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As especificidades de

ser mulher na
dependência química
JULIANA TAVARES GUZZON
O QUE É SER MULHER?
O QUE É SER MULHER NA DEPENDÊNCIA
QUÍMICA?
GÊNERO
Estudar a categoria de gênero é ir além de um termo usado para diferenciar o
sexo feminino e masculino, mas introduzi-lo em um contexto bem mais amplo
que permite compreender o ser homem e o ser mulher enquanto inseridos em
um processo histórico, social, cultural e econômico, promovendo uma maior
visibilidade das particularidades e necessidades de ambos.
O tratamento oferecido nos nossos serviços focaliza as
particularidades do universo feminino no âmbito das
relações de gênero?

Mulheres facetadas, 1968, Di Cavalcanti


MULHERES E DQ
• Mulheres DQ: características e necessidades s
• Intervenções para pessoas usuárias de drogas
baseados em necessidades masculinas.
•1980: início de pesquisas sobre consumo de
drogas pelas mulheres, centradas no
álcool/tabaco  abordagem condenatória.
• Escassez de pesquisas com esse subgrupo foi
identificada nos anos 80: reivindicações dos
movimentos feministas americanos pela criação
de programas terapêuticos mais adequados e
sensíveis às prioridades femininas. Lora Zombie
MULHERES E DQ
• O estudo sistemático com mulheres DQ ocorreu nos últimos 50 anos e as
abordagens que atendam as necessidades desse subgrupo há uns 20 anos
(BRASILIANO, HOCHGRAF, 2006; BLUME, 1986).
• Despreparo das equipes de saúde.
• Necessidade de pesquisas voltados mais para as diferenças entre as mulheres (e
suas peculiaridades) do que a comparação de suas características com os
homens.
MULHERES E DQ
• O consumo de SPA por mulheres é crescente. Nas últimas décadas tem
aumentado consideravelmente, tornando-se um problema de saúde pública.
• Muitos pesquisadores tem relatado diferenças nos padrões de uso entre
homens e mulheres. Há diferenças de gênero em relação as consequencias
sociais, psicológicas e físicas.
MULHERES E DQ
A literatura pertinente aponta a taxa de consumo, o tipo da droga, a idade, taxas
de mortalidade e comorbidade como principais diferenças de gênero em relação
ao uso de drogas.

Projeto “Velhas Bonitonas”, Maria Seruya


EPIDEMIOLOGIA
• Cerveja é a principal bebida alcoólica consumida
por homens e mulheres no Brasil, porém as
mulheres mostraram consumir mais vinho em
relação aos homens.
• Consumo de benzodiazepínicos, anorexígenos e
analgésico é mais elevado entre as mulheres.

Mulher bebendo vinho, afresco do palácio


Chehel Sotun, Isfahan (séc. XVII)
EPIDEMIOLOGIA
•Estudos relatam que o uso de álcool entre meninas de
14 a 18 anos se equipara a de meninos. Em relação ao
tabaco, meninas apresentam maior probabilidade de
dependência.
• Nos EUA as adolescentes superam os meninos no uso de
estimulantes e tranquilizantes, tornando-se mais
vulneráveis, quando adultas, a desenvolverem quadro de
dependência.
• Medicamentos inibidores do apetite têm uso
predominante por mulheres jovens e adultas na busca
de atender aos padrões de beleza determinados
socialmente.
Ela deitada nua fundo amarelo fumando com taça,
2004, Gustavo Rosa
PADRÃO DE USO
EFEITO TELESCÓPIO: mulheres iniciam o consumo
mais tarde, porém evoluem mais depressa, mas em
geral chegam ao tratamento com a mesma idade
dos homens.
Demoram a procurar tratamento devido a
sentimentos de culpa e medo, reforçados pelo
estigma social e muitos tratamentos não se
adequam a sua realidade (questões de gênero,
cuidado com os filhos, horários flexíveis, etc).

O dia seguinte, 1894/1895, Munch


DIFERENÇAS DE GÊNERO:
FATORES BIOLÓGICOS
• ÁLCOOL:
• Volume corporal de água na mulher é menor, elevando as concentrações de
álcool no sangue;
• Ao envelhecerem, há aumento da razão gordura/água o que as tornam ainda
mais sensíveis ao álcool;
• Menos quantidade da enzima álcool-desidrogenase no estômago. Em menor
quantidade as mulheres metabolizam o álcool mais lentamente, resultando
em maior absorção do álcool ingerido.
• Tolerância a bebida é menor que a dos homens.
DIFERENÇAS DE GÊNERO:
FATORES BIOLÓGICOS
• COCAÍNA:
• Resposta subjetiva da cocaína inalada é mais duradoura nas mulheres, nos
homens é mais intensa e rápida;
DIFERENÇAS DE GÊNERO:
FATORES BIOLÓGICOS
• TABACO:
• As mulheres tendem a tragar mais
profundamente e com mais frequência para
obterem o mesmo efeito.

Harumi Hironaka
DIFERENÇAS DE GÊNERO:
FATORES GENÉTICOS
• Estudos sobre alcoolismo com gêmeos mostram uma maior influência genética
em homens (33%) do que em mulheres (11%).
• Os efeitos ambientais parecem ter um impacto mais significativo no início do
uso de substâncias ilícitas entre as mulheres.
• Fatores genéticos podem modular a progressão do uso experimental ao padrão
de uso e dependência.
DIFERENÇAS DE GÊNERO:
FATORES PSICOLÓGICOS E AMBIENTAIS
• Sentimentos como: timidez, ansiedade e
preocupação com a imagem corporal são com
frequência relatados por meninas e mulheres
usuárias de SPA.
• Adolescentes: padrões de beleza muito altos.
• São mais propensas a transtornos psiquiátricos
primários com DQ secundária.

Mulher gorda, 2017, Hugo Castilho


DIFERENÇAS DE GÊNERO:
FATORES PSICOLÓGICOS
• Mulheres usuárias de SPA apresentam taxa de
comorbidades psiquiátrica maiores que homens.
• Transtornos do humor (ex. mania e depressão),
ansiedade (ex. fobia e estresse pós traumático).
• Exibem maior risco de distimias (T Depressivo
Persistente), TOC, e transtorno do pânico, sendo este,
especialmente no uso de maconha.
• Homens são mais suscetíveis a transtorno de
personalidade antissocial, jogo patológico e TDAH.
A mulher que chora, 1937, Pablo Picasso
DIFERENÇAS DE GÊNERO:
FATORES SOCIAIS
• Abandono dos filhos (perdem a guarda).
• Praticam sexo sem proteção e se envolvem em
situações de violência (prostituição, estupro,
violência doméstica).

Mulher com criança, 1936, Candido Portinari


PREJUÍZOS A SAÚDE
• ÁLCOOL:
• Hipertensão, desnutrição, anemia, doenças cardiovasculares, doenças
hepáticas, gástricas, CA de mama.
• Funções reprodutivas também podem ficar comprometidas: ausência de
ovulação, diminuição dos ovários e infertilidade.
PREJUÍZOS A SAÚDE
• COCAINA:
• Hiperprolactinemia, alteração do ciclo menstrual, amnorréia, galactorréia,
infertilidade.
• Em estudo norte-americano, as mulheres relataram mais dores de cabeça e
mais relações sexuais não desejadas do que os homens, que, por sua vez,
referiram paranóia e agressão física a outra pessoa como consequências
adversas do uso da cocaína.
PREJUÍZOS A SAÚDE
• TABACO:
• Maior prejuízo para o sistema imunológico, doenças cardiovasculares, CA de
pulmão e bexiga em comparação aos homens.
• Maiores taxas de prevalência de CA de ovário, mama e colo de útero se
comparadas as mulheres não fumantes.
• Nicotina pode levar a alterações no ciclo menstrual, infertilidade,
menopausa precoce.
PREJUÍZOS SOCIAIS E PSICOLÓGICOS
• Mulheres que consomem álcool e outras
drogas são mais vulneráveis a
determinados danos e agravos pessoais e
à saúde.
• Relatam mais relações sexuais não
desejadas.
• Maior risco de contrair infecção pelo HIV.
• O uso de álcool e outras SPA aumenta o
risco e a exposição a situações de
violência vivenciadas pela mulher,
Exposição Hemma Thomas, 2015 especialmente de violência doméstica.
A representação de que o consumo de drogas é um comportamento desviante e
de que a mulher que adota tal conduta está duplamente contrariando as normas
sociais, diante da possibilidade de não cumprir os papéis sociais e culturais a
elas destinados, quais sejam: mãe, esposa e cuidadora da família, contribui para
que as mulheres façam um consumo às escondidas.
ESPECIFICIDADES DE MULHERES
USUÁRIAS DE DROGAS - TRATAMENTO
As mulheres usuárias de drogas enfrentam barreiras de ordem estrutural,
sistêmica, social, cultural e pessoal na busca e permanência de tratamento. Falta
de habilidade para identificação da diferença de gênero.

Serviço de saúde especializado na Bahia:


◦ atividades internas: mulheres atendidas se apresentavam como acompanhantes,
familiares e/ou parceiras de usuários,
◦ atividades externas: registro significativo de atendimento de mulheres usuárias de
drogas.
ESPECIFICIDADES DE MULHERES
USUÁRIAS DE DROGAS - TRATAMENTO
IMPORTÂNCIA DE DIVERSIFICAÇÃO DE ABORDAGENS DO TEMA.

Diferenças nos problemas trazidos:


HOMENS: problemas legais e profissionais, preocupação com a abstinência – o
uso e suas recaídas;
MULHERES: problemas físicos e familiares, costumam ter como questão as
relações interpessoais, sua vida emocional, etc.
ESPECIFICIDADES DE MULHERES
USUÁRIAS DE DROGAS - TRATAMENTO
Nos tratamentos mistos, os interesses masculinos predominam em função do
menor número de mulheres.
Mulheres podem se sentir atacadas pelo público masculino em grupos mistos,
quando aparecem discursos: “homens podem beber e mulheres não”, “para os
homens já é feio beber, imagina para as mulheres”, “as mulheres que bebem são
fáceis”, “as mulheres que estão na bocada são vagabundas”  PRECONCEITOS
SOCIAIS E ESTEREÓTIPOS ligados a VALORES MORAIS do ato consumir drogas.
ESPECIFICIDADES DE MULHERES
USUÁRIAS DE DROGAS - TRATAMENTO
Grupos específicos: favorecida discussão de questões femininas importantes –
abuso sexual, violência doméstica, preocupação com filhos, preocupação com o
corpo, baixa autoestima.

INQUIETAÇÕES:
1) As questões femininas são fatores que dizem respeito apenas às mulheres?
2) Qual a função de cada grupo no tratamento?
ESPECIFICIDADES DE MULHERES
USUÁRIAS DE DROGAS - TRATAMENTO
Necessidades específicas para mulheres grávidas, mulheres mães ou
responsáveis por crianças, trabalhadoras do sexo, presidiárias e pertencentes a
minorias raciais e étnicas

Mulheres, 2016, David Alfonso Suárez


CONCLUSÃO
Os dados apresentados refletem a necessidade de implantação e
implementação de estratégias para o enfrentamento do fenômeno das drogas
baseadas em especificidades individuais e de grupos de forma a contemplar a
heterogeneidade dos sujeitos em seus distintos contextos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DIEHL, Alessandra; CORDEIRO, Daniel Cruz; LARANJEIRA, Ronaldo. Dependência Química: prevenção, tratamento
e políticas públicas. Porto Alegre: Artmed, 2011.
GOMES, Katia Varela. A dependência química em mulheres: figurações de um sintoma partilhado. 2010. 226f.
Dissertação (Doutorado em Psicologia Social) – Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo.
OLIVEIRA, Jeane Freitas de; NASCIMENTO, Enilda Rosendo do; PAIVA, Miriam Santos. Especificidades de
usuários(as) de drogas visando uma assistência baseada na heterogeneidade. Revista de Enfermagem, Brasília, v.
11, n. 4, p. 694-698, dez. 2007. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ean/v11n4/v11n4a22. Acesso em: 19
nov. 2017.
PRADO, Marco Aurélio Máximo; QUEIROZ, Isabela Saraiva de. A emergência da politização da intimidade na
experiência de mulheres usuárias de drogas. Estudos de Psicologia, Natal, v. 17, n. 2, p. 305-312, ago. 2012.
Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-294X2012000200015&script=sci_abstract&tlng=pt.
Acesso em: 19 nov. 2017.
RABELLO, Patrícia Moreira; JÚNIOR, Arnaldo de França Caldas. Violência contra a mulher, coesão familiar e drogas.
Revista de Saúde Pública, São Paulo, v. 41, n. 6, p. 970-978, jul. 2007. Disponível em:
http://www.scielo.br/pdf/rsp/v41n6/5848. Acesso em: 19 nov. 2017.
Aline Miguel

Velhas Bonitonas, Maria Seruya