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Aula 01 - Civil 6 - Direito de Família

O Direito Civil é essencialmente patrimonial, é inclusive chamado por


alguns como o direito dos ricos pois, realmente, toda a nossa vida, a vida de
todas as pessoas, é pautada por um interesse econômico, por uma conduta
materialista, para a aquisição de bens e formação de um patrimônio.

Perdoem-me os espiritualistas, mas eu digo sempre que ninguém faz


nada de graça e se vocês hoje estão aqui acompanhando minhas aulas é porque
desejam concluir o curso para arranjar um bom emprego com um bom salário.
Inclusive nas doações existe um interesse material por trás, tanto que quando a
gente dá um dinheirinho pro porteiro do edifício, a gente espera que ele nos
ajude a subir a feira, que ele lave nosso carro, etc.

Então este é o sentido da vida: estudar, trabalhar, se relacionar com as


pessoas e com as coisas, para ganhar dinheiro e formar um patrimônio, que será
transferido a nossos filhos após a nossa morte.

É disto que cuida o Direito Civil, de regulamentar a nossa vida, a vida


das pessoas, de João, José e de Maria. No Direito das Obrigações estudam-se as
normas que regulam as relações das pessoas com outras pessoas, e a maior
fonte de obrigação é o contrato. No Direito Real estudam-se as normas que
regulam as relações das pessoas com as coisas, para adquirir propriedade. Pois
bem, das relações das pessoas com outras pessoas, através dos contratos, e das
relações das pessoas com as coisas, adquirindo-se propriedade, vai se formando
um patrimônio ao longo da vida, patrimônio que será transferido a
nossosherdeiros conforme as regras do Direito das Sucessões.

Neste raciocínio nós encontramos todo o Direito Civil, exceto o Direito


de Família. Chama-se o Direito das Obrigações, das Coisas e das Sucessões
de direito patrimonial privado, ou seja, o vasto campo do Direito Civil onde os
particulares se relacionam com os outros e dispõem dos seus bens com ampla
liberdade, com grande autonomia.

A autonomia é tanta que a maioria das normas do Direito Civil


são supletivas, ou seja, não obrigam as partes, servem apenas para completar
os contratos em caso de lacunas (ex: 490, 1375). Além disso, o direito
patrimonial é disponível, e de regra a gente pode fazer o que quiser com nossos
bens.

A interferência do poder público é pequena no Direito Civil, e é por isso


que o Direito Civil realiza profissionalmente muitas pessoas que se sentem
sufocadas pelo Governo, por um Estado paquiderme que fiscaliza muito, tributa
muito, multa muito, mas oferece pouco em troca, pois em nosso país saúde,
educação e até segurança são serviços que nós precisamos pagar a particulares,
apesar de recolhermos tantos impostos.

Neste raciocínio o Direito de Família fica deslocado, pois a maioria das suas
normas são imperativas(obrigam as partes) e os direitos
são indisponíveis/irrenunciáveis (ex: nome, filiação, alimentos, ver ats. 11 e
1.707). O profissional precisa de muita sensibilidade para atuar nesta área,
inclusive veremos adiante que alguns autores o consideram parte do Direito
Público e não do Direito Privado. Mas no fundo o Direito de Família integra o
Direito Civil e, para não fugir à regra, também existe muita questão patrimonial
nas relações familiares, como veremos ao longo do curso.

FAMÍLIA

Antes de começarmos a tratar do Direito de Família em si, vamos falar um


pouco da família.

Conceito: família é um grupo de pessoas ligadas entre si por relações pessoais


e patrimoniais resultantes do casamento, da união estável e do parentesco (§ 4º
do art. 226, CF). Comentários ao conceito:

- relações pessoais: decorrentes do afeto, carinho, amparo, da convivência


entre familiares, da vida matrimonial, etc. (art. 229, CF).

- relações patrimoniais: prestação de alimentos (1694), regime de bens entre


os cônjuges (1639), usufruto dos pais sobre os bens dos filhos (1689), etc.
Percebam que mesmo no Direito de Família a questão
material/econômica/patrimonial é importante.

- casamento, união estável e parentesco: a família resulta de um destes três


vínculos. O casamento é a proteção que a lei dá a um homem e a uma mulher
para viverem em comunhão e formarem uma família (1511). A união estável é o
casamento de fato (1723 e § 3º do 226, CF). E o parentesco também liga as
pessoas, seja este parentesco consangüíneo, afim (ex: cunhados) ou por adoção
(§ 6º do art. 227, CF).

Obs: marido e mulher não são parentes mas cônjuges, ligados pelo casamento,
ou companheiros/conviventes caso vivam em união estável.

Outra obs: não se cogita de casamento entre homossexuais em nosso país, pois
o CC é bem claro no 1514 e a CF no § 3º do 226, que casamento e união estável
é entre homem e mulher. Uma relação homossexual deve ser regulada pelo
direito obrigacional como uma sociedade, e não pelo direito de família.

A família se origina assim do casamento, da união estável ou do


parentesco, sendo a base da sociedade, a célula-mãe (art. 226, caput, CF).
Ninguém consegue ser feliz no trabalho ou no lazer se não é feliz na família. Diz
a psicologia que as pessoas sofrem mais com uma crise familiar do que com a
perda da liberdade. A prisão seria menos grave para o equilíbrio emocional das
pessoas do que viver numa família instável e desestruturada. Concordam?
Reflitam!

Em todos os países modernos onde eclode uma grave crise, uma guerra
civil (ex: Oriente Médio), é na família que as pessoas vão se organizar para se
proteger e sobreviver. Já era assim desde a pré-história quando as pessoas se
juntavam com seus familiares. A união de várias famílias formam as cidades, que
eram as antigas tribos. E várias cidades formam estados e países. Por isso a
família é a célula-mãe, é a base da sociedade.

As primeiras famílias eram matriarcais porque o pai era desconhecido. Ao


longo da história as famílias se tornaram patriarcais, predominando a autoridade
e a força do varão. Atualmente ambos os cônjuges comandam a família (§ 5º do
226, CF, e 1631).

Natureza jurídica da família: não é pessoa física pois é formada por vários
indivíduos; também não é pessoa jurídica porque exigiria previsão em lei (art.
44). Família assim não tem personalidade jurídica, não podendo ser parte numa
relação jurídica. E o que é a família? Uma instituição, como diz a CF é a base da
sociedade (226).

Aula 02 - Civil 6 - Direito de Família (continuação)


Conceito de DF: é o conjunto de normas jurídicas aplicáveis às relações
entre membros de uma mesma família, orientado por elevado interesse moral e
bem estar social.

Comentários ao conceito:

- as normas do Direito de Família são imperativas, ou seja, são obrigatórias, não


sendo meramente supletivas como no Direito Obrigacional, onde a maioria das
normas apenas supre a vontade das partes em caso de lacuna no contrato.
Falamos disto na aula passada.

- regulam a família, também já explicamos o que é uma família na aula passada,


oriunda do casamento, da união estável e do parentesco. Quanto ao parentesco
pode ser consangüíneo, afim e adotivo. Falaremos de todos estes assuntos mais
adiante.

- felicidade: a moral e o bem estar que predominam nas relações familiares


concentram-se hoje na busca da felicidade, por isso que atualmente se toleram
mais de um parceiro, pessoas amigadas (= união estável), divórcio e até casais
homossexuais. Antigamente, na época das avós de vocês, a influência da Igreja
na família e no Estado era muito forte, por isso a moral era mais rigorosa.
Atualmente é preciso ser feliz, é este desejo que predomina na sociedade.

Natureza jurídica do DF: é ramo do Direito Público ou do Direito Privado?

Para alguns autores o DF integra o Direito Público, pois muitas de suas


relações são fiscalizadas pelo Estado através do Ministério Público. Os Promotores
de Justiça praticamente não atuam no direito patrimonial privado (Obrigações,
Reais e Sucessões), mas no Direito de Família tem relevante função. No art. 226
da CF, caput e § § 3º, 7º e 8º, percebemos como o Estado procura proteger a
família. Com relação ao pátrio poder, alimentos e bem de família se percebe
também a preocupação do Estado, afinal crianças sem pais, pessoas necessitadas
e famílias desabrigadas vão terminar sobrecarregando os serviços sociais do
Governo. A lei e o Estado procuram assim evitar tais situações, obrigando os
parentes a se ajudarem mutuamente, e ainda vedando a execução do único
imóvel da família. Veremos todos estes institutos ao longo do curso. Além disso,
as normas do DF são imperativas e seus institutos
sãoirrenunciáveis/indisponíveis (ex: filiação, 11; alimentos, 1707), por isso que
se aproxima tanto do Direito Público.

Mas para a maioria dos autores (inclusive para mim) o DF integra o Direito
Privado já que regula a família, que não é um órgão/ente estatal. Ao contrário, a
família é uma instituição particular onde, nas palavras de Sílvio Venosa, “a gente
nasce, vive, ama, sofre e morre”. O próprio CC proíbe o Estado de
seimiscuir/interferir nas relações íntimas da família (1513).

Origem: os direitos de família têm origem no nascimento, na adoção ou no


casamento. É o chamado estado familiar, ou “status” de solteiro, de casado, de
menor, de irmão, de órfão, etc. O “status” dá também o direito a usar o nome
da família o que, em ditaduras e monarquias, garante empregos e privilégios,
mas atualmente no Brasil pertencer a esta ou aquela família não garante
nenhuma situação jurídica específica.

Características do status de família:

a) intransmissível: o status não se transfere, não se vende, não se negocia,


depende do nascimento, adoção ou do casamento, é personalíssimo, e é
por isso que a gente não escolhe nossos pais, irmãos, cunhados, etc. A
gente escolhe nossos amigos e nosso cônjuge, mas estes não são nossos
parentes;
b) irrenunciável: o status depende da posição familiar, não se podendo, por
exemplo, renunciar ao pátrio poder para deixar de sustentar o filho;
c) imprescritível: não se perde e nem se adquire pelo tempo/usucapião; o
fato do aluno chamar por anos a professora de “tia” não cria nenhum
vínculo jurídico com a mesma;
d) universalidade: compreende todas as relações jurídicas decorrentes da
família, afinal a gente é parente de alguém para as coisas boas e para as
coisas ruins; além disso o status é exercido perante toda a sociedade;
e) indivisibilidade: o status é sempre o mesmo, não se pode ser casado de
dia e solteiro de noite!!!!!;
f) reciprocidade: o status se integra por vínculos entre pessoas que se
relacionam, então o marido tem uma esposa, o pai tem um filho, etc.

Rumos do DF neste séc. XXI:

a) estatização: o Estado tem procurado assumir papéis que antigamente


eram exclusivos da família, como a alimentação, a educação e o
planejamento familiar, especialmente nas famílias mais carentes (ver CF
art. 226, § 7º e art. 227). Eu vou mais além, sem ensino público de
qualidade (a faculdade pode ser privada, mas o ensino fundamental deve
ser gratuito e bom) e sem controle da natalidade nosso Brasil não vai
decolar, nesse sentido o referido § 7º precisa ser revisto, bem como o §
2º do 1565;
b) retração: admite-se que uma mãe solteira e seu único filho sejam
considerados uma família; é a família segmentada ( § 4º do 226, CF);
c) dessacralização: para a Igreja a família só se forma com o sacramento
indissolúvel do casamento, mas com o afastamento do Estado e da
sociedade da Igreja, tolera-se uma família fora do casamento, decorrente
da união estável ou de pessoas divorciadas;
d) democratização: até o século passado só o pai mandava na família, hoje
o poder é comum do pai e da mãe ( § 5º do 226, CF), e até os filhos são
ouvidos e têm absoluta prioridade à educação e à convivência familiar
(227, CF). Nossa Lei Maior usa algumas vezes a palavra “prioridade”, mas
acompanhada do adjetivo “absoluta” apenas neste art. 227, o que revela
a preocupação do Estado com os menores. Lembro a vocês que, ao longo
da história, os filhos nunca foram considerados pois a mortalidade e a
natalidade eram muito altas, mas hoje é diferente (1567). O que mantem
uma família saudável é a união do casal e não a autoridade paterna. E
sem uma família equilibrada a criação e educação dos filhos fica
comprometida. Só hereditariedade não basta, é necessário um ambiente
psicológico favorável para a formação de um cidadão.