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Curso Preparatório para OAB 2ª Fase Civil

Professora Tatiane Kipper

1.
01 AÇÃO RESCISÓRIA

1.1 Previsão legal: Arts. 966 a 975 do CPC;

1.2 Cabimento
Buscar a rescisão da decisão de mérito já transitada em julgado nas
hipóteses do artigo 966 do CPC.
A ação rescisória constitui em um ação autônoma de impugnação que
procura desfazer o julgado anterior transitado em julgado, seja por motivo de
invalidade, seja por motivo de injustiça.
É uma ação autônoma de impugnação justamente de cunho constitutivo
negativo, afastando a coisa julgada que se tenha formado em razão de
algumas situações previstas.

Art. 966. A decisão de mérito, transitada em julgado, pode ser


rescindida quando:
I - se verificar que foi proferida por força de prevaricação, concussão
ou corrupção do juiz;

Entendimento é que o juiz não precisa ter sido condenado por qualquer
desses crimes, já que a demonstração pode se dar no âmbito da ação
rescisória; mesmo que o processo criminal esteja em curso é possível ajuizar a
ação rescisória.
II - for proferida por juiz impedido ou por juízo absolutamente
incompetente;

Esta sentença possui vício insanável devendo ser rescindida.


Observar ainda que a lei apenas fala em impedimento e não suspeição.

III - resultar de dolo ou coação da parte vencedora em detrimento da


parte vencida ou, ainda, de simulação ou colusão entre as partes, a
fim de fraudar a lei;

Verifica-se que o CPC objetiva que a parte não utilize de meios ilícitos
ou não idôneos no processo para alcançar seus objetivos. Ou seja, se a parte
vencedora se utilizou de dolo ou coação, bem como houve simulação ou
colusão entre as partes com o fim de fraudar a lei, caberia a ação rescisória.
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IV - ofender a coisa julgada;

Ou seja, se refere a uma causa que o juiz novamente profere decisão


quando aquela já restou julgada. Proíbe, assim, a existência de duas coisas
julgadas sobre a mesma questão, de forma que a decisão mais recente deve
ser alvo de ação rescisória, mantendo a decisão mais antiga.

V - violar manifestamente norma jurídica.

Entendimento da doutrina de que a norma é mais ampla que lei,


envolvendo, assim, violação inclusive a princípios.

VI - for fundada em prova cuja falsidade tenha sido apurada em


processo criminal ou venha a ser demonstrada na própria ação
rescisória;

A falsidade da prova pode ocorrer na própria ação rescisória ou ainda


em processo criminal. Não pode permanecer uma decisão quando o juiz
profere baseado em provas viciadas.

VII - obtiver o autor, posteriormente ao trânsito em julgado, prova


nova cuja existência ignorava ou de que não pôde fazer uso, capaz,
por si só, de lhe assegurar pronunciamento favorável;

Não apenas documento, mas prova nova. A prova até pode existir, mas
não estava ao alcance da parte durante a ação. A nova prova por si só, deve
assegurar alteração do julgamento anterior.

VIII - for fundada em erro de fato verificável do exame dos autos.

Neste caso há um equívoco sobre a percepção dos acontecimentos nos


autos. O erro tem que estar atrelado ao resultado da demanda a fim de ensejar
a ação rescisória. O Parágrafo primeiro do artigo 966 está atrelado ao inciso
VIII do artigo 966 do CPC. O entendimento é de que se houve qualquer
apreciação sobre o fato não há que se falar em ação rescisória. Porém, se o
fato foi utilizado pelo juiz a fim de decidir, então cabe sim ação rescisória.
Não se admite novas provas para a comprovação desse erro na ação
rescisória.
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§ 1o Há erro de fato quando a decisão rescindenda admitir fato


inexistente ou quando considerar inexistente fato efetivamente
ocorrido, sendo indispensável, em ambos os casos, que o fato não
represente ponto controvertido sobre o qual o juiz deveria ter se
pronunciado.

O parágrafo 2º em seus incisos traz exceções, ou seja, mesmo não se


tratando de decisão de mérito, cabe a ação rescisória:

§ 2o Nas hipóteses previstas nos incisos do caput, será rescindível a


decisão transitada em julgado que, embora não seja de mérito,
impeça:
I - nova propositura da demanda; ou
II - admissibilidade do recurso correspondente.

Ou seja, conforme entendimento de MEDINA (2016, p. 1408), o NOVO


CPC se aproximou do CPC antigo, pois admite ação rescisória contra decisão
que não seja de mérito, desde que impeça nova propositura da demanda ou
admissibilidade do recurso.
Ainda, de acordo com Medina, não é toda decisão que não julga o mérito
que será rescindível, mas somente aquela que se encartar em uma das
hipóteses previstas no §2º do art. 966 do CPC.
Não é decisão de mérito, mas impede a propositura de nova ação ou
recurso. São decisões nesse sentido: litispendência, coisa julgada, perempção,
homologação de desistência, entre outras. Em tais situações se permite que a
parte ingresse com a ação rescisória, justamente para retirar o obstáculo que
impede a propositura da demanda ou o recurso.
De acordo com Medina, não ocorre com a ação rescisória o que ocorre
com os recursos especial e extraordinário, no sentido de que são cabíveis
somente contra a última decisão suscetível de ser proferida na instancia local,
o que impõe o exaurimento das vias recursais admissíveis perante o tribunal de
origem (art. 1.029 do CPC).
Ou seja, a ação rescisória pode ser ajuizada se tiver havido o transito
em julgado, ainda que trata-se de sentença contra a qual não se tenha
interposto o recurso de apelação. É possível ainda a ação rescisória de parte
da sentença, conforme previsão do §3º:
§ 3o A ação rescisória pode ter por objeto apenas 1 (um) capítulo da
decisão.
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Os atos previstos no §4º não são atacados por meio de rescisória, mas
de anulatória:
§ 4o Os atos de disposição de direitos, praticados pelas partes ou por
outros participantes do processo e homologados pelo juízo, bem
como os atos homologatórios praticados no curso da execução, estão
sujeitos à anulação, nos termos da lei.

Observar que de acordo com a previsão do §4º do artigo 966 do CPC,


os atos judiciais que não dependem de sentença, ou em que esta for apenas
homologatória não cabe ação rescisória. Tais atos são anulados por ação
comum.
Observar que, com o Novo CPC, houve ampliação do objeto da ação
rescisória, envolvendo não apenas sentença, mas incluindo as interlocutórias
parciais.

1.3 Objetivo
A ação rescisória é, portanto, o meio processual, através de uma nova
ação, que tem por objetivo desconstituir ou revogar sentença ou acórdão que já
teve trânsito em julgado. As situações que cabem ação rescisória estão
previstas no artigo 966 do CPC, sendo considerado rol taxativo para preservar
a coisa julgada.

1.4 Prazo
Conforme o art. 975 Do Código de Processo Civil, o prazo para ingressar
com a ação rescisória é de 02 anos a contar do trânsito em julgado da decisão
que se quer rescindir.

Art. 975: O direito à rescisão se extingue em 2 (dois) anos contados


do trânsito em julgado da última decisão proferida no processo.
§ 1o Prorroga-se até o primeiro dia útil imediatamente subsequente o
prazo a que se refere o caput, quando expirar durante férias forenses,
recesso, feriados ou em dia em que não houver expediente forense.
§ 2o Se fundada a ação no inciso VII do art. 966, o termo inicial do
prazo será a data de descoberta da prova nova, observado o prazo
máximo de 5 (cinco) anos, contado do trânsito em julgado da última
decisão proferida no processo.
§ 3o Nas hipóteses de simulação ou de colusão das partes, o prazo
começa a contar, para o terceiro prejudicado e para o Ministério
Público, que não interveio no processo, a partir do momento em que
têm ciência da simulação ou da colusão.
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1.5 Legitimados a propor a ação rescisória

Art. 967. Têm legitimidade para propor a ação rescisória:


I - quem foi parte no processo ou o seu sucessor a título universal ou
singular; II - o terceiro juridicamente interessado;
III - o Ministério Público:
a) se não foi ouvido no processo em que lhe era obrigatória a
intervenção;
b) quando a decisão rescindenda é o efeito de simulação ou de
colusão das partes, a fim de fraudar a lei;
c) em outros casos em que se imponha sua atuação; IV - aquele que
não foi ouvido no processo em que lhe era obrigatória a intervenção.
Parágrafo único. Nas hipóteses do art. 178, o Ministério Público será
intimado para intervir como fiscal da ordem jurídica quando não for
parte.

Destaque para as hipóteses de rescisória de legitimidade para o MP.


Justamente se o MP deveria intervir e não foi ouvido, a decisão é nula, sendo
nula é passível de ser rescindida.

1.6 Requisitos
Previsão no artigo 968 do CPC:

Art. 968. A petição inicial será elaborada com observância dos


requisitos essenciais do art. 319, devendo o autor:
I - cumular ao pedido de rescisão, se for o caso, o de novo
julgamento do processo;
II - depositar a importância de cinco por cento sobre o valor da causa,
que se converterá em multa caso a ação seja, por unanimidade de
votos, declarada inadmissível ou improcedente.

A petição da ação rescisória deve seguir o artigo 319 e 320 do Código


de Processo Civil. É necessário formular o pedido de rescisão e de novo
julgamento, se for o caso.
Nem toda situação vai ensejar novo julgamento, como é o caso da coisa
julgada. Deve haver o depósito da quantia equivalente a 5% sobre o valor da
causa, que será revertida em multa caso a ação seja declarada inadmissível ou
improcedente para unanimidade dos votos.
Sobre o depósito, ainda deverão ser observados os seguintes
parágrafos do artigo 968 do CPC:

§ 1o Não se aplica o disposto no inciso II à União, aos Estados, ao


Distrito Federal, aos Municípios, às suas respectivas autarquias e
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fundações de direito público, ao Ministério Público, à Defensoria


Pública e aos que tenham obtido o benefício de gratuidade da justiça.
§ 2o O depósito previsto no inciso II do caput deste artigo não será
superior a 1.000 (mil) salários-mínimos.
§ 3o Além dos casos previstos no art. 330, a petição inicial será
indeferida quando não efetuado o depósito exigido pelo inciso II do
caput deste artigo.

Ou seja, não se exige o depósito no caso da Fazenda Pública, inclusive


autarquias e fundações de direito público às pessoas de direito público
vinculadas, bem como ao MP, DEFENSORIA PÚBLICA e aos que tenham
obtido o benefício da gratuidade da justiça. Mesmo sendo sobre o patamar de
5% sobre o valor da causa, o depósito não poderá ultrapassar a 1.000 salários
mínimos. As causas de indeferimento da petição inicial previstas no artigo 330
do CPC se aplicam à ação rescisória. No entanto, a ação rescisória poderá
ainda ser indeferida quando não for realizado o depósito exigido no inciso II.

1.7. Competência para julgamento

ÓRGÃO CABIMENTO PREVISÃO


STF Seus próprios julgados Art. 102, I, “j”, C.F

STJ Seus próprios julgados Art. 105, I, “e”, C.F

TRF Seus próprios julgados ou Art. 108, I, “b”, C.F


juízes federais de sua região
TJ Seus próprios julgados ou de
juízes estaduais

1.8 Processamento:
O Réu é citado para responder a ação rescisória no prazo de 15 dias a
30 dias, conforme previsão do artigo 970 do CPC:

Art. 970. O relator ordenará a citação do réu, designando-lhe prazo


nunca inferior a 15 (quinze) dias nem superior a 30 (trinta) dias para,
querendo, apresentar resposta, ao fim do qual, com ou sem
contestação, observar-se-á, no que couber, o procedimento comum.

A ação é proposta no Tribunal, ou seja, possui competência originária


dos Tribunais. Será sempre o órgão hierarquicamente superior. Ex: sentença
de primeiro grau estadual TJ/RS. Observar ainda que caso haja uma ação
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proposta no primeiro grau, e dela interposto recurso, mas o recurso não


conhecido.
Cabe ação rescisória da decisão de primeiro grau, haja vista que o
recurso não analisou o mérito.

§ 5o Reconhecida a incompetência do tribunal para julgar a ação


rescisória, o autor será intimado para emendar a petição inicial, a fim
de adequar o objeto da ação rescisória, quando a decisão apontada
como rescindenda:
I - não tiver apreciado o mérito e não se enquadrar na situação
prevista no § 2o do art. 966;
II - tiver sido substituída por decisão posterior.
§ 6o Na hipótese do § 5o, após a emenda da petição inicial, será
permitido ao réu complementar os fundamentos de defesa, e, em
seguida, os autos serão remetidos ao tribunal competente.

Permite-se a emenda da inicial da ação rescisória. Isso em respeito ao


princípio da economia, instrumentalidade, etc;

Art. 969. A propositura da ação rescisória não impede o cumprimento


da decisão rescindenda, ressalvada a concessão de tutela provisória.

Ou seja, o próprio artigo 969 estabelece a exceção nos casos de


concessão de tutela provisória.
Não teria a rescisória efeito suspensivo, porém, poderá o autor
demonstrar o perigo de dano da decisão que se quer rescindir e obter mediante
pedido de tutela provisória.

Art. 970. O relator ordenará a citação do réu, designando-lhe prazo


nunca inferior a 15 (quinze) dias nem superior a 30 (trinta) dias para,
querendo, apresentar resposta, ao fim do qual, com ou sem
contestação, observar-se-á, no que couber, o procedimento comum.
Art. 971. Na ação rescisória, devolvidos os autos pelo relator, a
secretaria do tribunal expedirá cópias do relatório e as distribuirá
entre os juízes que compuserem o órgão competente para o
julgamento.
Parágrafo único. A escolha de relator recairá, sempre que possível,
em juiz que não haja participado do julgamento rescindendo.

Preferência por julgadores que não participaram do julgamento anterior.


O artigo 972 fala da possibilidade de instrução na ação rescisória:

Art. 972. Se os fatos alegados pelas partes dependerem de prova, o


relator poderá delegar a competência ao órgão que proferiu a decisão
rescindenda, fixando prazo de 1 (um) a 3 (três) meses para a
devolução dos autos.
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1.9 Prazo para razões finais

Art. 973. Concluída a instrução, será aberta vista ao autor e ao réu


para razões finais, sucessivamente, pelo prazo de 10 (dez) dias.
Parágrafo único. Em seguida, os autos serão conclusos ao relator,
procedendo-se ao julgamento pelo órgão competente.

Dois julgamentos imediatos, da rescisão e do nova decisão:

Art. 974. Julgando procedente o pedido, o tribunal rescindirá a


decisão, proferirá, se for o caso, novo julgamento e determinará a
restituição do depósito a que se refere o inciso II do art. 968.
Parágrafo único. Considerando, por unanimidade, inadmissível ou
improcedente o pedido, o tribunal determinará a reversão, em favor
do réu, da importância do depósito, sem prejuízo do disposto no § 2 o
do art. 82.

1.10 Estrutura da ação rescisória

REQUISITOS Art. 319 e 968 do Código de Processo Civil.


COMPETÊNCIA Tribunal
PARTES Tratamento: autor e réu.
Legitimidade para propositura: art. 967 e incisos do Código de
Processo Civil.
HIPÓTESES DE Sentença (ou decisão interlocutória ou acórdão) com transito em
CABIMENTO julgado, em que haja a ocorrência de uma das hipóteses
previstas no art. 966 do Código de Processo Civil.
FUNDAMENTO LEGAL Art.966 e seguintes do Código de Processo Civil.
FATOS Narrativa de todo o ocorrido, apontando, principalmente, a causa
da propositura da ação.
FUNDAMENTAÇÃO Deverá ser desenvolvida com base na própria hipótese que
JURÍDICA ensejou a rescisória (incisos do art. 966 do CPC/15).
PEDIDOS a) Liminar (se for o caso);
b) Citação para se defender no prazo a ser designado pelo juiz
(de quinze a trinta dias);
c) Procedência com a rescisão da decisão, proferindo o tribunal
novo julgamento (art. 968, I, do CPC/15) ou determinando a
remessa dos autos à origem para que seja proferida nova
decisão;
d) Juntada da guia de 5% sobre o valor da causa (art. 968, II, do
CPC/15);
PROVAS Protesta por provas que poderão demonstrar a veracidade dos
fatos alegados (o relator poderá delegar a competência ao juiz
de 1ª instancia, vide art. 972 do Código de Processo Civil).
VALOR DA CAUSA Valor da decisão rescindenda.
**fonte: SÁ, Renato Montans de; AGUIRE, João. Prática Civil. 7ª ed. São Paulo: Saraiva, p. 75-
76
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ATENÇÃO PARA AS SEGUINTES SÚMULAS:


STF: 252, 264, 343 (discussão acerca da aplicação), 514 e 515.
STJ: 401
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MODELO DE AÇÃO RESCISÓRIA


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02 2. AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE SENTENÇA

Ação também conhecida como querela nullitatis insanabilis. O art. 5º,


XXXVI da Constituição Federal estabelece a coisa julgada:

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer


natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes
no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
XXXVI - a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito
e a coisa julgada;

Com a coisa julgada, torna-se imutável a sentença que não cabe mais
qualquer espécie de recurso, o que acarreta a segurança jurídica.
Porém, mesmo em razão da previsão da coisa julgada, não significa que
a sentença não possa ser desconstituída.
Apesar de o Código de Processo Civil fazer menção somente a ação
rescisória, os tribunais aceitam a ação declaratória de inexistência de sentença.
O objetivo da ação declaratória de inexistência de sentença é
justamente esse: sanar os vícios que ocorreram durante o processo e que são
insanáveis.
Assim, o objetivo é declarar a inexistência daquela sentença no
processo em razão de um vício que acabou por contaminar os demais atos
processuais.
Esse tipo de ação justamente existe para sanar a falta de ação própria a
fim de elidir vícios insanáveis que ocorrem durante o processo, tal como vício
na citação, surgimento de alguma prova após o prazo decadencial da ação
rescisória, etc.
Portanto, a ação declaratória de inexistência de sentença seria
imprescritível de modo que as ações com nulidades absolutas poderiam ser
revistas a qualquer tempo.
Cabe justamente naquelas situações em que não é possível a ação
rescisória, por entender que a sentença nula jamais adentrou no mundo
jurídico.
Observar que nulidade não se confunde com inexistência: a presente
ação visa atacar sentenças inexistentes. Já a ação rescisória decisões nulas.
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Só que a rescisória possui prazo decadencial e a ação declaratória de


inexistência de sentença não possui prazo, podendo ser utilizada a qualquer
tempo.
Situações em que pode ocorrer a ação declaratória de inexistência
de sentença:
1. CITAÇÃO VICIADA: Citação, conforme o artigo 238 do CPC é o ato
pelo qual são convocados o réu, o executado e o interessado a integrar a
relação jurídico processual:

Art. 238. Citação é o ato pelo qual são convocados o réu, o


executado ou o interessado para integrar a relação processual.

Além disso, para a validade do processo é indispensável a citação do


réu ou executado, conforme previsão do artigo 239 do CPC:

Art. 239. Para a validade do processo é indispensável a citação do


réu ou do executado, ressalvadas as hipóteses de indeferimento da
petição inicial ou de improcedência liminar do pedido.
§ 1o O comparecimento espontâneo do réu ou do executado supre a
falta ou a nulidade da citação, fluindo a partir desta data o prazo para
apresentação de contestação ou de embargos à execução.
§ 2o Rejeitada a alegação de nulidade, tratando-se de processo de:
I - conhecimento, o réu será considerado revel;
II - execução, o feito terá seguimento.

Assim, se a citação estiver viciada, todos os demais atos do processo


também estarão. Exemplos de entendimentos:

Ementa: APELAÇÃO CÍVEL. AÇÃO ANULATÓRIA. QUERELA


NULLITATIS INSANABILIS. ADEQUAÇÃO DA VIA ELEITA.
PETIÇÃO INICIAL. RECEBIMENTO. SENTENÇA
DESCONSTITUÍDA. ALEGAÇÃO DE COMPOSSE. NECESSIDADE
DE DILAÇÃO PROBATÓRIA. Querela Nullitatis. Pretende a parte
autora a nulidade de ação de reintegração de posse, sob o
fundamento de vício na citação daquela lide. Arguição de ausência de
litisconsórcio necessário em razão de composse. Reconhecida a
adequação da via eleita, sendo cabível o pleito anulatório.
Precedentes do STJ. Apelo provido para desconstituir a sentença
determinando o processamento do feito e análise da questão.
DERAM PROVIMENTO AO APELO. UNÂNIME. (Apelação Cível Nº
70073979148, Décima Sétima Câmara Cível, Tribunal de Justiça do
RS, Relator: Giovanni Conti, Julgado em 20/07/2017)

No referido acórdão, assim foi exposto:


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Nesta senda, ao se admitir a situação alegada pela demandante – e


essa situação é a única que pode acarretar a desconstituição do
julgado combatido –, não se estará, propriamente, diante de uma
decisão transitada em julgado, rescindível, na medida em que a falta
de uma relação processual devidamente estabelecida conduz a uma
decisão impugnável no próprio plano da existência jurídica. Para
estas hipóteses, há a chamada querela nulitatis insanabilis, que
objetiva desconstituir determinado processo por ausência de citação
ou por ausência de citação válida de um litisconsorte necessário. (...)”
(grifei)

Ementa: AÇÃO RESCISÓRIA. ECA. MUNICIPIO DE PORTO


ALEGRE. VAGA EM EDUCAÇÃO INFANTIL. ARGUIÇÃO DE
NULIDADE PELA AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO PESSOAL. VIA
INADEQUADA. FALTA DE INTERESSE PROCESSUAL.
INDEFERIMENTO DA INICIAL. EXTINÇÃO DO PROCESSO. Caso
em que, após a formação de coisa julgada material, a pretensão em
ver declarada nulidade absoluta deve ser buscada através da
"querela nullitatis insanabilis". Logo, a presente ação rescisória
constitui-se em via inadequada para o fim almejado pelo autor, diante
da ausência de interesse de processual, razão pela qual a inicial vai
indeferida. Precedentes deste Tribunal de Justiça e do STJ. INICIAL
INDEFERIDA, EM MONOCRÁTICA. EXTINÇÃO DA AÇÃO
RESCISÓRIA. (Ação Rescisória Nº 70074516709, Quarto Grupo de
Câmaras Cíveis, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Rui Portanova,
Julgado em 19/07/2017)
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