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CENA 1 CENA 2

Cena começa com o PAI e a MÃE em uma sala discutindo, falando alto. Entram os outros personagens, alunos. Cada um carregará sua carteira.
Organizarão em fila normal. E sentarão brincando. Entra Maria, muito
PAI – Eu já não aguento mais. Nossa vida é só brigas e infelicidade!!
branca, com chapéu e roupa de manga comprida, muito protegida, ela
Talvez seja melhor nos separarmos!!
senta em uma carteira vazia junto com todos. Eles arrastam suas carteiras
MÃE - Fale baixo! Você que acordar o Pedro?! para longe dela. Fazendo insultos, falando pra ela ficar longe deles. Um
colega se aproxima dela e fala:
PAI – Você não me intende, não me apoia.
COLEGA – Não insista, nós não queremos você por perto.
MÃE –Você quer falar de apoio? Que apoio você me dá? Minha profissão
eu tive que abandonar. O Pedro? Você nunca está com ele. Qual a última COLEGA 2 – Você é esquisita. Não se aproxime de nós.
vez que você brincou ou saiu com ele?
(Os colegas mais distantes gritam Esquisita! Esquisita!)
PAI – Tá vendo! Cobranças e cobranças! Eu preciso me dedicar para
Entra a professora, ela pede silêncio, organiza a sala. Então ela vê Maria
conseguir uma promoção?
isolada na frente e pergunta:
MÃE – Então você quer me convencer que toda a sua ausência é
PROFESSORA – Maria por que você está tão sozinha aqui na frente?
dedicação ao trabalho? Você me trata como se eu fosse burra. Com tanta
dedicação você será promovido!! MARIA – Eu gosto professora, assim eu vejo o quadro melhor!
PEDRO – (Estava escondido abraçado ao seu ursinho, ou travesseiro) PROFESSORA – Tudo bem! Se você gosta de ficar sozinha tudo bem!
Papai o que é promoção? Turma arrumem o material. O sinal já vai bater! (A professora sai antes da
turma, todos se levantam e jogam papel na Maria. Um colega vai perto
PAI – Pedro meu filho você estava escutando? Mas você deveria estar
dela e diz:
dormindo!
COLEGA 3 – Não se aproxime novamente de nós sua ALBINA, por que
PEDRO – Vocês estavam falando tão alto que eu acordei.
você é assim tão esquisita?
MÃE – Agora está satisfeito? Pelo menos assim você vê seu filho!
MARIA - (Gaguejando e chorando tenta falar mas não consegue)
PAI – (Abraçando Pedro) Vamos meu filho, eu vou te explicar o que é Eu....eu... não sou esquisita, é só que....
promoção e você vai para a cama. Eu e mamãe só estávamos
Todos saem e Maria fica sozinha chorando, entra a mãe de Maria
conversando um pouco. Você volta para a cama? Combinado?
MÃE - Maria, minha querida, por que você está chorando? Me fale minha
PEDRO – Combinado papai.
filha? O que aconteceu?
(Os dois saem abraçados e a mãe fica por em minuto, sentada chorando.
MARIA – Eu não aguento mais mamãe, ninguém desta escola gosta de
Então ela levanta, limpa os olhos e sai).
mim.
MÃE – Isto não pode ser verdade minha filha, você é uma garota gentil e
meiga, por que eles não iriam gostar de você?
MARIA – Eles me odeiam e me chamam de esquisita!! MÃE – Com certeza! Nós só queremos a sua felicidade! Você está feliz?
MÃE – Você não é esquisita, você é diferente, eu já te contei a história das JOÃO – Estou feliz sim. (Tentando sorrir) Mas eu posso ir para o meu
cores... quarto?
MARIA – Eu realmente sou esquisita, eu fico muito triste mamãe. PAI – Meu filho fique com a gente. Vamos pedir uma pizza e comemorar.
MÃE – Não fique triste minha filha, um dia você conquistará a amizade de MÃE – Você pode ligar chamar seus amigos o Pedro e a Maria, eles estão
todos eles. lá no parque brincando.
MARIA – Eu não quero mais amizade eu quero me vingar de todos eles. JOÃO – Eles não são meus amigos.
MÃE – Vingança nunca é bom Maria! Mas se você quer se vingar, você PAI – Mais um motivo para chama-los, assim vocês podem se tornar
deve... amigos!
MARIA – O que devo fazer mamãe, me explique! MÃE – Isto mesmo, vá chama-los...
MÃE – Vamos embora minha querida, no caminho vou te explicando qual JOÃO – Mas mãe...
é a melhor forma de conseguir se vingar...
PAI – Vá João, chame seus colegas, eu vou pedir as pizzas e sua mãe vai
avisar os pais deles... Pode ir meu filho!!
Elas saem de cena e todos entram e trocam o cenário que volta a ser uma MÃE – João, seja simpático meu filho.
sala. Entram pai, mãe e filho, os pais com cara de felicidade e o filho com
João sai e os pais conversam
um troféu na mãe, mas sem dar muita importância.
PAI – Eu não sei mais o que fazer para este menino fazer amigos.
MÃE – Esta mania de se isolar... ele vive “no mundo da Lua”, parece que
CENA 3
não gosta de ninguém, nem com a gente ele gosta de conversar...
PAI – Vamos organizar as coisas, ligue para as vizinhas que eu vou pedir a
PAI – Meu filho eu estou muito orgulhoso de você!! pizza. Vamos continuar apoiando, um dia ele se sentirá melhor e fará
amizades
MÃE – Sim nós estamos orgulhosos de você! O primeiro lugar na
Olímpiada de Astronomia e Astronáutica!! MÃE – Sim, vamos confiar que um dia ele será feliz!!

PAI – Se continuar assim você vai conseguir realizar seu sonho de ser
astronauta! Eles saem de cena falando ao telefone. Retiram o cenário e colocam um
MÃE – Sim!! Você será o astronauta mais lindo do Universo! E eu a mãe balanço... Pedro e Maria estão brincando quando chega João, tímido vai
mais feliz do mundo!! Eu te amo meu filho! se aproximando e começa a conversar com eles.

PAI – Nós te amamos muito filho, e se você não quiser não precisa ser
astronauta. Você pode ser o que quiser!
CENA 4 PEDRO – Mas não é mentira! É sério, é seriíssimo, eu já fui a Lua!

MARIA – Como você conseguiu?

PEDRO – Maria, você já percebeu que as gaivotas só voam de dia? PEDRO – Um dia, na hora em que fui dormir, meus pais começaram a falar
super alto. Eu não sabia o que tinha acontecido, mas parecia algo sério.
MARIA – Já sim. É porque de noite elas devem dormir. Acho que mamãe bateu, novamente, com o carro do papai contra um muro
(risos). Quando virei de lado, para ver se o barulho diminuía, sem querer
PEDRO – Estou começando a desconfiar que elas têm medo da Lua. olhei pela janela e, entre as cortinas, lá estava ela... De um jeito que eu
nunca tinha visto antes: redonda e muito, muito vermelha. Parecia que
MARIA – Medo da Lua? Por quê? estava brava ou que tinha comido alguma coisa apimentada. Foi então que
comecei a conversar com a Lua.
JOÃO – Ninguém tem medo da Lua. Ela é linda!
MARIA – Mas ela te ouviu, mesmo você estando tão distante?
PEDRO – Não sei, mas se for verdade, as gaivotas são incrivelmente
bobas. JOÃO – Maria, não acredite nele! Isto é mentira!

MARIA – Eu também acho. PEDRO – Maria... Não sei se você vai entender, mas eu fiquei com os
olhos tão fixados nela que, sem explicação alguma, acabei chegando
JOÃO – A Lua é uma das coisas mais bonitas que eu já vi em toda a minha muito próximo. Estava tão perto que podia até tocar a Lua.
vida. Às vezes, bem de noitinha, quando todo mundo já foi dormir, eu saio
da cama, sem fazer barulho algum, e abro a janela do meu quarto... Só JOÃO – A Lua não escuta a gente, ela é um satélite, não é um ser com
para ficar lá, olhando para ela. Quando eu vejo aquela maravilha no céu, vida! Um dia irei até lá e te enviarei fotos Maria, pra te provar que o Pedro
esqueço tudo. está mentindo!

MARIA – Pedro, João, do que a Lua é feita? PEDRO – Mas eu já fui até a Lua, e ela conversa, lá não é nada silencioso!

PEDRO – Ela é feita de... Fecha a cortina, aparecem a lua e Pedro

JOÃO – Espera! Como é que a gente pode saber? Nós nunca chegamos Cen
perto dela.
CENA 5
PEDRO – Quem disse isso? É claro que eu já cheguei perto da Lua.
PEDRO – Oi! Boa noite!
MARIA – Sério?
LUA – Boa noite!
JOÃO – É mentira só os astronautas podem ir até a Lua. Um dia eu serei
um astronauta e vou pra lá, onde não terá ninguém pra ficar conversando PEDRO – Tudo bem?
comigo ou me perguntando coisas!
LUA – Tudo.
PEDRO – Eu gosto muito de você, sabia? Você é linda. Eu sempre fico... LUA – Você deve dizer isso para todo o universo... Para o Sol, para as
estrelas de segunda grandeza, para os planetas, para os asteroides e até
LUA – Silêncio! Eu não quero mais ouvir nenhuma palavra sua. para os planetas anões.

PEDRO – O que foi que te fiz para me tratar assim? PEDRO – Eu posso te garantir que não.

LUA – Você? Nada! LUA – Eu não acredito.

PEDRO – Então, por que está nervosa? PEDRO – Se você não acredita em mim, acho melhor ficarmos algum
tempo sem nos vermos.
LUA – Eu não estou nervosa.
LUA – Concordo.
PEDRO – Está sim! Está até vermelha... Vermelha de raiva.
CENA 6
LUA – Não é verdade.
MARIA – E você nunca mais a procurou?
PEDRO – É, sim. Mas, mesmo desse jeito, continua bonita!
JOÃO – Mas quanta mentira, a Lua ficou com ciúmes de você com o Sol?!!
LUA – Você está falando isso só para me agradar.
PEDRO – Para falar a verdade eu não consegui ficar sem vê-la... Mas eu
PEDRO – Não, não estou. tomava muito cuidado para ela não perceber, ficava atrás da cortina,
olhando de rabo de olho...
LUA – Eu conheço você muito bem. Vejo que me observa faz tempo. Só
não entendo por quê. Diz que gosta de mim, que me acha bonita, mas MARIA – Nossa, que história engraçada! Quem poderia imaginar que a
anda sempre de mãos dadas com o Sol. Vai à praia com ele, ao parque... A Lua ficaria com ciúmes do Sol? Eu achava que eles eram amigos.
única coisa que você faz quando me vê é ir dormir.
PEDRO – Eu também, mas parece que ela morre de ciúmes dele.
PEDRO – Não é verdade. Eu durmo porque faço muita coisa de dia e
acabo chegando em casa muito cansado de noite. Outra coisa, eu nunca JOÃO – Eles são apenas dois astros, não têm sentimentos! Vocês estão
saí de mãos dadas com o Sol. surdos, não me entendem?

LUA – Que mentira! Acha mesmo que eu não sei que sempre vai passear MARIA – É o que está parecendo mesmo.
de dia com ele?
PEDRO – Apesar de ela ter sido tão brava comigo, consegui, pelo menos,
PEDRO – Então, quer dizer que sempre que saio de dia estou andando, realizar meu sonho de visitar a Lua.
obrigatoriamente, com o Sol? Eu nunca tinha pensado desse jeito! Fique
despreocupada. Posso até ficar mais tempo com ele, mas gosto mesmo é MARIA – Quer dizer, então, que esse era o seu maior sonho? Eu também
de você. tenho um sonho. Quero conhecer o Sol.

PEDRO – Você já conhece!


MARIA – Mas não digo conhecer só pelos olhos... Digo conhecer no corpo PEDRO – Agora eu entendo porque não costuma sair durante o dia. (Olha
inteiro. De andar na rua e sentir seu calor nos cabelos, de ficar com as para Maria.) Sua pele é tão bonita branquinha. Parece até farinha de trigo.
bochechas vermelhas no verão, de fazer anjinho na areia da praia e, para É tão clara que quase chega a ser transparente. Igual a um fantasminha...
não morrer de calor, sair correndo para a água e mergulhar.
MARIA – Eu não gosto que falem que pareço um fantasma. As pessoas
JOÃO – Eu sempre tive vontade de te perguntar isso, mas esqueço não conseguem entender que eu sou gente, de carne e osso, igual a elas.
quando estou perto de você. Que eu só não tenho essa tal de melanina. Às vezes, eu fico muito brava
com as cores. Por que elas gostaram de mim e não de outra pessoa? Por
MARIA – Pois então, me pergunte. quê? (Tempo.) Eu sempre vejo as pessoas rirem de mim. Tem gente que
pensa que tenho uma doença de pele contagiosa e, por causa disso, nem
JOÃO – Outro dia, meu pai falou que você não podia sair de dia, senão o se aproxima. Acabei de encostar em você. Alguma coisa mudou?
Sol poderia te machucar muito. É verdade?
PEDRO – Não!
MARIA – É sim!
JOÃO – Não mesmo! Você só é Albina!!
PEDRO – Mas por que o Sol te faria mal?
MARIA – Então, de onde as pessoas tiraram essa ideia maluca?
MARIA – Mamãe me explicou que, quando nasci, todas as cores do
mundo ficaram extremamente felizes. Elas gostaram tanto de mim que ( Silêncio. )
decidiram invadir todo o meu corpo e, lá dentro, se misturaram. Eu não sei
se você sabe, mas quando todas as cores do mundo se misturam, elas PEDRO – Quero pedir desculpas por falar que você parecia um fantasma.
viram uma só, o branco.
MARIA – Está desculpado. Eu sei que não foi por mal. Só vai ter que me
PEDRO – Então, quer dizer que, ao mesmo tempo, você tem todas as prometer que vai me levar quando for à Lua pela segunda vez.
cores, mas não tem nenhuma?
JOÃO – Ele nunca foi a Lua!
JOÃO – Esta história das cores é igual a história da Lua, uma mentira!! As
cores não têm sentimentos!! PEDRO – Eu já fui lá pela segunda vez.

MARIA – Mais ou menos isso. Quando as cores invadiram o meu corpo, MARIA – Sério? E como foi?
elas ocuparam muitos espaços e num desses morava a.... Eu sempre
esqueço o nome, mas anotei aqui num papel.... Melanina, isso! Num JOÃO – Você tá falando a verdade? Você já foi na Lua? É mentira, eu não
desses espaços morava a Melanina, que dá cor à nossa pele e nos acredito em você!!
protege do Sol. Ela é como se fosse uma armadura, só que invisível. O sol
é quente, justamente para manter as pessoas aquecidas dentro dessa PEDRO – É verdade. Preste atenção, na segunda vez que fui à Lua... Eu
armadura... Só que, como ele está muito longe, não consegue ver que não me lembro muito bem do dia... Foi quando papai arrumou suas malas... Eu
tenho essa proteção. Aí, ele manda uma quantidade de calor muito grande adoro meu pai. Mamãe disse que ele ia ter que fazer uma longa viagem,
que faz mal para mim... Eu até posso sair de dia, mas vestida dos pés a pois havia conseguido uma promoção no trabalho.
cabeça, assim como estou, e com bastante protetor solar e óculos. Minha
mãe é que não deixa. Diz que é melhor eu evitar. MARIA – O que é promoção?
PEDRO – Como posso explicar...? CENA 7

JOÃO – É quando uma pessoa pode mandar mais nas outras. LUA – Pedro! Pedro, venha cá. Eu estou muito triste. Parece que uma
parte de mim não existe mais... Que foi embora. Eu estou amarela,
PEDRO – Não, essa não é uma boa explicação. É quando uma pessoa abatida... Eu chamei você aqui porque precisava muito de uma companhia.
consegue fazer algo, dentro do mesmo emprego, e ganha mais por isso... Às vezes eu acho que minha outra parte nunca mais vai voltar. E agora?
Eu estou muito feia... Ninguém mais vai gostar de mim.
MARIA – E se uma pessoa gostar de fazer, dentro do mesmo emprego,
aquilo pelo que se recebe menos? PEDRO – Hoje não vou poder demorar aqui...

JOÃO – Ninguém gosta daquilo pelo que se recebe menos... LUA – Não... Por favor, fica... Não me deixe aqui sozinha, por favor... Você
não disse que sempre gostou de mim?
MARIA – Deve ter sido por isso que o seu pai concordou em viajar por
muito tempo e aceitou ficar longe de você e da sua mãe... PEDRO – Eu ainda gosto de você, mas não entendo você... De longe, é
linda, e parece tão tranquila! Mas, quando chego perto, a gente briga. Eu
PEDRO – É.... Deve ter sido por causa disso... (tentando esconder algo). queria ficar mais, juro! Mas hoje não vai dar... Preciso muito ir embora. Tem
Nesse dia, depois que papai arrumou as malas, logo saiu de casa... Já era gente esperando por mim.
noite e fui correndo para a janela vê-lo na rua, como era de costume
quando ele ia trabalhar. Fui até a sala e vi mamãe muito triste e falando LUA – Não, por favor, não vá. Fica só mais um pouco... Eu gosto muito de
coisas pela casa e, rapidamente, voltei para o meu quarto e me deparei você também...
com a Lua. Nesse dia ela me chamou. Eu tenho certeza.
PEDRO – Eu não posso. Mas um dia eu volto e, quem sabe, a gente não
JOÃO – A Lua não fala! se acerta?

MARIA – Mas vocês não estavam brigados?

JOÃO – A Lua não briga, ela é um monte de rocha!! CENA 8

PEDRO – Estávamos, mas, mesmo assim, ela me chamou. E pelo nome. Cena 5

MARIA – Jura? E dessa vez, como ela estava? MARIA – Nossa, Pedro! Dessa vez você foi tão frio com a Lua...

PEDRO – Amarela e minguante... Parecia uma banana. JOÃO – A Lua nem sabe que ele existe! Que nós existimos! Não há nada
na Lua, por isto vou pra lá e assim talvez eu deixe de sentir este vazio no
MARIA – Nossa! E você respondeu? Você foi até ela? meu peito, que não entendo!

PEDRO – Fui, mas não falei muita coisa. MARIA – Mas por que você sente um vazio? Todos te tratam bem, seus
pais vivem felizes?
MARIA – E ela? O que disse?
JOÃO – Eu não sei! Só sinto!!
MARIA – Mas por que você foi tão rude com a Lua? respondeu: “Tratando esse menino e todos os outros com carinho e
respeito”.
PEDRO – Ela precisava aprender a lição, tinha me tratado muito mal.... e
eu não deixei por menos. PEDRO – O quê? Mas isso não é vingança. Vingança é quando a gente dá
uma boa lição na pessoa para ela aprender a nos tratar melhor.
MARIA – Nunca imaginei que você fosse tão vingativo.
MARIA – (Risos.) Sabe que, no início, eu falei a mesma coisa para minha
PEDRO – Mas eu não sou vingativo. mãe...

JOÃO – Você foi vingativo! JOÃO – Sério? Eu sabia que você não iria cair nessa conversa...

MARIA – Você pode não ser, mas foi. MARIA – Mas ela falou: “Pois então, aplique o que eu disse a você,
amanhã, na escola. Se der certo, você continua, se der errado, eu ajudo a
PEDRO – Mas eu não quero ser vingativo! preparar a vingança que você quiser.”

JOÃO – Mas foi!! PEDRO (desacreditado) – E o que aconteceu?

MARIA – Tudo bem, Pedro! Todo mundo erra. Eu mesma já quis me MARIA – Estranhamente, deu certo...
vingar.
JOÃO – (espantado) – O quê?
JOÃO – Sério? Por quê?
MARIA – Isso mesmo! Deu muito certo. No outro dia, antes de eu chegar à
MARIA – Todos os dias, na escola, os meninos ficam rindo de mim. Me escola, os garotos colocaram na cadeira que eu costumava sentar aquelas
chamam de “esquista, albina”. tachinhas que os professores espetam nos quadros de avisos. Só que,
assim que entrei na sala, percebi o que eles tinham feito e me sentei em
PEDRO – Nossa, que coisa horrível! outro lugar. O Lucas chegou atrasado e, sem saber de nada, foi em
direção à única carteira que tinha sobrado, a das tachinhas. Quando ele
MARIA – É, mas depois ficou muito pior. estava prestes a sentar, todos os meninos começaram a rir. Foi aí que
gritei “Para! Você vai se machucar, sua cadeira está cheia de tachinhas.”
JOÃO – E o que você fez? Toda a sala ficou em silêncio. Foi então que o Lucas me perguntou: “Por
que você me ajudou, Albina?”, e eu respondi: “Eu te ajudei porque ajudaria
MARIA – Quando minha mãe foi me buscar na escola, ela me perguntou qualquer um desta sala. Porque, para mim, todo mundo é igual”. E ele me
por que eu estava chorando daquele jeito e eu contei toda a história. Disse respondeu: “Pensando bem, você não é tão diferente assim, Maria.” E
que estava querendo me vingar... todos, a partir desse dia, passaram a falar comigo e a me tratar do jeito
que eu queria.
PEDRO – E o que ela falou?
PEDRO – Como?
MARIA – “Pois então se vingue, filha... Mas da melhor forma possível.” Foi
então que eu perguntei a ela: “Qual é a melhor forma possível?” E ela MARIA – Assim como eu sou. A Maria que é albina, sim, mas que não é só
isso. Eu sou um ser humano. De carne e osso.
JOÃO – Nossa! Que história incrível!

MARIA – Eu também aprendi muito com essa lição.

PEDRO – Não sei se conseguiria agir da mesma forma. Você é muito CENA 9
boazinha.
LUA – Eu sabia que viria me ver mais uma vez.
MARIA – Não sei se existem pessoas más ou boas.
PEDRO – Vim aqui pedir perdão, por ter sido tão frio com você naquele
JOÃO – Claro que existem. Ou você é mau ou bom. dia... Quer dizer, naquela noite. Hoje vai ser a última vez que venho te ver
assim, tão de perto.
MARIA – Não. Às vezes fazemos coisas boas e, às vezes, ruins. Só temos
que tomar cuidado para não sermos mais vezes maus do que bons. Você LUA – Por quê? Não gosta mais de mim? Não me acha mais bonita?
agiu de forma errada com a Lua.
PEDRO – Nós já conversamos sobre isso.
PEDRO – Mas eu pedi desculpas a ela. Fui lá, mais uma vez, só para isso.
LUA – Então, quer dizer que não gosta...
MARIA – Mais uma vez?
PEDRO – Claro que gosto. Você sabe disso. Só que sabemos que não
JOÃO – Mais uma mentira!! podemos ficar assim, juntos... A gente sempre briga. Eu me sinto muito
mais feliz te vendo apenas de longe.
PEDRO – É. Foi a última vez que eu a vi de perto.
LUA – Eu também gosto muito de você. Para falar a verdade, muito mais
MARIA – E quando foi isso? do que você pode imaginar.

PEDRO –Ainda lembro como se fosse hoje. Nesse mesmo dia, encontrei PEDRO – Seremos mais felizes se não nos encontrarmos mais.
papai na rua, quando minha mãe estava me buscando na escola.
LUA – Eu não queria ter que concordar, mas também acho.
JOÃO – Mas seu pai não estava viajando?
PEDRO – Tenho certeza que, apesar da nossa distância, vamos estar,
PEDRO – Eu achei isso, mas mamãe me contou toda a verdade. como nunca, ligados um ao outro.

JOÃO – E qual é a verdade? Além do mais, estamos unidos por um futuro.

PEDRO – Eles decidiram morar cada um em uma casa, mas meu pai me LUA – Que futuro?
visita sempre que pode. (Tempo.) A Lua (desconversando), nesse dia, não
estava aparecendo muito. Ficou transparente, mas eu ainda conseguia ver PEDRO – Um futuro bonito que nasceu de nós. (Lua abraça Pedro.) Eu já
seu contorno... Fui até lá. Não estava me sentindo muito bem por tê-la não consigo mais ver você perfeitamente. Por quê?
tratado daquele jeito.
LUA – Vou iniciar um novo ciclo. Eu preciso seguir o meu caminho, minha MARIA – Por quê?
jornada. Já estou acostumada a recomeçar. Sou de fases. Por isso já não
pode me ver... Pelo menos por enquanto. Tente não me procurar. Eu PEDRO – Se lembra que, quando fui pela primeira vez até ela, nós
preciso de um tempo para entender que não posso gostar de você, assim brigamos, justamente porque ela disse que, pelo fato de sair mais de dia
como gostava antes. Um dia, vou ser aquela mesma de quando me que de noite, eu gostava mais do Sol que dela?
conheceu. Eu começo sempre pelas beiradas, me reconstituindo, deixando
de ser invisível e, assim, fazendo com que muita gente lembre que eu JOÃO – Lá vem ele de novo com essas mentiras!!
existo. Nesse momento, no meu crescente, muitos vão cortar os cabelos e
alguns irão me procurar para gostar de mim. Uns eu vou amar, outros não, MARIA – Deixe ele falar! Lembro...
mas, muito por conta dessas pessoas, vou conseguir crescer e ficar
bonita... Cheia, completamente preenchida e renovada. Só os sentimentos PEDRO – Então! A Lua deve adorar você.
podem nos reconstruir. (Tempo.) Já me convenci de que não vou me
esquecer nunca de você. Sorte que sou Lua e me regenero em pouco MARIA – É por isso que algumas pessoas me chamam de filha da Lua?
tempo. Tem ser humano que demora muitos ciclos para recomeçar...
PEDRO (espantado) – Você é parente da Lua, Maria! (Pedro abraça
PEDRO – Eu nunca esquecerei a nossa história! Maria.)

MARIA – Eu agradeço o título de parente da Lua, mas continuo querendo


ser apenas tratada como Maria...Um ser humano de carne e osso.
CENA 10
Os três caminham para fora, enquanto o narrado lê o texto todos voltam e
MARIA – Depois disso, você nunca mais voltou lá? tomam seus lugares!!

JOÃO – Ele nunca foi lá. Eu irei!!

PEDRO – Não... Eu agora podia, apenas no olhar, entender a Lua. Não ( Voz em off )
preciso mais ir lá.
Sempre procuramos a Lua
MARIA (olha para o relógio) – Acho melhor irmos, não é João? Adorei sua
história Pedro. Sempre tivemos o desejo de chegar até ela

JOÃO – Sim, acho melhor irmos senão a pizza vai esfriar. Sempre conseguimos

PEDRO – Ei, eu nunca tinha pensado nisso. Tem alguém que deve gostar Quando olhamos para o céu
muito de você Maria.
A admiramos
MARIA – Quem?
Quando recomeçamos
PEDRO – A Lua.
Admiramo-nos
Por nos reconhecermos, Lua Todos começam a cantar, coreografia!!

E você? Quantas vezes foi Lua?

Quantas vezes foi à Lua?


Lua de Cristal
Uma, duas, ou três?
Tudo pode ser, se quiser será
Ou mais? O sonho sempre vem pra quem sonhar
Tudo pode ser, só basta acreditar
Quando o homem chegou à Lua Tudo que tiver que ser, será

Ele só queria provar Tudo que eu fizer


Eu vou tentar melhor do que eu já fiz
Que estava mais distante do que nunca Esteja o meu destino onde estiver
Eu vou buscar a sorte e ser feliz
De outros homens Tudo que eu quiser
O cara lá de cima vai me dar
Mas isso só os aproximou Me dar toda coragem que puder
Que não me falte forças pra lutar
Foi um sonho coletivo, realizado. Vamos com você
Nós somos invencíveis, pode crer
Sempre falam Todos somos um
E juntos não existe mal nenhum
Que o Sol brilha para todos Mas, e a Lua? Vamos com você
Nós somos invencíveis, pode crer
A Lua recomeça para todos O sonho está no ar
O amor me faz cantar
A Lua somos todos
Lua de cristal
E sempre vamos nos observar Que me faz sonhar
Faz de mim estrela
E sempre vamos recomeçar Que eu já sei brilhar
Lua de cristal
Nova de paixão
E sempre vamos nos visitar Faz da minha vida
Cheia de emoção
Tal qual...
Repete 2ª e 3ª estrofes!!
O menino que visitou a Lua.