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Projeto

PERGUNIE
E
RESPONDEREMOS
ON-LlNE

Apostolado Verltatis Splendor


com autorização de
Dom Estêvão Tavares Bettencourt, osb
(in mamoriam)
APRESENTAÇÃO
DA EDiÇÃO ON-LlNE
Diz São Pedro que devemos
estar preparados para dar a razão da
nossa esperança a lodo aquele que no-Ia
pedir (1 Pedro 3,15).
Esta necessidade de darmos
conta da nossa esperança e da nossa fé

..
' -'
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correnles filosóficas e
religiosas contrá.rias à fé católica, Somos
assim Incitados a procurar consolidar
nossa crença católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.
EiS o que neste slte Pergunte e
Responderemos propõe aos seus leitores:
aborda questões da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristao a fim de que as dúvidas se
...' dissipem e a vivência católica se fortaleça
- , - no Brasil e no mundo. Queira Deus
abençoar este trabalho assim como a
equipe de Veritalis Splendor que se
encarrega do respectivo site.
Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.
Pe. &tevlo Sf1ttcmcoun, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATlS SPLENDOR

Celebramos convênio com d. Estevão BeHencour1 e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica RPergunte e
Responderemos que conta com mais de 40 anos de publicação.
R
,

A d. Estêvão Benencou r1 agradecemos a conliaça


depositada em nosso trabalho. bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
Sumário
'.'0
UM DISCURSO A TODOS OS povos

Crlsllos • ma"tl" .. :
'"
L.UTA DE ClIA.SSES E CRISTIANISMO 443

Quesllo ç,lndenle :
A ReSSURREiÇ ÃO DOS MORTOS; OUANDO ?

G ....fDf 111.rlll:101 ne Sibila:


QUE E UM APOCA.lIPSE ? 46S

D.,~ popular ;
E AS CORRENTES DE ORAÇOES 1 .....
4"
A OS NOSSOS LEITORES e ASSIN ANTES 3' ca pa

COM APROVAÇÃO ECLESIASTICA

• • •
NO PRóXIMO NOMERO :

.. J. Igrejo I) seUi modelos l> IA. Dullu). - ~ddgde Médio ·


o que rlÔO no, .nljnClrom ~ IR. Pernoudl . - «O Evangelho ó luz
do psicon6lise » (F. 001t01. - .. Enfoques materiolistos do Blblio »
IM, Clév enol!.

v - __

"PERGUNTE E RESPONDEREMOS,.
Numero avulso de Qualquer mês CI'S ]8,00

Assinatura anual Cr$ 180,00


Direção e Reda.çã.o de Estêvào Betf.encourt O . S . B.
AD1\llNISTRA(:AO REDAÇAO DE PR
Livraria 1'1I"lonArm. EdU-ora
Calxn PMtn! %.038
Rua l\lédco, lll-B (C""telo)
20 .031 Rio de .r.nelro (Jt,J) 20 .000 Rio d I'! .Janelm (lU)
Tel.: 22-1-0059
-_ .......
UM DISCURSO A TODOS OS PO
A figura do Papa João Paulo TI vem-se impondo, ""_..........-
de um lIder universa1, aplaudido não em virtude de demag(lgla.
mas. sim, por causa de suas atltud~ cOrajc:tsas e coerentes a
serviço da Verdade e do Bem.
De modo especial, merece atenção o discurso de S. San·
tidade proferido aos 2/ 10/79 perante a Assembléia Geral da
Organização das Nações Unidas. Pode-se dizer que, tocando
verdades profundas e fundamentais, essa alocução representa
a voz da sabedoria nwna fase dificil da história humana.
A principio, S. Santidade houve por bem explanar as razões
de sua presença na ONU. Convidado por esta, o Pontifice não
quis furtar·se a falar-lhe, pois a Santa Sé mantém estritos
liames de cooperação com 8 ONU. Com efeito, se a ONU
reúne todos os povos c Estados, a Igreja Católica também o
faz do seu modo, procurando as vias da colaboracâo pacifica
entre os membros dessa grande famma que é a humanidade.
E precisamente n fim de poder cwnprir essa missão, a Sé
Apostóllta tem sua soberania territorial; esta, circunscrita ao
pequeno Estado da Cidade do Vaticano, é justificada pela
necessidade de assegurar ao PonUfice plena liberdade no exer-
ciclo da sua missão; o Papa prec1sa de poder tratar OJm todos
os homens sem estar sujeito à Inlcrferência de potências estra-
nhas; sem esta liberdade, o seu mlnlsterlo estaria prejudicado.
A tônica do discurso de S. Santidade não podia ser a
temática da lé como tal. Foi. sim, o serviço ao homem. ser-
viço que todas as instituiç6es nacionais e internacionais estão
obrigadas a prestar; toda atividade politica é exercida em
favor do homem. Isto quer dl7.er Que qualquer forma de tor-
tura ou de opressáo carece de justificativa e deveria desapa-
recer para sempre na vida das nações.
O respeito ao ser humano leva a pronigar também as
guerras. Já dizia Paulo VI na. pr6pria Assembléia da ONU
em 1965: «Nunca mais a guerra, nunca mais a guerra!. . .
Nunca maJs uns contra os oút:ros~ . . . nem mesmo «um acima
do outro~, mas sempre «uns com os outros:t. Na verdade, a
Igreja Católica pede ao Senhor pela paz, e educa o homem
para A paz. Esta paz ê ameaçada hoje em dia pelo armazena-
mento, em diversos palses, de annas cujo poder e totalmente
inédito. Se bem que os detentores de tais tnstrumentos afiro
mem estar apenas assumindo atitudes de precaucão, esses lIde.
res: mostram Que teneionam estar prontos para a guerra: cora
-441-
estar pronto quer dizer, em certa medida, provocar a própria
guerraa •
A fim de evitar os conDitos armados, requer-se a extin·
ção das causas que, em última. instância , levam os povos a se
conflagrar. . . Quais as raiZes do ódio, do desprezo, da destrui-
ção? - Vêm a ser a vJolação dos direitos inalienáveis da pes-
soa humana, direitos que a ONU promuJgou logo nos primór-
dios da sua história (dezembro 1948) .
O ser humano vive simultaneamente de valores materiais
e de valores espirituais, cabendo o primado a estes últimos. Os
bens materiais, senclo limitados, não podem ser distribuidos
com facilidade por todos os homens; em conseqüência, entre as
nações que os possuem e nquclos que não os possuem, se criam
não raro tcnsbes e discórdias aptas a levar à luta aberta. Ao
contrário. os bens espirituais podem ser estendidos a todos os
homens, sem diminUição, mas, ao contrário, com engrandeci-
mento e nobilitação, para quem os distribui (é o que se dã, por
exemplo, com as producões do pensamento, da música, das
artes figurativas, da poesia ... ). Eis. porém, que nos últimos
tempos os Interesses da humanidade têm·se voltado mais e
mais para a produção e o CQnswno de bens materiais, de tal
modo que se vem embotando a sensibilidade dos homens para
os valores espirituais. O ser humano se vê assim escravizado
pela conquista da matéria (que divide os seus conquistadores)
e perde a estima daqueles valores que não dividem, mas, ao
contrário, lcyam à comunhão todos os seus cultores. - Pois
bem; a Igreja católica julga ser sua tarefa precisamente lemo
brar aos homens o valor decisivo dos bens espirituais; estes
elevam o ser humano acima do mundo transitório e despertam
n consciência de que o homem tem uma grandeza indestrutí·
vel,. . . indestrutivel apesar da morte, à qual cada um estA
sujeito sobre a terra.
Será, pois, para desejar Que doravante as autoridades pú-
blicas redobrem seus esforços no sentido de erradicar as injus-
tiças sociais e levar todos os homens à partiCipação de justo
desenvolvimento material. Mas faz·se mister outrossim que
essas mesmas autoridades se empenhem por respeitar, e fazer
respeitar. «os direitos objetivos do esplrlto. da eonsclêncla
humana, da criaUvldade, inchJslve o livre relacionamento do
ser humano com o Senhor Deusa.
O leitor destas ponderações sentlr-se-á Impelido a pedir
ao Senhor Deus queira abrir os eoratões dos homens à sabe-
doria que por elas fala ...
E.B.
-442 -
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS"
Ano XX - N4 239 - NOV~Mbto d. 1979

Crlatlos e Marxistas :

luta de classes e cristianismo


Em Ilnl.lI: O Movimento de "CrlsllOI pera o SoclaUslT,o" tem
Incitado os c,lsllol em g8,8' 8 lomar puta na lut. de elas... apregoada
pilo mandsmo-lenlfllSMO: o amor crlsllo pacll1clsta serl. mar. cobert\J11I
par. permitir 801 opressorn qUI continuem 8 '1lolenlar 0$ oprimidos.
Ora I propós1to obs.,.4/I-se;
1) '" noçlo masm. de ·'Iuta de clanes" lê clentlllcamente discuti" •••
Par.gunts-8B: que 06 classe loclal 'I Os peritos nlo do unânime, na 8ua
manerr. de a conulluar. AI4m dIsto, a divisA0 da sociedade em du.' elas·
11M - • prolel6,t. li • capitalista - proposta por Marx as" hojo em dr,
ullrapassada. Exlltem Irês ou quatro clallel socl.,.; • dirigente, I média,
• opa", .... a umpone... Mais ainda : li dlllelt lraçar o. IImlt•• enlm
as dlve,.,as claases; um operérlo anamenta quallllcado part.nce • c laase
mêd lll ou .. classe oper"la? Em lercelro IlIgar. d....e-•• I~mbrlr que nIo
10 o fllor econO",lco dMde os homen, enlre ai, mas I.mbém li polillca.
as diversidades racIais, as religiosas, etc, Por último, reconheça·all que
nlo 6 o operariado quem del4lm o poder revoluclonArlo em nonos dlal,
mas, alm. as "mlnollas energéticas",
2) Do ponlo d. v1,ta especlflcamenle crlsllo, deve-a. dlz:.r:

O crlsl60 reconhece .1 Injustiças soclll, e s. lhes oplle, - Em pri-


meIro lugar, procura os meios da persues40 ti o diálogo, pois acredita
que a penoa humana, mesmo qua 81re. (I lacupolével. Cuo oa maios
paclflCOI nldl consIga"" I.colre ... pronflo mOll1 o .. I8sls16ncla Plsslva
(I.nha-so em vistA a greva). Via da regra nlo chaOIl .. vloltncla armada.
pOis .S.\II gera vlol6ncll e é Incapaz d. c riaI LIma aocledade nove . O crls-
tio plocura respeUlr mesmo os Inimigos. de modo que nlo Ih ea aplica
IICUrs OS que violem • dignidade humana (a tortura, os seQüeslros, a
lavogem de crAn1o ", ). De resto, nlo h6 como iludir-se : nlo haveré
aocledoada perloita ou Isenta da fo.lI'I .., enquanto correr a t.lstOlia dos
home ns.
Em suma, o crlstlo 6 advels4,lo da. Inju.tlças sociaIs. Opõ......lhes.
por"m. dlversamonle do marxista, pois ta", uma vi:!110 ~,ó~,la do que
.elam o homem, 8 socledada li! a hlstOrla. e é movido pelo amor de Deus,
qlle lorna lodos os homana Ilmios entre ai.

• • •
443
• .PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 239/1919

Comentário: São muitas e notórias as tentntivas de npro~


xIma.ção de cristãos e marxistas ocorrentes nos últimos tem·
poso Uns e outros tentam esque<:er certas premissas fIlosóll·
cas que os deveriam distanciar entre si, para deter·se em pon-
tos de ação concreta em que pal'CCC poder haver colaboraçã\),
Um destes pontos é a cluta de classes", mediante a qual os
oprimidos procurariam derrubar os opressOres.

o movimento de . Crlstãos pm'~ o Socialismo:. lançou ulti·


mamente um manifesto QUe apresentava a Juta dI! classes nos
seguintes tennos:
O'A lula de cla sses, com os len6menos de violência que a acompanham,
parece. multo. crlll'os ser IncompaUvel com uma orlel\teçlo de 16 e de
amor. Esquecem as guerra, s.nlu, a. cruzadas, as teoria, &obre as guer-
ra; ju!ôlas de que ast.A cheIa a história da 19raja. Na verdada, a lull de
elasses • um {ato. objetivo e histórico. quo a artéllse marxlsla deliRe e
conceltua. O amor crlatlo. - que muitos querem opor a luta de crasses -
tende a encobrir e.sa realidade .$Iragoando a eolaboraçAo entre oprimIdos
e opresaore•• Eata v'alo adoelcada do emor InspIra a dou!lln. socIal do
Cristianismo; serve de cobertura ao Inter-ctasslsmo e, em ultima an'Uso,
atenda 101 Interesses da classe burguesa.

o autênllco amor 80 pr,(lIl1mo nAo Impede a luta da clasEss; naa


atual. condlçO.s hIstOrie." o amor " exerce pela sollda,ledade com a
CI8$$8 que tru uma npa,ança de Justiça pala toda a humanidade : o
proleterlado" (COM.Nuovl Tampl 1975, n920, pp. 116).

Quanto ao amor cristão, di2 o documento que «ele tem


ofuscado a visão do contllto social. constituindo um entrave
para a plena participação dos trabalhadores cristãos na luta
de classes:.. Afirma que se tem feito cum uso pol1tico do pre-
ceito do amor cristão para exorcizar a violência e inculcar 8
pacificação social a todo custo, refreando e paralis~mdo uma
participação mais decidida c vivaz na luta pnra transform<ir
as estruturas políticas e econõmk:as da sociedade. Assim !l
amor cristão. em vez de ser força de solidal'ledadc na luta
de classes, toml-se obstliculo li plena realização dessa luta,
(ib. 6,10).

As afirmacões acima tomaram-se comuns entre os cri~·


tios para o &oclallsmo, Visto que constituem um desafio ao
pensamento cristão (este seria fautor de acomodação e ablll "_
guesamento covardes), vamos abaixo procurar situar o cris-
tão perante o problema proposto pc:la cluta de classes:.. Seria
o Cristianismo realmente o cópia do povo:.?
-444 -
LUTA DE CLASSES E CRISTIANISMO 5

A fim de se perceber melhor o significado do problema,


começaremos por definir e comentar o que o mtlrxismo chama
.luta de classes :. ,

1. Marxismo e «luta de classes »


1 . O marxismo tem assumido facetas cada vez mais
diversas no decorrer dos íiltlmos decênios, Com razão, G. Mar·
tlnet fala de «cinco comunismos: o russo, o iugoslavo, o ch;nês,
o tcheco, o ~ubano :., aos quais se pode acreseentar o .eUl'O-
comunismo:. professado pelos PC da. Itália, da França e da
Espanha I, Todavia permanece sob qualquer dessas modalida-
des a teoria da luta de classes, lida como esquema apto a
fazer compreendel' a vida social e a promover a muda nça da
sociedade. Se da visão marxista se cancelasse a tese da luta
de classes, o pl'ópl'io marxismo se extinguiria.
Na verdadc, Marx concebe O desenrolar da história dos
homens como uma luta incessante determinada pelos bens de
produ;ão, Estes suscitam relações cntre os homens, fazendo
que uns poucos sejam patrões: c oulros (multidões) sejam
escravos ; Dqu~lc.s constlluem D burguesia, c este:;:, o proJeta-
dado:l. l!: a infl'u·estrutura econômica que, em última anãllse,
l-cge toda a ren IIdade da histól'ia c da humanidade.
A luta de classes, corno lol, nio ~ objetivo. mas ~ melo e
etapa. Ela tende pdmelramente a estabelecer a ditadura do
proletarüldo. «Essa ditadura durará até que csteJam destrui-
das us bases (,'COnômicas da existência das classes, Isto quer
dizer quc, enqua.nto subsistirem outras classes e. em particular,
H cln~ capitalista, enquanto o pt'Oletarlado lutar conh'a esta,
dcvcrá. usar de vloléncia, pois a vlol~ncia é um meio de gover-
nu,·:. (palavras de Marx citadas por G. Gurvitch . Etudcs SUl
Ics cla.,scs socitllcs, Paris 1965, pp, 70s).
Uma vtY.l. SlIprcssa i.I classe capitalista sobre a qual o pro-
letariado C"Cl'cel'll a. sua slIprf'macln, desaparecerão O Estado',
'Cf. G. M'RTINET, L•• clnq communltm •• ; N Q e, )'OU901'1'I', chlnol.,
tch6qu., CubAI". Pari., Ed. du Seull 1911 . .
: Hoje em dia, I m vez do laJar de "burguesia" e "prolelarlado", deI flr-
'II-Ia lalar dos gUindes monopólios ou du sociedades mulllnaclonals, que
del6m as altns Unanç., e os eapUals. Em luga r dos trabalhadores e do.
campones es do _'cul0 pasudo, dever·s.-Ia lelar do "bloco" loelal que,
de um modo ou da oulro, está sujello * exploraçio capUellsla.
~ Marx concebe o Esledo como "O poder organizado de ume cla,se
em vista da opresslo da outra classe" .

-445 -
o proletariado c a ditadura do proletariado. Haverá enl3.Q a
sociedade sem classes, em que o homem já não explorará o
homem, mas cada um desenvolverá todas as suas atividades
criadoras num clima de liberdade e solidariedade:
·'Ol r-$e·j o dom lnlo pleno do homem .obre 1.$ forç as naturais ...
Haverá pieno desdobramento dai capacidades criadoras do homem; ... com
ovtras palavras, . .. 0 desenvolvimanto de todas as força. huma nas como
lals". (K. MARX. UneamenU 'ond.mental! dalla crWca daU'economla polf.
!lc.··.Flren:z. '9&8.

2. A lula de clnsses assim concebida é o gl'nnde dinamo


da histól'i\l, COnCOt'llle Marx. Este l'eConhece que não hâ ape-
nas conflitos sociais, mas assevera que qualquer t ipo de con·
flito se reduz à luta vigente entre as classes sociais por motl·
vos econômicos :
"Todas as lutas da hlsIOrl.. quer sa desenrolem no lerreno polltlco.
quer no rellgl()S;o, que, no fIIos6flco ou em qualquer oulro lelor Idaológico,
nlo sio senlo a e:x.prelslo mala ou menos nlUda da luta das classes
sociais. Esla lei. que Marx descobriu como plonalro. tem plra a hist6riL'l
l!I mesma ImporlAncla que lem pari as clêr.clas naturais a lei ela translor·
maçlo da energia" (Engels, preláclo a O ,. Brumirlo de Lul. Bonaparte,
t885) .

Isto significa que, plll'tI o m3rxi~nto, {orla :t histó1"ia da


humanidade se retluz li conflitos sociais, Si~niCica Inmhb n IIUC
toda a vida social - SUI)crcstrulul'a - se explicí\, e m ultima
análise, pela estrutura econômica da sociedade. Isto quer dizer
ainda que a hislórln há de ser entendid a em sen! lelo materill.
lis ta : as estruturas da produçilO m<.l lcl"illl explicam os fenôme·
nos da consciência (o direito, a arte, n moral, a religião ... ),
e não vice-versa.

3. A lttln de eln!=..c:t'S f. tnmbêm n norma c o rundamenlo


da moral. Em outros termos: a mOl'nl é regida pelas condi·
ções econômicas da sodcdadc em cada lima das fases desta;
não há val()rcs morais absolutos nem ll'anscer.dentai~. São
palavras de Fr. Engels:
" ReJeltamol toda pretendo de ooa Imporem qualque' forma de
dogm'tlcl moral que seja lei aUea etema dellnl1lva. Imulavel ... Ai1rmamos
'lua qualque' leorl. moral." holl foi, Im ultima an6l1se, o rls ultado das
condlç~ aconOm/eas da locled.d. do seu I.mpo. E, visto que I sociedade
a'6 .gore la moveu no P'11'k) dos antagonismo. do cluse, ..sim a moral
sempre foI uma moral da elas •• i ela tem jusllficado o dom/nlo e os Inle·
resses da cl.... domInante, ou, nos c ••os em que a cllh e oprlmld. se
lanha lornado sullclentemente forte. a mo ral re presentou a revolta contrA

- 446-
_. _ _ _ ...!-JlTA DE CLASSES E CRUtrIANISl\10 7

"3e domlnJo , oxprlmlu os Inler"... wluro. dos homol'll oprimidos"


(Anu.oOIirlng. Roma 11i15O, p. 108).

'It, pois, a clà:SSC dominant~ que faz a moral. E , já que


esta é relativa, a classe dominada, o proletariado, tem por mo·
ral tudo que o leve a tornar·se classe dominante, ou seja, tudo
o que favoreça o seu sucesso revolucionárIo c a sua ascensão
ao poder. A moral para os trabalhadores está subordinada aQ~
objetivos revolucionários destes, de tal modo que todos os meios
(inclusive a violência) úteis a esses objetivos são morais. Pro·
clamava Lenin nos 2 de outubro de 1920:
"Para nOs, a moralidade Miti tlllbordl".da eOs IntereueI da lute do
clenes do proletarledo ... Dizemos: e morei o que contribui plr. Ides·
Irulçlo da aollgl .ocledede dos explonldorl' • pare a unllo d. Iodos
o. lrab.lhador., em lomo do ploletlrlado. que esl6 crl.ndo a nova
soeledade·'.

Marx, já antes, dissera:


"Sem uma vontade de IÇO, que nlo aI deixa deter diante da nenhuma
conslderaçlo, oada se poda ,1.luar na hlat6rla" (cllado por J, D'HONDT,
Oe Hell" l Man:, Paris 1972, pp. 785),

4. Note·se ainda que o marxismo.lenlnismo propõe a


lulo l'nlrc as dasses, sem levar em conta as caracteristicas
pessoais dos jnrlividuos que componham tais classes. Cada um
~ considerado tão somente como membro da classe a Que per·
tence (burguesiA ou proletariado): é Inevitavelmente tido como
portador dos interesses da sua classe ou como personitlcacão
da própria chwse, Não aceita, pois, que possa haver capltalls.
tas bons e cnpi18l1stas maus, mas considera todos 0$ capitalis.
tas, Independentemente da sua boa vontade, como mJnlstros
do capital e da opressão. sujeItos a ser violentamente tomba·
tidos. Também nâo admite a distinção entre trabalhadores
bem intencionados e mal intencionados, mas considera todos os
trabalhadores eomo vítimas oprim1das.. . Não reconhece. por·
tanto, responsahilidades pessoais, mas tão somente as coletivas.

5. Da pst"te do proletariado, a luta contra o capital não


é empreendida em nome da justiça. Marx nunca. fundamentou
os reivindicações comunistas sobre virtudes ou sentimentos mo·
rals, mas sobre Q necessidade de destruir () modo de produção
capitalista num processo que se realizo todos os dias diante
dos nossos olhos. Por isto também não se devem fazer tenta-
tivas de recon~iilacão entre as duas classes em nome da jus-
-447-
6 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS., 239/1979

Uça, do amor fraterno ou de sentimentos tilantrópicos; ao con·


trário, qualquer tentativa desse tipo seria mistificação e equi.
valeria a trair os interesses da classe operária. De resto, diz
Marx, ê ilusória qualquer esperança de que melhorem as con·
dições de vida do operArio dentro da estrutura capitalista;
donde se vê quo! é necessário rejeitar qualquer esquema de
reforma pacífica da sociedade e visar à revolução viOlenta que
destrua o capitalismo.

o ódio e o terrorismo Inspirado por este são meios nor·


mais e morais pela quais o marxista pro pugna o seu ideal.
Tenham·se em vista, por exemplo, os dizeres de L. Trotsky,
que, em resposta a ]{autsky, defendia as execuções em massa
e a captura de reféns por parte dos bolchevistas:
"A revoluçlo exige da classe revoluclon6rla que esta cheguo aos
seus oblatlvos usando todos os meios de que di!>ponha. O terrOllsmo ó
ineplo quando aplicado em reaçAo a uma elas!>, que esteja historicamente
em pteno desenvolvimen to. Mas. utilizado contra uma classe r.aclonll1l.
que recusa debl&r a cena. o ler ror pode aer erlcaz" (Tenollsme .1 commu-
n""'•• Antlkaut.ky. Hambourg 1920).

Eis, em poucas palavras, algumas das caracterlstlcas mais


tlplcas do conceito mar.cista de luta de classes.
Passemos Ilgorll a uma. critica serena c objetiva de tal
conct'!lto, que vem empolgando muitos cristãos.

2. Luto de cla!>ses: reflexões filosóficas

Apresentaremos algumas objeções 'à teoria marxista rla


luta de classes.
1) Em prJmelro lugar, perguntamo. nos: que é propria-
mente «classe socia).? - Nem mesmo Marx. que tanto falou
de luta de classes, expôs claramente o que entendia pelo con·
celto rle «classe». No término de sua vida, em um fragmento
publicado no fim do livro lI! de O Chplb,I, ele perguntava:
cQue é uma classe'!». A indecisão se devia ao fato de que
havia. no pensamento de Manc. do!s crit!!nos para distinguir
as classes sociais:
_ o primeiro seria o da posse ou não: posse dos melOS
de produção. resultando daí a distinGão entre duas classes Cun-
damentais: a dos but1:uescs c a dos proletários;

-448 -
_ _ _ _-'L"U"TA DE CLASSES E CRISTIANISMO

- O OUtro critério seria o da origem dos rendimentos;
nesta perspectiva, Marx distinguia três classes: a dos trabalha.
dores assalariados (que deveriam viver do seu salário). a dos
capitalistas (que vivem da exploração do capital) e 8 dos lati-
fimdiãrios (que vivem da renda dos seus latifúndios).

Na verdade. o conceito de classe social é complexo e di!i·


di de ser definido. Os próprios especialistas (como M. Weber.
V. Pareto, P. Sorokim, G. Gurvitch, R. Aron. F. Perroux,
S. Ossowski, E. Pin ... ) divergem entre si neste particular.
M. Weber, com exemplo, diz que classe é agrupamento no plano
cconómico !lO passo que partido é facção no plano político; n
classe constaria, pois, de pessoas que compartilham as mesm9.S
condições de vida, porque têm interesses econãmicos comuns
no tocante às posses e às vendas; a luta de classes seriam as
divergências resultantes de relacionamentos econômicos em
um contexto de comércio. Ao contrário, M. Halbwachs julga
que uma classe social se earacteri2a por uma consciência de
classe, represcnta~ coletivas e memória coletiva ou hlstó·
rica. P. Soroklm, por sua vez, afirma que o fenômeno das clas-
ses sociais é' característico da sociedade industrial ocidental,
tendo por base a proflssá-o, a situação econômica e a situação
:lurldlca dos membros dessa sociedade.

Pode·se dizer que, se o conceito de classe é equivoco nos


livros dos pcnsado~s. ele e é, antes do mais, na realidade social,
que cnda qunl procum Interpretar como pode. Donde se vê
que qualquer teoria sobre cluto de classes:. se dcfrenta de ime·
diato com a necessidade de clarear o conceito básico de classe.

2) A teona marxista da luta de classes supõe a socle·


dade capitalista dividida em duas classes antagônicas. Ora tal
bipolnrização _ já contestâvcl nos tempos de Marx (sec. XIX)
_ hoje em dia tem consistência ainda mais precária, pois
simplifica excessivamente 8 realidade social.

Com efeito; em neSSaS cJLas é preciso falar não de duas,


mas de três ou quatro grandes classes sociais, dentro das quais
se distinguem muitas subclasses. dotadas de interesses diversos
ou mesmo opostos entre si: assim é necessário que reconhe.
çamos a existência da classe superior ou dirigente, a da classe
média, a da classe operária e, talve2, a da classe camponesa.
Mas, estabelecida esta realidade, pergunta.se: Quem pertence

- 449-
!!!. _ __ _ ~ ~~!:!~_-ü_-N_-_
rJ..; ...: I1ESI'ONDER1:::\'iOS .. 239 " 1 97,~",-----__

ã. classe ~uperior ou dirigent!.!? Como se podem dbtlnb'Uir ("


delimitar as classes medias'! Um operârio altamente qualifi-
cado pertence fi. classe operária ou à classe média? Os gran·
des lideres de- s indicatos c OS chefes dos partidos dos trabalha·
dOI'es, que' dispõem de grande poder poJitico c econõmlco, fazem
pnl'tc tI..-, c1ass(' opcritl'iu? No esquema nmrxistn bipolar, onde
SilO colocados os l)t!qUcnos que não Cazem parte da classe opc-
râria (05 anciãos. os aposentados, os enfermos, os excepcio-
nais ... )? Na vcrdndl!, a realidade socia l é muito mais com-
plexa do que sugere a bipolalização murxlsta. Esta. de moua
especial, nflo leva em conta alguns dndos muito slgniCicativo~
da moderna soclcrlnde Industrial, a saber:

- o !.iUlto de uma classe mêdin scmpl'C mais densa. c pode.


rosa e sempre mais variegada;

- a crescente influência da eiência, da técnica t!, t!rn geral.


da cultura, que âs vezes mais valem do Que a propriedade dos
bens; a ciência e a têcnlca hoje em dia podem conferir mais
poder do que a posse de bens. Assim o esquema dicotômico
adotado por Mal'x no «Manifesto Comunista » já n ão pode ser
tomado por iJas~ de uma exposição científica da dialética dn
história,

3) A redução de todas as lutas sociais a motivos I.'co·


nômicos P. outro artifício que não condiz plenam~nte com a
realidade. lt certo Que Os fatores econômicos têm grande peso
nas divergências t'ntre os homens, mas não são sempre deter·
núnantes. Há outros, não econômicos, quc entram em jogo e
que muitas vezes desempenham runcãtt decisIva: assim os fato·
res politicos, raciais, morais, religiosos, como a ambição, o
desejo de poder, o prestigiO. o espírito nacionalistn, a aspira·
ção à llberdade, os valores da fé. .. Leve·se em conta, por
exemplo, a hlta entre o Papado e o Império Germânico da
Idade Média; está Jonge de poder ser lIssimiladn a um conOito
de interesses entre uma clas.<::e de opressores e uma classe de
oprimidos!
Pode.se tambêm perguntar se em nossos dia~ os eonlr. . .s·
tes sociais s~o devidos it. posse ou nlio·posse dos bens d~ pro-
dução (como pensava Marx) ou se não há algo mais Impor.
tante do que estes, n saber: o poder c 8 participação no poder
de decisão. Este poder nem sempre está nas mãos daqueles
que possuem os meios de produção. mas, sim, nas mãos daQ\1c.
- 450-
_ LUTA OE CLASSES E CRISTIANISMO 11

Jes que dispõem da tecnologia (meios de comunicação social:


Imprensa, televisão, rãdlo, cinema .• _) e movem a política. O
contraste essencial não está sempre entre o proletarIado e a
burguesia capltnlisla. mas entre aqueles que detêm o poder e
aqueles que, t:mbora não sejam privados de bens de produ.
('ão, nito têm pode r, n<'m influem sobre as decisões políticas e
('conômicas_
4) Marx assinalou ao proletariado indusll;al a função de
libertar a si mesmo e libertar a sociedade inteira destruindo
o capitan.'imo. - Ora c provãvel que no séc. XIX o proleta·
ri!uro industrial fosse uma força revolucionária; hoje, porém.
na atual sociedade industl'lal a força revol ucionaria parece
residir no que se chama cas minorias energéticas», pois são
estas que conseguem mllnobrar as grandes massas_
Em conclusão. as premissas do esquema marxista da luta
de classes estão hoje ultrapassadas_ Já não c:orrespondem 80
estado atual da sociedade industrIal, que é pós· capItalista, Já
não atingem os _mecanismos secretos» da nossa sociedade,
nem podem .'servil- como instrumento de leitura da nossa reall·
dade social.

3. O cristão frente à luto de classes


o cristão I'ão rejeita ... lum de classes apenas pOl' motivos
politicos; ele lhe opõe também razões morais e religiosas, visto
qu~ a teoria mlll'xlsta contradiz radicalmente ao conceito cris·
t 40 de homem c de sociedade.

Na vCl"(blde, o marxismo concebe n sociedade como divi.


dida em duas classes que tendem a se destl"Uir mutuamcnte,
movidas por óclio mortal. Nessa perspectiva considera a Juta
como um ,"alar, pois faz progredir a história_

o cristão reconhece n situaçl10 que o marxismo aponta: os


porl(,I"OSOS tendem a l'x plorar Os [m("os c pequcninos. no passo
q ue e!'ilcs procunllll unir-se lutando ("onh-3 a opr essão_ Todn-,lia
o c ristão não vê nisto um fato natural ou uma necessidade
histórica , mas uma sit uação que contral"Ía (I plano de Deus
sobrE' a humanidndC'; aos olhos do CI-iador, os homens são
iguais ent l-e si c dcvem vin'r em cspil'ito dl' fraternidade e
Sol i tin l'it~df\ til' _
- 4;;1 _
12 "l'PERGUNTE ,,; H!!~l~:::r.!?r-:RE~ms :. 219/ 1!)~ ___ .

Em consco.üéncla, O crlsUio, diante do mal e~bocado. n lio


cruza os bra~os com indirerença, mas osrume as seguintes
atitudes:
1) E pl-ceiso , antes do mais, tentar aproximar os hOJTh:'m:
e ntre s i mediante a convcl'Sflo in1crior dos inil]UOS à justiça.
S ó haverá colabol'o<;ão e frat ernidade N'Ih'C os h OITlells se esti·
verem todos convictos dl' que súo irmftos um: dOs OllU'OS : ê pois.
a motiv8cão _ motivíl<;r.O d igna e nobre _ que convém. =ml cs
do mais. pl'opor pnru S{' Ob\CI' ,I ~oIUt::J.o eficaz do pl'oblcmil,
Tenham-se em vi::;!a as pnhw l'ns c!e Paulo VI no docunumlo
sobre a E\'an::;elizru;flo no Illundo contemporânl.'O, 11' 36:

" A. I gr&j~ tem certlmente como ergo Importente e u,gente que se


CO:lSlru!m eslru!:J~:!:S mAis hum8r. as, maill jUllas, mais respelladOlas d OI
dlreltol da peuoa e menos 01)18"IvII$ li menos escravh:adoras; m", ora
cOI't!:'Iua a ~Sl.r consclo nto de qU& alndo as melho,es estru tu ra s, ou os
slslemas melhor Idealizados depretsa se tornam cesi,:m anos, se as ten-
dências Inumanas do co raçilo do homem não S9 acha:em purificadas. se
nAo houver uma cor.versio do con:çâo e do modo de encarar as coIsas
naqueles (juo vIvem om lals estru tu ras ou que as coml:ncam",

2) O crist tlo \\'conlll'ce que a pru!lJ"~C(1:H:C p::!'!iculm' p()[h~


seI' at~o
de justo c hotlL'!>t o, d~:.;de que I('~i\im.an~c nlc adquirida
c c1 ~l:m[x.'nh·! CUJI'.,'ÜO !iQci.\\ tC'lll fm'(,w ,!os ;m.'lIes :I'luinb);t·
<los), P()I' islu o ( Tisi;'w P\il:01'Ú !'I . iula,' lU.!!)."; o ; IH )IIlI'l1 S , : :1S
mcsmtlS cond it;ücs sociais eom os mesmos a1J'ibuto,;: OI)I\:~SOJ',
injusto, iniquo. dl' um 10(:0; oprim ic:o, inocenLe, \':lima, de
outro lodo_ O " n (l'o elc cnda ~nlpo humano. é ncccss{wio k'\'al'
em l ~nl:J H pel'w\I1a licl:ull' 1))'(,11I'ia (!C 1::';11:1 um I l{)~ ! :l'lIS L'OIlI.
poncntcs, Nenhum sei- hum:mo h:1 lIt, SCI' a u :om:Jlk'!lnl':1\t!
curacl cri7.arlo pelo fl lo GC Pf:r t cnccr li dc-tt' l'minado grupo
social. Pode havei' propl'i('t;íl'iQs c [N.tt'Oc.s justos e c\';!sejosos de
implantuf a jllsti ~iI em seu setor de ,\'.:ão, como pode ha\'~r
Oltel'arias IIU(' mio :-;cjum I1Wl'ilS vitimas da inj us\i<;:l ~.1h ::,i a ,

Em nome da just iça, poder-sl'-iam praticaI' graves inju:-:.


ti~tlsse nilo se k'vo!>S~m cr,l cO l l.~idcl':'IC:üo I\~ CU\'Cl'S:H; aC'losn·
naJidadcs que com:'J flcm cmla grtl!)O da soc iedade,

3) ~ nccessú rio lambêm movL'1' campanhns em luva:' rl.'


leis justai; e em defesa dos Intercsses dos mais frncos. F:tça,'II.!
chegar ao COjJ h ~cimento das autol'idndes competentes a situa,
ção infl'u·humoll" c, pai' vezes, iniqua em que vivem ('crUl s
partes da população, a fim de que. por via lcgitima e ofici al,
os respo n sã\'C i ~ pelu hem comum solucionem os pl'Oblemas,

- -152 -
LUTA DE CLASSES E CRISTIANISMO 13

4) Caso os meios pacificos e persuasivos não logrem o


resultado almejado, ê licito ao cristão recorrer à pressão mo-
ral c à resistência passiva. :e o que se dá, por exemplo, em
toda greve. Este recurso deve representar uma atitude extre·
mo.da. destinada a resolver graves situações de opressão e Injus.
tiça. Não há de ser absolutizada nem considerada como mi!-
todo normal de promoção social, mas, antes, corno atitude de
emergência.

:» A violêncIa, ou seja, o emprego das armns c da agres·


são fisica não ê nem cristã nem evangélica. Eis como Paulo VI
u caracteriza na sua carta sobre a Evnngclização no mundo
contemporâneo, no:> 37:

··A IgroJa nlo pode aceitar a violência, aobr81udO a torça du armas


de que 58 perda o domlnlo. uma ve;r. de,encadeada - e ., morte de
pessoa, $~m d i,crimina~io. eomo eamlnho para ., llbenaçlo: ela sabe.
elallvarnanla, qUI! a "Iolêncla pro\lOca $empr• • ylclênela e gera irrasl!li-
volmanle novas formas de opressl.o e da escravizaçio, nlo raro bam mais
Ilosadas do que aquelas que ela Ilretendla e liminar. Oiz lamos quando da
Nossa Ylagem ê ColOmbla: 'Exortamo-yos a nlo pOr a vona confiança na
I/lol6neia, nem na rovol uçlo: tal aUluda 6 contr'rla ao esplrlto cllstio e
pode lam bóm rclardar, em vez de lal/olocOr, e elel/ação soci.!!1 Ilola qual
legitimamente aspirais'. E ainda: 'Nós d.!!vamo$ realirrn~r que a violência
nl10 • nem crlst! nem evano~1ica e que as mudanças bruscas ov ylolentas
d:., oslrvlVllIS se,iam lala!cs e Inoflcazos em si mcsm;u e. 1l0r certo. nlo
conformc!) fi di9nidado dos povos· '·0

Vc-se as~irn que a posiC<Ío do cristão frente às injustiças


sociClis n;io éo de passividade: o amOl' crlsti\o estã longe de ser
L-olJcrtum p;::·a favorccer a explomç50 (!o hot11t'ln pC'lo homem
ou dos ft'ólCOS}l(!!os pod(!l'Osos, O amor cl·ist50 mio consagra
injusU ~o!'t.ma.;; pl'omove a justiça mediante recursos aptos a
Calar ã intcligéncla e ao senso ético de todos os homens. A
lesc que atribui ao cristão o Ircnismo Cautor de estruturas iní-
qUQS, ê forjàr!a pelos adversários do Cristianismo; p<lra refu-
ta-lu, lmstu recordar, ent re outros, o caso do PCo João Bosco
P~nldo Bi.lrniE'l . que, aos 12/ 10/76, faleceu em Mato Grosso.
pon'JUC' queria, pai' pala\'ras e atitudes, impedir um soldado de
praticai- \·iolêado.s conh·a duas pobres lnlllhercs,

G) Leve·se em conta outrossim quc a luta de classes est:i


intlrn r: mcntc associada ao ódio. . _. ao ódio do homem para
com o Jl0mcrn. Ora o cristão não pode aceitar uma teoria que
pt·cgue o ôdio e justlCiquc o terrorismo. O amor para CQm
todos, mesmo os inimigos, é um dos pontos cardeais do Evan-

- 453-
14 .. PERGUNTE E RESPONDEnEMOS~ 239/1979

gelho, que ensina serem todos o~ homens innãos, filhos do


mesmo Pai.

Hã. porém, quem sustente que a luta de classes não im-


plica o ódio da" dasses entre si. Assim, por exemplo, Giulio
Girardi em seu livro Christianisme. Libératlon hwnaine. Luttf'
de cL~ (Paris 1972, p. 179). Ora esta posição não se con·
cilia com OS principias do marxismo.leninismo; leve·se em
contn, por exemplo, a observação de V. I. Prokofiev, que, ap6!:
haver citado o verslculo do Evangelho «Amai os vossos inlmi·
gGS3. escreve:
" Os sov''''eos rejeitam '$ta moral religiosa, porque lêm um urAler
nlna.mente reaelon6rlo. Um ault!lnlico humanismo, um veraadeiro amor a08
hOmens lup6em o ódio .0. Inlmlooll da tlumanldade" (La earaelt,a anUo
tI"",.nlll. ela la mora'a raUi""", am "Catllell de eomlTlunl$""e" 1959,
p , 1081) .

Insistem alguns ma~istas, dizendo que a luta de classes


é prãtica de amOl' cristão para com os adversãrios, pois tende
a libertar do pecadO da Injustiça os poderosos que o cometem
por estarem presos nas estruturas econômicas do capitalismo,
Em resposta, observar·se·â que o amor estaria sendo realmente
praticado, se a luta de c:la~ marxista tivesse em mira a
.oonv~r.iã.olt dos detentol"($ do capital; acontece, porêm, que li
luta de classes, no !'!c ntido marxisln·lcnini!'!ln, tende '1\ suprcssflo
dn classe capltallsla; esta, que não é uma abstração, mas !'!e
constitui de homens. há de ser eliminada. segundo Marx, por
uma luta sem trêguas. Escreve Mao.The.Tung:
" QuaIXo 40 pr.'a"So amor .li humanidade, nunca existiu esse .mOl'"
universal desde que a tlumanld.da IISt6 dividida em ela"es ... Nós nlo
pod.mos amar os nO$SOI Inimigos, 1'110 podemos a""ar os males soelaís;
a nossa meta é destrul·tos" (citado por R. OulUa1n. Dans tr.nt. anl la
ChI"a. Parg 19115, p. 269) .

A mentalidade que inspil'a tais palavras, é bem diversa


daquela que move um cristão a resistir às estnJturas injustas
e n combatê.las. Com efeito, mesmo envolvido em dura luta,
o cristão há de guardar sempre o respeito às pessons, ainda
que inimigas; tratA·Ias·á como seres humanos, aos quais não
se podem aplicar recursos desonestos (seqüestros, torturas,
lavagem de crãnlo, etc.), O cristão procurara o diálogo, sem·
pre que pos..,tvel, e acreditarA que mesmo os piores dos homens
são recuperávcls ou têm 1\ possibilidade de revcr suas posições
c converter·se,

- 454 -
LlrrA DE CLASSES E CRISTIANISMO 15

7) Por último, há ainda. um aspedo da luta de c1asses


marxista que o discipulo de Cristo não pode aceitar: é a fun-
ção salvlflca e messiânica que Marx atribui à classe proletária.
Para o cristão, o único ,Salvador é Jesus Cristo, ao passo que
todos os homens, sejam proletãrlos. sejam capitalistas. tl"8Zem
em si principios de egoísmo e InjustJça, e precisam d~ ser liber-
tadas por Cristo. A divisão entre bons e m3.US não colnclde
com a classificação dos homens em operários e eapitalist8S,
como se os bons e justos fossem os operários pelo fato mesmo
de serem opcrãrlos e os maus e injustos fossem os patrões e
capitalistas pelo fato mesmo de serem patrões e capitalistas.
A divisão entre o bem e o mal passa, sim, pelo coração de cada
homem. O cristlio, portanto, não pode exaltar a classe operá.
ria pelo fato só de seI" operâria, nem odiar a classe burguesa
pelo simples fato de ser burguesa. Se o cristão se coloca do
lado dos operários, ele não o faz porque tal classe seja neces-
sariamente portadora de snlvacão, mas porque Ce na medida
em que) tal classe se constitui de gente pobre injustamente
explorada.

Conclusão
O ('d~l'no. sem dúvidn. há de se opor às injl1sticns da
SOC'icdndc c tmlmlhnr pelo surto de nova sociedade; todavia ê
incompativel a concepção marxista de luta de classes com os
princípios da mensagem evangélica. Além do mais, o discipulo
de Cristo não se Ilude a respeito do êxito dos esfo~os seus e
de seus companheiros: ele sabe que nunca se realizará urna
sociedade perfeita na terra. Como Quer que seja, ele tem cer-
teza de que a única via para se tentar criar uma sociedade
nova, mais justa c pncrrlca é a via do amor e da SOlidariedade;
a vlolc}ncia e o ódio só podem gerar uma sociedade violenta e
injusta, ainda que- movida por novo tipo de violênci" e Injus·
tiça. A justica e a paz são frutos exclusivõs do all'lor: (ai é a
grande novidade Que o Evangelho a nunciou ao mundo e que
os cristãos devem evidenciar. inspirando-se no amor, mesmo
l1uando aplicados 80S mais tormentosos problemas sociais.
Este IIrtlgo multo deve ao e5tudo de G. de Rosa. I.OlIa di clnsl •
amore crl,nano, em "l a eMiti CatloUel" rfI 3034. de 20/X1l197S. pp.
322·335.

- 455-
Quesllo candente:

a ressurrei~ão dos mortos: quando?

Em slntne: o presente artIgo comenta a C8t1a.lnslruçlo da S.


CongreQaçlo para a Doutri na da Fé publicada em Julho de 1979. Esle
documento reatirma a ncatologla Inlerme dl6rta assim como a sObrevlvên.cI.,
após. mot1e, de um elemento espiritual, dolado de consciência e vonlade;
nAo menciona. re unoilo da corpo e alma após li morte, mas 110 somenle
a subsistência da alma. ficando diteI Ida a ressu rrelçlo dos morto. pala
o fim dos lempo•. como semprll ensinou a S. IgreJ., baseada nas eplstolas
de S. Paulo.
Em conleqú6ncla, • glorUlcaç'o de Maria após a morte • caso
imico i anteci pa o 'lua locara a todos os justos na consumaçlio da hlstOrla.
• • •
OomentArlo: Em PR 238/ 1979, pp. 399.404 , publicamos o
texto de uma Declaração da Santa Sé concernente a questões
da escatologia cristã. Dada n importância de t al documento,
propomos, a seguir, alguns comentários do mesmo, na tenta.
tiva de explicitar C seu conteúd/)o
De antemão convém obsctvar que o texto em pauta não
aborda todos os aspectos da doutrina dos N ovissjmos, mas ape-
nas alguns dos que constituem a chamada ",escatologia Inter·
medlária,,: trata·se de DSpectos concernentes ao estado do ser
humano entre o seu desenlace te~strc e a consumac:ão da
história. € justamente a propósito de t al estado que se têm
levantado dúvidas e hipôteses entre teólogos e pastores, ~I.
xando o povo de Deus um tanto perplexo:
"Ouve-se discutir a ex.lstêntla da alma 8 o slgnlflClldo de uma sobre·
vivência e faterem ·so Inlerrogaç6es quanto ao que se passa entro 111
morte do crlallo • • ressutrelçlo universal, Ora com toda, lIatlS colsaa
o povo crlstlo fica desorientado, uma vez que lã nlo encontra o seu
voubu16rlo e as nQÇees que Iht slo familiares".
Cientes do problema, examinemos precisamente o que 3
S. CongregaçãO para a Doutrina da F6 houve por bem rcn·
finnar.
1. O conteúdo do documento
Como se pode ver em PR 238/ 1979, a Declaração consta
de sete artigos, que vamos, a seguir. considerar atentamcntc.

-456 -
R~RRElÇÀO DOS MORTOS: QUANDO:> 17

1. 1. A reutllTt!lçõo dos mortos (art. 1 e 21


Os a rtigos 1 e 2 reafirmam a ressurreição dos mort·:)s,
professada por São Paulo (lCor 15) e pelo Símbolo da Fé
desele as suas mais antigas rormulnçées,
O cris tâo não é dunlista nem reencarnacionista. Julga que
n matérIa é criatura de Deus, de tal modo que ela Integra a
realidade do homem; este é psicossomático, a tal ponto que não
~e consuma como anjo nem como espirito desencarnado, mas
como ser composto de espírito e matéria ou de alma e corpo I ,
A teoria da reencarnação, afirmando que o espirito hu-
ma no volta ao corpo em sucessivas reencarnações para se
purificar, é dualista: supõe ser o corpo um cárcere ou um ins-
trumento de punicão, Apregoa como Ideal a definitiva desen·
carnaçüo, Ora isto não é cristão, nem se pode fundamental'
sobre provas objetivas.

1.2 . A IObreylvinclo pósluma lart. 3)


Que acontece logo após a morte ou o desenlace terrestre
elo ser humano?
1. O arl. 3'~ «n rirma a sobrevivência, depois da mOl'te,
de um elemento espiritual, dotado de consciência e de vontade,
de tal modo que o eu humano subsista».
Esta afirmação supÕe que o homem seja um composto de
corpo e alma. Aquele, sendo material, desgasta-se. Quando
já não t em condições de ser sede da vida humana, a alma se
separa dele e continua a viver (SObrevive). enquanto o corpo
I Como se comproOllde. o .. plrllo nlo d oye sor conce bido como
lIuld o encrgélk::o ou COrtonte olétrlca, mas, 11m, como 5er Incorpóreo,

'"'" "
Inl!stenso (sem figura, sem dlmens6eS. lIem peso), dotado de Inteligência
e vontade; nlo morre ou nlo s e dissolve, porque não • campos lO. Dis-
tinguimos Irês tlp OI de esplrlto;

II
D. . .
pata viver sem corpo = .nlo
E'plrllo criado par. se realizar plenamente no corpo ou
na materl. ; alm. nu",an •.

V&-5e. pois. que o conce ito de e' plrlto ~ mlll, IImplo Que o de IlmL
A Ilm~ humanft é e. plrllo ou e,plrllual. mas nem lodo esplrllo • alma
humana.

- 457-
18 .. PERGUNTE E RESFQNDEREMQS, 239/1979

é sepultado. A alma t raz em si os constitutivos do cu' humano.


jsto ê. consciência c vontade.
Esta afirmação da Igt'eja exclui diretamente a tese segundo
a qual após a mort~ a alma humana entra em estado de Incons·
ciência ou sono, como pensavam os israelitas de outrord e
alguns autores protestantes (cf. Q. Cullman e Ph. H. Me·
noud ... ), Na vel"dade. a morte não extingue a lucidez cons·
ciente do seI' humano nem a sua capacidade de aderir volun·
tariamente ao fim supremo que ela tenha escolhido.
A Illc>smu ufilma(':lo exclui também a tese da ressurr~i·
Cão logo após n morte, muito propalada em nossos dias. O
texto menciona apenas a sobrevivência de um elemento espio
ritual chamado alma, sem mencionar a Imediata re·união de
alma e COI'po. Esla ê difel'ida para o fim dos tempos. como se
verá pouco adlnntc ao esludarmos os artigos;; c S.
A tese da ressurreic;1o logo após a morte carece de rUI!·
damcntação bibllc.:l.. As ESCl'IHU"ílS do Novo Testamento pre·
vêem a ressul'I'elção para o fim dos tempos; cf. lCor 15,22:
"Assim como lodos morrem em Adie, em Cristo todos receberlo a
'lIda. Cada um, porém, em sua ordem: como prlmlclas, Cristo: depois,
aqueles que pertlncem a Cristo, por oca.lio da ,UI 'Vinda". Cf. 1TI 4,16,

2. lIã quem qU('il':1 dcrendl'J' ri lese ria 11.'s"<;urrcíç;·\o logo


após a morte referindo-se li untropologia scmiLa, Esta nuo
conhece vida consch:ntc sem corpo; não admitiria a possibili.
dade de existêncln lucida para n alma separada do corpo. Ora,
dizem, lnl é n c:onccp~i'lo billlica. A idCin de ca lma scpal'ada
do corpo_ !$erlu oriunda da filosofia grega platõnica. dualis ta,
não bíblica. Por consegutnlc, não poderia ser defendida numa
genulna teologia bíblica.
A. isto respondemos :
1) A S. E$C'riturn não tcnc\onn adotar determinado siso
t ema fi!osô{ico com exclusão de outros. Se a antropologia do
Antigo Testa mento frcqüentemp.nte acentua a corporcidade do
homem, a do livro do Sabedoria admite alma sem corpo (cf.
Sb 4 e 5) e a do i'\ovo Testamento ê assaz variada; São Paulo
chega a pl'Opor dlvl!rsas concepçOes antropológicas, que ele não
procura conciliar entre si; cf, lTs 5,23; Gl 5,16s: lCor 2,11. 15.
Por isto ê inconststc'nle o RI"gUmcnto segundo o qual a fideli·
dade 'à S. Escritura impõe detennlnada conceJl(:ão antropoló-
gica ou exclui a tese de alma separada do corpo,

- 458-
RESSURREIÇAO DOS MORTOS: QUANOO'~ 19

2) Algumas correntes de pensamento gregas eram dua·


listas (a pilagórica, a órflca, a platônica ... l. isto é. admitiam
oposl,=ão ontol6glca entre alma e corpo. Todavia o pensamento
de Aristóteles propunha a distin;;ão entre corpo e alma sem
dualismo, ou seja. nflnnando n união harmoniosa de corpo e
alma no homem.
Aliás, Caz·se mister não confundir dualismo c dualldad~ .
O pensamento biblico e cristão não ê dualista (não admite
oposição ontológica entre corpo e alma), mas c dual, isto C,
admite a roal distinção c separabilldade de corpo e almn. em-
bora uCinne que ambos são partes complementares do com-
posto hum ano. A dualidade (que não é dualismo) é fato óbvio
na natu.rcza: homem e mulher, dia e noite, Crio e calor, ..rerã\l
e inverno ...

1 .3 . Reuurrelção dos morto, e consumação unlvenal


farto 5 • 61

1. A tese de que a ressurreição dos mortos não OCOI're


logo após a morte, mas é diferida para o momento da consu-
mac50 lIniversal, vem Insinuada pelos artigos 5 c 6 da men·
cionada Instrucão:
1) O nrti~o G «exclui qualquer explicação que tire i1 As-
suncão de N os~ Senhora o que ela tem de (mico e singular.
ou cO Cato de ser a a.nteclpa~ da glorifkacão que tocará a
todos os outros eleitos,.
Em conseqüência, se a glorlficaçáo de Maria é algo de
único e antecipativo, deve·se dizer que os outros eleitos não
são glorificados, como Maria, logo depois da morte, mas só o
serão no fim dos tempos.
2) O artigo 5 ensina que «a gloriosa maniCestação de
Nosso Senhor Jesus Cristo é distinta e diferida em relacão
àquela condição própria do homem Imediatamente depois da
mortel'.
Distinta . .. Esta afinnacão opõe.se à tese que- propõe a
identidade . do juizo particular e do juízo universal.
Diferida, isto é, postergada, adiada ... Estes dizeres enCa-
tizam a existência da chamada «escatologia intermediãrla:ll e
afjrmam que, mesmo depois da morte, hã uma expecUltlva da
parte do ser humano. Com outras palavras: a morte- nlio dã
- 459-
20 .. PEnCUNTt~ E HESPONOEItl!:!\10S:. 239/1919

ao ser humano u fruição da eternidade. mas, sim, a da imol'-


ta1idade em sua forma definitiva_ Tal afirmação <lpõe.se à
tese de Karl Barth e Emil BrunnCl-, protestantes, bem como à
de autores cat6l1cos. segundo os quais a morte põe o homem
fo ra do tempo; pOI' conseg uinte, não haveria distância tem-
poral enü-c a mOI"te do individuo co a I..'onsumacão da história
ou a scgtlllda vinda de- Cristo.
2. Faz-se mister cli:clul'ccer nHid.uTlCntc a concepção de
escatologia intenncdiâ1'itt :
1) Somente Deus é eterno e fl-Ui da etemidnde, Com
efeito, a eternidade não ê uma dlll·a.~:\O indefinidamente longa,
mas é a posse sinmltânca de todo o l'e.; pectivo S21' ou da res-
pectiva existência. Ora somente Deus ~ tal; só Deus não tem
passado nem futuro: só Deus possui simultaneamen t(! toda a
sua existência. Nenhuma criatura gOla deste privilégio, pois
toda Cl'ial"ura, pelo fato mesmo de seI' criatura, te\'e começo;
uma porção da existência de cada homem já. passou e não vol·
tal'á a ser presente (nem mesmo depois da morte) c outra
pol-ção da ex.istência de cada homem é tutura e ficará sendo
futul"ôl.
2) Com outras po.lavras: o "cr humano, depois da morte,
cmancip'Hõe do t~mpo nu da SlICC'S-<:l"iO de dia c nojt~ Jmpo!:ta
pelo movimento dos asll'Os, mas nem por isto t:!ntl'a na poSSL'
simultânea de toda a sua cxislcncia (peculiaridade exclusiva
do Eterno ou de Deus); a e:\:istência da criatura emancipada
do tempo ê chamada o C\'o ou a c\'iternidade. No evo há suces-
são ... não, porêm, dc dlns e noites ou de momentos cronoló-
gicos, mas de atos !!e maior ou menor intensidade. Pode-se
dizer que, contcmpltmdo a Deus face-nAace, o justo descobre
sempre algo de novo; Dros só nuo <! novo para si mesmo.
NilO se c1c'vc, portanto, rrCl" que, morl'endo. o Sl:r humano
ià cxpcl'imcnta o que ainda dc"eni acontecer no fim dos tem-
pos ou já toca u parusla (a gloriosa manifesta~ão de Nosso
Senhor Jesus Cl'istc); ele a aguarda, solidário com os irmãos
Que ainda realizam a história du mundo; ele viverá. a consu·
ma ção da hlstél'Ía juntamente com seus irmiios que ainda são
peregrinos.
Aliás. não se entende que alguém, morrendo em 1979, já
atinja a consumaç5.o da humanld<lde que ocorrerá em época
incerta para nós, com n provável pnrticipação de gerações
humanas que ainda não vlCl'nm à c:dstõncia real.
- 460-
RESSURRElÇAO DOS MORTOS : QUANDO?' 21

1 .4 . Cfu, inferno e Pllrgcr1ório lart. 7)


A morte vem a ser a passagem ou o acesso do ser humano
à sua sorte definitiva. Esta pode ser a bem.aventuran-;a plena
ou a visão de Deus face.f)Aace ou a frustracão definitiva , cha·
mada cinferno.. O purgatório é <!Oncebido como estâglo pre.
via à bem-aventurança fin al para quem ainda não esteja puri.
ficado de todo resqulclo de pecado.
Vejamos de per si cada qual destes estados póstumos:
1) Céu . '. :e o encontro tom o Senhor Deus sem inter·
mediário nem simbOlo; é a contemplHcão face.H.face da. Be·
leza Infinita. O documento em pauta chama a aten:;ão do cris·
tão para dois pon tos Importantes:
_ hã continuidade entre a vida presente e a póstuma; a
visão de Deus face·a·race ocorrerá na proporção do grau de
caridade com que cada qual morrer; colheremos no além o que
tivermos semeado no aquém;
_ há também uma ruptura radicai entre a realidade pre·
sente c a póstuma, pois o regime da ré scrã substituido pelo da
plena luz. A visão Imediata do mistério de Deus e algo que
«o olho jamais viu. o ouvido jamais ouviu c o col'ação do
homcm jamo.ls percebeu. (leol' 2,9) . A S. Escritur:!. insinua
css:!. realidade pôstuma mediante figuras, Que merecem todo o
respeito, mas devem ser tidas como tais, evitando·se a propó.
sito os devaneios da. fnnia sla.
2) InIcmo ... O Inferno nada tem a ver com imagE'Tls
populares de tanque de e nxorre fumeganle, nem é algo criado
por DcUlI. Vem ti. ser a h'Ustracão total ou a separação de
Deus resultante de IIvt'e op:;ão da criatura na terra.
Com oulras palovrns: todo SC I' humano roi natur'<llrncnt.c
feito para o Bem Infinito; este, cxplicila ou implicitamenle.
exerce um tropismo sobl'é todo homem, à semelhanca do Norte
que atrai a agulha magnética da bússola. Se alguém. usando
da sua livre vontade. diz Sim n esse Norte (= Deus), encon·
tra repouso c plenitude", Se, porém, voluntariamente lhe diz:
Nã.o e é encontrado pelo Senhor numa atitude final de repulsa
consciente e voluntá ria, terá o definith'o distanciamento de
Deus. '8 isto que se chama interno; a própl'ia criatura a ele se!'
condena, SC'nl que o Senhor Deus necessite de prorcl'ir alguma
sentença.
- 461-
22 -.: PERGUNTE E RESPONDEREMOS·, ~/19i9 . ____ _

Esse estado é derinitivo e sem fim, porque a alma humana


ê, por si mesma, imortal. O seu estado Infernal só terminaria
_ se o Senhor aniquilasse a criatura (o que se.1a contrâ-
rio à sabedoria do Criador) ;
- se o Senhor forçasse a vontade da criatura a dizer-lhe
um Sjm póstumo, contrá rio à livre op;ão da mesma (ora o
Senhor, que deu a liberdade ao homem, não lha retira);
- se o Senhor cessasse de amar a criatura e deixasse de
lhe aparecer como o Sumo Bem; então o pecador se íecharia
em si mesmo ou no seu egoísmo sem experimentar a atra;ão
de Deus. Todavia o Senhor não pode deixe.r de amar o homem,
porque Ele é incapaz de se contradizer; Ele não pode dizer Não
após ter dito Sim; o seu amor é irreversivel.
Eis o qUe se entende por Inferno numa lücida coneepcão
teológica. Vê-se que tal estado, longe de ser incompativel com
ti. santidade de Deus, resulta precisamente do falo de que Deus
ama a criatura, ... c a ama divinamente, isto é, sem se poder
desdizer e sem poder retirar-lhe o seu amor; cf. 2Tm 2,11-13.
3) Purgatório .,. Este não há de ser concebido como
condenação ou à semelhança do irúerno. Entende·se do seguinte
modo:
Se alguém ama fundamentalmente a Deus, mas ê incQC-
rente, alimentando negligentemente falhas e imperfeições por-
que não tem a coragem de extirpá·las, wna. tal pessoa, ao mor-
rer, não é rejeitada pelo Senhor Deus; está. voltada para Ele.
embora portadora de covardia c certa tibieza. Todavia não
poderá passar diretamente para a visão face-a-face de Dew.
pois na presença do Santo não subsiste a minima sombra de
falha. Terá, pois, que se purificar das escórias do pecado.
fazendo na vida póstuma o Que por negligência deixou de fazer
na vida presente,
Essa purifIcação póstuma nada tem Que ver com fogo. Ela
se realiza mediante arrependimento sincero, que foz o amor dI!
Deus penetrar em todas as camadas da personalidade nas quais
subsistia o amor próprio desregrado. Pode ser ilustrada por
uma lenda hindu, que assim reza: l
Certo mencUgo. sentado à margem da estrada, viu certa
vez a. carruagem do rei aproximar-se. lmedia tamente pôs-se
~ Temos conlcltncla de quo lal oslória lem suas amblg il.ldldee, mil
cremos que pode Ilustrar o que seJI o arrependImento póstumo.

-462 -
_ _ _ . .1l:~~UHRElCAO OOS MORTOS: QUAND9: _ . 23

a pensar que chegara o seu grande dls, pois o monarca haveria


de tirá·lo da sua miséria e lhe daria ricos presentes. Acon-
teceu, porém, que, descendo da (!arruagem, (l rei se lhe che-
gou e pediu.lhe um pouco de trigo! O mendigo sentiu terrive1
aecep;;ao, mas não se pÔde furtar ao soberano; catou, pois.
entre os grãos contidos na sua bolsa o menor de todos, e o
entregou ao monarca ... Todavia, quando o pobrezinho, no
fim do dia. abt"iu a sacola para fazer o balanço da jornada.
verificou que, entre seus grãos de trigo, havia wn de ouro;
era o menor de todos. . . Compreendeu então que fora mes·
Quinho c que, se ele ludo tivesse dado ao rei, estaria rico de
ouro c livre de apuros. Imediatamente então pãs.se a repudiar
o egoísmo e a incompreensãoj purificou·se dos mesmos, pro-
metendo a 51 nunca mais ceder aos maus sentimentos . . .
Esta imagem elucida, ao menos à distância, o que se pode
entender por purificação póstuma: é o repúdio decidido e radi-
cal de toda Incoerência aUmentada, mais ou menos consciente-
mente, no decorrer da vida terrestre. Deve-se à misericórdia
divIna, que oferece à criatura uma ocasião póstuma de f82er o
Que devia ter feito no momento oportuno, ou seja, enquanto
peregrina neste mundo. :t durante a vida presente que toca à
criatura preparar a veste nupcial, de modo a passar direta-
mente deste mundo à ccE!'la. da vida etcrn::u·.
Vê-se assim também que °
conceito de purgatório c algo
de lógico e hannoruoso no contexto do sâbio pIano de Deus.

I . oS . Sufrágios p.los mortos lert. 4.


Eis O teor do artigo;
'''' 'grtl/a .lIclloll loda, .. lorma' de pensamento a de 'lIpresslo qJe,
adotadas, tomallam absurdos ou InlnleUgr"els 8 sua orav1o, os .eus rlta.
fúnebres a o aeu culto dos mortoS, realidades que, na sua substlnel..
consUluem lugares leoIOglcos'·.
Com outras palavras: a Liturgia é um clugar teológicO:.,
isto é, um documentário que atesta e. fé da Igreja e serve de
referencial ao teólogo para elaborar suas teses. Ora a Liturgia.
desde remotas épocas, suPÕe a purificação póstuma, o céu e
o Jnrerno; a lém disto, ela professa, com a S. Escritura, a f'e'ssur-
reicão universal no fim dos tempos. Os sufrágios realizados
pelos defuntos não pretendem pedir ao Senhor que abrevie a
estada dos ftéls no purgatório (este não é um lugar, mas um
estado no Qual não se contam dias nem anos), mas rogam a

-463 -
24 c,;Pb:ItGUNTE E RESPON'DERb:MOS~ 239/1919

Deus que o amor tiblo e CQv81'de possa penetrar até o ãmago


da personalidade de Quem jâ passou para a outra vida. Esses
sufJjgios podem ter efeito retroativo, aplicando-se fiOS fiéis
que deles necessitem c na medida cm que necessitem.
. '
. De resto, n respeito do purgatô!'io, como também no
I océlnte il ,'ida póstuma em gCIÕlI, n S, 1~I'Cja recomenda sobrie-
dade de conccpÇÓC"s t' arinnaC;ÓCS. A fc 1'C"ela o essencial c
suficie nte para a oritmtação do cristão; abstenham-se os fieis
e os tcOlogos de deva neios imaginosos,

2, Cc,"clusêio
Eis, em pouea s palavl'al'õ, o conteúdo do recente documento
da S. CongregaGão para 3. Doutrina da Fé sobre a escatologia.
Tenciona dirimir duvidas e firm ar f\ fe dos cristãos em pontos
de importância capital. O cristão vive mais em fun;ão do
futuro do Que do passado. e a expeelnliva dos valores defini-
Uvas (já presentes em gérmen na vida terrestre) que norteia
o comportfLmen to dill l'io do disc:pulo de Cristo_
A S. Igl'(.?ja InslsllJ em QtI~ os t.eólogos, pregadores e cate,
qulstas trnnsmltam com fict~lidndc os cnslnamC'ntos da reta fé.
Os teólo:;:os hão de pC!lqulsar, sem düvida, em esplrlto de comu-
nhão com a S. Igl'('ja. Qua nto no:r:; catC<tuistm; c pl'ep;ador~,
abstenha m-se de nov idades qUL' ni"lo cond i):!:OIll com as vm'd~ld C'~
atrás cxpostas.
Dc modo especia l. incum!.>t' aos !ir~ . Bispos velar pela
<l.u lcnlicidadl~ da Illensap;em de fé ensimlna nos homem!. Daí a
atençüo que devem d ft l' us puhlienç!lcs rcferentes â csca l ol~hl.
Saibam, por si ou mcrlinntc a d cclua d a comissão diocesana. dls·
tingulr o certo do C"l'rorlo, npont ando com niHdcz ns obras e
os escrilos que cd irlqUf:'m n (e do 1>0\'0 de D ~us e assinalando
devidamente os 1I,'ros c t'll'tir::o~ que de ul!tum modo se lhe
oponhi'lnl.
A propósito :
B~TTENCOUP.T, E.. fi. vida que com.ça com li .morte. - Ed. Agir,
Rio (!e J a nol ro 1955.

BOROS. L., Mysl.~ lum Morlh. Ollen ' 96 2.


CULLMANN. O.• 'mmor'all16 do " ' me ou Résurreellon det mor1s 1
- Neu chétel· Peli" 1955.
POZO. C.. Te ologia d. ' mb aliA. Co'eçlo 6AC n~ 2112, - Le Edllorlel
CalcUce. Madrid H!68.

- 464 ..-
Gêneros IIterãrlas na Blblla :

que é um apocalipse?

Em clntese: Ao Sibila 6 um livra cuja interprelaçAo lê consielerada


dili<:it; muitos e studiosos. ulllizam pila fundamenlar ou Ilustrar as lese,
mllls conlradllÓ,ln.
Esta conludo ae deve, em grande parte, 80 lato de nlo 158 levarem
em conla o, gênoros Ji tertarlo, existentes na Sagraela Escritura. Esta 101,
sim , redigida at ravés de dez:enove séculos. por autores humanos que,
embora Insplr3dO$ por Oeus, utiliz....am os metos do expressA0 da s ua
época I) das , uas ,.0.910e s. ~ necessário, pois, que o Intérpreto contempo-
,aneo ret roceela no tempo e procure ambientar-se nas clrcunstanclas em
Gue c, autores biblicos compus.ram seus escritos. Esta ta/eia s6 s.
tornou pass lval a partir do séCUlO S)a"a(fO, 'iuando os estudiosos desco-
tlriram a exi,têncla de IIngUI" e blblloteclS contemporâneas lOS autores
blblicos no O,ieOlo e no Egito. Tomaram entlo consciência de que na
Blblla hã gêneros lilerárlos, dos qUlls cada um tom suas peculialldados
de cxpreulo prOprllS.
Enlre .ss.as {16M/os (f.sltlCI·50 o do apocalipse. Esle ésleve om
VO!)lI no povo de Israel ontre o s!!c. 11 a.C . e o séc. " d.C, Sucedeu 6
prolllcla, que no,s;, lalxa da tl l.l(lrle ere rara.
Um lIpocalipse 6 um CSClltO cujo autor tencIona consolaI seus IrmQos
subme tido. A pe.scgulçllo ou trlbulaçlo. Em vez de o lazer em seu pro.-
prlo nome. atribui . eu, or6culo. a um personagem blblico de tempos pas-
sados. cujo nome dê autoridade a tais or4<:uI05. AssIm o apocalipse parece
ser prolecia, mas n'o o é, Além dlslO, todo apocallpsa se relere sempre
DOS acontecimentos linals d. M,tOrla. apresentllr.do o S~nhor Dous como
J ..i:t que hã de e X3lta( dMinitivamél'lté Os bons é pUflir os maus : esse
Julgamento unive rs al se realiza em c;enárlo c;Osmi(:o. com a parliciplÇlo
d os anjos . \As " revelações" lpocaliptlcas 510 deserUas como se fossem
obtidas em sonhos ou 111.00. : o. snJa. as elucidam lO vldonte, ele.
NO E\'aflgclho lo mes trsços de Apocalipse em Mt 24 : Me t3 : l e 22.
Entendam-se esses 10105 no sentido exigido pel8$ regras do estito apocl'
liplico.
... . .
Comentário: Os temas bíblicos são sempl'c atuais, visto
l1ue muHos estudiosos, ao proporem suas tescs ou hipóteses,
pt'OClU'nm fundnrnC'ntã·las na Sagrada EsCl'itm'a; esta parece
prestar·se a dar nutol'idadc <às mais diversas tcorias; às vezes
mt.'smo sentcn-;ns contraditórias são pretensamente patrocina,
das pela Bíblia.
- 465-
Por que se dá tão estranho fenômeno ?
Em grande parte, isto se deve ao falo de que as pessoas
não levam suficientemente em conta a Cace humana da Escri-
tura; esta, na verdaóe, não e um liVl"O caído do cêu, independen-
temente da tramitação dos homens; mas ao contrário, é essen·
cialmente marcado pela mente e o gênio de homens mediante
os quais Deus se quis dirigir a toda a humanidade. Se, pois, a
Biblia fol redJgida de acordo com as regras de linguagem de
homens - e homens orientais antigos - , entende-se que só
poderá ser adequadamente entendida se for recolocada no
ambiente cultural e lingüistico em que foi escrita. Há. por-
tanto, regras objetivas de interpretação do texto sagrado,
regras que obrigam o estudioso moderno a despojar-se de suas
categorias de linguagem pessoais para poder compreender o
modo de pensar c falar dos antigos.
Ora esta tarefa, em grande parte, coincide com o estudo
dos gijneros literários da Biblia. Não levando em conta 0.5 ver-
dades acima expostas, muitos estudiosos incutem à Biblia as
suas idéias e hipóteses e as apresentam como se fossem dedu-
z.ldas da Biblia. em vez de fazer paciente e autêntico trabalho
de exegese ou de leitura do pênsamento bibliro.
Eis porque, a fim d~ possibilitar rn~lhor compre~nsáo das
páginas sagradas, vamos, a seguir. expor sumo.riamcntc o Que
sejam os gêneros literários e, em espcciaJ. o gênero literário
apocaUptico.

1. Gênero literária: que é?


Leve-se em consideração que a linguagem, embora em si
mesma seja algo de convencional, é imposta nos casos con·
eretos (com seu vocabulârio e suas regras de cramâtica e sin-
taxe) a quem se queira comunicar. Todavia essa Imposição
não é tão precisa Quanto a da matemática; admite todo o ma-
tizado que a psicologia humana podi' conceber em matéria de
expressão e comunIcação. Temos vocábulos com duas ou mais
acepções (boca, ladrão, porça .•. , por exemplo), como temos
dois ou mais vocábulos dotados da mesma acepção (asno e
burro; bilha e moringa; bambu e taquara,." por exemplo).
Pode alguém exprimir a mesma verdade de multas maneiras,
não somente usando vocábulos sinônimos ou alterando a cons·
trução da ft'ase. mas mm bém re~orrendo a diversos modos de
- 466-
Qm: f: UM APOCALIPSE
- - - --
falar, isto f, usando palavras em sentido exato e próprio ou
lançando mão de metáforas. Assim posso designar o mefmo
inseto pelos nomes de eborboleta. e de «panapanã., o mesmo
objeto pelos nomes de «bordão. cajado. bastão, báculo. , como
também posso dizer qUl! Tarzã era um lutador heróico ou que
cra um «leão».

Assim entrnmos no terreno dos chamados «gêneros literâ·


rios.. Não raro chama·se «gênero literário. qualquer expres.
sionismo (breve ou longo) que, segundo as intençôcs de Quem
o profere, deve slgnifk:al' algo diverso do que comumente se
entenderia. Esta praxe de nomenclatura pode redundal' em
generalizações indevidas. Por Isto, para precisar propr1amente
o que seja um gênero literário, recorremos a uma comparação
inspirada pela arquitetura.

o 81'C)'Ui leto pode conceber diversos tipos de construção:


assim, uma casa 1'f...>Sidencial, um hospital, uma escola, uma
igreja, uma ponte . . . Urna vez estipulado () tlp() da obra a
ser construidn, o <ll'quiteto terá ainda que escolher o malcrlai
respectivo (pedl'a~, tijolos, ladrilhos, mármores, madeh·u ... ),
IIS molivos ornamentais (formas de portas, janelas, eapiteis)
c li técnica de construção (peças prefabricadas. conCl"Cto ar-
marlo .. , ) ,.. Cada constru(':\O, em seu eslilo, C'xlgc material,
OI'll:Illll'nlos c t écnlc'l Pl'Ópl;OS; não se pode adotar t]Unlqum'
lipo de ornan1~nl o ou qualquer matm'ial de construção para
llunlquer rcalizn(':io arC}uitetôn!ca,
01"<\ digalllo3 {IUC 1.\ Iinguagt'OI Immana c semclh,lntc a wna
(:on~ I11.1fo'ãoarquitet õnica, Quem se exprime, tem a Intcnção de
('omullicul' alGO ele determinado (un1 episódio hlstólico, uma
Ji~iio de l'tiC3 , uma série de Jeois . . , ); deve também escolher o
I$l ilo que usar.i (prosa, poesia, expressão juridica .. , ). Urnil
Vl.!7. cs tipulado~ c:ó tcs elementos, tera que usal' o vocnbulúrio (~
as regras de sintnxc correspondentes à sua intenção. Cada
assunto e cada estilo costumam condicionar o respectivo tin·
guajal' e expressionismo, Assim chegamos ao conceito de gê·
nero 1It('l'ârio: este vem a s~r a fonna literária própria utili,
zada por um escritor cm run~ão do assunto que ele aborda e
da finalidade que ele t~m em vi.sta, Todo gênero literário
resulta, pois, de

1) intcn:;üo ou Cinalldadc do escritor ao abordur lal ou


t a l assunto;

- ·lê7 --
2) formas, motivos e pl'()('('dimcnlo~ literários ndnptados
a tal jntenção.
Em conformidade com este eonceito de! «gênero lite rârio»,
distinguimos na Blblla :.Iguns grandes gêneros literários:
1) t) gêU!"!fO histôdco, com !;Cus subgéncros (o midraXl!,
o relato etiológjco, a hislól'ia edificantc, a tradição de fami.
lia ... ) ;
2) o gênem juric1ico, que hã de seI' sempre conciso c
claro:
3) o gênero poético, flue recoITe a freqüentes metáforas
e reticências (à difcl-ençn do gênero juridlco);
4) o gênero sapiencial, que procede muitas vezes por pro·
verbios, máximas e sentenças ritmadas;
5) O gênero evangélico, com varias subunidadcs (apof.
Icgmas, frases em cEu », pnráholas ... );
6) o gênero epistolar. com cabeçalho, corpo c saudações
finais;
7) o gênero profético, com a sua subunidadc «apocalipse».
A respeito do upocaJipsc, pro[lol"(~mos consideraçõcs especiais
no terceiro subtitulo dcste urtigo.
Arinna.sc, com rn7.ilo, flue ceada gõnero Iilenirlo tem a
sua verdadt!.. Isto mio quer dizer que a verdadc seja relativa,
mas tão somenlt! que eada gêMro lIterál'io aborda o. verdade
«do seu modo»; oro coloca.a em plena luz, ora propãc trechos
em que só 70% ou 6O ~i- ... dos dizeres contem a mensagem da
verdade e 30% ou 400;;' ... servem de moldura 11 tanto .. . ou
vice·ve~a ...

Compete.nos a~orn ('slud.1r

2. O hist6rico do questão
Pode·se dizer que a tradlcão exegética sempre esteve
Rtenta à existência de expressões figuradas, parábolas e alego·
rias na Blblla. Todavia aos exegetas até o sée. X1X faltava o
conhecimento das lite raturas orientais antigas e dos seus d iver·
sos expresslonlsmos. Este s6 se tornou possível em conseqüên.
cla de explorações arqueológlcM levadas a eleito no!'> séculos
XIX e XX.
- 468-
QUE Ê UM APOCALrPSE

Os estudJosos que prlmeJramente confrontaram os textos


blblicos com os escritos da Asslria, da Babilônia e do Egito
antigos, eram criticos, racionalistas e liberais; movidos por seus
principias filosóficos mais do que pela evidênda literária c
arqueológica, iam impugnando o valor original e sagrado das
Escrituras, reduzindo·as o plágios ou sucedâneos de escritos
oriundos entre os povos vizinhos de Israel. Isto provocou nas
escolas ~atóll~as de exegese uma desconfiança em relação aos
mêtodos modernos de análise literária do texto sagrado·; julga-
vam muitos pens.1.dores católicos que tinham de rejeitar glo·
balmente tudo o que provles.'5e de autores racionalistas ou libe·
rais . ..
Aos poucos, porém, essa atitude drástica Cai sendo substi-
t-uida por uma censidC!ratão mais serena e objetiva da l'eali.
dade. Verificaram os catôlicos que era possível Ce mesmo
necessário) distinguir entre os instrumentos e o método de
pesquisa dos . colegas liberais, de um lado, e a filosofia dos
mesmos, por outro lado. Enquanto esta era não cristã, aque·
les poderiam ser validamente utilizados em perspectiva cl'istá.
o primeiro autor a perceber a distinção c pô.la em pra.
tica foi o Pe. Lagrange O. P., Que escreveu o artJgo cL'ins·
piration ct Ics c){igences de la critique» (Re\'ll6 Bihlique 5
118001 496.518). Em novembro de 1902 o mesmo estudioso
lornava a expor suas idéias em conferências proferidas no
Instituto Católico de Toulouse. Propunha então a adoção da
tese dos generos literários na Bíblia: poderia havcr passagens
b:blicas aparentemente históricas, âs quais se deveria assina-
lar veracidade hbitórica dlminuida (visto que a Intencão do
autor sagrado não teria sido a de narrar histõria propriamente
ditn). Esta tese suscitou ardentes debates. Dois anos mais
tarde, isto é. em 1904, o Pc. F . von Hummelauer S. J. levou
adiante- as idéias do Pc. Lagrangc publicando uma obra 1 que
continha u lista de nove- gêneros literários aparenlcmcnte his·
tórlcos, mas, na verdade, não plenamente, ou mesmo de modo
nenhum. históricos: a fâbula. a parábola, a história épica. a
história religiosa. a história antiga, as tradições pOpulares. as
narrações livres. o midraxe hagádtco, o gênero profétlco-apo-
caliptIco. Desses nove gêneros. os dois primeiros sempre foram
reconhecidos como não históricos; os demais eram apresen-
tados pelo Pe. Hummeliluer como expressões de um conceito
1 EUVln,chl' :tur I",plr.llonslr• .gl. Blblllchl Studll" 9. Frelburg
I. Br. 1904. D

- 469-
30 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS,. 239/1979

de história diverso (porque multo menos critico e exigente)


do que hoje temos. A tese do autor jesulta - ao qual se asso·
claram outros exegetas católicos - contribuiu para dissipar a
Impressão de que e:dstem erros de historiografia na Bíblia;
com efeito, se os autores sagrados não tiveram a intenção de
nos transmitir a história com toda a exatidão a que está acos·
tumada a ch}ncta moderna, não podem ~r argüidos de falsos
ou mentirosos; a nós é que compete recuar no espaco e no
tempo, a fim de descobrir qual a genuina intenção dos autores
biblicos e, conseqüentemente. entender seus escritos como eles
,!uiscrnm que fosscm ('ntendidos.
O magistcrio dn Igreja, a pl'incipio l't'Sctvado quanto nos
generos literários, foi·se abrindo aos poucos a esse novo ins·
trumental de anãllsc do texto. Finalmente em 1943 o Papa
Pio xrr, na encíclica «Divino AfClante Spirilu», houve por bem
não só reconhecer a exlst~ncja de gêneros litcrfllios na Blblia,
mas também I'cromcndnr a pesquisa dos mesmos:
"Multas vozos nlo é claro o sonlldo IIloral das palavras B dos escrllo.
dos antigos orlen'als como també m dos escritores de nOS!oa épOC8. Por·
que nAo ê só mediante 8S leis da gramállca ou da filologia, nem só me·
dlanle o conledo do dlscureo que se determina o que os anllgos quiser.m
significar com os auas palavras. 11 absolutamente necesslhlo (jue o Inl6r·
prete eo transponha mentalmente aos remotos séculos do Orlenle, para
que. devIdamente apoiadO pelos roc ursos da hls torla, da arqueologia, da
otnologla o de outras disciplinas. distinga e veja com clareza quais gêne-
ros lIIarll,los (como dl:z:eml quiseram aplicar, e de lato aplicaram. os
esc,ltoras daquele época anUge. Pois os orIentaIs de outrore nlo utilize-
'Iam sempre as mesmas formas e os mesmas maneiras de dize, que nós,
ma, &ONlam'" das que e stavam em uso corrente entre os homens da
sua época e dos uus paiso:;. Quais lenham sido ossas l ormas, o exegeta
nlo o pode estabelecer de enlemlo, mas ele o 'ar4 se proceder a escru-
pulOSO estudo da amiga lItelatura do Oriente" (ane. ''~ivino Alllanle
Splrltu" n9 643--&4').
A t"ncielica de Pio XII pôs l~tmo a receios infundados de
exegetas católicos no tocante à" ~qulsas biblicas; c"tas podc.
l'imll (c devcriam) tranqüilnmcntc valcl'·se para o futUl'O de
todos os I'CCUI'S03 cientiClcos (lingüística. al"Qllcologia. paleo·
grafia ... ) que os eshldiosos (não católicos e católicos) desde
muito utlli2Qvam. Seria licito ndmltlr que relatos aparente.
mente hililóricos na Blblla nfio têm valor integralmente hlstó'
rico... Naturalmente, para poder afirmar tal tese, o exegeta
católico há de se basear em critérIos objetivos de anãlise lin·
gUlstica e literário.; jamais o faz de antemão ou preconcebida-
mente, Estude, antes do mais, o texto sem preconceito. e,
como conscqUência desse estudo sereno, defina ou proponha ()
gênero literário em t'Jue~tão.

·170 - -
_ _ _ __-'Q"'u~ J:': UM APOCAUPSE _ __ _ _ .__ 2.1

O reconhecimento de gêneros literários na Bíblia leva-nos


ainda a importante conclusão: a mensagem que Deus quer
comunicar nos homens através das páginas sagradas está
cellC311l8da. ou está revestida pela roupagem do gênero lite.
rário c dos expresslonlsmos que cada autor sagrado utilizou.
POl' isto. a fim de se perceber a mensagem divina das Escritu-
ras, é absolutamente indispensável pêrcerer-se primeiramente
o que o a utor sagl'ado quis dizer alravés das suas pâ&,inas.
Quem negligencia o dlscernlmento dos gêneros literãrios, sim-
plesmente não entenderã os Uvros bíblicos ou atribuir.lhes-á
falsas concepç6es ou (lInda as conccpçõE$ que o próprio sujeito
lhe!' queira Imputóu",
Pas5(!mos agora 'ã consideracão do gênero literãl"io apoca-
Iiptico.
3. Que é um apocalipse?
A palnW8 ~rega n.pokál)1JSjs quer dizer revelação. O gê·
nero literârio das revelacões (ou apocalíptico) teve grandc voga
entre O!; judcu!; nos dois s~culos imediatamenle anteriores c
posteriores a Cl'islO. A sua origem se deve principalmente ao
falo de que os autênticos profetas foram escasseando em Israel
após o exilio babilônico (587·538 a.C. ); os últimos profetas
biblicos - Agcu, Malaquias c ZaCRrias - e:';Cl'Cenlm o seu
ministério nos séculos VI c V a. C.
Ora após o séc. V o povo de }sl'ael continuou sujeito no
Jugo esh-angcil'O: l'CloIT13ndo do exllio babi lônico em 538 a .C .•
ficou sob o dominio persa até Alexandre Magno (336·323 a . C . )
da Macedônia, Que conquistou a terra de Israel, anexando· a
ao Império Mólccdõnico. Após a morte do Imperador, a Pales-
tina ficou sob os egipcios (dinastia dos Ptolomcus) até o ano
de 200 a . C . Nesta data, os sirios ocuparam e dominaram a
telTa de Israel. constituindo ai o periodo dos Antioc03 ou Se·
lêucidas. Finalmente, os Romanos em 63 a .C . invadiram o
território pnlesthmnse e impuseram seu jugo aos judeus, jugo
que perdurou até q ue o povo d<:> rsrn~l foi expulso da sua t<:>rra
em 70 d.C. (qucdn e mina de Jerusalém revoltada) . Ora n~·
J;as duras cll'cunstA ncias de vida o povo de Israel, não tendo
profeta. sentia necessidade de ser consolado e alentado para
nuo l'esfaJecer. Foi então que os autol'eS judeus se puseram a
cu1tivar mal~ assiduamente o gênero literário apocalíptico ou
da revelação. que tem nfinidade com a profecia, ma~. na ver·
dade, não ~c Identifica ('om esta.
--. 'li! -
E-_.__. .. PER("~!1\'TE E RF.SPONOEUEMOS ~ 239/1919

O apocalipse (revelação) tende a incutir nos leitores uma


confiança inabalável na Providência Divina. Todavia, em vez
de o fazer de maneira escola r ou meramente teórica, exortando
ã fé, o a utor recorre a um artlficlo: atribui a um famoso perso-
nagem bíblico do passndo (Enoque. Moisês, Elias, Daniel) ou
a um a njo do Senhol· l~vclações proCêtic.as a l'espcito da época
que ele e SI!US corl'~lIgion ál'i os estão vivendo. Esse persona.-
gem fa moso antigo descreve os tempos a tribulados que os
leitores experimentam e assegura que a tormenta pass:nâ.
devendo a causa de Deus triunfar da (acÇÕo dos ímpios; estes
seriio pl"Oslrados, pois ocol'l'crão em bl'CVC o juízo fi nal da his·
tória c a consumaçflo dos tempos . E; isto que dã ao apocalipse
a apu l-êncla d~ profccia; todavia note·se que o autor, ao de;;·
crevcr os fatos de sua época (como se tivessem s ido pl~ itos
por Enoquc ou Moisés ... ), os descl"Cve na base d~ suas obsel"
va~ ões e e:<pNiê ncias pessoais. O recurso a personagem Carnoso
da antigUidade como reveJador da mensagem ê artU:cio pró·
prio do gênero apocalíptico: tende a incutir mais ânír.10 e espe·
rança nos leitores; com ereito, se o próprio autor sagrado, con·
lemporâneo dos Icllol'CS Imediatos. predissesse dias melhores,
não tel'ia a mesma autoridade qUe ('\'t\ inegavelmente rrconhc·
cidn n Enoque, Moisés, E lias, Da niel. ., Por sua vez, o (,'SCl'i.
tor sngrado tinha fundamento~ para consolar l'leus compa-
triotas pcrse:;uidos e predizer a vitória fina l do hem sobre o
mal, pol'que est n é ununclnda por todas as pro fecias e pro.
messas feitas a Israel. O nutar de um apocalipse nnda acres·
centa de novo n e5~as promnssas: upenas as tm'lla atuais, repe·
lindo-as de ma nelríl solene e enfáti ca em momento penoso tln
histéria do seu povo e anunciundo para brevc Q cumprimento
das mcsmns. De resto, a Sal\'ac:úo, j ã ofcrecida pai" Df'l1s em
fascs a nteriores d e tribuln-;-ÕCl'l de Israel, era penha!· c1f' que,
1ntT!bém rie:r;sa \.C7., o & ' I!hOl- não .,:,m!dor.a!'ia seu !"'Ovo.
As p;.·I,;inns mais Iip;CôIIllf'l1tC" npncalipt icas do A I~Ii.!!o Te~ ·
tamento s:10 os cnpit:Jlos 7 n 12 do livro de Daniel. Eslns s.."'C.
GÔCS foram e!;Cr itas no séc. li sob o dom:nlo dos sirios ou Ant:o·
cos na Palestino: .atribuem a Daniel, famoso v<"lmo do séc. VI .
a descricão simbolista dos acontecimentos que St~ desenrola·
ram desde o dominio PCI'M (sec. VI a .C . ) até o domínio sl rio
(séc. TI a .C. ): em estilo de sonhos e visões, são apresentados
os reis persas. macedOnlos, e~!pclos, slrios que impcrar,:tm
sobre Israel até A ntíoco 1\' Epirânio (1.75 ·164): paro os tem·
pos deste, o autor apocaliptico anuncia n intervcndo final de
Deus c a snlvsc-ão a sel' trazida pejo Messia!'l, Não ê fácil
entender um a!>Ocalipse. \'isto que utiliza exuberanh'! Rimbo-

-472 -
QUE e Ui"ll APOCALIPSE 33

IIsmo e coloca o leitor diante de um cenário cósmico, que con·


juga o céu e n termo
Mais precisamente. podem.se assIm caracterizar os ele-
mentos fOl'mais do gênero apocallptieo:
1) a. pseudolÚmia. do autor. Este é um ~ontemporãneo
do~ seus primeiros leitores, mas Cala-lhes como se fosse um
pcI'sonagem antigo e venerável. Ê o que se vê clal'amente, por
exemplo, no livro de Daniel. No Apocalipse de São João é ' I m
anjo quem revela,
2) O cn·r!i.ter if'sotérico ('Ou reservado) das relo"cla.ç5es.
EsLas terão sido comunicildas outrora 80 venerável personagem
da antigüidade; ucvlam, porém, ficar em segredo até os dias
do autor do apocc.lipsc. Veja. se, por exemplo, Dn 8,26: 12,9,

3) FreqUentes inten'enções de anjos, Estes aparecem,


nos apocalipses, ora como ministros de Deus que colaboram
com n Providéneia Divina nD dispcnsação da salva~ 1io aos
homens, 01'3 são lntêl'prctes das visões ou revelações que o
:llUOI' eto livro OI'SCI'eVt:'. Cf. Ez 40,3; Ze 2.1s: 2.5.9: !i.1A:
6,}-8; Ap ;,1.3; 8.1.13,

4) Shnboli~lIIo rico c, por "C'Zcs, singular. Animnis pc.


d t'm ~ic nincar homens c po\'os; rcr~s p. I\ves l'elll'eScnlalll gel'~ll­
mente cs J1a<,'õcs pagãs; os anjos bons são d~serilos como S(>
rOl':sem hom::-ns, e os maus como estrelas caídas, O recurso
'1:IS llúm('l'os e fl· .... qiicntc, l':<\:plo\'ando-sc cntl'lo o s imbolismo
elos mesmos (2, i, 10, 12. 1000 como ~ imb olos ue bonalçl: 3, 1/ 2
C(lIT:O símbolo de :;cllú l'ia e tribulc::çflo), l!: n exuberância do
~im l;olismo dos ilpoc:tlipses que torna dificil a compl'ccn,,50 dos
11J{'smos ; o leitor ali inlél'pretc d~vc procurnr cnt ~ necr CS3('
simtolisOlO u IlUl'UI' de pa s.'iU.~cns biblicns {., ('xlió\,bib li c~s para·
leh.ls (na \ 'cl'ua dl', hú silllholos que l'õC r epetem co:n n mesma
significaçüo: f:a[a nholos. ã~:t.s, cedro. ll'Js anos c meio, mi l
anos . . . ).
Os autores de apoc;tlipscs SHO assaz livres ao conceber
~cus símbolos, suas \'is5cs e personl ri ca ~ões; prop5cm :cnas
l.>5ilranhns sem se preocupar com a sua verossimilhança: cC. ,
por exemplo, a ierusn lóm nova ,,'m Ap 21.1·27; Ez ·17,1·12.
5) Forte notl) osc..'\toI6gica.. Os apocalipses se voltam
lodos para os tempos finais da história c os desel'evem com
-473 _
34

grandiosidadc, np~cnta.ndo n Interven:;ii.o solene de Deus em


meio a um ~nârio c..'ósmlco, o jul~mento dos povos, o abalo
da naturc7.ü, 1\ puni,âo dos m<tus c n exaltação dos bano;
(cstamlo reservado pnrll lsrncl ncli.<;c contexto um papel de
r<>levo c de recompensa).
Este traço dlfel'encia bem da profecia o apocalipse. A
proft'Cia é sempre uma. palavra dita em nome de Deus (pro-
.pheemi = dizcl- em lugar de,; todavia nem sempre visa ao
futuro: refere-se muitos vezes R situaçm do presente, pro·
curando sacudir os homens de sua indiferença religiosa ou dn
hipocrisia de vidn. lcvnndo-os 'l conduta rnaml mais digna e
correta; u profto'cia tem, sim, um caráter fortemente morali·
zante, válido pera os contemr.o:-âneos. mas nem sempre vol·
tado para o rutUl'O ou li l"senlologia. - Ao conll'ario, nos apo-
c:alipses a indole moraliznnle desaparece quase por completo:
o que preocupa o autor sagrado, s.'\o os acontccimcnto~ finni::.
ria história, que redundarão em derrota dpfinitiva dos maus e
prêmio para os bons; as visõcs. O~ sonho~ c os símbolos fanla-
~istas (que jã os Dl'ofelas cultivavam. mas com sobriedade)
tomam-S(> o e!('m('nlo ciominnnlr na fOl-mn litcrúrin do!;. apor.n,
!i pses,
li) O J.tl:IlCI"O likl 'ú rio l1!)()('ltli llIiCO rol-sr' forlll:lndo, cum
liua:s div('l"SUS carudcri:stlcu:i, I~tn,,·i· s dos súcu!os ou rnUllathlól·
mCllte, Jã se (!ncontl'"m alguns de seus elemcntos nos L'l'lcri·
lOS dos pro('(as, nntcs rio séc. 11 II,C, Há mesmo passngcn~
de profetas (IU(.' 1&111 estilo <1l1ocntiplico, como pode havf't' nos
I'scrilos apoca lipticos 11'\.'Chos de indoll' pl'ofélica. As..<;im no 11\'1'0
de Daniel são tidas como pl'ofêtiraJ:: as p:J.R<;''lgens de Dn 2,34.4Q s:
7,9.14; 12,1.3.

4, O apocolipse sinótico
Nos Evnngelhos s inóti{'ns IM!. Me, Lc) há pa!':Sagt'n$ de
estilo apocaliptlco: Ml 25.1-51: Me 13 . )· ~7; Lc 21,5·36, Cons,
tituem o chamado .lipnn!i!) f's('ato!ógl('o (relativo aos llltlmos
tempos) de .Tcsu::i, A apocal!ptlca dos E\'.~nJ::elhos não abl'íln~e
todos os el!!m~ntos atrás atrlbuidos ao gênero litct'áTio apoC'll'
Iiptico; assim, por exemplo, nfio pretende ser revelação de vel'·
dades outrot'fl comunicadas por Deus fl um santo personagem
bibllco e posteriormente manifesladns por um autor sagrado
aOS homens atrIbulndos. O que hh de' apoca!\ptico na!' pas~o·
grms evangélicas citadas, resurnc·SõÜ nos; sE'guintes e lementos:

- <174 -
. l~~rt~ .~J!M APOCAL [~~~ _ ______ . . ;j:j

a) A perspectiva. elo fim" . Os exegetas Indagam se o


fim intencionado por J esus ê o fim dos tempos (como seria
nomHll m ~nte num apocalipse) ou tão soment e o fi m de J eru.
salem (que OCOl'rt!U em 70 d. C . ), Esta (dllma senten!;'8 é pl'O·
posta por autores de renome. Embora Mt 24,1-51 apresente
CC1·tOS elementos de juizo universal, pode-se admitir que esse
j uizo tenha em mira tão somente J erusalém. Jesus terá des.
crito a Juta e a queda de Jerusalém num cenário de natureza
abuJadf\ ou com elementos do gênero llterãlio apocaliptlco, por·
que o juizo sobrc Jeru!;a.lém (: figura do juízo sobre a huma·
nidade que de\o·crá. ocorrer no rim dos tempos_
Outra s~nt c nca julga que Mt 24 alude à Queda de Jerusa·
lém nos vv_ 4·28 e ao Clm dos tempos nos vv. 29-51. A prl.
mrira scrln Imagem deste, de modo Que .Tesus, como profeta,
teria visl0 uma c outra realidade nwna. perspectiva de conU·
nuidad{' c os tel'ia apresentndo num itnico sermão.
b) O Cl'll':1rlo eó3m1co: "O sol se escurecerá, a lua não
dará i.t sua claridade, as estrelas cairão do ceu e os poderes do
céu tir.rão abalado:!» (Mt 24,29). Estas afirmacões hão de ser
c 'lItendida~ .'1 lu7. do estilo apocaJiptico; não definem, pois,
acontccimi..'ntos vindouro.... mas signlricam que a na tUre7.ll cós-
mica, nlC!!mo Inanimada, pRrticipará do grande evento final da
hislôrin, quando o Senhor DC'us rlls...er Il PaIU\'1'a l1<!finitivll rti.'
vitória do bem c esmAgamento do mal.
e de reComendar sobriedade a quem medite sobre o d~n ·
l'Qlar dos evcntO!l escatológicos. A Sagrada Escritura cmp reg'l
hnng<"ns múltiplas, que hão de ser respeitadas como imagclI:J
c que, por conseguinte. não permitem ao estudioso aventurar
conjeturas minuciosas sobre tão delleado tema, Entre as pou ·
cas verdades que a este dizem respeito, pode.se a!innar com
certeza que Cristo vlrã como Juiz Universal para rematar a
histôrin e desvendar os segredos dos corações; ent ão o bem e
os bom; serão pública e defin itivamente exaltados, ao passo
que o mal e os maus serão reconhecidos como tais.
'" propósito veja-stll ainda
E. BETTENCOURT, A vld. que comoça com a morte, Alo ae J.,...Jro,
Agir, 19S8.
L eOfF, A .Ida para 81M d. mort•. Petrópolis, Vor.el. ' 973.
S. MU~ OZ IGlESIAS, Los .'n,," me,.dos ., la Inlerprelaclon d.
la BlbUa, Mad rid, 1968.
M. De TUYA· J . SAlGUERO, Inlroduecl6n • 'a Blblla. I '1 li. Madrlél,
BAC, 19&7 (w. 2e2 y 2&) ,
V. DEN BORN. Dlclon'rlo Enciclopédico d. e~IJ •• verbetes "Apt'ca-
IIpllca". ··EI C3IoJogJa", Pal' opolls, VOl8S, 1971.

- 475 -
Oevoçlo popular:

e as correntes de orações ?

Em slnte•• : o presente .rtlgo teNle a mostrar q U I! a pr611ca das


cadeias de orações' abertanto do ponlo de vista da razão tanto quanto
b. luz da f6. Com olelto: nada prova existir algum neKO causal enlre tal
prece ti os efeitos mar.vil~.osos que se lhe atlibuem. Quanto il Revalaçlo
Divina, ela nAo aponta Icumulas millgicas que obr iguem o Senhor a atender
ao homem no momento e nas clrcunstAncias dltadils pelo oranle; admitir
lal tipo da oraçlo significa nAo ler o co nceito de orlilçao cristA, que é
sempre o diéiogo confianle de !ilhos com o Pai do céu. Donde se vê
que 81 cOfrenles de orlç6es devem ser Interrompidas tranqOllamonle; se
algum eleito maléllco em qualquer tempo resultou de lal Interrupçlo, 8sle
(caso lenha reelmente ocorrido) se deve exclusivamente ao augesUona-
mento e ao medo que afetaram a pessoa crédula e Insegura por hàvcr
quebrado • corrente de or.ç~s.

o ar1lgo 50 detém ainda sobre a mentalidade da pessoa supersti-


ciosa; esta abdica da sua capacidade do pensar e crlUcar sadlamen!e,
relacionando efeitos estranhos com causas Inadequadas. Verifica-se, porém.
que peuols do ella In!efeC:lual/<la,de o çullura aderiram a supersllçOes
(Em flo Zola. o presIdente M<lzaryk, o musico Cllopin .. . ) . Isto s6 50
explica pelo lato de que o ser humano 6 naturalmente retlgloso; pOf Isto
ou adora o verdadeiro Ceul ou cultue substltulivos. ou sela, objetos e
f6rmulas que !tle fazem u vezes do verdadeiro Deus. t , sem duvida, li
nostalgia do Divino que, opesa, de ,,,do, se faz ouul, nas aflrmaçOn
errôneas da supo/SUçlo.

• • •

Come-ntátrio: Não é raro receber alguem uma carta por-


tadOra de oração emuavilhosa, a ser policopiada c transmi-
tido a n pessoas dentro de x dias. Caso o destinatário dcssa
carta siga as instru:;ões do mltentc, scrâ feliz c conseguirá
portentos. Caso, porem, n~gligeneie fazê-lo, serâ vitima. de
tremendas desgrncas, S mesmo costume citarem-se- epiliódlos
de pessoas afortunadas pela sua docilidade às normas recebi-
das, como também os de indlvlduos que se prejudicaram pelo
desprezo das mesmas,
- 476-
(.'ORRENTES DE ORACOES? 37
- -------=~~~~~~-----

1. Que dizer?

Proporemos a respeito três observações:

1.I . Qual o fundam.nto?

t: preciso, antes do mais, que se Indague : com que fun-


damento se pode crer na eficácia da oração em cadeia? Quem
envia a prece em corrente, não explica os POrt'lué... das suas
afirmações nem mesmo conhece tais porquês; procede às cegas,
movido peJo medo de ser vítima de desgraça ou pela eS{)e-
rança (subjetiva ou vaca) de obter algum bêneficio.

Ora lals atitudes são irracionais e deturpam a autêntica


face da vida de fé. O ato de fé é sempre um ato da pessoa
humana, a qual move a sua inteligência para aderir a uma
proposição que se lhe afigura como verdade. O homem, dotado
de razão, não foi feito para aceitar âs cegas o que se lhe diz ;
nem mesmo a milis férvida prática religiosa pode abstrair de
base racional ou inteligente; as autênticas atitudes religiosas
são sempre o desenvolvimento da persona1idad~ humana como
tal: implicam, portanto, participa;:ão da inteligência do homem
pil'doso.

Mais precisarr.cnt~: no caso em pauta, de'.-e·se reconhecer


"tI~ não se \"I~ por que determinada oração s('ria tAo pod,,·
..os:! .... paI' que till (,lUSa lel·" a taIs efeitos, .. . qual o nexo
lóg!L-o entre tal fÔl'mula e os resultados a ela atribu.ido... Xão
raro se diZ: que a eficácia de detenninada prece foi re\·eJada a
determinado(a) v idente por algum (a) santo(aJ no decorrer de
alguma aparlção. Ora geralmente nesses casos não há senão
ilusão humana e 'lã superstição; a fantasia popular devota ima.
gina facilmente os santos a se comunicarem com os homens
para transmitir.lhes mensagens maravilhosas.

Podemo!> dizcr. p0l1onto. que quem acredita na «onlpe.


tência ~de alguma oração, já não está concebendo cL'islãrnentc
a prece e a piedade, mas estã cedendo a atitudes supersticiosas
c mágicas. O Senhor Deus não está obrigado a dar resposta
no momento prcdetenninado pelo homem. passando por vias
extraordinárias ou não habi tuais; a insistência ~m esperar isto
do Senhor Deus poderia equivaler ao que se chama dentar a

-477 -
Deus», ou seja, exigir que o Senhor Deus se adapte a ('squc"
mas imaginosos c proceda por vias extraordinárias.
Explanemos ugora um pouco melhor o conceito de

1 .2 . Ora~õu t:todo~pod.roso..

Não ê raro ouvir Calar de OI1tC.'ÕCi<I .: lodo.podcrosas~, pois


há quem julgul! que dc1el-minadlls preces produzem efeitos
inCa liveis. _ Na verd.tu:w, n:"u) exislem fôrmulas todo~podero­
sas ; C$ta concepc;i\o é derivud.a dos ritos máJ.':icos, c não das
fontes do Cristianismo. Com efeito, o cristão sabe que DcIIS
é Pai c que, por conseguinte, deve tomar a atitude de filho
frente ao Pai ; Isto implica confbmca, entrega de si, espe-
rança . . . : tal atitude excluI qualquer tentativa de coagir ou
forçar a Deus Ctn favor dos homens. Só forçamos um estra-
nho ou um tirano_ - Ao contrário, a magia tem por objetivo
canalizar os poderes da Divindade em prol dos planos dos·ho·
mens; con!'!idcra Deus ou os deuses como forças neutras, que
podem ser aproveitadas por pessoas iniciadas, conhecedoras
nos segredos da DIvindade. Ol·a tal mentalidade evidentemente
não é cristã. No Evang~lhoJ o Senhor ensina aos discipulos o
~eguint(':

··Nes vouas OfaçO ... ,,10 usels de vas repetlçOes como fezem ca
"'"110s. porque e nte ndem que é pelo palavreado excessivo que •• rlo
ouvidos. Nlo sejais c omo eles, porque o vosso Pai sabe do que lendes
necessidade antes de lho pedlrdes·· (MI 6, 7s) .
Estes dizeres do Senhor Incutem sobriedade de palavt"as
na ol'aç50_ O Pai sabe Que precisamos daquilo que nossos
lâbios Lhe exprimem. Não obstante, o Senhor quer que reze·
mos (cf. Mt ; ,7-11), não pa ra dobra r ou inclinar a vontade de
Deus segundo nossos designios, ma'i pot·que a oração nos leva
H colaborar com o plano de Deus. Recebemos pão, roupa, 1ra·
balho c outros bens mio como o pãssaro, a nor ou as criatura ..
irracionais recebem os dons de Deus. mas como criaturas inte·
ligentes, que sugerem ao Senhor aquilo que julgam melhor
corresponder aos intel"CSSCs do Reino. Na oração, port..,nto,
apresentamos ao Pai do céu os pedidos que julgamos oportu-
nos; fazemo-lo, porem, condicionalmente, acrescentando com
J esus: «Faça.-se, pol"ém, a tua vontade. ô P a i, e nào a minha .
(cf. Mt 26,42: Me 14,36). O que, em última instãncia , dese-
iamos a tl'avés da prece, é que se cumpra a vontade dl.' Deus,
a qual é sempre ~.nnta c salutar.
.._ ~1x
,,,·,,?~_ ____ . __ --.2l!
__ ._ _ ~C"O"R"I\",E",N"T.=I<S"·"D";;"·..:O"R,,A.,;Ç",O,,ES

o costume de repeUr oraÇÕeS - na recitação do Rosário,


por exemplo, ou na prática das novenas - não visa a econ_
vencera ou dor~an O Senhor Deus, mas se deve à nossa con-
dlçiio humana; sim, t em em mira suscitar em nós uma aUtude
de confiança e perseverança; aviva os nossos afetos e dispõe.
. nos a receber de ânimo aberto e consciente o dom de Deus.
a cristão que reza, tem uma grande certeza: não acue
ali correntes de ornções incutem, mas, sim. a garantia de que
nenhuma oração Ceita em união com Cristo (cr. Me 14,36) é
inútil ou perdida. Se o Pai do céu não conccde estritamente
aquilo que o ofanl c lhe suge re, Ele lhe clá uma grat;a c()uiva-
lente ou melhor, pOI'Que mais condizente com o plano de Deus.
Ê certo, pois, que Deus sempre atende o quem om com humil·
dade c confi3.n~a !ilinis; tal ee-rtêUl SI! del'iva das palnwns do
pl'Ópl'lo Cristo, que diz:
" Pedi, e vOS ser! daClo , buscai, e achareIs, bate i, o vos ser. aborto,
Pois todo o que pede, locebe: o que bllsca, acha: e ao que bate, ,e
abrirá" (Lc 11,9s).
"Em vordade, Im verdade, vo s d!go: se pedi/de, 8tguma coisa 80
F'al em meu nome, Ele V~ID d.n6 . At6 agola nada pedi~tc! em meu nome;
pedi 8 recebereis, para !;lU8 a V(lss. alegria seja plena" (Jo 16,235) .

A (,'xpl"esstlo _em mt..'ll nome» tem impol'tfmciu decisiva


IIOS ilcima. SiI..:nHica _em uni;'lo '~ Olll J('!<lIs" , .. 1'111 l'Om\!-
d i zel'\~
nhão com a atitude de Jcsu~ ' ; Este pedia a isen:.;ão do calice
de sua Paixão, mas, acima de tudo, desejava Que se fizesse a
vontade do Pai, c não n sua (cf. Me 14,36), Ê com luis seno
timentos que lambem o ct'islúo ~lc\'R ~um; PI'CC('$ no Pai, CCl'to
elC' 'lu,', (k uma malll!h';t ou de oulm, SC'I';I nlcnrlino.

A Im: destas vcl'dadps, vC'rifiea-se que te m sig nificado muito


n~lutívoa rubrica _Com npI'ovaçflo cd ~i:"is t ic~ :. a]iOMn n algu,
mn s preces c lodo .podcrosus ». Tal rÓl'mula ('..rlrL'C ~ dL' aulori·
rla<ll~ partiu!' t· :münima, gencrica ou vaJ{ó1.
Eis. porem, que liC levanla uma objt'C'ão:

1 .3 . E OI cOJOS d • •ficácla dai corre"te.?

Há quem di ~u que tal ou tal oração em endciu lo~rou I'eal·


mente efcito$ bcnHicos ou malêricos , .. A propé~ ilo obser-
vemos:

- 479-
40 ._-=- PJ.o.:ItGUNT~: ,.; RJ::SPONDEnEMOS, 239/ 1979

a) Seria preciso a veriguar com exatidão a veracidade de


tais di"Z('res, Ocorreram rEalmente tais beneficios ou malefícios
atribl!ldos à prece em pauta? Não I'aro verificar· se-á que
nad .. oonsta de pO:.-;ilivo e cloro.

bl Dado que oll,.'Um ereito portentoso tenha decorl'ido da


prece, pode-se CI"CI' qUl! em alguns CaSOs o poder d:l sugcl>tão
predispõe a pcsso.... a l'Csolver problemas de sua vida ou a incor-
rer em desastn:!S l.! desgl'aças; a sugestão, pL'Ometendo benefí-
cios ou m<lleficios. pod(' desbloql1eal' o psiquismo do paciente,
tornando·o PI'OJX'nso n viver as sil um;õcs que o :lugcstioau-
mellta lhe Pl'OpõC, Os estudos de P ,wlov sobre os tC reflexos
condicionados, ~v iden cja m tal pl'opos:l;-ão, A Psleologü. mo-
del'na ensina que um ól'gâo humllno pod~ entrar em ntividade
tanto sob a influencia de seus excitantes nahu't.is {remédios
ade<luados, por ex.:mp!o) como !;Ou a exeitaçi:io de cstimulrm·
les meramente convencionais, Pai' conseguinte. caso se diga a
alguêm t]uc determinado obje-to ou dctcl'mi:mda fórmulll ou
del (~ I'1Tlin[!do tl'oUlmcnto e Ix'néíico p.ara o corpo, pode .:J,con·
lc(·el' que, C'm!JOl"il ta:s objetos ou fórmulas scjum de todo indi-
feren tes c inOIll'I':tntc:i, .1 p(,~50il CXJJ~l' i IllCn IC u m bl'l1ctido
1.:0l'PÚI'CO ,lO "plici:.lo$ 11 si. ::>t" pol:.;, hft illgUlllil \'cl'lIcldadc nos
r.o I'! {'IlIr);; .:II·ihllído~ a nnl /1:'S _ pad :· l·():-:; ~ ;': '. 11:10 se jul/;\.Ic '1l1C
SI' (!"\.,, ;, ('fit-úciõl m ;':.::ira fi ., f,'WlllllliL

Em COIlSC<IÜ'::'UctU de qu;mlo :~cO\b:1 til! ser dito, \':}·s~ :;UI~


a atitude COCl 'entc do cl'istão 'lll\! I"CCl'hc urna OlTI<;ftO cm c:.~dt.!ia
para pnss:l·la adi,tnle, é a d ~ I'OmrlCr lal corl'ente' . ...mo 50mcnle
nada lhe aconteccra por ter f(lilo h;to, mas, no contral"lo, adqui-
l'h·ã mCl'ito dionll.: de Deus, pois pratic3rá obra UM; cstal';l,
sim, contribuindo pal'êl. dissipa i' supe l'Sti~j(!S c crcn<!:ccs. fjUC
d esfiguram a vcnlRdC'iI-a piedade.

Digumos, pois, 1101' ú!(illlo Ullla JI:tla\'I'a ;1 l'J,,'S twi1o 11,'

2, SuperstiSão
1 , A palnvra C;SUPCl'stiC'd.O~ vem do le rmo lnllno liUJ>crli-
titio, que significa "O excesso' ou também «o q ue l'esta e sobre·
vive de ePQcns passadas", Em qualquer accepção, porem,
designa o que e alheio â atualidade, o quc e velho ou dagenc.
resccnle, Transposto parti. a I!n g: lI[I~em religiosa dos ..omanos
pagãos, o vocâbulo $; III) ~ l'Stitio \'c10 n designar U;! ohs!?rvânciag

- ·ISO -
connENTES DE OR1\COES'!' .. 1

de culto arcaicas, populares, não mais condizentes oom as nor-


m~!' da Religião oficial vlgente.

Sérvlo. por exemplo. comel\lador da Enelde de Vlrglllo. diz que se


da". o nome de "lupef3tlclosu" a certas mulhere, que IIlIngla," Idade
avançada: JA. que sobrtvlvlam a mullas eonlemparAneas suas. 5uparsllles
.rant, Isto é, "constltularn o reslo ou a sobr•. .. ·, E, como eSS8S mulhere.
rossem dadas li "as o aberrantes pr6Ucas d e piedade, a "supersllçlo" "elo
a colncldlr com li rellgloaldade pouco esclarecida de J:essoas ,iml'lórlas
ou tendenres l decrepl1ude ; c f. Aenelel. VIII 183.
o eSC1i1ot romllllO Va rr~ (127 fI . C . ) exprimia muito bem, na sue
linguagem pollteista, o que algnlllca l15$a rell<glolldade inferi:l!. quando
alltmava que "o superstleioso " li homem que leme II~ deuses como
Inimigos, ao passo que o homem religioso os reverencIa como pais·'
(citado por S. Agelllnho, De ciY. Del 6, 9, 2) . QulnUllano (t 120 d . C .),
por 5ua vez, nora"a que "a supersllçlo dllenl da religião como o hQmem
que procura por curlosld.de clUete do homem que procura por amor"
(De Inst. oral. VIII 3).

Em suma, "ê-se qUe! jâ entre os l'omanos pagãos a SUpcl'S·


tição el'a tida como uma deterlol'acão ou conti'afar.-fio da Reli·
gião. - Ora c com este mesmo aspeclo que eln se apresenta
também enlre 03 crislflos.

Fo("nlizclllo.la ial ('umo ria npnl'cec nos paíS('s clt' dviliza-

2. A expressão mnL'i comum da supel'sLiçÍlo entre nós


consiste cm qi.lcrcr elucidar certos fcnOrncnos (cxpllcâ\'cis pe-
las leis da natureza) por causas de Indole sobrenatural ou
misteriosa; introduz-se assim o _pscudo-sobrenaturuh OU o
-cpseudo-divino. em objetos e acontecimentos naturais_ E no·
te-se bem que a superstição não prova suas teses, mas supõe,
pai- parte do!' adeptos, picdosn credulidade. O homem 5Upcl'S·
tieioso nHa indulfol por Que deva haver rcLal;iio de causa co
efeito entre tal agente e t:ll fenômeno; ao contrário, ele aceita
essa relação como fato lndiscutivel.

Ora uma tIll atitude é assaz Irracional. Com efeito; não


se poderia dizer que, aos olhos da inteligência, apareça evi·
dente nexo entre _ferradura de cavalo» e «felicidade do ho~
mem:D, entre _sentarem·se treze pessoas à mesalio e _morte de
um dos convivas». Quem considera a essência de cada um des-
ses fenõmcnos, n[Lo vê embebido na mesma o vinculo de causa
e efeito qUe se IhC!s atribui vu1garmente.
- 481-
Na melhor das hlpOle,es, ve rillca-$o afinidade 8xtrlnseca 8 vaga
enlll os fe nbrnenos ql/e I voz popular relaciona entre sI.

A~slm, obJetlva menla falando, "entrega de uma laca • alguém" •


uma coisa; ·'fl/plur. de amizade com eua passo." é oulra coisa, por si
lotalmente Independente da Interior. A VOz popular. porém. allrma que
"dor uma laca a algu'm aClrrela ruptura de amizade". Na base de que
O a!lrma? Não oa base da .rrnldade Inlrlosecl. como se um dos dois
COncellos natu relmente evocasse o outro na mente de quem raciocina.
mas apenas na base de uma semelhança exH!nseca. simbolista. Intro
'aca ,instrumento corten!e) e corta de amizade. Deua aemelhança.
por'm. é alcito c gra!uilo concluir que quom entrega uma laca 1er6 tam-
bém que cortar uma amizade t. .. Numa ta t alirmação a Iftnlasla toma ;I
dlanlelra sobre 11 rozOo.

Cllam oulrosslm Que "quem II nC3 um pr~go. se preserva do mal li


!lxe o seu desUno para o bem"! De novo uma semolhança mlramente
extrrnsoca, simbolista. fu nda tal asseclaçlo do Idé[as ("fincar" ... "nJCar").
desla vel:, porém. já em conflito com • Si (8210. pois &sla el\slna (lue
n!o ha. destino ou torça cega que prevaleça sobre ° livre . rbUrlo do
hom!1Tl.

Seja mencler.ado lanlbém o frtlv o do quatro lolhas. "t)ol1ador de


fellc[dadc" .. No Plcmontc. n.n Suiçll c f13 França acrt"dllil'!iO que quem
onconlra lal porltlnlo. pedo cshlt 5('guro de qur. ~c rã feliz flor loda a
vida.. E por Quê? - Porque o Irevo de quatro folhas. 6 coisa rara. como
a folicidado ê ra ra .. . À guisa de comenlárlo, seja licllo ropellr : analogia
meramenle cxlrlnseca 1\60 Implic a nexo Itll1lflscco; 3 3ssoctaçlo da con·
ceitos no caso obedece a uma Inluiçúo inlr,Nncion31; o homem. porllm.
Iam que vIver como 1Ie, racional.

Observemos me ~mo quo às vezes. 160 PQI,tCO lógica a assoclaçlo


do catlss e eleilo profossada potos supo rsl1closos que o mesmo objeto
apareco <lssoclado li roalldades eonlradllÓrlas. Assim . por oxomplo, O
numero 13 " lido or/l como s[nal de infortúnio. ora como &Imbolo de
bom agouro.
10:, sim, consldarado como slmbolo de desgraça. já quo tre1.' .ram
os convivas da "'Iim., cel3 de CrlslO, de. quais Jesus moueu crucUlcado
e J udas Iscoriates so enforcou: a se.la-Ielra (dia cm que Jesus mor reu)
101 conseqüentemente ossoclada ao hor ror QUI! a cUra 13 provocava nas
lIor.eçees cristas. Por 1$10 multas pessou evltólm vIajar -em sel!!.lI-Ielra 13;
em algufls holeis. nto t.11 quarto n~ 13. mas. sim, n9 12·a: a numeraçlio
des camarotes de tenl,C) o."lte por vezes. cllla 13 ...
Como S8 '16, a crença na mA sorlO do n9 t3 parece eslar ba~e8da
.0 menos no testamuflno da S. Escrilura . . . - Esla lestemunho. porém, •
tio 3rbllrarfamente Qntendldo e as ob!arv~nclas que a ele !e prendem
.10 '10 pouco dlladas peto n3tureza 'fllrlflteca das coisas qua o mesmo
n,""oro 13 em vas tas reglôes da lerra (aiO em palses crtsti05) 6 estimado
como slmbolo Jus lamente da boa sorle.
O argumento dos olir.1lsla$ so b3~ola no lato do que t3 ó número
.lIm a oi (1 e 3 dio 4): o."" 4 Ó slm~oto de próspera forluna .. , Con-

- 182 -
CORRENTES DE ORhCOES? 43

aeqOentemente, na IOOla 13 • cifra IOlIglo.a multo apreciada; os pagodes


hindus apresentam normalmenle treze es"lue. de Buda. Na China, os
d lstlcos mlsllcos dos templos alo encabeçados nlo ,.ro pelo nOmaro 13.
Também 05 mexicanos primitIvos consideravam o número 13 como algo
de sanlo: adoravam, por e)templo, Ireze cabras IIgradas. - PlSaendo
agora a amblenles do clvlllzaçio crlstl, lembraremos que nos EE.UU . da
América do Norta o nllmero goza de estima, porque treze eram os Estados
que Inicialmente consUtulam a união norle'amerlcanaj alem dlslo, o lema
da UnJla (6 pluribul unum) consta de treze lelras; a tlgula norte amar).
cana esl' revesllda de treze penas em cada asa; Jorge Washing ton hasleou
O estandarle repu blicano com uma salva de treze tiros. Mesmo em oulros

blbel6s como slmbolo portado r de fellcldada: por vezes


o cartaz; "HoJo saxla·fei,a 13, dia de boa aorle ... "
.s
pala81 da América a na Europa o nt 13 pode figurar em medalhas e
loterias ali)tam

Os 8ump lot acima dlo claramante a ver quanto a anoclaçlo dos


conceitos de sorte e .na, com a idéia de 13 , erbltriorla. Ninguém, por·
tania, w delxari abalar pelos prognósticos espalhados "em nome do
número 13" ...

Para concluir, diga.se ainda algo sobre

3. A mentali'd ade do homem supersticioso


o que atê aqui dissemos, permite.nos concluir que 8 supcrs.
tiçüo é expressão uo senso religioso dl!Cadente. Este. não sa·
l>cnuo mnis a quem se dirigir, atribui poderes c deitos sobro-
nalurais ou divinos a causas por si inadequadas.
1. Expllca-$8 .11 lupentiç60 (mas nlo .e Justifica) pelo desejo, Inato
em todo homem, de encontrar a razlo de ser dos 'enOmenos m lSlerloso~
que o cercam. Em vez de raciocinar para chegar à devida soluçA0, a pessoa
poda delxar·sa movar pela preguiça de pansar ou pela covaral. (em luma,
pe la lal cio menor eslorço); relaciona entlo efeitos estranhoa com cau·
.as Ineples, que Impresslonsm o observador por motivos acldenlals ou pot
.emelhança meramente axterna com 0$ dUos e'eltos. Em (lllIme anaJlse,
como dlzlamos, tel a!llude slgnlllcs decrepitude do pen,.mento, fuga do
homem a s i mesmo o " lua dignidade de criatura nsclonal.
Verlfica-se qlle principalmente em perlodos de guerra. a lupenllçlo
c ampeIe. Muitos. nlo I.bendo mais como le defender razoavelmente das
Ingenles calamidades que os ameaçam, recorrem a soluções Irracional!!.
ou • obJelos apotropélcos (espantalhos do mal). Não lendo mais energias
em .1 para concaber e luaUncar sues atitudes, multas entlo tandem a se
daflnlr, guiados nlo proprIamente pelo racloclnlo (o que acarretaria res·
pon... bilidade). mas pelo encontro da sinais que eles Indevldamenle Julgam
reveladores ele um plano auperlor ou dlY1no (Julgando anlm, desembara·
çam .•• da re$pQnsabllldade da suas atitudes). Prec6rlo pal1eUvo, que
lo nde a levar ao fatallsmol O aupefSllcloso se assemelha ao doanla dases-
perlldo. que costuma eçredlla, em lodos OI remédios e receitas que lhe
recomendsm, sem r.llellr multo, Impr"alonadQ, de um lade, pelo seu
e. gotamenlo e, de oulro lado, pela aparente autorIdade da quam laia.

-483 -
,,,._ _ _ • :Pl!;!!-GUNfE 1:: HESPONDERt-';I'I1QS, 239/197'J

2. Contudo, apesar de ,.pto""vel, • supere,lçlo nlo dellUt de '"


"U Slgnilil;ado positivo.

Chama. sim. nossa IlançAo (I lalo de que nAo somenle os Ignorante,


adorem freq üentemenle â sup.~tlç'o, mas lamWm pessoas de alia cultura.

Grandes ade ptos do positivismo • do atalsmo, como o 'scrllor Emita


Zela " o Presidante Ma1l.ryk, da Teheea-EsIOVtiquJI, professaram aborta-
mente SUlIlI crendices supersticiosas, apeur da ellrma,.m n' o ter fé ,e-
IIglosa.

Zola, por ellemplo. julgava quo os mulllplo. de 3 aram números f.\lO-


riveis: mal, tarde preferiu os de 5 11 7, Do $CU lado, o müslco Chopln
linha horror do nUmero 7: Mirim'., o artls'" Ilnhl o nUmero 13 na conta
d e benfazejo, enquanto Vitor Hugo. Gabriel d '''nnunlI0 lhe .ram co~
tr6rlos. Scl'luber1 chave a cor verde "cor malvada" a abomlnava.a a ponlo
de dizer que 88tava pronto a Ir 6s extremldadas do globol para podar
8vlla·la (outros julgam que precisamente o v8rd8 ê a cor dI!. esperança).

Pergunh.mo.nos : tão E'Stranhas 1Iflrmações seriío Simples.


mente vazias de sentido?
Nüo. Elm; uh_'S lnm uma rca li(h\ct\~ profunda, isl0 c, o senso
l"Cligioso innto cm todo homem. A Religião ê expressão carne·
tcristico Co Indell~vcl do ser humano como tal: em conseqüéncia,
ou ela se aplica ao seu Objeto devido - o Deus transcen-
dente e pessoal, uno, Criador e Salvador do homl'!m - , e a!lSim
a Inteligência se dignifica:
ou, caso o homem queira ncgllT Deus e crcnc;u rcli~iosu, ti
Religião, longe de se extinguir, toma n forma de um subpro.
duto ou substlluth'o, aplicando-se a objetos indignos, levando
(I homem a caír em co ntradi~ão consigo mesmo e a desfigu.
rar.se no ab!:;urdo c ridículo.

É . sem duvidu, a noslalgia do Divino Que, .\pc.!~lr de tudo,


se faz ouvir nas afirmACões: errôneas da !ruperstição. Em
outros temiOs: Quando o homem pente ri! numa Providência
Divina que governe sabiamente o universo e cada individuo,
esse homem tende a curvar a cabeça sob o império de uma
(orça dominado ra e bl~tal. criada pela própria fantasia humana.

J!l.,1;ê,'ão 8cttencoort O . S. B.

- 484-
AOS NOSSOS LEITORES E ASSINANTES
CARO(A) AMIGO(A) ,

VOC ~
SABE aUE O CUSTO DE VIDA TEM SUBIDO
AL~M DE TODAS AS PREVISOES, ACARRETANDO S~RIOS
PROBLEMAS PARA MUITOS EMPREENDIMENTOS DESTITUI-
DOS DE FINS LUCRATIVOS, COMO A NOSSA REVISTA PR o

AL~M DISTO. REGISTRAMOS O FATO DE QUE NUME-


ROSOS ASSINANTES, EMBO~A QUEIRAM CONTINUAR A
RECEBER PR , NÃO RENOVAM A ASSINATURA NO MOMENTO
OPORTUNO .

ESTA SITUAÇÁO TEM CAUSADO S~RIOS EMBARACOS


A NOSSA ADMINISTRAÇÁQ. DESEJAMOS CONTINUAR A
PRESTAR OS SERViÇOS QUE PA TEM OFERECIDO AO
PúBLICO, MAS ISTO SO SERA POSSIVEL SE TODOS OS
INTERESSADOS SE DISPUSEREM A COLABOAAR GENERO-
SAMENTE. EIS POR QUE LHE PEDIMOS ATENÇÃO FIARA
QUANTO SEGUE,

1) TENDO CALCULADO TODAS AS DESPESAS E


_ENUNCIANDO A QUALQUER ESP~CIE DE LlICRO MATE-
RIAL. A ADMINISTRAÇÃO COMUNICA QUE A ASSINATUAA
ANUAL DE PR fM 1980 FICARA POR CR$ 320 ,00.

') ESPECIALMENTE GRATOS FICAREMOS AOS NOS-


SOS AMIGOS SE PAGAREM ESSA QlIANTIA AT~ 31 DE
DEZEMBRO DE 1979.
3) A QUEM ESTEJA F.M O':8ITO PARA COM PR ,
PED!MOS PRONTO PAG AMENTO.

4) SOLICITAMOS A TODOS QUEIRAM OBTER NOVOS


ASSINANTES PARA PRo A REVISTA, NÃO TRAZENDO ANÚN-
CIOS COMERCIAIS. VIVE EXCLUSIVAMENTE DA S SUAS
VENDAS.

51 A QlIEM CONSEGlIlR CINCO NOVAS ASSINATU-


RAS DE PR, SERA OFERTADA GRATlIlTAMENTE UMA AS5'-
NATURA DA REVISTA.
CERTOS DA COMPREENSÃO DOCA) AMIGO(A), CON-
TAMOS COM A SUA PRECIOSA COOPERAÇÃO, PELA QUAL
DE ANTEMÁQ LHE SOMOS GRATOS.

A DIREÇÃO DE PR
A ORAÇÃO COMPLETA
OÃ.ME, SENHOR, A CORAGEM DE UMA MÃE
E Ao DEDICAÇÃO OE UM PAI.

DA-ME', SENHOR, A SIMPLICIDADE DE UMA CRIANÇA


E A CONSC/I::NClA DE UM ADULTO.

DA·ME, SENHOR, A PRuoENC!A DE UM ASTRONAUTA


E A CORAGEM DE UM SAlVA. VIDAS.

DA. ME, SENHOR, A HUMilDADE DA lAVADEIRA

E A PACletKIA 00 ENfERMO.

DÁ-ME, SENHO~ , O IOEALlSMO DE UM JOVEM

E A SABEDORIA DE UM VELHO.

DÁ-ME, SENHOR, A DISPONIBILIDADE DO BOM SAMARITANO

E· .... GRATIOÃO 00 ACOlHIDO.

DÁ-ME , SENHOR, TUDO DE BOM QUE EU VEJA

EM MEUS IRMÀOS,
A QUEM TANTAS OÁOIVAS oeSTE .

QUE ASSI.'A, SENHOR, EU ME APROXIN.E DE UM SANTO,


OU MELHOR, SEJA COMO ru QUERES :
PERSEVERANTE COMO o PESCADOR

E ESPERANÇOSO COMO o CRISTÃO I

QUE PERMANEÇA NO CAMINHO 00 TEU FILHO,


E NO SEII:VICO DOS IRMÃOS I