;
• Começa a aperceber-se das diferenças no comportamento dos homens e das
mulheres;
• Começa a interessar-se mais pelos outros e a integrar-se em atividades de grupo
com outras crianças;
Desenvolvimento Emocional
• É capaz de se separar da mãe durante curtos períodos de tempo;
• Começa a desenvolver alguma independência e auto-confiança;
• Pode manifestar medo de estranhos, de animais ou do escuro;
• Começa a reconhecer os seus próprios limites, pedindo ajuda;
• Imita os adultos;

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Desenvolvimento Moral
• Começa a distinguir o certo do errado;
• As opiniões dos outros acerca de si própria assumem grande importância para a
criança;
• Consegue controlar-se de forma mais eficaz e é menos agressiva;
• Utiliza ameaças verbais extremas, como por exemplo "Eu mato-te!", sem ter
noção das suas implicações;

SINAIS DE ALERTA
• Medos excessivos;
• Ansiedade de separação extrema;
• Enurese noturna;
• Timidez;
•Comportamentos de bullying (agressividade) relativamente aos pares;
• Inibição manifesta nas brincadeiras e na linguagem;
• Comportamentos ritualísticos, sobretudo à volta da comida;
• Problemas na fala persistentes: vocabulário pobre, inferior a 1500 palavras; má
articulação das consoantes e vogais;
• Falta de interesse pelos outros:
• Pouca capacidade para fantasiar;
• Grande dificuldade em aceitar as regras;
• Situações extremas de comportamentos desafiantes e opositores, com grande
dificuldade de auto-consolo.
• Sono: dificuldade em adormecer sozinho; insónias

Etapa dos 5/6 anos

PRINCIPAIS MARCOS DE DESENVOLVIMENTO


Desenvolvimento Físico
• A preferência manual está estabelecida;
• É capaz de se vestir e despir sozinha;
• É capaz de assegurar a sua higiene de forma independente;
• Pode manifestar dores de estômago ou vómitos quando obrigada a comer comidas
de que não gosta; tem preferência por comida pouco elaborada, embora aceite uma
maior variedade de alimentos;
• Fala fluentemente, utilizando corretamente o plural, os pronomes e os tempos
verbais;
• Grande interesse pelas palavras e a linguagem;
• Pode gaguejar se estiver muito cansada ou nervosa;

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• Segue instruções e aceita supervisão;
• Conhece as cores, os números, etc.; pode identificar e distinguir euros e cêntimos;
• Capacidade para memorizar histórias e repeti-las;
• É capaz de agrupar e ordenar objetos tendo em conta o tamanho (do mais pequeno
ao maior);
• Começa a entender os conceitos de "antes" e "depois", "em cima" e "em baixo",
etc., bem como conceitos de tempo: "ontem", "hoje", "amanhã";

Desenvolvimento Social

•A mãe é ainda o centro do mundo da criança, pelo que poderá recear não a voltar a
ver após uma separação;
• Copia os adultos;
• Brinca com meninos e meninas;
• Está mais calma, não sendo tão exigente nas suas relações com os outros; é capaz de
brincar apenas com outra criança ou com um grupo de crianças, manifestando
preferência pelas crianças do mesmo sexo;
• Brinca de forma independente, sem necessitar de uma constante supervisão;
• Começa a ser capaz de esperar pela sua vez e de partilhar;
• Conhece as diferenças de sexo;
• Aprecia conversar durante as refeições;
• Começa a interessar-se por saber de onde vêm os bebés;
• Está numa fase de maior conformismo, sendo crítica relativamente àqueles que não
apresentam o mesmo comportamento;
Desenvolvimento Emocional
 Pode apresentar alguns medos: do escuro, de cair, de cães ou de dano corporal,
embora esta não seja uma fase de grandes medos;
 Se estiver cansada, nervosa ou chateada, poderá apresentar alguns dos seguintes
comportamentos: roer as unhas, piscar repetidamente os olhos, fungar, chuchar no
dedo, etc.;
 Preocupa-se em agradar aos adultos;
 Maior sensibilidade relativamente às necessidades e sentimentos dos outros;
 Envergonha-se facilmente;
Desenvolvimento Moral
• Pode apresentar alguns medos: do escuro, de cair, de cães ou de dano corporal,
embora esta não seja uma fase de grandes medos;
• Se estiver cansada, nervosa ou chateada, poderá apresentar alguns dos seguintes
comportamentos: roer as unhas, piscar repetidamente os olhos, fungar, chuchar no
dedo, etc.;
• Preocupa-se em agradar aos adultos;
• Maior sensibilidade relativamente às necessidades e sentimentos dos outros;

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• Envergonha-se facilmente;

SINAIS DE ALERTA
·Medos excessivos;
·Ansiedade de separação extrema;
·Enurese noturna;
·Timidez;
·Comportamentos de bullying relativamente aos pares;
·Inibição manifesta nas brincadeiras;
·Comportamentos ritualísticos, sobretudo à volta da comida;
·Problemas na fala persistentes;
·Falta de interesse pelos outros;
·Ansiedade: tiques; onicofagia (roer as unhas);
·Sono: dificuldade em adormecer sozinho; insónias.

Etapa dos 6/7 anos

PRINCIPAIS MARCOS DE DESENVOLVIMENTO


Desenvolvimento Físico
• Grande vigor e energia;
• É um pouco desajeitada a nível motor, o que se deve a uma coordenação ainda não
completamente estabelecida;
• Poderá sofrer maiores problemas de saúde, como constipações, garganta inflamada,
etc., devido à exposição a outras crianças na escola;
Desenvolvimento Intelectual
• Tem uma noção mais clara das diferenças de sexo, sendo curiosa a este nível:
curiosidade pelo corpo do sexo oposto, brincar aos médicos, às casinhas, etc.
• Começa a ter memórias contínuas e mais organizadas;
• Desenvolvimento das capacidades de raciocínio;
• Passagem de uma aprendizagem através da observação e da experiência para uma
aprendizagem através da linguagem e da lógica;
• A maioria das crianças aprende a ler e a escrever nesta idade;

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Desenvolvimento Social

• Não gosta de ser beijada em público (principalmente os rapazes);


• Identifica-se com os adultos fora do seu meio familiar (por ex., o professor);
• As relações com os pares são instáveis; é por vezes agressiva com outras crianças;
• Quer sempre ganhar nas atividades em que participa, tentando modificar as regras
para satisfazer as suas necessidades;
Desenvolvimento Emocional
• Forte identificação com a figura parental do mesmo sexo;
• O desenvolvimento de uma maior independência poderá por vezes acarretar
sentimentos de insegurança (ambivalência autonomia - dependência);
• Tem dificuldade em aceitar críticas, culpa ou castigos;
• As alterações bruscas de humor poderão reaparecer, manifestando maior rigidez no
seu comportamento e sendo muito exigente e opositora;
Desenvolvimento Moral
Preocupa-se bastante com o seu próprio comportamento, especialmente quando este
afeta a família e os amigos;
Culpa os outros dos seus erros;
SINAIS DE ALERTA
•Medos excessivos;
Ansiedade de separação extrema;
• Enurese noturna;
• Timidez;
• Comportamentos de bullying relativamente aos pares;
• Inibição nas brincadeiras;
• Comportamentos ritualísticos, sobretudo à volta da comida;
• Problemas na fala persistentes;
• Problemas ao nível da sua higiene;
• Falta de interesse pelos outros;
• Dificuldades escolares: não aprende a ler nem a escrever.
Sono: dificuldade em adormecer sozinho; insónias

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Etapa dos 7/8 anos

PRINCIPAIS MARCOS DE DESENVOLVIMENTO


Desenvolvimento Físico
• A coordenação mão-olho está já bem estabelecida, o que torna as atividades de
desenhar e pintar mais atrativas;
• Grande atividade motora: a criança brinca até estar completamente exausta;

Desenvolvimento Intelectual
• Está menos interessada nas questões sexuais;
• Está disponível para a aprendizagem. Utiliza um pensamento reflexivo; os
pensamentos podem basear-se na lógica; consegue resolver problemas de maior
complexidade; Boa capacidade de atenção e concentração;
• Gosta de colecionar objetos e fala acerca dos seus desejos e projetos, textos e
desenhos;
• Baseia-se mais na realidade.

Desenvolvimento Social
É mais responsável e independente, preocupando-se em fazer bem as coisas;
• Pode por vezes retirar-se ou evitar o contacto com os outros, sobretudo adultos,
numa tentativa de construir uma "consciência de si" mais autónoma;

Desenvolvimento Emocional
É mais responsável e independente, preocupando-se em fazer bem as coisas;
Pode por vezes retirar-se ou evitar o contacto com os outros, sobretudo adultos, numa
tentativa de construir uma "consciência de si" mais autónoma;

Desenvolvimento Moral
Pode vivenciar sentimentos de culpa e vergonha;

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SINAIS DE ALERTA
• Preocupação excessiva com a competição e o seu desempenho, principalmente na
escola;
• Comportamentos desafiantes extremos;
• Despreocupação constante com a conclusão de tarefas/trabalhos;
• Excessiva dependência das figuras cuidadoras em tarefas que são apropriadas à sua
idade, como por exemplo: pentear-se; ir à loja; apertar os sapatos; encontrar a casa de
banho num restaurante; isolamento social: poucos amigos e envolvimentos em
atividades com outras crianças;
• Pequenos furtos;
• Grande necessidade de dizer mentiras;
• Enurese noturna;
• Dificuldades escolares;
• Sono: dificuldade em adormecer sozinho; insónias.

Etapa dos 8/9 anos

PRINCIPAIS MARCOS DE DESENVOLVIMENTO


Desenvolvimento Físico
É muito ativa e pode ocorrer acidentes com alguma frequência

Desenvolvimento Intelectual
O seu pensamento está mais organizado e lógico
Preocupa-se em perceber a razão das coisas que a rodeiam; Sobrestima
frequentemente as suas capacidades, com consequente frustração em caso de
insucesso;

Desenvolvimento Social
Faz novos amigos com facilidade, preocupando-se em estabelecer relações recíprocas;
pode desenvolver uma relação mais próxima com uma criança do mesmo sexo;
considera o grupo de amigos importante;
Gosta da escola;
Não se envolve tanto em conversas com a família durante a refeição, prefere comer
depressa para iniciar outra atividade;

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Desenvolvimento Emocional
Exige mais amor e compreensão da figura materna;
Tem mais segredos;
Pode ser excessivamente auto-crítica, com tendência para dramatizar as situações em
que antecipa dificuldades;
Exibe menos medos e mais razoáveis;
Pode resistir e argumentar contra instruções e pedidos feitos pelos adultos;
Aprecia recompensas imediatas pelo seu comportamento;
Desenvolvimento Moral
Pode vivenciar sentimentos de culpa e vergonha;
SINAIS DE ALERTA
Preocupação excessiva com a competição e o seu desempenho, principalmente na
escola;
Comportamentos desafiantes extremos;
Despreocupação constante com a conclusão de tarefas/trabalhos;
Excessiva dependência das figuras cuidadoras em tarefas que são apropriadas à sua
idade, como por exemplo: pentear-se; ir à loja; apertar os sapatos; encontrar a casa de
banho num restaurante;
Isolamento social: poucos amigos e envolvimentos em atividades com outras crianças;
Pequenos furtos;
Grande necessidade em dizer mentiras;
Enurese noturna;
Medos excessivos;
Grande ansiedade;
Sono: dificuldade em adormecer sozinho; insónias.

Etapa dos 9/10 anos

PRINCIPAIS MARCOS DE DESENVOLVIMENTO


Desenvolvimento Físico
Possui já um bom controlo corporal; está interessada em desenvolver força,
capacidades e rapidez;
• Desenha com grande detalhe;
• As raparigas começam a desenvolver-se mais rapidamente do que os rapazes;
Desenvolvimento Intelectual
Manifesta preferência por trabalhos e tarefas mais complexas;
• Tem interesses definidos e uma grande curiosidade; procura e memoriza factos;

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emprega um raciocínio e pensamento abstratos;
• As diferenças individuais tornam-se mais marcadas;
• Gosta de ler, escrever e de utilizar livros e referências;
Desenvolvimento Social
Rapazes e raparigas diferem em termos de personalidade, características e interesses;
• Grande orientação para o grupo, formado por elementos do mesmo sexo:
preferência por atividades de jogo cooperativo e de equipa;
• Maior interesse nas relações afetivas e atividades sociais;
Desenvolvimento Emocional
Pode exibir alguns problemas de comportamento, sobretudo quando não se sente
aceite pelos outros;
• Está a tornar-se cada vez mais independente e "merecedora" de confiança;

Desenvolvimento Moral
 Tem consciência de justiça;
• É altamente competitiva;
• Tem ainda dificuldade em assumir os erros mas tem maior capacidade de aceitar as
falhas e de se responsabilizar por elas;
• Grande perceção do certo e errado;

SINAIS DE ALERTA
• Preocupação excessiva com a competição e o seu desempenho, principalmente na
escola;
• Comportamentos desafiantes extremos;
• Despreocupação constante com a conclusão de tarefas/trabalhos;
• Excessiva dependência das figuras cuidadoras em tarefas que são apropriadas à sua
idade, como por exemplo: fazer pequenos recados; escolher a roupa que vai vestir no
dia seguinte; fazer os trabalhos de casa; preparar a mochila para a escola;
• Isolamento social: poucos amigos e envolvimentos em atividades com outras
crianças;
• Pequenos furtos;
• Grande necessidade em mentir;
• Enurese noturna;
• Grande ansiedade;
• Medos excessivos;
• Muita insegurança;
• Sono: dificuldade em adormecer sozinho; insónias.

10 ANOS E PRÉ ADOLESCÊNCIA

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A partir dos 10 anos de idade, as crianças passam a dar mais importância a um
grupo de amigos que possuem gostos semelhantes. A faixa etária que vai desde o
décimo ano de vida é uma época de intensas mudanças físicas e psicológicas: é a
chamada pré-adolescência.
Nesse período da vida as crianças passam a ter mais responsabilidades, ao
mesmo tempo em que passam a querer e a exigir mais respeito de outras pessoas -
particularmente dos adultos. A criança nesta faixa etária passa a compreender mais a
sociedade, ordens sociais e grupos, o que torna esta faixa etária uma área instável de
desenvolvimento psicológico.
A participação num grupo de amigos que possuem gostos em comum passa a
ser muito importante para a criança, onde o modelo dado pelos amigos começa a
obscurecer o modelo dado pelos pais. Começam as preocupações como a expectativa
de ser aceite por um grupo, ou, ainda certas diferenças em relação a outras crianças da
mesma faixa etária agravam-se nesta fase.
Muitas vezes, os pré-adolescentes sentem-se rejeitados pela sociedade,
podendo desencadear problemas psicológicos tais como a depressão ou a anorexia,
por exemplo.
A pré-adolescência é marcada pelo início das intensas transformações físicas
que transformam a criança num adulto; é o início da puberdade, marcada
principalmente pelo aumento do ritmo de crescimento corporal e pelo
amadurecimento dos órgãos sexuais.

ADOLESCÊNCIA

A adolescência é a fase do desenvolvimento humano que marca a transição


entre a infância e a idade adulta. Esta fase é marcada por profundas transformações:
fisiológicas, psicológicas, pulsionais, afetivas intelectuais e sociais, vivenciadas num
determinado contexto cultural.
Podemos inclusivamente afirmar que o princípio da adolescência é claramente
marcado pelo início do amadurecimento sexual (puberdade), o seu fim não se define
apenas pelo desenvolvimento corporal, mas sobretudo pela maturidade social - que
inclui, entre outras coisas, a entrada no mercado de trabalho e o assumir do papel
social de adulto.
No entanto a adolescência não é uma fase homogénea, pelo contrário, é uma
fase bastante dinâmica, pelo que Steinberg, propõe a divisão da adolescência em três
fases:
 Adolescência inicial – 11 aos 14 anos
 Adolescência Média – 15 aos 17 anos
 Adolescência Final – 18 aos 21 (Esta ultima fase marca o inicio da idade adulta).

A entrada na adolescência é igualmente caracterizada pela puberdade, que


inclui a mudança do corpo, da mente e dos afetos. Os adolescentes entram numa nova
fase existencial, cheia de novas pulsões, novas sensibilidades, novas capacidades
cognitivas, novas dificuldades nos seus pontos de referência.

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A adolescência é uma fase onde os jovens através de momentos de maturação
diversificados fazem um trabalho de reintegração do seu passado e das suas ligações
infantis, numa nova unidade. Esta reelaboração deverá dar capacidades para optar por
valores, fazer a sua orientação sexual, escolher o caminho profissional, integrar-se
socialmente.
Este processo de crescimento faz-se também com retrocessos (às vezes dá
vontade de voltar a ser criança), este crescer faz-se sozinho, com o melhor amigo, com
e contra os pais, com os outros adolescentes e com os outros adultos.
Existem muitas adolescências, conforme cada infância, cada fase de maturação,
cada família, cada época, cada cultura, cada classe social.
Durante esta fase, a ambivalência é um sentimento que se relaciona com as
transformações globais que ocorrem no indivíduo e que tornam este nível etário de
difícil compreensão: pelos outros e pelos próprios. Coabitam, nesta fase, desejos
ambivalentes de crescer e de regredir, de se sentir ainda criança e já adulto, de
autonomia e de dependência, de ligação ao passado e de vontade de se projetar no
futuro.
A sociedade de consumo em que vivemos faz da juventude um público-alvo de
exploração: há cada vez mais produtos dirigidos ao adolescente. São cada vez mais
significativas as camadas de jovens que detêm - direta ou indiretamente - poder de
compra. Os jovens são, hoje, consumidores efetivos.
O atual período de escolaridade, na nossa sociedade, prolongou-se no tempo, o
que torna o adolescente familiar e socialmente dependente; contudo, são-lhe exigidas,
ao mesmo tempo, autonomia e responsabilidade. Esta situação reflete-se em
expressões que são contraditórias.
O mesmo adulto pode dizer ao mesmo adolescente: já não és criança, tens
idade para ser responsável; ainda não tens idade para saberes o que queres. E o
adolescente reconhece e sente bem esta ambivalência.
A fragilidade sentida pode estimular surtos regressivos, alienações/distrações,
comportamentos associais, dificuldades várias. Para muitos autores, o mal-estar
sentido pelos jovens, na sociedade atual, tem a ver com a indefinição do seu estatuto
social.
No entanto, a adolescência não é obrigatoriamente uma fase perturbada, até
porque grande parte dos problemas, são ultrapassados na passagem de jovem para
adulto.
A adolescência não pode ser compreendida sem se ter em conta os aspetos
fisiológicos, afetivos, intelectuais, sociomorais e cognitivos.

ASPETOS FISIOLÓGICOS
 Entrada na puberdade, onde ocorrem mudanças corporais, principalmente ao
nível dos órgãos sexuais, dando a possibilidade de ejaculação e a menstruação.
 Os órgãos sexuais entram em funcionamento e são estas as modificações que
vão marcar a sexualidade adolescente, por uma genitalidade, e pela capacidade
da função reprodutora.
 A ossificação da mão que se completa e um aumento do tamanho do coração.

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 Ocorrem modificações ao nível dos odores corporais, nomeadamente o suor.
 Acne, seborreia, variações de peso, etc.

ASPETOS AFETIVOS:
 As transformações corporais levam o jovem a voltar-se para si próprio,
procurando perceber o que se está a passar, para se entender mais
profundamente como pessoa.
 Utiliza diários, isola-se, pode ter devaneios, pintar, tocar música, chorar,
agressividade, mudanças súbitas de humor.
 Fecham-se muito sobre si próprios, comunicando pouco com os adultos.
 A incompreensão leva por vezes à vitimização, sendo esta uma frequente
projeção da sua própria dificuldade em se compreenderem intimamente.
 Grande ansiedade, relativamente às mudanças corporais, não gostando de
algumas características físicas: nariz, altura, peso, rabo, seios, etc.
 Assumir a sua imagem corporal, sendo esta a representação afetiva que se faz
do próprio corpo. Esta representação está relacionada com os afetos gerais de
autoconfiança e a autoestima alta ou baixa que cada um tem. A forma como
nos vemos, o autoconceito e o modo como gostamos de nós (autoestima) são
muito influenciados pelo meio onde vivemos e a maneira como se é visto e
aceite pelos outros.

ASPETOS INTELECTUAIS
 Maturidade intelectual.
 Pensamento formal:
 Novas perspetivas, exercitar a mente, pôr-se questões, questionar várias
situações, qual a melhor solução, aprender a criticar, interrogar, etc.
 Raciocínio hipotético-dedutivo (consiste na construção de hipóteses, que serão
testadas posteriormente).
 Refletir antes de agir
 Gosto pela fantasia e pela imaginação
 Formação de ideias próprias
 Reaparecimento do egocentrismo, mas trata-se de um egocentrismo
intelectual, ou seja, as suas teorias sobre o mundo aparece como sendo única e
correta.

2. FORMAS DE DISCIPLINA

Ao longo destes anos todos, seja como aluno, pai ou mesmo profissional, nós
questionamo-nos “O que será que mudou?”, ou seja, quem não se lembra de as
crianças se sentarem em filas muito direitinhas e faziam, obedientemente, aquilo que
lhe era pedido? Ou até mesmo, enquanto pais, os filhos nem se atreviam a responder!

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Dai a questão, o que será que mudou? O que aconteceu? Porque é que as
crianças/adolescentes de hoje não desenvolvem o mesmo tipo de responsabilidades e
de motivação, que parecia prevalecer há uns anos atrás?
Muitos estudiosos atribuem muitas explicações possíveis para este facto, tais
como os lares desfeitos, famílias disfuncionais, excesso de televisão, ou de jogos de
computador, as mães que trabalham, etc.
Apesar de estes fatores serem comuns na sociedade dos nossos dias, por si só
não explicam os atuais verdadeiros problemas com as crianças.
De facto houve algumas mudanças que contribuíram para este tipo de
comportamentos.
A primeira grande mudança que poderemos referir, prende-se com o facto de
os adultos já não darem às crianças um exemplo ou um modelo de submissão ou de
obediência, isto porque eles próprios também já não agem como nos velhos tempos,
ou seja, quando a mãe fazia obedientemente o que o pai dizia (ou dava, pelo menos, a
impressão de o fazer), pois era a forma culturalmente aceite de proceder. Nesta altura,
eram muito poucos, os que questionavam a ideia de que as decisões dos pais.
Claro que nos dias de hoje, com os movimentos dos direitos humanos, a mãe
deixou de ser tão submissa, os grupos minoritários começaram a reivindicar
ativamente os direitos à igualdade, ou seja, é difícil encontrar alguém que esteja
disposto a aceitar um papel inferior e submisso na vida, desta forma, as crianças estão
simplesmente, a seguir modelos que existem à sua volta: elas também querem ser
tratadas com dignidade e respeito.
É importante salientar que igualdade, não significa “o mesmo”. Obviamente as
crianças não podem ter todos os direitos que decorrem de mais experiência,
competência e maturidade. Contudo merecem ter o direito a uma oportunidade de
desenvolver as competências de que necessitam, num ambiente de afabilidade e de
firmeza e não num contexto de culpabilização, de vergonha e de sofrimento.
O desejo de ser tratado com dignidade e respeito é, uma mudança positiva na
nossa sociedade. Necessitamos, simplesmente, de tomar consciência da importância
desta mudança e perceber que, hoje, a cooperação baseada no respeito mútuo e na
responsabilidade partilhada é mais eficaz do que o controlo autoritário.
A segunda mudança prende-se com o facto de nas sociedades de hoje as
crianças disporem de menos oportunidades para aprender a responsabilidade e a
motivação. Já não “precisamos” de crianças que sejam contribuintes importantes para
a nossa sobrevivência económica. Pelo contrário, em nome do amor, afeto, dão-se às
crianças, sem qualquer esforço ou investimento da sua parte, ou treino de
competências é, simplesmente, negligenciado em virtude dos horários
superpreenchidos, ou por outro lado, ainda não se compreendeu a importância
educativa da contribuição da criança, ou seja, muitas vezes, retiramos-lhe a
oportunidade de experienciarem sentimentos de pertença e o sentido de que são
importantes, através de contribuições responsáveis e, depois criticamo-las por não
desenvolverem sentido de responsabilidade.
É de realçar que as crianças não desenvolvem sentido de responsabilidade
quando os pais e os professores são demasiado rigorosos e controladores, ou pelo
contrário, demasiado permissivos. As crianças aprendem a ser responsáveis quando

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disfrutam de oportunidades de aprendizagem, num ambiente de gentileza, de firmeza,
de dignidade e de respeito.
Desta forma é muito importante sublinhar que a eliminação das punições não
significa que as crianças devam ser autorizadas a fazer tudo o que querem. Devemos
oferecer-lhes oportunidades para experienciarem a responsabilidade em relação direta
com os privilégios que usufruem.
Como consequência, caso o contrário aconteça, as crianças tornam-se
“recipientes dependentes”, que sentem que a única forma de conseguir a pertença e o
sentido de que são importantes é a manipulação das outras pessoas, de forma a
coloca-las ao seu serviço. Há crianças que desenvolvem crenças, tais como, “ Não serei
amado, se os outros não tomarem conta de mim.” Outras pensam que como não
conseguem fazer nada que não suscite vergonha e sofrimento, então não vale a pena
gastar tempo e energia em faze-lo.
Por outro lado, temos crianças que gastam as suas energias, inteligência e
tempo, de forma errada, orientando os seus comportamentos mais para a
manipulação, rebeldia e para a fuga. Desta forma, estas crianças não desenvolvem as
perceções e as competências necessárias para se tornarem pessoas capazes.
Alguns autores (Glenn & Nelsen, 2002) identificaram “Sete Perceções e
Competências Significativas”, que estes julgam ser necessárias para o desenvolvimento
de pessoas capazes. Elas são:
 Perceções fortes sobre as capacidades pessoais. A criança tem que acreditar
que é Capaz;
 Perceções fortes de que se é importante nas relações primárias. “ Eu dou o meu
contributo significativo”
 Fortes perceções de poder pessoal e de influência sobre a vida. “Consigo
influenciar aquilo que acontece comigo”.
 Fortes competências interpessoais. Capacidade de compreender as emoções
pessoais e de utilizar esta compreensão para desenvolver a autodisciplina e o
autocontrole).
 Fortes competências interpessoais. Capacidade de trabalhar com os outros e de
desenvolver amizades através da comunicação, da cooperação, da negociação,
da partilha, da empatia e da escuta.
 Fortes competências sistémicas. Capacidade de reagir aos limites e às
consequências da vida quotidiana com responsabilidade, flexibilidade e
integridade.
 Fortes competências de julgamento. Capacidade de utilizar a sabedoria e de
avaliar as situações segundo valores adequados.

Segundo estes autores, uma das grandes vantagens deste procedimento, é a de


a maior parte dos problemas de comportamento poder ser eliminada quando pais,
professores e pessoas no geral aprendem formas mais eficazes de ajudar os seus
filhos/alunos/crianças a desenvolverem perceções e competências saudáveis.
É importante compreender algumas questões:

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Qual a razão pela qual as crianças não se portam bem? Sendo este o primeiro
passa para enfrentarmos os problemas de disciplina.
Porque é que os métodos que utilizo, não estão a funcionar?
Será que estamos a proporcionar às crianças as oportunidades necessárias, para
que estas desenvolvam sentido de responsabilidade e motivação?
No quadro seguinte podemos observar as principais interações entre adultos e
crianças, bem como as suas diferenças:
Tipo de interação Características Atitudes
“Estas são as regras a que tens
Ordem sem liberdade que te submeter e este é o
Severidade (controlo Ausência de opções castigo que receberás pela sua
Excessivo) “Fazes, porque eu violação” – Nesta as crianças
quero.” não são envolvidas no processo
de tomada de decisão.
“Não existem regras. Estou
certo que nos amaremos
Liberdade sem ordem
mutuamente e de que seremos
Permissividade (ausência Opções ilimitadas
felizes, e tu um dia mais tarde,
de limites) “Podes fazer tudo o que
terás a possibilidade de
quiseres”.
escolher as tuas próprias
regras”.
“Decidiremos as regras em
conjunto, para benefícios de
Liberdade com ordem ambos. Também decidiremos
Opções limitadas juntos, as soluções que serão
Disciplina Positiva
“Podes escolher, dentro úteis para todas as partes
(firmeza com dignidade
de limites que envolvidas quando surgirem
e respeito)
demostrem respeito para problemas. Quando eu decidir
com todos”. sem a tua opinião, usarei
firmeza com bondade,
dignidade e respeito”.

Muitas pessoas têm a forte convicção que a severidade e a punição funcionam.


De facto, os castigos, por vezes funcionam. Funcionam no sentido em que
normalmente interrompe imediatamente o mal comportamento. Mas a questão que se
coloca é a seguinte: “ E os resultados a longo prazo, quais são?”. Teremos de ter
cuidado, quando estes resultados a longo prazo são efetivamente, negativos, pois as
crianças adotam vários tipos de comportamentos relacionados com a punição, tais
como:
 Ressentimento – “isto é injusto. Não posso confiar nos adultos”
 Vingança – “Eles ficam a ganhar, agora, mas eu hei-de vingar-me”

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 Rebelião – “Farei exatamente o contrário, para provar que não tenho que fazer
as coisas como eles querem”.
 Dissimulação – “ Da próxima vez, não me deixarei apanhar!”
 Autoestima reduzida – “ Sou uma pessoa má”

A verdade é que por norma, as crianças não têm consciência das decisões que
estão a tomar como resposta ao castigo aplicado. Contudo o comportamento futuro,
baseia-se neste tipo de decisões. Por esta razão, os adultos precisam de estar mais
atentos aos efeitos das suas ações a longo prazo, em vez de se deixarem iludir pelos
resultados a curto prazo.
As crianças não desenvolvem características positivas baseadas nos sentimentos
e nas decisões inconscientes que tomaram. Penso que todos partilhamos a ideia que se
queremos que as crianças se portem bem, não temos que em primeiro lugar, fazer com
que elas se sintam como as piores? Se pensarmos na última vez que nos sentimos mal,
humilhados, ou até mesmo tratados injustamente, sentiu vontade de cooperar ou a
proceder melhor?
Quando a permissividade e a severidade não funcionam, o que devemos então
fazer?
Uma das abordagens a aplicar é a Disciplina Positiva, onde não é utilizado o
controlo ou a permissividade excessiva. Esta é uma abordagem que dá prevalência ao
ensino das competências de autodisciplina, responsabilidade, cooperação e de
resolução de problemas.
Segundo alguns autores, esta abordagem diferencia-se das restantes pelo facto
de esta não ser humilhante, nem para as crianças nem para os adultos. O controlo
excessivo implica, normalmente, punições que humilham as pessoas.
Desta forma a questão que se coloca é: “Qual é o preço a pagar quando o
controlo é excessivo parece resultar com certas crianças?”
As investigações mostram que as crianças que experienciam uma grande dose
de castigos se tornam rebeldes ou medrosamente submissas.
Deveríamos pensar na palavra Disciplina, pois por vezes esta é mal interpretada.
Disciplinar não significa castigar ou punir. A palavra disciplina, vem do termo latino
“disciplus” ou “discípulo”, que significa seguidor da verdade de um princípio. As
crianças não se tornaram seguidores da verdade e de princípios, a não ser através de
uma motivação interna, assim como a punição e a recompensa são uma motivação
externa.
Na abordagem da Disciplina Positiva, temos que compreender alguns conceitos,
tais como:
 As crianças são seres sociais

O comportamento é determinado dentro de um contexto social. As crianças


tomam decisões sobre si e sobre o seu comportamento, essencialmente baseados no
modo como se veem a si e na relação que mantem com os outros, bem como a forma
como pensam que os outros os veem.
 O comportamento é orientado para uma finalidade

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O comportamento baseia-se com a finalidade de atingir um contexto social.
Assim sendo, as crianças não têm consciência clara da finalidade que esperam
concretizar, ou seja, por vezes, têm ideias erradas de como conseguir o que querem e
comportam-se de formas que atinjam, precisamente o oposto.
Dreikun (1974), citado por Nelsen (2002), afirma que as crianças são muito boas
a percecionar, mas más a interpretar. Vejamos o seguinte exemplo:
“ A Joana é uma menina de dois anos e foi ao hospital com a sua mãe e a sua
irmã recém-nascida que estava doente. A Joana durante o tempo que estava no
hospital, percebe a quantidade de atenção que a sua mãe dedica à sua irmã recém-
nascida e interpreta que a sua mãe gosta mais da sua irmã do que dela”.
Claro que isso não é de todo verdade, mas o que está correto não é tão
importante, como aquilo que a Joana pensa.
O comportamento da Joana irá basear-se naquilo que acredita que é verdadeira
e não na própria verdade. Desta forma, a finalidade da Joana é reconquistar o seu lugar
especial junto da mãe e acredita, erroneamente, que a forma de concretizar essa
finalidade é agir ou comportar-se como um bebé. O que acontece é que com este
comportamento, ela atinge, precisamente o oposto, fazendo com que a mãe se sinta
frustrada e a rejeite, em vez de ser carinhosa e afetiva com ela.
A principal finalidade de uma criança é sentir que pertence a alguém e que é
importante
Os conceitos anteriores interligam-se com este, pois a finalidade de todo o
comportamento é atingir o sentido de pertença e sentir-se importante no meio social
onde vive.
Uma criança mal comportada é uma criança desencorajada
Uma criança que se comporta mal está a tentar dizer-nos “Eu não sinto que
pertença a alguém ou que seja importante.”. Quando a criança se porta mal, nem
sempre é fácil por os adultos a perceber aquilo que as crianças querem realmente
dizer: “ Eu quero sentir que pertenço!”
O que os adultos deverão então tentar compreender a criança (estas apenas
deseja sentir-se integrada, apenas não sabe muito bem como concretizar esse objetivo)
e ser eficazes na ajuda da mudança de comportamento.
 Interesse social

Este é um conceito muito importante a ser ensinado e transmitido às crianças.


Dreikun (1974), citado por Nelsen (2002), afirma que não devemos fazer nada
por uma criança que ela consiga fazer sozinha. Pois quando fazemos demasiado pelas
crianças retiramos-lhe a oportunidade de desenvolverem, através da sua própria
experiência, a crença de que são capazes
Os mesmos autores referem ainda que o primeiro passo no ensino do interesse
social é a criança confiar em si própria. Assim ela estará pronta a ajudar os outros e a
sentir-se extremamente capaz de o fazer.
Na verdade, nós encontramo-nos numa época de superpais e super-professores
e super-adultos, na qual as crianças aprendem a esperar que o Mundo as sirva, em vez
de estarem ao serviço do Mundo. Estão são as crianças que pensam que é injusto se
não obtêm aquilo que desejam.

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Para contrariar estes ciclos viciosos, devemos então estimular o interesse social,
incluindo as crianças e os jovens na participação de discussões, regras, opiniões, nas
responsabilizações de determinadas tarefas, bem como a partilha das mesmas.
A partilha de tarefas bem como a estimulação para as responsabilidades e
competências, faz aumentar o sentimento de pertença, bem como experienciarem o
interesse social.
O interesse social através do aconselhamento de pares
O trabalho a pares estimula o interesse social, bem como fortalece as
responsabilidades, aceitação social, sentimento de pertença e de partilha.
 Igualdade

Igualdade não significa “o mesmo”. Por igualdade entende-se que todas as


pessoas têm o direito à dignidade e ao respeito. Uma das razões desta abordagem
exclui as técnicas de humilhação, pois estas são contrárias aos conceitos de igualdade e
de respeito mútuos.

 Aprendizagem com os erros

Na nossa sociedade, somos ensinados a ter vergonha dos nossos erros. Todos
somos imperfeitos, pelo que necessitamos de conseguir ter coragem de mudar as
nossas crenças.
Quando os pais, professores, adultos no geral enviam às crianças mensagens
negativas acerca dos seus erros, a sua intenção é, normalmente, boa, pois eles estão a
tentar motiva-las a serem melhores, para seu próprio bem.
A verdade é que os adultos tê medo de não estar a cumprir suficientemente
bem a sua tarefa, se não obrigarem as crianças a agir melhor. Muitos deles estão mais
preocupados com o que os vizinhos vão pensar do que com aquilo que as crianças
estão a aprender.
Outros receiam que as crianças nunca irão aprender a proceder melhor, se não
lhes provocarem medo e humilhação.
Este tipo de comportamento na verdade acontece porque a grande maioria tem
medo e não sabe proceder de outra forma, e pensa que se não incutir sentimentos de
culpa, vergonha, sofrimento, estará a agir de forma permissiva.
Muitas vezes os adultos encobrem os seus medos, agindo de uma forma ainda
mais controladora.
No entanto, podemos efetivamente utilizar um método, que não é permissivo,
mas motiva as crianças a agir melhor, sem interferir na autoestima da criança.
Nós, adultos também somos corresponsáveis pelos erros que as crianças
cometem, pois quer dizer que não dedicámos tempo suficiente à sua formação e
estimulação. Assim devemos de ensinar às crianças que os erros cometem-se e que
estes são uma oportunidade de aprendizagem
Este processo de aprendizagem implica:
 O reconhecimento do erro: “Cometi um erro!”
 Reconciliação: “Peço desculpa!”

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 Resolução: “vamos trabalhar juntos na solução”

A ideia central é que é mais fácil assumir a responsabilidade por um erro,


quando este é visto como uma oportunidade para aprender e não como algo de mau.
Se encararmos os erros como coisas más, temos uma tendência natural de nos
sentirmos incapazes, desencorajados, tornando-nos por outro lado, mais defensivos,
evasivos e críticos.
Se os erros forem entendidos como oportunidades de aprendizagem,
reconhece-los, mais facilmente nós os resolvemos.
Outros autores, (Benoit, 2001; Brazelton & Sparrow, 2004) afirmam que o
grande objetivo da disciplina é educar uma criança para ser emocionalmente
competente e moralmente desenvolvida mais do que ser uma criança obediente. As
estratégias de disciplina são modificadas à medida que a criança progride na aquisição
de competências, estando diretamente relacionada com a idade e com os diferentes
estádios do seu desenvolvimento.
As estratégias disciplinares utilizadas pelos pais deverão produzir na criança os
resultados esperados, ou seja, cessar o comportamento inadequado, recuperar o
controlo das emoções e acalmar-se, compreender o efeito que as suas ações têm nos
outros e saber quais serão as suas consequências, reparar o mal feito e finalmente
pedir desculpa e ser perdoada.
Importa referir que a prática disciplinar constitui um projeto a longo prazo e
como tal, não poderá ser esperado que os comportamentos adequados da criança
aconteçam da noite para o dia, sendo necessário por parte dos pais, muita dedicação,
paciência e persistência, uma vez, que nenhuma estratégia atua por magia.
As crianças precisam de errar antes de acertar, os erros, os acidentes, os
desajeitamentos são necessários para que se desenvolvam bem, aprendam, e se
sintam confiantes.
Existem algumas estratégias disciplinares que poderão ser classificadas em três
principais métodos:
 Métodos Positivos
 Métodos Neutros
 Métodos Negativos.

Métodos Positivos
São aqueles que promovem o autocontrolo, a responsabilidade, a cooperação,
o reconhecimento dos erros e o impacto que eles provocam nos outros. Por isso, a
forma positiva de disciplinar vale a pena ser experimentada na educação das crianças.
As estratégias positivas são as que deverão ser privilegiadas em primeiro lugar,
atendendo que são eficazes a curto, médio e longo prazo, por respeitarem a criança.
Alguns dos métodos positivos englobam os avisos, fazer uma pausa, reparar, pedir
perdão, planear, entre outros.

OS AVISOS
Ajudam a criança a estabelecer limites referentes a atividades de que não quer
prescindir. Avisar antecipadamente a criança da mudança da atividade que irá ocorrer

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brevemente, os pais estão a ajudar a prepará-la para a frustração que daí advêm.
“Daqui a 15 minutos vamos ter que arrumar os teus brinquedos para ires para a
cama”. Passado 5 minutos o aviso deverá ser lembrado e finalmente no último
momento é efetuado de forma firme "chegou a hora. Eu ajudo-te a arrumares as
coisas".
Os avisos preparam a criança para os acontecimentos seguintes e oferecem
consistência à tomada de decisão dos pais, fazendo diminuir a resistência da criança e
ajudam a preparar-se para a mudança. Esta estratégia funciona apenas se for
cumprida. Utilizar os avisos de forma consistente e firme não é o mesmo que usar a
rigidez, o autoritarismo ou as ordens.
FAZER UMA PAUSA
É também conhecido por diversos nomes como fora-de-jogo, o retiro, a
paragem da ação, o tempo de reflexão, o descanso, entre outros.
De qualquer modo, fazer uma pausa significa sempre um isolamento breve e
imediato, num ambiente inofensivo e seguro. Para o efeito, poderá ser utilizado uma
cadeira, o quarto da criança ou uma divisão da casa onde não existam muitos estímulos
e permita que a criança se acalme, sem interação dos pais.
A criança para se controlar não precisa de ficar isolada mais tempo do que o
necessário. O período de pausa deverá ser curto e proporcional à idade, sendo
recomendado um minuto por cada ano. Assim três anos correspondem a três minutos
de pausa.
Depois da criança se acalmar, os pais devem conversar sobre a situação,
calmamente de modo a fazê-la perceber que apesar de a deixarem sozinha não a estão
a abandonar. Porém, uma criança forçada a sentar-se numa cadeira ou num canto da
sala perante os olhares de um grupo de colegas poderá fazer com que se sinta
humilhada.
OPORTUNIDADE DE REPETIR O COMPORTAMENTO CORRECTAMENTE
É uma ótima maneira da criança readquirir o autocontrolo e sentir-se
recompensada. Os pais ao ajudarem a criança a fazer as coisas bem, estarão a dar-lhe
uma oportunidade de ser bem-sucedida e competente.
No entanto, insistir demasiado numa segunda tentativa poderá fazer que a
criança se senta insegura nas suas capacidades. Assim, a tarefa poderá ser decomposta
em pequenos passos, solicitando à criança para repetir apenas os passos que é capaz
de fazer bem e elogiá-la por isso.
Quando os pais reconhecem o comportamento positivo dos seus filhos, estes
vêem-se como pessoas bem-sucedidas e boas. Esta autoimagem positiva motivará a
criança a cooperar como também lhe proporcionará mais amor-próprio, confiança e
sentido de competência.
OPORTUNIDADE DE REPARAR
Inclui as consequências das ações, reparar e pedir perdão. As desculpas e as
reparações ajudam a criança a reconhecer os sentimentos dos outros e a respeitá-los.
As crianças mostram-se muito mais empáticas quando os pais têm o hábito de
chamá-las a atenção para as consequências do seu comportamento, "vê como ela ficou
triste".

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Para ajudar a criança a estabelecer a ligação entre o seu comportamento e a
necessidade de reparação, os pais devem escolher consequências que resultem da má
ação. Uma consequência que não esteja relacionada com a ação poderá tornar-se
confusa para algumas crianças impedindo-as de aprender a lição.
As consequências para serem eficazes devem ser impostas no momento
presente para que a criança compreenda a relação entre a ação e o resultado.
As consequências escolhidas pelos pais devem afetar diretamente a criança "até
ao almoço se o jogo continuar desarrumado no sofá, vou ter que guardá-lo no meu
quarto até à noite".
Se a consequência demorar tempo demais (ficar sem o jogo a semana inteira) a
criança acaba por perder o interesse no jogo, o que deixa de ser um incentivo a um
melhor comportamento.
OBTER O PERDÃO
É o propósito do pedido de desculpas e da reparação. As crianças ao saberem
que podem ser perdoadas, aprenderão a perdoar-se a si próprias no futuro. O perdão
possui um efeito libertador. O facto da criança se sentir perdoada, cria a esperança e o
incentivo para melhorar o seu comportamento.

O PLANEAMENTO
Ensina a criança a planear e a resolver problemas, além de a ajudar a aprender
a prestar atenção aos seus sentimentos.
Muitos dos comportamentos inadequados da criança são previsíveis que
aconteçam em determinados contextos. As situações que poderão provocar problemas
devem ser discutidas previamente, no sentido de planear alternativas em conjunto,
"eu sei que é difícil para ti, andares de carro durante tanto tempo. Que coisas podemos
trazer para te manteres distraído?"
O HUMOR
Constitui uma estratégia agradável de ajudar a criança a assumir o controlo dos
seus sentimentos e a alterá-los, modificando por conseguinte os seus atos.
Pronunciar alguma afirmação com sentido de humor sobre uma situação que
está a aborrecer toda a gente, constitui uma forma de ver as coisas sob outra
perspetiva, impedindo que os problemas assumam grandes proporções.
Este método faz maravilhas, especialmente com as crianças mais pequenas. A
diversão ou a distração poderá ser uma estratégia promotora de boa disposição, no
sentido de facilitar a cooperação por parte da criança.
AS ROTINAS
São essenciais na vida das crianças. Desde cedo precisam de ter horas para
comer, dormir, brincar, estar com a mãe e com o pai etc. A criança habituada às rotinas
responde bem a afirmações firmes como: "agora está na hora de fazer isto...?" ou
"agora vamos fazer aquilo...".
Normalmente as crianças são resistentes a mudanças, pois precisam de tempo
para fazer as coisas num ritmo ordenado.
As rotinas conferem repetição, ritmo, segurança e previsibilidade. A
imprevisibilidade perturba a criança, mantendo-a em estado de alerta.

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MÉTODOS NEUTROS
Poderão ser utilizados pontualmente visto que a sua eficácia é limitada a curto e
a médio prazo. Estes métodos são apenas úteis algumas vezes e dependem da criança
e da situação específica.
São sobretudo indicados quando os métodos positivos se revelam em parte
ineficazes ou quando a situação exige uma intervenção rápida (por exemplo quando a
segurança da criança está em perigo).
Exemplos de estratégias neutras incluem a perda de um privilégio,
cancelamento de convites ou adiar atividades agradáveis, proibir jogos de computador
e televisão, ignorar o mau comportamento etc.
MÉTODOS NEGATIVOS
Dizem respeito a todas as estratégias de disciplina que prejudicam a médio e a
longo prazo a autodisciplina.
Algumas das estratégias negativas eventualmente utilizadas na educação dos
filhos incluem, as ameaças, as humilhações, os gritos e os sermões, as críticas e os
castigos físicos. Estes métodos negativos desvalorizam a criança, destroem os laços
afetivos entre pais e filhos e, produzem ressentimentos, raiva e hostilidade.
Os sentimentos de inferioridade, rejeição e diminuição da autoestima induzidos
por estes métodos poderão perdurar ao longo do desenvolvimento da criança,
podendo até serem transportados para a vida adulta, afetando o seu equilíbrio
emocional.
Assim sendo podemos concluir que a disciplina é um desafio para toda a vida e
que os alicerces da aprendizagem começam muito cedo, a partir do momento que o
bebé nasce.
As experiências vividas nos primeiros anos de vida são determinantes para o
futuro. Investir na primeira infância é preparar a criança para a vida. Para que venham
a ser pessoas responsáveis, íntegras, conscientes, participativas e ativas na sociedade
e, acima de tudo que sejam felizes, as crianças devem ser orientadas com consistência,
firmeza, muito carinho e amor.
3. EDUCAÇÃO ESFINCTERIANA

A educação esfincteriana, a sua aprendizagem, faz-se, normalmente, entre o 2º


e o 4º ano de vida da criança, acompanhando uma fase de grandes mudanças físicas,
cognitivas e socio afetivas, em que a criança deixa de ser bebé e inteiramente
dependente do adulto, para evoluir como um ser humano progressivamente mais
capaz de usar os seus sentidos e as experiências quotidianas para se conhecer e
conhecer o Mundo que o rodeia, dando assim passos decisivos no caminho da
automatização.
Assim o controlo esfincteriano, é um dos marcos do desenvolvimento infantil.
Este é sem dúvida um dos grandes desafios que a criança enfrenta, pois além de
necessitar controlar seus esfíncteres urinário e intestinal, necessita se adaptar aos
valores culturais e sociais do ambiente em que está inserida. Cada cultura apresenta
expectativas e métodos próprios. Os fatores fisiológicos e psicológicos também podem
influenciar esse controlo.

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Os hábitos urinários e intestinais adequados são importantes para o
funcionamento adequado dos respetivos sistemas (urinário e intestinal). Uma
aquisição tardia do controle esfincteriano pode estar relacionada ao aumento da
prevalência de disfunções das eliminações observada nos últimos anos. Outras
patologias que podem estar relacionadas com a educação esfincteriana inadequado
são as infeções urinárias de repetição, enurese, obstipação, recusa em ir à casa de
banho e a encoprese.
3.1. A aprendizagem da higiene

A maioria das crianças começa a ser capaz de largar as fraldas durante o dia até
aos dois anos e meio, três anos, com acidentes ocasionais e está preparada para
tirar as fraldas de noite até aos quatro anos.
Esta aprendizagem representa uma tarefa de desenvolvimento importante
durante a fase pré-escolar a par de outras competências de autonomia ligadas ao
sono, à alimentação e à higiene diária e é valorizada pela sociedade como um sinal
de maturidade e adaptação, e pelos pais como um primeiro degrau no sentido da
autonomização da criança
3.2. Processo de aquisição do controlo dos esfíncteres

Entre os dois e quatro anos as crianças adquirem o reconhecimento da


necessidade de urinar e a capacidade de reter a urina alguns minutos. Até aos quatro
anos e os cinco anos as crianças são capazes de iniciar o ato de urinar voluntariamente
seja qual for o volume e urina na bexiga.
Quanto as fases de desenvolvimento do controlo das fezes são menos claras. O
controlo das fezes, pelo próprio processo fisiológico envolvido, é geralmente atingido
antes do controlo da urina, normalmente na segunda metade do primeiro ano. Se a
criança tem hábitos intestinais muito regulares e pais atentos, que a colocam no bacio
à hora provável (geralmente após as refeições), a transição para a fase de fazer a
maioria das evacuações no bacio é rápida. Geralmente entre os 24 e os 30 meses a
criança é capaz de antecipar em alguns minutos a necessidade de evacuar.
As perturbações que poderão estar associadas à educação esfincteriana são a
enurese e a encoprese, que iremos abordar seguidamente:

3.3. ENURESE
3.3.1. Enurese Infantil
A Enurese define-se como a passagem involuntária de urina para as roupas ou
cama, depois de idade em que a criança devia ter feito a aprendizagem do controlo dos
esfíncteres (a idade cronológica da criança deve ser de no mínimo 5 anos, ou, para
crianças com atrasos do desenvolvimento, uma idade mental de no mínimo 5 anos), e
na ausência de outra patologia orgânica.
Para corresponder a um diagnóstico de Enurese, a micção deve ocorrer no
mínimo duas vezes por semana por pelo menos 3 meses, ou então deve causar um
sofrimento ou prejuízo significativo no funcionamento social, académico ou outras
áreas importantes na vida do indivíduo

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É fundamental relembrar que a enurese é involuntária, pelo que a criança não
deve ser castigada ou culpabilizada. Um ambiente de ansiedade ou rigor excessivos em
relação a este problema podem tornar-se nocivos e adiar a resolução.
A enurese consiste na micção involuntária a partir de uma idade na qual já se
deveria ter adquirido o controlo da bexiga.
Na ausência de situações adversas, o controlo dos esfíncteres, quer diurno quer
noturno, ocorre, em cerca de 98% das crianças, até aos 5 anos de idade.
A enurese pode ser noturna (quando ocorre apenas durante o sono) ou diurna
(quando ocorre com a criança acordada). A noturna é de longe a mais comum. São
vários os fatores que contribuem para esta situação e, geralmente, estão relacionados
com a profundidade do sono, a menor capacidade da bexiga e uma maior produção de
urina durante a noite.
A enurese noturna pode ser considerada de dois tipos:
 Primária – Sendo a que ocorre todas as noites;
 Secundária - quando se verifica após um período de controlo prévio,
geralmente mais de um ano. A secundária exige a investigação de fatores
orgânicos e emocionais

3.3.2. Conselhos que ajudam as crianças com enurese


Os pais podem e devem ajudar a criança a resolver este problema incentivando-
a através de, por exemplo, um sistema de prémios, à medida que vai conseguindo o
controlo. É fundamental relembrar que a enurese é involuntária, pelo que a criança
não deve ser castigada ou culpabilizada. Um ambiente de ansiedade ou rigor excessivos
em relação a este problema podem tornar-se nocivos e adiar a resolução.
Existem ainda medidas práticas que ajudam na resolução do problema, tais
como:
 O quarto da criança deverá sempre ficar o mais próximo possível da casa de
banho, de modo a facilitar o acesso;
 Deixar uma luz acesa;
 Não encorajar o uso de fraldas;
 Proteger o colchão;
 Estimular a criança a ingerir líquidos durante o dia para que possa reconhecer a
sensação de bexiga cheia;
 Reduzir a ingestão de líquidos à noite.

Na maioria das crianças, a enurese trata-se seguindo estas recomendações. Se


optar por recorrer ao uso de fármacos, deve fazê-lo com a prescrição de um médico
especialista na área. Estes medicamentos fundamentam a sua ação na produção de um
efeito antidiurético.
3.3.3. Enurese na adolescência
Estudos mostram que entre 2 a 5% dos adolescentes permanecem enuréticos,
causando sérios problemas ao nível familiar, social e de autoestima para a o jovem.

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Desta forma, surge a questão “Porque é que alguns adolescentes ainda urinam
na cama?”
Existem várias possíveis para esta questão, nomeadamente:
 A predisposição genética (a possibilidade dos filhos terem enurese aumenta
entre 45 a 75 % se 1 ou os 2 pais (respetivamente) tiveram enurese.
 A produção de maior quantidade de urina durante o sono (o normal é as
pessoas produzirem menos urina durante o sono, por ação de uma hormona
chamada Vasopressina. Os jovens que não produzem esta hormona em
quantidade suficiente, a micção ocorre porque o volume de urina produzido é
maior do que a capacidade da bexiga.
 Imaturidade neurológica no mecanismo de acordar ou na inervação (atividade
dos nervos nas funções orgânicas) da bexiga.
 Fator emocional – raramente é fator que desencadeia, mas a Enurese influência
de forma muito negativamente a personalidade da criança, através de
sentimentos de vergonha e culpa.

3.3.4. Quais as consequências da Enurese?


A enurese tem várias consequências para os jovens, tais como:
 Risco da perda da autoestima na fase de formação da personalidade (criança ou
jovem inibido, retraído, reprimido, isolado, frustrado, com medo, vergonha,
desprezo por si mesmo, culpa, etc.);
 Repercussão social como falta às aulas, baixo rendimento escolar, dificuldades
de relacionamento com os colegas, não poder participar de acampamentos,
viagens ou dormir na casa de seus amigos, primos, avós etc.;
 Pais ou outros familiares que podem estar frustrados, intolerantes por não
conseguirem vencer o problema.
 Custo económico e trabalho envolvido na limpeza das roupas do jovem, bem
como das roupas de cama e do colchão.
 Estudos mostraram que 20 a 36% dos pais punem seus filhos pela enurese

A enurese como já vimos anteriormente, tem tratamento, sendo este bastante


benéfico não só para o jovem, mas também para os seus familiares.
O controlo noturno da micção significa para o jovem que ele é competente, que
tem controlo sobre seu corpo. Significa que venceu esta etapa da vida, e rapidamente
recupera sua autoestima. Para a família significa uma vitória, uma etapa vencida na
socialização deste jovem, a certeza de que ele não era doente, somente demorou um
pouco mais para conseguir o controlo noturno da micção.
Para que este tratamento seja eficaz, o jovem e os seus pais deverão ir a um
médico especialista, que após conhecer o histórico da criança, examina-la e solicitar
exames, poderá indicar o tratamento ideal para cada caso. As opções incluem:
 Restrição hídrica - o jovem deve estar motivado, e não ingerir líquidos 2 horas
antes de deitar, até que tenha total controlo sobre sua micção. Também deve

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evitar produtos que contenham cafeína, pois ela é diurética e estimula a
contração da bexiga.
 Urinar ao deitar e ao levantar - é essencial criar o hábito de urinar logo antes de
deitar e logo ao acordar, esvaziando completamente a bexiga.
 Recompensa pelas noites secas - A motivação é importantíssima. Os pais devem
valorizar cada dia de vitória, com elogios, carinhos, demonstrando seu
contentamento e participando ativamente do tratamento.
 Treinamento da micção – com exercícios que orientam o controle do ato de
urinar.
 Tratamento da obstipação ("intestino preso" ou "prisão de ventre") – há uma
importante correlação entre estes problemas, e a cura da constipação aumenta
a possibilidade de sucesso no controle da micção;
 Alarmes - é a terapia de condicionamento. De noite o jovem usa o sensor
próximo aos genitais, sensível às primeiras gotas de urina, e que dispara um
alarme sonoro fixo na roupa, no ombro, para acorda-la. O jovem levanta, vai à
casa de banho e urina. Após 3 a 6 meses, criou-se o condicionamento e não
precisará mais do sensor para saber que bexiga cheia é hora de urinar. Tem alto
nível de sucesso, e ausência de efeitos colaterais.
 Medicação que diminui a produção noturna de urina, com ótimos resultados. É
útil ao dormir na casa dos amigos, ou durante acampamentos e viagens. Em
menos de 5% dos pacientes podem ocorrer efeitos colaterais, como náuseas e
dores abdominais. Só deve ser usado com acompanhamento médico.
 Acompanhamento psicológico - é importante auxiliar o jovem a não se sentir
culpado e recuperar sua autoestima, acreditando na sua capacidade de vencer.

3.3.5. O papel dos pais


Os pais têm um papel muito importante no processo de tratamento, ajudando a
desdramatizar o problema. É preciso enfrentar o problema com tranquilidade,
encorajando a criança pelo esforço que está a fazer para o ultrapassar.
É igualmente importante, os pais procurarem ajuda e não ficarem à espera que
“o problema passe por si só”. A criança não molha a cama para chamar à atenção ou
por ser preguiçosa, trata-se de uma situação que ela não controla. Por isso “sermões” e
castigos, só vão fazer com que a criança se sinta ainda mais culpada, frustrada e
angustiada.
No dia-a-dia, os pais deverão também tentar alterar alguns hábitos prejudiciais,
evitando que a criança beba muitos líquidos antes de ir para a cama e
lembrando-a da necessidade de ir à casa de banho antes de se deitar.
3.3.6. Evitar a vergonha
Evitar a vergonha é um dos aspetos importantes a ter em conta, pois devemos
proteger a autoestima da criança.
Por forma a minimizar esta, aquando o seu filho ou filha deseja ir dormir a casa de um
amiguinho ou amiguinha, por exemplo, existem no mercado produtos de higiene
infantil que ajudam a minimizar as consequências da enurese, tais como, umas cuecas

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de proteção noturna, superabsorventes, mas com um aspeto não muito diferente da
roupa utilizada pelas crianças. Assim, ela evitará os embaraços de uma cama molhada.
3.5. ENCOPRESE

Por encoprese entende-se "Qualquer defecação involuntária que ocorra numa


criança que já tenha ultrapassado a idade de 2 anos e na ausência de lesão evidente do
sistema nervoso ou de outra afeção orgânica". (Flower,1882; Henoch, 1889,
Weissenberg, 1926, citado por Barros, 2004).
Trata-se, portanto, de uma falta de controlo esfincteriano anal, que é
geralmente adquirido até aos 2 anos e meio de idade, caracterizando-se
sobretudo por ser uma defecação involuntária, não diretamente atribuída a
doenças fí sicas tais como, anomalias retais e anais, a fraturas da coluna
vertebral, infeções agudas e outras (que serão "incontinência intestinal" e não
encoprese).
A encoprese não é uma doença do esfíncter anal, mas de um problema
psicológico que afeta o seu controlo normal. Tal como a enurese, a encoprese é apenas
um dos sintomas de um quadro psicopatológico, pois esta pode aparecer associada a
sintomas, tais como, tiques, manipulações (roer as unhas, sucção no polegar), gaguez,
timidez, medos, birras, delinquência, etc.
Regra geral, não há qualquer doença de base responsável por este problema.
Cerca de 80% das crianças têm história de obstipação (prisão de ventre) ou de dor a
defecar desde há alguns anos.
Os pais ao verem os filhos com as cuecas sujas com fezes, normalmente
líquidas, pensam que o filho tem diarreia, embora o problema seja exatamente o
oposto.

3.4.1. Como surge a encoprese?


É simples de entender. Primeiro, a criança tem dor ao defecar. A dor é
provocada pelas cólicas ou pelo facto de as fezes serem mais duras. Para evitar a dor, a
criança acaba por reter as fezes, evitando a ida à casa de banho. Com o tempo, o reto
vai-se distendendo, perdendo sensibilidade, e acabam por se acumular quantidades
cada vez maiores de fezes duras. A certa altura, o reto está totalmente preenchido por
fezes duras, quase sem sensibilidade, e cada vez que chegam novas fezes líquidas à
parte terminal do intestino, conseguem passar pelo ânus sem que a criança se
aperceba, acabando assim por sujar as cuecas involuntariamente.
Inicialmente, só passam pequenas quantidades, razão pela qual os pais não se
apercebem da situação ou julgam que a criança se está a limpar mal após a ida à casa
de banho. Com o tempo, a quantidade começa a aumentar e, como estas fezes não
passam pelas fases de digestão normal do intestino, tornam-se pegajosas e com muito
mau cheiro. Em geral, esta situação manifesta-se mais frequentemente durante o dia,
enquanto a criança está ativa, e muito raramente de noite, durante o sono.
A encoprese não é considerada uma alteração do comportamento normal da
criança. Pelo contrário, devido à encoprese, a criança pode passar a manifestar
alterações comportamentais, nomeadamente baixa de autoestima, mau rendimento

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escolar e até conflitos com os pais. Frequentemente, estas situações tendem a arrastar-
se por a criança, com vergonha, negar e não aceitar que tem este problema.

3.5. Origem das perturbações de eliminação


Apesar da procura de causas genéticas, acredita-se que é a combinação de
vários fatores que explica a maioria dos casos individuais. Alguns determinantes
psicológicos até agora estudados sugerem que, a origem da perturbação pode advir de:
falhas na aprendizagem e manutenção dos hábitos de higiene, aprendizagem
prematura, tardia ou pouco sistemática; acontecimentos de vida stressantes e
ansiedade.
Outro fator, poderá ser a associação da eliminação com dor e as experiências
aversivas durante a aprendizagem e manutenção dos hábitos de higiene podem,
nalguns casos, ser causa direta.
O que fazer nestas situações? O Primeiro é necessário retirar as fezes duras que
estão no reto. Esta fase pode demorar alguns dias e em geral só é possível com a ajuda
de clisteres. Depois de esvaziado o reto e toda a parte terminal do intestino é
necessário evitar que esta situação se repita, assegurando a ida diária à casa de banho.
Para isso, poderá ser recorrer a medicamentos, tais com, laxantes orais, que tornarão
as fezes moles e evitarão que a defeção seja dolorosa. Esta terapêutica deve durar
meses até que se tenha estabelecido uma rotina diária.
É recomendável uma dieta que seja rica em fibras, ou seja, sopa de legumes
todos os dias e saladas. Também é importante que beba muita água para que as fezes
sejam mais moles.

6.6. Tratamento

Existe uma grande diversidade de abordagens que apresentam medidas


terapêuticas eficazes para o tratamento das perturbações de eliminação.
Salientam-se além da terapia farmacológica, as medidas gerais de reeducação
que ressaltam a importância do desenvolvimento de capacidades individuais da criança
no sentido da autonomia com o apoio ativo e permanente da família;
6.7. O papel dos Pais

Uma vez que um terço das crianças têm encoprese porque não sabem defecar -
julgam que está a fazer força para fora quando, na verdade, estão a contrair o esfíncter
e a evitar a dejeção.
A atitude dos pais em relação à encoprese também é um determinante
psicológico muito importante, uma vez que a aquisição da higiene é um desafio as
competências educacionais dos pais. A atitude dos pais quando é pouco correta e
sistemática, ou quando centra mais a atenção nos insucessos do que nos sucessos da
criança, favorece a emergência destas perturbações.
Por isso, caso a criança apresente regularmente as cuecas sujas com fezes,
mesmo que esta tente disfarçar ou prometa que não volta a acontecer, os pais não
devem zangar-se com a criança, pois esta não o fez de propósito.

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A questão é que é verdadeiramente penoso e embaraçoso para a criança. Desta
forma, os pais, deverão encarar isto com a seriedade de qualquer problema médico.
7. SONO E PROBLEMAS ASSOCIADOS

O sono é extremamente importante para a recuperação física e psicológica do


ser humano. Na vida atual, no entanto, nem sempre ele é respeitado, principalmente
nas grandes cidades. As atividades crescentes das crianças, obrigações, atividades
extracurriculares, muitas vezes impõem um padrão de sono irregular, insatisfatório, e
em ambientes e condições inadequadas.
É essencial o conhecimento das funções e características do sono, para que
possamos entender melhor os diversos distúrbios de comportamento da criança
decorrentes dos maus hábitos na hora de dormir e o significado dos múltiplos
despertares noturnos.
Segundo estudos polissonográficos (ou exames de sono) e eletrencefalográficos
(exames ao cérebro), o sono normal divide-se em vários ciclos no decorrer da noite,
sendo que cada ciclo dura em média 90 minutos no adulto e 50 minutos no lactente.
Após cada ciclo de sono é possível o indivíduo passar por um leve despertar,
nem sempre consciente. Este fato normal será importante na avaliação da criança que
acorda muito à noite.
Cada ciclo de sono divide-se em dois tipos fisiologicamente distintos:
 Não – REM - Non rapid eye movements ou “ Movimento não rápido dos olhos”
 REM rapid eye movements, ou "Movimento rápido dos olhos".

Sono NREM
O sono NREM (ou não-REM) ocupa cerca de 75% do tempo do sono e divide-se em
quatro períodos distintos conhecidos como estágios 1, 2, 3 e 4.
Estágio 1:
Começa com uma sonolência. Dura aproximadamente cinco minutos. A pessoa
adormece. É caracterizado por ser semelhante ao do estado de vigília. Esse estágio tem
uma duração de um a dois minutos, estando o indivíduo facilmente despertável.
Predominam sensações de vagueio, pensamentos incertos. Nessa fase, a atividade
onírica (sonhos) está sempre relacionada com acontecimentos vividos recentemente.
Estágio 2:
Caracteriza-se por a pessoa já dormir, porém não profundamente. Dura cerca de cinco
a quinze minutos. Nessa fase, os despertares por estimulação táctil, fala ou
movimentos corporais são mais difíceis do que no anterior estágio. Aqui a atividade
onírica (sonhos) já pode surgir sob a forma de sonho com uma história integrada.
Estágio 3:
Tem muitas semelhanças com o estágio 4, daí serem quase sempre associados em
termos bibliográficos quando são caracterizados. Nessas fases, os estímulos
necessários para acordar são maiores. Do estágio 3 para o estágio 4, há uma
progressão da dificuldade de despertar. Esse estágio tem a duração de cerca de quinze
a vinte minutos.
Estágio 4:

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São quarenta minutos de sono profundo. É muito difícil acordar alguém nessa fase de
sono. Depois, a pessoa retorna ao terceiro estágio (por cinco minutos) e ao segundo
estágio (por mais quinze minutos). Entra, então, no sono REM.
O sono NREM tem, pois, um papel revitalizande, sendo essencialmente um período de
conservação e recuperação de energia física.
Sono REM
O sono REM caracteriza-se por uma intensa atividade registrada no
eletroencefalograma (EEG) seguida por flacidez e paralisia funcional dos músculos
esqueléticos. Nesta fase, a atividade cerebral é semelhante à do estado de vigília.
Nesta fase do sono, a atividade onírica (sonho) é intensa, sendo sobretudo
sonhos envolvendo situações emocionalmente muito fortes.
Estudos também demonstram que é durante o REM que sonhos ocorrem. A
fase representa 20 a 25% do tempo total de sono e surge em intervalos de sessenta a
noventa minutos. É essencial para o bem-estar físico e psicológico do indivíduo
É a fase do sono na qual ocorrem os sonhos mais vívidos. Durante esta fase, os
olhos movem-se rapidamente e a atividade cerebral é similar àquela que se passa nas
horas, em que se está acordado. As pessoas acordadas durante o sono REM,
normalmente, sentem-se alertas, com maior índice de atenção, ou mais dispostas e
prontas para a atividade normal.
No lactente cada estágio perfaz cerca de 50% do ciclo. A duração do sono REM
vai diminuindo com a idade, chegando a 20% do sono total no adulto. A partir dos seis
meses o estágio não-REM começa a dividir-se em 4 fases. As fases l e 2 correspondem
ao adormecer, e as fases 3 e 4 ao sono profundo, quantificado pela dificuldade em se
acordar o indivíduo. O estágio REM também corresponde a um período de sono
profundo.
Durante este estágio a pessoa só acorda mediante fortes estímulos afetivos (p.
ex. o choro da criança para a mãe, o ruído do telefone para o médico, etc.)
A privação do sono REM causa perturbações mentais significativas, chegando a
surto psicótico em sete dias de privação.
Para além destas características, devemos igualmente salientar que a duração
do sono varia com a idade, ou seja:
 Um bebé à nascença, dorme cerca de 16 a 18 horas por dia;
 Por volta dos 6 meses, dorme entre 14 a 15 horas por dia;
 Aos 3/4 anos de idade, dorme 12horas por dia;
 Aos 10/12 anos de idade, dorme 10 horas por dia;
 Na idade adulta, este dorme cerca de 7 a 8 horas por dia;
 E, por último durante o envelhecimento, dormimos cerca de 5 a 6 hora por dia;

4.1.DISTÚRBIOS DO SONO NAS DIVERSAS FAIXAS ETÁRIAS


4.1.1. Pré-escolar (três a seis anos)
Os problemas mais comuns nesta faixa etária são a relutância a ir para a cama e
os pesadelos. Nesta idade sentem grande prazer em participar das atividades da família
até tarde:
Medos:

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Do escuro, de ficar sozinho, de insetos e animais. As sombras no quarto em
meia-luz podem ser interpretadas como monstros, pela frequente confusão entre
fantasia e realidade. O "quarto escuro" favorece o contato com o "mundo interno"
(mundo mental, de fantasias), por dificuldade de se ver o mundo externo (que está no
"escuro"). Aí a criança passa a entrar em contato com os "maus" e "bons"
pensamentos, sentimentos e fantasias. E são estas fantasias, inconscientes, que se
forem terroríficas, vão provocar os medos, "projetados" em objetos do mundo externo.
Adaptação social:
Após os três anos, devem-se avaliar causas psicológicas, ambientais ou
orgânicas, e diferenciá-las de fases normais do desenvolvimento.
Geralmente a partir desta idade (ou mesmo antes), a criança começa a
conquistar o mundo fora do lar.
Nesta adaptação social, início de escolinha, relacionamento com novos
amiguinhos e professores, grandes ansiedades são mobilizadas. P. ex., a ansiedade de
separação pode ser revivida. Os pais devem apoiar a criança nesta conquista
progressiva da independência, demonstrando satisfação por suas novas conquistas e
encorajando a aquisição de novas habilidades. Os problemas gerais de adaptação na
vida fora do lar também podem ser causa de distúrbios do sono.
Colocação de limites:
Os filhos de pais que trabalham fora podem querer prolongar o tempo precioso
em que ficam com eles, negando-se a ir deitar. Por outro lado, os pais, pelo sentimento
de culpa de permanecerem pouco tempo perto de seus filhos, podem ter dificuldades
em colocar limites, agravando o problema.
O ideal é que se organizem para que tenham algum tempo disponível para a
criança, mesmo que curto, mas que seja constante e previsível. Este tempo deve ser
respeitado para ficar realmente com a criança, e não ser aproveitado para outras
coisas, como ler jornal ou ver televisão, dando-lhe atenção em qualidade, já que não se
pode dar em quantidade.
Esta conduta aumentará a confiança nos pais, podendo contar com eles, ao
menos no horário combinado.
Hiperestimulação:
Evitar televisão, jogos de computador ou consolas e histórias que provoquem
muita emoção, bem como brincadeiras excitantes antes de dormir. Dar preferência
para atividades relaxantes e avisar a criança com antecedência de que o horário de
dormir se aproxima, para que tenha tempo de terminar sua brincadeira.
Rituais:
Seja qual for a causa, o pré-escolar normalmente protesta na hora de dormir.
Aumentam os rituais, pedem para contar histórias, pedem mais abraços e beijos, outro
copo com água, solicitam mais cinco minutos, fazem chantagens, etc. Insistem em
dormir na cama dos pais ou próximo a eles.
Nesses casos, a dificuldade dos pais na execução de sua autoridade reforça este
distúrbio de comportamento, provocando sua piora. Por outro lado, os pais devem
aprender a ter sensibilidade suficiente para diferenciar as ansiedades e medos
genuínos, frequentes nesta faixa etária, e tranquilizarem a criança.
Pesadelos:

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Após os três anos, algumas crianças já relatam sonhos. Os pesadelos, sonhos
carregados de ansiedade, geralmente acordam a criança. Ocorrem durante o estágio
REM do sono, em geral no último terço da noite. Se forem frequentes podem assustar
a criança, fazendo com que ela tenha medo de ir dormir.
Nestes casos está indicada pesquisar-se as fontes de ansiedade. Os pais devem
suprir as necessidades da criança de diálogo, afeto, segurança, regularidade dos
hábitos de sono e proteção contra hiperestimulações diversas.
Rotina:
Na hora de dormir, a criança deve ser avisada com antecedência, para que
tenha tempo de guardar os brinquedos, colocar o pijama, escovar os dentes, urinar.
Estes rituais devem ser encorajados, mas é importante que não sejam
excessivos. A criança deve deitar-se de preferência sempre na mesma cama, no mesmo
quarto, favorecendo a transição vigília sono.
Devemos lembrar, no entanto, que os pais que têm dificuldades em colocar
limites na hora de dormir, com certeza o têm também em outras situações durante o
dia, como na hora de comer, de brincar, de tomar banho, etc.
Hipersónia e apneias:
Nas crianças que apresentam híper sonolência diurna, deve-se suspeitar de
apneia do sono, embora esta causa seja rara em pré-escolares, causando vários
despertares noturnos.
Os múltiplos despertarem noturnos, interfere com o crescimento da criança.
Já que a primeira infância e a adolescência são períodos de crescimento rápido,
é possível que necessitem mais desta fase do sono durante estes períodos de
desenvolvimento. Portanto, nas crianças com défice de crescimento, pesquisar
detalhadamente também os hábitos de sono, além de outras investigações pertinentes
a cada caso.
O ronco é a tentativa vigorosa em tentar passar o ar através de uma glote
parcialmente obstruída por hipertrofia de amígdalas ou adenoides. Raramente esta
pode ser uma causa das apneias do sono.
4.1.2. Idade Escolar (dos 6 aos 13 anos)
Os distúrbios de sono nesta faixa etária são menos frequentes, embora possam
persistir alguns rituais, ou solicitam a permanência de alguma luz acesa. As parassónias
(são a manifestação noturna em forma de movimentos anormais durante o sono),
resultando na interrupção do sono.
Vários problemas podem afetar o sono das crianças. Geralmente, não são
graves e passam com a idade, mas é preciso dar-lhes atenção e ajudar a criança a
ultrapassá-los. Muitas vezes, o melhor remédio é a paciência.
Aparecem nesta faixa etária: insónias, sonambulismo, terror noturno,
sonilóquio (falar a dormir), enurese noturna, bruxismo.
Insónias
As insónias podem ser um problema temporário nas crianças, muitas vezes
associados aos momentos críticos do desenvolvimento. Muitos outros fatores podem
contribuir para um mau dormir, como qualquer mudança, seja, esta, de quarto, de
casa, de colégio ou escola, alterações na família ou doença.

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Sonambulismo
Sonambulismo é definido como um “semi-acordar e andar”. É de certa forma
semelhante ao terror noturno, dado que se fica na tal zona cinzenta entre o acordar e o
não acordar, no final do ciclo não-REM, equivalente ao sono profundo. Pode também
corresponder a fases de transição de ritmo de sono e a sonhos, e ocorre cerca de duas
horas após o deitar, embora seja variável de pessoa para pessoa.
Quando se sonha, o corpo fica imobilizado, caso contrário viveríamos (havendo
quem o faça), os sonhos de uma forma viva. Em algumas pessoas, sobretudo crianças,
os mecanismos de “paralisação”, não estão completamente desenvolvidos, pelo que a
pessoa vive o sonho ou a fase de transição de ciclo vagueando pela casa.
A criança com sonambulismo é incapaz de comportamentos complexos como
comer lanche na cozinha, escovar os dentes, etc. Estão de fato em risco de acidentes e
devem ser protegidas. O sonambulismo é mais frequente na infância e diminui na
adolescência, provavelmente devido ao amadurecimento do Sistema Nervoso Central
(SNC). Pode persistir por toda a vida. Indivíduos que apresentam sonambulismo têm
incidência de enurese noturna mais alta que a população geral.
Os episódios duram segundos ou minutos, ocorrendo nas primeiras horas de
sono. São dificilmente acordados e quando o são, ou ao despertar pela manhã, existe
amnésia do evento. Não é considerado fenómeno epilético, embora alguns estudos
demonstrem que o sonambulismo pode estar associado à epilepsia.
Para reduzir o risco de acidente, podemos:
 Ter uma luz de presença nos corredores e halls;
 Se a criança dormir num beliche, deverá ficar sempre na cama de baixo;
 Proteger as escadas;
 Fechar as portas exteriores;
 Quando der conta que o seu filho anda pela casa, reencaminhe-o suavemente
para a cama, orientando o percurso, sem falar ou dizendo um mínimo de
palavras possíveis com um voz suave e carinhosa.
 O sonambulismo passa com a idade, mas se piorar é importante falar com um
médico.

Terror noturno
Podem ter início no pré-escolar e persistir até a idade escolar. A criança sente-se
subitamente, com os olhos abertos, fica agitada, gritando e chorando com expressão
de terror. Mostra-se desorientada, não reconhece as pessoas que estão ao pé de si e
podem ainda referir que estão a ver pessoas estranhas ou animais. Mesmo estimulado,
raramente acorda, e caso acorde só se recorda confusamente ou não se recorda do
episódio.
Dura de 10 segundos a 20 minutos e quando a criança conseguir acalmar-se
volta a dormir calmamente. Durante o episódio há aumento substancial da frequência
cardíaca, e respiratória, podendo ocorrer ocasionalmente intervalos de apneia.
Nos adultos, geralmente as parassónias associam-se a distúrbios
psicopatológicos.
O terror noturno diferencia-se dos pesadelos, que são sonhos que causam
medo ou ansiedade. Ocorrem com maior frequência que o terror noturno, sendo mais

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comuns entre 3 e 8 anos, quando a confusão entre realidade, fantasia e conteúdo de
sonhos é mais intensa.
Perante episódios de terror noturno, os pais podem atuar de duas formas:
Apesar de esta não ser muito eficaz, os pais podem tentar que a criança acorde.
Se ela acordar e percecionar os pais, significa que já rompeu com o estádio anterior e
partir daí poderá regressar ao sono, se bem que possa mostrar medo.
Outra forma, que resulta com bastante frequência é não acordar a criança e,
pelo contrário reencaminha-la para o sono, como se estivéssemos a contar uma
história, como por exemplo, “ e depois veio o Ruca, ou a Barbie (ou qualquer outro
desenho animado que goste mais), e mais o teu ursinho, e então os maus forma
embora e foram todos fazer um grande ó-ó porque estavam muito cansados e foi
muito bom.”
Tudo isto em voz “off”, calma e tranquila, ajeitando a criança na cama e
transformando esse momento de completa disrupção numa reorganização corporal e
mental. Passado um pouco a criança está a dormir.
Pesadelos
Os sonhos acontecem na fase REM do sono, quatro a cinco vezes em cada noite,
mas depende de pessoa para pessoa, do que se passou durante o dia e da fase de
desenvolvimento em que se encontra.
Alguns sonhos são aterradores. E se a um pesadelo, um “sonho mau”, como as
crianças tão bem designam (porque também há sonhos bons, reconfortantes,
engraçados e que até desejamos que continuem quando acordamos), se junta um
estádio de alerta prévio mais intenso, então é provável que a criança acorde e se sinta
derreada e com medo.
Desconhece-se o que desencadeia o tipo de sonho. A atividade cerebral é
intensa e pode ser o cruzamento de informação e a associação de ideias que gera um
enredo desagradável. Sabe-se que certos incómodos físicos, tais como, camas
pequenas, dormir sobre um braço ou uma perna que esteja a magoar, ter a bexiga
distendida, ter frio, podem desencadear sonhos menos agradáveis.
A idade dos pesadelos, começa sobretudo por volta dos três anos, coincidente
com a fase em que a fantasia é mais intensa. Os sonhos são como filmes, de vez em
quando há filmes, “que metem medo”, e ter um pesadelo de vez em quando é normal.
Se estes se acentuarem e tornarem-se numa rotina, então é sinal que a criança não
está bem, podendo até ser apenas num período de mais stress, como por exemplo, a
entrada ou mudança de escola, mudança de casa, nascimento de um irmão, a morte de
alguém próximo, etc.
Vários autores referem que os estímulos recentes, em termos de “timing” de ir
para a cama, pode influenciar o tipo de sonho. Dito de outra forma, se uma criança
estiver a ver um filme de terror antes de se deitar, terá mais probabilidades de ter um
pesadelo. No entanto, tudo depende, mais do que o conteúdo, do inesperado e de
como a criança vive a situação.
Ou seja, um filme de terror é inesperado, com cenas em que até nós próprios
não conseguimos antecipar o que vem a seguir. Este é um fenómeno de insegurança.
Outra coisa são as histórias infantis em que há vilões, desde o lobo mau à bruxa má,
em que a criança sabe “que o bem irá triunfar”.

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O que devemos fazer quando uma criança acorda de um sonho mau?
A criança acorda mesmo e muitas vezes e até consegue lembrar-se do sonho. É
importante a presença dos pais para testemunhar que “tudo não passou de um
pesadelo”. E isso tem que ser dito mas, sobretudo, mostrado de uma forma afetiva,
com abraços, beijinhos e muito colinho. Só através do mimo, a criança consegue
libertar-se do medo.
A voz tranquila da mãe ou do pai ajudam muito, mas para isso não podem estar
a pensar em si, na noite interrompida, no trabalho do dia seguinte ou que já não vão
dormir essa noite.
Às vezes é preciso mostrar à criança que não existe nenhum monstro
escondido, mesmo que para isso seja necessário fazer uma vistoria ao quarto.
E, por último dizer-lhe taxativamente “Tiveste um sonho mau, foi só um
sonho!”. Posteriormente, pode utilizar o boneco ou um peluche que a criança goste
(servindo este de objeto transicional), e contar uma história, em que tudo vai ser bom
e bem mais divertido.
A análise do sonho deverá ficar para o dia seguinte, num ambiente de
brincadeira, do género “Vê lá o que foste sonhar! Sabes quando era pequenina, um dia
sonhei que um elefante tinha saído do Jardim Zoológico e dava banho a toda a gente
com a sua tromba!”.
Convém compreender quando os pesadelos se repetem ou quando são sempre
o mesmo tema, e há algum fator na vida da criança que lhe possa estar a provocar
stress. Se estes persistirem, será conveniente falar com o pediatra e caso seja
necessário ir a uma consulta de psicologia.
Sonilóquios: (Falar dormindo)
O conteúdo é incompreensível, e não revela segredos como se acredita. Os
sonilóquios apresentam-se em vários graus: desde murmúrios, palavras isoladas, até
discurso claro com frases coerentes. A voz é monótona, porém com tom mais afetivo.
Não tem significado patológico na criança.
Enurese
Também é um distúrbio do despertar, ocorrendo na fase 4. Existem dois tipos
de enurese noturna: a primária e a secundária.
A enurese primária, é frequentemente um problema familiar, sugere razões
médicas ou orgânicas, como obstruções uretrais em meninos e uretra ectópica em
meninas. É diagnosticada numa criança maior que cinco anos de idade que até então
não tenha conseguido um controle esfincteriano adequado por um período de pelo
menos um ano.
Por outro lado, na enurese secundária, está frequentemente relacionada com
fatores emocionais. Como outros distúrbios do despertar, a enurese piora quando a
criança sofre algum stresse, possivelmente porque os stresses emocionais causam mais
despertares durante o sono e com isto, mais oportunidades para urinar na cama.
Entretanto, o ato de molhar a cama durante o sono profundo (fase 4)
geralmente tem pouco significado simbólico (nem sempre significa que a criança quer
manipular o ambiente, punir os pais ou externar conflitos sexuais). No entanto, há
crianças que conscientemente molham a cama quando já acordadas, merecendo
então, interpretações psicológicas.

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Portanto, na anamnese, deve-se levar em consideração detalhes de quando
ocorre a enurese, se nas primeiras horas de sono ou logo ao acordar.
A enurese primária depende do retardo da maturação do controle
esfincteriano.
Na enurese secundária, a criança já teve um controle por pelo menos um ano,
depois volta a urinar na cama. Inúmeras técnicas comportamentais são tentadas, como
diminuir a ingestão de líquidos, acordar a criança à noite e colocá-la para urinar, etc.
Estas medidas podem funcionar em alguns casos e por algum tempo, mas é
sempre aconselhável a indicação de uma avaliação psicológica e psicoterapia para a
resolução de conflitos emocionais. A enurese secundária associa-se às vezes a
distúrbios da fala, imaturidade afetiva, crises de birra e desordens de lateralização
hemisférica.
Bruxismo: (ranger de dentes)
É mais frequente no estágio REM, podendo também ocorrer na fase 2 do
estágio não-REM. Pode ocorrer em pessoas normais, mas é mais frequente em
psicóticos.
O tratamento da maior parte das parassónias nesta faixa etária é somente a
orientação dos pais de que é um problema transitório, não é sério e não requer
nenhuma intervenção farmacológica específica ou psicoterapêutica, com exceção da
enurese noturna.
É importante respeitar os hábitos de sono, e se caso seja necessário, fazer uma
sesta após a escola, pois a falta de sono aumenta a necessidade da fase 4, aumentando
assim a frequência das parassónias. No entanto, estudos mostram que não é
recomendável a sesta durante o dia, quando esta interfere com o sono noturno.
Quando as parassónias persistem até a adolescência, ou se iniciarem nela,
convém consultar um neurologista para excluir distúrbio convulsivo.
A ausência de atonia muscular durante o estágio REM, manifesta-se por
extrema agitação durante o sono, principalmente no último terço da noite. Pode estar
associada a tumores ou malformações vasculares do tronco cerebral, já que esta região
associa-se à inibição do tono muscular durante o estágio REM.
4.1.3. Sono na Adolescência
Na fase da adolescência, o ritmo de sono é diferente. Foi comprovado
cientificamente que o adolescente passa por alterações hormonais que fazem com que
o seu ciclo de sono-vigília fique alterado. Assim, é comum o adolescente sentir sono
durante o período da manhã e tornar-se alerta a partir do meio da tarde.
Mesmo assim, crianças e adolescentes permanecem constantemente
envolvidos em atividades sociais que são comuns entre seus amigos, fazendo com que
a regulação do ciclo de sono-vigília, que já é perturbado naturalmente nestas fases,
fique cada vez mais alterado. Uma boa noite de sono é deixada de lado em prol da
exposição a jogos e salas de bate-papo em computadores; programas de televisão;
passeios e baladas à noite.
Os adolescentes e estudantes jovens não dormem o suficiente. Vão para a cama
cada vez mais tarde apesar dos horários da escola, permanecerem matutinos. Isto
torna-se mais grave quanto é conhecido que na adolescência há uma maior

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necessidade de dormir. Para além da privação de sono alguns desenvolvem uma
síndrome de atraso de desenvolvimento.
A privação de sono em adolescentes tem como principais consequências:
 Sonolência diurna
 Mau desempenho escolar
 Fadiga
 Maior risco de acidentes de carro ou motorizadas
 Mau humor, falta de motivação
 Maior uso de estimulantes e de álcool

Vários adolescentes relatam, que o facto de não dormirem, têm um rendimento


escolar mais baixo, acabando por ficar desmotivados. Outros referem ainda, terem
muitas dificuldades em se concentrarem, notando alterações de humor,
nomeadamente, ficarem mais irritados e agressivos.
Pode acontecer, os adolescentes não quererem dormir, e isto não significa que
sejam rebeldes ou desorganizados, pode ser a manifestação de um sintoma de uma
doença grave tal como a depressão ou hiperatividade. Além disso, doenças clínicas tais
como as respiratórias podem atrapalhar uma qualidade de sono adequada.
4.2. Mudanças de atitudes
Queixas como insônias, presença de sonolência excessiva durante o dia e
dificuldades em iniciar ou manter o sono são abordadas por crianças e adolescentes
que estão inseridas em rotinas familiares que precisam ser reorganizadas.
Normalmente um terapeuta fará, juntamente com o paciente e o responsável, um
diário do sono da criança ou adolescente. Nele, são marcados os horários em que a
família vai deitar, que inicia o sono, quantos despertares no meio da noite, assim como
o horário em que acordam e levantam.
A partir disso, são feitas intervenções educacionais e comportamentais, focando
principalmente na qualidade do sono. Ao longo de todo o tratamento, há mudanças de
atitudes básicas tais como o escuro no quarto no momento de dormir, passando até
por técnicas de relaxamento.
8. STRESS E RESILIÊNCIA

5.1.O que é o stress?


Stress é a resposta do organismo a determinados estímulos que representam
circunstâncias súbitas ou ameaçadoras. Para se adaptar à nova situação, o corpo
desencadeia reações que ativam a produção de hormonas, entre elas a adrenalina.
Assim o indivíduo fica em "estado de alerta" e em condições de reagir.
Em segundos as hormonas espalham-se pelas células do corpo, a respiração e
batimentos cardíacos aceleram; sintomas denominados "reação de luta ou fuga". Ao
acalmar-se, o corpo reequilibra- se, o que não acontece quando os efeitos do stress já
são graves.
No fundo Stress é uma reação a qualquer mudança que requer um
reajustamento ou resposta da nossa parte. Podemos controla-lo, porque afinal, ele tem
origem na forma como lidamos e respondemos às situações “stressantes”.

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Há alguns autores que defende, a ideia que uma certa dose de stress pode ser
um bom contributo para se trabalhar melhor. O stress permite manter as pessoas mais
atentas e estimuladas. Por outro lado, o stress também pode provocar angústia, tensão
e receio de falhar. E quando atinge níveis excessivos, este pode mesmo ser o maior
responsável por situações depressivas
Todos temos stress, mas nem sempre é possível evitar ou alterar as situações
que nos podem causar um excesso de stress. Sentimo-nos presos e incapazes de alterar
este sentimento. Quando o stress persiste, os seus efeitos criam desarmonia no corpo
que enfraquece, perde resistências e pode adoecer.
As dificuldades de lidar com as pressões do dia-a-dia como aturar problemas
financeiros, questões familiares, violência urbana, problemas no trânsito, mau
relacionamento com colegas de trabalho ou chefes, possibilitam o aparecimento do
stress.
A Organização Mundial de Saúde coloca os problemas cardiovasculares,
sobretudo a hipertensão, em primeiro lugar na lista das doenças profissionais. Mas
logo a seguir, surgem também as perturbações psíquicas e físicas diretamente
relacionadas com o stress, que atingem mais de 50 por cento dos trabalhadores.
Assim a questão que se coloca é: “De quem será a responsabilidade?” Uma das
possíveis respostas, pode estar nas exigências arbitrárias e abusivas da atual
globalização da economia e o novo ritmo da nossa vida.
A chave para lidar com o stress é identificar os sintomas e as causas na sua vida
e aprender formas de eliminar e reduzir este excesso de energia acumulada.
5.2. Causas do Stress
O stress pode ser causado por algo que requer uma adaptação ou mudança no
nosso meio habitual. O nosso corpo reage a estas mudanças com respostas físicas,
mentais e emocionais.
Todos temos os nossos meios de reagir às mudanças, por isso as causas do
stress podem variar de pessoa para pessoa, no entanto, existem causas comuns, tais
como:
 A morte
 Multidões
 Os congestionamentos de trânsito
 Casamento
 Gravidez
 Prazos
 Problemas judiciais
 Mudança de emprego
 Acidentes
 Divórcio
 Novo emprego
 Reforma
 Problemas financeiros
 Doenças
 Agressões políticas e socais

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Para além destas causas comuns, existem sinais de alerta do stress, que
poderão ser bastante uteis, ou seja, numa situação de stress o nosso emite sinais, que
podem ser físicos, emocionais e comportamentais, que podem ser :
 A Ansiedade
 Distúrbios no sono/ insónias
 Irritação
 Falta de concentração
 Preocupação excessiva
 Tristeza
 Alterações frequentes de humor
 Ao nível dos sinais físicos de stress, estes podem ser:
 Postura curvada
 Sudação nas palmas das mãos, suores frios
 Fadiga/cansaço crónica/o
 Aumento ou perda de peso
 Tremores
 Esgotamento
 Taquicardia
 Outros sintomas físicos também podem ser:
 Sinais comportamentais
 Comportamento exagerado
 Agir por impulso
 Consumo de drogas e álcool
 Mudança frequente de emprego
 Insatisfação
 Baixa auto-estima
 Isolamento nos relacionamentos
 Sentir uma agitação constante
 Fobias e ataques de pânico

O stress causado pelo trabalho poderá ter pesados reflexos na harmonia


familiar. Os adultos regressam tarde a casa, sem tempo para estarem com os filhos ou
entre eles. Mesmo em férias, os telefones e os computadores portáteis continuam a
funcionar. Uma permanente ligação ao meio laboral que por vezes nos faz esquecer da
família e vida privada.
5.3. Stress e a Adolescência
Na adolescência, as mudanças são constantes quer ao nível deles próprios, quer
ao nível do meio que os rodeia. Revelam dificuldades em lidar com o corpo (achando-
se desajeitados, a roupa deixa de servir de uma semana para a outra, a voz fininha
passa para mais grossa e fininha novamente) com os sentimentos (preocupando-se
com aquilo que os outros pensam sobre eles, e se irão ser gozados…) e inclusivamente
a lidar com os adultos (para umas coisas ainda são crianças, mas para outras os adultos
exigem que sejam adultos).

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Habitualmente, há um conjunto de fatores (escola, grupo de amigos, família,
indivíduo) que podem levar o desencadear do stress negativo. Se os comportamentos
do adolescente afetam o desenrolar normal da sua vida (se o impedem de continuar
com as rotinas que tinha) é preciso verificar o que está acontecer.
Desta forma, devemos estar atentos a alguns sinais de alerta, especificamente
nesta faixa etária:
Sinais ao nível Comportamental
 O adolescente, começa a evitar o contacto com outras pessoas (deixa de sair
com os amigos e passa a preferir ficar sempre sozinho no computador, deixa de
fazer refeições em conjunto com a família, …) isolando-se.
 Envolve-se em confusões (torna-se mal-educado, reage muito rapidamente ao
que lhe dizem, entra em brigas verbais e físicas,…)
 Baixa o rendimento escolar (deixa de se interessar pela escola, as notas
diminuem, …)

Sinais ao nível Físico:


 Insónias (não tem sono, demora muito tempo a adormecer ou acorda várias
horas antes do despertador,…)
 Somatização, ou seja, dores de cabeça, dores de estômago, cansaço excessivo,
etc.
 Comportamentos de risco (uso de drogas e medicamentos, relações sexuais
desprotegidas, etc.)

Sinais ao nível Psicológico:


 Falta de concentração (parece alheado, distrai-se com facilidade, …)
 Desânimo (triste, sem motivação para realizar as atividades que antes gostava
de fazer, …)
 Impaciência (grita ao menor reparo, atira com objetos, …)

5.4. Fases de Evolução do Stress


O stress passa por três fases de evolução, sendo elas:
1. Fase de resistência

É a luta do organismo contra a fase de alerta. O indivíduo pode controlar-se


(neste caso o stress passa despercebido) ou continuar stressado. Normalmente nessa
fase o corpo responde com mudanças de comportamento, insónia, tristeza e
descontentamento.

2. Fase de exaustão

Se persiste, o stress pode provocar uma série de doenças crónicas. Neste último
estádio podem aparecer problemas emocionais complexos, hipertensão, úlceras,
gastrites, fadiga crónica, diabetes, alterações no sono, entre outras manifestações.
3. Fase de alerta

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Ocorre quando existe reação a uma ação externa. Surgem os problemas físicos
como taquicardia (batimento mais rápido e forte do coração), respiração acelerada e
suor frio.

5.5. Como Lidar com o Stress?

O stress ocasional não é prejudicial ao organismo, porque ele está preparado


para reagir a acontecimentos inesperados. Mas permanecer neste estado, pode causar
uma série de complicações, entre elas o enfraquecimento do nosso sistema natural de
defesa, e as doenças que surgem.

Um dos efeitos mais negativos do stress é a redução da qualidade de vida, com


reflexos prejudiciais no seu desempenho no trabalho. Situações que provocam faltas e
atrasos ao serviço, com queda na produtividade.

Estudos comprovam que os prejuízos decorrentes do stress são dez vezes


maiores do que várias greves em simultâneo.

O aparecimento do stress pode estar relacionado a situações reais ou


imaginárias, e suas principais causas podem ser:

 Excesso de atividade/ má distribuição do tempo.


 Acúmulo de raiva e sentimentos negativos.
 Problemas de relacionamento.
 Descontrole diante de situações críticas.
 Preocupação excessiva.
 Falta de descanso e lazer.
 Dificuldade de lidar com as perdas

5.6.Como Reduzir o Stress

O ritmo a que estamos sujeitos nos nossos dias é verdadeiramente assustador e


deixa-nos muito pouco tempo livre, assim é necessário inverter esse cenário se
queremos preservar a nossa saúde, e para isso devemos manter uma atitude positiva.

Além disto devemos:

 Aceitar que há acontecimentos que não podemos controlar.


 Devemos ser assertivos em vez de agressivos: “afirme” os seus
sentimentos, opiniões ou crenças em vez de se revoltar, ficar irritado,
agressivo e passivo.

 Aprenda a relaxar.

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 Faça exercício físico com frequência. O seu corpo estará mais preparado
para enfrentar os ataques de stress.

 Fazer uma alimentação equilibrada.

 Descansar e dormir bem, pois o nosso corpo e mente precisam de


tempo para recuperar bem dos ataques exteriores de stress.

5.7.Estratégias de gestão dos sintomas

Existem várias abordagens para ajudar a controlar e a lidar com o stress:

 Técnicas cognitivo-comportamentais,
 Treino de aptidões sociais,

 Técnicas de relaxamento,

 Terapêutica medicamentosa,

 Etc.

Dentro destas abordagens, podemos encontrar várias estratégias que podem


ser:

 Atividade física: não é desporto de alta competição, mas a prática de um


desporto ajuda a libertar mecanismos biológicos que nos fazem sentir melhor;

 Períodos de descanso: todos nós temos períodos diferentes de tempo (que


variam também com a idade) no qual conseguimos estar concentrados; uma
pausa de 10 minutos entre cada 60 minutos de estudo ajudam a melhorar a
atenção e a memorização.

 Técnicas de relaxamento: o espreguiçar, o respirar calma e pausadamente, o


fechar os olhos e visualizar um cenário que seja relaxante ajuda o corpo a
reduzir os níveis de stress.

 Manter um diálogo sincero entre pais e filhos: um espaço para poder falar e
ouvir, pensar, responsabilizar e ajudar a escolher soluções, ajuda a não nos
precipitarmos quando tomamos decisões (como por vezes acontece em
situações de stress).

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 Ter limites e prioridades definidas: saber quando temos de parar antes de
entrarmos no nosso limite e desenvolvermos problemas de saúde mais graves
(Síndrome de Burnout, depressão, úlceras,…)

 Receber carinho e atenção: sentir que alguém se preocupa connosco e gosta de


nós, independentemente daquilo que conseguimos, é sempre uma ajuda à
nossa autoestima e diminui o receio de falhar.

 Quando sentimos que a situação nos ultrapassa: procurar a ajuda de um


especialista, em quem confiemos, para nos ajudar a solucionar os problemas.

9. CRIANÇA SOBREDOTADA

As crianças sobredotadas são crianças que possuem uma capacidade mental


significativamente acima da média. A sobredotação é um “talento”, é uma aptidão
inata para atividades intelectuais que não podem ser adquiridos através de esforço
pessoal.

O Instituto da Inteligência entende que um sobredotado, é um o indivíduo que


possui "um potencial cerebral e humano de nível superior e constante numa ou mais
áreas operacionais das inteligências múltiplas". Uma pessoa sobredotada permite
prever "um elevado grau de competência específica na solução de problemas, no
desempenho académico e profissional e na criação de respostas inovadoras aos
desafios, desde que lhe sejam fornecidas adequadas oportunidades de
desenvolvimento".

Por norma, as crianças sobredotadas podem apresentar:

1. Desenvolvimento precoce

Atingir os estádios de desenvolvimento mais cedo do que as outras crianças.


Por exemplo, uma criança de 2 ou 3 anos que começa a contar histórias a partir de
livros de imagens, ou que, pelos 3/4 anos, deseja insistentemente aprender e ler e o
consegue, por vezes sozinha, pode ser sobredotada intelectualmente. Outra que atinja
elevado nível de coordenação motora muito cedo pode ser fisicamente talentosa.

2. Perfeição fora do comum

Manifestam uma elevada perfeição em determinadas atividades comparando com


outras crianças da mesma idade. Por exemplo, uma criança que memoriza um poema

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rapidamente, que atinge um conceito mais cedo ou resolve problemas com maior
rapidez pode ser potencialmente dotada

3. Criatividade invulgar

Combinam ideias ou materiais de forma única para conseguirem novos produtos.


Por exemplo, uma criança que compõe canções ou músicas novas, que desenvolve
novas figuras, estruturas ou modelos, que enfrenta e resolve situações problemáticas
de forma própria e invulgar, poderá ser potencialmente talentosa.

Por vezes pode acontecer haver crianças ou jovens que têm maior dificuldade
em expressar os seus talentos, muitas vezes por razões essencialmente exteriores a
elas. Nestes casos, são geralmente, crianças de meios culturalmente diferentes
(minorias culturais, ou com problemas socioeconómicos). Os seus talentos poderão
não ser reconhecidos como tal e portanto não serem desenvolvidos.

6.1.Algumas características das crianças sobredotadas

Para além das características anteriormente referidas as crianças sobredotadas


podem ter outras particularidades, tais como:
 Acuidade na observação, facilidade em discriminar particularidades,
curiosidade em, relação ao insólito, recetividade ingénua em relação ao que
lhes é comunicado.
 Sensibilidade e abertura aos problemas - saem do seu caminho para ver o
problema não se interessa unicamente pela sua resolução; coragem de se
confrontarem com os problemas à sua maneira - não aprendem só o que se
lhes propõe mas outras coisas que, por vezes, mais ninguém acha importante.
 Curiosidade intelectual, atitude de questionar, espírito inquiridor, motivação
intrínseca.
 Não-aceitação de limites ou de autoritarismo, querem pesquisar tudo, observar
as diferentes partes de qualquer coisa.
 Independência no pensar, no trabalho e no estudo, e consciência de si próprio,
dominadores - sabem que têm razão, não desistem enquanto não convencem
os outros mas muitas vezes não sabem o que fazer para que as suas ideias
sejam aceites.
 Criatividade e espírito inventivo, gosto de fazer as coisas de maneiras
diferentes, interesse em criar, em ter várias ideias - rejeitam o que é conhecido.
 Prazer em brincar com as ideias e não só com os brinquedos - não aceitam
ideias "estreitas" não lhes interessam respostas que os limitem mas, antes, que
lhes permitam ir mais à frente.

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 Preferem a complexidade à simplicidade; têm uma forma de pensamento
interdisciplinar, diversidade de interesses e versatilidade.
 Capacidade de atenção e concentração longa e de tal modo intensa que
excluem tudo o que se passa à sua volta - reagem mal às interrupções.
 Grande energia, vivacidade e prontidão, períodos de esforço intenso voluntário
precedendo a invenção - ficam frustrados com a inatividade e a ausência de
projetos.
 Manifestam insistentemente desejo de aprender a ler muito mais cedo de que
é vulgar e por vezes conseguem aprender sem ajuda específica, só através das
suas capacidades de observar e análise; usam facilmente vocabulário
complicado e construções de frases não vulgares.

6.2.Problemas comuns nas crianças sobredotadas

1. Perfeccionismo exagerado

As crianças sobredotadas perfeccionistas são vítimas de frequentes episódios


de ansiedade porque nem sempre conseguem realizar as coisas com o esmero, o
detalhe e a qualidade que elas próprias esperam de si. O seu mecanismo de resposta, o
controlo de reação, é um processo de autocensura exigente. Por outro lado, podem ser
um alvo fácil da chacota dos colegas menos preocupados com o rigor dos
desempenhos.

2. Criatividade mal aceite

Ao contrário das perfeccionistas, as crianças criativas podem revelar-se muito


espontâneas, anárquicas e desorganizadas. Têm dificuldade em seguir as regras
revelando-se contra a autoridade estabelecida. Os seus impulsos criativos podem gerar
inesperadas reações por não serem facilmente aceites em ambientes conservadores,
até na escola onde o espaço para a autêntica criatividade esteja muito limitado.

3. Impulsividade perigosa

Os sobredotados impulsivos tendem a responder e a agir de forma inesperada e


impaciente, mostrando-se incapazes de controlar a necessidade de atuarem
rapidamente em quase tudo. Quando são empreendedores, a impulsividade leva-os a
não perderem tempo com detalhes. Quando são aventureiros são práticos, imediatistas
e gostam de correr riscos. Desmotivam-se facilmente quando são forçados a ritmos
mais lentos e se lhes exija um comportamento tranquilo.

4. Hipersensibilidade emocional

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Muitas crianças sobredotadas são de uma elevada sensibilidade ao meio onde
estejam (casa, escola, etc.). A sua suscetibilidade à incompreensão, à falta de
manifestações de afeto e às atitudes de rejeição ou até de menor atenção para com
elas empurra-as para a tristeza, o isolamento intencional e a melancolia. O seu humor
pode oscilar facilmente em função da leitura que façam do ambiente humano que as
rodeie.

5. Isolamento por opção

Os sobredotados de elevada inteligência e com interesses muito específicos


tendem a isolar-se dos outros quando estes não são capazes de os acompanhar nas
suas escolhas ou até nos seus raciocínios. Fecham-se então no seu mundo, por vezes
de forma obsessiva. Muitos são referidos como introvertidos, impopulares, ansiosos e
inseguros.

7.PERTURBAÇÃO DE HIPERATIVIDADE E DÉFICE DE ATENÇÃO

A perturbação de hiperatividade e défice de atenção (PHDA) é um síndrome


comportamental caracterizado por um nível inapropriado de atenção, com ou sem
hiperatividade e impulsividade, que ocorre em várias circunstâncias, que causa
dificuldades funcionais e não pode ser atribuído a outras causas.

As crianças ou jovens com PHDA, os comportamentos poderão iniciar-se nos


primeiros anos de vida e, embora os sintomas observáveis possam variar em qualidade
e em quantidade durante o desenvolvimento, a maioria dos indivíduos com PHDA
continuam a apresentar algumas manifestações na vida adulta.

7.1.Qual é a causa?

Pensa-se que, na génese desta perturbação, poderão estar implicadas múltiplas


causas, das quais se salientam:

 Fatores genéticos
 Fatores orgânicos adquiridos ou constitucionais: mais frequente em
prematuros; foram observadas alterações cerebrais de neurotransmissores
(dopamina e noradrenalina); foram também identificadas alterações das
dimensões de certas zonas do cérebro (córtex pré-frontal, gânglios da base);
 Fatores ambientais: a PHDA foi associada a exposição a toxinas, como o
chumbo, o álcool, o fumo do tabaco;

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Acredita-se que o problema principal da PHDA resida num défice entre o
processamento da informação recebida e a resposta produzida ou na incapacidade de
inibir apropriadamente a resposta até que toda a informação seja processada.

Existem três tipos inerentes à PHDA, sendo que para o diagnóstico de cada um
destes tipos, existem sinais a que é importante estar atento ao nível das atitudes e
comportamentos das crianças.

1. PREDOMINANTEMENTE DESATENTO

De acordo com o Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais


da Associação Americana de Psiquiatria (DSM), para um diagnóstico positivo de PHDA
do tipo predominantemente desatento devem persistir, pelo menos durante seis
meses, com uma intensidade desadaptativa e inconsciente, em relação com o nível de
desenvolvimento, seis ou mais dos seguintes sintomas de falta de atenção:

 Não prestar atenção suficiente aos pormenores ou comete erros por


descuido nas tarefas escolares, no trabalho ou noutras atividades lúdicas
 Ter dificuldade em manter a atenção em tarefas ou atividades

 Parecer não ouvir quando se lhe dirigem diretamente

 Não seguir as instruções e não termina os trabalhos escolares, encargos,


ou deveres no local de trabalho (sem ser por oposição ou por
incompreensão das instruções)

 Ter dificuldade em organizar tarefas ou atividades

 Evitar, sentir repugnância ou estar relutante em envolver-se em tarefas


que requeiram um esforço mental mantido (tais como trabalhos
escolares ou de casa)

 Perder objetos necessários a tarefas ou atividades (por exemplo


brinquedos, exercícios escolares, lápis, livros ou ferramentas)

 Distrair-se facilmente com estímulos irrelevantes

 Esquecer-se das atividades quotidianas

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2. PREDOMINANTEMENTE HIPERATIVO - IMPULSIVO

Para um diagnóstico de PHDA do tipo predominantemente hiperativo-impulsivo


devem persistir, pelo menos durante seis meses, seis ou mais dos seguintes sintomas:

 Movimentar excessivamente as mãos e os pés, mover-se quando está


sentado
 Levantar-se na sala de aula ou noutras situações em que se espera que
esteja sentado
 Correr ou saltar excessivamente em situações em que é inadequado
fazê-lo (em adolescente ou adultos pode limitar-se a sentimentos de
impaciência)
 Ter dificuldades para jogar ou dedicar-se tranquilamente a atividades de
lazer
 Parecer como se estivesse «ligado a um motor»
 Falar em excesso
 Precipitar as respostas antes que as perguntas tenham acabado
 Ter dificuldades em esperar pela sua vez
 Interromper ou interferir nas atividades dos outros (por exemplo,
intrometer-se nas conversas ou jogos)

3. COMBINADO DESATENTO E HIPERATIVO (SENDO ESTE O MAIS


COMUM)

Uma criança poderá ter uma PHDA do tipo misto se apresentar seis ou mais
sintomas persistentes (pelo menos durante seis meses) de falta de atenção e
hiperatividade-impulsividade e estiverem presentes em múltiplas situações (por
exemplo, em casa, na escola, nas atividades extracurriculares).

7.2. Como se pode tratar a PHDA?

A intervenção terapêutica tem como objetivo o desenvolvimento de um


adequado equilíbrio emocional e, também, a otimização do desempenho académico e
ocupacional. Embora as manifestações de desatenção e de impulsividade se reduzam,
geralmente, com o tempo, o sentimento de baixa autoestima poderá agravar-se, como
resultado da reação negativa dos companheiros, dos pais e dos professores, entre
outros.

Os adolescentes com PHDA podem ser difíceis para os seus pais, professores e
colegas. Estão habitualmente num estado constante de atividade o que constitui um
desafio para os outros. Uma das medidas essenciais é estruturar o mais possível o dia-
a-dia, e tentar contornar as dificuldades de atenção, medidas simples incluem:

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 Estabelecimento de horários e rotinas – horas específicas para acordar, comer,
brincar, fazer trabalhos da escola ou tarefas, ver televisão ou jogar computador
e ir para a cama.
 Regras em casa e na escola – Regras simples, claras e curtas.
 Ser otimista – Pessoas com PHDA muitas vezes passam o dia a ouvir que estão
errados. Eles também necessitam de ser elogiados por comportamentos
adequados.
 Adaptação ao ambiente escolar – Explicar a situação aos professores; sentar-se
na primeira fila; verificar se compreendeu as instruções ou explicações; chamar
a atenção para assuntos importantes

O tratamento médico envolve por vezes o uso de psicoestimulantes, acredita-se


que eles atuem como neurotransmissores em certas áreas do cérebro, corrigindo as
alterações bioquímicas que interferem com a atenção e com o controlo dos impulsos.
Com uma administração criteriosa destes fármacos, consegue-se obter, em 70-80%,
melhorias significativas da hiperatividade, da impulsividade e da desatenção.

7.3. Outras perturbações que por vezes acompanham a PHDA


 Perturbações da aprendizagem:

Aproximadamente 20 a 30% podem apresentar uma perturbação da


aprendizagem. Na escola podem notar-se dificuldades na escrita, na matemática ou na
dicção. A dislexia é frequente e 8% podem vir a ter dificuldades na leitura.

 Síndrome de Tourette:

Uma pequena percentagem de pessoas com PHDA apresenta esta perturbação


neuro-psiquiátrica. Caracteriza-se por tiques motores e vocais complexos (como piscar
os olhos, fazer caretas, tossir repetidamente, espirrar, etc.). Este pode ser controlado
com medicação apropriada.

 Perturbação de Oposição-Desafio:

Até 1/3 de todos as pessoas com PHDA pode apresentar esta condição.
Caracteriza-se por um padrão de comportamento negativista, hostil e desafiador,
prolongado no tempo.

 Perturbação da Conduta:

Afeta 20 a 40% dos indivíduos com PHDA, caracterizando-se por um padrão de


comportamento antissocial. Estas pessoas mentem, roubam, lutam ou metem-se com

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os seus pares. Estão em risco de ter problemas na escola ou com a polícia. Violam os
direitos básicos das outras pessoas, são agressivos com pessoas e/ou animais,
destroem a propriedade, invadem casas, cometem vandalismo, utilizam armas e
roubam. É frequente “baldarem-se” às aulas ou fugirem de casa por uns dias. Estão em
grande risco de se tornarem dependentes de substâncias. Necessitam de ajuda
urgentemente.

 Ansiedade e Depressão:

Algumas pessoas com PHDA podem sofrer com estas perturbações, que
poderão ser identificadas e tratadas com o seguimento apropriado.

 Doença Bipolar:

Não existem estatísticas precisas acerca da coocorrência destas 2 situações.


Diferenciar entre PHDA e Doença Bipolar na infância e adolescência pode ser difícil.
Nas duas condições podem existir alto nível de energia, irritabilidade e diminuição da
necessidade do sono.

 Abuso de drogas ou álcool:

Adolescentes ou adultos com PHDA têm maior tendência a terem problemas de


abuso ou dependência.

7.4. Repercussões da hiperatividade no relacionamento familiar

A verdade é que a criança ou o jovem hiperativo é frequentemente a causa de


transtornos domésticos, principalmente porque:
 Às refeições não consegue ficar sentado de modo adequado, pois muda de
posição constantemente;
 Não termina uma refeição sem antes levantar-se várias vezes, por diversos
motivos desnecessários;
 Come com muita voracidade e ansiedade; engole os alimentos mal
mastigados com uma pressa sem propósito;
 Quando está a ver Televisão, não consegue manter-se quieto, incomodando
os outros, acrescentando mais um fator para as desavenças;
 Interfere nas conversas de modo inoportuno, sem aguardar a sua vez para
falar. Não para, para ouvir o que os outros lhe estão a dizer;
 Fala muito e num ritmo acelerado, o que acarreta uma “fala” com
mensagens confusas e, às vezes, com omissões e trocas de fonemas;
 Muda de atividade com muita frequência e de modo abrupto, mesmo sem
completar a anterior;

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 Mostra-se muito desorganizado com seus brinquedos, objetos, roupas e
material escolar;
 Atrapalha as brincadeiras dos irmãos, ou dos outros;
 Apresenta problemas de disciplina;
 Tem dificuldade em acatar as ordens;
 Responde com comportamento agressivo e violento em situações rotineiras;
 Quer ser sempre atendido na hora das suas solicitações;
 Procura impor as suas vontades e à sua moda (são mandões);
 Pede as coisas, mas desinteressa-se rapidamente por elas
 Demonstra uma grande ansiedade em todas as atividades.
(T0PAZEWSKI, 1999, p. 52).

Nem sempre os pais admitem que o filho é hiperativo. "Muitos acham que a
criança é esperta demais e, por isso, está sempre interessada em novidades". Para além
disso os pais também "acreditam que o tratamento com medicamentos pode tirar a
espontaneidade do pequeno" (Andrade & Gentile, 2000, p. 31).
Conforme afirmam vários especialistas, em casos leves, o distúrbio pode ser
tratado apenas com terapia e reorientação pedagógica, pelo contrário "Os casos graves
necessitam de tratamento com medicamentos".
O tratamento poderá ser feito por um período mínimo de dois anos, mas deve
durar até a adolescência, quando os sintomas diminuem ou desaparecem, graças ao
amadurecimento do cérebro, que equilibra a produção da dopamina (substância
presente no cérebro que transmitem o impulso nervoso de uma célula para outra no
cérebro).

7.5. A hiperatividade e a família

É importante que uma rotina estável seja estabelecida em casa. Para diminuir a
confusão e a quantidade de estímulos diários, deve-se definir horários específicos para
comer e dormir.

Os pais poderão falar um pouco mais alto e dar mais ênfase às palavras mais
importantes, que designem tempo, espaço e modo, como por exemplo: "Os TPC são
para amanhã". Estes devem ser breves e evitar dar várias ordens ao mesmo tempo.

Devemos evitar mandar a criança fazer alguma coisa, gritando do outro lado da
casa. Ela não irá responder.

A criança deverá ter um local de estudos adequado, com horários estabelecidos


para fazer as tarefas escolares. É aconselhável, os pais, atribuírem uma pequena e
rápida tarefa e insistir delicadamente para que esta seja concluída, não esquecendo de
agradecer e elogiar.

É muito importante fazer com que a criança participe em projetos do seu


interesse, pois estes contribuem para sua concentração. Aprender a concentrar-se

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alterará sua resposta ao mundo, gradativamente, pois além de ter um desequilíbrio do
sistema nervoso que transforma em tortura o simples ato de permanecer sentado, a
criança hiperativa e inteligente entedia-se facilmente. A importância da conclusão
desse projeto dará à criança a noção de uma maior competência e uma maior
autoestima.

É necessário que os pais também procurem ajuda para adquirirem informação e


apoio, diminuindo assim o sentimento de frustração e isolamento da família.
Aconselha-se igualmente aos pais para não se prenderem demasiadamente ao
problema da hiperatividade da criança;

Acontece com muita frequência, as crianças que têm PHDA, são filhas de pais
com PHDA e que não educam de forma organizada, mesmo assim é importante impor
limites especiais às crianças com PHDA", principalmente porque os medicamentos
utilizados no tratamento não curam a doença, somente suavizam os sintomas, sendo
desta forma muito importante reorganizar a educação da criança.

7.6. O papel da escola

Segundo alguns autores, a hiperatividade só fica mais evidente no período


escolar, quando é preciso aumentar o nível de concentração para aprender. O
diagnóstico clínico, deve ser feito com base no histórico da criança. Por isso, a
observação de pais e professores é fundamental. (Andrade, 2000).

Geralmente os hiperativos, mexem-se muito durante o sono quando bebés. São


mais estabanados assim que começam a andar. Às vezes, apresentam um atraso na
fala, trocando as letras por um período mais prolongado que o normal. Em casa, esses
sintomas nem sempre são suficientes para definir o quadro. Na escola, porém, eles são
determinantes.

A inteligência de pessoas hiperativas não é comprometida com a doença, mas o


principal problema para elas é a impulsividade e a falta de atenção, ferramentas
importantes para o progresso dos estudos.

Ao se tratar o paciente hiperativo, é notada marcante melhoria no seu


rendimento escolar.

“Os pacientes que não apresentam dificuldades no aprendizado


conseguem executar as tarefas de modo rápido e eficiente, mas como terminam
antes que os outros, ficam a atrapalhar o trabalho dos colegas por conta da
hiperatividade. Esse comportamento causa insatisfação ao grupo, que passa a
reclamar e a interferência do professor, ao chamar a atenção do aluno, tem

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como objetivo primordial o de manter a classe organizada, provocando uma
reação agressiva por parte do aluno, além de acentuar a hiperatividade”.
(T0PAZEWSKI, 1999, p. 57).

O convívio social é importante para o desenvolvimento da criança, e para quem


tem TDAH não é diferente. Ao professor cabe observar sinais como agitação e
dificuldade de assimilação.
No intervalo das aulas a criança costuma meter-se em brigas ou brincar quase
sempre sozinha, tenta chamar a atenção ou comporta-se como se tivesse ausente.
As meninas com PHDA são mais distraídas, falam demais ou simplesmente
isolam-se. Os meninos não conseguem manter amizades por muito tempo, são
agitados e interrompem a aula constantemente.
Antes de tirar conclusões precipitadas é preciso que o professor tenha em conta
que as crianças hiperativas não podem ser julgadas como rebeldes. Por sofrerem de
uma doença que provoca dificuldades de concentração, não se dão conta das ordens
que recebem.
Apesar de não caber ao professor fazer o diagnóstico, pode observar o aluno e
conversar com os pais para que este seja observado por um psicólogo e
posteriormente por um especialista.
De acordo com alguns especialistas, devemos proporcionar atividades variadas
que ocupem a criança o maior período de tempo possível, dando a ela liberdade de
escolha e de movimentos, pode ajudar a uma melhor conduta no trato com o
hiperativo. Somente o trabalho livre e diversificado pode favorecer esse tipo de criança
que também se mostra satisfeita na incumbência de realizar tarefas auxiliando o
professor.
O facto de nem sempre conseguir realizar as aprendizagens, ou atingir as
expectativas do professor, faz com que este tenha uma visão negativa de si mesmo, o
que leva a baixa autoestima e uma visão de futuro desfavorável. Os adolescentes
apresentam oscilações comportamentais e variações do humor que se agravam com as
contrariedades escolares.
Quando adultos, têm raciocínio rápido, mas grande dificuldade de concentração
durante aulas duradouras.
Os hiperativos apresentam alterações na chamada memória de curto período, e
isto deve-se à baixa capacidade de atenção e à pouca concentração. As mães referem
que, quando solicitam algo à criança, esta retorna após alguns minutos perguntando
qual foi a solicitação, pois esqueceu-se do pedido que lhe fora feito. Esta falta de
memória já é, por si só, um fator de baixo rendimento escolar que quando associado à
hiperatividade agrava o quadro. (T0PAZEWSKI, 1999).

7.7. Estratégias para o professor lidar com hiperativos


 Evite colocar alunos nos cantos da sala, onde a repercussão do som é maior.
 Faça com que a rotina na turma seja clara e previsível, crianças com TDAH têm
dificuldade de se ajustar a mudanças de rotina;

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 Afaste-as de portas e janelas para evitar que se distraiam com outros
estímulos;
 Deixe-as perto de fontes de luz para que possam enxergar bem;
 Não fale de costas, mantenha sempre o contato visual;
 Intercale atividades de alto e baixo interesse durante o dia, em vez de
concentrar o mesmo tipo de tarefa em um só período;
 Repita ordens e instruções; faça frases curtas e peça ao aluno para repeti-las,
certificando-se de que ele entendeu;
 Procure dar supervisão adicional aproveitando intervalo entre aulas ou durante
tarefas longas e reuniões;
 Permita movimento na sala de aula. Peça à criança para ir buscar materiais,
apagar o quadro, recolher trabalhos. Assim ela pode sair da sala quando estiver
mais agitada e recuperar o autocontrolo;
 Esteja sempre em contato com os pais: anote no caderno do aluno as tarefas
escolares, mande bilhetes diários ou semanais e peça aos responsáveis que
leiam as anotações;
 O aluno deve ter reforços positivos quando for bem-sucedido. Isso ajuda a
elevar sua autoestima. Procure elogiar ou incentivar o que aquele aluno tem de
bom e valioso;
 Crianças hiperativas produzem melhor em salas de aula pequenas. Um
professor para cada oito alunos é indicado;
 Coloque a criança perto de colegas que não o provoquem, perto da mesa do
professor na parte de fora do grupo;
 Proporcione um ambiente acolhedor, demonstrando calor e contato físico de
maneira equilibrada e, se possível, fazer os colegas também terem a mesma
atitude;
 Nunca provoque constrangimento ou menospreze o aluno;
 Proporcione trabalho de aprendizagem em grupos pequenos e favoreça
oportunidades sociais. Grande parte das crianças com TDAH consegue
melhores resultados académicos, comportamentais e sociais quando no meio
de grupos pequenos;
 Adapte suas expectativas quanto à criança, levando em consideração as
deficiências e inabilidades decorrentes do TDAH. Por exemplo: se o aluno tem
um tempo de atenção muito curto, não espere que se concentre em apenas
uma tarefa durante todo o período da aula;
 Proporcione exercícios de consciência e treinamento dos hábitos sociais da
comunidade. Avaliação frequente sobre o impacto do comportamento da
criança sobre ela mesma e sobre os outros ajuda bastante.
 Coloque limites claros e objetivos; tenha uma atitude disciplinar equilibrada e
proporcione avaliação frequente, com sugestões concretas e que ajudem a
desenvolver um comportamento adequado;

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 Repare se a criança se isola durante situações recreativas barulhentas. Isso
pode ser um sinal de dificuldades: de coordenação ou audição, que exigem uma
intervenção adicional.
 Permaneça em comunicação constante com o psicólogo ou orientador da
escola. Ele é a melhor ligação entre a escola, os pais e o médico.

8. DEPRESSÃO INFANTIL

8.1 Conceito de Depressão


A depressão ou depressão nervosa é um estado patológico com um humor
triste e doloroso associado à redução da atividade psicológica e física. A pessoa afetada
pela depressão sente-se impotente e a doença vem quase sempre acompanhada de
outros sintomas, como a ansiedade ou a insónia.
A depressão pertence ao grupo de doenças do nosso tempo e segundo a OMS
(Organização Mundial de Saúde), ela está entre as três doenças que agravam cada vez
mais a qualidade de vida das pessoas. Ressaltamos também que a depressão afeta
duas vezes mais as mulheres do que os homens.
Segundo o DSM-IV (Manual de Diagnóstico e Estatística dos Distúrbios Mentais),
a depressão é frequentemente descrito pela pessoa como deprimido, triste,
desesperançado, desencorajado ou “em baixo”. Outros casos manifestam ansiedade ou
a presença de um humor deprimido que pode ser entendida a partir da expressão
facial e do modo como se comporta.
Alguns indivíduos salientam queixas somáticas (por ex., dores ou mazelas
corporais) ao invés de sentimentos de tristeza. E outros referem ou demonstram
irritabilidade aumentada (por ex., raiva persistente, uma tendência para responder a
eventos com ataques de ira ou culpando outros, ou um sentimento exagerado de
frustração por questões menores).
Nas crianças e nos adolescentes, pode desenvolver-se um humor irritável ou
rabugento, ao invés de um humor triste ou abatido. Esta apresentação deve ser
diferenciada de um padrão de "criança mimada", que se irrita quando é frustrada.
A perda de interesse ou prazer quase sempre está presente, pelo menos em
algum grau. Os indivíduos podem relatar menor interesse por passatempos, "não se
importar mais", ou a falta de prazer com qualquer atividade anteriormente
considerada agradável.
8.2. O que é a depressão Infantil?

A Depressão Infantil é um transtorno do humor capaz de comprometer o


desenvolvimento da criança e interferir em seu processo de maturidade psicológica e
social.

Apesar de inexistir uma definição consensual da depressão infantil, pode-se


afirmar que se trata de uma perturbação orgânica que envolve variáveis biológicas,
psicológicas e sociais. (Adanez, 1995). Do ponto de vista biológico, a depressão é
encarada como uma possível disfunção dos neurotransmissores devido à herança

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genética, a anormalidade e/ou falha em áreas cerebrais específicas. Trata-se da
depressão classificada como endógena, ou seja, aquela geneticamente transmitida.

Desde a perspectiva psicológica, a depressão pode estar associada a algum


aspecto comprometido da personalidade, baixa autoestima e autoconfiança. No
âmbito social, a depressão pode ser vista como uma inadaptação ou um apelo ao
socorro, bem como uma possível consequência da violação de mecanismos culturais,
familiar, escolar, etc. (Barreto, 1993). As variáveis psicológicas e sociais caracterizam a
depressão classificada como exógena, ou seja, a que é resultante de problemas
psicológicas e/ou ambientais (Amaral & Barbosa 1990).

O termo depressão tem sido utilizado para descrever tanto um estado afetivo
normal quanto uma tristeza aparente ou um sintoma ou transtornos associados. A
tristeza constitui uma resposta às situações de perda, derrota ou outros
desapontamentos. As situações de perda podem, por meio da retração da criança,
causar danos cognitivos, fisiológicos e comportamentais. De acordo com Scivolletto e
Col. (1994), o termo humor é definido pelo DSM IV, “como emoção pervasiva e
mantida que, em extremos, marca o colorido da percepção do mundo pelo indivíduo”.

A depressão é uma doença do organismo como um todo, que compromete o


físico, o humor e, em conseqüência, o pensamento; altera a maneira como a pessoa vê
o mundo e sente a disposição e o prazer com a vida. Segundo Bellone (2002), ela afeta
a forma como a pessoa se alimenta e dorme como se sente em relação a si próprio e
como pensa sobre o que vivenciou ou fez.

8.3. Principais sinais e sintomas da depressão infantil

A Depressão infantil é caracterizada pela presença dos seguintes sinais e


sintomas, os quais podem se apresentar de forma mascarada:

 Baixo desempenho escolar,


 Pouca capacidade para se divertir (anedonia),

 Sonolência ou insônia,

 Mudança no padrão alimentar,

 Mudanças repentinas de humor,

 Perda de peso

 Fadiga excessiva,

 Queixas físicas,

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 Irritabilidade,

 Sentimentos de culpa,

 Sentimentos de desvalia,

 Sentimentos depressivos,

 Ideação e atos suicida,

 Choro,

 Afeto deprimido,

 Hiperatividade ou hipoatividade.

 Enurese e encoprese

8.4. Principais fatores que podem desencadear a depressão infantil

Muitos fatores podem levar uma criança à depressão. Segundo os estudos de


alguns autores, as causas podem estar relacionadas com problemas familiares.

Os problemas conjugais, financeiros, a cobrança exagerada por parte dos pais e


da sociedade em relação ao desenvolvimento da criança, a falta de contato da criança
com os pais em função de suas responsabilidades profissionais e necessidades de
sobrevivência, impede que haja um vínculo afetivo positivo.

Estes são fatores que contribuem para o aumento da possibilidade das crianças
desenvolverem transtornos, sendo a depressão infantil um deles, e que afeta
diretamente o desenvolvimento psicossocial e académico da criança.

Além disso, podemos destacar outros fatores que causam a Depressão Infantil:

 A morte de um dos pais, dos avós ou de um ente querido muito


próximo,
 Maus tratos dentro da família;

 Filho indesejado, filho somente de um dos pais;

 Alcoolismo,

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 Etc.

Episódios Depressivos

Nos episódios típicos de cada um dos três graus de depressão: leve, moderado
ou grave, o paciente apresenta alterações no humor, redução da energia e diminuição
da atividade. Existe alteração da capacidade de experimentar o prazer, perda de
interesse, diminuição da capacidade de concentração, associadas em geral a fadiga
acentuada, mesmo após um esforço mínimo. Observam-se em geral, problemas de
sono e diminuição de apetite.

Existe quase sempre uma diminuição da auto-estima e da autoconfiança e


frequentemente, ideias de culpabilidade e/ou indignidade, mesmo nas formas leves. O
humor depressivo varia pouco de dia para dia ou segundo as circunstâncias, pode
acompanhar-se de sintomas ditos “somáticos” – por exemplo, perda de interesse ou
prazer, despertar matinal precoce, várias horas antes da hora habitual de despertar,
agravamento matinal da depressão, lentidão psicomotora acentuada, agitação, perda
do apetite, perda de peso e perda da libido.

O número e a gravidade dos sintomas permitem determinar três graus de um


episódio depressivo: leve, moderado e grave.

 Episódio Depressivo Leve

Geralmente estão presentes ao menos dois ou três dos sintomas citados


anteriormente. O paciente usualmente sofre com a presença desses sintomas, mas
provavelmente será capaz de desempenhar a maior parte das atividades.

 Episódio Depressivo Moderado

Geralmente estão presentes ao quatro ou mais dos sintomas citados


anteriormente. O paciente aparentemente tem muita dificuldade para continuar a
desempenhar as atividades de rotina.

 Episódio Depressivo Grave Sem Sintomas Psicóticos

Episódios no qual vários dos sintomas são acentuados e angustiantes,


tipicamente a perda da auto-estima e ideias de desvalorização ou culpa. As ideias e os
atos suicidas são comuns e observa-se em geral uma série de sintomas “somáticos”.

 Episódio Depressivo Grave com Sintomas Psicóticos

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Episódio depressivo correspondente à descrição de um episódio grave, mas
acompanhado de alucinações, ideias delirantes, de uma lentidão psicomotora de tal
gravidade que todas as atividades sociais normais tornam-se impossíveis; pode existir o
risco de morrer por suicídio, de desidratação ou de desnutrição. As alucinações e os
delírios podem não corresponder ao caráter dominante do distúrbio afetivo.

 Transtorno Depressivo Recorrente

Transtorno caracterizado pela ocorrência repetida de episódios depressivos


correspondentes à descrição de um episódio depressivo na ausência de todo
antecedente de episódios independentes de exaltação de humor e de aumento de
energia (mania).

O Transtorno pode, contudo, comportar breves episódios caracterizados por um


ligeiro aumento de humor e de atividade (hipomania), sucedendo imediatamente a um
episódio depressivo, e por vezes precipitados por um tratamento antidepressivo.

As formas mais graves do transtorno depressivo recorrente apresentam


numerosos pontos comuns com os conceitos anteriores de depressão maníaco-
depressiva, melancolia, depressão vital e depressão endógena. O primeiro episódio
pode ocorrer em qualquer idade, da infância à senilidade, sendo que o início pode ser
agudo e a duração variável de algumas semanas e alguns meses.

O risco de ocorrência de um episódio maníaco não pode jamais ser


completamente descartado em um paciente com transtorno depressivo recorrente,
qualquer que seja o número de episódios depressivos apresentados. Em caso de
ocorrência de um episódio maníaco, o diagnóstico deve ser alterado pelo de transtorno
bipolar.

 Distimia (incluída nos transtornos de humor (afetivos) persistentes)

Alterações de humor, que persistem por vários anos, mas cuja gravidade não é
suficiente ou na qual os episódios individuais são muito curtos para responder aos
critérios de transtorno depressivo recorrente grave, moderado ou leve.

 Ansiedade Generalizada

Ansiedade generalizada e persistente que não ocorre exclusivamente, nem de


modo preferencial, numa situação determinada (a ansiedade é “flutuante”). Os
sintomas essenciais são variáveis, mas compreendem nervosismo persistente,
tremores, tensão muscular, transpiração, sensação de vazio na cabeça, palpitações,
tonturas e desconforto epigástrico. Medos de que o paciente ou um de seus próximos
irá brevemente ficar doente ou sofrer um acidente é freqüentemente expressos.

 Transtorno Muito Ansioso e Depressivo

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Esta categoria deve ser utilizada quando o sujeito apresenta ao mesmo tempo
sintomas ansiosos e sintomas depressivos, sem predominância nítida de uns ou de
outros, e sem que a intensidade de uns ou de outros seja suficiente para justificar um
diagnóstico isolado.

 Distúrbios da Atividade e da Atenção

Esta categoria inclui :

 Síndrome/Transtorno de déficit de atenção com hiperatividade


 Transtorno de hiperatividade e déficit de atenção

E exclui:

 transtorno hipercinético associado a transtorno de conduta.

8.5. DEPRESSÃO INFANTIL E RENDIMENTO ESCOLAR

DISTÚRBIO DA APRENDIZAGEM

A escola é um local bastante favorável à realização de estudos. O


comportamento depressivo na infância ocorrerá, muito provavelmente, no contexto
educacional, sendo o baixo rendimento escolar um dos principais sinais do surgimento
de um possível quadro depressivo.

Também deve ser ressaltada a importância do diagnostico para a família da


criança, visto que a depressão pode acarretar problemas no seu repertório
comportamental, variando desde extrema irritabilidade à obediência excessiva,
podendo ainda ocorrer uma instabilidade significativa com relação a esses
comportamentos.

Na infância, a depressão, aparece como algo camuflado, disfarçado,


apresentando-se mais frequentemente sob a forma de inquietação, rebeldia,
preocupações somáticas e hipocondríacas, fugas, condutas anti-sociais e
impulsividade, sem falar no debito do desenvolvimento da aprendizagem.

É na escola que, muitas vezes, os sujeitos manifestam os primeiros sinais


depressivos, notadamente na apresentação de extremas dificuldades no rendimento
escolar, no desempenho cognitivo, na socialização entre colegas, na oscilação do
humor e na participação de atividades, etc.

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Além de a depressão infantil contribuir no rendimento escolar, algumas
investigações têm mostrado que os sintomas depressivos também afetam os hábitos
dos alunos (Palladino e Cols. 2001; Pekrun, Goetz, Titez e Perry, 2002).

A incidência de problemas emocionais, mais especificamente depressão, ocorre


com certa frequência em crianças no inicio da escolaridade e normalmente estão
associados a outras dificuldades de comportamento ou académicas.

Segundo alguns autores, os problemas psicológicos infantis não devem ser


considerados como um fenómeno transitório e sem gravidade, já que dados sugerem
que essas dificuldades podem apresentar uma grande estabilidade temporal e ainda
contribuem para afetar negativamente o processo de desenvolvimento da criança
como um todo.

A relação entre depressão infantil e rendimento escolar tem sido investigada e


os resultados sugerem a depressão na criança pode prejudicar seu rendimento na
escola, bem como o aproveitamento académico. Crianças com história de depressão
apresentam um desempenho acadêmico abaixo do esperado.

Estes descrevem que, na criança deprimida, as funções cognitivas como


atenção, concentração, memória e raciocínio encontram-se alteradas, o que interfere
no desempenho escolar, uma vez que na sala de aula, a criança com sintomas de
depressão normalmente mostra-se desinteressada pelas atividades, apresenta
dificuldade em permanecer atenta nas tarefas e esse comportamento interfere de
forma negativa na aprendizagem dessas crianças.

8.6. Papel dos Pais/ educadores na depressão infantil

É importante que os pais percebam que algo se passa com os seus filhos e que
os levem a um profissional, de preferência antes de a Depressão Infantil já estar
instalada.

Por outro lado, conhecer as atividades da criança na escola antes da


sintomatologia é muito importante. A escola vai exercer um papel importante no
diagnóstico, pois quando se instala uma Depressão Infantil numa criança, os primeiros
sinais são o baixo rendimento escolar e a dificuldade em realizar as tarefas, devidos à
falta de concentração.

Temos que compreender as alterações de comportamento e atitudes das


crianças, como andarem mais irritados, agressivos, mais ativos ou pelo contrário mais
parados e não pensarmos que estes estão apenas a querer “chamar a atenção” , ou
então “ isto passa-lhe, é da idade!” (como os pais referem).

É preciso levar a sério os sentimentos da criança, pois suas emoções são tão
intensas quanto as emoções do adulto.

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Quando a Depressão Infantil, está instalada, uma das estratégias a usar pelos
pais é estimular a criança a brincar, participar de atividades recreativas e desportivas
para que possa melhorar seu humor e manter contato com outras crianças. Na
Depressão Infantil estas atividades não são contra indicadas, até pelo contrário
devemos estimulá-las constantemente.

8.7. Prevenir a depressão infantil

A prevenção passa pelo conhecimento da dinâmica familiar. A prevenção ideal


para a Depressão Infantil, seria orientar os pais para estabelecerem laços mais afetivos
com os filhos, estimulando-os através do desenvolvimento psicossocial.

Sabemos que é uma meta muito difícil de ser atingida, pois os problemas sociais
e económicos, os problemas conjugais e a separação dos casais, são questões que
aumentam os conflitos nos filhos, principalmente, nos menores, e que por vezes
alguns, os adultos também se sentem impotentes para os solucionarem.

No entanto, o mais importante é estar atento às crianças. A depressão Infantil


passa muitas vezes despercebida em casa. A criança fica isolada, muito quieta e as
vezes os pais interpretam como "bom comportamento". A situação agrava-se quando
chega a informação da escola que a criança baixou o seu rendimento escolar. A partir
deste momento a DI já está instalada e devem os pais imediatamente procurar ajuda
profissional para iniciar o processo de intervenção.

9. Criança Isolada

Como todos sabemos, a interação da criança com os seus pares, faz parte do
seu processo de desenvolvimento. Estas interações são vistas como parte necessária da
socialização na infância, providenciando um espaço de aprendizagem de papéis,
desenvolvimento cognitivo e moral, domínio de impulsos agressivos e aquisição de
competências sociais globais. Além disso, a ligação dos comportamentos interpessoais
da criança e o ambiente escolar envolvente têm uma influência determinante no
ajustamento e no sucesso escolar.

O isolamento social das crianças, sobretudo em contexto escolar, pode ser


entendido como um padrão comportamental persistente e que causa mal-estar,
caracterizado por uma baixa frequência e duração de interações sociais, neste caso
com os pares. Tratam-se geralmente de crianças que passam a maior parte do tempo
sozinhas ou em atividades solitárias, interagindo com os colegas somente em
momentos específicos e sobretudo perante a necessidade de realização de algumas
tarefas (caso contrário, não estariam aproximadas).

Alguns autores referem, que o isolamento social na infância deve ser alvo de
atenção, pois representa um padrão de respostas inibidor da aquisição de
comportamentos adaptativos e pode provocar problemas de ajustamento durante todo

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o ciclo de vida. Este é igualmente um forte preditor de problemas de ajustamento
social na vida adulta. As crianças isoladas e impopulares parecem também ter maior
probabilidade de abandono escolar e de serem identificadas como delinquentes anos
mais tarde.

Estudos mostram que existem dois tipos de crianças isoladas

1. As que os outros rejeitam ativamente


2. As que são meramente ignoradas.

O primeiro tipo é mais frequente, sendo que as crianças emitem um reduzido


número de estímulos positivos, como ajudar ou elogiar, e um elevado número de
estímulos aversivos (como por exemplo, críticas ou bater). Esta rejeição pode ser
causada pelo facto dos colegas considerarem esses comportamentos desviantes.

O comportamento isolado é geralmente observado em crianças com atraso


mental, desordens da conduta, dificuldades de aprendizagem, autistas e com défices
sensoriais. O isolamento parece, nestes casos, ser estável e um padrão persistente de
comportamento.

As crianças isoladas são usualmente tímidas, assustadas e reservadas, ausentes


da participação nas atividades. Verifica-se que o momento em que o isolamento social
severo se manifesta é quando a criança é colocada numa situação de grupo, na escola
ou no dia-a-dia. Raramente o problema ocorre em casa e, assim, as intervenções são
relativas mormente a situações fora de casa.

Por não causarem problemas nem perturbarem a sala de aula, não interferindo
com o trabalho dos professores, as crianças muitas vezes são ignoradas.
Frequentemente os educadores e outros profissionais de saúde mental estão mais
envolvidos na promoção de competências académicas, de melhores interações pais-
criança e professor-criança e no controlo da agressividade, negligenciando o
isolamento social. Contudo, trata-se de uma questão que merece atenção já que, afeta
as interações adequadas entre pares, interfere também no bom ajustamento
psicológico.

A dificuldade de socialização, quando a criança não faz amizades e se acostuma


ao isolamento, significa que algo está errado.

A dificuldade de se relacionar com outras crianças é mais evidente na escola,


onde se aprende a arte da convivência. Este comportamento, revela-nos a psicologia,
pode ser sintoma de que a criança está com por algum problema, como, por exemplo,
a separação dos pais, a falta de atenção, de carinho, a baixa auto-estima.

A escola, é muito importantee não nos podemos limitar à sala de aula. Observar
o aluno no recreio, nas horas de lazer, se ele se afasta ou se não convive com os
colegas. Caso isto aconteça, deve-se comunicar aos pais. Manter os pais informados

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sobre o que se passa na escola, facilita o diagnóstico do problema e a solução do
mesmo.

Na sala de aula, o professor deve incentivar o relacionamento da criança com


seus colegas e os pais devem brincar mais com os seus filhos, convidar outras crianças
para brincar com ele em casa. Os pais devem procurar espaços onde haja mais crianças
e estimular atividades coletivas.

Por exemplo, levar a criança a um centro comercial, não é uma boa opção, pois
pode haver muitas crianças, mas nem sempre há interação entre elas.

Nestes casos de isolamento social, a criança poderá fazer terapia infantil, neste
caso chama-se ludoterapia, considerada importante no caso de crianças com
dificuldade de relacionamento.

10. Papel da Família

A família é a primeira esfera de socialização da criança, responsável pela


formação individual e social de cada um. Esta é um sistema, na qual as partes
interagem com o todo, a criança aprende a conviver em sociedade com outros grupos,
necessitando para o efeito de ter uma ambiente familiar estável e de modelos
parentais firmes e consistentes.

Um ambiente saudável favorece o bom desenvolvimento dos filhos e


proporciona-lhes apoio, quando necessário, além de que promove a sua
independência para que seja permitido à criança ou jovem opinar e optar.

A criança fica dotada de referências seguras e consistentes, aprende a ter


consciência das suas possibilidades, de desenvolver segurança interna, promovendo a
sua autoestima.

A educação baseada numa autoridade baseada no respeito mútuo, leva à


construção de uma moral autónoma que consiste em compreender o porquê das leis
que a sociedade impõe e que devemos respeitar, ou contribuir para modificar,
participando com base no respeito mútuo, no espírito de cooperação, de
responsabilidade social, criando-se assim uma identidade individual e social
devidamente consolidada.

O sentimento de pertença à comunidade em que estamos inseridos cresce e


com ele nasce o exercício da cidadania. Educar, é não só um ato de amor, mas uma
responsabilidade individual e social.

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10.1. TIPOS DE FAMÍLIA

Nos dias de hoje, assistimos aos mais variados tipos de família, tais como:

 Família Nuclear

Que é composta por mãe, pai e seus filhos.

 Família Extensa

Que é composta por pais cujas relações são não só entre pais e filhos. Uma família
pode incluir avós, tios, primos e outros parentes por sangue ou casamento.

 Família Monoparental

Em que a criança ou crianças vivem apenas com um dos pais.

 Família Homoparental

Em que a criança ou crianças vivem com um casal gay.

10.2. A FAMÍLIA E A ESCOLA

As escolas devem ser promotoras de políticas/estratégias que promovam a


maior aproximação das famílias à escola. Os pais podem ser envolvidos de diferentes
formas e cabe à escola proporcionar uma diversidade de modalidades de envolvimento
parental na escola. Desta forma haveria uma maior aproximação de ambas. Assim
iremos abordar algumas estratégias que possam promover essa aproximação, tais
como:

 Promover a comunicação entre a escola e a famílias.

A escola deve estabelecer sistemas de comunicação bilateral, procurando


disponibilizar canais de comunicação diversos (reuniões de pais, reuniões individuais
com a família, contactos telefónicos, caderneta do aluno, boletins da escola, e-mail) de
forma a alcançar todas as famílias. A comunicação deve ir além das dificuldades
escolares e de comportamento e da avaliação do aluno. As reuniões de pais devem ser
clarificadoras do projeto educativo da escola, regulamento interno e projeto curricular
de turma. As reuniões individuais com os pais devem fornecer informação acerca dos
progressos e dificuldades do aluno e de como os pais devem ajudar as crianças a
ultrapassar essas dificuldades. Devem ser igualmente aproveitadas para conhecer
melhor a família e as suas necessidades.

 Envolver os pais em atividades no espaço escolar

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Para além dos tradicionais eventos que a escola promove (atividades de início e
fim do ano letivo, festas de Natal, Dia da Mãe, Dia do Pai), a escola pode oferecer
oportunidades mais diversificadas que possibilitem a participação da família com o
objetivo de melhorar o espaço escolar.

 Envolver os pais em atividades de aprendizagem em casa.

Os pais são importantes na aprendizagem e no progresso escolar das crianças.


Para que os pais possam desempenhar o seu papel com eficácia necessitam que o
professor os informe acerca das competências que a criança deve adquirir em cada
momento da aprendizagem e de como podem estar envolvidos em atividades de
aprendizagem articuladas com trabalho que o professor desenvolve na sala de aula.
Isto pode ser feito, por exemplo, comunicando aos pais os objetivos de aprendizagem
através de uma informação semanal ou mensal, estabelecendo contratos entre aluno-
pais-professor, ensinado os pais a importância da monitorização e
encorajamento/reforço dos trabalhos para casa e elaborando atividades de
aprendizagem, onde os pais sejam chamados a participar.

 Envolver os pais na tomada de decisões.

As famílias devem ser envolvidas nas tomadas de decisão, quer através da


representação dos pais nos organismos da escola em que esta representação já está
prevista, quer em grupos de reflexão-ação criados para a resolução de problemas que
visem a melhoria da escola. Isto pode ser concretizado se as escolas ajudarem a
manter as Associações de Pais ativas (facilitando espaço físico, reuniões de
coordenação com a direção da escola), procurarem cativar pais de todos os níveis
socioeconómicos e etnias e de diferentes grupos profissionais que estão presentes na
escola a fazerem parte das Associações e criarem grupos de reflexão sobre
problemáticas chave onde incluam representantes dos pais.

 Envolver a comunidade

A escola deve procurar partilhar as suas responsabilidades e recursos com as


diferentes instituições e organismos existentes na comunidade (câmara municipal,
junta de freguesia, centro de saúde, associações recreativas e culturais, etc.). Por
exemplo, informando as famílias e os alunos acerca dos recursos e atividades que
podem encontrar na comunidade, como atividades de tempos livres e recreativas,
acontecimentos culturais, serviços de saúde, serviços sociais e colaborando com os
diferentes organismos de forma a promover atividades de formação/sensibilização aos
pais e aos alunos, a disponibilizar recursos que satisfaçam algumas necessidades da
escola, e a promover a integração e a transição dos alunos para outras instituições de
ensino ou de trabalho, entre outros.

A comunicação escola família é o requisito básico para a existência de outras


formas de envolvimento parental na escola. Quando a escola e a família comunicam de

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forma eficaz, os pais têm mais probabilidades de estabelecer uma relação de confiança
e um clima de cooperação com o professor e com a escola, as interações entre a escola
e a família aumentam, os pais percecionam a escola e os seus profissionais de forma
mais positiva, entendem melhor as políticas da escola e a ação dos professores,
acompanham melhor os progressos da criança.

Assim a escola deve estar atenta aos grupos de pais mais vulneráveis a estarem
menos envolvidos na escola. A escola pode aproximar mais estas famílias, quebrando o
ciclo de afastamento. É importante lembrar que são precisamente as crianças destas
famílias que mais beneficiam de um maior envolvimento dos pais na escola.

Um grande preditor do envolvimento parental na escola é o nível


socioeconómico e o nível educacional dos pais. Estas famílias que por vezes são
designadas por “famílias difíceis de alcançar” têm relativamente às outras famílias
dificuldades adicionais para se envolverem na escola, tais como, horários de trabalho
pouco flexíveis, falta de recursos, preocupações com questões de sobrevivência,
perceção de baixa competência para tratar de assuntos relacionados com a escola e
memórias negativas relacionadas com a sua própria experiência com a escola.

As escolas e os professores devem conhecer estas dificuldades e procurar


contorná-las com: horários flexíveis de atendimento aos pais; estabelecendo uma
abordagem positiva de aproximação às famílias (estabelecer o contacto com a família
no início do ano para dar-se a conhecer e conhecer a família, contribuindo para a
construção de uma imagem mais positiva da criança por parte da família, tornando
visíveis os recursos e competências da família e construindo novas competências),
tornando a linguagem clara e acessível a todas as famílias, diversificando a forma de
comunicar com as famílias e em algumas alturas recorrer ao contacto telefónico ou à
visita domiciliária para manter a comunicação com aquelas famílias que têm mais
dificuldade em deslocar-se à escola.

Psicologia educacional ou psicologia da educação é o ramo da psicologia que


estuda o processo de ensino/aprendizagem em diversas vertentes: os mecanismos de
aprendizagem nas crianças e adultos (o que está estreitamente relacionado com a
psicologia do desenvolvimento); a eficiência e eficácia das táticas e estratégias
educacionais; bem como o estudo do funcionamento da própria instituição escolar
enquanto organização (onde se cruza com a psicologia social).

Os psicólogos educacionais desenvolvem o seu trabalho em conjunto com os


educadores/professores de forma a tornar o processo de aprendizagem mais efetivo e
significativo para o educando, principalmente no que diz respeito à motivação e às
dificuldades de aprendizagem.

Focam a sua ação não apenas nas necessidades da criança na escola como,
também, em outras áreas onde as experiências escolares têm impacto. Alguns
psicólogos educacionais centram o seu trabalho no desenvolvimento das capacidades e

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necessidades das crianças com dificuldades de aprendizagem, como no caso da PHDA,
problemas emocionais ou problemas comportamentais.

Serviços de Psicologia e Orientação, que a própria escola disponibiliza.

Os Serviços de Psicologia e Orientação (SPO) desenvolvem a sua ação nos


estabelecimentos de educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário, sendo
três os domínios considerados para a sua intervenção:

 O apoio psicopedagógico a alunos e a professores;


 O apoio ao desenvolvimento do sistema de relações da comunidade
educativa
 A orientação escolar e profissional

Para além destas três áreas de intervenção, podemos igualmente:

1. Colaborar com a comunidade educativa prestando apoio psicopedagógico às


atividades educativas, identificando as causas do insucesso escolar e propor
medidas tendentes à sua eliminação.
2. Articular em colaboração com os órgãos de gestão da escola e com outros
serviços especializados, nomeadamente das áreas de saúde e da segurança
social, de modo a contribuir para o correto diagnóstico e avaliação sócio-
médica-educativa dos alunos e planear medidas de intervenção.
3. Apoiar alunos no processo de desenvolvimento da sua identidade pessoal e
do seu projeto de vida.
4. Planear e executar atividades de orientação escolar e profissional através de
programas e ações de aconselhamento a nível individual e de grupo.
5. Colaborar com outros serviços, nomeadamente no apoio à celebração de
protocolos, tendo em vista a organização de informação e orientação
profissional.
6. Desenvolver ações de informação e sensibilização dos pais e da comunidade
em geral no que respeita à problemática que as opções escolares e
profissionais envolvem

12. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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