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RELATÓRIO DE PESQUISA I

O Espelho e o início de Machado

Kevin Lima - 190046821

O jovem adulto, Machado de Assis, acabara de completar 20 anos. Pela primeira vez, ele seria colaborador oficial de uma publicação. O ano era 1859 e o periódico chamava-se O Espelho: revista semanal de literatura, modas, industria e artes. Editado pela Typographia de F. de Paula Brito e dirigido por F. Eleuterio de Souza, foi lançado no domingo, 4 de setembro.

Em sua primeira edição, Eleuterio de Souza é autor do artigo de capa. O diretor d’O Espelho disserta sobre o futuro da revista recém-nascida e de suas ambições. Segundo ele, era esperado que a publicação alcançasse a maior circulação possível, fosse moralizadora, base para os salões dos ricos e o refúgio dos pobres, e um parâmetro de instrução.

O Espelho era impressa em brochura, no formato 28x19 cm. Tinha em média 12 páginas. Os textos publicados no espaço seguiam a linha cultural. Entre as pretensões, artigos, críticas, crônicas, lendas e romances brasileiros ou traduzidos. Um exemplo é a publicação do romance O testamento do sr. Chauvelin, escrito por Alexandre Dumas e publicado a partir da sexta edição. Além d’O testamento, desde a primeira edição, foi impresso o romance Amor de mãe escrito por Moreira de Azevedo. A publicação chegava aos assinantes semanalmente, todo domingo. Sua impressão era uma das mais primorosas do Segundo Reinado, no Rio de Janeiro. As diagramações eram pensadas e priorizavam a boa leitura do texto. Ela foi inovadora ao introduzir um sumário, logo abaixo do cabeçalho e no número oito, é publicado nas duas últimas páginas, a partitura de Polka fascinante.

O público da revista, provavelmente, era composto, majoritariamente, por mulheres. Para o historiador Carlos Costa, elas eram a força leitora do século XIX. Os dados censitários de 1872 apontam que, somente, 11,46% da população feminina era capaz de ler. Apesar disso, grande parte dos textos publicados apresentava apenas a visão

masculina. Poucas eram as inserções no mundo feminino e o primeiro anúncio publicitário n’O Espelho surge na edição cinco.

OS PRIMEIROS PASSOS DE MACHADO

Aspirando tornar-se intelectual, Machado de Assis não havia conseguido uma oportunidade para escrever oficialmente. Em 1859, tornou-se revisor e colaborador no Correio Mercantil. A convite de F. Eleuterio de Souza, usou conhecimentos adquiridos nos prelos da Imprensa Nacional e fundou O Espelho.

O primeiro texto de Machado é publicado na primeira edição, 4 de setembro de 1859. Intitulada A estrela da tarde, a poesia remete ao nascimento do periódico. “A estrela da tarde sorri desmaiada. No azul embalada de um fogo vital: Que luz vaporosa nos belos palores! Que facho de amores! que flor de cristal!” Joaquim Maria Machado de Assis assina apenas com seu sobrenome: Machado de Assis.

Na edição seguinte, ele escreve sua primeira crítica teatral. Nela, o autor faz a avaliação da peça O asno morto. Sobre o espetáculo, tanto a tradução quanto a atuação foram consideradas boas. A coluna foi nomeada Revista de Theatros e a partir desta edição, permanece até a última. Para a coluna de críticas, o autor assina com: M – as. As análises eram sempre acompanhadas da percepção de Machado sobre o espaço e as pessoas. Possivelmente, a observação psicológica de indivíduos começou aqui.

Inicia-se na segunda edição, também, a publicação de crônicas de Machado na capa da revista. São 11 crônicas escritas por ele e assinadas como Gil, Ophir 1 , Victor de Parma e M – as. A mais interessante chama-se O empregado publico aposentado. Machado de Assis compara a aposentadoria de um empregado público às múmias egípcias. É narrado o esquecimento, a fadiga e a obsolescência do trabalho e do empregado. Situação que Joaquim Maria Machado de Assis viveria na pele ao final de sua vida. No total, O Espelho publicou cinco poesias, uma lenda e 18 Revistas de Theatro do autor de 20 anos.

1 Não há certeza sobre o verdadeiro autor por trás desse pseudônimo. Mas pesquisas apontam que Machado de Assis era o mais provável.

Outro ponto que corrobora para os estudos biográficos de Machado surge na última página da edição seis. O aspirante a autor trabalhava como biógrafo para Gaspar

Antonio da Silva Guimarães. Gaspar Antonio era um dono do único estabelecimento no Rio de Janeiro com retratos em daguerreótipo e fotográficos. O retrato custava dois mil réis. “– Brevemente encetaremos a publicação de uma – Galeria dramática – biografias

e um retrato correspondente. O photographo é o Sr. Gaspar Guimarães, e o biographo é

o Sr. Machado de Assis.” Era a primeira vez em que Machado de Assis tinha visibilidade na imprensa.

O FIM D’O ESPELHO

A revista encerra na 19ª edição, presente apenas no acervo da Fundação Casa Rui Barbosa. Ela durou aproximadamente seis meses. Não há dados sobre sua circulação e sobre o valor do periódico. Segundo Dessupoio (2014, p.39)

É perceptível que o país passava por situações de crises econômicas no Segundo Reinado como já foi mencionado no item anterior, muitas oscilações da moeda brasileira e com certeza não era fácil manter o veículo em circulação, inclusive pela concorrência que já existia no mercado. Manter um jornal nunca foi fácil os gastos eram pesados, circular “O Espelho” toda semana demandava trabalho e dentro de um prazo curto gerar conteúdo era mais complicado de mantê-lo.

Em seu legado, permanece a confiança e o espaço dado ao jovem Machado de Assis, além da abertura para debates e publicações progressistas.

Anexo I – Mapeamento das publicações assinadas por Machado de Assis

 

REVISTA O Espelho & MACHADO DE ASSIS

EDIÇÃO

NÚMERO

ASSINATURA

PÁGINA

TÍTULO

   

Machado

 

A estrella da tarde / poesia

1

1

d'Assis

10

       

Aquarellas: os

2

2

M

- as

1

fanqueiros literarios / crônica

2

3

M

- as

8

Revista de Theatros

3

4

M

- as

1

Aquarellas: o parasita / crônica

   

Machado de

 

A um proseripto / poesia

3

5

Assis

10

   

Machado de

 

Idéas sobre o theatro / crônica

4

6

Assis

1

       

Os immortaes: o

4

7

M.A.

5

marinheiro batavo / lendas

4

8

M

- as

7

Revista de Theatros

   

Machado de

 

Idéas sobre o theatro II / crônica

5

9

Assis

1

5

10

M

- as

9

Revista de Theatros

6

11

M

- as

1

Aquarellas: o parasita (continuação) / crônica

6

12

M

- as

10

Revista de Theatros

Anexo I – Mapeamento das publicações assinadas por Machado de Assis

       

Aquarellas: o

7

13

M

- as

1

empregado publico aposentado / crônica

7

14

M

- as

9

Revista de Theatros

8

15

M

- as

1

A reforma pelo jornal / crônica

8

16

M

- as

8

Revista de Theatros

   

Machado de

   

8

17

Assis

10

Sonhos / poesia

9

18

M

- as

1

Aquarellas: o folhetinista / crônica

9

19

M

- as

9

Revista de Theatros

10

20

M

- as

8

Revista de Theatros

11

21

M

- as

9

Revista de Theatros

12

22

M

- as

9

Revista de Theatros

13

23

M

- as

10

Revista de Theatros

       

Folhas velhas I: o

14

24

Gil

1

mosteiro de S. Bento / crônica

14

25

M

- as

8

Revista de Theatros

   

Victor de

 

Causa e effetios / crônica

15

26

Parma

1

15

27

M

- as

7

Revista de Theatros

Anexo I – Mapeamento das publicações assinadas por Machado de Assis

16

28

Gil

1

As gralhas socines / crônica

16

29

M

- as

9

Revista de Theatros

   

Machado de

   

16

30

Assis

10

Travessa / poesia

       

Idéas sobre o theatro: o

17

31

Machado de

Assis

1

conservatorio dramatico / crônica

17

32

M

- as

8

Revista de Theatros

   

Machado de

 

A. D. Gabriella da Cunha / poesia

17

33

Assis

10

18

34

Ophir *

1

1859-1860 / crônica

18

35

M

- as

10

Revista de Theatros

*Não há certeza sobre o verdadeiro autor por trás desse pseudônimo. Mas pesquisas apontam que Machado de Assis era o mais provável.