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Gustavo Javier Figliolo

Filosofia cosmológica, filosofia clássica

Londrina
2018
Gustavo Javier Figliolo

Filosofia cosmológica, filosofia clássica

Trabalho apresentado à disciplina


Epistemologia e História da Psicologia
I, profª. Giselli Renata Gonçalves.

Londrina
2018
Quais as características da filosofia produzida no período cosmológico? Exemplifique
repostando-se a um dos filósofos estudados, e mencione como podemos perceber a
influência de seus pensamentos na psicologia atual. Explique a diferença entre o
conhecimento produzido nesse período e aquele produzido no período clássico,
repostando-se, para isso, a algum de seus expoentes.

A filosofia do período cosmológico foi uma resposta ao mundo mitologizado, em


que a interferência dos deuses explicava a ordem do universo. Provavelmente pela ânsia
de conhecimento e pela curiosidade, o homem se lançou à procura de tentar entender e
definir como podia ser esse universo, esse cosmo (de aí o nome), em termos de substância,
sem já recorrer aos deuses e sim à própria natureza. O ponto de partida que caracterizou
os distintos filósofos está embasado na ideia de que a ordem natural pode ser explicada
mediante os elementos da natureza. Conforme os vários pensadores, esses elementos
podiam ser a água (Tales de Mileto), o fogo (Heráclito de Éfeso), os números (Pitágoras),
os átomos (Demócrito). Mesmo Anaxágoras, que não era “elementista”, no sentido de
adscrever à teoria de um único elemento, considerava que a junção de todos eles é que
constituiria a origem das coisas. A grande diferença com o pensamento até então
produzido jaz na premissa da explicação racional para a origem, evolução e composição
do universo e suas leis, considerando a natureza como o paradigma de apreensão de
conhecimento, isto é, há um princípio natural que rege a ordem das coisas no cosmo.
Se tomarmos as ideias de Pitágoras, por exemplo, vemos que postulava que os
números seriam a essência permanente das coisas. Mediante a matemática (de máthema:
ciência rigorosa) poderia ser explicada a ordem natural, definida como atemporal e
permanente. Ao ser uma ciência abstrata, sua racionalidade poderia ser aplicada a
qualquer objeto de conhecimento ou de investigação. A escola pitagórica não somente
considerava a possibilidade de descobrimento de leis com a utilização dessa metodologia,
mas estendia isso ao campo humano, das relações humanas, a aprendizagem e a educação.
Nesse sentido, e utilizando o conceito de harmonia, seriam mantidas a ordem do universo
e a ordem social. Além disso, para Pitágoras havia uma alma imortal que era diferente do
corpo e preexistente a ele. Por fim, o filósofo foi o primeiro a tentar apreender a
inteligibilidade das coisas, que se daria por meio da imaginação, que por sua vez estaria
ancorada em nossa inteligência. Assim, estabelecer-se-ia um elo entre o pensamento, os
processos cognitivos e a explicação do mundo.
A partir da ideia de que os números comporiam a essência do universo surge a
noção de quantidade, que remete à exatidão das coisas, dos fenômenos. Essas “leis da
natureza” darão origem no século XVII à ciência moderna, com Copérnico, Kepler,
Galileu e Descartes, entre outros, pelo que há nas ideias pitagóricas o germe dessa
tentativa de explicação do mundo mediante uma ordem natural. Com o advento da física,
da química e da fisiologia, produz-se cada vez mais uma epistemologia que vai deixando
de lado os elementos da experiência sensível para se reportar somente àquilo que pode
ser quantificado e comprovado empiricamente. Esse sistema de pensamento terá
influência posterior na tentativa de sistematizar a psicologia para enquadrá-la como
ciência, como um campo de conhecimento científico, com suas leis, suas experimentações
e suas comprovações empíricas. Essa visão epistemológica pode ser comprovada em seu
mais alto grau, provavelmente, pela psicologia experimental e a Teoria
Comportamentalista, que utiliza essa metodologia para a explicação dos fenômenos
psíquicos. Podemos mencionar, inclusive, que o próprio Freud passou por décadas de
devaneio intelectual na tentativa de enquadrar a psicanálise que estava criando dentro dos
parâmetros do que era conhecido então (e até hoje em muitas visões paradigmáticas)
como ciência, com seus objetos de estudo e suas metodologias.
Após o período cosmológico (séculos VII e VI a. C., aproximadamente) surge o
chamado período antropocêntrico (séculos V e IV a. C., aproximadamente), de anthropos:
‘homem’. Enquanto no primeiro período a essência das coisas era buscada nos elementos,
o antropocentrismo, como seu nome o indica, desloca essa busca para o próprio homem:
ele seria a medida de todas as coisas. Esse movimento filosófico começa com os sofistas,
que eram professores e pensadores que deambulavam de um lado a outro disseminando
seu conhecimento. Paulatinamente, o mundo mítico de outrora foi sendo substituído pelo
mundo racional. Os entes e essências precisavam de uma explicação racional que os
inscrevesse em um logos que irá deslocar o mythos. Nasce assim a episteme, o saber, o
conhecimento. O mundo não é mais explicado nem pela fabulação ou fantasia, como no
mundo mítico, nem pela simples e mera opinião (doxa); há a necessidade de um saber
que explique a essência das coisas e o funcionamento do universo. Essa racionalidade
comporta uma séria de características. Em primeiro lugar, o sujeito de conhecimento (o
homem) é separado do objeto do conhecimento (as coisas), e a explicação de toda e
qualquer coisa é mediada pelo pensamento: nasce assim a ideia (eidos). A partir desse
pensamento, constitui-se um discurso que pretende desvendar as verdades mediante sua
desocultação. Outra característica própria desse método racional tem o argumento como
fio condutor das proposições, que precisarão de demonstração, isto é, a constituição de
prova que certifique sua verdade. Por isso dizemos que esse tipo de conhecimento
filosófico é racional, discursivo e demonstrativo.
O maior expoente do período clássico foi, sem dúvida, Sócrates. Para este
pensador, o único conhecimento possível era o do próprio eu, cerne simbólico e literal da
ideia antropomórfica. ‘Conhece-te a ti mesmo” foi a máxima que cunhou e que atravessou
séculos; um conhecimento desse tipo e com esse objeto de investigação requeria do
método da introspecção para ser realizado; “conhece-te a ti mesmo”, busca dentro de ti.
Esse conhecimento estava também intimamente ligado com a ideia de ética, pois
postulava que o homem devia viver de acordo com seus princípios morais. Há um
fragmento em Apologia de Sócrates, de Platão, que o ilustra:

Crês que tenha feito caso dos perigos e da morte? Porque em verdade
assim é, cidadãos atenienses: onde quer que alguém se tenha colocado,
considerando-o o melhor posto, ou se for ali colocado pelo comandante,
tem necessidade, a meu ver, de enfrentar os perigos, sem se importar
com a morte ou com coisa alguma, a não ser com as torpezas.
(PLATÃO, 2010, p. 54).

As torpeza de que aqui fala Sócrates são o afastar-se de agir de maneira ética.
O conhecimento socrático partia da premissa de que “só sei que nada sei”, pelo
que sua pedagogia não se centrava no convencimento retórico e sim na elaboração
dialógica; o diálogo crítico e uma dialética perene levariam à construção do
conhecimento. Nesse sentido, esse conhecimento nasceria de um parto, um “dar à luz” de
que o próprio homem deveria se encarregar. Assim, o legado socrático paira de maneira
assombrosa nas distintas psicologias e os diversos métodos terapêuticos; o diálogo
socrático parece vital nos processos de alívio da dor e do sofrimento: quanto mais o sujeito
se conhece a si mesmo, mais consciência crítica tem da possibilidade de sua cura.

REFERÊNCIAS

GONÇALVES, Giselli Renata. Filosofia Grega. 2018. 35 slides.

PLATÃO. Apologia de Sócrates. O Banquete. São Paulo: Martin Claret, 2010.