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Projeto

PERGUNIE
E
RESPONDEREMOS
ON-LlNE

Apostolado Veritatis Splendor


com autori zação de
Dom Estêvão Tavares Bettencourt. osb
(in mamariam)
APRESENTAÇÃO
DA EDIÇÃO ON-UNE
Diz São Pedro que devemos
estar preparados para dar a razão da
nossa esperança a todo aquele que no-Ia
pedir (1 Pedro 3,15).
Esta necessidade de darmos
conta da nossa esperança e da nossa ré
hoje é mais premente do que outrora.
', '.,. visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrárias à fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crença católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.
Eis o que neste site Pergunte e
Responderemos propOe aos seus leitores:
aborda questOes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristão a fim de que as dOVidas se
.:..c,o,,,,, . ,-dissipem e a vivência católica se fortaleça
- ..-1 _ no Brasil e no mundo. Queira Deus
abençoar este trabalho assim como a
equipe de Verllatis Splendor que se
encarrega do respectivo sita.
Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.
Pe. Estevia Betf6ncourf. OS8

NOTA DO APOSTOLADO VERtTATIS SPLENDOR

Celebramos conv~nlo com d. Estevão Benencourt e


passamos a disponibilizar nesta área. o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos". que conta com mais de 40 anos de pubficação.
A d. Estêvão Benencourt agradecemos a confiaça
depositada em nosso trabalho. bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
;:
. ;:.

"

....

"

ANO XX 119240
Sumá r io

"COMO NAO "405 TERA DADO TUDO COM ElE 1"

" Nova el Velara" (col'l5 nOV81 • anllgas) ;


'"
" A IGREJA E seus MODELOS" Jlor Avery Dulles, S. J . 48'

Um 11.,'0 "revolllcloni,lo":
"ENFOQUES MATERlA,L!STAS DA BIBlIA" por Michel Clévenol 502

Enfoque no,o ;
"0 EVANGELHO A LUZ DA PSICANÁLISE" por Fra nçoiS9 00110 5lot

Uma , e farmu' 8 y io hlst6rlca :


" IDADE Mi!:OIA : O QUE NÃO NOS ENSINARAM" por Régine Pernoud 520

INO IC E 1979 535

COM APROVAÇÃO ECLESIASTICA

• • •

NO PRóXIMO NOMERD :

Interrogações e aspirações do homem russo. - Acordo


ecumén ico sobre o Batismo . - "O ração aos Maçons" , -
I Congresso Mundia l de Filosofia Cristã.

" PERGUNTE E RESPONDEREMOS »


Nlime-I'o avul!'o de qualqu('I' me!'; ....... . . . 32,00

Assinatura anual . . . 320,O'J

Dir(!Ção e lCedtH:iío d.) fo':l>tê"ü.o RCUCIICollrt O. S . B.


AD:"IIISIS TRAÇ AO Itt:UAÇAO DI,; PR
L h·rllrlll )I1!'1!'1lnnllrhl 1~lII n r:1
CUIxIl l'ollhll 2 . 008
RUII )J":d cn. 111 · 8 ( ('''litelo)
20 .031 RI o dc _'"nrlm (R,f) 20 .000 Rio de .Janelro (RJI
Te!.: 22~ ·00ã9
"COMO NÃO NOS TERÁ DADO TUDO COM ELE 1"
(Rm 8, 32)

Mais do que o próprio Filho, o Pai não podia ter dado aos
homens. E o Pai O deu como servidor pobre e humilçte, para
derramar a riqueza de Deus dentro da miséria do homem
ou a eternidade dentro da temporalidade da criatura.
Esse dom de Deus põe termo a longo período de expecta-
tiva da parte dos homens. Desde o século V. o povo de Deus
nlo tinha profetas; o céu parecia ter-se fechado; a história de
Israel era austera, marcada pela presença do estrangeiro domi·
nadar (persas: 538-331; macedõnios : 331·323; egípcios:
323·200; srrios: 200-63; romanos: 63 a.C. - 135 d,C.), Sobre
este pano de fundo o Natal toma todo o seu significado:
ocorre como um sorriso de Deus; o Filho é a graça ou o sem·
blante benévolo do Amor de Deus (cf. 2Cor. 13,13), Que
rompe o silêncio e a penumbra da história para dizer aos povos
grandes verdades: os homens são filhos de Deus, e nio apenas
criaturas biológicas; são chamados a comungar na vida do Pai
e a herdar a vida eterna; as realidades pequenas e pobres da
existência humana são "vasos de argila nos quais se coloca
inestimável tesouro" (cf. 2Cor. 4,7) , Tudo é grande, tudo li
divinizado pelo fato de que Deus toca o que li do homem,
vivendo com os homens e como os homens.
A doação de que fal a o Apóstolo em Rm 8 ,32, é ilustrada
no Antigo Testamento pela imagem das núpcias. Estas implicam
sempre a mútua doação de esposo c esposa. Ora, segundo os
profetas, Deus quis fazer-se esposo da filha de Sioo; quis dar·se
a ela como um esposo se dá à esposa. Mais íntima união não
poderia ser concebida: o Pai deu o Filho à humanidade num en-
lace matrimonial, como, aliás, insinuam as parábolas do Evan·
gelho (cf. Mt 22. 2·4; Lc 14, 16·24'1
Esta abordagem de Natal sugere duas conclusões:
O O Apbstolo. de imediato, propõe a primeira: "Se Ele
entregou o próprio Filho. como não nos terá dado tudo com
Ele?" (Rm 8,32) , Em outros termos: como ainda julgar que
Deus possa alguma vez esquecer os seus filhos ou possa ser
omisso para com eles7 A tentação de assim pensarmos nas ho·
ras diffceis e amargas dissipa-se diante do raciocínio de São Pau·
lo, raciocínio, aliás, que já enc.ontrava seus ecos antecipadas nu·
ma passagem do profeta Isa(as:
"Sian diit;lI ; '0 Senhor lbandonou'me, o Senhor t$ql,.leçeu-se d.
miml
AclSo pode uma mulh.er nquec:er-se do menino que amamenta,
I nio ter carinho pelo fruto das suas entranhas? Ainda que ela o esqueces·
se, eu nunca te esqueceria. Eis que te gra\lei nas palmas das minhas mias"
(ls 49,14-16) .
Que a consciéncia desta verdade, tão coerente com a
mensagem de Na1al, nunca se apague na mente do cristão
máxime nos momentos obscuros, em que o desãnimo tende a
sobrepujar a fé e a esperança! Quando o Pai entregava o seu
Filho aos homens no seio da Virgem, Ele já previa cada uma
das nossas situações amargas e de antemão se comprometia
a fazer de nossos males bens ainda maiores. Aliás, com muito
acerto dizia S. Agostinho: "Deus nunca permitiria o mal se,
em sua sabedoria, Ele não tivesse recursos para tirar do mal
bens ainda maiores". Seria absurdo ou i16gico, da parte do cris-
tão, pensar diversamente; seria, sim, conceber Deus à guisa de
um Senhor grande e poderoso, mas limitado e deficiente,
como sio os homens.
2) O dom de Deus aos homens, testemunhado mais uma
vez pelo Natal, suscita com vigor novo o dom dos homens a
Deus. Se Ele quis correr o risco de se dar à criatura, esta pode·se
daI' ao Criador sem correr algum risco. Para entender devida·
mente o que significa o dom de Natal, basta lembrar o que
pensavam os fil6sofos gregos pré-cristãos: Platão, por exemplo,
admitia que o homem tivesse amor .à Divindade, pois esta é
perfeita. mas não podia conceber Que a Divindade amasse
o homem, visto que este nada tem a lhe dar, por ser imper-
feito. Aristóteles, discípulo de Platão. chegava mesmo a dizer
que a Divindade não conhece o homem, pois, se o conhecesse.
teria a imperfeição em sua mentel E precisamente sobre este
pano de fundo que ressoa. de maneira contrastante, a mensa·
gem de Natal:
"Ele 050 poupou o próprio FilhO, mas O entregou por todos n6s.
E, com EI., d.~nos tudo o mlb".
Eis O que o Natal está mais uma vez a recordar . Seja 8 ceie·
braçlo de 1979 penhor de revlgoramento da fé e da esperança
nos cristlos 8 provoque em todos a única resposta condigna:
a de um amor mais vivo e coerente não somente a Deus, mas.
também 8 todos os homens. Possam estes, através do nosso
testemunho, chegar 8 conhecer o grande dom de Deus
leI. Jo 4,10)1
E. B.
«PERCiUNTE E RESPONDEREMOS»
Ano XX - Nl? 240 - Dezembro de I 979

" NoVI.t Vet.ra" (Col... novlS' .ndllu):

.. a igreja e seus modelos"


por Avery Dulles S. J.
Em IroteM: O livro de Avery DuUes expõe cinco concepções de- Igre·
la propostlS por teólogos eSos últimos decênios (fazendo IMX), alguns, a antI-
ou tradiç~H):
- o modelo institucional. d~rrente di ofganizaçfo jurfdica da
Igreja;
- O modelo mrstlco, que re.lç. I comunhio de amo r d05 fi'is com
D.us e entrll .i;
- O modelo sacramenbll. que p5e em foco. face sen,(",1 e hum'nI
da IgreJ. como sinal Que exprime e comunica I vida do próprio Deus;
- o modelo queriam'tico. Que focaliza a Igreja como .r.uto da "'.
lavra de Deus;
- o modelo diaconal, qUI considera a 'gr.jf como servidora e pro-
motora d. justiça. d. paz. d. fr.tern ldade entre os homens.
A. Dulle. julga ubi.mente que IlfInhum dlSses modelos esgota o con·
lIúdo d. realidade da Igreja, Que, em última an.iIi5e, , um minério ou algo
de transcendental. Para 'Pfoximar·se deus realidade transcendental. o es-
tudioso deve combinar entre si os aspectos v.ilidos de cada qual das eclesto·
ragias apontadas. dando espeeial enfase.ao modelo sacramental. A Igreja de
Cristo realiZl simuluneamltnte os clneo enfoques indicados, sendo. porem,
que nenhum destes pode ser aceito de maneira exclusiva L irrestrita.
A Igreja de Crino assim clncterlzada subsiste, de maneira plena, na
Igreja Cu611ea Roman.; h6, por6m, elementos d. mesma verdadeira Igreja
nas comunidades cristis (protestantes e onadox.. orientais) separadas de
Roma. Estai vêm I ser realizaç6es Incompletn ou parciais da única Igre ja
de Cristo. tendentes a realizar em si de maneira plena ou consumada o mo·
delo da verdadeira Igrela.
O livro de A. Dullll se rKomenda por SUl capacidade de sintetizar
elementos diversos li multiplos. Ajuda I clarear conceitos. Todavia nio "
devem "plrar do resptC1ivo contllXto as sues .firmaçõn sob pene de 1.I,i·
ficar o pensamento do .utor, que é lutido e equilibrado.
• • •
481-
• · P~RGUNTE ,E RESPONDER~MOS . 240/ 1979
Comendrio: HA livros que merecem especial atenção por·
que abordam assuntos importantes de maneira original. E o que
aCOntece com a obra do te61090' jesuha norte-americano: "A
Igreja e seus modelos", 1_ A Igreja é um dos temas mais focali·
zados na Teologia do pós·Conemo, de modo que a bibliografia
respectiva é muito vasta. Ora o autor em pauta leu boa parte
desses estudos e procurou sistematizar as suas linhas em esque·
mas ou modelos, oferecendo assim ao leitor dnteses interessan-
tes e perspectivas panorâmicas, que lhe facilitam conbecer diver·
S8S teses sobre a Igreja correntes em nOSS05 dias.
Eis por QUe vamos, a seguir, procurar apresentar o conteú-
do do livro de Dulles, acrescentando algumas observações à sua
exposição.
1. O conteúdo do livro

o autor começa registrando as divergências existentes entre


conservadores e progre»istas na Igreja: enquanto os primeiros se
preocupam com mudanças ocorrentes ap6s o eonemo, outros as
aplaudem e mais outros julgam que ainda não são suficientes.
Por que este fenômeno?
- Em parte, porque cada grupo de cristios tem em mente
determinada concepção ou determinado modelo 2 de Igreja. Ca-
da um desses modelos tenta, de alguma forma, ilustrar o que se·
ja a Igreja . Esta, porém, nio "cabe" dentro de modelo algum:'
mas ultrapassa, em sua realidade, qualquer tentativa de esque·
matização, visto que é um mistério .. . mistério inserido no gran·
de mistério das cartas paulinas. Para S. Paulo, sim, "mistério é O
plano divino de salvação que se realizou concretamente na peso
soa de Jesus Cristo" (pp. 13s). O próprio ConcíliO do Vaticano
11 utilizou a expressão "O mistério da Igreja" para intitular o
cap. 1 da Constituição sobre a Igreja ("Lumen Gentium") .

1 AVEAY OULLES. S.J ., A IDrlJa I NUI II"oCIdltlll. Trlduçlo di AI'II.lIdrl


Meel!!",,.. _ Ed. Plullnel. S.iD Paulo, 130.200 mm, 239 pp.

2 O lutor •• Im Inlt!'ldt "mod.lo" :


""au.FI6o IoItnI Imqtm' Imprtg1d8 reflllkf8 t Crltle8lT1el'll' per•• proluncllr.
eomprwllllo ,.6rle. de Um8 .... ,dld. , totn ...e o qUI ho). M del'lOm'".. 'um moef ..
lo'" (p. 21) .
A. Oul!. reconhlCI qut () voe6bulo 101 usuII prl!!c:lp.lm.n,. no IlIor dll cltn-
ela fr,fell' soell" IIb.l.

- 48H-
.A IGREJA E SEUS MODELOSt 5
Como quer que seja. a teologia se vê obrigada a conceber
modelos para falar da profunda realidade da Igreja. Em conse-
qüência, A. Oulles julga poder distinguir cinco modelos princi·
pais na Eclesiologia contemporânea. Expõe-nos, apresentando
seus pontos positivos e negativos:

1.1. Os cinco modelos da IlIreja

Cinco são os modelos apresentados por Oultes: Igreja insti-


tulçlo, Igreja comunhio m(stica, Igreja sacramento, Igreja arau·
to, Igreja serva.

1.1.1. A Igreja como instituição

1. A visão institucional concebe a Igreja prevalentemente


como sociedade v ls(ve~ dotada de estruturas jurfdicas, com defi-
nição de direitos e deveres dos respectivos membros. O aspecto
Institucional sempre existiu na Igreja; é mesmo impntscind(vel,
para que a Igreja, reunindo em 51 multidões de homens, hetero-
gêneas por suas origens, posse cumprir adequadamente a sua
missão.
O interesse pelo caráter institucional da Igreja desenvolveu-
-se a panir do séc. XVI quando te61ogos e canonistas, responden-
do aos reformadores protestantes, se viram levados a acentuar
certas caracter(sticas da Igreja Que os adversários negavam. S.
Roberto 8ellarmino (+ 1621), seguindo esta tendência. dizia
Que a Igreja é. por exemplo. uma sociedade "tão vis(vel e palpá·
vel como a comunidade do povo romano ou o Reino de França
ou a República de Veneza" (De controversiis, tomo 2. lib. 3,
capo 2. Giuliano. Nápoles, 1957. vol. 2, p. 75) . .
O eoncmo do Vaticano I (18691l01 devia estudar a segtnn-
te proposição, que afinal não chegou a ser promulgada pelo
Condlio (interrompido abruptamente pela guerra franco-alemã
de 18701:

"EnslNmos I decleramol: .. IlIrI)' tem todo. ollinais de uma venta-


dei'" sociedade. Crlno nlo deixou estl sociedade Indefinida I um uma
forma estabelecida. Ao contrirlo. ele pr6prlo lhe deu exis.t6ncl.,. sua von·
tade determinou I forml de SUl exlstincla e Ih. deu .. sua connltulçlo.
Nfo' .. IgraJI p.ne ou mambro d. qu.l(fuer outra soei.dllde e d. modo ai·
gum se confund. com n.nhum. outr'lOchtdada. ~ tio perfelr. em si mes-

- 489-
6 MPERGUNTE E RESPONDEREMOS~ 2401l9i9

l1'\li que se distingue de- toelu 8$ sociedades humanas. e palra sobre elas",

Como dito. esta declaração não chegou a ser aprovada.


2. Que dizer 11 prop6sito?
a) ~ inegável que a Igreja precisa de organização jur(dica e
caráter institucional. Nenhuma sociedade humana dispensa 05
fatores de boa ordem e administração. Não se deve confundir
"institucionalismo" (exagero de instituição), que é abusivo, com
"caráter institucional, juddico, administrativo". que á um fator
positivo de harmonia e eficiência.

b) Acontece, porém, que, por força de circunstâncias histó-


ricas, a {ndole institucional da Igreja foi sendo enfatizada com
demasiado interesse no séc. XIX.

ti leve-se em conta que o Condlio do Vaticano li, logo


em suas primeiras sessões solicitado a pronunciar-se sobre um
modelo institucionalista da Igreja. rejeitou o Que lhe foi apresen-
tado. classificando-o de "clericalista, juridicista e triunfalista",
Na verdade, a acentuação da nota institucional da Igreja pode le-
var ao exagero de se conceber a Igreja como constitu(da prepon-
derantemente de c ledgos. aos Quais incumbem as tarefas de ensi·
nar e dirigir, A Igrej" é então facilmente assemelhada a uma p io
râmide, na Qual todo o poder desce do Papa aos bispos e sacer-
dotes, enquanto na base o povo fiel desempenha papel passivo e
parece ocupar posição inferior. Na verdade, porém. todos os
membros da Igreja têm os mesmos deveres e direitos fundamen·
ta is, de modo que o Papa e os bispos, juntamente com os leigos,
devem ser contados como fiéis de Deus.
Al iás, o modelo institucional da Igreja nunca foi proposto,
de maneira exclusiva, pelos documentos oficiais eclesiásticos; os
textos do Concílio do Vaticano I e asencíclicasde leão XIII e
Pio XII, por muito que tenham insistido sobre a Igreia como
"sociedede perfeita", nunca identificaram essa sociedade exclu·
sivamente com os seus elementos institucionais, mas sempre se
referiram à imagem do Corpo de Cristo e à comunhão com a
gração de Cristo.

Eis por que passamos a considerar.

-490 -
t:A IGREJA E SEUS MODELOS. 7

1.1.2. A Igreja corno comunhio mistica

1. Certos teólogos têm explanado a distinção entre socieda·


de IGessellschaft) e comunidade (Gemeiruchaftl. Enquant-, 50'
ciedade lembra organização, autoridade, estruturas (como a es·
cola, o hospital, o hote.l). a comunidade implica relati ....a intimi·
dade entre os participantes, simpatia mutua. solidariedade . ..
como ocorrem na família, no lar, na vizinhança là moda antiga) .
Ora, segundo bons autores, a Igreja é prevalentemente uma
comunidade. Tal é a tese dos protestantes Audolph Sohm, Emil
Brunner, Dietrich Bonhoeffer, como também dos cat61icos
Arnold Aademacher, Vves Congar, Jêrome Hamer. Rademacher.
por exemplo. sustenta que a Igreja ~ no seu cerne (ntimo uma
comunidade (Gemeimehaft) e, no seu cerne exterior, uma
sociedade {Geselleschaftl. A sociedade é a manifestação
exterior da comunidade, e a sociedade existe para promover
a realização da comunidade. Cangar vi na Igreja dois aspectos
inseparáveis um do outro: por um lado, é formada de pessoas
que se consociam com Deus e entre si em Cristo (comunidade
de salvação ou, em terminologia alemã, Heilsgemeinschaftl.
Por outro lado, a Igreja também é a totalidade dos meios
através dos quais esse consórcio se produz e mantém (institui-
ção de salvação, Heilsanstalt. diriam os autores alamães).
A diferença dos protestantes, os autores católicos não rejei·
tam o aspecto institucional da Igreja~ nem tencionam definir a
Igreja simplesmente como comunidade no sentido sociol6gico
de grupo informal. Ao contrário, admitem na Igreja a dimen$ão
vertical e a horizontal: a vertical é constitufda pela vida divina
desabrochada em Cristo e comunicada aos homens pelo Espíri-
to. A horizontal são os elementos exteriores, visrveis e jurídicos
que concorrem para exprimir e assegurar a comunhão de vida
interior.
(; certo que a S. Escritura fundamenta tal perspectiva, pro-
pondo a Igreja como um corpo dotado de vários órgãos e anima·
do de um princrpio de vida divina; cf . Rm 12 e 1 Cor 12, Efe
CI. Os escritores cristãos antigos desenvolveram essa Imagem,
destacando-se ente todos S. Agostinho. Na primeira metade do
séc. XX, quando muito ainda se estudava a estrutura j .... rldica da

I Sohm e Brunntr lullllm que Q Insthuçlo",1 n. 19'11. tlltghlmo.

- 491-
8 , PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 240/1919
Igreja, o jesu rta belga Emile Merscn contribuiu para restaurar a
noção de Corpo M(stico mediante estudos que se tornaram fa-
mosos. Pio XII em 1943, por sua vez, publicou a sua enc(clica
sobre o Corpo M(stico. O eoncmo do Vaticano II (1962-1965)
quis apresentar a Igreja como povo de Deus, enfatizando assim
os aspectos de comunhlo de vida, caridade e verdade.
2 Que dizer desse modelo de Igreja?
a) Não há duvida , a noção de comunhão atinge muito mais
o âmago da Igreia do Que a da instituição jurídica. Tem sólida
fundamentação b(blica e patrfstica; além do que, corresponde
melhor às aspirações do homem contemporâneo, Que estima as
relações interpessoais e comunitárias,
b) E preciso, porém, que não se exagere o valor do .aspec:to
íntimo e os bens meramente espirituais da vida cristã a ponto de
menosprezar o aspecto vis{vel e instituc ional da Igreja, como
tem acontecido princioalmente nos chamados grupos de " Igreja
subterrânea" (Underground Church) ' e, quiçá, em algumas co·
munidades eclesiais de base: em tais grupos, a aversão a qualquer
norma ou institu ição tem favorecido o subjetivismo e a arbitra-
riedade nas formu lações da fé e nas celebrações da liturgia, cau-
sando perplexidade em seus membros e levando ao cisma ou à
ruptura da Igreja - o que é de todo lamentável. As normas obje·
tivas são indispensáveis para evitar o subjetivismo desenfreado e
destruidor de " pro1etas carismáticos".
Passemos ao modelo subseqüente:
1,1.3. A Igreja como sacramento

1. No intuito de compor entre si os aspectos externos e in·


ternos da Igreja, muitos teólogos católicos do séc. XX têm enfa·
tizado o conceito de Igreja-sacramento. conceito Que t ambém é
caro aos escritores antigos S. Cipriano, S. Agostinho . . " bem co·
mo a S, Tom's de Aquino (+ 1274) e, mais recentemente, a Ma·
th ias Josef Scheeben (+ 1888) .
O lesufta Henri de Lubac foi o arauto de tal concepção nos
últimos decênios. O divino e o humano na Igreja nunca se po-
dem dissociar, argumenta de Lubac. A Igreja é, pois, a continua-
çfo da Encarnação do Filho de Deus: através de estruturas hu·

- 492-
cA IGREJA E SEUS MODELOS. 9
marias Ela comunica a vida do pr6prio Deus. A Igreja nA'o é s0-
ciedade meramente humana, mas em moldes humanos. Ela traz
e comunica tesouros da vida divina. O aspecto institucional e ex-
terno da Igreja ~ essencial, porque, sem ele, a Igreja não seria si·
nal; nlo falaria aos homens, que são naturalmente feitos para a
linguagem sensível. Todavia o aspecto estrutural não ê suficien·
te para constituir a Igreja; para ser sacramento, esta deve ser
portadora e transmissora da graça ou dos dons transcendentais
que enriquecem os cristãos.
2. Que dizer de tal esquema?
a) !: realmente apto para unir em síntese o modelo instituo
cional e o modelo mrstico da Igreja. Serve tamb~m para relacio-
nar a Igreja com o mistério da Encarnação e os sete sacramentos
comunicadores da graça; Cristo, Igreja e os sete sinais rituais
aparecem assim como etapas do SACRAMENTO ou da comuni·
caç!o de Deus aos homens mediante realidad~ sensrveis.
Esta concepção dá margem também aos anseios de purifi·
cação e conversão que de\lem caracterizar os membros da Igreja,
pois é certo que a Igreja se há de tornar sempre mais eloqüente
sinal de Cristo.
Estes thulos positivos explicam tenha o Concilio do Vati-
cano II apresentado a Igreja como "sacramento da Intima uniRa
com Deus e da unidade de todos os homens entre si " (cf. Consto
" Lumen Gentium " n~ 1.9.48; "Gaudium et Soes" n~ 42; "Sa-
crosanctum Concilium" n!> 26; "Ad gentes" n951 .
b) Contra tal modelo, porém, há quem objete Que não põe
su ficiente ênfase sobre a missão ou o serviço que toca â Igreja
prestar neste mundo. Pode levar a uma atitude de esteticismo
narcisista, que dificilmente se concilia com o pleno compromis·
so do cristão em favor dos valores éticos e sociais.
Examinaremos agora outro modelo :

1.1.4. A Igreja como arauto

1. Esta perspectiva concebe a Palavra de Deus como ele·


mento principal e o sacramento como elemento secundário da
Igreja . Vê a esta como assembléia convocada e formada pela Pa·
lavra de Deus. tendo como prec(pua missão a de proc lamar o

. - 493 -
10 - 1'i':JtGUNT~: E RI:..~PONIJ}o; H~MaS<> 240/1979
que ouviu e aCfedita . A fé e a pregação são assim mais valoriza-
das do que a comunhão mfstica, que o segundo modelo põe em
relevo.
O principal proponente deste tipo de eclesiologia no séc.
XX é o te610go calvinista Karl Barth, que se inspira em S. Paulo
e Lutero: o que constitui a Igreja, afirma, é ser a Palavra procla-
mada e fielmente ouvida. A B(blia, segundo ele, julga a Igreja,
concitando·a ao arrependimento e à reforma. Ham Küng, te610·
go católico, segue de perto a eclesiologia de Barth: a Igreja, diz
ele, não é algo que esteja fundado uma vez por todas , mas ela se
faz em cada assembléia que se congrega para ouvir a Palavra de
Deus e adorar o Senhor. Rudolf Bultmann, por sua vez, adota
estas concepcões: para ele, é a Palavra que constitui a Igreia
(.. ekklesia, convocação), reunindo os homens e formando a
congregação. A Igreja está comp{eta em cada congregação local;
a Igreja não depende, para existir, de estruturas universais.

2. Que dizer a respeito?


a) Não há dúvida, este modelo realça bem o sentido da mis·
são da Igreja , chamada a proclamar a Boa·Nova de Jesus Cristo
contra toda idolatria. Leva à humildade, à obediência e ao arre·
pendimento, pois a palavra proclamada incessantemente exorta
a estas atitudes.
bITodavia levantam·se dificuldades contra o modelo em
foco. Na verdade, o Cdstianismo é essencialmente encarnação -
Deus Que se faz homem -, e não apenas, nem primeiramente,
proclamação de Palavra. Cristo não veio apenas trazer uma men·
sagem, mas uma vida, que se torna presente e patente na Igreja ,
Corpo de Cristo prolongado. Ser cristlo 'ser inserido em Cristo
(cf. Am 6) e comungar na vida do Pai, que se manifestou e co·
munica através da humanidade de Jesus.
A Palavra deve levar o cristão a essa inserção sacramental
em Cristo, como também há de alimentar essa inserção realiza·
da. A palavra, sem sacramentos, faria do Cristianismo uma esço·
la de sabedoria e de rnori!leração, nunca, porém, cumpriria o
ãmago da missio intencionada por Jesus Cristo, que veio comu-
nicar a vida eterna aos homens mediante uma regeneração ou
nova natividade.
O Concilio do Vaticano 11, por muito que tenha valorizado
- 49-1 -
cA IGREJA E SEUS MODELOS. 11
a Palavra da Escritura, ainda enfatizou mais a presença de Cristo
nos saCrllmentos e, em especial, na S. Eucaristia.
Mais: na concepção cat6lica, o magistério da Igreja não está
acima da Palavra de Deus, mas, diga-se bem, é dotado por Cristo
de autoridade própria par, Interpretar a Palavra. Segundo algu-
mas correntes protestantes, o magistério da Igreja está sujeito a
ser corrigido pela Palavra de Deus tal como é entendida por este
ou aquele crente em particular; ao contrário, na concepção cat6-
lica, os exegetas e estudiosos estão sujeitos ao magistério da
Igreja, que goza de especial assistência, da parte do Senhor, para
expor e definir o sentido das Escrituras .
Por último, ainda se deve notar Que o modelo em foco, en·
fatizando excessivamente a missão de pregar, não realça devida'
mente a ação que a Igreja deve desempenhar em prol de um
mundo mais humano e mais cristão.
Faz-se assim a transiç!o para o quinto modelo :

1.1.5. A Igreja como serva

1. Em todos os modelos até aqui considerados, a Igreja as-


sume uma posição primadal ou privilegiada em relação ao mun-
do: Deus vem a este através da Igreja e o mundo va i a Deus me-
diante a mesma .
Ora no Quinto modelo a Igreja aparece Qual servidora do
mundo. Como Cristo se fez o servidor dos homens, " o homem
para 0$ outros", a Igreja também o deve ser; Ela se assemelha ao
bom samaritano, Que se inclina para O homem em suas neces-
sidades e 'he o1erece, com amor, os seus préstimos. Assim pen-
sam os protestantes Dietrich Bonhoeffer, Gibson Winter, Harvey
Cox, John A. T. Robinson. . . Entre os católicos, Aobert Adolfs
escreveu a obra "O túmulo de Deus", em que desenvolve a no-
ção paulina de kênosis (esvaziamento) : Jesus "esvaziou-se" , to-
mando a condição de servo (cf. FI 2,7). Isto qu.er dizer, segundo
Adolfs. que 8 Igreja deve esvaziar-se como Cristo, renunciando a
todas aS reivindicações de Doder e honra, para empenhar-se em
prol da reconciliação dos homens entre si; Ela deve servir à jus-
tiça, à paz, à litlerdade, a compaixilo ... o Concílio do Vaticano
11, em sua Conrtituiçlo "Gaudium at Spes" sobre a Igreja no
mundo moderno, deçlara repetidamente que a Igreja se deve in-
teressar pelos problemas da humanidade, compartilhando os in-

- 495-
12 ~ PERGUNTE E RESPONDEREMOS. 240/1979
teresses de todos os povos: assim como Cristo veio 80 mundo
nlo para ser servido, mas para servir, a Igreja há de procurar ser·
vir ao mundo, fomentando a fraternidade entre os homens
IGS n~ 31.
2, Que pensar desta eclesiologia de serviço?
ai Por certo, procura dar à Igreja um relevo e uma missão
que a põem em diálogo com todos os homens. Se muitos se afas·
taram do Catolicismo por julgarem-no alienado e ultrapassado,
voltam a considerá-lo com respeito e simpatia por verem·no in·
teressado em colaborar na solução dos grandes problemas da hu·
manidade. Mais: o esforço dos fiéis cat6licos por sair de si e ser·
vir altruistamente os pobres e oprimidos há de beneficiar os pró-
prios cat61icos servidores dos seus semelhantes.
b) Todavia pode-se observar que tal modelo carece de sóli·
da fundamentação blblica . Embora o Novo Testamento se refira
freqüentemente àsdiakonlai ou serviços que se prestam nas co-
munidades cristãs, verifica-se que os escritos neotestamentários
dão pouca atenção ã ordem temporal; não se preocupam com as
estruturas da sociedade, talvez por causa da expectativa de prb-
ximo fim do mundo que prevalecia nas primeiras gerações cris-
tãs. No Novo Testamento o serviço a ser prestado pelos cristãos
é principal mente de caráter pessoal.
Dado, porém, que a Igreja como tal deva contribuir para a
instauração de uma ordem sócio-econômico-polhica mais huma·
na, é preciso não identificar toda a missão da Igreja com esse ob-
jetivo temporal. Mesmo que a Igreja nio consiga debelar os ma-
les f(sicos que acometem a humanidade, a sua missão nlo est41
fracassada, pois esta compreende, antes do mais., o anúncio de
Jesus Cristo, que, at ..avés da cruz e da morte, abriu aos homens
o caminho para a casa do Pai. A salvaçJo que a Igreja tem para
oferecer ao mundo, não consiste em valores impessoais, mas é,
em primeiro lugar. o próprio Cristo. que, conforme 1 Cor 1, 30,
se fez "sabedoria, justiça, saniificaçlo e redenção" para os ho-
mens.
Uma vez exponos ao cinco modelos da Igreja, A, Dulles
aborda as concepçaes de escatologia, ministérios e revelação di·
vina mais freqüentes na teologia contemporânea, pois cada uma
destas contribui, do seu modo, pera completar os diversos mo-

- 496-
4A IGREJA E SEUS MODELOS. 13
delas de Igreja propostos anteriormente.
A explanação das cinco eclesiologias suscita as perguntas
capitais: afinal, qual o genuíno modelo de Igreja? E onde se en·
contra a verdadeira Igreja de Cristo?
Vejamos como A. Oulles responde sucessivamente a estas
interrogações.

1.2. Qual o genurno modelo de Igreja?

Para esta questão o autor se volta no cap ítulo final de seu


livro, usando de sabedoria notável.
Primeiramente, pondera Que cada um dos modelos propos-
tos encerra afirmações vélidas e importantes:
"O modelo Institucional torna daro que e Igreja deve s.er ume comu·
nld.d. ntruturada • que deve p.rm.nec.r o gilnerb de comunid.de que
Cristo lmtltulu. Tal eomunlclada precisa Incluir um of{cio pastor.1 dot.do
de .utorld.da para presidir o eulto de comunidade como t81, par. pr'ICu-
\IM os limites do dissentimento tolerAval t representar oficialmente a CO·
munidade. O modllo comunil'rio monra 6 evidinci, que, 19rejao preçlM
ser unida a Deu. pele graça, e que pela força dessa graça os seus membros
devem estar amorosame nte unidos uns aos outros. O modelo s.acramental
nos faz perceber que a Igrela precisa, nos seus aspectos vis(veis - especial-
mente na sua oraçlo e culto comunit6rios - . ser um sinal da permanente
vitalidade da graça de Cfiltb • d. et4)etanca d. reclençlo Que ele promtte.
O modelo qUlr!gm'tico ac.ntUl 1 necessidlde de que a IgreJI continue 1
proclamar o Evangelho, • incitar os homens a pbrem a sua fi em Jt$U$,
Senhor. Salv'lCior. O modelo di.tonal indica a IKgência de fazer a Igre;'
contribuir pare e tramformaç.l'o d. vida secular do homem e de impregnar
a sociedade humana como um todo dos v!lores do reino de Deus" (p. 221).

Todavia não se pode aceitar, de maneira exclusiva e sem


restrição alguma, nenhum dos cinco modelos. Tomado isolada-
mente, cada qual dos tipos eclesiol6gicos poderia levar a sérias
distorções. Na verdade, cada um dos me!iimos afirma facetas au·
tênticas da Igreja, mas nenhum abrange adequadamente toda a
realidade eclesial. pois esta é um mistério . Para que o estudioso
se aproxime 1anto Quanto possrvel desse mistério, faz-se mister
combinar entre si 05 cinco modelos, Integrando numa síntese
harmoniosa tudo que haja de viUelo em cada um. Mais: essa sen°
tese poderá ser feita da melhor maneira, caso se dê ao modelo
sacramental uma certa primazia:

-497-
14 cPERCUN'I'E E RESPONDEREMOS" 240/1979
"Para Incorporar os vllorH Ixlstentes nos viri05 modelos, o tipo li·
cramental de ecteslologil t_m, I meu Vir, mérito especial. Preservlo valor
dOI alimentos Institucionais porque I estruturl oficial da Igreja lhe confl'
ra contornos cllros e vidvels, de sorte que podl ser um sinal v(vido, Preser·
VI o vllor comunitirlo porQUI, se • Igreja nlo fosse uma comunhlo de
.mor, nIo pod"ia ler um sinal autintico de Cristo. Preserva a d imensfo da
prodamaçlo porque, 56 confiando em O'ilto e rendendo-Jhe testemunho,
quer seja a mensagem bem acolhida, quer nlo, pode a Igreja apontar eficaz·
mente m1 Cristo o portador di graça redentora di Oeus. Preserva este mo·
dela, final".nt •. I d imenslo do sen'iço secular, porque sem ele nio pode·
ria a Igreja ser um sinal da Cristo, o servidor" (p, 2251 .

De resto, observa muito sabiamente o autor, "somente a


iluminação interior do Esp (rito Santo provê o homem do neces'
sário tato e discrição para poder ver tanto os valores como os li·
mites dos diversos modelos" (p. 226). Também se deve admitir
que em cada fase da história a Igreja dê ênfase a um de seus de-
terminados modelos a fim de poder dialogar melhor com os ho-
mens de tal -época ; "O fato de que a Igreja de cena século possa
ter sido prevalentemente uma instituição, não impede que a
Igreja em outra geração seja sobretudo uma comunidade de gra-
ça, um arauto, um sacremento, uma serva" (p. 2261.

Ouanto ao modelo que a Igreja assumirá no futuro, diz A.


Oulles que depende não s6 da iniciativa dos homens, mas, ainda
mais, das livres inspirações do Esp(rito Santo. Por conseguinte.
para desempenhar a sua missão na Igreja , os cristãos devem
abrir-se "ao Que o Esplrito diz às Igrejas" (Ap 2.17). Sob a guia
do Esp(rito, as imagens e formas da vida cristã continuarão a
mudar acidentalmente. como mudaram nos séculos passados; is·
to será sinal de vitalidade e vigor espirituais. Todavia -é preciso
lembrar que "o Que é novo na Igreja $empre nasce do passado e
lança as suss raizes na Escritura e na Tradição" Ip. 231), Com
outras palavras: toda mudança será o desabrochamento homogê-
neo do potencial de riquezas espirituais já contidas na semente
da Palavra e dI vidl lançada por Cristo i terra durante a sua
existineia monal. Nenhuma mudança genu(na poderá implicar
ruptura com IIS rllfzes da Tradição cristã ou com a essência da
realidade eclesial.

Para terminar, colocamos com A. Dulles a pergunta:


_ 498-
... A JGREJA .E SEUS MODELOS~ 15
1.3. e qual a verdadeira Igreja?
No decorrer da hiS1ória, o surto de comunidades eclesiais
encabeçadas por profetas diversos levou os cristãos a procurar os
critérios que distinguiam das igrejas espúrias a verdadeira e úni·
ca Igreja de Cristo.
Principalmente a partir do séc. XVI os teólogos se esmera·
ram por enunciar tais notas distintivas da autêntica Igreja: Lute-
ra (-t 1546) enumerava sete , aa passo que o cardeal Roberto Be-
la rmino (i' 1621) compôs uma lista de quinze notas. Contudo
permaneceram clássicas através de todos os tempos as quatro
notas já enumeradas pelo Credo: a Igreja de Cristo é una, santa,
católica e apostólica. Dulles não explana o significad o preciso
destas notas Inem é o caso de o fazermos aqui) . Chama a aten-
çâo, porém, e muito oportunamente, para a maneira como o
Concilio do Vaticano II utilizou " Quatro mencionadas caracte-
rf sticas a fim de definir a Igreja de Cristo. Na verdade, os padres
conciliares, na Consto "Lumen Gentium" n'! 8. reafir maram o
aspecto vis ível ou humano e o aspecto espiritual ou divino' da
Igreja de Cristo, dizendo :
"Assi m como a natureza assumid a pelo Verbo Divino lhe ieNe de 6r-
g~o vivo de ulvação. a Ele indissoluvelmente unido. iemelhilntemente o oro
ganilmo social da Igreja serve 10 Esp(rito de Cristo, que o "ivificil ~ra fa·
zer progrKtir o corpo m(stico Ccf. Ef 4. 16'" (Cansl. " lumen Gentium H

n981.
Logo a seguir, cont inua o te xto conciliar:
" Eua é • única Igreja de Crino que no Símbolo confessamos una,
sa nta, católica e apost61ica e que nosso Salvador depois de sua res.surreiçio
entregou a Pedro para apascentar (Jo 21,171, confiando'a a ele e aos de·
mais apóstolos para a propagarem e regerem (cf. Mt 28. t 855) , levantllndo·a
para sempre como coluna e fundamento da verdade (1 Tim 3,15). Esta
Igreja. constituidil I! organilildil nHte mundo como uma sociedade, subsis-
te n. Igreja Católica, governilldil pelo sucessor de Pedro I! pelos Bispos em
comunh'o com e le, embora fora de sua vis(vel eitrU1Ufil se encontrem vj.
rios . Iementos de santifieaçio e verdade. Estes elementos como dons pro·
pr ios i Igreja de Cristo, impelem' unidade catolica " Ob.J.
Os comentadores deste texto - e Dulles com eles - obser-
vam o emprego propositado do termo " subsiste na Igreja Cat6li-
ca", em lugar de "é a Igreja Católica". Note-se que o verba é se
encontrava nas redações iniciais desta passagem, tendo sido in-
tencionalmente substituldo por "subsiste na Igreja Católica",

-499
16 · j')o;ltt; UNTt: ..: 1(fo;SI'ON IJI!:Jt~M(ll;j. 2-l0/ 197!.1
o verbo subsiste , no caso, indica que a Igreja de Cristo se realiza
na Igreja Cat61ica Romana (governada pelo sucessor de Pedro)
e, ao mesmo tempo, permite dizer que, fOra da Igreja Católica
Romana, se encontram elementos da ver'dadeira Igreja de Cristo.
Com outras palavras: a verdadeira Igreja se realiza plenamente
na Igreja Cat6lica Romana e parcial ou incompletamente em ca·
da denominação cristã (protestante ou ortodoxa) que contenha
algum ou alguns dos elemen.tos constitutivos da Igreja de Cristo.
Vê-se. pois, que o modelo da Igreja de Cristo se realiza dentro
dos moldes das comunidades cristãs em graus diversos: dentro
da própria Igreja Católica Romana , se existem todos os elemen·
tos divinos constitutivos da Igreja , pode haver maior ou menor
fidelidade dos católicos a esses elementos divinos; pode haver,
sim , uma face humana ora mais ora menos fiel à santidade in·
trrnseca ou divina da Igreja de Cristo. Assim a própria Igreja Ca·
tólica Romana é chamada a renovar constantemente o seu sem·
blante humano. a fim de não trair a presença de Cristo que ela
deve transmitir ao mundo.
Eis, em grandes linhas, as teses do livro de Avery Dulles
que nos propusemos apresentar. Resta dizer uma palavra de re·
fledo sobre os méritos dessa obra.

2. Avaliando a obra•..
o estudo de Dulles nos sugere três considerações principais:
1) O autor goza de notável capacidade de esquematizar ou
de compreender elementos múltiplos e diversos em síntese har-
moniosa. Isto torna a leitura do livro profícua e esclarecedora.
Precisamos de s(nteses. que relacionem entre si elementos dos
quais vamos tomando conhecimento isoladamente, sem perce·
ber de imediato o fio condutor que os perpassa.
Verdade é que toda esquematização corre o risco de ser ar·
tificial ou de enquadrar violentamente em modelos realidades
que ultrapassam os termos desses modelos. O pr6prio Dulles re·
conhece que a Igreja é um mistério ou que ela transcende, pela
riqueza de sua vida e de seu potencial, os limites de qualquer es·
quema dentro do qual a queiramos emoldurar. - E por isso que
se deve ler o livro de Dulles de modo a nlo isolar as respectivas
frases ou seçções; antes, tenha ·se sempre em vista a coneluslo
final do autor (cap. 12: Avaliação dos modelos, pp. 216·231),
Que, aliás, vai enfatizada nas linhas abaixo.

- 500-
. h IGREJA E SEUS MODELOS_ 11
2) O autor propõe a combinação dos diversos modelos
da Igreja entre si, dando-se prevalência ao modelo " Igreja, sacra-
mento" (p. 2251.
Ora julgamos que Dulles10i um tanto tlmido 80 propor es-
ta afirmativa, Ela podia ser mais acentuada no decorrer da obra,
pois inegavelmente a Igreja é o sacramento que prolonga a en-
carnação do Verbo; por seu aspecto humano, Ela continua a fa-
ce humana de Jesus de Nazaré, face através da qual se exprimia
e comunicava a realidade divina do mesmo Senhor Jesus: assim
também pelas estruturas sensfveis da Igreja (no que estas têm de
essencial). transmite-se a graça, que santifica os homens. - Por
sua vez, o sacramento da Igreja atinge todo e qualquer homem
mediante os sete ritos sacramentais; na sua insignificância ou po-
breza aparente (água, pio, vj nho, óleo, palavras) , estes expri-
m~.m e infundem valores transcendentais ou divinos.

Em torno do conceito de sacramento que, como $e vê, é


central na mensagem cristã, alinham·se 0 $ demais aspectos da
Igreja:
- o institucional ou jurídico, sem o Qual nenhuma socieda·
de composta de homens pode subsistir;
- o mlstico ou a comunhão (nt ima com Deus, Que é, sem
dúvida. o aspecto interior do sacramento da Igreja (ou ares s.
cramenti) ;
- o querigmático ou proclamador, Que é o meio de chamar
todos os homens a comungar no sacramento do Corpo de Cristo;
- o diaconal ou aspecto "serviço", que redunda do fato de
que Cristo veio trazer aos homens uma mensagem de amor e jus-
tiça, Que não pode ser meramente teórica, mas há de ser encar-
nada na história dos homens.
3} Parece-nos que A. Dulles fo i assaz feliz ao considerar o
quinto aspecto da Igreja. Procurou mostrar que o serviço às rea·
lidades temporais nlo deve absorver toda a atençlo da Igreja,
mas, ao contrário, há de ser dec:orrAncia da assimilação de valo-
res transcendentais. Em especial, enfatiza a necessidade de que o
clero se abstenha de militância ativa em favor de detern,inado
partido polhico Ipp. 19751.
~, pois, para desejar que a obra de Oulles se torne objeto
de leitura e estudo de grupos cristlos interessados em crescer na
M. Ela se presta a tanto, desde que lida com o senso de equil(·
brio que animou o seu autor.
-501-
Um livro revolucionirio:

.. enfoques materialistas da bíblia"


por Michel Clévenot

Em s(ntasa: O livro de M. Clévenot intitulado "EnfoQun materialis-

"iI.
tn di Srblia" fu IÇO lO de Fernando Belo: Ltçtur4111ll16ri.linedel'Eviln-
d. Marc. Pa"e da premisSll (não provada, mas gratuitamente a firmad.)
d. que toda a história é movida por fator" econômicos, pol hicos e ideoló·
gicos; portanto, também. a hist6ria sagrlda I a de Jesus. O autor considera
"mitoI6gicas" todu as paSSlgens da B(bUa que se refiram ao transcenden-
tal; ele 11 elimina como , ct6scimos tardios p'ta poder detectar o cerne da
hist6ria do Antigo Testamento e de Jesus, que seria o jogo de fatores mate·
rialista1- Assim a figura de Jesus é redulida a de um I(der revolucionirio,
que foi morto como zelota; Jesus ter' deiXJdo nlo Uml doutrina, mlS uma
prjxis, que rontinua Itravés da ação revolucionária de seUl disc(pulo5.
O livro de Cl6venot nlo pode ser tido como obra objetiva e científi-
ca, pois paJ].e de prflConceitos. alimentados durante todo o dtcOfrtf do es·
tudo apresentado. O autor nio conheCI iI bibliografia referente a S. Mucos
nlm mesmo estudou suficientemente a que se refere aos livros do Antigo
Testamento. Na verdade, o primeiro cuidado de qualquer int4rprete de
dlterminado teltto "' de ser o de reconst ituir o ambiente e a mentalld.de
dois) respectivobl autores. Se não proeedeassim, o Htudioso faz do texto
em pauta um mero prHexto pua expor as SUiS idéias pes.soais. .: o que 51
d6 no caso de M. Oévenot.
All m do mais, observamos Que o livro em foco est' mal traduzido,
revelindo desconheçimenlO da tem;ltica por parte do tradutor e certa des·
C150 por parte da Editora.

• • •
Comentário: As correntes de pensamento moderno têm-se
projetado sobre as Escrituras Sagradas, procurando enfocá·las a
partir de novas e novas premissas... Da( a crescente bibliografia
co.ntemporânea que propõe enfoques estruturalistas, psicanalis·
tas, materialistas da B iblia .. . Ora o livro de Michel Clévenot 1
pretende fazer eco ao de Fernando Belo: Le<:ture matérialiste de
pretende fazer eco 80 de Fernando Belo: Lecture mat'rialirte de
l'Evangile de Marc ( Ed . du Cerf. Paris 1975). No prefácio. F.
nando Belo é austera e difícil, desconcertante pelo seu ecleticis'
mo metodol6gico (cf. p . 14); por isto diz que Miehel Clévenot
tencion,a propor um,a apresentação breve, simples e acessível do
enfoque materialista da Biblia.
1 MICHEL. CLt!VfNOT, EnloqlfH n'I • • .,I.UIIII d. Sibila. Ed. PaI. TIN •.
RIDde J.n'iro '919, 140.208 mm, 164 pp.

- 502
~ ENFOQUES MATERIAUSTAS DA BIBUA _ 19
o livro de M. Clévenot tem·se difundido nos meios estu·
dantis teológicos do Brasil. Por ser pioneiro em nossa bibliogra-
fia, tem despertado a atenção. Eis por que lhe dedicaremos as
páginas subseqüentes, resumindo o conteúdo da obra e adicio·
nando alguns comentários.

1. As teses de Michel Clêvenot

o livro em pauta compreende duas partes principais: a pri·


meira (A Bíblia ou Escrituras) aborda a questão da origem dos
livros do Antigo Testamento; a segunda (O Evangelho segundo
São Marcos ou um relato da prática de Jesus) se detém no se-
gundo Evangelho e propõe a interpretação materialista do te)(to
sagrado. Vejamos de per si cada qual das duas panes.
U
1.1. "A Bfblia ou Escrituras

Segundo Clévenot, as Escrituras começam com o rei Saio·


mão (séc. X a.C.), embora façam eco a tradições orais e escritas
anteriores.
o cerne inic ia) das Escrituras do Antigo Testamento seria a
secção de 2 Sm 9·20; 1 As 1·2. Trata de Davi como sucessor de
Saul e antecessor de Salomão. A intenção dos redatores destes
cap(tulos terá sido a de justificar a ascensão de Saloma'o ao tro·
no. Por conseguinte , na corte deste rei (970·9311. os oficiais ré-
gios terão elaborada tal relat6rio, movidos por tendências pol{·
ticas, econômicas e ideológicas.' Segundo Clévenot foram inte-
resses de tal tipo Que inspiraram também os redatores dos subse·
qüentes escritos b rblicos que trazem as siglas "E CElorsta) e O
(Deuteronõmio). Somente no e)((lio 1587 - 538 a.C. ' e após o
exílio, os sacerdotes e os escribas procuraram apresentar a his·
tória de Isra el como algo de sagrado o u como uma seqüéncia de
acontecimentos d irigidos pelo pr6prio Senhor Deus; assim fa·
zendo, introduziram na tradição de Israel perspectivas "idealis·
tas" e míst ica s, que não correspondem à genuína e primitiva
inspiração dos livros do Antigo Testamento.

I A ~Iavra "ldltOtOljli." .ilUmI vllrio$ $õenõ' ic«ios no VOCIbul'rôo cont • ."..


porâo~. Plra Clilvenol, el, , ". repreSlnt.il;1o QIoII .. penou fn.m d O mundo Im
QUI vi ... m " Ip.
341 ; 1,,11 l i go como filoUlIII.

- 503-
20 ·PIi:IH.iUNTI!: lo': H.ESPONOEHEMQSM 240/ 1979
Mais precisamente diz Clévenot: os redatores dos escritos
iniciais da B(blia compuseram sob Salomão o código dito Javis·
ta (jeovist8, segundo o tradutor brasileiro do livrol ou J. Este
código procurou harmonizar as facções dos israelistas do Norte
{oriundas de José e Efraim) com as facções do Sul de Israel (ori·
undas de Judá); em vista disto, esmeraram·se por mostrar artifi·
ciosa ou forçadamente que todas tinham os mesmos ancestrais
(Abraão terá sido um persongem lendário 1), com direito ã posse
da mesma terra e ao cumprimento das mesmas promessas; terão
experimentado a mesma libertação do Egito, cuhuando o mes·
mo Deus e segu indo uma mesma política . . . (cf. pp. 40·441 .
O código E, escrito no reino do Norte após a mone de Sa·
lomão e o cisma das dez tribos 1930 a,C,), exprime a mentalida·
de antidav(dica da população da Samaria e exalta os persona·
gens tlpicos das tribos setentrionais (José, Efraim, Manassés,
Elias... 1.
o c6digo deuteronômico O (ot 12-26) deve ter sido pro·
duzido na região do Norte de Israel, mais ou menos na mesma
época que o documento E. Visto que teve origem em ambiente
de camponeses, exprime a consciência de que a chuva e o sol são
uma dádiva . A própria vida é, antes de mais nada, uma dádiva;
em conseqüência, a vida social ou a possibilidade de vida pacata
entre os clãs se baseia na dádiva reciproca. Introduziu-se assim a
filosofia da dádiva em Israel, que Clévenot opõe à fil osofia capi·
talista da troca ou da venda.
Finalmente o documento P (sacerdotal) se deve aos sacer·
dotes que reelaboraram as tradições de Israel durante o exUio
(587-538 a.C.) e depois. Esses autores acentuaram fortemente a
idéia de pureza ritual e exprimiram uma concepção mágica do
universo; a vida e a morte estariam ligadas às potências misterio'
sas que governam o mundo.
Quase todos os demais escritos bíblicos e ap6crifos de Isra·
el ter·se-ão formado em época posterior ao exílio, dando expan·
são aos sentimentos do povo de Israel submetido ao jugo de do·
minadores estrangeiros. Os sacerdotes, que estavam no poder em
Israel após o exílio, transformara m os escritos hist6ricos e legis·
lativos de Israel em " lei de Deus." ou palavra sagrada, caída do
1 AlLrr1'llçlo gr. tui1l, nlo comprovld •.

504 -
(ENFOQUES MATERIAUSTAS DA BJBUA :o 21
céu . - Ora a leitura "idealista" da B(blia aceita esta suposição.
propalada pelos sacerdotes. A leitura materialista, porém, remo-
ve tal hipótese: ela afirma que os escritos de Israel não são mais
do que o testemunho de grupos sociais que pugnavam entre si
numa luta de classes. Portanto, através da leitura da B fblia
desembaraçada das explicações dadas pela classe dominante dos
sacerdotes e idealistas, o estud ioso descobre a real e autentica
hist6ria de Israel nos seus n(veis econômico. pai itico e ideol6gi·
co (cf. pp. 29,.1.
Afirma Clévenot :
" Uma dlS metas do nosso trabalho 1& desarmar a leitura idealista da
B(blia. Nós o fazemos a partir de lugares Imaterialinas) de luta atuais. 8 SO·
bretudo con1fa O oi parelho polCtico eclesiAnico" (p. 301.

Clévenot e ncerra a primeira parte do seu livro descrevendo


a organização sócio-pol rtico-econômica da Palestina anterior a
Cristo, ou seja, o fundo de cena 80 qual sobreveio a pregação de
Jesus de Nazaré . Assim o leitor do livro tem os elementos opor·
tunos para passar à segunda pane da obra, que aborda o Evange·
lho de São Marcos . .. . lido , naturalmente, à luz do materialis·
mo.
Proporemos, pois, sumoiria análise dessa segunda parte do
livro.

1.2. "O Evangelho segundo Sio Marcos ou um Relato


da PrAtica de Jesus"
Logo de in (cio (p. 79) o autor diz que, provavelmente,
Marcos não é o autor do Eva ngelho a ele atribu ido ; Marcos seria
"pseudepígrafe"l
Para entender Me, Clévenot se vale da d istinção entre rela·
to e discurso. " proposta pela lingüística contemporâneó para
analisar as diferentes formas de produ ção textual " (p. 81).
O relato usa a terceira pessoa e os verbos no aoristo (ou
perfeito). Refere acontecimentos ou práticas. Ao contrário, o
discurso caracteriza·se pelos pronomes eu e tu, pelos demonstra·
tivos e pelos verbos em todos os temoos menos o aoristo.
Ora , diz Clévenot, o Evangelho segundo Marcos é um rela·
- 505-
22 .PERCUNTE E RESPONDEREMOS. 24.0/ 19'19
to, e não um discurso. Com outras palavras: Marcos n$o refere
um ensinamento ou uma doutrina de Jesus, mas, sim, a prática
ou os feitos de Jesus. Tal conclusão corresponde bem aos prin-
clpios marxistas, segundo os quais a praxis tem primazia sobre
o logos ou a doutrina~ Para Marx , o que importa é fazer algo,
é revolucionar a ordem ou redistribuir a produção material; o
pensar é função da produção material ou uma superestrutura.
Jesus, portanto, veio agir e revolucionar, e não doutrinar. E"o
texto de Marcos... é o relato subversivo de uma prática subver·
siva" (p. 86). Tal é O sentido originário da redação de Marcos;
esta, porém, foi retomada pela ideologia dominante, que acres·
centou ao texto primitivo de Mateos epis6dios de rndole mito·
lógica, como o prólogo (Me 1, 2· 15: pregação de João Batista,
Batismo de Jesus, tentação no desel'to, in feio da pregação de Je-
sus)~ as profecias da Paixão (Me 8,31 ·39; 9,30-32; 10,32·34), O
epis6dio da transfiguração (Me 9, 2·13) ... Assim a prática mes-
siânica de Jesus foi ideologizada ou foi transformada em teolo-
gia .

A leitura idealista aceita ttanqüilamente essa teologia; ela


acredita na inocência ou na transparência do texto, utiliza os
olhos da fé ou do bom senso . Assim procedendo. os leitores
idealistas se iludem, como se iludem aqueles que só levam em
conta o preço de determinada mercadoria posta no comércio; na
verdade, para avaliar essa mercadoria, é prec iso levar em conta a
pré-história da mesma, ou seja. o uabalho de todos os operádos
que contribuiram para produzi-la.3 A fim de não incorrer no
erro dos idealistas, que do simpl6rios, os materialistas, diante
do texto de Marcos, procuram "encontrar o jogo dos c6digos"
ou dos fatores econômicos e pai it icos que o produziram; ':,pro-
1 Sfo pal.vrasdl e." ei!fdat pot OheflOI:
"A "!rUIU!1 «onbmiea di soeiededl' I cid. mo .... nlO I bI~ , ..1 qUI per-
mil •• Im C1lllrna a~U.., t:lCpUtlr todl. lupernUutur. dlt instituiçets ju.fdlcn, pc)-
tftias, como IImbtl'!'! dll Idfl" retigioSlI, fUo.of iell I out'IS d. cldl p"foóo hlrtó-
rico" IAml-Cüflrln, p _ 55. cilM» por Cl.... not. 11_ 139).

2 OMnDt julga QU' nJei epi16diot $lo ml,glógic05 por ClU" d. flgUrl di
Jgfg «no
Bltinl .,.1.
das,rlo. YI'I11do d •
1........101- Inftmo)" . nO qu".,..ec.m de ce"""o••• , • POr QUSI do
O EIp1rll0 . os 80'110. I Sul.
nqu"".
" cfu-

3 Qu.m , .... lI'!'! COO'lII ~ O p .eço eon-..nc:lonlll d, UmII mttcadorll, Mli!UI


I tl"O.i. do .....10. dt Iroe.l " , Itlo I , "dtfiO'l' • c.~ldtdt qUI 11m um obi'to d. ~r
lroeado por OUlrOI objltos . . .Im tr.nsforma todOI OI produtol do ".blll'Io huma'
no, ••,. OI lrabalhldOrel, om mIIrcaOorl81 vtndlWlil" lef, p. 99I.

- 506 --
_ENFOQUES MATERIALlST AS DA BIBLIM 23

çuram encontrar o trabalho que o produziu e as condições de


produção que o tornaram possfvel e necessário" lp. S61. Obser·
va Clévenot:

"1510 significa fin.lmente fazer uma leitura lubvenil/a, que escapa di


fascinação idlllista .... Nosso trabalho ser' o de retomar uma leitura que
tem ,ido govfrNdI h' séculos por todas as onodoxias e fazer reaparecer o
dinamismo subversivo de Marcos. Em outros termos, mostrar como o reli'
to da pritica de Jesus produziu (e continua I produzirl e $ubversio dos c6·
digos dominlnt~" (p. 861 .

Postos estes princípios, Clévenot se volta para a análise do


texto de Marcos :
Põe em relevo todos os conflitos de Jesus com os fariseus
ou com a classe dominante e a ordem vigente em Israel : assim as
cinco controvérsias de Mc 2,1·3.6. que acabam com a decisão de
condenarem Jesus à morte (cf. Mc 3,61; a réplica do div6rcio
(cf. 10,1 · 121. a advertência aos ricos (cf. Mc 10,17·221. a defini·
ção de autoridade·serviço (cf. Me 10,41 ·45), a purificação do
Templo {cf. Mc 11, 15·191. a parábola dos vinhateiros homici·
das (cf.. Me 12, 1·12), o pagamento do imposto a César (cf. Me
12, 13·171. o verdadeiro sentido da lei (cf. Me 12, 28·341. a
critica aos escribas (cf. Mc 12.38401. o 6bolo da viúva (cf. Me
12, 41-44) ... Em todos esses casos, Jesus tocava o âmago da or-
ganização econômico·poHtico·ideoI6gica da Palestina no séçulo
primeiro. Ele preconizava o sistema da dádiva em lugar do siste·
ma da compra . Com efeito. antes da multiplicação dos pães, os
ap6stolos sugeriam a Jesus que mandasse a multidio comprar ai·
guma coisa para comer (Mc 6, 36), e falaram de duzentos dená·
rios (Mc 6. 37); ao que Jesus respondeu: "Dai·lhes v6s mesmos
de comer . . . Quantos pães tendes? Ide ver" (Me 6. 37s) . Jesus
assim recorria a uma estratégia comunistal

Finalmente Jesus morreu como se fosse um zelota: "Real·


mente a crucificação é a molte que os romanos davam aos escra-
vos foragidos e aos zelotas ... A inscrição do motivo da conde-
nação 'O Rei dos Judeus' 115,26) é tipicamente zeJota"
(PP: 128s).

E. claro que, segundo o enfoque materialista, Jesus não res·


suscitou corporalmente dentre os mortos. As notic (as de ressur·

- 507 -
24 • PEUGUNTE E HESPONOF.Rf':r.1OS'; 24011979
reição em Me significam apenas que, após a morte, "o corpo au-
sente de Jesus continuará a transmitir sua força através do relato
de sua prática, continuando pelos discípulos entre os pagãos"
(p. 130).

Foi por isto que as mulheres se amedrontaram; elas não vi·


ram mais Jesus após a morte do Senhor... Seria necessário par-
tir pelos caminhos do mundo contando apenas com a inacreditá-
vel promessa , feita por um jovem vestido de branco, de que a
força de Jesus precederia os discfpulos em todos os cami-
nhost . _ .

Pelo mesmo motivo o Evangelho de Marcos não tem fecho .


Termina em Me 16,8; a secção 16, 9 -20,que se lhe segue, não é
da mão do evangelista, mas foi acrescentada por um discípulo
que não compreendeu o pensamento do mestre. A prática de Je-
sus se prolonga na prática de todos os "cristãos"; por isso O
Evangelho de Marcos permanece inacabado:
'·S. o relato da prética de Jesus permanece aberto. nlo é um mero
aessa ou esquecimento : é porque depois d. morte de Jesus e de sua 'ausim·
cia' corportll no seio dos seus, sua pre500C8 continua sob uma outra forma,
e o relato de sua pr6tica prossegue·se entlo através do relato da prática da
todos os 'cristãos' .. (pp. 89sl .
E Qual seria a autentica prática dos cristãos?
Clévenot responde que ela consiste em fé, esperança e cari-
dado.. _, entendidas, porém, em sentido materialista.
Fé.. _ Esta supõe o escutar e o ouvir a palavra (cf. Me
4,15s: a parábola do semeador) . Todavia só se tornam discfpulos
os que saem do círculo da classe dominante. A prática da fé,
penanto, é a prática ideológica dos olhos e dos ouvidos.
Esperança... ~ a prática pol{tica ou dos deslocamentos há·
beis e estratégicos.
Caridade• . , E a prática econômica das mãos. E o trabalho
que transforma os corpos.
O problema do cristão, portanto, é o de "descobrir Qual se-
rá a sua prática em cada um dos três níveis e qual a rela,ção que
essa prática mantém com o relato da prática de Jesus" (p. 1421.
Conclui Clévenot:
- 508-
- J,,;Nt"OQUES MATERIAI..IST,\S DA BIBLIA ~ 25

" Por c:onlevul,n., Un'III Ilit urII m.ttrllh... nunu pocMo _ lesar'" d. UmII
ctrt. p~tka «on6ml~ , polita li~ .... E n. ft'IIIdldl Im qui Iutlmol poli"
luprimir I 1Od1dld. de c l _ li I 'JCptor.çSo dO halMm pelo hei",,", qUI 'ImoS
VOnlldt di reflr lind. hgJ, I m dia uns I... tos OM' velo • lU! um destlo QUI foi
IUfid."ttmentt fo". poIIrl , fron llr. mon." lp. '431,

Quanto à Divindade de Jesus, entende-se que, para Cléve-


nOI, seja tão somente um título que foi atribuÍdo a Jesus pelas
comunidades cristãs primitivas, Corresponde às tendencias teo'
logizantes e mitologizantes que su rgiram na primeira geração
cristã. Já Paulo em 1 Ts 1, l,ou seja, noanode51 , falado "Se-
nhor Jesus Cristo" , As razões deste fenômeno, segundo Cléve-
not, são as seguintes:
No nível econômico , a maioria dos cristãos era recrutada
entre as camadas mais pobres das populações mediterràneas;
por consegu inte, os cristãos não poderia m provocar nenhuma
mudança nas forças de produção. Isto acarretava , no nível pai f·
tico, a total capitulacão frente ao Estado Ro mano, apo iado pelo
exército. Por conseguinte, os cristã os, bloqueados nos setores
econômico e polhico, haviam de se recuperar no plano Ideológi-
co; eles fariam da mensagem de Jesus uma "religião d e salvação",
semelhante às que existiam no Oriente (cultos de mistérios). A
prática messiânica 'foi, por isto, ideologizada; isto é, "foi reto-
mada dentro do discurso teocêntrico, o que se chama de 'teolo-
9ia' " (p , 134) _
Assim se constituiu "o Crist ianismo como uma prática de
caráter predominantemente ideol6gico. Um dos indlcios mais
claros é a progressiva transformação, pela teologia, do assassina·
to de Jesus em morte predestinada, sac rifi cia l no sentido do siso
tema de pureza, sangue derramado 'pela remissão dos pecados'
IM ' 26.28)".
Desta forma parece estar su fi cienteme nte exposto o pen-
samento de Michel Clévenot. Interessa agora propor-lhe alguns
comentários.
2. Qua dizer?
Teceremo5 cinco considerações em torno do livro de M.
Clévenot:
2.1. Preconceitos anticientffiCO$
O trabalho cienttfico é, tanto quanto possível, objetivo;
deixa-se guiar pela realidade do seu objeto, que vai sendo aos

- 509-
26 l'E llta:N n : E HES I'()rJl)l::!tp UJS :.!·11)/ 191\.1
poucos descoberta. O cientista tem que considerar o seu tema
de estudo com a mente destituídade qualquer tese preconcebida.
Ora não é o que se dá no caso de M. Clévenot. Este se volta
para o Evangelho e para as Escrituras e m geral no intuito de en·
quadrar os escritos sagrados dentro de categorias "pré-fabrica-
das", Com efeito; segundo a escola materialista, toda a história é
o resultado da luta de classes, movida por fatores econôm icos,
pai iticos e ideológicos : " T oda sociedade (ou formação social) é
um sistema complexo de trocas a três níveis : econõmico·políti·
co-ideológico" Cp. 34) ,
Ora tais premissas não são demonstradas pelo autor (pode-
riam mesmo ser contestadas por outros), mas são assumidas por
Clévenot de maneira dogmática e rígida para interpretar as Es·
crituras.
Uma tendência hermenêutica bfbl ica procura, antes do
mais, entender o texto sagrado a part ir da mentalidade dos auto-
res que o compuseram , Orã os escritores bíblicos t inham não 50'
mente interesses econômicos e polhicos, mas possuíam também
concepções d e fé e de religião muito vivas, Sabe-se que todos os
povos na antigüidade eram dotados de profundo espírito religio-
so (embora, por veles, aberrante ou ma l orientado) . Especial-
mente o povo de Israel, através de todos os tempos, se mostra
como povo religioso. Com efeito; Israel era uma nação pequena,
destituída de poderio mil ita r ou científico na era pré·cristã; não
obstante, desempenh ou papel importantíssimo na hist6ria ante-
rior a Cristo, porque foi o baluarte do monoteísmo em meio a
povos politeístas ou pagãos; o que fez a ide ntidade e a grandeza
de Israel no mundo pagão, foram as suas elevadas concepções de
Deus, de ~rovidência , de salvação. de história, etc .1 Foi também
po r causa das suas crenças religiosas que Israel cultivou a histo·
riografia como nenhum outro povo do Oriente antigo; <I histo·
riografia de Israel, relativamente concatenada e fiel, exprimia a
consciência israelita de que a hist6 ri a é o cenário de longa inter-
venção de Deus neste mundo,
Quem não compreende isto, arrisca·se a passar ao lado dos
escritas sagrados de Israel sem penetrar no seu àmago.

1 Aliás . !)Ode'se d iur Que Ilé hojl t a rel igilo QUI mlll nltm I ,,~el n, Sul id.n.
I;d..:ll inconfundlvol: d ispI ..OI pilo mundO Inui,o. fal.rodo • I fr>gu lI d o pollO com O
qual vivem. OI judeus co nse,vl m iI conse i/mci. de lu. I;ngu la ridadl po, cau.. do pll'
t,imbl"llo religioso flu e. e~pl lciu ou impl ici tilfTlll"". ,tel estimam I cultuam.

- 5 10 -
· ENFOQU ES MATERIALISTAS DA BIBUA . 27

2.2. Jesus subversivo


Ultimamente muito se tem escrito sobre as atitudes de Je·
sus frente às institu ições de seu tempo : terá sido um revolucio·
nário pol(tico ou social?
Embora alguns autores afirmem isto, outros, de boa escols,
o negam, apoiados em dados objetivos e s6lidos. Assim Oscar
Cullmann, Manin Hengel, P. Biga, P. Grelot, B. Ferrara . . .
Tenham-se em vista os dizeres de Jesus no serm30 da mono
tanha (Mt 5-7', em Que o mestre apregoa não a violência, mas o
amor. .. até aos inimigos; Jesus reconhecia a autoridade c:ivil ,
mandando pagar a César o que lhe era devido (cf. Mc 12, 13-17;
Mt 22, 15-22' ; Jesus não pregou a mudança violenta das estrutu'
ras sociais, econômicas e pollticas do seu tempo. Verdade é que
a doutrina religiosa de Jesus tinha, e tem, conseqüências paUti·
cas, pois ela incita os cristãos a construir um mundo melhor,
mais justo e mais fraterno. - A propósito citamos, em vista de
ulteriores informações, PR 229 1978, pp. 3-17 ê a bibliografia
deste artigo.
Dizer, pois, que Jesus se interessava apenas pelas realidades
terrestres (na procura de uma práxis marxista) e que os traços
teol6gicos da sua mensagem são posteriores â sua morte, , o
mesmo Que violentar o texto do Evangelho em função de pre·
missas dogmáticas materialistas; jamais poderá ser tido como re·
sultado de trabalho sério e científico, como não é trabalho cien·
tífico enquadrar o vocábulo library (biblioteca, em ingles) den·
tro das categorias dê livraria só pelo fat o de Que o leitor usa ha·
bitualmente a I fngua portuguesa.

2.3. Bibliografia
Os dizeres acima são corroborados pelo exame da biblio·
grafia aduzida pelo autor. Este pretende tornar mais acesslvel o
pensamento de Fernando Belo, pioneiro dos estudos materialis-
tas sobre S. Marcos. Cita, n30 raro, Marx e Engels; parece, po-
rém, desconhecer, por completo, os estudiosos Que se consagra-
ram na exegese de Marcos, entre os quais sobressai V. Taylor na
obra The Gospel According to St. Mark . . London 1955. Aliás,
Clévenot pretende ter descoberto S. Marcos; por isto se desliga
de todos os estudos anteriormente feitos sobre o assunto. Tal

- 511 -
28 - I'EIV:I/N'I'E J.: RESI 'VNPEIlI:.:MOS. 2.fOIl!)??
posição resulta de um "8 priori", que, como dito. não é cientifi·
co.
2.4. Pontos particulares
Convém ainda mencionar a forma como o livro é apresen·
tado em português. Oir·se- ia Que o tradutor não conhecia o as·
sunto em pauta, de modo Que entregou ao público um livro mal
apresentado. Tenham-se em vista os seguintes tópicos ;
P.49: "Crianças de Israel" traduz "enfants d'!srael" • fi·
lhos de Israel.
P.9S: o corpo de Jesus foi untado , quando, na verdade, se
diria ungido.
P.78: o autor não traduziu diacres (. diáconos), mas dei-
xou este vocábulo estranho no texto portugues.
P.77 : os filipenses ('" habitantes de Filipos) são apresenta-
dos como filipinos (adeptos do rei Filipel_
P.78: lê-se "presbíteros, de onde vem a palavra padre". Na
realidade, de presb)tteros faz·se a palavra prAta francesa, não
porém, padre. O vocábulo padre vem do latim peter.
P.78: Flavia Domicilia aparece em lugar de ... Domitila.
P.71: lê-se "reino de Nero" em lugar de "reinado de Nero",
visto que o francês s6 tem o vocábulo régnepara significar reino
e reinado.
P.54: Cirus, em lugar de Ciro.
P.57: Titu'S, em lugar de Tito.
Verdade é que estas minúcias não afetam o conteúdo da
obra, mas são ind ício de que o tradutor e os editores não se im-
ponaram com o caráter científico dessa publicação; n30 tiveram
a preoc upação de torná·la uma obra de peso, mas a entregaram
ao público como um I ivro barato de vulgarização mal editado.
Um estudioso sério tem o direito de exigir que as obras que pre·
tendam merecer atenção, sejam devidamente apresentadas.
2.5. Visão de fê
Por último, observamos ser inconcebrvel para um fiel catb-
lico uma leitura materialista do Evangelho ou da Bíblia. O mate·
rialismo nega Deus e os valores da fé, relegando-os à categoria de
mitos e ideologia (- explicações subjetivas produzidas por popu·
lações ignorantes) . Ora, para o cristão, a existência e a revelação
de Deus são as primeiras de todas as premissas; por conseguinte,
- 512 -
_____. -''~E~
N~"~
O~(I~lI~.~~·~'~I~A~
'r~"~It~IA~I~
-I~
S~T~A~
S~I~)A~I~II~"~L~IA
~'______~29
..
se Quiser optar por uma leitura materialista da Siblia. ou deixa-
rá de ser cristão ou não estará sendo um "leitor materialista" ,
Mais: para o cristão. a Bíblia só tem sentido na medida em
Que é a Palavra de Deus. Gue manifesta aos homens o seu des"g·
nio de salvação. O cristão que não se disponha a descobrir i$1o
na Siblia. não precisa de ler as Escrituras. Diríamos mesmo:
... não de"eria ler as Escrituras. caso tencionasse fazê·las um
manual de praxis marxista .
Esta pode ser arquitetada sobre premissas pr6prias. de mo·
do a não necessitar do subsíd io das Escrituras; estas são violen-
tadas e deterioradas, se o estud ioso as analisa em conte xto mate-
rialista.
São estas algumas ponderações que nos ocorrem a propós.i·
to do livro de M. Clévenot, que carece das. mínimas. condições
para poder fazer frente aos grandes comentârios bíblicos até ho·
je publicados.
Bibliografia :
BOF F, CI., Foi Jesus revolucionário? in REB 31, 1971 ,
97 ·118 ..
CULLMANN, O., Jesus e os revolucionários do seu tempo.
- Ed . Vozes, Petr6polis, 1972.
DE LA CALLE, FR ., A Teologia de Marcos. - Ed . Pauli·
nas, São Paulo 1978.
DE VAUX , R., Les institutionsde l'Ancien Testament •. 2
vais. - Ed . du Cerf, Paris 1958.
GONÇALVES, O. L., Cristo ea contestação polltica.
Ed . Vozes. Petrópolis 1974.
GRELOT, P.• Introduçio à 8fblia. - Ed . Paulinas, São
Paulo 1971.
HENGEL. M., Foi Jesus Revolucion~rio7 - Ed. Vozes, Pe·
tr6polis 1971.
KIPPER, J.B., Atuação poUtica e revolucionAria de Jesus?
in Perspectiva TeolÕQ.ica., ano X, nC? 21. maio·agosto 1978. pp.
275·306,
LAPPLE . A.• Mensagem b(blica para o nosso tempo. Ed .
Paulistas, Lisboa 1968.
TAYLOR , V., The Gospel According to St. Mark. London
1952.
TROCME. A., Jesus Cristo e 8 revolução nio·violenta.
Ed. Vozes, Petrópolis 1973.

-513 -
Enfoque novo:

"o evangelho à luz da psicanálise"


por Françoi.e Oolto

Em ~{ntese: O livro em paula tenciona apresentar episódios dos _


Evangelhos como s(mbolos de situações psicológicas estudadas â luz da
doutrina de Freud. A autora não se preocupa com as intenções dos evaoge-
Ihistas nem com 0 5 interesses dos imediatos leitores dos Evangelhos, mas
incute &O texto sagrado as categorias de pensamento freudianos, especial-
mente a do panlexualismo. Ora é evidente que tal obra nlo pode ser
considerada como obra de exege5e b(bliea , pois ela nada tem Que ver com
o autintico conteúdo dos Evangelhos. Fr.nçoise Dolto serve·se do tuto
bfblico como pretexto para Pfopor consjderaçõ~ psicanaUticas•

Comentário: Ultimamente alguns psicanalistas têm procu-


rado fazer sua "releitura" do Evangelho} Consideram o texto sa-
grado à luz das premissas de Freud , descobrindo assim um "sen·
tido novo" das páginas bíb licas. Entre as tentativas menciona·
das, sobressai a de Françoise Dolto, psicanalista especializada no
tratamento de crianças, membro da Escola Freud iana de Paris, e
também a primeira psican.tllista a fazer uma con ferênci a no salão
de Saint· Louis des Français em Roma (abordando então o tema
"Vida espiritual e psicanálise"). O pensamento de Françoise
Dolto exprime·se no livro "O Evangelho à luz da psicanálise"
!tradução do francês por Isis Maria Borges Vincent e Anamaria
Skinger. Imago Editora Ltda ., Rio de Janeiro 1979,
140 x 210mm, 159pp.). Esta obra resulta de uma entrevista â
psicanalista dirigida por Gérard Sévérin, também psicanalista e
membro da Escola Freudiana de Pari s.
Visto Que o livro tem despertado interesse no Brasil , va·
mos, a seguir. propor· lhe breve co mentário.

1 Ali'I, algo d • ..."lllutnl1 11m IICOnlld d o nll "":: 01., "\lII' r l.Ull" I ,,"U 1U'
'''''111, como SI podl" d"P_der do anlgo d. PR tobre "Enloqu.. ITIIIt .... i.lln.. da
n.,,,
Slbll." 'IElculo.

- 514 -
.. Q ":VANGELHO A LU?, pA PSICANÁLl!:>Jo;- 3\
1. Ponderações gerais
Gérard Séverin apresentou a Françoise Dolto alguns episó·
dias do Evangelho a ser focalizados à luz da psicanálise. a saber:
A Sagrada Família fLc 1.26-38; Mt 1.18·25). o encontro de Je·
su.$ no Templo aos doze anos (Lc 2.42-52), o modelo dos peque·
ninos{Mc 10,14$; Mt 19,45). as bodas de caná (Jo 2.1·11),
Jesus pregado à cruz (Jo 19,33·37; Mt 27,45-501. a ressurrei-
ção do filho da viúva de Naím (Lc 7,11·16) , a ressurreição da
filha de Jairo (Mc 5.21·34). a ressurreição de Lázaro (Jo 11.1-44),
<l unção de Jesus em Betânia {Jo 11.45·53; 12.1 ·81 eo Bom Sa·
maritano (Lc 10.25-37) .
Quem lê as explanações de Françoise OOlto, tem a impres-
são de que o texto do Evangelho se torna. para essa autora.
pretexto .... pretexto para desenvolver considerações p$icana-
liticas. Na verdade, Françoise Dolto e Gérard Sévérin, em nota
preliminar (p.51, declaram que não tencionam pronuneiar·se
sobre a historicidade das narrações do Evangelho. Apenas se
interessam pelas cenas do Evangelho na medida em que estas
parecem propor simbolicamente situações psicológicas, que
Françoise Dolto enquadra dentro das teses da psicanálise.
A autora não se preocupa com as in tenções dos evangelistas,
nem com a problemâtica dos leitores imediatos ou as
circunstâncias de origem dos relatos evangélicos.... elementos
estes indispensáveis para que se possa entender o Evangelho;
a sadia interpretação de textos ou hermenêutica tem, como
primeira norma, a de se reconstruir o ambiente Que deu origem
ao texto em foco. Visto que Françoise Dolto não o fa z. deve-se
dizer que as suas considerações nada têm que ver com o conteú'
do dos Evangelhos. Um estudioso d igno deste nome jamais
dirá que as reflexões da autora constituem a exegese ou o
comentário do texto sagrado. Tais reflexões derivam·se de
teses freudianas e têm como base o pansexualismo ou o
pressuposto de que todas as expressões do ser humano são
motivadas por impulsos sex.uais. Ora ma tese é arbitrária e fal-
sa. pois no ser humano há, sem dúvida, tendências que não são
erotizantes ou libidinosas nem mesmo indiretamente (embora
tudo o que a pessoa humana faz. tenha o ca ráter da respectiva
masculinidade ou feminilidad~) .

- 515
32 I'J-:IlO UNTt: l:: IU;SPONIJEItEMOS .. 240/1979
Compreende-se, pois, que o texto do Evangelho. lido a
partir de premissas a ele estranhas venha desfigurado.
Para ilustrar o trabalho de Fr. Dolto, tomamos a liberdade
de lembrar o seguinte :
Sabe-se que muitas pessoas simplórias interp retam deter-
minados textos como se tivessem sido redigidos de acordo
com as suas categorias de pensa mento pessoais. Assim pro-
cedem, por exemplo,
- aquele qu e, lendo bois ' '" bosques~ num texto frances.
julgu e tratar-se de bois em português;
- aquele que traduza o vocábulo italiano guardare
l-olhar) por guardar;
- ... ou subire f-sofrer) por subír,
- ." ou saUre (- subir) por sair,
- ou apposta( .. exatament e) por aposta,
.'0

- ou fermasi (.. parar) por firmar-se,


o-o

- ou pregare (- rezarl por pregar,


0'0

- .u ou pigliare (-tomar) por pilhar,


- ... ou suono (-som) por sono,
- ... ou rata { - parçela) por rata.
- ... ou o inglês librarv (-biblioteca) por livraria ...
Ora dir·se·i a que algo análogo acontece com Fr.ançoise
Dolto quando tenta interpretar o Evangelho . E o que mais
ainda se evidenciarti mediante a citação de alguns exemplos
t rpicos.
2. Espitcimens "exegéticos"

2. 1. A ressurreição do filho da viúva de Narm

Este é um dos episódios que mais parecem prestar·se à


hermenêutíca de Fr. Dolto.
O filho da viúva de Naim é, para a autora, o símbolo do
filho da mãe possessiva. A viúva de Naím. tendo perdido o
marido, queria ~tisfaz er a seus desejos mediante o filho que ela
gerara; ela barrava os caminhos do jovem e o impedia de con·

- 516 -
. 0 EVANGELHO À LUZ DA PSICANÁLISE" 33
quistar seu destino fecundador. Ora , diz Fr. Oolto, "Jesus reve·
la c dá a esse jovem, através de seu apelo imperativo e público,
a estatura de homem livre, estimulando:o a construir uma nova
vida num sociedade perplexa ...
Desperta esse coração abortado para a sua virilidade cor·
poral. Todo jovem tem esse conhecimento, que é o próprio
testemunho de seu sexo, pois o sexo é visível e se ergue na sua
carne. Mas que fazer quando nenhum homem o inici a na lei da
carne?" (p.87) .
Se O jovem de Naím fosse sadio. ele devia ter fugido e
abandonado a mãe, em vez de se tornar o seu arrimo ou o bácu·
lo da sua velhice (cf. p. 93 e 85) .
Não discutiremos o conteúdo das afirmações de Fr. Dolto.
Interessa apenas salientar que a interpretação da autora está
longe de traduzir o genuíno significado do Evangelho, como a
tradução guardar está longe de exprimir o significado do italiano
guardare.

2.2. A ressurreição da filha de Jairo


Segundo oolto, Jairo é um pai " possessivo'·, que prejudica
a saúde psicossomática de sua filha . Ele não fala da mãe da
menina; diz "minha filhinha está nas últimas", porque ele faz as
vezes da genilora.
··Sozinha e sem ajuda extra·familiar. a filha de Jairo sb pode
se desyitalizar. Seu pai a ama com um amo r que podemos definir como
inc:enuoso inconseierue, com \.Im amo r de est ilo libid inal (l ral e anal.
que fn dela sua prisioneira em ;aiola de ouro" (p. 104) .
"Jairo 1'\10 pode suportar que sua filha cresça. que ela escape tOrna0'
do-se núbil. depoil mulher. depoil mie" (p. tOSI.
Ora, segundo Fr. Oolto. Jes us libenou o pai da sua é1 titu·
de possessiva e, conseqüentemente, também a menina . E assim
que a autora parafraseia as palavras de Jesus a Jairo :
"Tem fê em ti, na tua força de homem e de esposo, e tua fitha
viverj. Ou melhor: se tens fé em tua força de esposo. poderás dizer a tua
filha: ' Minha filhinha, és leminina, mas nSo para miml' E ela poder. viver
para umouuo" (p, 109),

- 517 -
34 · PERGUNTl: E RESPONDEREMOS.\) 240/ 1979

Observamos: Fr. Dolto tem o direito de conceber a histó-


ria de um pai possessivo em relação à sua filha para tecer consi·
derações psicanal(ticas. Mas com que fundamento julga ela que
tal era Jairo? Por que apelar para Jairo e o Evangelho no intuito
de fazer ponderações psicanalfticas? Oue neçessidade há de en-
volver artificialmente o texto sagrado nessas elucubrações?

2.3. A ressurreiçio de Lázaro

Segundo Françoise oolto. os irmãos Lázaro. Marta e Maria


constituíam um trio neurótico (cf. p. 124). Lázaro se apegara
a Jesus com amizade passional narcísica, de modo que, separado
de Jesus como um bebê do seio materno, Lázaro se deixou
morrer (cf. p. 120). Jesus também experimentava algo de
narcísico.
Para ressuscitar Lázaro, Jesus teve que se livrar da sua
própria placenta, foi obrigado a reviver seu desapego de crian·
ça arraigada ao útero humano. Ele tremeu e chorou (cf. p. 125) .
Ressuscitando Lázaro , Jesus o libertou do apego para com
Jesus e suscitou nele o desejo de se realizar na vida em relação
com os outros (cf. p. 124).
Não nos podemos furtar a transcrever mais uma passagem
do livro em pauta, t'pica da mentalidade e do linguajar da
autora :

"Observe·se que, na ressur,içã'o d. üzaro, Cisto também se cutra.


Ele se separa do que resta de carnal no amor que ele nutre por eue ho·
mem, e 5e $flpira dessas mulheres que o adoram e cuia casa era pau ele
um lar caloroso.
Em outra passagem, MS o vimos castrar o filho da viuva de Naim
e ele lhe aplica a casuaçio uretrO '11UI1 e genital.
Ele imp6. o desmente de SI\l pai , fi lha de Jairo: é a castração
oral. Par, I jov.m, qUlndo ena ruptura .m r.lação 80S. pais é bem feita.
ele ocasione também e Clltraçio g.nital, se o pai fo r castrado do desejo
que nu're por sua filh e.
A LJzaro .1. impl5e a castraçio fetal, cujo vl5t19io é o umbigo:
.1, " também a provI do luto realizado em relação com a .xpulsão com a
I xpullio dOI invól ucros amnibticos" (pp. 12451.

- 518 -
.0 F.:VANCELHO A LUZ DA PSICANA LISE_ 35

3, Conclusão
Não há necessidade de comentários para evidenciar quão
despropositada é tal hermenêutica , A psicanálise lida com sim-
bolos. Por isto Françoise Dolto faz do Evangelho um repert6rio
de símbolos psicanalíticos... Melhor fora que se servisse de ou·
tro livro para tal fiml
Todos os capítulos do livro desenvolvem-se no mesmo es'
tilo... Principal mente o cap o 1!', que trata da Sagrada Família.
se presta a estranhas e obscuras d ivagações da parte da autora.
Em srntese. o livro poderá parecer interessante aos culto·
res da psicanálise por causa da criatividade e originalidade
que ele exprime, Objetivamente falando. porém, é obra que,
embora trate dos Evangelhos. nada significa para a compreen·
são e a exegese do texto sagrado. Achamos, pois. estranhas as
afirmações encontradas nas orelhas da obra em foco :

"Neste livro, Françoise Oolto prOpÕe uma chave para se descobrir


Jesus de um modo diferente... Desde a publicaçio desle livro, 0$ fiéis,
padres ou le igos. assim como os desaenles, Que se inleresslm pelo aCO!1-
Iccimcnlo cultura l em si, "50 rmi, poderão aborda. o Ellantlelho como
se Françoise Oolto não O tilJesst lido".

Observamos: depois que alguém traduz o italiano subire


Ou o francês subir pelo português subir, alguma coisa muda
no significado daqueles dois verbos estrangeiros? Sofrer tornar·
se-á subir por causa disso? Na verdade, s6 posso entender o
que seja subir em francês se interrogo os que conhecem a
lingua francesa e um pouco da sua história . Assim também s6
posso emender os Evangelhos se estudo a ambientação na qua l
foram escritos e. conseqüentemente, o método da história das
formas {Formgeschichtliche Methoda' ; um exegeta tem o di-
reito de propor novas interpretações do Evangelho desde que
parta de premissas genuinamente exegético-biblicas. ou seja,
desde que recorra ao instrumental específico dos estudos
bíblicos, caso isto não se dê, as suas teorias serão vãs, como
vã será qualquer tentativa de entender o guardare italiano a
partir do guardar português!

519 -
Um. reformul.çio hist6rica:

.. idade média: o que não nos ensina·


ram"
por Régine Pernoud

Em dntes.: O livro de Régine Pernoud em loco sugere !lO leitor


uma revisão do conceito pejorativo de Idade Média que comumente é
Pl'opalado. Tal noção se deve, em parte, a preconceitos de pensadores
dos séculos XVI e s~uinles. os quais, movidos por premissas antic.tÓ·
lícas e antie:ristãs. tinham interesse em denegrir a Idade Média. Esta nio
fo i perfeita (pois nada do que é humano é isento de falhas) ; todevh. não
foi bárbara nem obscurantista, como freqüentemente se diz. mas teve
gestos e- valores que suscitariam rubOr no homem moderno. Anim. por
exemplo, a Meral/atura romana extlnguiu·se no COm1!ço da Idade Média
para ceder 80 re-gime do servo da gleba (que re-speitava os direitos do
pequeno camponéS) ; todal/ ia foi restaurada no século XVI nas terras da
América, onde vigorou o colonialismo. R~ine Pernoud julga que o cultivo
do Direito Romano (Que teve in ício no século XI em Bolonha) contribuiu
poderosamente polra, aos poucos, desfazer as instit uições e os costumes da
Idade M~ ia Ascendente; o Direito ROmino finalmente fundamentOu o
menosprezo da mull'ler e o utros males Que tomaram pleno vulto a partir
do s6culo XVI.
O Pfe5ente artigo (anti! reproduzir I tese da autora e ilustrl'l me'
diante exemplos e dados coll'lidos no livro em pauta.

• •

Camentério: Régine Pernoud é especialista em estudos me·


dievais. Sua primeira obra, " Lumiere du Moyen -Age", publicada
em 1945, mereceu-lhe o prem io Fémina-Vacaresco de Crítica
e História. Em 1978, a autora editou "Pou r en tinir avcc le
Moyen-Age" , obra que lhe valeu o prêmio Sola-Cabia t i da ciade
de Paris e a consagração da critica como sendo uma das mais
notáveis conhecedoras da Idade Média . Tal obra foi traduzida
para o portugues co m o título "A Idade Méd ia: o que não n05
ensinaram". Visto que convida o estudioso a rever as concep'
ções comuns relat ivas à Idade Média. vamos, a seguir, propor as

- 520-
, WAOE MtDlA : o QUE NÁO NOS ENSINARA!\'" _37 _
linhas mais características desse estudo, acC'mpanhadas de con-
clusão final.

1, Idade Média: preeonceitos e lendas

A autora, no capítulo I. lembra Q conceito que geralmente


st tem até nossos dias com relação à Idade Média.
Esta equivaleria a mil anos de obscu rantismo: ... obscuran-
tismo intelectual, moral, cultural...
A grande maioria das pessoas que falam sobre li Idade
Média, nunca a estudaram devidamente. Mas apenas a conhe·
cem por "fama", fama esta que não corresponde aos resultados
das pesquisas historiográficas dos últ imos cento e cinqüenta
anos.
Para ilustrar este fato , a autora cita alguns episódios:
Certa vez Régine Pernoud recebeu telefonema de uma do·
cumentarista da TV, das mais especializadas em programas his-
tóricos.
"Parece-me. dine·me ela. que a senhora tem dispositivos. Terá, por
acaso, alguns querepre~nlem a Idade Média?
-(7?
_ Sim, que dêrn uma idéia da Idade Média em geral: execuções,
massacres, cenas de violtncia, fome, epidemias...
Não pude deixar de rir" Ip. 105s) ,

Conta ainda R. Pernoud :


"Era encarr-egada cio Museu da Fra~ no, Arquivos Nacionai,. hi
pouco tempo. quando chefIOU uma carla per9Untando: 'Poderia informar·
me a data do tratado Que marca olicialmente o fim da Idade Média?
'Havia ainda urm pergunta complementar : ' Em Que cidade se reu niram 0$
diplomata, qUI! prepararam esse tralado ?'
... 0 autor pedia uma resposta r.ipida. pai,. d izia ele. precisaria dl!$
desses dois dados para uma conferéncia que p retendia fazer em data muito
pró'l:ima" (p. 9).

Em suma, ê freqüente ouvirem·se observações como


"Não estamos mais na Idade Média" ou " ~ um retorno à
Idade Média" ou "e
uma mentalidade medieval " ,

- 521 -
38 I'I.;j{C;UNTJ:o.: ...:: Il(O;SPONIJJ:o.:Ht:MOS~ 240/ 1919

Aliás. a pr6pria designação "Idade Média" impHca um


ju(zo pejorativo sobre os mil anos em pauta. Significa, sim,
que entre a antigüidade greco-romana e o Renascimento da
mesma no século XVI tenha havido um período neutro, sem
cultura nem valores, mas torpe ou bárbaro . Note-se, aliás,
Que a divisão da hist6ria em três grandes per(odos (Idade
Antiga. Idade Média e Idade Moderna) foi proposta, pela
primeira vez, pelos humanistas dos séculos XV/XVI; 56 no
século XV1I foi introduzida em livros didáticos de Hist6ria
UniversaP . Não há dúvida, os humanistas renascentistas ten-
cionavam caracterizar a Idade Média como fase de escuridão
e estagnação cultural.

Em nossos dias, porém, há estudos que dissipam tal ima-


gem da Idade Média. 9 fato, pois, de continuarem em voga as
concepções pejorativas sobre tal per(odo deve.,e a certa roti·
na, que não se justifica. E: o que Aégine Pemoud observa:

"Há pouco tempo, um programa de televisão apresentava como


hist6rica a frase famo sa: ' Mata i-os todos. Deus reconhece rá os seus!'
durante o massacre de Bbiers em 1209. Ora, h' mais de cem anos leuta·
mente am 18661. em erudito demonstrou. acima de qualquer duvida,que
a frISe nio poderia tar sido pronunciada, já que não a encontramos em
nenhuma das fontes hist6ricas da época, mas Ipenas no Livro dos Millgres,
Oillotll,MlrlClllorum.um, cujo t itulo feia por si mesmo sobre o que pretl'tnde
dizer, composto IprOlCimadament. sessenta anos depois dos fatos pelo
monge alemio Cesário de Heisterbach, au tor provido de imaginaç'o arden·
te e bastante suspeito qUinto ti autenticidade hist6rica . Desci. 1866,
nenh'H"!' h iSl<1r'.w lo . " Ir vo u em conta o famoso 'Matai-os todos'; mn os
C!.C"lu,,". ,,' " ·.t, '" lI l .I" .lram ainda . hto bast .. para provar QuaOlo as
descolle!lit ~ <.:t cntiltcas, m:Sle caso, custam a penetrar no domínio públi·
co" lp. 161 .

Dos subseqüentes capítulos do livro. escolheremos quatro,


em que a autora aborda temas de especial interesse para o leitor.

'ef. CRISTOPI-IOFlUS CE L LARIUS. Hino,i . . .ntlqu". mfl!i... nou.


nlleltUl.. Senna '61516.

- 522 -
Jl)A!)": M!=:IlIA : o QUE NÁO NOS ENSINARAM ~

2. A Idade Mêdia 8 a mulher

Tal tema ê considerado no capítulo VI sob o titulo "A


mulher sem alma",
Régine Pernoud costuma distinguir no per(odo medieval
duas fases divididas entre si pelo ressurgimento do Direito
Romano, Este começou a ser cultivado em Bolonna, onde o
célebre legista lrinério fundou célebre escola de Direito Ro-
mano (1084) . A influéncia do Direito Romano assim reavi'lado
só aos poucos se tez sentir sobre a vida medieval , A aplicação
de seus principias à realidade civil e religiosa dos s&:ulos XII e
XIV modificou um tanto os costumes das épocas anteriores,
Todavia somente na segunda metade do século XV o Direito
Romano foi ampl amente adotado pelos juristas - o que teve
ulteriores con5eqüências no modo de pensar e agir da sociedade
em relação à mulher e a outros valores da sociedade,
"O Direito Romano.. , foi a grande tentação do pl!rfodo medieval;
ele foi estudado com er'ltusiasmo nio SÓ pela burguesia das cidades. mas
tlmbém pOr todos os que viam nele um inSlrumento de centfillizaçio
e de autorid.de. Ele se rtuente, eom efeito. das ,uas origens imperialil'
tas e - por Que nlo dizI!f1 - colonialisuu.. Ele' o Direito. por e.celén·
cia. dos que querem firmar uma iutoridadc central estatizada .. , Em mea·
dos do século XII, o Imperedor Frederico li, cujas tendêncla$ f:ram iIIS de
um monarca, fez deste tipo di Direito a le i c;;omum dos paises gerlT'li·
nicos" (p. 79$) ,

Feita esta observação , registramos com R. Pernoud o papel


eminente que certas mulheres desempenharam na Idade Média:

2. 1. Familias reais

Na fase anterior à do Direito Rotnana (fase que a autora


chama "tempos feudais") a rainha era coroada, corr.a o rei.
geralmente em Reims, petas mãos do arcebispo de Relms;
atribula·se à coroação da rainha tanto valor quanto ã do rei
(cf. p . 78) .
A medida que o Direito Romano foi ascendendo, a coroa·
ção das rainhas foi sendo considerada menos importante que a

- 523-
40 . PI!:RGUNTE J:: RESPONDEREMOS, 240/ 1979
dos reis. A última rainha a ser coroada foi Maria de Médícis na
véspera do assassinato do seu marido Henrique IV. No século
XVII a rainha desaparece literalmente da cena em proveito da
"favorita"l
Em sua época, Eleonora de Aquitânia (t 1204) e Branca de
Castela (+ 1252) exerceram autoridade sem contestação nos ca-
sos de ausência do rei, doente ou morto; tiveram suas chancela-
rias, suas alfândegas e seus setores de atividade pessoal.
A primeira disposição que afastava a mulher da sucessão
ao trono foi tomada por Filipe IV, o Belo (1285 - 1314), sob
a influência de juristas romanos. Na verdade, o Direito Romano
não era favorável ã mulher nem à criança; era um Direito mo-
nárquico, que exalte:va o patariamilias, pai, proprietário, chefe
da fam ília com poderes sagrados, $em limites no tocante aos
filhos (tinha sobre estes direito de vida e de morte) e â esposa.
Note·se ainda a propósito que somente a partir de fins
do século XVII a mulher toma obrigatoriamente o nome do ma-
rido.
2.2. A Igreja e a mulher

~ habitual d izer se Que a Igreja foi mlsogma ou hostil à


mulher até época recente. A mulher terá sido considerada uma
criatura sem alma! ...
Ora R. Pernoud observa que, entre os mais antigos santos,
se encontram as mánires Inês, Cecília, Agueda, Luzia, Blan--
dina ... Mais: Algumas mulheres (não necessariamente oriundas
de famílias nobres) desempenharam notáveis funções na Igreja
medieval. Assim cenas abadessas eram senhoras feudais , cujos
poderes eram respeitados como os de otltros senhores; usavam
báculo, como os bispos; não raro, administravam vastos terri·
t6rios com cidades e par6quias. Tenha·se em vista. por exemplo,
s abadessa Helorsa. do Mosteiro do Paráclito, no século XII :
além de exercer amplas funções administrativas. conhecia o
grego e o hebraico, que ela ensinava às monjas.

Outro caso merece espeCial registro: o pregador de peni·


tência Roberto de Arbrissel (+ "17) conseguiu levar tanta
- ;}2~ -
ciDADE MtDIA: O QUE NAO NOS ENSINARAM . 41
gente à conversão que houve por bem fundar a Ordem de
Fontevrault em 110011101 , com base na Regra de S. Bento.
Esta Ordem distinguiu -se pela penitência severa e pelos " mos-
teiros duplos": entre um cen6bio de homens e outro de mu-
lheres achava·se a igreja, único lugar em que monges e monjas
se pediam encontrar. Ora a direção suprema desses mosteiros
duplos competia, em honra da Santa Mã'e de Deus, à abadessa
de FonIevrault: esta devia ser viúva, tendo feito a experiência
do casamentol
Sabe-se também que havia na Idade Média Relig iosas
muito instruídas. Assim, por exemplo, a mais conhecida enci-
clopédia do século XII é da autoria da abadessa Herrade de
Landsberg; tem por título Hortus deliciarum (jardim de detl-
cias) e nela os eruditos hauriam os ensinamentos mais corretos
sobre o avanço das técnicas em sua época. Poder-se-ia dizer o
mesmo com respeito às obras de Santa Hildega(dis de Bingen.
Outra monja, Gertrudes de Helfta. no século XIII, conta-nos
como se' sentiu feliz ao passar do estado de "gramaticista"
ao de " teóloga"l POde-se mesmo dize:r que entrar para o mostei-
ro era o caminho normal das jovens que desejassem desenvol·
ver seus conhecimentos além do n ivel comum.
De resto, observe-se que a Idade Média se encerra com a
figura de Joana d' Arc (+ 1431), jovem que, nos séculos seguin-
tes, jamais teria conseguido obter a audiência e suscitar a con-
fiança que lhe foram outorgadas no século XV.
No fim da Idade Média e depois, os legisladores foram
retirando à mulher tudo o que lhe conferia alguma autonomia
ou instrução. A mulher foi exclu ida da vida eclesiástica e da "i·
da intelectual. O movimento se precipitou quando no começo
do século XVI foi reconhecido 80 rei Francisco I da França
0515 - 1547) o direito de nomear abades e abadessas; inspi-
radas por critérios poJ(ticos, tais nomeações acarretaram a
decadência de mui las casas religiosas .

2.3_Mies de famflia e camponesas


Através do documentário existente (cartulários, estatutos
das cidades, documentos judiciários_ .. ), podem-se colher porme-

- 525-
· PERGUNTE E RESPONDEREMOS. 240/ 1979
e
nores relativos li vida cotidiana da mulher medieval. surpreen·
dente o quadro que se delineia a partir da concatenação desses
dados.
Assim, por exemplo, as mulheres votavam. Por ocasião
dos Estados Gerais de 1308 as mulheres são explicitamente cita·
das entre as votantes em diversas partes do territ6rio francês,
sem que isto venha apresentado como usO particular do lugar.
e conhecido o caso de Gaillardine de Fréchou, que, diante de
um arrendamento proposto aos habitantes de Cauterets nos
Pireneus pela abadia de Saint·Savin, foi a única a votar NÃO,
quando todo o resto da população votou SIM.
Nas atas de tabelia~s é muito freqüente ver uma mulher
casada agir por si mesma: abre. por exemplo. uma loja ou uma
venda, sem ser obrigada a apresentar autorização do marido.
Os registros de impostos. desde que foram conservados (como
em Paris, a partir de fins do século XII H, mostram multidlo de
mulheres a exercer as funções de professora, médica, boticá·
ria, estucadora, tintureira, copista, miniaturista, encadernadora,
etc.
Somente no fim do século XVI , por decreto do Parlamento
francês datado de 1593, a mulher foi explicitamente afastada de
toda função do Estado. A influência crescente do Direito Roma-
no finalmente confinou a mulher às suas tarefas peculiares de
cuidar da casa e educar os filhos. No século XIX, mediante o
Código de Napoleão, o processo de despojamento da mulher
deu novo passo: deixou de ser reconhecida como senhora dos
seus próprios bens. e, em casa mesmo, passou a exercer papel
subalterno.
A reação a tal estado de coisas tem ocorrido nos últimos
tempos, ... mas de maneira decepcionante, pois a mulher parece
preocupada exclusivamente na conquista de equiparação ao ho-
mem: quer imitar o homem, exercer as mesmas funções que es·
te, adotar os hábitos do seu parceiro. sem se questionar a respei·
to do que ela reproduz, ou sem pensar em salvar a sua própria
identidade e originalidade I Ora isto prejudica n50 só a mulher,
mas também a própria sociedade , pois esta precisa de valores
peculiares da mulher e da feminilidadel
Passemos a outro caphulo do livro em foco.

-526 -
cIDADE Mr:DIA: O QUE NAO NOS ENSINARAM, 43
3. O se",. da globo
Tal tema é abordado no caphulo V, que traz o título
"Rãs e Homens".
Fala·se da escravidão vigente na Idade Média. sem levar em
conta que a escravidão existente no Império Romano foi desa-
parecendo a partir do skulo I V; cedeu a um regime diverso do
da escravidão antiga. Infelizmente, foi restaurada no século
XVI. na5Colônias da América.
A instituição medieval do servo da gleba nio pode ser com·
parada à escravatura dos tempos romanos e coloniais, pois ela
respeitava o servo (servus) 1 como pessoa, reconhecendo·lhe
direitos. A origem de tal regime é a seguinte:
Na época das invasões bárbaras. muitos pequenos eampo-
neses viam-se constantemente ameaçados em suas terras. Dal o
contrato que faziam com grandes senhores aptos a defendê-Ios
mediante tropas e armas. Os camponeses se obrigavam a morar
na propriedade do senhor e a cultivá·la. Era-lhes proibido deixar
a terra, como também era vetado ao senhor expulsá·los. Assim
os pequenos lavradores usufruiam de certa segurança, num pe--
rlodo de instabilidade; eram·lhes reconhecidos os direitos de
se casar e fundar famflia. de transmitir a terra a seus filhos
depois da morte, assim como os bens que pudessem adquirir ...
O senhor feudal tinha conseqüentemente suas obrigações para
com o servo; não era proprietário no sentido do Direito Roma·
no, que reconhecia aos senhore-s o direito de usar e abusar
(jus utendi et abutendi). Donde se vê que o regime medieval
diferia essencialmente da escravatura, que feria a dignidade da
pessoa humana, pois o escravo era tratado como coisa, $Ujeita
a ser comprada e vendida a critério do patrão .
O estudo dos cólrtulários e arquivos medievais empreendido
por JaCClues Broussard 2 permitiu reconstruir a história de ai·
guns servos da gleba. entre os quais Constant Le Roux. que
passamos a apresentar:

1 Nlo poucos historiadores traduzlm ...... 1.11 por escravo nos 1extO$
do seculo XII - o que reyela e gera grave mal·entendido.
2 l a vl •• n AnJou du IX·.u Xliii tJkle, Im LI MOVln Ate, 1. LVI, 1950, W- ~ea.

- 527-
44 , PERGUNTE E RESPONDEREMOS. 240/1979
Constant era servo do sennor de Chantoceaux (Anjou)
nos últimos anos do século XI. Trabalhava com afinco. As Reli-
giosas do mosteiro de Ronceray lhe confiaram a guarda de um
celeiro perto da igreja de Saint-Evroult e de vinhedos no lugar
chamado Doutre. Depois a condessa de Anjou o presenteou
com outro celeiro, peno das muralhas de Angers. As monjas de
Aocenray, tendo recebido como legado uma casa, forno e
vinhedos situados perto do celeiro de Constant. resolveram en·
carregá-lo do conjunto , a titulo de renda vitalícia; pouco depois.
aumentaram-lhe o lote. juntando-lhe as terras do Espan.
- Constant casou·se; cansado de ser trabalhador meeiro. acabou
por fazer um acordo com as Religiosas. segundo o qual as terras
lhe seriam arrendadas. Aumentou ainda seu campo de trabalno,
ertendendo·Q a um vinhedo em Beaumont e duas jeiras de prado
na Roche--de·Chanzé. Mais tarde, não tendo filhos, conseguiu
das monjas que suas terras foss.em herdadas por seu sobrinho
Gauthier, ao passo que sua sobrinha Isolda se cas3ria com o
guardador do celeiro da Abadia, Rohot. Por fim, como aconte'
cia nio raro na época, Constant se fez monge na Abadia de
Saint·Aubin e sua mulher entrou como religiosa na de
Aoncerav.
A pesquisa dos cartulãrios revela Que o caso de Constant
não foi isolado nem singular. Existe, por exemplo, uma certidão
do fim do século XI (1089 - 1095) que refere como dois ~ervos,
chamados Auberede e Aomelde, compraram sua liberdade em
troca de uma casa que pO$$uiam em Beauvrais, no lugar do mero
cado. Este fato dá a ver que os servos tinham a possibilidade de
possuir bens próprios.
Compreende-se , porém, que a condição de servo da gleba,
vantajosa na época t:Je sua origem, se tenha defasado com o
decorrer dos séculos. O camponês podia considerar válido o fato
de viver em propriedade da qual não o poderiam expulsar; mas,
desde que encontrasse meios de garantir sua própria subsistência
com autonomia, preteriria a plena liberdade; esta lhe permitiria
percorrer estradas e fazer comércio. Foi o que aconteceu princi·
palmente na época da expansão urbana (século XI). Os canu·
16rios apresentam numerosas certidões de libertação , que chega·
vam a beneficiar centenas de servos de uma só vez.
A propósito observa 1-1. Pernoud :
- 528-
~ IDADE MeDIA: o QUE NAO NOS !o":NSINARAl\h 45
''Ti .... ocasião d. recolher as confidçencias de um velho operário
agrfcola a quem a idade nio permitia mais trabalhar e que ia acabar ~us
dias num asilo: 'Trabalhei esta terra toda a minha ... ida sem ter um metro
quadrado de meu'. Comparando-o lO sel"Jo medilNal, sua sorte pareceria
infinitamente pior. ServO do senhor, em uma propriedade ele teria assegu·
rado o direito de Ir t.rmirtar I SUl ... ida; nada lhe pertencia propriamente,
mas o usufruto nio lhe podia ser retirado ___ Ele tinha com a terra a mesma
relação que o própriO senhor : eue nunea possuia a propriedade plen • .
como n6s a entendemos Itualment$:'" : ele nlo pode vender ou alienar
senio os bens secundários Que recebeu por hennça pe5soal. mas sobre o
bem de raiz só lem usufruto" (p. 71 !1 .
Foi no século XVI que infelizmente se restaurou o regime
da escravatura romana, que a Idade Média não conheceu, e que
persistiu até o século passado ape5ar dos protestos de frades do·
minicanos como Bartolomeu de Las Casas e Vit6ria .. .
Vê-se, pois, que, sob o aspecto focalizado, a Idade Média
está longe de ter side obscurantista ...
Vem agora a Questão de
4. Heresias e Inquisição Medieval
("O Index Acusador", c, VII)
o tribunal da Inquisição vem a ser outro motivo de acusa·
ção aos medieva is.
Régine Pernoud , sem deixar de reconhecer fraquezas hu-
manas então verificadas, pOe em foco alguns pontos importantes
para se avaliar O fato da Inquisição.
Os medievais estimavam acima de tud:l (ao menos em teo·
ria) os yalores da fé, coloca ndo-os mesmo acima dos valores fí·
sicos. Além disto. con jugavam entre si os valores profanos e os
sagrados, de tal modo que os desvios doutrinários ganhavam
extrema importância mesmo no andamento da vida civil.
Por co nseguinte. as heresias, na Idad e Média , eram considera·
das como ofensas não só à reta fé , mas também aos interesses
da sociedade em geral.
Ora no século XI começou a aparecer no sul da França e
no norte da Itália uma heresia dita dos cátaros (- puros), que
professava o dualismo; o universo material seria obra de um
Deus mau; somente 05 espíritos teriam sido criados pc r um
- 529-
46 ·Pt-;Rl;UNTE E RESPONDEREMOS~ 240/1979
Deus bom. Em conseqüência, condenavam tudo que se relaciona
com a procriação. a começar pela casamento; os mais autênticOS
dos cátaros viam no suicídio a perfeição suprema .
Os primeiros a combater a heresia catara foram 05 prín·
cipes, 05 nobres e o próprio povo fiel. Assim em 1022 o Rei
Roberto, o Piedoso. mandou queimar em Orléans hereges.
Em 1077 um herege professou seus erros dia nte do bispo de
Cambraia; a multidão de populares então lançou·se sobre ele,
sem esperar o julgamento; encerraram·no numa cabana. à qual
atearam fogo! Em 1144 na cidade de Lião o povo quis punir
violentamente um grupo de inovadores que ai se reunira; o ele ·
ro. porém, os salvou, desejando a sua conversão, e não a sua
morte. En trementes as autoridades eclesiásticas limitavam·se a
impor penas espirituais (excomunhão. interdito ... ) aos cátaros.
pois até então nenhuma das muitas heresias conhecidas havia
sido combatida por violência física. S. Bernardo (+ 1153) dizia:
"Sejam os hereges conquistados não pelas armas, mas pelos
argumentos" (In canto serm o64). -
Era, porém. inevitável que os bispos tomassem parte na
represália aos C.;Iaros. Po r isto em 1184 o Papa Lucia 111. em
Verona, instituiu a Inquisiçiio episcopal , que atribui a aos bispos
a faculd ade de inquir ir os hereges nas paróquias suspeitas;
ajuda·los·iam nessa ta refa os condes, barões e as demais autori ·
dades civis. Em 1231 tal inStituição se tornou mais ampla,
pois o Papa Gregório IX confiou aos frades dominicanos a mis·
são de Inqu isidores: haveria doravante. para cada nação ou
distrito inquisitorial, um In<luisidor.mor, que trabalharia com;;!
assistencia de numerosos oficiais suba lternos. em geral indepen ·
dentemente do bispo em cuja diocese estivesse instalado.
Os efeitos da Inquisição tem sido descritos em termos
imaginiltivos e exagerados... Na verdade, as penas aplicadas
eram a de prisão ou, com mais freqüência ainda, a condenação
a peregrinações ou ao uso de uma cruz de fazenda pregada à
roupa. Nos lugares onde se oncontraram r~istros da Inquisição,
verificou·se que não foram tão numerosas as execuções cepitais
como se poderia crer. Em Tolosa, por exemplo, de 1308 li 1323
o Inquisidor Bernardo de Gui proferiu 930 sentenças, das quais
- :>'10 -
cIDADE MtDIA : O QUE: NAO NOS ENSINARAM. 47
42 eram capitais - o que equivale à proporção de 1/22.
Régine Pernoud observa muito sabiamente que a Inquisi·
ção foi alimentada pela ingerência do poder civil em que$tões
religiosas, Sem querer dncutpar os clérigos que se hajam exce·
dido na repressão da heresia, deve·se registrar a forte influência
do poder régio na conduta severa dos tribunais da Inquisição.
"Era, talvez, inevitávII que Hn qualquer momento fonem insti-
tuídos tribunais regulares, mas esses tribunais foram marcados por uma
dureza particular, em ratão do renascimento do Oireito Romano: as
constituições de Justiniano, realmentl!, mandavam col'ldenar os hereges
à morte. E t para fazê·lo reviver que Frederico li, tornado imperador da
Alemanha, promulga, Im 1224, novai constituições imperiais, que, pela
primeira vez, estipulam, expressamente, a pena da fogue-ira cor'ttta hereges
empedernidos. Assim se ve que a Inquisiçio, no que ela tem de mlls
é frulo de disposi~es tomadas, de in(cio. por um imperador em quem ~
pode encontrar o prot6tipo do "monarca esclarecido", apesar de ter sido,
ele próprio, um c6tico I logo excomungado.
Resta notar qUI, adota ndo a pena de fogo e instituindo como pro'
cedimento legal o recurso ao "braço secular" para os relapsos, o Papa
acentuava ainda o efeito da lagillaçio im~erial e recol'lhecia, oficialmente,
os direitos do poder temporal 1'1111 I'lerstguiçlo Js heresias. Sempre sob a
influência da Legislaç30 imperial, a tortura seri.a aulorizôlda, oficialmente,
no começo do úculo XIII - desde que houvesse o aparecimento de
provas" (p. 102).
Ora as concessões feita s petos Papas aos reis voltaram ·se
contra a própria Igreja. Com efeito, nota R. Pernoud :
"Ora, todo este aparelhamentO de legislaçlo contra a heresia nlo
demorada em ser dirigido pelo próprio poder tampOl'al contra o poder
espirittal do Papa. Sob Filipe, o Belo, iU acusaçCles contra 80nil6cio
VIII, cOl'ltra Bef'nard Saisset, contra os Templários, contra Guicha,d
de TroVH apolim·se neste poder reconhecido no rei para persé9\lir os
hereges. Mais do que num:., • conludo entre espiritual e temporal ;aga
a lavor deste r..1timo. S6 precisemos recordar aqui as conseqüEncias mais
grav": a InquisiçSo do skulo XVI , a panir deste momento s6 nas mias
dos reis e imperadores. iria Ilur um numero de vflimas sem comparaç50
com as do século XIII . Na Espanha, chegar-se·;t ti utilização da Inquisiçlo
contra os Judeus ou mouros, o que equivalia a deturpar por completo
seus objetiVOS" (p. 102) ,
Régine Perncud tem razão ao mostrar que a Inquisiçio n.lo

- 531-
48 · !'!::rtuUNTt: r~ Itl::Sl"ÜNIJEHJ::i\tOS. 210/1979
foi um tribunal meramente eclesiástico. Na verdade, ela teve
origem por convergência do poder eclesiástico com o poder
civil na repressão das heresias; mas nesta aliança o poder régio
foi, aos poucos, sobrepujando o eclesiástico , chegando a mani-
pular a Inquisição para atingir Objetivos políticos.
A autora encerra o capítulo lembrando um fato de sua
experiência:
" Em 1970, uma tranJmisslo de televisão foi consagrada" Cruz
Vermelha Internacional e a suas comissões de investigação nos campos de
concentração. Sw representante foi interrogado por divenos interlocuto-
rH, entre eles um jornalista, Que lhe propôs I seguinte pergunta: ' Nilo po-
demos obrigar os pa(su I aceitarem a comissão de invest igação da O'uz
Vermelha?'
E, como o representante da instituição destacasse que 8S comis·
s6es de investigaçlo não d ispunham de nent1Um meio par. que suas obser·
v.çau fouem registradas, Ob$eTVldas ou sancionadas, que antes essas
pr6prlas comiulies nlo dispunham de nenhum direito de visita formalmen ·
te admitido ou reconhecido por todos, a mesma jornalista replicou: 'Não
se poderiam banir das naçlScs civilizadas as que recuum as comissões de
in\lestigaç&'ol'
Escutando ISU dililogo, com referência li Hist6ria, poder·se·ia
dizer que, em sua ind ignaçl"o, por certo compreens!vel. esta jornalista
acabava de inventlr sucessivamente a inquisição. a excomunhfo e a in·
terdiçlo - porQuI ela as aplicava no dom(nio em Que a concordlincia se
tu unânime, o da proteç'o aos prisioneiros e internados polhicos"
Ip. 107,).
Acrescenta, porém, R. pernoud que não é necessário pro-
curar comparãções de tal t ipo. Em nossos dias, observa a autora,
aplica·se a InQuisicão não aos delitos contra a fé. mas às dissi ·
dencias em relação ã opinião pai itica predominante. " Todas as
interdições. todos os castigos. todas as hecatombes parecem jus·
tificadas em nossos tempos para punir ou prevenir os desvios
e erros quanto à linha polftica . adotada pelos poderes em
exercício. E. na maior parte dos casos. não basta banir quem
sucumbe li heresia pol ltica; importa convencer. Por isto ocorrem
as lavagens cerebrais e os internamentos intermináveis que esgo·
tam. no homem, a capacidade de resistência interior" (p . 1081.
E conclui a a utora:
"Quando se pensa no desperd(cio insensa10 de vidas humanas...

- 532-
. IDADE MEDIA : O QUE NÁO NOS ENSINARAM. 49
pelo qual SI consoliebram as rll'loluç&s sucessivas e o castigo dos deli-
to.s de oplnilo em nosso Hculo XX, pode-se perguntar se ... B noçlo de
progresso nIo se encontra posta em Keque. Para o historiador do ano
3.000, onde estar' o fanatismo? Onde I opresslo do homem pelo homem?
No século XIII ou no século XX?" Ip. 108) .
As ponderações de R. Pernoud merecem atenção... Se
os medievais exorbitaram nas expressões do seu amor às verda-
des da fé, os contemporâneos que os criticam, não têm menos
motivos para se horrorizar do Que em nossos dias vem sendo
cometido em nome dos interesses políticos.

5. A arte medieval
(c. 11 : "oefo rmados e Desajustados")
O termo "Renascimento" (Rinaseita, em italiano' foi uti·
lizado, pela primeira vez, por Vasari em meados do século
XVI . Significava que "as artes e as letras, que pareciam haver
morrido no mesmo naufrágio que a sociedade romana, pereciam
Ireflorescer e, depois de dez séculos de trevas, brilhar com novo
fulgor" (Oictionnaire général des tenres, por Bachelet e Jezo-
bry. Paris 18721.
Assim se manifestava um conceito pejorativo referente ãs
artes e letras medievais. Estas nada mais teriam sido do que
"deformações" e " falta de jeito".
Ora tal juízo não leva em conta objetiva a realidade dos
fatos. Com efeito,
- "o simples bom senso basta para fazer compreender
que o Renascimento n30 teria sido possível se os teKtos antigos
não houvessem sido conse-rvados em manuscritos recopiados
durante os séculos medievais" (p. 19' ... " Para eit~r um exem·
pio, a biblioteca do Monte Saint-Michel , no século XII , continha
textos de Catão, o Timeu de Platão (em tradução latina', diver·
sas obras de Arist6teles, de Cfcero, trechos de Virgílio e de
Horácio" fib) .
- As al1es renascentistas reproduziam e imitavam 0$ mo-
delos antigos numa atitude muito pouco criativa. Os antigos
pareciam ter realizado obras perfeitas, atingindo a Beleza
integral.
- 533 -
Eis, porém, que no setor da ane a admiração nunca de-
ve levar a repetir formalmente o que se admira; a imitação nun·
ca pode ser transformada em lei.
"A vido chhsica que H impôs ao Ocidente, ... nlo admitia outro
esquema. outro critério que nJo fOSH a antigüidade cldsslca. Mais uma
vez, presumlr·se-ia que a Beleza perfeita tinha sido atingida durante o sku·
lo de Péricles e que. por isso, quanto mais nos aproxim6Mmos das obras
daquelil época, melkar atingirramO$ a P.rfeiçSo" (p. 221 .
Em contra'posição, observe-se que "o nome do poeta nos
tempos feudais era trovador, o que encontra, encontrador, ou
seja, inventor. O termo inventar adquire aqui sentido fone, .. .
Inventar é pôr em jogo, ao mesmo tempo, a imaginação e a bus·
ca, é o início de toda criação an ística ou poética. Para as gera-
ÇÕM de hoje, isto parece evidente. Resta saber Que, durante qua·
tro sécu los, O postulado oposto é que se impunha com evidência
semelhante" (p. 26).
A arte medieval , de modo geral, 10.i criativa. Basta lembrar
as magn(ficas catedrais români cas e góticas Que a caracteriza·
vam ... Mas é suficiente também apontar os manuscritos medie·
vais : um simples mapa da época revela a capacidade de criação
do art ista (perfeição da escrita. distribuição de página, selo
de autenticação ... ). Uma letra ornamentada (iluminura) mani·
festa outrossim a criatividade do desenhista ...
5. Conclusão
O livro de Régine Pernoud, embo ra tenha antecessores,
vem em hora oportuna provocar uma revisão do conceito co-
mumente propagada de Idade Média .
Esta é mal entendida, em parte porque a historiografia é
O setor do estudo em que mais dificilmente os pesquisadores
mantêm neutralidade cientlfica. A partir do século XVI certas
correntes de pensamento anticat6licas e anticristãs tiveram in·
teresse em denegrir a Idade Média. Esta difamação nem sempre
fo i objetiva (embora não fosse de todo injustificada , pois tudo
o que é humano, é falho), mas baseou·se fre qüe ntemente em
preconceitos. Seria pa ra desejar que os estudiosos contempo·
râneos se livrassem destes e procurassem apontar outrossim tu·
do que de grande, belo e nubre caracteriZa a Idade Média.
Estêvão Bettencourt O. S. B.
- 53.1
íNDICE 1979

ERGUNTE
e
Responderemos
CONFRONTO
INOICE 1979
(Os nu meros à dirl!lla Indicam respect ivamente Casciculo.
ano de edição e pagina)

ALMA HUMANA : c s pi r itu31 ... ... •.....•... 232/ 1979, p. 147;


23 1/ 1979 , li. 9 1.
AMOR t:: SE:":O z..!'J/l97!J, I" 23;
230/ 1979, p. 71 ;
232/ 1979 , p. 168.
ANIM.AIS FALA:'-t! ..... .. ..... . ....... . 232/ 1979. p. 135 .
A1'\O INTERNACIONAL DA CRIANCA: tlire!los
d a c riança. .................... . .... . 237/ 1979, p. 355;
230/ 1979, p .. 82;
2000 ....... . ............... "' , . . o •• • 237/ 1979. p. 379 .
A NTlr.ONCE~IONAI S E RELAÇOES PRé:-
-).!ATRVtION IAIS . . ...... .... . .. , .. 230/ 197;:1, p, 135,
APARICOES DA SS ;\IA. VIRG E .\I E PROFECIAS 231119m, p. 3$,
APOCALIPSE: q ue ê? . .. ........... . 23!)/ 19'/!), I). <!()5 .
ARTE MEDIEVAL ................ . .......... . . 2-10 / 1979, p. 533.

BANTOS E Rt LlC IOES AFRO- BRASILEIRAS 230/ 1979, p . 59 .


BtNCAQ PARA UNIOES ILEGITIMAS .. . .. .. . 232/ 1979, p. 168.
BILLINCS. M:E:TODO ..•.......... . .......•.... 235/ 1979, p . 295.

c
• CAUCE,. - canção dl' , Chico Buarque .. .. ... . 233/ 1979. p. 217 .
CASAMENTO E REL.AÇO~ PRE - MATRIi\lQ-
NIA I S .................................. . . . 230/ 1979, p . 71 .
CATOLlCIDADE DA ICREJA: como entendê-Ia? 231/ 1979. p. 128.
CATOLICOS CASAOOS APENAS NO FORO
CIVIL .. . ..................... . ...... . ... . 236 / 1979, p. 325.
ctU: qu e é? ......... , ................... . ... . 239/ 1979, p . 46l.
Cle:NCIA, dom do EsplrUo Santo . .. . . . . . .. . . . . 237/ 1979, p.3G9.
CIRURGIA PLÁSTICA E T RANSEXUALIS!\rO 232/ 1"979, p . 155.
CLÊVEN'OT, r.1.: _ENFOQUES MATERIALIS-
TAS DA BlBLIA. . .. ... ..... . . .. . . .. . . .. . . 240/ 1979, p. 502 .
"'COISAS DA VIDA. O NOVO TEST AME NTO
VIVO EM LINGUAGEM ATUALIZADA,. . . 235/1979. p . 256 .

- 536-
INDICE DE 1919 53

CONSEUiO, dom do Dplrlto Santo .. ....... . , 237/1979, p. 373.


CONVENTOS E PERSO,"ALlDADJ:: .. ,., .... . . 238/ 1919, p. 420 .
CONVERSA0 NA TE:OLOCIA DA L1BERTAÇAO 229/ 1979, p. 13 .
CORRENTES DE ORACOES ... . .... .. .... .. . . 739/ 1979, p. 416 .
CREDO lS1...AM.ICO .•.••.•••• •. . •••••••••.. . ••. 2J3/ 1~(9 , p. UH. .
cCRIACA.O E MITO., livro de Oswald I.oretz .. 238/1919, p. 405 .
CRIANÇA : ANO IN'l'ERNACIONAL DA ...... . 237/ 1979, p. JS5 :
DIREITOS DA .............. .. 237/ 1979 , p. 355 .
CRISE IRANIANA .. ........................ . . 233/ 1979, p. 189 .
CULTOS AFRO ~BRAS ILEIROS ............... . 230/ 1919, p. 58.

o
DECLARACAO DOS BISPOS CHILENOS SOBRE
O SACRAMENTO 00 MATHIMONIO .... . 23211919, p. 169 .
DESQUlTE E FILJ-IOS . ........... ........... . 230 / 1979, p. 82 .
DIALDGO ENTRE A IGREJA CATOUCA E AS
COMUNIDADES ECLESIAIS NAO CATO~
L1CAS .... , .............................. . 231/1919, p, 125 .
DIREITOS DA CRIANÇA : quais sAo? ...... , .. 237/1979, p. 355.
DISCOS VOADORES: existem? . .... ... ... . . . . . 229/1979, p. 32.
DIVORCIADOS QUE CONTRAEM N O V A S
NúPClAS .... , ....... .. . .... . .. . ......... . 236/1919, p. 321.
DOCUMENTO DE PUEBLA : conteUdo ., ..... . 232/ 1979, p, 232.
DOLTO, FR. : .0 EVANGELHO À LUZ DA
PSICANÁLISE. . . .. .... .... ...... ....... . . 240/ 1979. p. 514 .
OONS DO ESPIIUTO SANiO ; qUI! são ? .. . .. . 23711979, p. 3li5 .
PRETERNATURAIS : qUI! sil o ? ..... ... . 238/ 1979, p.414 .
DUt..LES, A: cA ICREJA E SEUS MODELOS:> 240/ 1979, p. 487 .

ECUMENISMO HOJE; a quantas anda? 231/ 1979. p. 111 .


EMPIRISMO E ESSENCIALISMO no tocant~
1 fala d os anlmaili , . . ..... . . . . . . 232/ 191(1, I', 149 .
_ENFOQUES MATERIALISTAS VA BlDl.IA ..
_ livro de Mich~l Clévoi!nol ....... ........ . 240 / 1979, p. 502 .
ENTENDiMENTO OU lNTELlGeNCIA , dom do
Esplrllo Santo .............•....... . ....... 231/ l919, p. 370 .
ESCATOLOGIA: declarac'-o de Roma ..... . ... . 238/1979, p. 399;
239/ 1979, p. 456 .
ESCOLAS DE SEXO e espionagem russa. .. . . . " 235/ 1979, p. 284 .
ESQTt:RICO E EXOTÊRICO : dll~rent'a ..... . . 235/ 1979, p. 302 .
ESPIONAGEM RUSSA .......... .... ..... . 23{)/ 1919, p. 47 j
235/1979. p, 279.
ESPIRITO SANTO: DONS DO . ...... . 231/1919, p. 365.
ESPIRITUALIDADE DA LIBERTAÇÃO ...... . 229/1919, p, ' 1 .
ESTADO ISLAMICO NO IRÁ ............ . .. .. 233/1919, p. 179.
ORIGINAL: que é? ....... . 238/ 1979, p. 413 .

-537 -
54 tNDICE DE 1979

1t'I'ICA; dl$tlnUvo do homem ... " .. , .... ,."" 231/1979, p, 95,


cEVANGELJiO (O) A LUZ DA PSICANÁLISE_
- li.vM de Françoise Dolto .. , ........ _... . 240/ 1979, p. 514. .
EVANGELHO SEGUNDO MARCOS EM lNTER-
PRETAÇAQ MATERIALISTA ...... ..• .... 240/ 1979, p. 505 .
EVANGELIZAR NO DOCUMENTO DE P UEBLA 23-1/ 1979, p. 236 .

FÁBRICA DE SAO PEDRO . . .... ..... . .. _... . 233/ 1979, p. 201 .


FALA DOS ANIMAIS . . .... ... .. . ..... ....... . 232/ 1919, Jl. 135 .
FANATISMO HI::LIG10SO NA GUIANA ...... . 231/I97'J, p. 100.
FE r.UN INO E MARIOL.OGIA .... _........... . 236/1 979, p. 311 .
FILHOS E SEPARAÇAO CONSENSUAL . .... . 230/ 1979, p. 82 .
FIM DO MUNDO E MENINOS DE DEUS ".,. 229/ 1979. p. 21;
E PROFECIAS ............. . 237/1 979, p. 39D.
FINANCAS DO VATICANO ; (!xposk:lo ....... . 23311979, p. 194 .
FORTALEZA, dom do Espirito Santo .. . . .. .. . 237/ 1919, p. 316 .
FUNDO cECCLESIAE SANCT AE. . ......... . . . 233/ 1979, p. 2Q4 .

C OVERNATORATO (P~feitur a) DO ESTADO


DA CIDADE DO VATI CANO ..... . ....... . 233/ 1979, p . 200 .
GRAÇA SANTlFICANTE NO ESTADO ORI-
GINAL .. ..•..•..... . ..... ... . •. ", . . , . , .. . 238/ 1919, p. 413 .
CUIANA E SUICIDIO COLETIVO .......... . . . 231/1979. p . 100 .

HABITANTES DE OUTROS PLANETAS 229/1!l79, p. -43 .


HERESIAS E INQUISICÁO ~IEI1IEVAL 240/ 1979, p. 529 .
HIPNOSE E PSICQTERAPli\ .......... . 232/ 1979, p. 151.
HOMEM : puro maeaco? . .................... . 23111979, p. !lI .
HOMOSSEXUAUSMO; d lse us$ão .. .. •.. .. . 236/ 1979 , p . 332 .

IDADE Mi:DIA E MULHER .... .......... ... . 24D/1979, p . 523 .


",IDADE MEDIA: O QUE NÁO NOS ENSINA-
UM;, - livro de Régine Pernoud .... ... . 240/1979, p. 520 .
IGREJA COMO INSTITUICAO . .. . .......... . . 240/ 1979, p. 499 :

- 538-
JNDICE DE 1979

ARAUTO • .•. . ...•. ....... 240/ 1979, p. 493,


COMUN HAO MJSTICA ...... . 240/ 197!l, p. 491;
SACRAMENTO .............. . 240/1979, p. 492:
SERVA .. • •. . .......•..... . • •. 24Q/ 19i'J , p. 4~;
VERDADURA ., .. .................. . 2-10/ HI1~, p. 499;
(AI E SEUS MODELOS - livro de
Avery DuUes ..... ...... ... ... ... . 240/ 1979, p. 487 ;
E A MULJiER ......... . ... . .. ..... . . 240/ 1979, p. 52" ;
E ECU MENISi\"10 ...... .... .. . 231 /1979, p. 117;
NA AMÊRICA LATINA ......... . 234/ 1979, p. 232.
IMORTALIDADE E JUSTICA ORIGINAL ".,. 238/ 1979, p, 115 .
IMPASSIBILIDADE E CLENCIA NO ESTADO
ORICINAL ............. ............ . .. . .. . 238/ 1979, p. "18 .
INDISSOLUBIDADE E UNIDADE DO i\IATRI .
MONJa : JuStificativa . . .... .. ........ . ... . . 232/ 1!)79, p. 110 .
IND1VlI)UAU-SMO 1: USO 00 St;XO .. . 2a0/ 1tI1!1 . lI. 7'J .
INFERNO: que é? .. . .. ................. . .... . 239/ 1979, p. 461-
INQUISIÇAO MEDIEVAL: avalla("ào ..... ..... . 240/ 1979, p. 529.
INSTITUTO PARA AS OBRAS DE REUGIAO
(laRI ........................... . ........ . 233/ 1979, p. 202.
INTEGRIDADE (imunidade de concupiscência)
NO ESTAOO ORIGINAL .... .... .. ....... . 238/ 1979, p. 417 .
IRA : movimento politico- rellgloso ... . ........ . 233 / 1m. p. 189 .
ISLAMISMO. ... .. ........ . ...... .. 233 / 1979, p. ISO .

JESUS CRISTO E A POLITICA ........ ... . 229/ 1!Y79. p . 15 :


_R EVOLUTlON •.. . . , . . , ..•. , ...... • .. . 229/ 1979. p. 19;
SUBVERSIVO"? .................. . 240 /1979 , p. 511 .
JIM JONES E: SUICIDIO COLETIVO .. . .. .. .. . 2311197!7., p. 100 .
JOAO XXIII E PROFECIAS (livro I ...... .... . 235/ 1979. p . 301 .
JUSTICA ORIGINAL: que era? ........ . ..... . 238/ 197!l, p. 410 .
JUVENTUDE E RELlGIA.O (MENINOS DE
DEUS) .. ... .... .. . .......... .. ....... . 229/ 1979, p. 31.

KCB (KOMITET GOSUDAJtDSTVDtOY BEZO-


PASNOTI) ... .... . .................... . . 235/1979. p. 283 .

LAVAGEM DE CRANIO ....... ...... . . 230/1979. p. 51.


LEIGOS NA AM"tRICA LATINA ...... .... ... . 234/ 1979, p. 251.
LIBERDADE E HOMOSSEXUALISMO , ... .. .. . 236/1979, p. 340 .

- 539-
fNDlCE DE 197D
"
LIBERTAÇAO, TEOLOGIA DA .. ,., ..... " ... , 229/1979, p. 3,
LINGUAGEM OOS ANIMAIS .. "............. 232119'79, p. 135 .
LUTA OE CLASSES E CRtS1'lANISMO: conel -
Uoun-se?' ........... . ..• . ....... . ......... .. 239/ 1979, p. 443 .

MACACO E H OMEM: DIFERENÇAS ........ . . 231/1979, p. 91 .


cMANICOMlOS, PRlSO&S E CON VENTOS~ - li-
vro de Ervlng CoClman ..........•....... .. 238!lm, p. 420.
MAOME E SUA OBRA .. . .................. . . 233/ 1979, p. 180.
MARIA E APARICOES _.......... _.......... . . 237/1979 , p. 38G .
MARIA E O EVANGELHO DA LNF ANelA ... . 236/ 1979. p. 314. ;
MARIOLOGIA, leeundo Leonardo BoU ....... . 236/ 1979, p. 311.
MARXISMO E LUTA DE CLASSES .•....... . . 239/ 1979 , p. 4-45 .
~ATERNLDADE VIRGINAL DE MARIA ... . . 236/ 1979, p. 314 .
MATRIMONIO SEM FORMA CANONlCA '! , • • , 232/1979 , p. 172 .
MENINOS DE DEUS: quem são?" ............ . . m / I979, p. 18.
M.tTODO BILLlNGS .............. . . _. .... ... . 235/1979, p. 295.
"MILAGRE (O) DA Ft, _ filme .. .. . .. . .. . . . 238/ 1979, p. 434 .
MISSOES E FINANÇAS DO VATICANO .",.' 233/1979, p. 2CX .
MODELOS DA IGREJA ,. . . .... . .. . ...... ... . . 240/ 1979, p. 488 .
MORAL MAOMETANA ., . ........ ,. .... ..... . 233/1979, p. 185 .
MORTE E IMEDIATA RESSURREICÃO ..... . 239/1979, p. 456.
l\IQSTEIRQS E PERSONALIDADE ........... . 238/1979, p . 0120.
MULHER NA IDADE Ml:DlA ... . ..... . .. ... . 240/1979, p. 523 .

NOVO TEST AMEmo VIVO: ",COISAS DA


VIDA _ ... . ......... •. ....•.•.. • ......•...• . 235/ 1979, p . 267 .

o
ÓBULO DE SAO PEDRO ,................. ... 233/ 1979. p. 203 .
ORACAO E PENITENCIA : mcnsalrcm de lodas
.s aparlç6es ....... .. ...................... 237/ 1979, p. 386.
ORACOES ",TODO_PODEROSAS_ . . . ..... . ,. .. . 239/ 1979, p. 478.
OVNl - OBJETO VOADOR NÃO IDENTIFI-
CJl.DO ........ . .... . .•.•...... . .. , ....... ,. 229/ 1979, p. 33 .

PASTORAL DOS DIVORCIADOS . ............ . 236/1979, p, 320:


DOS FILHOS DOS DIVORCIADOS 236/1979, p, 327:
VOCACIONAl, ....... .. ......... .. 234/1979, p. 251.

-540 -
INmCE DE 197!)

PERNOUD, R.: dDADE M1:DIA : O QUE NAO


"
NOS ENSINARAM:> ............ . ......... . 2400/ 1979 . p. 520 .
PERSONALISI-!O : que ê? .. .......... ......... . 230/ 1979. p. 79.
PIEDADE, dom do Esplrlto Santo •.. . .... ... .. 231/ 1979, p. 315.
PI,.ASTICA CIRURGIA E TRANSEXtlALlSMO 232/ 1979, p. 155 .
POlJTICA ECONOMICA DA SANTA st .... . . 233/1919. p. 206.
PÓSTUMA, ' VIDA . . .... • •. .... . ..... ......... .. 239/ 1979, p. 457.
PRAGAS E GUERRAS NO flM DO MUNDO .. 237/ 1979, p. 382.
PRAXIS E TEOLOCIA DA LIBERTAÇAO ..... 229/ 1979, p. 12.
PROFECIAS DO FIM DO MUNDO ..... .. ... • . 237/ 1979, p. 378.
lAS) 00 PAPA JOÃO XXIlI - 11·
vro de Pler Carpl ............... . 235/ 1979, p. 301 .
PSIOOPQUTICA : que ó! ................. .. . . 230/ 1979, p. 47.
PSICOTERAPlA E TRANSEXUAUSMO .. .. .. . 232/ 1979, p. 151.
PUEBLA, DOCUMENTO DE ... ............. .. 234/ 1979, p. 232.
PURGATóRIO : que l!? .................... .. 239/ 1979, p. ~.

Q
cQUESTA.O IA) HOMOSSEXUA1.1> - livro de
Marc Oralson ... . ....... .. ... .......... . 236/1979. p.333.

R
REENCARNA CAO E CULTOS ÁFRO-BRASI_
LEIROS . .... .......... .... . . . .......... .. . 230/ 1979, (.. 66.
RELACOES SEXUAIS PRt-MATRIMQNIAIS :
debate .... ...... •...... , .... .. •........... . 2,JO/ l9'1!), p. 11 .
RE LIGIÃO: renomcno tipicamente humano ..... 231 / 1979. p . 91.
RENOVAÇAO DA PASTORAL MATRIMONIAL 236/ 1979, p. 328.
RESSURREIÇÃO 00 FILHO DA VIOVA DE
NAiM .. ......... .... .. . . ... . 240/ 1979, p. 516;
DA FILHA DE JAIRO ..... . 240/1979, p, 517;
DE I...ÁZARO ...... .. .... .. . 240/1979, p. 518:
DOS MORTOS - documento
de Roma ................ . 238/ 1979, p. 399;
E CONSUMACÃO UNIVER-
SAL ... . ................ . 239/ 1979. p. 459;
LOGO APOS A MORTE? .. . 23!t/ Hrm, p . 456.
REVELAÇOES PARTICULARES : Sim ou não'!' 237/ 1!l79. P. 387.
nOS A-CRUZ: que l!! ....... ....... .......... .. 235/ l079, p. 307 .
• ROSTO 101 MATERNO DE DEUS. - livro de
L.eonardo Borr .. ........ .. ..... .... .. ... . . . 236/ 1979. p. 311.
RÓ$SIA E ESPIONAGEM .. .. ... . .. . .. .. .... .. 230/ 1979. p. 407;
235/ 1919, p. 279.

5
SABEDORIA. dom do Esplrlto Santo .. . . . .. .. . 231/ 1979, p. 372.
SACRAMENTOS DA RECONCILIAÇÃO E DA
EUCARISTIA E OS DIVORCIA OOS QUE
SE CASAM NOVAMENTE ............ 236/ 1979, p. 322.

-541-
INDICE DE 1919
"
SANTA SÊ ENTRE ARGENTINA E CHILE 23<J/I979, p. 223.
SAúDE MENTAL . . •..•. . ........ • ... . ... •. .. . 230/1919, p. 52.
SEGREDO DE FATIMA ............ . ..... .. .. . 23711979, p. 383.
SENHORA DE TODOS OS POVOS. MENSA-
GEM DA ..•.. . .•. . . . .•. • ..• • ...... .. . • .. .. 231/ 1979, p. 385.
SEPARAÇAQ CONSENSUAL E FILHOS . . . .. . 230/ 1919, p. 82 .
SERVO DA GLEBA ....... . : .... . . ....... _. . . . 240/ 1979, p. 527 .
SEXO ANTES DO MATRIMONIO .. . .. ... . . .. . 23011979, p. 71.
I ESPIONAGEM _ livro de David Lcwis 235/ 1979, p. 279 .
SUDANESES E REUCIÓES AFRO-BRASI-
LEIRAS o ••••• 0 .0 ••••• • • 0 ••••• • •• 0 . 0 •• o ••• • 230/ 1979, p. 59 .
SUFRAGIO PELOS MORTOS : sisnillcado . . . . . . 239/ 1979, p. 463 .
SUICIDI0 COLETIVO N~\ GU iA NA ...... . ... . 23111919, I', 100.
SUPI::RS'l'IÇAO E COIUU':NTI::.:S DE QRAÇOl:."'S 23'J/ I979. I" 480 .

TEMOR DE DEUS, dom do Es pírito Santo 237/ 1979, p. 376.


TEOLOGIA DA LIBERTACÃO . . .. . . .. . . . . . . . 229/ 1979, p. 3;
LATINO-AMERICANA .. . . .... . . 22911979. p. 13 .
TRANSEXUALlSMO : elCpcrléncla. de cura . . .. . 232/1979, p. 151.
TREVAS, TROVOADAS E LUZ NO FHl DO
MUNDO .... . " . , . .... , .. ... ..• .. , .. .. . . . 237/1'97tl, p. 380 .

uroLOGIA : debate . . . ............ ... . ... .... .. 22911'979, p . 33 .


lIMBANDA : orlgt'm c ri tos . .. . . .. •.. ... . •. . .. ~/ l979, p. 61.
UNIDADE E INDISSOLUBILIDADE DO !\IA-
TRIMONJO ....... .... .... .. . . . . .. . . .. . . . . . 232/ 1979, p. 170 .
UNJOES lL.EC ITI MAS E nr::r-:çAO .... . .. .• .. . . 23211 !.l7!.I, I', 168 .
.. UNIVERSO EM DESENCANTO.. - livro de
Manoel Jaclntho Coelho . ... . .. . . ...... .. . . . 23G/ l'979. p. 345 .

v
VATICANO, FINANCAS DO . .. .... . . . ..... . .. . 23311979. p. 194.
VERDADE SO~RE JESUS CRISTO . .. .. . . . .. . 234/ 1979. p. 237:
O HOMEM .. . ..... .. •.. .. . 234 / 1979, p. 240;
A IGREJA . ..... .. . . .. . . . . 234/1979, p. 238.
. VlDA APóS A VIDA •... . . . .. . . .. .... . .. . .... 237/1979. p . 392;
CONSAGRADA .... . ...... . .. .... .. 234/1979, p. 250;
DA IGREJA ........... .. ... . ... ... .. . . 23611979. p.322:
RELIGIOSA .. . .. . . .. . . .. . . . .......... . 238/1979, p. 425 .
VIRCINDADE DE MARIA ~ declaraçDo dos bis-
pos esplnhols ... ..... . . . .. . .. . . . .. . ....... . 2311l979, p. 113.

-542 -
fNDICE DE 1!l7!l

EDITORIAIS
A IGREJA E O MOMENTO NACIONAL .. . . .. . 238/1979, p. 397 .
AS PREVlSOES PARA A D.t:CADA DE 80 ... . 236/ 1979, p. 309 .
cCOMO NJ..O NOS TERÁ DADO TUDO COM
ELE? .... , . .. .... . . : .. . . ........ . ... " .. 240/ 1979, p, -:185 ,
cCREJO NA RESSURREIÇAO OOS MORTOS . 2J7/ 1979, p. 353.
",DEUS EM ASCENSAO,. ... , ............. . .. . 234/ 1979, 11. 221.
FEUClDADE, ONDE AIORAS? . .... .. . .... . 230/1979, p. 45.
FINALMENTE, PUEBLA~ ....... ........ .... .. 231 / 1979. p. 89 .
cMINHA SENHORA DONA ...• ... .....• • ..•.. 229/ 1979, p. 1.
OLJiAR PARA O HOMEM COi\-l O OLHAR
DE CRl!:n'o ...... ...... ..... ... .. ....... . 231/1979, JI, 177.
UM O1SCUW:iO A 'I'O/.)QS O~ POVO~ ... . . . 2J!J/ 1!J7!J, l'. 411 .
UM UDER. Ui\·IA ~PI::KANÇA ......... .. . 23511!J79, p. 2ijS .
VIDA E MORTE EM DUElD .... ..... ...... .. 232/ 1979, p. 133 .

LIVROS APRECIADOS
ARCHANJO, José Luis _ Tcllhard de Chll.rdln:
Mundo, Homem e Deus .. . , .. , .......... . 23211979, 3' capa.
BATrlSTlNI, Fr. - Corno falar com Deus ... . 232/ 1979. 3' capa .
A l"reJ" do DClL"õ Vh'o,
C\l..rso blbllCCl popula.r .obre
n "erdadelra lereJa ..... . 229/ 1979 , 4' capa .
1l0FF, L. li! outros _ Put'blll: AnAlise, l·cr81K.'C-
1'l!cth ·II!I. IIIWrru&,l.It'h!$ ..........•... .. . . . . 238 / 1079,3' capn .
BQROS, Ladlslaus - O Detlll l)r4xlmo ..... . . 236/ 1979,3' capa .
O ser do cristão ..... . . 236/ 1979 , 4' capa .
CALLE, Francisco de la - A Teolo~1a de ~larCOI mI19i9. 4' capa. .
A 'l'eologta do quurto
~"lulG"dho . .. . .. , .. . 229/ HI7!1, ·1' capa .
CNBB _ rucbln. A c\õlllG"cllu(".4D no Ilrt::ltlll~
c no rulm'o dA AIIICrl1.'a LaUna ...•. 237/1979, p . 396 .
DALLEGRA VE, Geraldo E. - Reencarna("io .. "232/ 1979, p . liGo
DA TTLER, Frroerlco - RelIenç:lo. Bibllil " Teo-
10,111. tia. JJbertuçi10 ... ....... . ..... . 230/ 1979, p . 88 .
I)(H>!>, C. 11. _.. A IIH:IIsagcm (Jc Sii.o l'aull)
l:.J.r.n. o hOlllclII (Jc huJc ..... . .... . 23GII979, 4 ' capa .
!>ULLES, A...ery - A IgnJa e li~IIS mlxM9S.
AIlrft'llItilo c rlt k-.. da l(1't Ja NOb IodO!'! os
IM:U~ aspectos ..•..... •. .................•. 23G/ 1979 , p . 352.
HAERING, Bernhard - LlnN e Jlêls em Cristo.
Teol ..S""I~ moral para 5.:l.eenlotes e leigos -
Vol. I , ... . ... ........... .... ..•.. ...... , . 238 / 1979, p. 439 .
LANCELLO'ITl, A. e BOCCALl. G. - Comrn-
Urlo ao E\'ancelho de Lu.cas ... . .... , •.. .. 238/1979, p . 438 .
LEPARGNEUR, Hubert. _ O deseompauo da
teoria com li. pntlca: Unu lndapçAo nas
rabes dII moral .. ....... .. . . , ........... . 237/1979, p. 3901.
LOHFINK, Norbert _ Profetas ontem q hoje 237/1979, p. 395.

- 543-
60 !NOICE DE 1979

LORETZ, Oswald - Crlaçào e mito. lIomcm c


mundo sepndo os Qpitulos lnidals do
Génesls ..................... . ............ . 235/ 1979. 4' capa.
MARINS, e equipe - De i'lledellln .. rue-
Jos~
bla. A pnLXls dos pAdres da Amé rica Lstlna 234/ 1979, 3' capa..
MEOALE, João Batista - Convenll!li com o
htCU Sen.hor .. . 2311 1919, 3" capa.
O prote,"" que velo
do dncr10 .... . . 231/1979, 3' capa.
A experiência. de
Deus .. .. .... ... . 23111979, 3' capa .
MIRANDA. MArio de França _ &eranlcnto da
penlt4!ncla. O perdão de Deus na
oom'llnldadc «:ledal .............. . 233/ 1979, p . 220;
23G/197tl, p . a:)3,
MONDIN, Battls l", _ As teologlns do nosso
1oempo ....... . ...•..•....••.•...... . ...... 231/1979, p. 132.
PIKAZA Javl.er - A Tcolocta de l\l&tcus ... . 229/ 1979, 4' capa.
A Teologta de l.uc.. . .... . 229/1979, 4' capa.
RAMOS, Llncoln - A paJ.a.~ do Senhor. No,,·o
Testamento. Traduçio baseada no origlnal
~J'O ......... ....... .... .. .. ........... , 238/ 191'3, p , 438,
SCHEW<LE, Karl H . _ Teolo,1a do Novo T es-
tamento. Vol IV: EthOl - Comportamento
do Homem . ......... .. . o •• O " •••• , o ••• " . 233/1979,3' capa.
SCHMAUS, Mich<ld - A ri' cllI Ign'ja, VIII. IV :
AlveJa, wn mls~rio da ré ............. . 231 / 1979 , p. 131..
SCHUBERT, Guilherme _ Arte par... n fé. Igre-
,IaJi e Clllpell.ll tlelMJl'i do Concilio VIlIlct1nn 11 23511979 , l ' caflíl ·
SEGUN DO, Juan L. - Lll:M:rbÇão WL T~-o l oJ;lA 23111!J79, 11 . tn .
Silva, Jorge Medeiros - Tdxlcos. O que os pais
devenI &a.ber ........ •. . .... . .. .•.• . .. . . •. 234/ 1979,4" capa .
SPElDEL, RUM A. - O Julgamento de l"IIAtns.
Para você entender .. PalxilO de "e,,~ .... 232/ 1919, p. 176 .
TERRA, João E. M. _ Dlrelio$ de Deus e DI _
reitos Hunu.nOS •... .. 234/1979, 3' capa .
Escatologia e RessW'-
reiçio ...•.... . .... . .. 237/1979,3 ' capa .
e outros. - Jesus poll-
"co e Llbel1&ç4o E$c:a-
toldtJC'a .... •. ...... • . 231 / 1919 , p . 131.
VIOAL, Marclnno -
Moml de AUtllil~. Vnl. I:
Moral ~tal ..... . ............... . 238/ 1979, p. 140.
WOLFF, H. W. _ Jllblu.. AnUro Tctt.P.mento.
Inh'oduçio AOfI escrttos e aos métodos ele
estudo .... ............................. .. 230/ 1979, 3' c.apa.
WOODROW, Alaln - As novas seitas ., ... . . . 237/ 1979, p . 395.

- 544-
AOS NOSSOS LEITORES E ASSINANTES
CARO(A) AMIGO(A),

VOC~ SABE QUE O CUSTO DE VIDA TEM SUBIDO


ALéM DE TQDAS AS PREVISOES. ACARRETANDO SERIOS
PROBLEMAS PARA MUITOS EMPREENDIMENTOS DEST ITUI·
DOS DE FINS LUCRATIVOS, COMO A NOSSA RE VISTA PRo

ALé M DISTO. REGISTRAMOS O FATO DE QUE NUM E-


ROSOS ASS INAN TES. EMBORA QUEIRAM CONTI NUAR A
RECEBER PR, NÃO RENOVAM A ASSINATURA NO MOMENTO
OPORTUNO,

ESTA SITUACAO TEM CAUSADO SERIOS EMBARAÇOS


A NOSSA ADMINISTRAÇÃO, DESEJAMOS CONTINUAR A
PRESTAR OS SERViÇOS QUE PR TE M OFERECIDO AO
PÚBLICO. MAS ISTO SO SERA POSSIVEL SE TODOS OS
INTERESSADOS SE DISPUSEREM A COLABORAR GENERO·
SAMENTE , EIS POR OUE LHE PEDIMOS ATENÇÃO PARA
OUANTO SEGUE :

1) TENDO CALCULADO TODAS AS DESPESAS E


RENUNCIANDO A QUALQUER ESPECIE DE LUCRO MATE-
RI AL. A ADMINISTRAÇÃO COMUNI CA QUE A ASSINATURA
ANUAL DE PR EM 1980 FICARA PO R CRS 320.00

21 ESPECIALMENTE GRATOS FICAREMOS AOS NOS-


SOS AMIGOS SE PAGAREM ESSA OUANTIA ATE 31 DE
DEZEMB RO DE 1979.

3) A QUEM ESTEJA EM DEBITO PARA COM pR ,


PE DIMOS PRONTO PAGAMENTO.

4) SOLICITAMOS A TODOS QUEIRAM OBTER NOVOS


ASSINANTES PARA PRo A RE VISTA. NÃO TRAZENDO ANuN-
CIOS COMERCIAIS, VIVE EXCLUSIVAMENTE DAS SUAS
VENDAS.
5) A QUEM CONSEGUIR CINCO NOVAS ASSINATU-
RAS oe PR , SERÁ OFERTADA GRATUITAMENTE UMA ASSI-
NATURA DA REVISTA.

CERTOS DA COM PREENSAO DO(A) AMIGO(A) , CON-


TAMOS COM A SUA PRECIOSA COOPERAÇÃO, PELA QUAL
DE ANTEMÃO LHE SOMOS GRATOS.

A DIREÇÃO DE PA