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DO ORGANIZADOR, NA EDITORA HUCITEC

Por Uma Geografia Nova


Economia Espacial: Críticas e Alternativas (esg.)
NOVOS
Pobreza Urbana (esg.)
Pensando o Espaço do Homem
RUMOS DA
Ensaios sobre a Urbanização Latino-Americana GEOGRAFIA
O Trabalho do Geógrafo no Terceiro Mundo
Manual de Geografia Urbana BRASILEIRA
Metamorfoses do Espaço Habitado
O Novo Mapa do Mundo: Fim de Século e Globalização (org.)
O Novo Mapa do Mundo: Natureza e Sociedade de Hoje: uma Leitura Geográfica (org.)
O Novo Mapa do Mundo: Globalização e Espaço Latino-Americano (org.)
Território: Globalização e Fragmentação (org.)
A Urbanização Brasileira
Por Uma Economia Política da Cidade MILTON SANTOS
Técnica, Espaço, Tempo (Globalização e Meio Técnico-Científico Informacional)
organizador


quarta edição

EDITORA HUCITEC
São Paulo, 1996
Em terceiro lugar, o espaço da geografia é o espaço referido ao
segmento do real, cuja escolha depende do que se deseja e do conhe-
cimento do real em seu movimento na particularidade.
Em quarto lugar, o espaço da geografia é o subespaço do real que
remete à subtotalidade em seu conjunto, no retorno que dá sentido à
aproximação em relação ao objeto.
Em quinto lugar, o espaço da geografia é o discurso que extrapola
a subtotalidade, na consciência realizada como compreensão do real
no todo e na parte.
O ESPAÇO GEOGRAFICO:
Bibliografia ALGUMAS
Giannotti, J. A. Origens da dialética do trabalho, DIFEL, São Paulo, 1966. CONSIDERAÇOES *
Marx, K. "Prefácio à 'Contribuição à crítica da economia política"', in Marx,
K. (e) Engels, F. Obras escolhidas, Vol. I, Vitória, Rio de Janeiro, 1961. Roberto Lobato Corrêa
Silva, A. C. da. O espaço fora do lugar, HUCITEC, São Paulo, 1978.
Silva, A. C. da. De quem é o espaço? HUCITEC, São Paulo, no prelo.

O que é o espaço? Pensar a respeito do espaço depende de quem o


pensa. O espaço pode ser pensado como espaço físico, psicológico,
social ou geográfico, entre outros tipos. Como geógrafo gostaria de
pensá-lo e discuti-lo como espaço geográfico e neste sentido uma
definição inicial consistiria em considerá-lo como a. superfície da
terra, profundamente diferenciada por processos naturais. Tal super-
fície constitui-se na morada do homem e sua diferenciação por pro-
cessos naturais só ganha significado porque é sobre ela que o homem
erigiu seu habitat. Desse modo o conceito de espaço geográfico se
enriquece porque nele se introduz o homem com sua história. Mais
claramente, o espaço geográfico é definido como sendo a superfície
da terra vista enquanto morada, potencial ou de fato, do homem,
sem o qual tal espaço não poderia sequer ser pensado.
Tradicionalmente,. de Kant, Humboldt a Hettner, de Vidal de la
Blache a Pierre George, de Sauer, Hartshorne, Bunge e Harvey 1 -
só para citar alguns dos geógrafos que pensaram acerca do espaço
geográfico - o espaço tem sido o conceito organizador em torno do
* Comunicação apresentada à mesa-redonda sobre Espaço como Objeto de
Conhecimento - 30.' Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso
da Ciência, São Paulo, julho de 1978.
I. Veja-se, entre outros: Hartshorne, R. The Concept of Geography as
a Science of Space, from Kant and Humboldt to Hettner, Annals of the Asso-
ciation of American Geographers 48 (2) 1958; La Blache, P. Vida! de. Princi-
pias de geografia humana, Edições Cosmos, Lisboa, 1954; Pierre George,
Sociologie et géographie, PUF, Paris, 1966; Sauer, C. O. The Morphology of
Landscape, University of California Publications, Geography, 2 (2) 1925;
Hartshorne, R. The Nature of Geography, Annals of the Association of Ame-
rican Geographers, 29 (3 e 4), 1939; Bunge, W. "Theoretical Geography, Lund

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qual a geografia se desenvolveu, ainda que houv~sse divergênciab ora como espaço relativo ou relaciona}, ora simultaneamente como
entre geógrafos do modo como o espaço-morada do homem devesse qualquer combinação destes três conceitos. . .
ser pensado. 2 Paradoxalmente, entretanto, tem h~vido pot;tcos "~eba­ No conceito de espaço absoluto o espaço torna-se uma cotsa em st
tes sobre -a natureza do espaço como um concetto orgamzador · em mesma, sendo independente de qualquer coisa, constituindo-se no
geografia. a O propósito desta comunicação é o de discutir algumas receptáculo que contém as coisas. O uso do conceito de espaço absolu-
questões que nos parecem relevantes sobre a nature~a do espaço to tem suas origens no pensamento de Kant, influenciado por Newton,
geográfico, ainda que outras sejam deixadas de lado. Especificamente e dele chegou a Humboldt, Hettner e Hartshorne.
considerar-se-á, de um lado, como através da prática humana se tem No pensamento geográfico o conceito de espaço absoluto aparece
conceitualizado o espaço geográfico e como o geógrafo tem pensado associado, como indica Harvey, 5 às idéias de áreas ou região e de
acerca do espaço e, de outro, o conceito de processo espacial, que se unicidade, e assim associado à geografia regional proposta por
tem constituído em tim conceito fundamental da prática geográfica, Hartshorne. Isto se evidencia quando este afirma que: 6 "a área, em
ainda que nem sempre formalmente explicitado ou conceitualizado si mesma, está relacionada aos fenômenos dentro dela somente naquilo
imprecisamente. que ela os contém em tais e tais localizações", e ain~a: 7 "nenhuma
(lei) universal precisa ser considerada outra que a let geral da geo-
grafia de que todas suas áreas são únicas".
Apesar das críticas que se faz ao paradigma geográfico de Harts-
horne, s aí incluído o conceito de espaço absoluto, entretanto, este
A prática humana cria necessidades de se conceitualizar o espaço- conceito é útil, podendo tornar-se relevante em certas circunstâncias:
-morada do homem. Como Harvey afirma: 4 "Os conceitos de espaço assim, vinte hectares de terras são vinte hectares de terras e, to~ás
estão baseados na experiência ( ... ) e variam de um contexto cultural as outras coisas mantidas constantes, apresentam um valor matar
para outro, e dentro de configurações culturais mais amplas subgrupos que dois hectares de terras. Não resta dúvida que no processo de
decisão locacional de uma firma o conceito de espaço absoluto é
menores podem desenvolver um aparato conceitual particular em re-
considerado em um determinado momento, e a impossibilidade extre-
lação ao espaço, dado o papel particular que desempenha na socie-
ma de se obter uma determinada dimensão de terras pode afetar a
dade". tomada de decisão locacional.
Harvey mostra como o conceito de espaço tem v~riado ao longo No conceito de espaço relativo este é entendido a partir de "rela-
do tempo, tendo mudado substancialmente desde a antiguidade_. Da cionamentos entre objetos", e o espaço relativo "só existe porque os
prática humana emergem três modos como o espá'ço-morada do homem objetos existem e se relacionam mutuamente". 9 Assim: 10 "o movi-
tem sido conceitualizado e assim considerado pelos geógrafos: espaço mento de pessoas, bens, serviços e informações verifica-se em um
absoluto, espaço relativo e espaço relaciona[. Estes três conceitos, espaço relativo porque custa dinheiro, tempo e energia para se vencer
entretanto, não são mutuamente exclusivos, e o espaço pode ser con- a fricção da distância".
siderado, de acordo com as circunstâncias, ora como espaço absoluto, Desse modo, dois hectares de terras localizadas no distrito central
de negócios de uma metrópole possui um valor maior que um terreno
Studies", in Geography Series C n. I, 1962; Harvey, D. Explanation in Geo- de mesma área porém localizado na periferia, cujo valor é afetado
graphy, Edward Arnotd, London, 1969; Harvey,' D. Social fustice and lhe City,
Edward Arnold, London, 1973. pelos custos de transportes para se alcançar o distrito central de
2. As divergências sobre o tratamento da questão espaço-morada do homem
parecem resumir-se a três linhas de abordagem: ecológica ou. estudo das rela- 5. Harvey, D. Explanation in Geography.
ções homem-meio físico, regional ou o .estudo da .área, e locac10nal o~ o e~tudo 6. Citado por Harvey, D. Explanation in Geography, p. 208 (referência
da organização do espaço, como tem stdo denommada. A este ,respetto veJa-se: original em The Nature of Geography, p. 395).
Pattison, W. As quatro tradições da geografia, Boletim carioca de Geografia, 7. Hartshorne, R. The Nature of Geography, p. 644.
27, 1976. A quarta tradição, não indicada acima, seria a dos estudos da terra 8. Destas críticas a mais acirrada é, sem dúvida, a de Schaeffer, F. O
que constitui a abordagem da geografia física; Taaffe, E. J. A visão espàcial excepcionalismo em geografia: um estudo metodológico, Boletim carioca de
em conjunto, Boletim geográfico, 247, 1975. geografia, 27, 1976 - onde está implícita a enfatização em se considerar o
3. Harvey, O. Explanation in Geography, p. 206. espaço relativo como adequado à análise geográfica.
9. Harvey, O. Social fustice a11d the City, p. 13.
4. Harvey, O. Explanation in Geography, p. 192 e 194. 10. H~rvey, D. Idem, p. 14.

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negoctos, principal foco de atividades da metrópole. Igualmente, na espaço de per si, Bunge 16 apresenta uma visão extrema da geografia,
zona rural, cem hectares de terras localizados a cinqüenta quilômetros onde o espaço relativo é tratado com uma linguagem da geometria
de uma metrópole mas servida por uma rodovia asfaltada, terá maior não-euclidiana. Nystuen, 17 um dos seguidores da proposta de Bunge,
valor que cem hectares a igual distância, porém cujo acesso se faz, chega mesmo a propor que a geografia tenha como conceitos básicos
em grande parte, por caminhos rurais. os de direção, distância e conexão, sem nenhuma referência ao social.
O conceito de espaço relativo, e assim o conceito de distância têm Ainda que se possa criticar o uso do conceito de espaço relativo
sido fundamental para as ciências sociais interessadas em questões pelos geógrafds, não há dúvidas de que o problema da localização
espaciais. Entre os sociólogos da Escola de Ecologia Humana o con- aparece em qualquer sociedade, e sobretudo na sociedade capitalista,
ceito de distância ecológica proposta por Mckenzie 11 é crucial para como um problema fundamental, desde que a relação custo-benefício
se compreender a distribuição de certos aspectos da organização ter- apresenta uma componente espacial, onde a localização deve ser pen-
ritorial das comunidades. Entre os economistas regionais o conceito saqa erry termos de espaço relativo. E não é de se estranhar que o
de transport inputs ou distance inputs também é básico para a com- conceito de espaço relativo tenha sido enfatizado a partir da expansão
preensão da economia espacial. 12 Em ambos os casos a idéia de capitalista, desde o final do século passado, tendo sido retomado na
espaço relativo está contida nos conceitos acima mencionados. década de 1950, sob nova expansão do capital. 18
No caso dos geógrafos há uma longa tradição com o uso dos con- No conceito de espaço relaciona! este é visto como existindo nos
ceitos de espaço relativo e distância a ponto de se ter sugerido a
objetos, "no sentido de que um objeto somente pode existir na medida
redução da geografia a uma "disciplina da distância". 13 Ênfase no
conceito de espaço relativo e em distâncias relativas, medidas em em que ele contenha e represente dentro de si relações com outros
termos de dificuldades, custo, oportunidades intervenientes e intera- objetos. 19 Assim, dois hectares de terras em um bairro aristocrático
ção social, aparece com a chamada "revolução teorética e quantita- valem mais do que dois hectares de terras em um bairro proletádo
tiva" e a retomada de velhas teorias locacionais e o desenvolvimento porque, no primeiro caso, a parcela em questão contém e representa
de novas. 14 A enorme importância atribuída à "família thuniana" de relações com parcelas vizinhas, de alto valor, o qual é fornecido, em
modelos peios geógrafos, como também pelos economistas regionais, última instância, pelo conteúdo social do bairro. Do mesmo modo,
atesta o significado e importância do conceito de espaço relativo dado cem hectares de terras em uma região fértil valem mais que cem
pelos geógrafos. 15 Ao considerar a geografia como uma ciência do hectares localizados em uma região pedologicamente pobre, todos os
demais aspectos mítntidos constantes.
11. Mackenzie, R. "El ámbito de la ecología humana", in Estudios de Na geografia, O- conceito de espaço rela~ional está implícito, por
ecología humana, ed. G. A. Theodorson, Labor, Barcelona, 1974.
12. Veja-se a obra de Isard, W. Location and Space-Economy, The M. I. T. exemplo, nas análises sobre uso da terra urbana, especialmente no
Press, Cambridge, 1956, especialmente o Capítulo 4 "Transport lnputs and que se refere à distribuição de grupos sociais no. espaço urbano,
Related Spatial Concepts". através da delimitação de áreas sociais, 20 ainda que os trabalhos rea-
13. Watson, J. W. Geography - A Discipline in Distance, Scottish
Geographical Magazine, 71 (1) 1955. Tennant, R. J. Urban Population Densities: -Structure and Change, Geogra-
14. Abler, R., Adag1s, J. S., Gould, P. Spatial Organization: The Geogra- phical Review, 53 (3) 1963; Burgess, E. W. "E! crecimiento de la ciudad:
pher's View of the World, Prentice-Hall Inc., Englewood Cliffs, 1971; ver introducción a un proyecto de investigación", in Theodorson, G. A. Estudios de
sobretudo o Capítulo 3 "The Science of Geography", especialmente p. 72-82. ecología humana; e Hay, A. M. A Simple Location Theory for Mining Acti·
15. Entende-se por "família thuniana" de modelos, o conjunto de teorias vity, Geography, 61 (2) n. 271, 1976.
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e modelos desenvolvidos a partir do modelo de von Thünen, J. H. em 1826 16. Bunge, W. Theoretical Geography, já citado.
em O estado isolado. Tais modelos descrevem e explicam padrões de uso da 17. Nystuen, · J. D. "Identification of Some Fundamenta:! Spatial Concepts",
terra agrícola e urbana, valor da terra e sua variação espacial, densidades in Berry, B. J. L. e Marble, D. F. Spatial Analysis: A Reader in Statistical
demográficas intra-urbanas, localização de classes sociais no espaço urbano, e Geography, Prentice-Hall Inc., Englewood Cliffs, 1968.
localização de mina8, tendo em comum a consideração do efeito da distância 18. Veja-se a discussão realizada por geógrafos da "Union of Socialist
a partir de um ponto central, mercado rural ou industrial ou distrito central Geographers" sobre a teoria locacional, transcrita em Antipode, 7 (1), 1975.
de negócios dentro de uma área urbana - sobre áreas não-centrais. Veja-se 19. Harvey, D. Social fustice and the City, p. 13.
entre outros: Ceron, A. O. A função da distância e os padrões de intensidade
e uso da terra no modelo thuniano de. localização, Geografia, 1 (2), 1976; 20. Veja-se, por exemplo, o volume 47 (2) do periódico Economic Geo-
Alonso, W. Location and Land Use. Toward a General Theory of Land Rent, graphy, de junho de 1971, que é dedicado ao tema áreas sociais (em uma
Harvard University Press, Cambridge, 1964; Berry, B. J. L., Simons, J. W. e versão computerizada ou ecologia 'fatorial).

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lizados sejam sobretudo descritivos, 21 e certamente em menor número no dizer de Harvey, 25 renda de monopólio de classe; b) localização
Jo que aqueles que consideram o espaço em termos relativos. relativa, estruturada por custos de transportes, de onde se extrai do
Por que a prática humana criou três conceitos alternativos de e[)· espaço relativo renda diferencial ou renda locacional; c) conteúdo do
paço - morada do homem? Entendemos que os três conceitos emer- espaço, como fertilidade, amenidades e prestígio, produzidos natural
gem devido ao fato de que o espaço tem um valor de· uso, constituin- ou socialmente, que lhe confere o caráter de espaço relaciona! de
do-se primeiramente no suporte físico sobre o qual a sociedade se onde se extrai renda de monopólio. 26
organiza; neste sentido é insubstituível, e o homem valoriza algumas Do exposto acima torna-se evidente que o espaço-morada do ho-
de suas características como amenidades físicas e fertilidade que, mem, sob a ação humana assume uma natureza social e é nestes
apesar de terem significados diferentes de acordo com padrões cultu- termos que deve ser pensado pelo geógrafo interessado em compre-
rais específicos, não são distribuídos uniformemente sobre a superfície ender a sua organização, pois esta não é autônoma da organização
da terra. Deste modo certos espaços tornam-se escassos e mais dese- social de onde aparecem práticas de apropriação, de extração de rendas
jáveis, dotados de alto valor de uso. A "fricção da distância", também e conceitos associados sobre o espaço. 27 Neste sentido as sugestões
com significados culturais diferentes pode, por si mesma, atribuir de R. Burgess 28 e sobretudo de Santos 29 de se considerar a categoria
valores de usos diferenciados às diversas porções do espaço. formação social como válida para se elaborar uma teoria a respeito
Mas em uma sociedade integrada economicamente através de do espaço tornam-se extremamente relevantes.
mecanismos de mercado 22 o espaço possui também um valor de
troca, isto é, constitui-se em uma mercadoria que possibilita a obten-
ção de uma renda por parte daqueles que dela se apropriaram, quer 11
devido ao seu alto valor de uso graças às condições naturais conside-
radas mais favoráveis, quer devido à escassez socialmente produzida Vimos anteriormente que o espaço-morada do homem é de natureza
através da ação humana ao longo do tempo - beneficiando certas social. Entretanto, o espaço não atua passivamente no processo de sua
partes do espaço com obras de infra-estrutura, possibilitando que constante organização e reorganização pelo homem (e este posiciona-
certos espaços, através de seu conteúdo social, projetem uma imagem mento não implica um retorno ao determinismo ambiental). Pensamos
de prestígio, e tornando alguns locais focos vitais do sistema de que este papel pode ser, devido a um diferencial na distribuição de
interações, encurtando assim, de modo agregado, as distâncias - quer recursos naturais, e em casos limites, de extrema importância no
simplesmente decorrente da apropriação de parcelas do espaço através processo de organização do espaço. Contudo, mesmo os recursos na-
da instituição da propriedade privada. 23 turais só adquirem significado quando vistos em um contexto social.
Em uma sociedade integrada economicamente através de mecanis- De acordo com Portes e Browning 30 o espaço "constitui um impor-
mos de mercado, os diferentes modos de se conceitualizar o espaço 25. Harvey, D. "Class-Monopoly Rent, Finance Capital and the Urban
resultam da prática humana centralizada sobretudo na sua apropria- Revolution", Regional Studies, 8, 1974.
ção socialmente seletiva, de onde se obtém uma renda entendida 26. Walker, R. A. "Urban Ground Rent: Building a New Conceptual
Theory, Antipode, 6 (1), 1974.
como 24 "uma parte do valor de troca que é retirada pelo proprietá- 27. Short, J. R. "Social Systems and Spatial Patterns", Antipode 8 (1),
rio ( ... ) da terra", e que varia de acordo com: a) dimensão do espaço 1976.
que somente pode ser pensada em termos de dimensão de propriedade 28. Burgess, R. Marxism and Geography, Occasional Papers n. 30, Depart-
ment of Geography, University College London. A passagem abaixo ilustra o
(espaço absoluto) que possibilita a extração de renda absoluta ou, ponto de vista: "Em outras palavras devemos analisar a historicamente espe-
cífica mas sempre construção social dos conceitos de espaço, e ver como estes
21. Veja-se a crítica de Caruso, D. e Paim, R. Social Space and Social estão relacionados à formação social que os emite" (p. 35).
Place, The Professional Geographer, 25 (3), 1973. 29. Santos, M. Society and Space: Social Formation as Theory and
22. Veja-se sobre o assunto Harvey, D. Society, The City and the Space Method, Antipode, 9 (1) 1977, onde aparece: "Se a idéia de sociedade em
Economy of Urbanism, Association of American Geographers, Resource geral é abandonada em favor de determinações específicas que tornam a socie-
Paper 18, 1972, onde se discute o tipo de sociedade em questão de acordo dade concreta (formação social), pode ser verificado que sem o espaço estas
com as idéias de K. Polanyi e M. Fried. determinações específicas permanecerão mero potencial, uma simples vocação.
23. Harvey, D. Social fustice and the City, Capítulo 5 - "Use Value, Tornam-se realidades através do espaço e no espaço" (p. 6).
Exchange Value and the Theory of Urban Land-Use". 30. Portes, A. e Browning, H. L. Current J'erspectives in Latin American
24. Harvey, D. Social fustice and the City, p. 190. Urban Research, lnstitute of Latin American Studies, Austin, 1972, p. 12.

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tante recurso que interage com uma dada ordem social, limita-a e ora de um modo vago. :l;, Acreditamos ser útil repensar (e recuperar)
contribui para sua estabilidade", mas isto se processa, de acordo com o conceito de processo espacial devido a sua utilidade na conexão
Corraggio, através das relações sociais~ 31 Em outras palavras, é so- ação humana-tempo-espaço-mudança.
bretudo através da ação humana que o espaço desempenha um papel Os processos espaciais, elementos mediatizadores entre processos
na sua organização. sociais e organização do espaço, constituem um conjunto de forças
A ação humana, que gera a organização do espaço, isto é, que postas em ação por determinados atores que atuam ao longo do
origina forma, movimento e conteúdo de natureza social sobre o tempo, originando localizações1 relocalizações e permanência de ati-
espaço, é caracterizada, nas sociedades integradas economicamente vidades e do homem sobre o espaço.
através de mecanismos de mercado, pela ação de atores que, ao se Dois desses processos são concentração e dispersão, um corres-
apropriarem e controlarem os recursos, sobretudo os recursos escassos, pondendo à antítese do outro. Algumas atividades humanas tendem a
natural ou socialmente produzidos, tornam-se capazes de impor sua se concentrar porque economias externas são criadas, com isto pos-
marca sobre o espaço. sibilitando redução de certos custos e maximização na reprodução do
Tais atores - genericamente os proprietários dos meios de pro- capital; o espaço onde se verifica esta concentração - seja a área
dução e o Estado - possuem dois objetivos fundamentais - acumu- central de uma metrópole, seja uma área metropolitana como um
lação de capital e reprodução da força-de-trabalho, e estes são os todo - passa a atrair um número crescente de novas atividades até
processos sociais que levam, nas sociedades em questão, à organização um ponto de saturação, quando começam a emergir deseconomias
do espaço. Em outras palavras, acumulação de capital e reprodução externas. A dispersão se verifica como medida para se manter a taxa
da força-de-trabalho projetam-se sobre o espaço através da ação desses de reprodução do capital, e neste caso o espaço exerce um papel de
atores. Entre processos sociais, de um lado, e organização do espaço, repulsa de ·atividades, mas, repita-se, ação d9 espaço através de re-
de outro, aparece um elemento mediatizador, os processos espaciais, lações sociais. 3& O inverso também pode ocorrer, passando-se de
que são necessariamente de natureza social mas que não são, em si atividades que nasceram dispersas para uma concentração, como se
mesmos, processos sociais. 32 Hipotetizamos que é através dos pro- exemplifica com o caso da atividade portuária. 37
cessos espaciais que o espaço passa a ter um papel ativo em sua A segregação, um caso particular cfe concentração, especialmente a
própria organização. 33 segregação residencial, é um processo espacial .onde grupos sociais
O que são os processos espaciais? Antes de entrarmos na questão definidos de acordo com renda, status ocupacional, educação, estágio
convém justificá-la. Por que processos espaciais? Trata-se de uma do ciclo de vida, status migratório e étnico, tendem a se separar,
expressão pensada por geógrafos para tentar dar conta do que ocorre originando áreas sociais internamente homogêneas e heterogêneas
no espaço ao longo do tempo. Ela pode ser vista como sinônimo de
entre si. Este processo relaciona-se à reprodução da força-de-trabalho.
processos ecológicos da Ecologia Humana, 34 mas não se admite, no
Segundo Harvey, 38 as áreas socialmente homogêneas criam condições
presente trabalho, nenhuma analogia, ao nível explicativo, com base
na ecologia vegetal. Visto como conceito geográfico, o conceito em através das quais se verifica a reprodução, nà próxima geração e
questão tem sido considerado de modo impreciso, e mesmo inade- muitas vezes na própria área, do conteúdo social existente atualmente
quado, por muitos geógrafos; ora é visto como sinônimo de movi- 35. Veja-se Corraggio, J. L., comentando a questão, em seu citado artigo.
mento, no sentido de deslocamento, como migrações residência-traba- 36. Consulte-se sobre o assunto, entre outros: Haig, R. M. "Toward an
lho ou fluxos de bens e serviços sobre o espaço de uma dada região, Understanding of the Metropolis", in Smith, R. H. T., Taaffe, E. J. e King,
L. J. Readings in Economic Geography, Rand Me Nally Co., Chicago; 19(?8
31. Corraggio, J. L. Social Forms of Space Organization and Their Trends (original de 1926), e Colby, C. C. Centrifugai and Centripetal Forces in Urban
ir. Latin America, Antipode, 9 (1), 1977. Geography, Annals of the Assoéiation of ttmerican Geographers, 13 (1), 1933.
32. Veja-se Corrêa, R. L. Os processos espaciais e a cidade, inédito (comu- 37. Veja-se Rimnier, P. J., A mudança de status dos portos marítimos da
nicação oral apresentada no 3.• Encontro Nacional de Geógrafos, Fortaleza, Nova Zelândia, 1853-1960, Boletim geográfico 229, 1972, e Taaffe, E. J.,
julho de 1978). Morrill, R. L. e Gould, P. R., Transport Expansion in Underdeveloped Coun-
33; Esta é, sem dúvida, uma questão para discussão, e a própria hipótese tries: A Comparative Analysis, Geographical Review, 53 (4), 1963.
requer maior elaboração. 38. Harvey, D., "Class Structure in ~il Capitalist Society ~d the Theory
34. Veja-se Mckenzie, R. "EI ámbito de la ecología humana", in Theo- of Residential Differentiation", in Processes in Physical and Human Geography,
d_orson, G. A. Estudios de ecología humana, que discute os processos ecoló- Ed. R. Peel, M. Chisholm e P. Haggett, Heinemann Educational Books, London,
gicos. 1975.

32 33

L
naquela área. O conceito de "consciência espacial" ou "imaginação
geográfica", análogo ao de 'imaginação sociológica", 39 contém intrin-
secamente a idéia do papel do espaço na sociedade.
A inércia, entendida como força de permanência de atividades em
uma mesma localização apesar de terem cessado as razões iniciais
desta localização, pode ser vista, pelo menos a curto ou médio prazo,
como um processo espacial. Um exemplo notável aparece no estudo
de Firey, 40 que admite que o espaço pode conter "sentimento e
simbolismo", através dos quais certos usos da terra economicamente
não-racionais podem ser preservados. No caso em questão o espaço REPENSANDO A
reflete valores socialmente enraizados na comunidade ou em certos GEOGRAFIA*
setores da comunidade.
Ruy Moreira
111 A memória de Otávio Brandão
Eis algumas considerações sobre o espaço-morada do homem. Ou-
tras podem e devem ser feitas visando uma maior e melhor compre-
ensão de um espaço que, dado gratuitamente pela natureza, foi im- Disséramos que o espaço geográfico pode ser concebido por intermédió
de uma metáfora. Se observarmos uma quadra de futebol-de-salão,
pregnado do social pelo homem, transformando-o não em um ele-
mento passivo, mas, através das relações sociais, em um elemento notaremos que o arranjo do terreno reproduz as regras desse esporte.
que se insere como parte de uma totalidade de uma determinada so- Basta aproveitarmos a mesma quadra e nela superpormos o arranjo
espacial de outras modalidades de esporte, como o vôlei, o basquete
ciedade. Enquanto espaço-morada do homem, acreditamos ser neces-
sário pensá-lo em termos de suas conexões com tempo, pois tempo ou o handball, cada qual com "leis" próprias, para notarmos que o
e espaço reúnem toda a experiência humana. arranjo espacial diferirá para cada uma. Diferirá porque o arranjo
espacial, reproduz as regras do jogo, e estas regras diferem para
39. Harvey, D., Social ]ustice and the City, já citado "Consciência espa- cada modalidade de esporte considerado. Se fossem as mesmas "leis"
cial" ou "imaginação geográfica" permite ao "indivíduo re~onhecer o papel do para todas, o arranjo seria um só. Assim também é o espaço geográ-
espaço e lugar em sua própria biografia, relacionar os espaços que vê em fico com relação à sociedade.
torno de si, e reconhecer como as transações entre indivíduos e entre organi-
zações são afetadas pelo espaço que os separa. Permite-lhe reconhecer as rela- O arranjo do espaço geográfico exprime o "modo de sociàlização"
ções que existem entre ele e seus vizinhos e seu território. Permite-lhe julgar da natureza. Tal o modo de produção, tal será o espaço geográfico.
a relevância de eventos em outros lugares ( ... ) Permite-lhe também modelar e O processo de socialização da natureza pelo trabalho social, ou seja,
usar criativamente o espaço e apreciar o significado das formas espaciais criadas
pelos outros" (p. 24). a transformação da história natural em história dos homens (ou da
40. Firey, W., "Sentimiento y simbolismo como variables ecológicas", in história dos homens em história natural), implica uma estrutura de
Theodorson, G. A., Estudios de ecología humana, 1. volume. Firey analisa,
0
relações sob determinação do social. E é esta estrutura complexa e
entre outros casos, a permanência do aristocrático bairro de Beacon Hill, em em perpétuo movimento dialético que conhecemos sob a designação
uma colina junto ao distrito central de negócios de Boston. Tal permanência
em oposição à deteriorização das áreas circunvizinhas, é atribuída ao signifi: de espaço geográfico.
cado do bairro e à sua tradição, de acordo com valores da elite que tem O espaço é a sociedade vista como sua expressão material visível.
poderes para criar mecanismos de preservação do bairro. ' A sociedade é a essência, de que o espaço geográfico é a aparência,
* Este texto reúne idéias e formulações de trabalhos anteriores, em parti-
cular "Geografia e práxis: algumas questões", revista Vozes, n.o 4, maio de
1980; e "A geografia serve para desvendar máscaras sociais", revista Território
livre, n.o 1, reproduzido na revista Encontros com a civilização brasileira, n."
16, outubro de 1979.

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