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Edenbrooke

Julianne Donaldson
Sinopse
Marianne Daventry faria qualquer coisa para escapar do aborrecimento de
Bath e das investidas amorosas de um cretino que não lhe interessa
absolutamente. Assim quando recebe um convite de sua irmã gêmea,
Cecily, para que se una a ela em uma maravilhosa casa de campo, aproveita
a oportunidade. Por fim, poderá relaxar e desfrutar do campo, que tanto
gosta, enquanto sua irmã tenta obter as atenções do atraente herdeiro de
Edenbrooke.
Entretanto, Marianne acabará por descobrir que inclusive os melhores
planos podem dar errado: primeiro, terá um aterrador encontro com um
ladrão de estrada, depois, uma paquera aparentemente inofensiva... o caso é
que, ao final, Marianne se verá envolvida em uma inesperada aventura
cheia de intriga e de amor, tão apaixonante que não poderá dar descanso a
sua mente.
Será capaz de controlar seu coração traidor ou cairá rendida a um
misterioso desconhecido?
Está claro, o destino quer para Marianne algo distinto do que ela tinha
planejado ao ir a Edenbrooke.
Para todas as almas gêmeas.
Capítulo 1
Bath, Inglaterra, 1816

Aquele carvalho me distraiu. Ao passar sob seus frondosos

ramos, não pude evitar elevar o olhar e ser testemunha de como o

vento balançava suas folhas e as fazia girar sobre seus caules. Dei-

me conta, então, de quanto tempo fazia que eu não girava sobre

mim mesma. Fiquei imóvel enquanto tentava recordar a última vez

que havia sentido a necessidade de dar voltas e mais voltas.

O senhor Whittles aproveitou minha distração para se

aproximar silenciosamente.

—Senhorita Daventry! Que inesperado prazer!

Pus-me a andar, surpreendida, procurando com desespero

minha tia Amélia, que devia ter continuado pelo caminho de

cascalho enquanto eu me detinha sob a sombra da árvore.

—Senhor Whittles! Não o tinha ouvido.

Acostumava estar atenta de qualquer som que delatasse sua

chegada, mas aquele carvalho me distraíra.

Obsequiou-me com um esplêndido sorriso e uma reverência tão

exagerada que seu espartilho protestou. Seu rosto redondo brilhava

pelo suor e levava o cabelo, ou o que ficava dele, grudado à cabeça.

Dobrava-me em idade e era tão ridículo que apenas podia suportar

sua presença. De todos seus traços repulsivos, o que mais me


horrorizava era a boca, pois quando falava, na comissura de seus

lábios se alojava indevidamente um fio de saliva.

Tentei não me fixar neles quando começou a falar.

—Faz uma manhã esplêndida, não lhe parece? De fato,

convida-me a cantar. Oh, que esplêndida manhã! Oh, que

esplêndido dia! Oh, que esplêndida mulher divisei ao longe! —Fez

uma reverência, como se esperasse que o aplaudissem. Entretanto,

hoje posso lhe oferecer algo melhor que essa cançãozinha. Compus

um poema só para você.

Encaminhei-me na direção que devia ter tomado minha tia

Amélia.

—Minha tia ficará encantada de escutá-lo, senhor Whittles. Vai

um pouco adiantada, mas somente uns passos, tenho certeza.

—Mas, senhorita Daventry, é você a quem eu desejo agradar

com minha poesia. —aproximou-se de mim—. Porque gosta da

minha poesia, verdade?

Escondi as mãos atrás das costas se por acaso ele tentasse me

dar a sua. Já o fizera outras vezes e tinha sido extremamente

desagradável.

—Temo que não sei apreciá-la tão bem como minha tia.

Dei uma olhada por cima do ombro e suspirei aliviada. Minha

tia solteirona vinha a meu encontro, apressada. Era uma

acompanhante excelente; um fato que não soubera apreciar até esse

momento.

—Marianne! Está aqui! Oh, senhor Whittles, não o tinha


reconhecido de longe. Minha pobre vista, j{ sabe< —Dedicou-lhe

um sorriso transbordante de alegria—. Compôs outro poema? Eu

adoro sua poesia. Você tem o dom da palavra.

Minha tia teria sido a esposa perfeita para o senhor Whittles.

Seus problemas de vista suavizavam a natureza repulsiva dos traços

dele e como a pobre tinha mais cabelo que engenho, tampouco sua

ridicularia a horrorizava tanto quanto a mim. De fato, levava algum

tempo tentando desviar a atenção do senhor Whittles para ela,

embora até o momento não tivesse tido muito êxito.

—Pois, a verdade é que sim.

Tirou uma folha de papel do bolso do casaco, acariciou-a com

ternura e umedeceu os lábios. Uma gota enorme de saliva ficou

pendurada à comissura e não pude evitar cravar nela o olhar, apesar

de não querer fazê-lo. A gota tremulou quando começou a ler,

embora não se desprendesse.

—«A senhorita Daventry é formosa e singular, e tem olhos de uma cor

sem igual. Nem de um verde vulgar, nem castanhos sem mais, mas sim da

cor do mar e nada mais.»

Afastei o olhar da tremente gota de saliva.

—Da cor do mar, que ocorrência! Se meus olhos são mais cinzas

que azuis. Eu adoraria escutar um poema que falasse de meus olhos

cinzas —respondi esboçando um sorriso inocente.

—Sim, sim, é óbvio. Eu mesmo pensei em numerosas ocasiões

que seus olhos parecem totalmente cinzas. —Franziu o cenho uns

instantes—. Ah, já sei! Direi que são da cor do mar em um dia de


tormenta pois, como bem sabe, o mar durante as tormentas

frequentemente parece cinza. É uma singela mudança e não será

necessária reescrever o poema, como nas últimas cinco ocasiões.

—Você é tão inteligente —murmurei.

—Certamente –concordou minha tia.

—Mas ainda há mais. «A senhorita Daventry é formosa e singular, e

seu cabelo ondeia ao caminhar. A luz enche de reflexos seu cabelo de cor

ambarina, nada menos assim fino».

—Fantástico —exclamei—, embora nunca considerei que meu

cabelo fosse de cor ambarina. —Voltei-me para minha tia—. Alguma

vez lhe pareceu isso, tia Amélia?

Ela inclinou a cabeça.

—Não, nunca.

—Vê? Sinto não concordar com você, senhor Whittles, mas

acredito firmemente que vale a pena lhe animar a aperfeiçoar sua

poesia.

Ele assentiu.

—Prefere à vez que o comparei com a cor de meu cavalo?

—Sim. —Deixei escapar um suspiro—. Isso foi mil vezes

melhor. —Estava começando a me cansar daquele pequeno jogo—.

Talvez devesse ir para casa agora mesmo e reescrevê-lo.

—Entretanto —interveio minha tia particularizando com o

dedo—, muitas vezes pensei que seu cabelo tem o mesmo tom que o

mel.

—O mel! Sim, isso. –limpou a garganta—. «A luz cheia de reflexos


seu cabelo cor mel, nada menos assim, de mel».

O senhor Whittles sorriu deixando a mostra toda sua boca

babosa. Contive as náuseas. Como podia uma pessoa produzir tanta

saliva?

—Agora está perfeito. Vou lê-lo no jantar dos Smith desta sexta-

feira.

Aquela ideia me horrorizou.

—Oh, mas isso o arruinaria, senhor. Um poema tão bonito

como este deve permanecer próximo ao coração. —Estendi uma

mão—. Posso ficar com ele, por favor?

Hesitou uns instantes, mas, ao final, entregou-me.

—Obrigado —respondi com sinceridade.

Então minha tia Amélia lhe perguntou pela saúde de sua mãe.

Quando começou a descrever a ferida supurenta que a mulher tinha

no pé, senti revolver o estômago. Aquela conversa era muito

repugnante. Para deixar de pensar naquilo, afastei-me um pouco e

ergui de novo o olhar para o carvalho que tinha atraído minha

atenção.

Era uma árvore imponente e me fez pensar no campo, com

saudade. As folhas seguiam girando, movidas pela brisa e voltei a

formular a pergunta que me tinha feito parar uns minutos antes.

Quando tinha girado pela última vez?

No passado, girar tinha sido um costume em mim, embora

minha avó o tivesse considerado um cacoete se soubesse. Teria

estado ao mesmo nível que meus outros hábitos, como me sentar no


jardim durante horas com um livro ou trotar pelo campo no lombo

de minha égua.

No mínimo, deviam ter transcorrido quatorze meses desde a

última vez que me tinha posto a dar giros. Era o tempo que fazia

que meu pai me afastara de meu lar, exatamente depois do enterro,

e depositado na porta da casa de minha avó, em Bath, antes de

partir a caminho da França para chorar sua perda a sua maneira.

Quatorze meses naquela sufocante cidade< Dois mais do que

tinha temido a princípio. Embora ninguém me tivesse dado razões

para acreditá-lo, tive a esperança de que um ano de exílio fosse

castigo suficiente. E por isso, no aniversário da morte de minha mãe,

dois meses atrás, tinha esperado durante todo o dia a volta de meu

pai. Uma e outra vez, tinha o imaginado batendo na porta. O

coração me daria um tombo, desceria correndo a abrir a porta e ele

me sorriria ao me anunciar que tinha vindo para me levar de volta

para casa.

Entretanto, meu pai não apareceu. Estive toda a noite sentada

na cama, à luz de uma vela, esperando para ouvir o toc toc que

indicaria minha libertação daquela jaula de ouro, mas a manhã

despontou sem que ninguém batesse na porta.

Deixei escapar um suspiro ao levantar o olhar para as folhas

verdes que dançavam com o vento. Não tinha tido motivo para dar

voltas em tanto tempo< E não ter nada pelo que dar voltas aos

dezessete anos, devia ser, sem dúvida, um problema.

—E gotejam. —A voz do senhor Whittles me trouxe de volta à


realidade—. Gotejam sem parar.

O rosto de minha tia Amélia tinha adquirido um tom

esbranquiçado e levou uma mão enluvada à boca. Decidi que tinha

chegado o momento de intervir.

—Minha avó nos espera. Terá que nos perdoar —desculpei-me

diante do senhor Whittles, enquanto tomava minha tia pelo braço.

—É óbvio, é óbvio —respondeu com uma nova reverência que

fez com que seu espartilho protestasse sem discrição—. Espero vê-la

logo, senhorita Daventry. Talvez no Pump Room?

Deveria ter imaginado que sugeriria o centro nevrálgico da vida

social de Bath para um novo encontro «fortuito». Conhecia bem

meus costumes. Sorri cortesmente, enquanto resolvia não ir tomar o

chá no Pump Room durante ao menos uma semana, e puxei minha

tia para a ampla extensão de grama que separava o caminho de

cascalho de Royal Crescent. O edifício descrevia um elegante

semicírculo de pedra de cor manteiga que recordava uns enormes

braços estendidos e preparados para dar um abraço. A casa de

minha avó em Royal Crescent era do melhor que Bath podia

oferecer. Mesmo assim, o luxo não compensava a vida na cidade,

que se tornara insuportável para mim. Tinha saudades do campo,

com tanto desespero, que passava as noites e os dias sonhando

voltar ali.

Minha avó estava em seu salão lendo uma carta, sentada em

sua poltrona como se fosse um trono. Continuava vestindo rigoroso

luto. Quando entrei, ergueu o olhar e me examinou de cima abaixo


com seu olhar crítico. Aos seus olhos cinza e perspicazes, não

escapava nada.

—Onde esteve toda a manhã? Correndo pelo campo de novo,

como se fosse a filha de um simples granjeiro?

A primeira vez que me formulara aquela pergunta me fizera

estremecer; agora, entretanto, me fazia sorrir, pois sabia que fazia

parte de nosso jogo particular. Minha avó desfrutava, lançando-se

em um bom duelo verbal ao menos uma vez ao dia e, embora não

pensasse usá-lo contra ela, tinha compreendido que seus gestos

bruscos serviam apenas para mascarar o que ela considerava o

maior de todos os defeitos: um coração bondoso.

—Não, isso é para os dias ímpares, avó. Nos pares, dedico-me a

aprender a ordenhar vacas.

Agachei-me e lhe dei um beijo na testa. Ela me apertou o braço

durante um instante muito breve. Aquele gesto era o mais próximo

de uma amostra de carinho que obteria de sua parte.

—Ora! Suponho que se acredite muito engraçada.

—Em realidade, não. É necessária muita prática para aprender

a ordenhar uma vaca e me considero particularmente inepta nessa

tarefa.

Percebi como lhe tremiam os músculos ao redor da boca, o que

significava que estava tentando dissimular um sorriso. Ficou a

brincar com seu xale de renda e me fez gestos para que me sentasse

a seu lado.

Olhei o punhado de cartas que se encontrava sobre o aparador.


—Chegou uma carta para mim?

—Se o que está me perguntando é se recebeu uma carta de seu

despreocupado pai, então, não.

Afastei o olhar para ocultar minha decepção.

—Deve estar viajando. Talvez não tenha oportunidade de

escrever.

—Ou possivelmente esteja tão centrado em seu próprio

sofrimento que se esqueceu de suas filhas depois de descarregar sua

responsabilidade em alguém que nunca a pediu, ainda mais em tão

avançada idade —murmurou.

Senti uma pontada de dor; alguns de seus dardos continham

mais veneno que outros. Aquele era um assunto muito doloroso

para mim. Odiava a ideia de ser uma carga, mas tampouco tinha

outro lugar para onde ir.

—Quer que eu parta? —perguntei sem poder evitar.

—Não diga tolices. Já tenho bastante com as de sua tia Amélia

—espetou com a testa franzida. Dobrou a carta que tinha estado

lendo—. Recebi mais más notícias desse meu sobrinho.

Ah, o sobrinho infame! Deveria tê-lo adivinhado. Nada punha

de pior humor a minha avó que inteirar-se dos últimos escândalos

nos que se havia envolvido seu herdeiro, o senhor Kellet, um

canalha e descarado que tinha dilapidado todo seu dinheiro,

enquanto aguardava a considerável fortuna que herdaria de minha

avó. A minha irmã gêmea, Cecily, parecia-lhe galhardo e romântico;

a mim, em troca, justamente o contrário. Embora essa era apenas


uma das muitas coisas nas quais não estávamos de acordo.

—O que o senhor Kellet fez agora? —perguntei.

—Nada apropriado para seus inocentes ouvidos. —Deixou

escapar um suspiro e prosseguiu em voz mais baixa—: Acredito que

cometi um engano, Marianne. Isto será a ruína dele. Infligiu um

dano importante e irreparável ao sobrenome da família.

Levou uma mão trêmula à testa. Parecia frágil e cansada.

Observei-a surpresa. Nunca tinha demonstrado semelhante

vulnerabilidade diante de mim e não era próprio dela. Inclinei-me

para frente e tomei uma de suas mãos.

—Avó, está bem? Posso lhe trazer algo?

Ela se soltou.

—Não me trate com indulgência, menina. Sabe que não tenho

paciência com esse tipo de comportamento. Só estou cansada.

Contive um sorriso. Se podia responder daquela maneira, é que

se encontrava bem. Mesmo assim, sua reação era inesperada. Em

geral, costumava ignorar as maldades do senhor Kellet e recordar-se

por que sempre tinha sido seu favorito. (Acredito que o que gostava

nele era que não a temia como os outros.) Não obstante, nunca a

tinha visto tão preocupada, nem tão abatida.

Minha avó assinalou o monte de cartas que havia sobre a mesa.

—Há uma carta para ti. De Londres. Leia e me deixe a sós uns

minutos.

Com a carta nas mãos, dirigi-me para a janela e deixei que o sol

iluminasse aquela escrita tão familiar. Ao me trazer para Bath, meu


pai tinha encontrado um destino melhor para minha irmã gêmea,

Cecily, que levava os últimos quatorze meses na casa de nossa

prima Edith, em Londres e, ao que parecia, tinha desfrutado de cada

instante de sua estadia ali.

Embora fôssemos gêmeas, Cecily e eu éramos incrivelmente

diferentes. Ela me superava em todas as artes femininas e era muito

mais formosa e refinada. Tocava o piano e cantava como um anjo,

flertava com facilidade com os cavalheiros e gostava de viver na

cidade. Cecily sonhava casar-se com um homem na posse de um

título e era ambiciosa.

Minhas ambições divergiam muito das suas. Eu queria viver no

campo, montar a cavalo, me sentar no jardim a pintar e cuidar de

meu pai. Sonhava encontrar meu lugar no mundo e fazer algo útil e

bom com meu tempo; mas, sobretudo, desejava que me quisessem

pelo que era. Minhas ambições eram discretas e aborrecidas em

comparação com as de Cecily e, em ocasiões, suspeitava que eu

mesma devia parecer discreta e aborrecida ao seu lado.

Fazia algum tempo, Cecily só falava em suas cartas de sua

queridíssima amiga Louisa Wyndham e de seu belo e nobre irmão

mais velho, com o qual estava decidida a se casar. Nunca me dissera

o nome dele em suas cartas, sempre se referia a ele como «o irmão».

Suponho que temia que pudessem cair nas mãos de alguém menos

discreto que eu. Talvez estivesse preocupada que Betsy, minha

camareira, pudesse lê-las; não sem razão, pois era uma fofoqueira

incorrigível.
Não tinha contado nada a minha irmã, mas tinha pedido a

Betsy que averiguasse qual era o nome do filho mais velho dos

Wyndham e esta tinha descoberto que se chamava Charles. Em

minha opinião, sir Charles e lady Cecily soava muito bem.

Certamente, se minha irmã tinha decidido casar-se com ele, então,

isso é o que faria, pois nunca fracassara em seu empenho por

conseguir o que desejava.

Antes de romper o selo da carta, fechei os olhos e formulei um

desejo em silêncio. «Por favor, que não volte a falar só de sua querida

Louisa e de seu arrumado irmão.» Não tinha nada contra os Wyndham

—ao fim e ao cabo, nossas mães tinham sido muito amigas de

infância e sua amizade me era tão grata como a Cecily—, mas não

tinha ouvido falar de outra coisa nos últimos dois meses e começava

a me perguntar se eu era tão importante para ela como os

Wyndham. Abri a carta e comecei a ler.

Querida Marianne:

Lamento tanto que Bath esteja sendo um cárcere para ti. Eu

mesma não posso entender esse sentimento, pois adoro Londres.

Possivelmente, ao sermos gêmeas, eu recebi em meu coração todo

o amor pela civilização e você o amor pela natureza. Ao menos

neste aspecto não somos idênticas. (A propósito, como sua irmã,

posso perdoar que escreva coisas como «Preferiria que o sol, o

vento e o céu adornassem minha cabeça antes que um bonito

chapéu». Não obstante, rogo-te que não vá dizendo nada do tipo a

outros, ou a considerarão muito extravagante.)


Já que está tão triste, não a aborrecerei contando tudo o que

tenho feito esta semana. Só lhe direi uma coisa. Minha primeira

temporada na cidade está sendo tão divertida como sempre

sonhei. Entretanto, não porei a prova sua paciência hoje,

acrescentando nada mais por temor que rasgue esta carta antes de

ter lido as notícias importantes que tenho.

Minha queridíssima amiga Louisa Wyndham me convidou a

sua casa de campo. Pelo que entendi, é um solar magnífico,

chama-se Edenbrooke e está situada em Kent. Partiremos para lá

em quinze dias.

Mas aqui está o importante: você também está convidada!

Lady Caroline ampliou o convite para incluí-la, já que ambas

somos filhas de sua «queridíssima amiga» de infância.

Por favor, diga que irá. Vamos nos divertir muito. Inclusive

posso precisar de sua ajuda para me converter em lady Cecily

(soa distinto, não acha?), já que, é óbvio, seu irmão também

estará ali e será minha oportunidade para obter seu afeto. Além

disso, terá a oportunidade, assim, de conhecer minha futura

família.

Com carinho.

Cecily

Invadiu-me uma alegria tão grande que fiquei sem fôlego.

Voltar para o campo! Abandonar Bath e meu confinamento! Reunir-

me com minha irmã, depois de tanto tempo separadas! Era muito


para assimilar de uma só vez. Li de novo a carta, desta vez devagar,

saboreando cada palavra. Estava claro que Cecily não necessitava

minha ajuda para conseguir o afeto de sir Charles. Neste assunto,

não havia nada que eu pudesse lhe aconselhar que ela não soubesse

fazer cem vezes melhor. Entretanto, esta carta era uma prova de que

continuava sendo importante para ela, de que não tinha me

esquecido. Oh, minha adorada irmã! Aquela era a solução a todos

meus problemas e possivelmente encontrasse em Edenbrooke uma

razão para voltar a dar giros.

—E bem? O que diz sua irmã? —perguntou-me minha avó.

Voltei-me para ela, esperançosa.

—Convidou-me para acompanhá-la à casa que os Wyndham

têm em Kent. Partirá de Londres dentro de quinze dias.

Minha avó franziu os lábios e me observou com um olhar

especulativo. Não disse nada e senti o coração tombar. Não se

negaria a me deixar ir, verdade? E menos ainda sabendo o que

significava para mim.

Apertei a carta contra o peito, enquanto meu coração tremia

diante da possibilidade de que me negasse essa bênção inesperada.

—Dá-me permissão?

Baixou o olhar e contemplou a carta que ainda segurava, a que

continha as más notícias sobre o senhor Kellet. Depois, deixou-a

sobre a mesinha e se endireitou em sua cadeira.

—Pode ir, mas com uma condição. Deve mudar essas maneiras

selvagens. O que é isso de correr por aí durante todo o dia? Deve


aprender a se comportar como uma jovem elegante. Imite sua irmã,

ela sim sabe conduzir-se em sociedade. Não posso permitir que

minha herdeira se comporte como uma menina incivilizada. Não

deixarei que me envergonhe como tem feito esse meu sobrinho.

Fiquei olhando minha avó. Sua herdeira?

—O que quer dizer com isso?

—O que ouviu. Vou deserdar o senhor Kellet e legar a você a

maior parte de minha fortuna. Neste momento, seu dote sobe para,

aproximadamente, quarenta mil libras.


Capítulo 2
Sabia que tinha ficado de boca aberta, mas era incapaz de fechá-

la. Quarenta mil libras! Ignorava que minha avó tivesse tanto

dinheiro.

—Por desgraça, não há nenhuma propriedade vinculada ao

dinheiro —continuou—, embora disporá de uma quando se casar. O

mínimo que pode fazer com minha fortuna é tentar conseguir um

casamento vantajoso. —ficou em pé e se dirigiu para a

escrivaninha—. Conheço os Wyndham. Eu mesma escreverei a lady

Caroline e aceitarei o convite em seu nome. Quinze dias é tempo

suficiente para encomendar vestidos novos. Começaremos os

preparativos imediatamente.

Sentou-se à escrivaninha e tomou uma folha de papel. Eu era

incapaz de me mover. O curso de minha vida acabava de mudar,

sem prévio aviso e sem me dar tempo para assimilar.

Minha avó levantou o olhar.

—E bem? O que opina?

Engoli saliva.

—Não< não sei o que dizer.

—Deveria começar por me agradecer.

Esbocei um tímido sorriso.

—Claro que estou agradecida, avó. É só que< me sinto aflita.

Não acredito estar preparada para tanta responsabilidade.


—Esse é o motivo de sua visita a Edenbrooke, preparar-se. Os

Wyndham são uma família muito respeitada e poderá aprender

muito durante sua estadia. De fato, essa é minha condição.

Conseguirei que se converta em uma jovem refinada, Marianne.

Enquanto estiver ali, escreverá, contando-me o que aprender ou a

farei voltar e a instruirei eu mesma.

Um sem-fim de pensamentos desconexos revoou em minha

cabeça, embora fosse incapaz de alinhavá-los para que tivessem

sentido.

—Está pálida —acrescentou—. Sobe ao seu quarto e se deite.

Logo se sentirá melhor. Mas nem lhe ocorra dizer uma palavra sobre

a herança a sua camareira. De momento, não é prudente que se

saiba. Se não é capaz de afugentar a um simplório como o senhor

Whittles, nada poderá fazer com outros mais matreiros que irão

atrás de sua fortuna. Deixe que eu seja quem dita quando dar a

conhecer a notícia. Além disso, ainda devo notificar meu sobrinho.

Assenti com a cabeça.

—Não se preocupe, não o direi a ninguém. —Mordi o lábio

inferior—. Mas o que será da herança de tia Amélia? Ou com a de

Cecily?

Fez um gesto dissuasivo com a mão.

—A parte de Amélia é independente da sua, não se preocupe

por ela. Quanto a Cecily, ela não precisa de fortuna para encontrar

um bom partido, mas você sim.

Essa herança era fruto da compaixão? Porque minha avó


pensava que não conseguiria encontrar marido sem ela? Tinha a

sensação de que essa revelação deveria me fazer ruborizar;

entretanto, permaneci singularmente impassível, como se tivesse se

partido a conexão que unia meu coração ao meu cérebro. Dirigi-me,

pouco a pouco, para a porta. Talvez minha avó tivesse razão e

precisasse descansar um pouco.

Mas, ao abrir a porta, estive a ponto de ser derrubada pelo

senhor Whittles. Devia ter estado apoiado na porta, pois entrou no

salão aos tropeços.

—Peço-lhes desculpas —exclamou.

—Senhor Whittles!

Recuei com presteza para evitar qualquer contato com ele.

—Eis< voltei por meu poema. Para poder introduzir as

mudanças que sugeriu.

Atrás dele, vi minha tia Amélia aguardando no vestíbulo. Ao

menos, isso explicava sua presença na casa. Tirei o poema do bolso e

o estendi com supremo cuidado para não lhe tocar a mão. Fez uma

reverência e me agradeceu até quatro vezes enquanto saía do salão e

cruzava o vestíbulo de costas até a porta principal. Aquele homem

era absolutamente ridículo.

Não obstante, depois de ver aquele espetáculo, invadiu-me a

emoção e meu coração e meu cérebro voltaram a conectar-se. Deixei

de lado o assunto da herança; pensaria nisso mais tarde. Logo

partiria de Bath e, com um pouco de sorte, perderia de vista ao

senhor Whittles! Esbocei um grande sorriso e corri escada acima.


Tinha que escrever uma carta.

***

Escrevi a Cecily para aceitar seu convite sem mencionar a

herança. Apesar do que me tinha assegurado minha avó, não

acreditava que minha irmã fosse tão indiferente ao fato de não

herdar uma fortuna. Na verdade, não me parecia bem ficar com

quarenta mil libras, enquanto minha irmã recebia um mísero dote.

Aquela situação vantajosa me fazia sentir muito incômoda.

Apesar disso, depois de refletir durante dias, cheguei à

conclusão de que já teria tempo de resolver o problema com Cecily

no futuro. Ao fim e ao cabo, a fortuna nem sequer era minha ainda e

minha avó gozava de boa saúde. Podiam transcorrer anos antes de

que o dinheiro passasse a minhas mãos. De minha parte, não

pensava dizer a ninguém, até que se convertesse em realidade.

As duas semanas seguintes transcorreram vertiginosamente

entre idas e vindas às oficinas de costura e as chapelarias. Deveria

ter desfrutado com as compras; entretanto, a mera ideia de ver-me

exposta em Edenbrooke transformava minha alegria em ansiedade.

E se envergonhasse Cecily diante de sua futura família? Poderia

lamentar ter me convidado. Por outro lado, acaso poderia me

comportar com o decoro que minha avó esperava de mim? Fiquei

preocupada com essas questões até que chegou o momento de

abandonar Bath.

Na manhã de minha partida, minha avó me estudou durante o


café da manhã.

—Está realmente branca, menina. O que é que acontece?

—Estou bem. Talvez esteja um pouco nervosa –respondi,

forçando um sorriso.

—Então será melhor que não coma nada. Parece o tipo de

pessoa que acaba indisposta durante as viagens longas.

Recordava bem minha viagem até Bath. Tinha vomitado em

três ocasiões, uma delas sobre minhas botas. Sob nenhuma hipótese,

desejava chegar a uma casa desconhecida em semelhante estado.

—Talvez tenha razão —admiti afastando meu prato. De todas

as maneiras, tampouco tinha apetite.

—Antes que parta, quero entregar algo —anunciou.

Introduziu uma mão trêmula sob o xale de renda que vestia,

tirou um relicário de ouro e o estendeu para mim. Abri-o com

cuidado e o que descobri em seu interior me fascinou. Em um dos

delicados ovaloides havia um retrato em miniatura de minha mãe.

—Oh, avó! —exclamei—. Nunca o tinha visto! Quantos anos

tinha aqui?

—Dezoito. Foi feito um pouco antes que se casasse com seu pai.

Assim, que esse era o aspecto que tinha minha mãe na minha

idade. Não me custou imaginar o revoo que devia ter causado em

Londres, pois possuía uma beleza fora do comum. Era o único

retrato que tinha dela, já que os outros seguiam pendurados nas

silenciosas paredes de meu lar, em Surrey. Coloquei a corrente no

pescoço e senti seu peso reconfortante sobre a pele. Imediatamente


meu nervosismo desapareceu e pude respirar melhor.

Um criado anunciou que a carruagem estava preparada. Pus-

me em pé e minha avó me estudou de acima a abaixo antes de me

dar sua aprovação.

—Bem, quero que recorde o que deve à família. Não faça nada

que possa me envergonhar. Lembre-se de usar um chapéu toda a

vez que saia ao exterior ou lhe sairão sardas. E uma última coisa<

—Apontou-me com um dedo enrugado e autoritário e o agitou com

uma expressão séria no semblante—. Nunca, nunca< cante em

público.

Apertei os lábios e lhe lancei um olhar furioso.

—Esse último conselho não era necessário.

Minha avó riu entre dentes.

—Não, imagino que não. Quem poderia esquecer quão

horroroso foi a última vez que o fez?

Ruborizei diante daquela lembrança. Apesar de que tivessem

transcorrido quatro anos desde meu primeiro recital público, seguia

me envergonhando cada vez que pensava nele.

Despedi-me de minha avó e de minha tia Amélia, impaciente

para me pôr a caminho, mas, ao sair da casa uma voz conhecida me

chamou por meu nome. Estremeci. De verdade, devia suportar o

senhor Whittles uma última vez?

Este se dirigia para mim a toda pressa agitando um papel sobre

a cabeça.

—Trago-lhe o poema revisado. Não partirá agora?


—Temo que sim. Adeus, senhor Whittles.

—Mas< mas meu sobrinho chegou hoje e expressou seu

interesse em conhecê-la. De fato, veio a Bath somente com esse

propósito.

Não tinha interesse algum em conhecer os parentes do senhor

Whittles. Queria abandonar aquela cidade e não voltar a ver-lhe

nunca mais.

—Sinto muito. —Fiz gestos em direção à carruagem, onde o

chofer me esperava com a porta aberta—. Não posso esperar.

Seu rosto se entristeceu e, durante um instante, seus olhos

refletiram a profunda decepção que sentia. Depois tomou minha

mão e a levou aos lábios. O beijo que depositou nela foi

acompanhado de tanta saliva que inclusive deixou uma marca sobre

a luva. Dei-lhe as costas para ocultar minha repulsa. Um chofer

desconhecido inclinou a cabeça quando subi à carruagem, onde

Betsy me aguardava com, ao menos, uma boa hora de suculentas

fofocas, disso estava segura.

—Onde está o chofer de minha avó? —interroguei-a então.

—Leva uma semana em cama com gota, por isso sua avó

contratou a este. —Fez um gesto com o queixo para a parte dianteira

da carruagem—. Chama-se James.

Senti-me aliviada ao comprovar que não seria um ancião frágil

quem conduziria a carruagem durante doze horas. Esse homem

parecia muito mais robusto e provavelmente nos levaria mais

rápido até nosso destino. Entretanto, Betsy tinha os lábios franzidos


em sinal de desaprovação.

—O que ocorre?

—Não desejo falar mal de seus parentes, senhorita Marianne,

mas sua avó não deveria ter economizado com os pormenores da

viagem. Em minha opinião, teria que ter contratado outro chofer

além deste.

Dei de ombros. Já não se podia fazer nada e desde que

chegássemos ao nosso destino sãs e salvas, não via nenhum

inconveniente. Depois de tudo, atravessaríamos a campina e não

tomaríamos nenhuma das estradas principais, onde podíamos

encontrar algum perigo.

A carruagem percorreu as ruas de Bath. Olhei pela janela para

ver a cidade pela última vez; agora que a deixava atrás, pude

admitir, a contragosto, que era um lugar belo, sobretudo pelos

numerosos edifícios construídos com a mesma pedra dourada que

se extraía das colinas próximas. As rodas da carruagem avançavam

pelas ruas pavimentadas, deixando atrás os banhistas

madrugadores que se dirigiam a provar as águas termais da cidade.

De repente, Betsy se inclinou para frente.

—Não é esse o senhor Kellet?

Em efeito, tratava-se do infame sobrinho, que passava diante do

Pump Room com sua atitude lânguida e despreocupada. A

casualidade quis que levantasse o olhar quando a carruagem

chegava a sua altura. Embora joguei para trás a cabeça

imediatamente, resultava evidente que tinha me visto, já que tirou o


chapéu e sorriu com prepotência em minha direção, como estava

acostumado a fazer ao me saudar.

Graças ao céu que não tinha vindo um dia antes, pois teria tido

que ser testemunha de sua reação ante a notícia de que minha avó

tinha decidido tirar seu nome do testamento. Tinha-me livrado por

pouco, embora nada poderia me evitar a verborreia de Betsy.

—Não sabe quanta vontade tenho de ver Edenbrooke! Ouvi

dizer que é uma casa enorme e confesso que me alegro de

abandonar Bath, porque não há uma só pessoa com quem valha a

pena conversar. Além disso, atrevo-me a dizer que, em Kent, nos

divertiremos muito.

Continuou tagarelando sem cessar, como era próprio nela,

enquanto deixávamos Bath e entrávamos na irregular paisagem

rural. Senti-me aliviada ao comprovar que o segredo de minha

herança continuava a salvo, já que, se Betsy estivesse ciente desse

assunto, não teria falado de outra coisa.

Enquanto seguia conferenciando sobre a última fofoca de que

se inteirara e das esperanças que tinha posto nesta «maravilhosa

aventura», de vez em quando olhava de esguelha para a almofada

que jazia a sua direita. Cada vez que o fazia, interrompia seu relato,

algo tão fora do comum que me fez me perguntar o que teria

escondido ali para atrair sua atenção de tal modo. Entretanto, não

dispunha da energia suficiente para perguntar-lhe, pois tinha o

estômago revolto.

Por volta do meio-dia, paramos em uma estalagem, mas não me


pareceu prudente comer algo. Na etapa seguinte de nossa viagem,

afastamo-nos da estrada principal. Meu estado não melhorou

conforme a tarde avançou. A carruagem de minha avó era velha e

seu amortecimento não era muito bom, por isso notava cada

sacudida e cada buraco do caminho.

Pela tarde, o sol desapareceu e o céu se cobriu de nuvens e

adquiriu um tom cinzento similar ao das panelas de ferro. Meu

humor mudou em consonância com o tempo e me invadiu uma

sensação de desassossego. Acariciei o relicário enquanto me dizia

que não tinha motivos para estar nervosa. Acabava de empreender

uma aventura emocionante e pouco importava como fossem os

Wyndham. Cecily estaria ali, assim não tinha com o que me

preocupar. A conversa de Betsy deu lugar a roncos tremendos

quando se entregou a um cochilo no assento a minha frente. Voltei-

me para a janela e me pus a pensar que logo veria minha irmã de

novo.

Antes do acidente que levou a minha mãe, minha vida poderia

ter sido um conto de fadas. Teria começado assim: era uma vez um

homem e uma mulher que levavam anos sonhando ter um bebê e

que, finalmente, tinham sido abençoados com duas meninas gêmeas

que eram para eles o sol e a lua.

Cecily era o sol e eu a lua. Apesar de gêmeas, não nos

parecíamos mais que duas irmãs. Logo se fez evidente que Cecily

tinha recebido mais beleza do que lhe correspondia na partilha, por

isso também era maior a atenção que recebia. De minha parte,


embora às vezes desejasse brilhar com luz própria, estava

acostumada que meu papel refletisse a luz de minha irmã. Tinha

crescido eclipsada por seu resplendor e embora minha tenuidade

não me entusiasmasse, ao menos sabia como desempenhar meu

papel e como deixar que Cecily brilhasse. Enfim, sabia qual era meu

lugar no mundo.

Entretanto, tudo que conhecia de mim mesma e de meu mundo

naufragou e mudou durante a grande derrota que seguiu à morte de

minha mãe. Cecily se mudou a Londres depois do funeral; sempre

tinha desejado viver na cidade e Edith a recebeu com os braços

abertos. Mas eu nunca teria deixado meu pai. A partida de Cecily

me pareceu muito um abandono.

Pouco depois, meu pai me anunciou, sem prévio aviso, que me

enviaria a Bath para viver com minha avó. Todos os meus protestos

foram em vão. Partiu para a França e ainda não voltara. Nossa

família tinha ficado em pedaços< Não obstante, tinha a esperança

de que esta viagem a Edenbrooke fosse uma oportunidade para

recompô-la. Estaria de novo com minha irmã e talvez entre as duas

pudéssemos persuadir meu pai para que retornasse.

Apertei o pingente que usava contra o coração e senti uma onda

de esperança. Sem dúvida, o retrato de minha mãe tinha poderes

mágicos sobre meu estado de ânimo e possivelmente também sobre

meu estômago, já que logo me senti muito melhor. Pouco depois,

também me venceu o sono, balançada pelo estalo continuado da

carruagem.
Não sei quanto tempo permaneci adormecida até que, de

repente, algo me sobressaltou. Durante um instante, senti-me

desorientada à tênue luz da noite e olhei a meu redor, tentando

averiguar o que tinha me despertado. Betsy roncava fazendo um

ruído tremendo, embora já o fazia antes que eu dormisse, por isso

essa não podia ser a causa. Então, dei-me conta de que a carruagem

se deteve. Olhei pelo guichê, pensando que talvez tivéssemos

chegado a Edenbrooke. Não vi luzes, nenhuma casa grande, nem

sequer uma simples estalagem, embora percebi que o céu limpara e

que uma brilhante lua cheia iluminava tudo.

Um disparo retumbou no silêncio da noite fazendo com que

voltasse a me sobressaltar. Um homem gritou. A carruagem deu

uma sacudida para frente e logo voltou a parar.

Betsy despertou.

—O que foi isso? —resmungou.

Colei o rosto à janela, mas o único que vi foram dois olhos que

me olhavam fixamente do outro lado do vidro. Gritei. Então a porta

da carruagem se abriu com brutalidade e uma sombra enorme

ocupou seu lugar.

—A bolsa ou a vida! —sentenciou uma voz profunda e

apagada.

Tinha ouvido falar dos bandidos e ladrões de estradas e sabia o

que tinha que fazer. Devia descer e entregar todas as joias que

levasse e o dinheiro. Entretanto, ao ouvir aquela voz ameaçadora,

meu instinto me indicou que abandonar a segurança da carruagem


não seria uma boa ideia.

Procurei, tateando, minha bolsa e a joguei para a porta.

—Aí tem. Isso é tudo o que tenho. Fique com isso e vá.

Entretanto, o homem mascarado ignorou o dinheiro e em vez

de pegar a bolsinha me agarrou pelo pescoço.

Gritei e consegui escapar, embora, ao fazê-lo, ouvi um estalo e

vi cintilar a corrente de metal entre os dedos do ladrão antes que

fechasse a mão sobre ela. Meu pingente! Meu relicário! O único

retrato de minha mãe! Joguei-me para ele, mas o descarado o

sustentou fora de meu alcance e soltou uma risada.

Então vi o que segurava na outra mão. Uma pistola.

—Agora, desça da carruagem —sussurrou.

Sua voz fez-me arrepiar e um suor frio me percorreu a coluna.

Recuei até o outro extremo do assento. Se queria que descesse, teria

que me tirar com suas próprias mãos.

Ao que parecia, o desconhecido pensou o mesmo. Agarrou-me

pelo tornozelo e o retorceu. Uma dor indescritível me subiu pela

perna e caí ao chão da cabine de barriga para baixo. O bandido me

puxou, mas me revolvi medindo o chão, procurando algo ao que me

agarrar, e me pus a gritar. Foi um grito horrível e dilacerador que

durou e durou; até que, ao fim, percebi que não era eu quem gritava,

a não ser Betsy.

Tinha me esquecido dela e, entretanto, sua voz enchia a noite

em um grito terrível e arrepiante que fez com que me acelerasse o

pulso. Parecia ter perdido a razão. De repente, dei-me conta de que


ela não sabia que o ladrão estava armado. Abri a boca para avisá-la

quando um som ensurdecedor estalou sobre minha cabeça.

O grito de terror deu lugar aos soluços, aos que se uniu um

forte juramento e os relinchos dos cavalos assustados. Tudo se

encheu de fumaça. A carruagem se balançou e a porta se fechou

sobre meu tornozelo. Deixei escapar um grito de dor e me pus de

joelhos trabalhosamente.

—Betsy! Está ferida?

Engatinhei até ela e a agarrei pelos ombros tentando ver-lhe o

rosto. Negou com a cabeça entre soluços e me estendeu algo. A luz

da lua iluminou o revólver prateado que agarrava com a mão

trêmula. Olhei-a boquiaberta, depois agarrei a arma e a deixei com

cuidado sobre o assento.

Um ruído de cascos atraiu minha atenção. Olhei pela janela e vi

como um homem se afastava a cavalo. Ao que parecia, nosso

agressor tinha fugido.

Betsy se afundou no assento. Sentei ao seu lado, inclinei-me

para frente e apoiei a cabeça na palma das mãos.

Seus soluços se transformaram em suspiros.

—Oh, não! Eu< disparei em um homem. E se o ma< matei? O

que< o que ser{ de mim?

A cabeça me dava voltas. Tentei respirar fundo, mas me afoguei

com a fumaça do disparo que ainda tomava a cabine.

—Não, tenho certeza que não o matou. Vi-o afastar-se a cavalo.

Mas como diabos arrebatou-lhe o revólver?


—Não< não o fiz —admitiu ainda soluçando—. U< utilizei o

que estava escon< escondido sob a almofada.

Ergui a cabeça ao ouvir aquilo.

—Havia uma pistola aqui dentro? Durante toda a viagem?

Como soube?

—Descobri enquanto você fala< falava com o senhor Whi<

Whittles.

Estive a ponto de rir de alívio. Betsy tinha nos salvado! Rodeei-

a com os braços até que um de seus espasmos fez com que nossas

cabeças chocassem. Ao me afastar, percebi algo.

—Espera. Onde está James? Por que não veio em nosso auxílio?

Recordei o primeiro disparo logo depois de que a carruagem

parasse. Tinha ouvido um homem gritar. Senti o coração encolher.

Voltei-me e através do vidro, vi um corpo atirado no chão. Era

James, nosso chofer.


Capítulo 3
Desci da carruagem de um salto e corri para James. Chamei seu

nome e o sacudi pelos ombros, mas não obtive resposta. Tirei meu

chapéu com presteza para apoiar meu rosto contra o dele; um débil

sopro de ar me acariciou a bochecha. Deixei-me cair ao chão,

aliviada. Estava vivo! Percorri seu corpo com as mãos a procura de

ferimentos e fiquei petrificada ao notar algo úmido em seu ombro. A

bala o tinha atingido.

—Betsy, preciso de ajuda! Rápido!

Recordava vagamente uma ocasião em que tinham disparado

por acidente no cão de meu pai durante uma caçada. Ele tirara o

lenço do pescoço e tinha feito pressão sobre a ferida, segundo havia

me dito, para estancar a hemorragia. Se tinha funcionado em um

cão, sem dúvida funcionaria em uma pessoa.

Tirei o bolero e o dobrei repetidas vezes como se fosse uma

compressa. Era o objeto de mais fácil acesso que tinha, pois não ia

tirar as anáguas nesse momento funesto. Procurei o buraco no

casaco de James, tapei-o com o bolero e ordenei a Betsy que

apertasse com força.

Logo me pus em pé e caminhei para a carruagem. Com o

alvoroço, os cavalos se assustaram e se afastaram vários metros do

lugar onde tinha caído nosso chofer. Tinha que tomar uma decisão

rapidamente. Devíamos levar o ferido até a carruagem ou a


carruagem até o ferido? Observei James em dúvida. Tinha certeza de

que eu não poderia levantar nem a metade de seu peso e Betsy era

quase tão miúda como eu. Definitivamente, a carruagem teria que ir

até ele.

Os cavalos continuavam assustados e ameaçaram rebelar-se

quando segurei as rédeas. Não foi fácil convencê-los para que se

movessem, em especial para trás, e durante um momento temi que

acabassem esmagando a James e Betsy. Naquelas circunstâncias,

levei muito tempo para posicionar a carruagem.

Estava empapada de suor e minhas mãos tremiam. Ao tentar

me apressar, tropecei em algo e caí. Arranhei as mãos no cascalho

do caminho e bati a bochecha contra o chão. Consegui me pôr em

pé, não sem dificuldade, pois as saias me atrapalhavam, e vi a

bolsinha aos meus pés. O bandido não quisera o dinheiro? Guardei-

a no vestido e voltei para a tarefa que tinha nas mãos. Chegou a

parte mais difícil: aproximar James da porta da carruagem e levá-lo

para dentro.

Eu o agarrei pelos ombros e Betsy pelos pés e entre as duas o

levamos nos braços a uma velocidade agonizantemente lenta,

centímetro a centímetro, parando frequentemente para colocá-lo no

chão e recuperar o fôlego. Quando, enfim, chegamos à porta da

carruagem, tomei consciência da altura que havia entre o degrau e o

chão e estive a ponto de chorar. Meus braços tremiam de fadiga e

ainda tínhamos que encontrar uma forma de subi-lo.

Voltei a deixá-lo no chão e olhei com uma expressão solene


para Betsy, que tinha se apoiado contra a carruagem.

—Temos que fazê-lo, Betsy. Não sei como, mas vamos fazê-lo.

Ela assentiu. Agarramos uma bota cada uma e colocamos

primeiro os pés de James para dentro, depois subimos à carruagem,

saltando por cima do corpo. Puxamos pelas pernas até que os

quadris transpassaram a soleira da porta e voltei a baixar ao chão de

um salto. Estava certa de que, se o pobre James continuava com

vida, devia sangrar profusamente com tantos empurrões e puxões.

Ergui-o, segurando-o pelos ombros e o empurrei pelas costas

enquanto Betsy o puxava pelos braços. Conseguimos colocá-lo no

carro, dobrando seu corpo pela cintura. Apressei-me a fechar a porta

antes que se desdobrasse e caísse de novo ao chão.

—Não deixe de apertar a ferida —gritei através do guichê.

—Como? Está dobrado sobre ela, cobrindo-a.

—Tente.

Subi à boleia do chofer um pouco vacilante ao perceber a altura

e empunhei as rédeas. Graças ao céu meu pai me ensinara a

conduzir uma carruagem. Mesmo assim, os cavalos pareciam

nervosos sob minha mão inexperiente.

—Espero que conheçam o caminho —murmurei aos cavalos, ao

mesmo tempo que os instigava com as rédeas.

Parecia que estávamos no meio de parte alguma, pois andamos

e andamos sem resultado algum. Meus braços e os ombros ardiam

pelo cansaço; não era fácil manter o controle de quatro cavalos

assustados.
Quando, por fim, divisei uma luz ao longe, pareceu-me a visão

mais maravilhosa que jamais presenciara. Conforme nos

aproximávamos, senti um alívio ainda maior ao descobrir os sinais

inconfundíveis de que se tratava de uma estalagem. Sobre a porta,

via-se um letreiro de madeira grosseiramente esculpida que dizia

«The Rose & Crown». Entrei no pátio e desembarquei da carruagem.

Minhas pernas tremiam.

Dirigi-me à entrada a toda pressa e a urgência da situação fez

com que abrisse a porta com mais força que a necessária. Esta bateu

contra a parede com um forte estrondo. Um cavalheiro alto que se

encontrava junto ao balcão olhou em minha direção atraído, sem

dúvida, por minha estrepitosa entrada.

Aproximei-me dele o mais rápido que minhas pernas trêmulas

me permitiram.

—Preciso de ajuda lá fora. Imediatamente!

Minhas palavras tinham soado autoritárias, inclusive

grosseiras, mas estava tão preocupada com James que não me

importou o mínimo.

O cavalheiro arqueou uma sobrancelha enquanto me estudava;

desde meu penteado desalinhado —onde teria posto o chapéu?— às

minhas botas enlameadas.

—Acredito que se confunde —soltou em tom cortante e

descarado—. O taberneiro deve andar na cozinha.

Ruborizei diante de seu olhar de desprezo, mas então meus

nervos, a flor de pele por todo o acontecido, explodiram. Como se


atrevia a me falar nesse tom? A ira oprimiu meu peito e o orgulho

me fez erguer a cabeça. Nesse momento, senti-me forte e altiva

como minha avó.

—Desculpe, acreditava que estava me dirigindo a um

cavalheiro. Já vejo que, como bem diz, cometi um engano —

respondi elevando o queixo.

Vi sua expressão de surpresa antes de me voltar para a porta

aberta que se via depois do balcão.

—Olá! Taberneiro! —Um homem fornido e calvo apareceu,

secando as mãos na camisa—. Preciso de ajuda lá fora,

imediatamente.

—Sim, é claro —respondeu enquanto me seguia para o pátio.

Abri a porta da carruagem a toda pressa e não foi preciso mais

explicações. A cena era horrível. James dobrado no chão, Betsy

totalmente pálida com o olhar cravado em nós, as manchas escuras

de sangue que cobriam a ambos< Fiquei consternada, ainda que

estivesse preparada para o que ia encontrar.

Nesse momento, dava graças ao céu porque o taberneiro era um

homem de ação e de grande estatura. Estendeu os braços, levantou

James e o levou ao interior da estalagem. Estive a ponto de chorar

quando vi a facilidade com o que levava, quando a Betsy e eu nos

custara tanto tempo e esforço.

Minha acompanhante desceu da carruagem e cambaleou.

Rodeei-lhe a cintura com o braço para ajudá-la a entrar e seguimos o

taberneiro escada acima. Pelo canto do olho, vi aquele cavalheiro


arrogante, mas fiz de conta que não.

Os degraus resultaram ser muito para meu corpo exausto e

trêmulo. O taberneiro alcançou o patamar que se abria diante de nós

e entrou em um dos quartos à esquerda. Só desejava encontrar uma

cama para Betsy e depois ir ver James. Entretanto, uma mulher de

aspecto robusto nos cortou a passagem ao chegar acima.

—A que vem tanta animação? —espetou com as mãos na

cintura—. Esta é uma estalagem respeitável, como me fizeram crer?

Não aceito assuntos estranhos de nenhum tipo.

Levantei o queixo.

—Feriram meu chofer e minha camareira está a beira de um

ataque de nervos. Seria amável de nos guiar até um quarto?

A mulher fechou a boca de repente e sua expressão mudou para

uma de surpresa. Antes de prosseguir, inclinou-se, fazendo uma

reverência.

—Desculpe, senhorita. Não sabia que< Sim, é óbvio,

acompanhe-me.

Em seguida, indicou-nos um quarto situado à direita do

patamar. Deduzi, por sua reação, que não se dera conta de que eu

era uma dama até que tinha aberto a boca, e isso me doeu.

Só depois de ajudar Betsy a sentar-se na cama, percebi quão

afetada estava. Disparar uma pistola e ter tido que sustentar um

homem ferido enquanto eu conduzia tinha sido para ela uma

comoção terrível.

—Deite-se —aconselhei.
Foi um alívio que não sentisse a necessidade de falar do

acontecido e que se limitasse a desabar sobre a cama, cobrindo o

rosto com um braço. Observei-a com preocupação até que a mulher

do taberneiro — isso deduzi ao vê-la entregue a suas tarefas—

irrompeu afanosamente no quarto com uma bacia, uma barra de

sabão e uma toalha.

—Se por acaso desejar assear-se —disse cravando o olhar em

minhas mãos. Baixei o olhar para elas. Mostravam um aspecto tão

espantoso como as de Betsy. Hesitou na soleira, antes de

continuar—: Acredito que lhe conviria comer algo quente. Desça ao

salão, vou lhe preparar alguma coisa. Assimilar este tipo de coisa é

ainda mais difícil com o estômago vazio.

Assenti com a cabeça e lhe agradeci em voz baixa, aliviada ao

ver que era útil depois de tudo.

Ao mergulhar as mãos na bacia, senti como a sujeira de minhas

feridas e arranhões desaparecia. Deixei escapar um lamento pela

ardência do sabão ao esfregar as mãos e braços até os cotovelos. A

água da bacia se tornou vermelha e me revoltou o estômago ao vê-

la. Fechei os olhos e inspirei fundo lutando contra as náuseas que

sentia.

Deixei Betsy roncando na cama —sua boca era como uma porta,

dessas que chiam quando estão mal fechadas— e cruzei o corredor

para o quarto em que tinha visto entrar o taberneiro com James.

Este jazia na cama com os olhos fechados enquanto o primeiro

lhe rasgava a camisa. Agia com destreza, limpando a ferida. Sua


expressão era impassível e serena e, embora suas mãos parecessem

ásperas por causa do trabalho, estavam limpas. Senti-me

tremendamente aliviada ao saber que James se achava nas mãos

enormes e competentes desse homem.

—O doutor chegará logo, senhorita —anunciou—. Não se

preocupe, vi feridas piores que esta. Além disso, parece que a bala

saiu porque não consigo encontra-la.

Ao ouvir suas palavras, roucas e amáveis, senti-me tão aliviada

que as pernas fraquejaram.

—Obrigada —articulei com a voz abafada pela emoção que me

embargava.

O taberneiro se voltou de repente para mim.

—Será melhor que se sente, senhorita. Não tem bom aspecto.

—Não, não, estou bem —assegurei, embora percebesse que

perdia a estabilidade e que os joelhos me falhavam.

—Vá esquentar-se junto ao fogo. Aqui, não pode fazer nada.

Assenti e, ao fazê-lo, notei como se minha cabeça flutuasse de

forma estranha, como se tivesse se desprendido. Uma poltrona junto

ao fogo soava como uma bênção, assim virei à direita ao sair do

quarto e comecei a descer as escadas sem nenhuma dificuldade.

Entretanto, no meio do caminho, minhas pernas começaram a

tremer e os joelhos me falharam. Deixei-me cair de repente sobre um

dos degraus, pois não queria rolar escada abaixo. As paredes

começaram a dar voltas a meu redor e o chão se desdobrou. Cobri os

olhos com uma mão e apoiei a outra na parede enquanto lutava por
não perder os sentidos.

De repente, uma mão me agarrou o braço com firmeza e abri os

olhos, surpresa. Era aquele homem odioso e arrogante de antes.

Encontrava-se alguns degraus abaixo de mim e me olhava com uma

expressão estranha; parecia inclusive< preocupado. O que queria?

Tentei perguntar-lhe mas as paredes voltavam a desabar sobre mim,

por isso fechei os olhos com força.

—Acredito que está a ponto de desmaiar —sussurrou.

De quem era aquela voz? Parecia-me muito agradável para

pertencer àquele homem. Neguei com a cabeça.

—Eu não desmaio –rebati, sem forças.

Nesse momento, a escuridão subiu, enquanto eu caía em sua

direção. Encontramo-nos no meio do caminho e me engoliu inteira.

Ao menos, não senti dor.


Capítulo 4
Lentamente, recuperei a consciência. Em primeiro lugar,

percebi que me achava sobre algo macio e, depois, ouvi um suave

murmúrio de vozes não muito longe. Não obstante, era incapaz de

recordar onde me encontrava. Não estava em casa, pois cheirava

diferente. Sabia que devia abrir os olhos, mas por alguma razão não

podia. Fiquei ali, deitada, escutando o murmúrio. Era muito

agradável, já que me trazia lembranças de minha infância, de

quando adormecia na carruagem de noite e ouvia meus pais falando

aos sussurros.

A carruagem!

As lembranças voltaram de repente, tão vívidas que deixei

escapar um grito abafado. Os murmúrios cessaram e notei que

alguém se inclinava sobre mim.

—Então? Está voltando a si, senhorita?

Aquela voz brusca me resultava vagamente familiar. Abri as

pálpebras fazendo um grande esforço e estudei o rosto intransigente

da mulher do taberneiro. Estava tão perto que percebia o aroma de

alho de seu fôlego e podia ver com clareza os quatro longos pelos

que lhe cresciam em um sinal que tinha na bochecha. Devolveu-me

à realidade imediatamente.

—Tinha certeza que desmaiaria e, vá, desmaiou.

Assim que me ergui, notei uma dor de cabeça atroz atrás dos
olhos. Levei uma mão à testa e olhei ao meu redor com cuidado,

tentando não mover muito a cabeça. Encontrava-me em uma espécie

de saleta. No centro, havia uma mesa disposta com comida, uma

lareira em um canto e todas as janelas estavam cobertas com

cortinas.

A mulher me rodeou os braços com suas mãos fornidas e me

ajudou a me pôr em pé antes de me guiar até a mesa.

—Sente-se—ordenou.

Obedeci, encantada em poder descansar as minhas pernas

fracas.

—Necessita algo mais, senhor? —perguntou, olhando atrás de

mim.

Voltei a cabeça imediatamente e me arrependi de fazê-lo no

mesmo instante, pois tudo começou a dar voltas e o martelar se

intensificou. Levei ambas as mãos à testa, enquanto aquele homem

odioso dizia à mulher algo que não consegui ouvir. Ela saiu da

saleta, sem olhar para trás e fechou a porta com firmeza atrás de si.

Aquele cavalheiro<

Não, não era nenhum cavalheiro, pois não havia nada

cavalheiresco nele. Não era mais que um homem.

Aquele homem não a seguiu, mas sim se aproximou da mesa

para que eu não tivesse que voltar a cabeça. Olhei-o pelo canto dos

olhos. Observava-me fixamente e era muito desconcertante. Não

podia imaginar qual devia ser meu aspecto depois de viajar durante

todo o dia, cair ao chão, carregar com um homem ferido e desmaiar.


Fiz uma careta ao pensar nisso.

O desconhecido se aproximou um pouco mais.

—Está ferida?

Estudei-o antes de responder. Parecia seriamente preocupado, o

que me surpreendeu.

—Não.

Minha voz soou um pouco rouca, pois tinha a garganta seca.

Tomei o copo que tinha diante de mim e bebi com a esperança de

que também desembotasse minha mente. Pensei que talvez me

fizesse bem comer algo e decidi que ignoraria aquele homem odioso

para que partisse.

Mas meu plano não funcionou.

Era tão obtuso que, em vez disso, dirigiu-se à cadeira que havia

em frente a mim.

—Importa-se se me uno a você?

Oxalá tivesse podido pensar com clareza. Onde estava meu

engenho quando o necessitava? Não tinha forma alguma de me

negar com educação e estava muito cansada para pensar em uma

réplica engenhosa, assim que me limitei a assentir. Ele se dirigiu à

porta e a abriu antes de sentar-se em frente a mim. Imediatamente,

senti-me mais tranquila, embora nem sequer tinha sido consciente

do quanto me incomodava me achar a sós com um estranho com a

porta fechada. À medida que fui comendo, o martelar em minha

cabeça deu passagem a um ligeiro tamborilar e, mais tarde, ao suave

zumbido de uma dor de cabeça normal e suportável.


O homem não comeu nada. Limitou-se a ficar ali sentado e a

beber algo de vez em quando enquanto me observava como se fosse

cair da cadeira a qualquer momento. Seguia decidida a ignorá-lo,

embora me vi lançando olhares rápidos ao seu rosto para estudá-lo.

Com a comoção, não tinha percebido seus traços até esse momento.

Agora que o via com clareza, consternou-me comprovar quão belo

era. Tinha o cabelo castanho e ondulado e uma mandíbula

proeminente. Estava me perguntando de que cor seriam seus olhos

quando vi meus desejos satisfeitos, pois levantou o olhar de repente.

Oh, azuis! «Que rosto bonito», pensei. Então me dei conta de

que tinha me surpreendido olhando-o e baixei o olhar

imediatamente. Ruborizei. Era muito arrumado e isso piorava as

coisas. Meus sentidos tinham revivido com a comida e logo senti

com total intensidade o embaraçoso de minha situação.

Entretanto, o ressentimento ressurgiu ao relembrar seu

desprezo e a forma como tinha me tratado, ao entrar pela primeira

vez na estalagem. Sem dúvida, devia pensar que eu era uma pessoa

comum, que estava muito abaixo dele. O fato de que eu tivesse o

aspecto de uma leiteira desalinhada não conseguiu suavizar minha

antipatia. E, por outro lado, que permanecesse ali em silêncio

tampouco ajudava. Claro, devia pensar que estava jantando com

uma pessoa vulgar. Como conversaria comigo! Muito arrogante!

Parecia-me odioso. O ressentimento e a vergonha se transformaram

em fúria dentro de mim.

Ergui o olhar e o olhei por debaixo das pestanas. Se o que


esperava era uma plebeia, era o que teria. O mais provável é que

carecesse de engenho, como ocorria à maioria das pessoas ricas.

Resultaria muito simples.

—Obrigado pelo jantar, senhor —disse recatadamente imitando

o sotaque de Betsy.

Por um momento, pareceu surpreso.

—De nada. —Havia voltado a adquirir uma expressão contida,

embora em seus olhos brilhavam em confusão—. Espero que seja de

seu agrado.

—Ah, claro! Em casa, nunca comemos coisas tão deliciosas.

Ele se reclinou em seu assento.

—E onde fica sua casa? —perguntou com uma voz profunda,

harmoniosa e muito agradável.

Tentei não pensar em meu lar.

—Cresci em uma pequena granja ao norte do condado de

Wiltshire, mas agora me dirijo a casa de minha tia, que me ensinará

a ser uma boa camareira. É muito melhor que ordenhar vacas.

Olhei em sua direção por cima do copo enquanto tomava outro

gole. Pareceu-me que seus lábios se crispavam, mas não estava

segura.

—Então< é você uma leiteira?

—Sim, senhor.

—Quantas vacas tem? —perguntou com um ar pícaro no olhar.

Observei-o atentamente.

—Quatro.
Estava fascinada com aquele olhar.

—Como se chamam?

—Quem?

Sua pergunta me pegou despreparada.

—As vacas —respondeu sem alterar-se—. Estou certo de que

terão um nome.

As pessoas punham nome em suas vacas? Não tinha nem ideia.

—Pois claro que têm nome.

—E qual é?

Vislumbrei um brilho inconfundível em seus olhos azuis e

nesse mesmo instante compreendi, para minha surpresa, que estava

me seguindo no jogo. Quando me olhou de novo, seu rosto voltava

a ser imperturbável, embora seus olhos parecessem muito inocentes.

Definitivamente, estava me seguindo o jogo. Pois bem, ele não sabia

o bem como me agradava jogar.

—Bessie, Daisy, Ginger e Annabelle —respondi com serenidade

enquanto o desafiava com o olhar.

Uma expressão de satisfação se refletiu em seu rosto.

—E quando as ordenha, canta-lhes, verdade?

—Claro.

Inclinou-se sobre a mesa para mim e me olhou diretamente nos

olhos.

—Eu adoraria escutar o que lhes canta.

Fiquei sem respiração. Atrevido! Descarado! Hesitei uns

instantes, não estava segura de poder seguir com a farsa. Mas, então,
vi a expressão de suficiência que se refletia em seu rosto. Acreditava

que tinha ganho! Aquilo me animou a continuar.

Sem ser muito consciente do que fazia, comecei a bater na mesa

com uma mão enquanto cantava em voz baixa:

—Vaquinhas< —Pum—. De vocês farei bife. —Pum. Ele pôs os

olhos como pratos—. Se não me derem leite< —Pum—. Doce e

quente. —Pum—.

Parei em seco e apertei os lábios ao me dar conta do que

acabava de cantar. Percebi o quão ridícula tinha resultado a letra e

soube que não poderia continuar sem rir. Olhamo-nos fixamente. Ao

que parecia, a partida estava empatada. Seus olhos brilhavam

risonhos e os lábios tremiam. Meu queixo também vibrava e me

escapou uma gargalhada imprópria de uma dama.

Ele inclinou a cabeça para trás e estalou em profusas

gargalhadas. Era a risada mais contagiosa que jamais ouvira. Uni-

me a ele de forma espontânea e ri até que minha garganta doeu e as

lágrimas rolaram por minhas bochechas. Quando, por fim, cessou a

risada, sentia-me tremendamente aliviada. Enxuguei-me o rosto

com um lenço.

—«De vocês farei bife»? —riu entre dentes.

—Estava improvisando —defendi-me.

Sacudiu a cabeça e depois me olhou com admiração.

—Foi< fant{stico.

—Obrigada —respondi com um sorriso sincero.

Devolveu-me o sorriso durante um momento e de repente se


inclinou para mim por cima da mesa.

—Amigos?

Sua proposta me pegou de surpresa. Por acaso queria ser sua

amiga? Olhava-me com olhos faiscantes, quentes e risonhos.

—Sim.

—Então, como seu amigo, devo lhe pedir desculpas por meu

comportamento de antes. Comportei-me de maneira muito

grosseira, foi algo imperdoável e me sinto muito envergonhado.

Rogo-lhe que me desculpe.

Sua sinceridade resultava patente em cada uma das linhas de

seu rosto, em cada uma de suas palavras. Nunca imaginei que meu

comentário pudesse afetá-lo tanto. Senti-me arrependida no ato.

—É óbvio que o perdoo, embora somente se você desculpar

minha grosseria. Não deveria ter insinuado que você não era < —

Odiava ter que repetir minhas palavras, pois me dava conta agora

de quão insultantes tinham sido. Clareei a garganta com o olhar fixo

no prato—. Que você não era um cavalheiro —acrescentei em um

sussurro.

—Ah, mas foi apenas uma insinuação?

Ergui o olhar e o encarei. Tinha uma sobrancelha levantada e

parecia divertir-se.

—Sinto lástima pela pessoa que você insultar —concluiu.

Fiz uma careta e olhei para o outro lado, envergonhada.

Parecia-me muito com minha avó.

—Entretanto, você fez bem em me repreender, mereci. Como


bom cavalheiro, deveria ter ido em sua ajuda, sem importar o que

necessitasse. Em minha defesa, devo esclarecer que minha falta de

educação não teve nada que ver com você, mas foi o resultado de

outras circunstâncias difíceis ocorridas durante a tarde. Por

desgraça, seu pedido foi a gota. Mas isso não constitui nenhuma

desculpa e lamento ter contribuído para aumentar sua angústia

desta noite.

Sua presunção tinha desaparecido. Somente um homem forte

poderia admitir tudo aquilo. Senti sua humildade e isso me

comoveu.

—Obrigada —murmurei. Não sabia que outra coisa dizer.

Tinha me desarmado.

—E deveria saber —continuou reclinando-se na cadeira— que

por muito entretida que fosse sua farsa, ninguém nunca acreditaria

que você era uma leiteira.

—Tão limitados são meus dotes interpretativos? —perguntei à

defensiva.

—Não estava me referindo a seus dotes interpretativos.

Um sorriso se perfilou em seu rosto. Tentei decifrar o que

queria dizer, embora não tive êxito. A curiosidade me venceu e me

obrigou a perguntar o que deveria ter ignorado.

—Então, a que se referia?

—Deveria sabê-lo.

—Pois não sei.

Incomodou-me sobremaneira que se negasse a explicar-se.


—Muito bem. —Com a mesma voz indiferente e calma com a

qual teria criticado uma obra de arte, expôs—: Começando pela

cabeça, sua testa está marcada com inteligência, seu olhar é direto,

seus traços delicados, sua pele é pálida, sua voz refinada e sua

forma de falar deixa ver a educação que recebeu< —Fez uma

pausa—. Até a posição de sua cabeça é elegante.

De repente, senti-me terrivelmente tímida. Baixei o olhar,

ruborizada.

—Ah, sim —sussurrou—. E logo está sua modéstia. Nenhuma

leiteira ruborizaria desse modo.

Para maior humilhação, senti como ruborizava ainda mais. As

orelhas começaram a formigar pelo fogo que sentia no rosto.

—Continuo? —perguntou com uma nota risonha na voz.

—Não, já é suficiente, obrigada.

Minha avó teria tido uma síncope se tivesse me visto nesse

momento. A palavra «inepta» não servia sequer para começar a

descrever o modo como me sentia.

—Então, posso lhe fazer algumas perguntas? —perguntou de

forma tão educada que não pude mais que assentir.

Ficou em pé, rodeou a mesa e se situou atrás de mim para tirar

a cadeira quando me levantasse.

—Acredito que estará mais cômoda junto ao fogo —observou

enquanto assinalava duas poltronas orientadas para a lareira.

«Vá, que considerado.»

O fogo crepitou, dando boas-vindas quando nos sentamos


frente a ele. Foi uma grata surpresa comprovar quão macia e

cômoda que era a poltrona e me afundei nela, consciente de repente

do quão cansada e dolorida que me sentia. Ele ficou olhando o fogo

e aproveitei a proximidade para lhe examinar mais detidamente. A

luz do fogo iluminava seus delicados traços, seu nariz reto, suas

bochechas lisas, o cacho de cabelo que lhe caía brandamente sobre a

testa. De perfil, como estava nesse momento, parecia mais jovem;

entretanto, aquela impressão se dissipava ao olhá-lo de frente. A

firmeza ao redor de sua boca e a confiança em seu olhar eram

próprias de um homem que conhece seu lugar no mundo, as de um

homem com autoridade.

—Agora que estamos de acordo em que você não é nenhuma

leiteira, importaria em me dizer quem é? —perguntou o cavalheiro.

Enfim, supus que podia lhe conceder esse título enquanto

continuasse comportando-se assim. Seu sorriso era tão afável e tão

digno de confiança que não hesitei em lhe responder.

—Senhorita Marianne Daventry.

Ficou paralisado e me observou com os olhos entrecerrados.

Senti-me intimidada por seu escrutínio.

—O que acontece? Tenho pior aspecto à luz?

Esboçou um sorriso.

—Não, justamente o contrário. É um prazer conhecê-la,

senhorita Daventry.

Voltou-se de novo para o fogo sem acrescentar nada mais.

Fiquei esperando que se apresentasse.


—Pensa me dizer seu nome? —perguntei, enfim.

Ficou pensativo.

—Não, preferiria não fazê-lo —respondeu com educação.


Capítulo 5
Deixou-me desconcertada.

—Oh< —Não soube como responder.

—E diga-me, o que a traz a esta região?

Incomodou-me pensar que aquele homem estava de novo em

vantagem.

—Não acredito que deva lhe dizer.

Ele deixou escapar um suspiro.

—Pensava que tínhamos concordado ser amigos.

—Sim, mas isso foi antes de saber que se negaria a me dar seu

nome. Dificilmente posso ser amiga de alguém sem nome.

Olhava-me como se tudo o que eu dissesse resultasse muito,

mas muito, divertido.

—Muito bem. Já que é minha amiga, chame-me de Philip.

—Não posso chamá-lo por seu primeiro nome. —Minha voz se

tingiu de consternação.

—Seria mais fácil se eu a chamasse Marianne?

—Não se atreveria.

—Pois claro que sim, Marianne.

Seus olhos brilhavam com picardia e voltei a ruborizar.

—Seu comportamento é indecoroso.

Soltou uma risadinha.

—Em geral, não. Só esta noite —corrigiu-me.


Dava-me conta de que continuava lhe olhando nos olhos, de

um azul mais escuro do que me tinha parecido em princípio; assim

como que era muito ainda mais arrumado quando sorria, como

nesse momento. Era muito embaraçoso, pois não podia esquecer

minha desastrosa aparência. Afastei o olhar, envergonhada ao

pensar em qual devia ser meu aspecto.

—Para que saiba —tentando mostrar uma dignidade que não

sentia—, fui convidada a passar uma temporada na casa de uma

amiga de minha mãe.

—E por que a convidaram?

Sua voz parecia indiferente, embora seu olhar traísse seu

interesse. Perguntei-me por que quereria sabê-lo, embora tenha me

parecido uma pergunta inofensiva.

—Lady Caroline convidou primeiro a minha irmã e foi muito

gentil ao ampliar o convite e incluir a mim também.

A carta de lady Caroline confirmando o convite tinha chegado

apenas alguns dias depois que a de Cecily.

—E o que aconteceu com seu chofer? —perguntou depois de

um momento de silêncio.

De repente, lembrei-me de James, prostrado no andar de cima,

talvez inclusive às portas da morte. Enquanto eu participava

daquele joguinho estúpido, rindo a gargalhadas e pensando nos

olhos daquele homem. Mas o que se passava comigo? Por acaso, era

uma insensível?

—Assaltaram-nos no caminho, um bandido, e o baleou —


respondi, tentando não lembrar dos detalhes mais duros do

incidente.

—Um bandido? Nesta estrada? Está completamente segura? —

perguntou com o cenho franzido.

—Se os bandidos costumam andar com o rosto tapado, a

vociferar «A bolsa ou a vida!» e a arrancar pela força os pingentes

das damas, então sim, estou bastante segura.

O horror do ocorrido estava começando a ganhar e de repente

me senti muito emocionada para continuar falando.

—Machucou-a?

A emoção que tentava conter me arranhou a garganta, desatada

pela gentileza de suas palavras. Uma lágrima deslizou por minha

bochecha sem prévio aviso e a sequei com a mão.

—Não. Tentou me arrastar para fora da carruagem, mas minha

camareira lhe disparou e fugiu. Embora já tivesse baleado meu

chofer. —Levei uma mão à testa. Recordava a sensação de sua mão

ao redor de meu tornozelo e a aguda chicotada que tinha sentido no

pescoço quando me arrancara o relicário com a foto de minha mãe—

. Sinto-me abalada. Sequer havia tornado a pensar em James.

Poderia estar morrendo aí acima e tudo por minha culpa.

Escapou-me uma lágrima e logo duas mais, até que as deixei

fluir livremente.

—Não seria sua culpa, e não acredito que seu chofer morra por

causa da ferida. Vi-a. Está situada na parte superior do ombro e a

bala não alcançou nenhum órgão vital. Além disso, está em mãos de
um ótimo médico.

Assenti com a cabeça, aliviada por suas palavras, e tentei deixar

de chorar. Se minha avó tivesse sido testemunha daquele

comportamento, é provável que tivesse me repudiado. Mesmo

assim, era incapaz de controlar minhas lágrimas, como antes tinha

sido incapaz de controlar minha risada. Philip me ofereceu um lenço

limpo, aceitei-o sem me atrever a olhá-lo. Aquela situação era tão

imprópria de mim e tão sufocante.

—Desculpe-me. —Sequei um rastro de lágrimas da bochecha—.

Não costumo ser tão emotiva, asseguro-lhe.

Devia pensar que eu era uma dessas criaturas frágeis que

desmaiava somente ao ver sangue e chorava em busca de consolo.

—Estou certo que não.

Era tão educado que cada vez me sentia pior pelo primeiro

julgamento que tinha emitido sobre seu caráter.

Quando, ao fim, tive de novo minhas emoções sob controle,

voltei-me para ele.

—Acredita que poderia esquecer tudo isto?

—Por que me pergunta isso? —interrogou-me com um pequeno

sorriso em seus lábios.

—Estou muito envergonhada por meu comportamento desta

noite —confessei.

Seus olhos brilharam, risonhos.

—Que comportamento?

—Por onde começar? Insultei-o, desmaiei, fingi ser uma simples


leiteira, cantei uma canção ridícula e chorei, mas, sobretudo, estou

bastante segura< —Ao baixar a cabeça vi as manchas vermelhas de

sangre seco que cobriam minhas mangas e a parte dianteira do

vestido—. Não, estou convencida de que meu aspecto é

imperdoável.

Philip se pôs a rir. Pensei que estava rindo de mim, mas então

se voltou e se inclinou sobre o braço da poltrona para me olhar

diretamente aos olhos.

—Não acredito ter conhecido a nenhuma dama como você,

senhorita Marianne Daventry, e lamentaria muitíssimo esquecer um

só detalhe de esta noite.

Fiquei sem fôlego e o rubor se estendeu por meu rosto até as

orelhas. Soube nesse instante, no mais profundo de meu ser, que eu

não era rival para aquele homem, nem com meus joguinhos, nem

com minha confiança, nem com meu engenho. Reclinei-me na

poltrona para me afastar daqueles olhos provocantes e daqueles

lábios sorridentes. Queria sair correndo dali e, com sorte, não voltar

a vê-lo nunca mais.

—O que pensa fazer agora? —perguntou antes que pudesse

levar a cabo meu plano.

De repente, fiquei aflita pelo peso do dilema em que me achava.

—Suponho que deveria procurar alguém que se ocupasse de

James e uma forma de chegar até Edenbrooke. Ah! Também deveria

avisar a lady Caroline que me atrasarei. —Deixei escapar um

suspiro—. Embora o único que deseje é dormir e tentar esquecer o


dia de hoje.

—Por que não deixa que eu me ocupe de tudo?

Olhei-o muito séria.

—Não posso permiti-lo, senhor.

—Por quê?

—É demais. Apenas o conheço. Não posso abusar de sua

amabilidade.

—Não é demais e não estaria abusando. Como pensa

encarregar-se de tudo sozinha? Não deve saber nem onde está,

equivoco-me?

Neguei com a cabeça.

—Deixe-me ajudá-la —pediu de modo persuasivo.

—Posso me ocupar de tudo —insisti.

Não queria que pensasse que era fraca ou inepta. Ao fim e ao

cabo, era a herdeira de minha avó e me parecia mais com ela do que

queria reconhecer.

—Pelo que vi de você esta noite, não tenho dúvida alguma de

que se arranjaria. Mesmo assim, Marianne, eu gostaria de lhe ser de

alguma utilidade.

—Por quê? —perguntei, realmente confusa.

—Não é isso o que fazem os cavalheiros? Resgatar donzelas em

apuros?

Tinha usado um tom de voz despreocupado, embora seu olhar

fosse muito sério.

—Mas eu não sou nenhuma donzela em apuros —rebati entre


risadas.

—Ainda assim, eu sigo tentando demonstrar que sou um

cavalheiro —insistiu.

Por fim, entendi sua insistência. Era motivada pelo que havia

lhe dito antes, embora não devesse ter tomado meu insulto tão a

sério.

—Não tem que me provar nada.

Levantou o olhar para o céu e deixou escapar um suspiro.

—Sempre é tão obstinada?

Pensei nisso um momento.

—Sim, acredito que sim.

Sua expressão hesitou entre a exasperação e a diversão. Foi esta

última a que ganhou e, muito a seu pesar, Philip se pôs-se a rir.

—Rendo-me. Nunca dirá o que espero que diga. Entretanto,

estou de acordo com seu plano. Deveria dormir um pouco e ocupar-

se de tudo pela manhã. Tudo seguirá aí, esperando-a.

Suas palavras pareciam muito razoáveis e foi um alívio pensar

que podia adiar meus afazeres até ter descansado um pouco.

—É provável que tenha razão. Acredito que seguirei seu

conselho.

—Bem —assentiu com um sorriso—. Poderá subir sozinha as

escadas?

—É óbvio. —Aquilo me fez lembrar<—. Há um momento,

desmaiei na escada, verdade?

Assentiu com a cabeça.


—E o que aconteceu, então?

—Eu a tomei nos braços e a trouxe até aqui —respondeu com

olhos risonhos.

—Ah.

Não sabia o que pensar. Sentia-me envergonhada, embora

também estranhamente satisfeita. Olhei-o disfarçadamente e me

fixei em como o casaco realçava seus ombros e seus braços. Sim,

parecia bastante forte para me levar nos braços<, pode que

inclusive com bastante facilidade. Senti o calor subir ao rosto, ao

pensar nisso.

—Enfim, obrigada.

—Foi um prazer —murmurou de novo com um sorriso.

Decidi fingir que não o tinha ouvido.

—Acredito que poderei subir as escadas por meus próprios pés.

Não requererei mais seus serviços por esta noite.

Não pareceu convencido.

—Então, fique em pé.

Ao tentá-lo, percebi que o esgotamento tinha me ancorado à

poltrona.

—O que suspeitava.

Ficou em pé, tomou-me a mão e puxou-me para me ajudar.

Quando apoiou sua mão sobre a minha senti uma pontada de

dor. Fiquei sem fôlego e estremeci. A preocupação dominou seu

rosto, e sem hesitar, virou minha mão. Minhas feridas tinham um

aspecto pior à luz do fogo de que tinham no quarto. Tinha as palmas


das mãos cobertas de arranhões e feridas que me ardiam muito, e a

pele tinha levantado em alguns lugares.

—Pensei que havia dito que não a tinha machucado —espetou

com rudeza.

Quando seu olhar cruzou com o meu, senti o coração tombar.

Parecia zangado e inclusive perigoso; e ainda mais atraente, se fosse

possível.

—E assim foi. Estas feridas são por causa das rédeas. Não estou

acostumada a conduzir uma carruagem puxada por quatro cavalos e

os pobres estavam assustados. Além disso, caí quando tentava

ajudar James, e pesava tanto< —interrompi-me ao ver o olhar de

assombro em seu rosto.

—Carregou seu chofer nos braços?

—Bom, sim, com a ajuda de minha camareira.

Olhava-me como se não pudesse acreditar no que via.

—Eu o vi. É mais que o dobro de seu tamanho. E também vi sua

camareira. Parece quase impossível.

—Tínhamos que fazê-lo —limitei a acrescentar, dando de

ombros—. Não podia deixá-lo atirado em meio do nada.

Contemplou-me durante um bom momento. Reparei, de

repente, que o fogo me proporcionava muito calor e que estava

muito perto de um cavalheiro extremamente bonito, que continuava

segurando minha mão. Philip baixou o olhar.

—Foi muito corajosa —murmurou, acariciando com suavidade

a palma da mão com um dedo.


Foi uma carícia tão suave que não me causou nenhuma dor,

mas enviou uma cálida sensação por minha mão que subiu pelo

braço e foi direto até meu coração. Nunca antes havia sentido nada

semelhante e me deixou totalmente desconcertada.

Soltei-me e tentei entender o que acabava de acontecer, mas

estava começando a sentir uma espécie de névoa na cabeça devido

ao esgotamento e não conseguia encontrar sentido para minha

reação. Talvez, estivesse começando a ter febre, ou inclusive a

delirar.

—Deve estar exausta —apontou Philip como se pudesse ler

meu pensamento—. Venha.

Tomou-me o braço e me dirigiu para a porta aberta.

Queria dizer que podia subir as escadas sozinha, mas já não

tinha certeza de ser capaz. Ao menos, não essa noite. Philip não me

soltou até que chegamos ao andar de cima.

—Boa noite, Marianne —disse, fazendo uma reverência.

Sorri ao ouvir meu nome em seus lábios. Por algum motivo,

tinha deixado de parecer estranho.

—Boa noite. E obrigada por tudo.

Tinha a sensação de que devia acrescentar algo mais, mas não

conseguia saber o que. O único em que podia pensar era em ir para

a cama. Dirigi-me à porta do quarto em que Betsy seguia roncando e

apoiei a mão no trinco.

—Feche o quarto com chave antes de dormir —aconselhou, em

um sussurro.
Um calafrio de alarme me percorreu o corpo, como um aviso do

grave perigo que tinha corrido não fazia muito. Um calafrio que

reviveu meus pensamentos e me ajudou a compreender o que era o

que devia lhe dizer. Voltei-me imediatamente para lhe perguntar se

voltaria a vê-lo.

Mas já se fora.
Capítulo 6
Ao acordar, continuava me sentindo cansada. Betsy não tinha

deixado de mover-se toda a noite e estava convencida de que ao

menos alguns de meus hematomas eram obra dela. Devia ter

despertado antes que eu, pois não estava no quarto. Estive tentada a

me deixar cair de novo sobre o travesseiro e dormir um pouco mais;

entretanto, havia assuntos dos quais apenas eu poderia me ocupar e

não devia adiá-los por mais tempo.

Pisquei para proteger meus olhos do sol da manhã, espreguicei-

me e sentei na cama, entre gemidos. Doía-me todo o corpo. A porta

se abriu sem fazer ruído e Betsy entrou nas pontas dos pés; embora,

ao comprovar que estava acordada, fechou-a e se deixou cair

rapidamente a meu lado.

—Senhorita Marianne —soluçou se chocando contra meu

ombro dolorido. Fiz uma careta de dor—. Lamento tanto ter ficado

adormecida antes que você, mas atirar naquele homem foi algo

espantoso e confesso que acredito que o acertei, embora não estou

totalmente segura porque estava tão escuro<

Deteve-se para tomar ar e aproveitei para interrompê-la antes

de que voltasse a falar.

—Não, Betsy, por favor, não se desculpe por nada. Agora, se for

tão amável de me ajudar a me vestir, tenho que ir ver James.

—Oh, é óbvio, senhorita, embora não tenha que se preocupar


com ele. Uma mulher chegou esta manhã cedo e disse que devia

cuidar do doente. Tomou o mando do quarto como se fosse dela.

—Uma enfermeira? —Passei o vestido pela cabeça—. Mas< de

onde saiu? Ainda não tive a oportunidade de falar com ninguém.

Enviou-a o doutor?

—Ai, não. Ele estava ali quando chegou e parecia tão surpreso

como os outros.

Acabei de me vestir o mais rápido que pude, ignorando meus

doloridos músculos e cruzei o patamar para o quarto onde tinha

deixado James. A porta estava aberta e uma mulher miúda e roliça

estava inclinada sobre a cama. Voltou-se ao ouvir meus passos e se

apressou para a porta.

—Ah, você deve ser a jovem da qual me falou —disse em voz

baixa—. Ora, muito jovem para ocupar-se deste tipo de coisa. Já vejo

que ele tinha razão, sim, toda a razão. Agora já não tem que se

preocupar com nada. Tenho tudo sob controle.

Olhei-a, surpreendida.

—Obrigado, agradeço muito que tenha vindo< —Fiz uma

pausa, esperando por seu nome.

—Oh, desculpe-me, esqueci minhas maneiras. Sou a senhora

Nutley.

Fez uma reverência, segurando a saia com suas mãos pequenas

e limpas. Suas bochechas redondas e rosadas tremeram um pouco

com o gesto. Levava seu cabelo castanho recolhido em um coque

imaculado. Eu gostei muito.


—Estou encantada de conhecê-la e muito agradecida de contar

com sua ajuda. Mas me permita que lhe faça uma pergunta. Quem a

contratou?

A mulher apertou a boca em forma de coração e juntou as

mãos.

—Não, não, não posso dizer-lhe. Prometi que não o faria. E não

siga perguntando, querida, pois não gostaria nada ter que ser

descortês, mas devo manter minha promessa.

Joguei-me para trás, surpreendida.

—Bem, então< —Não encontrava as palavras. Dei uma olhada

por cima de seu ombro e vi James na cama, pálido, com os olhos

fechados—. Como está o paciente?

A senhora Nutley me rodeou com o braço e me guiou para a

porta.

—Encontra-se bem, mas agora está descasando. Vá abaixo e,

por favor, não se preocupe com nada, tenho tudo sob controle.

Poderá despedir-se dele mais tarde —respondeu com um sorriso.

Suas bochechas rosadas pareciam duas maçãs sob seus olhos

alegres.

Não ficou nenhuma dúvida de que James estaria bem sob seu

cuidado. Entretanto, conforme descia as escadas, meu

aborrecimento por não saber quem tinha contratado seus serviços

aumentavam. Como quando Philip se negou a me dizer seu

sobrenome, na noite anterior< Algo seguia me incomodando, agora

que pensava nisso.


Encontrei o taberneiro no bar e pedi que me servisse o café da

manhã no salão.

—Sabe como se chama o homem que jantou comigo ontem à

noite? —perguntei, tentando soar indiferente.

Imediatamente, adotou uma expressão cautelosa.

—Não sei a quem se refere, senhorita.

Mas, antes de que pudesse acrescentar algo mais, retirou-se a

toda pressa à cozinha. Fiquei olhando na direção em que tinha

desaparecido, confusa por sua reação. Ao que parecia, o mistério

continuaria um pouco mais.

Dirigi-me à saleta. Estava esplendidamente iluminada pelos

raios do sol. O centro da mesa estava adornado por um vaso com

flores silvestres recém-cortadas e, apoiada contra o vaso, havia uma

carta escrita com uma caligrafia firme e elegante. Ia dirigida à

«senhorita Marianne Daventry». Tomei a carta, virei-a e examinei o

selo de cera vermelha que se encontrava na parte posterior. Era um

brasão, embora não o reconhecesse. Rompi o selo e desdobrei a

carta.

Querida Marianne:

Contratei os serviços de uma enfermeira respeitável

para que se ocupe de seu chofer durante sua recuperação. Uma

carruagem chegará a meio-dia para levar você e sua camareira até

seu destino e aquele em que chegou será conduzido de volta a

Bath. Também tomei a liberdade de enviar recado a Edenbrooke


informando de sua chegada iminente. Confio em não ter

esquecido nada.

Seu fiel servidor,

Philip

Fiquei olhando a carta, desconcertada. Não podia

ser! Tinha recusado sua ajuda e, mesmo assim, ele tinha

arrumado as coisas ao seu jeito. Não tinha certeza de como

tudo aquilo me fazia sentir. Tomar tantos incômodos para

me ajudar era muito amável da parte dele, devia admitir;

entretanto, aquela despedida<

«Seu fiel servidor.»

Não me custava imaginá-lo rindo enquanto a escrevia.

Ainda estava confusa quando a mulher do taberneiro entrou

com meu café da manhã. Ergui o olhar da carta.

—Sabe o nome do cavalheiro que se alojou aqui ontem à noite?

Lançou-me um olhar estranho.

—Ontem à noite não se alojou aqui nenhum cavalheiro.

A que vinha aquilo? Levantei a carta como prova de que não

tinha imaginado isso.

—Um cavalheiro jantou comigo. Trouxe-me até aqui quando

desmaiei.

—Não passou a noite, senhorita. —Deixou os pratos sobre a

mesa com um forte estrépito—. Partiu perto da meia-noite.


Que estranho. Por que teria partido tão tarde? Por que não

tinha passado a noite na estalagem e prosseguido sua viagem pela

manhã?

A mulher do taberneiro se voltou para a porta.

—Espere. Sabe o nome dele?

—Não acredito que possa dar-lhe senhorita, e não penso

suportar nenhum interrogatório depois da noite, e também a manhã,

que passei.

Dedicou-me um olhar com o qual parecia me desafiar a discutir

com ela e abandonou rapidamente a estadia. Observei com os olhos

arregalados o lugar por onde tinha desaparecido. Aquela era a

estalagem mais estranha em que já estivera.

Voltei a ler a carta enquanto tomava o café da manhã. Sentia-me

mais irritada com Philip a cada minuto. Convenci Betsy para que

caminhasse comigo para passar o tempo e depois me sentei um

momento junto ao leito de James, até que a senhora Nutley me jogou

dali. Ao final, alguém bateu à porta da saleta. Era o taberneiro.

Conforme me disse, o chofer que devia me recolher havia chegado e

me esperava no bar.

—A seu serviço, senhorita. —tirou o chapéu logo ao me ver.

—Obrigado. Mas antes de ir a qualquer parte, devo lhe

perguntar quem o contratou.

Estava decidida a surrupiar de alguém a identidade de Philip e

ele era minha última esperança.

Negou com a cabeça.


—Sinto muito, senhorita.

Fulminei-o com o olhar.

—Não irá me dizer que não pode revelar a identidade dessa

pessoa?

—Assim é, senhorita.

Soltei um suspiro.

—Muito bem. Se negar-se a me dizer isso, eu me negarei a ir

com você.

Fui consciente de quão infantis tinham soado minhas palavras,

embora não me importasse. Aquilo era o cúmulo. Philip tinha

conseguido que todo mundo contribuísse a perpetuar o mistério e

me convertera no objeto de seu joguinho. Podia imaginar todos

rindo de mim às minhas costas.

O chofer limpou a garganta.

—Advertiram-me que podia me dar essa resposta e recebi

ordens de colocá-la à força na carruagem, se fosse o caso.

Soltei um grito afogado.

—Ele não se atreveria.

—Sim, fez —corrigiu-me, deixando entrever um sorriso.

Minha frustração se converteu em ira. Philip, homem

insensível, impertinente e odioso! Com que direito se imiscuía desse

modo em meus assuntos? Dei meia volta e tentei subir as escadas

sem sapatear. Enquanto Betsy acabava de empacotar nossas coisas,

fui me despedir de James, que me assegurou que se alegrava de

poder permanecer onde estava no momento.


O último que restava fazer era saldar nossa conta com o

taberneiro.

—Não, senhorita, não posso aceitá-lo —recusou, quando me

aproximei com o dinheiro na mão—. Pagaram-me generosamente

por sua estadia, assim como por qualquer coisa que seu chofer possa

necessitar.

Estava furiosa.

—Vejo que o cavalheiro que esteve aqui ontem à noite pensou

em tudo.

O taberneiro levantou meu baú e me ofereceu um grande

sorriso.

—Sim, assim foi.

Subi à carruagem com Betsy, enquanto balbuciava contra

Philip. Conforme nos afastávamos, alegrei-me de deixar para trás

aquela estranha estalagem e a todos os que tinha conhecido ali. De

fato, desejei não voltar a vê-los nunca mais, sobretudo Philip.

Embora, se voltávamos a coincidir, pensava lhe dar uma boa

reprimenda.

Segui obcecada durante alguns quilômetros mais, mas resolvi

não deixar que aquele homem arruinasse o resto da viagem. Minha

irmã me esperava, tinha por diante uns meses fantásticos e queria

esquecer todo o acontecido no dia anterior. Assim, inspirei fundo,

deixei de lado minha frustração, e me concentrei nas mudanças da

paisagem.

Essa carruagem era muito mais cômoda que a de minha avó e


não me senti nem a metade de indisposta que no dia anterior. Betsy

passou uma boa parte da viagem imaginando como seria

Edenbrooke e os Wyndham. Eu sorria com benevolência, escutando

só pela metade seu falatório. Por sorte, sua conversa raramente

requeria resposta.

Às vezes, perguntava-me como seria ter uma camareira calada,

que soubesse qual era seu lugar e não me incomodasse com seu

incessante falatório. Mas não imaginava despedir Betsy. Quando

meu pai decidiu me enviar a Bath, minha avó insistiu que devia me

acompanhar uma camareira e a escolhida foi ela, a filha de um dos

agricultores que meu pai tinha como arrendatário. Tinha sido um

grande consolo para mim contar com alguém de minha casa,

inclusive quando frequentemente algo me incomodava.

Conforme foi avançando a tarde, Betsy ficou sem assunto e meu

dolorido corpo começou a protestar contra os buracos do caminho.

Quando finalmente abandonamos a estrada principal e entramos em

um longo atalho que passava no meio de um bosque, inclinei-me

para frente, desejando ver nosso destino. Entretanto, as árvores não

nos permitiram ver nada até que alcançamos o topo de uma

pequena colina.

—Detenha-se, por favor! —gritei ao chofer.

Saltei da carruagem e fiquei olhando boquiaberta para o que

estava convencida que era Edenbrooke.

Tratava-se de um solar imenso, majestoso e perfeitamente

simétrico, de pedra cor nata, rodeado de formosos jardins muito


bem cuidados. A extensão de grama estava salpicada aqui e lá por

árvores gigantes, o sol banhava tudo e o resultado era de um verde

tão brilhante que tive que entrecerrar os olhos para poder

contemplá-lo. Um rio atravessava a propriedade por trás da casa e

vislumbrei uma formosa ponte de pedra em forma de arco sobre a

água. Mais à frente, as terras de cultivo se estendiam em leque como

se fosse a cauda de um pavão. Os campos, estruturados

meticulosamente com cercas e cercados, chegavam até onde

alcançava o olhar.

—Oh!

Ouvi Betsy suspirar encantada e depois se fez silêncio. Somente

algo de grande beleza poderia emudecê-la. Sorri de acordo com ela.

Edenbrooke era tudo o que alguém podia desejar em uma

propriedade.

—É realmente majestosa —conveio o chofer—. As melhores

terras do condado.

Pensei em meu lar em Surrey. Era um lugar muito mais

modesto, com só dois andares e dezoito quartos. Meu pai possuía

umas quantas centenas de acres de terra onde trabalhavam os

arrendatários, embora seus terrenos parecessem mínimos em

comparação com o esplendor de Edenbrooke. Certamente, era

necessária uma mão competente para administrar tudo aquilo. A

opinião sobre meu anfitrião melhorou grandemente. Sem dúvida,

Cecily fazia uma grande escolha. Era um privilégio poder alojar-se

ali tanto tempo quanto desejasse.


Voltei a subir à carruagem, ainda mais impaciente por chegar

que antes. Conforme fomos descendo a colina e nos aproximando de

Edenbrooke, foi crescendo em mim a sensação de voltar para casa

depois de passar uma longa temporada fora. Não tinha nenhum

sentido, pois aquele lugar tão elegante não guardava nenhuma

similitude com meu verdadeiro lar. Mesmo assim, sentia que já

amava cada fibra de grama, cada árvore, cada fruto e cada roseira

silvestre.

Sacudi a cabeça, tentando clarear as ideias. Não havia dúvida

de que seguia emocionada pelos horríveis acontecimentos da noite

anterior. Estava perdendo a razão por causa do cansaço e

imaginando aquela sensação de retorno ao lar.

A grande porta principal se abriu assim que o chofer percorreu

a última curva do atalho e se deteve em frente a ela. Um lacaio saiu

da casa, abriu a porta da carruagem e me ofereceu uma mão

enluvada para me ajudar a descer. Ainda não tinha posto os pés no

chão quando uma voz de mulher me deu as boas-vindas. Ergui o

olhar esperando ver a loira juba de Cecily e seus brilhantes olhos

azuis. Entretanto, a mulher que se aproximava de mim com as mãos

estendidas não podia ser outra que lady Caroline. Era uma mulher

alta e esbelta, seu cabelo castanho tinha começado a encanecer e nas

comissuras de seus olhos se formaram rugas quando sorriu.

—Deveria tê-la convidado há muito tempo —lamentou—. Sou

incapaz de expressar como feliz me sinto que esteja aqui. Posso

chamá-la de Marianne?
—Sss< sim, é óbvio —gaguejei, surpresa por sua familiaridade.

Não obstante, minha mãe e ela tinham sido boas amigas

durante a maior parte de sua vida, quase como irmãs. Em sua carta,

percebi não só um convite para casa, mas também para sua família,

e a ideia me agradou muito.

—Estive tão preocupada com sua segurança desde que me

inteirei do contratempo que tinha sofrido. Não podia acreditar! —

Rodeou-me os ombros com o braço e me conduziu para a porta—.

Um bandido nesta região? Nunca na minha vida ouvi coisa igual.

Parecia que Philip tinha escrito em sua carta algo mais que

minha suposta hora de chegada. Pareceu-me a oportunidade

perfeita para perguntar por sua identidade, mas então caí na conta

de que resultaria muito estranho admitir que tinha jantado a sós

com um homem de quem sequer sabia como se chamava. Vacilei,

temendo que lady Caroline não me tivesse em tão boa consideração

se descobrisse, e perdi a oportunidade, pois entramos na magnífica

casa.

Assim que pus um pé dentro, tive que me deter para poder

admirar o que tinha diante de mim. O vestíbulo alcançava uma

altura de três andares, era luminoso e amplo, repleto de janelas que

deixavam entrar a luz que incidia obliquamente sobre o chão de

mármore branco. Inclinei a cabeça para trás para abranger os

quadros que subiam até o teto. Frente a grande escadaria,

alinhavam-se o mordomo, a governanta e alguns lacaios.

Engoli saliva. Sentia-me muito pequena e inexperiente no meio


do esplendor daquela casa.

Lady Caroline me conduziu escada acima para um quarto

situado no segundo andar. Estava decorado em tons azuis e contava

com uma grande cama, uma escrivaninha junto à janela e uma

poltrona repleta de almofadas em frente à lareira. Da janela, tinha-se

uma vista fantástica do rio e da ponte que tinha visto da carruagem.

O quarto era ao mesmo tempo elegante e acolhedor e senti desejos

de chamar aquele lugar de lar.

De repente, lembrei de quem realmente planejava converter

aquele lugar em seu lar.

—Deveria ter perguntado antes —comecei—, mas onde está

Cecily?

—Oh, Cecily? —Lady Caroline se dirigiu para a janela e

arrumou as dobras das cortinas antes de me responder—. Ficou em

Londres. —voltou-se para mim esboçando um sorriso—. Espero que

não se importe em ficar aqui sem ela uma semana.

—Uma semana? —Esperava não ter soado descortês, mas

aquela mudança tinha me surpreendido—. Desculpe, possivelmente

entendi mal o convite. Pensava que viria de Londres com você.

—Bom, sim, esse era o plano. Mas decidi me adiantar para

dispor tudo para sua visita e deixar Cecily e Louisa com meu filho

William e sua esposa, Rachel, que vivem em Londres. Veja, elas

queriam ir a um baile de máscaras e não pude suportar a ideia de

lhes negar a diversão. Será apenas uma semana mais e nos dará a

oportunidade de nos conhecer melhor antes que cheguem os outros.


—Oh. —Que estranho era estar ali uma semana antes que

Cecily—. Espero não ser um incômodo.

—Pois claro que não. Estamos encantados de tê-la aqui.

Parecia sincera, mas eu ainda me sentia um pouco inibida pelas

circunstâncias. Tudo seria muito mais fácil se tivesse Cecily a meu

lado.

—Minha irmã e seu marido também estão conosco, pois estão

reformando sua casa, por isso, não será a única convidada —

acrescentou.

Aquela notícia fez com que relaxasse um pouco. Depois de

assegurar-se de que tudo estava em ordem no quarto, lady Caroline

sugeriu que descansasse um pouco e me convidou a me reunir com

eles no salão antes do jantar, que seria dentro de uma hora. Depois

saiu do quarto.

Não obstante, não acreditei que fosse possível descansar muito.

Betsy estava desfazendo a bagagem e tagarelando sobre o quão

bonito e grandioso era tudo. Eu só lhe dava atenção pela metade,

pois estava concentrada tentando ver tudo que pudesse da janela de

meu quarto. Sentia-me tão atraída pelos jardins! E, para falar a

verdade, meia hora me bastava para me trocar para o jantar. Em

seguida, tomei a decisão.

—Vou dar uma volta pelos jardins. Não demorarei —disse a

Betsy enquanto saía a toda pressa.

Ouvi-a me chamar, mas não lhe dei atenção e desci correndo as

escadas. Não tinha tempo de procurar uma porta que desse à parte
traseira do jardim, assim saí sem fazer ruído pela porta principal e

rodeei a casa. Estava decidida a ver o rio e aquela formosa ponte.

Resultou estar mais longe do que tinha acreditado, mas o

esforço valeu a pena. As águas cristalinas corriam sobre um leito

rochoso e inclusive vi alguns peixes nadando tranquilamente. Girei

em direção à ponte, feita de pedra e suportada por uns grandes

arcos de estilo grego. Suspirei ao passar a mão sobre as velhas

pedras. Naquele lugar até as pontes eram bonitas.

Voltei-me para olhar a casa, tentando calcular quanto tinha

caminhado. Provavelmente uns dez minutos, o que significava que

ficavam ainda outros dez para explorar. Ao cruzar a ponte, meus

passos retumbaram sobre a pedra. A paisagem ao outro lado era

mais selvagem, não estava tão limpa, nem tão perfeita, e eu gostava

disso.

Oh, quanta saudades tinha tido da vida no campo! Passeei pela

beira sem me afastar muito, pois sabia que logo teria que voltar.

Recordei que teria muito tempo —todo um verão— para passear e

desfrutar daquele paraíso, pois isso foi o que me pareceu: um

paraíso. Depois de levar mais de um ano em uma cidade coberta de

paralelepípedos, sentia-me como um pássaro que acaba de escapar

de sua gaiola e é livre, enfim, para voltar ao campo.

Deixando-me levar pelo entusiasmo, fechei os olhos, joguei

para trás a cabeça e me pus a dar giros com os braços estendidos.

Queria assimilar tudo com cada um de meus sentidos. Era tão

magnífico! Tão precioso! E estava tão< cheio de barro!


Abri os olhos no mesmo instante em que escorreguei. Lancei

um grito ao bater contra o chão e o impulso que tinha tomado fez

que descesse rolando pelo aterro e caísse com estrépito na água

gelada.
Capítulo 7
Quando consegui tirar a cabeça da água, pus-me a tossir e a

amaldiçoar de uma forma nada elegante. Alarmei-me ao me dar

conta de que me estava afastando da casa a toda velocidade.

Embora o rio não fosse muito profundo, minha luta por ficar de pé

era em vão. Entre as pedras escorregadias que cobriam o leito e a

força da corrente, fracassei em minhas tentativas.

Divisei mais abaixo um grande salgueiro chorão cujos ramos

caíam sobre a água. Reteve minha atenção um que parecia mais

resistente que os demais. Quando a corrente me arrastou ao seu

lado, agarrei-o e bati as pernas freneticamente até que consegui

chegar à margem.

Subi engatinhando pela margem e me estendi de barriga para

cima sobre a grama para recuperar o fôlego. Ao me pôr em pé, dei-

me conta de que tinha o vestido manchado de barro e ensopado,

além de que entre as rendas, haviam grudado fibras de grama e

folhas. Ergui as mãos e toquei o penteado: não havia um cabelo em

seu lugar e até tirei uma folha dos cabelos. Oh, não! Agora teria que

encontrar um modo de estar apresentável para o jantar e era certo

que já estava muito tempo fora. Teria que me apressar se quisesse

estar de volta a tempo. E se alguém me visse?

Afastei o cabelo do rosto e me dirigi à ponte tão rápido como


me permitiram a saia empapada e as botas impregnadas. Por quê?

Oh, por que tive que sair para ver o jardim? Por que me pus a girar

por aí? Esse era o tipo de comportamento que minha avó censurava

e o motivo pelo qua queria que mudasse. Ao fim e ao cabo, qual rica

herdeira sai a passear para cair em um rio e acabar feito um

despropósito?

Estava chegando à ponte de pedra quando ouvi ruído de cascos

as minhas costas. Voltei-me imediatamente e vi um homem a cavalo

que vinha direto para mim. Não queria que minha primeira

impressão em Edenbrooke se visse empanada porque alguém me

surpreendesse empapada e com o vestido sujo de barro, assim que

escapuli para a lateral da ponte e me agachei entre a vasta vegetação

que crescia junto ao rio para me esconder.

Esperei, tensa, enquanto o ruído se fazia mais próximo. Ia

acompanhado de um assobio. Movida pela curiosidade, levantei o

olhar no preciso instante em que o cavalo alcançava a ponte e fiquei

tão surpresa pelo que vi que me joguei para trás e perdi o equilíbrio.

Sacudi os braços tentando evitar a queda, embora por desgraça não

serviu de muito. Enquanto caía na água pela segunda vez, deixei

escapar um grito.

Saí à superfície rapidamente e vi como o cavalo entrava

salpicando na água e seu cavaleiro me estendia a mão.

—Agarre-se a mim —pronunciou a voz que menos desejava

ouvir.

Neguei-me a elevar o olhar.


—Não, obrigada —recusei tentando com desespero me pôr em

pé.

—Não, obrigada? —repetiu a voz entre desconcertada e

divertida.

Cheguei até a outra margem do rio, meio caminhando, meio

nadando. Dessa vez, tive muito mais êxito para sair da água,

embora, sem dúvida, a motivação era maior. Pus-me em pé com

dificuldade.

—Sou perfeitamente capaz< —comecei a dizer.

Nesse momento, pisei na saia empapada e acabei caindo de

bruços no barro. Voltei a me pôr em pé de um salto.

—Perfeitamente capaz, asseguro, senhor, de caminhar por meus

próprios pés.

O demonstrei me afastando do rio tão depressa como foi

possível. Ouvi o cavalo sair da água e vir atrás de mim. Segui

olhando para o outro lado, tentando ignorar o homem que me

seguia e rezando para que não tivesse podido ver bem meu rosto.

Ouvi o fru-fru do couro quando desmontou e notei como se

colocava a meu lado.

—Posso lhe perguntar o que fazia escondida junto ao rio,

Marianne?

Oh, não! Tinha-me reconhecido! Voltei a cabeça para ele. Philip,

se era esse seu verdadeiro nome, estava ainda mais bonito que a

noite anterior, pois o sol fazia com que seu cabelo brilhasse e me

olhava com olhos risonhos. E ali estava eu, coberta de barro, com o
cabelo cheio de folhas e completamente encharcada. Aquilo era o

cúmulo. Nenhuma jovem deveria ver-se submetida a semelhante

humilhação.

Ergui o queixo, fingindo dignidade.

—Estava me escondendo para que ninguém me visse molhada

e coberta de barro.

—Já estava molhada e coberta de barro antes de cair no rio? —

perguntou arqueando uma sobrancelha.

Limpei a garganta.

—Caí duas vezes.

Philip apertou os lábios e olhou ao longe, como se tentasse

recuperar a compostura. Quando voltou a me olhar, seus olhos

refletiam a imensa vontade de rir que sentia.

—E posso lhe perguntar como é que acabou no rio a primeira

vez?

Ruborizei ao me dar conta de quão tola, infantil e pouco

elegante que tinha sido. Embora, bom, ele já sabia tudo isso de mim

por meu comportamento na estalagem. Cantar aquela canção! Por-

me a rir e depois a chorar! E, agora, cair no rio! Nunca antes tinha

sido tão consciente de meus defeitos como nesse momento.

—Estava< bem< dando giros —admiti.

Seus lábios vibraram.

—Não posso imaginá-lo. Terá que me ensinar como se faz isso.

Fulminei-o com o olhar.

—Nem pensar. Supunha-se que não devia ver-me ninguém. Só


o fiz porque< —Fiz um gesto da mão, não sabia como continuar.

Philip deixou de caminhar e deteve o cavalo. Voltei-me para

encará-lo e me precavi de que estava esperando uma explicação de

verdade. Suspirei, dando-me por vencida.

—Simplesmente me pareceu tudo tão lindo —confessei em um

sussurro. Fiz um gesto englobando a paisagem que tínhamos

adiante—. Acredito que a paisagem me enfeitiçou, na verdade.

Estava tão concentrada no que via, no feliz que me sentia de estar

aqui, com toda esta beleza ao meu redor, que me pus a girar e perdi

o equilíbrio. —Mantive a cabeça alta e lhe desafiei com o olhar para

que risse de mim—. Suponho que lhe parecerá divertido.

Para minha surpresa, não caiu na risada. A diversão que tinha

visto antes em seus olhos suavizou e se transformou em algo mais

agradável.

—Absolutamente. —Negou com a cabeça—. De fato, estava

pensando que compartilho sua opinião.

A ternura em seu olhar me fez corar e me vi obrigada a afastar

o olhar. A suave brisa me provocou um calafrio e Philip se apressou

a tirar o casaco e o pôs sobre meus ombros. Segurei-o pela lapela e

tentei não pensar no aspecto que devia ter coberta de barro e

ensopada dos pés à cabeça. Devia levar o vestido colado ao corpo,

mas, por sorte, os olhos de Philip não se afastaram de meu rosto. Era

óbvio que seu comportamento era muito mais cavalheiresco do que

tinha suposto em um princípio.

Ouvi um discreto pigarro a minhas costas e voltei-me. Era o


chofer que havia me trazido para Edenbrooke.

—Quer que me encarregue dele, senhor? —perguntou

assinalando para o cavalo de Philip.

—Sim, obrigado.

Philip lhe entregou as rédeas e o homem levou o cavalo para os

edifícios situados na ala norte da casa. Deviam ser os estábulos.

Então percebi, muito tarde, de que Philip estava ali, em Edenbrooke,

e de que o chofer parecia conhecê-lo. De repente, vi tudo claro. Foi

como se as distintas peças do quebra-cabeças encaixassem em seu

lugar e ressurgissem a frustração e a raiva que tinha sentido durante

a manhã na estalagem.

—Vive aqui —espetei. Soou como uma acusação.

—Não se zangue comigo.

Luzia um olhar terno e um sorriso lisonjeador.

—Por que deveria me zangar? —perguntei, sorrindo com

doçura.

Olhou-me surpreso.

—Foi mais fácil do que acreditava.

—Não, estou lhe fazendo uma pergunta. Por que ofensa em

concreto está me pedindo que não me zangue? Por me ocultar sua

identidade? —Fulminei-o com o olhar—. Por me enganar para que

confiasse em você? Ou, possivelmente, pelas manobras que

empregou para me trazer até aqui enganada, fazendo com que seus

criados me manipulassem para que viesse segundo suas condições?

Philip se inclinou para mim e sussurrou no meu ouvido.


—Sua ira impressionaria mais se fosse acompanhada de um

sapateio. Talvez devesse tentá-lo na próxima vez.

Soltei um gritinho de indignação e me separei dele. Philip

sorriu com picardia.

Tirei o casaco e o devolvi de más maneiras, depois dei meia

volta e me dirigi para a casa dando pernadas, decidida a deixar para

trás aquele homem e sua expressão zombadora tão rápido quanto

pudesse. Dar rédea solta a minha ira não tinha ajudado a mitigá-la;

esta seguia correndo por minhas veias, golpeando minha mente com

cada pulsar de meu acelerado coração. Era um arrogante,

presunçoso e mentiroso!

Betsy soltou um grito quando me viu entrar pela porta de meu

quarto.

—O que lhe aconteceu?

—Caí no rio.

Betsy abriu a boca.

—Por favor, não diga nada. —Não queria lhe contar o abafadiço

de minha última aventura.

Começou a me tirar folhas e galhos do cabelo enquanto eu

tentava desabotoar o vestido, uma tarefa muito mais difícil ao estar

molhada.

—Oh, é impossível! —exclamou—. Há muito barro. Terei que

lavá-lo.

—Talvez devesse avisar de que descerei tarde para jantar —

resmunguei frustrada.
Betsy saiu correndo do quarto e continuei tentando desabotoar

o vestido. Oxalá tivesse podido culpar Philip de todo meu mau

humor, embora a verdade é que estava igualmente frustrada e

furiosa comigo mesma. Se meu comportamento não tivesse sido tão

impulsivo e infantil, isto nunca teria acontecido.

Ao voltar, Betsy me disse que o cozinheiro já tinha sido

notificado que atrasasse meia hora o jantar. Sem dúvida, aquilo

devia ser obra de Philip. Agora teria que considerá-lo uma pessoa

amável e não gostava nada de pensar algo positivo sobre ele.

Repassei seu mistério na estalagem enquanto Betsy me lavava o

cabelo e me penteava. Por que teria se esforçado tanto por me

esconder sua identidade? Devia saber que descobriria muito em

breve.

—Betsy, por acaso sabe como se chamam os filhos de lady

Caroline?

Era tão boa inteirando-se de tudo.

—Charles, Philip, William e Louisa —recitou de um puxão.

—Nessa ordem?

Assentiu com a cabeça.

O que suspeitava. Philip era o irmão menor de sir Charles, com

quem Cecily pretendia se casar. Mas por que tentou tanto manter

sua identidade em segredo? Não me ocorria nenhuma resposta

convincente.

Quando entrei no salão com o cabelo ainda molhado, mas

perfeitamente recolhido, lady Caroline apresentou sua irmã, a


senhora Clumpett. Tinha um ar refinado e um rosto agradável,

coroado por uma boca que tendia a curvar-se para cima, como se

sempre estivesse sorrindo.

O senhor Clumpett era alto e magro. Encontrava-se de pé junto

à lareira, marcando com um dedo o lugar onde ficou na leitura do

livro que segurava. Fez uma reverência e me expressou quão

encantado estava de me conhecer, embora enquanto falava foram

escapando olhadas furtivas para o livro.

—Animais selvagens da Índia —esclareceu ao me surpreender

olhando o exemplar—. Está versada no tema?

Neguei com a cabeça.

—Pode lê-lo quando eu o acabar. É simplesmente fascinante.

A porta se abriu atrás de mim, mas não precisei olhar para

saber quem era, já que uma tensão repentina invadiu o ambiente.

—Por fim —exclamou lady Caroline.

Voltei-me e ali estava Philip com seu olhar risonho.

—Acredito que vocês dois já se conhecem —mediu sua mãe.

Philip se inclinou ante mim.

—Senhorita Daventry. Confio que tenha tido uma viagem

agradável.

Estava se referindo a minha breve viagem rio abaixo? Era

provável, a julgar por seu sorriso. Percebi que usava um casaco

diferente, o que me recordou que continuava zangada com ele.

Entretanto, queria causar boa impressão, por isso respondi com

amabilidade e fazendo uma reverência.


—Sim, obrigada.

Antes de me ver obrigada a pensar em algo mais a dizer, o

mordomo anunciou o jantar. Philip me ofereceu o braço e não tive

outra escolha que aceitá-lo, embora nem por isso tinha que desfrutá-

lo. De fato, resultou-me impossível, já que sua proximidade,

mesclada com minha irritação, faziam-me sentir violenta e rígida.

—Tente respirar fundo —sugeriu em um sussurro quando

cruzávamos o vestíbulo em direção à sala de jantar, seguidos por

sua mãe.

Ergui o olhar surpreendida.

—Ajudará a relaxar —acrescentou.

Sorria como se pudesse ler todos meus pensamentos e os

encontrasse muito divertidos.

Que homem odioso! Sabia que estava incômoda e ainda por

cima o usava para zombar de mim. Fulminei-o com o olhar antes de

voltar a cabeça para o outro lado e me afastar dele quanto podia sem

me soltar de seu braço. Acompanhou-me até a cadeira situada à

direita da cabeceira da mesa, o lugar de honra. É óbvio, ele presidiu

a mesa. Estava decidido a me fazer a vida impossível. Pois bem, não

pensava falar com ele somente porque estava sentado ao meu lado.

Durante o jantar, lady Caroline conduziu a conversa e me fez

perguntas sobre o estado de saúde de meu pai ou minha opinião

sobre Bath. Fiz todo o possível para não fazer caso de Philip e pouco

a pouco fui me acalmando graças à gentileza de lady Caroline e o

amável sorriso da senhora Clumpett, que estava sentada em frente a


mim. Em realidade, esta última não tinha sorrido em nenhum

momento, mas sim se tinha limitado a me observar com sua boca

curvada. Não obstante, o efeito era o mesmo.

O senhor Clumpett me perguntou se conhecia as aves típicas de

Bath e então se sumiu em uma longa dissertação sobre suas aves

preferidas e seu habitat. A senhora Clumpett fez um comentário

sobre as aves da Índia —era evidente que já tinha lido o livro de seu

marido— e antes de me dar conta, iniciaram uma alegre discussão

sobre a perdiz asiática. Sua conversa me causava tal diversão que

olhei a Philip sem querer, com um sorriso.

Foi como se tivesse estado esperando todo esse tempo que o

olhasse, pois se inclinou para mim imediatamente.

—Não vai me perdoar? —perguntou em um sussurro,

aproveitando o ruído que faziam os lacaios ao retirar os pratos.

Sabia que me estava pedindo que o perdoasse por esconder sua

identidade na estalagem, mas, então, meu aborrecimento já tinha

sido substituído pela curiosidade.

—Seria mais fácil perdoar se soubesse por que o fez —respondi

depois de pensar durante uns instantes.

Ele negou com a cabeça.

—Não posso dizer-lhe.

—Não pode, ou não pensa me dizer? —perguntei, encarando-o

com os olhos entrecerrados.

—Ambas as coisas —me respondeu com um sorriso.

Queria bater o pé, sobretudo quando me sorria daquela


maneira, mas meu orgulho exigia uma satisfação em troca, por

pequena que fosse.

—Então me responda isto: esteve brincando comigo só por

diversão?

—Não, não estive brincando com você. E não, não foi por

diversão.

Não obstante, havia um brilho em seus olhos que contradizia

suas palavras. Arqueei uma sobrancelha com ceticismo. Os lábios

dele tremiam como se tentasse conter um sorriso.

—Isso não significa que não resultasse divertido, embora não

fosse essa minha intenção.

Relembrei o que tinha passado. Tinha-lhe cantado aquela

canção ridícula, tinha caído no rio, duas vezes!, e extraordinária

figura devia ter apresentado antes, caída no barro e me negando a

aceitar sua ajuda. As bochechas me ardiam com uma confusão

renovada. Não era de estranhar que parecesse a ponto de rir. Oh,

quão ferido tinha o orgulho.

—Alegra-me comprovar que sou capaz de lhe proporcionar

semelhante entretenimento —acrescentei infligindo a minha voz um

tom sarcástico.

Seus olhos se iluminaram do mesmo modo que na estalagem ao

iniciar minha particular brincadeira.

—Sério? —perguntou aproximando-se um pouco mais—. Nesse

caso, direi a minha mãe que tem a intenção de nos entreter a todos

depois com uma canção.


Soltei um grito abafado.

—Não se atreveria!

Esboçou um enorme sorriso antes de voltar-se para lady

Caroline.

—Mãe, descobri que a senhorita Daventry é uma cantora

excelente. Deve convencê-la para que atue para nós depois do jantar.

Lady Caroline me obsequiou com um sorriso.

—Oh, é óbvio, nós adoraríamos ouvi-la cantar.

Apertei o garfo que tinha na mão com todas minhas forças

enquanto o medo ia se apoderando de mim.

—Eu não< não sou uma cantora consumada. De fato,

raramente canto diante de outros.

—Faça uma exceção —interveio Philip.

A senhora Clumpett também expressou sua opinião.

—Eu adoraria ouvi-la cantar, senhorita Daventry. Eu a

acompanharei, se desejar.

Estava apanhada. O medo fez com que a lucidez me

abandonasse.

—Muito bem.

Lady Caroline se voltou para dizer algo à senhora Clumpett.

Deixei o garfo sobre a mesa e comecei a urdir minha vingança

contra Philip. O primeiro que faria seria lhe dizer o que realmente

pensava sobre sua pessoa. Mas quando me voltei para ele,

preparada para lhe lançar minha bravata mordaz a respeito de suas

horríveis maneiras, piscou um olho. Surpreendeu-me tanto que as


palavras se esfumaram em meus lábios. A ousadia desse homem

superava tudo que tinha visto. Estava totalmente perdida. O único

que podia fazer era aceitar minha derrota com a maior elegância

possível.

—Excelente jogada, senhor —murmurei.

—Obrigado —respondeu então com um sorriso de satisfação.

Tinha perdido o apetite. A ideia de ter que cantar diante de

todos os pressentes o tinha afugentado. Fiquei olhando o prato

tentando apaziguar as borboletas que, de repente, revoavam pelo

estômago. Uma coisa era cantar uma cançãozinha improvisada

diante de Philip, que era consciente de que se tratava de uma

brincadeira, e outra muito distinta aquela situação. Isso não era

nenhuma brincadeira. Estava a ponto de me humilhar diante de

toda aquela amável gente e não podia fazer nada para evitá-lo.

Existia um bom motivo para que minha avó me tinha advertido que

não cantasse em público.

Senti o coração acelerar ao pensar no que me esperava e o

pânico se apoderou de mim. Levantei a taça, mas a mão tremia

muito para levá-la até os lábios sem derramar seu conteúdo. Voltei a

deixá-la sobre a mesa. Era o que faltava derramar a bebida sobre o

vestido.

—O que lhe ocorre? —perguntou-me Philip em voz baixa, com

preocupação.

—Nada —menti.

Fixei o olhar no prato, tentando respirar lentamente ou, ao


menos, com normalidade. Não surtiu efeito.

Philip seguia me observando. Por sorte, ninguém mais me

prestava atenção.

—Não consegue mentir. O que ocorre?

Tinha o rosto ardendo e tinha feito um nó no estômago. Estava

piorando. Tinha que dizer-lhe.

—Não sei cantar —sussurrei.

—Sim, sabe —me contradisse, surpreso.

Neguei com a cabeça.

—Marianne, agrada-me tanto ouvir que você tem aptidões para

a música —começou lady Caroline dirigindo-se a mim—. Sabe?

Philip e Louisa também compartilham seu dom. Acredito que nos

esperam muitas noites agradáveis agora que contamos com sua

presença. Possivelmente Philip e você possam cantar em um dueto!

O medo me venceu e recorri a Philip com uma chamada

silenciosa. Seus lábios se crisparam e começaram a tremer, logo

chegaram os ombros. Fulminei-o com o olhar quando abandonou a

competição, recostou-se na cadeira e riu a gargalhadas. Detestava-

lhe!

—Qual é a piada? —perguntou a senhora Clumpett.

—Temo que assustamos a senhorita Daventry. É provável que

fuja esta noite e não retorne jamais —explicou Philip com voz

trêmula.

Lady Caroline franziu o cenho consternada.

—Philip, explique-se.
Surpreendeu-me quão severa podia soar sua voz.

—Não quer cantar para nós, mãe. Minha proposta carecia de

seu consentimento —esclareceu rindo entredentes.

A senhora Clumpett soltou um grito abafado. O senhor

Clumpett levou uma mão à boca para ocultar um sorriso e fixou o

olhar no prato. Lady Caroline parecia horrorizada.

—Philip, dá-me a impressão de que é um anfitrião espantoso.

Colocou nossa convidada em uma situação incômoda, enganou-nos

para que tomássemos parte em seu joguinho e depois zombou de

seu mal-estar! E em sua primeira noite aqui! —Olhou-o zangada—.

Estou muito decepcionada.

Meu medo se converteu em gratidão depois daquela

reprimenda. No mínimo, Philip tinha a decência de parecer

aborrecido e inclusive ruborizou um pouco.

Lady Caroline dirigiu sua atenção para mim.

—Possivelmente pense, devido ao comportamento de meu

filho, que não sabemos como tratar os convidados. Por favor, creia

quando digo que as ações de Philip não refletem os valores de nossa

família.

Olhei de esguelha a seu filho e vi que tinha a mandíbula

apertada e as bochechas rubras. Que humilhação receber semelhante

reprimenda diante de um convidado. A semente da compaixão

germinou em meu interior.

—Lady Caroline, temo que houve um mal-entendido. Eu sabia

que se tratava de uma brincadeira. De fato, é provável que seja a


responsável pelo que acaba de passar. —Voltei-me para Philip, que

me observava absorto—. Eu comecei este jogo na estalagem ontem à

noite e se trata tão somente de sua continuação. Assim se está

zangada pelo comportamento de seu filho como anfitrião, também

deveria estar por meu comportamento como convidada. Lamento

ter semeado a discórdia entre ambos.

Lady Caroline escutou minha intervenção com a surpresa

estampada no rosto.

—Bom, se você não se considera ofendida, eu tampouco ficarei

zangada. —Sua voz havia tornado a adquirir sua doçura habitual.

Seu olhar passou de mim a Philip com uma expressão de patente

curiosidade—. Ao que parece, entendem-se à perfeição e irá melhor

sem minha intromissão. Lamento tê-lo advertido, filho.

—Mãe, não se desculpe nunca por me advertir. Tenho certeza

de que sentiria falta disso, se alguma vez deixasse de fazê-lo —

respondeu com um sorriso carinhoso nos lábios.

Ela se pôs-se a rir e suspirei aliviada. Não teria que cantar, lady

Caroline não estava zangada, Philip não se sentia humilhado e

voltava a reinar um ambiente leve. Serviram a sobremesa e ele

aproveitou a distração para dirigir-se a mim com um olhar cálido de

agradecimento.

—Merecia essa reprimenda e sabe. Deveria ter saboreado o

momento em vez de intervir em meu favor. —Observou-me com os

olhos entrecerrados como se fosse um quebra-cabeças que não

conseguia resolver—. Por que o fez?


Encolhi os ombros, incapaz de dar uma resposta.

—Merecesse ou não, não suportava vê-lo perturbado.

Encarou-me em silêncio durante um momento antes de se

aproximar um pouco mais.

—Já vejo que não só tenho em você uma forte oponente, mas

também uma esperta aliada.

Nesse momento, estabeleceu-se algo entre nós, algo que outros

não perceberam e que se cimentou sobre nosso silêncio e nossos

sorrisos. Um pacto, parecia, ou até uma trégua.


Capítulo 8
Depois do jantar, retiramo-nos ao salão. Ninguém teve que

cantar, embora a senhora Clumpett tocou o piano durante um

momento. Philip aproveitou para vir ao meu encontro enquanto eu

admirava o quadro de uma paisagem.

Tratava-se de uma vista de Edenbrooke, de uma perspectiva

afastada. O artista tinha plasmado a majestosidade do edifício e a

imensidão das terras que o rodeavam. Ao observá-la, invadiu-me o

desejo de voltar a pintar; tinha passado tanto tempo desde a última

vez! Não tinha usado minhas tintas desde que minha mãe morrera,

mas me surpreendi pensando que eu adoraria pintar aquele lugar

onde a beleza estava por toda parte.

Quando levantei o olhar, descobri que Philip me observava com

a mesma atenção que eu tinha dedicado ao quadro.

—Que preciosidade —comentei assinalando a pintura com a

cabeça.

Colocou-se frente a mim e apoiou um ombro na parede.

—Isso é precisamente o que estava pensando.

Estava-se referindo a mim? Notei como a cor subia às

bochechas e vi desenhar-se em seu rosto uma expressão de

satisfação. Teria dito só para que eu ruborizasse? Mas, por que

quereria isso? E por que eu parecia corar com tanta facilidade na


presença daquele homem? Sentia-me como se voltasse a ser uma

colegial e eu não gostava absolutamente dessa sensação. Adotei uma

expressão carrancuda, mas então vi lady Caroline olhando

preocupada em nossa direção.

—Tome cuidado —disse em voz baixa—, sua mãe pensa que

está voltando a ser descortês comigo.

—Isso é porque corou e sua expressão se tornou mais séria.

Sorria, Marianne, ou receberei outra reprimenda.

Descobri que era quase impossível não fazê-lo, sobretudo

porque ele estava de muito bom humor e se aproximava de mim ao

falar, como se compartilhássemos um valioso segredo. Mesmo

assim, tentei resistir.

—Receberá uma nova reprimenda se sua mãe o escuta me

chamar Marianne. Sabe que não deveria fazê-lo, senhor.

—Sei. Entretanto, minha mãe não está agora escutando nossa

conversa —acrescentou sorrindo com picardia—, assim que me

chame de Philip.

Lancei-lhe um olhar de repúdio, tentando ocultar o muito que

eu gostava de seu pícaro sorriso.

—Ontem à noite, safou-se por seu joguinho enigmático. Estou

convencida de que normalmente tem as maneiras mais corretas.

—Está certa. Normalmente, sim. —Inspirou—. Mas esta

situação não tem nada de normal, não acredita?

Cravou seus olhos nos meus, como se procurasse algo

importante.
O coração me deu um tombo, provocado pela combinação de

seu olhar cálido, sua voz sussurrando e sua proximidade. Não tinha

conhecido nenhum cavalheiro que se parecesse com ele. Senti-me

tola e irritadiça, pois não sabia o que fazer. Perdi-me em

pensamentos, sopesando as opções que tinha.

Não podia ceder a meu primeiro instinto, sair correndo. Podia

fingir que não tinha ouvido a pergunta e dizer algo que não tivesse

nada a ver com ela, mas aquela opção me faria ficar como uma

parva. Oxalá Cecily tivesse estado ali para me aconselhar. Sempre

tinha sido melhor que eu na paquera. Um momento< Era isso o que

estava fazendo Philip? Paquerar? Mas por que ele iria querer

paquerar comigo?

Percebi que tinha passado tanto tempo discutindo comigo

mesma, que um silêncio incômodo tinha preenchido o espaço que

deveria ter ocupado minha resposta. Por que não podia dar uma boa

resposta? E por que Philip não dizia nada mais? Dirigi o olhar para

o piano, desejando achar nele uma saída.

Como se tivesse lido o pensamento, Philip se afastou um pouco

e trocou de assunto.

—Lamento tê-la colocado em uma situação difícil há um

momento —comentou—. Não tinha ideia de que cantar a

incomodasse tanto, sobretudo tendo em conta sua atuação de ontem

à noite.

Olhava-me com olhos zombadores.

Deixei escapar um suspiro de alívio. Esse era o tipo de


comentário ao qual sabia como responder. As conversas calmas

eram meu forte.

—Ontem à noite era diferente. Era um desafio que não podia

perder. Além disso, você sabia que era uma brincadeira.

—Oxalá tivesse visto a cara que pôs quando minha mãe sugeriu

que cantássemos juntos. Nunca antes vi semelhante expressão de

terror em uma pessoa —riu entredentes—. Diga uma coisa: o que

lhe causou mais medo, o enfrentamento com o ladrão de estradas ou

a perspectiva de cantar diante de todos nós?

—O segundo —respondi, rindo baixinho—, sem dúvida

nenhuma.

—Justo o que imaginava. Estou certo de que atrás desse medo

de cantar em público se esconde uma história muito interessante.

Meu rosto se acendeu.

—Ah, esse rubor delator. Sinto muita curiosidade. Não me dará

nenhuma explicação?

—Não, eu gostaria de guardar para mim qualquer história

vergonhosa.

Pôs-se a rir de novo. Depois assinalou para o piano e nos

unimos aos outros, o que foi um grande alívio para mim.

Quando finalizou a reunião e me deitei, meus pensamentos

rememoraram irremediavelmente o olhar intenso de Philip e a

pergunta que me fez e não respondi sobre se aquilo era normal ou

não.

Demorei muito tempo para adormecer.


***

Apesar de que me custasse tanto conciliar o sono a noite

anterior, despertei antes de que despontasse o sol. Não perdi nem

um minuto, saltei da cama, pus rapidamente um vestido e me

apressei a sair ao ar livre. Fazia uma manhã esplêndida. O céu ia

perdendo sua escuridão e dando lugar à alvorada e uma ligeira

neblina subia da grama. Tinha planejado visitar o pomar, a ponte e

as roseiras, mas passei ao largo e, em vez disso, dirigi-me para a ala

norte da casa, para os edifícios que tinha visto depois de cair no rio.

A luz de um novo dia penetrava pelas janelas e iluminava um

estábulo limpo e ordenado no qual não havia ninguém. Perfeito!

Passei por diante de várias baias onde os cavalos dormiam ou

comiam aveia aprazivelmente.

Detive-me diante de uma baia ocupada por um grande cavalo

negro que me olhava espectador da porta, como se esperasse que

fosse saudá-lo. Possivelmente se tratasse do cavalo que Philip tinha

montado no dia anterior, quando eu caíra no rio; entretanto, não

podia estar certa, pois me esforçara muito em não olhá-lo

diretamente. Quando me aproximei da porta, apareceu o focinho e

me acariciou a mão. Sorri encantada.

—É lindo. Como se chama? —Fixei-me em uma placa que havia

na porta—. Rowton. É esse seu nome? —O cavalo levantou o

focinho e relinchou em resposta a minha pergunta. Pus-me a rir—.

Já vejo que o treinaram muito bem. Conhece mais truques?


Pergunto-me o que faria por um torrão de açúcar. Oxalá tivesse

trazido um.

—Deveria tentar cantar para ele —soltou Philip as minhas

costas me assustando. Voltei-me imediatamente—. Vejo que se

entende bem não só com as vacas.

Quanto tempo estaria ali?

—Pensei que não havia ninguém mais por aqui —expliquei

envergonhada.

—Nem eu. —colocou-se ao meu lado e encarou-me. Seu sorriso

pareceu um presente só para mim—. Bom dia —desejou com uma

voz que combinava à perfeição a quietude do estábulo e a

amabilidade de seu olhar.

Não soube como responder àquelas palavras amáveis. Sentia-

me tão perdida como a noite anterior. O único que me ocorreu foi

retomar as formalidades.

—Bom dia, senhor —respondi fazendo uma reverência—.

Espero que não se importe que tenha vindo a ver seus cavalos.

Arqueou uma sobrancelha.

—Absolutamente, embora a espulsarei daqui imediatamente se

voltar a me chamar senhor.

Soltei uma risadinha e adotei a informalidade em que tanto

insistia e que parecia preferir.

Philip rebuscou em seu bolso e me estendeu um torrão de

açúcar, que Rowton comeu diretamente de minha mão enquanto lhe

acariciava o focinho. Fez-me cócegas na palma com sua pele suave e


seus bigodes e me escapou um suspiro. Fazia muito tempo que não

estava em um estábulo.

Senti o olhar de Philip cravado em mim e ergui o olhar. Estava-

me observando com a mesma atenção que na noite anterior,

enquanto eu permanecia absorta no quadro. Fez-me tomar

consciência de que tinha dedicado menos de três minutos a me

arrumar. Philip, em troca, estava recém-barbeado e seu cabelo

ondulado seguia úmido. Precavi-me deste modo de que levava uma

vara na mão.

—Pensava sair para montar? —perguntei.

—Sim. Gostaria de me acompanhar?

Inspirei fundo e assenti com a cabeça antes de perder a

coragem.

—Eu adoraria, se não o incomoda.

—Absolutamente. Tenho um par de éguas mansas para minha

mãe e minha irmã. Estou seguro de que não lhes importará que

monte uma delas.

Sorri para mim mesma. Se ia fazê-lo, devia fazê-lo bem.

—O que quer que faça com uma égua mansa? Convidá-la para

tomar chá?

Philip jogou a cabeça para trás, surpreso. Depois riu

entredentes.

—No que estava pensando? Como você iria querer montar uma

égua mansa? Nesse caso, acredito que tenho a égua perfeita.

Conduziu-me pelo corredor até outra baia e apresentou Meg,


uma potra de pelagem castanha clara com um focinho suave e boas

proporções.

—Quanto mede? Quinze palmos?

Philip assentiu.

Tinha a mesma altura que minha égua. Descartei

imediatamente esse pensamento. Tinha passado muito tempo desde

a última vez que tinha me permitido pensar nela. De certo modo,

parecia-me desrespeitoso ter saudades de um cavalo quando sentia

muito mais de minha mãe. Expulsei de minha mente as lembranças

do que uma vez fora minha vida e me pus a observar Meg de perto.

Parecia absolutamente perfeita.

—Suponho que servirá —afirmei, ocultando meu regozijo sob

uma expressão de indiferença.

Philip se ofereceu para selar os cavalos enquanto eu me trocava.

Voltei correndo ao meu quarto e, com a ajuda de Betsy, pus meu

traje de montar azul-escuro.

—Tem sorte de que ainda lhe sirva. Não entendo por que se

negou a prová-lo em Bath antes de partir.

Alisei a saia frente ao espelho enquanto respirava fundo. Prová-

lo teria me feito relembrar muito. Levei a mão ao pescoço antes de

recordar que o relicário tinha desaparecido. Deixei cair a mão,

desejando ter algo ao que me segurar, mas o único que ficava era o

que via no espelho. Joguei os ombros atrás. Pois teria que ser

suficiente.

Quando voltei para o estábulo, Meg estava selada e me


esperando junto ao montador. A seu lado, encontravam-se Philip e

um cavalariço.

—Que rapidez —exclamou Philip em sinal de aprovação; logo

assinalou Meg com a cabeça—. Acima!

Meg se moveu com impaciência enquanto me acomodava na

cadeira. Devia notar meu nervosismo. Apesar de que não fosse mais

que de uma leve palpitação, o fato de que existisse fazia me sentir

muito estranha, mesmo que fosse justificado.

Durante a maior parte de minha vida, meu assento preferido

tinha sido uma sela, embora não havia voltado a subir em uma

depois do acidente. Agarrei as rédeas com a mão enluvada, inclinei-

me para frente e falei com Meg em sussurros enquanto lhe

acariciava o pescoço. Jogou para trás as orelhas para me escutar e,

aos poucos, tanto minha palpitação como a intranquilidade de Meg

pararam. Estava convencida de que logo seríamos amigas.

Vimos despontar o sol sobre as copas das árvores enquanto nos

dirigíamos para o extremo sul da propriedade. Philip trotava ao

meu lado e o cavalariço nos seguia uns passos mais atrás, à distância

prudente de um acompanhante.

—Vamos devagar por algum motivo? —perguntei-lhe ao

chegar a campo aberto.

—Não —respondeu esboçando um deslumbrante sorriso.

Deixei de frear Meg com as rédeas e rapidamente partiu ao

galope. Era revigorante sentir o ar fresco da manhã sobre a pele.

Sabia que tinha sentido falta de cavalgar, embora não tivesse sido
consciente do quanto até esse momento. Senti como se recuperasse

uma parte de mim graças à combinação do vento, os cavalos e o

resplandecente céu da manhã. Depois de um momento, o claro deu

passo a uma área arborizada e freamos os cavalos.

—Gosta? —perguntou-me Philip assinalando Meg com a

cabeça.

—É perfeita. —E realmente o era—. É o bastante fogosa para

que não seja aborrecida, mas mesmo assim, não é difícil de

controlar. E é tão bonita. —Dava-lhe uns tapinhas no pescoço e me

voltei para Philip, sorrindo—. Uma égua mansa nunca poderia

seguir seu ritmo.

—Tem toda a razão —concordou também sorrindo; embora seu

sorriso parecesse esconder um segredo.

Não pude evitar me perguntar qual seria.

O sol da manhã tinha feito que a névoa se dissipasse e estava

impaciente por ver tudo o que pudesse.

—Irá mostrar-me a propriedade? —perguntei—. O que vi até

agora parece sublime.

—Com muito prazer.

Modificou a trajetória de seu cavalo e o segui até uma colina

coroada por uma árvore solitária de onde podia contemplar-se

virtualmente todo Edenbrooke.

—Que vista maravilhosa —observei ao baixar o olhar para a

casa.

Encontrávamo-nos na área onde a natureza crescia de forma


selvagem. Diante de nós, o rio limitava os jardins e os prados e a

ponte de madeira se erigia sobre o rio de forma elegante. Havia algo

naquela vista que me resultava familiar. Depois de pensar nisso

durante um momento, percebi. Era a mesma perspectiva que

representava o quadro do salão.

A admiração deu passagem ao desejo de pintar aquela cena e

me prometi procurar algumas tintas e voltar ali sozinha.

Philip começou a me assinalar os limites de Edenbrooke. De

nossa posição elevada, podíamos ver uma grande extensão de terra

em todas as direções. Dava a impressão de ser uma propriedade

próspera em que nem o mais mínimo detalhe tinha sido

desatendido. Aumentou minha consideração para sir Charles; devia

ser um proprietário muito hábil para administrar tudo aquilo com

tão boa mão. Claro que minha irmã só ambicionaria o melhor do

melhor. Sentia muita curiosidade por conhecê-lo. Lady Caroline não

tinha mencionado seus planos, embora fosse óbvio para mim que

chegaria ao fim de uma semana com Cecily e Louisa.

—Comprovamos como se comportam estes dois? Proponho-lhe

uma corrida até os estábulos —propôs Philip quando demos meia

volta para retornar para casa.

Meg se empenhou ao máximo, mas o cavalo de Philip parecia

um melro voando ao mesmo nível da terra.

—Nem sequer estive perto —lamentei ao chegar ao estábulo.

—Sei —admitiu com um sorriso zombador—. Foi uma

competição desleal, eu tinha vantagem. —Deu-lhe uns tapinhas em


seu cavalo no pescoço—. É um autêntico puro-sangue. Descende do

garanhão Godolphin.

—É magnífico.

Olhei a ambos com admiração. Havia algo em um homem

atraente montado sobre um cavalo forte que fazia com que me

acelerasse o pulso.

—Sai para montar todas as manhãs? —perguntei enquanto nos

dirigíamos a pé para a casa após ter deixado os cavalos com o

cavalariço.

—Sim, quase todas. E você?

—Não. Minha avó não tem cavalos em Bath. Não tive mais

remédio que mudar meus h{bitos por um passeio enérgico< Com

acompanhante, por certo.

Fiz uma careta ao pensar em retornar àquela vida.

—Terei que remediá-lo enquanto estiver aqui. Pode montar

Meg sempre que quiser.

—Diz isso a sério? —Tentei não soar tão entusiasmada como

me sentia.

—É óbvio. São perfeitas uma para a outra. O bastante fogosas

para não serem aborrecidas, sem chegar a ser difíceis de controlar.

Olhei-o com os olhos entrecerrados e ele me piscou um olho.

Comparar-me com um cavalo! Que descaramento!

—E tão bonitas —acrescentou quando passei ao seu lado.

Dediquei-lhe um olhar depreciativo e ele pôs-se a rir, como se

só o houvesse dito para ver minha reação. Philip Wyndham era um


conquistador incorrigível, e eu não gostava nem um ápice dessa

faceta dele.
Capítulo 9
Durante o desjejum, lady Caroline anunciou que estaria

ocupada toda a manhã. Depois de ter passado um mês inteiro em

Londres, esperava receber a visita de todos seus vizinhos e tinha

certeza de que não gostaria de passar a manhã sentada no salão.

Embora estivesse certa, vi-me obrigada a insistir.

—Não me importaria conhecer seus vizinhos.

—Em outro momento, querida —disse afastando minhas boas

intenções com um gesto da mão—. De todas as formas, não penso

consentir que passe sozinha seu primeiro dia aqui. Philip,

importaria mudar seus planos? Poderia emendar seu mau

comportamento de ontem à noite mostrando a casa a nossa

convidada.

Philip olhou com olhos risonhos a sua mãe, que sorriu com ar

inocente em resposta.

—Estarei encantado —respondeu.

—Oh, posso acompanhá-los? —perguntou a senhora Clumpett

levantando o olhar do prato; tinha o lábio superior manchado de

ovo—. Pulei meu habitual passeio matutino com meu marido e

considero que é importante realizar um pouco de exercício cada dia.

—Por favor —respondi com um sorriso.

Assim parecia menos uma imposição e mais uma aventura em

grupo.
Posto que já tinha visto a maior parte do primeiro piso,

iniciamos a visita pelo segundo andar, que constava principalmente

de dormitórios similares em elegância e comodidade ao que eu

ocupava. Philip era amável e cordial e tinha abandonado a paquera.

De fato, estava se comportando tão bem que quando chegamos ao

terceiro piso, sentia-me quase a gosto em sua companhia.

A senhora Clumpett elogiou maravilhada cada uma das

estadias nas quais nos detivemos como se as visse pela primeira vez.

Resultou-me impossível não sorrir em sua companhia e devia lhe

atribuir o mérito do bom comportamento de Philip. Se até se referira

a mim como «senhorita Daventry»!

No terceiro andar, Philip nos guiou até uma longa galeria cujas

paredes estavam repletas de quadros. Segui seu exemplo e me

detive diante dos retratos de família. Viria outro dia para ver as

paisagens sozinha, quando tivesse tempo de me deleitar com eles.

Fui me fixando em um retrato após o outro, enquanto Philip

identificava seus antepassados. Contou-me que a mãe de seu

tataravô tinha insistido em chamar o lugar de Edenbrooke, pois lhe

parecia tão formoso como o Jardim do Éden. Depois de ver os

retratos de uma longa lista de familiares longínquos, detivemo-nos

em frente aos da família imediata. Ali estava lady Caroline, uns anos

mais jovem; tinha sido bastante bela. Ao seu lado, estava o quadro

de um homem de aspecto distinto, que tinha o mesmo cabelo

castanho e ondulado que Philip.

—É meu pai —confirmou em voz baixa.


Não era um homem especialmente atraente, embora seus olhos

tinham um ar sereno e sério que me fez me deter e dar outra olhada

ao seu retrato.

—Parece um bom homem —comentei, identificando enfim a

expressão de seu rosto.

Philip assentiu com a cabeça.

—Era.

Dei uma olhada ao resto do grupo e reconheci um jovem Philip.

A moça do retrato seguinte devia ser sua irmã Louisa, que tinha se

convertido na queridíssima amiga de Cecily. Philip me assinalou o

retrato de um jovem com o cabelo loiro e sorriso radiante e

despreocupado.

—Esse é meu irmão menor, William. Virá dentro de uns dias

com sua esposa, Rachel. Cecily e Louisa ficaram com eles em

Londres.

Só restava um retrato.

—E ele?

Precavi-me de que tinha a mesma mandíbula que Philip,

embora seus olhos azuis tinham um ar lânguido, como se estivesse

aborrecido da vida.

—Meu irmão mais velho, Charles —respondeu com um pouco

de brutalidade.

Afastou o olhar do quadro e se voltou para mim. Seu olhar se

tornou tão sério e pesaroso que tive a certeza de que tinha perdido

algo que tinha em alta estima. Não obstante, durou um instante


fugaz e quando o reconheci, tinha desaparecido e Philip se voltou de

novo para a pintura. Inclusive estava quase convencida de ter

imaginado aquilo por completo.

Joguei uma rápida olhada a Philip para compará-lo com seu

irmão. Apesar de que ambos fossem muito belos, sir Charles tinha

um ar inacessível; diferente de Philip, cujo rosto era afável. O

segundo era atraente e encantador e não me custou decidir a

companhia de qual dos dois preferiria.

Ali, parada frente ao retrato, assaltou-me uma ideia. Aquele

homem, sir Charles, um autêntico desconhecido para mim até o

momento, era a pessoa com quem minha irmã iria casar-se. Em

minha mente, já era algo definitivo, pois Cecily jamais tinha

fracassado em seu intento por conseguir o que queria uma vez

tomada sua decisão. E não era propensa a mudar de opinião com

facilidade.

Sir Charles se converteria em meu irmão e Philip< bom,

também ele passaria a ser como um irmão para mim. Iríamos nos

converter em família, aparentados pelo casamento de Cecily e

Charles. Sorri ante a ideia. Nunca tinha tido um irmão, mas mesmo

assim podia imaginar Philip desempenhando esse papel à perfeição.

A senhora Clumpett seguia examinando as paisagens. Philip

deixou atrás os retratos e me fez gestos para que o seguisse para o

vestíbulo. Deteve-se diante de uma porta a minha esquerda que

dava passagem a uma enorme sala com o chão de madeira.

—É uma sala de esgrima! —deduzi ao ver as espadas alinhadas


em uma vitrine ao fundo. Fascinou-me o eco de nossos passos na

sala vazia e aqueles tetos altos, iluminados pelos janelões superiores.

Suspirei encantada e um pouco ciumenta—. Sempre quis aprender.

Nesse mesmo instante me arrependi do que havia dito. Esse era

precisamente o tipo de coisas que uma jovem elegante não

reconheceria. Minha avó estaria horrorizada.

Entretanto, Philip não parecia escandalizado, mas intrigado.

—E esse interesse ímpio por uma atividade masculina? —

perguntou com um sorriso.

—Em minha opinião, os homens podem realizar uma grande

quantidade de atividades divertidas, como a esgrima ou a caça,

enquanto que as mulheres têm que ficar em casa e nos dedicar a

bordar durante todo o dia. Tem ideia de quão aborrecido é bordar?

—Dediquei-lhe um olhar aflito.

—Em realidade, não —respondeu com um sorriso alegre—.

Embora nunca me tenha detido a pensá-lo.

—Bem, nesse caso me permita que lhe diga que bordar não tem

nada de divertido. A esgrima, ao contr{rio<

Estudei-o durante um momento, sopesando se meu pedido

seria muito atrevido.

—O que está tramando? —perguntou com receio.

Considerei as probabilidades e decidi que valia a pena tentar.

—Perguntava-me se, dado que meu pai nunca me ensinou e

que não tenho irmãos de verdade<, se você seria tão am{vel< de

me ensinar.
—Irmãos de verdade? —Philip me lançou um olhar que refletia,

de uma vez, frustração e diversão—. Significa isso que decidiu me

ver como um irmão de mentira?

Mordi o lábio. Estava claro que o tinha ofendido. Não deixava

de ser algo presunçoso lhe considerar como parte de minha família,

sobretudo tendo em conta o pouco que fazia que nos conhecíamos.

Tampouco podia me justificar sem revelar os planos de Cecily para

jogar o laço ao seu irmão maior.

Tentei dissimular minha vergonha sorrindo com ar inocente.

—Iria se importar?

Seu sorriso adquiriu um ar malicioso.

—Já tenho uma irmã, Marianne.

Senti como o sobressalto crescia em meu interior. Era tão grave

como tinha temido. Tinha lhe ofendido e me sentia uma autêntica

estúpida por ter feito aquele comentário. Tinha-lhe pedido que me

ensinasse a usar uma espada, que dama faria isso? E, além disso,

tinha assumido uma familiaridade que ele não compartilhava.

Sentia-me extremamente envergonhada.

—Lamento. Não deveria ter dado por certo< —pigarreei—.

Por favor, desculpe-me. Tenho certeza de que tem coisas melhores

que fazer que perder tempo comigo.

Dei meia volta e me dirigi a toda pressa para a porta. Oxalá a

terra me tivesse engolido nesse momento. Tinha atravessado aquela

enorme sala e tinha a mão sobre o trinco quando falou de novo.

—Decepcionou-me, Marianne.
Fiquei imóvel sem soltar o trinco.

—Nunca suspeitei que se daria por vencida com tanta

facilidade. Especialmente depois de apenas uma pequena negativa.

Voltei-me imediatamente, pois meu orgulho respondia ao

desafio patente em sua voz. Não era das que fugiam assustadas e

menos quando me desafiavam.

—Não estou me rendendo. Vou perguntar ao senhor Clumpett

se me ensinaria —acrescentei com o queixo levantado.

Era mentira e estava certa de que Philip sabia, mas se

aproximou de mim esboçando um sorriso.

—Ah, mas pensa atrever-se a ficar diante dele com uma arma

na mão? Jantar com ele não lhe pareceu o suficientemente perigoso?

Contive a risada ao recordar o alarme semeado pelo senhor

Clumpett na mesa ao lançar ao ar seu garfo para demonstrar o

comportamento de voo de determinada ave.

—Talvez tenha razão —admiti com a voz trêmula e franzindo

os lábios.

—Tenho uma ideia melhor —resolveu com um sorriso pícaro.

Situou-se as minhas costas, estendeu a mão e pegou o trinco.

Não me movi e fiquei apanhada entre Philip e a porta. Joguei a

cabeça para trás e me perdi em seus quentes olhos. O orgulho estava

dissipando meu sobressalto. Tinha a sensação de que fosse qual

fosse sua ideia, quereria lhe dizer sim.

—Qual? —perguntei sorrindo sem reservas.

—Jogaria xadrez comigo? Sou consciente de que não é tão


divertido como a esgrima, mas é impossível que resulte tão

aborrecido como bordar.

Não tinha me equivocado, queria dizer-lhe sim; embora aquilo

não fosse próprio de mim. Manter-me firme quando alguém me

ofendia era uma de minhas maiores virtudes, ou um de meus

maiores defeitos, segundo quem o olhasse. Apesar de tudo, jogar

xadrez com Philip parecia a forma mais agradável de passar a tarde.

—Eu adoraria. Onde jogaremos? —perguntei enquanto

abandonávamos a sala de esgrima.

—Já o verá —limitou-se a responder, dedicando um sorriso a

sua tia quando alcançou o alto das escadas—. Reservei o melhor

para o final da visita.

***

A biblioteca estava em um lugar afastado da planta baixa.

Tomamos um curto corredor que passava por diante do salão e

dobramos uma esquina antes de dar com a entrada. Quando Philip

abriu a porta, foi como se tivessem me dado permissão para acessar

um paraíso perdido.

Sem dúvida era uma sala de homens. Os móveis eram de cor

marrom escuro e linhas retas. Todas as paredes estavam cobertas

por estantes e em uma delas destacava-se uma grande lareira de

pedra. Ao fundo, um pequeno mirante albergava uma mesinha e

duas poltronas de pele. Um janelão, que se erigia do chão até o alto

teto, permitia que a luz invadisse a sala e emoldurava umas vistas


maravilhosas ao lado sudeste da propriedade.

Entrei com cautela naquele lugar tranquilo e ensolarado.

Apenas ouvi a senhora Clumpett quando se desculpou, nem prestei

muita atenção à camareira que havia em um canto. Ia tirando livros

em silêncio, limpando o pó das capas e do lombo e voltando a

colocá-los em seu lugar. Acariciei o respaldo de uma das poltronas e

dei uma olhada pela janela, logo me voltei lentamente descrevendo

um círculo para abranger tudo. Encantou-me tudo quanto vi que

senti desejos de dar giros. De todas as formas, tê-lo feito teria sido

um tanto irreverente.

—Gosta —afirmou Philip, sorrindo.

Neguei com a cabeça.

—Não, eu adoro. —Assinalei para as estantes—. Permite?

—Por favor.

Acomodou-se com elegância em uma das poltronas que havia

junto à janela com expressão agradada.

Examinei os títulos da estante mais próxima e encontrei um

livro de mitologia grega junto a um de poesia, flanqueado este a sua

vez por um exemplar de filosofia alemã.

—Como estão organizados?

—Não estão.

Voltei-me para olhá-lo.

—E como encontra o que busca? Deve haver milhares.

—Eu gosto de procurar. É como visitar velhos amigos.

Observei-o durante um momento, intrigada pelo que acabava


de revelar sobre si mesmo. Aquela sala era como uma luva, como se

se tratasse de roupa já usada e cômoda. Precavi-me, não sem

admiração, que parecia elegante inclusive sentado de qualquer

maneira, com suas longas pernas estiradas. Ao descobrir uma

expressão divertida em seu rosto, fui consciente de que tinha ficado

olhando-o< outra vez.

—Parece surpresa, Marianne.

—Estou —admiti com sinceridade.

Philip sorriu como se minha resposta lhe tivesse agradado.

Voltei a me centrar nos livros e perdi a noção do tempo. Devido

à falta de organização, cada novo volume ia acompanhado de uma

nova surpresa. Descobri vários exemplares que resolvi estudar com

mais calma no futuro; entre eles, a história da política francesa e um

tratado sobre arquitetura gótica. Estava tão absorta que me

sobressaltei quando ele voltou a falar. Quase tinha esquecido que se

encontrava ali.

—Há algo que me intriga —começou—. O que estava fazendo

em Bath?

Aproximei-me da poltrona em frente à sua e sentei.

—Meu pai me enviou para viver com minha avó quando minha

mãe morreu.

—E o que lhe pareceu essa imposição?

Surpreendeu-me que me fizesse uma pergunta tão pessoal

depois de ter passado a manhã falando de coisas corriqueiras.

Deixei escapar um suspiro. Meus sentimentos eram muito


complexos para falar neles, assim escolhi o mais simples de todos

para lhe proporcionar uma resposta.

—Tenho saudades de meu lar.

—Do que tem saudades dele? —perguntou em apenas um

sussurro.

A sala estava em silêncio e o céu lá fora ia cobrindo-se de

nuvens.

Brinquei com um fio do vestido. A camareira seguia limpando

o pó no canto mais afastado da sala. É provável que tivesse que se

dedicar a essa tarefa todo o dia ou inclusive vários dias mais,

considerando o número de livros que abarrotavam as estantes.

Estava longe para nos ouvir, embora não fosse aquilo o que me fazia

hesitar. Não era fácil para mim confiar nas pessoas e não sabia se

estava preparada para fazê-lo com um homem que era tão diferente

de todos os que tinha conhecido até esse momento.

Durante os últimos quatorze meses, tinha me esforçado por

construir muros ao redor de meu coração que me protegessem das

feridas que trazia. Não tinha certeza se saberia como voltar a abri-lo,

nem tampouco se queria fazê-lo. A mera ideia me assustava e devia

considerar se valia a pena correr o risco de me mostrar vulnerável.

Philip aguardou minha resposta com paciência, como se

pensasse me dar todo o tempo que eu necessitasse. Possivelmente,

pudesse ser meu amigo até que Cecily chegasse. Eu gostava de sua

companhia e tive que reconhecer que necessitava um amigo. Talvez,

por amizade, valesse a pena correr o risco. Inspirei fundo e tomei


uma decisão.

—Tenho saudades de tudo. Sinto falta da minha família,

certamente, mas também da casa, das terras, de meus vizinhos, de

meus amigos... Tudo. —Fiz um gesto para a janela—. Estava

pensando que tive saudades até do pomar. Frequentemente,

costumava ir ali para pintar, ler ou simplesmente estar a sós.

—Por que o pomar?

Outra pergunta que requeria uma resposta pessoal e sincera.

Parecia decidido a se aprofundar quanto pudesse em meu coração.

—A verdade é que não tinha pensado muito nisso até agora ou,

ao menos, não o suficiente para pô-lo em palavras.

Contemplei as árvores frutíferas. O dia tinha adquirido uma cor

cinzenta e o pomar tinha um tom apagado. Sob a imensidão do céu,

aquele grupo de árvores não muito altas me parecia muito uma

proteção, um abrigo.

—As árvores têm algo sólido e constante —confessei em voz

baixa—. Pode ser que mudem com as estações, mas sempre estão ali.

Pode-se contar com elas. Um pomar não é tão grande como o

bosque, embora sim o suficiente para me cobrir quando<

Interrompi-me, não estava muito segura de como acabar a frase.

—Quando<?

—Quando necessito que me cubram, suponho. —Ri

timidamente, envergonhada pelo que acabava de admitir—. Parece

estranho, mas às vezes preciso estar longe das pessoas e ali me sinto

a salvo.
Voltei-me imediatamente para Philip, ansiosa por ver sua

reação. Observava-me fixamente, embora, por uma vez, não havia

nem rastro de brincadeira em sua expressão.

—É seu santuário —limitou-se a comentar—. Não me parece

estranho absolutamente.

Não tinha me dado conta de quão tensa estava até que notei

como meus ombros relaxavam. Senti-me aliviada e assenti com a

cabeça. Não estava acostumada a que me compreendessem tão

rápido e, menos ainda, que me aceitassem. Isso é o que percebi em

sua resposta, aceitação, e senti vontade de lhe contar mais coisas.

—Nosso pomar não é tão grande como o de Edenbrooke —

continuei—, embora nossas árvores são tão velhas e frondosas como

estas. Estava acostumada a me esconder ali quando pequena e me

metia em alguma confusão. Costumava subir às copas das árvores,

tão alto quanto podia, e minha babá estava acostumada a gritar para

que descesse.

Philip parecia muito divertido.

—E o fazia?

—O que? Descer? Não enquanto ela estivesse ali. Um dia, foi

procurar uma cadeira portátil e se sentou sob a árvore com um livro,

como se pensasse passar todo o dia me esperando se não houvesse

outra escolha. Eu era muito teimosa...

Philip arqueou uma sobrancelha e eu pus-me a rir.

—Bom, é um dos defeitos dos quais não consegui me libertar.

Pois bem, eu me neguei a descender e ela se recusou a partir, por


isso passei a maior parte do dia na copa daquela árvore. No final,

não tive mais remédio que ceder, já que o estômago me doía muito

por ter comido tantas maçãs e já não podia me segurar por mais

tempo.

»Minha babá pensou que tinha ganho nosso pequeno jogo e

caminhou muito contente de si mesma de volta a casa; mas ao me

ver dobrada pela dor, minha mãe a repreendeu com tanta

severidade que fez as malas e partiu no dia seguinte. Senti-me muito

mal por ela e me desculpei com minha mãe por minha teimosia.

Certamente, eu também recebi uma boa reprimenda por meus atos,

mas somente quando estivemos a sós. Sempre gostei disso dela.

Nunca me repreendia quando havia alguém para ser testemunha de

minha vergonha.

—Nisso se parece com sua mãe. Agora entendo por que aprecia

tanto essa qualidade. —Deixou-me desconcertada por um

momento—. Você também me resgatou ontem à noite de uma

reprimenda, recorda?

—Oh, isso não foi nada.

—Para mim sim —admitiu assentindo com a cabeça.

Afastei o olhar de seus olhos, pois não sabia o que dizer.

—Lamento não ter podido conhecer sua mãe —acrescentou—.

Como era?

Oxalá ainda tivesse o relicário, assim poderia lhe mostrar seu

retrato e provar que não exagerava. Teria que me conformar com as

palavras.
—Era extremamente bela. Tinha os olhos muito azuis e a pele

como porcelana. Seu cabelo era tão claro que parecia quase branco.

Lembro-me que quando era pequena e vinha a meu quarto de noite

para me abrigar, parecia-me da mesma cor que a lua. —Fiz uma

pausa ao recordar sua beleza—. Minha irmã Cecily se parece muito

com ela. Eu< não. —Sorri em sinal de desculpa—. Temo que, em

comparação, eu sou alguém bastante comum.

Philip negou com a cabeça.

—Acredito que está levando a modéstia muito longe. Não

posso estar mais em desacordo com você.

Logo me arrependi de ter tirado à luz o assunto da beleza com

um homem que tinha demonstrado ser um sedutor incorrigível. Sem

dúvida, se limitava a dizer o que pensava que eu desejava escutar.

—Não sou modesta —afirmei ruborizada pela vergonha—. E

não falei isso com a esperança de que você me contradissesse.

Apenas constatei um fato como resposta a sua pergunta.

Os lábios de Philip começaram a tremer.

—Desculpe-me. Não pensava que um elogio pudesse ofendê-la

tanto. Tentarei não voltar a fazê-lo.

Por muito que me esforcei para que meus lábios seguissem

desenhando uma linha reta, o olhar risonho de Philip era contagioso

e resultava difícil resistir a ele, por isso acabei rindo a contragosto.

—Sinto ter reagido desse modo.

—Não se desculpe —pediu esticando os braços e dobrando-os

atrás da cabeça—. É gratificante que alguém me trate com desprezo.


Voltei a rir.

—Isso não é certo.

—Sim, é —insistiu—. Não sabe quanto estou desfrutando.

Sorria como se realmente fosse assim.

—Agora está sendo ridículo.

—Em realidade, estou falando bastante a sério. Embora

conhecendo sua teimosia< —Fulminei-o com o olhar e ele riu

entredentes—. Vou deixar passar por ora. Diga-me, além de sua

beleza, que mais herdou que sua mãe?

Decidi ignorar a primeira parte.

—Ela me ensinou a pintar. Era uma grande artista e tinha muito

mais talento do que eu possuo. E adorava cavalgar. Costumava me

levar a cavalgar com ela quase todos os dias, a primeira hora da

manhã. Era uma amazona excelente e confrontava qualquer

obst{culo sem medo, sem importar quão alto parecesse o salto<

Estremeci ao ser consciente do que havia dito. Surpreendeu-me

que me tivesse escapado.

—Assim é como morreu? —perguntou Philip em um tom

respeitoso.

Voltei-me para a janela e assenti sem afastar o olhar do pomar,

enquanto imaginava que me encontrava sob seu amparo.

—Estava com ela?

Pigarreei para me libertar do nó que acabava de formar em

minha garganta.

—Não. Naquela manhã não saí a montar com ela. Foi meu pai
quem a encontrou. Estou certa de que não lhe será difícil imaginar o

resto.

—Em realidade, sim —admitiu depois de uma pausa.

Voltei-me para ele surpresa. Ele me observou durante uns

minutos, como se estivesse tentando medir suas palavras.

—Não posso imaginar por que seu pai a arrebatou de tudo

depois de perder sua mãe: sua casa, sua família, seus amigos< Até

de seu próprio amparo e carinho.

As palavras de Philip me cravaram no coração com tanta força e

de uma forma tão inesperada que a dor fez com que me faltasse o ar.

Não precisara de muito para descobrir o que eu ocultava no fundo

da alma. Esse era o motivo pelo qual não abria a ninguém meu

coração, pelo qual o mantinha bem protegido. Tinha sido uma tola

ao pensar que não aconteceria nada se baixasse minhas defesas.

Meus olhos se encheram de lágrimas. Pus-me em pé e me

aproximei da janela lhe dando as costas.

O céu estava adquirindo um tom plúmbeo e carregado; logo

começaria a chover. Apoiei a mão no vidro.

Estava frio e aliviava a dor das feridas que tinha na palma.

Oxalá existisse um bálsamo que aliviasse com tanta eficácia a dor

que afligia meu coração.

Vi o reflexo de Philip no vidro quando se aproximou de mim e

notei seu calor as minhas costas.

Senti frio e calor ao mesmo tempo. Uma parte de mim queria

colar-se ao cristal gelado e afastar-se daquele homem; a outra


desejava perder-se em seus braços e em seu calor.
Capítulo 10
—Sinto muito —sussurrou Philip atrás de mim.

Não sabia se estava se referindo ao ocorrido ou se o que

lamentava era me ter perguntado por isso, mas já não importava,

pois havia voltado a levantar meus muros. Tinha sido um erro

mostrar-me vulnerável. O único que desejava agora era sair

correndo dali e me refugiar em algum lugar longe daquele homem

que me fazia dizer e sentir coisas que não queria falar ou sentir. Fui

para um lado para deixar de estar presa entre seu corpo e a janela e

dei a volta.

—Preparado para jogar xadrez? —perguntei com energia—. Ou

deveríamos deixá-lo para outro dia?

Nem me incomodei em lhe olhar, pois já estava virada para a

porta. Tinha as emoções a flor de pele e precisava estar a sós para

voltar a guardá-las em seu esconderijo. Estava a ponto de sair

quando Philip apoiou sua mão em meu braço.

—Espere.

Voltei-me para ele a contragosto.

—Tem fome? —perguntou.

—Na realidade, sim.

Sequer tinha percebido.

—Desculpa-me uns minutos? Por favor, sente-se como se

estivesse em sua casa.


Observei-lhe abandonar a biblioteca com sentimentos

desencontrados. Continuava me debatendo entre o calor e o frio e

ainda não tinha decidido para qual me inclinaria: para Philip ou

longe dele. Não obstante, agora que ele não estava, já não sentia

desejo de fugir; por isso decidi aguardar sua volta.

Peguei um livro de poesia da estante, acomodei-me em uma

das poltronas que havia junto à janela e tentei me desfazer de meu

desassossego concentrando-me nos poemas. Quando a porta voltou

a abrir-se, surpreendi-me ao comprovar no relógio situado sobre o

suporte da lareira que tinha transcorrido meia hora.

Philip depositou uma bandeja cheia de comida na mesinha que

havia entre as duas poltronas.

—Confio que apreciará pelo que tive que passar conseguir.

Deveria ter ouvido como me repreendeu o cozinheiro por assaltar

sua despensa. Estava aterrorizado.

Ri com vontade, aliviada ao comprovar que tinha voltado com

uma atitude menos grave.

—Isso não é certo.

—Sim que o é —asseverou com uma careta—. Não sei por que,

mas os serventes que viram alguém crescer não hesitam em

continuar tratando-o como um menino, tenha a idade que tenha. —

Alcançou um prato—. O que gosta?

—Oh, posso fazê-lo eu mesma.

Deixei o livro de lado e estendi a mão para pegar o prato, mas

ele se negou a entregar.


—Nem pensar. Permita que eu me ocupe. Um pouco de tudo?

—propôs com um sorriso e um estranho brilho nos olhos.

Surpreenderam-me tanto seu gesto como seu olhar.

—Sim, obrigada. —Observei-o enquanto me servia frutas

frescas, pão, presunto cozido e queijo. Aceitei o prato com um

sorriso zombador nos lábios—. Espero que não insista também em

me dar de comer.

—Eu o faria se pensasse que você permitiria —murmurou isso.

Ruborizei dissimuladamente.

—Aí está! —exclamou—. Como tive saudade desse rubor

durante a última meia hora.

—Acredito que o faz de propósito —confessei olhando-o

zangada.

—O que? —perguntou, rindo.

—Fazer-me ruborizar.

—É a tarefa mais fácil que já fiz na vida —admitiu sem rastro

de vergonha—. E a mais divertida.

Fiquei ali sentada, consciente do meu rubor e de minha

irritação, enquanto ele servia a limonada.

—Obrigada —murmurei ao mesmo tempo que aceitava o copo

que me oferecia.

Philip seguiu segurando-o, inclusive depois de que o tivesse

rodeado com a mão. Levantei o olhar e me surpreendi ao ver que

sua expressão se tornou totalmente séria.

—Não creia que porque desfruto em provocá-la que não a levo


a sério —confessou em voz baixa—. É uma honra saber o que

esconde seu coração, Marianne.

Suas palavras me surpreenderam tanto que teria deixado cair o

copo se ele não o estivesse segurando. Philip o deixou sobre a mesa

e começou a servir comida em seu prato sem olhar na minha

direção. Alguma vez se comportaria de forma previsível? Duvidava.

Sentia-me desconcertada, embora também adulada por um motivo

que não era capaz de identificar. Não sabia o que dizer nem o que

fazer.

Fiquei com o olhar fixo no prato até que Philip voltou a abrir a

boca.

—É comida, Marianne. Portanto, supõe-se que deve comer.

Levantei o olhar rapidamente. A expressão divertida em seu

rosto resultava irresistível. Deixei escapar uma risada e comecei a

comer. Voltei a me sentir a vontade; muito a vontade, de fato.

Cruzei as pernas à altura dos tornozelos e olhei pela janela. Alegrei-

me de que a conversa tivesse parado e de poder desfrutar enquanto

comia do espetáculo da chuva, que tinha submergido a casa no

silêncio e a tinha isolado do resto do mundo ocultando ao nosso

olhar os cultivos e o pomar.

—É uma biblioteca esplêndida. Quanto tempo levou reunir

todos estes livros?

—Poucas gerações, em realidade. Meu avô era apaixonado

pelos livros e é provável que a metade do que vê ele o adquiriu.

Meu pai estava acostumado a acrescentar exemplares cada vez que


viajava ao Continente. Sempre estava procurando livros únicos e

quando retornava me mandava chamar e me mostrava suas novas

aquisições. Para mim era quase como ter viajado ao seu lado. —

Vislumbrei um brilho nostálgico em seus olhos—. Anos depois,

durante minha viagem pela Europa, senti uma forte atração pelas

pequenas livrarias dos lugares que visitava. Voltei para casa um ano

mais tarde com dúzias de caixas repletas de livros. Tanto as caixas

como eu chegamos bem a tempo. —Baixou a voz—. Pude mostrá-los

a meu pai antes de que morresse. Para ele, foi como uma última

viagem.

Intrigou-me a reverência contida em sua voz.

—Como era seu pai?

Philip se reclinou em seu assento.

—Era generoso e perdoava com facilidade. Um homem de

princípios, com um alto sentido de moral e respeitado por todos que

o conheciam. —Encarou-me—. Era um cavalheiro no mais amplo

sentido da palavra.

—E você quer ser igual a ele.

Podia vê-lo em seu rosto.

—É óbvio.

De repente, dei-me conta do quão ferinas devia ter sido para ele

minhas palavras na noite que nos conhecemos.

—Não sabia< Quando disse aquilo na estalagem<, não sabia o

que seria para você. Devo ter lhe ofendido profundamente.

Lamento.
Philip esboçou um sorriso cheio de arrependimento.

—Nunca antes tinha merecido uma ofensa como naquela noite

na estalagem. Por favor, não se desculpe por isso.

Observei-lhe com atenção, atraída pelo afável sorriso e o olhar

terno que tinha adquirido seu semblante ao falar de seu pai. Só

conhecia de Philip uns poucos retalhos, mas ansiava saber mais.

—Que livros comprou durante sua viagem?

—Tudo que chamou minha atenção. Não sou tão seletivo como

meu pai. Ele lia principalmente sobre filosofia e religião. Eu adquiri

livros de história, mitologia e poesia. —Assinalou o livro que

estivera lendo momentos antes—. Esse, encontrei em uma livraria

minúscula de Paris, da qual meu pai tinha me falado. O proprietário

o recordava de suas numerosas visitas. Indicou-me uma estante que

albergava livros de filosofia e acredito que se surpreendeu bastante

quando me decidi pelo de poesia.

A imagem que tinha ilustrado me fez sorrir.

—Que mais fez durante sua viagem?

—Não é fácil resumir um ano viajando pela Europa —disse

esticando os braços.

—Então não o resuma, conte-me tudo. —Ruborizei ao me dar

conta de quão impaciente e exigentes tinham soado minhas

palavras—. Não pretendia dizer isso desse modo. O que ocorre é

que<

Neguei repetidamente com a cabeça. Não estava segura de se

devia continuar.
—O que é que ocorre?

Parecia tão interessado que tentei concluir meu raciocínio.

—Em Bath tudo era muito diferente. Minha única companhia

eram minha avó e minha tia. A primeira só fala se tiver uma crítica a

fazer e a segunda tem na cabeça mais cabelo que engenho. Não

estávamos acostumadas a receber muito porque minha avó não

gosta de gente, assim levo muito tempo privada de boa conversa.

—Imagino que não é o único do que se viu privada. Não sentiu

falta também de um pouco de amizade? —perguntou com um olhar

compassivo.

De repente, meu orgulho emergiu de novo.

—Não disse isso para que sentisse lástima por mim. E,

definitivamente, não me interessa uma amizade baseada na

compaixão. —Minha voz soou mais brusca do que tinha pretendido.

Philip me observou durante um minuto. Sustentei-lhe o olhar a

modo de desafio.

—Entendo-a melhor do que crê —admitiu ao fim.

Suas palavras me desarmaram.

—Ah, sim? —perguntei surpreendida.

Olhou pensativo pela janela.

—Você não deseja que a amem por compaixão e eu não desejo

que me amem por minha fortuna. Não nos parecemos nesse

sentido?

Quando se voltou de novo para mim, tinha o mesmo olhar

nostálgico que tinha visto em seus olhos quando tinha me mostrado


o retrato de seu irmão mais velho, Charles. Sua melancolia me

chegou ao coração e me levou a lhe formular uma pergunta.

—Alguém o ama por sua fortuna?

Uma pergunta tão pessoal deveria tê-lo ofendido e, entretanto,

esboçou um meio sorriso.

—Alguém a ama por compaixão?

—Não.

—Mesmo assim, teme que alguém o faça.

Assenti, pensando em quanto odiava ter que impor minha

presença aos outros pelo mero feito de depender deles.

—Então, também temos isso em comum.

Encarou-me e um acordo mudo se estabeleceu entre nós.

—Bem< —me limitei a acrescentar.

Vi como os lábios de Philip esboçavam um sorriso ao mesmo

tempo que os meus. Inclinou-se um pouco para frente.

—Prometo não amá-la por compaixão —murmurou.

Ruborizei ante a ideia de pronunciar as palavras «prometo» e

«amar» em uma mesma frase< dirigida a Philip. Entretanto, tinha

que lhe devolver a promessa ou estaria sendo muito descortês.

—E eu prometo não o amar por sua fortuna.

Pronto. Tinha falado. Pareceu-me descarado e ousado, e

possivelmente esse fosse o motivo pelo qual senti a estranha

necessidade de sorrir. Obriguei a meus lábios a esboçar um meio

sorriso e as bochechas me doeram pelo esforço. Recuperei o livro

para deixar de pensar nisso.


—Sigo querendo saber mais coisas sobre sua viagem, a menos

que tenha algo a fazer.

—Estou a sua inteira disposição, Marianne, mas não quereria

aborrecê-la com as histórias de minhas viagens.

—Aborrecer-me? —Olhei-o fixamente—. Philip, nunca saí da

Inglaterra. Nem sequer estive em Londres. Não sabe o que daria

para ter as mesmas experiências que você. Como pode pensar que

me aborrecerá? —Não respondeu, embora seus olhos

transbordavam alegria e me vi obrigada a perguntar—: Por que me

olha desse modo?

—Chamou-me Philip pela primeira vez.

Ruborizei. Tinha razão, tinha-lhe chamado por seu primeiro

nome, embora tampouco era minha culpa. Não era ele que insistia

em dirigir-se a mim como Marianne e que tinha me pedido que

deixasse de chamá-lo de «senhor»?

—Isso é porque seus maus hábitos estão me contagiando —

resmunguei.

Ele se pôs a rir.

—Alegra-me ouvir isso.

Não sabia como responder, embora por sorte não tive que fazê-

lo, já que Philip me adiantou.

—Por onde começo?

—Por Paris.

Contou-me mais coisas da pequena livraria onde tinha

encontrado o livro de poesia; depois me falou do palácio de


Versalhes e dos bailes e as reuniões aos quais tinha assistido. Ao

mencionar a catedral de Notre Dame, ficou em pé, dirigiu-se a

estante e passeou o olhar pelos títulos que continha durante um

minuto.

Retornei ao ponto em que tinha estado bisbilhotando antes e

tirei o livro sobre arquitetura gótica.

—Era este o que andava procurando?

Deleitou-me com um sorriso ao tomar o livro de minhas mãos.

Logo o colocou na mesinha que tínhamos diante e me mostrou os

traços característicos da catedral. Conforme ia passando páginas

rapidamente, sua voz ganhava em paixão.

De Paris passamos | It{lia. Veneza, Roma, Florença< Voltou a

ficar em pé e desta vez demorou uns minutos em encontrar o livro

de arte que queria. Estendeu-me e me deixou consultá-lo a meu

desejo enquanto ia assinalando as estátuas que tinha visto e me

contando curiosidades sobre os artistas e a conservação das obras.

Logo me falou das óperas italianas e do tempo que tinha estado

agasalhado em uma vila costeira onde as águas eram tão cristalinas

que se podia ver o fundo do mar.

Depois da Itália chegaram Áustria e Suíça: os Alpes, as canções,

as formosas paragens< E mais livros. Mostrou-me um sobre a

Baviera e outro de canções populares austríacas. Pedi-lhe que me

cantasse uma. Sua voz era grave, harmoniosa e muito agradável ao

ouvido, pois não resultava forçada nem pouco natural.

À medida que avançava em suas histórias, foram iluminando


os olhos mais e mais. Fazia gestos com as mãos enquanto falava e

quando sorria, seu rosto inteiro resplandecia e se voltava cativante.

Ao fim de um momento, já não precisava que fizesse perguntas, pois

ele fiava um tema com outro e eu me limitava a lhe escutar com o

queixo apoiado na mão. Presenteou-me os sentidos com histórias,

imagens e ideias exóticas. Philip abriu a mim novos mundos com

suas palavras e perdi a noção do tempo. O céu carregado ocultou de

nossos olhos o pôr-do-sol e nos apanhou em uma tarde deliciosa e

interminável.

Voltei a tomar consciência do mundo exterior quando ele se

interrompeu ao final de uma história e ouvi vozes no corredor que

arrebentaram a bolha em que tinha estado suspensa. A realidade e o

tempo transcorrido me alcançaram a toda pressa contra meu desejo.

Eu queria voltar atrás, às horas que acabavam de passar; queria

fechar a porta e permanecer onde estava para sempre enquanto a

chuva caía sem cessar. Não obstante, Philip deixou de falar e seu

silêncio marcou o final de nosso tempo juntos.

—Eu adoro este lugar.

Acompanhei minha confissão com um suspiro; não queria ir

dali.

—Pode vir quando o desejar.

—Mas é seu santuário. —Assim que tinha visto Philip ali

percebi que aquele era seu pomar—. Não quero incomodar.

—Nem sequer se eu o peço? —rebateu ele com um sorriso.

—Oh! Bom, então< —Não sabia como responder e meu


próprio sobressalto fez com que ruborizasse—. É muito amável.

—Não sou. A biblioteca está aberta a todo mundo. Pode vir

aqui sempre que quiser.

—Obrigada. E obrigada também por me acompanhar durante

todo o dia. Não recordo ter passado um dia tão agradável em muito

tempo.

Philip estendeu o braço para salvar o pouco espaço que

separava nossas poltronas e de forma natural, quase instintiva, pus

minha mão sobre a sua. Inclinou-se mais para mim. Seus olhos

cintilavam e seu sorriso era tão cálido como um raio de sol.

—O prazer foi meu, Marianne.

Senti como seus olhos me apanhavam. De repente, dominou-

me a certeza de que se sondasse seu olhar descobriria um formoso

segredo, um segredo importante. Inspirei fundo e ao me fazê-lo

aproximei ainda mais. A sensação se intensificou e serviu para me

convencer de que só a distância entre nós me impedia de descobrir a

verdade. Se me aproximasse mais, aconteceria algo; tinha certeza. Se

me afastasse, não aconteceria nada. Assim, fiquei totalmente imóvel,

fazendo equilíbrios entre esse algo e o nada, sem saber para qual me

decidir.

Philip também permaneceu imóvel, como se esperasse que me

decidisse. Seus olhos, em troca, não se comportavam como meras

testemunhas imparciais de minha reflexão, mas sim tentavam me

persuadir para que optasse por esse «algo». Me convidavam a me

aproximar para que aparecesse naqueles poços azuis e mergulhasse


neles, perdesse-me e não voltasse a ressurgir.

—Oh, me desculpem.

A voz do senhor Clumpett me tirou de minha fantasia.

Sobressaltei-me, como se acabasse de despertar de um sonho, e

afastei minha mão da de Philip. A sensação que havia sentido se

evaporou como a fumaça da vela que acaba de ser apagada,

deixando atrás de si espirais de desejo inconfessado.

Philip tinha deixado a porta da biblioteca aberta, é óbvio. Nesse

sentido, era todo um cavalheiro. Entretanto, não pude evitar me

perguntar o que seu tio teria visto. Teria sido testemunha de todo o

tempo que tinha estado lhe olhando nos olhos? Ruborizei ao pensá-

lo.

Philip ficou em pé e se dirigiu para o senhor Clumpett, que

tinha se detido à entrada da sala. Este pigarreou antes de falar.

—Não sabia que estavam tratando de assuntos privados. A

porta estava aberta<

Jogou um olhar à camareira que levava toda a tarde limpando o

pó diligentemente em um canto.

—Sim, sei —observou Philip em um tom alegre—. Necessita

algo?

O senhor Clumpett levantou seu livro.

—Aqui não há nada sobre o rinoceronte índio. Devia procurar

outro volume que complementasse este. —Jogou a cabeça para trás e

passeou o olhar pelas altas estantes com uma expressão de

derrota—. Não saberá por acaso se há por aqui o livro que procuro?
—Não estou seguro —respondeu o jovem com um olhar que

expressava em parte diversão e em parte compaixão.

O senhor Clumpett deixou escapar um suspiro e se aproximou

da estante enquanto meneava a cabeça e murmurava algo

entredentes que me soou a «desorganizado».

Ao dar uma olhada ao relógio que havia sobre o suporte,

surpreendi-me ao comprovar que eram quase seis e que devia ir me

trocar para o jantar. De verdade levava ali todo o dia?

—No final, não jogamos xadrez —observei—. Lamento.

—Não se desculpe. Nossa conversa foi muito mais amena do

que teria sido uma partida de xadrez. Além disso, assim conto com

um motivo para solicitar sua companhia outro dia. Tem planos para

amanhã à tarde?

Meus únicos planos consistiam em me perder na beleza de

Edenbrooke e assim o fiz saber.

—Então, reúna-se aqui comigo depois de comer —concluiu com

um sorriso.

Quando abandonei a biblioteca sentia a necessidade inegável de

fazer algo parecido a me pôr a dar giros. A caminho do meu quarto,

perguntei-me o que seria que me tinha acontecido aquele dia.

Porque algo tinha me acontecido, disso estava segura. Durante os

últimos meses, uma parte de mim havia se sentido vazia e, sem

saber como, agora me sentia cheia por dentro, como se me tivessem

completado. Era um sentimento tão alentador como o sol. Ao

prestar atenção ao meu coração, descobri que, em Bath, parte de


mim se perdeu, uma parte que tinha recuperado em um só dia com

Philip, uma parte feita de alegria.

Entrei em meu quarto com um sorriso no semblante, consciente

de quem era o responsável pela felicidade que tinha recuperado.

Philip se convertera em meu amigo no transcurso do dia, embora,

até então, não tinha sido consciente de quanto tinha sentido falta da

companhia de alguém assim. Talvez nunca antes tivesse valorizado

o poder da amizade, o poder de contar com uma pessoa com quem

conversar durante horas sem precaver do passar do tempo. Tinha

tido muitos amigos ao longo de minha vida, embora nunca antes me

havia sentido aceita e valorada de uma forma tão absoluta, nem tão

imediata.

Enquanto Betsy procurava um vestido para o jantar, chamou-

me a atenção uma carta que vi sobre o escritório. Meu entusiasmo

inicial ao vê-la cedeu à decepção ao me precaver de que não era

mais que o poema que o senhor Whittles me tinha dado antes de

partir de Bath. Betsy devia tê-lo tirado de algum bolso de meu

vestido antes de levá-lo para lavar.

Enquanto me vestia, pensei no senhor Whittles e no alívio que

sentia por ter me livrado dele. Era muito afortunada por ter vindo a

Edenbrooke e ter recebido tão cálida boas-vindas por parte dos

Wyndham.

Não obstante, desfrutar da felicidade que sentia nesse momento

sem pensar em outros me parecia um comportamento

extremamente egoísta. Possivelmente pudesse fazer algo para


ajudar minha tia Amélia com o propósito de seu afeto. O senhor

Whittles só necessitava um empurrãozinho na direção correta e

estava convencida de que seria muito feliz com ela, pois a

admiração sincera de minha tia seria perfeita para seu ego e

tampouco era uma mulher pouco agraciada.

Guardei o poema na gaveta de meu escritório com a firme

determinação de arrumar uma maneira de unir a esses dois.


Capítulo 11
No dia seguinte, reuni-me com Philip na biblioteca para jogar

xadrez, mas ele tinha outros planos.

—Sou consciente de que não é uma atividade tão emocionante

como a esgrima, mas me perguntava se lhe interessaria o arco e

flecha.

Qualquer proposta que me afastasse dos passatempos

sossegados de salão me interessava. Fomos a um prado situado ao

sudoeste, onde nos esperavam um par de serventes junto ao alvo

que tinham disposto para nós. Philip me convidou com um gesto de

mão a ser a primeira em atirar. Estivemos praticando até que meus

braços se negaram a disparar uma só flecha por causa do cansaço.

—Suponho que nossa partida de xadrez terá que esperar até

amanhã —resolveu Philip em voz baixa quando retornávamos para

casa.

Não obstante, quando fui à biblioteca no dia seguinte, Philip me

perguntou se já tinha visto os jardins. Disse não, por isso me levou a

visitá-los e me mostrou o jardim aquático, o jardim oriental e o

jardim de rosas. Conversamos e passeamos até que a chuva nos

surpreendeu e nos obrigou a nos proteger no interior.

Voltei a me surpreender ao descobrir que levava horas em

companhia de Philip, mesmo que a mim tinham parecido uns

poucos minutos. Quando tentei justificar o passar do tempo


repassando o que tínhamos falado, só pude recordar alguns

retalhos, uma história aqui, uma lembrança lá, e o fato de que não

tinha tido que parar para pensar em um novo tema de conversa.

Os dias se fundiam uns com outros e entre nossos passeios

matinais a cavalo, nossas atividades vespertinas, o jantar e o tempo

que passava em companhia de toda a família de noite, não havia um

momento em que não desfrutasse da presença de Philip. Sentia-me

um pouco culpada por estar tão contente e pensei que

possivelmente deveria me concentrar em algo mais produtivo que

desfrutar de minha nova amizade, mas é que me sentia tão livre e

exultante como um passarinho que acaba de ser libertado de sua

gaiola. Tinha derrubado os muros que rodeavam meu coração e

estava feliz e satisfeita. E embora só tinham transcorrido uns poucos

dias, tinha a sensação de conhecer Philip por toda a vida.

A quinta manhã que saímos a cavalgar, e a quinta que ganhou

Philip, recebi uma carta. Sentia-me um pouco frustrada, pois intuía

que Meg podia dar muito mais de si e estava decidida a prová-lo.

—Um destes dias se decobrirá admirando as nádegas de Meg

—anunciei enquanto tomava assento para o café da manhã.

Ele se pôs a rir com aquele brilho familiar em seus olhos que me

fazia acreditar que guardava um valioso segredo. Guardava muitos.

Olhei-o com os olhos entrecerrados, mas a essas alturas já conhecia o

suficientemente para não albergar esperanças de que me revelasse

algum.

O mordomo pigarreou para chamar minha atenção enquanto


apresentava uma bandeja de prata. Nela havia uma carta com a

escritura trêmula e familiar de minha avó. Devia tê-la enviado assim

que parti de Bath ou não teria chegado tão logo. Deixei-a junto ao

prato e a observei com receio. A carta me encheu de preocupação e

me fez sentir como se tivesse estado vivendo um sonho. Temi que

fossem quais fossem suas palavras, obrigasse-me a despertar, por

isso decidi lê-la mais tarde em privado.

—Acredito que deveríamos celebrar um baile em honra de

nossas convidadas —anunciou lady Caroline—. O que lhes parece?

A senhora Clumpett levantou o olhar com um sorriso em seus

predispostos lábios.

—Oh, adoro os bailes. E o senhor Clumpett também gosta, não

é certo, querido?

Não me parecia o tipo de pessoa que adorasse bailes, embora

expressou sua conformidade com um grunhido.

—Philip, tem alguma objeção?

—Já sabe que aqui tem carta branca, mãe.

Que estranho. Por que tinha que lhe pedir permissão para

celebrar um baile? Em caso de necessitar, deveria pedi-lo a sir

Charles.

—Acredito que um baile é uma grande ideia —prosseguiu lady

Caroline—. Apresentaremos Marianne a todos os cavalheiros

disponíveis da região e os observaremos enquanto brigam por ela.

Será muito divertido!

Voltei-me para ela surpreendida e ruborizei.


—Estou certa de que se equivoca com respeito ao nível de

interesse que posso despertar —murmurei.

—Nunca me equivoco com essas coisas —rebateu sorrindo

como um gato diante de uma tigela com leite—. O que acha, Philip?

Não crê que fará furor entre os jovens?

Não pude me voltar para ele. Sem dúvida, faria algum

comentário educado, embora todos soubéssemos que era mentira.

Entretanto, ao não responder imediatamente, não ficou mais

remédio que olhar em sua direção. Surpreendeu-me tanto o que vi

que tive que me voltar para onde estava uma vez mais.

Philip sustentava o olhar de sua mãe, tinha adotado uma

expressão muito séria e lhe vibrava um músculo da mandíbula.

Parecia zangado, embora fosse incapaz de entender por que as

palavras de lady Caroline tinham provocado aquela reação nele.

Do outro extremo da mesa, respondeu com um sorriso que se

tornou um pouco forçado, quase zombador.

—Sem dúvida nenhuma —acrescentou ele, ao final, depois de

um silêncio incômodo.

Tomei ar rapidamente. Ali ocorria algo e me incomodava

pensar que eu era a causa.

—Um baile seria maravilhoso —intervim para dissipar a

tensão—, embora não desejo que ninguém brigue por mim. Prefiro

me limitar a dançar.

O senhor Clumpett levantou de repente o olhar de seu livro.

—Isto me recorda muito a algo que tenho lido. —Passou para


trás algumas páginas ante meu olhar de surpresa. Nem sequer me

tinha passado pela cabeça que estivesse nos escutando—. Ah, aqui

está. —clareou a garganta antes de ler—: «O rinoceronte não permite

que outro macho entre em seu território durante a época de acasalamento.

Se isso ocorrer, uma perigosa luta explodirá entre eles». —Levantou o

olhar do livro; brilhavam-lhe os olhos—. Uma luta entre

rinocerontes< Isso sim que seria digno de ver, não acreditam?

—Fascinante —exclamou sua mulher com entusiasmo.

Deixou-me boquiaberta. De verdade tinha lido uma passagem

sobre o acasalamento dos rinocerontes durante o café da manhã?

Estava tão sobressaltada que não sabia nem para onde olhar. Philip

pigarreou, embora me deu a sensação de que estava tentando não

rir.

—Muito oportuno —concluiu lady Caroline com um sorriso—.

Bem, então, está decidido. Vou me encarregar da lista de

convidados e começarei a escrever os convites esta mesma tarde.

Aproveitei para me desculpar, ansiosa por fugir do ambiente

carregado de emoções que invadia a sala. Tomei a carta e me dirigi

para a porta, embora sentisse um olhar cravado nas costas que me

obrigou a dar uma olhada por cima do ombro. Philip me observava

com uma expressão solene; eu lhe devolvi um olhar interrogativo.

De repente, sorriu e todos os sinais daquela estranha expressão se

esfumaram, apesar de que seguiram vivos em minha mente quando

abandonei o salão. Philip tinha me recordado muito a alguém, mas

não conseguia recordar de quem se tratava.


Tomei assento na escrivaninha de meu quarto e contemplei a

carta de minha avó durante alguns minutos antes de me atrever a

abri-la. Ao final, sucumbi ao inevitável e rompi o selo. O sol da

manhã entrava obliquamente pela janela e me esquentava as costas

enquanto lia.

Querida Marianne:

Imagino que já tenha começado a brincar de correr pelo

campo como se fosse a filha de um simples granjeiro e por isso

escrevo, para recordar as condições de sua visita. Deve aprender

dos Wyndham tudo o que possa sobre como deve se comportar

uma jovem elegante. Conte-me em suas cartas o que vai

aprendendo. Considera-o uma obrigação. Se não perceber que

melhoras, não hesitarei em fazê-la voltar. E se não puder

modificar seu comportamento, não hesitarei em deserdá-la, como

fiz com meu sobrinho. Acredito firmemente neste plano e serei

testemunha de como se converte na dama que pode chegar a ser,

tanto por sua própria felicidade futura como pelo que deve ao

sobrenome da família. Não me decepcione.

Atentamente,

Tua avó.

Me pus a olhar pela janela enquanto refletia sobre as

implicações da carta de minha avó. O fato de que a tivesse enviado

antes de que levasse fora uma semana ilustrava sua falta de


confiança em mim, embora não pude evitar sorrir ao reconhecer que

esse fato estava em parte justificado, já que não havia voltado a

pensar em sua imposição desde meu percalço no rio.

De fato, minha queda à água punha de relevo o problema à

perfeição. Não possuía as aptidões de uma dama elegante, embora,

segundo minha avó, teria que me converter em uma para conseguir

sua herança.

Enquanto dava voltas aquele dilema, procurei não me enganar.

As jovens de bom berço sem fortuna tinham poucas esperanças de

conseguir levar uma vida acomodada. Trabalhar não era uma opção

e o casamento quando se carecia de um dote substancioso< Enfim,

apenas as jovens dotadas de grande beleza o conseguiam e não

necessitava um espelho para saber que não me encontrava entre

elas. Era muito miúda para os cânones e embora meu rosto não

deixasse de ser aceitável, não possuía a beleza necessária para atrair

a atenção de nenhum cavalheiro.

Além disso, permanecia a questão de que eu não ambicionava

um casamento vantajoso, esse era o desejo de Cecily. E, desde muito

pequena, tinha aprendido que, se alguma vez desejava o mesmo que

minha irmã, indevidamente perderia para ela.

Uma boneca tinha me aberto os olhos. Aos seis anos, nossa tia

avó nos enviou uma boneca que tinha comprado em Paris. Na carta

que acompanhava o pacote, especificava que se tratava de uma

boneca única no mundo. Era deliciosa, com olhos de cor avelã e uns

cachos avermelhados de cabelo autêntico.


Posto que não tinha filhos, minha tia avó não pensou nos

problemas que ocasionaria enviar uma só boneca para duas

meninas. Cecily e eu começamos a brigar por ela assim que chegou.

Embora se supunha que devêssemos compartilhá-la, e, sem dúvida,

isso teria acontecido cedo ou tarde, brigamos por ver quem brincaria

com ela primeiro. Como Cecily era a mais velha, reivindicou seu

direito sobre a boneca. Pouco importava que tivesse nascido apenas

sete minutos antes que eu. Aqueles sete minutos eram toda uma

vida entre nós e sempre nos separariam.

Assim, foi para ela primeiro. Algo feroz e inflexível brotou em

meu jovem coração ao ver minha irmã acariciando o precioso cabelo

avermelhado da boneca e embalando-a contra seu peito. Desdenhei

a sensação de perder frente a ela e decidi, em um momento

dominada pela inveja e o ressentimento, que faria o que fosse antes

que algo assim se repetisse.

Quando chegou minha vez, neguei-me a tocar aquela horrível

boneca. Pouco importou que Cecily não deixasse de acariciá-la, nem

de falar de quão bonita era, eu me mantive estoica em minha

resolução de não tocá-la. E nunca o fiz. Onze anos tinham

transcorrido e não havia tocado aquela boneca nenhuma só vez,

nem sequer para acariciar seu cabelo. Em uma ocasião, uma

camareira a deixou sobre minha cama por engano, mas nem sequer

então a toquei. Cobri a mão com um lenço, agarrei-a por um pé e a

lancei sobre a cama de minha irmã.

No princípio, só brigávamos por coisas materiais, mas


conforme fomos crescendo a lista se ampliou: habilidades, beleza,

atenções dos jovens. Empreguei a tática da boneca e decidi que era

melhor querer algo distinto do que Cecily perseguia a perder para

ela. Aprendi a ocultar meus desejos ou a modificá-los assim que

descobria os seus.

Não podia fazer nada para ser mais bonita que ela. Mas quando

se sobressaiu no canto, em lugar de tentar igualá-la, neguei-me a

continuar com as lições e dediquei-me à pintura. Quando

demonstrou que tinha nascido para paquerar, menosprezei dito

artifício. Ou evitava falar com os cavalheiros disponíveis, ou lhes

falava com franqueza, o que descobri que não gostavam.

Tinha que ser diferente de Cecily, pois era a única forma de não

me ver inferior a ela. Não podíamos ocupar o mesmo lugar. Igual a

dois cavalos em uma corrida, estava cansada de me esforçar por

entrar no pódio e acabar sempre perdendo. Escolhi uma corrida

distinta, onde perder não fosse uma opção.

Portanto, enquanto ela planejava sua temporada e sonhava com

os lucros que conseguiria por meio do casamento, eu fazia o

contrário. Cecily planejava casar-se com um homem rico que

possuísse um título e terras. Eu sonhava em segredo casar-me com

alguém a quem amasse profundamente e que, por sua vez, amasse a

mim com loucura. Se não encontrava a um homem assim, então não

me casaria nunca.

Tal era minha resolução quando Cecily e eu alcançamos a idade

de ser apresentadas em sociedade. Ela sonhava mudar-se para a


cidade e eu, em troca, só desejava levar uma vida tranquila no

campo. Não invejei sua temporada, simplesmente porque eu não

compartilhava tal pretensão. Eu não aspirava a conseguir um

casamento vantajoso, pois isso teria suposto competir contra Cecily

e ela teria ganho. Nunca quis me converter em uma dama elegante,

já que esse era o papel de minha irmã.

Não obstante, enfrentando a prova de minha avó, dava-me

conta de quão tola seria se perdia uma grande fortuna por não ter

sido nunca tão ambiciosa como minha irmã. Talvez eu não tivesse

planejado ser uma rica herdeira, mas somente uma idiota rechaçaria

a oportunidade de viver mais que confortavelmente durante o resto

de sua vida.

De fato, essa herança me daria a liberdade de poder escolher

um casamento por amor. E o único que tinha que fazer para

consegui-la era demonstrar que era uma jovem elegante. Não devia

ser uma tarefa impossível quando minha avó me tinha concedido a

oportunidade de tentá-lo. Poria nisso todo meu empenho e

conseguiria esse dinheiro que me outorgaria uma liberdade sem par.

Mesmo assim, meu coração abrigava outra esperança mais, a de

que se demonstrasse meu valor, meu pai voltaria para casa. Se

pudesse estar orgulhoso de mim, possivelmente retornasse e me

permitisse retornar ao meu lar. Talvez pudesse convencê-lo a ficar e

me deixar me ocupar dele. Com a herança de minha avó, viveríamos

com desafogo. Meu pai não iria querer que partisse e desejaria ficar

comigo. E nunca mais voltaria a pensar se alguém iria me amar.


Ao pensar em meu pai, recordei onde tinha visto o olhar com

que Philip me tinha contemplado ao sair da sala de jantar. Apoiei o

queixo na mão e relembrei de um dia pouco depois do funeral de

minha mãe em que passei diante do escritório de meu pai e o

surpreendi com um retrato dela na mão. Estava tão concentrado na

imagem que não me viu e fui testemunha de um momento privado

no qual não se viu obrigado a ocultar sua expressão por deferência a

mim. Era exatamente a mesma que tinha visto no semblante de

Philip. Tinha acreditado que se tratava de um olhar de profunda

tristeza; entretanto, agora, depois de tê-lo visto de maneira tão clara

no rosto do jovem, pensei que possivelmente não se tratasse de

tristeza, mas sim de desejo.

Mas não. Devia tê-la interpretado mal ou possivelmente ele

estivesse pensando em outra pessoa. Não havia nenhuma razão

neste mundo para que Philip Wyndham me olhasse com< desejo.

De repente, corei, por isso afastei aqueles pensamentos de minha

mente e me concentrei em escrever uma resposta para minha avó.

Querida avó:

Agrada-me lhe fazer saber que tudo vai muito bem. Aqui há

muitas vacas e os granjeiros me ensinaram ordenhá-las muito

diligentemente. Com sorte, conseguirei dominar a técnica antes

de voltar, de modo que saberei um ofício ao qual poderei recorrer

se não consigo estar à altura de suas expectativas. Entretanto hei

o que aprendi, no momento, sobre como comportar-se de forma


elegante. Uma jovem elegante não deveria insultar um cavalheiro

com o qual pode ver-se obrigada a jantar mais adiante. Se sentir a

necessidade de sair a passear, deveria ir com cuidado pelos

terrenos cheios de barro. Por último, deveria aprender ao menos

uma canção para não morrer de medo se lhe pede que cante. Dê

minhas lembranças a tia Amélia.

Afetuosamente,

Marianne

Sorri ao imaginar a reação de minha avó ao ler a carta.

Certamente conseguiria frustrá-la, embora também era provável que

a fizesse rir. Tinha uma risada gutural a qual sempre se entregava a

contragosto, se é que o fazia. Embora isso a convertia em um prêmio

muito mais valioso. Posto que sempre costumava a reprimir esse

tipo de instinto, conseguir que risse ou lhe arrancar um sorriso era

algo do que me orgulhava.

Nesse particular, Cecily não compartilhava meu talento. Talvez

minha irmã me eclipsasse em outros aspectos, mas nunca tinha

conseguido que os olhos cinzas de minha avó brilhassem com

diversão contida e, sem dúvida, nunca a tinha feito rir. Era um

pensamento mesquinho, embora me alegrasse o coração.

Apesar da resposta frívola que tinha dado a minha avó,

realmente sentia a necessidade de dar um pouco de atenção a seu

encargo. Por esse motivo, depois de selar sua carta, tomei outra

folha de papel para confeccionar uma lista. Se pretendia melhorar,


devia ser honesta quanto aos meus defeitos.

Coisas que devo melhorar:

Deixar de andar por aí dando giros.

Levar um chapéu quando estiver ao ar livre.

Aprender a cantar ao menos uma canção para as noites em

sociedade.

Aprender a paquerar com os cavalheiros.

Pareceu-me suficiente de momento, já que não queria me sentir

ultrapassada. Bem sabia o céu que a última tarefa resultaria

impossível. Entretanto, devia acrescentar uma última coisa; embora

não se tratava de uma tarefa concreta, mas sim de uma diretriz

geral.

Seguir o exemplo de outras jovens elegantes.

Sabia que isso significava ter que me sentar a tomar chá e a

conversar com elas dos temas que lhes interessavam, como os

chapéus, os laços e esse tipo de coisas. Mas se, com isso, conseguisse

que meu pai retornasse, faria o esforço. E se conseguisse não voltar

para Bath, também o faria.

Quando acabei a lista, agarrei a carta e me dirigi escada abaixo.

Ali encontrei à senhora Clumpett, que antes tinha mencionado seu

desejo de ir caminhando até Lamdon, o povoado mais próximo, e

que aceitou me acompanhar a levar minha carta à agência de

correios. Senti-me orgulhosa de mim mesma ao me lembrar de levar

um chapéu.

—Você chegou no momento oportuno. O senhor Clumpett


acabava de me pedir que o acompanhasse a procurar uma espécie

de escaravelho. E embora adore dar passeios pelos bosques, eu não

gosto dos insetos.

Agradeci sua companhia. Era uma pessoa singular, mas ao

mesmo tempo muito agradável. Não tagarelava sobre coisas sem

transcendência como os chapéus ou a moda. Sabia de assuntos sobre

os que nunca tinha pensado e parecia estar à mesma altura que seu

marido no referente a suas ânsias de conhecimento. Tinha-me

gostado de como tinha sido capaz de defender-se no debate que

tinham mantido durante o jantar sobre a perdiz asiática. Não

obstante, estava segura de que ela não era o que minha avó tinha em

mente quando tinha me pedido que me convertesse em uma dama

elegante.

Enquanto caminhávamos juntas para o povoado, percebi que

não se parecia em nada a sua irmã, lady Caroline. A senhora

Clumpett não era mais alta que eu e embora não lhe pudesse fazer

reparos ao seu nariz, seu queixo ou seus olhos, tampouco se

destacava para seu atrativo. Exceto por seus lábios curvados para

cima, tinha um semblante fácil de esquecer.

Lady Caroline, em troca, era toda uma beleza. Tinha

exuberantes cabelos castanhos, os olhos azuis-escuros, uma figura

escultural, maçãs do rosto proeminentes e um nariz aquilino.

Perceber as diferenças que existiam entre elas me fez apreciar ainda

mais à senhora Clumpett. As duas tínhamos algo em comum:

tinham-nos amaldiçoado com irmãs formosas.


Depois de depositar a carta na agência de correios, entrei em

uma loja para comprar um caderno de desenho, alguns lápis, papel

e tintas, assim como uma bolsa para levar tudo. A ideia de pintar

tinha me impregnado tão fundo que sentia a necessidade de fazer

algo a respeito. Além disso, queria levar um pedacinho de

Edenbrooke quando partisse. Era o lugar mais próximo ao paraíso

no qual tinha estado e queria recordá-lo durante toda a vida.

—É artista? —perguntou-me a senhora Clumpett me ajudando

com as compras.

—Não, eu não diria tanto —respondi rindo—. Mas eu gosto

muito de pintar e espero melhorar. Ao fim e ao cabo, é uma das

atividades socialmente aceitas para uma jovem.

—Mmm< —Estudou-me atentamente—. Espero que não se

ofenda pelo que vou dizer, senhorita Marianne, mas acredito que há

coisas mais importantes que o que é socialmente aceitável.

Sorri para mim mesma. A senhora Clumpett podia permitir-se

o luxo de ser um pouco extravagante e um tanto intelectual, já

estava casada e a simples vista parecia ter muitas coisas em comum

com seu marido. Eu, em troca, ainda tinha que assegurar minha

felicidade futura e era consciente de que meu amanhã dependia por

completo de que me convertesse em uma jovem socialmente

aceitável.

—Não acredito que minha avó estivesse de acordo com você —

murmurei.

A senhora Clumpett pôs-se a rir.


—A minha tampouco estava, mas espero que não permita que

as expectativas dos outros dirijam sua vida. —Apoiou com

suavidade uma mão sobre meu braço me obrigando a me deter na

metade do caminho. Voltei-me para ela—. Descobri a felicidade

sendo fiel a mim mesma. Confio em que, ao menos, refletirá sobre

isso.

Assenti com a cabeça. Comoveu-me que se interessasse tanto

por mim para me oferecer um conselho tão sincero.

—Terei em conta. Obrigada.

Um carro que se aproximava pelo caminho me chamou a

atenção e fiquei de lado para lhe dar passagem.

Uma mulher roliça ia dando tombos no assento enquanto

segurava o chapéu com uma mão e agarrava a lateral do carro com a

outra. A mulher levantou o olhar ao passar por nosso lado e ato

seguido puxou o braço do chofer.

—Por favor, detenha-se aqui!

—Mas é a senhora Nutley!

Dirigi-me correndo ao seu encontro. Não tinha tido notícias

delas, por isso tinha suposto que a recuperação de James seguia seu

curso sem sobressaltos.

A senhora Nutley desembarcou do carro com cuidado e se

aproximou de nós com passos curtos mas rápidos.

—Agora mesmo dirigia a Edenbrooke para vê-la.

Tomou a mão e me precavi de que na outra apertava um lenço

enrugado. Por que não estaria na estalagem cuidando de James?


—Não sei o que pensar —começou levando o lenço aos olhos—.

Só queria estirar as pernas e apenas me afastei da estalagem, mas

quando voltei, James já não estava!


Capítulo 12
Sentei-me na beira da cadeira e observei à senhora Nutley

sorver o chá. Parecia mais calma depois de tê-la acomodado no

confortável salão de Edenbrooke, mas lamentava que tivesse

passado tanto tempo preocupando-se com James e pensando se seu

desaparecimento era culpa dela. Lady Caroline se reuniu conosco no

salão e, com delicadeza, formulou algumas perguntas à senhora

Nutley.

—James estava recuperando a saúde?

—Sim, estava-me ocupando muito bem dele. De fato, ontem

veio a visitá-lo o doutor e disse que sua ferida estava quase curada e

que em uns dias poderia voltar para casa.

—Ocorreu algo incomum que pudesse explicar seu

desaparecimento? —perguntou lady Caroline.

—Não, hoje não. —Deixou a xícara sobre a mesa—. Embora

agora que o penso< Ontem sim que aconteceu algo nada usual.

Desci ao piso de baixo enquanto James descansava e vi um

cavalheiro falando com o taberneiro. Perguntou se alguma jovem

tinha passado a noite na estalagem recentemente e o taberneiro

respondeu que sim. Então, perguntou se ia acompanhada e o

taberneiro voltou a responder que sim, que ia acompanhada por sua

camareira. Pensei em você, senhorita Daventry.

—Que aspecto tinha dito cavalheiro? —intervim.


—Pareceu-me bastante arrumado. E me fixei em que levava

uma bengala.

A descrição da senhora Nutley coincidia com a de um bom

número de jovens da região. E uma bengala tampouco era um

acessório incomum.

—Que mais lhe contou o taberneiro? —perguntou lady

Caroline.

—Pois lhe disse que você tinha abandonado a estalagem e que

ia de caminho a Edenbrooke. —Olhou-me com cara de preocupação.

Mordi o lábio. Quem poderia estar me procurando? E para que?

Um salteador normalmente não iria em busca de sua última vítima.

Mas quem mais adivinharia que eu teria passado a noite na

estalagem? E a quem importaria?

***

Pela tarde, reuni-me com Philip na biblioteca com a intenção de

jogar, enfim, a partida de xadrez que tínhamos pendente.

Entretanto, fazia um dia tão esplêndido que quando sugeriu em seu

lugar uma excursão, não pude resistir a tentação. Ele se encarregou

de selar os cavalos enquanto eu ia procurar meu equipamento de

pintura. Encaminhamo-nos para o alto da colina, o mesmo lugar ao

qual tinha me levado durante nossa primeira saída para cavalgar

juntos.

Acompanhou-nos o mesmo cavalariço. Quando chegamos ao

nosso destino, encarregou-se de pôr os cavalos a pastar não muito


longe dali, enquanto Philip e eu nos acomodávamos à sombra da

grande árvore. De onde estava sentada, podia olhar ao redor e

contemplar quase todo Edenbrooke a meus pés. Conversamos

enquanto eu desenhava e, de vez em quando, Philip se contentava

me observar em silêncio. Era um contínuo de aprazíveis momentos

juntos.

Levávamos um momento em silêncio quando Philip me fez de

repente uma pergunta.

—Onde está seu pai?

—Em uma aldeia da França.

Ao pronunciar aquelas simples palavras, invadiu-me a tristeza.

—Tem ideia se pensa em voltar logo para casa?

Estudei-o atentamente antes de responder, surpresa por sua

pergunta. Entretanto, ele não se voltou para mim e não pude ler

nada em seu perfil.

—Não, não tenho ideia de quais são seus planos.

Dessa vez, sim, voltou a cabeça e o fez bem a tempo para

descobrir em minha expressão o broto de tristeza que me tinha

produzido pensar na longa ausência de meu pai. Franziu o cenho e

adotou uma expressão preocupada.

—Quer que retorne?

Deixei escapar um suspiro e arranquei uma folha de grama.

—É óbvio.

Esperava que seu interrogatório acabasse ali, mas não foi assim.

—E ele sabe como se sente?


—Nunca disse, não com tantas palavras ao menos —respondi,

dando de ombros—. Tampouco quis fazê-lo. Se ele for feliz onde

está, deve seguir ali.

—Passa muito tempo preocupando-se com como os outros se

sentem —prosseguiu em voz baixa—. Pergunto-me quanto tempo

dedica a pensar em si mesma. Acaso seu pai merece a felicidade

mais que você?

Inspirei fundo e lutei por devolver minhas emoções ao seu nível

habitual. De algum modo, Philip tinha chegado a desenvolver

durante as horas que tínhamos passado juntos uma habilidade

especial para neutralizar minhas defesas e acessar os segredos que

não compartilhava com ninguém mais. Nessa ocasião, suas palavras

atacaram aos redutos mais castigados de meu coração, despertando

a mais amarga das tristezas.

Philip continuava esperando uma resposta com seu sério olhar

cravado em mim.

—Possivelmente —confessei procurando infligir a minha voz

um tom despreocupado, mesmo que me sentisse a ponto de chorar.

—Não estou de acordo —observou, negando com a cabeça.

Não queria seguir falando daquele assunto.

—Não falemos disso agora. Faz um dia tão espetacular. —

Obriguei-me a sorrir e brandi a folha de grama que tinha na mão

para assinalar a vista diante de nós—. Olhe toda a beleza que tem

aqui. Não prefere desfrutar disto?

—Já a estou olhando —asseverou sem afastar os olhos de


mim—. E estou desfrutando muito —acrescentou com uma piscada

e um sorriso.

Meu rosto foi ruborizando-se ao ritmo que se alargava seu

sorriso. Só tinha feito aquele comentário sobre minha suposta beleza

para ver como corava. Odiava que causasse aquele efeito sobre mim

com apenas me olhar ou me dedicar umas palavras bonitas. E

odiava seu afã por conseguir me sobressaltar, como se eu só fosse

um passatempo para ele.

Franzi o cenho e lhe atirei a folha de grama.

—Não pode falar a sério durante mais de dois minutos?

—O que a faz pensar que não o estou fazendo? —perguntou,

olhando de forma coquete.

Sacudi a cabeça totalmente exasperada. Fazia tudo o que estava

ao meu alcance para dissuadir Philip: tinha-lhe olhado zangada, não

tinha lhe dado atenção e tinha lhe repreendido, mas nada parecia

funcionar. Seguia insistindo em paquerar comigo cada vez que

estávamos juntos.

Acaso não era consciente de que o dia que eu também

paquerasse com ele tudo mudaria? Que tudo se iria ao espaço?

Porque, a partir de então, já não seríamos só amigos, converteríamo-

nos em amigos que paqueram e eu seria uma péssima parceira.

Em minha opinião, não deveria ter nossa amizade em tão pouca

consideração. Ou talvez não significasse para ele o mesmo que para

mim. Possivelmente ele pudesse se permitir o luxo de me perder

como amiga. De repente, senti-me muito desgostada, por isso me


pus em pé e dei um passo atrás.

Philip agarrou a barra do meu vestido.

—Espere —pediu rindo. Baixei o olhar apertando os punhos—.

Por favor, não se vá. —Um sorriso lisonjeador curvava seus lábios

de uma forma arrebatadora—. Não voltarei a fazê-lo.

Bem, ao menos sabia por que estava desgostosa, embora isso de

que não voltaria a fazê-lo< Sim, j{! Ergui uma sobrancelha com

cepticismo.

—Nos próximos cinco minutos —admitiu, rindo.

Tentei continuar zangada com ele, mas parecia tão encantador,

sorrindo para mim de lá de baixo e agarrando meu vestido como o

faria um menino com sua mãe. Nesse momento, não me custou

imaginá-lo menino, com seus comovedores olhos azuis e seus

cachos castanhos. Devia ser adorável. Meu coração se derreteu; teria

que ter sido de pedra para não fazê-lo.

Senti um sorriso tentando surgir em meus lábios e, nesse

preciso instante, soube que Philip sempre conseguiria dissipar meu

mau humor como por arte de magia.

Voltei a me sentar e me concentrei na vista, lutando contra um

sorriso.

—Consegue isso muito fácil, sabia? —disse ao fim.

—O que?

Pude perceber a diversão em sua voz.

—Pôr-me de bom humor, quase por arte de magia.

—Tão bem como a você me faz rir?


—Faço isso?

Voltei-me para ele com verdadeira curiosidade. Não tinha

percebido que tinha me sentado mais perto que antes, por isso ao

me voltar repentinamente e me inclinar em sua direção movida pela

curiosidade, descobri seu rosto a centímetros do meu. Ele ficou

imóvel e teria jurado que conteve a respiração. Recordei nosso

primeiro dia na biblioteca. Também, então, ficou muito quieto, como

se esperasse que eu descobrisse algo nele.

Philip tomou ar como se fosse dizer algo, mas se deteve e, pela

primeira vez desde que o conhecia, vi a indecisão em seu rosto,

como uma capa aguada sobre uma pintura, cobrindo a segurança de

seu olhar. E me surpreendeu. Sempre tinha pensado que sua

confiança não tinha limites.

—Sim —murmurou voltando-se para o outro lado.

Retornei a minha posição. Sentia uma emoção nova e intensa

em meu interior para a qual não tinha um nome, só sabia que me

desestabilizava.

O silêncio entre nós se prolongou mais e mais até perder toda

sua tensão e converter-se em parte do momento que estávamos

desfrutando juntos. Não sentia desejo algum de rompê-lo. Deixei

meu caderno de lado e me reclinei para trás me apoiando sobre as

mãos. O calor da tarde me envolveu como um manto e me senti

sonolenta e a vontade à sombra daquela árvore.

Philip estava estendido no chão com um braço dobrado debaixo

da cabeça e senti inveja. Desejei não ser uma dama com um vestido
para poder fazer o mesmo. Em vez disso, devia me sentar

recatadamente e me assegurar de não mostrar os tornozelos. O calor

fez com que começasse a sentir sono e minhas pálpebras se voltaram

pesadas.

Philip me olhou.

—Parece como se estivesse quase a ponto de adormecer.

—Assim é —confirmei, bocejando.

Ficou em pé e tirou o casaco, depois o dobrou formando um

quadrado e a deixou sobre a grama.

—Se pensa dormir um momento ao ar livre, ao menos deveria

deitar-se e fazê-lo comodamente.

—Não deveria —titubeei olhando o tentador travesseiro que

tinha preparado para mim com o casaco—. Estou certa de que

romperia alguma das regras sobre como ser uma jovem elegante.

—Não contarei a ninguém —assegurou com um amável sorriso

em que não havia nem rastro de brincadeira ou malícia.

Dei uma olhada por cima do ombro. O cavalariço estava

sentado à sombra de uma árvore situada na outra face da colina, de

costas para nós.

Era uma ideia muito tentadora e não pude resistir. Arrumei-me

para que a saia seguisse em seu lugar ao me deitar. O casaco de

Philip cheirava a bosque em um dia do verão, misturado com um

aroma masculino agradável, e resultou ser um travesseiro muito

cômodo. Pus-me de lado e Philip se deitou junto a mim com um

braço sob a cabeça, ao qual me pareceu uma distância prudente,


admirando a paisagem. Aquele caloroso silêncio me envolveu e me

embalou. Acredito que adormeci sorrindo.

Não devia ter dormido muito quando despertei embalada por

uma suave brisa. A grama me fazia cócegas no braço. Ao abrir os

olhos, topei com os de Philip, que havia se voltado para mim e me

observava recostado sobre o cotovelo com uma expressão pensativa.

Quanto tempo levaria me olhando daquela maneira? Um

pensamento penetrou em minha mente: eu gostava de vê-lo com as

mangas da camisa arregaadas, apenas com o colete. Parecia mais

informal, mais em seu elemento, mais como eu imaginava< mais

descontraído.

—Que tal dormiu?

—Muito bem, obrigada —respondi com um sorriso de

satisfação.

Uma brisa soprou sob a árvore e soltou uma mecha de meu

cabelo, que foi parar justo diante de meu rosto. Antes que tivesse

tempo de me mover, Philip agarrou a mecha e colocou-a atrás da

orelha. Seus dedos me acariciaram a bochecha e o pescoço em um

gesto surpreendentemente íntimo que me acelerou o pulso e

conseguiu com que o rubor se espalhasse por minhas bochechas.

Seu olhar adotou um ar que nunca antes tinha visto nele; era mais

que amabilidade, era algo distinto | seriedade< Refletia intimidade,

doçura e preocupação. Ninguém tinha me olhado nunca assim.

Senti-me desconcertada e confusa, tanto por seu gesto como por

minha reação. Fui consciente de repente da postura inapropriada em


que me encontrava, deitada a poucos centímetros de um homem. O

que pouco antes tinha me parecido algo inofensivo e inocente, agora

me parecia muito, quase escandaloso.

Ergui-me e olhei a grama com o cenho franzido enquanto

minha timidez crescia por segundos. Senti os olhos de Philip

cravados em meu rosto quando se incorporou ao meu lado e

ruborizei ainda mais pelo embaraçoso do momento. Não sabia o que

dizer, nem o que fazer e me sentia uma autêntica inepta. Aquela

situação era horrível.

—Ronca, sabia? —soltou Philip de repente em um tom

despreocupado.

Ergui o olhar imediatamente.

—Isso não é certo —gritei.

—Sim, que o é —rebateu com o brilho habitual de seus olhos.

—Ninguém nunca me disse que ronque. Estou certa de que se

equivoca.

—Ronca como um homem corpulento e gordo —acrescentou

com uma careta.

Deixei escapar uma risada. Sabia que estava mentindo.

—Retire-o já —ordenei, dando-lhe um golpe no ombro—. Você

é tão atrevido. Que cavalheiro diz a uma dama que ronca?

—E que dama adormece na presença de um cavalheiro? —

soltou ele arqueando uma sobrancelha e me olhando como se tivesse

feito algo escandaloso.

Meu rubor se intensificou de novo.


—Mas você disse que podia fazê-lo —espetei à defensiva.

—Não, disse que não o contaria a ninguém —concluiu, rindo.

Franzi os lábios para evitar sorrir e o fulminei com o olhar. Ele

sorriu com picardia. De repente, para minha surpresa, senti a

imperiosa necessidade de beijar aqueles lábios, com ou sem o pícaro

sorriso.

Baixei o olhar, confusa e tão surpreendida de mim mesma que

me custou retomar o fio de meus pensamentos. Nunca antes tinha

sentido desejo de beijar um homem; ao menos, não a um em

concreto. Agarrei o casaco de Philip, pus-me em pé e sacudi a grama

que ficou grudada nele.

—Obrigada pelo travesseiro —disse educadamente

estendendo-lhe quando se levantou.

—Pode dispor dele sempre que quiser —respondeu-me com

um olhar tão libertino que me deu vontade de esbofeteá-lo.

Não obstante, limitei-me a lhe fulminar com o olhar pondo os

braços em jarras.

—Philip Wyndham! Esse é o comentário mais inapropriado que

já ouvi e se sua mãe estivesse aqui, pode estar certo de que receberia

a maior reprimenda de sua vida. De fato, estou pensando em ir

contar-lhe quão atroz, incorrigível e escandaloso conquistador tem

por filho.

Não mostrou nem o mínimo sinal de mortificação e se limitou a

sorrir.

—Se minha mãe tivesse estado aqui, não o teria dito. Era
somente para os seus ouvidos. —Terminou seu comentário me

piscando um olho.

Fiquei olhando-o fixamente. Não podia acreditá-lo! Nada o

detinha. Sua paquera desavergonhada não conhecia limites.

—Uf<!

Apertei os punhos e sapateei, deixando-me levar pela

frustração.

Inclinou a cabeça; seus lábios vibravam.

—Acaba de sapatear?

Franzi os lábios com firmeza, mas o brilho divertido de seus

olhos foi irresistível e me escapou uma risada. Os ombros de Philip

começaram a tremer e de repente ambos estávamos rindo como

naquela primeira noite na estalagem. Ri até que a garganta doeu.

—Bom, alegra-me ver que seguiu meu conselho sobre sapatear

—disse, rindo—, embora, na realidade, não ajuda muito.

—É você o homem mais irritante que conheci.

E o dizia a sério, embora ele se limitou a sorrir. Certamente.

Nada o afetava quando se encontrava de tão bom humor.

—Fica tão adorável quando me insulta!

Dei meia volta com brutalidade e me encaminhei para os

cavalos.

Que homem tão escandaloso, pouco decoroso e odioso! Nunca

me deixaria tranquila; nunca se conformaria sendo só meu amigo; e

sempre me faria sentir infantil e sobressaltada com sua paquera

infernal! Sentia-me alterada e envergonhada por um milhão de


razões, entre elas o ter pensado em beijar aquele homem

escandaloso, pouco decoroso e odioso.

Pois bem, pensava ir dali. Mostraria quão bem montava e o

pouco que necessitava sua companhia, sua paquera ou suas

brincadeiras. Despachei o cavalariço com uma mão quando o vi vir

correndo para mim. Não necessitava da ajuda de homem nenhum.

Soltei Meg e então me fixei nos estribos. Nunca a tinha montado

sem a ajuda de um montador e em seguida me dei conta de que não

poderia fazê-lo sozinha. O estribo mais baixo me chegava à altura

dos ombros.

Ouvi Philip aproximar-se e me voltei para ele a contragosto,

embora não o olhei à cara. Seu lenço ficava à altura dos olhos e era

um bom substituto para não encará-lo diretamente.

—Parece que vou necessitar ajuda —murmurei furiosa por não

poder desaparecer com o dramatismo que tinha planejado.

Deteve-se diante de mim, mas em vez de formar com suas mãos

um degrau para me ajudar a montar, colocou-as em minha cintura.

Contive a respiração e ergui o olhar, surpresa pela força como sentia

pulsar o coração no peito e a forma como me tinha arrepiado a pele

sob suas mãos fortes. Seus olhos tinham adquirido um tom mais

escuro< quase azul marinho. Seu olhar era tão doce como uma

carícia.

—Ajudarei a montar se perdoar minhas brincadeiras. —Falou

com voz suave e um ar de arrependimento em seu sorriso—. Já sei

que não é nenhuma desculpa, mas é extremamente difícil me


comportar como deveria quando estou com você, Marianne.

Senti como se me faltasse o ar. Minha irritação se esfumou

imediatamente e me deixou com a cabeça um pouco aturdida.

—Quer dizer que tiro o pior de você? —perguntei sorrindo e

pronta para me deixar conquistar por seus encantos.

Inspirou e conteve a respiração. Quase pude ver as palavras

preparadas para sair de seus lábios, mas então, pela segunda vez

naquele dia, vi um brilho de dúvida em seus olhos. Quando deixou

escapar o ar soou como um suspiro.

—Algo assim —murmurou.

O que gostaria de dizer na verdade?

Então, me levantou com a mesma facilidade com a qual se

levanta uma criança e me pôs com delicadeza sobre a sela. Estava

tão desconcertada por suas palavras que fiquei olhando ao vazio

durante um minuto, até que percebi que ele também tinha montado

e me esperava.

—Não deve se preocupar. Não direi a ninguém que ronca —

comentou quando o alcancei.

Nesse momento, obsequiou-me com um sorriso zombador e

não pude evitá-lo. Pus-me a rir.

Era consciente de que não deveria fazê-lo, de que isso só o

animaria a continuar comportando-se daquela forma atroz no

futuro.

Não obstante, a risada brotou antes que pudesse detê-la.

Pareceu muito agradado e desafiou-me para uma corrida.


Ganhou, por certo. Ele sempre ganhava.
Capítulo 13
Na manhã seguinte, movida pelo propósito de seguir o

exemplo de outras damas elegantes, fiquei no salão com lady

Caroline, mesmo que minhas tendências naturais me

impulsionassem em outra direção. Teria preferido caminhar pelo

bosque ou cavalgar ou fazer qualquer coisa que não fosse estar

confinada em um salão, quieta em uma cadeira e escutando a

conversa educada de mulheres educadas. Mesmo assim, aquele

sacrifício era uma das mudanças que pensava introduzir para

melhorar meu comportamento. Lady Caroline pareceu contente de

que a acompanhasse.

A terceira visita do dia foi a da senhora Fairhurst e sua filha, a

senhorita Grace, que viviam só a cinco quilômetros de Edenbrooke.

A senhora Fairhurst entrou no salão com ar pomposo e inspecionou

todos os cantos da elegante sala com um olhar incisivo e descarado.

Levava a cabeça inclinada com gesto altivo. Tinha conhecido a

outras damas desse tipo em Bath. Ia bem vestida, embora parecesse

como se se esforçasse por parecer elegante. Seu laço era muito

carregado, sua risada muito alta e suas maneiras muito solenes.

Resultava evidente que tinha prosperado; provavelmente fora a

filha de um comerciante rico. Soube que eu não gostaria assim que a

vi entrar.

A senhorita Grace, fiel ao seu nome, era a graça personificada.


Era alta e esbelta, tinha o pescoço comprido, exuberantes cachos

castanhos e grandes olhos verdes. Caminhava com solenidade e me

saudou com uma voz suave e refinada, desprovida de emoção. Ao

me precaver de quão branca tinha a pele, soube que nunca saía sem

o chapéu que eu tão frequentemente esquecia. Também estava

segura de que não era o tipo de jovem que ri a gargalhadas. Era

evidente que me achava na presença de uma jovem rica, elegante e

refinada; o arquétipo de jovem no qual minha avó desejava que me

convertesse. Senti uma pontada de inferioridade.

A senhora Fairhurst centrou sua atenção em mim quando lady

Caroline serviu o chá.

—Viajou muito, senhorita Daventry? —perguntou arqueando

as sobrancelhas e me olhando por cima de sua xícara.

—Não, não muito.

—Esteve em Londres alguma vez?

—Não —respondi com o pressentimento de que me estavam

estendendo uma armadilha.

Pareceu surpresa, de um modo exagerado, e se voltou para a

senhorita Grace, que estava sentada ao meu lado, com os olhos

arregalados.

—Nunca esteve em Londres? Que lástima. Deve ter ouvido

quão admirada foi minha Grace na última temporada. Foi uma das

jovens mais cortejadas da cidade. Não é assim, lady Caroline?

Esta sorriu de forma educada.

—Ah, sim?
—É óbvio! Não pode tê-lo esquecido. Onde está sir Philip? Ele o

confirmará; dançou várias vezes com minha Grace, não é certo?

A aludida assentiu e a senhora Fairhurst continuou com seu

discurso, embora deixei de lhe dar atenção. Minha mente ficara

presa em uma palavra e meus pensamentos se negavam a continuar.

Tinha chamado «sir» Philip. Mas ele não era o mais velho, era

Charles. Charles ostentava o título, não Philip. Por que lady

Caroline não a tinha corrigido?

A senhora Fairhurst riu pelo nariz.

—Senhorita Daventry, sinto tanta lástima por você. Nunca ter

ido a Londres! De verdade, você tem que ver um pouco do mundo

se espera converter-se em uma jovem interessante, capaz de atrair

um marido.

Sabia que eu não gostaria dessa mulher. Pensei em uma

resposta que a pusesse em seu lugar, mas logo decidi que

possivelmente seria melhor não dizer nada, já que era convidada de

lady Caroline. Assim baixei o olhar, bebi um gole de meu chá e

pensei em por que teria chamade Philip de sir Philip.

Lady Caroline pigarreou para chamar sua atenção.

—Senhora Fairhurst, ouvi que está fazendo melhoras na casa.

—Oh, sim, sim, certamente.

E começou a recitar com todo luxo de detalhes e voz alta as

mudanças que estava levando a cabo, enquanto lady Caroline a

escutava com um ar de fingida paciência.

A senhorita Grace se dirigiu para mim amparada pela voz de


sua mãe. Seus olhos refletiam amabilidade e sorria indecisa.

—Estava desejando conhecê-la. Espero que possamos ser

amigas.

Quase me engasguei com o chá. Observei-a atentamente antes

de responder, embora só percebi inocência em seus olhos.

—Eu adoraria. —Inspirei fundo. Por que de repente fazia tanto

calor ali? Teria acendido alguém o fogo? Esclareci a garganta—.

Ouvi sua mãe referir-se a sir Philip, mas não está em um engano?

Não é sir Charles o mais velho?

Pôs cara de surpresa.

—Bom, sim, é óbvio. Mas morreu faz cinco anos.


Capítulo 14
Minha cabeça girava e era incapaz de entender o que acabava

de me revelar a senhorita Grace. Esta lançou um olhar a sua mãe,

que seguia falando em um tom o suficientemente alto para abafar

nossa conversa.

—Diga, como está sendo sua estadia? —perguntou em um

sussurro.

Obriguei-me a me concentrar na jovem elegante que estava

sentada a meu lado. Pensaria em Philip mais tarde.

—Muito agradável —respondi em um tom apagado.

—Não acredito que eu pudesse me sentir confortável aqui —

acrescentou baixando a voz ainda mais.

Seu comentário me chamou a atenção.

—Ah, não?

—A esta altura, já deve saber que sir Philip é um sedutor

incorrigível, incapaz de passar perto de uma dama sem lhe fazer um

elogio. Sei que não deveria levá-lo a sério, mas resulta tão

encantador que é muito fácil sentir-se adulada, não lhe parece?

Sabia a que se referia, adorava paquerar. Tinha-o sabido desde

o começo. Assenti fracamente.

—Minha mãe diz que onde vai deixa atrás de si um rastro de

rubores —sussurrou—, assim como uma esteira de corações

partidos. Não sem motivo, é o solteiro mais cobiçado em Londres a


cada temporada.

Podia entender por quê. Já me tinha parecido atraente antes de

saber de seu título, sua propriedade ou sua fortuna. Se

acrescentávamos isso, era fácil imaginar por que era a presa mais

perseguida da temporada.

—Ainda não me partiu o coração —continuou—. Embora

acredite que para ele não é mais que um jogo. Quer ver quantas

damas caem rendidas a seus pés. Coleciona corações, embora não

tem interesse em conservar nenhum. —Baixou o olhar para sua

xícara de chá—. E, claro, muitas delas vêm aqui com a esperança de

lhe jogar o laço, embora me pareça que a maioria só as move a

ambição<

Deixou que sua voz fosse se apagando e me olhou com

expectativa. Franzi o cenho ao me dar conta do que insinuava. De

verdade pensava que eu tinha vindo a Edenbrooke com essa

intenção?

—É meu dever tranquilizá-la. Foi Lady Caroline quem me

convidou e antes de minha chegada sequer tinha ouvido falar de sir

Philip.

Em realidade, teria gostado de acrescentar que não tinha

ouvido falar dele até essa mesma manhã.

—É óbvio que não. —Apoiou sua mão sobre meu braço com

delicadeza—. Só pretendia pô-la de sobreaviso com minhas

palavras, pois não queria vê-la ir com o coração partido como todas

as demais.
De repente, vi com clareza sua manobra. A senhora Fairhurst,

em sua ambição por melhorar de posição, queria que sua filha

conseguisse um título. Devia ter me visto como uma ameaça e tinha

pensado que era melhor me dissuadir. Mas eu sabia algo que elas

desconheciam. Sabia que Cecily estava decidida a conseguir Philip.

Se tinham me considerado uma ameaça, teriam um ataque quando

conhecessem minha irmã, que era ao menos duas vezes mais bonita

que eu e muito mais elegante. Chegaria com seu encanto, sua beleza

e seu talento e Philip se apaixonaria loucamente por ela, não me

cabia a menor dúvida. A senhorita Grace não teria nenhuma chance.

Ninguém teria.

—Obrigado pela advertência —acrescentei, lembrando-me de

falar em voz baixa—, embora meu coração não corra perigo algum.

De fato, posso lhe prometer com toda segurança que nunca levarei

sir Philip a sério.

Meu coração estava frio como gelo.

—Tranquiliza-me ouvir isso —acrescentou com um sorriso.

Aquelas deviam ser, sem dúvida, as primeiras palavras sinceras

que me dizia.

Lançou um olhar a sua mãe, que tinha feito uma pausa em seu

estridente monólogo. Possivelmente, aquele fora o sinal acordado

para quando tivesse completado seu objetivo, pois, ato seguido, a

senhora Fairhurst se voltou para lady Caroline.

—Bom, que visita tão agradável, embora temo que devemos ir.

Atrevo-me a dizer que a veremos muito em breve.


As duas mulheres ficaram em pé e saíram do salão, a senhorita

Grace com elegância e a senhora Fairhurst com condescendência.

Aproximei-me da janela para ver como se iam. Cada uma delas, a

seu modo, tinha me roubado um pouco da felicidade que sentia. E

por isso as odiava um pouco às duas.

Lady Caroline se aproximou de mim.

—Espero que não tenha permitido que o comentário da senhora

Fairhurst lhe afete.

Neguei com a cabeça. Os insultos não significavam

virtualmente nada comparados com o que a senhorita Grace tinha

me contado, embora o motivo pelo qual aquela revelação me tinha

afetado tanto era um mistério para mim. Não entendia meu próprio

coração, nem a minha cabeça, e o único que desejava era um pouco

de tempo a sós para dar sentido a tudo aquilo.

—Sua estadia está sendo agradável?

Sua pergunta recordou a da senhorita Grace. Tirei de minha

mente às Fairhurst e o que tinha descoberto.

—Sim —respondi com um sorriso—. É uma casa muito bonita e

adoro as terras que a rodeiam.

Lady Caroline me sorriu com doçura e tive a sensação de que

sabia algo sobre mim que eu ignorava.

—Sabia que sua mãe esteve em Edenbrooke antes que você

nascesse?

Tinha conseguido toda minha atenção.

—Sim? Nunca me disse isso.


Ela assentiu.

—Distanciamo-nos pouco depois de sua visita e o lamentei

durante anos.

—O que ocorreu? Tiveram uma discussão?

Nunca tinha perguntado a minha mãe o que tinha acontecido

entre elas.

—Oxalá, isso teria tido solução. Não, foi algo muito mais sutil,

algo que por desgraça não entendi até que foi muito tarde. Naquela

época, eu estava rodeada de bebês e ela estava há muito tempo

desejando ter um filho. —Suspirou—. Acredito que lhe resultou

bastante duro ser testemunha da vida que eu levava, porque eu

tinha conseguido o que ela mais ansiava.

Tentei recordar alguma alusão de minha mãe a esse assunto.

—Eu nunca< Nunca a ouvi falar disso.

—Não, suponho que não o fez.

Seu olhar suavizou e se encheu de ternura e um pouco de

tristeza.

Permaneci em silêncio durante um momento e pensei em

minha mãe desejando o que lady Caroline tinha.

—Durante sua estadia pintou um quadro —observou,

assinalando a paisagem pendurada na parede em frente—. Segue

sendo um de meus favoritos.

Contive a respiração.

—Deveria tê-lo sabido. Estive admirando-o na minha primeira

noite aqui.
Cruzei a sala e contemplei o quadro. Lady Caroline se

desculpou alegando que tinha que falar com a governanta. Assenti,

sem afastar o olhar da pintura e apenas ouvi a porta quando se

fechou atrás dela. Deveria ter reconhecido o estilo de minha mãe,

seu toque estava por toda parte. Senti tanta saudade. A dor se foi

fazendo mais e mais intensa até que ameaçou me transbordar por

completo. E então, sem mais, não pude suportar um minuto mais

estar encerrada.

***

O pomar me recebeu com sua quietude e silêncio

característicos. Sentei-me sob uma árvore e pensei no que a

senhorita Grace tinha me revelado e no que significava para mim.

Obviamente, significava que Cecily estava apaixonada por Philip,

não por Charles, e que era com ele com quem pensava se casar. Mas,

como era possível que não tivesse me dado conta de que Philip era o

senhor da casa? Estava ali há quase uma semana. Certamente que

durante esse tempo tinha sido testemunha de mais de um sinal de

sua posição.

Pus-me em pé e caminhei de um lado para o outro, enquanto

rememorava alguns momentos em que deveria me ter parecido

óbvio quem era. Uma manhã, tinha passado horas falando com o

administrador que ajudava a gerir a propriedade. Lady Caroline lhe

tinha pedido permissão para celebrar o baile. E pode que inclusive

tivesse ouvido alguém chamá-lo «sir Philip» em algum momento.


Por que não tinha ligado os fatos?

Naquele dia, o pomar não me resultava um lugar acolhedor e

protetor. A serenidade e o consolo que estava acostumada a achar

sob o amparo de suas árvores tinham desaparecido. Apertei o passo,

embora não conseguisse me libertar da inesgotável energia que me

invadia. Expus-me várias perguntas: por que não tinha reconhecido

a verdadeira identidade de Philip? Por que aquela revelação me

tinha alterado tanto? E por que meu coração me parecia um

estranho? Por desgraça, não achei a resposta a nenhuma delas.

Deixando-me levar pela frustração, arranquei uma maçã do

ramo que havia sobre minha cabeça e lhe dei uma dentada. Estava

muito ácida para comê-la, por isso a cuspi e atirei a fruta contra uma

árvore próxima. Falhei. Um impulso repentino se apoderou de mim,

arranquei outra maçã e a atirei, esta vez com mais força, contra a

mesma árvore. Golpeou o tronco com um zas muito satisfatório.

De fato, pareceu-me tão satisfatório que tive que fazê-lo outra

vez. E outra. Não tinha nem ideia de onde vinha aquele impulso, só

sabia que tinha duas opções: lançar aquelas maçãs tão forte quanto

pudesse ou confrontar uma verdade para a qual não estava

preparada. Decidi-me pelas maçãs e as fui jogando cada vez com

mais força até que o ombro começou a doer e o chão ao redor de

meu objetivo acabou coberto de frutas esmagadas. Quando por fim

me detive, a verdade que tinha estado evitando se apresentou a mim

com a mesma clareza com que todas aquelas maçãs que tinha

estragado.
Minha estadia em Edenbrooke estava arruinada, junto com

tudo que tinha encontrado ali: a felicidade que tinha descoberto, os

pedacinhos de mim mesma que tinha recuperado, a amizade e o

sentimento de pertencimento<; tudo. Fechei as mãos como se

tentasse apanhar algo invisível, sem perder de vista as maçãs

destroçadas a meus pés. Uma notícia insignificante tinha mudado

tudo. Philip era agora o mais velho, possuía o título, a propriedade e

a fortuna familiar, e era o objeto do afeto de Cecily. E eu? Eu nunca

tomava parte na mesma corrida em que minha irmã participasse.

Philip era como aquela preciosa boneca de minha infância. Minha

irmã tinha sido primeira a vê-lo e eu teria que fingir que ele nunca

tinha me interessado.

Não é que estivesse interessada em me casar com ele, nem

sequer tinha pensado em Philip desse modo. —Bom, exceto por

aquela estranha necessidade de beijar seu pícaro sorriso—. Mas se

converteu em meu amigo quando não tinha nenhum. E um amigo

como ele, que me conhecia e me aceitava e em quem podia confiar,

era um tesouro, um tesouro muito valioso. Destroçava-me a ideia de

ter que renunciar a ele. Em meu interior brotou o ressentimento e de

repente voltava a ter seis anos e estava zangada com Cecily por

pedir a boneca antes que eu. Mas Philip era muito mais que um

brinquedo, Philip era<

Interrompi-me em seco. Não me faria nenhum bem definir o

que era para mim, pois o único que importava é que nunca seria

meu.
Afastei-me do pomar, inquieta e insatisfeita. Não tinha fome,

nem desejava companhia. De fato, o que queria era estar sozinha e

com a mente ocupada, e então me ocorreu o plano perfeito. Corri a

meu quarto, recuperei a bolsa com meu equipamento de pintura e

saí da casa sem dizer a ninguém onde ia. Nem sequer esperei que o

cavalariço selasse Meg, eu mesma o fiz, e não me detive até chegar à

colina. Apeei, inspecionei o lugar em busca da mesma perspectiva

que minha mãe tinha pintado e me sentei sobre a grama à sombra

da grande árvore.

Era virtualmente o mesmo lugar em que Philip e eu tínhamos

estado no dia anterior e, entretanto, tudo era diferente agora.

Horas mais tarde, deixei o pincel, desentorpeci os ombros e me

afastei um pouco para avaliar minha aquarela com olho crítico.

Tinha captado toda a essência de Edenbrooke: a simetria da casa, a

ponte, o rio, o pomar. Todo isso formava parte do fundo da cena.

Em primeiro plano, podia ver-se a árvore sob a qual Philip e eu

tínhamos descansado na colina; junto a ele uma silhueta solitária. A

jovem estava de costas ao observador, contemplando Edenbrooke

com uma mão apoiada no tronco da árvore. Em um arranque de

vaidade, tinha-a pintado com o cabelo solto e tinha lhe dado a cor

do mel. Mesmo que não lhe visse o rosto, era óbvio por sua postura

que sentia nostalgia.

O quadro refletia à perfeição o que tinha desejado plasmar: a

sensação de solidão ao contemplar tudo que desejava, sabendo que


estava fora de meu alcance. Era, sem dúvida nenhuma, o melhor

quadro que tinha pintado. Minha mãe teria estado orgulhosa dele...

E de mim.

Deixei escapar um suspiro e sequei uma lágrima errante que

tinha escapado. Ter derrubado por completo meu coração sobre o

papel me ajudava a aliviar a dor que sentia; mas ao mesmo tempo,

ver-me ali, desejando o que não podia ter me atravessou o coração e

rompi a chorar. Não o fiz durante muito tempo, estava acostumada

a enterrar a dor e a enfaixar as feridas de meu coração, embora sim

que me deixei levar um pouco.

Depois de chorar, senti-me com mais controle sobre meu

coração e este não protestou tanto quando lhe pedi que se

comportasse. Disse-lhe: «Philip é de Cecily. Já não pode ser seu amigo,

nem sair a cavalgar contigo, nem ser seu confidente. Não pode voltar a ser o

eixo de seus dias. Deve ser pouco mais que um conhecido. E tudo deve

mudar antes de que chegue Cecily. Deve romper sua amizade com ele,

afastar-se dele. É o melhor. E sob nenhum conceito chorará por ele».

Meu coração me obedeceria, estava segura. Só tinha que me

manter firme com ele.

Quando a pintura secou, assim como minhas lágrimas, coloquei

tudo na bolsa, procurei um toco onde subir para poder montar e

voltei para o estábulo. Não tinha sido muito consciente do passar do

tempo e me surpreendi ao comprovar que o sol estava a ponto de

cair. Não deveria ter estado fora tanto tempo sozinha. Tinha perdido

a hora do chá e meu estômago rugiu ao dar-se conta. Desmontei


quando cheguei em frente ao estábulo e guiei Meg na sombra do

edifício. Estive a ponto de me chocar com Philip.

—Onde esteve, diabrete? —perguntou.

Não esperava vê-lo e tive que recordar minha resolução de não

sermos mais que conhecidos. Esse era um momento tão bom como

qualquer outro para começar. Sorri e tentei dotar minhas palavras

de um ar desenvolto.

—Recorda-me muito a minha última babá. Ia a alguma parte?

—Sim, procurá-la.

Nunca antes o tinha ouvido falar de forma tão brusca. Pressenti

que seria melhor não saber o motivo de seu tom de voz.

Romper nossa amizade seria mais difícil do que esperava.

Tinha que me esforçar muito para que minha voz soasse tranquila e

indiferente.

—Ah! Bom, pois aqui me tem.

Coloquei Meg em sua baia e comecei a lhe afrouxar os arreios

com a esperança de que Philip me deixasse sozinha. Meu controle

estava começando a fraquejar e minhas mãos tremiam devido ao

nosso encontro inesperado.

Philip me seguiu e estendeu a mão para pegar a fivela. Tirou-a

de minha mão e me fez girar para encará-lo. Meu coração escapou

de todas suas ataduras e partiu a galope.

Seu semblante estava meio oculto pelas sombras. Não podia lhe

ver os olhos, mas sua boca tinha um ricto sério.

—Partiu com Meg há horas sem dizer a ninguém onde ia. E se


tivesse acontecido algo? E se tivesse ficado ferida? Como a teria

encontrado?

Olhei os sapatos. Sentia-me triste e culpada ao mesmo tempo.

—Sinto muito.

Permaneceu calado, como se esperasse que acrescentasse algo

mais, mas não o fiz, com a esperança de que meu silêncio pusesse

fim à conversa. Quando voltou a falar, sua voz seguia dominada

pela frustração.

—Marianne, possivelmente não parou para pensar em que sou

responsável por você, por sua segurança e seu bem-estar, mas

asseguro que eu penso nisso todos os dias. Como poderia encarar

seu pai se lhe acontecesse algo enquanto está sob meu cuidado?

Assim que era uma responsabilidade para ele, também me

consideraria uma carga? Detestava a ideia.

—Não pensei —murmurei.

—Sabe no que eu estive pensando?

Ergui o olhar e neguei com a cabeça. Começava a me sentir um

pouco assustada, pois nunca antes o tinha visto tão aborrecido.

Inspirou fundo.

—Temia que tivesse sofrido a mesma sorte que sua mãe.

Suas palavras me provocaram uma pontada de dor, como se

tivesse me golpeado, e afastei a mão com brutalidade.

—Não precisava usar isso contra mim, Philip. Disse que o

sentia! —Falei com muita dureza.

Ele se afastou um pouco. Baixei o olhar ao chão, uma perigosa


onda de emoções estava ganhando e sentia uma ardência nos olhos

que me avisava da chegada de mais lágrimas. Fez-se um silêncio

incômodo entre nós. Engoli e tentei recuperar o controle de minhas

emoções.

—Perdi a noção do tempo, embora honestamente tampouco

pensei que alguém se preocuparia comigo —acrescentei em um tom

muito mais calmo.

—Ninguém?

Levantei o olhar. Seus olhos brilhavam com fúria, minha

desculpa só tinha piorado as coisas. Aproximou-se um pouco mais.

—Não disse que alguém estivesse preocupado por você,

Marianne; falei por mim, eu estava. E isso não significa nada para

você?

Philip me olhava com muita intensidade, como se estivesse

procurando algo importante. Em seu olhar não havia rastro de

brincadeira ou paquera e a verdade é que não estava acostumada a

essa faceta dele. Tinha sido testemunha de sua atitude calma, mas

não tinha visto antes essa intensidade que me fazia sentir como se

entre nós houvesse um edifício em chamas. Encolhi os ombros,

consciente de que isso não resolvia nada, mas não sabia que outra

coisa dizer.

Baixou o olhar e chutou o chão com a bota. Deu um passo atrás

e logo outro. Ao observar aqueles sinais de intranquilidade nele,

comecei a me inquietar a minha vez. Nunca antes o tinha visto tão

vencido pelo desassossego.


—Marianne< —começou enfim com voz suave e profunda.

Elevou o olhar e seus olhos azuis cintilaram com intensidade,

mesmo na penumbra—. Eu lhe importo?

Algo saltou em meu interior.

—Como?

—Ouviu-me. —Sua voz seguia sendo um sussurro, mas tinha

ganho em segurança e inflexibilidade. Seus olhos não pensavam me

deixar escapar—. Importo-lhe? Importam-lhe meus sentimentos?

Suas palavras revoaram até meu coração e o fez disparar. Olhei

para o outro lado. «Responde que não», disse-me. «Responde que não.»

Seria algo rápido e fácil e com isso conseguiria o resultado que

andava procurando. Entretanto, por muito que me esforçasse por

formar as palavras, meu coração não me deixava falar. Aproximou-

se mais de mim? Não era muito pequena aquela baia? Muito

pequena. Definitivamente, muito pequena, já que por alguma razão

Philip se viu obrigado a apoiar sua mão esquerda na parede que

tinha as minhas costas, me apanhando muito perto de seu corpo.

Dei meio passo atrás, mas minhas costas se chocaram com a

parede. Ali fazia muito calor e Philip estava muito perto. Sem

pensar, apoiei a mão sobre seu peito com a intenção de afastá-lo;

mas assim que o toquei, fiquei petrificada. O único que pude fazer

foi observar como minha mão subia e baixava ao compasso de sua

respiração, enquanto meu coração escapulia de todos meus intentos

de encurralá-lo. Tinha que afastar Philip. Já. Apoiei minha outra

mão sobre seu peito esperando que me proporcionasse a força que


necessitava, mas isso piorou ainda mais as coisas. Meus

pensamentos se dispersaram por causa das emoções que circulavam

por todo meu ser.

Seguia esperando uma resposta. Mas se tratava de uma

pergunta impossível, tão impossível como a que tinha me

formulado durante minha primeira noite em Edenbrooke, sobre se

isto era ou não normal. Tinha que cortar os laços que nos uniam

antes de que chegasse Cecily. Ela era minha irmã, minha irmã

gêmea, minha outra metade. Era o sol de minha lua. Era o único

membro de minha família que ainda se preocupava comigo, que

ainda me queria. Não só não podia trai-la, mas não pensava fazê-lo.

Fixei o olhar nos botões de seu casaco e tomei ar.

—Sssim, certamente que me importam seus sentimentos, Philip.

Foi para mim< um grande amigo e um anfitrião muito generoso.

Ficou totalmente imóvel.

—Olhe para mim, Marianne —pediu em um sussurro.

Ergui o olhar até seu lenço, mas não me atrevi a ir mais adiante.

—À cara, por favor —particularizou com um suspiro de

exasperação.

Não obstante, não podia. Nesse momento havia muito em jogo

entre nós e isso me aterrorizava.

Elevou uma mão até meu rosto, colocou seus dedos sob meu

queixo e o levantou com delicadeza. Tive que jogar a cabeça para

trás para lhe olhar. O roce de seus dedos me queimava, as bochechas

me ardiam e o coração ameaçava sair do meu peito. Um fogo se


propagava em meu interior ameaçando consumir a mim e a minhas

boas intenções.

—Um bom amigo? —perguntou quando finalmente olhei em

seus olhos—. E um anfitrião generoso? Isso é tudo?

Tinha falado com amargura e uma pontada de dor me

atravessou o coração.

Sem prévio aviso, seu olhar me apanhou. Estava tão perto< O

suficiente para me permitir descobrir aquela importante e formosa

verdade que ocultava em seus olhos. Precisei de toda minha

concentração para que minhas mãos não subissem por seu peito, por

seus ombros, por seu pescoço<, para não enredar meus dedos em

seu cabelo e atrair seu rosto para mim<

Pelo amor de Deus! O que me acontecia? Philip era meu amigo,

apenas isso. Então, por que de repente me custava tanto acreditar

que não era algo mais? Por que era muito mais fácil acreditar que

estava perdendo nesse «algo» que tinha sentido na biblioteca aquele

dia de chuva?
Capítulo 15
Inspirei fundo tentando clarear a mente. Não podia me deixar

enganar pelos ardis de Philip, como tantas outras mulheres antes

que eu, nem mesmo quando me parecesse inevitável. Minha

lealdade para com minha irmã era mais importante que a atração

que sentia.

—Sim. Isso é tudo.

Obriguei-me a encará-lo enquanto pronunciava essas palavras

para que acreditasse que eram certas.

Uma sombra cruzou por seus olhos e então levantou o olhar e o

fixou em algum ponto por cima de minha cabeça. Percebi que em

seu interior se estava travando uma luta importante e fiquei olhando

um músculo que vibrava em sua mandíbula apertada. Finalmente

afastou sua mão de meu queixo e se afastou da parede. Minhas

mãos caíram quando deu um passo atrás.

Apesar de ter me negado a sucumbir a meus sentimentos, não

pude deixar de ver quão bonito estava com as bochechas acesas e

aquele olhar ardente. E quando afastou o cabelo, resultou-me

impossível não seguir o movimento de sua mão com o olhar e me

perguntar como seria afundar meus dedos em seu cabelo.

—Muito bem —disse com a voz mais calma, mas ainda um

pouco severa—. Se lhe importar, seja como amigo ou somente como

seu anfitrião, não volte a partir desse modo. Não faça com que me
preocupe sem necessidade.

—Não o farei —admiti com a voz trêmula—. Prometo.

Tinha que afastar o olhar dele e o fixei em Meg. Tinha ido ali

com a intenção de fazer algo com ela, mas agora era incapaz de

recordar o que. Ali fazia muito calor, o espaço era muito pequeno e

Philip era muito< Philip.

—O cavalariço se encarregará dela —resolveu em tom firme,

mas amável.

Agarrou minha bolsa e com um gesto me indicou que saísse

primeiro. O sol poente projetava uma faixa de luz dourada entre as

árvores e deixava a maior parte da superfície ao amparo das

sombras e da luz azulada da escuridão crescente. Quando saímos do

estábulo, inspirei fundo. Muito melhor. O ar fresco do exterior

limparia minha cabeça e o coração e apagaria a carga de emoções

que havia entre Philip e eu.

Sentia que algo grave e tenso se interpunha entre nós. O

silêncio se tornou incômodo e não estava habituada a esse tipo de

sensações com ele. Estava acostumada a me sentir confortável e

confiante, não a estar tensa e incômoda. Acaso nossa relação era

realmente tão frágil para arruinar-se em um só dia?

Não importava quanto tivesse lecionado a meu coração sobre a

necessidade de destruir minha amizade com Philip, sentia-me

aterrorizada à mera ideia de que já tivesse ocorrido. Não estava

preparada. Ainda não tinha mentalizado a meu coração para que

aceitasse aquela mudança. Além disso, Cecily ainda não tinha


chegado. Dei um olhar furtivo em sua direção e descobri que me

observava com uma expressão pensativa.

—O que fez hoje? —perguntou.

—Oh, estive pintando. E você?

—Nada de nada. Passei o dia inteiro na biblioteca pensando em

você.

Quando levantei o olhar, movida pela surpresa, piscou-me um

olho.

Senti-me tão aliviada que pus-me a rir. Estava paquerando

comigo, como sempre tinha feito. Nada tinha por que mudar. Ao

menos, ainda não. Já o expulsaria de meu coração quando Cecily

chegasse, mas por ora desfrutaria do momento.

—Isso não é certo —rebati, pois assim era como brincávamos

entre nós.

—Merece, por tentar mudar de tema. Posso ver o que pintou?

—Quando vacilei, dedicou-me aquele sorriso ao qual era incapaz de

resistir —.Por favor! Quero ver o causador de minha preocupação.

Olhei-o zangada.

—Isso não é justo.

—Mas sim efetivo, ao que parece —concluiu.

Deteve-se e se voltou para mim. Philip era muito persuasivo.

Suspirei derrotada, arrebatei-lhe a bolsa e tirei o quadro. Vacilei ao

estender-lhe, ansiosa por ver sua reação. Observei seu rosto com

atenção e não me decepcionou. Sua reação imediata foi uma mescla

de surpresa e avaliação; sua seguinte expressão escapava a toda


definição. Não fui capaz de dar com uma palavra que refletisse a

emoção que vi em seus olhos quando se voltou para mim.

—Lamento dizer que não posso devolvê-lo.

—Aceito o elogio. Obrigada —esbocei um sorriso.

Estendi a mão para recuperar a aquarela, mas ele se afastou de

mim.

—Falo sério. O que quer por ele?

Estava convencida de que estava brincando, sem dúvida.

—Não está à venda.

Fiz gesto de tirar-lhe, mas o escondeu atrás das costas e me deu

um sorriso zombador; ao que parecia, estava desfrutando muito

com nosso novo jogo. Olhei-o com ar pensativo. Considerei a opção

de arrebatá-lo com um puxão, mas decidi que o mais provável era

que meu plano não funcionasse. Sorriu-me com presunção. Agora

sim que pensava tentá-lo.

Estendi a mão para suas costas, mas com um rápido movimento

me rodeou a cintura com um braço enquanto com a outra mão

punha o quadro a salvo atrás de suas costas. Seu abraço repentino,

assim como o calor de seu corpo junto ao meu, pegaram-me

despreparada. Separei-me dele em seguida e Philip me soltou.

—Não pensaria de verdade que essa manobra ia funcionar? —

perguntou sorrindo.

—Não, mas pensei que valia a pena tentar.

—Sim, definitivamente valeu a pena —observou com uma

careta maliciosa que me fez corar—. O que lhe pareceria fazer um


trato?

Sua pergunta despertou minha curiosidade.

—Que tipo de trato?

—Deixo isso em suas mãos. Que deseja?

Não havia nem rastro de insinuação em sua voz, embora seus

olhos me deixaram claro que tinha diante de mim um sem-fim de

possibilidades. Meu rosto avermelhou e de repente me senti inibida.

Sedutor!

—Entendo por seu rubor que lhe dá vergonha me pedir isso

Ajudaria se o adivinho? Saberei qual é a resposta correta pela

intensidade do vermelho de suas bochechas.

Resultou-me impossível não rir.

—Você é incorrigível.

Estendi a mão para recuperar o quadro, mas ele negou com a

cabeça. Ao que parecia, não pensava render-se ainda.

—O que me diz de Meg? —propôs.

Suas palavras me surpreenderam.

—Não posso aceitá-la.

—Por que não?

—É um cavalo, Philip, por isso. Vale muito mais que meu

quadro.

—Não para mim.

—É absurdo. Não poderia aceitá-la —disse, sacudindo a cabeça.

—Então outra coisa.

—Mas por que esse interesse?


—Não me faça essa pergunta. Só me diga o preço.

Embora tinha acompanhado aquelas palavras com um sorriso,

seus olhos brilhavam com uma inconfundível determinação. Deixei

escapar um suspiro. Philip era implacável quando se empenhava em

algo.

—Em realidade só desejo duas coisas e não pode me dar

nenhuma delas, assim, que sentido tem que as diga?

Voltei a estender a mão, mas ele a ignorou.

—Quero saber quais são.

O jogo tinha acabado e tinha sido substituído por uma

determinação absoluta.

—Muito bem —aceitei, até consciente de que não mudaria

nada—. Quero que meu pai volte para casa e quero recuperar o

relicário que o salteador roubou de mim. Dentro havia um retrato de

minha mãe. —Não sem pesar vi como um brilho triste se apoderava

de seus olhos—. Vê? Não pode me dar nenhuma das duas, por isso

insisto em recuperar o quadro.

Estudou-me em silêncio durante uns minutos, logo voltou a

olhar a aquarela. De repente, senti-me transparente, como se

estivesse dando uma olhada ao mais recôndito de meu coração, e

tão vulnerável que tive a sensação de que me fazia menor.

—Parece que chegamos a um impasse, pois não posso renunciar

a ele. —Dirigiu-me um olhar cheio de especulação—. Tenho uma

ideia. O que lhe pareceria colocá-lo em um lugar onde ambos

possamos admirá-lo até que acordemos um preço?


—Na biblioteca? —adivinhei. Suspirei ao ver o sorriso que me

dedicou—. Muito bem, mas se não nos pusemos de acordo no preço

antes de minha partida, levarei comigo e terá que renunciar a ele

sem brigar.

—Está bem —aceitou com um sorriso com que me deixou claro

que pensava ganhar.

Entretanto, aquela luta não ganharia. Tinha derramado meu

coração naquela pintura e não pensava deixá-la.

***

A manhã seguinte transcorreu como as outras que tinha

passado em Edenbrooke. De novo, reuni-me com Philip nos

estábulos para nosso habitual passeio a cavalo. De novo, seu cavalo

ganhou do meu em uma corrida. E de novo, conversamos e rimos

enquanto caminhávamos juntos de volta à casa. Apesar de tudo,

tinha a sensação de que o que fazíamos não era parte de nossa

rotina, a não ser o último ato de uma obra cujo pano de fundo

baixaria nessa mesma tarde com a chegada de Cecily e Louisa,

acompanhadas de William e Rachel. Nada voltaria a ser igual.

A melancolia se apoderou de mim enquanto trocava o traje e

decidi ficar no quarto em vez de descer e tomar o café da manhã.

Tentei encontrar consolo na pintura. Enquanto fazia um esboço da

vista da minha janela, tratei de persuadir meu coração de que não

valia a pena afligir-se por perder algo que só tinha desfrutado

durante uma semana. Era apenas um passeio matutino a cavalo com


um amigo, nada mais. Não obstante, cada vez mais me custava

enganar meu coração, que me acusou de mentirosa.

Observei meu esboço com o cenho franzido. Sem dúvida, meu

coração era mais fraco que minha mente e minha vontade, só teria

que exercer mais controle sobre ele. Tinha aprendido a me obedecer

depois de perdas maiores que esta e voltaria a fazê-lo.

Alguém bateu à porta interrompendo meus pensamentos. Era

um criado que vinha me informar de que tinha uma visita. A notícia

me pegou de surpresa. Arrumei rapidamente o penteado e desci as

escadas. Quem podia ser?

Detive-me na entrada do salão e estranhei encontrar Philip ali,

pois se supunha que devia reunir-se com seu administrador.

Também me surpreendeu o olhar veloz que me dirigiu lady

Caroline, como se tentasse adivinhar meus sentimentos só com

aquele olhar. Mas o que mais me surpreendeu foi descobrir que não

conhecia meu visitante.

Tinha o cabelo loiro e o tinha penteado ao estilo Brummell. As

pontas do pescoço de sua camisa lhe chegavam até as maçãs do

rosto, seu colete era um pouco atrevido, embora de bom gosto, e

contei três botões. Movia-se com uma segurança e elegância que me

impressionaram.

—Senhorita Daventry? —dirigiu-se para mim fazendo uma

reverência elegante.

—Sim. O que posso fazer por você, senhor<?

—Beaufort. Thomas Beaufort.


Tomei assento ao lado de lady Caroline e ele o fez em frente a

mim. Philip permaneceu de pé atrás dele, perto da janela. O senhor

Beaufort levava na mão um livro e o estendeu para mim.

—Por favor, desculpe-me pela ousadia de ter vindo visitá-la

sem termos sido apresentados, mas me encarregaram que lhe fizesse

chegar este livro e me disseram que era de vital importância que

você o tivesse.

Abri o livro movida pela curiosidade e dei uma olhada a seu

conteúdo. «A senhorita Daventry é formosa e singular, e tem uns olhos de

uma cor sem igual…». Fechei o livro no ato. Eram os poemas do

senhor Whittles!

O senhor Beaufort esboçou um sorriso.

—Meu tio, o senhor Whittles, encomendou-me a tarefa de lhe

apresentar este poemário que ele mesmo lhe tinha dedicado.

Esse cavalheiro devia ser o sobrinho que o senhor Whittles

tinha mencionado o dia de minha partida.

—Entendo —observei.

Pigarreei, um pouco envergonhada. Não pensaria que eu

aspirava aos cuidados de seu tio? Que humilhação!

—Obrigado, senhor. Espero que não tenha tido que desviar-se

de seu caminho para entregar-me isso.

—Não, não muito. Embora a distância não teria me detido.

Confesso que me agrada conhecer objeto de semelhante< êxtase. —

Fez um gesto no ar como se apontasse para uns anjos invisíveis.

Enrubesci. Oxalá Philip não estivesse escutando a conversa.


Voltou-se para mim com um olhar risonho e cheio de curiosidade.

Sem dúvida, iria usá-lo para me provocar mais tarde.

—Lamento que se visse obrigado a escutar sua poesia. Tentei

detê-lo, mas foi impossível.

O senhor Beaufort pôs-se a rir. Sua risada me resultou

agradável.

—Acredito. Mas não posso culpar meu tio por seu bom gosto,

embora sua poesia não seja das melhores.

Seus olhos brilharam com admiração e meu rubor se negou a

desaparecer. Amaldiçoei minha escassa habilidade para me sentir

cômoda quando falava com jovens arrumados. Certamente esse

cavalheiro o era, mesmo que de uma forma distinta de Philip. Esse

devia ser o tipo de homens que Cecily encontrava em Londres todos

os dias, o tipo de homens com o qual minha avó queria que me

sentisse cômoda e aprendesse a paquerar.

O senhor Beaufort se inclinou para mim.

—Diga-me, senhorita Daventry, pensa ir ao baile público na

sexta-feira à noite?

Voltei a cabeça para lady Caroline, que assentiu com um ligeiro

movimento de cabeça.

—Sim, acredito que iremos —confirmei a seguir.

—E dança da mesma forma encantadora que se ruboriza? —

soltou-me com um sorriso malicioso.

Lancei um olhar a Philip. Parecia o tipo de elogio que ele faria e

pensei que apreciaria o estilo do senhor Beaufort. Entretanto, estava


encarando-o com os olhos entrecerrados e os lábios apertados.

Estava claro que não gostava desse jovem. Mas o que pensara? Que

era o único homem sobre a terra que podia paquerar comigo?

Sorri para o senhor Beaufort. Vi nisso um desafio, embora não

teria sabido dizer por quê.

—Nem tanto, embora sim.

O senhor Beaufort riu como se houvesse dito algo muito

engenhoso. Meu sorriso se alargou ao me dar conta de que acabava

de paquerar pela primeira vez em minha vida. Era uma experiência

emocionante e não de todo desagradável.

—Irá conceder-me a honra de dançar comigo as duas primeiras

danças? —solicitou.

Estive a ponto de voltar a olhar para Philip, mas me detive. Ele

não tinha me pedido nenhuma dança, por isso minha resposta não

lhe concernia.

—Sim, é óbvio.

Sentia-me poderosa. Um jovem arrumado queria dançar

comigo. Não com Cecily, comigo.

O senhor Beaufort me correspondeu com um sorriso, logo ficou

em pé e se desculpou por não poder ficar mais.

—Estou desejando que chegue sexta-feira.

Dito isto, fez uma reverência e partiu.

Lady Caroline se voltou para mim e depois para Philip, que

seguia contemplando carrancudo pela janela a partida do senhor

Beaufort.
—Bem, se me desculparem, tenho< algo que fazer —disse

ficando em pé de repente. Saiu com presteza do salão e fechou a

porta com firmeza atrás de si.

Apenas percebi sua partida. Enquanto acariciava a tampa de

pele de meu livro de poemas, sorri para mim mesma. Assim era

como Cecily se sentia quando falava com os homens? Sentia-se forte

e poderosa? Não podia culpá-la por paquerar sem parar agora que

eu mesma tinha provado o efeito que tinha sobre eles.

Levantei o olhar quando Philip se separou da janela e veio

sentar-se ao meu lado no sofá.

—Posso? —perguntou me estendendo a mão.

Entreguei-lhe o livro e ele o abriu na primeira página. Clareou a

garganta e leu o primeiro poema em voz alta. Maravilhou-me

descobrir que sua voz harmoniosa e familiar podia conseguir que

até um poema do senhor Whittles soasse bem. Perguntei-me o que

seria capaz de fazer com um poema bem escrito.

Minha vontade de sorrir desapareceu, junto com aquela

sensação de poder. Sem elas, senti-me desanimada e voltei ao estado

lacrimoso contra o qual lutara um momento antes.

Philip passou a página e leu outro poema. Ao observar seu

perfil, tão familiar, recordei o chão do pomar coberto com maçãs

estragadas. Pensei também nas insinuações da senhorita Grace sobre

os motivos que me tinham levado a Edenbrooke, e imaginei Cecily

dançando com Philip e apaixonando-se por ele em Londres.

Perguntei-me quantos corações teriam caído rendidos a seus pés e


quantos teria partido.

Olhou-me de soslaio enquanto voltava a passar a página.

—Surpreende-me que nunca tenha falado desse admirador, o

senhor<

—Whittles. —Ri, envergonhada—. Não era alguém a quem

queria recordar.

Philip levantou o olhar do livro e me olhou em espera,

convencido de que estava a ponto de lhe contar uma história

divertida.

—Dobrava-me em idade, vestia um espartilho que não deixava

de protestar e sempre levava os lábios cheios de saliva.

—Parece uma combinação letal —concluiu entre gargalhadas.

—Era totalmente repulsivo. Nunca entendi por que a minha tia

parecia gostar dele.

—Sua tia gostava? —perguntou, enquanto arqueava as

sobrancelhas.

Assenti com a cabeça.

—Sim, mas ele era muito obtuso. Era algo impossível.

Philip fechou o livro.

—Parece que terá que se fazer de casamenteira.

—Nada me agradaria mais —admiti dando de ombros—, mas

nunca soube como fazê-lo.

Philip me observou um momento.

—Já sei. Escreva a cada um uma carta de amor como se fosse de

parte do outro e espere para ver se salta a faísca.


—Uma carta de amor<

Nem sequer sabia por onde começar.

—Porque saberá escrever uma carta de amor, verdade? —

perguntou esboçando um sorriso.

—É óbvio que não —respondi em tom de mofa.

—O que é isso de «é óbvio que não»? Não acredita que algum dia

possa ter que escrever uma?

Encolhi os ombros, tentando parecer indiferente, mas por

dentro me sentia muito envergonhada.

—Nunca pensei nisso.

—Então, eu a ensinarei. Embora haja algo que me intrigou... —

Sorriu com picardia—. Alguma vez enviaram-lhe uma carta de

amor?

—Não —admiti, ruborizando—, a menos que conte os poemas

do senhor Whittles.

—Eu não os contaria. —Seu olhar se tornou provocador e seus

lábios esboçaram um sorriso—. Dezessete anos e nunca recebeu uma

carta de amor? Não pode ser. Quer que lhe escreva uma, Marianne?

Olhei-o com o cenho franzido. Desfrutava tanto em me

sobressaltar.

—Não, obrigada —respondi energicamente.

—Por que não? —sussurrou acomodando-se de lado no sofá

para que estivéssemos cara a cara.

Apressei-me a recordar uma série de características de Philip:

por um lado, era um conquistador incorrigível que desfrutava ver


como enrubescia; por outro, costumava roubar corações nos quais

não tinha o menor interesse. Estava brincando, como sempre. Não se

tratava de nada mais.

—Sabe que vou embora se zombar demais de mim —adverti.

Fez girar o livro em suas mãos e concentrou seu olhar nele em

vez de encarar-me.

—Por que acredita que a estou provocando?

Pus os olhos em branco

—Experiência.

Deixou cair o livro com suavidade sobre a mesinha e se voltou

para mim apoiando um braço no respaldo do sofá.

—Mas, Marianne, eu sempre falo sério quando se trata de

assuntos do coração.

Continuava sorrindo, embora seu olhar tivesse adquirido uma

aparência séria. Era uma dessas ocasiões, sempre inesperadas, nas

quais tinha a sensação de que as brincadeiras de Philip não eram

mais que uma fachada, uma fina máscara para ocultar sentimentos

mais profundos que só podia intuir. Estudei sua expressão sem

muito êxito. Em muitos aspectos, aquele homem seguia sendo um

mistério para mim.

Talvez nunca me atrevesse a escrever uma carta ao senhor

Whittles fazendo-me passar por minha tia, mas estava curiosa.

Queria descobrir esse lado de Philip que sabia cortejar uma dama,

escrever uma carta de amor e ler um poema conseguindo que algo

se derretesse em meu interior.


Queria conhecer a faceta que Cecily conhecia. Era perigoso e

provavelmente também muito estúpido; entretanto, só restavam

algumas horas antes que tudo mudasse e sabia que nunca voltaria a

ter essa oportunidade.

—Muito bem —aceitei. Sentia-me muito nervosa—. Pode me

ensinar. Ao fim e ao cabo, possivelmente me seja útil no futuro.

Philip esboçou um sorriso, ficou em pé e se dirigiu à

escrivaninha situada em um canto, onde conseguiu uma pluma,

tinteiro e folhas de papel.

Levou tudo à mesa redonda em que tínhamos jogado cartas

com o senhor e a senhora Clumpett na noite anterior.

—Não aprenderá nada se ficar aí sentada. Venha cá.

Aproximei-me da mesa e ele me ofereceu uma cadeira, logo

deslocou outra para colocá-la ao meu lado e sentou-se.

Dei uma olhada à porta fechada do salão.

Philip era sempre muito cuidadoso com que as portas

estivessem abertas quando ficávamos sozinhos, embora nesta

ocasião não fez nenhum gesto para abri-la.

Os batimentos de meu coração se aceleraram e o nervosismo

começou a se estender por meu corpo.

Estava sentado tão perto de mim, que sentia uma combinação

de aromas distintos: sabão, roupa limpa e algo que cheirava a terra,

como a grama depois de uma tarde de chuva.

Pensei que seu cheiro recordava os raios do sol e um céu azul.

—Preparada para uma aula de romantismo? —perguntou com


um brilho pícaro nos olhos.
Capítulo 16
Não estava segura de estar preparada e menos ainda tendo

Philip tão perto naquele salão silencioso. Mas, então, recordei que

devia amadurecer e tentei imaginar como agiria uma dama com

mais experiência, em Londres; tentei imaginar como Cecily agiria.

Imaginei que era uma jovem elegante e refinada, acostumada a que

um cavalheiro atraente a ensinasse a escrever cartas de amor.

—Por favor, prossiga —animei em um tom de indiferença.

Philip clareou a voz.

—O propósito de uma carta de amor —começou, com ar de

professor— é expressar os sentimentos que alguém não pode dizer

em voz alta. Sua primeira pergunta: por que motivo um cavalheiro

não poderia declarar seu amor abertamente?

Philip soava muito profissional, como se fosse um professor de

verdade e eu, sua aluna; mas eu não queria que estivesse tão sério,

por isso mordi o lábio, como se estivesse refletindo, antes de

responder:

—Mmm< Porque é< mudo?

Seus lábios vibraram em um esforço por não sorrir.

—Vejo que evitou os aspectos gerais e foi direto procurar uma

causa específica. A resposta, senhorita Daventry, é que um

cavalheiro não pode declarar seus sentimentos abertamente quando

as circunstâncias o impedem. —Arqueou uma sobrancelha—. Está


prestando atenção?

—Sim —respondi assentindo com a cabeça—, mas você falou

de um cavalheiro. Não deveria me ensinar como uma dama

escreveria uma carta de amor? Ao fim e ao cabo, terei que escrevê-la,

fazendo-me passar por minha tia.

Philip pôs os olhos em branco.

—Não penso simular que estou escrevendo uma carta de amor

a outro homem. Só terá que seguir minhas instruções e adaptá-las

conforme lhe convenha. Continuemos, como crê que deveria

começar a carta?

—Com o nome da dama? —sugeri.

—Falta de imaginação.

Tomou a pluma, molhou-a no tinteiro e começou a escrever.

A meu insuspeitado amor:

Tive que me aproximar mais de Philip para poder ler bem as

palavras.

—Muito mais imaginativo —murmurei.

—E agora, o mais importante.

Continuei com o olhar fixo no papel, à espera de que escrevesse

algo mais, mas sua mão permaneceu impassível até que ergui o

olhar. Encarou-me durante um longo momento.

—Os olhos são um bom ponto de partida —sussurrou, ao final.

Oh, não. Agora, começaria a me provocar, estava convencida.

Quando olho em seus olhos, perco a noção do tempo e do espaço.

Nubla-me a razão, meu julgamento desaparece e me perco no paraíso que


vejo em seu olhar.

Oh, Meu deus!

Nunca teria imaginado que alguém pudesse escrever

semelhantes palavras, e menos ainda Philip. Abrasaram-me por

dentro e soube que se as tivesse lido em voz alta, teria sido

consumida pelo fogo. Estava grata que as escrevesse em silêncio.

Sentia seu olhar cravado em meu rosto —estava tão perto—,

mas não me atrevi a olhá-lo de novo. Em vez disso, apoiei o queixo

na mão e cobri a bochecha com os dedos, numa tentativa de ocultar

meu rubor.

Desejo acariciar seu rosto ruborizado e sussurrar-lhe ao ouvido o

quanto a adoro, até que ponto me roubou o coração e o impossível que me

parece a ideia de viver sem você.

E não podia falar nunca a sério! Amaldiçoei-o em silêncio.

Tinha certeza de que só tinha mencionado meu rubor para me

provocar. Adorava fazê-lo, tanto quanto ver como corava; havia me

dito isso em nosso primeiro dia na biblioteca. Mas sequer aquela

lembrança ajudou a aliviar o fogo de meu sobressalto.

Lembrei-me de que se tratava tão somente de uma aula e não

de uma autêntica carta de amor. «Não é uma carta de amor para ti»,

repeti-me mentalmente, sem afastar o olhar do papel.

Estar tão perto e não poder tocá-la é uma agonia. Sua cegueira aos

meus sentimentos é uma tortura diária e o amor que sinto está me levando

à beira da loucura.

O único som na sala era o traçar da pluma sobre o papel


enquanto Philip escrevia. Mantive o olhar fixo na carta como se

apenas ela me ancorasse à realidade. O coração pulsava com tanta

força que doía. Apesar de não ser muito experiente no amor, soube

por suas palavras que aquele homem tinha amado a alguém

apaixonadamente. Tinha que ter sentido, ao menos em uma ocasião,

isso de encontrar-se à beira da loucura por amor e me alcançou uma

amarga onda de ciúmes que me sacudiu por completo.

Onde está sua compaixão quando mais a necessito? Abra os olhos,

minha amada, e olhe o que tem diante: não sou somente seu amigo, a não

ser um homem profunda e desesperadamente apaixonado.

Estava tremendo. Reunir todas as minhas forças e tentei

recuperar a compostura. Deveria poder tomar como uma inocente

aula de romantismo, uma oportunidade, em definitivo, para ganhar

um pouco de experiência. Então, por que me sentia tão pequena,

transparente e trêmula? Por que meu coração batia tão depressa? E

por que me sentia cada vez mais perdida?

Não tinha resposta para nenhuma dessas perguntas. O único

que sabia era que essa lição tinha me afetado sobremaneira. Tentei

pensar em algo que me fizesse rir, mas a carta seguia sobre a mesa,

diante de meus olhos, como uma janela aberta para o coração de

Philip. E não havia nada nele que induzisse ao riso; mas bem, sentia

uma estranha vontade de chorar.

Queria afastar de mim aquele papel, sair correndo do salão e

retroceder no tempo para não descobrir jamais que Philip era capaz

de escrever aquelas palavras. Queria apagar tudo, inclusive minha


estadia em Edenbrooke, com o fim de não descobrir aquela faceta

dele.

—Tem alguma pergunta? —disse por fim.

Sua voz me surpreendeu com uma nova onda de nostalgia.

Fechei os olhos e reuni toda a coragem que pude para não levantar

da cadeira e cair em lágrimas. Era minha oportunidade de

demonstrar que tinha crescido. E não pensava deixá-lo ver quanto

me tinham afetado suas palavras.

—Como assinará? —perguntei, depois de esclarecer a

garganta—. Seu admirador secreto?

Senti-me orgulhosa de quão firme tinha soado minha voz.

—Não, isso não servirá —disse depois de uma pausa.

Sua mão voltou a mover-se.

Sempre seu. Assinou em baixo como Philip. Fiquei olhando

fixamente seu nome enquanto cobria a bochecha avermelhada com

os dedos e tentava esconder-lhe meu rubor, ao menos em parte.

—O que lhe parece? —perguntou.

Tentei respirar e falar com normalidade, embora aquele

momento não fosse em nada normal.

—Está muito bom —respondi, tensa.

Impôs-se um silêncio tão denso que o senti quase tangível,

fervendo no breve espaço que nos separava. Cravei o olhar na carta,

decidida a não encará-lo, pois isso seria sinônimo de desastre.

Contei devagar até dez, mentalmente. Nada. Voltei a contar até dez.

Acaso estava tentando me fazer um buraco no rosto com seu olhar


abrasador? Podia aquela situação voltar-se ainda mais

constrangedora? Não. Sem dúvida alguma, aquele era o momento

mais incômodo de toda minha vida, disso estava certa.

Então, Philip tomou ar e percebi uma mudança em sua atitude.

—É óbvio, alguém sempre deve ter em conta a modéstia da

dama. —Reatou seu discurso em um tom desenvolto—. Se a carta é

muito sutil, ela pode passar por cima seu autêntico significado. Pelo

contr{rio, se for muito evidente<

Philip deixou a pluma e estendeu a mão para alcançar a que eu

usava para cobrir meu rubor. Com um só dedo apanhou os meus e

deixou minha mão sobre a mesa.

—Se for muito evidente, pode ocorrer que ela não volte a lhe

olhar nunca mais.

Percebi a nota de ironia em sua voz e levantei o olhar de

repente. Tinha os olhos transbordantes de alegria e foi, então,

quando percebi que zombava de mim. Certamente que sabia desde

o início quão sobressaltada me sentia e só quis ver a reação que era

capaz de provocar em mim. Que homem mais odioso! Fosse o que

fosse o que tinha despertado em mim, minha vontade de chorar de

minutos antes se transformou em um acesso de ira do pior tipo.

Afastei minha mão da sua com brutalidade e o fulminei com o

olhar. Abri a boca para dizer o que pensava realmente de seu

péssimo comportamento, mas a porta se abriu de repente e a

senhora Clumpett entrou no salão.

—Acredito que o deixei aqui ontem à noite —disse olhando por


cima do ombro.

Quando nos viu, deteve-se em seco.

—Sinto muito, interrompo algo? —perguntou com evidente

curiosidade.

—Absolutamente —respondi, mas a voz me traiu.

Esperava que Philip dissesse algo para dissipar suas suspeitas,

mas como era de esperar, ele não fez o que eu queria que fizesse.

—Só estava dando a Marianne uma aula de romantismo.

Soltei um grito abafado de assombro e o olhei consternada, mas

ele me piscou um olho com descaramento e me deu seu habitual

sorriso pícaro. Era insofrível!

—Ah, bom, meu livro pode esperar. Virei procurá-lo mais tarde

—concluiu esboçando um sorriso.

A senhora Clumpett deu meia volta e fechou a porta atrás de si.

Levantei-me o mais rápido que pude e me afastei correndo da

mesa.

—Philip! Seguro que agora suspeita um montão de coisas que

não são certas.

Ficou em pé e me estendeu a carta.

—Ah, sim?

Seus olhos não só me fizeram uma pergunta, mas também um

desafio, e eu sequer era capaz de pensar em como lhe responder.

Assim que fiquei em pé, sentindo-me terrivelmente aturdida.

Então, aquele homem insofrível saiu do salão e me deixou ali,

zangada, envergonhada e confusa, e com uma carta de amor na


mão.

***

Naquela noite, Betsy deu especial atenção ao meu cabelo. Antes

de prendê-lo, escovou-o até deixá-lo tão brilhante como o mel.

Durante esse momento não deixou de falar de sua visita ao

povoado.

—Estive perguntando por James, senhorita.

—Quem?

Continuava dando voltas à carta de amor.

—Nosso chofer desaparecido.

—Ah, sim, claro. James. E o que descobriu?

—Os rumores são de que o viram em uma estalagem ao sul

daqui. Dizem que tem bom aspecto e que leva uma bolsa cheia de

dinheiro. Ao que parece, dirige-se para Brighton; se me permite

dizer, uma ideia excelente. O ar do mar é muito bom para as feridas

de bala. Devia estar farto dessa enfermeira e por isso se foi.

Refleti sobre isso uns minutos.

—Suponho que é possível que decidisse que já estava

recuperado o bastante para partir, mas de onde tiraria o dinheiro? E

por que se foi sem dizer nada a ninguém? Seus cuidados já estavam

pagos.

Betsy deu de ombros e prendeu a última mecha de cabelo.

—Perfeito. O que lhe parece?

Olhei-me no espelho. Betsy tinha insistido em que pusesse meu


novo vestido de seda verde. Era um dos mais elegantes que tinha,

mas não tinha certeza sobre a cor.

—Não deveria pôr o rosa?

Negou com a cabeça, resoluta.

—Não, este ressalta o verde de seus olhos e contrasta com seu

cabelo.

Embora odiasse concordar com o senhor Whittles, nesse

momento meu cabelo parecia, de fato, de cor ambarina.

Frequentemente, tinha me queixado de ter olhos de uma cor

imprecisa, onde o azul, o verde e o cinza lutavam por preponderar.

Mas o vestido ressaltava o verde que havia neles e me senti

secretamente agradada com o resultado. Pensei que talvez eu não

fosse uma beleza clássica como Cecily, com seus cabelos dourados e

olhos azuis, mas, nessa noite, achei-me bastante formosa.

—Tem razão —admiti—. O verde é perfeito.

Betsy esboçou um sorriso.

—Sei. Deveria me ouvir nestes misteres. —afastou-se um pouco

para me estudar. Depois soltou um de meus cachos, colocou-o sobre

meu pescoço e assentiu—. Está pronta.

—Obrigada. Não tenho ideia do que faria sem ti.

—Sabe como pode me agradecer; conte-me com exatidão o que

sir Philip dirá ao vê-la —pediu, sorrindo com malícia.

O coração me deu um tombo.

—Betsy, não deveria dizer coisas como essa.

—E por que não?


—Porque alguém poderia ouvi-la e pensar que desejo a

admiração de sir Philip. —Inspirei fundo—. E não é assim. Não

espero nada da parte dele.

Betsy me lançou um olhar cheio de receio.

—Pode não desejar sua admiração, mas sem dúvida a tem.

Outros serventes e eu o estivemos comentando na cozinha.

Essa notícia me consternou. Era terrível. Se Betsy acreditava

que havia algo entre Philip e eu, provavelmente o resto do pessoal

também o pensasse. O que eles não sabiam era que Philip se

comportava como um conquistador incorrigível e que para ele não

significava nada. Certamente, alguém acabaria contando a Cecily e o

dano que esse rumor causaria seria irreparável. Levei as mãos às

costas e comecei a desabotoar os botões do vestido.

—O que faz?

—Mudei que opinião. Porei o rosa.

Betsy protestou até que se deu conta de que falava sério.

Ajudou-me a me trocar, a contragosto, mas guardou um silêncio

incomum. Quando acabou, voltei-me para lhe agradecer e a

descobri me olhando com reprovação.

—Não sei o que é que crê ter visto, mas asseguro que o que

imagina não é certo. Sir Philip não sente nada por mim, nem eu por

ele. Desfruta flertando com as damas e por aqui não há ninguém

mais; essa é a única razão pela qual me dá um pouco de atenção.

Não obstante, assim que chegue Cecily, tudo voltará à normalidade.

Já o verá.
Como se minhas palavras fossem uma espécie de reclamação

mágica, alguém bateu à porta do quarto. Ao abri-la, ali estava

Cecily. Parecia mais alta, mais formosa e mais elegante do que a

recordava. Apenas a reconheci, embora ao olhá-la nos olhos, vi

minha infância, meu lar e um sem-fim de dias felizes.

—Por fim está aqui! —gritei lançando-me a seus braços sem

pensar.

Deu-me um forte abraço, embora um pouco breve, antes de

afastar-se.

—Sim, mas acabo de chegar, por isso tenho que me apressar se

quero estar pronta para o jantar. Acompanhe-me se já está

preparada e poderemos passar uns minutos nos pondo em dia.

Ignorei o olhar que Betsy me dedicou ao sair e segui Cecily pelo

corredor até seu quarto. Sua camareira já tinha tirado um vestido de

noite de seda azul, combinando com seus olhos. Sentei-me em uma

cadeira enquanto ela se vestia.

—Que tal a viagem? —perguntei— E Londres? Quero

perguntar tantas coisas! Não encontro palavras para expressar

quanto me alegro em vê-la.

—Eu também tenho tantas coisas que contar! —exclamou

Cecily. Sentou-se em frente à penteadeira e contemplou seu reflexo

no espelho enquanto sua camareira lhe arrumava o penteado—.

Você adorará Londres! Há tantas diversões: festas, bailes, saraus

musicais, peças de teatro< Cada noite da semana há algo diferente

e ninguém vai para cama até bem passada a meia-noite. Há tanto


que ver e fazer. E todo mundo é tão elegante! Tem que ter uma

temporada. O ano que vem. Tenho certeza que a avó estará de

acordo.

Não podia lhe contar nada da herança nem das condições que

estabelecia enquanto sua camareira estivesse ali.

—Isso espero —limitei a acrescentar.

Cecily olhou de esguelha em minha direção.

—Comprou esse vestido em Bath, querida?

Alisei a saia.

—Sim.

—Bom, não se preocupe. Ninguém se importa com o que usa

aqui, asseguro-lhe. E a ajudarei a se preparar antes de ir a Londres

para que esteja à altura para sua apresentação na sociedade. —

Esboçou um amplo sorriso—. Não tema, Annie, vou libertá-la da

tediosa Bath e também de suas horríveis modistas.

Logo que fiz caso ao resto de seu discurso quando a ouvi me

chamar por meu velho apelido. Ninguém me chamava Annie,

exceto ela e meu pai. Senti tanta nostalgia de meu lar que não pude

continuar sentada, levantei de um salto e a abracei.

—Alegro-me tanto que esteja aqui.

Ela se pôs-se a rir.

—Sim, eu também, mas está me arruinando o penteado.

Sorri, envergonhada, e me afastei um pouco. Cecily contemplou

seu aspecto no espelho uma última vez, depois ficou em pé e se

voltou para mim.


—O que acha? Vou pescar um marido esta noite?

Estava radiante.

—Não tenho a menor dúvida.

Minhas palavras tinham sido sinceras, embora sentisse como se

me roubassem o ar.

Quando cheguei ao salão, lady Caroline apresentou-me a sua

filha, Louisa, a seu filho William e a sua mulher, Rachel. William me

sorriu como se soubesse um curioso segredo sobre mim. Rachel me

olhou como se estivesse me avaliando, embora não fosse um olhar

desagradável. Louisa, no melhor dos casos, manteve distância.

Cecily tinha me pedido que me adiantasse para não distrair a

atenção dos presentes quando ela fizesse sua entrada. Todos os

olhos se voltaram para ela quando irrompeu no salão. Era a beleza

personificada. Seu cabelo era de ouro, sua pele cor de nata e seus

olhos como as safiras azuis. Brilhava como o sol.

—Sir Philip —Cecily o saudou de forma elegante enquanto

fazia uma reverência.

Não havia dúvida de que em Londres tinha aprendido muitas

coisas sobre como comportar-se de maneira elegante. Senti-me

envergonhada e torpe somente ao vê-la.

—Senhorita Daventry.

Ele fez uma reverência, a sua vez.

—Estou tão contente de estar em seu belo lar. E ainda mais em

vê-lo de novo.

Ele respondeu, educado. Não tinha dirigido o olhar para Philip


nenhuma só vez desde que tinha entrado no salão e enquanto

observava Cecily conversar com ele, pensei que poderia aproveitar

para vê-lo sem que ninguém percebesse. Ele, sim, percebeu, claro, já

que assim que meus olhos se detiveram em seu rosto, voltou o olhar

fugazmente para mim.

Tinha escondido sua carta de amor na gaveta da escrivaninha.

Oxalá tivesse podido também afastá-la de meus pensamentos. Suas

palavras ressurgiam a cada minuto, tomando vida em minha mente.

Cecily estava dizendo algo sobre o enorme e maravilhoso que era

tudo. Afastei o olhar e não prestei atenção à resposta do jovem.

O mordomo abriu as portas e anunciou o jantar. Afastei-me um

pouco para ver como procederíamos na hora de nos dirigir ao salão.

Lady Caroline olhou a Cecily, depois a mim e abriu a boca para

dizer algo, mas antes de que pudesse fazê-lo, minha irmã se

pendurou do braço de Philip e sorriu. Incógnita resolvida, então.

Cecily entrou no salão pelo braço do jovem e ocupou a cadeira que

havia a sua direita, a posição de honra. Depois de tudo, era a mais

velha e sempre tinha insistido em ser a primeira em tudo. Aqueles

sete minutos significavam tudo.

Eu me sentei à esquerda de Philip. De minha posição,

testemunhei como Cecily conversava com ele durante os quatro

pratos do jantar e não falava com ninguém mais. Era óbvio que

sabia como flertar. Sabia muito bem sorrir com coquete

acanhamento, olhar através das pestanas e tocar o braço de Philip

cada vez que ria. Quando terminamos o segundo prato, eu já não


podia suportar ver sua mão sobre o braço dele, assim baixei o olhar

e me concentrei em meu prato. Continuei comendo enquanto me

esforçava por bloquear em meus ouvidos o som do riso de minha

irmã. Embora nunca antes tivesse me incomodado, essa noite estava

me destroçando os nervos. Ao final, uma incipiente dor de cabeça se

alojou na base de meu crânio.

Quando os lacaios serviram a sobremesa, não pude evitar notar

os olhos de Philip cravados em mim. Quando ergui a cabeça,

dedicou-me um olhar carregado de interrogações.

—Esta noite está muito calada —constatou inclinando-se para

mim e falando em um sussurro.

Dei uma olhada ao outro lado da mesa e vi Cecily me

observando. Seu olhar pousou no jovem, que seguia esperando

minha resposta. Encolhi os ombros e desviei o olhar para o outro

lado, embora pela extremidade do olho vi Philip passear o olhar de

mim até minha irmã, e outra vez de volta.

—Sir Philip, ouvi dizer que tem cavalos excelentes em seu

estábulo —comentou Cecily para chamar sua atenção—. Espero que

tenha algum apropriado para mim. Eu adoro montar e seria uma

honra acompanhá-lo em um passeio.

Inesperadamente, o senhor Clumpett interrompeu sua

conversa.

—A égua que esteve montando a senhorita Marianne é uma

autêntica preciosidade, Philip. É uma nova aquisição? Vi-lhes sair a

cavalgar juntos quase todas as manhãs.


Amaldiçoei o senhor Clumpett em silêncio. Quem pensaria que

além dos animais selvagens da Índia também lhe interessassem os

cavalos?

—Em efeito, é uma nova aquisição —confirmou Philip.

Cecily se voltou para mim com ar de surpresa.

—Voltou a montar?

Por alguma estranha razão, sua pergunta fez sentir vontade de

chorar. Possivelmente fosse pela compreensão que se adivinhava

atrás de sua surpresa ou talvez porque ela sabia, melhor que

ninguém, a transcendência que era para mim voltar a subir em um

cavalo. Fosse qual fosse o motivo, senti que me faltava o ar e tive

que piscar para conter aquelas inoportunas lágrimas.

—Sim.

Cecily me sorriu do outro lado da mesa e entendemos a uma à

outra como sempre tínhamos feito. Nesse momento, não havia

ninguém mais entre nós; só compreensão e uma dor compartilhada.

Depois, voltou seu ensolarado sorriso para Philip.

—Alegra-me ouvir que tem um cavalo apropriado para mim,

sir Philip. Terei que comprová-lo por mim mesma amanhã pela

manhã. A que hora começamos?

Voltei a fixar o olhar no prato e tentei conter minhas emoções.

Se antes tinha sentido vontade de chorar, agora sentia desejos de

atirar algo em Cecily por querer me tirar o cavalo. A noite não

começava bem.

—Não sou eu quem deve tomar essa decisão —respondeu


Philip—. Prometi à senhorita Marianne que Meg seria sua durante

sua estadia aqui. Terá que perguntar a ela.

Senti-me surpresa e grata com sua resposta e lhe dediquei um

sorriso de agradecimento, até que recordei que se supunha que não

devia fazer coisas assim. Minha lealdade e meu afeto eram em

primeiro lugar para Cecily.

—Estou convencida de que minha irmã não se importará, se a

você tampouco, sir Philip —arrebitou recalcando a palavra «irmã»

com o olhar fixo em mim.

Inspirei fundo.

—Não me importa.

Mas era mentira. Sim, importava-me, e muito. Também ia me

tirar Meg? Não bastava tirar-me Philip? Detive-me ante aquele

pensamento. Cecily não estava me tirando Philip; ele nunca tinha

sido meu.

Respirei aliviada quando lady Caroline ficou em pé marcando o

fim do jantar. Por uma vez, alegrei-me de que os cavalheiros sempre

se atrasassem na hora de sair do salão. Segui às demais damas para

o vestíbulo. Cecily tinha se pendurado no braço de Louisa e ia lhe

sussurrando algo ao ouvido. Lady Caroline ficou a um lado e deixou

todos passarem até que chegar a mim. Então, apoiou sua mão com

ternura sobre meu ombro.

—Parece um pouco indisposta esta noite. Ocorre algo? —disse-

me em voz baixa.

—Tenho uma terrível dor de cabeça, isso é tudo.


—Por que não disse? Teria cuidado de você. —Lady Caroline

me guiou para as escadas—. Venha comigo. Deve ir para a cama.

Em um abrir e fechar de olhos, Betsy e ela tinham me posto a

camisola, colocado-me na cama e pedido uma xícara de chá. Então,

lady Caroline sentou-se na cama e começou a me umedecer a testa

com água de lavanda. Seu proceder era tão maternal e me olhava

com tanto carinho e preocupação! Senti muitas saudades de minha

própria mãe. Havia ordenado a meu coração que nunca chorasse

por Philip, mas não lhe tinha dado instruções de não fazê-lo por

minha mãe, meu pai ou o lar e a família que tinha perdido. As

lágrimas brotaram tão depressa que não tive tempo de contê-las e

escorregaram por minhas têmporas até meu cabelo.

Lady Caroline me estendeu seu lenço.

—Quer falar sobre isso?

Neguei com a cabeça. Não, sob nenhum conceito queria falar

disso.

—Se alguma vez quiser falar disto ou de algo, Marianne, espero

que confie em mim.

Alguém bateu à porta. Meu traiçoeiro coração, libertado em

parte de suas restrições, deu um tombo esperançoso. Entretanto,

quando Betsy abriu a porta, pude comprovar que se tratava apenas

de uma criada da cozinha com o chá. Assim que lady Caroline e

Betsy me deixaram sozinha, repreendi-me por ter perdido o controle

sobre meu coração. Quando isso acontecia, costumava fazer coisas

sem sentido, como esperar ver Philip na soleira de minha porta. Bebi
um gole de chá, mas não gostei muito, assim deixei a xícara de novo

sobre a bandeja. Percebi, então, que ali havia um livro que não tinha

visto até esse momento.

Era o livro de poesia que tinha começado a ler no dia em que

Philip tinha me mostrado a biblioteca. Ao abri-lo, uma folha de

papel caiu sobre meu regaço.

Lamento que se sinta indisposta. Pensei que possivelmente gostaria de

ter algo que a ajudasse a passar o momento. O bilhete não estava

assinado, mas não era necessário.

«Amanhã, serei mais forte», disse-me. «Amanhã, terei maior

controle sobre meu coração, mas esta noite me permitirei uma

última indulgência.» Acomodei-me sobre os travesseiros e comecei a

ler o primeiro poema. Tanto a dor de cabeça como o de meu coração

foram aplacando-se enquanto me perdia na poesia que Philip tinha

me enviado. Adormeci com seu bilhete na mão.


Capítulo 17
Na amanhã seguinte, Cecily veio a meu quarto antes do café da

manhã. Eu estava sentada à escrivaninha, escrevendo uma carta

para minha avó. Betsy ainda não tinha vindo me pentear, mas tinha

que fazer algo para afastar de minha mente Cecily e Philip e seu

passeio a cavalo juntos.

—Queria ver como se encontra hoje —disse Cecily sentando-se

na cama—. Lamento que ontem à noite se sentisse indisposta.

Queria vir vê-la, mas pensei que possivelmente conviria um pouco

de paz e tranquilidade. E como sei que você não gosta de ser o

centro das atenções, vou tranquilizá-la. Ninguém falou em ti em

toda a noite. Estivemos jogando cartas e sir Philip foi meu par. É tão

espirituoso! Admito que não parei de rir a noite toda.

Não me custou acreditá-lo, tendo em conta quanto riu durante

o jantar.

—Alegra-me que se divertiu.

Tentei acreditar em minhas próprias palavras.

—Sabia que se alegraria por mim. Sempre foi uma irmã tão

pouco egoísta nesse sentido! —deixou-se cair sobre a cama com um

bocejo— Esse é o motivo pelo qual não me incomodei em convidá-la

a nos acompanhar esta manhã. Claro que tampouco serviu de

muito, já que sir Philip convidou a seu irmão. Mesmo assim,

qualquer tempo em sua companhia é melhor que nada.


—Ah? Já saíram a cavalgar? —Tentei sorrir—. O que achou de

Meg?

—Muito fogosa para meu gosto —respondeu com o cenho

franzido—, embora tenha conseguido controlá-la. De todos os

modos, penso que você lhe deu muita liberdade. Quando for minha,

vou me assegurar que a domem.

Agarrei a pluma que tinha na mão com tanta força que se partiu

em duas. Deixei os pedaços sobre a escrivaninha, levantei e me

aproximei da janela para olhar o exterior. Decidi que aceitaria a

oferta de Philip de trocar o quadro por Meg antes de deixar que

minha irmã a arruinasse. Sempre poderia encontrar outro cavalo,

um que fosse perfeito para ela.

—Há algo que me intriga —começou Cecily em tom

despreocupado—. Por que não me escreveu para me dizer que sir

Philip estava aqui? Se o tivesse sabido, teria vindo antes.

Voltei-me e a olhei com ar surpreso.

—Quer dizer que não sabia?

—Disseram-nos que viajou e que seria melhor que ficássemos

em Londres e fossemos ao baile de máscaras, já que ele estava

ausente. Mas ninguém me informou que tinha cancelado a viagem

até que o ouvi dizer a um dos criados ao chegar aqui.

Não podia lhe dar nenhuma resposta. Percebera quão tola tinha

sido ao não ter me questionado sobre a presença de Philip na

estalagem. Estava claro que estava a caminho a alguma parte. Um

mistério mais a acrescentar a sua lista de segredos.


—Não sei nada sobre nenhuma viagem. De fato, devo

confessar, Cecily, que sequer sabia que referia a sir Philip em suas

cartas.

Deu-me com um olhar zombador.

—Como não poderia saber?

Sentei-me na cama frente a ela. Sentia-me um pouco nervosa e

escolhi minhas palavras com cuidado.

—Foi algo muito estranho, mas nunca ouvi ninguém dirigir-se a

ele por seu título. E ninguém me disse que sir Charles havia

falecido. Suponho que todos deram por certo que sabia. Por isso,

não podia saber que a presença de sir Philip aqui era importante

para ti.

—Mmm<

Eu não gostei de seu olhar especulativo.

—O que? —perguntei à defensiva.

—Espero que não tenha nada a lamentar.

—A que se refere? —soltei, sentando-me mais erguida.

—Você e sir Philip.

Consegui não ruborizar, por uma vez.

—Não aconteceu nada entre sir Philip e eu.

Cecily riu.

—Não, claro que não aconteceu nada. Mas não seria a primeira

jovem que cai rendida aos seus encantos.

Observou-me.

—Philip é realmente encantador, não discutirei isso, mas desde


o início fui consciente de sua afeição pela paquera, assim nunca levei

a sério. Foi meu amigo, só isso. —Inclinei-me para frente e apoiei

minha mão sobre a sua—. Mas, Cecily, inclusive se tivesse corrido

perigo de me apaixonar por ele, deveria saber que sou leal a ti. Você

sempre estará em primeiro lugar.

Cecily sorriu e me apertou a mão.

—Pois claro que sei, mas eu não gostaria nada de vê-la com o

coração destroçado quando se declarar a mim.

Baixei o olhar para os lençóis e brinquei com um fio solto.

—Parece muito< otimista. H{< dito algo?

—Não, ainda não, mas estou segura de que não demorará

muito. Reconheço os sinais de quando um homem está apaixonado

e não tenho a menor dúvida de que sir Philip está em processo de

apaixonar-se por mim, se é que não está.

Mordi o interior da bochecha enquanto lutava por controlar

minhas emoções.

—Bem, então< —disse, enfim levantando o olhar e esboçando

um amplo sorriso— estou certa de que em um abrir e fechar de

olhos terá ganho seu coração, sua mão e tudo que queira.

—Diz isso a sério?

—Sim.

Era certo. Cecily sempre tinha conseguido o que queria.

—Lady Cecily soa tão elegante, verdade? —Deu uma olhada ao

quarto e suspirou satisfeita—. E realmente escolhi bem, não acha?

Duvido que exista melhor combinação de beleza e fortuna, por não


mencionar a casa. Claro, quero passar a maior parte do ano em

Londres. Não posso me imaginar vivendo no campo depois de

conhecer as diversões que existem na cidade. —voltou-se para mim

de repente—. E, além disso, estou perdidamente apaixonada por ele.

O que podia responder a isso? Assenti e afastei o olhar de seu

rosto de felicidade. Sentia o coração como uma pedra de gelo e

muito pesado. Só queria me deitar na cama e não sair dali por, ao

menos, uma semana.

—Parece muito abatida —observou Cecily, erguendo-se de

repente—. Acredito que precisa sair de casa. Sir Philip me disse que

tinha assuntos a atender com seu administrador e que estaria

ocupado toda a manhã, assim vou passear até Lamdon com Louisa.

Pode vir conosco, não se importará. Estou certa de que você adorará.

Hesitei um momento, pois não tinha certeza de querer passar a

manhã em companhia de Louisa, que não tinha sido nada amável

comigo na noite anterior.

—Se estiver certa<

—É óbvio. —levantou-se e me olhou de cima a baixo—.

Embora... fará algo com seu cabelo, verdade?

Pus os olhos em branco.

—Não, penso ir ao povoado como se acabasse de sair da cama.

Pôs-se a rir e me despenteou como costumava fazer quando

éramos meninas.

Não pude evitar sorrir. Quando Cecily abandonou o quarto,

sentei-me à escrivaninha para terminar a carta com uma pluma


nova. A mensagem não podia ser mais oportuna.

Querida avó:

Isto é o que aprendi com Cecily por ora: uma jovem elegante

deve tocar o braço do cavalheiro com quem conversa e rir de tudo

o que diz. Suponho que a isso se chama paquerar. Parece-me um

tanto estridente e aborrecido.

Afetuosamente,

Marianne.

—Oh, que chapéu encantador —exclamou Cecily quando me

reuni com ela e Louisa depois do café da manhã.

Levava a carta para minha avó na bolsa e tinha permitido a

Betsy que se esmerasse no penteado um pouco mais que o habitual

com a esperança de impressionar Louisa ou, ao menos, de não

envergonhar Cecily.

—Não lhe parece bonito, Louisa?

A aludida não disse nada, embora não paresse muito

entusiasmada com meu chapéu. Cecily entrelaçou um braço com o

de Louisa e o outro com o meu e assim partimos em direção a

Lamdon, que se encontrava somente a uns quilômetros de distância.

Olhei em direção de Louisa para me dirigir a ela.

—Também foi sua primeira temporada?

Assentiu com a cabeça.

—O que lhe pareceu?


—Muito divertida —respondeu. Logo se voltou para Cecily—:

Recorda aquele baile no Almack’s em que o senhor Dalton<?

As duas puseram-se a rir.

—E então a senhorita Hyde lhe disse que<

Mais risadas. Eu presenciava a cena desejando saber o que era

tão divertido.

—O que ocorreu?

Cecily fez um gesto com a mão.

—Ora, não acredito que ache tão divertido. Teria que conhecer

os implicados.

Assenti com a cabeça.

Andamos uns passos mais e Cecily riu novamente.

—O que é que lady Claremont disse aquela noite? Algo sobre as

sardas<

Louisa soltou uma risadinha tola.

—Que podiam arruinar as oportunidades de uma dama antes

que uma reputação duvidosa. E estou de acordo. Não há nada

menos atraente que um rosto cheio de sardas.

Mordi o lábio ao pensar em minhas próprias sardas, que tinham

aumentado em número desde que passava tanto tempo ao ar livre

pintando ou dando voltas por aí, algo que eu adorava fazer. Com

um pouco de sorte, Louisa não se teria percebido.

—Não sei se concordo —observou Cecily—. Acredito que há

outras coisas que resultam menos atraentes ainda. Recorda do

senhor Baynes?
Louisa estremeceu.

—Como esquecê-lo?

Conversaram durante todo o caminho sobre pessoas que

tinham conhecido em Londres. Ao que parecia, minha tentativa de

fazer amizade com Louisa não tinha funcionado absolutamente.

Quando chegamos a Lamdon, nossa primeira parada foi a agência

de correios, onde deixei a carta para minha avó.

—Pode pedir a Philip que a franqueie por você a próxima vez

—sugeriu Louisa.

Já sabia, mas eu gostava de dispor de meu próprio dinheiro e

ter algo em que gastá-lo. Não queria depender dos outros para tudo.

Assim, podia satisfazer um pouco as exigências de meu orgulho.

Cecily anunciou que tinha que comprar uma fita nova para um

chapéu que estava decorando, assim procuramos uma loja e

entramos para bisbilhotar. Escolheu três, todas elas em distintos

tons de azul, e se voltou para mim.

—O que opina? —Segurou-as junto a seu rosto e abriu bem os

olhos—. Qual das três se aproxima mais à cor de meus olhos?

Olhei as três cores e pensei que escolhesse o que fosse não

haveria diferença. De todos os modos, sabia que essa não era a

resposta que ela esperava ouvir. Tinha que escolher uma.

—Essa. A mais escura.

Estudou-a com o cenho franzido.

—De verdade? Porque não pensava que meus olhos fossem tão

escuros. Mas esta outra é um pouco mais esverdeada e em meus


olhos não há verde algum. Louisa, o que acha?

—Definitivamente, essa não —resolveu assinalando a que eu

tinha escolhido.

Cecily a descartou imediatamente. Tentei que não me afetasse.

Era apenas uma fita, pelo amor de Deus. Entretanto, houve um

tempo em que minha opinião era a única Cecily que tinha em conta.

Deixei de lhes prestar atenção e me pus a olhar a rua da soleira da

porta.

Enquanto observava o exterior em atitude aborrecida, discerni

uma silhueta familiar do outro lado da rua. O cavalheiro tirou o

chapéu como mostra de que tinha me reconhecido e eu recuei

surpresa. Pareceu-me distinguir um sorriso de suficiência no rosto

do infame sobrinho, mesmo a essa distância. Estive tentada a voltar

a entrar na loja e fechar a porta atrás de mim, mas era muito tarde.

Tinha me visto e estava atravessando a rua enquanto fazia girar sua

bengala languidamente.

—Bom dia, prima —saudou-me o senhor Kellet, com uma

pequena reverência. Parecia muito seguro de si.

—O que está fazendo aqui? —espetei olhando-o com o cenho

franzido. Na verdade, não me ocorria o que poderia tê-lo levado até

ali. Parecia-me muita casualidade.

—Estou visitando este povoado encantador. —Fez um gesto

assinalando ao seu redor—. O que você está fazendo aqui?

Assinalei para a loja com a mesma indiferença.

—Estou comprando uma fita.


—Sozinha? —perguntou com um brilho nos olhos que me

pareceu inquietante.

De fato, sua mera presença ali me inquietava. Não acreditava

que tivesse decidido dar um passeio por Lamdon ao acaso. Estava

me tornando paranoica ao pensar que eu era a razão pela qual

estava ali? Teria me seguido desde Bath?

—Não, não estou sozinha —assegurei, assinalando com a

cabeça para o interior da loja.

O senhor Kellet deu um passo em minha direção. Tinha duas

opções: recuar para o interior da loja ou ficar mais perto dele do que

desejava. Decidi-me pela primeira e ele me seguiu, esquadrinhando

o local. Seu olhar se deteve em Cecily, que estava junto ao

mostrador com suas fitas, de costas para nós. Minha irmã se voltou

nesse preciso instante com sua compra e se dirigiu para nós com

Louisa em seus calcanhares. Quando Cecily viu o senhor Kellet,

abriu os olhos como pratos e esboçou um sorriso de satisfação que

se obrigou a conter.

—Senhorita Daventry, senhorita Wyndham —saudou-as com

uma reverência.

Por que não podia dirigir-se a mim como senhorita Daventry?

Cecily também era sua prima.

—Senhor Kellet —exclamou esta com a voz entrecortada e

pestanejando em excesso—, que surpresa agradável. O que o traz

por esta região?

Ele tomou sua mão e a levou aos lábios.


—Vim seguindo meu coração e ele me trouxe até aqui, até você.

Observei-os com o cenho franzido. Cecily cravou seu olhar no

rosto do senhor Kellet enquanto este lhe beijava a mão. Reconheci a

expressão de seu semblante. Nele havia emoção e admiração, e uma

dose de insinuação suficiente para conseguir com que um homem se

declarasse. Era exatamente o mesmo olhar que tinha utilizado com

Philip na noite anterior, quando tinha monopolizado sua atenção

durante todo o jantar.

Não podia acreditar no que via. Cecily sempre se comportara

de forma insensata na presença do senhor Kellet, mas isso era

inaceitável. Já deveria saber que aspirar a um homem de sua

reputação não era conveniente. Talvez eu não tivesse tido uma

temporada em Londres, mas, mesmo assim, intuía por sua forma de

vestir descuidada e a maneira como tinha olhado minha irmã de

cima a baixo que não era um autêntico cavalheiro. Por que Cecily

quereria paquerar com ele?

—Desculpe-nos, senhor Kellet, mas temos que ir —anunciei,

aproximando-me de Cecily.

Voltou seu olhar lânguido em minha direção e sorriu satisfeito.

—De verdade? Bom, espero poder visitá-la logo, prima.

—Pois eu espero que não. E deixe de me chamar de prima.

Sabia que meu comentário tinha sido uma grosseria e me senti

orgulhosa, embora ele se limitou a soltar uma gargalhada.

Cecily me olhou zangada e depois se voltou para ele luzindo o

melhor dos sorrisos.


—Senhor Kellet, deve desculpar a minha irmã por seu

comportamento. Eu sim espero que venha nos visitar muito em

breve —disse, pondo ênfase no «muito».

Quando saí da loja atrás de Cecily e Louisa, sentia o rosto arder

pela vergonha.

—Marianne, não posso acreditar quão grosseira foste com o

senhor Kellet —repreendeu-me assim que nos afastamos o suficiente

para que não pudesse nos ouvir.

Abri a boca, surpreendida. Ela se atrevia a censurar a mim?

—E eu não posso acreditar como o animava. —Inspirei fundo

tentando me acalmar—. Sabe perfeitamente que tipo de homem é. É

um irresponsável interesseiro e o pior dos descarados.

Cecily lançou um olhar a Louisa e ambas puseram-se a rir.

Estava claro que nenhuma delas me levava a sério.

—É você um pouco ingênua, verdade? —soltou-me Louisa,

sorrindo com condescendência.

Senti-me como se tivessem me esbofeteado.

—Não, pare, Louisa —intercedeu Cecily—. Não seja cruel. O

que acontece é que não está acostumada ao convívio social.

Devemos ajudá-la a amadurecer. —A seguir, dirigiu-se para mim—.

Escute, querida, é óbvio que somos conscientes da reputação do

senhor Kellet, mas existem boas razões para manter perto um

homem assim. —aproximou-se um pouco mais e me sussurrou—: os

descarados são os que beijam melhor.

Olhei-a perplexa.
—Como sabe isso?

Voltou-se para Louisa e ambas soltaram uma risadinha tola.

Nunca teria imaginado semelhante comportamento em minha irmã!

Embora, ao ver os sorrisos de cumplicidade que trocavam, não

restou alternativa que aceitar a ideia de que possivelmente, só

possivelmente, Cecily sabia algo de descarados e beijos. Não

obstante, depois da conversa que tínhamos mantido, parecia-me

inconcebível que se comportasse desse modo.

—Cecily, de verdade pensa paquerar com o senhor Kellet

quando sua ambição está posta em outro cavalheiro?

Minhas palavras a pegaram de surpresa. Louisa tossiu, embora

pareceu um estratagema para ocultar uma risada.

—Todo mundo sabe que é perfeitamente aceitável que uma

dama paquere, sempre e quando for discreta. E seu marido saberá

gozar do mesmo tipo de liberdade. —Cecily se aproximou de mim,

passou-me um braço pelos ombros e continuou em voz baixa—: Por

favor, esqueça de sair dizendo estas coisas quando estiver em

Londres. Eu as tolero porque sou sua irmã, mas os outros não serão

tão amáveis e temo que fará ridículo.

Separou-se de mim e se voltou para Louisa com uma expressão

de resignação que me fez ruborizar de vergonha. Não abri a boca em

todo o caminho de volta, embora minha mente funcionava a toda

velocidade. Como Cecily podia pensar em beijar a um descarado

quando se dizia perdidamente apaixonada por Philip? E como

reagiria ele se soubesse? Pode ser que outros se comportassem de


forma imoral, mas ele nunca o faria. Conhecia-o e sabia quanto

desejava ser como seu pai, um cavalheiro no mais amplo sentido da

palavra. Pouco lhe importaria o que se considerava «elegante» em

Londres; ele era diferente, disso tinha certeza.


Capítulo 18
Durante a refeição, lady Caroline mencionou o baile público

que aconteceria à noite.

—Falando nisso —começou—, ainda ficam muitas coisas a

preparar para o nosso e só falta uma semana.

—Graças ao céu não terei que participar dos preparativos —

exclamou William—. Não suporto ouvir falar de flores e cores. —

Olhou para seu irmão—. Não terá mudado de ideia?

Voltei-me para Philip. Não tinha falado com ele na noite

anterior e me dava conta de que sentia falta de sua companhia,

muito mais do que esperara. Apenas ao pousar meus olhos em seu

rosto familiar, senti uma incomparável sensação de quietude.

—Não, claro que não —respondeu.

—Bem, porque espero esta viagem há seis meses.

Viagem? Que viagem? Olhei perplexa a um e a outro, mas antes

que pudesse perguntar, lady Caroline me adiantou.

—Não necessitaremos sua ajuda, mas espero ver a ambos de

volta a tempo para o baile.

William lançou a Rachel um olhar suplicante.

—Não me olhe assim. Sabe que quero que esteja no baile —

disse ela esboçando um sorriso.

William resmungou e não pude evitar rir da expressão de

chateio que pôs.


—Nós não podemos ajudar hoje com os planos para o baile —

anunciou Louisa olhando a sua mãe—. Vou apresentar Cecily às

Fairhurst. Podemos levar a caleche?

Lady Caroline se voltou para mim com preocupação. Na

caleche não cabiam três passageiros, por isso eu estaria excluída de

seus planos.

—Melhor a carruagem e assim poderão ir nossas duas

convidadas —respondeu pondo ênfase na palavra «convidadas».

Sem dúvida alguma, todos os pressente perceberam o que lady

Caroline estava fazendo, estava tentando obrigar sua filha a que me

levasse com elas. Não obstante, eu me negava a ser o objeto de sua

caridade e não pensava ir aonde não me quisessem.

—Obrigado por pensar em mim —intervim—, mas preferiria

ficar e ajudar com os planos para o baile. Já conheço as Fairhurst.

Senti o olhar de Philip cravado em mim e soube que tinha

enrubecido pela vergonha, mas não o devolvi. Protegi meu orgulho

como alguém se protege do frio inverno com uma capa e mantive a

compostura. Talvez Louisa não quisesse minha companhia, mas isso

não tinha por que me afetar. Cecily me alcançou no vestíbulo

quando abandonei o salão.

—Sinto tanto.

Detive-me e me voltei para ela. Tive que dar um sorriso

forçado.

—Não podia pedir a Louisa duas vezes no mesmo dia que a

deixasse nos acompanhar, mas eu a haveria convidado se pudesse.


Espero que entenda.

Outro sorriso forçado.

—É claro.

Abraçou-me e seu perfume de lilás me envolveu.

—Sabia que o faria.

Afastou-se um pouco e me sorriu antes de ir escada acima em

busca de seu chapéu. Fiquei de pé no meio do vestíbulo; sentia-me

sozinha e perdida. Lady Caroline tinha que falar com a governanta,

por isso ainda não podia sentar-se comigo a tratar os pormenores da

festa. Em outras circunstâncias, teria me dirigido à biblioteca para

reclamar a Philip essa partida de xadrez que seguia me prometendo,

como tinha feito até então, mas com Cecily ali, isso terminara.

Mesmo assim, acabei na biblioteca, pois não tinha nada melhor

que fazer. Além disso, estava segura de que Philip estaria fazendo

algo com William. Como imaginava, ali não havia ninguém. Sentei

em uma das poltronas de couro em frente à janela e contemplei o

pomar. Era o mesmo lugar em que tinha ficado a escutar Philip falar

de sua viagem em nossa primeira tarde juntos. Acariciei o braço da

poltrona enquanto tentava não pensar nos dias que já não voltariam,

mas não serviu de nada. Sentia falta de Philip. Sentia falta de nossas

tardes juntos e os dias que tínhamos passado antes que Cecily

chegasse e mudasse tudo. E também tinha saudades dela, à irmã

que tinha conhecido e querido durante toda a vida, que sempre

tivera tempo para mim.

Apoiei a cabeça no respaldo, fechei os olhos e tentei com todas


minhas forças afastar a tristeza que estava tentando romper os

muros que protegiam meu coração e apoderar-se dele. Mas, por

muito que me concentrei, foi impossível pôr minhas emoções a

salvo. Estavam a flor da pele e continuava com desejos de chorar.

Notei que o ar se movia a meu redor. Ao abrir os olhos,

encontrei Philip sentado no batente da janela que tinha em frente

com os braços cruzados, como se estivesse decidido a esperar o

tempo que fosse necessário. Pela razão que fosse, não me

surpreendeu vê-lo ali. Olhamo-nos em silêncio durante uns minutos

até que não pude suportar mais o que percebia em seu olhar. Em

seus olhos havia tristeza, ternura e mais compaixão da que queria

ver.

—Necessita algo? —perguntei.

—Sim.

Inclinou-se para frente e tomou minha mão. O coração me deu

um tombo quando me tocou. Disse-me que devia afastá-la, mas não

consegui que meu corpo me obedecesse.

—O que necessita? —perguntei em apenas um sussurro.

—Seu sorriso. Não o vi em todo o dia.

Baixei o olhar para nossas mãos enquanto pensava em uma

resposta. Não me via capaz de fingir nenhum outro sorriso aquele

dia, assim que me conformei suspirando sem dizer nada.

—Por que não vem com William e comigo? Vou mostrar-lhe o

que tenho feito na propriedade desde a última vez em que esteve

aqui.
Olhei-o fixamente nos olhos.

—Não quero sua compaixão.

Apertou-me a mão.

—Não a estou oferecendo, Marianne. Quero que venha conosco

—rebateu com exasperação.

Parecia sincero e eu queria acreditar que o era, que desejava

minha companhia; embora preferisse não sabê-lo com certeza, pois

não poderia suportar descobrir que só estava sendo educado. De

todos os modos, já tinha escolhido Cecily. Tinha jurado lealdade a

minha irmã e sabia que essa era a decisão correta, mesmo que me

fizesse infeliz.

—Obrigada pelo convite. —Afastei a mão—. Mas não posso

aceitá-lo.

Ele arqueou uma sobrancelha.

—Não pode ou não quer aceitá-lo?

Sua pergunta me recordou a que eu lhe tinha formulado em

minha primeira noite em Edenbrooke.

—Ambos —admiti com um meio sorriso.

Philip afastou o olhar.

Levantei e me dirigi para a porta, mas, de repente, recordei algo

e dei meia volta.

—Obrigada pelo livro de poesia.

Ele voltou a me olhar, mas não disse nada.

***
Quando retornei ao salão, Lady Caroline já estava livre para

falar do baile. A senhora Clumpett e Rachel dedicavam-se às

atividades próprias das damas elegantes, como a costura, a música

ou a leitura. Estava claro que se resignaram a aceitar seu papel na

sociedade, assim que eu teria que fazer o mesmo. Entretanto, depois

de uma hora e meia sentada examinando com lady Caroline todos

os pormenores do baile, sentia-me inquieta.

Lady Caroline levantou o olhar de suas listas e me viu me

remexendo em meu assento.

—Acredito que por ora será suficiente. Obrigada por sua ajuda.

Levantei e olhei ao a meu redor. O que podia fazer a seguir? A

senhora Clumpett estava tocando o piano e isso me recordou que

devia seguir me esforçando. Sentei-me no sofá junto a Rachel e

tomei o bastidor que encontrei ali. Não obstante, não conseguia me

concentrar. Algo ocupava meus pensamentos de maneira

inconsciente e não conseguia averiguar o que era. Ao cabo de uns

minutos, percebi. Tratava-se da viagem que William e Philip tinham

mencionado e da qual não sabia nada. Era minha imaginação ou

todos me ocultavam isso?

Rachel olhou em minha direção nesse momento.

—Pelo amor de Deus! O que fez ao meu bordado? Olhe.

Baixei o olhar e vi, então, de que não se tratava de meu

trabalho. Para piorar, tinha dado pontos ao azar por todo o tecido.

Deixei-o de lado imediatamente.

—Desculpe-me.
Rachel recuperou o bastidor e começou a desfazer meus pontos.

O piano soava alto o bastante para ocultar nossa conversa.

—William parece muito entusiasmado com essa viagem —

comentei com indiferença.

Rachel franziu o cenho ao descobrir o matagal de linha que

tinha feito, tentando fazer um ponto de nó, e tratou de desfazê-lo

com a agulha.

—Sim —afirmou, deixando escapar um suspiro—. Me resignei

à ideia, porque gosta, mas meu pai nunca teria aprovado. —Olhou-

me com resignação—. Era pároco, sabe? Graças a Deus que já não

está neste mundo para ver isso.

Observei-a enquanto desfazia os pontos que tinha dado com

tanta estupidez. O que Philip e William planejavam fazer que

merecesse a reprovação de um religioso?

—Mas assim são os homens —continuou ela—. Sei que não

poderia deter William se o tentasse, assim, nem me incomodo.

Decidi que, quanto menos saiba de suas atividades, mais tranquila

estarei. Já saberá que, às vezes, a ignorância é o melhor escudo.

Aquilo me deixou atônita. Tratei de pensar em outra explicação,

mas a única razão que me ocorria para que uma mulher não

quisesse saber nada das atividades de seu marido era que ele estava

fazendo algo indecoroso.

Apesar de não ter pisado em Londres, não precisava saber mais

para atar os fios. Depois de tudo, tinha ouvido tantos rumores sobre

os escândalos do senhor Kellet que fazia uma ideia geral de quais


eram suas atividades. E Betsy tinha me contado outros tantos sobre

o que as pessoas faziam na capital. Mas me parecia incrível a

normalidade com que falavam do assunto! Inclusive tinham

mencionado a viagem em presença de lady Caroline!

De repente, vi a família Wyndham com outros olhos e todos

eles me decepcionaram muito. Não obstante, não podia dizer nada,

nem reagir do modo que gostaria, pois isso só teria me causado mais

vergonha, como tinha ocorrido com Cecily e Louisa.

De acordo, apenas conhecia William. Mas Philip! Pensava que

era um cavalheiro. Parecia tão nobre. Acreditava que estaria acima

de todas essas coisas. Como podia ter me equivocado tanto na

interpretação de seu caráter?

Comecei a me sentir mal e soube que tinha que sair dali

imediatamente. Depois dizer que necessitava algo de meu quarto,

fugi do salão tão rápido como pude. Entretanto, não fui ao meu

dormitório, pois sabia que tampouco ali acharia consolo. Em vez

disso, andei pela casa em atitude distraída, tentando não imaginar

Philip fazendo coisas que um pároco desaprovaria, até que acabei

com o rosto sufocado e o coração encolhido.

Em meu despreocupado perambular, encontrei-me de repente

no terceiro andar e decidi me deter a admirar os quadros. Talvez, se

ocupasse minha mente em algo belo, seria capaz de me libertar do

desassossego que me invadia.

Entretanto, quando só tinha examinado umas poucas

paisagens, ouvi um ruído estranho, similar ao zis zas de metal contra


metal, que foi ganhando minha atenção progressivamente até que a

curiosidade me obrigou a investigar sua origem. Fui seguindo o som

e cheguei à sala que tinha visto em uma ocasião, durante aquela

primeira visita à casa.

A sala de esgrima. A porta estava entreaberta, o que me

permitiu olhar sem ser vista. A imagem que se apresentou a mim fez

com que o coração me subisse à garganta. Era Philip, em calções e

camisa, praticando esgrima com William. Seu porte era ágil, forte,

elegante e poderoso. Senti secar a garganta e fiquei imóvel, temerosa

de ser descoberta e incapaz de afastar o olhar. Philip encurralou

William contra a parede, mas este conteve seu irmão interpondo seu

florete.

—Contenha-se um pouco, Philip. Eu gostaria de não acabar

ferido.

—Desculpe —murmurou este, retrocedendo.

Quando deu a volta, pude ver-lhe bem o rosto pela primeira

vez. Faltou-me o fôlego. Nunca teria imaginado que veria Philip tão

exaltado. Parecia como se um fogo ardesse dentro dele, um fogo que

consumiria qualquer um que se encontrasse perto se alguma vez

chegasse a libertá-lo.

—Imagino que seu mau humor tem algo a ver com seu<

encargo —acrescentou William pondo ênfase na última palavra.

Parecia estar se divertindo.

—Já sabe que sim — Philip se limitou a responder.

—De verdade é tão ruim?


Definitivamente, William estava desfrutando com aquilo. Philip

passou uma mão pelo cabelo.

—Pior que nunca. Não sei quanto mais vou suportar. —William

soltou uma risadinha e Philip o fulminou com o olhar—. Vejo que

lhe parece divertido.

—Depois de todas as mulheres das quais fugiu< Pois sim,

parece-me divertido.

Entretanto, Philip não sorria. De repente, perguntei-me se seria

apropriado seguir escutando sua conversa. E se me descobrissem

assim, atrás da porta! Que vergonha! Estava a ponto de dar meia

volta e partir sem fazer ruído quando William acrescentou algo

mais.

—Sua avó organizou a visita, não é? Por que não se limita a

enviá-la de volta a Bath?

Detive-me em seco. Estavam falando de mim!

—Faria-o se pudesse. Qualquer coisa seria melhor que tê-la

aqui, mas é impossível. Sua avó foi contundente, não a quer em

Bath. —Deixou escapar um suspiro—. O que mais desejo é me

libertar de minha responsabilidade com ela, mas não tem nenhum

outro lugar aonde ir.

Meu coração batia com tanta força que doía.

—Amanhã nos vamos —resolveu William—. Talvez seu pai

retorne enquanto estamos fora e a leve para casa. Tudo se resolveria

então.

—Oxalá tivesse razão, mas o duvido. —Philip bateu com a


espada na bota—. Está há mais de um ano fora e não esperam que

volte logo.

—Pois parece que terá que resistir, então. —William fez uma

careta e levantou seu florete—. Só peço que tente não descarregar

sua frustração sobre mim.

Philip murmurou algo que não cheguei a ouvir e olhou

carrancudo a seu irmão, que voltou a rir.

Quando começaram a bater-se de novo, dei meia volta e me

afastei da porta, aturdida. Percorri o corredor devagar, muito

devagar, dobrei uma esquina, desci as escadas e me dirigi ao meu

quarto.

Fechei a porta e cruzei a estadia para olhar pela janela enquanto

lutava por proteger meu coração da verdade que escutara. Foi como

tentar apagar o sol. Não havia forma de fugir do rechaço; essa era a

verdade que mais me tinha doído. Ninguém me queria, nem meu

pai, nem minha avó, nem os Wyndham. Louisa não me queria ali,

pode ser que nem Cecily, e certamente Philip tampouco.

Tinha chegado a me acostumar que meu pai me tivesse

abandonado. E suspeitava que a minha avó tampouco gostava de se

encarregar de mim. Entretanto, não tinha duvidado em nenhum

momento da amizade de Philip desde dia que tínhamos passado

juntos na biblioteca. Tinha estado tão certa de sua sinceridade que

inclusive tinha me convencido de que sua mania de paquerar

comigo não diminuía a força do vínculo que se criara entre nós.

Mas acabava de descobrir que tinha me enganado em tudo,


tanto na interpretação de seu caráter como em sua estima por mim.

Foi um duro golpe, que me deixou cambaleando. Philip não era um

cavalheiro, nem meu amigo. Não se tratava mais que uma farsa

muito elaborada e não havia nada real nem autêntico ao qual me

ater.

Sentia-me como na primeira vez que um cavalo tinha me

derrubado. As rédeas tinham me escapado dentre os dedos e tinha

visto o chão aproximar-se a toda velocidade. Tanto naquela ocasião

como nesta não pude fazer nada para evitar a dor que senti.
Capítulo 19
Caí sobre a cama com o olhar perdido e tentei não pensar em

nada. Oxalá tanto meu interior como o que me rodeava estivessem

compostos por esse mesmo nada. Betsy interrompeu meu exercício

de abstração ao colocar-se em pé junto a minha cama com os braços

em jarras.

—Não está pensando em ir ao baile desta noite?

—Não.

Fechei os olhos e tentei recuperar aquela sensação de vazio.

Mas, inclusive com os olhos fechados, podia notar o olhar de Betsy

cravado em mim.

—Recorda a meu pai quando morreu seu cão favorito.

Abri os olhos ao ouvir aquilo.

—Como?

—É certo. Tinha o mesmo olhar que vejo em seus olhos, como

se nada deste mundo pudesse compensar o que tinha perdido. —

Deixou escapar um suspiro quando se sentou sobre a cama—. E

nada o fez.

—Obrigada, Betsy —grunhi—. É muito reconfortante,

certamente.

Dei-lhe as costas com a esperança de que me deixasse a sós com

minha miséria.

—Quer me contar o que aconteceu? —insistiu, apoiando uma


mão sobre meu ombro com ternura.

Pensei em mentir ou em não dizer nada. Entretanto, o que tinha

descoberto estava me sufocando e me suplicava que o jogasse fora.

Nunca antes tinha confiado nada a Betsy, embora nesse momento

me parecia o mais próximo a uma amiga. E pode que até pudesse

me dizer algo que me ajudasse a entender por que tinham me

enganado.

—Descobri que ninguém me convidou a vir a Edenbrooke, foi

coisa de minha avó —expliquei com a voz entrecortada.

Não podia lhe contar nada mais. Não podia falar a ninguém da

parte mais vergonhosa: que, na realidade, ninguém me queria ali.

—Ah! Isso é tudo? —soltou com despreocupação—. Eu poderia

ter dito há semanas.

—O que? —exclamei me incorporando— A que se refere?

Betsy tirou algo que tinha entre os dentes.

—Bom, eu sabia desde o começo que sua avó tinha organizado

a viagem, mas me ameaçou cortar a língua e comê-la no café da

manhã se dissesse. E não sei o que faria sem língua.

Pus os olhos em branco.

—Betsy, asseguro que não a teria comido no café da manhã. Já

sabe que só come carne no jantar —murmurei.

—Não tinha pensado nisso —respondeu com o cenho

franzido—. Bom, pois sim, ela a enviou, mas não queria que

soubesse, assim chegou a um acordo com lady Caroline. Não estou

certa do papel que a senhorita Cecily desempenhou, mas eu acredito


que lady Caroline lhe pediu que fosse ela quem a convidasse para

que você não suspeitasse. E, se posso ser sincera, acredito que foi

um plano brilhante, já que sir Philip não a teria olhado duas vezes se

tivessem se conhecido em Londres. Você saiu ganhando, se me

permite dizê-lo.

—Ganhando? Por que pensa isso?

Não entendia o que eu ganhava me vendo forçada a ficar na

casa de alguém que não desejava minha presença.

—Porque caçou o senhor.

Abri a boca.

—Cacei sir Philip?

—Sim —respondeu balançando uma perna—. Que outro

propósito podia ter esta visita? Muita sorte que acabássemos

naquela estalagem e que não ficasse mais remédio que retornar.

—O que quer dizer com isso de que não ficou mais remédio que

retornar? —não pude evitar perguntar.

—Bom, já sabe que estava fugindo quando nos topamos com ele

na estalagem. Fugindo de você, quero dizer. Imagina? Um homem

feito, disposto a passar meses longe de seu lar só para não conhecê-

la. Mas olhe como o destino dispôs tudo para que James recebesse

um disparo e sir Philip decidisse deter-se para comer algo antes de

prosseguir viagem. —Betsy me observou fixamente com

perspicácia—. Mas você já sabia.

Neguei com a cabeça.

—Não sabia de nada.


—Mas o que acreditava que estava fazendo na estalagem a

essas horas da noite?

—Nem sequer parei para pensar nisso.

—Bem, pois pelo que ouvi, assim que se inteirou de sua visita,

saiu daqui como se o próprio diabo o perseguisse.

Como se o próprio diabo o perseguisse. Recordei minha

conversa com a senhorita Grace. Ela tinha assumido que eu não era

mais que outra mulher ambiciosa decidida a conquistar Philip.

—Betsy, todo mundo pensa que vim< caçar sir Philip?

—Suponho —respondeu a camareira dando de ombros—. Ao

menos, é o que se comenta na cozinha.

—Espero que o tenha desmentido.

A camareira mordeu o lábio e começou a olhar para o outro

lado.

—Betsy!

—Bom, depois de tudo, ninguém teria acreditado em mim,

tendo em conta como esteve se comportando.

Soltei um grito afogado.

—Comportando? E como o tenho feito?

—J{ sabe< passou tanto tempo com ele e o olha de uma

maneira<

—De que maneira? —perguntei enquanto o medo me tomava.

Ela agitou uma mão no ar.

—Como se< criasse a felicidade.

Soltei um lamento, deixei-me cair sobre a cama e cobri o rosto


com as mãos. Estava morta de vergonha. Todas essas horas que

tinha passado em companhia de Philip e que tinham me parecido

muito inocentes tinham sido o objeto dos olhares e fofocas da

criadagem. Agora, pareciam manchadas e me arrependi de todas e

cada uma delas.

—O que pensa fazer sobre o baile? —perguntou-me Betsy.

—Permite-me um momento? A sós?

—É claro.

Saiu do quarto em silêncio.

Levantei-me e passeei de um lado ao outro diante da janela.

Tinha que sair dali. Não podia ficar onde não me queriam. Mas

onde? Minha avó tinha me enviado ali e, ao que parecia, não queria

que retornasse a Bath, meu pai não tinha respondido minhas três

últimas cartas e não tinha mais parentes próximos aos que acudir.

Deixando me tomar pelo desespero, sentei-me diante da

escrivaninha e peguei uma folha de papel. Talvez meu pai já não me

quisesse, mas tinha o direito de recorrer a ele se necessitava ajuda.

Rabisquei uma mensagem para ele. Preocupava-me parar e pensar

nas palavras, pois então, choraria e arruinaria a carta.

Querido pai:

Lamento que meu cavalo não conseguisse saltar aquela

manhã. Sinto também que o cavalo de minha mãe perdesse uma

ferradura e ela tivesse que montar o meu em seu lugar.

Penso repetidamente se eu poderia ter evitado o acidente,


mas não vejo como, e de todos os modos é muito tarde para voltar

atrás. O que preciso saber é se me culpa, se ainda me ama e por

que me abandonou quando mais o necessitava.

Com carinho,

Marianne

Dobrei a carta rapidamente e mordi o lábio inferior para evitar

perder o controle sobre minhas emoções. Se começasse a chorar, não

sabia se poderia parar.

Abri a gaveta da escrivaninha para tirar a cera e o selo, mas

meus dedos se detiveram ao roçar os dois escritos que jaziam no

fundo: a carta de amor de Philip e seu bilhete. Tirei-os, desdobrei-os

com cuidado e os li. Senti o coração em um punho, mas, de repente,

começou a bater com mais força, movido pela ira e o ressentimento.

Como se atrevia a me enganar? Como se atrevia a fingir que era meu

amigo quando o único que queria era se livrar de mim?

Sabia o que tinha que fazer. Rasguei a carta pela metade uma

vez, e outra, e outra mais; embora ainda seguia vendo algumas

palavras: «tortura», «adoro», «desesperadamente». Cada uma delas

era uma punhalada traiçoeira em meu coração e decidi fazer

migalhas as palavras. Oxalá pudesse destruir com a mesma

facilidade meus sentimentos. Não parei até que a carta ficou

reduzida a um monte de pedacinhos de papel diminutos e ilegíveis

e logo fiz exatamente o mesmo com o bilhete. Reuni em minhas

mãos as palavras feitas em pedaços e as atirei ao fogo.


Quando Betsy retornou minutos depois, entreguei-lhe a carta

para meu pai.

—Pode assegurar que seja despachada o antes possível?

Assentiu e guardou a carta no bolso.

—E sobre o baile?

O baile. Philip estaria ali, mas também o senhor Beaufort. Este

último estava interessado em mim e talvez até quisesse casar-se

comigo. Verifiquei meu coração de novo e não senti nada. Estava

embotado, vazio e sem vida. Exatamente como queria que estivesse.

—Sim, irei, mas esta noite quero estar mais bela do que jamais

estive. É capaz de confrontar o desafio?

—Deixe em minhas mãos —respondeu esfregando-as— Estará

radiante, asseguro.

Esbocei um sorriso forçado.

Quando Betsy acabou comigo, coloquei-me diante do espelho e

avaliei meu aspecto de um ponto de vista objetivo. Tinha posto o

vestido de seda verde e tinha deixado de parecer uma menina.

Talvez fosse a combinação do penteado, as joias e o vestido, embora

me parecesse que o mérito era de meu olhar.

Betsy se afastou um pouco para me observar com olho crítico

de cima abaixo. Finalmente, assentiu com a cabeça, em sinal de

aprovação.

—Sequer terá que beliscar as bochechas esta noite —indicou—.

Já estão rosadas.

Agradeci e pus depressa as luvas longas enquanto saía do


quarto e percorria o corredor. Detive-me antes de chegar às escadas

e me protegi nas sombras, respirei fundo e tentei mentalizar para o

que me esperava. Minha única esperança de êxito residia em ser

capaz de permanecer imune aos encantos de Philip. Tinha que

encerrar meu coração sob chave e obrigá-lo a guardar silêncio. Se

Philip desarmasse minhas defesas, perderia a dignidade que tanto

me custava simular e certamente faria algo imperdoável, como

chorar diante dele ou confessar que sabia que não me queria ali.

Portanto, forjei uma armadura contra ele centímetro a

centímetro. Repeti-me interiormente tudo o que tinha contra Philip e

pensei em seus múltiplos defeitos enquanto descia as escadas com

fingida dignidade. Para começar tinha me mentido. Havia me dito

que era bem-vinda a Edenbrooke quando não era certo. Tinha me

provocado uma falsa sensação de segurança ao me fazer acreditar

que era meu amigo, quando, durante todo esse tempo, queria livrar-

se de mim.

Em segundo lugar, era um arrogante se pensava que eu tinha

feito essa viajem com a intenção de caçar um homem que sequer

conhecia. O presunçoso! O que acreditava? Que todas as mulheres

que cruzavam seu caminho caíam rendidas a seus pés? Que todas

sacrificariam sua dignidade pela oportunidade de convertê-lo em

seu marido? Pois bem, estava muito equivocado, já que eu nunca

sacrificaria nada por ele.

O mordomo abriu as portas e entrei no salão. Toda a família

estava presente, embora apenas me fixei neles. Vi apenas Philip, que


havia se voltado rapidamente para mim e me olhava com um brilho

estranho nos olhos, algo semelhante à admiração. Entretanto, devia

tê-lo interpretado mal, já que ele não sentia tal coisa por mim, mas

sim o que queria era se livrar de mim. Recordei a tarefa que me

impusera e me dirigi ao outro extremo da sala para continuar

enumerando seus defeitos sem tê-lo perto.

Era muito atraente. Muito. E essa noite o estava especialmente,

vestido de gala, com seu traje negro, seu colete e seu lenço branco

como a neve. O cabelo brilhava à luz das velas e me olhava do outro

extremo do salão com ar pensativo. Afastei o olhar daquele rosto

muito belo. Esse era o maior de seus defeitos, já que seus olhos e seu

sorriso induziam às jovens a desculpar suas outras faltas.

Era insistente. Acrescentei-o à lista de defeitos quando cruzou o

salão para vir ao meu encontro, mesmo que fosse óbvio que eu não

queria saber nada dele.

—O que fiz para merecer esse olhar? —perguntou-me em um

sussurro para que ninguém mais o ouvisse.

Foi uma manobra enganosa, que nos fazia parecer

conspiradores, em vez de um anfitrião reticente e uma convidada

non grata.

—Não fez nada, senhor.

—Senhor? —repetiu como se se tratasse de um insulto—. Agora

sei que é sério. Diga-me de uma vez para que possa me desculpar.

Soltei uma risada, embora meu interior seguisse firme como

uma rocha.
—Está imaginando coisas.

Philip franziu o cenho, mas nesse momento o mordomo abriu a

porta e anunciou que a carruagem estava preparada. Ao me voltar

para a saída, vi Cecily me observando com receio; mas não me

importou. Podia ficar com sir Philip Wyndham. Seriam, sem dúvida,

o casal perfeito. Ela se dedicaria a paquerar com o senhor Kellet

enquanto Philip viajaria a fazer coisas que um pároco não aprovaria.

Juntos teriam uma vida feliz, falsa e imoral.

Assegurei-me de não sentar ao lado de Philip na carruagem,

embora o resultado foi pior, pois se sentou justo em frente. Seu

joelho roçava a meu a cada volta do caminho e cravou o olhar em

mim com tal intensidade que notei que meu rosto avermelhava.

Para me distrair, continuei com a lista.

Era muito perspicaz e essa faceta sua eu não gostava o mínimo.

Philip não deixava de repetir que eu tinha um rosto muito

expressivo, embora a culpa fosse sua por ver muito. Não queria que

soubesse o que ocultava meu coração nessa noite, por isso, voltei-me

para a janela e me concentrei na paisagem, ignorando por completo

a conversa dos outros.

Quase tinha finalizado minha lista e minha armadura quando

nos detivemos diante de Assembly Hall. Philip foi o primeiro em

descer da carruagem, voltou-se para mim e me ofereceu a mão. Vi-

me obrigada a aceitá-la ou me arriscava a tropeçar e cair no chão.

Apertou-me a mão com força, confiança e familiaridade e minhas

defesas cambalearam.
Muito arrumado, repeti-me. Muito perspicaz. Muito

encantador. Tinha acrescentado esse último à lista durante o trajeto.

Muito familiar, muito enternecedor, muito insistente. É óbvio, não

podia me esquecer do mais importante: muito mentiroso.

Soltei sua mão assim que pus um pé no chão e me senti aliviada

e decepcionada ao mesmo tempo. Tinha que me esforçar para

conseguir dominar meu coração, não podia deixar que ignorasse o

trabalho racional de minha mente.

Ao entrar na sala de baile vi o senhor Beaufort, que começou a

abrir passagem para mim entre a multidão. Philip ficou ao meu lado

e embora não dirigisse o olhar para ele de maneira intencionada, sua

proximidade estava me pondo muito nervosa.

Tentei sorrir e recuperar o aprumo conforme o senhor Beaufort

se aproximava, mas apenas podia respirar, estando Philip tão perto.

Então, vi o senhor Kellet sorrindo-me com prepotência do outro

extremo da sala, o que serviu para que a noite piorasse ainda mais.

—Dançará comigo esta noite? —perguntou-me Philip em um

sussurro.

O coração me deu, no mínimo, três tombos. Subi as luvas,

fingindo pôr um grande interesse neles.

—Não, obrigada —respondi, esforçando-me por soar

indiferente.

O senhor Beaufort se encontrava a poucos passos de distância

quando um grupo de mulheres se interpôs entre nós e lhe bloqueou

o caminho.
—Não, obrigada? —perguntou, então, com uma nota de

incredulidade.

O coração me pulsava com força e o rubor acendeu minhas

bochechas. Atrevi-me a dar uma rápida olhada em sua direção.

Tinha o cenho franzido e seus lábios descreviam uma linha reta.

Estudou meu rosto como se procurasse alguma pista nele.

—O que aconteceu?

Dei de ombros e olhei para o outro lado.

—Nada, absolutamente.

Era evidente que Philip estava aborrecido e isso me causou uma

mesquinha sensação de prazer. Pois claro que devia sentir-se

aborrecido. Ao fim e ao cabo, ele era o causador de tudo o que ia

mal naquela noite. Ele era o embusteiro, não eu. Ignorei a vozinha

em meu interior que me recordava todas as mentiras que havia dito

essa noite.

O senhor Beaufort tinha esquivado ao grupo de mulheres e se

encontrava a uns passos de mim. Philip estava tão perto que sentia

seu calor mesmo que não nos tocássemos. Juntei as mãos. Estava

muito perto. Seu calor, sua intensidade e familiaridade lutavam

contra minhas defesas. Entretanto, antes que pudesse me afastar,

Philip se inclinou e me sussurrou algo ao ouvido tão baixinho que

ninguém mais pôde ouvi-lo.

—Está muito bela esta noite.

Um calafrio me percorreu o corpo e ruborizei por causa da ira,

pois Philip tinha conseguido que suas palavras parecessem sinceras.


Em seguida, endireitou-se e se afastou de mim sem olhar para trás.

Afastei o olhar de suas costas largas e me voltei para o senhor

Beaufort, que se encontrava diante de mim, fazendo uma reverência.

—Senhorita Daventry, você cresceu em beleza nos poucos dias

que transcorreram desde que nos conhecemos.

Tentei me sentir adulada, mas suas palavras não me soaram

acreditáveis. Mesmo assim, esbocei um sorriso.

—Obrigada.

Estava a ponto de começar uma dança. Ofereci-lhe a mão e

deixei que me conduzisse até a pista, onde os casais estavam

distribuindo-se em duas filas, cada cavalheiro em frente a sua dama.

Centrei o olhar no senhor Beaufort e tentei me desfazer das emoções

desencontradas de todo o dia. Procurei acalmar meu coração, que

pulsava desbocado desde que tinha visto Philip pela primeira vez

essa noite. Inspirei fundo e me obriguei a me concentrar no que

tinha nas mãos. Tinha decidido levar a cabo um exercício prático

sobre como ser uma jovem elegante. Faria todo o possível por

esquecer que Philip se encontrava na mesma sala. Seria simples,

sobretudo depois de ter me negado a dançar com ele.

Sorri alegremente ao senhor Beaufort, preparada para provar

meus dotes para a paquera até que começasse a dança. Mas, então,

vi que Philip estava à direita de meu acompanhante. Olhei-o

surpreendida, logo voltei a cabeça para a esquerda e descobri que

seu par era Cecily. O sorriso de minha irmã tinha esse matiz

insinuante que me fez pensar no que tinha aprendido em Londres


sobre como beijam os descarados. Uma onda de ciúmes me golpeou

o peito, com tanta fúria, que me deixou sem fôlego um instante.

Voltei a olhar o senhor Beaufort, embora tive que fazer grande

esforço para recordar que não me importava o que fizessem Philip

ou Cecily.

A música começou. Tratava-se de uma música animada, o que

foi uma sorte, pois, assim, seriam poucas as oportunidades de falar.

Tentei sorrir ao senhor Beaufort e não olhar para Philip, mas

requeria tanto esforço que estava exausta quando acabou a dança.

Apenas tive tempo de me recuperar antes que outro cavalheiro

se aproximasse de mim e me solicitasse uma dança. Nesta ocasião,

Cecily dançou com o senhor Kellet. Vi Philip ao final da fila

dançando com a senhorita Grace, embora não é que o estivesse

procurando. Pensei em tentar paquerar com meu par para manter

minha mente afastada de Philip, mas não tive muito êxito. Meu

sorriso era forçado e meus pensamentos seguiam voltando para

Philip e às palavras que o tinha ouvido dizer a William.

Depois de várias danças mais, os músicos pararam para um

descanso. Coloquei-me junto a uma janela aberta e deixei vagar o

olhar entre os assistentes. Sem esforço, meus olhos pousaram em

Philip. Não estava tentando encontrá-lo entre as pessoas, mas era o

tipo de cavalheiro que se destacava entre os outros. E ali estava ele,

junto a uma janela aberta, falando com o senhor Beaufort.

Ambos pareciam rígidos e nenhum dos dois sorria. Parecia

quase como se estivessem discutindo, embora não pudesse imaginar


por que o fariam se apenas se conheciam.

Era difícil não compará-los, estando juntos. O senhor Beaufort

era, sem dúvida, arrumado, levava seu cabelo loiro na moda e se

vestia de forma elegante. Entretanto, ao lado de Philip, seu atrativo

murchava de forma considerável aos meus olhos. Era óbvio, ao

compará-los, que o senhor Beaufort era como uma bijuteria,

chamativa por fora, mas falsa depois de tudo, com nada de grande

valor em seu interior.

Philip, em troca, brilhava como uma joia autêntica sem sequer

se esforçar. Sua roupa era tão bonita como a do senhor Beaufort,

mas a usava com uma graça natural e atlética. Tampouco precisava

recorrer a extremos para causar impressão, era simplesmente

elegante, de forma natural, sem esforço Ao vê-los, percebi que

preferiria mil vezes a joia autêntica à bijuteria.

Senti-me decepcionada e desgostosa comigo mesma. Não tinha

que fazer nenhuma comparação. Philip não estava interessado em

mim; o senhor Beaufort, sim. Era o único que importava. Além

disso, eu não tinha nenhum interesse em Philip, esse libertino

arrumado, incorrigível e encantador que se dedicava a roubar

corações que não tinha interesse em conservar.

Não fui consciente da presença da senhora Fairhurst até que

falou. Ao ouvir sua voz junto a mim, sobressaltei-me.

—Sir Philip é um grande partido, não é certo?

Olhava na mesma direção em que eu tinha estado olhando e

ruborizei ao ter sido descoberta o observando, sobretudo por ela.


—Ah, sim? —soltei voltando as costas ao homem em questão.

A senhora Fairhurst riu pelo nariz.

—Oh, vamos, senhorita Daventry, não me engana. Sei que é

perfeitamente consciente de seus< encantos.

Olhei-a sem dissimular o quanto a odiava. Ela me devolveu um

sorriso, mas que não chegou aos olhos.

—Se for o caso, não acredito que fosse assunto dele.

—Oh, claro que não. Eu só tentava lhe fazer um favor, querida,

pois é óbvio que não fez caso da advertência que minha Grace lhe

fez a sua chegada. —Abriu o leque e o agitou com energia—. Cada

ano a metade das damas de Londres caem rendidas a seus pés. Falo

de damas elegantes e refinadas com título e fortuna. —Olhou-me de

cima a baixo, arqueando uma sobrancelha—. Está claro que não

entende quão abaixo está de seu nível.

A ira prevaleceu sobre meu aturdimento. Sabia que essa

horrível mulher tinha razão, mas não pensava me acovardar, não

lhe daria essa satisfação.

—Você disse a metade das damas de Londres? —perguntei com

ar inocente.

Ela assentiu sorrindo, muito segura de si mesma.

—Mmm< Muito desgosto ter{ sir Philip quando se inteirar,

porque me assegurou que eram quase três quartas partes.

Seu sorriso desapareceu.

—Pergunto-me qual dos dois terá razão —acrescentei—.

Perguntamos a ele?
Fechou o leque de repente. Seus olhos cintilavam de raiva.

—Não será necessário.

De repente, Philip apareceu diante de nós e ambas nos

assustamos. Ele ignorou por completo à senhora Fairhurst e me

estendeu a mão.

—Creio que tenho a próxima dança.


Capítulo 20
Philip não tinha a próxima dança, embora não pensasse admiti-

lo diante da senhora Fairhurst. Não restou alternativa, pois, que lhe

oferecer minha mão e deixar que me conduzisse até a pista de

dança.

Isso era inesperado. Enquanto Philip me acompanhava até a fila

de casais, tentei com desespero recordar a lista de defeitos que tinha

elaborado antes, mas não podia pensar com clareza. Estávamos cara

a cara, esperando que começasse a música. Estava nervosa, muito

nervosa. Era a primeira vez que dançava com ele e notar como me

observava com aqueles olhos que me resultavam tão familiares me

fez disparar a pulsação. Inspirei fundo e decidi fingir que era só

mais um dos homens comuns com os quais tinha dançado durante a

noite. De fato, nem pensava lhe olhar à cara. Cravaria o olhar em seu

lenço e não abriria a boca.

A música começou. Dei um passo para Philip ao mesmo tempo

que ele o dava para mim, mas sem afastar o olhar daquele lenço

perfeitamente atado. Podia fazê-lo. Podia fingir que era um

desconhecido ao qual não olharia nos olhos e, portanto, não sentiria

nada enquanto dançasse com ele.

Não obstante, não tinha tido em conta um aspecto importante:

Philip não dançava como nenhum dos homens com os quais alguma

vez tinha dançado. Quando chegou a hora de deixar sua mão sobre
minha cintura, não o fez com passividade nem mesura, mas sim a

apoiou na parte baixa de minhas costas e me atraiu para si com

resolução. Em um só passo estávamos tão próximos que podia sentir

sua respiração. Estremeci, levantei o olhar surpreendida< E olhei

em seus olhos, precisamente o que tinha jurado não fazer.

Oh, meu Deus! Pode ser que uma dama de Londres com mais

experiência soubesse o que fazer ante o olhar ardente que descobri

nele, mas eu não. Para minha consternação, dava-me conta de que

quando o encarava, era impossível recordar um só dos defeitos de

minha lista. Nem Philip nem eu dissemos nada enquanto

girávamos. Quando me soltou, minhas pernas e mãos tremiam.

Aturdida, afastei o olhar para poder seguir outros passos da dança.

Antes que pudesse me preparar, chegou o momento de voltar a

nos encontrar no meio. Como podia ter dançado essa dança antes

sem perceber quão íntima era? Custava-me acreditar. Philip pegou-

me a mão, apoiou a outra em minha cintura e me atraiu para si sem

deixar de me olhar nos olhos. Era insuportável. Seguia sem

pronunciar uma palavra e comecei a pensar que tudo seria mais fácil

se o fizesse, pois, assim, ao menos poderia lhe responder algo

insubstancial e dissipar a tensão que crescia entre nós.

Quando me soltou, vi lady Caroline de pé atrás da fila de

bailarinos nos observando; também Rachel, que estava dançando

com William uns casais mais à frente, olhava em nossa direção. Não

pude evitar ruborizar. O que estariam pensando? Acaso eu dava a

impressão de estar tentando caçar Philip? E onde se colocara Cecily?


O que ela pensaria?

Justo quando acreditava que as coisas não podiam piorar,

Philip falou.

—A metade das damas de Londres? —sussurrou-me,

aproximando-se de novo.

Assim que o tinha escutado!

—Sim, esse parece ser o consenso.

Entrecerrou os olhos e me seguiu com o olhar quando nos

separamos e nos dirigimos ao final da fila.

—É por isso que está zangada comigo? —perguntou-me

quando voltamos a nos encontrar.

—Não estou zangada —respondi com frieza, embora tratei de

sorrir para que acreditasse na mentira.

Philip negou com a cabeça.

—Mente muito mal. Sequer deveria tentá-lo.

Olhei-lhe com ódio enquanto pensava desesperadamente,

procurando a melhor resposta. Entretanto, não me ocorreu nada,

devido possivelmente a que nunca podia pensar com clareza

quando ele estava tão perto.

—Seu olhar de aborrecimento não é o castigo que você acredita

que é —soltou.

Seu fôlego me roçou o pescoço e me fez estremecer de novo.

Arqueei uma sobrancelha.

—E por que não? —repliquei, tentando que minha voz soasse

indiferente.
A rotina da dança nos obrigou a nos separar e, tensa de

antemão, tive que esperar para escutar sua resposta. Philip não

afastou os olhos de mim em nenhum momento.

—Porque é ainda mais bela quando se zanga —confessou

quando voltamos a nos juntar no meio.

Fulminei-o com o olhar.

—Não diga tolices.

—Não o faço —replicou. Continuava tendo aquele olhar

ardente e distingui a mesma paixão contida da qual tinha sido

testemunha na sala de esgrima—. Deveria ver o ardor com que lhe

brilham os olhos. E quando franze os lábios como agora, em sua

bochecha esquerda aparece uma covinha, justo ao lado da boca, que

me deixa louco.

A vergonha, a raiva e uma intensa confusão me consumiam.

Philip estava paquerando comigo e isso não estava bem. Embora

não era a paquera o que me incomodava, sempre soubera que, para

ele, não era mais que um jogo; a não ser o fato de me dar conta de

que nenhum de outros cavalheiros com os quais tinha dançado

tinha a menor ideia de como flertar com uma dama. Nenhum deles

me tinha feito sentir tão desconjurada e tão viva ao mesmo tempo.

Como poderia ser feliz com outro homem enquanto Philip seguisse

perto para eclipsar a todos?

Além disso, era evidente que sir Philip Wyndham era o homem

mais exasperante sobre a face da terra. Já nem podia fulminá-lo com

o olhar, pois ele sem dúvida desfrutava do espetáculo. Tinha ficado


totalmente indefesa.

Ali mesmo, no meio da pista, minha armadura caiu e ocorreu o

impensável. Recordei que Philip não me queria ali e que nunca o

tinha feito. Minha tristeza tomou vida, arrasou a raiva que sentia e

fundiu todas minhas defesas. E então cometi um grave engano.

Quando estava mais vulnerável, olhei nos olhos de Philip. O tempo

tornou-se mais lento, a música foi se apagando e outros dançarinos

desapareceram. Não havia mais ninguém no mundo além de Philip

e de mim e finalmente estive o bastante perto para descobrir o

segredo que tinha intuído em seus olhos.

Estava diante de mim, de forma tão clara, tão óbvia, que não

pude evitar me perguntar como é que não o tinha visto antes.

Deixou-me tão aturdida que parei de dançar, horrorizada, enquanto

a verdade que tinha descoberto me consumia por dentro. O mais

surpreendente de meu descobrimento foi que nos olhos de Philip

não achei seu segredo, a não ser o meu.

Estava apaixonada por Philip Wyndham.

Um segundo pensamento seguiu imediatamente ao primeiro:

com toda certeza, Philip não estava apaixonado por mim.

O horror se apoderou de mim. Oh, mas o que tinha feito? Como

podia ter sido tão estúpida?

—Marianne?

Pisquei e tentei me concentrar no rosto de Philip, que me

olhava com preocupação.

—Está muito pálida. Encontra-se bem?


Agarrou-me pelo braço com firmeza, como se temesse que fosse

cair.

Neguei com a cabeça. Não me encontrava bem.

—Desculpe-me —disse, antes de me afastar de seu lado.

Surpreendeu-me que me deixasse ir com tanta facilidade,

embora pudesse que eu me tivesse soltado à força; estava muito

aturdida para saber o que tinha acontecido de fato. O certo é que, de

repente, estava livre de sua mão e abria passagem entre a multidão

de bailarinos que davam voltas, sorriam, conversavam e riam. Uma

confusão de braços, mãos, rostos, pernas, ruído, fitas, l{bios< As

pessoas me empurravam e eu tentava esquivar-me delas cada vez

com mais brutalidade, desesperada por escapar daquele tumulto.

De repente, uma mão agarrou a minha.

Era Philip. Ao olhar por cima do ombro, vi que seus lábios se

moviam, estava me dizendo algo, embora não podia ouvi-lo. Havia

muito ruído, tudo girava ao meu redor e fazia muito calor. Tropecei

nos pés de algum dançarino, um braço me rodeou a cintura e Philip

tirou-me da pista para o lugar onde sua mãe nos esperava,

preocupada.

***

Tinham-me levado até uma cadeira junto à janela. Philip estava

inclinado sobre mim e me olhava com preocupação. Lady Caroline

também estava ali abanando-me.

—O que aconteceu? —perguntou.


—Quase desmaia enquanto dançávamos —respondeu ele.

Tolice. Eu nunca desmaiava. Bom, quase nunca. Embora fosse

certo que me sentia um pouco desconectada de meu corpo. Não

sentia as pernas ou os braços. Era como se estivesse flutuando, como

se não estivesse submetida à gravidade. Baixei o olhar e me

surpreendi ao ver Philip agarrando minha mão, pois tampouco isso

sentia. Cecily apareceu de repente ao meu lado. Cheirava a liláses e

gotejava tanta beleza que parecia um anjo.

—Oh, querida —exclamou—. Pareceu-me que está muito

pálida. Onde estão meus sais? —Tomou a mão que tinha livre e a

embalou entre as suas—. Sente-se enjoada? Possivelmente

deveríamos procurar um lugar para que se recostar ou trazer algo

para beber.

Minha lucidez voltou enquanto me concentrava naqueles

conhecidos olhos azuis. Eram os olhos de minha mãe. E ali estava

Cecily, minha irmã, que estava apaixonada pelo mesmo homem que

eu e que, sem dúvida, poderia ganhar seu coração. E por que não?

Ao fim e ao cabo, eu não importava para ele.

—Estou bem. —Soltei a mão de Philip, embora não a de Cecily.

Nem o olhei—. Acredito que foi o calor. Por favor, não se preocupe

por mim. Ficarei aqui junto à janela uns minutos e estarei como

nova.

—Ficarei com você —acrescentou Philip.

Não obstante, sua preocupação só conseguiu reavivar a ira que

sentia no fundo de minha alma. Como se atrevia a continuar


tentando me enganar? Como se atrevia a seguir brincando com meu

coração?

—Não —respondi com brutalidade. Vi pela extremidade do

olho como Philip recuava surpreso—. Tem que acabar a dança< —

prossegui tentando suavizar a voz— com Cecily.

Estava certa de que Philip me observava, mas não me voltei

para ele. Era um dos mecanismos de defesa que tinha recuperado.

Segundos depois, inclinou a cabeça e ofereceu a mão a Cecily. Assim

que se afastaram, dirigi-me a lady Caroline.

—Posso ir para casa, por favor?

Não era capaz sequer de pensar em lhe proporcionar uma

desculpa.

—É óbvio, eu também estou cansada de dançar. Vou

acompanhá-la —limitou-se a responder, embora a preocupação

surgiu em seus olhos.

Esperei na porta enquanto ela pedia a carruagem, mas me

mantive de costas à pista para não ver Philip e Cecily dançando

juntos. Lady Caroline foi muito conscienciosa e durante o trajeto só

fez um par de comentários sobre o baile e o tempo. Não me pediu

que lhe contasse o que me passava e fiquei grata. Se tivesse tentado,

possivelmente teria chorado. No fim, consegui manter minhas

emoções sob controle até que chegamos a casa.

Betsy se surpreendeu ao ver-me de volta tão cedo; entretanto,

não lhe dei nenhuma explicação e, ao fim de uns minutos, deixou de

me fazer perguntas. Assim que me ajudou a tirar o vestido e a pôr a


camisola, dispensei-a e me meti na cama. Fiquei acordada,

examinando o que meu coração ocultava. Foi um exercício doloroso

e também vergonhoso, mas precisava esclarecer o que sentia mais

do que precisava me proteger desses sentimentos.

E descobri que, todo esse tempo, estivera apaixonada por

Philip. Tinha sido um segredo até para mim mesma, pois fugira

dessa verdade uma e outra vez.

Devia ter intuído que assim que reconhecesse o segredo,

também teria que reconhecer que Philip nunca sentiria o mesmo por

mim e isso arruinaria tudo. E meu pressentimento era acertado.

Philip não só não sentia o mesmo que eu, mas, além disso, desejava

desfazer-se de mim. Pois bem, iria me assegurar de lhe dar o que

queria. Desapareceria de sua vida o antes possível. De todos os

modos, Edenbrooke já não era um paraíso para mim. Assim que

lady Caroline celebrasse seu baile, encontraria uma forma de me

afastar dali, mesmo se isso supusesse ter que retornar a Bath.

Ao tomar aquela resolução, rompi todas as promessas que me

tinha feito. Com um grande soluço liberei meu coração e chorei

como não tinha feito desde a morte de minha mãe.


Capítulo 21
Quando acordei, Philip tinha partido. Ou isso me disse Betsy.

Falava com a voz entrecortada e vinha um pouco alvoroçada, pois

dispunha de novas fofocas a contar. Sentei-me na cama, segurando a

xícara de chocolate que tinha me trazido com sentimentos

desencontrados. Minha parte protetora não queria voltar a ouvir o

nome de Philip; minha parte débil não queria ouvir falar de outra

coisa. Deste modo, tinha uma aguda dor de cabeça depois de ter

chorado tanto a noite anterior. Escutei os desvarios de Betsy sem

intervir, pois me achava imersa em uma luta entre minha mente e

meu coração.

—Vi-os antes que partissem, sir Philip e o senhor Wyndham,

quero dizer. Vinha da cozinha e eles estavam no vestíbulo e então

sir Philip me viu. Imagine minha surpresa quando se aproximou

para falar comigo!

Quase deixei cair a xícara das mãos.

—O que falou?

—Sim. Sir Philip me disse: «É a camareira da senhorita

Daventry, verdade?». E eu respondi que sim e então me perguntou

como você se encontrava. «Bastante bem», disse-lhe, e então

recordei que ainda levava no bolso a carta que tinha me pedido que

postasse no correio, assim que a mostrei e lhe pedi se podia

franqueá-la. Respondeu-me que se ocuparia dela e a levou. Ele e o


senhor Wyndham partiram, mas ouvi que estarão de volta dentro de

uma semana, a tempo para o baile.

Olhei-a com os olhos como pratos.

—Deu minha carta a sir Philip?

—Sim. Não foi boa ideia?

Não queria que Philip tivesse minha carta. Era pessoal. E se de

forma acidental a abria e a lia? Sabia que era uma ideia descabelada,

mas estava dentro do possível. Senti-me vulnerável ao saber que

tinha minha carta e não gostei dessa sensação. Mesmo assim, não

podia fazer nada a respeito.

Depois de me vestir, fui ver Cecily, que seguia na cama,

recuperando-se dos excessos da noite anterior. Com a melhor das

intenções, perguntei se tinha desfrutado do resto da noite.

—Não foi tão divertida como tinha imaginado —confessou

ocultando um bocejo com um gesto delicado da mão—. Sir Philip

estava com um humor particular. Apenas me dirigiu duas palavras

enquanto dançávamos e assim que acabou a música, partiu e não

voltei a vê-lo até a hora de retornar. Menos mal que o senhor Kellet

foi muito atento comigo. —Sorriu com malícia—. Muito mais que

muito atento.

Sua expressão me desconcertou.

—O que quer dizer?

Cecily pôs os olhos em branco.

—Marianne! Pensava que a esta altura seria um pouco menos

ingênua. —inclinou-se para frente e continuou em um sussurro—:


Pediu-me que me reunisse com ele no jardim e quando saí, agarrou-

me pela cintura e me beijou.

Meu sorriso desapareceu.

—E que tal foi?

Recostou-se sobre os travesseiros com um sorriso pícaro nos

lábios.

—Como já disse ontem, os descarados beijam à maravilha.

—Cecily! —Pus-me em pé de repente—. Como pôde<? Como

pode se comportar desse modo e falar assim? Como pode sequer

pensar em outro homem quando se supõe que está perdidamente

apaixonada por sir Philip?

—Bom, ele não tenta me beijar, não? Pois terei que me entreter

como posso até que ele dê rédea solta a seus sentimentos. —passou-

se os dedos pelo cabelo—. E pode muito bem ser com o senhor

Kellet.

Joguei-me para trás, surpreendida. Mas, então, recordei que

Philip se fora em busca dos mesmos prazeres. Voltei-me, desgostosa

e me dirigi para a porta.

—Onde vai? —perguntou surpreendida—. Não quer que conte

mais coisas do baile?

—Não —respondi, abrindo a porta com brutalidade. Minhas

boas intenções se esfumaram—. Não tenho vontade de escutar nada

mais sobre descarados ou< beijos ou< o que quer que faça a gente

elegante para se divertir. Pode falar disso com Louisa.

E fechei a porta atrás de mim.


***

Mais tarde, essa mesma manhã, o senhor Beaufort veio me

visitar. Enquanto descia as escadas para ir a seu encontro, mantive

uma pequena conversa comigo mesma. Ali embaixo me esperava

um jovem atraente e respeitável que parecia estar interessado em

mim. Devia fazer todo o possível por animá-lo. Ao fim, talvez com

um pouco de estímulo de minha parte, fizesse uma proposta de

casamento e, nesses momentos em que, pelo visto, eu não importava

a ninguém, essa podia ser a solução de todos os meus problemas.

Lady Caroline estava sentada no salão com o senhor Beaufort.

Este seguia me parecendo charmoso e de aparência agradável,

embora agora que tinha a oportunidade de observá-lo mais

atentamente, descobri uma falta de brilho em seus olhos cor avelã

que me desconcertou. Mas isso não importava, o importante era que

queria estar comigo. Concentrei-me em paquerar e em lhe animar e

me entreguei a isso como se fosse uma árdua tarefa. Meia hora mais

tarde, o senhor Beaufort ficou em pé, agradado, e se despediu.

—Espero ter a oportunidade de voltar a visitá-la logo —

concluiu.

Observei-o partir antes de dirigir o olhar para lady Caroline,

que nos tinha feito companhia enquanto conversávamos. Deixou de

lado seu trabalho e se voltou para mim com um sorriso.

—Pensava sair ao jardim, cortar umas rosas. Quer me

acompanhar?
Gostaria de me negar, estava exausta pelos esforços que tinha

feito para paquerar, mas me sorria com tanto afeto que não me

atrevi a lhe dizer não. Subi para por meu chapéu e quando retornei,

lady Caroline me esperava no vestíbulo com duas cestas e duas

tesouras de podar. Dirigimo-nos para o jardim de rosas. Tentei não

me lembrar da tarde que tinha passado com Philip, passeando por

aqueles jardins. De fato, tentei afastá-lo de minha mente por

completo e não pensar no que tínhamos feito juntos, e muito menos

no que imaginava que estaria fazendo nesse momento. Esse último

pensamento foi tão doloroso como se me tivesse cravado as tesouras

no coração.

Pus-me a cortar rosas e fui colocando-as com cuidado na cesta.

Durante um momento nos entregamos à tarefa em silêncio.

—Nada na vida me faz tão feliz como ver meus filhos felizes,

especialmente Philip.

Oh, não! Lady Caroline pensava me falar de Philip? Era a

última pessoa da qual desejava ouvir.

—Foi tão bom... —continuou—. Não, mais que bom, foi uma

autêntica alegria ver Philip tão contente ultimamente, voltar a vê-lo

rir<

Voltei-me para ela surpreendida.

—É que antes não costumava rir?

A mera ideia me parecia ridícula, inclusive incompreensível.

—Oh, não, estava acostumado a rir e muito, só que

ultimamente não. —afastou com a mão uma abelha que havia sobre
a rosa que estava cortando—. Quando pequeno, era alegre e vivaz.

Tinha um talento especial para fazer com que os outros deixassem

de estar zangados quase por magia ou para converter uma briga em

algo cômico. Cada vez que entrava em uma sala, esta se enchia de

uma energia renovada. Era como se levasse consigo um raio de sol

onde quer que fosse.

Deixou escapar um suspiro.

—Mas foi como se, ao suceder seu pai, perdesse essa parte de si

mesmo. Acredito que o peso de suas responsabilidades fez com que

se tornasse muito sério. E logo todas essas mulheres ambiciosas

perseguindo-o e adulando-o, temo que isso acabou por levá-lo a se

perder. —Sua boca desenhava uma linha reta—. Converteu-se rude

e arrogante.

Cortou uma rosa.

Recordei a primeira impressão que Philip me tinha causado na

estalagem.

—Sei a que se refere. Topei-me com essa arrogância no dia em

que nos conhecemos.

—Era insuportável! —admitiu com um sorriso.

—Concordo.

E pus-me a rir.

—Mas já não é assim, verdade?

Neguei com a cabeça. Não tinha pensado nisso antes, mas a

arrogância de Philip não era mais que uma vaga lembrança para

mim.
—A isso me referia quando disse que me alegrava vê-lo feliz de

novo —continuou lady Caroline—. É como se nosso Philip tivesse

retornado, o quem todos estimamos e de quem tanto sentimos falta

estes anos. E ter recuperado Philip fez feliz a toda a família, como

não o tínhamos sido desde que meu marido morreu. —Deixou de

cortar rosas, voltou-se para mim e apoiou sua mão com doçura

sobre meu braço—. Todos lhe estamos extremamente agradecidos,

querida —disse com total sinceridade.

Suas palavras me pegaram de surpresa e cortei muito perto da

flor uma rosa branca que tinha um caule longuíssimo. Senti-me

como se acabasse de decapitá-la, por isso depus as tesouras na cesta

imediatamente.

—Acredita que eu provoquei essa mudança? —perguntei com

incredulidade.

—Não acredito, sei.

Lady Caroline continuou cortando rosas como se nossa

conversa tivesse terminado. Fiquei olhando-a, insegura. Queria que

ela me convencesse de que estava certa, embora eu soubesse que se

equivocava. Meu coração seguia sem dobrar-se a minha vontade e

conservava a esperança, mesmo que fosse em vão e insensato. Tentei

conter as palavras mas, ao final, em um momento de debilidade<

—Como sabe? —escapou-me.

Seus lábios vibraram, como se estivesse tentando conter um

sorriso. Fez-me pensar em um gesto que tinha visto Philip fazer em

mais de uma ocasião. Lady Caroline colocou as tesouras na cesta e


me assinalou um banco à sombra de uma árvore. Ao me sentar a seu

lado, perguntei-me se aquilo não seria o mais tolo que tinha feito.

—Sabia que Philip tinha fugido de casa na noite em que se

conheceram?

Assenti com a cabeça, recordando o que Betsy tinha me

contado.

Lady Caroline suspirou.

—Temo que parte da culpa foi minha. Philip tinha retornado de

Londres umas semanas antes. Não suporta passar toda a temporada

na cidade, embora deva admitir que foi todo um êxito tê-lo ali ao

menos por um tempo. Enfim, eu não lhe escrevi contando que você

e sua irmã ficariam conosco. Deixei as moças com meu filho e sua

esposa e vim aqui para avisar Philip e dispôr tudo para sua chegada.

Tinha reagido tão mal no passado quando outras jovens nos

visitaram! Pensei que o melhor seria lhe surpreender com a notícia

mas, como vê, equivoquei-me. Supôs que se tratava de outro par de

jovens ambiciosas, dessas que estão atrás de sua fortuna ou de seu

título e não pôde suportá-lo mais. Foram muitas as visitas desse

estilo, sabe? Partiu na mesma noite sem me dizer nada.

Cravou seus olhos em mim, como se tentasse me convencer

com o poder de seu olhar.

—Mas a conheceu na estalagem e, então, retornou. —Seu

sorriso pôs calidez em seus olhos—. Retornou, querida, na mesma

noite, as altas horas da madrugada. Devo confessar que, então,

decidi me intrometer um pouco. Quando voltou e me contou o que


tinha lhe acontecido e como se conheceram na estalagem, tive um

pressentimento. Por isso escrevi a Rachel e lhe pedi que ficasse com

as garotas em Londres uma semana mais, com a desculpa do baile

de máscaras. Sua primeira noite aqui, quando Philip entrou no salão

e a viu< —Inspirou fundo e sacudiu ligeiramente a cabeça,

maravilhada—. Iluminou-lhe o semblante, Marianne. Como antes!

—Tomou minha mão e a apertou carinhosamente—. Meu Philip

havia voltado.

Observei, surpresa, como lhe enchiam os olhos de lágrimas,

embora, quando sorriu, compreendi que se tratava de lágrimas de

alegria.

—Desculpe se lhe falei de coisas muito pessoais. —secou uma

lágrima com elegância—. Mas é que depois de perder meu adorado

marido e meu filho Charles, perder também ao Philip era mais do

que podia suportar.

Estava consternada. Fora qual fosse a mudança que tinha

observado em seu filho ultimamente, estava me outorgando mais

mérito de que merecia. Estava segura de que eu não era responsável

por dita mudança, já que isso era o oposto ao que lhe tinha ouvido

Philip dizer com meus próprios ouvidos. Ele não me queria ali.

Devia ser outra coisa o que o fazia feliz. Sem dúvida, eu não era a

causa.

Gostaria de lhe dizer o quanto se equivocava, mas não pude.

—Obrigado por contar isso —disse, tentando sorrir—. Sinto que

agora conheço um pouco melhor sua família.


Estudou-me com aquele seu olhar penetrante.

—Espero que lhe tenha ajudado a entender Philip um pouco

mais.

—Sim, isso também —concordei para agradá-la.

Pouco depois me desculpei. Ser testemunha da esperança que

aquela mulher albergava era muito doloroso. Se pensava que minha

relação com Philip era a causa da mudança nele e que tão feliz a

fazia, quanto se desgostaria quando abandonasse Edenbrooke na

próxima semana.

A meio caminho da casa, meus passos vacilaram antes de

interromper-se. Um homem tinha saído do bosque e se dirigia para

mim atalhando pela grama. Era o senhor Kellet. Estava pensando

em dar meia volta e fugir na direção contrária, quando me chamou.

—Não pensa em fugir de mim, prima?

Por que não deixava de me chamar assim? Mantive-me firme e

lhe sustentei o olhar com o cenho franzido. Negava a lhe deixar

acreditar que me amedrontava.

—Não. Dirigia-me a dar um passeio pela grama. Obviamente, é

bem-vindo, se deseja me acompanhar.

Sorriu como se esse tivesse sido seu plano desde o começo e

simplesmente me tivesse manipulado para obter o que queria.

Talvez fosse o caso, pois parecia desfrutar em me incomodar.

Pusemo-nos a caminhar, eu depressa e ele com um passo depravado

que fez com que desejasse lhe arrancar a bengala da mão e parti-la

na sua cabeça. Só pretendia alongar meu sofrimento.


—Como está a velha gralha? —perguntou; supus que referindo-

se a minha avó.

—Pelo que sei, segue gozando de boa saúde —respondi

olhando-o com altivez.

Deixou escapar um suspiro e levantou o olhar ao céu.

—É que não pensa morrer nunca?

Fulminei-o com o olhar, pronta para o repreender, mas ele riu.

—É tão fácil provocá-la, prima. Deveria fazer algo para corrigir-

se.

Odiava pensar que era ele que controlava a situação e estava

farta de informalismos.

—Deixe de me chamar prima. O que faz aqui?

—Estou visitando minha adorada prima, o que mais?

Detive-me e me voltei para ele.

—Não. O que quero dizer é o que está fazendo aqui, em Kent.

Acaso me seguiu?

Pôs-se a rir.

—Não seja presunçosa. —Deixou de caminhar e se apoiou em

sua bengala—. Embora seja certo que chegou a meus ouvidos uma

notícia interessante. Parece ser que sua avó decidiu que meu

escandaloso comportamento já a tinha envergonhado bastante e me

deserdou.

—Ah, sim?

Entrecerrou os olhos.

—E disse< A quem nomear{ agora como herdeiro? A essa


solteirona da Amélia, não. —Assinalou-me com sua bengala—. A

você.

Decidi enfrentar sua acusação.

—Tem razão, embora a herança esteja sujeita a uma condição.

Ainda pode me deixar sem um centavo, como fez com você.

—Que condição?

—Isso não é de sua incumbência, primo.

Gargalhou alegremente e me olhou arqueando uma

sobrancelha.

—Touché!

Observou-me durante um momento com os olhos

entrecerrados, como se estivesse decidindo como prosseguir.

Presenciei com receio como, pouco a pouco, se formava um sorriso

em seu rosto.

—Bem, bem, nossa conversa foi muito esclarecedora, mas me

esperam em outro lugar.

Fez uma reverência com ar despreocupado, deu meia volta e se

dirigiu tranquilamente para o caminho. Levava algumas folhas

coladas nas costas do casaco e inclusive uma lhe sobressaía da bota.

«Até nunca!», pensei. Não obstante, não pude evitar me

perguntar por que teria feito todo esse caminho só para me expor

umas quantas perguntas. E o que teria estado fazendo no bosque?

Percebi, pela extremidade do olho, um movimento que atraiu minha

atenção. Era Cecily, que saía dentre as árvores sacudindo a saia. Vi-a

tirar uma folha do cabelo.


Olhei-a perplexa e me senti cada vez mais enojada. Isso era o

que tinha aprendido em Londres? Acaso era esse o comportamento

que se considerava aceitável em uma jovem elegante? Afastei-me

dali desgostosa ao vê-la com o cabelo despenteado e um sorriso de

felicidade no rosto.

Uma vez em meu quarto, escrevi duas cartas. A primeira foi

rápida e concisa.

Querida avó:

Tive a infelicidade de me encontrar com o senhor Kellet na

região.

Também perdi James, o chofer que contratou.

E também sei que dispôs esta visita e fez com que todos

mentissem para me fazer acreditar que haviam me convidado. Se

não me queria a seu lado, deveria ter isso dito em vez de

transferir sua responsabilidade para outros.

E as damas elegantes não me impressionam o mínimo.

Acredito que preferiria ordenhar vacas durante o resto de meus

dias.

Afetuosamente,

Marianne

Acreditava firmemente em tudo que tinha escrito. Não sentia

nenhum desejo de me parecer com Cecily e se isso era o que tinha

que fazer para conseguir a herança de minha avó, então renunciaria


a ela. Ao fim, tampouco estava na miséria. Meu pai recebia uma boa

soma e eu herdaria uma parte dela. Não pensava investir nem um

minuto mais de meu tempo em tentar me converter em alguém que

não era.

Quando acabei a carta para minha avó, encontrei o livro de

poemas do senhor Whittles na gaveta e recordei outra carta que

levava tempo querendo escrever. A segunda me levou mais tempo

que a primeira, mas quando acabei me senti satisfeita com o

resultado. As pessoas perdiam muito tempo desejando coisas que

nunca poderiam ser delas e decidi que o melhor era aproveitar a

felicidade que nos oferecia. Dirigi a carta ao senhor Whittles.


Capítulo 22
Na amanhã seguinte, o senhor Beaufort voltou a me visitar.

Assim que entrou no salão, dirigiu-se a lady Caroline.

—Dá-me sua permissão para falar com a senhorita Daventry em

privado?

Oh, não!

Lady Caroline se desculpou, dizendo que tinha que tratar um

assunto com a governanta e fechou a porta atrás de si.

Não estava pronta para aquela conversa. Tudo tinha acontecido

muito depressa e não tinha tido tempo para pensar na resposta que

ia lhe dar.

Fiz um gesto para o sofá.

—Quer sentar-se?

—Só se isso lhe agrada —respondeu ele com um sorriso.

Sentei-me no sofá com as mãos no colo enquanto pensava no

que podia dizer, embora parecesse que ele não necessitava minha

ajuda. Sentou-se ao meu lado e começou seu discurso.

—Senhorita Daventry, não pude deixar de pensar em você

desde o momento em que meus olhos a viram. Fez seu meu coração

e não posso refrear meu desejo de lhe declarar que a amo. —Tomou

a mão e se ajoelhou diante de mim—. Não tenho muito a oferecer,

salvo meu afeto imperecível, meu apreço e minha total adoração.

Dar-me-ia a honra de ser minha esposa?


Como podia ter me parecido atraente alguma vez? Seus olhos

careciam de profundidade; não se pareciam em nada aos abismos

que sempre descobria no olhar de Philip. Não é que estivesse

escolhendo entre o senhor Beaufort e Philip, já que este último não

tinha se declarado a mim; estava escolhendo a mim. Mesmo que

ninguém mais se interessasse por mim, não queria passar o resto de

minha vida olhando para esses olhos apagados e sem profundidade.

—Sinto muito, não posso aceitá-lo.

Seu sorriso se esfumou e seus olhos cintilaram com algo

parecido à ira. Separei-me dele, surpresa pela repentina mudança

que havia testemunhado, embora rapidamente voltasse a sorrir.

—Talvez necessite tempo para considerar minha proposta. —

Tomou minha mão e a levou aos lábios—. Estarei encantado em

visitá-la de novo.

Partiu antes de que pudesse lhe dizer que não se incomodasse,

pois estava segura de que não mudaria de ideia. Preferia acabar uma

solteirona a me casar com um homem ao qual não amava, agora que

tinha descoberto o que era o amor.

Cruzei o salão e me detive em frente ao quadro de minha mãe.

Lady Caroline estaria certa? Minha mãe teria sentido que sua amiga

tinha tudo o que ela desejava? Se esse tinha sido o caso, entendia

por que rompera sua amizade. Certamente eu também acabaria

odiando Cecily por toda a vida se ficasse com tudo o que eu queria,

com Edenbrooke, com Meg, com Philip< Principalmente com

Philip. Acariciei a moldura e apoiei a cabeça sobre o quadro,


desejando ter a minha mãe a meu lado.

—Encontra-se bem, querida?

Levantei a cabeça. Era a senhora Clumpett com seu sorriso

perpétuo. Até nesse momento em que a preocupação estava patente

em seu rosto, sua boca seguia curvando-se para cima.

—Sim, estou bem, apenas sinto saudades de meu lar.

Assentiu com a cabeça.

—Entendo perfeitamente. O senhor Clumpett e eu também

sentimos falta do nosso. Os pássaros que existem aqui são distintos

aos nossos e a biblioteca está tão desorganizada.

—Tem razão —concedi, sorrindo.

—De fato, agora que o penso, acredito que chegou o momento

de voltar para casa. Ah, não, espere, tinha esquecido. —Deu-me

uma rápida olhada antes de desviar o olhar—. Teremos que ficar um

pouco mais. —Deixou escapar um suspiro—. A menos que< Diga-

me, pensa partir logo?

Pensei na carta que tinha enviado ao meu pai.

—Possivelmente. Isso espero, embora seja difícil sabê-lo.

A senhora Clumpett assentiu, embora, pela primeira vez, não

deu a sensação de esboçar um sorriso. Teria sua decisão algo a ver

com meus planos? Como isso podia ser possível? É que ela

tampouco me queria ali?

—Faça-me saber quando tomar sua decisão. Sinto falta de meus

pássaros.

«Sinto falta de meus pássaros.» Era um comentário supérfluo,


mas me afetou profundamente, pois me fez pensar no tanto que eu

sentia falta de meu lar e na felicidade que uma vez tinha sentido

nele.

***

Na ausência de Philip, o tempo se converteu em meu inimigo.

Os relógios avançavam mais devagar, o sol permanecia imóvel no

céu e até as noites se alongavam mais que o normal. Dava-me a

sensação de que tinham transcorrido meses desde o baile, embora só

tinham passado quatro dias. Ocupava meu tempo em atividades

rotineiras. Comia, dormia e passava os dias em companhia das

demais damas. Entretanto, sentia como se tivesse perdido uma parte

vital de mim mesma; possivelmente, meu coração.

Cecily e eu apenas tínhamos nos falado desde o dia posterior ao

baile, o mesmo em que saíra de seu quarto como uma fúria. Louisa e

ela eram unha e carne e passavam o dia dando passeios e

cochichando. Nem me incomodei em me aproximar delas e preferi

focar em meu novo projeto.

Em vez de me dedicar à tarefa que me tinha imposto minha

avó, empreguei meu tempo livre em pintar cenas de Edenbrooke.

Cinco dias depois da partida de Philip, já tinha pintado uma meia

dúzia de quadros com algumas de minhas vistas preferidas da

propriedade. Queria imortalizar tudo que pudesse daquele lugar

que, durante um tempo, tinha sido o mais parecido para mim ao

paraíso na terra. A ideia de partir dali para sempre me fazia chorar.


Quando Cecily se casasse com Philip, não voltaria. Sabia. Minha

mãe nunca o tinha feito e agora entendia por que.

Estava desenhando a vista da janela de meu dormitório quando

Cecily se apresentou de repente no quarto.

—Só faltam três dias para o baile —anunciou.

Assenti com a cabeça sem afastar o olhar da ponte enquanto me

esforçava para que os arcos ficassem bem. Concentrar-me nos

ângulos e nas pedras ajudava a não pensar em Philip dirigindo-se a

cavalo para a ponte e assobiando alegremente. Embora não fosse

tarefa fácil, estava conseguindo submeter meu coração um

pouquinho mais a cada dia.

—Não sei o que farei se sir Philip não chega a tempo para o

baile —lamentou Cecily, deixando-se cair sobre a cama. Sua

dourada juba ficou estendida como um leque ao redor de seu rosto

enquanto fazia biquinho para o teto—. Passei horas planejando com

exatidão como vou fazer que declare seus sentimentos por mim. Se

perder o baile, morrerei de desgosto. Não sabe o que é ter todas suas

esperanças de felicidade futura postas em um só homem. A

incerteza é insuportável!

Pus os olhos em branco.

—Estou certa de que não morrerá de desgosto, Cecily. Além

disso, se sir Philip pensa declarar-se, é provável que encontre uma

forma de fazê-lo que não se ajuste a seus planos.

Pensava que tinha o coração totalmente sob controle e,

entretanto, aquelas palavras me causaram uma forte espetada de


dor. A mera ideia de que Philip se declarasse a Cecily era muito

para mim.

—Sempre poderá entreter-se com o senhor Kellet se sir Philip

não chegar a tempo —soltei com um tom malicioso que fui incapaz

de evitar, apesar de que Cecily não pareceu dar-se conta.

—Isso espero. —girou e estendeu-se de barriga para baixo—.

Assegurei-me de que seu nome estivesse na lista de convidados.

—Vê? Espera-lhe um monte de< diversão.

Cecily sorriu com o olhar perdido, como se estivesse

recordando algo muito divertido.

—Pergunto-me quem beijará melhor, sir Philip ou o senhor

Kellet. —Olhou-me fixamente—. A qual dos dois você preferiria

beijar?

—A nenhum —menti.

—Mmm... Eu tampouco sei, mas lhe direi isso assim que o

averígue.

O ressentimento cresceu dentro de mim.

—Se o averiguar, por favor, não me conte. Há coisas que

preferiria não saber.

—Por certo, o que aconteceu com o senhor Beaufort?

Dei-me conta de que não lhe tinha contado nada e isso me

surpreendeu, embora pouco tínhamos nos falado desde que Philip

partira.

—Declarou-se e o rechacei. Fim da história.

—Alegro-me. Não quis dizer nada, mas havia algo nele que eu
não gostava.

Recordei aqueles olhos desprovidos de profundidade e tive que

lhe dar razão.

Antes de sair, Cecily se colocou atrás de mim e deu uma olhada

ao meu desenho.

—Tem um autêntico dom para a pintura. É melhor do que eu

jamais serei.

—Obrigada.

Um verdadeiro elogio. Contemplei o desenho e depois ergui o

olhar para minha irmã. Tinha deixado que meus sentimentos por

Philip se interporem entre nós e lamentava. Deixei o lápis e a olhei.

—Cecily, posso perguntar algo?

—Certamente.

Inspirei fundo para me armar de coragem.

—Foi você quem quis que viesse a Edenbrooke ou foi ideia de

lady Caroline?

Cecily inclinou a cabeça.

—Por que pergunta?

—Só me responda, por favor —pedi, sustentando-lhe o olhar.

Cecily agarrou uma mecha de meu cabelo e o colocou em seu

lugar.

—Pode ser que tenha sido ideia de lady Caroline, mas claro que

queria que viesse. É minha irmã.

Disse-o com total naturalidade e acreditei em suas palavras.

Alegrou meu coração e esbocei um sorriso. Sorrir me fez sentir


estranha e, ao mesmo tempo, foi um alívio. Então, pensei quando

tinha sido a última vez que tinha sorrido. Não recordava tê-lo feito

nenhuma só vez desde que Philip tinha partido.

—Acredito que precisamos passar mais tempo juntas —

propôs—. Senti sua falta.

—E eu de ti.

Nesse momento, senti um grande afeto por minha irmã e

continuei sorrindo, mesmo depois de que se foi.

***

Durante a tarde do dia seguinte, dediquei-me a capturar o olhar

da janela da biblioteca. Quase tinha acabado de desenhar o pomar

quando Rachel deu comigo. Quando o pintasse, pensava fazer que o

céu parecesse carregado, como estivera no dia que Philip e eu

tínhamos passado ali.

—Oh, aqui está —exclamou—. estive procurando-a. —Levantei

o olhar do desenho. Dirigia-se a mim com um sorriso—. Acabo de

receber uma carta de William.

Olhei-a perplexa. De verdade os homens escreviam a suas

esposas enquanto estavam por aí< aproveitando?

—Pensei que gostaria que a lesse —continuou enquanto

fechava a porta e vinha a sentar-se a meu lado—. Menciona Philip.

O medo fez com que me acelerasse o coração. Para que ia ler a

carta para mim?

—Em realidade, não vejo motivo —repliquei, negando com a


cabeça—. Não imagino o que poderia conter essa carta que me

resultasse interessante.

—Vamos! Pode ser sincera comigo. Vi-a vagar pela casa como

uma alma penada. Se não suspira por Philip, deve fazê-lo por

William, e isso não me sentaria nada bem.

Olhei o desenho com o cenho franzido.

—Eu não suspiro por ninguém.

—Tolices! Pois está claro que sim. —Sorriu-me alegremente

antes de concentrar-se na carta—. Vejamos, parece que está se

divertindo muito. Ah, aqui está a parte que queria lhe ler: «Philip se

apaixonou por uma autêntica preciosidade, é forte e tem um corpo

escultural. Embora opine que o preço é muito alto, não me surpreenderia se

acabasse levando-a para casa».

Sentia-me como se tivessem me estrangulado.

—Não desejo ouvir falar dos troféus de Philip —espetei com a

voz entrecortada.

Rachel elevou o olhar.

—Não, querida, já sabe que este ano não participam.

Não podia encará-la. Do que não participavam? O que

significaria isso? Não estava tão informada como eles de como

funcionavam essas coisas.

—Ah, não?

Olhou-me com curiosidade.

—Não, posto que Philip deu o cavalo a você para que o

montasse. Pensava que sabia.


—Que cavalo?

Era óbvio que uma parte de meu cérebro não funcionava

corretamente, pois não conseguia entender o que tinha a ver um

cavalo com tudo aquilo.

—Refere-se a Meg? —acrescentei.

—Como se chamar —respondeu com um gesto da mão.

Esforçava-me por encaixar as peças daquele quebra-cabeças,

embora sem muito êxito.

—O que tem a ver Meg em sua decisão de participar ou não?

Ruborizei ao dizer a palavra «participar».

Rachel me olhou como se fosse boba e finalmente abandonou a

carta sobre seu colo.

—Bem, querida, necessita-se um cavalo para participar das

corridas —esclareceu falando devagar e escolhendo as palavras com

cuidado—. E este ano não levaram nenhum, já que Philip lhe deu

um cavalo de corrida para que montasse e depois não quis afastá-lo

de seu lado.

Olhei-a boquiaberta.

—Cavalos? Corridas de cavalos?

—Em efeito. Estão em Newmarket. Pensei que sabia.

—Mas< mas você me disse que seu pai não teria aprovado o

que foram fazer.

—É certo, ele nunca aprovou as corridas. —Deixou escapar um

suspiro—. De todos os modos, há coisas piores nas quais um

homem pode empregar seu tempo livre, por isso não impedirei que
William continue indo. —Acariciou a carta com um gesto

carinhoso—. Seu sonho sempre foi criar cavalos de corridas, mas

nós não nos podemos permitir isso. Se lhe for sincera, suspeito que

Philip o faz mais por seu irmão que por si mesmo. —Sorriu com

melancolia—. Nunca perdoou a si mesmo por ter herdado tudo.

Uma onda de emoções lutava contra as barreiras que tinha

levantado ao redor de meu coração. Este batia furiosamente. Senti-o

despertar, cobrar vida, esticar-se. Minhas mãos tremiam.

—Não sabia de nada —murmurei.

Rachel soltou uma risadinha.

—Então, o que pensava que estavam fazendo?

Afastei o olhar, envergonhada.

—Isto< Eu pensava<Né... Supus< que se tratava de outro

tipo de< atividade.

De repente, soltou um grito afogado.

—Oh! Esse tipo de troféus! Não pode ser... —Rachel se pôs a

rir—. Não estranho que parecesse tão abatida com a partida de

Philip. Pobrezinha!

Passou-me um braço pelos ombros sem deixar de rir; eu, em

troca, sentia-me muito mortificada para me entregar ao riso. Uns

minutos depois, soltou-me.

—Mas como pôde pensar que Philip fosse capaz de semelhante

comportamento? —perguntou-me com doçura—. Tendo em conta

quão unidos estão, pensava que conheceria melhor seu caráter. Não

sabe que Philip é em tudo um cavalheiro?


Afundei o rosto em minhas mãos.

—Não —murmurei—. Eu já não sei de nada.

—Pois bem, eu o conheço de toda a vida e posso lhe dizer o tipo

de homem que é. —Ergui o olhar—. Do melhor tipo! —acrescentou

enquanto estudava minha reação—. E merece que sua esposa

também o seja. Eu não acredito que Cecily se encaixe nessa

descrição. E você?

Olhei-a fixamente. Sentia-me culpada por concordar com ela e,

ao mesmo tempo, dividida pelo sentimento de lealdade. Ganhou a

lealdade.

—Não, equivoca-se. Cecily tem muitas qualidades elogiáveis e

está habituada à vida elegante que sir Philip pode lhe dar.

Rachel sorriu com amabilidade.

—Está claro o que tenta e é muito nobre de sua parte fazer-se de

lado em favor de sua irmã, mas Philip não está interessado nela.

Fiquei olhando Rachel em silêncio. Queria acreditar nela, mas e

se estivesse enganada como lady Caroline? Não podia me arriscar a

albergar esperanças. Minha vontade lutou com meu coração e eu<

Eu fiquei ali sentada, aturdida, enquanto o coração me suplicava

que tivesse esperança.

—Sabe o que penso? —perguntou-me.

Neguei com a cabeça.

Rachel elevou a carta de William.

—Penso que Philip esteve tão abatido como você desde que

partiu, o que me leva a acreditar que entre os dois surgiu algo.


Levei a mão ao rosto, tentando dissipar meu rubor.

—Não surgiu nada entre nós. Somos amigos, isso é tudo.

—Philip não a olha do mesmo modo que um homem olharia a

uma amiga —replicou, arqueando as sobrancelhas.

Afastei o olhar. Sentia-me envergonhada e infeliz.

—Isso é porque é um sedutor. Para ele não significa nada.

—Um sedutor? Quem lhe colocou semelhante ideia na cabeça?

Pisquei surpreendida.

—Pensava que todos vocês sabiam. A senhora Fairhurst me fez

acreditar que todo mundo estava a par de sua reputação.

Rachel parecia estupefata.

—E acreditou na senhora Fairhurst? Sério, Marianne, pensava

que era mais sensata.

—Quer dizer que não é um libertino? —perguntei com

incredulidade.

Observou-me durante um longo momento, como se estivesse

tentando decidir como responder.

—Não negarei que muitas mulheres caíram rendidas a seus pés,

mas lhe direi algo. Nunca vi Philip comportar-se com ninguém

como faz com você.

Minha cabeça girava cada vez que uma das hipóteses que tinha

usado para entender o caráter de Philip caía. Baixei o olhar a meu

colo e vi que minhas mãos tremiam.

—Rachel, devo admitir que estive confusa, que me deixei

enganar e que fui uma ingênua. Mas, se de verdade Philip sente algo
por mim, por que não disse?

Rachel se aproximou um pouco mais e me falou com urgência.

—Marianne, deve compreender que Philip tem um sentido

muito enraizado do que implica ser um cavalheiro. De acordo com

seus princípios, não pode cortejá-la tendo em conta as

circunstâncias.

Estava confusa.

—A que se refere? Que circunstâncias?

—Você está em uma posição muito vulnerável. Seu pai está

longe e não tem outro homem que a proteja. Philip assumiu o papel

de tutor enquanto for sua convidada e prometeu a sua avó que a

protegeria durante sua estadia aqui. Como ia declarar-se enquanto

for responsável por você? Não vê até que ponto seu sentido de

cavalheirismo o impediria, a não ser que estivesse certo de seus

sentimentos por ele? Philip não pensa se aproveitar de sua situação

e lhe confessar o que sente enquanto você se sentisse em dívida com

ele.

Brinquei com as mãos enquanto tentava assimilar tudo o que

acabara de ouvir. Por que não tinha considerado aquilo antes?

Certamente, pela mesma razão pela qual tinha me ocultado o que

sentia por Philip. Não queria me arriscar a que me partissem o

coração. Mesmo assim, ainda havia o problema de Cecily.

—Se Philip tivesse sabido o que sentia por ele —acrescentou

Rachel—, é bastante provável que houvesse dito algo.

Soltei uma risada.


—Mas sequer eu sabia o que sentia! E, além disso, Cecily o viu

primeiro.

Rachel assentiu.

—Pensei muito nisso e acredito que, se Philip estivesse

apaixonado por sua irmã, ou, ao menos, interessado nela, teria a

cortejado em Londres; por isso creio que pode descartar essa

dúvida. A única questão que fica é o que você pensa fazer para

animá-lo a se declarar.

Fiquei boquiaberta.

—Fazer? A que se refere? Não penso fazer nada! Nem sequer

sei o que ele sente por mim.

—Philip esteve andando por aqui com o coração na mão e todos

vimos —mofou Rachel—. Está claro que a ama, mas todo mundo

necessita algum estímulo e acredito que tem que estar preparada

para oferecer-lhe um quando retornar de sua viagem.

Depois disso, foi-se sorrindo, como se estivesse muito satisfeita

consigo mesma.

Levantei e andei para cima e para baixo diante da lareira. Meus

pensamentos corriam a uma velocidade vertiginosa. Philip e

William estavam em Newmarket assistindo às corridas de cavalos,

não por aí entregues a outros prazeres. Como podia ter interpretado

mal a Rachel quando tínhamos falado da viagem pela primeira vez?

Não recordava as palavras exatas que havia dito, embora, então,

tivesse certeza de ter entendido o que me insinuava.

As palavras não eram de confiar. Podia assimilar as de Rachel


de uma forma e logo voltar a olhá-las de sua perspectiva e entendê-

las de maneira totalmente distinta. Tinha me passado o mesmo

quando tinha lido a carta. Não tinha duvidado nem por um

momento que William estava se referindo à nova conquista de

Philip, quando em realidade falava de um cavalo.

Acaso minha cabeça não funcionava bem? Ou é que um mal-

entendido tinha me levado ao seguinte? As palavras, por si só,

resultavam ambíguas e induziam ao erro. Mas em que outra coisa se

podia confiar se não nas palavras?

Estava tão absorta, tentando compreender como podia ter me

equivocado tanto que estive a ponto de passar por cima uma parte

muito importante de minha conversa com Rachel. Tinha acertado ao

julgar o caráter de Philip. Ela tinha confirmado minha primeira

impressão, que Philip era um cavalheiro e que nunca participaria do

tipo de atividades que eu tinha suposto.

Então, talvez também tivesse acertado em outras coisas. Talvez

também estivesse certa ao pensar que eu lhe importava, embora só

como amiga. Talvez, só talvez, tivesse interpretado mal o que o

tinha ouvido dizer na sala de esgrima.

Talvez sua honra o impedisse de declarar-se enquanto eu

estivesse sob sua tutela e, por isso, queria livrar-se de sua

responsabilidade por mim. Afastei de minha mente aquela ideia.

Muito boa para ser real.

Refleti também sobre sua fama de libertino. A verdade é que

nunca o tinha visto paquerar com ninguém além de mim. Nunca o


tinha visto flertar com Cecily nem com a senhorita Grace. Tinha-lhe

observado durante o baile e não tinha sorrido a nenhuma outra

jovem como me sorria. E, certamente, não tinha olhado a ninguém

mais com aquele brilho nos olhos.

Sacudi a cabeça, um pouco aturdida. Havia a possibilidade de

que tivesse me equivocado antes, embora podia acreditar que

também agora me equivocava, e não só por meu próprio bem.

Queria acreditar desesperadamente que conhecia Philip de verdade.

Tinha me apaixonado pelo homem que pensava que era e ansiava

acreditar que esse homem existia.

Meu coração e minha mente lutaram até que já não fui capaz de

pensar. Nesse momento, entendia a carta de Philip, quando tinha

escrito aquilo de estar à beira da loucura por amor. Eu mesma me

encontrava à beira da loucura e tinha que fazer algo para me

distrair.

Saí da biblioteca e me dirigi aos estábulos. Entrei na baia de

Meg, agarrei a escova e comecei a escová-la. Sempre tinha gostado

de escovar aos cavalos. O som da escova sobre sua pele e o calor de

seu flanco sob minha mão sempre conseguiam me sossegar.

Aquela atividade repetitiva e a calma e o silêncio do lugar me

permitiram sopesar o que Rachel havia dito. Não tinha ainda todas

as respostas com respeito a Philip, mas sim albergava esperança e

estava disposta a aguardar e descobrir por minha conta o que era

certo e o que não.

Veio-me uma ideia à cabeça enquanto escovava Meg. Algumas


pessoas me queriam ali. Lady Caroline me apreciava, tinha certeza.

E ao que parecia, Rachel também. Tinha vindo a falar comigo para

me dar esperanças a respeito de Philip. E Cecily era uma irmã

abnegada que me queria ao seu lado.

Ver que havia gente que se importava comigo me proporcionou

uma alegria incomensurável. Apoiei a cabeça no pescoço de Meg e

inspirei seu cheiro enquanto escorriam lágrimas de alívio e

felicidade por meu rosto. Então, pus-me a rir, ergui a cabeça e sequei

as bochechas. Na última semana tinha chorado por toda uma vida.

Estava me convertendo em uma jovem de choro fácil e isso não era

próprio de mim.

—Assim, é um cavalo de corridas —disse a Meg, enquanto

seguia escovando-a—. Deveria ter dito isso. Se soubesse, teria te

pressionado um pouco mais. Poderíamos ter ganho do cavalo dele.

Meg relinchou a modo de resposta.


Capítulo 23
William e Philip tinham prometido a sua mãe que retornariam

a tempo para o baile que se celebraria em Edenbrooke, mas chegara

a véspera e nenhum dos dois tinha aparecido.

Pela manhã, fiquei no salão, bordando com resignação,

enquanto Cecily e Louisa tocavam um dueto no piano. Como estava

sentada perto da janela, fui a primeira a ver a carruagem que se

aproximava pelo caminho da entrada. Tentei não me deixar levar

pela esperança e a emoção que me assaltaram, mas então a

reconheci. Era a mesma carruagem em que Betsy e eu tínhamos

chegado a Edenbrooke.

Era a carruagem de Philip.

Enfim, tinha voltado para casa a tempo para o baile, como tinha

prometido. Senti a mão tremer e, como consequência, dei um ponto

diferente dos demais. Deixei de lado o bastidor e tentei respirar com

normalidade. O que ia dizer-lhe? Como averiguaria o que ele sentia

por mim? Atrever-me-ia a lhe dar um estímulo, como Rachel tinha

me aconselhado?

Ouvi vozes masculinas no corredor e então a porta se abriu e

William apareceu na soleira. Olhou ao redor e disse algo a modo de

saudação, embora pouco ouvi o que dizia. Estava muito ansiosa em

ver Philip.

Lady Caroline levantou o olhar da escrivaninha e Rachel se


dirigiu para seu marido com um sorriso. Cecily e Louisa deixaram

de tocar. Estiquei o pescoço, tentando ver além de William. Por que

seu irmão demorava tanto?

—Onde está Philip? — William perguntou nesse momento.

Sua pergunta me surpreendeu.

—Philip? —perguntou lady Caroline—. Não está com você?

William franziu o cenho e olhou em minha direção, mas afastou

o olhar rapidamente.

—Não. Disse que tinha algo a fazer, mas pensava que a estas

alturas já teria retornado.

Não pudemos lhe dar nenhuma resposta, pois nenhuma de nós

estava ciente de que haviam se separado.

William deu de ombros e tirou importância à ausência de seu

irmão.

—Certamente que estará aqui amanhã. Creio que sua intenção

era estar de volta para o baile.

O fato de que desse o assunto por concluído, sem nos dizer

nada sobre aonde tinha ido ou o que poderia estar fazendo deixou

minha curiosidade insatisfeita. William sequer me ofereceu uma

explicação do porquê me olhava com o cenho franzido. Preocupava-

me que Philip não houvesse voltado porque estivesse me evitando.

Essa ideia parece-me insuportável.

Saí da sala e pedi ao mordomo que procurasse Betsy e a

enviasse ao meu quarto. Estava andando acima e abaixo diante da

lareira quando Betsy abriu a porta de repente e entrou correndo.


—O que ocorre, senhorita? —perguntou sem fôlego.

—Necessito que averigue onde está sir Philip e por que não

voltou com seu irmão.

Seus olhos se iluminaram com uma mescla de excitação e

determinação.

—Se houver algo a descobrir, descobrirei. Não se preocupe,

senhorita.

E saiu em disparada do quarto.

Não tinha transcorrido nem meia hora quando a porta se abriu

de novo e Betsy voltou a entrar correndo. Estava acostumada a suas

entradas teatrais, por isso não me alarmei.

—O que averiguaste?

—Ninguém sabe onde sir Philip foi, senhorita —respondeu

ofegando. Levou uma mão ao peito, tentando recuperar o fôlego—.

O chofer me disse que partiu de Newmarket há quatro dias.

Explicou-me que sir Philip estava se comportando de modo

estranho e não prestava atenção às corridas. No segundo dia, o

senhor Wyndham lhe disse: «Já não suporto mais essa cara

melancólica. Vá conquistá-la». E então sir Philip se foi, sem dizer

nada sobre aonde pensava ir, nem o que ia fazer. —Olhou-me com

os olhos arregalados—. O que acha disso tudo?

Sacudi a cabeça, sem saber o que dizer.

—Não tenho ideia.

Embora, sim, estava segura de uma coisa. Se Philip pensava

conquistar a alguém, queria que esse alguém fosse eu.


***

Mais tarde, nesse mesmo dia, saí da casa com meu caderno de

desenho e me dirigi para o pomar. Estava impaciente por ver Philip

e não suportava ficar sentada na sala com as outras damas por mais

tempo. Tampouco podia seguir escutando a conversa de Cecily

sobre os planos que tinha feito para que Philip se declarasse durante

o baile, nem como tudo teria sido em vão se ele não voltasse a

tempo.

Continuava sem saber o que diria a Philip quando voltasse a

vê-lo, mas tinha tomado uma decisão: não pensava escolher uma

corrida distinta por medo a perder para minha irmã. Se, de fato,

Philip era o cavalheiro que eu acreditava, e Rachel jurava que era,

então Cecily não era digna dele.

Sentei-me com as costas apoiadas no tronco de uma árvore e me

pus a desenhar um punhado de maçãs que vi pendurando de um

ramo. Estava tão concentrada, que ao princípio não ouvi o som de

umas passadas sobre a grama. Mas, de repente, pareceu-me ver pela

extremidade do olho o vaivém de um casaco escuro. O coração me

deu um tombo. Era Philip! Tinha voltado para casa a tempo para o

baile, como tinha prometido. E tinha me encontrado ali, no pomar,

pois me conhecia muito bem.

O que lhe dizer? E o que ele me diria? Deixei o desenho no chão

e me pus em pé, arrumei a saia e depois o cabelo. Não precisei

beliscar as bochechas, pois já estavam rosadas pelo nervosismo que


tomara conta de mim. Devia estar perto. Ouvi um novo rangido e

saiu de entre as árvores. Voltei-me para ele com um sorriso hesitante

nos lábios.

Mas meu sorriso se esfumou.

—Senhor Beaufort —exclamei, decepcionada.

—Senhorita Daventry. —Fez uma reverência—. Está muito

formosa com todas estas flores ao seu redor.

—O que está fazendo aqui?

Não pretendia ser grosseira, mas não estava com humor para

cortesias.

Dirigiu-se para mim com um sorriso.

—Vim para que você mude de opinião.

Agarrou-me pela cintura, aproximou-me de si e apertou seus

lábios contra os meus.

Joguei a cabeça para trás e tentei afastá-lo com a mão.

—Solte-me imediatamente!

Entretanto, eu não era rival para sua força e só consegui que me

segurasse com mais empenho.

—Escute com atenção —sussurrou. Sua boca estava muito perto

de minha cara—. Estamos loucamente apaixonados e vamos fugir

juntos. Para quando descobri, sua avó, seu pai ou quem quer que vá

em sua ajuda se alegrará de que aceite me casar com você. E a partir

desse momento, viveremos muito felizes, graças a sua fortuna.

Fiquei gelada. Como ele podia saber de minha herança?

—Fortuna? —ri—. Não tenho nem um peni.


Seus olhos soltavam faíscas.

—Acredita que sou tolo? Estou informado da fortuna de

quarenta mil libras que herdará. O bom de meu tio, o senhor

Whittles, ouviu sua avó dizer quando esteve na casa dela.

Recordei o dia em que minha avó tinha me falado da herança.

Tinha topado com o senhor Whittles ao abrir a porta.

Neguei com a cabeça.

—Não é oficial. Minha avó me deixará sem nada se arruinar

minha reputação.

—Com certeza que sim —coincidiu esboçando um sorriso—,

embora não haja necessidade de chegar tão longe. Limite-se a aceitar

minha proposta. Pense nos incentivos, querida. Vou enchê-la de

presentes, darei tudo o que deseje, até sua liberdade, sempre e

quando você me conceda também a minha.

—Vai dar-me tudo que deseje com meu próprio dinheiro? —Ri

dele—. Não seja ridículo!

Agarrou-me a cintura com mais força até me machucar.

—Não me fale nesse tom.

De repente, fui consciente de que não se tratava de nenhum

jogo e que estava literalmente nas mãos de um homem sem

escrúpulos.

—Não tem por que fazê-lo. —O medo crescia em mim—. Minha

avó lhe dará dinheiro, uma espécie de resgate. Não precisa me levar

a nenhum lugar.

Sorri-lhe, mas ele seguia me olhando com aqueles olhos


calculistas.

—Seja qual for a soma que me ofereça, nunca será maior que

sua herança, assim terei que recusar sua proposta. Agora, vamos

entrelaçar nossas mãos e nos dirigir à carruagem que nos espera no

final da estrada. Se alguém nos vir, pensará que somos dois jovens

loucamente apaixonados.

—Está louco —soltei, negando com a cabeça—. Não penso ir

com você.

Rebuscou no bolso de seu casaco e tirou algo dourado que

deixou escorregar entre seus dedos até que ficou pendurando de

uma corrente.

Soltei um grito afogado.

—Meu relicário! —Minha mente funcionava a toda velocidade

enquanto tentava dar sentido ao que meus olhos viam—. Foi você

quem nos atacou? O salteador que disparou no meu chofer?

O senhor Beaufort esboçou um sorriso que me fez estremecer.

—O que fez a James? Por que ele abandonou a estalagem?

—Não se preocupe com ele. Assim que lhe surrupiei qual era

seu destino, convenci-lhe para que abandonasse a região e buscasse

outro emprego. Era um homem sensato.

Retornou a minha mente o horror daquela noite, do bandido

mascarado, da pistola e de James sangrando na estrada.

Começaram-me a tremer os joelhos e a voz.

—O que queria de mim aquela noite?

—O mesmo que sempre quis: conseguir seu dinheiro. Admito


que meu primeiro intento foi algo tosco. Só pensava em fugir com

você a todo o custo. Entretanto, quando sua camareira me disparou,

decidi desistir. Não pensava arriscar a pele quando havia outras

formas de conseguir o que queria. Pensava que poderia convencê-la

a se casar comigo por mérito próprio, mas você era incapaz de

apreciar o que lhe oferecia. Assim, chegamos a isto.

Voltou a guardar o relicário no bolso e tirou outra coisa.

—Recorda-a, verdade?

Era a pistola. Assenti com a cabeça muito devagar e ele sorriu.

—Bem. —Voltou a guardá-la pistola no bolso—. Agora, ande,

meu amor!

Agarrou-me a mão e pôs-se a correr entre as árvores enquanto

eu tentava me soltar. Quando tentei gritar, deteve-se em seco e me

cobriu a boca com a outra mão.

—Será tudo mais fácil se se ater ao plano —sussurrou—. Veja,

alguém está esperando na carruagem. Acredito que é a que me

disparou a última vez. Não irá querer que acabe ferida como seu

chofer, não?

Tinha Betsy. Outra vida, além da minha, dependia de meus

atos. Neguei muito devagar com a cabeça.

—Sabia que entraria em razão —observou com um sorriso.

Voltou a pegar minha mão, mas, desta vez, não opus

resistência. Depois do pomar, havia um caminho que atalhava em

meio ao bosque. Ao fim de só uns minutos, saímos na estrada

principal, onde uma carruagem aguardava por nós com os cavalos


atados a uma árvore.

O senhor Beaufort abriu a porta e me fez uma inclinação de

cabeça.

—Espero que a viagem seja agradável.

Nesse momento, percebi que a carruagem estava vazia.

—Mentiu-me!

Tentei sair correndo, mas me segurou pela cintura e me

empurrou dentro do carro.

—Se estivesse em seu lugar, eu não tentaria saltar com a

carruagem em marcha —advertiu, aparecendo pelo vão da porta—.

Muita gente quebrou o pescoço em uma pedra ao tentá-lo.

—Espere! —gritei, segurando a porta antes que se fechasse—.

aonde me leva?

Sorriu-me pela janela. Estava começando a suspeitar que estava

louco.

—A Dover, meu amor.

A carruagem bamboleou quando subiu à boleia. Ele ia

conduzir, o que significava que sequer haveria um chofer para ir em

minha ajuda. Avancei para a porta e girei o trinco. Estava quebrado.

Tentei então com a outra porta, mas nesta nem havia um.

Gritei de frustração e esmurrei a porta. Com seu comentário, o

senhor Beaufort só tinha pretendido me enganar, fazer-me acreditar

que havia uma forma de escapar se tivesse coragem de saltar da

carruagem em marcha. Pareceu-me ouvir uma risada e a carruagem

pôs-se a andar. Estavam me levando de Edenbrooke a toda


velocidade e ninguém ouviria meus gritos de socorro.
Capítulo 24
Não levou muito tempo para que compreendesse o que me

aconteceria se não conseguisse escapar. Uma reputação arruinada

por hipótese era algo tão devastador como uma arruinada de

verdade. Ninguém iria me querer se passasse a noite com o senhor

Beaufort, mesmo que não acontecesse nada. Ante essa ideia, o medo

cresceu em meu peito. Tentei quebrar a janela com os punhos, mas o

vidro não cedeu. Ao fim de um momento, deixei-me cair sobre o

assento, exausta. Ninguém me resgataria, nem conseguiria escapar.

Tentei não chorar enquanto via como minhas esperanças se

afastavam a toda velocidade.

Dediquei-me a olhar pela janela, tentando adivinhar aonde nos

dirigíamos, embora, como não estava familiarizada com a região, os

caminhos não me diziam nada. Viajamos durante o que me

pareceram horas. Enjoei em duas ocasiões e vomitei o café da manhã

sobre o chão da carruagem. Depois disso, sentia-me tão mal que

deitei sobre o assento e me concentrei em não respirar pelo nariz.

Quando, enfim, paramos, o céu era de um cinza anódino. Ao

que parecia, tínhamos estado viajando durante todo o dia. Ao abrir

a porta da carruagem, o senhor Beaufort deu um passo atrás e

cobriu o nariz e a boca com a mão. Sua reação me provocou uma

ligeira satisfação.

Pus-me em pé e passei por cima do café da manhã segurando a


saia para não sujá-la. O senhor Beaufort me agarrou pelo braço e me

ajudou a descer. Sentia-me muito fraca e doente para tentar fugir,

além de que não sabia onde estava. Apesar de tudo, o ar fresco e

salgado foi bem-vindo, trazendo-me um grande alívio.

—O que aconteceu aí dentro?

—Enjôo nas carruagens.

Parecia contrariado.

—E nos navios? —perguntou, então, com o cenho franzido.

—Nunca pus os pés em um, mas suponho que também

enjoarei.

Sua expressão quase me arrancou um sorriso. Murmurou algo

entredentes e logo me guiou para uma estalagem.

—Jantaremos aqui. Não quero envolver ninguém mais e estou

seguro de que você tampouco. Como recordará, não tenho

problemas em disparar em qualquer um que se interponha no meu

caminho.

Entendi à perfeição. Qualquer pessoa nessa estalagem em

posição de me ajudar estaria arriscando sua vida ao fazê-lo. Como

James. Ergui o olhar e vi um pôster de madeira que dizia: «The Rose

& Crown». Tive uma estranha sensação de deja vu. A última

estalagem em que tinha estado, precisamente na noite em que

tinham baleado James, também se chamava «The Rose & Crown».

Para falar a verdade, era um nome muito comum para uma

estalagem, mas, mesmo assim, pareceu-me estranhamente

significativo.
No interior, o senhor Beaufort pediu que nos servissem o jantar

em um salão privado. Havia várias pessoas no bar, mas a pressão

sobre meu braço mantinha viva sua ameaça, assim não disse nada.

Além disso, sentia-me muito fraca e enjoada demais para lhe fazer

frente.

Conduziram-nos a uma pequena sala que oferecia um

chamativo contraste a como me sentia. O fogo crepitava em um

canto, a mesa estava posta e os móveis eram bonitos e, além disso,

estavam limpos.

O senhor Beaufort assinalou uma cadeira.

—Sente-se, por favor.

Teria preferido que não se comportasse como um cavalheiro,

pois isso fazia com que suas ações parecessem ainda mais atrozes.

Considerei a opção de não fazer o que pedia, mas desprezei a ideia

imediatamente. O melhor seria tentar apaziguá-lo, por isso sentei e o

observei atentamente. Ele se sentou na cadeira que estava mais perto

da porta, recostou-se sobre o respaldo e cruzou as pernas.

—Não pensa a sério que pode safar-se disso? —espetei—. Meu

pai nunca aceitará este casamento.

Abriu sua caixa de rapé e cheirou um pouco. Quando acabou,

contemplou-me languidamente.

—Seu pai muito pouco se preocupa com o que lhe ocorra —

alegou com monotonia—. Se não, por que a deixaria a cargo de uma

débil anciã que sequer pode cuidar de si mesma? Não há nenhum

outro homem em sua família. Ninguém que a proteja, ninguém que


lute por você. —Seus lábios se curvaram em um sorriso—. Você,

querida, é a vítima ideal. E posto que vamos à França, creio que

passará bastante tempo até que seu pai dê com você.

—França? —repeti, surpreendida.

—Sim, França. Partiremos assim que mude a maré. —Esboçou

um sorriso calculista—. Como compreenderá, não podia deixar que

ninguém nos encontrasse até me assegurar que era minha.

Saberia o senhor Beaufort que meu pai estava na França?

Duvidava, sobretudo tendo em conta que pensava que indo ali

estaríamos fora de seu alcance.

Soltei uma sonora gargalhada.

—Nunca serei sua.

Percorreu meu corpo com o olhar.

—Será e é provável que antes do que creia.

Um calafrio de repulsa me percorreu as costas e o medo fez

com que meu pulso acelerasse.

—Sou uma dama —exclamei, levantando o queixo—. Talvez

aceite me casar com você se me obrigar, mas não pode me tocar. —

Minha voz só tremeu um pouco.

—E o que fará se o tento? —perguntou, esboçando um sorriso—

. Enfrentar-me?

—Sim —respondi, desafiando-o com o olhar.

Soltou uma risada. Até eu percebia quão cômica tinha soado

minha resposta. Media a metade que ele e certamente tinha menos

da metade de sua força. Além disso, ele tinha uma arma em seu
poder. Bem, então minha superioridade teria que provir de meu

engenho.

O taberneiro trouxe uma bandeja com comida e uma garrafa de

vinho e os deixou sobre a mesa. O senhor Beaufort empilhou um

monte de comida em seu prato e serviu um bom copo de vinho.

—Por favor, coma se lhe apetece.

Não podia comer nada. Era impossível. A mera visão da

comida bastava para que voltasse a arquejar. Entretanto, não queria

levantar suas suspeitas, preferia que acreditasse que me

comportaria. Servi-me o que me pareceu menos repulsivo e levei à

boca metodicamente, sem perder de vista o senhor Beaufort. Ele não

me dava atenção e se limitava a comer e a beber como se estivesse

jantando sozinho. Era bom sinal. Dava-me a oportunidade de

examinar a sala.

Não vi nada que pudesse servir como arma. Além da mesa, das

cadeiras e a lareira, o único mobiliário que havia era um banco não

muito alto junto à janela e uma escrivaninha em um canto. Nada do

que havia pesava o suficiente para usar para golpear o senhor

Beaufort. À exceção, talvez, das cadeiras, que, infelizmente, eram

muito grandes; eu não poderia levantá-las. As perspectivas eram

desalentadoras. Nem a faca que usava para comer me serviria de

nada, pois não tinha ponta nem estava afiada.

Teria que ser mais criativa. Dei outra olhada ao mobiliário da

sala e meus olhos se detiveram na escrivaninha. Sobre ela vi uma

pluma, um tinteiro e papel. Supus que, em algum lugar, haveria


uma navalha para afiar a pluma e um plano começou a tomar corpo

em minha mente. Considerei minhas outras opções, embora logo me

dei conta de que, na verdade, não tinha nenhuma além de correr

para a porta ou deixar que o senhor Beaufort fizesse comigo o que

ele quisesse.

Ao pensar nisto, fiquei muito nervosa, minha mão começou a

tremer e tive que soltar o garfo. De repente, lembrei de minha

primeira noite em Edenbrooke. O que Philip havia me dito quando

me dirigia para a sala de jantar por seu braço? «Tentei respirar

fundo. Ajudará a relaxar.»

Aquela lembrança infundiu ânimo em meu coração. Inspirei

fundo para aplacar os nervos e observei o senhor Beaufort. Não

deixava de beber, embora também comesse. Serviu-se três copos de

vinho seguidos e quando acabou o terceiro, deixou-o sobre a mesa,

rudemente. Tinha chegado o momento de pôr meu plano à prova.

—Não tinha me dado conta da fome que tinha —comecei

sorrindo-lhe com acanhamento—. É difícil pensar com clareza

quando se tem fome, não acha?

Arqueou uma sobrancelha.

—Nunca pensei nisso.

—Bom, é o que acontece comigo. —Baixei os olhos, em

submissão—. Não podia pensar em< quão maravilhoso seria estar

casada com um homem como você.

Olhei-o de forma coquete através das pestanas e pude

comprovar que seu rosto adquiria uma expressão de satisfação.


—Parece que está caindo na razão. —pôs-se a rir—. Nunca

demoram muito.

—Oh, não me custa nada ao lhe ver | luz das velas<

Deixei que minha voz fosse se apagando ao mesmo ritmo que

crescia o interesse em seus olhos.

—Prossiga.

—Só estava admirando a forma como a luz ressalta suas belas

feições, sua mandíbula proeminente, a forma como seus olhos<

Baixei o olhar e me obriguei a ruborizar. Notei como minhas

bochechas se acendiam. Ao menos, sempre podia contar com essa

habilidade.

—Não se interrompa agora.

—Sou muito tímida —sussurrei.

—Não precisa sê-lo —tentou me enrolar—. Muito em breve,

não haverá motivos para acanhamento. Saberemos tudo um do

outro.

Interiormente, fiz uma careta de asco e continuei com a cabeça

baixa para que não pudesse ver-me o rosto.

—Possivelmente poderia escrever-lhe como se fosse uma carta

de amor.

Se ajeitou na cadeira.

—Bom, isso sim seria algo novo. —Estudou-me durante uns

minutos e aguardei tensa—. Por que não? Temos toda a noite pela

frente —concluiu me assinalando a escrivaninha.

O senhor Beaufort serviu outro copo de vinho enquanto eu me


dirigia para meu objetivo com passo vacilante por causa do

nervosismo. Sentei-me com cuidado e coloquei o corpo de forma a

ocultar o que fazia. Procurei pela escrivaninha e não me

decepcionei. A navalha se encontrava ao lado da pluma. A lâmina

era pequena, não maior que uma unha, mas estava bem afiada. Teria

que servir.

Tomei uma folha de papel e molhei a pluma no tinteiro. Escrevi

uma carta sem demora.

Querido Philip:

É quase certo que nunca chegue a ler esta carta. Se o fizer,

significará que me ocorreu algo terrível, pois me encontro nas

mãos de um homem perigoso. Estou decidida a enfrentá-lo, mas

antes, meu coração exige que lhe escreva esta carta para confessar

que o amo. Envio meu coração com estas palavras para que esteja

a salvo, aconteça o que acontecer esta noite. Não sei se o deseja ou

não, mas sempre fui sua.

Com todo meu amor,

Marianne

Uma ou duas lágrimas caíram sobre o papel e borraram minhas

palavras. O senhor Beaufort pigarreou. Apressei-me a dobrar a folha

em um quadrado pequeno e escrevi no exterior: «Sir Philip

Wyndham, Edenbrooke, Kent». Onde poderia escondê-la? No

corpete? Não, esse seria o primeiro lugar onde o senhor Beaufort a


encontraria.

O estômago revoltou-se e, por um segundo, temi que voltaria a

vomitar. Inspirei fundo de novo. Tinha que refletir. Abaixei-me um

pouco e escondi a carta na bota. Não me deu muito consolo, a teor

do que me esperaria se meu plano não tivesse sucesso, mas me

parecera imperioso escrevê-la.

Tomei outra folha de papel e relembrei rapidamente a aula que

Philip tinha me dado. Tinha que fazer que parecesse autêntica.

A meu intrépido amor:

Sus olhos faiscantes escondem segredos que me tentam. Posso ver

neles um poder e uma força que o diferenciam do resto dos homens. Quando

me olha, o coração me acelera ante a perspectiva de que logo lhe pertencerei.

Não é capaz de imaginar quanto desejo compartilhar minha vida com um

homem assim.

—Não acabou ainda? —perguntou o senhor Beaufort.

—Quase. Por favor, compreenda que é a primeira vez que faço

isto. —A voz tremeu um pouco, mas acabei a carta.

Espero ser capaz de lhe dar tudo que merece.

Com carinho,

Marianne

Isso teria que bastar. Ao menos, contentaria seu ego. Levantei-

me e sorri com acanhamento. Ele ergueu o olhar.

—E bem?

Escondi a navalha entre as dobras da saia e com a outra mão lhe

estendi a carta. Ele ficou em pé e a pegou.


—Oh, não. Não posso ver enquanto a lê. Seria muito

vergonhoso —desculpei-me—. Terá que dar a volta.

—Terei que ver até que ponto chega sua modéstia! —exclamou

com um sorriso lascivo.

Atravessei a sala enquanto ele continuava com a cabeça

inclinada sobre a carta. Detive-me perto da porta, não muito, para

não levantar suas suspeitas, mas o suficiente se por acaso meu plano

funcionasse.

O senhor Beaufort voltou-se com um brilho de satisfação nos

olhos.

—É uma caixa de surpresas —disse enquanto avançava para

mim.

Rodeou-me a cintura com as mãos e tive que fazer um grande

esforço para não me afastar. Seu fôlego fedeu e vi, então, de que não

tinha estado bebendo vinho como eu acreditara, a não ser brandy.

Não parava de cambalear. Não estava segura de como influiria seu

estado de embriaguez no que planejava fazer, mas esperava que me

desse vantagem.

Apoiei uma mão em sua bochecha e com a outra agarrei a faca

com mais força.

—Feche os olhos —sussurrei.

Esboçou um sorriso e os fechou.

—Outro jogo. Nunca teria imaginado isso de você.

Mentalizei o que ia fazer, aproximei a navalha a seu pescoço e

tomei coragem. Infelizmente, descobri que esta desaparecera. Não


podia fazê-lo. Não podia o apunhalar.

Sua mão desceu de minha cintura até o quadril e estremeci.

—Se se mover, corto-lhe o pescoço —vaiei.

Abriu os olhos de repente e me olhou surpreso. Devolvi-lhe o

olhar com todo o ódio que guardava dentro de mim. Moveu a mão e

apertei a faca até que começou a sangrar.

—Farei-o —resmunguei.

Afastou a mão do meu corpo e me contemplou com uma

expressão sinistra.

Revistei o bolso de seu casaco até encontrar a pistola. Dei um

passo atrás e lhe apontei. Minha mão tremia.

—Agora vamos nos entender< Eu vou partir e você vai

desaparecer. Se souber o que lhe convém, abandonará o país como

tinha planejado e não retornará jamais. Entendeu-me?

—Perfeitamente —respondeu, com desdém.

De um só movimento, arrancou-me a arma da mão, que foi

parar debaixo da mesa. Um instante depois, suas mãos me

agarravam pelos ombros e me puxaram para ele.

—Pensa que sou forte? —sussurrou—. Pensa que sou

poderoso? Agora verá o que é a força. Vou mostrar-lhe quais são as

consequências de me tratar como se fosse tolo.

O pânico me paralisou e esqueci por completo meu plano.

Debati-me, tentando me libertar, mas ele me segurou com mais

força e plantou seus repugnantes lábios sobre os meus. Voltei a

cabeça para o lado e cuspi o sabor de seu beijo.


Ele soltou uma gargalhada que retumbou na sala e voltou a

avançar sobre mim.

O som de sua risada pôs fim ao pânico que sentia e pude pensar

com suficiente lucidez. Lembrei-me da faca que seguia em meu

poder e a cravei nas mãos sem olhar. O senhor Beaufort recuou e

afrouxou sua pressão sobre mim. Dobrei os joelhos de repente e

meu próprio peso o obrigou a me soltar. Uma vez no chão, golpeei-

lhe os joelhos com os pés com força suficiente para que perdesse o

equilíbrio e cambaleasse de costas até se chocar com a porta.

Aproveitei para fugir engatinhando e me esconder debaixo da mesa.

Topei-me com algo sólido. A pistola. Saí pelo outro lado da

mesa, pus-me em pé e lhe apontei com a arma.

—Acabemos com isto!

Veio para mim rodeando a mesa com parcimônia. Recuei sem

deixar de lhe apontar. Minhas mãos tremiam, traindo o medo que

tomava conta de mim. Apertei a arma com mais força.

—Detenha-se ou dispararei.

—Não se atreverá —soltou, sorrindo satisfeito.

Acreditei em suas palavras e hesitei uns instantes. Poderia me

atrever? Fixei o olhar em suas mãos e vi o sangue que emanava de

onde lhe tinha cravado a faca. Era muito vermelho. Senti a visão

escurecer durante um momento, mas pisquei rapidamente. E então

o senhor Beaufort avançou para mim.

No mesmo instante, pareceu-me ouvir Philip gritando meu

nome e fiquei tão nervosa que apertei o gatilho. Naquele espaço tão
pequeno, o som foi ensurdecedor. Fui jogada para trás pela força do

disparo.

O senhor Beaufort se assustou e se atirou ao chão, logo voltou a

levantar e sorriu com mais suficiência que nunca. Tinha falhado.

Estendeu a mão e me arrebatou a pistola. Abaixei-me e voltei a

me colocar de quatro debaixo da mesa, tão rápido como um

caranguejo. Agarrou-me pelo pé e soltei um grito enquanto

esperneava sem parar. Consegui me libertar e saí de debaixo da

mesa para o lado da porta. Abri-a de um puxão, mas uma força

descomunal me atirou ao chão.

Bati a cabeça em algo duro ao cair. Soltei um gemido de dor,

pus-me de lado e me encolhi por instinto enquanto tudo se tornava

escuro. Estava tão atordoada que o único que podia fazer era cobrir

a cabeça com as mãos enquanto um estrondo me envolvia.

Quando uma mão me agarrou pelo punho, debatia-me às cegas,

pois estava muito assustada para abrir os olhos e olhar meu

atacante.

—Marianne! Abra os olhos! —gritou uma voz que venceu meu

pânico.

O medo que me paralisava desapareceu imediatamente, pois se

tratava de uma voz que conhecia tão bem como a minha própria.

Abri os olhos surpreendida e vi o rosto do homem a que tanto

queria. Seu semblante estava dominado pela dor, pela angústia e

pela pena. Ao vê-lo, meu coração se abriu de repente e pus-me a

chorar como se nunca fosse capaz de parar.


Abraçou-me como se continuasse sendo uma menina e me

embalou contra seu peito.

—Está a salvo, querida. Eu estou com você.

Chorei sobre o pescoço de meu pai, enquanto me tirava dali em

seus braços.
Capítulo 25
Ouvia vozes a meu redor, mas não podia distingui-las. Estava

banhada em lágrimas e não era capaz de dar sentido a nada.

Quando meu pai se inclinou para frente para me sentar em uma

cadeira, neguei-me a soltá-lo, por isso, ajoelhou-se a meu lado e me

acariciou as costas enquanto escondia o rosto em seu peito. Queria-

me. Sabia. Soubera assim que tinha visto o olhar que dominava seus

olhos. Não sabia o que fazia ali ou como tinha me encontrado, mas

tampouco me importava muito nesse momento. O único que

importava era que, de fato, estava ali, que me encontrara e me

queria.

Quando me perguntou se estava ferida ou se necessitava um

médico, neguei com a cabeça e sequei as lágrimas para poder vê-lo

melhor. Embora estivéssemos no bar da estalagem, ignorei tudo ao

meu redor e me concentrei no rosto de meu pai. Seu cabelo se

tornara mais grisalho do que recordava e tinha mais rugas ao redor

dos olhos, mas parecia gozar de boa saúde.

Tinha tantas perguntas a fazer que não sabia por onde começar.

Não obstante, antes de que pudesse dizer qualquer coisa, a porta da

estalagem se abriu de repente e William entrou a passos largos.

Quando seus olhos pousaram em mim, deteve-se em seco.

—Encontrou-a —disse a meu pai com um evidente alívio na

voz—. Onde está o canalha?


Meu pai assinalou a sala.

—Ali dentro. Sir Philip está se encarregando dele.

Sir Philip? Meu sir Philip?

—Ele somente?

Meu pai assentiu.

—Insistiu em que assim fosse.

Meu olhar passou de um a outro. Sabia o que isso significava. O

senhor Beaufort tinha comprometido minha honra e minha

reputação ao me sequestrar, por isso meu pai tinha direito de

desafiá-lo a um duelo. Mesmo assim, não era responsabilidade de

Philip arriscar sua vida por mim.

Não podia ficar ali sentada, sabendo o que acontecia ali ao lado.

Embora presenciar um duelo não fosse algo agradável para uma

dama, dirigi-me correndo para o salão privado e abri a porta

decidida a detê-los. Mas fiquei como pedra à soleira.

Não me atrevi a abrir a boca. O senhor Beaufort estava em pé,

de costas para a lareira, totalmente imóvel, e a ponta da espada de

Philip lhe roçava o pescoço enquanto a sua jazia no chão. Nenhum

dos dois se voltou para a porta. Philip parecia ter a situação

controlada. Sua espada se curvava sobre a pele do pescoço do

senhor Beaufort sem chegar a transpassá-la.

—Diga o que lhe fez —exigiu com tal ferocidade que me custou

reconhecer sua voz.

—Assegurei-me de que perdesse seu interesse nela.

—Sempre me interessará —recalcou Philip com a voz furiosa—.


Sempre! Nada do que tenha feito mudará isso.

—Então, por que quer sabê-lo? —espetou o senhor Beaufort,

com desdém.

—Porque nunca pedirei a ela que pronuncie as palavras e

porque quero saber quanto terei que desfrutar quando lhe

atravessar o coração com minha espada.

—Parem!

Foi como se a palavra brotasse sem querer de meus lábios.

Ambos se voltaram para mim e estive a ponto de novamente

cair no choro ao ver a expressão de Philip, pois era a mesma que

tinha meu pai. Concentrei o olhar no senhor Beaufort, já que não

podia suportar ver o rosto do primeiro. Caminhei para eles, mas me

tremiam tanto as pernas que me custou grande esforço.

—Está mentindo —assegurei, ao me deter junto a Philip—. Não

permitirei que me arruíne por palavras depois de ter impedido que

o fizesse com fatos. O único que conseguiu foi me beijar. —Levantei

o queixo e pensei no desdém que minha avó costumava mostrar.

Desejei poder adotar a mesma expressão—. E nem sequer foi um

bom beijo. Foi repugnante. Mas foi tudo.

O senhor Beaufort ficou rubro. Parecia como se o único no que

pensasse fosse em me estrangular. Mas, no fim, baixou seu olhar

esquivo em sinal de derrota e quis rir por meu triunfo, embora temi

que brotassem as lágrimas em vez da risada. Voltei-me para Philip.

—Mesmo que o senhor Beaufort mereça que lhe atravesse o

coração com sua espada, não quero que sua morte pese em minha
consciência. Limite-se a machucá-lo um pouco, se deseja, como

recordação desta noite.

Philip olhou-me fixamente durante um longo momento. Tantas

emoções se refletiam em seus olhos que não me via capaz sequer de

começar a decifrá-las.

—Beijou-a? —A raiva dominava sua voz.

Assenti. Philip fixou os olhos em meus lábios e voltei a ver

neles aquele fogo, como se estivesse a ponto de perder as estribeiras.

Não pude evitar perceber que aquele ar perigoso em seu olhar o

fazia ainda mais atraente.

Philip apenas dedicou uns segundos a olhar o senhor Beaufort e

com um rápido movimento de punho, brandiu sua espada. A

lâmina se moveu com tanta rapidez que não foi mais que um borrão

de metal no ar e no rosto do senhor Beaufort apareceu uma linha

carmesim que ia da bochecha até o perfil do nariz, atravessando-lhe

os lábios.

Este amaldiçoou e levou à boca o punho da camisa, cuja ponta

acabou manchada de vermelho.

Fiquei observando a cena, um pouco horrorizada pelo que tinha

provocado.

—É o suficiente? —perguntou-me Philip.

Entre todas as emoções que competiam por dominar seu olhar,

descobri um brilho de admiração.

—Sim. Pode assegurar-se de que abandone o país?

—É claro. Algo mais?


Estava sorrindo, sorria como se todo o universo estivesse em

minhas mãos. Estava suficientemente perto para ver tudo e

descobri em seus olhos e em seu sorriso que Philip guardava seu

próprio segredo. Era um segredo que brilhava com a mesma

intensidade do sol sobre a água. Deixou-me sem fôlego e cega por

seu brilho.

Assim como tivera certeza do amor que meu pai sentia por

mim, apenas ao olhá-lo nos olhos, também nesse momento estava

segura de outra coisa. Estava certa de que importava a Philip. Era

tão claro< Em seus olhos, no calor do seu sorriso, na forma como

me olhava, na ferocidade com que enfrentou o senhor Beaufort para

me defender< Era importante para Philip. Não sabia se era amor,

mas, ao menos, não me cabia dúvida de que a amizade que tanto

valorizava era real. Esbocei um sorriso, lentamente. Sim, seguia

desejando muitas coisas de Philip.

—Creio que isso bastará. No momento... —Foi o que me limitei

a responder.

***

Philip e William partiram para escoltar o senhor Beaufort até o

navio. Supus que também se encarregariam de falar com o

taberneiro e o ajudariam a recordar os acontecimentos da noite de

forma bem distinta. Certamente, haveria algum custo associado aos

danos que a bala que disparei tinha causado. Para completar, sentia

uma forte dor de cabeça pelo golpe contra o chão. Entretanto, nada
daquilo me importava nesse momento. Estava sentada no bar com

meu pai e aproveitei a quietude para obter algumas respostas.

—Pai, estou muito feliz de que tenha retornado à Inglaterra.

Mas me diga qual o motivo de que tenha voltado justamente agora?

Aconteceu algo? A avó<?

—Não, não, não aconteceu nada. —Deu-me batidinas na mão—

. Deveria ter voltado para casa há muito tempo. —Inspirou fundo e

ao redor de seus olhos formaram-se rugas de preocupação—. É

verdade que odiava Bath?

Pisquei para conter as lágrimas e assenti com a cabeça, já que

era incapaz de responder.

—Lamento tanto. Somente parti para que tivesse a

oportunidade de se relacionar, conhecer outros jovens e optar por

um bom casamento. Pensava que tudo ia bem.

Apoiei a cabeça em seu ombro.

—Não me interessa frequentar a sociedade, só quero cuidar de

você.

Agora que minha mãe não estava, o justo era que eu me

ocupasse da casa e velasse por meu pai.

—Tem um grande coração, mas logo perceberia que seus anos

de juventude tinham passado e não queria que sacrificasse sua

felicidade por mim. Não tinha ideia de como se sentia infeliz até que

sir Philip me disse isso.

Levantei a cabeça para olhá-lo.

—Sir Philip? O que tem ele a ver com isto?


—Apresentou-se em minha casa há alguns dias, de forma

inesperada, e me entregou sua carta. Disse que estava decidido a me

levar de volta para casa. Pode ser muito persuasivo! Embora a

verdade é que não precisou que me convencesse de nada uma vez

que li a carta.

Philip tinha viajado a França? Por mim? Não podia acreditar.

—Mas como soube que estava aqui? E que estava em perigo?

—Pura casualidade. Acabávamos de desembarcar e nos

dispúnhamos a procurar uma estalagem quando topamos com o

senhor Wyndham e seu lacaio, que tinham lhe seguido até aqui,

depois de que alguém os informara que tinham lhe sequestrado.

Não houve tempo para explicações. Separamo-nos para procurar em

todas as pousadas. —passou uma mão pelo rosto—. Quando ouvi o

tiro e depois seus gritos, temi o pior. —Soltou um suspiro trêmulo—

. Menos mal que a encontramos. Não sei o que teria feito se tivesse

acontecido algo. —Meu pai me abraçou e me deu um beijo na

cabeça—. Você é minha raison d’être.

Eu era sua razão de ser? Sentia-me como se fosse um copo cheio

até a borda. Uma gota a mais de felicidade e minha alma se

derramaria.

—Deve saber que teria voltado a qualquer momento —

prosseguiu—. A única coisa que tinha que fazer era pedir. E não,

Annie, nunca a culpei pela morte de sua mãe. Nunca, minha filha.

Nunca.

Apoiei a cabeça no ombro de meu pai e verti minhas lágrimas


sobre ele. Tinha protegido meu coração durante tanto tempo que

acreditei que não seria capaz de deter todas as emoções que

brotavam nele. Mas eram emoções curativas, e a cada batida, meu

coração se tornava mais forte do que fora no último ano.

Quando William e Philip retornaram, o ombro de meu pai

estava empapado por minhas lágrimas, mas me sentia feliz.

Anunciaram que tudo estava resolvido e que podíamos ir. William e

seu lacaio retornariam no faeton no qual tinham vindo e Philip

viajaria com meu pai e eu em uma carruagem que tinham alugado

para que nos levasse de volta a Edenbrooke. Agradeci-lhes por

terem me resgatado e ambos tiraram importância com um gesto de

mão, como se fosse apenas mais uma dos atos heroicos que faziam

todo o dia.

Já tinha escurecido quando deixamos a estalagem. Sentei-me na

carruagem junto a meu pai e Philip ficou em frente a nós. Durante

um milésimo de segundo, desejei estar sentada ao lado dele, embora

logo me repreendi por minha falta de lealdade e decidi me alegrar

de estar reunida com meu pai.

Havia tanto que queria lhe contar. Tinha certeza de que lhe

arrancaria um sorriso quando falasse do senhor Whittles e seus

poemas. Do mesmo modo, queria perguntar-lhe coisas sobre a

França e sobre o que tinha feito durante o último ano. Não obstante,

meu pai parecia muito cansado e bocejou em várias ocasiões

enquanto ele e Philip conversavam de coisas sem importância.

Depois de alguns minutos, reinou o silêncio e meu pai reclinou a


cabeça sobre o respaldo.

Voltei-me para a janela e observei a lua que nos acompanhava.

De novo uma estalagem, a lua e uma viagem de carruagem, mas

tudo era diferente agora. Eu era diferente. Tinha mudado

irrevogavelmente e se tratava de uma mudança positiva. Dizia-me

isso a força que agora emanava de meu coração.

Em pouco tempo, meu pai começou a roncar. Eu não podia

dormir, pois minha mente estava muito agitada, repassando tudo o

que descobrira essa noite. Philip havia dito ao senhor Beaufort que

sempre estaria interessado em mim. Relembrei suas palavras, que

agiam sobre meu coração como um bálsamo que alimentava minha

esperança.

Philip estava em frente a meu pai e não chegava a ver seu rosto

devido à escuridão. Entretanto, estava segura de que seguia

acordado, pois notava seu olhar sobre mim. E então, quando

pensava que faríamos toda a viagem em silêncio<

—Tem certeza que não lhe fez mal? —perguntou-me em voz

baixa, através da escuridão.

Um calafrio me surpreendeu ao ouvir sua voz.

—Sim, completamente.

Ouvi-o suspirar aliviado e acomodar-se em seu assento.

—Pode me contar o que ocorreu?

E isso fiz. Contei tudo: a proposta do senhor Beaufort, a carta de

amor que escrevera para ele na estalagem, a arma que empunhara.

Ele me escutou em silêncio, embora notei como ficava cada vez mais
tenso. Inclusive o ouvi amaldiçoar entredentes.

Quando terminei meu relato, permaneceu calado. Tentei ver-lhe

o rosto, mas foi em vão. A noite nos envolvia. Falar assim, às

escuras, conectados unicamente pelas palavras, era tão estranho e

íntimo como tinha sido ver Philip escrevendo aquela carta de amor.

—Por que nunca me contou sobre sua herança? —perguntou

depois de um momento.

Sua pergunta me surpreendeu. Não tinha parado para pensar

em que, ao lhe narrar o ocorrido, também revelaria sobre minha

herança. Demorei um pouco em responder enquanto tomava um

tempo para encontrar as palavras mais apropriadas.

—Minha avó me disse para que não o fizesse. Além disso, nem

ganhei isso ainda. Antes, devo mostrar a minha avó que sou uma

jovem elegante e duvido muito que isso chegue a acontecer algum

dia. —Fiz uma pausa—. Mas teria mudado alguma coisa se tivesse

sabido?

—Não —respondeu imediatamente e com decisão—. Mesmo

assim, teria gostado de saber.

—Por quê?

—Porque assim poderia ter prometido que não a amaria por

seu dinheiro —respondeu com um ar risonho na voz.

Tinha a sensação de que havia passado uma eternidade desde

aquele dia na biblioteca, quando tínhamos nos feito aquelas

promessas. Sorri ao recordá-lo.

—Bom, não é muito tarde.


Philip soltou uma risada e estremeci de prazer. Adorava o som

de seu riso! Percebi, então, o que o tinha feito rir. Tinha paquerado

com ele. Nunca antes o fizera; nenhuma só vez, até esse momento.

—Prometo, Marianne Daventry —começou. Sua voz era séria

ao mesmo tempo que sensual e o coração me saltava dentro do

peito—. Prometo que não a amo por seu dinheiro.

Estremeci. Não me passou por cima a mudança em sua

formulação, nem a intensidade de sua voz. Tinha querido dizer com

isso que me amava? Mas me amava realmente? Não tinha sido uma

declaração e Philip sempre tinha desfrutado paquerando comigo.

Entretanto, quando estava a ponto de descartar o comentário e

arquivá-lo junto a seus outros flertes, recordei algo que me dissera

enquanto me ensinava a escrever cartas de amor: «Eu sempre falo

sério quando se trata de assuntos do coração».

Estaria falando sério nesse momento? Recordei o conselho de

Rachel e o coração começou a bater com mais força. Não tinha ideia

do que fazer para conseguir que um homem se declarasse para mim.

Nem sabia se Philip queria declarar-se. E se minha tentativa soasse

tão estranha como me parecia?

Meu pai se moveu ao meu lado, resmungou algo em sonhos e

me assustei. Por um momento, tinha esquecido que estava ali. Sua

distração serviu para me recordar que aquele não era o momento,

nem o lugar para manter uma conversa importante e privada com

Philip. Meu pai podia despertar a qualquer momento. Portanto,

deixei escapar o ar e desprezei a ideia de averiguar, nessa noite,


quais eram os sentimentos de Philip ou suas intenções. Isso teria que

esperar.

Entretanto, precisava lhe dizer algo.

—Obrigada por trazer meu pai de volta. Foi muito generoso por

sua parte fazer uma viagem tão longa até a França por mim. —Fiz

uma pequena pausa e prossegui com um sorriso—: Suponho que

agora terei que lhe dar o quadro.

Philip soltou uma risada.

—Não, tenho algo melhor para lhe oferecer em troca do quadro.

Esperei que se explicasse, mas permaneceu enigmaticamente

calado. Philip sempre gostara de mostrar-se misterioso.

—Por que foi procurar meu pai então? —perguntei,

surpreendida.

—Porque você queria que retornasse.

Sua resposta era simples, mas dizia muito de suas intenções.

Fechei os olhos e sorri, enquanto a esperança seguia crescendo em

meu coração.

—Deveria tentar descansar —aconselhou Philip—. Foi uma

noite muito longa. Não quero impedi-la de dormir um pouco.

Estava muito cansada e meu coração se sentia muito vulnerável

para acrescentar algo mais. Apoiei a cabeça no vidro e me permiti

albergar esperanças enquanto os cavalos nos conduziam através de

um mundo banhado pela luz da lua.


Capítulo 26
Quando, enfim, chegamos a Edenbrooke, subi as escadas aos

tropeções, atordoada pelo cansaço. O céu estava começando a

clarear e a noite dava lugar ao alvorecer quando me deixei cair sobre

a cama. Não me incomodei em tirar o vestido, ou sequer as botas.

Despertei horas mais tarde por causa dos ruídos que Betsy fazia

para tentar me acordar sem recorrer a me sacudir. Não parava de se

mover pelo quarto, de fazer tilintar a xícara de chocolate que levava

em uma bandeja, de bater-se nos móveis, de assobiar< Ainda me

sentia cansada, mas percebi que não haveria maneira de fazê-la

parar. Voltei-me para a janela e a luz da tarde que se filtrava por ela.

Quando Betsy viu que estava me mexendo, veio correndo para

me dar a bandeja, ou quase a atirar por cima.

—Oh, como contente estou de que despertou afinal! —atirou-se

sobre a cama—. Estou tão impaciente por saber o que aconteceu

ontem! Não se imagina o tumulto que se formou aqui quando o

senhor Clumpett chegou mancando e disse a todos que a tinham

sequestrado.

Incorporei-me e agarrei a xícara de chocolate.

—O senhor Clumpett? Como soube?

—Estava procurando insetos no bosque quando ouviu gritos e

viu um homem colocá-la em uma carruagem à força. Saiu correndo

em sua ajuda, mas tropeçou na raiz de uma árvore e torceu o


tornozelo. Mas ouviu dizer o senhor Beaufort algo sobre Dover.

Levou meia hora para chegar coxeando até a casa e contar o

ocorrido ao senhor Wyndham. Não posso descrever quão

emocionante foi! Devo confessar que quase desmaiei quando lady

Caroline deu ao senhor Wyndham as espadas de duelo. Preciso

saber o que aconteceu ou morrerei de curiosidade!

Contei tudo, da irrupção do senhor Beaufort no pomar ao duelo

de Philip.

—Está me dizendo que se bateu em duelo por você? —Juntou

as mãos em uma palmada—. E foi terrivelmente romântico?

Pensei que seria melhor desalentar suas fantasias românticas,

mas depois de uma breve refrega, rendi-me e esbocei um sorriso.

—Sim —admiti—. Foi.

Betsy soltou um gritinho.

—Sabia. Sabia que era você. Pouco importa o que diga sobre a

senhorita Cecily< Ele a ama e isso significa que me converterei na

camareira de uma lady.

Parecia extasiada. Tinha que refreá-la.

—Betsy, não aconteceu nada entre sir Philip e eu, assim não

comece a planejar seu futuro aqui.

Desprezou minhas palavras com um gesto da mão.

—Ainda. Não aconteceu nada ainda, mas acontecerá, estou

convencida. Ah! Vou deixá-la tão bonita para o baile desta noite que

ele não poderá mais resistir.

Meu estado de ânimo oscilava entre o nervosismo e a emoção,


entre a esperança e a dúvida. Estava de acordo com Betsy. Algo

aconteceria nessa noite, pressentia. Pedi que me preparasse um

banho, levantei e me espreguicei. Vi minhas botas junto à cama, mas

não recordava de tê-las tirado.

—Betsy, você tirou minhas botas? —perguntei, quando voltou

para avisar que já estavam preparando a água para meu banho.

—Sim, nesta manhã cedo, quando vim ver se estava bem.

Pensei que ficaria mais cômoda sem elas.

Fiquei olhando as botas e um alarme disparou em minha

cabeça. Tinha esquecido algo importante que tinha a ver com elas.

Deixei escapar um grito afogado quando percebi: a carta que tinha

escrito para Philip na estalagem! Avancei para elas e revirei-as, mas

não havia nada.

—Encontrou um papel ao tirá-las?

—Refere-se à carta que dirigida a sir Philip? Sim, vi.

O medo se apoderou de mim.

—O que fez com ela?

—Deixei-a aí mesmo, em cima da mesinha.

Levantou a bandeja que tinha colocado sobre a mesinha, mas

debaixo não havia nada. Procurei-a por toda parte, comprovei que

não ficou presa à bandeja, inspecionei o chão, debaixo da cama e,

até, entre os lençóis. Não fui capaz de encontrar a carta.

—Temos que encontrá-la, Betsy! —gritei deixando me levar

pelo pânico.

Minha carta era uma declaração de amor e se Philip a lesse,


tudo estaria perdido. Uma mulher nunca era a primeira a declarar

seus sentimentos. Nunca! E se não tinha intenções de pedir minha

mão e ao ler a carta se sentisse obrigado a fazê-lo? E se tinha me

feito aquela promessa na carruagem apenas para paquerar comigo?

Deixei-me cair no chão, cobri o rosto com as mãos e gemi,

envergonhada. Se Philip chegasse a lê-la, a vergonha me perseguiria

por toda a vida.

Bateram à porta e, um segundo depois, Cecily entrou correndo

e se lançou em meus braços.

—Está a salvo! Estava tão preocupada! —Abraçou-me com

força, depois se afastou um pouco e me segurou pelos ombros—.

Machucou-a?

Neguei com a cabeça e tentei sorrir.

—Não, estou bem.

Ela tampouco devia saber da carta ou pensaria que tinha

tentado traí-la me lançando nos braços do homem ao qual amava.

—Não posso acreditar. E pensar o perigo que correu! Não

deveria tê-la deixado sozinha. Deve ter sentido tanto medo. Tem

que me contar tudo.

Pegou-me pela mão e me ajudou a levantar. Parecia decidida a

não me soltar.

Sentamos na cama e Cecily me escutou com os olhos muito

abertos enquanto lhe relatava quase todo o ocorrido. Evitei alguns

detalhes importantes, como quando Philip havia dito ao senhor

Beaufort que sempre estaria interessado em mim. Guardei aquelas


palavras perto de meu coração, como se fosse um tesouro sagrado.

Cecily insistiu que se sentia responsável por meu sequestro e

prometeu ser a melhor irmã e não voltar a me deixar sozinha nunca.

Sentia-me tão feliz e tão culpada ao mesmo tempo. Cecily não

podia saber que estava apaixonada pelo homem com o qual

planejava se casar.

***

Quando Betsy acabou de me pentear e anunciou que estava

pronta para o baile, parecia um feixe de nervos. A carta ainda não

tinha aparecido, apesar de que Betsy tinha perguntado a todos os

criados se a tinham visto. Não podia evitar ruborizar cada vez que

pensava que podia acabar nas mãos erradas. Ou, pior ainda, nas

mãos corretas.

Pus-me em pé e me olhei no espelho. Tinha as bochechas

rosadas, devido aos nervos e ao susto. Alisei a frente do vestido

branco de musselina. Betsy tinha colhido rosas brancas diminutas

do jardim e tinha me colocado no cabelo. Inspirei fundo e me dirigi

para a porta para confrontar aquela fatídica noite.

Parei no alto da escada e contemplei a cena que me esperava no

vestíbulo. Meu pai estava falando com lady Caroline em um lado,

Louisa e Cecily cochichavam com as cabeças juntas, e o senhor e a

senhora Clumpett conversavam animadamente algo com William. A

julgar pelos gestos do senhor Clumpett, supus que deviam estar

falando sobre pássaros. Vi que usava a ajuda de uma bengala,


embora parecesse estar em plena forma. Um pouco mais afastados

do resto, perto da porta que dava ao salão, encontravam-se Rachel e

Philip.

Ela devia estar falando em voz muito baixa, pois ele tinha a

cabeça inclinada como se a escutasse com atenção. Rachel elevou o

olhar e, ao ver-me, fez um último comentário. Philip voltou-se e me

olhou. Estava mais bonito do que deveria ser permitido.

Aproximou-se até o pé da escada e me sorriu. A noite tinha

começado.

A atenção que Philip me dedicou me pôs tão nervosa que tive

que me agarrar ao corrimão para não tropeçar e cair rodando pelas

escadas. Não afastou seus olhos de mim em todo o tempo que

demorei para descer a escadaria.

Quando cheguei ao último degrau, Philip me ofereceu sua mão

e eu lhe estendi a minha.

—Não pensava que fosse possível —sussurrou—, mas esta

noite está mais bela que nunca.

O coração me saltou no peito.

—Obrigada.

Faltava-me o ar.

Philip arqueou uma sobrancelha e me olhou então com

surpresa.

—Obrigada? Não me diga que aprendeu a aceitar um elogio,

Marianne?

Tentei conter um sorriso, mas não tive êxito.


—Suponho que sim —respondi, satisfeita comigo mesma.

Ele baixou o olhar para minha mão, que seguia em seu poder, e

sorriu como se tivesse recordado um importante segredo. Logo

inclinou a cabeça e me acariciou os dedos com os lábios. Um

estremecimento subiu por meu braço até meu coração, que começou

a bater com violência.

—Alegra-me sabê-lo —murmurou Philip.

Ergueu a cabeça e me olhou de forma sensual. Oh, meu Deus!

J{ tinha visto esse olhar antes< Durante o último baile. Era o

mesmo olhar ardente e decidido que tinha mantido enquanto

dançávamos juntos, o mesmo que minara minhas defesas. Agarrei o

corrimão com a mão livre, pois tinha a sensação de que as pernas

não me sustentariam.

Meu pai veio ao nosso encontro nesse momento e me salvou da

desgraça de cair aos pés de Philip devido a um caso agudo de

joelhos frouxos.

—Está linda, minha filha.

Philip me soltou e se pôs de lado.

Agradeci a interrupção de meu pai, pois me permitiu voltar a

pensar com lucidez. Recordei então a carta comprometedora que

ainda não tinha aparecido. Betsy me prometera continuar

procurando e me avisar assim que a encontrasse. Oxalá o fizesse

logo, antes que alguém a lesse ou, Deus não permitisse, entregasse a

seu destinatário.

Quando começou a chegar gente, coloquei-me no vestíbulo


junto a Cecily e ambas recebemos aos convidados ao lado de Philip

e lady Caroline, posto que o baile se celebrava em nossa honra.

Cecily parecia um anjo e seu cabelo dourado resplandecia à luz das

velas. Apertou-me a mão e sorriu; seus olhos azuis brilhavam de

emoção.

Não prestei muita atenção aos convidados que percorriam o

vestíbulo, pois estava muito preocupada, pensando no paradeiro de

minha carta. Mesmo assim, reconheci o senhor Kellet, já que foi o

único que me sorriu com suficiência. Beijou a mão de Cecily e lhe

disse algo ao ouvido que fez com que ruborizasse e soltasse uma

risadinha tola. Olhei-a com reprovação, apesar de que ela não se deu

conta.

—O que disse o senhor Kellet?

—Duvido que queira sabê-lo —respondeu com um sorriso

misterioso.

Recordei os comentários que tinha feito minha irmã sobre seus

beijos, por isso não insisti.

—Sir Philip está muito atraente esta noite, não acha? —

comentou me olhando de canto.

—É claro. —Tentei que minha voz soasse indiferente, mas notei

como me acendiam as bochechas. Tinha certeza que meu rubor me

teria delatado se Cecily, para variar, tivesse me prestado um pouco

de atenção—. Suponho que quer dançar com ele a primeira dança.

—Não, acredito que você deveria fazê-lo.

Voltei-me para ela surpreendida.


—Pensava que tinha um plano para esta noite.

—E tenho —acrescentou, voltando a esboçar aquele sorriso

misterioso.

Antes que pudesse entender o que tentava me dizer, os músicos

começaram a afinar seus instrumentos e lady Caroline nos

comunicou que era hora de passar ao salão de baile.

O salão estava repleto de gente e havia muito barulho. Só pude

cruzar duas palavras com Philip enquanto dançávamos, o qual não

foi tão mal, pois estava tão preocupada com a carta desaparecida

que me custava muito me concentrar em uma conversa.

Ao dar uma olhada aos demais casais, vi Cecily dançando com

o senhor Kellet e, a julgar pelas aparências, estava se divertindo.

Quando a música acabou, aceitei, a contragosto, a mão de meu

seguinte par, enquanto Philip fazia uma reverência e se afastava. Vi

que dançava com várias damas, entre elas a senhorita Grace. A mãe

da jovem os observava de soslaio com um olhar calculador e

ambicioso. Depois dançou com sua mãe, como um filho obediente.

E, em um abrir e fechar de olhos, estava dançando com Cecily.

Quando os músicos pararam para um descanso, alguns dos

convidados fugiram do calor do salão pelas portas, procurando o

frescor do terraço. Observei Cecily e Philip do outro extremo da

sala. Estavam muito juntos. Philip baixou a cabeça enquanto lhe

sussurrava algo ao ouvido. Pude ver a cara de surpresa que punha,

inclusive a essa distância. O que lhe teria dito Cecily? Depois,

sussurrou-lhe algo mais e lhe ofereceu seu braço. Abandonaram o


salão de baile juntos, embora não seguissem aos demais casais para

o terraço.

Cega pelo ciúme, perguntei-me aonde o levaria e o que pensaria

fazer com ele. Esqueci por completo a benevolência que havia

sentido essa mesma manhã para minha irmã e senti desejos de lhe

arrancar os olhos.

Alguém me cutucou no ombro. Voltei-me e qual foi minha

surpresa ao me deparar com Louisa.

—Tenho que falar com você —espetou.

Ela nunca queria falar comigo.

—Sobre o que?

—Venha comigo.

Segui-a entre a aglomeração de convidados e saímos do salão.

Tomou meu braço e me guiou pelo corredor que levava à biblioteca.

Ali reinava o silêncio. Louisa se deteve justo diante das portas da

biblioteca e se voltou para mim.

—Sei da carta que escreveu para Philip.

Meu coração desabou. Não! Não, não, não!

—Não sei do que me fala —menti.

Pôs os olhos em branco.

—Sim, sabe.

Louisa nunca tinha sido minha amiga, era de Cecily e estava

claro que preferia a ela como irmã.

—Quero saber se o dizia a sério —insistiu—. De verdade, são

esses seus sentimentos para Philip? Ou só é algo que escreveu


porque se encontrava em uma situação desesperada?

Meu rosto estava vermelho vivo e senti que me faltava o ar.

—O que lhe importa se o dizia a sério ou não?

Louisa se aproximou um pouco mais.

—Meu irmão me importa muito e agora mesmo está aí dentro,

lendo sua carta. Se não o dizia a sério, será melhor que me diga isso

agora, antes que parta o coração dele.

Olhei-a consternada enquanto meu coração ameaçava parar.

—Está lendo? Agora mesmo?

O pânico se apoderou de mim. Queria sair correndo dali. Tinha

declarado meu amor por Philip nessa carta, mas não sabia se ele

sentia o mesmo por mim. Minha carta ia além do atrevimento, era

algo insólito e morreria de vergonha.

Um sorriso se desenhou nos lábios de Louisa.

—Sim que é certo —concluiu.

Bateu na porta da biblioteca. Cecily a abriu e ficou na entrada,

sorrindo para mim.

—Por fim, chegou.

Agarrou-me pelo braço e me fez passar, logo saiu e fechou a

porta atrás de si.

A sala estava às escuras, à exceção da luz que projetava o débil

fogo que ardia na lareira e da lua, que se filtrava pelos grandes

janelões que havia no outro extremo. Philip estava em pé junto à

lareira, com um ombro apoiado sobre o suporte e a cabeça inclinada

sobre uma folha de papel. Ergueu o olhar quando a porta fechou,


mas foi impossível ver sua expressão por causa da falta de

iluminação.

O coração me pulsava com tanta força que levei uma mão ao

peito para evitar que atravessasse a pele.

Philip me observou do outro extremo da sala na penumbra,

com aquela bendita carta ainda na mão, mas não fez nenhum

movimento, nem disse nada. Ambos ficamos imóveis, como se

estivéssemos à beira de um precipício. Não estava certa de se, ao me

mover, desceria ao inferno ou me elevaria ao céu.

E então falou.

—Isto é verdade?

Tinha o coração na garganta. Ali estava eu, em meio de algo ou

de nada. E podia me decidir por qualquer das duas opções.

Entretanto, meu coração era mais forte agora do que tinha sido em

meses e me suplicava que tivesse esperança, que acreditasse em

mim, que me arriscasse. Portanto, dei um passo adiante, um passo

para aquele «algo».

—Sim —murmurei.

Philip se moveu e a luz do fogo iluminou-lhe o rosto durante

um milésimo de segundo que me permitiu vê-lo. O dia em que o

tinha observado batendo-se com William, tinha me surpreendido

descobrir quão apaixonado parecia, como se um fogo ardesse em

seu interior. Nesse instante, à tênue luz da lareira, fui testemunha de

como o fogo o consumia.

Veio até onde eu me encontrava e me agarrou pelos ombros.


Em só três passos, tive as costas apoiadas contra uma estante e antes

que pudesse sequer recuperar o fôlego, tomou meu rosto entre suas

mãos e me beijou.

Nunca antes tinham me beijado de verdade, mas não precisava

de experiência para saber que o beijo de Philip era, em uma palavra,

irresistível. Seus lábios se moviam com decisão, insistência, doçura e

sensualidade. Enredou seus dedos em meu cabelo e me segurou a

cabeça na posição exata em que a queria enquanto me beijava uma e

outra vez. Comecei a tremer em seus braços.

E então percebi que Philip estava me beijando —Philip estava

me beijando!— e eu não estava fazendo nada. Decidi remediar a

situação e fui subindo as mãos por seu peito e seus ombros até

enterrar meus dedos em seu cabelo. Rodeou-me com os braços e me

aproximou de seu corpo como se fosse algo de incalculável valor.

Abrasei-me em seu abraço, embora sem deixar de tremer.

E justo quando pensava que seu beijo não poderia melhorar,

voltou-se mais lento, suave e irresistivelmente terno. Sua doçura me

chegou à alma e fulminou todas minhas defesas. Meu coração se

abriu de repente e por minhas bochechas escorregaram um sem-fim

de lágrimas silenciosas, cujo sabor salgado provei nos lábios de

Philip.

Separou-se de mim, mas apenas o suficiente para apoiar sua

testa na minha. Respirava tão rápido como eu e notei seu coração

pulsando com força sob sua camisa. Um sorriso se apoderou

lentamente de meus lábios.


—Como é possível que não soubesse? —perguntou-me com a

voz rouca e trêmula—. Como é possível que não soubesse que você

é o que mais desejo neste mundo?

Sacudi a cabeça extasiada. Era muito bom para ser verdade.

—Parecia-me impensável que pudesse me amar em vez de

Cecily. E então< ouvi como dizia a William na sala de esgrima que

faria qualquer para livrar-se de mim<

Philip soltou um gemido e se afastou um pouco para me olhar

nos olhos.

—Por isso estava tão zangada comigo na noite do baile?

Assenti com a cabeça.

—Queria que se fosse de minha casa, que se afastasse de sua

irmã para me libertar das restrições de minha própria honra, mas

nunca quis me libertar de você —esclareceu—. Pensava segui-la. Iria

segui-la até o fim do mundo< E cortej{-la como não podia fazê-lo

aqui. Mas, então, sua camareira me entregou a carta para seu pai e

pensei que a melhor solução seria segui-la até seu próprio lar. Não

suspeitava< —Inclinou sua cabeça para a minha e me beijou de

novo como se não pudesse se controlar—. Não suspeitava, meu

amor, que já tinha ganho seu coração.

—Como podia duvidá-lo?

Não imaginava que alguém pudesse não se apaixonar por

Philip.

—Era bastante óbvio! Cada vez que tentava cortejá-la, zangava-

se, punha-se a rir ou fugia de mim. Chegou a me dizer que só


pensava em mim como em um amigo.

Sorri, envergonhada. Isso era precisamente o que tinha feito.

Tinha que lhe contar tantas coisas< Tinha que lhe falar de meu

coração, de meus medos e de minha lealdade para Cecily, mas tudo

isso podia esperar.

—Estava muito confusa e também bastante cega, parece —

limitei a acrescentar.

—Então me escute, minha cega, teimosa e mais querida amiga

—pediu tomando meu rosto entre suas mãos—. Roubou meu

coração na noite que nos conhecemos, quando cantou aquela canção

ridícula e me desafiou a não rir. E cada instante que passei ao seu

lado depois, levou um pedacinho de mim, até o ponto de que,

quando não estou ao seu lado< —Tomou ar—. Quando não estou

ao seu lado, não faço outra coisa que pensar em você.

O coração foi se enchendo de emoção como se fosse ocupar

todo o meu ser. Tinha aterrissado no céu. Isso era o céu.

—Tentei dizer —confessou—. Estive a ponto de fazê-lo muitas

vezes. Inclusive escrevi aquela carta de amor com a esperança de

que saberia que era para você.

Rememorei as preciosas palavras que tinha escrito e que eu

tinha feito mil pedaços.

—Escreverá de novo aquela carta de amor?

Aproximou-me para si.

—É claro. Escreverei dúzias de cartas< centenas delas, se esse

for seu desejo.


—Sim, quero-as todas.

Queria tudo que Philip pudesse me dar. Não obstante, tudo

aquilo me parecia maravilhoso demais para ser real. Mesmo que me

tivesse dado mostras suficientes de sua sinceridade, não pude evitar

me perguntar por que, de todas as mulheres entre as que poderia ter

escolhido, apaixonou-se por mim.

—Mas está seguro de que é a mim a quem quer? —perguntei—.

Não sou elegante, nem refinada e sempre estou fazendo coisas

muito embaraçosas<

—Não se conhece —interrompeu-me—, mas eu sim, assim que

lhe direi como é, Marianne Daventry. —Encarou-me, como se

pretendesse escrever suas palavras diretamente em meu coração—.

É inteligente, divertida e maravilhosamente surpreendente. É

valente, compassiva e desinteressada. E tem uma beleza

incomensurável. Eu gosto de tudo em você e a quero tal como é. —

Inspirou fundo—. Se você me aceitar.

Algo ocorreu nesse momento. As dúvidas desapareceram e a

esperança se transformou em certeza. Foi algo arrebatador e acabei

rindo e chorando ao mesmo tempo.

Era um autêntico desastre, embora Philip não pareceu se

importar absolutamente. Secou minhas lágrimas e me beijou outra

vez, e outra, e depois me sussurrou palavras muito sublimes para

ser repetidas, até que me convenci de que estava loucamente

apaixonado por mim, Marianne Daventry, uma jovem com uma

figura comum, muitas sardas e um pouco propensa a dar giros por


aí. E soube, então, que tinha encontrado minha outra metade.
Capítulo 27
Muito mais tarde, quando me libertei do abraço de Philip e

Betsy arrumou o desastre que ele me tinha feito no cabelo, encontrei

Cecily no terraço. Esboçou um sorriso, enquanto me dirigia para ela.

—Espero que não tenha se incomodado que lesse sua carta. Fui

ao seu quarto esta manhã, quando ainda dormia, e a vi sobre a

mesinha. Confesso que não pude reprimir minha curiosidade.

—Não me importa, tendo em conta como acabou tudo.

—Espero que seja muito feliz —desejou tomando minha mão.

—Sou. —Suspirei, incapaz de conter meu sorriso. Perguntei-me

se Cecily seria consciente de que Philip tinha estado me beijando

durante um longo tempo—. Mas lamento que seja a custa de sua

felicidade.

Sacudiu uma mão no ar.

—Há muitos homens ricos entre os quais posso escolher. E se

sou totalmente sincera, eu sabia que Philip não estava interessado

em mim. Percebi assim que cheguei. Nem todas as intrigas do

mundo podem ajudar uma dama, quando o cavalheiro está

apaixonado por outra. Entretanto, o que não percebi é como você se

sentia. —Olhou-me com uma expressão grave—. Por que não me

contou?

—Disse que estava apaixonada por ele —respondi, dando de

ombros.
—Sim, disse, mas tenho a impressão de que devo ter me

comportado de maneira muito egocêntrica para não perceber seus

sentimentos. Lamento não ter sido a irmã que merecia.

Apertou-me a mão e permanecemos em silêncio, escutando a

música que escapava pelas janelas do salão de baile. Relembrei

minha infância de conto de fadas junto a minha irmã gêmea. Era

uma vez duas meninas, cujos pais tinham passado muito tempo

desejando um bebê. As meninas eram o sol e a lua para eles. Eu

sempre tinha sido a lua. Minha função tinha sido refletir a luz de

Cecily e deixá-la brilhar, mas ali, com Philip, eu era o sol. Não podia

imaginar um começo melhor para o resto de minha vida.

—Espero que sempre estejamos juntas —confessei, pensando

em minha mãe e lady Caroline.

—Pois é claro que estaremos.

Cecily me atraiu para si e nos abraçamos. Não a soltei até que se

pôs de lado.

—Tenho que falar com alguém —anunciou dando uma olhada

por cima de meu ombro.

Voltei-me e vi o senhor Kellet de pé junto ao corrimão do

terraço.

—O que vai lhe dizer?

Mordeu o lábio.

—Não estou certa, mas levará um momento.

Sorriu-me com malícia antes de partir. O senhor Kellet dobrou a

esquina da casa e desapareceu. E Cecily o seguiu.


***

Fui a última a entrar no salão para o café da manhã no dia

seguinte. Philip, William e meu pai ficaram em pé ao me ver.

Percebi tanto amor nos olhos do primeiro que ruborizei ao pensar

que todo mundo podia vê-lo.

Ao sentar, percebi que os olhares de todos os presentes estavam

postos em mim.

—Bom, já está tudo esclarecido entre os dois? —soltou Rachel

de repente—. Graças a Deus! Enfim poderemos falar abertamente do

assunto.

Philip deixou escapar uma risada e eu ruborizei ainda mais.

Todas as pessoas no salão sorriram, desde lady Caroline ao lacaio

que estava atrás de Philip. O sorriso de Louisa foi mais contido que

o dos demais, mas me alegrou ver um pequeno sinal de

cordialidade de sua parte. Também me alegrei ao ver Cecily e

comprovar que não andava por aí nos braços do senhor Kellet.

Acreditava-o capaz de enganá-la para que se fugisse com ele, mas

parecia que minha irmã tinha mais bom senso de que pensava.

Todos nos deram os parabéns e Rachel e lady Caroline

mergulharam na magnífica tarefa de preparar as bodas. Descobri

que Philip já tinha falado com meu pai, que parecia muito feliz e me

sorria do outro lado da mesa. Meu lar estava no condado vizinho,

perto o bastante para nos vermos tão frequentemente como

desejássemos. E Cecily retornaria a Londres, com nossa prima Edith,


para continuar desfrutando das distrações da cidade.

Um lacaio se aproximou de mim com uma bandeja de prata nas

mãos. Nela havia uma carta de minha avó. Abri-a e a li enquanto

tomava o café da manhã.

Querida Marianne:

No seja tola. Pois claro que foi minha coisa enviá-la a

Edenbrooke e deveria me agradecer em vez de esperar uma

desculpa.

Uma rica herdeira necessita que um homem a proteja e que

de outra forma podia assegurar seu amparo enquanto seu pai

seguisse fora? Só lhe ocultei isso porque sabia que não aceitaria a

ir se suspeitava a verdade.

Menina boba! Teve sorte de que sir Philip queria

encarregar-se e protegê-la enquanto estivesse sob seu teto.

Por certo, lady Caroline comentou que sir Philip se

apaixonou. Não deve lhe importar sua forma de brincar de correr

por aí como se fosse a filha de um simples granjeiro.

Se conseguir um casamento tão vantajoso, suponho que lhe

deixarei minha fortuna embora não chegue a ser nunca uma

jovem elegante. Estou desejando conhecê-lo e acredito que irei até

Edenbrooke para vê-la felizmente casada.

Atentamente;

Sua avó.
PD.: O senhor Whittles propôs casamento a Amélia e ela

aceitou. Suspeito que tenha algo a ver…

Suspirei aliviada. Meu plano tinha funcionado. Pensei sobre o

que minha avó me tinha revelado a respeito da tarefa que tinha

pedido a Philip, de repente, ocorreu-me algo. Dirigi o olhar ao outro

lado da mesa, para o senhor e a senhora Clumpett. Ele tinha um

livro aberto em frente ao prato e ela escutava sorridente a lady

Caroline comentar que o baile tinha sido um êxito.

—Pediu ao senhor Clumpett que me protegesse enquanto

estava viajando com William? —perguntei a Philip.

—Sim. Por quê?

Esbocei um sorriso.

—Tem se sentido tão derrotado em sua caótica biblioteca! E a

senhora Clumpett sente falta de seus pássaros.

Philip riu.

—Bom, já podem voltar para casa e recuperar sua própria

biblioteca e seus pássaros. Terei que procurar alguns livros sobre a

Índia e enviar ao senhor Clumpett para lhe agradecer por protegê-la

tão bem em minha ausência. Não posso imaginar o que poderia ter

acontecido se não estivesse passeando pelo bosque aquele dia.

Dei outra olhada aos Clumpett. Devia agradecer a ambos tudo

o que tinham feito por mim.

Voltei a ler a carta de minha avó e percebi, para minha alegria,

que não tinha tido que mudar nada em mim mesma para conseguir
toda a felicidade do mundo. Não tinha tido que aprender a cantar

para os saraus em sociedade, nem tinha tido que me comportar

como Cecily, nem deixar de sair por aí a dar giros. Ainda sendo eu

mesma, alguém me amava com todo seu coração. De fato, parecia-

me muito com Meg. Ela sempre tinha sido um cavalo de corridas,

apenas eu não sabia.

Depois do café da manhã, escapei para o pomar. Estava tão feliz

de estar ali. Sentia-me igual ao dia que tinha chegado a Edenbrooke,

como se acabasse de pôr um pé no paraíso, um paraíso onde me

sentia como em casa. Ao sentimento de pertencimento se unia a

imensa alegria que sentia ao pensar em meu futuro com Philip.

Fechei os olhos, joguei a cabeça para trás, estendi os baços e

deixei que o sol me banhasse com seu calor. E então o fiz. Pus-me a

girar. Girei e girei com os olhos fechados, a cabeça caída para trás e

os braços estendidos.

De repente, ouvi um rangido e um ramo me arranhou a

bochecha. Deixei de girar, abri os olhos e descobri que estava a um

centímetro de cravar um galho no olho. Entretanto, ao tentar me

afastar, percebi que tinha o cabelo enganchado em outro.

Quando aprenderia que não devia girar desse modo?

Puxei o galho sem sucesso. Tentei me soltar, mas só consegui

destruir o penteado e enredá-lo ainda mais. Doíam-me os braços.

—Oh, droga! —exclamei frustrada.

Ouvi um sussurro de folhas e me voltei para o ruído. Philip se

agachou para esquivar um ramo e seguiu caminhando em minha


direção. Minhas bochechas adquiriram uma cor como o da

cochinilha1 e desejei não estar enganchada àquela árvore.

Entretanto, não tinha mais remédio que ficar ali e esperar que

chegasse até mim. Ele tinha um aspecto imaculado e me custava

imaginá-lo em uma situação tão vergonhosa como a minha. Por que

não tinha aprendido a lição na última vez?

—Não ria —adverti ao perceber seu olhar risonho.

Seus olhos passaram rapidamente do galho ao meu cabelo

emaranhado e lhe começaram a tremer os lábios.

—Como aconteceu isso?

—Estava girando.

Philip estava fazendo grandes esforços para conter a risada.

—Alguma vez tentou girar com os olhos abertos?

—Não é algo que se planeja com antecedência.

Levantei as mãos e fiz nova tentativa de desenganchar meu

cabelo. Fiz uma careta de dor.

Philip se colocou diante de mim, tirou minhas mãos e as baixou

até a altura de seu peito, onde as deixou apoiadas.

—Permita-me.

Passou-me um braço a cada lado da cabeça e começou a

desembaraçar meu cabelo. Supus que, a certa distância, devia

parecer como se estivesse me estreitando em seus braços. Senti sua

1 Cochonilha refere-se tanto ao corante cor carmim utilizado em tintas, cosméticos e como aditivo
alimentar, quanto ao pequeno inseto(Dactylopius coccus) de onde ele é extraído, ou ainda a certos grupos
de insetos, como a superfamília Coccoidea ou a família Coccidae.
respiração e me concentrei em como minhas mãos se moviam para

cima e para baixo sobre seu peito. Seu cheiro me envolvia, aquela

mistura de roupa limpa, sabão e algo que me recordava o perfume

do bosque em um dia ensolarado. Algo em meu interior começou a

fundir-se.

Notei um suave puxão e seus dedos me acariciaram a orelha e

depois o pescoço. Meu abalo aumentou e me impedia de respirar.

Para me distrair, fiz-lhe a pergunta que há tempo rondava por

minha cabeça.

—Philip, por que me ocultou sua identidade quando nos

conhecemos na estalagem?

Deteve-se para me olhar nos olhos.

—O destino me deu uma oportunidade única, a de conversar

com uma dama sem ter que me perguntar se só estaria interessada

em minha fortuna ou meu título. E não uma dama qualquer. —

Sorriu-me com picardia e o coração me deu um tombo—. Não podia

deixar passar a oportunidade. Por sua franqueza, arrisquei-me a

provocar sua ira.

Foi como se suas palavras jogassem luz sobre seu caráter e

compreendi Philip como não o tinha feito até esse momento. Não

tinha querido que o chamasse sir, embora essa fosse a forma como

deveria ter me dirigido a ele. O dia que tínhamos passado na

biblioteca, tinha ido ele mesmo à cozinha procurar algo para comer,

em vez de chamar um criado. Recordei as promessas que nos

tínhamos feito e pensei em como tinha tentado fugir de Cecily, cuja


única motivação era, de fato, seu título e sua fortuna. Philip queria

que o amassem por quem era, não por sua herança.

Um último puxão e meu cabelo ficou livre caindo em cascata

sobre minhas costas. Philip tinha tirado todas as forquilhas e me vi

despenteada. Foi baixando suas mãos por meu cabelo do topo até as

costas, depois me rodeou a cintura e me atraiu para si.

—Sabe, ainda temos um assunto pendente —observou—. Sigo

querendo aquele quadro e agora tenho algo muito valioso a oferecer

em troca.

—Do que se trata?

Custava me concentrar em suas palavras, pois não podia afastar

o olhar de sua boca, do contorno de sua mandíbula e da forma como

a comissura de seus lábios tremia quando tentava não sorrir. Queria

beijá-lo.

Apoiou sua mão em meu queixo e me ergueu o rosto para que o

encarasse.

—Posso dar-lhe um título por ele.

Mordi o lábio e o contemplei receosa. Não me parecia bem.

Depois do que acabara de descobrir, não podia aceitar sua oferta.

Neguei com a cabeça.

—Nunca me preocupou muito ter um título.

Philip franziu o cenho e me dedicou um olhar inquisitivo.

—Então, o que me diz de tudo o que vê ao seu redor?

Edenbrooke será o suficiente?

Afastei-lhe a mecha de cabelo que caía sobre sua testa e deixei


escapar um suspiro.

—Não. Embora adore este lugar, não posso lhe dar o quadro

em troca de suas terras.

Seu rosto tinha adquirido uma expressão séria e de máxima

preocupação.

—Não precisa do meu dinheiro.

—Exato.

Baixou a cabeça. Sentia-me mal pela angústia que o fazia

passar, mas sabia que era necessária.

—Não tenho nada mais a oferecer —sussurrou.

Agarrei-o pela lapela e me pus nas pontas dos pés para olhá-lo

diretamente nos olhos, para que não interpretasse mal minhas

palavras.

—Não quero nada do que possa me oferecer. Recorda nossas

promessas? —Philip assentiu. Suas mãos seguiam em minha

cintura, segurando-me—. Só desejo você, Philip. Vou dar-lhe o

quadro em troca do seu coração.

Afastou o olhar imediatamente e senti a luta que ocorria em seu

interior. Quando, por fim, voltou a me olhar, a diversão brilhava em

seus olhos, a admiração e aquele grande segredo que tinha

descoberto na estalagem depois de sua briga com o senhor Beaufort.

Brilhava com tanta clareza nesse momento como naquela noite, mas

agora sabia o que significava. Amava-me.

—Marianne< —sussurrou com uma voz gutural que fez com

que meu coração desse um pulo.


Afastou uma mão de minha cintura e me acariciou na bochecha

ruborizada com o reverso dos dedos. Sua carícia foi tão suave como

a brisa e senti sua pele fria em contraste com o calor de meu rosto.

—Meu amor< —murmurou enquanto erguia meu queixo e

aproximava seus lábios dos meus.

Nessa ocasião, sabia como lhe devolver o beijo. Philip se

surpreendeu e notei como seus lábios se curvavam em seu

particular sorriso pícaro. Foi fantástico.

Minutos mais tarde, afastou seus lábios dos meus para me dar

um beijo na bochecha e no ângulo da mandíbula.

—Tenho uma proposta.

Fez-me cócegas no pescoço com seu fôlego.

—Outra?

Sorri e me apoiei nele. As batidas do meu coração eram tão

fortes que estava certa de que podia ouvi-lo.

—Esta é para depois das bodas. O que lhe pareceria viajar ao

Continente? Eu gostaria de lhe dar de presente sua própria viagem

pela Europa.

Fui incapaz de falar.

—Pode girar, se precisar —comentou rindo.

—Não se importa?

Philip negou com a cabeça.

—De fato, desejo presenciá-lo.

Assim, girei para Philip com o cabelo ao vento e a sensação de

que, a qualquer momento, poderia voar. Agarrou-me pela cintura


quando estava a ponto de me chocar contra outra árvore.

—Encantadora —disse, atraindo-me para ele—. Mas talvez

devesse abrir os olhos no futuro.

—Boa ideia —murmurei, obsequiando um sorriso ao meu

melhor amigo, a quem não importava absolutamente minha afeição

por dar giros.

—Acabo de me lembrar—começou Philip enquanto procurava

nos bolsos do casaco— que não lhe devolvi isto.

Era meu relicário. Philip tinha exigido que o senhor Beaufort o

entregasse, mas depois de todo o acontecido na estalagem naquela

noite, tinha esquecido. Quando Philip o pôs em meu pescoço,

experimentei como por magia, uma maravilhosa sensação de

quietude. Agarrei com a mão a prezada lembrança de minha mãe e

a apertei contra o peito. Sentia o coração pulsar forte e esperançoso

sob o relicário. Tinha recuperado tudo que tinha perdido e senti que

tudo em meu mundo estava bem.

Então Philip e eu caminhamos de mãos dadas para casa e nos

dirigimos à biblioteca, onde finalmente jogamos nossa partida de

xadrez.
Perguntas a Julianne Donaldson

Por que decidiu situar sua novela no período da Regência?


Quando tinha dezessete anos, adoeci de pneumonia e tive que passar todo
um mês na cama. Uma boa amiga me salvou do aborrecimento ao me dar de
presente um punhado de novelas de Georgette Heyer. Devorei todas e voltei a
ler uma e outra vez. Após estive apaixonada pelo período da Regência. Estudei
literatura inglesa na universidade, vi os filmes ambientados nessa época e
sonhei com homens vestindo calções. Quando decidi tentar escrever uma
novela, minha mente se transportou automaticamente ao período da Regência e
se negou a abandoná-lo. É como o povoado natal de minha imaginação.

Como pesquisou para escrever Edenbrooke? Fez alguma viagem?


Pesquisar para Edenbrooke foi muito divertido. Parecia-me extremamente
importante visitar os lugares sobre os quais estava escrevendo, assim decidi
sonhar muito bem e viajar a Inglaterra durante uma semana com uma amiga.
Estivemos um dia em Bath, passeamos pelo caminho de cascalho que Marianne
percorre na primeira cena e visitamos o Royal Crescent, onde vive com sua avó.
Outro dia o dedicamos a conduzir pela região de Kent, por onde passa um rio
chamado precisamente Eden. —Embora isso não sabia ao imaginar Edenbrooke
e decidir seu nome. Suponho que se tratou de uma coincidência cósmica—.
Outro dia, fomos visitar Wilton House, uma casa solar perto de Salisbury. Ali vi
a ponte que inspirou a cena do rio e os jardins por onde passeiam Philip e
Marianne. Retornei para casa ainda mais apaixonada pela Inglaterra que antes.

Como chegou a conhecer os personagens que eram de uma época


distinta à tua?
A verdade é que não cheguei a conhecer realmente meus personagens até
que comecei a espiar suas conversas. Falavam-se entre eles em minha mente, o
que podia chegar a ser muito incômodo quando interrompiam uma conversa de
verdade com gente de verdade. Ao princípio, imitavam a outros personagens
dos livros que eu gostava, mas com o tempo foram apresentando-se como
indivíduos diferenciados que me chamavam a atenção quando não escrevia
bem uma cena ou punha em seus lábios palavras que em realidade não queriam
dizer. Quando minha imaginação me transportava muito à modernidade, fazia
uma pausa e pensava no que sabia sobre a época e o mundo em que viviam
para retomar o equilíbrio perfeito.

De que forma a influenciaram os livros de Jane Austen e Georgette


Heyer?
Sem dúvida, Jane Austen e Georgette Heyer são as professoras da novela
da Regência. Devorei seus livros, saboreei-os, estudei-os e até apresentei
trabalhos na universidade sobre eles. Está claro que influenciaram em minha
forma de escrever. O que temos em comum são os temas sobre os que
escrevemos. Adoro as heroínas de Austen e os dilemas que enfrentam, as
decisões difíceis que se veem obrigadas a tomar e sua evolução ao longo da
novela. De Heyer, eu gosto de seu engenho, seus heróis e a forma em que
entretece suas histórias com boa dose de intriga. Mas, por muito que eu goste
de seu trabalho, queria que minha novela fosse distinta das suas. Queria que
mantivesse o sabor da época da Regência, mas sem deixar de ser acessível para
o leitor moderno. Portanto, utilizei de forma intencionada uma linguagem um
pouco menos formal e fiz que a trama se desenvolvesse mais depressa.

Qual foi o maior obstáculo que encontrou na hora de escrever esta


novela?
O mais difícil foi conseguir que o relato tivesse frescor, sem renunciar à
credibilidade do ponto de vista histórico. A Regência foi uma época muito
restritiva, sobretudo para as jovens. Tinha que ter em conta muitos fatores,
como a forma de falar, a geografia, os costumes sociais, as distinções de classe
ou as acompanhantes. Em muitas ocasiões, desejei ter me decidido por uma
novela fantástica, pois poderia criar um mundo imaginário no qual encaixasse
minha trama, em vez de tentar encaixar meu argumento em um mundo tão
limitado como o da Regência.

O que crê que pensaria Jane Austen da novela romântica atual?


Acredito que se surpreenderia pelo que pode escrever-se e publicar-se
hoje em dia, tendo em conta a inocência que caracteriza suas novelas. Também
penso que se surpreenderia ao ver que seu trabalho inspirou todo um gênero da
literatura. E imagino, e isto é estritamente meu ponto de vista, que desejaria que
na novela romântica atual sobressaísse a história de amor frente a luxúria.

Qual é seu livro favorito e por que?


Isso é como me perguntar qual de meus filhos é meu favorito. Eu gosto de
tantos livros que me resulta impossível escolher só um. Embora, sim, tenho
uma estante especial onde coloco os livros que eu adoro e nela há títulos da Eva
Ibbotson, Mary Stewart, Scott Westerfeld, Martine Leavitt, Nancy E. Turner,
Megan Whalen Turner e Kate Morton. Adoro as histórias apaixonantes que
estão bem escritas, que me inspiram, que apresentam uma visão comovedora
do amor e que acabam bem.

Qual pensa que seria a comida favorita de Marianne? E a sua?


Imagino que Marianne gostaria das frutas e as hortaliças, algo que
pudesse arrancar diretamente de um arbusto ou de uma árvore enquanto
passeia pelo campo. Eu adoro qualquer coisa que se faça em uma confeitaria.

Qual é seu filme favorito?


Sou uma aficionada aos espartilhos. Terei que dizer meus cinco favoritos,
porque sou incapaz de escolher apenas um: Jane Eyre (2006), Norte e Sul, Emma
(a versão da Romola Garai), Orgulho e Preconceito (a versão de Colin Firth, é
óbvio) e Bleak House.

Se Edenbrooke fosse levado para o cinema, quem imagina interpretando


Marianne e Philip?
No papel de Marianne imagino a uma jovem atriz britânica chamada
Imogen Poots. Para o papel protagonista masculino, por agora penso no Jake
Gyllenhaal ou James McAvoy. Pagaria uma fortuna por ver qualquer dos dois
interpretando ao esplêndido Philip.

Qual é seu lugar favorito para escrever?


Junto a uma janela, se possível em um lugar em que ninguém me
interrompa. Normalmente, escrevo na biblioteca pública, embora eu adoraria
ter um escritório em casa, onde reinasse o silêncio.

Conte algo de sua lista de coisas pendentes que você gostaria de fazer,
ver ou tentar.
Eu adoraria aprender a tocar violoncelo.

Pode nos dar uma pista sobre o argumento de seu próximo livro?
Minha próxima novela, que também está ambientada na época da
Regência, trata de uma jovem que sonha viajar à Índia. Também haverá uma
grande casa solar com muitos segredos, um contrabandista, um cavalheiro e um
acordo.
***

Julianne Donaldson cresceu sendo a filha de um piloto da E.U.A. Air


Force. Aprendeu a esquiar nos Alpes italianos, visitou Berlim Oriental antes da
queda do muro e passou três anos vivendo junto a um castelo de mais de
quinhentos anos de antiguidade. Depois de graduar-se em Inglês, centrou sua
atenção em escrever. Escreve novelas românticas históricas quando não está
ocupada com seus quatro filhos e seu marido. Edenbrooke é seu primeiro livro.

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