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ARTIGO ARTICLE 923

Problematização como estratégia de educação


nutricional com adolescentes obesos

Problem-posing as a nutritional education


strategy with obese teenagers

Érika Marafon Rodrigues 1


Maria Cristina Faber Boog 1

Abstract O sobrepeso e a obesidade atingem, no Brasil,


um percentual de 50% dos homens e 53,1% das
1 Faculdade de Ciências Obesity is a public health issue with relevant mulheres, acima de vinte anos, segundo a Pes-
Medicas, Universidade
social determinants in its etiology and where quisa de Orçamentos Familiares (POF 2002-
Estadual de Campinas,
Campinas, Brasil. interventions with teenagers encounter com- 2003) 1. Magalhães & Mendonça 2, utilizando
plex biopsychological conditions. This study dados de 1996 a 1997, avaliaram a prevalência
Correspondência
evaluated intervention in nutritional education de sobrepeso e obesidade em adolescentes de
E. M. Rodrigues
Departamento de through a problem-posing approach with 22 15 a 19 anos nas regiões Norte e Sudeste do
Enfermagem, Faculdade obese teenagers, treated collectively and individ- Brasil constatando que a mesma foi de 8,45%
de Ciências Médicas,
ually for eight months. Speech acts were collected no Nordeste e 11,53% no Sudeste. Estes autores
Universidade Estadual
de Campinas. through the use of word cards, observer recording, fazem recomendações acerca da prevenção,
Rua Madre Cecília 1560, and tape-recording. The study adopted a quali- sugerindo reeducação alimentar e estímulo à
Bloco B 11, Piracicaba, SP
13400-490, Brasil.
tative methodology, and the approach involved atividade física.
erikamr@terra.com.br content analysis. Problem-posing facilitated Revisando a literatura sobre obesidade na
changes in eating behavior, triggering reflections adolescência, observa-se que os trabalhos pu-
on nutritional practices, family circumstances, blicados revelam a existência de estudos abor-
social stigma, interaction with health profession- dando dados epidemiológicos, estatísticos, mo-
als, and religion. Teenagers under individual delos de atendimento em saúde, práticas ali-
care posed problems more effectively in relation mentares dos jovens obesos, assim como seus
to eating, while those under collective care posed sentimentos em relação ao problema. Vários
problems in relation to family and psychological deles enfatizam a necessidade de intervenções
issues, with effective qualitative eating changes educativas especificamente voltadas à educa-
in both groups. The intervention helped teenagers ção em nutrição, entretanto, quase não há es-
understand their life history and determinants of tudos que busquem o aprimoramento das es-
eating behaviors, spontaneously implementing tratégias educativas. Os trabalhos encontrados
eating changes and making them aware of possi- na literatura que mais se aproximaram desse
bilities for maintaining the new practices and aspecto foram de Boog 3, Muller 4, Holli & Cala-
autonomously exercising their role as protago- brese 5, Motta 6 e Garcia 7.
nists in their own health care. Obesidade é um problema de saúde públi-
ca em cuja etiologia determinantes sociais têm
Nutrition Education; Health Education; Obesi- relevância, sendo que intervenções com ado-
ty; Adolescent Nutrition lescentes encontram condição biopsicossocial

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complexa que exige que se trabalhe com abor- uma reflexão crítica, por meio da qual ele pos-
dagens amplas que considerem os determinan- sa compreender a influência macro e micro so-
tes culturais e sociais do problema. A família cial na instalação e manutenção da obesidade.
retrata o ambiente primeiro para socialização e É importante considerar que o processo de
os alimentos são um dos principais símbolos aconselhamento não busca impor ao cliente
de união dos grupos, configurando a cultura respostas prontas para o problema, mas sim
alimentar, na qual a criança é iniciada durante estabelecer uma relação de ajuda entre o acon-
ou após o desmame 8. Além do ambiente micro selhador e o cliente, efetivada por meio das
social é preciso considerar que a sociedade de etapas do aconselhamento, quais sejam: des-
consumo é uma sociedade obesogênica na me- coberta inicial, caracterizada pela formação do
dida em que estimula o consumo alimentar. vínculo; exploração em profundidade, fase na
A dinâmica familiar assume papel conside- qual deve haver a problematização e discussão
rável na mudança de práticas alimentares para dos problemas; e preparação para a ação, mo-
controle ou tratamento da obesidade, porém, mento de formulação de estratégias para o en-
muitas vezes, a família atribui todo o dever de frentamento dos problemas alimentares.
mudança de hábito alimentar aos filhos, ne- Por intermédio da intervenção educativa
gando assim sua parcela de responsabilidade. realizada nesse estudo, procurou-se identificar
A educação nutricional pode promover o os problemas emergentes que poderiam levar
desenvolvimento da capacidade de compreen- à descoberta das necessidades de ações educa-
der práticas e comportamentos, e os conheci- tivas que se aproximassem mais das demandas
mentos ou as aptidões resultantes desse pro- dos adolescentes.
cesso contribuem para a integração do adoles- O objetivo do presente estudo é descrever a
cente com o meio social, proporcionando ao problematização efetuada pelos adolescentes
indivíduo condições para que possa tomar de- ao longo da atividade educativa e as mudanças
cisões para resolução de problemas mediante no comportamento alimentar decorrentes des-
fatos percebidos. se processo.
A intervenção selecionada para o presente
estudo está baseada no aconselhamento dieté-
tico conforme descrito por Holli & Calabrese 5, Método
porém, buscou-se enriquecer essa forma de in-
tervenção atrelando a ela a visão de problema- Foram estudados, por um período de oito me-
tização 9, que consiste na busca ativa pelo edu- ses, 22 adolescentes, sendo nove do sexo mas-
cando do desvelamento dos mecanismos de culino e 13 do feminino, com idades entre 11 e
opressão, de forma que ele venha a empreen- 16 anos e diagnóstico de obesidade exógena,
der esforços para lograr melhor condição de vi- encaminhados pelo Ambulatório Geral de Ado-
da, emancipação, defesa da existência digna e lescência do Hospital das Clínicas da Universi-
autonomia. É uma intervenção de educação dade Estadual de Campinas (UNICAMP) e por
voltada para a formação de valores, do prazer, uma Unidade Básica de Saúde de Campinas.
da responsabilidade, da criticidade, do lúdico e Inicialmente todos os adolescentes foram
da liberdade. O modelo de aconselhamento se avaliados individualmente em entrevista, na
pauta no reconhecimento da importância de qual foram abordadas questões de comporta-
identificar e responder aos aspectos afetivos mento alimentar, aspectos cognitivos relativos
como também aos comportamentais 10. Dessa à doença, representações sociais, dados quan-
forma, o conceito de aconselhamento dietético ti-qualitativos referentes à alimentação atual,
adotado pelas autoras é o de uma abordagem além de espaço aberto para a manifestação es-
de educação nutricional, que se efetua pelo pontânea dos adolescentes. O uso de questões
diálogo entre o cliente, portador de uma histó- abertas pode extrair respostas com palavras
ria de vida, que procura ajuda para solucionar próprias do entrevistado, além de encorajá-lo
problemas de alimentação, e o nutricionista, na ampliação e revelação de suas idéias 12.
preparado para analisar o problema alimentar Feita a entrevista com os adolescentes, hou-
em seu contexto biopsicossociocultural. Cabe ve o encaminhamento de 11 para o atendimen-
ao profissional auxiliar o cliente a explicitar os to individual, no qual utilizou-se fita cassete
conflitos que permeiam o problema alimentar, para registro das falas, e de outros 11 para o
para buscar soluções por meio da criação de atendimento coletivo, onde a pesquisadora con-
estratégias de enfrentamento dos problemas tou com o auxílio de uma psicóloga, como ob-
alimentares na vida cotidiana 11. Além disso, servadora, para fazer o registro dos encontros.
propõe-se ainda, incluir nesse processo a pro- Ambas as formas de atendimento conside-
blematização, estimulando o adolescente para raram o aconselhamento dietético como su-

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porte para a educação nutricional. A estratégia Resultados


adotada para o desenvolvimento do programa
foi a problematização, a qual rejeita situações As respostas dos adolescentes foram reunidas
formais de ensino-aprendizagem e engloba a em categorias referentes aos temas problema-
construção autônoma de estratégias e ações tizados nos atendimentos coletivo e individual,
que se identificam com a realidade e história quais sejam: práticas alimentares, relaciona-
de vida do sujeito 9,13. mento familiar, estigma social do obeso, rela-
ção com profissionais de saúde e religião, cate-
Atendimento individual goria esta surgida apenas no atendimento co-
letivo. Para a preservação da identidade dos
Foi realizado quinzenalmente, permanecendo adolescentes foram utilizados nomes fictícios.
cada adolescente, em média, 45 minutos com a Após o nome, foi colocada a idade seguida pela
pesquisadora, em todos os encontros. O acon- letra C para atendimento coletivo e a letra I pa-
selhamento visou a ajudar os adolescentes a se ra o atendimento individual.
posicionarem diante do nutricionista, de modo
que pudessem desvelar detalhes do seu com- Práticas alimentares – possibilidades
portamento alimentar, e levantar estratégias, reduzidas a comer certo versus comer errado
para que, independentemente, problematizas-
sem e realizassem mudança gradativa das prá- A utilização dos alimentos está representada e
ticas. Nos atendimentos procurou-se acolher reduzida para os adolescentes a duas possibili-
as demandas dos adolescentes, as quais emer- dades: comer certo e comer errado. O comer cer-
giram ao longo de 16 encontros. to está associado aos alimentos por eles consi-
derados bons e, o comer errado, aos maus. Al-
Atendimento coletivo guns dos alimentos bons, citados pelos adoles-
centes, foram: frutas e sucos de frutas, hortali-
Foi realizado quinzenalmente e cada reunião ças, arroz, feijão, carnes, e os maus: pães, mas-
teve duração de duas horas. Foram emprega- sas, maionese, refrigerantes, doces em geral.
das técnicas de dinâmica de grupo 14 para au- Esse pensamento dicotômico impede que os
xiliar os adolescentes a desvelar detalhes do adolescentes, e também seus familiares, proce-
seu comportamento alimentar e compartilhar dam a um balanceamento, busquem o equilí-
as descobertas com os demais membros do brio, pois o comer certo pressupõe a exclusão de
grupo, para que, coletivamente, pudessem ana- todos aqueles que compõem o grupo dos maus.
lisar seus comportamentos e buscar estratégias Do comer errado, fazem parte, ainda, a in-
para a mudança gradativa de práticas. O plane- gestão hídrica às refeições cuja conseqüência
jamento foi formulado com base nas deman- foi explicitada dizendo que “a comida vira la-
das do próprio grupo, não tendo sido elabora- vagem no estômago” (Pedro, 13 anos, I), e algu-
do, portanto, o cronograma de atividades. O mas combinações de alimentos: o consumo de
programa constou igualmente de 16 encontros. maionese no pão é considerado “errado” e o de
As dinâmicas de grupo contribuíram para pro- margarina “certo”, embora o valor calórico da
mover a integração grupal, estimular o autoco- maionese seja equivalente ao da margarina.
nhecimento, desenvolver o senso crítico com Na percepção dos adolescentes, o comer cer-
relação à mídia e à sociedade, aproximar os to deve ser seguido de atividade física imediata,
adolescentes do universo alimentar, possibili- que então é realizada sem nenhum prazer, com
tar a interação e a auto-avaliação. o objetivo de queimar as calorias advindas dos
Para a análise dos registros das falas foi em- alimentos previamente consumidos. O comer
pregado o método qualitativo, o qual permite certo torna-se um ideal inatingível porque é
conhecer e compreender o sentido e o signifi- percebido como restrição e anulação do prazer,
cado dos fenômenos no cotidiano 15. A análise implicando portanto, a exclusão sumária de um
hermenêutica contribui para a compreensão grande número de alimentos que fazem parte
das falas, dos depoimentos e do processo de da cultura alimentar e da vida social.
construção de conhecimento e, articulada à Essas representações culturais são reforça-
abordagem dialética possibilita alcançar uma das pela autoridade de profissionais de saúde
interpretação mais aproximada da realidade tal que, desconhecendo outras formas de abordar
qual vivenciada pelos sujeitos em seu meio so- o problema, repetem o que tradicionalmente
cial, econômico e cultural 12. lhes foi transmitido, que é a noção de um co-
O projeto foi aprovado pelo Comitê de Éti- mer certo e um comer errado. A problematiza-
ca em Pesquisa da Faculdade de Ciências Mé- ção consiste na ruptura desse padrão dicotô-
dicas da UNICAMP no parecer 119/2001. mico de pensamento, de forma que o adoles-

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cente passe a perceber que não existem apenas Tenho medo que cortem as coisas que eu gosto”
duas formas de alimentar-se. A curiosidade na- (Tiago, 14 anos, I).
tural dos jovens e o vínculo com o profissional
são condições para que ele passe a problemati- Estigma social – a busca por uma
zar as questões do cotidiano, buscando desen- identidade em meio à discriminação
volver estratégias próprias de enfrentamento.
Em alguns casos, a estratégia de enfrentamen- O estigma e a discriminação, sentimentos exte-
to é a própria percepção dos mecanismos de riorizados pelos adolescentes em ambos os
manipulação do comportamento alimentar em- atendimentos, demarcaram obstáculos para
pregados pela propaganda, pois ao tomarem efetivar mudanças no comportamento alimen-
consciência da maneira como são manipula- tar. Os sentimentos de frustração e medo, con-
dos, elaboram uma crítica a esse sistema econô- seqüentes do estigma de “ser gordo(a)”, podem
mico que os mantêm presos a uma rede consu- impedir que os adolescentes problematizem as
mista. práticas cotidianas, e acabem aquiescendo às
“Ah, eu tô assim na TV e no filme [de uma dietas rígidas como estratégias imediatas, su-
emissora de TV ] fala ‘agora sente no seu sofá, postamente úteis para o tratamento da obesi-
abra [um refrigerante] e acompanhe o filme’. dade.
Você precisa abrir [um refrigerante] pra assistir O estigma da obesidade carregado de in-
o filme? Eles fazem com a gente que nem fanto- tensa carga psicológica procede do grupo so-
che” (José, 13 anos, I). cial e da família, abalando a estrutura psíquica
“A gente se sente um mosquitinho preso na dos adolescentes. Quando dizem “meu pai me
teia da aranha” (Andréia, 11 anos, C). chama de baleia” (Claudia, 11 anos, C), a baixa
“A propaganda põe gente bonita, magrinha, auto-estima pode surgir em decorrência dessa
fazendo acreditar que é isso” (Pedro, 13 anos, I). exclusão social, gerando crises, tensões, ansie-
dade, sentimentos que configuram um esque-
Contexto familiar – a rede de apoio ma cíclico comer – angustiar-se – comer, con-
que também representa o desamparo tribuindo, assim, para a manutenção da obesi-
dade.
A dependência afetiva familiar foi uma condi- “Meu irmão me chama de baleia, dizia que
ção manifestada ao longo do programa, espe- eu nunca ia emagrecer, que eu ia ficar gorda pra
cialmente pelos adolescentes em atendimento sempre. Aí eu ficava triste e comia” (Ana, 11
coletivo, e sentimentos de angústia e ansieda- anos, C).
de foram relacionados à ausência do dialogo,
juntamente com o desinteresse dos familiares Relação com profissionais de saúde –
em discutir mais profundamente os aspectos impressões e expressões dos adolescentes
relacionados à alimentação. A obesidade é vis-
ta como um problema a ser resolvido sem a O desejo por um tratamento, por meio de die-
participação dos outros membros da família, tas padronizadas ou medicamentos, que isente
os quais mantêm um distanciamento, deposi- o cliente da responsabilidade de tomar deci-
tando a responsabilidade das mudanças de sões, ocorre normalmente em atendimentos
comportamento apenas nos jovens obesos. En- que não privilegiam a história do adolescente
tretanto, quando a família participa, o faz de e, possivelmente, esses comportamentos são
forma autoritária, racionalista e pragmática reforçados pela própria forma de tratar a obe-
sem incorporar outros fatores causais da obe- sidade, pois o cliente deseja “emagrecer do jeito
sidade, o que reforça o consumo alimentar ina- mais fácil” (Pedro, 13 anos, I). A indicação de
dequado. O diálogo limitado acarreta dificul- dietas padronizadas, listas de alimentos proi-
dades emocionais, impede a problematização bidos e permitidos, conduz o adolescente a um
e a atitude reflexiva. A omissão da família em comportamento submisso durante o desenvol-
relação às mudanças de comportamento colo- vimento de estratégias de estímulo ao auto-
ca o adolescente obeso em confronto com co- controle alimentar. O medo de não ser com-
nhecimentos e práticas divergentes, o que acir- preendido pode fazer com que o jovem não ex-
ra conflitos familiares. presse seu pensamento de forma autêntica. A
“Quanto mais falam pra eu emagrecer, daí cultura alimentar do adolescente confronta-se
eu como mais, meu pai falava ‘tem que ema- com o modelo alimentar sistemático do profis-
grecer’, aquilo dava um desespero, eu comia sional, acarretando dissociações que confor-
mais” (Maria, 13 anos, I). mam uma postura heterônoma do adolescen-
“Meu pai fica vendo televisão. Talvez tenha te, o qual passa a necessitar da permissão pro-
medo de falar um com o outro. É difícil explicar. fissional para o consumo alimentar. Como a for-

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mação da maioria dos profissionais não condiz Mudanças efetivadas mediante


com práticas educativas problematizadoras, o processo de problematização
há uma valorização da “obediência” do adoles-
cente às recomendações dietéticas, em detri- Foram observadas mudanças nas práticas ali-
mento do estímulo à autonomia na tomada de mentares e nos aspectos subjetivos do com-
decisões sobre alimentação no cotidiano, im- portamento alimentar, sendo as primeiras mais
pedindo-o de tornar-se sujeito ativo no cuida- freqüentes no grupo atendido individualmente
do à saúde. e as segundas no atendimento coletivo.
“Às vezes uma conversa é melhor do que al- A valorização da produção caseira em de-
go escrito no papel. Se a gente tá pensando no trimento do consumo de alguns produtos in-
assunto, pode mudar” (Claudia, 11 anos, C). dustrializados permitiu maior exploração da
qualidade nutricional da alimentação dos ado-
Religiosidade – fortalecimento de lescentes.
vínculos afetivos ou desvinculação “Quando eu vou tomar refrigerante ou suco –
com a problematização? suco de saquinho, eu penso que tem pé de limão
em casa, aí eu vou lá e faço com limão de casa, e
A relação existente entre o adolescente obeso e também é mais barato” (Márcia, 13 anos, I).
o alimento é cercada de sentimento de priva- Os adolescentes apontaram sensações cor-
ção. Os alimentos têm conotações religiosas e porais associadas às práticas alimentares, além
por isso, o comer excessivamente é, muitas ve- de manifestarem à família, com mais esponta-
zes, percebido como um ato pecaminoso. O neidade, suas predileções alimentares.
padrão alimentar hiperfágico e o “comer erra- “Se eu não almoço eu fico com dor de cabe-
do”, sempre prazerosos, são marcados pelo sen- ça” (Rosana, 13 anos, I).
timento de culpa, seguido de uma autopunição “O café da manhã me fez comer pouco no
concretizada por meio da privação de alimen- almoço” (Andréia, 11 anos, C).
tos desejados, manifestada como “jejum por “Eu chego da escola e almoço, e parece que
penitência” (Andréia, 11 anos, família católica, dá mais força para a tarde” (Maria, 13 anos, C).
C). Nos eventos religiosos, como a quaresma, o “Agora eu não volto mais cansada da esco-
adolescente justifica a privação auto-imposta la” (Ana, 11 anos, C) [a adolescente refere-se à
como manifestação de sua fé, e consegue, com reintrodução do café da manhã em seu com-
menor grau de sofrimento, abster-se de certos portamento alimentar].
alimentos, por fazê-lo em função da purifica- “Eu diminui o que eu como, o que eu tomo.
ção, quando o sentido atribuído à restrição ali- Eu achava que tinha que ficar sem comer e
mentar amplia-se, tornando-se instrumento de quando eu comia, eu comia muito. Hoje, eu co-
absolvição e de desenvolvimento espiritual. A mo cada hora um pouco” (Rosana, 13 anos, I).
manifestação religiosa de abstinência pratica- “Comer legumes... eu acho isso uma coisa
da em conjunto, com parentes próximos, res- básica. Era assim, todo dia tinha, mas eu não
gata os vínculos familiares e o adolescente sen- comia. Agora, o meu pai compra mais os legu-
te-se momentaneamente mais acolhido, o que mes que eu gosto” (Viviane, 12 anos, I).
possibilitou, nesse período, uma redução de pe- Foram observadas também mudanças nos
so mais acentuada. No entanto, a religião tam- aspectos psicológicos, como auto-estima e in-
bém pode, ao invés de promover mudanças de teração social.
comportamento, configurar-se como confor- “Antes, só a minha opinião prevalecia. Hoje,
mismo, quando torna o problema externo ao procuro ouvir a opinião dos outros” (Andréia,
adolescente. Ela influencia, portanto, de duas 11 anos, C).
formas: uma em que descompromete o adoles- “Fui aprendendo com os outros, às vezes, o
cente com a mudança e com o enfrentamento problema dos outros pode ser maior do que o
dos problemas alimentares, e outra, na qual ele nosso. Eu acho que estou menos fechada, menos
se envolve em uma abstenção temporária de agressiva. Porque quando eu me via no espelho
alguns alimentos, movido por costumes reli- não gostava de mim e descontava nos outros.
giosos, vivenciados conjuntamente com fami- Agora eu estou gostando mais de mim” (Maria,
liares e amigos. 13 anos, C).
“Dizem pra eu não ficar nervoso por ser gor- “Me abri mais, foi muito bom, eu era muito
do, que Deus me fez assim” (Pedro, 13 anos, fa- tímida” (Claudia, 11 anos, C).
mília evangélica, C). “Eu me sinto segura, é o fato de eu estar me
“Na quaresma eu fiquei sem comer chocola- sentindo melhor” (Carol, 11 anos, I).
te e refrigerante e emagreci” (Maria, 13 anos, fa- Com relação ao peso corporal, 40% dos ado-
mília católica, C). lescentes atendidos em grupo e 66,6% dos aten-

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didos individualmente apresentaram redução temple o adolescente junto à família, em um


de peso. Entretanto, não foram realizadas ava- processo extenso, pois a dinâmica familiar é
liações considerando todas as mudanças bio- um dos pilares para o comportamento alimen-
lógicas ocorridas ao longo dos oito meses, tem- tar do adolescente 18, e o padrão alimentar é
po suficiente para alterações próprias dessa fa- formado, inicialmente, na família elementar 8.
se, por tratar-se de uma pesquisa em educação A dicotomia comer certo versus comer erra-
e não clínica, e assim priorizou-se as mudan- do tem raízes na cultura e em experiências pre-
ças comportamentais. gressas nos próprios serviços de saúde. O des-
As mudanças de comportamento, portanto, preparo da maioria dos profissionais de saúde
são realizadas quando o adolescente percebe o para lidar com as questões de alimentação leva
sentido dessas em sua história de vida, que en- à adoção de orientações simplistas, e ao mes-
globa o individual e o social, emoção e ação, mo tempo pouco práticas, porque se preconiza
compreensão dos fatos e segurança para mani- a exclusão de muitos alimentos. As mudanças
festação e enfrentamento dos problemas. de comportamento alimentar devem ser con-
seqüências de um processo reflexivo, por meio
do qual o jovem conhece e explora o problema,
Discussão sem esperar uma mera transmissão de infor-
mação sobre o que fazer 9. A problematização
A problematização, temática que balizou este que os adolescentes fizeram a respeito de suas
estudo, é uma tarefa complexa aos adolescen- práticas alimentares – entre elas, as dietas res-
tes, demandando a necessidade de pensar, de tritivas realizadas anteriormente, possibilitou-
refletir questões que, até então, eles considera- lhes a ampliação da compreensão dos fatos in-
vam atribuições exclusivas do profissional, terligados ao comportamento alimentar.
pois as suas condutas seriam aquelas determi- Observou-se que os adolescentes sentiram-
nadas pelos membros da equipe de saúde. se negligenciados pelos profissionais de saúde
A estratégia empregada fez emergir cinco em alguns tratamentos anteriores. Esse descui-
temas relevantes ao contexto do comportamen- do esteve relacionado ao tempo exíguo para o
to alimentar: a prática alimentar pensada de diálogo, especialmente para a escuta de suas
forma dicotomizada – comer certo versus co- dificuldades e inquietações, assim como a im-
mer errado; a família como fonte de apoio, mas posição de tratamentos dietéticos rígidos e in-
também de desamparo; as contradições na re- flexíveis. A falta de vínculo profissional-cliente
lação com os profissionais de saúde; o estigma contribui para essa falha na atenção à saúde,
da obesidade; e a religiosidade. É importante configurando uma relação distante entre um
ressaltar que o movimento grupal possibilita o cliente dependente e submisso que não reivin-
emprego de temas transversais que podem fi- dica suas necessidades reais de tratamento, e
car ausentes em atendimentos individuais, daí um profissional que pensa isoladamente sua
a necessidade de os profissionais estarem ha- ação. Freqüentemente, esquece-se de que pro-
bilitados e envolvidos com essas questões para porcionar saúde é criar meios para ampliar a ca-
discuti-las, também, no âmbito reservado da pacidade de autonomia e padrão de bem-estar
consulta individual. 19, condições que ultrapassam os aspectos orgâ-

Sobre as questões familiares, vários autores nico-biológicos no cuidado ao adolescente 20.


já se detiveram e este estudo confirma as opi- As ciências apresentam-se ainda fragmen-
niões já apresentadas na literatura. A família tadas e, assim, cada problema de saúde é trata-
pode causar ansiedade no adolescente quando do isoladamente, o que demanda uma religa-
se mostra excessivamente rigorosa em relação ção entre as várias áreas para a compreensão
à mudança de comportamento alimentar, ou da complexidade humana 21. Embora haja es-
quando se revela resistente ao diálogo. Os ado- tudos sobre obesidade balizados pela epide-
lescentes, especialmente do atendimento cole- miologia 22,23,24,25,26, pela clínica 27, pela psico-
tivo, queixaram-se da ausência de diálogo na logia 28, pela psicologia social 29, assim como
família. A existência de conflitos familiares estudos sobre educação nutricional 30, obser-
provavelmente acarreta prejuízos na relação va-se a ausência da totalidade no momento
que o adolescente tem com o alimento. Essa das intervenções. O enfoque nos aspectos sub-
opinião é reforçada por autores que atribuem jetivos do comportamento alimentar e nas es-
distúrbios alimentares a problemas na relação tratégias para a sua compreensão precisa estar
mãe-filho 16,17. associado a fim de se proporcionar a atenção
As várias falas referentes ao núcleo familiar global exigida no tratamento do adolescente
revelaram a importância do desenvolvimento obeso. Os resultados confirmaram que o comer
de um trabalho de educação em saúde que con- está profundamente ligado à cultura, à história

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de vida, ao discurso publicitário, fatos que sus- logo entre educador e educando, e a submissão
tentam a necessidade de novos paradigmas no da ciência e da técnica às necessidades tais
tratamento de adolescentes obesos. quais sentidas e percebidas pelos homens.
A obesidade é considerada, por alguns ado-
lescentes, um problema insolúvel, por senti-
rem-se pressionados e obrigados a realizar de- Conclusão e recomendações
terminadas práticas impostas e de difícil con-
creção. É sabido o impacto que a obesidade O método foi efetivo para ajudar os adolescen-
acarreta ao adolescente, uma vez que esse está tes a modificar a alimentação. A efetividade na
marcado por sofrimento, pela imagem corpo- redução de peso foi parcial e dois aspectos de-
ral indesejada e por problemas psicossociais, e vem ser considerados nessa avaliação; primei-
nesse contexto aparece o estigma como mais ro, o fato de que alguns deles traziam na sua
um elemento envolvendo a vida cotidiana dos história uma carga de experiências negativas
jovens obesos, fato bem evidenciado em am- procedentes de atendimentos anteriores; se-
bos os grupos deste estudo. gundo, não foram utilizadas técnicas de medi-
Ser obeso é, quase sempre, ser tratado de ção que permitissem avaliar alterações na pro-
modo singular em relação à alimentação, ao porção da massa magra e tecido adiposo. Nes-
vestuário, é ser alvo de chacota e apelidos, é ser sa fase, pode haver mudanças importantes nes-
sexualmente desinteressante, lembrando que sa relação ao longo de oito meses, período do
na adolescência surgem os primeiros sinais mais estudo, e o índice de massa corporal é um indi-
representativos da sexualidade humana 28. O cador limitado para essa análise.
sentimento de inquietação e angústia frente à A problematização é um processo educati-
obesidade impede que os adolescentes refli- vo que resgata aspectos particulares da histó-
tam sobre os problemas alimentares e viven- ria de vida, bem como os determinantes so-
ciem com naturalidade as situações comuns a ciais, políticos e culturais, com o objetivo de fa-
esse período. zer com que o sujeito desse processo descubra-
Os resultados do trabalho também mostra- se singular dentro do coletivo.
ram a importância da religiosidade no cotidia- A problematização contribuiu para a am-
no do adolescente, no entanto, o tema surgiu pliação da compreensão das práticas próprias
apenas no atendimento coletivo. Garcia 7 lem- ao comportamento alimentar dos adolescen-
bra que os serviços de saúde pouco conside- tes, possibilitando-lhes reflexão e busca de es-
ram os aspectos simbólicos inerentes à alimen- tratégias para pequenas mudanças no seu coti-
tação, e também descaracterizam qualquer sig- diano, modificando assim, seu estilo de vida e
nificado que o sujeito tenha atribuído aos ali- a qualidade de sua alimentação.
mentos. As religiões configuram uma parte im- As orientações recebidas de outras fontes
portante da realidade do sujeito e para Chauí 31, conflitaram com as orientações do programa,
a experiência do sagrado pode ser boa ou má, contribuindo para a manutenção ou emergên-
benéfica ou maléfica. Os alimentos podem es- cia dos problemas. A família é um elemento
tar relacionados aos ritos sagrados, conforme fundamental no tratamento do adolescente
referido pelos adolescentes em relação à qua- obeso, necessitando também de acolhimento
resma, o que reforça a percepção de que os ali- em programas de educação nutricional.
mentos não estão unicamente restritos à pers- No atendimento coletivo, os adolescentes
pectiva técnica da nutrição, mas às diversas si- privilegiaram a problematização de aspectos
tuações percebidas e sentidas no cotidiano. familiares, afetivos e religiosos, enquanto no
As orientações com vistas apenas à mudan- atendimento individual houve maior explora-
ça dietética visando a um resultado específico, ção das práticas alimentares. Portanto, as áreas
pouco contribuem para que o adolescente com- de conhecimento da nutrição, associadas a ou-
preenda os determinantes sociais que confor- tras áreas de conhecimento como psicologia e
mam os padrões de comportamento alimentar. educação física, podem oferecer, por meio de
As orientações, quando inadequadas e restriti- uma abordagem interdisciplinar, um cuidado
vas, apenas favorecem a formação de barreiras, global ao adolescente obeso, uma vez que o co-
dificultando a adoção de estilos de vida mais mer contempla igualmente aspectos nutricio-
saudáveis 6. nais, afetivos, sociais e culturais.
Propõe-se uma abordagem educativa fun- O tratamento do adolescente obeso, no con-
damentada no pensamento pedagógico de texto da educação nutricional, requer partici-
Paulo Freire que se identifica com a pedagogia pação longa para que as etapas do processo de
da autonomia 9, a qual enfatiza os aspectos aconselhamento se efetivem, exige consultas
inerentes da realidade de vida do sujeito, o diá- freqüentes com intervalos regulares e conheci-

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mento dos profissionais sobre os determinan- A educação nutricional deve agregar os co-
tes sociais que interferem no comportamento nhecimentos do campo da antropologia da ali-
alimentar do adolescente. mentação e os fundamentos teóricos do cam-
Para a participação dos adolescentes nesse po da educação, para que esteja inserida em
processo, é conveniente que os profissionais de um contexto político-social de promoção à
saúde incentivem os adolescentes ao rompi- saúde e qualidade de vida.
mento de um estado passivo, permitindo-lhes
trazer reflexões que transformem a sua realida-
de marcada pelo estigma e discriminação.

Resumo Colaboradores

Obesidade é um problema de saúde pública em cuja E. M. Rodrigues foi responsável pela revisão da litera-
etiologia determinantes sociais têm relevância, sendo tura, realizou a coleta e análise de dados e redigiu o
que intervenções com adolescentes encontram condi- artigo. M. C. F. Boog contribuiu na análise dos dados
ção biopsicossocial complexa. A pesquisa avaliou in- e na redação do artigo para publicação.
tervenção de educação nutricional, empregando o mé-
todo da problematização, com 22 adolescentes obesos,
atendidos coletiva e individualmente, durante oito
meses. Falas foram coletadas mediante emprego de
tarjetas, registro por observador e gravação. O método
foi qualitativo e a técnica, a análise de conteúdo. A
problematização mostrou-se instrumento facilitador
para mudança de comportamento alimentar, fazendo
emergir reflexões sobre: práticas alimentares, contexto
familiar, estigma social, relacionamento com profis-
sionais de saúde, religiosidade. Os adolescentes em
atendimento individual problematizaram com mais
efetividade práticas alimentares, enquanto no coletivo
houve maior problematização dos aspectos familiares
e psicológicos, com efetivas mudanças qualitativas na
alimentação de ambos os grupos. Concluiu-se que a
intervenção foi eficaz para ajudar os adolescentes a
compreenderem sua história de vida e determinantes
do comportamento alimentar, efetivarem mudanças
na sua alimentação espontaneamente, conscientiza-
rem-se das possibilidades de perpetuação da mudan-
ça das práticas alimentares e exercerem com autono-
mia o papel de sujeitos no cuidado à saúde.

Educação Nutricional; Educação em Saúde; Obesida-


de; Nutrição do Adolescente

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ESTRATÉGIA DE EDUCAÇÃO NUTRICIONAL COM ADOLESCENTES OBESOS 931

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