Você está na página 1de 2
AHISTORIA DE ORLANDO. Vita Sackville-West (1892-1962) foi aristocrata, escritora (poesia, romances, biografias), genial jardineira, ¢ casada com um homosexual, Harold Nicolson, com o qual teve 2 filhos. Vita era lésbica. ‘A sua vida emocional e sexual foi esmagadoramente com outras mulheres, algumas casadas. Escritora ‘muito popular em vida, alguns dos seus romances exemplificam a escrita lésbica "por entre as linha onde, por vezes, se vé um casal heterossexual, deverd ler-se uma tentativa de resolugio do "dilema \ésbico” da representagdo quer interna, quer externa. Vita © Harold, confidentes estreitos, viviam vidas separadas. Enquanto Harold foi diplomata, a separacdo era continental; quando Harold se tornou deputado, poderiam eventualmente encontrar-se aos fins-de-semana. Na propriedade de ambos, Sissinghurst, Kent, cada um tinha 0 seu quarto de dormir em “cottages” separados. Contrariamente ao demonstrado na série televisiva Retrato de um casamento, Vita, antes de casar, tinha ja uma s6lida experiéneia Iésbica, facto conhecido de Harold. Amiga de inffineia de Violet Trefusis, também aristocrata, chegou o dia em que Vita e Violet se declararam amantes. Recém casada com Harold, Vita viveu com Violet, entretanto casada com Denys Trefusis, um romance de amor considerado explosive na época, e que foi deveras intenso. Houve ocasides em que Vita se vestiu de "homem", para com maior liberdade (e prazer) poder passear & noite ‘em Paris com Violet. Vita acabou por escother a seguranga social do casamento com Harold em vez de viver com Violet Apés a morte de Vita, o filho, Nigel, declara ter encontrado um relato/reflexdo de Vita sobre seu amor com Violet e, também, sobre a sua propria natureza, evidenciando igualmente a sua necessidade de fazer um depoimento para a Ciéneia da posteridade. Este relato, publicado, retalhadamente, no livro do filho, Retrato de wn casamento, insiste na dualidade sexual da sua autora, Vita via-se como parte masculina, parte feminina, incapaz de se assumir como pessoa integrada, lésbica. E itil lembrar ‘que 05 eugenistas (ex. Francis Galton) e os sexdlogos (ex. Kraff-Ebing, Havelock Ellis) tal como os eugenistas € os sexdlogos de agora, tiveram uma influéncia infeliz sobre a auto-avaliagao citada de Vita: nessa altura, era necessério respeitar as fronteiras entre 0 comportamento aceitavelmente “masculin E ainda est por fazer, porque ainda esté a processar-se, a historia da interferéncia da eugenia na vivéncia homossexual/lésbica, ¢ resultantes tentativas de contengio ¢ isolamento da "erise de identidade", pessoal e social, personificada no "Ser-Desvio” (hiomossextal/lésbica). A preocupagaio do filho Nigel em Retrato & demonstrar 0 quo mais importante foi o relacionamento Vita-Harold do que qualquer "escapadela” (Iésbica) de sua mae. Tal é também a preocupagio de Victoria Glendinning, bidgrafa (1983) de Vita. Nigel, ao presenciar as filmagens para a série televisiva das cenas de amor entre Vita e Violet, expressou tremendo choque ao ver a recriagao, por muito parcial e pudica, daquilo que sua mae certamente fez na vida real, fora das paginas do Retrato. conheceu a sua contempordnea Virginia Woolf. Do Disrio desta Gltima: "E Vita vem almogar amanhi, © que seré muito divertido e um grande prazer. Acho graga as minhas relagdes com ela (...) Gosto da sua presenea ¢ da sua beleza. Estarei apaixonada por ela? (...) O facto de ela ‘estar apaixonada’ (...) por mim, excita € lisonjeia; € interessa." (5° feira, 20/5/26). As duas mulheres tormaram-se amantes, e continuaram amigas amorosas até ao fim da vida, apesar dos citimes por vezes expressos por Virginia em relagdo a uma nova amante de Vita. A atitude de Virginia para com a sua amiga era ambigua: em paralelo com 0 seu fascinio ambivalente pela beleza de longa linhagem de Vita e pela sua vitalidade "séfica", Virginia achava Vita uma escritora mediocre. Tal transparece no seu Diério e também em Orlando: Uma Biografia, publicado em 1928, com dedicatéria a Vitae varias ilustragdes, algumas das quais fotogratias de Vita, identificada como Orlando. Vita, por ser muther, ficou incapacitada de herdar o titulo e a propriedade ancestral, Knole. Tendo cerescido em Knole ¢ lé pasado a sua adolescéncia, agudamente consciente da heranga cultural de que era herdeira, 0 desgosto de Vita por ter perdido Knole foi sempre intenso, E sobre estes dois pélos, a perda de Knole ¢ aquilo que Vita via como elivagem em si propria entre "homem" e "mulher"~ é sobre estes dois pélos que Woolf construiu 0 seu Orlando, nfo tanto como "a mais longa carta de amor" como disse Nigel, e sim como uma prenda, uma restituiglio de Knole a Vita, uma talvez brincalhona arrumagdo da "dualidade sexual" de Vita A génese de um novo livro é anunciada no seu Diério a 14/3/27, sendo possivel presenciar-se 0 misto da escritora, amiga e amante nas palavras de Woolf, carregadas de erotismo: "Embora irritada por no ter tido noticias da Vita nem pelo correio de hoje nem a semana passada, irritada sentimentalmente e em parte por vaidade -- mesmo assim devo registar a concepgfio ontem @ noite entre as 12a 1 de um novo livro.” Em carta a Vita (14/10/27), Virginia demonstra a sua relagio com Orlando (e Orlando): “Invento- na cama a noite, enquanto caminho nas ruas, em toda a parte. Quero ver-te a luz do Gandeeiro, tu com as tuas esmeraldas. Na realidade nunca te quis ver tanto como. agors-estar simplesmente sentada a olhar para ti, ¢ fazer-te falar, € entio répida e secretamente, corrigir alguns aspectos por esclarecer." Orlando retrata a progresstio a longo de varios séculos de uma personagem aristocratica, que, inicialmente homem, um dia acorda e é mulher. Quando homem, Orlando tem uma funesta paixo por uma mulher russa, Sasha (Violet Trefusis). Quando mulher, Orlando conhece um homem, Marmaduke B, Shelmerdine. Reflectindo o estatuto legal de Vita a quem, por ser mulher, é negada a heranga propria, Orlando, mulher, ao conhecer Shelmerdine, explica a interrogagao deste: "Estou morta, meu caro senhor!" O auge deste livro é atingido quando Shelmerdine ¢ Orlando se reconhecem:"Tu és uma mulher, Shell", ao que este responde: "Tu és um homem, Orlando!" O resto da relagdo destas duas ersonagens segue © padrio de separagdo/encontro ocasional visto na vida verdadeira de Vita e Harold. A resolugao em Orlando da falsa dualidade sexual acima referida podera, a olhos contempordneos, parecer atabalhoada. No didlogo acabado de citar a igualdade ¢ a integridade (a resolugdo da dualidade do género) dependem, tenuamente, de uma troca/entrega de identidade emocional ou sécio- sexual algo impraticavel. E conhecida a preocupacio de Virginia Woolf com esta dualidade. Em Um Quarto que seja nosso (1928), magnifica polémica sobre, precisamente, a dicotomia viciada hhomem/mulher, Woolf encontra a solugdo da androginia, resolucdo do problema da inferiorizagao das ‘mulheres, A imagem central desta resolugdo, que & a androginia, é apresentada neste livro como 0 ‘encontro feliz de um taxi, um jovem e uma jovem. Sob a janela de Woolf. os jovens entram no taxi, 0 rio flui, uno. Em Woolf, em importantes aspectos contrariando o que surge em Vita, existe neste Orlando, como em Uin quarto, a tensio entre a realidade empiticamente experienciada ea idealizagao, Prozac-(avamt le medicament)induzida, da resolugio do paradoxo “masculino"/"feminino", paradoxo basilar da nossa "génese", histéria e cultura O paradoxo esta por resolver. Ja hd muito que a androginia deixou de ser um conceito ou um ideal-de- integridade sustentavel. Resta-nos esta magnifica prenda que & Orlando, o livro, como um rio que flui © que faz transbordar a nossa imaginagao, MJ. S, Jornal O Piiblico, Sat, 4/2/99. 12 9 (Leituras)