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Projeto

PERGUNIE
E
RESPONDEREMOS
ON-LlNE

Apostolado Veritatis Splendor


com autorização de
Dom Estêvão Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESENTAÇÃO
DA EDIÇJl.O ON-LINE
Diz São Pedro que devemos
estar preparados para dar a razêo da
nossa esperança a todo aquele que no-Ia
pedir (1 Pedro 3,15).
Esta necessidade de darmos
conta da nossa esperança e da nossa fé
hoje é mais premente do que oulrora,
.,.... visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrárias à fé católica. Somos
assim Incitados a procurar consolidar
nossa crença católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo,
Eis o que neste sita Pergunte e
Responderemos propOe aos seus leitores:
aborda questões da atualidade
controvertidas, eluddando-as do ponto de
vista crismo 8 fim de que as dúvidas S9
. . dissipem e 8 vivência católica se fortaleça
-" ... no 8rasil e no mundo. Queira Deus
abençoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatls Splendor que se
encarrega do respectivo sita.
Rio de Janeiro, 30 d. julho d. 2003.
Pe. Estev'o Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convênio com d. Estevão Bettencour1 e


passamos a disponibilizar nesta área. o excelente e sempl'S atual
conteúdo da revista teológico - filosófica ·Pergunte e
Responderemos·, que conta com mais de 40 anos de publicação.
A d. Estêvão Bettencourt agradecemos a conHaça
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
Sumário
....
UM L1DER, UMA ESPERANÇA

"O Novo T's'amenlo VI,o" :


'"
" COISAS DA VIDA " ............ . ... .. .. ........ . ............. , 267

Mala um livro ••••clona' :


" SEXO / ESPIONAGEM", por David Lewls . . .... . ... . .... . .... ... . 219

Um. IfllNyl.ta :
AINDA O Mi!.TODO BILLINGS 29'
No mundo do sensacional :
.."S PROFECIAS 00 PAPA JOA.O XX I II", por Piar Catpl .. ..... . , . 301

LIVROS EM ESTANTE . ....... ..... .. .. ....... ......•...... .U Capa

COM APAOVAÇlO ECLES1A.STICA

• • •
NO PROXtMO NOMEIO :

"O rosto materno de Deus". - A pastoral dos divorciados.


- "A questão homossexual" opor Mare Oraison . - "Universo
em Desencanto".

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS.
Número avulso de qualquer mes . ... .. .. .. . Cr$ 18,00
Assinatura anual .,., • .. .... . . .. ".,... . .... Cr$ 180,00

Dlreçã:o e Redação de Estêvão Betteneourt O . S . li.


ADl\IlNISTRACIO
LlvrvIa l\llaslonirla Editora REDAÇAO DE PE
Rua l\16xIco,. 18S"B (CUtelo)
20 . 031 Elo de Janeiro (RJ) Caoo.. Posbl 2.666
TeI.: 2Z4.-D059 20 . DOO Rio de Janeiro (RJ )
_ :- C"
UM LIDER, UMA ESPERANÇA... P R.
Inegavelmente. uma das figuras mais em foco no" ,f . 1
rio internacional dos últimos tempos tem sido o Papa João
Paulo n. O número de peregrinos que o Querem ver e ouvir
todas as semanas, vem aumentando extraordinariamente. a
ponto de se darem as audiências na basillca e na praça de
São Pedro. De modo especial, chamou a atencão do mundo
a recente visita de S. Santidade à Polônia, pais comtmlsta
vigiado pelo .Irmão n.lSSO:t,

Essa visita oficialmente tinha . o caráter de peregrinacão


aos santuãrfos poloneses. por ocasião do nono centenário do
martírio de S. Estanlslau. bispo de Cracõvla Todavia a im·
prensa observou Ce com razão) Que ela assumiu também uma
função politlca. COm ereito. S. Santidade quis iniciar um diâ·
logo construtivo com o Governo comunista de Vars6vla e,
conseqüentemente, com os demats regimes marxistas do Leste
europeu. Após trInta e mais anos de domfnlo materialista. é
chegado o momento de se promover a aproximado entre as
instituições soviéticas e a Igreja. Católica .... particularmente
a Igreja na Polônia, que representa autenticamente o povo
polonês.
Foram incisivas as palavras de João Paulo II às auto·
rldades do seu 'Pais natal: ..CrIsto jamals aceitará que o homem
seja considerado unicamente como um mE'!lo de produçio. e
valorizado tão somente de acordo com este princíp:o•.. ' «Não
é posslvel Que a J)f.SSOa humana ... passe por este mundo sem
deixar rastros. Não é possfvel que ao ser humano Interesse
apenas aquilo que ele constrói neste mundo, aquilo Que ele
conquista e aquilo que ele desfruta neste mundo:.. Sim; o
homem não é mãquIna de produção destinada a promover 8
economia do Estado. mas é um ser aberto ao Transcendental
e ao Absoluto; somente Quem leve em consideração esta
dimensão da pessoa humana, estarã em condIções de evitar
injúrias cOntra ela.
O diálogo, da parte da Igreja. é desinteressado de con·
qulstas poUtlcas ou da prorura de privilégios. Interessa tão
somente à Igreja poder servir ao homem como Cristo serviu
a este, a fim de mostrar· lhe o caminho para o PaI: eNAo
hâ o que temer, não hâ 'imperiaJismo dentro da Igreja, há
apenas a vontade de servir. Precisamos de aproxin'!.sr.nos
uns dos outros." l!'; preciso abrlr as fronteiras:.. Dai a exor.
tação de João Paulo n a que os fiéis poloneses ctrabalhem
para a paz e a. reconcJllação entre povos e nações dé todo O
mundo:..
_ 265-
A Iniciativa do dWogo assim preconiZado foi tida pelo
Sumo Pontifice como cwn 'ato de coragem de ambas as par-
tes»: .As vezes é necessário um ato de coragem para seguir-
mos uma direção pela qual ninguém tenha antes caminhado.
E a visita de um P apa à Polônia é um acontecimento sem
precedentes na história milenar deste pais». Ato de cora-
gem . . . 1: este um dos valores de que S. SantidRde tem dado
as provas mais evIdentes, não se poupando em nada para
exercer até as últimas com:;eqUências a sua missão de pastor.
A quanto parece, as autoridades polonesas estlio dispos-
tas a aceitar o diá10go com a Igreja. Embora tenham pro·
t urado cercear a parttcipa~ão dos fiéis nos atos públicos da
visita, tiveram e têm que reconhecer o dinamismo c o vigor-
da fé do povo polonês. Esta fé ê «uma. reaJldadc viva e pal-
pitante, que contém uma mensagem de otltnismo e esperan-
ça. .. Cristo não morre j amais. A morte nâo tem poder sobre
e1e». De resto, somente a mensagem evangélica poderá lIbertar
o homem das ameaças totalitárias de que dão testemunho até
hoje os campos de concentração vlsltad()s pelo Papa em sinal
de SOlidariedade a todos os seres humanos, mesmo àqueles que
passaram e passam pejos mais degradantes aviltamentos.
Os jornalistas que obselVam () cenário do mundo neste -
momento, vêem surgir na pe5.c;oa de JOÃo P aulo n fi naul"
de um líder :
"Joio Paulo chega à C6tedra de 5 . Pedro quando há um ceno YIIIcuo
na liderança mundial, qUI ala bem pode,la preencl:er. O prt'S!denla Mao
morreu; Brelnev provavelmenle asl6 morrando a MUS colagas ocupedos
com problamas da mucesslo: li presldenta Carter mostrou-Sê menos do que·
c:arbm.t.tlco e os pai". europeus flio conse guiram produzir ostadlata, do
calibre dos do Imedlalo pós-gue"l. O Papa tem uma oportunidade (mica
da exercer liderança moral, "lo apenas lobr. os cat611coI, I'Itm mesmo
lebre os cdstlos apenaS, mas sobre toda. t'luma"ldade" (Norma" 51 John-
-5!eVIS, em "JORNAL. DO BRASIL" Cid. "p. 13105179, p . 1) .
Ora. 80 considerar tais fatos. o cristâo nâo pode deL"i:ar
de se sentir vivamente interpelado. Se o Papa, por SU<l função
pessoal, é o portador, por excclêncin, d<l mensagem evangélica,
todo cristão po<:!e estar certo de que lhe toca uma parcela da
Imensa re!lponsnhllldadc que compete n S. Santidade, . .. res-
ponsabilidade de ser o expl'essão rnlodo e vivida da Bon-Nov.a,
que nenhuma outra conseguiu substituir até hoje. D12la muito ·
sabiamente R. Garaudy qU"lndo ainda comunista :
cA vida e a m()rte de Cristo pertencem também a nós,
a todos aqu~les para quem elas têm sentido. P~ rtencem a n6s, _
CJue aprendemOs de Crist-o flue o homem foi criado crindor! ~
E. D.
-266-
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS"
Ano ·xx - N' 235 - Jl.llho do 1979

~uc·" •.
BIBLlOTECIl
CI!.NTAAL

4'0 Novo Testamento Vivo" :


---_._-_... _--
"coisas da vida"
Em .In.... : "CoI••, da Vida, O Novo Teswnenlo vivo em linguagem
.-tuaUzado" nlo .p..eunt. simplesmente I IllIduçlo do texto do Novo Te.,
I.menlo, mil. 11m, uma par"r... do ma.mo Inspirada pelos artigo. d. "
-do Prolu'anUamo. ti o que o pttHnle estudo prol:ur. mostrar citando exem-
plos dlv.I'SOI. O 181110 d, "Col••• da VIda" dUel. da pr6pllo '181110 de
Ferreira d, Almeida, g,ralmanle usada pelo F'roleslanilsmo. ~ d, lamentar
qUI o 'eltor
que o loxlo bibllco 50118 I.rs InterpolaçOas 9 Interpr'taço.s sem
seja devidamente adv,rUdo. Ouem toma em mlos uma edlçAo do Noyo
Testamento em linguagem atualluda, tem o dlrel:o de querer oncontrar ar
• r.alldada objetiva d4 Palavra dI Causo

• • •
Conlcntário: Estâ sende divulgado o livro Intitulado
_Coisas da Vida. O Novo Testamento vivo em linguagem atuo.-
lIzoda. Edlç5.o espedah (abrevladamente, neste estudo, CV),
da Editora Mundo Crlstio, São Paulo (SPl , O livro, na quarta
capa, é apresentado pelO pastor Roberto Me AlLster, autor do
programa de televisão cCoisas da Vida ,., em nome da co-
munidade pentecostal protestante cNova Viela,. do Rio de
Janeiro (RJ),

Cemo diz o. segunda página de rosto, trata,se do «Novo


Testamento Vivo em IinguaJtcm atualizada .. , Todavia Quem fo-
lheia o livro em pauta, verifica que a linguagem do Novo Tes-
tamento não foi npenas atualizada; ela foi também interpretada
e parafraseada, como se depreende de notas colocadas ao pé
das páginas com os dizeres: cLiteralmente ... " ou c:Subenten.
dido . .. ,. Quem compara O texto em foco com os orIginais do
Novo Testamento, verifica que houve, não raro, interpretações
discutíveis ou mesmo tendenciosas na prepal'ação do texto
bíblico de «Coisas da Vida»; em conseqüência, este nem sem-
pre e propriamente a Palavra de Deus, mas exprime o

- 267-
11 ePERGUNTE E RESPONDEREMOS", 235/ 1979

pensamento does) tradutor(es) protestantes que o confeclo·


nou(aram).
Ora não há quem não reconheça a necessidade de se faci-
litar o acesso do público moderno ao texto sagrado medJante
o recurso a IInguag;m clara e atualizada,. .. linguagem que
diga com as cxpressoes de hoje o que o Novo Testamento signl.
fica com as suas expressões do século r. Ao tentar fazer esta
transposição, o tradutor deve pN!eaver-se contra a tentação de
interpretar o texto blbllco segundo as suas categorias pessoais
de pensamento; é mister que guarde a máxima objetividade,
embora isto nem sempre seja fácil. Ora «Coisas da Vlda~ apre·
senta evidentes parAfrases do tex.to biblico, que jã não corres·
pendem ao teor objetivo da Escritura. mas por vezes consti·
tuem discretas lições de pensamento protestante. :€ o que pas.
samos a considerar. apontando algumas passagens de CV,
dentre muitas, que já não reproduzem fielmente o sentido do
original gN!go.
AJlãs, o texto de cColsas da Vlda~ é o mesmo já publl.
cado sob o título cO mais importante é o amor~ - livro este
que PR comentou em seu n1 218/1918, pp. 63.69. Apenas em
CV faltou o roteiro de doutrinação protestante que f82 parte
da edlcão de 010 mais tmportnnte é o nmon.

1. Trechos parafraseadas
Limltar.nos-emos o indicar as parãfrases que mais valor
doutrinârio tenham.

I) Iml,I7

Diz o texto da eB$hUa de Jerusalém» (BJ) :


"Nele (no. Evangelho) e Justiça de Oeus se revela da fé pala e 16.
confo,me "16 escrito: O JUlio "I"e,' di ,,".

Eis a versão de Ferreira de Almeida. (FA), usual entre


os protestantes :
··A Ju.tI"a de Oeua .. ,e"el, no Evangelho de lê em 16, como 1111.
esclt!o: O IUlto "he,' por "".

- 268-
cCOISAS DA VIDAs 5

Assim se lê em CV :
"&Ia BoII Nova nos diz que Oeus no. preparll para o du - • nos
fiz lustos aOl olho. d. Deus - Quando colocamos nossa " • nos•• con-
Ilança em Crlllo como Salvldor. 1.10 ~ reaJlzado pela liI, do principio 10
fim. Tal como a Escritura .llrma, 'O homem que encontra a vida, vel encon-
tr'-Ia conllando em Deu.' ".

o texto traduzJdo em CV desdobra o orlglnal expondo o


sentido protestante de rõ: «esta é confiança em Orlstlo 8aIvs.dor~.
·0 texto de Habacuc 2,4, citado pelo Apóstalo, é Interpretado
no mesmo sentido: pela fé vem a ser coa.fIa.ndo em. Deus. A
palavra cjustos vem a ser, no caso, co homem que encontra a
vlda~. Com esta parárrase, o tradutor quis insinuar a doutrina
da justificação pela fé (= confiança) sem a prática de obras,
Ora, objetivamente falando, tal tese não se encontra no texto
bibHco. Este diz apenas: «O justo (o homem reto) viverá pela
fés. s~m Insinuar a maneira. rorno algu~m se torna justo 1.

21 G13,11

o Apóstolo cita mais uma vez o texto de Habacuc 2,4, que


o tré\dutor de CV assim verte:
"O homttm que encontra a .,Ida, li '"COntrar' por m.lo da confiança
em DluS",

Vêm a propósito as observações atrás registrDdas sobre a


Jast lflca-;ão.

3) Hb 10, 38

Mais uma v<r.: o texto de Hab 2,4 ocorre em citação do


Apóstolo, sendo assim apresentado pelo tradutor de CV :
"E aqueles cuJa" os tornou bonl ao. olhos de C.UI. d ..... m viver
pela tã, ccnllando nll•• m tudo",

Aqui t(!m.se expllcltnmente a doutrina do ctornar-se bom


(ou justo) mediante a fé-conflant8s.

I "Tornar-se JUlto", .... r II.I~mlc:ado" ou "Juslll1caçlo". na linguagem


paullna, slgnlllcam o "tomar-s• •mlgo d. D.v., oblendo o perdlo dOI p~
cados",

- 269-
, "PERGUNTE E RESPONDEREMOS. 235/1979

Ora ê de notar que a palavra grega pislls, geralmente tra.


duzlda por fê, tem uma tonalidade Intelectual. Com efeito, crer
na Biblla inclui, além da confiança, a adesão da InteUg~ncia à
mensagem proposta pelo Senhor Deus (cf. Cll, 4s; Ef 1. 15-21;
lCor 1,25. , . ). 1: por causa do conteúdo Intelectual da men·
sagem da fé que São João escreve o seu Evangelho e a sua
primeira epístola; quer incutir, a respeito de Jesus. que Ele foi
verdadeiro Deus e verdadeiro homMn durante todo o decorrer
da sua existência terrestre. não excluida a fase da sua PaixAo
e morte; o Evangelista julga de suma importância rejeitar a
doutrina de Cerinto, para defender a verdade a respeito de
Jesus. Vejam-se :
Jo 20,31: "ElIel prodlOlos loram escritos para que .~redllel!l que
Jesus. o Cristo. o Filho do Deu'•• para c;:uo, çrendo. ''''!lhels !lo vldl em
seu nome".
1.10 fi,s.: "Quem 6 que vença o mundo senAo aquele que cra qlJI
""\.IS 6 FilhO de Oeu.? Eale • o que ~elo pela Agua e pelo aanguo, Jesus
Cristo; nlo s6 pela 6oul. mas pela A!lua e pelo sanguo".

"', Rm 3, 215
e.l : "Agora, portm, indapandantamenle da Lei, se manifestou e
justiça de Deus, testemunhada pele Lol e pelos Prolelas, Justiça de Deus
quo opere pela It em Jesus C.lato, em 'avor de todos 09 que crêem. pois
1'10 h6 dllarençll ,., ..

FA: "Mas agora, lem lei, lO manifestou e Justiça do Deus ta.te-


munhada pela lei e pelos prolalas: Justiça de Deus mediante e fé em
Jesus Crlslo, par. tOdos. lobra lodos os qua crtem, porque nlo hA dls·
IInçAo .. , ..
cY : "Ago.., porém, Deu. nos mostrou um caminho dllerente pera
O céu - nlo O falo de sermos 'bonzinhos' fi procurarmos guardar SUIS
tels, mlll um novo caminho (linda qUI nlo seJI tio no~o assim, realmenla,
pois as Escrituras falaram dele h6 multo tempo). Agora Deus diz que nos
aceUaré e 00$ absol~." - Ele nos dKlara,6. 'um culpa' - aa nós cal\'
narmos em Jesus Cristo para Elo IIlIr OS nossos pecados. E todoa nós
podemos a.r ..Ivoa de. ta ma.mo modo, ~tndo a CrlslD, nlo Impor1a o Qua
lomos ou o que tamos .Ido".
o texto de OV é evidentemente uma pnrãft'a!c. Incute de
novo a jusU!1caçAo pela fé·contlnnça: «Deus nos nbsolverã , , .
se nós confiarmos em Jesus Cristo:.. Sem ulterior comentilrio , , .
Em suma, 8S mesmas tendenciosas concepções de fI, e de
Justificação ocorrem constAntemente em CV. Baste eltar ainda
Rm3,26 :
"E agoll, tambem noe dias atvIII, Ele pode receber pecadores do
masmo modo, porque JHUS II10u os pocldos delas.

- 270-
_________________.~C=O~ffi~A~S~D~A~V1~D~A~._______________ T
M&3 nAo ser6 Injusto 'lua Deus deixe IIber103 os criminosos e diga qUI
eres do Inocont"? Nlo, porque Ele age dessa maneira bas•• ndo-se na
confiança que alI. depositam em Jesu., Aquele que tirou MUS pIcados".

Para a orJentação do leitor. citamos Rrn 3,26 na versão


protestante de FA, Que corresponde ao original grego;
"Deus Iam em vlsla • manllestaçlo da .ua Jusllca no tam?O pre-
Mlnte. para Ela mesmo ser Justo • o Justlflcador daquele qua tem ,. em
Jesus",

A comparação é significativa por si mesma.

5) Mt 16, 19

lU! "Eu le dar.r as chavss do Reino dI» C~US. I!!I o OUI Uqlrn nl
'ferra aerá ligado nos céus, e o que desllgarss na lerra uré desligado
-nos c'u.",
FA : "Dar-lo-ai I. ch....es do falno dos céus i o Qve IIga,.s ne letl.,
Isr4 ligado nos céus, • o que desllgllls na terra ser' desligado nos céus".
C'I : "E Eu dareI a você as chaves do ReIno do:; C~IIS; todu 8S
pariU que você fechar nll terra terllo lido fechadas no cll!iu : • todas as
porias quo você abrir n a terra lerlo sido aber1a.a no céu '"

A esta versão de CV duas observacães se impõem:


a} O tradutor substituiu o blnOmlo _ligar e ~ esllgara por
.. rcchar e abrir as portasa. Isto parece maIs condizente com a
Imat1:em das chaves. TodavIa as "expressões fignr e desligar têm
sentido técnico na linguagem dos rabInos: significam o uso
de jurisdição, ou seja, condenar e nbolver: ora esta signifi.
cação se perde pela tradução _fechar e abrir portas~ , expres-
s..10 esta que lC!m sentido vago. Jesus. ao usar o binômio 1Ir;:ar-
-deslib"U.r, tencionam atribuir n Pooro o cxerc:cio de jurisdição
que li teologia protestante não aceita,
b) A tradução de CV empr ega o verbo na forma de mais·
.que.perfclto: _ ... terão sido fechadas . .. abertas:D. Isto s lgni.
fica que a palavra. de Pedro tem o valor de mera. declaracã.o, ...
dcclara~ão de um feito já ocorrido antes que Pedro fale; a
palavra de Pedro já não ê a palavra eficiente que, conforme o
tcxtG originaI, ela deve ser. A tradu;ão correta é, poJs : _Tudo
o que ligares na terra, serâ Ugado no céu . .. Tudo o que des.
ligares na terra, será. desligada no cêua , como, anás, se encon-
tro em FA.
-271-
B cPERGUNTE E RESPONDEREMOS~ 235/1979

6) lc 2,7
BJ: "E el. deu" luz o leu 1111'10 prlmog6nllo, envolveu·o com lelxa,
e reclinou-o num. manl&dollr., pOfqlle nlo havia lugar pal1l eles na 1311".
FA : "e ell dali !li IUl o leu filho prlmogênll0, 8n'81)1.0U-o e o daltou
numa manjedoura porque nlo havll lugar pare eles na hospedaria".
cv : "e ell 6eu .. Iu:z leu primeiro filho, llm me nino, Enrolou·O num
cobertor e O deitou numl manjedou ra. porque nlo hlvia h:gar pa,. alei
na I'. ospedarla da aldeia" .

Como foi dito em PR 216/ 19n, pp. 5235, o termo grego


prootótokos. na linguagem do Novo Testamento. tem conota·
ções semitas, Que o tornam equivalente a b!'m-amado. Veja.se,
por exemplo, Zc 12,10 :
"PronICtâ-lo-lo como quem pranlcl. um unigênito. 11 chor6-10-lo como
ae chora emerOlmenl. o prlmogi&nllo",

Nesta passagem, percebe·se qUI! hã sinonímia entre cunl.


gênito:t, «primogênlto:t e «bem.D.mado.. Por conseguinte, a
tradução cdeu à lu:t o scu prlmciro !ilha)') é evidentemente uma
Interpretação. , , e Interpretação preconcebida em favor de uma
tese protestante,

7) 1Cor 9,5
BJ : "NJo temol o d ireito de levar conosco, nas vlagenl, ume mu-
lher crllli, como os outros apóslolos e os Innios do Senhor 11 Cerls 1"
FA : " Nlo temos nóS o dlr.lto de levar conosco uma mulher lrml.
como tamlMm OI demais apÓstolos. e OI Irmlos do Senhor, e celas 1"
CY : "Se eu tivesse uml espeta e ela fos$e \,Ima crenle, eu nlo
podetla lev'-II nessl. viagem. II I como luem os ou'ros disc /pulos e como
fazem N Irmioa do Senhor e como Pedro lal 7"

A palavra grega gyné, usada pelo Apóstola, significa pro-


priamente mllUter, seja esposa, seja não esposa. Como se vê,
D BJ deixou o tenno na sua necepção ampla. objetiva, ao passo
que CV o Interpretou no sentido de espolloin,

81 11m 3,h

BJ : " Flet ' estl pllavra : •• alguém Isplra ao episcopado, boa obra
deseja• .: preciso, porém, Que o eplscopo sela Irrepreensl ... el, esposo de
uma .:Inlca mulhsr, l ob:lo, c heio do bom aenso, simples no vestir, ho ~pll ..
lelro, competente no ens ino",

- 2;2-
cCOISAS DA VIDA, 9

FA: " Esta 6 uma palavra fiel; 8e elguém c:lSMlJa o eplscopac:lo, exce-
lente obra deleJa. ConWm, pois, que o bispo seja Irrepreenslvel, marido
de uma mulher, vlljlllant., I~bl lo, honesto, hospitaleiro, aplo para ensina"'.
cv : " t tnn dllo verdadeiro que, ~e um hcmem daseja le1 pUlar,
tem uma boa amblçlo. Porcue um paslor deve ler um homem bom, contra
cuia vida nlo 58 possa falar nada. Deva 'a, apanM uma mulher, e deve
SOl trabalhador Inca'tdvel, cuidadoso, orde'ro, e cheio da boas obru, Deva
ler prazer em receber hóspedes em CIS., e dave sal um . bom mesUe da
Blblla".
Dois comentArios vêm a propósito:
a) A palavra pa.stor em OV está colocada em lugar do
grego epfslropos. Este vocábulo (clonde se derivou btspo em
português) não significa ainda, no epistolário paulino, o bIspo
cmonarqulano» que jâ aparece no.s cartas de S. InácJo de An·
tioqula (t 110), mas, sIm, o superintendente ou Inspecto1' ou
vlgUBnto da comunidade. :t esta uma função que não t.em cor.
respondente na vida da Igreja p6s.a.postóUe8; por isto os bons
tradutores não traduzem episkopos nem por bispo nem por
rresbítero (em grego pre:sbjo'te:ro!J) nem por pastor (poimén),
mas deixam o vocAbulo grego na sua originaUdad-c: epíscopo.
- Por que então CV verte por pastdr ?
Tal tradução aparece mals Imprópria ainda se se consi·
dera que em 1Tm 5.17 o vocAbulo pre.sbjrtel'03 também ó tra-
d-JZido, em CV, por pnstol't!s. Por conseguinte, a mC!S!TlD pa1avra
pastor verte, em OV. cpíslcopos e presbj1:eros. Por quê? - Pela
tendência a Impingir ao texto paullno a imagem de uma comu·
nldade prote:stante, onde 56 há past'Or c diáconos, e não hâ
C'pískopo~ ou bispo?
Repare·se Que n palavra dL:íkono~ é preservada em OV,
dando diácono em lTm 3,8.
b) A expressão cbcm mestre da. Bibli.a:. especifica o ma·
glstédo do episkopos., dando· lhe lOnlllldade restrita, pill'ticular.
mente usu31 em comunidades protestantes.

BJ : "ConJuro-le dlente de Deus" de Cristo Jesus e doa anjos ele"


tos que ob'ervel ellas regras $€Im preconceito, nada fazendo por favorlllsmo.
/lo. ninguém Imponhas epressademenle es mãos, nlo panlclpes dos pecados
dO outrem. A ti mesmo. eon.. rva-Ie puro".
FA: "Conjuro-te dlanle Cle Deus 11 do Senhor Jesus Cristo o dos
anlos eleitos que 11m prlVOnçJo guardes eSlas coisas. nada lazendo por

- 27~-
la cPERCUNTE E nESPONDEREMOS) 235/1979

parcIalidade. A nInguém Impont,as preclpllodamen!a as m30s, nem partlclpos


dos pecados alheios; consorv... le a 11 mesmo puro",
CV : "Com toda a $olenldado eu lhe ordeno, ro presença de Deus
e do Senhor Jesus Cristo e do••• nlos an)os, q\.le você laça Islo, quer o
paslor seJs nu amigo particular. quar nlo, Todos devem ser IraladOl de
modo exalnmonlo loual, Nunca tonha orossa em escolhar um paslor, poIs
do outro modo vocO podl!rã nflo pl!rcebcr os pecados dele, E cn'40 pare-
ceré que vocl os lI~rova , .. "
Como se vê, as traduções de BJ c FA não mencionam pas-
tor algum, porque isto n50 ocorre no originai, CaIU que direito,
pois. CV introduz tal referencia no seu texto?

10) 11m 3,16


8J: "Seguramente or.nde , o mIstério da pledsde :
Ele foi m. nlfost.do na carno,
Justificado no Esplrllo,
conlempl3do po!o. anlos,
proclamado 's naçl!las,
crido no mundo,
ex.ltado na gI6rl....
FA : "E Icm dúvida a1numll ~r."de é o mistério da pladado: Aque'e
que co ma,..Uelltou em came, 101 lusUflcado em ospl!lto, visto d09 anJoa, pre-
gado aos gentlol, crido no mundo, o ulcebldo acima na glOria".
cv: "t bem verd.de oue o modo de lever uma vida piedosa nlo •
co~a "ell. M.s a solue!o estA em Cristo, que vlI!io .to terra coma hcmem,
demoMtrou Que era Imaculado e puro em seu Es plrlto, 101 servido pelos
anlos, proclamado entre as naçl!c!, aceito pelos nomel15 em toda parlO e
recebido novamenla em sua giM. ,'- no céu",

Como se vê, (]V evita a palavra rnJstérlo (mystérioo),


embora esta no eplstolãrio paullno seja especialmente densa c
deva ser focalizada como ta l. Interpreta, pois, mystérion como
sendo c O nâo fácil modo de levar uma vida piedosalO (tonalidade
ética), A seguir, acrescenta, por própria conta, Que a solu-;õo
do problema cstã em Cristo." - Na verdade, o texto original
quer dizer o seguinte: é grande ou admirável o compêndio da
fé que os versos de um hino da Igreja antiga enunciavam atra·
vés de bln~mlos :
Manlfestou·se . , , fol justificado Carne, .. Espírito
Contemplado, , , proclamado Anjos. ,. nações
Crido, . , exaltado Mundo, .. glória

-274-
<COISAS DA VIDA) 11

CV não guarda. 8 forma Urlca da citacão feita pelo Após-


tolo, mas colúunde os dizeres de lTm 3.16. como se fossem
todos do mesmo autor,

11) Rm 6,3-5
BJ : "OU nlo sabels que lodol os quo lomos balizados em Crlslo
Jesus, li! na sua. morte que tomos batlzedos? Pois pelo batismo nOI lomos
eepullados com ele na morte pila que, como Cris to 101 rauuscllado dentre
os mor1os pel. SlI\~lIla dO Pai, I$$lm tamb'm nOs v\vam03 vida nova. Por-
que, se '101 lornamos uma coisa aó com ele po r uma morte semelhante li
sua, seremos um. coIsa só com ele também por uma r85Sunelçlo ,am..
Ihante li lua".
FA : "Ou nlo .abels qua todos quantos lomos batizado. em Jesus
Cris to, lomos balizados n. sua morte? De sorte que fomos .upuUldo, com
ele pelo batismo na morla, pala que, como Cristo ressuscitou dos mortos
pola gloria do Pai, a.. lm .ndamos nOs também em novidade do vida. Por-
que, se fomos plantado. juntamente com e'a ne .emelhença da sua morte,
também o seremoa na di SUl r,uu""Çlo",
CV : "O podar do pecado lobre nós foi qtlebrado quando no. 10m.·
mos clls'Sos e lemos ballzadoa 8 11m de sermos uma parte de Jesus Cristo;
atrevés da aua mOlte 101 eamlgado o poder da natureza pec.emlnose de
\/oc6s. '" natureza humana Inclinada ao pecado que vocês Un~,am 101 sopul-
taela com Ele pelo ballsmo Quando Ele morteu. Quando Oeu5 o Pai, com
poder ",lorloSO, trouxa-O novlmanta de vo1t1 li. vida, a sua maravilhosa vida
nova lol'lhe, dada parn quo voc6s desfrutassem dela".
Como se vê, o tradulor não valoriza suficientemente o rito
batismal; a morte e a ressurreição do cristão ter-se· Iam dado
por oea.slô.o da. morte e da ressurreição de Cristo, e não pOr
efeito do sacl'nmento do bntlsMo. Esta tese 6 protestante: não
condi2 com o pcnsnmcnlo paulino, segundo o qual a imersão
na água batismal comunica ao neófito particlpaçüo na morte
c na ressurreição de CrIsto.
Estranha é a expressão de CV: .. Somos~ ou «São uma
parte de 1esus Cristo•.

121 lCot 7,12


BJ : ",Aos outros digo eu, nlo o Senhor: le alQum trmlo tem esposa.
nlo crlsll e esta con.. nta em habitar com ale, nao a repudie."
FA ; "Mn lO' outros digo eu, nlo O Senhor: Se algum lrmlo lem
mulher descrenta, e ala con.ente em habtlar com ale, nlo a d.lx....
CV ; "Aqui eu 11'0511111 de Icreacentar algumM SUSleiSlOta minha:
eltas nlo slo ordans diretas do Senhor, mas me p.erecem cert••. Se um

-275 -
12 .PERGUNTE E RESPONDEREMOS,. 235/ 1979

.c:rlsllo tiver um •••pon que nlo aeJa cria'. e ela "Iul.ser ficar com 01.
assim mes mo, ela nl o deve delx.-I. nem dlvorclar-aa da'a" .

o segundo penodo deste trecho estaria claro mesmo sem


Q acréscimo nem dlvorcl9.r-~ deJ~ (o griro é nosso), Que nii.o
se acha no texto original

131 Mt 19,161
BJ : "Alguém SI apro)(lmou de Jesus a dIsse : 'Mestre, que larel
de bom para IIr a vida ele ma?' Respondeu: 'Por que me perguntas sobre
o que é bom? O Bom é um 16. MI S, l e q uares e nlrar para a vida, gua rda
os Ma rtdaMenlos' " .

FA : "Eis que, aproxIma ndo-ti de Jesus um Mancebo, dlsse-Ina :


-Bom maslre, que bem larel par. cortsegulr a vida !llema?' E ele dlu e-lt',a :
'Por que Ma chamaS bOM? Nlo hl bom senio um s6, que é Deus. Se
quc rl 3. porém, enlrllr na viCia, guarCla cs mandamentos' ".

CV : "Alguém velo a Jesus com esta perg unla : 'Bom Jesus, que alo
I!u devo J)lallc3r plllll conseguir I vida elarl"la1' - 'Bom?' perguntou Ele,
'86 M um que é realmente bom - (I esse é Deus. Mas, respondendo li
aua perg unta. voe6 pode chegftr 80 céu 50 guardar os m andamentos ' ".

o lradulOl- de CV nflO k'vou ('In ('ontn 11 dif(!!'C!O".:\ r.xl,,-


lente entro Me e Lc. de um lado, e Mt, de (mll'O lado, na l'Cda·
ção da primeira pergunta, Segundo Me 10,17 e Lc 18,18. 8
inl<,rrogação soa: cBom mestre, QUe farei para alcançar a vida
eterna?» Esta pcrgunln motivo a resposta de Jesus: cPor que
me chamas bom ? Ning:ué-m é bom senão Dr.us».
Em Mt 19,16s, o texto é outro, como se vé nas vcrsõcs de
DI e FA. Ora o traduto r de CV RlJardou em Mt a form a da per-
gunta de Mc e Lc. e alterou a resposta de Jesus. reduzlndo-a a
«50m b .
De passa.g@m, Obsel'Y8mOSflu e tllh'ez 08 d.l,lCl'eS de :Mc JO,17"
eLe 18,18s causem dificuldade tiO leitor. visto que Jesus Ji3.rece
dlz.er que nAo é Deus : dlr-se-Ia que Ele estranhou o apelativo
bom, próprio de Deus só. TodavJa o texto se há. de entender
do seguinte modo: o jovem que procurou Jesus, pe~bla no
Mestre algo mais do que nos demais rabinos . Dal o qualifica.
tivo bom, que nio se dava a um rabino. Ora Jesus quis levar
adiante a intuição que o seu Interlocutor tivera, dizendo-lhe:
cSe me chamas bom, compreende o al cance do que dizes : bom
é Deus só; compreende, pois, que sou Deus)),

- 276-
,COISAS DA VlDA~ 13

14) Ver1fJca-se ainda que, no final de cada carta do


Apóstolo, o tradutot" de CV acrescentou por sua própria conta
um fecho que não se encontra no orIginaJ. Assim, por exemplo,
em Rm 16.2'1 : cCom toda a estima, Paulo.,
em lOor 16,24: , Cordialmente. Paulo:t,
em GI 6,18: . Com estlma, Paulo~ ,
em Tg 5, 20: ,Afetuosamente. Ttago:a,
em 1 Jo 5,.21: cAfetuosamente. João •.
Embora estes acréscimos sejam de pouca monta, não dei-
xam de ser uma Intervenção arbitrãria no texto sagrado.
Outro titulo de observações se Impõe.

2. Palavras-chaves trocadas
Há certos tennos da linguagem bíblica que se tornaram
importantes no vocabulário teológico cristão. São prenhes de
conotações que outras palavras aparentemente mais populares
I' Ilst1:lls nflo Ir-m. Os trnrlulorf'fI !-':\o frc:qil cntcmcntc propen·
50S o trocar tais termos·chaves por outros mais cc1aros.: fa-
zendo-o, tomam o texto talvez mais compreenslvel a um leitor
inexperiente, mas, sem dúvida, despojam.no de significações e
alusõcs que todo leitor da S. Escritura deveria aos poucos per-
eeber c apreciar. EI$ por que tnmêntllmos :\ ausência, em CV,
de palavras como :
mistério (mys~rlon). Ver CV Rm 16,25-27 (mystérion =
= favor divino); lTm 3,16 (myst5ri'3n = modo de levar vida
piedo5a); Ef 3,3 (m~térbn = favor divino); lCor 2,7 (mys-
térlon= sábio plano de Deus) ; leor 4.1 (mystérion = segre·
dos de Deus) ;
mediador (mMítea) . Ver CV lTm 2,5. onde há longa pa-
ráfrase ;
cpiskopos. Ver OV lTm 3,1; 5,17:
impor as mãos. Ver CV 1 Tm 5,22 ;
autor da salvação. Ver CV Hb 2,10 (cllder perfeito, capaz
-Tl7-
14 «PERGUNTE E RESPONDEREl\fOS~ 235/1979

de conduzl.las para a 5Wl salvacãoll);


memória (an6.m.nt,!Í:5) . Ver CV Lc 22, 19; teor 11,24s ;
Jigar·desligar. Ver CV Mt 16,19;
p.mbo!a. Vor CV Mt 13. 3 .10.13; Jo 16,25 . 29 (o tradutor
uc:;a «ilustraçno» ou
chistórjo.~) :

escribas. Ver CV Me 3,22 (escribas = mestres judaicos de


rcUgião) ;
farisc\1s. Ver CV Mc 2. 6. 18 .21 (tadseus ;::: lideres reli·
giosos judaicos). Em Me 3.6 cfnriseus" ocorre com nota expll·
cativa ao pé da página.
Julgamos que melhor seria manter o uso de tais palavras •
•chaves, acrecentando, porém, i\ troduc:ão do texto sagrado um
glosárlo cxplicativo ou notas de roda.pé aptas Il elucidar o
!'cntido dos vocábulos mais dificeis.

3. Conclusão
As obscrvaeãcs desta!'; paginas não pretendem exaurir o
tema. Todavia parecem suficientes para mostrar que o texto
de «Coisas da Vida_ não pode ser tido simplesmente como tra·
dução .atuallzada do Novo Testamento. e, antes, uma Interpre·
tação do texto bíblico Inspirada por critérios de t eologln pro·
testante. Ora julgamos que tal texto não pode satisfazer 8 lei·
tor algum. qualquer que seja a sua crença religiosa ou n sua
filosofia. Na verdade, o le1tor que tome em mãos um livro Inti.
tulado cNovo Testamento_ tem o direito de querer encontrar
Ri o texto do Novo Testamento em sua realidade objetiva, sem
retOflues subjetivos. O tradutor deve empenhar.se Jlor ntcnoor,
tanto quanto possivel, n coL, de inlcrprctacÕCS que geralmente
está associada à tarefa de traduzir. Sempre que n tradução
pare;a fJcar incompreimslvel ao leitor, complete a sua obra com
observações elucidativas. expondo as diversas maneiras de se
entender tal passagem dlficll: deixe. porém, o leitor optar entre
Qs vãrlas Interpretações legitimas.
Para eximir-se de qualquer censura, bastaria que os edl.
tores de «Coisas da Vida. modificassem o titulo da obra. expli-
citando: cO Novo T estamento parafraseado e Interpretado à
luz dos artigos de fé do protestantlsmo~.
- 278-
'11'- um U..... _Ional;

"sexo I espionagem"

Em ,''''1: o livro "Saxo/Esplonagem" da DavId Lewl. (Ec!. Afro-


dite, LIsboa 1977) revela 80 pllbllc() os processos de explorlçlo do sexo
pelos ServlçOl Saere!os Sovléllcos. o KGB (ComU. de Segurança do Estado)
rulSO treina moças ("andorinhas") I IlIpaz•• ou homens ("corvos") para
que seduzam em armadilha. gf.nd81 Esttdlstas, poUtleol, .mprOdrJot, eleno
tlllI•..• : 011 atol 4. parvenlo .IIICUII .ao 10109r.f.dol, JIImados li gravado.
mediante aparelhagem dl.. lmulada em QUlr10a a.paclalmanta prep.aracSoa
par. tal obJlllvo em Moscou ou Im outr•• cidades. EM.. Imagans .«0
Ipresentadu .. vitima na prlmalr. oportunidade, lO mesmo tempo qUI ••
Ih. propOll ou Ir,baltar p.r. o Inimigo (revelando .. gredol polUlcos, ICo-
n6mlco., Ind us lrla1s ... ) ou ... I,u, • revellÇIo da ta" Im_gins (o que
oeralmente 8Ctrreta • ruln. mora. ou fl.le. da vitima) ; na gtande malara.
dQIJ CIflSO!I. a paclante acelt. urvlr aOI Inte"'laa da Rllul. Sov"tlca.

David Lewll dascreve. n. b..e de peaqula.. e enlrevl,ta criterioa.-


mente realizada, U .Iapa. d. lralnamenta dOi a08fttes da lexo/esplona-
gem : mostra como 'endem a Insenslblllzar por completo. peito. humana.
curvando-a ren"loaamenle .01 ditames do Estado S0vt4t1co. O .utor 111181.
outroltl", dlvafIM casos conc,.loa de sexo/ ..plonagem bem ou mat I uce-
dlda. Apont. OIJ Inltrumentos a a aparelhagem que • mais moderna tecnolo-
gia tem criado para captar Imagen. e &One aonalaltamenla: 'a lloa mamlloa
• danles pOltlÇOS podam .a, ponado,es da um mlnOsculo tr.namlsaor da
som; ao dorso de uma mOle. ou da um pombo u pode .llxll' um dispo-
,ltI"o alelr6nlco qua capte WZIS ou sons. A lu:z de uma ..trela ou dt um
cigarro acesso pode ser Int.nsmcada de moelo • permitir que •• tirem
1010graOIl ...

Em auma, o livro al.,t. o \/tllpêndlo da peltoa humana. que. entre-


gue 1 "prOllltulç,o ••grada" hoJa como no. tempo. pré-crlsllos em home-
nagam a serviço ao Eslado absolutista, .uto-andeuaado.

• • •
Comentário ; Em PR 230/1979, pp. 47·57 tol publicadO
um artigo sobre a PslcopoUUea ou 8S táticas de pressão pslco.
lógioa e lavagem de crAnlo aplicadas por agentes comunistas
no mundo inteiro. .As páginas que se seguem, desenvoJvem
outro.! aspectos da mesma temática, expondo os processos de
prostituição sexual adotados pelo servIço de espionagem sovIé-
tiCO a fIm de .subjugar personagens Importantes segundo os
Interesses polltlcos da U.R.S.S.
- 279
16 4:PERGUNTE E RESPONDEREMOS, 235/1979

A ronte de Infonnaçóes que utilizaremos, é o livro de


David Lew1s: cSexolEsplonagem~, da Ed. Afrodite, LIsboa
1977 1. O autor é um jornalista nascldo em Londres no ano
de 1942. Começou a carreira como repórter fotogrifico no pe-
ríodo do pós.guerra da Argélia. Enveredou pelo jornalismo de
pesquIsa, conseguindo abalar as Cortes e a opinião pública da
Inglaterra em favor de um p1a.y-boy londrino acusado de
assassínlo.
Para escrever cSexofEsplonagem., o autor procurou mu-
nir-se de notielas precisas, ciente de Que os infannantes, em tais
casos, podem ser Intencionalmente falsificadores ou deturpa·
dores da realidade. Aplicando, pois, os melhores ditames da
criteriologla jornalística, David Lewls, durante Quase vinte e
cinco anos, leu jornais e revístas europeus e norte-americanos.
procurando acompanhar as ondas c os feitos da polltlca Inter·
nacional: leu outrossim numerosos livros especializados na te·
mática, estando a bibliografia devidamente elencada no fim
da obra em pauta (pp. 211·214) . David Lcwis reallzou também
entrevistas com pessoas relevantes para O seu objetivo e teve
conversas inConnais ... Tendo sido sábIo e criterioso nessas
abordagens, julga haver colhido informações fidedignas. que
no seu livro «SexojEsplonagem. são expostas ao leitor e Ilus·
tradas por rotografias. É, pois, desse matC!rlal que vamos, a
seguir. escolher alguns lôpicos principais. procurando nssim
divulgar um noticiário que não pode deixar de suscitar séria
reflexão por parte do publico 1edor.
Tendo em vista Inrormar o leitor, não nos 1urtarcmo~, nc!>lc
artigo, a transcrever pormenores que pJdcriam ser chocantes
e despropositados se n50 se trntasse do estudo sério e objetivo
de um tema extremamente delicado e ImpJrtante.

1. Se~/e,pionagem: que é? Para quê?


1. A sexo/espionagem (ou sexespionagem) consiste em
explorar 8S propensões sexuais de homens e mulheres Impor.
tantes em vista de intCl-e5SCS politlcos de dctermlnada nação.
A rede de espionagem procura colocar nos caminhos de u m
ehefe ou ministro de Estado, de um diplomata, de um empre·
, Mais precIsamente: "Sexplonlg8 - The explolltlon 01 Sex by Sovlet
Intalllgene." d. David L_I •. Traduçao da Mllla Gutlhelmlna Ramllho. -
Ed. AtrodUe. Uaboa 1;77, 1-45 x 210 mm. 213 pp.

-280-
.SEXO/ESPIONAGEM, 17

sârio •.. , residente no seu proprlo pais ou no estrangeiro, uma


série de moças (.andorinhas. ) ou homens (. corvos.) atraen-
tcs, que excitem a heterossexualidade ou a homossexualidade
da pessoa focalizada. Esta, seduzida pela .andorinha. ou pejo
.corvo" aceita «Ir para a cama, com tal parceira(o) em Quarto
devidamente preparado pelas autoridades espiãs: nesse quarto
se encontram, ocultos, mlcrofones, câmaras fotográficas, mã-
quinas de filmar, televisionar ... , de tal sorte que o ato sexual
e todo o seu contexto passional são documentados com a máxima
fidelidade. Durante o consOrcio sensual, pode a .-andorinha, (ou
o , corvo,) tentar obter doCa} pareeiro(a) noticias e revela-
ções de segredos estratégicos ... Isto, porém, não é sempre
viável nem 6 de primeira Importância. Para que a o.nnadilha
da sexesplonagem seja bem sucedida, basta que se tirem slgni-
ficaU\'1lS Imagens das cenas sexuais . .. Estas, na primeira oca·
sião oportuna, são tlpresentA.dns à vitima, que então se sente
extremamente surpresa peta ocorrência. Nessa altura. as auto-
ridades espiãs, recorrendo à ehanto.gern, propõem à sua presa
a alternativa: ou colaborar com o Inimigo, ficando as Imagens
sob sigilo, ou ver-se difamado perante a opinião pública inter.
nacional. Ora, na grande maioria dos casos, a vitima aceita a
priml'!ira opção; caso não o Queira, arrisca·se a perder as suas
funções por via de demlssáo. em meio a um escândalo público.
Eis as ol>servno::õcs de David Lewls :

. Ainda hó a tendênc:a para se penso. o espionagem apenas em


lermos do oblonç50 de in'ormações. E cerlo que este é ainda um ele-
Rlcl\to impo.lantc da espionooe m, embora menos do que era ont~a '
menlc. Haia os scgrado. tendem a lar unta vida curta I! o que agora
li material allamente valioso pode nôo ter qua lquer valor, panado
um mês. O equipamento militeu torno·se obsoleto mesmo ant'l d.
entror 00 Ut1viCO, c6digos • cifro ~ podem ser alterados rapidam.nt.;
os p lanos defensivo. sóa suficiontemente fle,livels poro sobreviverem
6s maiores br..,cha~ fiO seguroflça. Mos um homem ou uma mulher
subvertidos e depois deixados em liberdade poro continuarem as suas
ctlrreiros IÔO corno Utl'lO bombo fenendo tiquetaqulI!, algures na meio
do !ociedad~. uma bomba que pode ler acionada no momento mais
prejudicial, por I;onlrolo li dislôncio, a partir do número do1$ da
Praça Dz.en.hinsky.

Estes dois faloru glmeos - esplonagem e lub"orsõo - dia


oquilo quo, om ultima an6U.e. faz: do sexospionagem uma ameaça
maior à par e à segurança do que lodos os satélites, navios e aviões
espioes 110 IOU conjunto:. (PP. 198).

- 281-
18 .PERGUNTE E RESPONDEREMOS" 235/1979

2. A prátlca da sexesplonagem exige todo um conjunto


de recursos altamente requintados, a saber:
a) pessoas adequadamente treinadas para tanto. Em vim
dito, existem escolas de sexo, com seus segredos, . .. segredos
que aos alunos não é licito reve1ar sob duras penas. «'Poucas
andorinhas conseguem voar para fora do ninho. Se o tentarem,
as suas asas podem ser brutalmente cortadas:. (p. 85);
b) aparelhagem de imagem e som esmeradamente insta.
lada a fim de que se capte e. vitima em seus momentos e posi·
cões l1Hl1s expressivos. O escândalo deve ser violento e Insotls..
mãvel. Para tanto, colaboram engenheiros, técnicos, psicólogos,
sociólogos, médicos, farmacêuticos (pois há também o recurso
a drogas) ... , obedecendo a um plano sagazmente concebido
peja direCão central da Espionagem.
3. Dentre os poVOs que prattcatrt a sexesplonagem, dia.
ting'lJe-se a U .R.S .S . Com efeito, os niSSO! têm-se dedicado
especialmente a este tipo de procedimento ~ o que pare::e
expllcar.se fundamentalmente pelo earâter antipermissivo da
cultura sovlétice oficial. Essa antlpennissividade acarreta duas
conseqüências :

- os soviéticos são educados a consJderar a permlssivldadc


sex.ual e a pornografia como frutos do capitalismo. Em conse-
qüência, concluem que a sexesplonagem. demonstrando abusos
sexuais de personagens ocidentais, vem a ser arma especial.
mente eficaz contra os palses do Ocidente ;
- a sexesplonagem abre aos cidadãos russos a oportunl.
dade de tomar parte em e.venturas sexuais e "gozar:. da por·
nografIa a titulo de serviço à. pátria, sem complexo de culpa,
.quue da mesma maneira como um advogado de censura es·
tuda os fUmes pornogrMicoss (p. 41) .
São palavras de Lew1s :
.A .exe.piono;em é umo técnico "ria e com pleito de subven80
qua ocupa o tempo de milhares d. oficio!., .ic:nl«ll, 'campanfl.irol
d. 'COma' e perito. em ob.ervocllo. Man~ém apartamentos •• pedai,
.m Meneou, onde a. Intriso, podem .er realizados, tim quortOI equl.
podas com opor.lho. fotogr6flCOI eletr6nico. nos maiores hOI'i. por
toda a Unll50 Soviético. pOlluem •• cola. e.peciols de lexo onde OI
'J;ompanhelrol d. como' mo.culino •• feminIno. sSo treinado •• O KGB

- 282-
(SEXOlESPIONAGEM~ 19

'em Inve.tido enormes 'omas do dinheiro e tempo na Indústria do


Jexespionag,,,,. (p• .sOJ.
lt:: mister agora encarannos diretamente o grande orga·
f1ismo a ci<mar da sexespionagem, que é o KGB (Eomitet
GMu_oy BeooJlOSllostl. Comitê de Segurança do Es·
tado ou Servit'O Secreto da União Sovlétka) de Moscou.

2. O K8G
cUm ed1ficlo alto de pedra cinzenta no n. 2 da Praça
Dzerzhlnsky em Moscou é o quartel-general da organiza~ão de
Serviços Secretos mais poderosa do mundo, o Komftet Gosu.
darstveDlloy Bezopa.snostl ou KGB. (p. 43).
cEssa organização secreta emprega cerca de novecentos
rnU oficiais do Estado-Maior a juntar a centenas de milhares
de agentes em regime de ~tlme. :t uma conseqUêncla lógica
do conceito de ditadura cIentifIca, que Lenlne definiu em 1920
como Inem mais nem menos do que um poder sem limites
assentando diretamente da (orta, não limitado por coisa a1guma
nem restringido por quaisQuer lels ou regras absolutas';t
(p. 43).
As raizes do l<:GB estão no século XVI, quando o czar lvl
o Terrive1 fez da policia secreta russa tun órgão para reprimir
revolucionários internos e agll" éOntra a espionagem exlema.
Em 1881, após o e.ssassinlo do czar Alexandre n. foi coos-
tituldo o Departamento de Proteção do Estado ou Okhrana,
tendo por modelo o efJclente serviço secreto alemão. Os seus
agentes com~ram sem demora a atuar no estrangeiro. l:m
1883 os espiões do Okhrana foram: para a. América pela primeira
vez para vigiarem VIadimtr Legaev, um ex-membro do Okhrana.
_ O Okhrana promoveu a crlacio de agentes de infonnacão
em todos os nivels da sociedade. cO seu Objetivo era fazer da
Rússia uma nação de esplões-, diz Rlchard Deacon 110 seu es-
tudo sobre o Serviço Secreto russo.
l!': sobre este fundo de cena que se deve entender a atual
organlzaçio do KGB. ca aranha da Praça Dzerzhinsky:t
(p. 43).
As informações colhidas pelo KGB estão contidas em ar-
quivos de aC(> constantemente atualizados. gravadas em fitas
- 283-
20 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS:» 235/1919

magnéticas ou registradas em fichas e fotografIas. A um toque


de botão, um técnico da Secção de In!ormacães do Centro pode
acionar as bobinns de grnvaçãoj então OS telimpressores emitem
os pornumores pessoais de qualquer dos dez milhões de homens
e mulheres que Interessam à U .R.S .S.
Entre outros, tornou·se famoso o diretor do KGB Lavrenti
Pavlovich Beria. Como Stalin, era natural da Georgia , nascido
em Tlfles em 1898. Foi Beria quem comC(:ou a desenvolver a
sexespionagem como anna poderosa de subversão. O seu In·
teresse nessa técnica pode, em parte, ter nascido da sua per·
vertida !~mna~ão sexual j gostava especialmente de moças
multo jovens.
Nas dependências do KGB encontra·se a secção que con·
trola as «andorinhas» e os . corvos»; é um bloco de cinco anda·
res disfarçado em arrna%êm no ~ntro de Moseou. Em tal see.
cão se planejam o treinamento dos espIões do sexo, assIm
como as armadilhas a serem preparadas para tal ou tel per·
sonagem.
Vejamos, pois, como procedém

3. As escolas de sexo
A~ escolas de sexo se destinam n libertar os seus alunos
de qualquer inibição sexual. Elas ()s ensinam a proporcionar
aos seus parceiros o máximo prazer, aparentando gostar de
todas as variacõcs e perversões possíveis do ato sexual e agir
com toda a naturalidade. Além dist(), as escolas ensInam a
satisfazer ao operador de câmara invis:vel do KGB; este faz
questão de que o rosto do parceiro cst,:ja voltado paT.a 8
cãmara a fim de que a chnntagem posterIOr pos.c;a ser cflenz.

As candidatas a .andorinhas:. são recrutadas em toda a


União SovIética. A beleza flslca, unida a intcligénc:ia e chamle,
são condlcões básloas para a convocacão; além disto, requer-se
b conhecimento de uma l1ngua estrangeira (Jnglês, francês ou
alemão) _ o que não é dificil na U ,R.S.S., visto que lã é
comum n estudo dos principais idiomas Internacionais.

Depois de selecionada, a jovem é chamada à entrevista


com um agente do KGB. A princípio, não hã referência ao

-284-
cSEXO/ESPIONAG~ 21

sexo. Apenas lhe dizem que o seu nome foi indicado para um
trabalho bem remunerado na máquina do Partido, com direito
ti. apartamento particular em Moscou ou em alguma grande
cidade, e outras vantagens; v1ajarã para o estrangeiro e terá
contato com éstranceiros ... ; receberá talões para fazer com·
pras em lojas de luxo, reservadas aos funcionários do Par.
tido. Infonnam·na também de que o trabalho implica acesso
a importantes segredos do Estado, . .. segredos que ela nunca
poderã revelar nem aos parentes mais próximos.
J:: semelhante o processo de recrutamento dos ccorvOS:t
ou dos homens, heterossexuais ou homossexuais. São mulhe-
res que selecionam os heterossexuais. Quanto aos homosse·
xuais (destinadoS a cativar membros homossexuais de embai-
xadas ou turistas), são muitas vezes homens prostitu!dos. a
quem é dada a escolha entre trabalharem para o KGB ou
serem presos.
Para os espi6es destinados ao estrangeiro, o KGB propor·
clona Instrução a respeito dos costumes e das atitudes sexuals
dos países de destino: revistas, jomals e filmes, principalmente
pornográficos, constituem o Instrumental de aprendizageM,
copiosamente exibido aos candIdatos. O KGB construiu mesmo
cld"dcs !ldlcins onde os pormenores do estilo de vida dos
vârios palses estrangeIros são imitados, incluindo a moeda
corrente, os bllhetes de ônibus, os pre;os dos gêneros allmen·
tidos . . .
Eis palavras d(! D avid Lewjs:
c Antes de sua fuga para o Ocidente. nOI meadol dos onos
sessenta, AnoloU Sorokin trobo 'hora para o Deparlamento do Prl·
meiro 0lr.t4rio Principal do !CGS • disse·me que o ombiente mais
parece um cen6,io de um film e do que uma cidade real. Cada por.
menor" exato COI'110 so ~e tratoue de um iilme bem realizado. H6
uma rua principal com ediflcios de ombos os lados e que tem cerca
do duzentas iardos d. comprimento; h6 101as, um cinema, um super-
mercado e um banco. Ouranle o .. MS:ões de treino a óreo enche-!4
de p•• SóOi vestida. de moda ti relul!sentarem personagens "picas do
pois em elludo. Por exemplo, no cenór'lo britânico haveria polido.,
um corlelro e \Im açougueiro ayiando no le\l tolho. Há um autocarro
com condulor para que os agentes possam praticor, pedindo OI bi·
Ihelel e dizendo poro onde querem ir correlomente. H6 umo estação
de correiol onde podem comprar selos, vales po:tois, elc. Um outro
cen6rio represenlo uma yilo Ingle.o com um pub e armazen •. Toda o

_ 285 -
22 .. PERGUNTE E RESPONDEREMOS, 235/1979

lIr.a 6 rodeada do vedaÇÕes do aramo farpado e patrulhada par


Guarda. armado. acompanhQdos por çQOU Ip. 601.

A Instrução dos candidatos selecionados em primeira Ins-


tância começa com um curso de doutrinação politica, que
dura quatro meses na escola Marx-Engels perto de Moscou.
Neste primeiro pedodo, não se fala nem de sexo nem de
espionagem. A disciplina do curso é exigente: o dia de tra.
balho começa com o desjejum às 7 h e acaba com. uma aula
finallàs 22 h. Rã duas pausas para as refeicães e dois perio.
dos de descanso de quinze minutos. As t:.arefas dos dias são
extremamente duras. controladas por Instrutores sempre aten·
tos a 6inalS de fraqueza. física ou psiCOlógica. Os jovens e
as jovens, cuja :Idade é de dezoito anos em média, donnem em
aposentos mistos e partilham chuveiros comuns. À noite estão·
habltuabnente tio cansados que não pensam senão em dormir.

Esta primeira etapa de treinamento é suficientemente


dura para eliminar os candidatos que não tenham forte têm·
pera fislca ou psiqUica, de modo que apenas um pequeno-
porcentual prossegue, passando para B Escola Superior T~c·
ni<:a. Lenine. Esta, distante de Moscou, é guardada por mura-
lhas, cães e guardas armados. A discipUna ai é espartana:
os 'Objetos pessoai.s de cada eluno são redU%idos ao minlmo; as
camas de ferro dos longos donnitórios estão separadas apenas
por estreitos armários de metal: o repu e a maca donnem
lado a lado.
A ênfase do treinamento é posta sobre a capacidade
física e mental dos alunos. Estes são enviados de madrugada
para uma zona rochosa a fim de a atravessarem em desgas-
tantes corridas entre os rochas. Recebem aulas de educa~ão
fislca. que vão desde o paraquedismo à condução de carros
a altas velocidades. O combate corpo a corpo constitui parte
importante do programa.

As lições teóricas são dlv1dldas em duas categàrias: a


shl5ta.va rabota (trabalho limpo) e a gryam:t.ya rabob (tra.
balho sujo). O trabalho limpo compreende as técnicas aptas
a recrutar voluntllrios para a União Soviética. O trabalho
sujo inclui as técnIcas de suborno, extorsão e chantagem:
estas ensinam a preparar armadilhas de sexesplonagem e a
obter provas de façanhas escandalosas. Depois das aulas de
trabalho sujo, os alunos são Induzidos a pôr em prática 8.

- 285-
cSEXO/ESPlONAGErb

teoria, exercitando·se em relac6es heterossexuais e homos·


sexuais; o aprendiz tem que chegar a vencer qualquer repug·
nância para com essas práticas e habllltar-se a dormir com
qualquer pessoa (homem ou mulher) desde que o bem da
União Soviética o solicite. Esta exigência do curso causa
desânimo a muitos alunos, os quais, porém, costumam vencer
a sua repulsa.
o tiro ao alvo é outra dlscipllna regu1ar do treinamento,
6enda utlllzadas pistolas sUenciaS8S a gás, que produzem o
som de um estalido de dedos e matam em quatro segun·
dos; a causa da morte em tais condições dificllmente pode ser
averiguada.

Os alunos também são instruIdos na aplicação de drogas


venenosas lançadas em doces, bebidas ou cigarros; aprendem
quais as drogas a utlli2ar em vista dos seus diversos objetivos
e quais os sintomas que a vitima apresenta em conseqüênc.laj
diz·se-Ihes também Que antldotos devam tomar, caso sejam
vlUmas de drogas.
Também se pratica o exerclc10 do aprisIonamento. Não
é raro no dia-a-dia da escola um alWlO ser repentina e brutal·
mente preso. O rapaz 011 8. maca então é despido(a), espano
cado(a) e sujeIto(a) Q. todo tipo de lrumilbacões e degrada.
ções. Deve então Inventar uma t:estória» para juStificar uma
falsa identidade; cada wna das palavras dessa. estória é exa-
minada e posta à provn ... Assim o candidato vai-se esme·
rando na arte da ambIgüidade e do cinismo; é corrigido e
punido tantas vezes quantas se tornem necessárias para que
seja um petfeito cartista:t.
Se algum estudante tencIona abandonar o treinamento,
renunciando à carreira proposta, deve dispor-se li enfrentar
surpresas extremamente desagradâveIs: sabe que sofrerá duras
santões. se ~o mesmo a rtúna moral ou fisjca ...
David Le\vis éntrevistou uma candorinha:t que conseguiu
escapar das gaITaS do KGB, de modo a encontrar-se com Q
jornalista. na TunisIa. A mulher enojada de quanto experl.
mentara em suas aventuras anteriores, descreveu a Lewis as
etapas de .seu treinamento e as aplicações bem sucedidas do
mesmo em sua carreira. Desse longo e minucioso relato
(pp. 71-85), transcreveremos apenas o.seguinte trecho, que é
certamente muito significativo:

-287-
24 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 23!Vl919

cTodo o grupo de esludanles se reuniu num grande ótrio li mois


uma vez CII codeira, eslovom tom circulo, mos agora 00 C4tnlro hQviQ
um colchõo no chao. Um instrutor entrou, Clcomponhodo d. um lovem
• d. um.a jovem, ambos vestindo roupões. Disse-nol que lamas ver
umo demonslracão de t6cnico$ para o Cllo •• xool . .O casa' despiu os
roupÔ$S e ficaram completamente nus. Dirigiram.se pora o cenlro do
circulo li obroçorom-se. A jovem acarlc10u o homem até o excitar li
então deitorom'Je no colch5o. O instrutor eslava d. p'Junto del.s
• oponlavCl os procenol que ti mulher utilizovo para estlmulor o
homem e tornar ti sua respOlla luual mais acentuodo li excitante.
O instrutor ordenou ô mulher que usaS!a OI 16biol li a IInguo no
homem, Fizeram tudo Isto lem qualquer sinal d. embaraço. Final·
menle mostraram diferentes posições do re[oção sexual e o 01110 ter·
minou com o cOlai cancretizondo o sua relaçÓo.

No fim ficamos senladas num silêncio de embriaguez. Nunca


vIramos nado semelhante. lembro-me perfeitamente do cOl'lfusáo que
fleou no meu esplrito. Sentia-me Inebriado e excitada peta que tfnha
vista, mas, mais da qUI! excitação, sentia desgasto. Sentia que tlnfla
astado o assistir o alIJO de obsceno" dOlJradante:. Ip. 781 .

Prossegue David Le\vls:

cPata Veto, o pior aspecto do ,eu treino como 'andorinha' foi


o maneiro como lenlamente se alterou a sua per!onalidode_ 'Eu sentia
que iuo mo eslava o acontecer, emhoro me consideraue sem poder
!,ara o evitar. Não (!~a simplesmente o tar·ma tornado menos Inibido
sobro O meu corpo ou o ato sexual, mal I<,ntla-me cada vez mais
frio e mais calculista, J6 não considerava importantes OI relacõel
humanas. Um tlomem era meromento .um alvo o ser rapidamente con-
quistado e trabalhado. Que abordagem ,eró mais efitoz? Como 'e
portoró olCl no como? Com que rapidez poderó 5er seduzido? Estai
eram as porguntos que automaticamente se punliom .ao mf'U esplrito.
Quando o nouo treino acabou, éromos jovens duras, clnieos, safisfi-
~odal. capazes de dormir c:om qualquer homem h~teroue:xuQI • der-lhe
o máximo prozer:so Ipp. 83$1.
A história de Vera continua. segundo Lewis:
cOeram o Vera um opartomento confortável, embora quando to·
mone parte em optrocões habituolmente fixo$lc 'residincio' num dos
moi. luxuosos 'ninhos de ondo/inhos' do KGB. Duronle algum tempo
.uportou de boa vontade o seu modo de vida, o troco dOI luxol ,q ue
fna lhe trazia, mos gradualmente algumas dúyidos cameçorom o pór-
-,.... Ihe. As luas ligoçõel com ocidentaIs proporcionarom-Ihe uma nova

-288-
(SEXOIESPIONAGEM~ 25

Visão do. problemas mundiais. A prIncipio ela deJprezovo OI IUOI


fllsrótiOl, ",nliderando·a. propagando, mal pouco a pouco c:om-
preendeu que muito do sua educação no sentido d. exogeror a milfrlo
objeto e atolaI corrupcflo do sistema c:api'allsta, tinha s1do folia.

'Comecei a ficar doente com Clqullo que tinha de fonr', disse·me


Vero. 'Em 1963 seduzi um ionm ,utudont. francês ctlio paI tinfla
uma pOlieão importante no indústrkJ mineira. E~ttJva poro cosor com
umo jovem de fomnio muito orbtocrÓlica e o KGa sabia que um
°
escândalo romperia o noivado. A principio, ropoz: não e.tava nado
interessado em miml ornava o suo noivo profundamente e nãa lhe
queria .er infiel. Ma. eu u.el lodol OI truquel quo tinflo aprendido
oté que comecou por acreditar em mim e acabou por me delejor.
Fomos poro o cama e Urorom o. fotografia •. Oh.eram 00 fapaz ,q ue
OI folografio ... ,iam envladol li famflio da noivo, se ntio convencesse
O pai o colaborar em certcJI informacões COmerciais, Não linha o
minima Idéia do que' que .re, querIam, O rapal. disse que precisava
do tempo pOlO pensar 1'10 CI.~unto, Nessa melma tarde, enqvanto ptU-
..co...o pela Praça Vermelha, foi morlo por um carro, Talvez fou. um
ae"idenle'. Vero orrepiou',e, 'Mal Ino foi poro mim o ponto de ruptura.
Sabia que linha do deill:or aquele trabolho o isso sign'iflcavo doill:or
o poh,',
Trõ, mOle' mois larde Vero conseguiu, utilizando OI "cnica. que
lõo cuidadosamente lhe haviam cnrinodo em Verkhonoy., seduJir um
coronel do teOB e convenceu·o o dor· lhe OI documental neu"sários
para umol férias 1'10 Alemanha Orienlal. 001 pano\! para o Ocidento,
Te...e umo sort. incrí.... 1 em viver paro contar CI S\lO hls16,10, pois pou·
cos 'ol'ldorinhol' con,e<luem voar do ninho, Se o lenla,em, ali SUClI
OSOI podem ser brutalmente cortadon Ip, 851.

«Vero fo i ume eIlCe(ÕO, foro e afortunado, à reg,a. Quando


uma ' andorinha' deixa o ninho, voa como lhe ordena o KGB - ou
nun<o moi, voo,á ~ Ip. B81 .

Agora, a fim de mais ilustrar a incrivel trama da sexes·


plonagem. apresentamos ao leitor alguns cas~ mais salient.cs
dentre aqueles que o jornalista relata:

4. Cosos da amostragem
I, Chama n atenção o caso do aEente KGB de nome
Yurl Krothkov. Depois de ter consegUido envolver o embai·
xador da França em Moscou, Sr. Maurke Dejean, numa aven-
- 289-
28 cPERGlTNTE E RESPONDEREMOS:. 235/1979

tura de adultério, que comprometia 8 sua carreira, YurI


l<rolkov resolveu interessar-se pelo adido aeronáutico da Em-
baixada de França, Coronel LouJs Guibaud_ Eis como o refere
David Lew1s:
_Depois do microfones escondido. terem revelado que o coronel
• a mulher se davam mal, Vuri pôs no caminho do francl. algumas
bela. 'andorinha,'_ Por fim, el. lucumbiu • foi para o aparlamenlo
de uma louro, te"do lá foto.grafado_ Em 1962 o KG8 iec:idiu puxar
a linha e apanhar .sle peixe gordo. O coronel Guibaud foi convidado
o ir ao quartel-oeneral do KG8 • moslraram-Ihe as fotografial.
'Tem duo. oUemotiveu, coronet', di.. e o ogenle do KGB, som-
briamente. 'Coloboror conosco ou enfrenlor o escândalo que ime-
diatomenle .e .egÚlró li nona publicação deste molerial'.

Mas paro a galante coronel havia uma lerceira alternativa. Re-


gressou à eMbaIxada, p6. a. seu. auu"tOI em ordem. depois deu
u'" tiro no cobeca.
A morte de Guiboud obrigou Krotkov o tomar umo deci.sõa que
Irado no elptrlta havia algum tempo. O de.prezo pelai .entlMenlo.
humanos e o monipulocõo cínica de homens e mulhere. que cada 010
de ...espionagem envolve, tinham feito porte do vido d. Yur1 Krollcov
durante tantos ano. que ele nunca se tinha interrogado se,iamento
acerca da moralidade do seu Irabalho. Uma ve: que começou a fCl%er
perguntas Q Ii mesma, a. dlivldas foram-so Clvolumando. Senlindo_se
cvlpado da merlo da coronel Guiboud, Yuri labia qtJe 16 naa podia
trobolhar mais para o KGB. Mas nenhvm hom.m ou mv[her se afoslo
dos servlças .eaelos sovi6tico., o menos que 'eles' o queirom e per·
.mIam .•eslova a Krol!cov uma único opcõo - o de.erção. (P. 99'.
David I..ewis, a seguir. mostra que o coronel Krotkov
conseguiu rea1mente evadir-se (o que é raro e dificll) e, uma
vez liberto, contou p ,suas experiências no KGB.
2. Oentre os _corvou, salIenta-se Karl He-lfmann, que
se pôs a serviCO da. República. da Alemanha Oriental (sovié·
tica) para exeréer sexesplonagem na Alemanha Ocldenta1.
Durante quase cinco anos. viajou por toda a Alemanoo no
seu carro, passando de escritório a escritório e de ea,ma a
cama. Em dado momento de sua carreira de espiA0, manteve
relações sexuais com mais de oito mulheres diferentes, espar-
sas por toda a Alemanha nwna única semana. Helfmann dls-
punha de infonnantes loucamente apaixonadas: uma, no Mi·

-290 -
cSEXO/ESPlONAGEM. 21

nlstério do Exterior da Alemanha Ocidental, que lhe fornecia


segredos de Estadoj CNtra no escrit6rio Wlesbaden da Divisão
de Pesquisas Cientificas dos Estados Unidos, que lhe passava
segredos técnJcos ; outras, ainda, eram secretárlas de olhos
brilhantes em fábricas de aviões, Que o cativavam com por-
menores de novas descobertas industriais; por fim, tinha uma
admiradora no consórcio do aço Mannesmarm, que lhe dava
informações secretas relativas a assuntos de economia e
Indústria. .

Finalmente Hel!mann caiu nas garras do Serviço de .se.


guranca da Alemanha Ocidental, não se sabe propriamente
como , . . Crê·se que uma de suas companheiras de quarto
habituais o viu numa praia do Mediterrâneo com a sua última
amante e teve ciúmes, Uma chamada telefônica para o Ser·
vIç:o de Contra.espIonagem foi a vingança exercida por essa
mulher. Helfmann não fez qualquer tentativa para pt"Ot~
a sua inocência; as provas contra ele eram demasiado evi.
dentes, O tribunal aplIcou.lhe a sentença de aproximadamente
cinco anos de trabalhos forcados. Quando tol levado ao acam-
pamento onde cumpriria a sentenca, Heltrnann observou que
o celibato torçado lhe daria finalmente possibilidade de tomar
fôlego. «Logo que seja libertado, tenciono casar outra vez.,
disse ele,

3, Em 1963 um estudante italiano de dezenove ano:. : de


idade. filho de funcionário do Governo, visitou a União Sovié-
tica durante as f érias, Era um jovem blssexual, tão satis-
feito por dormir com um belo rapB% como com uma atraente
moça. O KGB pôs: nos seus caminhos um rapaz louro de
dezesseis anos, com o qual o estudante teve repetidas rela.
ções sexuais; as cenas foram fotografadas de maneira cfeliz,
e comprometedora!

Regressando ê. pátrIa, o jovem passou a ocupar um cargo


na politlca à altura de sua primorosa educação e fonnação
e do nome de sua tamlUa. O KCB já previra tal carreira. O
rapaz entrou mesmo nos servit'Os diplomáticos e galgou rapi-
damente os primeiros degraus. Quando tinha vinte e sete anos,
estava bem casado e era pai de um menino. Foi então que o
KGB resolveu exercer chantagem sobre a sua vitima, amea·
çando.a mediante as lotografias tiradas outrora n~ RüsSia.
O jovem viu-se exposto a tudo perder: carreira promissora,
respeito da (amiUa, mulher e filho." Ora, apesar de todos
-291-
28 "PERGUNTE E RESPONDEREMOS,. 235/1919

os l'ÍSCOSt O dIploma't a italiano recusou a chantagem. Contou


às autoridades do seu pais o que QCOrreraj conseguiram mesmo
que o assunto fosse discretamente abafado. As ameaças fo-
ram afastadas e foI salvagunrdado o futuro familiar e profis.
sional do jovem. Teve sorte. Outros, sem e. sua coragem e
a sua capacidade de innuir, ter·se·iam tomado traidores da
pâtria em subserviência ao inimigo, a fim de evitar a provável
ruína moral de sua J)(!ssoa.
4 . O KGB não teve êxito também no caso do presidente
Sukamo, da Indonésia. Com efeito, gozando de fama de apre·
ciador de mulheres, o presidente parecia ser alvo facil de uma
annadUha sexual dura nte uma visita n Moscou. Uma série
de belas mulheres lhe eram apresentadas e acabavam geral.
mente no seu Quarto, onde câmaras ocultas filmavam as ocor·
rências. Perto do fim da sua visita, o presidente foi eseoltado
ao quartel. general do KGB, onde os filmes lhe foram exibidos
como prelúdio da chantagem. O Dr. Sulcamo ficava radiante
à medida que as pellculas eram apresentadas. Quando o espe·
tâculo acabou e as luzes se acenderam, perguntou aos funcIo·
narios do KGB, estupefatos, se seria possível obter cópias dos
filmes para le\'á·las consigo e exibi·las publicamente na Indo·
nésia. Consta que tenha dito: ~O meu po\'o terá orgulho a
meu respeito!,.
Em sumo, o livro inteiro de Lewis está c.:heio dc exem·
pios que manifestam os requintes astuciosos da. sexespiona·
gem soviética e mesmo ... não soviética. Para concluir, dire·
mos ainda algo a respeito da aparelhagem técnica utilizada
. pelOS ServiçoS Secretos do KGB.

5. A aparelhâge", .écnica espiã


A grande lnovntúo em espionagem eletrônica npatttcu
nos últimos enos de sessenta, com o RperCeiço~tmento de cir·
cultos eletrônicos da espessura de uma batata frita, construi-
dos em finas Colhas de slllc8. A principio esses circuitos erAm
dispendiosos e dificels de se produ"&ir. mas hoje podem ser
fabricados em serie c D preços baixos (p. 18V).
Existem outrossim radiomicroCones de 2,5 mm de diâme.
tro, que podem ser fIxados no dorso de uma mosca. As mos·
cas levam esses dispositivos para salas de colÚcwncias forte-
mente guardadas pela poUela, passando pelas fechac.\.tras ou
-292 -
«SEXO!ESPIONAGDvb 29

pelos aistemas de ventilação. Antes de ser enviada para a


sua missão, a mosca pode receber wna injeção de gãs, que a
matarâ dentro de um período de tempo detenninado. Assim,
logo após atingir a área-objetivo, a mosca morre, possiblU-
tando ao transmissor atuar sem ser prejudicado pelo zumbido
da..... (p. 186).
Também os pombos são utiUz;ados para levar ao peitoril
de determinada janela wn radiotransmissor. Os animais são
guiados até o quarto por meio de um raio Jaser dirigido à
janela apropriada. Depois d~ seguirem objetivamente o raio
e pousarem no peitoril, os pombos acionam com o bico um
botão, que desprende o transmissor e põe em atividade o
aparelho. Depois de cumprida a missão, o pombo regressa à
sua base (p. 1860).
Há também transmissores adaptados a falsos mamilos e
presos ao tórax da to) agente de espionagem. Nem mesmo o
exame do respectivo corpo nu é capaz de descobrir O trans-
missor. Tal aparelho é engenhosamente alimentado pelo calor
do corpo; parece ter o alcance de algumas dezenas de metros
(p. 188).
Outro local utilizado pLlr8 se esconder um transmissor ê
o interior de um dente folso CP. 188). Menciona·se também
o transmissor vaginal, do tamanho de uma unha de polegar,
que parece ser tiío fácil de adaptar como o diarragma. O
transmissor é acionado por alteraçOes quimicas da vagina
durante a relação sexual, e dA lrúclo à rodagem da câmara
(p. 192) . •
OS tecnicos têm conseguido outrossim fabricar Intenslfl-
cadores de luz tais que é possivei tirar fotografias à luz de
um cigarro OU mesmo Q luz das estrelas (pp. 193 e 194) .
OUtros recursos poderiam ser ainda mencionados. Estes,
porêm, bastam para mostrar o extraordinárb progresso da
técnica no setor em paula,
Passemos agora a uma

6, Conclusóo
Os fatos relatados por David Le\vis podem ser tomados
como espsUio fiel da verdade. Sugerem sérias reflexões Ela
estudioso:
-293 -
ao cPERGUNTE E RESPONDEREMOS, 235/1979

l} A sexesplonagem supOe O trabalho esmerado das mal5


perspJcazes inteligências humanas a serviço da degradação e
do vilipêndio da pessoa. Dlr-se·ia algo de satânico ou diabó-
lico (o que nada tem a ver com possessão diabólica), caso se
entenda que Satanás á o anjo inteligente voltado requintada.
mente para o mal. Os campos de concentração, as lavagens
de crãnlo (com sua ampla rede de ~ demolidores do
pessoa) seriam feitos que também poderíamos chamar diabó-
1kot no sentido enunciado.
2} Verifica-se que o Estado Soviético arroga a 51 as
prerrogativas da própria Divindade• .e a1go de absoluto a que
devem servir docilmente os cidadãos, entregando. se mesmo à
prostituição sagrada dos cultos mitológicos pré-cristãos. Dlr·
.se-la que os. extremos se tocam, como ensina o proverbial
adágio; com efeito, redundam em semelhantes prâticas o
paganismo mitológico antigo e o ateísmo absolutista contem·
porâneo.
3) O ser humano é a grande vitima neste século de
conquistas materlals. Vem a ser reduzido ao p.apel de Instru-
mento, do qual foram eliminados os sentimentos tipicamente
hwnanos. MenO.! vale. neste contexto, uma pessoa hwnana
do que a perspectiva de conquistas materiais ncariciada pelos
Estados prepotentes de nossos dlns.
A inversão de valores é flagrante_ A pessoa humana vem
a ser degradada e vlllpU\d1ada, de maneiras sorrateiras e
hip6critas.
4) 1'.:: oportuno que a oplnlão pública conheça tais fatos.
Quem deseje refletir sobre o contexto mundial em que está
inserido. há de levar em conta a desvalorização total que a
pessoa humana vem sofrendo por parte de regimes poderosos,
que ameaçam alastrar-se cada vez mais.

À "uls. de blbllo"ren. :
BOUKOVSKV. WL. Um. nova doenÇII m,n'e' na URSS I • Opoel~
Ed. Afrodlt., U.bo..
MYAGKOV, A., Eu ,per1encl .. KaB. Ed. Afrodite, L.ls boa.
Proceuo d .. VI:;e". (2 • . ad.), Ed. Arrodlt., Usbo'.
n.
28 anol Unllo Sovl'tlC. -
(6' ed.) . Ed. AfroelU., U sbo•.

-294 -
n011t de- .,!tIllo do Chico d. (M

"
.
...... ..- .
.
Um) entrevi,la:

ainda o método billings

Em ,Inte.e: Numa Interessante entrevista, o Dr. John SUllngs e l ua


e,posa propOem consldaraçôlS de ordem IIslológlca e técnica a respeito
do método da oyulaç!o, próprio para 1avorecer a reg ulação dos nascimentos
tem Itentar contre • nllurez• . AI~m disto, profees8m dete rmln.ada lItosolla
do amor e da vida conjugal, asseverando que o mêlodo da ovullçlo corto
trlbu' para lortalecer a unllo conJugat, lumentar a lellcldade do casal e
banellclar a lam Jlla Inlelra.
• • •
Comentário: O planejamento famUiar !! tese aceita ou
mesmo recomendada pelos pensadores católicos e pelo magis·
tério da Igreja (cf. Const. cGaudium et Spes .. n9 50). Ape-
nas se discute a maneira de executá· lo, pois a limitação da
prole (imposta por circunstâncias freqüentes em nossos dias)
é exeqüivel através de diversos métodos, artüiciais uns, natu.
rais outros. Ora a Igreja não pode aceitar os processos que
firam a natureza em seu modo próprio de agir, como são as
diversas formas de esterilização, entre as quais estão incluí.
das as intervenÇÕC5 cirúrgicas e Oll anticOncepclonals.
Dentre os m~todos nnturals, há um que, descoberto recen·
temente. vem merccendo a atencão dos estudiosos pelas suas
C),ualldades de pr<!clsão e eficiência: é o mêtcdo devido ao
casal de médicos John J. BlUings (neurologista e presidente
da World Organlsattoll Ovula.tioo. l'tlethod Billings) c E. Lyn
Billinss, pedia.tra, ambos professores na Universidade de Mel·
bourne (Austrãlia). A respeito deste método, PR jã publiCOU
um artigo em seu n' 199/ 1976, pp. 294·304. Visto que o
assunto da limitação da prole vem constantemente à baila
nos nossos dias, desejamos chamar a atcn~áo para o método
BilIings, trazendo-o de novo à consideração dos nossos leito.
res neste n? de PRo Para tanto, apresentaremos, a seguir. o
texto de uma entrevista concedida pelo casal Billings ao jor·
nal cL'Osservatol'e Romanot em sua edição de 21; Ol{79.
Antes do mais, porém. importa sintetizar o que seja o
método BiIlings.

1. Em que consiste o método?


O método Billings ou da ovulacão consiste em observar
o muco (hwnor viscoso. mucosa) uterino que n mulher perde
-295 -
32 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS, 235/1979

nos dias em que pode ser fecundada ou no perjodo da ovu-


lação. Tal observeção pode ser realluda com relativa facill·
dade, pois a secreção interna tem cor, densidade e elnstiçi.
dade tais que se torna bem caracterizada. Nos dias em que
a mulher verifique o derrame de secreção utl.'!rina por parte
do seu organismo, deve abster-·se de relações conjugllis. Fora
destes dJas, pode tranqüilamente ter sua vida. sex!.1al legitima,
sem perigo de conceber. Com efeito, quando não há secreção
uterina (de composição quimica lÜcallna), o ambiente da
vagina é ácido, de modo que os espermatozóIdes Que lá pene-
trem, não subsistem senão meIa-hora em vida; não chegam,
pois, a penetrar no útero . J:: a secreção uterina que propicia
a passagem dos espennatOl.Óides pelo colo do útero, de modo
a poderem encontrar-se com o óvulo. O método tem sido apU-
cado com grande êxito, evidenciando ser seguro.

2. A antrevjlta
cRep6rter: Sr. e Sra. Billings, como chegaram ao método
da evolução e sobre que princípio se baseia ele?

Dr. Billln~,: Com~amos em 1952. Um sacerdote que


assistia a um Centro de Consultas [lró.Familia [redirn-me que
o ajudasse. Dizia-me ele que alguns casais lhe haviam solici-
tado ajuda no toco.nte 0.0 controle dos nascimentos. A<:eitci o
convite com reticências porque quase nada sabia a respeito
dos métodos naturais. Mas pus-me a estudã-Ios e fiquei logo
impressionado pelo tipo de pessoas que recorriam fi. mim.
Elas tinham, muitas vezes, problemas sérios, que eu nunca me
propusera; isto induziu.me a proeurar uma solução que fosse
moralmente aceitâvcl. Foi, allás, sempre neste sentido que
eu caminheI.
Estudei o mêtodo dos ritmos J, que era o tinlco então
conhecido, assim como os casos que se apresentavam como
fracassos desse mêtodo. Compreendemos ass im que de modo
nenhum se tratava de fracassos, mas, sim, de erros de enten·
dimento e de ap1k:ação; o método tinha sido mal compreen·
dido e aplicado. Verificamos que, de outro lado, havia circuns·
l Tamb16m dito "de Oglno·Knous·' ou "da IObelo". Procura calcular
anleelpadamonle, por vIa ",ell.llel, o. di .. em que a mulher 16 fecunda.
O m61ado, por6m, 41 tido, como falho, porque 1".' orgonlsmos cuJOS cicios ou
ritmos mel'lllruais slo I",gulami em conseqQtnela, nlo pOI.lCU .urpr..u
ocorrem na opllcaçlo dauo m6lodo.

- 296-
AINDA O MÊTOOO BJU.INGS 33

tAm!as nas quais o método não podia oferecer solução alguma.


Em conseqüêncla, pusemo·nos a procurar um novo método ;
a leitura de obras cientificas levou·nos a descobrir uma série
de intonnaç3cs sobre o muco cervical.
Outros estudos sobre a temperatura interessavam à nossa
pesquisa, mas foi o muco cervIcal que deteve, antes do mais,
a nossa aten;ão porque as inrt.:lrmaç6es a propósito, nas obras
cientificas, eram muito claras; desempenha papel de importân-
cia capital na ovuJacão. Todas as nossas pesquisas desenvolve-
ram-s;e em laboratêrio. Alguns ginecologistas colhiam amos-
tras de muco cervical I! as levavam ao laboratório. F alávamos
com as mulhcl'es que nos procuravam, a respeito dos sintomas
do muco colhido durante a sua menstruação. Assim tenta·
mos estaoolecer os principlos ·do métCldo, método que o dou.
tor Brown, vindo de Melbourne, pôde comprovar cientifica·
mente.
A ovuJação é o ponto de chegada de um processo real-
mente muito complexo. no qual entram em jogo o cérebro, o
hlpotálamo, a hipérise, os ovários, que constituem um meca-
nismo deli1:ado. Hoje em dia, hâ testes químicos que permi-
tem avaliar os ulveis dos hormônios que concorrem para
determinar o fenômeno da ovulação; por 'COnseguinte, é pos-
slval prever o momento em qUe se há de proth12ir a ovulação.
Existe no ciclo apenas um dia no qua l ela se produz, mesmo
nas mulheres que têm ovulação múltipla. Examinamos cen-
tenas e centenas de mulheres no decorrer desses quinze últi-
mos anos, instituindo dosngens; e verificamos prccls5.o e exa·
tldão cxtl"emns na observação do seu ciclo: as mulheres são
muito inteligentes.
Repórter: A e nclcUca cHuma nae Vltae:., da qual celebra-
mos o décimo a niversário em 1978, suscitou problemas morais
a respeito da r(>gulação dos nascimentos. Como o seu meHodo
responde a esses problemas?
Dr. B1lllngs: No decorrer dos nossos trabalhos, tivemos 8
ocasiã-o de conhecer as experiências das pessoas que procuram
resolver os problemas da regulação dos nascimentos médlante
a contracep;io (condons, diafragmas, plluJa, DIU. etc.), e
pudemos averiguar -principalmente os efeitos nocivos desses
instrum~ntos para a saúde da mulher e, muitas vezes, tam-
b<!m para o casal; obsel~amos outrossim a infidelidade que por
vezes se segue à utilização desses métodos por parte do ma·
rido ou da mulher. Acarretam desgaste do respeito mútuo,
do amor e, por vezes, a desintegraçâo do casamento.

- 297-
34 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS, 235/1919

Quando Paulo VI, depois de ter estudado e orado, deu 8


conhecer ao mundo a sua enclcUca, estávamos certos de que
ai .se achava o ensinamento da Igreja. Sabiamos que Deus
dera autoridade 8.0 sucessor de Pedro para indicar aos homens
de boa vontade o caminho certo, do ponto de vista moral,
para o controle dos nascimentos. Quando o Papa publiCOU
.Hwnanae Vitae», enchemo-nos de e..Iegria porque sempre
acreditamos que tal era. a decisão eêrta, embora tivéssemos
a consciência de que podiamos também enganar-nos e faltar
de sensibilidad~. O magistério da Igreja, desta forma, aju.
dou-nos 8 compreender plena.mente a escolha à qual nos
tinham levado os nossos estudos, as nossas pesquisas cientifi-
cas e a aplicação prãUca do nosso método. .
O que Paulo VI afirmou em cHumnnae Vltae* conflnnou-
·nos em nossa tarefa e, principalmente, encorajou-nos a levar
adiante a pesquisa cientiflca, para que o método da ovulação
se torne sempre mais seguro e mais simples.
Então interessamo-nos pelos problemas dos países em via
de desenvolvimento. Estivemos na Africa, na índia, no Pa·
quistão, em muitos outros paiscs da Asia, do Pac:flco e da
América LaUna. Em toda parte as pessoas compreendem o
método e $\Ias vantagens. Marido c mulher colaboram sem
prejudicar o. sua rcrtUldade j fieam abertos à vidaj o seu amor
cresce c os faz t1mo.dul'(~ecr. E os beneficios não são colhidos
apenas pelo casal que orienta com sabedoria sua fertilidade,
mas também pelos filhos. por toda a (amilla, por toda a
sociedade.
Repártcr: Qual a eficácia do método da ovulaçâo? E que
problemas as pessoas enCOntram na escolha e na aplicação do
método?
Dr. BUIIngs.: Como se compreende, o primeiro problema é
o de saber ensinar, de modo claro e simples, us principios do
método, os sintomas que o ~aracterizam, etc. Verificamos que
todos aqueles qUI! o quiseram aprender, foram capazes de
compreendê.lo, qualquer que fosse o respectivo nível social.
Em Calcutá, por exemplo, mulheres analfabetas, que vivem
na maior pobreza, compreendem logo o método e estão dis-
postas a apl1cá.l0.
Mesmo os maridos o aceitam bem. O método lhes agrada
muito; mostram-se Interessados pelas Infonnaçôes que rece·
bem sobre o sistema genético da mulher. Acontece também
que eles querem deCender as suas esposas. Mencionemos OUtros-
- 298-
AINDA O l\ttTOOO BILLINGS 35
sim os muçulmanos e todos os outros povos que encontramos.
Desconcertados pelos males acarretados pelos métodos con.
traceptivos, aceitaram com entusiasmo o método natural de
controle da fertilidade que lhes era proposto. O método da
ovula=ão promove wn comportamento moralmente sadio,
desenvolve as virtudes que suscitam seguranÇd e felicidade ao
casal, e abre os cônjuges para wn amor autêntico e generoso.
No tocante à segurança do método, podemos afirmar,
sem sombra de dúvida, que merece grande confiança. Se o
esposo c a esposa colaboram para seguir os principies respec.
tivos, essa confiança aproxlma·se muito da que as pessoas
tem na conlracep;ão e na esterilização. A experiência m0s-
trou que o percentual de casOs de gravidez ê de 1,5% ou
mesmo menos.
Rep6mr: Por que os casais escolhem tal método?
Dr. BllIlngs: Hoje os jovens se interessam muito pelo pro-
blema da poluição e têm consclêncla de que outros métodos
contraceptivos não são, na verdade, mais do que wna cpolul;io
da pessoa:.. Por c:>nseguinte, estão dispostos a aceitar o que
seja plenamente natural, como se dá no caso de nosso método.
Não se trata sempre de uma questão de religiãO. À3
vezes a escolha dos jovens é InspIrada pela sua filosofia de
vldn: eles querem encontrar soJu;õcs naturai.:! pnra os seUll
problemas.
Julgamos qu~ é este um dos rr.otivos principais da acel·
taç50 do método, sem considerar, naturalmente, as motivações
religiosas que orientam os casais eristãos_
Quando os esposos começam a utilizar o me todo parti-
lhando 8S responsabilidades das suas relações COnjugais, re-
sulta para eles uma nova consciência. Parece que a sua união
se rottalecc, atingem urna felicidade ma.is perfeita. Ora é a
isto que aspIram todos, não somente os cat6licos~ .

3. Comentando ...
A t'Tltrevlsta do Dr. BUlInes, além de lndlca';Ões de ordem
fisiológica e téc:ntca, apresenta também uma detennlnada filo-
soflo. do amor e da vida conjugal. Assevera, entre outras coi-
sas, que o uso do método da ovulação e, por conseguinte. e
continêncIa periódica contribuem para fortalecer a união con·
jugal, aumentar a felicidade do casal e beneficiar a famllia
inteira.
_299 -
36 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS) 235/1979

Ora precisamente esta afirmaçâo é impugnada por certas


correntes contemporlnellS. Dizem que a continência perió·
dica, por mais bem estruturada que seja, é a."tinatural, por-
que priva das relações sexuais, quando muitas vezes o amor
é mais intenso. Ela enquadra o amor dentro do cal.endArlo
e assim amea~a a estabilidade conjugal.
Vamos, pois, refletir sobre tão grave dificuldade levan-
tada contra a contini!ncla periódica.
Observemos que tal objeção supõe um conceito de amor
que é parcial ou unilateral; esse conceito tende a identlficar
amor e sexo, ou mesmo a red.1J,2;ir o anror ao ato de cópula.
Na verdade, o amor, antes de ser relacionamento sexuaJ, é
procura efetiva do bem de outrem e exprime.se através de
vãrlas fonnas de atenção, apreço, delicadeza .. . não direta-
mente ligadas ao amplexo sexual. A continência periódica. C
precisamente o teste que comprova, ou não, 3. exístêncla. do
autêntico am-or, que é, ao mesmo tempo, espiritual e sensivel.
Os esposos que sabem abster.se de relatães sexuais porque
abracam o mesmo Ideal ou porque um quer bem ao outro c
não lhe quer ser molesto ou importuno, mostram (precisa·
mente pela sua continência) que têm o mais profundo e puro
amor um ao outro. Quando um casal ou um dos cônjuges
chega a dizer: cOu tudo ou nada! », Isto é: «Ou relações
sexuais ou nenlrum relacionamento conjuga!!», evidencia-se
que o amor desse casal ou desse cônjuge é falso em si mesmo
e em SuaS expressões; ê antes instinto do que valor tlpicn.
m(!llte humano.
O sexo, no ser humano, vem a ser expressão ou sinal do
amor; por conseguinte, tem que pairar acima dos instintos
ou dos Impulsos meramente IIbidinais, numa conduta de doml.
nio e subordinação dos sentidos à ra:zâo e ao Ideal. No ser
humano o sexo está a servi ~o do amor e trnnsmlt.e o amor
que o homem c a mulher concebem consciente e livremente
em vista d'1 construção de uma meta que ultrapassa -os paMi.
cularismos de um e outro.
Note-se outrossim que a continência periódica consiste
em fazer uso natural de fenômenos naturais. ~ Isto que ti
torna especialmente sadia tanio do ponto de vista fislco como
do ponto de vlst.a moral. A natureza ó sãbia, como se diz
proverbialmente; respeitá-In é desenvolver as chances que ela
por si mesma oferece ao homem, é certamente penhor de
engrandecimento e nobreza da pesson humana.
- 300-
No mundG cio eensaclonal :

"as profecias do papa JoãO XXIII"

Em .In .... : o IIv,o "A. profecias do Papa Joio XXIII" do Jornalista


lIaUano PI.r Carpl alrlbul ao Papa Joio XXIII v.Ucfnlos que ele leria r~dl,
gldo em 19l5, quando D.legado lAp09161lco na Turquia. N.ssa mesma da'a
o al'C1lblspo À!'\gelo Ronealll ler' sido recebido em uma Socledado m!sUca
eecrela, que, como se depreenda da narraçlo de Carpl. deve I.r . Ido e
Ordem Rosa-Cruz.
Ora a ttl. de que AAgalo Renc.1I1 lanha ,Ido rosaeruclano ou mem-
bro de Sociedade ••erata 6 'anlulsta e emltl'rl•. AI locledad•• ..cr....
ou .so"rtcu prol...atn, a ml).1I0 d. O'u•• do homem, noç6e. que nlo
,e coadunam absolullmln1e com as concepç6ta cristAs, que Angelo Ron-
cam protostOu a vida Int.lr•. Ademels o teor cf. t.ls prolecl. . . vago e
ob.curo, podendo •• r Interpretado de "'ri"manel"...
o livro, portanlo, vem li ser a expreullo da tendência Que multls
Socl.dado. secretas allmenlam, de enumer.r entre os seus membros pes--
a oas de grande proJeçlo. Da obra em pauta, porem, nada de " rlo .. pode
daduzlr.

• • •

Comentário: Já saiu em segunda edicão o livro _As pro-


fecias do Papa João XXllb (Ed. DItei, São Pamo 1971).
Como todo livro que anuncia revelaCóes, também este tem
atraIdo e empolgado o publico, sempre sequioso de conhecer
o que está oculto, seja presente, seja futuro. Visto que esse
livro envolve a personalidade do famoso Papa João x:xm,
propomo· nos nnaUsá·lo e tecer-lhe alguns comentários.

1. O livro de Pier CarpJ


Pier Carpi apresenta·se como jornalista italia no católico,
que C('rto dia foi visitado por um ancião misterioso. Este lhe
falou dos grandes mestres do ocultismo como AJessnndro Ca-
gllostro (condeJ, Louis·Ckiude de Saint-Martin, Salnt·Gcr·
main, Chl'lstlan Rosenkreutz .. . e finalmente também lhe
revelou Que o Papa .João xxm em 1935. quando era Delegado
ApostóliCO na Turquia e na Grécia, foi recebido nurno. Soele-
-301-
38 "'PERGUNTE E RESPONDEREMOS, 235/1979

dade esotérica (o. quanto parece, esta seria a Ordem Rosa.-


-Cnu;) '. De imediato, então, escreveu uma série de profecias,
que se estendiam até 2033. O manuscrito dessas profecias
estava em pode!' do ancião, que houve por bem revelar parte
delas ao jornalistn Pier Call1i. Este as copiou e, finalmente,
resolveu publicá. las com uma tentativa de Interpretação, ...
tentativa que, como o próprio autor confessa, nem sempre
consegue desvendar a linguagem obscura e simbolista do texto
das profecias.
O livro de Pler Cnrpl, portanto, apresenta um esbo;o
biográfico de Angelo Roncalli (Papa João XXUl); narra como
foi iniciado no ocultismo e refere os dizeres proféticos do
Papa com os comentários do editor Carpi.
À guisa de espécimen, ou seja, para facilitar a apreciação
do leitor, transcrevemos. a seguir. um trecho das profecias
de João XXIII:
cO atormentado elt!ito nOI tormentos, Poi viúvo cuias segredos
Maria conha:e. Colar· se-á por fé.

Pagos ainda o soldo de Paris. N5a oceitor a lenloção do Pano


leon, dos seus mariaS 11 dos seus " ivoI.

Vioionda. le deb:orlu no hono o li mesmo. Nóo te P'3derlu 'e-


vanlor mais, afrontor6$ os POyas. Nõo te compreenderão, elel te Clfron~
tarão. E tu te ealor6s. Paslagens Inteiral são queimados, caiai 18
moiam teul pastores.

Babilônia lem lingUal demois. Quebroste a correnle, lu o (0"",


saba· lo·61 até o mario. língual di"er: ol poro o socromonlo, lingu(11

I Dlstlngamol enlre • • 0té,lco e .ltol"leo.


&olérl:o é o enall'lllmanl0 reservado a pouoas ou a Inleladoa. Fica
Bando secreto. Em matéria da rell"llo. o esolerlsmo é panlelala. ou seja.
admite a Identidade e ntre Deus, o mundo e o homem. - Sociedade .,a-
ttllee, porlanlo, 6 a que sa facha ao público o s6 admite passoas seletas.
EJ:olf,lco é o cnslnamanlo transmllldo eo grande publico por vIa
clare • ecesslYel, ao conlrjrlo do que .e
di com o esolerlsmo. que usa
de IIlIguagem o bscura ou hermética (= lac hada) . - Sodadada oxo16,'c8,
parlanto, ti • que se abre aos Interessados e prop6e as suas doutrina 18m
re.trlçAo.
ElOltrlco vem do grego eis = par. dentro, ao peS$O que ollolf,lco lia
dorlva da p8rtlcula graga ox = para lore.

-302 -
cAS PROFECIAS DE JOAO XXlIh 39

diverscn pata a palavra. Hol. ,,'6 'K'rclViada, Tolhelle o exordsmo


CIO sacramento. visto o vullo de Salã. falor ni50 bosla,

Tu quo vonl dai névoas lor6s forido ,

Não soubeste escolher, odmoestor~ ousar, suplicar. Visto dema-


siado, nao quises'e rololor. A Igreio Ireme o luos carlos abalam-na
inutilmente.

O s melhores fjlhos vão·se, fOlem,se Servos do mal a quo cha-


mamos bem. E quantos J' rCllringem a ti sôo esquecidos,

Ter6s um dia d. po:r:, um un'w. Oepois le dever6s entregar 00


poeta . As névoau Ip. 8S) .

Segundo Carpi, ca profecia, muito obscul'a, refere·sc a


Paulo VI (sucessor de Joio XXDI). O profeta emprega IIn·
guagem dura, cheIa de piedade, amargas contestações, Incita.
mentos, até resignação. O Papa é definido viúvo» (p. 85).
Eis outru sC'c~lIo tiplca:
«Grande lampelo no Orienle. Não lhe ouvis o estrondo, também
isso te r6 Inesporodo,

Isto ocorrer6 quando no Oriente pere1:er um chefe e no Ocidente


'or onCJsdn.ado um chefe. Ao lul d. Lutero,

Rejeltoi os ouoninol q\le so oprelenlarem, rejeltoi os qvo vie·


rem aprosentodo • . OI onos ~inos eslão na Evropa, Querem o Me dit er·
rôneo. Depois hov.r6 o delito sem assassina •.

o tempo incubou uma menlo Ivrvo, Ô sombra da crvz rubra.


negra, doscanheéida de toda., filho da. fortlgidos de Nuremberg.

E: la ordef\(lu o delilo sobre si própria. H6 quem rell'luneio â vida,


por amor do mal.

A lorra dcu'olhoró o massacre. Um mOfleró por Iqdo. a lerá o


melhor.

Não' lempo de reis, lomols o foi, Desde a morle de Frederico,


todo rei é Vlurpador. QUI sa vá o roi, fiquem OI povo,. A Evropo
possui ,e'e, hoveró sangue nos estrgdos.

-303 -
110 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS, 235/1979

Mas lamb6m grandes prociui5es e a Bealificado Virgem do.-


cer6 õ "rra. Não a 'lerei. na grula, mas num coraçaa que reviver6.
Trara das trevas uma palavra Clue fodos compreenderão.

E fempo dai cartau I p. 1281 .

Como se vê, é assaz complexo e difícil o texto das profe-


cias (neste ponto. lembra as .Centúrlas, de Nostradamus;
cf. PR 217/ 1978. pp. 22.35). Por Isto as Profecias de João
xxm poderão ser sempre interpretadas de mais de uma
maneira. Em conseqUênda, poderão ser sempre a.daptadas ao
esquema que o intérprete desejar (consciente ou inconsciente-
mente) adotar. Aliás, o próprio Pier Carpi reconhece que o
texto é obscuro em mais de uma oportunidade; cf. pp. 67. 72.
75. 18. 82.'
o exame do livro nos sugere, de imediato, a pergunta:

2. Que dizer?

Evidentemente, um leitor que conheça um pouco de Cris-


tianismo, poderá reconhecer Imediatamente que as cprofeelas,
de João XX1U não são mais do que um produto da livro
imaginação, destituido de qua1quer valor profético ou doutrl·
nAdo propriamente dito. Para fundamentar esta sentença,
faremos quatro ponderacóes=
1) 1:: de todo ilusório julgar que Angelo Roncalll tenha
sido um iniciado no esotertsmo e membro de alguma Socie-
dade secreta. como seria. por exemplo, a Rosa-Cruz. Com
etelt(), o esoterismo professa um conceito de Deus radical-
mente diverso do conceito cristão. Sim; os esoti>ricos aflnn.am
1 "O r..tante di profeell , dlllcll de Interpretar ... Intere5sInle, mes-
mo emborl 8U nlo tenha conseguido dacllr!·lo, • tudo o que se diz sobre
e alelçlo de um louco como Ilnlo, conslderldo pelo profell um grande
erro. contudO destlnldo I pa:mlnlcer secreto nos "culos" (p. 785).
"Nlo consigo ciell"lr com praclslo a profecia seguinte" (p.72) .
"Nl o consigo entender I m.lo I "titUI. o que pode slgnlllcar"
Ip. 75) .
"'rcda a prlmelre plrlo da profecia diz respalto a um Sinto detconhe-
cicIO. de quem nlngutm nunca ..banI. coisa alguma ... SUIl morte coLncldlu
com atos vandlllcos. com atOl de terror que nlo consigo unir por absoluta
tana de refer'nclas" (p. 82).

-304-
«AS PROFECIAS DE JOAO XXIII'

que Deus não criou o mundo a parttr do nada, mas fê·l'O ema·
nar de &1. Com outras palavras: o mundo procede de Deus
por etapas, antes do mais, emana a substância prlmord1al,
que, por lenta evolução ou sucessivas emana!:óes. se vai trans·
ronnando nas dlvenu criaturas 'llsiveis ou corpóreas até
chegar às Intimas ou menos significativas. Quanto aGS espio
ritos, também procedem de Deus por emanação, sob a forma
de mônadas, as quais se manifestam através da matéria.
Esta concepl:io redunda em panteismo, embora os esotériem:
recusem esta conclusão e a vocábulo cpanteísm'O~. O emana·
tlsmo esotérico reduz a Divindade a um ser volú.vel, finito e
contingente, do qual não se pode dizer que seja Absoluto
(como querem os esotéricos).

Ao contrArIo, o Cristianismo é monoteistaj admite um só


Deus distinto do mundo e do homem, de tal modo que não há.
transição entre Deus e 'O mundo. Para salvaguardar a trans-
cendência e o Absoluto de Deus, o Cristianismo aflnna q' le
a mundo é criatura de Deus, produzido a partir do nada, ou
seja, sem matéria preexistente e sem ondulações da subltAn·
ela divina. Deus está presente a todas as criaturas por sua
ação criadora e conservadora, mas jamais entra na composl.
ção de alguma criatura como parte integrante ou substrato
da respectiva substAneia.

Esta dilerenta básica no conceito de Deus faz que wn


cristão jamals possa tornar·se esotérico sem deixar de ser
cristão, e vice· versa. Ora Angelo Roncalli foi autenticamente
cristão, coma manifestem todos os seus escritos.
2) A tese de que haja verdades a ser mantidas em
segredo para as multidões e reveladas apenas aos tniclados.
não é cristã. Com outras palavras: o Cristianismo não dis-
t ingue «verdades para o wlgo~ (exotêrk:as) e cverdades para
as elites~ (esotéricas ) . Isto seria totalmente contráriQ às
intenções de Cristo, que disse aos seus apóstolos:
«Nado h6 d e encoberto que nela vanha a ser descoberta, nem
de oculto que não venha o ser revelado. O que vos d;go às eu;uros.
dizei-o à luz do dia; O que vos, dito DOI ouvidos, prodamal-o lob,.
o s telhadou (Mt lO, 26.).

Com estas pulnvros. Jesus mandava aos ~us discipulos


proclamassem destemidamente tudo o que o Mestre trnnsmt.
- 305 -
42 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 235/1979

tira ao grupo restrito das seus apóstolos e Imediatos segui-


dores.
Por Isto toda tentativa de ldentifkar o Cristianismo com
elitismo doutrinário ou gn6stlco tere o âmago da mensagem
eristã. Hoje em dia mais do que nuNca, os pastores da Igreja
apregoam a necessidade de que todos os fiéis eatólicos se Ins·
truam nas verdades da fé ou estudem teologia (não há dúvIda,
o estudo aprofundado da. teologia nem sempre foi cu1tivado
pelos fiéis, por motivos conUngentes, mas não porque hou·
vesse verdades proibidas ou InaCess:vcis ,\05 f iéis 1eiSos).
Ve..se, pois, que são incompatíveis entre si o esoterlsmo
(que ó essencialmente reservado aos hliclados) e o Catolicismo.
3) O fato de que o ocultismo queira enumernr Angelo
Roncalll ou o Papa J'03.0 xxm entre os seus grandes adep-
tos não nos surpreende. Na verdade. o ocultismo quer-se
apresentar como sendo a filosaria de muitos dos grandes
vultos da hist6rla e do saber, como cenas faraós, Pltâgorns,
Sócrates, PIRtto. Moisés. Salomão, Je!lus Cristo, Descartes,
Leibnitz, etc ... João xxrnteria que estar n<lturalmentc
nessa lista. A titulo de J1ustração, transcrev.emoo aqui um
anúncio publicItário da Ordem Rosa-Cn!Z.:
e(:resce no Recife o movim ento da ontj,go e milticQ Ordem Ro·
IoQcnu:. que teve suo oriaom no Egito duronte o r.. inCldo de Amenhotep
IV no Clno 1350 a .C . Isto é o qye relatom Oi documentos rosocruzes,
que afirmam tombém tor o lociedade nalCido como escola de mistério,
d~ sabedoria $cc;relo e reunido desde aquela époc;a a té nouos dias
peuoa~ interenodos em obler conhecimentos esotéricos.

Inicialmente o Ordem restr1ngi u-u~ 00 Egito, mln, com o passar


dOI tempos, espolhou-.e por lodo o Oriente, atinginda a Europa no
(dade Média. Em 1964 cht,garom as primeiros rosocrUlel à America
do NOtle, mais especirkomente o Alodélfi o, onde foi criado um
núcleo do Ordem. Dor a Am6tlco do Sul 'oi opena. um pano:. I eDió-
rio de Pernambuco:., 19/ 11 / 78, .eccõo (:, p. 1 J.

Talvez O fato de Que João XXIII se tenha mostrado


aberto li. v1da moderna e fautor do erumenismo (sem, porém,
cair no relativismo), deve ter inspirado 80s mestres esotéricos
o desejo de 1nclul·lo na lista dos grandes «Iniciados».
4) O homem contemporâneo, maltratado pela inclemên-
cia da história recente. sente especla1 necessidade de conhecer

-306-
.:AS PROFlOClAS DE JOÃO XXlIl ~ 43

o futuro, na expectaUva de que traga em breve o fim do


mundo Ou o fim da época ma que atravessamos. Ê o que
expllca o pulular de cprofecias:. em nossos tempos; além de
No~tradamus, Malaquias e outras, também as de João XXIU
atenderiam u. esse anseio. Verdade é que as cprofecias:. de
João }O{lll publicadas por PJer Carpl não pr~vêem dias me-
lhores ... , mas também ê verdade que, segundo o editor, ape-
nas 20% das pred i~ contidas na pasta do velho visitante
foram reveladas a Plcr carpi.
Como quer QUe se1a, não hã quem não l·xp~l·imente o
desejo de desvendar as incógnitas do futuro .. . Em conse-
qüência, alguns chegam a criar fantasiosamente as respostaS
que julgam poder atribuir a um órgão celeste para satisfazer
aos seus anseios. E o que terá acontecido a Pier Carpi
ou àqueles que lhe rorneceram o texto das .,;profedas:. de
João XX1D.

:E: oportuno ainda dizer algo sobre a Ordem Rosa-Cruz.


a Que repetidamente alude o livro em pauta.

3. E a Roso-.Crvz?
A ot'lgem da Rosa-Cruz cstâ numa estória propalada no
St..õc. XVII por um teólogo luterollo alemão chamado Johannes
Vulentin Andreac (1586-1654).

Com efeito_ Em 1610 apareceu na Alemanha um manw·


crUa Intitulado cFama Fratemitatls Rosae Crucis:., de autor
anõnlmo, que em 1614 o mandou imprimir na cidade de Cas-
seI. Em 1615 saiu a quarta edição desse livro, juntamente
com outra obra do mesmo escritor anônimo: cConfessio Fra-
lcrnitalis "Rosac Crucis ad eruditos Europae ~. Em 1616, apa-
receu cOle Chym.lschc Hochzelt Christlani Rosenkreulza ainda
do mesmo autor anônimo_

Estes livros de modo geral propunham a renovaçlo da


Igreja. do Estado e da sociedade mediante um grupo de pes-
soas de escol per:_lIcentes à cFraternidade Rosa-Cruz:.. Este~
conforme o autor, haveria sido fundada por Chrlstinn Rosen-
kreutz. que teria dado o seu próprio nome à Fratemldade
(Bosenkreutz, em alemão, slgnitica. nosa..cruz). A respeito-
do fundedor narrava o autor anônimo o seguinte:

-307 -
44 .,PERGUNTE E RESPONDEREMOS~ 235/l979

ChrisUan Rosenkreutz nasceu na AJemanha em 1378. Fez


os seus primeiros estudos num mosteiro, onde aprendeu o
latim e o grego. Aos 16 anos de Idade, terá começado a
viajar pelo Oriente e peJo Egito, onde travou relacÕes com
os maiores sábtos e magos da época. De volta ã sua terra
natal. reuniu sete companheiros para fundar com eles a Fra·
ternldade Rosa ·Cruz: os membros desta procurariam, me--
diante viagens ao Oriente, imbuir·se da sabedoria dos antigos,
que eles trariam para a sua sede na Europa. Â Sociedade
assim consUtulda ficaria sendo secre1a.

Chr1sUan Rosenkreutz. faleceu em 1484, com 106 anos de


idade (longevo por causa do elixir da longa vida, que ele
descobrira). Morreu no fundo de uma caverna, onde passara
os últimos anos de vida. Transformada em sepultura, essa
mansão devia pennanecer ignorada até 1604. data prevista
por Rosenkreutz para se manifestar ao público. Foi antão
que a Fraternidade começou a ser divulgada mediante a difu·
são do escrito ~FamB Fratemitatb;~. que drculou ampla.
mente dI! mãos em mãos, com um convite para que as peso
soas iluminadas entrassem na Fraternidade.

Essas noticias e a cxortn-:ão ancx·a encontraram profunda


ressonância na sociedade européia do séc. XVII, que multo
se interessava po[' assuntos esotéricos, mãgicos e misteriosos.
Multas alquimistas e _mlsUcos~ puseram.se a procurar alguma
sede da _Rosa-Cruz,. para nelo Ingressar. Todavia ninguém
encontrava nudeo algum da mesma. Em conseqüência, os.
admiradores mais hábeis tentaram organizar eles mesmos, e
segundo os padl'ÕeS Indicados nas citadas obras anõnimas, S0-
ciedades secretas ditas _de Rosa·Cruz~.

Enquanto os acontecimentos assim se precipitavam, Johan·


nes Valentin Andreae resolveu declarar que o autor dos ascri·
tos sobre a Rosa·Cruz era eJe mesmo; explicou ao público
que, dessa ("rma, tencionara ridicularizar a mania do mara-
vUhoso e o alqulmfsmo ocultista, que caracterizavam os ho·
mens de seu tempo. Não lhe deram crédito, porém, de Jr.odo
,!ue a Alemanha e, depois, n França se viram recobertas por
uma onda de escritos referentes à Rosa-Cruz. Em lGa2 foi
afixado em Paris um Manifesto que anunciava a chegada
dos rosacruclanos, .salvadores do mundo~. O bibUógrafo fran-
cês Gabriel Nnudé (1600·1653) escreveu contra. a Rosa-Cl'UZ

- 308-
G livro «Instruction à la France sur la vérité de I'htstoire de
la Rose·Crolx:.; mas não conseguiu deter a propagação desta.

Tão rápida difwão deve·se ao cunho maravilhoso das


promessas e dos recursos apresentados pelos escritos rosacM.l·
danos: a alquimia, a eabaIa. a clêncla dos números eram apli.
cadas à descoberta dos segredos da natureza. Os rosacrucfa.
nos esperavam conseguir faculdades sobrenaturais que os isen·
tassem das necessidades dos homens em geral; não sentirtam
nem fome nem sede, nem enfermidade nem velhice; reconhe·
ceriam o intimo dos homens - o que lhes permitiria recusar
a pessoas indignas a entrada nas suas Fraternidades.

No séc. xvm deu·se o apelativo de «Rosa-Cruz:. a todos


os grupos de «iluminados:. que afirmavam ter relações secre.
tas com o mundo invlslvel. A própria Maconaria adotou o.
título de «Cavaleiro Rosa·Cruz_ para o 1St grau do Rito
Escocês e Antigo, para o 12' grau do Rito Adonoiramlta e
para o 179 grau do Rito Moderno ou Francês. Isto, porém,
não significa que entre a Maçonaria e a Rosa·Cruz haja
algum vínculo juridico.
Como se compreende, a Rosa·Cruz assim constltulda está
baseada sobre um conjunto de ilus~s ; sustenta·~ e propaga-se
na base de divagações fantaslstas, encontrando seu poder
sedutor nas promessas de «maravilhas:. e «facu1dades extraor·
nárlas» que ela propõe aos seus candidatos.

Ver a propósito :
ALGERMlsseN. K., ROllnkreu:r:er, In Lexlkoll 10r Theolosle une! Kire....
ed. 9. Frelburg 1./ er. 1964. col s. • 99.

CRISTlANI, L . RMllcroce, In Enc/clopedla CltloUes. t. X. Clttà deI


Vaticano, cols. 13435.

KLOPPENBURG. e.. o ROUCr\lclanlsmo no er.n. Coleçlo VOZ" _


D..... da F' n9 '0. Petrópolis 1959.

PR 18311975, pp. 103·115.

Estêvão Bctteneourt O.S . B .


livros em estante
Arte paJ' • ". 'grei" • capllas dlpol. do Concilio Vaticano 11, por
Mons. Guilherme Scl\ubert. Publlcaç6es CID. Pastoral/S. - Ed. Votes,
Petrópolis 1919, 158 )li 230 mm. 194 pp. de '11110 • 61 pp, d, Nustrações.
Eis um livro que, de hA multo, era deseJado. A. piedade cristA 111m
.~9u!do seus templos sagrados, todavia nem sempre do acordo com as
genu/na. nOlmos do esplrllo IitÚf'lllco. A cua de Oeus é, antes do mais.
o lugar de encontro dos l1ila par. I celebraç!o da S. Euca ristia centro
da l iturgia: 6 preciso, poia, que lodo arqullato, decorador, ••ce'rdote li
fiai crl,llo conheça exatamente .a linhas Inspiradoras da arte .acra até o.
seus ~1tImos pormeno res. I: Im .'ençAo I esta Importanla tarala qUI Mona.
Guilherme Schubert. benemérito por longa carreira d, ma'lr. • artlala,
aprese nta ao público o livro em paula. O aUJor propOe, antes do mais,
alguns prlnclplos lundamentala da a rla sacra (conceito de Igreja, oportu-
nidade da oon,trul_la. vá rios Ilpos de 19 relas ... ); depor •• focaliza o tem plo
eagrad o cc," as suU dlv8rUS dependências. seu mobiliário e suas allala.,
levando em conla nlo 56 a funcionalidade, mas também a IIdelldllde h
dlmens&es da rá Que os devem caracterlzer. Em .ua lereelra parte. o livro
considera quesUles especiais, como as de conservaçlo <to palrlmO nlo hls-
t6rico·ertlsllco. o caderno IconogrAllco, colocado em epêndlce 90 lexlo, á
fico em lot09raflu das mels belas realluçee, da arte ,ecra contempo-
rlnea.

S6 podemos aplaudir a obra de Mons. Schubert 11 desejar·lhe pro-


duza copiosos Iruloa para a arle rallglosa ft par. o géudio da nossa popu-
laçio. NAo poderla;nos. all.s. deixar de nOlar que o te.lo a ssim publicado
corresponde a pu~lecOe$ Minis trada! pelo autor na Faculdade de 'A.rquUetura
• Urbtlnlsmo da Universidade- Fe-deral do Rio de Janeiro. preleç6es que OI
meslres daquela Universidade pediram lo.. am editadas aob lorma de livro,
a fim de servirem ao grande publico.

C,laçlo • MlIo. Home.m e m\.lndo ..gundo OI caplhlln Iniciais do


Glnnt., por Oswald l orelz. Traduçlo de José Amérlco de Asals Coullnho.
ColeçAo "B lbHoleca de EsIUdos 9lblleos" 8 . - Ed . Paullnn. 510 Paulo
1979. 145 x 210 mm , 169 pp.

. A temática sobre 8 qual versa o prasente livro. é de grande etualldade.


O autor a católico e Inlenelona abordar GAnesls 1·3 dó ponto de visla mera·
menla clenllflco (hlctbrlco. IUerirlo, arqueológico •.. ); para ele, esta secçAo
blbl1ca • Insplrads por menlaUdada mlUea. Isto a, po r menlalldada qua
exprime grandes verdada, Iilolollels li leol6gleas atravás da Imagens.
Certamanta Leretz conhace bam a~ Il1eratur.. Intlga. 8 os comentado,.,
modarnos 0'.. mesmas, fornacendo a .. lm materisl de grande utt1ldad~
~,.. o taótogo. Eata dav.,' levar em conta oa dada. do livro da L.orab:
a 11m d. nto atribuir ao ta ltto blbtlco o que aste nlo quer dlreT. Por .eu
1110'0, o ·eugela cllt611co nlo pOde Ignorar certas proposlç~s da " que
.. relaelOflam dlra tamll"1e com p... aganl do lexto blbllco que I'm sido
olbJelo da " pllelal consld.,..çlo por parte do magistério ds Igre]a. .
Em suma, o Uvro de loretz "lo pretende a"resenlar conclusO.a defl·
tes *
nltlvas. mal apenas provocar o r....sludo • o debate di' questões atlnano
anlropol ogla blblicl. Oestlnlt·se • especialistas que possem com·
preencler li linguagem técntca dO lulor e os MaUZM das auas pOlIç<ias.

E. 8 .