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LITERATURA SAPIENCIAL

CONTEXTOS
POR FÁBIO LEITE

A sobrevivência da tradição dos escribas A catástrofe da destruição babilônica de


Jerusalém em 587 a.C. significou o final da escola de escribas reais enquanto instituição.
A escola como tal, não desapareceu, mas os escribas em sua tradição resolveu incluir-se
na tradição continua o cultivo da sabedoria, mas tratava de uma sabedoria que assumiu
novas direções, como resultado, os dramáticos eventos históricos.
A essa tradição que sobreviveu e teve prosseguimento devemos alguns dos melhores
exemplos daquilo que designamos por literatura sapiencial, livros de Provérbios
Eclesiastes (Coelet).
Como essa tradição de escribas sobreviveu e quais foram algumas conquistas e ocasiões
das obras sapienciais a elas atribuídas? No contexto no qual essa tradição escritas e sua
sabedoria continuaram a coletividade dos estilos da corte levados para o exílio pelos
babilônios. A esses escribas se uniram sobrevivente dos grupos de escritas associados ao
templo de Jerusalém.
Círculos deuteronômios do final da monarquia do período posterior ao seu fim contavam
entre seus membros com escritas treinados na sabedoria. A “escola” ou tradição
deuteronômica produziu a História de Deuteronômica, o complexo de sete livros que
abrange do Deuteronômio a 2 Reis. Assim, esses escritas treinados em sabedoria que
figuravam entre os aderentes da escola deuteronômica constituíam um segundo grupo que
cultivava a sabedoria. Ceresko, A sabedoria no Antigo Testamento pg. 28
Uma possível base institucional da sabedoria e veio com a restauração de uma
Comunidade Judaica em Judá e em Jerusalém depois de 539 a.C. Os persas haviam
substituído os babilônios como os novos senhores imperiais do oeste asiático. Ciro, o
novo dirigente persa, ordenou a reconstrução de Jerusalém e o estabelecimento da
província de Judá. A nova província precisava de pessoal treinado para compor o aparato
administrativo. Não resta dúvida de que os persas recrutaram um bom número de escriba
judeus, tanto entre os que estavam no exílio na Babilônia como entre a população local.
Mais uma vez Jerusalém tinha sua “escola de escribas” não para servir a um monarca
nativo, mas a regentes estrangeiros.
O templo reconstruído também necessitava de escritas tanto para administrar seus
recursos como para produzir e copiar textos rituais e outras obras religiosas. Famílias de
sacerdotes e sobreviveram a destruição de Jerusalém e de seu templo em 587 a. C. também
incluíam alguns membros treinados com escribas que ulteriormente mostraria o interesse
pela sabedoria. O sacerdote Esdras, por exemplo, é identificado como um escriba ou
secretário da corte persa: Esdras 7.10-11.
A menção do interesse de Esdras Pelo estudo e pela prática da lei de Javé assinar um novo
desenvolvimento no Israel-exílico: A gradual fusão da sabedoria com o estudo e a
reflexão sobre a Torá ou a lei de Moisés o pentateuco ou cinco livros de Moisés na nossa
Bíblia atual. Essa fusão vai florescer no modo pleno na obra do sacerdote escriba
Sirac que considerava a Torá a própria personificação da sabedoria, uma sabedoria com
uma fonte divina ou seja, revelada pelo próprio Deus.

ISRAEL ANTES DO EXÍLIO

Fizemos um esboço nos contextos históricos e emergente do movimento sapiencial e da


tradição sapiencial em Israel. Examinaremos agora mais de perto os contextos e fatores
históricos que levaram aos escritos sapienciais tais como os livros de Provérbios,
Jó, Eclesiastes Sabedoria Sirácida e a Sabedoria de Salomão.
Procuramos traçar a base histórica dos escritos sapienciais como por meio de um
panorama porque assim nós podemos ter uma compreensão mais profundo do contexto
socioeconômico cultural em que os escritos sapienciais foram redigido.
Nossa preocupação com uma hermenêutica séria é justamente produto dessa pesquisa.
Quando propomos falar sobre o livro de Jó e sua teologia dos discursos dentro do mesmo,
não poderíamos deixar de ter o compromisso com o texto inspirado, pois este, no seu
contexto imediato, no seu pano de fundo, registra verdadeiros princípios relevantes para
nossa vida. Esse é o nosso compromisso.
O movimento sapiencial e as tradições de Sabedoria em Israel refletem uma clara
continuidade com pensamento sapiencial por todo o mundo antigo, remontando a mais de
2000 anos a partir daquela época a invenção da escrita, primeiro na Mesopotâmia e depois
do Egito por volta de 3000 a.C. Podemos entender que a história própria de Israel tem
início no século XVIII a.C.
A sabedoria familiar e de clã já florescerá há vários séculos entre os povos que formaram
o Israel primitivo, a sabedoria popular evoluiu ao longo de gerações por meio da atividade
parental, e da preparação de cada nova geração para lidar com a vida e alcançar algum
grau de sucesso de satisfação. A partir deste ponto, do Êxodo e da subsequente formação
das tribos de Israel no país montanhoso de Canaã, a sabedoria Israelita tirar a marca da
cultura religiosa dessas pessoas e essa cultura ela era marcada especialmente pelo culto a
Javé, o Deus que se põe ao lado do pobre e liberto oprimido.

O novo fator aparece com a chegada de Davi e Salomão, o estabelecimento de uma


monarquia isso por volta de 1000 a.C. Uma nova dimensão da sabedoria israelita marcada
especificamente pelo seu vínculo com a escrita e com as preocupações da corte e do tempo
real escola de escritas estabelecidas como uma parte vital da estrutura administrativa do
Palácio e do Templo de Jerusalém tornaram-se também no centro do “pensamento
sapiencial”. Ocorreram contatos com a sabedoria Internacional e uma abertura às
tradições de outros povos do Egito em especial.
Talvez seja mais importante para nós o desenvolvimento do interesse pela criação de
obras sapienciais em forma escrita, e esse interesse resultará nos períodos exílico e pós-
exílios, nas obras literárias encontradas na Bíblia - Provérbios, Eclesiastes, Sabedoria de
Salomão, Sabedoria Sirácida e o livro que é alvo da nossa pesquisa, o livro de Jó.
Vamos ver o final da Monarquia e destruição de Jerusalém:
Entre o final do século VII e o começo do século VI a.C., a grande potência
mesopotâmica da época, a Babilónia, lutava com o Egito pelo controle da área fronteiriça
entre os dois países. Essa área de fronteira inclui o pequeno Reino de Judá. Quem venceu
essa guerra foram os babilônios, suas ambições imperiais não toleravam a mínima
oposição ou ameaça ao seus planos, esse era o regime deles. Veja como eles reagiram
com devastadores resultados no sentido de esmagar as pretensões de autonomia e da
independência dos regentes e do Povo de Judá e de Jerusalém. Jerusalém foi destruída,
suas muralhas derrubadas, e o templo e o Palácio Real reduzido a cinzas, um grande
número de líderes – família real e a nobreza e sacerdotes – e funcionários do templo,
mercadores e artesãos foram levados para o exílio na Babilônia ali permaneceram por
duas gerações aproximadamente 539 a.C.

A crise exílica

A destruição de Jerusalém pelos babilônios em 587 a.C. marca um dramático ponto de


ruptura na história veterotestamentária. Durante seis séculos, a comunidade de Israel uso
de certo grau de autonomia de controle sobre sua própria história e seu próprio futuro.
Tudo isso chegou ao fim de uma maneira dramática que espantou e abalou esse povo,
ameaçando enviá-lo para o caminho do esquecimento histórico.
A isso seguiram-se uma confusão e uma crise de identidade em um único golpe, tudo que
parecer estar no âmago da sua vida como o povo a cidade santa de Jerusalém, seu tempo
e suas ricas tradições cúlticas, assim como a casa real davídica, foram levado a um
tribunal. Foi tremendo o esforço de compreensão do que acontecer, sem contar o de
começar a reunir as peças e reconstruir. O desafio para o povo Judeu durante o envio e
no período pós-exílio não foi só o da sobrevivência. Mas também o do assentamento de
bases para o futuro, sem que suas raízes passadas fossem abandonadas. Eles tiveram
literalmente de reconstruir e recriar sua identidade como povo.
No esforço para essa recriação e reconstrução seguiram duas direções: houve, por um
lado, a reconstrução física concreta, com o restabelecimento de uma comunidade judaica
em Judá e em Jerusalém. Por outro lado, essa reconstrução e recriação envolveram uma
enorme atividade literária que resultou na produção de largas parcelas do que hoje
constituem nossa Bíblia.

A crise pós-exílica

A queda do império babilônico diante dos persas sob a liderança de Ciro, em 539 a.C.,
ofereceu a oportunidade do reestabelecimento da comunidade judaica em Judá e em
Jerusalém. Era vantajoso para a administração central persa, contar com um regime local
amigável e cooperativo local estrategicamente importante como a Palestina, localizada na
distante extremidade oeste do império. Assim, o regente persa Ciro, promulgou um
decreto que encorajava os grupos de judeus à voltar a sua terra natal e a reconstruir a
cidade de Jerusalém e seu templo ao Deus de Israel, Javé.
Em março de 515 a.C., o novo templo foi dedicado e iniciou-se a realização regular do
culto regular. A restauração do templo e do ritual sacrificial regular exerceu um forte
efeito sobre a comunidade judaica, não só em Judá mais em todo o mundo
Mediterrâneo. Os judeus, embora habitassem em grande número de lugares distantes de
Judá e de Jerusalém, agora tinham um centro comum para o qual podiam voltar, um
símbolo de esperança no futuro e de um maior restabelecimento.
Mas repare que a batalha do povo pela sobrevivência e pela recriação de sua identidade
como Israel acelerou a produção de documentos escritos durante o exílio e depois dele.
A história da monarquia foi contada na história Deuteronômica, os sete livros que vão de
Deuteronômio a 2 Reis. Essa segunda edição, completou-se em algum momento entre a
morte do Rei Josias em 609 e o começo do exílio em 587 a.C. Durante o próprio exílio,
esse documento foi revisado para fins de inclusão de eventos históricos ulteriores.
Surgiram outros escritos neste período pós-exílio, incluindo os escritos chamados
sapienciais do Antigo Testamento, a lei e os profetas e trata de maneira mais direta das
preocupações comunitárias articulação da identidade do grupo, sua origem e o modo de
vida em específico e o caracterizava. Esses escritos sapienciais por sua vez, tratam de
questões familiares e preocupações individuais, tomados em conjunto esses escritos
sapienciais não representam totalmente, todo um conjunto de “estratégias de
sobrevivência” em meio ao confuso e desafiador mundo pós-exílio. Mais do que isso,
eles oferecem um modo de um indivíduo “sábio” levar uma vida gratificante e satisfatória
de amor de lealdade ao Deus da Aliança de Israel, Uma “espiritualidade” para lidar com
as pressões e desafios da vida cotidiana como judeu fiel. Neste ponto, Rossi, ao contrário
de Ceresko, vai tratar deste período específico, nesse momento em que esse povo vivia
como um período pesado tenebroso, obscuro em termos de economia da vida social
familiar e religiosa. Rossi vai olhar mais para o foco do problema dessa comunidade,
para ele, a teologia vigente era de que aquela parte da nobreza que assistia junto ao
império era considerado pura, porquê tinha uma vida melhor, ao passo que os pobres
eram considerados impuros. Ele está falando da teologia do puro e do impuro. Antes, a
benção de Deus era vista pela posse da terra como em Gênesis 12, agora, a crença de que
a riqueza era um sinal irrevogável da benção de Deus por que um grupo de nobres
prosperava. Nessa teologia, os mais puros seriam os mais ricos, e os pobres doentes. Para
Rossi, os 40 capítulos dos discursos do livro de Jó, são um eco das mulheres do capítulo
5 de Neemias.
Mas vamos voltar ao que Ceresko chama de desordem econômica e social.
Repare alguma familiaridade com as medidas sociais, e especialmente econômicas,
impostas aos povos subjugados pelos sucessivos regimes imperiais, pode lançar luz sobre
os desafios específicos que os judeus enfrentaram na vida cotidiana do período pós-exílio.
Repare a organização econômica. Cada família ampliada possui uma “casa” ou porção
de terra, um “legado”, que era passado de geração para geração e que garantiria o acesso
aos recursos básicos necessários a providência. Essa “propriedade ancestral” devia
permanecer nas mãos da família e não se esperava que fosse vendida ou hipotecada.
O sistema de “ajuda mútua” foi instituído com o fim de assistir famílias em crise
financeira, por causa da seca ou da perda da lavoura por exemplo. Esse sistema exigia
dos membros de um clã ou tribo o oferecimento de empréstimos a juros baixo, ou doações
diretas a família em crise para que estas não se vissem obrigadas a vender ou a hipotecar
sua “casa”. No curso da monarquia, essa economia comunitária entrou em conflito com
as exigências dos Reis de Israel e da Judeia, de tributos na forma de pagamento de
impostos ou de trabalhos forçados. Essa imposição de medidas tributárias de um governo
monárquico centralizado, enfraqueceu mas não destruiu a ordem comunitária e isenta de
tributos profundamente arraigado herdada dos primeiros momentos de cada confederação
tribal. Nos períodos exílio e pós-exílio, tanto os judeus que permaneceram na Palestina,
como aqueles que fugiram, ou que foram deportados, recorreram a valores e práticas
comunitárias para sobreviver enquanto povo.
Não obstante, a crise socioeconômica se aprofundou e ameaçou mais essas tradições.
Quando assumiram o poder, os persas impuseram novo sistema de cobrança de impostos.
A partir do reinado de Dário 522- 486 a.C., exigia-se dos judeus que pagassem os
impostos não mais como uma porcentagem de sua produção agrícola, mas sem dinheiro.
Em outras palavras, eles precisavam antes vender a produção e depois, com o dinheiro
obtido na venda desses produtos, pagar uma soma fixa às autoridades persas em dinheiro
vivo. Tempos de seca ou de frio, desfavorecia os preços de mercado, e se mostravam
especialmente difíceis para os donos de pequenas propriedades rurais e suas famílias.
Muitos eram obrigados a se endividar e a hipotecar sua propriedade. Alguns chegaram
mesmo a vender a si e/ ou aos filhos para a escravidão estrangeira a fim de pagar suas
dívidas, Neemias 5.1-5. O livro de Provérbios como o de Jó se veem às voltas com as
questões teológicas e espirituais geradas por esses desenvolvimentos e por essa crise.

ROSSI, LUIZ ALEXANDRE SOLANO. Sapienciais sabedoria a favor da libertação-


Editora: Paulus

CERESKO, ANTHONY R. A Sabedoria no Antigo Testamento espiritualidade


libertadora- Editora: Paulus

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