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OS DESAFIOS DA SEGUNDA ESCRAVIDÃO

0$548(6(5DIDHOGH%LYDUH6$//(65LFDUGR RUJV Escravidão


e capitalismo histórico no século XIX: Cuba, Brasil, Estados Unidos.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016. 320 p.

Resultado de uma conferência rea- to aos estudos micro-históricos do


lizada na USP, em 2013, essa cole- fenômeno, como às perspectivas do
tânea apresenta cinco capítulos pro- pós-modernismo.
duzidos por historiadores com longa A maior parte dos textos da cole-
trajetória de pesquisas sobre o tema. tânea apresentam propostas que com-
Estados Unidos, Cuba e Brasil são ELQDP GLVFXVV}HV KLVWRULRJUiILFDV
os cenários dos textos. O fio con- com pautas específicas de pesquisa
dutor é o debate sobre a “Segunda teórica. O tom indica a intenção de
Escravidão”. O conceito vem sendo abordar temáticas mais amplas, atra-
desenvolvido nas últimas duas dé- vés de perspectivas que enfatizam a
cadas, a partir da publicação de um macroanálise. Já na introdução os or-
artigo de Dale Tomich, em 1988, in- ganizadores afirmam:
titulado “Rethinking the Nineteenth
A ênfase unidimensional na micro-
Century: Movements and Contra-
análise, na agência individualizada,
dictions”, que foi inserido em livro
nas identidades culturais essencia-
publicado em 2004.1 Desde então,
lizadas mostrou-se incapaz de dar
agregou pesquisadores de diferentes
conta de processos sociais mais am-
JHUDo}HV XQLGRV SRU XP LQWHUHVVH
plos e complexos. (p. 9)
comum nas análises comparativas
das sociedades escravistas, nas dis- Ressalte-se que, apesar do apelo
FXVV}HVVREUHDH[SDQVmRGRFDSLWD- jVFRPSDUDo}HVHDFULDomRGHFDWHJR-
OLVPRQDVWUDQVIRUPDo}HVRSHUDGDV rias mais gerais de análise, os capítu-
no mundo do trabalho a partir da los variam segundo o cenário nacio-
Revolução Industrial, na crítica tan- nal analisado, destacando as correntes
historiográficas mais significativas
1
Dale Tomich, Through the Prism of Slav- em cada um dos contextos especí-
ery: Labor, Capital, and World Economy,
/DKDP0'5RZPDQ /LWWOH¿HOG
ficos, sugerindo uma forte conexão
Ver nota no 1 do artigo de Robin Blackburn nacional às perspectivas internaciona-
na coletânea. lizantes e às propostas comparativas.

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A temática central envolve a per- A Segunda Escravidão elevou os
cepção de que, a partir da revolução ritmos de produtividade envolvidos
em Saint Domingue/Haiti (1791), na geração de mercadorias essen-
da primeira emancipação france- ciais ao mundo que a Revolução
sa no Caribe (1792) e da proibição Industrial ajudou a criar, ampliando
do tráfico para as colônias inglesas (nos casos cubano e brasileiro) o
(1807), houve um decréscimo da tráfico transatlântico de escravos até
atividade escravista, especialmente meados do século XIX. Da mesma
significativo nas áreas de plantation forma, ela impeliu o tráfico interno
inglesa e francesa. Esse movimento GDV UHJL}HV FRVWHLUDV SDUD R RHVWH
marcava o fim da escravidão mercan- escravista dos Estados Unidos e do
tilista, ou Primeira Escravidão. Essa nordeste para o sudeste do Brasil.
aparente retração, entretanto, não (VVHSURFHVVRWHULDLPSOLFDo}HVSDUD
implicou no recuo da escravidão ne- o ritmo do trabalho escravo, para
gra como forma de trabalho compul- a expansão das áreas cobertas pela
sório em outras áreas das Américas. exploração da mão de obra cativa
O impacto da revolução industrial e e para a consolidação de elites es-
DVWUDQVIRUPDo}HVQDVHVWUXWXUDVGRV cravocratas. Os grupos senhoriais
mercados e do comércio atlântico QHVWDV UHJL}HV DGTXLULUDP SRGHU H
decorrentes da aceleração da indus- autoridade suficientes para influen-
trialização teriam impulsionado uma ciar na governança tanto de estados
aceleração da atividade escravagista, nacionais independentes, casos da
que incluía o crescimento do tráfico república dos Estados Unidos e do
transatlântico e da produção de mer- império do Brasil, quanto de áreas
cadorias voltadas para os emergentes coloniais mais dinâmicas do deca-
SDGU}HVGHFRQVXPRHVWDEHOHFLGRVQD dente império espanhol, como Cuba
Europa e no norte dos Estados Uni- e Porto Rico — que emergem na
dos. Essa expansão perdurou até que paisagem oitocentista com uma re-
a vitória da União na Guerra Civil novada produção açucareira. Esse
Americana e a consequente eman- processo foi propelido através da ex-
FLSDomR GH TXDVH TXDWUR PLOK}HV GH pansão da atividade algodoeira pelo
pessoas forçassem os governos do sudoeste norte-americano durante o
Brasil e da Espanha a considerar com período compreendido entre a guer-
seriedade o fim da escravidão em ra de independência e a guerra civil,
suas respectivas áreas de soberania. acompanhada pelo desenvolvimento
Este processo levou à emancipação da cultura cafeeira no médio Paraíba
gradual, com término na década de brasileiro e, como já mencionado,
1880.2
Don H. Doyle (org.), American Civil Wars:
The United States, Latin America, Europe,
2
Sobre a posição da Espanha, ver Christopher and The Crisis of the 1860s (Chapel Hill:
Schmidt-Nowara, “From Aggression to University of North Carolina Press, 2017),
Crisis: The Spanish Empire in the 1860s”, in pp. 125-146.

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pelo desenvolvimento da ativida- ferência historiográfica da escravi-
de açucareira cubana ao longo do dão, ex-editor da New Left Review,
século XIX. A alta produtividade com pesquisas renomadas na área da
e o sofrimento humano decorren- ascensão e crise da escravidão mo-
tes dessa etapa de revitalização são derna. O historiador britânico apre-
apresentados como marcas de uma senta a temática de forma didática,
era, durante a qual, a despeito do re- justificando sua associação a essa
crudescimento de movimentos abo- corrente historiográfica a partir da
licionistas, escravidão e capitalismo constatação de que a industrializa-
se aliaram num processo de expan- ção e a modernidade não levaram ao
são sem precedentes. fim da escravidão negra nas Améri-
As referências informando os cas. Para Blackburn,
estudos da presente antologia têm
A segunda escravidão representava
como ponto de partida o trabalho
um regime escravista mais autôno-
pioneiro de Eric Williams, que pri-
mo, mais duradouro e, em termos
meiro vinculou a escravidão caribe-
de mercado, mais ‘produtivo’, capaz
nha ao capitalismo. O próprio título
de suportar a ofensiva da Era das
da coletânea homenageia e trans-
5HYROXo}HVHGHDWHQGHUjFUHVFHQWH
forma o título homônimo do clássi-
demanda pelos produtos das planta-
co do historiador trinitino.3 Outras
tions. (p. 17)
referências importantes incluem os
trabalhos de Immanuel Wallerstein A originalidade da Segunda Es-
sobre o world system, de Fernando cravidão residiria no fato de ter sido
Novaes sobre o antigo sistema colo- um regime de trabalho “descoloni-
nial, além da farta historiografia so- zado”, profundamente relacionado
bre modos de produção escravista. à aceleração do capitalismo num
As abordagens propostas procuram contexto de autonomia e descentra-
resgatar uma análise macrocom- lização políticas crescentes. Após
parativa da escravidão, fortemente uma breve introdução ao conceito, a
vinculada à critica feita por Marx segunda metade do artigo dedica-se à
à teoria econômica clássica. Nesse descrição dos eventos que impeliram
sentido, as ideias expostas surgem a transição da primeira para a segun-
como síntese de um conjunto de dis- da escravidão, incluindo um novo
FXVV}HVFRPDJHQGDVFRQYHUJHQWHV processo de globalização e a melho-
DLQGD TXH YLQFXODGDV D FRQFHSo}HV ULDGDVFRQGLo}HVGHYLGDGHFDPDGDV
e experiências acadêmicas distintas. da população europeia, além da am-
O primeiro capítulo é de autoria pliação do mercado norte-americano.
de Robin Blackburn, importante re- A melhoria da condição socioeco-
nômica dos trabalhadores, aliada ao
3
crescimento das classes médias, ge-
Eric Williams, Capitalism and Slavery,
Nova York: G. P. Putnam´s Sons, 1966.
rou novos hábitos de consumo, como
Primeira edição de 1944. o café da manhã, que foram popula-

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rizados na vigência de trocas livre- GH TXH VXDV FRQFOXV}HV VmR UHVXO-
cambistas. O texto de Blackburn flui tado” (p. 61), simultaneamente ig-
com clareza, encerrando a com o iní- norando as formas sócio-históricas
cio do período da Segunda Escravi- da análise da escravidão. Ou seja, a
dão, sem entrar em maiores detalhes análise daqueles historiadores seria
sobre sua evolução posterior. reducionista, presa a uma região e
O texto seguinte é de autoria temporalidades específicas. De cer-
de Dale Tomich, professor da State ta forma esta crítica parece reforçar
University of New York, em Bin- a percepção da excepcionalidade
ghamton-EUA, e principal referên- norte-americana quanto às formas
cia da corrente. Na primeira parte de dominação escravistas no sul da-
do capítulo, Tomich concentra sua quela república.
crítica nas análises do que denomi- Na segunda parte do capítulo To-
na como “Nova História Econômi- mich contesta as categorias do que
FD´ H QDV UHSHUFXVV}HV GR PDLV ID- define como “teoria neoclássica”,
moso trabalho de cooperação entre utilizada pelos cliométricos. Isso é
Robert Fogel e Stanley Engerman, feito a partir de conceitos do pensa-
Time on the Cross, originalmente PHQWRGH.DUO0DU[HVSHFLDOPHQWH
publicado em 1974.4 Esse livro e o à concepção de uma história teórica.
subsequente desenvolvimento dos Na escravidão a força de trabalho
estudos “cliométricos” demonstra- não é mercadoria, consequente-
ram a alta produtividade do trabalho mente a extração do excedente não
escravista, mesmo quando compara- se faz pelo mercado, mas através
da ao trabalho livre dos agricultores do expediente de coerção extrae-
e operários da Inglaterra e do norte conômica (subordinação moral e
dos Estados Unidos. Os achados de violência física). No capitalismo,
Fogel e Engerman são apresentados o assalariado vende a sua força de
por Tomich como limitados e insa- trabalho como mercadoria, ou seja,
tisfatórios, mantendo-se “ao largo de por um dado valor, desencadeando
domínios políticos, sociais ou cul- assim a produção da mais-valia, ou
turais” que seriam “insuficiente[s] a apropriação do sobretrabalho sob
para qualquer tentativa de escrever a aparência do lucro. Como o escra-
um relato histórico coeso e abran- vo não é proprietário de sua força de
gente da escravidão no Atlântico.” trabalho e, portanto, não a vende, o
(p. 57) Ele acusa Fogel, Engerman e WUDEDOKR YLYR QmR WHP YDORU R TXH
seus seguidores de não darem conta possui valor é o escravo. Enfim, na
³GDVUHODo}HVKLVWyULFDVVXEVWDQWLYDV escravidão o sobretrabalho não se
transforma em mais-valia. Essa re-
configuração visa à compreensão do
4
Robert Fogel e Stanley L. Engerman, Time TXH VHULDP DV GLIHUHQWHV IRUPDo}HV
on the Cross: The Economics of American
Negro Slavery, Nova York: W. W. Norton, histórico-sociais do trabalho. Ainda
1974. nesta seção o resgate do trabalho de

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Eric Williams vem no bojo da críti- careça de uma introdução sobre o
ca às pesquisas de historiadores que, impacto e o debate das pesquisas de
como Seymour Drescher e David Fogel, Engerman e seus seguidores
Eltis, ressaltaram o papel da opinião nos estudos a respeito da escravi-
pública britânica e da ação de um dão no sul dos Estados Unidos: de
movimento abolicionista alicerçado como esses historiadores reverbera-
HPTXHVW}HVGHFRQVFLrQFLDUHOLJLR- UDP QDV GLVFXVV}HV DFLUUDGDV VREUH
sa, que teriam sido fundamentais a natureza da sociedade sulista e
SDUDDSULPHLUDRQGDGHDEROLo}HVQR VXDVUHSHUFXVV}HVVREUHRXWUDViUHDV
Caribe britânico. Trata-se da conti- GHSURGXomRHVFUDYLVWDHGHFRPR
nuidade de um debate de longa data a publicação de Time on the Cross
na tradição anglo-americana.5 abriu espaço para a disseminação
A análise das realidades cari- de estudos quantitativos em outras
benhas empreendidas por Tomich UHJL}HV$GLILFXOGDGHSDUDDFRPSD-
descarta o peso dos argumentos fi- nhar a crítica de Tomich reside ain-
lantrópicos em função de outras con- da na pouca difusão dos clássicos da
VLGHUDo}HVWDLVFRPRDDXVrQFLDGH cliometria entre uma audiência que,
áreas de expansão no arquipélago, como a brasileira, desconhece, em
que diminuía as vantagens compara- geral, a importância dessa vertente
WLYDVHPUHODomRjVUHJL}HVQDVTXDLV historiográfica, ressentindo-se da
a Segunda Escravidão vicejou. Esta ausência de cursos de história quan-
análise pauta-se pela necessidade titativa, inclusive nos programas de
de considerar os processos produ- pós-graduação. Time on the Cross
tivos segundo suas temporalidades, não foi traduzido para o português.
realizando dessa forma uma síntese Essa omissão é mais impressionante
capaz de superar o caráter provisó- quando se leva em conta que Robert
ULRDWULEXtGRjVFRQFOXV}HVGD1RYD Fogel foi laureado com o Prêmio
História Econômica, “válidas no Nobel de Economia (1993).
âmbito de um conjunto limitado e As críticas apresentadas por
OLPLWDQWHGHVXSRVLo}HV´ S  Tomich se atêm a um plano mais
O capítulo de Tomich não parece FRQFHLWXDORGDVOLPLWDo}HVGDTXHOD
ter sido originalmente escrito para o corrente, e de seus autores princi-
público brasileiro. Talvez por isso pais, para enquadrar suas análises a
contextos históricos mais amplos, ou
seja, a falta de historicidade do texto
5
Seymour Drescher, Abolition: A History na tradição cliométrica. Ressalte-
of Slavery and Antislavery, Cambridge,:
&DPEULGJH8QLYHUVLW\3UHVVidem, se que entre os autores vinculados
Econocide: British Slavery in the Era of àquela corrente, Stanley Engerman
Abolition, Pittsburg: University of Pitts- não pode ser corretamente acusado
EXUJ3UHVVH'DYLG(OWLVEconomic de ignorar a comparação histórica,
Growth and the Ending of the Transatlantic
Slave Trade, Nova York: Oxford University tendo em vista a publicação de um
Press, 1987. pequeno e provocativo livro, reche-

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ado de grandes ideias.6 Assim, ainda relativamente inédito, já que a partir
que Tomich aceite a hipótese da alta dos anos de 1970 a produção histo-
produtividade do trabalho escravo riográfica brasileira passou a ser for-
HP FHUWDV UHJL}HV FULWLFD D LGHLD mulada majoritariamente no interior
dos estímulos econômicos ao traba- das universidades, como resultado
lho escravo, enfatizando elementos do processo de profissionalização.
como o sofrimento, a disciplina e Assim, são também analisadas com
a repressão que teriam sido menos PDLRUrQIDVHDVFRQWULEXLo}HVFROH-
ressaltados pela frieza dos números tivas dos programas de pós-gradua-
apresentados pelos cliométricos. ção em História da Universidade de
No terceiro capítulo, Rafael São Paulo e da Universidade Fede-
Marquese e Ricardo Salles, profes- ral Fluminense.
sores respectivamente da Universi- A última parte do capítulo des-
dade de São Paulo e da UNIRIO, re- taca a perspectiva da Segunda Es-
alizam um balanço da historiografia cravidão para a sedimentação de
da escravidão brasileira. Cronologi- XPDVtQWHVHGDVGLIHUHQWHVWUDGLo}HV
camente, o estudo abrange o período historiográficas produzidas no país.
entre os anos de 1960 até as pesqui- Os autores vinculam as transforma-
sas mais recentes. Nesse percurso, o}HV GD DJULFXOWXUD EUDVLOHLUD D XP
os autores listam uma gama ampla contexto internacional em mutação,
de historiadores e debates, come- permitindo uma renovação abran-
çando pela tradição ensaísta, passan- gente dos estudos sobre a escravidão
do pelos trabalhos que enfocaram o brasileira. As análises de Marquese
conceito de modo de produção até e Salles alertam os leitores para as
chegar ao impacto proporcionado características inovadoras do siste-
tanto pelas pesquisas quantitativas ma escravista que emerge a partir da
FRPRSHODVGLVFXVV}HVVREUHDDJrQ- Revolução do Haiti em 1791-1804.
cia escrava, ambas emergindo com $R ILQDO SURS}HP XPD DJHQGD GH
força na historiografia brasileira dos pesquisas que retome os temas es-
anos de 1990. posados pela historiografia das dé-
Considerar todo esse material cadas de 1960 e 1970, conjugando a
em conjunto constitui tarefa exaus- QRYDHVFUDYLGmRDVWUDQVIRUPDo}HV
tiva, que demonstra a capacidade da sociedade imperial e o desen-
GRV DXWRUHV SDUD RUGHQDU WUDGLo}HV volvimento do capitalismo global,
diferentes, nem sempre comple- incorporando “a multiplicidade e a
mentares. Constitui também um ex- complexidade da agência de ser es-
perimento de história institucional cravo.” (p. 162)
O capítulo de José Antonio Pi-
queiras, professor da Universitat
6
Stanley Engerman, Slavery, Emancipation, Jaume I, na Espanha, trata da temá-
and Freedom: Comparative Perspectives,
Baton Rouge: Louisiana State University tica na historiografia cubana, enfo-
Press, 2007. FDQGR DV GHOLFDGDV UHODo}HV HQWUH

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a Revolução Cubana de 1959 e as A persistência do racismo foi ne-
historiografias da escravidão pro- gada pelas lideranças da revolução
duzidas dentro e fora da ilha. Para até o final dos anos de 1980. Essa
o autor, “A Revolução, longe de atitude alinhava-se à prioridade con-
avançar em direção a uma nova his- ferida aos debates sobre a formação
tória, aprofundou novos postulados nacional, orientados por postulados
nos eixos da História e dos ensaios da tradição historiográfica do na-
tradicionais.” (p. 171) Concentrarei cionalismo liberal e do marxismo,
meu comentário na discussão sobre criando um consenso que foi conso-
raça e nação apresentada neste lon- lidado pelo isolamento das Ciências
go e detalhado capítulo. Sociais em relação à produção in-
2HVWXGRGDVUHODo}HVUDFLDLVHP ternacional. A partir dos anos 1990
Cuba é tema problemático desde a a circulação dos livros de Herbert
publicação de Nuestra América, por .OHLQ 5HEHFFD 6FRWW H /DLUG %HU-
José Marti, trabalho que negava a gard oxigenaram o debate, auxi-
existência das raças no contexto da liando a emergência de uma nova
luta pela independência cubana no historiografia cubana da escravidão,
final do século XIX. A negação do abrindo espaço para o trabalho de
racismo em Cuba insere-se numa pesquisadores que, como Maria de
tradição político-cultural que atra- Carmen Barcia, representariam a
vessou os períodos republicano e abertura de novas perspectivas, te-
revolucionário. mas e instrumentos de pesquisa.8
O trabalho de Piqueiras retoma a A introdução de uma última se-
importância do trabalho de Moreno ção tratando da Segunda Escravidão
Fraginals, especialmente seu livro pareceu desconectada do resto do
mais famoso, El ingenio. O livro texto de Piqueras, que já vinha tra-
DERUGDDVFRQWUDGLo}HVGDSURGXomR WDQGR D FRQWHQWR GDV UHODo}HV HQWUH
escravista para o mercado capitalis- escravidão e capitalismo na historio-
ta. Apesar de sua metodologia ri- grafia cubana através de um exausti-
gorosa, a obra de Fraginals não foi vo levantamento de autores e obras.
bem recebida pela historiografia ofi-
cial cubana, que recomendava que
 +HUEHUW6.OHLQSlavery in the Americas:
8
os historiadores marxistas deveriam A Comparative Study of Virginia and Cuba,
reinterpretar o passado, não recons- Chicago: The University of Chicago Press,
truí-lo a partir de novas evidências.7  5HEHFFD - 6FRWW Emancipação
escrava em Cuba: a transição para o
trabalho livre, 1860-1899, Rio de Janeiro:
7
Manuel Moreno Fraginals, El Ingenio. 3D]H7HUUDH/DLUG:%HUJDUGThe
Complejo econômico-social cubano del Comparative Histories of Slavery in Brazil,
Azúcar, 3 vols., Havana: Editorial de Cuba, and the United States, Nova York:
Ciencias Sociales, 1978. Primeira edição &DPEULGJH8QLYHUVLW\3UHVVH0DULD
de 1964. Uma tradução do primeiro volu- del Carmen Barcia, Los Ilustres apellidos:
me desta obra foi publicada no Brasil pela negros en la Habana colonial, Havana:
Hucitec. (GLFLRQHV%RORxD

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O último capítulo, de autoria de ção paternalista e da identidade es-
Edward E. Baptist, professor da Uni- crava, levando à percepção “de que
versidade de Cornell, parte das his- tudo se resumia a uma constante
tórias do tráfico interno, vinculado interação entre senhor e escravo.”
à expansão algodoeira, para realizar (p. 295) A crise da economia global
uma extensa reconsideração da tra- de 2008 reforçaria a necessidade de
jetória de diversas correntes da histo- reconsiderar a história da escravidão
riografia da escravidão americana ao nos Estados Unidos à luz da expan-
longo do século XX. Trata-se de um são do capitalismo, feita através de
ponto de partida para a discussão do uma globalização orientada pela in-
SRVLFLRQDPHQWR GH YiULDV JHUDo}HV fluência cada vez maior do rentismo.
GH KLVWRULDGRUHV TXDQWR jV UHODo}HV Baptist recupera o protagonismo de
entre trabalho escravo, capitalismo e empresas de financiamento e secu-
mercado financeiro nos Estados Uni- ritização, tais como a Lehman Bro-
dos. O foco é a crítica a uma visão thers, cuja origem encontra-se no Sul
imobilista e passiva dos escravos por do período pré-guerra civil. A análise
parte do establishment acadêmico SURS}HXPDUXSWXUDFRPRVSDUDGLJ-
norte-americano. Esse estereótipo mas culturais e relativistas que domi-
sobreviveu de uma forma ou de ou- naram a historiografia da escravidão
tra, em todas as correntes historiográ- na década de 1990, perpetuando a
ficas, desde que a Dunning School tendência à “representação dos es-
reavaliou o período da Reconstrução cravos como sinédoque de um negro
sob o prisma do racismo. A historio- americano idealizado.” (p. 304)
grafia da escravidão nos EUA é pen- O livro não apresenta conclu-
sada como uma série de sinédoques: são ou posfácio. Essa omissão não
pequenas histórias que representam parece gratuita. Ela sugere que os
uma maior. A negação da violência organizadores quiseram deixar aos
como principal característica das re- leitores a tarefa de indagar sobre as
ODo}HV VHQKRUHVFUDYR DWUDYHVVRX DV potencialidades do uso do estilo de
obras de Eugene Genovese e o relati- marxismo que adotam como ferra-
vismo cultural subsequente. menta teórica para abordagens das
Trata-se do capítulo mais mi- UHODo}HVHQWUHDHVFUDYLGmRRFDSL-
litante da coletânea, uma vez que talismo e o tempo histórico, ou, dito
enfatiza as consequências no longo de outra forma, da reconsideração
prazo do expansionismo financeiro do século antiescravista como um
ilimitado, “cuja tempestade mais re- período central para o desenvolvi-
FHQWHJHURXIXUDF}HVTXHDIHWDPDV mento do trabalho escravo.
pessoas ao redor do globo.” (p. 298) Partindo de longas sínteses his-
Fica claro o desconforto do autor toriográficas, os pesquisadores en-
com as abordagens mais recentes, volvidos neste projeto apresentam
dentro e fora do campo marxista, a Segunda Escravidão tanto como
que enfocaram o papel da negocia- ponto de chegada, quanto condição

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necessária para avançar pautas que VDV GLVFXVV}HV DTXL DSUHVHQWDGDV
tragam respostas aos dilemas con- Um glossário de temas e escolas
temporâneos relativos à precariza- de pensamento daria referência à
ção do trabalho e da desigualdade e leitura de textos muito particulari-
discriminação raciais, em socieda- zados. Mas estas são faltas que não
des fustigadas por um processo de diminuem o esforço por expandir o
globalização profundamente imbri- GHEDWHGDVFRQH[}HVHQWUHDVIRUPDV
cado na ação do capital financeiro. tomadas pela escravidão no século
Uma bibliografia de referência aju- ;,;HVXDVUHODo}HVFRPRFDSLWDOLV-
daria o leitor a navegar pelas exten- mo global através do tempo.
Vitor Izecksohn
Universidade Federal do Rio de Janeiro
vizecksohn@gmail.com

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