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à

QUETZAL ave trepadora


da América Central,
que morre quando privada
de liberdade; raiz e origem
de Quetzalcoatl (serpente
emplumada com penas
de quetzal), divindade
dos Toltecas, cuja alma,
segundo reza a lenda, teria
subido ao céu sob a forma
de Estrela da Manhã.
Nove Histórias
Tradução de José Lima

à QUETZAL serpente emplumada 1 J.D. Salinger


Título: Nove Histórias

1.ª edição: janeirn de 2014

Título original: Nine Stories

Autor: J.D. Salinger

Tradução: José Lima

Revisão: João Assis Gomes

Proieto gráfico original: RPVP Designers

Design da capa: Rui Rodrigues Quetzal Editores

Pré-impressão: Fotocompográfica

Execução gráfica: Bloco Gráfico, Lda.

Unidade Industrial da Maia

©2014 Quetzal Editores


[Todos os direitos para a publicação desta obra em língua

portuguesa, exceto Brasil, reservados por Qucrzal Editores]

©1948, 1949, 1950, 1951, 1953 J.D. Salinger

©Renovado 1975, 1976, 1977, 1979, 1981 J.D. Salinger

ISBN: 978-989-722-138-5

Depósito legal: 366 198/13

Quetzal Editores

Rua Prof. Jorge da Silva Horta, 1

1500-499 Lisboa PORTUGAL

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Edição segundo as regras do Novo Acordo

Ortográfico da Língua Portuguesa


Para Dorothy Olding
e Cus Lobrano
« Sabemos qual é o som de duas mãos a aplaudir.
Mas qual é o som de uma mão a aplaudir? »
Enigma zen
Um dia ideal para o peixe-banana

HAVIA NOVENTA E SETE PUBLICITÁRIOS NO HOTEL e, pelo modo


como monopolizavam as linhas de longa distância, a rapariga
do 507 teve de esperar do meio-dia até quase às duas e meia
para lhe passarem uma chamada. Mas não ficou sem fazer
nada. Leu um artigo numa revista feminina de bolso, intitula­
do «Ü Sexo é o Paraíso . . . ou o Inferno » . Lavou o pente e a es­
cova. Tirou a nódoa da saia do fato bege. Mudou o botão da
blusa da Saks. Arrancou dois pelos que havia pouco lhe ti­
nham aparecido num sinal. Quando a telefonista finalmente
ligou para o quarto, estava sentada no banco da janela e qua­
se a acabar de pôr verniz nas unhas da mão esquerda.
Era daquelas pessoas a quem um telefone a tocar não faz
com que larguem tudo. Era como se o telefone dela tivesse es­
tado a tocar continuamente desde que atingira a puberdade.
Pegando no pequeno pincel do verniz, enquanto o telefone
tocava, acabou a unha do dedo mindinho, acentuando o con­
torno da meia-lua. Colocou então a tampa no frasco de verniz
e, levantando-se, agitou a mão esquerda - ainda húmida -
de um lado para o outro. Com a mão seca, pegou num cinzei­
ro a abarrotar do banco da j anela e levou-o para a mesinha de
12 J.D. SALINGER

cabeceira, onde estava o telefone. Sentou-se numa das camas


e - era o quinto ou sexto toque - levantou o auscultador.
- Está - disse ela, mantendo os dedos da mão esquerda
esticados e afastados do roupão de seda branca, que era tudo
o que tinha vestido, além dos chinelos - deixara os brincos
na casa de banho.
- Tenho aqui a sua chamada para Nova Iorque, senhora
Glass - disse a telefonista.
- Obrigada - disse a rapariga, e arranjou um lugar para
o cinzeiro em cima da mesa de cabeceira.
Chegou-lhe uma voz de mulher. - Muriel ? És tu ?
A rapariga afastou ligeiramente o auscultador do ouvido.
- Sim, mãe. Como estás ? - disse ela.
- Tenho estado preocupada como tudo contigo . Porque
não telefonaste ? Estás bem ?
- Tentei ligar-te ontem e anteontem à noite . O telefone
aqui tem estado . . .
- Tu estás bem, Muriel ?
A rapariga aumentou o ângulo entre o auscultador e o ou­
vid o . - Estou ótima . Estou com calor. Hoj e é o dia mais
quente que já se viu na Florida em . . .
- Porque não ligaste ? Tenho estado preocupada como . . .
- Mãe, querida, não grites. Estou a ouvir-te lindamente
- disse a j ovem. - Liguei para ti duas vezes. Uma logo a se-
gmr a ...
- Eu disse ao teu pai que se calhar ias ligar ontem à noi­
te. Mas, não, ele tinha de . . . Tu estás bem, Muriel ? Diz-me
a verdade.
- Estou ótima. Para de me perguntar isso, por favor.
- Quando é que chegaram?
- Não sei. Quarta de manhã, cedo.
- Quem guiou ?
- Ele - disse a j ovem. - E escusas de ficar nervo s a .
Guiou lindamente. Até fiquei admirada.
NOVE HISTÓRIAS 13

- Guiou ele ? Muriel, deste-me a tua palavra de . . .


- Mãe - interrompeu a rapariga - , já te disse que guiou
lindamente . A menos de oitenta o caminho todo, para dizer
a verdade.
- Ele pôs-se com aquelas coisas dele com as árvores ?
- Eu disse que ele guiou lindamente, mãe. Vá, por favor.
Pedi-lhe para não se afastar da linha branca, e isso tudo, e ele
percebeu o que eu queria dizer, e fez o que eu pedi. Até fazia
por não olhar para as árvores . . . via-se que sim. A propósito,
o papá mandou arranj ar o carro ?
- Ainda não. Eles pedem quatrocentos dólares, só para . . .
- Mãe, o Seymour disse ao papá que pagava. Não h á ra-
zão para . . .
- Bem, logo s e vê. Como s e portou ele . . . n o carro e tal ?
- Muito bem - disse a rapariga.
- Continua a chamar-te aquele horroroso . . .
- Não. Agora tem um novo.
- Qual é ?
- Oh, isso que interessa, mãe ?
- Muriel, eu quero saber. O teu pai . . .
- Está bem, está bem. Chama-me Miss Galdéria Espiri-
tual 1 948 - disse a rapariga com um risinho.
- Não tem p i a d a , Muri e l . Não tem p i a d a nenhum a .
É horroroso. No fundo, é triste. Quando penso e m como . . .
- Mãe - interrompeu a rapariga - , ouve. Lembras-te
daquele livro que ele me mandou da Alemanha ? Sabes . . . o dos
poemas alemães. Que é que eu lhe fiz? Tenho dado voltas à . . .
- Ainda o tens.
- Tens a certeza ? - disse a rapariga.
- Absoluta. Isto é, quem o tem sou eu. Está no quarto do
Freddy. Deixaste-o cá e como não havia sítio no . . . Porquê ?
Ele quere-o ?
- Não. Só me perguntou por ele, quando vínhamos para
cá. Queria saber se eu o tinha lido.
J . D . 5ALINGER

- Era em alemão !
- Era, querida . Mas isso não quer dizer nada - disse
a rapariga, cruzando as pernas. - É que por acaso os poemas
foram escritos pelo único grande poeta do século, disse ele.
E disse que eu devia ter comprado uma tradução ou assim.
Ou ter aprendido alemão, nem mais nem menos.
- Um horror, um horror. É triste, no fundo, é mais isso .
O teu pai ontem à noite disse . . .
- S ó u m segundo, mãe - disse a rapariga. Foi buscar os
cigarros ao banco da j anela, acendeu um, e voltou a sentar-se
na cama. - Mãe ? - disse ela, exalando o fumo.
- Muriel. Agora, ouve uma coisa . . .
- Estou a ouvir.
- O teu pai falou com o doutor Sivetski.
- Ah ? - disse a rapariga.
- Ele contou-lhe tudo. Pelo menos, foi o que ele disse . . .
Sabes como é o teu pai. As árvores. Aquela história com a j a­
nela. Aquelas coisas horríveis que ele disse à avó, quando lhe
perguntou se já tinha planos para o funeral dela. O que ele fez
com aquelas belas fotografias das Bermudas . . . Tudo.
- E então ? - disse a rapariga.
- Então, diz ele que para já foi um verdadeiro crime
o Exército tê-lo deixado sair do hospital. . . Dou-te a minha pa­
lavra de honra. E disse muito claramente ao teu pai que havia
uma probabilidade . . . uma grande probabilidade, disse ele, de
o Seymour perder completa mente o controlo. Dou-te a minha
palavra de honra.
- Há um psiquiatra aqui no hotel - disse a rapariga.
- Quem? Qual é o nome dele ?
- Não s e i . Rieser o u coisa a s s i m . D izem que é muito
bom.
- Nunca ouvi falar dele.
- Bem, dizem que é muito bom, pelo menos.
NOVE HISTÓRIAS 15

- Muriel, não me fales assim, fazes favor. Estamos muito


preocupados contigo. O teu pai esteve para te mandar um te­
legrama ontem à noite para vires embora, para dizer a ver. . .
- Não faço tenções d e i r embora para j á , mãe. Por isso,
escusas de te enervar.
- Muriel. A minha palavra de honra. O doutor Sivetski
disse que o Seymour pode perder completamente o contr. . .
- Ainda agora cheguei, mãe. Estas são a s primeiras férias
que eu tenho desde há anos, não vou agora fazer as malas
e ir-me embora - disse a rapariga. - De qualquer modo,
agora não podia fazer a viagem. Apanhei um tal escaldão que
mal me posso mexer.
- Estás muito queimada ? Não usaste aquele boião de cre-
me que te pus na mala ? Pu-lo mesmo no . . .
- Eu usei-o. Mas fiquei queimada n a mesma.
- Que horror. Onde é que estás queimada ?
- Pelo corpo todo, querida, pelo corpo todo.
- Que horror.
- Não morro desta.
- Diz-me uma coisa, falaste com esse tal psiquiatra ?
- Bem, de certo modo - disse a rapariga.
- Que é que ele disse ? Onde é que estava o Seymour
quando falaste com ele ?
- No Salão Oceano, a tocar piano. Esteve lá a tocar pia­
no nestas duas noites, desde que chegámos.
- E então, que disse ele ?
- Oh, pouca coisa. Foi ele que falou comigo primeiro. Eu
estava sentada ao lado dele no Bingo ontem à noite, e ele per­
guntou-me se não era o meu marido que estava a tocar piano
na outra sala. Eu disse que sim, que era, e ele perguntou-se se
o Seymour tinha estado doente ou assim. E então eu disse . . .
- Porque é que ele perguntou isso ?
- Não faço ideia, mãe. Se calhar é por ele estar tão pálido
e assim - disse a rapariga. - Seja como for, depois do Bingo
16 J . D . SALINGER

ele e a mulher perguntaram-me se não queria ir beber um copo


com eles. Disse que sim. A mulher dele é horrível. Lembras-te
daquele vestido de noite horroroso que vimos na montra da
Bonwit ? Aquele que tu disseste que só quem tivesse uma pe­
queníssima . . .
- O verde ?
- É o que ela trazia. Era só ancas. Não parou de me per-
guntar se o Seymour era alguma coisa àquela Suzanne Glass
que tem aquela loj a em Madison Avenue, a loja de modas.
- Mas que é que ele diz ? O médico.
- Ah. Não disse grande coisa, realmente. Quer dizer, está-
vamos no bar e tal. Havia um barulho horroroso.
- Sim, mas contaste . . . contaste-lhe o que ele tentou fazer
com a cadeira da avó ?
- Não, mãe. Não entrei muito em pormenores - disse
a rapariga. - Talvez tenha ocasião de voltar a falar com ele.
Ele passa o dia todo no bar.
- Ele disse se achava provável que ele pudesse ficar. .. tu
sabes . . . esquisito ou assim ? Fazer-te alguma coisa, a ti!
- Não é bem assim - disse a rapariga . - Tinha de ter
mais dados, mãe. Eles têm de saber coisas sobre a infância das
pessoas . . . essas tretas todas. Já te disse, mal se podia falar, ha­
via muito barulho.
- Bem. Que tal te fica o casaco azul ?
- Muito bem. Mandei tirar um pouco dos chumaços.
- Como são as roupas este ano ?
- Horrorosas. Mas fora de série. Veem-se lantej oulas . . .
tudo - disse a rapariga.
- Que tal o teu quarto ?
- É bom. Mas podia ser melhor. Não conseguimos ficar
com o quarto que nos deram antes da guerra - disse a rapa­
riga. - As pessoas são horrorosas este ano. Havias de ver os
que estão sentados ao nosso lado na sala de jantar. Na mesa
ao lado. Têm um ar de quem veio para aqui de camião.
NOVE HISTÓRIAS 17

- Bem, é assim por todo o lado. E a saia, que tal ?


- Está-me muito comprida. Eu bem te disse que era com-
prida de mais.
- Muriel, só te vou perguntar mais uma vez . . . estás mes­
mo bem ?
- Estou, mãe - disse a rapariga. - Já te disse noventa
vezes.
- E não te vens embora ?
- Não, mãe.
- O teu pai ontem à noite disse que estava mais do que
disposto a pagar-te a viagem se quisesses ir a qualquer lado,
só tu, e pensar melhor nisso tudo. Podias fazer um belo cru­
zeiro. Pensámos os dois que . . .
- Não, obrigado - disse a rapariga, descruzando a s per­
nas. - Mãe, esta chamada está a custar uma for . . .
- Quando penso em como tu ficaste à espera desse rapaz
o tempo todo que a guerra durou . . . Quer dizer, quando se
pensa em todas as doidas dessas mulherezinhas que . . .
- M ã e - d i s s e a r a p a r i g a - é m e l h o r d e s l i g a rm o s .
O Seymour pode voltar d e u m momento para o outro.
- Onde está ele ?
- Na praia.
- Na praia ? S ozinho ? Ele porta-se como deve ser na
praia ?
- Mãe - disse a rapariga -, falas dele como se fosse um
doido furioso . . .
- E u não disse nada disso, Muriel.
- Bem, dá a impressão . Quer dizer, o que ele faz é ficar lá
estendido. Nem sequer tira o roupão.
- Não tira o roupão ? Porquê ?
- Não sei. Acho que é por estar tão branco.
- Valha-me Deus, ele precisa de sol. Não consegues con-
vencê-lo ?
18 J . D . SALINGER

- Sabes como é o Seymour - disse a rapariga, cruzando


de novo as pernas. - Diz ele que não quer ter um bando de
parvos a olhar para a tatuagem.
- Ele não tem tatuagem nenhuma ! Ele fez alguma tatua­
gem na tropa ?
- Não, m ã e . N ã o , minha querida - disse a rapariga
e pôs-se em pé. - Ouve, eu ligo-te amanhã, talvez.
- Muriel. Ouve o que te digo.
- Sim, mãe - disse a rapariga, passando o peso do corpo
para a perna direita.
- Liga-me no próprio instante em que ele faça, ou diga,
alguma coisa mais esquisita . . . bem sabes o que eu quero dizer.
Estás-me a ouvir ?
- Mãe, eu não estou com medo do Seymour.
- Muriel, quero que me prometas.
- Está bem, eu prometo. Adeus, mãe - disse a rapariga.
- Beijinhos ao papá. - E desligou.

- See more glass - disse Sybil Carpenter que estava no


hotel com a mãe. - See more glass?
- Para de dizer isso, fofinha. Estás a pôr a mamã comple­
tamente doida. Está quieta, por favor.
A Sra. Carpenter estava a pôr bronzeador nos ombros de
Sybil, espalhando-o nas omoplatas, delicadas, como asas. Sy­
bil estava sentada instavelmente numa enorme bola de praia,
virada para o mar. Tinha um fato de banho amarelo-canário
de duas peças, sendo que uma delas realmente não lhe faria
falta nenhuma por mais uns nove ou dez anos.
- Era só um lenço de seda vulgar; via-se quando chegáva­
mos ao pé - disse a senhora na cadeira de praia ao lado da
Sra . Carpenter. - Gostava de saber como é que ela o tinha
atado. Era mesmo amoroso.
NOVE HISTÓRIAS 19

- Devia ser amoroso - concordou a Sra . Carpenter. -


Sybil, está quieta, fofinha.
- See more glass? - disse Sybil.
A Sra. Carpenter suspirou. - Pronto - disse ela. Voltou
a pôr a tampa no frasco do bronzeador. - Agora dá uma
corrida e vai brincar, fofinha. A mamã vai para o hotel tomar
um martini com a senhora Hubel. Depois trago-te a azeitona.
Vendo-se livre, Sybil desatou imediatamente a correr para
a parte plana da praia e começou a andar em direção ao Fis­
herman' s Pavilion. D etendo-se apenas para enfiar o pé na
areia empapada de um castelo derrocado, não tardou a afas­
tar-se da zona reservada aos hóspedes do hotel.
Caminhou uns quatrocentos metros e depois rompeu subi­
tamente numa corrida oblíqua para a parte seca da praia. Es­
tacou quando chegou ao sítio onde estava um rapaz estendido
de costas.
- Vais à água, See More Glass ? - disse ela.
O rapaz estremeceu, levando a mão direita às lapelas do
roupão de felpa. Virou-se sobre a barriga, fazendo cair a toa­
lha enrolada que tinha a tapar-lhe os olhos, e levantou os
olhos semicerrados para Sybil.
- Oi. Olá, Sybil.
- Vais à água, See More Glass ?
- Estava à tua espera - disse o rapaz. - O que há de
novo ?
- O quê ?
- O que há de novo ? Qual é o programa ?
- O meu pai chega amanhã num davião - disse Sybil,
dando um pontapé na areia.
- Na minha cara não, pequenina - disse o rapaz, pondo
a mão no tornozelo de Sybil. - Bem, já era tempo de ele che­
gar, o teu papá. Tenho estado à espera dele a toda a hora. Há
horas.
20 ] . D . SALINGER

- Onde está a senhora ? - disse Sybil.


- A senhora ? - O rapaz sacudiu a areia dos cabelos fi-
nos. - É difícil dizer, Sybil. Pode estar nuns mil sítios. No ca­
beleireiro. A tingir o cabelo de cor de marta. Ou a fazer bone­
cas para crianças pobres, no quarto dela. - Agora deitado de
barriga, com os punhos fechados, um em cima do outro, as­
sentou o queixo em cima deles. - Pergunta-me outra coisa,
Sybil - disse ele. - Tens um fato de banho muito giro. Se há
coisa de que gosto, é de um fato de banho azul.
Sybil fitou-o admirada, depois baixou os olhos para a bar-
riga saliente. - Este é amarelo - disse ela. - Este é amarelo.
- É ? Chega mais aqui.
Sybil deu um passo em frente.
- Tens toda a razão. Que parvo que eu sou.
- Vais à água ? - disse Sybil.
- Estou a considerar seriamente a hipótese. Estou a pen-
sar bastante nisso, Sybil, para que saibas.
Sybil tocou com o pé o colchão de borracha que o rapaz
às vezes usava como almofada. - Está a precisar de ar - dis­
se ela.
- Tens razão. Está a precisar de mais ar do que eu queria
reconhecer. - Retirou os punhos e deixou o queixo repousar
na areia . - Sybil - disse ele -, estás muito bonita . É um
prazer ver-te. Fala-me de ti. - Estendeu os braços para dian­
te e agarrou os dois tornozelos de Sybil. - Eu sou Capricór­
nio - disse ele. - E tu que és?
- A Sharon Lipschutz disse que a deixaste sentar-se conti-
go no banco do piano - disse Sybil.
- A Sharon Lipschutz disse isso ?
Sybil confirmou vivamente com a cabeça.
Ele largou os tornozelos dela, dobrou os braços e poisou
o lado da cara no braço direito. - Bem - disse ele - sabes
como são estas coisas, Sybil. Eu estava ali sentado, a tocar. Tu
NOVE HISTÓRIAS 21

não estavas por ali. E a Sharon veio ter comigo e sentou-se ao


meu lado. Eu não a podia empurrar, não achas ?
- Podias.
- Oh, não. Não . Não podia fazer uma coisa dessas -
disse o rapaz. - Mas vou-te dizer o que fiz.
- O que foi ?
- Fiz d e conta que eras tu.
Sybil baixou-se de imediato e começou a cavar na areia.
- Vamos à água - disse ela.
- Está bem - disse o rapaz. - Acho que ainda arranjo
tempo para isso.
- Para a próxima, empurra-a - disse Sybil.
- Empurro quem ?
- A Sharon Lipschutz.
- Ah, a Sharon Lipschutz - disse o rapaz. - Como esse
nome vem à tona . Combinando memória e desej o . - Num
repente, pôs-se em pé. Olhou para o mar. - Sybil - disse
ele -, vou-te dizer o que vamos fazer. Vamos ver se consegui­
mos apanhar um peixe-banana.
- Um quê ?
- Um peixe-banana - disse ele, e desfez o nó do roupão.
Tirou o roupão. Os ombros dele eram brancos e estreitos, e ti­
nha uns calções azuis-escuros. Dobrou o roupão, primeiro ao
comprido e depois em três partes. Desenrolou a toalha com
que cobrira os olhos, estendeu-a na areia, e depois pôs em ci­
ma dela o roupão dobrado. Inclinou-se, pegou no colchão
e pô-lo debaixo do braço direito. Depois, com a mão esquer­
da, deu a mão a Sybil.
Encaminharam-se os dois para o mar.
- Calculo que já viste uma data de peixes-bananas na tua
vida - disse o rapaz.
Sybil abanou a cabeça.
- Não viste ? Mas afinal onde é que tu vives?
22 J.D. SALJNGER

- Não sei - disse Sybil.


- Sabes sim. Tens de saber. A Sharon Lipschultz sabe on-
de ela vive e ela só tem três anos e meio.
Sybil deteve-se e sacudiu a mão da mão dele. Apanhou
uma concha qualquer e pôs-se a observá-la com um interesse
estudado. Deitou-a fora. - Whirly Wood, Connecticut -
disse ela, e recomeçou a andar, a barriga saliente.
- Whirly Wood, Connecticut - disse o rapaz. - Isso por
acaso não é perto de Whirly Wood, Connecticut ?
Sybil olhou para ele . - É onde eu vivo - disse ela, com
impaciência. - Vivo em Whirly Wood, Connecticut. - Cor­
reu uns p a s s o s adi ante dele, agarrou o pé esquerdo c o m
a mão esquerda, e deu dois o u três saltos a pé coxinho.
- Não fazes ideia de como isso torna tudo mais claro -
disse o rapaz.
Sybil soltou o pé. - Já leste O Pretinho Sambo? - disse ela.
- Tem mesmo piada perguntares-me isso - disse ele. -
Acontece que acabei de o ler ontem à noite. - Estendeu
o braço e pegou de novo na mão de Sybil. - Que tal te pare­
ceu ? - perguntou.
- Os tigres corriam à volta da árvore ?
- Pensava que nunca mais paravam. Nunca vi tantos tigres.
- Eram só seis - disse Sybil.
- Só seis ! - disse o rapaz. - Chamas a isso só?
- Gostas de cera ? - perguntou Sybil.
- Gosto de quê ?
- Cera.
- Muito. Tu não ?
Sybil fez que sim com a cabeça. - Gostas de azeitonas ? -
perguntou ela.
- Azeitonas . . . gosto . Azeitonas e cera. Nunca vou para
lado nenhum sem elas.
NOVE HISTÓRIAS 23

- Gostas da Sharon Lipschutz ? - perguntou Sybil.


- Gosto. Gosto, sim - disse o rapaz. - O que mais gosto
nela é ela nunca fazer maldades aos cãezinhos no átrio do ho­
tel. Ao buldogue pequenino daquela senhora do Canadá, por
exemplo. Se calhar não acreditas, mas há certas miuditas que
picam o cãozinho com pauzinhos de balã o . A Sharon não.
Nunca é má nem antipática. É por isso que gosto tanto dela.
Sybil ficou calada.
- Eu gosto de roer velas - disse ela, ao fim de algum
tempo.
- Quem não gosta ? - disse o rapaz, molhando os pés. -
Auu ! Está fria - Pôs o colchão na água. - Não, espera só
um segundo, Sybil. Espera até entrarmos mais um bocado.
Avançaram a patinhar até a água dar pela cintura a Sybil.
Nessa altura, o rapaz levantou Sybil e pô-la de barriga em cima
do colchão.
- Tu nunca pões touca de banho ou coisa assim ? - per­
guntou ele.
- Não largues - ordenou Sybil. - Agora agarra-me.
- Menina Carpenter. Por favor. Eu sei o que faço - disse
o rapaz. - Só tens de ter os olhos abertos para ver um peixe­
-banana. Hoje está um dia ideal para o peixe-banana.
- Não vej o nenhum - disse Sybil.
- Isso compreende-se. Os hábitos deles são muito estra-
nhos. - Continuou a empurrar o colchão. A água não lhe
chegava bem ao peito . - Levam uma vida muito trágica -
disse ele. - Sabes o que eles fazem, Sybil ?
Ela disse que não com a cabeça.
- Bem, nadam para dentro de um buraco onde há uma
data de bananas. São uns peixes normalíssimos, quando en­
tram. Mas mal se veem lá dentro, portam-se como porcos. Sa­
bes lá, j á vi peixes-bananas entrar num buraco de bananas
24 J.D. SALINGER

e comer nada menos que setenta e oito bananas - Empurrou


o colchão e a sua ocupante mais uns metros para o largo. -
Claro que depois disso estão tão gordos que não conseguem
voltar a sair do buraco. Não cabem na porta.
- Para muito longe não - disse Sybil. - E o que lhes
acontece ?
- O que acontece a quem ?
- Aos peixes-bananas.
- Ah, queres dizer depois de terem comido tantas bana-
nas que não conseguem sair do buraco das bananas ?
- Sim - disse Sybil.
- Bem, custa-me muito dizê-lo, Sybil. Morrem.
- Porquê ? - perguntou Sybil.
- Bem, ficam com febre da banana. É uma doença terrível.
- Vem aí uma onda - disse Sybil, nervosa.
- Vamos ignorá-la. Não lhe vamos ligar - disse o rapaz.
- Dois snobes - Agarrou os tornozelos de Sybil e fez força
para baixo e para diante. O colchão empinou-se por cima da
crista da onda. A água molhou o cabelo loiro de Sybil, mas os
gritos dela eram de puro deleite.
Com a mão, assim que o colchão ficou de novo direito,
afastou dos olhos uma mecha achatada de cabelos molhados,
e informou: - Vi agora mesmo um.
- Um quê, meu amor ?
- Um peixe-banana.
- Meu Deus, não me digas ! - disse o rapaz. - Tinha
bananas na boca ?
- Tinha - disse Sybil. - Seis.
O rapaz agarrou de repente num dos pés molhados de Sy­
bil, que pendiam fora do colchão, e deu-lhe um beijo.
- Eh! - disse a dona do pé, virando-se.
- Eh, quê ? Agora vamos voltar. Já chega ?
NOVE HISTÓRIAS

- Não !
- Lamento - disse ele, e empurrou o colchão para a praia até
Sybil poder sair. Depois levou ele o colchão o resto do caminho.
- Adeus - disse Sybil, e correu sem olhar para trás em
direção ao hotel.

O rapaz voltou a vestir o roupão, aconchegou bem as golas,


e enfiou a toalha no bolso. Pegou no colchão incómodo, escor­
regadio da água, e pô-lo debaixo do braço. Já só, avançou pesa­
damente pela areia macia e quente em direção ao hotel.
No piso da cave do hotel, que a gerência recomendava aos
banhistas, uma senhora com pomada de zinco no nariz entrou
no elevador ao mesmo tempo que o rapaz.
- Vej o que está a olhar para os meus pés - disse ele
quando o elevador se pôs em movimento.
- Perdão ? - disse a senhora.
- Disse eu que vejo que está a olhar para os meus pés.
- Peço perdão. Por acaso estava a olhar para o chão -
disse a senhora, e virou-se para a porta do elevador.
- Se quer olhar para os meus pés, diga - disse o rapaz.
- Mas não se ponha com o raio desse ar de sonsa.
- Deixe-me sair aqui, faz favor - disse a senhora precipi-
tadamente à ascensorista.
As portas do elevador a briram-se e a senhora saiu sem
olhar para trás.
- Tenho dois pés normais e não consigo ver nenhum raio
de razão para alguém se pôr a olhar para eles - disse o ra­
paz. - Quinto, faz favor. - Tirou do bolso do roupão a cha­
ve do quarto.
Saiu no quinto andar, seguiu pelo corredor e entrou no
507. No quarto havia um cheiro a bagagens novas de cabedal
e a solvente de verniz das unhas.
26 J.D. SALINGER

Olhou de relance a rapariga que dormia numa das camas.


Depois dirigiu-se a uma das malas, abriu-a e tirou de sob uma
pilha de cuecas e de camisolas interiores uma Ortgies calibre
7,65 automática . Soltou o carregador, verificou-o e voltou
a inseri-lo. Levantou o cão da arma. Depois foi sentar-se na
cama desocupada. Olhou para a rapariga, apontou a pistola
e disparou uma bala na têmpora direita.
Pai torcido no Connecticut

ERAM QUASE TRÊS HORAS quando Mary Jane finalmente deu


com a casa de Eloise. Explicou a Eloise, que saíra até ao cami­
nho da garagem para a receber, que tudo tinha corrido de
maneira absolutamente perfeita, que se tinha lembrado exata­
mente do caminho, até ter deixado a Alameda Merrick. Eloise
disse «Merrit, menina » e lembrou a Mary Jane que já antes ti­
nha dado com a casa duas vezes, mas Mary Jane limitou-se
a gemer qualquer coisa ambígua, qualquer coisa sobre a caixa
de kleenex e voltou precipitadamente ao seu descapotável .
Eloise levantou a gola do casaco de pelo de camelo, virou-se
de costas para o vento e ficou à espera. Mary Jane estava de
volta daí a instantes, limpando-se a um kleenex, parecendo
ainda nervosa, ansiosa até . Eloise exclamou animadamente
que o raio do almoço tinha ficado todo queimado - molej a,
tudo -, mas Mary Jane disse que de qualquer maneira j á tinha
comido, no caminho para ali. Enquanto se dirigiam as duas
para dentro, Eloise perguntou a Mary Jane como é que tinha
um dia de folga. Mary Jane disse que não era o dia todo; foi
só porque o Sr. Weyinburg tinha uma hérnia e estava em casa
em Larchmont, e ela tinha de trazer-lhe o correio e levar umas
J.D. SALINGER

cartas todas as tardes. E perguntou a Eloise: - O que é exata­


mente uma hérnia, afinal ? - Eloise, deitando o cigarro para
a neve a seus pés, disse que não sabia ao certo, mas que Mary
Jane não tinha de estar com medo de apanhar alguma. Mary
Jane disse « Üh » e as duas raparigas entraram em casa.
Vinte minutos depois, estavam a acabar o primeiro whisky
na sala de estar e a falar naquele tom peculiar, provavelmente
exclusivo, de antigas colegas de quarto. Tinham ainda um laço
mais forte a uni-las; nenhuma delas se tinha formado. Eloise
havia deixado a universidade a meio do segundo ano, em
1 942, uma semana depois de ter sido apanhada com um sol­
dado num elevador fechado no terceiro andar da residência
universitária. Mary Jane havia desistido - mesmo ano, mes­
mo curso, quase o mesmo mês - para se casar com um cade­
te aviador destacado em Jacksonville, na Florida, um rapaz
magro, fanático da aviação, de Dill, no Mississípi, que dos
três meses em que esteve casado com Mary Jane passara dois
na prisão, por ter esfaqueado um P.M.
- Não - estava a dizer Eloise. - De facto, era ruivo. -

Estava estendida no sofá, as pernas finas mas muito bonitas


cruzadas nos tornozelos.
- Tinham-me dito que era loiro - repetiu Mary Jane. Es­
tava sentada no canapé azul. - A não-sei-quantos j urou e tre­
jurou que era loiro.
- Ná-ná. Tenho a certeza - Eloise bocej ou. - Eu estava
praticamente no quarto com ela quando o tingiu. Mas o que
é isto ? Não há aqui cigarros ?
- Não faz mal. Tenho um maço inteiro - disse Mary
Jane. - Aqui em algum sítio. - Pôs-se a procurar na carteira.
- A parva daquela empregada - disse Eloise sem se me­
xer do sofá. - Ainda há uma hora lhe pus debaixo do nariz
dois pacotes completamente novos. Vai entrar, não tarda,
a perguntar-me o que fazer com eles. Onde raio ia eu ?
NOVE HISTÓRIAS 29

- Thieringer - lembrou Mary Jane, acendendo um dos


seus cigarros.
- Ah, pois. Lembro-me muito bem. Tingiu-o na noite an­
tes de se casar com um tal Frank Henke. Tens ideia dele ?
- Mais ou menos. Um magalita ? Bestialmente desengra­
çado ?
- Desengraçad o . Bola s ! Tinha o ar de um Bela Lugosi
deslavado.
Mary Jane atirou a cabeça para trás, rindo-se às gargalha­
d a s . - Que maravilha - disse ela, voltando à posição de
beber.
- Chega-me o teu copo - disse Eloise, fazendo girar até
ao chão os pés só com meias e levantando - s e . - A sério,
aquela parva. Tirando pedir ao Lew que fizesse amor com
ela, fiz tudo para a convencer a vir cá para casa. Agora j á me
arrependi de . . . Onde é que arranjaste isso ?
- Isto? - disse Mary Jane, levando a mão a um camafeu
j unto ao pescoço. - Já o tinha quando andava a estudar, por
amor de Deus. Era da minha mãe.
- Bolas - disse Eloise, com os copos vazios na mão. -
Eu não tenho o raio de coisa nenhuma de estimação para
usar. Se a mãe do Lew alguma vez morrer, ah, ah, se calhar
deixa-me é um picador de gelo antigo com monograma ou
coisa do género.
- Como é que te tens dado com ela, afinal ?
- Não m e faças rir - disse Eloise, a caminho d a cozinha.
- Este é mesmo o meu último! - gritou Mary Jane para ela.
- É o tanas. Quem é que ligou a quem ? E quem chegou
com duas horas de atraso ? Vais aguentar aqui até eu estar
farta de ti. Que se lixe a porcaria da tua carreira.
Mary Jane atirou novamente a cabeça para trás à garga­
lhada, mas Eloise já tinha ido para a cozinha.
Com poucas ou nenhumas aptidões para ficar só numa
sala, Mary Jane levantou-se e foi à janela. Afastou as cortinas
30 J.D. SALJNGER

e apoiou o pulso num dos caixilhos dos vidros, mas ao sentir


o pó tirou-o, limpou-o com a outra mão, e endireitou-se. Lá
fora, a neve enlameada estava a transformar-se visivelmente
em gelo. Mary Jane largou a cortina e voltou devagar para
o canapé azul, passando por duas estantes bem fornecidas
sem uma olhadela a um único título. Uma vez sentada, abriu
a carteira e usou o espelho para examinar os dentes. Apertou
os lábios e passou a língua com força por cima dos dentes da
frente, depois examinou-os de novo.
- Está a ficar gelado lá fora - disse ela, voltando-se. -
Poça, isso foi rápido. Não lhe puseste água tónica ?
Eloise, com uma nova bebida em cada mão, estacou. Esti­
cou os dois dedos indicadores, a imitar um cano de pistola,
e disse: - Ninguém se mexa. Tenho o raio da casa toda cer­
cada.
Mary Jane riu-se e guardou o espelho.
Eloise avançou com as bebidas. Colocou a de Mary Jane
vacilante em cima de uma base de copos, mas ficou com a
dela própria na mão. Estendeu-se de novo no sofá . - Que
julgas tu que ela está a fazer ali ? - disse ela. - Está sentada
naquele seu grande traseiro de preta a ler A Túnica. Deixei
cair as cuvetes de gelo ao tirá-las. E ela ainda levantou os
olhos aborrecida.
- Este é o último. A sério - disse Mary Jane pegando no
copo. - Ah, ouve esta ! Sabes quem eu vi a semana passada ?
No rés do chão do Lord & Taylor's ?
- Mm-hm - disse Eloise, ajeitando uma almofada debai­
xo da cabeça - Akim Tamiroff.
- Quem? - disse Mary Jane. - Quem é esse ?
- Akim Tamiroff. Do cinema. Um que está sempre a di-
zer « Isso é pra ter piada, hã ? » Adoro-o . . . Não há nesta casa
uma única almofada que eu aguente. Quem é que tu viste ?
- A Jackson. Estava . . .
NOVE HISTÓRIAS

- Qual delas ?
- Não sei. Aquela que andava no nosso curso de Psicolo-
gia, que estava sempre . . .
- Andavam a s duas n o nosso curso d e Psicologia.
- Bem, aquela que tinha uma incrível. . .
- A Mareia Louise. Também a encontrei u m a vez. Fala
que nunca mais se cala.
- Poça, é mesmo. Mas queres saber o que ela me disse ?
Que a doutora Whiting morreu. Disse ela que tinha recebido
uma carta da Barbara Hill a dizer que a Whiting tinha apanha­
do um cancro no verão passado e que morreu e assim. Pesava
só trinta quilos. Quando morreu. Não é terrível ?
- Não.
- Eloise, estás a ficar com um coração de pedra.
- Mm. Que mais disse ela ?
- Oh, tinha acabado de regressar da Europa. O marido
estava na tropa na Alemanha ou coisa assim, e ela estava com
ele. Tinham uma casa com quarenta e sete quartos, disse ela,
só para eles e mais um casal, e uns dez criados. Ela tinha o seu
próprio cavalo, e o moço de estrebaria deles tinha sido o mes­
tre de equitação privado do Hitler ou coisa assim. Ah, e co­
meçou a contar-me que esteve quase a ser violada por um sol­
dado de cor. Começa-me a contar isto ali em pleno rés do
chão do Lord & Taylor's . . . Sabes como é a Jackson . D isse
que ele era o motorista do marido e que a tinha levado ao
mercado ou coisa assim nessa manhã. Disse que ficou tão as­
sustada que nem sequer . . .
- Espera u m segundo - Eloise ergueu a cabeça e a voz.
- És tu, Ramona ?
- Sou - respondeu uma voz de criança.
- Fecha a porta quando entrares, faz favor - gritou Eloise.
- É a Ramona ? O h , estou morta por a ver. É que não
a vejo desde que ela teve o . . .
32 J.D. 5ALINGER

- Ramona - gritou Eloise, com os olhos fechados -, vai


à cozinha e diz à Grace para te tirar as galochas.
- Está bem - disse Ramona. - Anda, Jimmy.
- Oh, estou morta por a ver - disse Mary Jane. - Oh,
poça ! Olha o que eu fiz. Desculpa lá, El.
- Deixa. Deixa lá - disse Eloise. - De qualquer manei­
ra odeio o raio do tapete. Vou-te buscar outro.
- Não, olha, ainda ficou mais de metade ! - Mary Jane
levantou o copo.
- Tens a certeza ? - disse Eloise. - Dá-me um cigarro.
Mary Jane estendeu-lhe um maço de cigarros, dizendo: -
Oh, estou morta por a ver. Com quem é que ela é parecida,
agora ?
Eloise acendeu um fósforo. - Com o Akim Tamiroff.
- Não, a sério.
- Com o Lew. É parecida com o Lew. Quando a mãe dele
vem cá, parece que são trigémeos. - Sem se sentar, Eloise es­
ticou-se para chegar a uma pilha de cinzeiros na outra ponta
da mesa baixa. Conseguiu pegar no de cima e pô-lo sobre a
barriga. - O que eu preciso é de um cocker spaniel ou coisa
assim - disse ela. - Alguém que se pareça comigo.
- Como estão os olhos dela agora ? - perguntou Mary
Jane. - Quer dizer, não está pior ou assim, pois não ?
- Poça ! Que eu saiba não.
- Ela vê alguma coisa sem óculos ? Quer dizer, se se le-
vanta durante a noite para ir à casa de banho ou coisa assim.
- Não dizia nada a ninguém. Tem montes de segredos.
Mary Jane voltou-se na cadeira. - Olha, olá, Ramona ! -
disse ela. - Oh, que lindo vestido! - Poisou o copo. - Apos­
to que já nem te lembras de mim, Ramona.
- Claro que se lembra. Quem é esta senhora, Ramona ?
- Mary Jane - disse Ramona, coçando-se.
- Que maravilha ! - disse Mary Jane. - Ramona, dás-
-me um beijinho ?
NOVE HISTÓRIAS 33

- Para com isso - disse Eloise a Ramona.


Ramona parou de se coçar.
- Dás-me um beijinho, Ramona ? - perguntou Mary Jane
outra vez.
- Não gosto de dar beij os.
Eloise bufou e perguntou: - Onde está o Jimmy ?
- Está aqui.
- Quem é o Jimmy ? - perguntou Mary Jane a Eloise.
- Oh, sabes lá! O namorado dela. Vai para onde ela vai.
Faz o que ela faz. Tudo uma alegria.
- A sério ? - disse Mary Jane entusiasmada. Inclinou-se
para diante. - Tens um namorado, Ramona ?
Os olhos de Ramona, por trás de umas lentes espessas pa­
ra a miopia, não refletiam nem minimamente o entusiasmo de
Mary Jane.
- A Mary Jane fez-te uma pergunta , Ramona - disse
Eloise.
Ramona enfiou um dedo no narizinho achatado.
- Para com isso - disse Eloise. - A Mary Jane pergun-
tou-te se tens um namorado.
- Tenho - disse Ramona, ocupada com o nariz.
- Ramona - disse Eloise. - Para com isso. E é já.
Ramona baixou a mão.
- Bem, acho que é simplesmente uma maravilha - disse
Mary Jane. - Como se chama ele ? Dizes-me como ele se cha­
ma, Ramona ? Ou é um grande segredo ?
- Jimmy - disse Ramona.
- Jimmy? Oh, adoro o nome Jimmy! Jimmy quê, Ramona ?
- Jimmy Jimmereeno - disse Ramona.
- Está quieta - disse Eloise.
- Ena ! É um nome e tanto . Onde está o Jimmy ? D izes-
-me, Ramona ?
34 J.D. SALINGER

- Aqui - disse Ramona.


Mary Jane olhou em volta, depois olhou de novo para
Ramona, sorrindo o mais sedutora possível. - Aqui onde,
querida ?
- Aqui - disse Ramona. - Estou a pegar na mão dele.
- Não estou a perceber - disse Mary Jane para Eloise
que acabava a sua bebida.
- Não olhes para mim - disse Eloise.
Mary Jane voltou-se de novo para Ramona. - Ah, eu es­
tou a ver. O Jimmy é só um menino a fingir. Que maravilha.
- Mary Jane inclinou-se para diante, amistosa. - Como es­
tás, Jimmy ? - disse ela.
- Contigo não fala - disse Eloise. - Ramona, fala do
Jimmy à Mary Jane.
- Falar de quê?
- Põe-te direita, fazes favor. .. Diz à Mary Jane como é o
Jimmy.
- Tem olhos verdes e cabelo preto.
- Que mais ?
- Não tem papá nem mamã.
- Que mais ?
- Não tem sardas.
- Que mais ?
- Uma espada.
- Que mais ?
- Não sei - disse Ramona, e começou outra vez a coçar-se.
- Deve ser bonito ! - disse Mary Jane, e inclinou-se ain-
da mais para a frente no canapé. - Ramona, diz-me uma coi­
sa. O Jimmy também tirou as galochas dele quando entrou
em casa ?
- Ele traz botas - disse Ramona.
NOVE HISTÓRIAS 35

- Que maravilha - disse Mary Jane para Eloise.


- Para ti talvez. Eu aguento isto o dia inteiro . O Jimmy
come com ela. Toma banho com e l a . Dorme com ela . Ela
dorme toda chegada a uma beira da cama, para não o magoar
quando se vira.
Com um ar absorto e encantada com esta informação,
Mary Jane mordeu o lábio inferior, soltando-o depois para
perguntar: - E onde é que ele arranj ou esse nome ?
- Jimmy Jimmereeno ? Sabe Deus.
- Provavelmente algum miudito das vizinhanças.
Eloise, bocej ando, abanou a cabeça . - Não há miuditos
nas vizinhanças. Nenhuma criança. Chamam-me Fanny Fértil
nas minhas . . .
- Mamã - disse Ramona -, posso ir brincar l á para fora ?
Eloise virou-se para ela. - Ainda agora vieste para dentro
- disse ela.
- O Jimmy quer sair outra vez.
- Porquê, pode saber-se ?
- Deixou a espada lá fora.
- Oh, ele e o raio da espada dele - disse Eloise. - Bem.
Vai lá. Volta a calçar as galochas.
- Posso ficar com isto ? - disse Ramona, pegando num
fósforo queimado do cinzeiro.
- Posso ficar com isto, por favor. Podes. Não vás para
a rua, fazes favor.
- Adeus, Ramona ! - disse Mary Jane numa voz cantada.
- 'deus - disse Ramona - Anda, Jimmy.
Eloise levantou-se subitamente de um salto. - Dá cá o teu
copo - disse ela.
- Não, a sério, El. Já devia estar em Larchmont. Quer di­
zer, o senhor Weyinburg é tão amoroso, detesto estar a . . .
- Telefona-lhe e diz que te mataram. D á cá o raio d o copo.
J.D. SALINGER

- Não, sinceramente, El. Quer dizer, está a ficar um gelo


tremendo. Estou quase sem anticongelante no carro. Palavra,
se eu . . .
- Deixa gelar. Vai telefonar. Diz que estás morta - disse
Eloise. - Dá cá isso.
- Bem . . . Onde é o telefone ?
- Acho que ele foi . . . - disse Eloise, pegando nos copos
vazios e dirigindo-se para a sala de jantar, -. . . por aqui. -
Estacou no soalho entre a sala de estar e a sala de j antar e fez
um meneio com as ancas. Mary Jane deu uma risadinha.

- A sério, tu não ficaste a conhecer bem o Walt - disse


Eloise, eram cinco menos um quarto, deitada de costas no
chão, um copo em equilíbrio em cima do peito de seios pe­
quenos. - Era o único rapaz que conseguia fazer-me rir. Mas
mesmo rir. - Olhou para Mary Jane. - Lembras-te daquela
noite, no nosso último ano, quando aquela maluca da Louise
Hermanson entrou pelo quarto vestida com aquele sutiã preto
que tinha comprado em Chicago ?
Mary Jane deu uma risadinha . Estava deitada de barriga
no sofá, o queixo no apoio de braço, voltada para Eloise. Ti­
nha o copo no chão, ao alcance da mão.
- Bem, ele era capaz de me pôr a rir dessa maneira -
disse Eloise. - Fazia-me rir quando falava comigo. Fazia-me
rir ao telefone. E até por carta me fazia rir. E o mais engraça­
do é que ele nem sequer fazia por ter piada; ele tinha piada.
- Voltou ligeiramente a cabeça para Mary Jane. - Eh, e se
me atirasses um cigarro ?
- Não lhes chego - disse Mary Jane.
- Vai-te matar. - Eloise ficou novamente de olhos no
teto. - Uma vez - disse ela -, dei uma queda. Costumava
esperar por ele na paragem do autocarro, mesmo à saída do
NOVE HISTÓRIAS 37

casão militar, e uma vez ele chegou atrasado, mesmo no mo­


mento em que o autocarro ia a arrancar. Desatámos a correr
para o apanhar, e eu caí e torci o pé. E vai ele diz: « Coitado
do pai torcido. » Em vez de pé. Coitado do pai torcido, disse
ele . . . Poça, o que ele era amoroso.
- O Lew não tem sentido de humor ? - disse Mary Jane.
- O quê ?
- O Lew não tem sentido de humor?
- Oh, poça. Quem sabe ? Sim. Acho que sim. Ri-se com
os desenhos animados e assim. - Eloise levantou a cabeça, ti­
rou o copo de cima do peito e bebeu um gole.
- Bem - disse Mary Jane . - Isso não é tudo . Quer di-
zer, isso não é tudo.
- O que é que não é tudo ?
- Oh . . . tu sabes. Rir-se e assim.
- Quem diz que não é? - disse Eloise. - Ouve uma coisa,
quando não se vai para freira ou coisa assim, o melhor é rir.
Mary Jane deu uma risadinha. - Tu és incrível - disse ela.
- Ah, poça, o que ele era amoroso - disse Eloise. - Ti­
nha piada e era amoroso. Nada do género rapazinho amoro­
so, também. Era amoroso num género especial . Sabes o que
é que ele fez uma vez ?
- Ná - disse Mary Jane.
- Estávamos no comboio de Trenton para Nova Iorque . . .
Foi pouco depois de ele ter sido mobilizado. Estava frio na
carruagem e eu tinha posto o meu casaco meio por cima de
nós. Lembro-me que trazia por baixo aquela camisola da Joy­
ce Morrow . . . Lembras-te daquela camisola azul queridíssima
que ela tinha ?
Mary Jane disse que sim com a cabeça, mas Eloise não
olhou para ela para ver.
- Bem, ele tinha a bem dizer a mão em cima da minha
barriga, sabes. Seja como for, às tantas ele disse que a minha
J.D. 5ALINGER

barriga era tão linda que merecia que entrasse algum oficial
e o mandasse pôr a outra mão fora da j anela. Disse ele que há
coisas que tem de se pagar por elas. Depois tirou a mão e dis­
se ao cobrador para endireitar os ombros. Disse-lhe que se
havia coisa que não podia aguentar era um homem que pare­
cia não ter orgulho no uniforme que vestia. O cobrador só lhe
disse que voltasse a dormir. - Eloise refletiu um momento
e depois disse: - Não era tanto o que ele dizia, mas a manei­
ra como o dizia, percebes ?
- Alguma vez falaste nele ao Lew . . . Quer dizer, alguma
c01sa.
- Oh - disse Eloise -, uma vez comecei a contar. Mas
a primeira coisa que me perguntou foi qual era a patente dele.
- Qual era a patente dele ?
- Bah ! - disse Eloise.
- Não, queria só dizer . . .
Eloise desatou-se a rir subitamente, u m riso que lhe vinha
do diafragma. - Sabes o que é que ele disse uma vez ? Disse
que sentia que estava a avançar no Exército, mas numa dire­
ção diferente dos outros todos. Disse que quando fosse pro­
movido, em vez de lhe darem galões haviam de lhe arrancar
as mangas. Dizia ele que quando chegasse a general havia de
estar completamente nu. Não havia de ter mais nada do que
um botãozinho com o emblema da infantaria no umbigo. -
Eloise virou-se para Mary Jane, que não se ria. - Não achas
piada ?
- Acho. Mas porque é que não dizes nada ao Lew sobre ele?
- Porquê ? Porque ele é bestialmente pouco inteligente,
é só isso - disse Eloise. - E mais. Ouve bem o que te digo,
mulher de carreira, se alguma vez voltares a casar, não contes
nada ao teu marido. Estás-me a ouvir ?
- Porquê ? - disse Mary Jane.
NOVE HISTÓRIAS 39

- Porque sou e u que to digo, aí tens porquê - disse Eloi­


se. - O que eles querem é pensar que passaste a vida toda
a vomitar cada vez que algum rapaz se aproximava de ti.
E olha que não estou a brincar. Oh, podes sempre contar-lhes
umas coisas. Mas nunca sinceramente . Ouve o que te digo,
nunca sinceramente. Se lhes falas de um rapaz bonito que co­
nheceste em tempos, tens de lhes dizer logo de seguida que
era demasiado bonito. E se lhes falas num rapaz espirituoso,
tens de lhes dizer a seguir que era do género chico-esperto, ou
piadético. Senão hão de massacrar-te com o pobre do rapaz
sempre que tiverem uma oportunidade. - Eloise fez uma
pausa para beber um gole do seu copo e para pensar. - Oh
- disse ela -, vão-te ouvir com muita maturidade e tudo
isso. Vão até parecer inteligentes como o raio. Mas não te dei­
xes levar. Acredita em mim. Passas um inferno se alguma vez
acreditares na inteligência deles. Vai por mim.
Mary Jane, com um ar deprimido, levantou o queixo do
braço do sofá. Para variar, poisou-o no seu próprio braço. Fi­
cou a refletir no conselho de Eloise. - Não podes dizer que
o Lew não seja inteligente - disse em voz alta.
- Não posso o quê ?
- Quer dizer, não é inteligente ? - disse Mary Jane inge-
nuamente.
- Oh - disse Eloise -, de que serve falar ? Vamos mudar
de assunto. Ias ficar deprimida. Manda-me calar.
- Então, porque é que te casaste com ele, afinal ? - disse
Mary Jane.
- Oh, caramba ! Sei l á . Ele disse-me que adorava Jane
Austen. Disse-me que os livros dela eram muito importantes
para ele. Foram exatamente essas as palavras dele. Já depois
de casarmos, descobri que ele não tinha lido um único livro
dela. Sabes quem é o autor favorito dele ?
Mary Jane abanou a cabeça.
J.D. SALINGER

- L. Manning Vines. Alguma vez ouviste falar dele?


- Ná.
- Nem eu. Nem mais ninguém. Escreveu um livro sobre
quatro homens que morreram à fome no Alasca. O Lew não
se lembra do título, mas é o livro mais bem escrito que ele j á
l e u . Caraças! Nem sequer tem a honestidade de s e r sincero
e dizer que gostou do livro por ser acerca de quatro tipos que
morreram à fome num iglu ou coisa assim. Tem logo de dizer
que estava muito bem escrito.
- És muito crítica - disse Mary Jane. - Quer dizer, és
muito crítica. Talvez fosse um bom . . .
- Vai por mim, não podia ser - disse Eloise. Refletiu um
momento, depois acrescentou: - Tu, pelo menos, tens um
emprego. Quer dizer, tu pelo menos . . .
- Mas ouve uma coisa - disse Mary Jane. - Achas que
alguma vez lhe dirás que o Walt morreu, ao menos ? Quer di­
zer, ele não vai ter ciúmes, acho eu, se souber que o Walt
está ... enfim. Morto e tudo.
- Oh, meu amor! Minha pobre, inocente, menina de car­
reira - disse Eloise. - Ainda era pior. la ser um fantasma.
Ouve cá. Tudo o que ele sabe é que andei com alguém chama­
do Walt, um soldado qualquer que gostava de mandar piadas.
A última coisa de que me lembraria era dizer-lhe que ele mor­
reu. Mas mesmo a última. E, se o fizesse, e não faço, mas se
o fizesse dizia-lhe que tinha sido morto em combate.
Mary Jane avançou o queixo até à beira do braço.
- El. . . - disse ela.
- Sim.
- Porque é que não me dizes como ele morreu ? juro que
não conto a ninguém. A sério. Diz lá.
- Não.
- Diz lá. A sério. Eu não conto a ninguém.
Eloise acabou a bebida e voltou a pôr o copo vazio em cima
do peito. - Contavas ao Akim Tamiroff - disse ela.
NOVE HISTÓRIAS

- Não contava nada. Quer dizer, não contava a . . .


- O h - disse Eloise - , o regimento dele estava d e licen-
ça num sítio qualquer. Foi entre os combates ou coisa assim,
contou-me um amigo dele que me escreveu. O Walt e outro
rapaz qualquer estavam a pôr um pequeno fogareiro j aponês
num caixote . Um coronel qualquer queria mandá-lo para
casa. Ou estavam a tirá-lo do caixote para o embalarem, não
sei ao certo. Seja como for, o fogareiro estava cheio de gasoli­
na e outras coisas e explodiu na cara deles. O outro rapaz só
perdeu um olho. - Eloise desatou a chorar. Pôs a mão à vol­
ta do copo vazio em cima do peito para o segurar.
Mary Jane deixou-se escorregar para fora do sofá e, de
j oelhos, aproximou-se de Eloise e começou a afagar-lhe a ca­
beça. - Não chores, El. Não chores.
- Quem está a chorar ? - disse Eloise.
- Eu sei, mas não chores. Quer dizer, não serve de nada
ou assim.
A porta da entrada abriu-se.
- É a Ramona outra vez - disse Eloise, numa voz nasa­
lada. - Faz-me um favor. Vai à cozinha e diz àquela fulana
para lhe dar o jantar mais cedo. Não te importas ?
- Está bem, mas s ó se prometeres que não choras.
- Eu prometo . Vai lá. Não me apetece nada entrar no
raio dessa cozinha, neste momento.
Mary Jane levanto u - s e , perdendo e logo recuperando
o equilíbrio, e saiu da sala.
Voltou daí a menos do que dois minutos, com Ramona
a correr à frente dela. Ramona corria batendo os pés o mais
possível de chapa, para fazer o máximo de barulho com as
galochas desapertadas.
- Não me quis deixar tirar-lhe as galochas - disse Mary
Jane.
Eloise, ainda deitada de costas no chão, assoava-se a um
lenço. Ainda a assoar-se, dirigiu-se a Ramona : - Sai d aqui
42 J.D. SALINGER

e pede à Grace que te tire as galochas. Já sabes que não deves


entrar com . . .
- Está n a casa d e banho - disse Ramona.
Eloise afastou o lenço, soergueu-se para se sentar. - Dá
cá o teu pé - disse ela. - Senta-te primeiro, faz favor ... Aí
não, aqui. Poça !
De j oelhos, espreitando para debaixo da mesa à procura
dos cigarros, Mary Jane disse: - Ei. Adivinha o que aconte­
ceu ao Jimmy.
- Não faço ideia. Outro pé. Outro pé.
- Foi atropelado - disse Mary Jane. - Não é trágico ?
- Vi o Skipper com um osso - disse Ramona a Eloise.
- O que aconteceu ao Jimmy ? - perguntou-lhe Eloise.
- Foi atropelado e morreu . Vi o Skipper com um osso
e ele não deixou ...
- Mostra cá a tua testa um segundo - disse Eloise. Es­
tendeu a mão e palpou a testa a Ramona. - Parece-me que
estás com um pouco de febre . Vai dizer à Grace que te dê
o j antar lá em cima. Depois vais direita para a cama. Eu vou
lá acima depois. Agora vai, faz favor. Leva isto contigo.
Ramona saiu devagar da sala simulando passos de gigante.
- Atira-me um - disse Eloise a Mary Jane. - Vamos be­
ber mais um copo.
Mary Jane levou um cigarro a Eloise. - Não é espantoso ?
Aquilo do Jimmy? Que imaginação !
- Mmm. Vai buscar as bebidas, vais ? E traz a garrafa . . .
Não quero ir lá. O raio daquilo tudo cheira a sumo de laranja.

À s sete e cinco, tocou o telefone. Eloise levantou-se do


banco da j anela e procurou os sapatos no escuro. Não conse­
guiu encontrá-los. Em meias, avançou pausadamente, quase
NOVE HISTÓRIAS 43

languidamente, para o telefone. O ruído não acordou Mary


Jane, que dormia no sofá, de cara para baixo.
- Está - disse Eloise, sem ter acendido a luz do teto. -
Ouve, não posso ir ter contigo. Está cá a Mary Jane. Deixou
o carro mesmo diante do meu e não consegue encontrar a cha­
ve. Não posso sair. Passámos quase vinte minutos a procurá­
-la naquilo . . . na neve e isso. Se calhar podias pedir uma bo­
leia ao D ick e à Mildred. - Ficou à escuta . - O h . Bem,
isso é chato, miúdo. Porque é que vocês, os rapazes, não for­
mam um pelotão e fazem uma marcha até casa ? Tu podias
dizer a q u e l a treta do um- d o i s , u m - d o i s . P o d i a s fa zer de
manda chuva. - Ficou novamente à escuta . - Não sou en­
graçada - disse ela. - A sério, não sou. É só da minha cara.
- Desligou.
Deu uns passos, com menos firmeza, de volta à sala de es­
tar. No banco da janela deitou no copo o resto da garrafa de
whisky. Menos de um dedo. Bebeu-o, estremeceu, e sentou-se.
Quando Grace acendeu a luz na sala de j antar, Eloise teve
um sobressalto. Sem se levantar, chamou-a: - É melhor não
servir antes das oito, Grace. O senhor Wengler vai chegar um
bocado atrasado.
Grace surgiu à luz da sala de j antar, mas não avançou.
- A senhora vai ? - disse.
- Está a descansar.
- Oh - disse Grace. - Senhora Weng l e r , eu e stava
a pensar se o meu marido podia passar cá a noite. Há imenso
espaço no meu quarto e ele só tem de estar em Nova Iorque
amanhã de manhã e lá fora está tão mau.
- O seu marido ? Onde está ele ?
- Bem, neste momento - disse Grace - está na cozinha.
- Pois, mas acho que não pode passar cá a noite, Grace.
- Como ?
44 J.D. SALINGER

- Disse que acho que ele n ã o pode passar cá a noite .


A minha casa não é um hotel.
Grace ficou imóvel por instantes, depois disse: - Sim,
'nha senhora - e saiu para a cozinha.
Eloise deixou a sala de estar e subiu as escadas, fracamen­
te iluminadas pela luz que vinha da sala de j antar. Uma das
galochas de Ramona estava caída no patamar. Eloise pegou
nela e atirou-a, com toda a força, por cima do corrimão; a ga­
locha bateu no chão da entrada com um baque violento.
Acendeu a luz do quarto de Ramona e deixou o dedo no
interruptor, como que a apoiar-se . Ficou uns momentos em
silêncio a olhar para Ramona. Depois largou o interruptor
e aproximou-se da cama em passos rápidos.
- Ramona. Acorda. Acorda.
Ramona estava deitada toda encostada a um dos lados da
cama, a nádega direita por fora. Os óculos estavam em cima
de mesinha em forma de Pato Donald, muito bem arrumados
e com as hastes para baixo.
- Ramona!
A miudita acordou com um suspiro profundo. Abriu comple­
tamente os olhos, mas franziu-os quase de imediato. - Mamã ?
- Pensava que me tinhas dito que o Jimmy Jimmereeno
tinha sido atropelado e tinha morrido.
- O quê ?
- Ouviste bem - disse Eloise - Porque é que estás a dor-
mir toda para este lado?
- Porque sim - disse Ramona.
- Porque sim, o quê ? Ramona, não me apetece nada . . .
- Porque não quero magoar o Mickey.
- Quem?
- O Mickey - disse Ramona, e sfregando o nariz . -
Mickey Mickeranno.
NovE HISTÓRIAS 45

Eloise ergueu a voz num guincho: - Vais-te deitar no meio


da cama. E é já!
Ramona, extremamente assustada, limitou-se a levantar os
olhos para a mãe.
- Muito bem. - Eloise agarrou Ramona pelos tornozelos
e em parte a levantá-la, em parte a puxá-la, pô-la no meio da
cama. Ramona não se debateu nem chorou; deixou-se arras­
tar sem na realidade ceder.
- Agora toca a dormir - disse Eloise, ofegante. - Fecha
os olhos . . . Já te disse, fecha os olhos.
Ramona fechou os olhos.
Eloise aproximou-se do interruptor e apagou a luz. Mas
deixou-se ficar à porta um bom bocado. Depois, de repente,
precipitou-se, no escuro, para a mesinha de cabeceira, batendo
com o j oelho nos pés da cama. Mas demasiado determinada
para sentir a dor. Pegou nos óculos de Ramona e, agarrando­
-os com ambas as mãos, apertou-os contra a cara. Rolaram-lhe
lágrimas, molhando as lentes. - Coitado do Pai Torcido -
disse ela repetidamente . Depois, voltou a pôr os óculos na
mesinha, as lentes para baixo.
Inclinou-se, perdendo o equilíbrio, e começou a aconche­
gar os lençóis da cama de Ramona. Ramona estava acordada.
Estava a chorar e tinha estado a chorar. Eloise, ainda molha­
da de lágrimas, deu-lhe um beij o na boca, afastou-lhe os ca­
belos dos olhos e saiu do quarto.
Desceu as escadas, agora bastante titubeante, e acordou
Mary Jane.
- Qu'é isto ? Quem ? Hã? - disse Mary Jane, sentando-se
de rompante no canapé.
- Mary Jane. Ouve. Por favor - disse Eloise soluçando.
- Lembras-te do nosso ano de caloiras, quando eu pus aque-
le vestido castanho e amarelo que tinha comprado em Boise,
j.D. SALINGER

e a Miriam Ball me disse que j á ninguém usava aquele tipo de


vestidos em Nova Iorque, e eu chorei a noite inteira ? - Eloise
abanava o braço de Mary Jane. - Eu era boa rapariga - ro­
gou ela -, não era ?
Pouco antes da guerra
. �

com os esqu1mos

FAZIA CINCO MANHÃS D E SÁBADO SEGUIDAS que Ginnie Man­


nox j ogava ténis nos East Side Courts com Selena Graff, uma
colega na Miss Basehoar's. Ginnie considerava abertamente
Selena a maior chata da Miss Basehoar's - uma escola osten­
sivamente abundante em chatas de todos os tamanhos - mas
ao mesmo tempo nunca tinha conhecido ninguém como Sele­
na capaz de trazer tantas latas novas de bolas de ténis. O pai
de Selena fabricava-as ou coisa assim. (Um dia, ao jantar, para
edificação de toda a família Mannox, Ginnie evocou a visão
de um j antar em casa dos Graffs; incluía uma criada impe­
cável surgindo à esquerda de todos os convidados com, em
vez de um copo de sumo de tomate, uma lata de bolas de té­
nis . ) Mas esta coisa de deixar Selena em casa dela a seguir ao
ténis e depois ficar entalada - todas as vezes, sem exceção -
com a conta toda do táxi começava a bulir com os nervos de
Ginnie. Se se fosse a ver, a ideia de apanhar um táxi em vez
do autocarro para voltar para casa tinha sido de Selena. No
quinto sábado, no entanto, assim que o táxi começou a subir
a York Avenue, Ginnie repentinamente levantou a questão.
- Ei, Selena . . .
j.D. SALINGER

- Que é ? - perguntou Selena, ocupada a passar a mão


pelo tapete do táxi. - Não consigo encontrar o estojo da mi­
nha raquete ! - gemeu ela.
Apesar do tempo quente de maio, ambas as raparigas tra­
ziam casaco comprido por cima dos calções.
- Puseste-o no bolso - disse Ginnie. - Ei, ouve uma
c01sa . . .
- Caraças ! Salvaste-me a vida!
- Ouve - disse Ginnie, que não queria para nada a grati-
dão de Selena.
- Que é ?
Ginnie decidiu i r direita ao assunto . O táxi estava quase
a chegar à rua de Selena. - Não me apetece nada ser eu outra
vez a pagar o táxi todo, hoje - disse ela. - Não sou nenhu­
ma milionária, não sei se sabes.
Selena fez um ar primeiro surpreendido, depois magoado.
- Eu não pago sempre metade ? - perguntou ela, inocente.
- Não - disse Ginnie, cortante. - Pagaste metade no
primeiro sábado. No princípio do mês passado, já. E desde aí
mais nenhuma vez. Não quero ser implicativa, mas é que eu
tenho de me aguentar só com quarenta e cinco por semana.
E com isso tenho de . . .
- Eu trago sempre as bolas, não trago ? - perguntou Se­
lena, desagradável.
À s vezes Ginnie tinha ganas de matar Selena. - É o teu
pai que as faz ou coisa assim - disse ela. - Não te custam
nada. E eu tenho de pagar a mais pequena das . . .
- Pronto, pronto - disse Selena, e m voz alta e num tom
suficientemente categórico para levar a melhor. Com um ar
enfadado, rebuscou os bolsos do casaco . - Só tenho trinta
e cinco cêntimos - disse ela friamente. - Chega ?
- Não. Desculpa, mas deves-me um dólar e sessenta e cin­
co. Tenho tomado nota de todas as . . .
NOVE HISTÓRIAS 49

- Tenho de subir e pedir à minha mãe. Não podias espe­


rar até segunda? Podia levar o dinheiro para a ginástica, se
isso te faz feliz.
A atitude de Selena desafiava a clemência.
- Não - disse Ginnie. - Vou ao cinema hoj e à noite.
Preciso do dinheiro.
Num silêncio hostil, a s raparigas ficaram a olhar cada
uma para a sua janela até o carro se deter em frente do prédio
de Selena. Depois, Selena, que estava do lado do passeio, des­
ceu primeiro. Mal deixando aberta a porta do táxi, dirigiu-se,
com o ar enérgico e desdenhoso de uma rainha de Hollywood
em visita, para a entrada do prédio. Ginnie, a cara a arder,
pagou a corrida. Depois apanhou as coisas do ténis - raque­
te, toalha e chapéu - e seguiu Selena. Com quinze anos, Gin­
nie tinha quase um metro e oitenta nos seus ténis tamanho
40, e quando entrou no átrio a humilhante impertinência das
solas de borracha conferia-lhe uma arriscada qualidade ama­
dora. O que fez com que Selena preferisse ficar a o bservar
o mostrador por cima do elevador.
- Com isto ficas-me a dever um dólar e noventa - disse
Ginnie, em grandes passadas para o elevador.
Selena voltou-se: - Talvez estejas interessada em saber -
disse ela - que a minha mãe está bastante doente.
- Que é que ela tem ?
- Uma pneumonia, na prática. E se achas que me dá mui-
to prazer ir incomodá-la só por uma questão de dinheiro . . . -
Selena desferiu a frase incompleta com toda a naturalidade de
que era capaz.
Ginnie, de facto, ficou ligeiramente desarmada com esta
informação, qualquer que fosse o seu grau de veracidade, mas
não ao ponto de amolecer. - Não fui eu que lha peguei - dis­
se, e entrou com Selena no elevador.
Depois de Selena ter tocado à campainha do apartamento,
as raparigas foram recebidas - ou antes, a porta foi puxada
50 J.D. SALINGER

de dentro e deixada entreaberta - por uma criada de cor,


com quem, ao que parecia, Selena estava de relações cortadas.
Ginnie deixou as coisas do ténis numa cadeira d a entrada
e seguiu Selena. Na sala de estar, Selena voltou-se e disse:
- Importas-te de esperar aqui ? Posso ter de acordar a ma­
mã e tudo.
- Okay - disse Ginnie, e deixou-se cair no sofá.
- Nunca na vida me passou pela cabeça que podias ser
assim tão mesquinha - disse Selena, que estava suficiente­
mente zangada para usar a palavra « mesquinha » , mas sem
suficiente coragem para lhe dar ênfase.
- Agora já sabes - disse Ginnie, e abriu um número da
Vogue diante da cara. Manteve-a nesta posição até Selena ter
saído da sala, depois voltou a pô-la em cima do rádio. Relan­
ceou os olhos em volta, dando-lhe mentalmente uma arruma­
ção diferente, atirando fora candeeiros de mesa, retirando flo­
res artificiais. Na sua opinião, toda a sala era um horror - cara,
mas pirosa.
Subitamente, ouviu-se uma voz masculina gritar de outra
parte do apartamento: - Eric? És tu?
Ginnie calculou que fosse o irmão de Selena que nunca ti­
nha visto. Cruzou as pernas compridas, compôs a bainha do
casaco por cima dos j oelhos, e ficou à espera.
Um rapaz de óculos, pijama e sem chinelos irrompeu na
sala com a boca aberta. - Oh. Pensei que era o Eric, caraças
- disse ele. Sem se deter, e com movimentos extremamente de­
sajeitados, continuou pela sala fora, aconchegando qualquer
coisa contra o peito estreito. Sentou-se na ponta desocupada do
sofá. - Cortei agora mesmo o raio do dedo - disse ele bas­
tante irritado. Olhou para Ginnie como quem esperasse vê-la
ali sentada. - Alguma vez cortou o dedo ? Mesmo até ao osso
e tudo ? - perguntou ele. Havia uma verdadeira súplica na sua
voz estridente, como se Ginnie, com a sua resposta, pudesse
NOVE HISTÓRIAS 51

salvá-lo de uma qualquer forma de pioneirismo particular­


mente discriminatória.
Ginnie fitou-o. - Bem, até ao osso não - disse ela -
mas j á me cortei. - Ele era o rapaz, ou homem (não se sabia
ao certo o que fosse) mais esquisito que já vira. Trazia o cabelo
desgrenhado da cama. Tinha uma barba rala, aloirada, de uns
dois dias. E parecia . . . enfim, pateta. - Como é que se cortou ?
- perguntou ela.
Ele contemplava o dedo ferido, com a boca meio aberta.
- O quê ? - disse ele.
- Como é que se cortou?
- O caraças se eu sei - disse ele, com uma inflexão que
insinuava que a resposta a tal pergunta era irremediavelmente
obscura. - Andava à procura de uma coisa qualquer no raio
do caixote do lixo, e aquilo estava cheio de lâminas de barbear.
- Você é irmão da Selena ? - perguntou Ginnie.
- Sou. Bolas, estou a perder sangue como tudo. Não saia
daqui. Posso precisar da merda de uma transfusão.
- Pôs alguma coisa nisso?
O irmão de Selena afastou ligeiramente do peito o dedo feri­
do e ofereceu-o em espetáculo a Ginnie. - Só a merda de um
bocado de papel higiénico - disse ele. - Para o sangue. Como
quando nos cortamos a fazer a barba. - Fixou Ginnie de novo.
- Quem é você? - perguntou. - Amiga da parvalhona ?
- Somos da mesma turma.
- Ai sim ? Como se chama ?
- Virginia Mannox.
- Você é que é a Ginnie ? - disse ele, fixando-a com os
olhos franzidos atrás dos óculos. - É você a Ginnie Mannox?
- Sou - disse a Ginnie, descruzando as pernas.
O irmão de Selena voltou ao seu dedo, obviamente para
ele o verdadeiro e único foco de atenção na sala. - Conheço
52 J.D. SALINGER

a sua irmã - disse ele com indiferença . - Uma snobe do


caraças.
Ginnie endireitou-se. - Quem é que é snobe ?
- Ouviu muito bem.
- Ela não é snobe !
- Ai não que não é - disse o irmão de Selena.
- Não é!
- Ai não que não é. É a rainha. Rainha do raio das snobes.
Ginnie observou-o a levantar-se e a espreitar por baixo
das espessas dobras de papel higiénico do dedo.
- Você nem sequer conhece a minha irmã.
- Ai não que não conheço.
- Como se chama ela ? Qual é o nome dela ? - perguntou
Ginnie.
- Joan . . . Joan, a Snobe.
Ginnie ficou calada. - Como é ela ? - perguntou de súbito.
Nenhuma resposta.
- Como é ela ? - repetiu Ginnie.
- Se ela tivesse metade do que pensa que tem de gira, j á
era uma sorte d o caraças - disse o irmão d e Selena.
Isto tinha o peso de uma resposta interessante, na secreta
opinião de Ginnie. - Nunca a ouvi falar em si - disse ela.
- Isso deixa-me abalado. Dá-me um abalo do caraças.
- Sej a como for, está noiva - disse Ginnie, observando-
-o. - Casa-se para o mês que vem.
- Com quem ? - perguntou ele, levantando os olhos.
Ginnie aproveitou toda a vantagem que lhe dava o ele ter
levantado os olhos. - Ninguém seu conhecido.
Ele voltou ao apalpar do seu curativo improvisado. - Te­
nho pena dele - disse.
Ginnie abafou uma risadinha.
NOVE HISTÓRIAS 53

- Continua a sangrar como tudo. Acha que devia pôr al­


guma coisa nisto ? O que é que é bom para isto ? Mercurocro­
mo serve ?
- Tintura de iodo era melhor - disse Ginnie. Depois,
sentindo que a resposta era demasiado polida dadas as cir­
cunstâncias, acrescentou: - O mercurocromo não faz nada
neste caso.
- Porque não ? Que é que tem o mercurocromo ?
- Tem que não faz nada num caso destes, só isso. Precisa
é de tintura de iodo.
Ele olhou para Ginnie. - Mas arde muito, não arde ? -
perguntou ele. - Não arde como o raio ?
- Arde - disse Ginnie -, mas não o há de matar nem
nada que se pareça.
Aparentemente sem ressentimento pelo tom de Ginnie,
o irmão de Selena voltou ao seu dedo. - Não gosto de coisas
que ardem - disse ele.
- Ninguém gosta.
Ele concordou com um aceno. - Pois é - disse.
Ginnie observou-o um minuto. - Pare de mexer nisso -
disse ela de repente.
Como que em resposta a um choque elétrico, o irmão de
Selena retirou vivamente a mão do ferimento. Sentou-se um
pouco mais direito - ou antes, um pouco menos curvado. Fi­
xou um qualquer objeto na outra ponta da sala. Uma expressão
quase sonhadora invadiu o seu rosto irregular. Enfiou a unha
do indicador da mão válida entre dois dentes da frente e, reti­
rando uns restos de comida, voltou-se para Ginnie e pergun­
tou: - ]almoçou?
- Quê ?
- ]almoçou ?
Ginnie fez que não com a cabeça. - Como quando chegar
a casa - disse ela. - A minha mãe tem sempre almoço à mi­
nha espera quando chego a casa.
54 J.D. SALJNGER

- Tenho meia sanduíche de frango no quarto. Quer ? Não


lhe toquei nem nada.
- Não, obrigada. A sério.
- Veio agora de j ogar ténis, caraças. Não está com fome ?
- Não é isso - disse Ginnie, cruzando as pernas. - É só
que a minha mãe tem sempre o almoço à minha espera quan­
do chego a casa. Fica doida se não tenho fome, é por isso.
O irmão de Selena deu a impressão de aceitar esta explica­
ção. Pelo menos assentiu com a cabeça e olhou para outro la­
do. Mas voltou-se de repente. - E que tal um copo de leite ?
- disse ele.
- Não, obrigado . . . Agradeço na mesma.
Distraidamente, ele inclinou-se para diante e coçou o tor­
nozelo à mostra. - Como se chama esse tipo com quem ela
se vai casar ? - perguntou.
- Está a falar da Joan ? - disse Ginnie. - Dick Heffner.
O irmão de Selena continuou a coçar o tornozelo.
- É tenente da Marinha - disse Ginnie.
- Não me diga.
Ginnie deu uma risadinha. Observou-o a coçar o tornozelo
até ficar vermel h o . Quando ele começou a arrancar com
a unha uma pequena borbulha na perna, deixou de olhar.
- De onde é que conhece a Joan ? - perguntou ela. -
Nunca o vi lá em casa ou assim.
- Nunca estive no raio da sua casa.
Ginnie ficou à espera, mas não se seguiu nada a esta decla-
ração. - Onde é que a conheceu, então ? - perguntou.
- Festa - disse ele.
- Numa festa ? Quando ?
- Eu sei lá. Natal de quarenta e dois. - Do bolso do peito
do pij ama pescou com dois dedos um cigarro com aspeto de
alguém ter dormido em cima dele. - É capaz de me atirar es­
ses fósforos ? - disse ele. Ginnie passou-lhe uma caixa de fós­
foros que estava na mesa a seu lado. Ele acendeu o cigarro sem
NOVE HISTÓRIAS 55

o endireitar, depois voltou a meter na caixa o fósforo queima­


do. Dando um j eito para trás à cabeça, soltou devagar uma
baforada de fumo e aspirou-a em seguida pelas narinas. Con­
tinuou a fumar neste estilo «à francesa » . Muito provavelmen­
te não fazia parte do espetáculo de salão de alguém que se
quer exibir, mas antes uma demonstração da façanha pessoal
de um rapaz que, uma vez ou outra, deve ter tentado barbear­
-se com a mão esquerda.
- Porque é que a Joan é uma snobe ? - perguntou Ginnie.
- Porquê ? Porque é. Como raio hei de eu saber porquê ?
- Sim, mas porque diz que é ?
Ele virou-se para ela com u m a r enfadado. - Oiça. Escre­
vi-lhe o raio de oito cartas. Oito. Ela nem a uma respondeu.
Ginnie hesitou. - Bem, talvez andasse ocupada.
- Pois. Ocupada. Ocupada como a merda de uma formi-
guinha.
- Tem de praguejar sempre tanto ? - perguntou Ginnie.
- Tanto uma merda.
Ginnie soltou uma risadinha. - Há quanto tempo a co­
nhece, afinal ? - perguntou.
- Há tempo que baste.
- Bem, quer dizer, alguma vez lhe telefonou ou coisa as-
sim ? Enfim, nunca lhe telefonou ou coisa assim ?
- Ná.
- Então, bolas. Se nunca lhe telefonou ou . . .
- Não podia, cos diabos!
- Porque não ? - disse Ginnie.
- Não estava em Nova Iorque.
- Ah! Onde estava ?
- Eu ? Ohio.
- Ah, estava na universidade ?
J.0 . 5ALINGER

- Ná. Larguei.
- Ah, estava na tropa?
- Ná . - Com o cigarro na mão, o irmão de Selena deu
uma palmada no lado esquerdo do peito. - O relógio - dis­
se ele.
- O coração, é isso ? - disse Ginnie. - Que é que tem ?
- Sei lá que raio tem ele. Tive febre reumática quando era
puto. Umas dores do caraças no . . .
- Então, não devia deixar d e fumar ? Quer dizer, não de­
via deixar de fumar e assim ? O médico disse ao meu . . .
- Ah, eles dizem uma data d e coisas - disse ele.
Ginnie aguentou um instante sem dizer nada . Um curto
instante. - Que estava a fazer no Ohio ? - perguntou.
- Eu? Estava a trabalhar no raio de uma fábrica de aviões.
- Estava ? - disse Ginnie. - E gostava ?
- « E gostava ? » - arremedou ele. - Adorava. Adoro
aviões. São tão giros.
Ginnie nesta altura estava demasiado lançada para se sen­
tir afrontada. - Quanto tempo trabalhou lá ? Na fábrica de
aviões ?
- Sei l á eu, caraças. Trinta e sete meses. - Levantou-se
e foi à j anela. Olhou para baixo para a rua, coçando as costas
com o polegar. - Olhe para eles - disse. - Parvos do caraças.
- Quem ? - disse Ginnie.
- Sei lá. Todos.
- O seu dedo vai começar a sangrar outra vez se o tiver
assim para baixo - disse Ginnie.
Ele pareceu dar-lhe ouvidos . Pôs o pé esquerdo em cima
do banco da j anela e poisou a mão na coxa, agora na hori­
zontal. Continuou a olhar para a rua em baixo. - Vão todos
para a merda do serviço de recrutamento - disse ele. - Da
próxima vez vamos combater contra os esquimós. Sabia ?
NOVE HISTÓRIAS 57

- Os quê ? - disse Ginnie.


- Os esquimós ... Abra esses ouvidos, caraças.
- Porquê os esquimós ?
- Eu sei lá porquê. Como raio havia eu de saber ? Desta
vez todos os velhos têm de ir. Tipos à volta dos sessenta. Não
pode ir ninguém com menos de uns sessenta anos - disse ele.
- Basta dar-lhes turnos mais curtos . . . Só visto.
- De qualquer maneira, você não seria obrigado a ir -
disse Ginnie, sem outra intenção que a de dizer a verdade, em­
bora sabendo, antes de ter acabado a frase, que estava a dizer
a coisa errada.
- Eu sei - disse ele apressadamente, e retirou o pé do
banco da j anela. Levantou um pouco a j anela e atirou o cigar­
ro para a rua. Depois voltou-se, desinteressado da j anela. -
Ei. Faça-me um favor. Quando chegar aí um tipo, diga-lhe
que estou pronto daqui a uns segundos. É s ó barbear-me,
mais nada. Pode ser ?
Ginnie fez que sim com a cabeça.
- Quer que diga à Selena para se despachar ou assim ? Ela
sabe que está aqui ?
- Oh, sabe que estou, sim - disse Ginnie. - Não estou
com pressa. Obrigado.
O irmão de Selena assentiu. Depois deu um último e de­
morado olhar ao dedo ferido, como que a ver se estaria em
condições de fazer a viagem de regresso ao quarto.
- Porque não põe um adesivo nisso ? Não tem pensos rá­
pidos ou assim ?
- Ná - disse ele. - Bem, passe bem. - E afastou-se
pausadamente da sala.
Daí a segundos, estava de volta, trazendo a metade de san­
duíche.
- Coma isto - disse ele. - É boa.
- A sério, não estou nada com . . .
J.D. SALINGER

- Tome lá, caraças. Não lhe pus veneno nem nada.


Ginnie aceitou a metade de sanduíc h e . - Bem, muito
obrigada - disse ela.
- É de frango - disse ele, especado diante dela, obser­
vando-a. - Comprei-a ontem à noite no raio de uma charcu­
taria.
- Tem bom aspeto.
- Bem, então coma-a.
Ginnie deu-lhe uma dentada.
- Boa, hã ?
Ginnie engoliu com dificuldade. - Muito - disse ela.
O irmão de Selena concordou com a cabeça . Olhou dis­
traidamente em torno da sala, coçando o peito. - Bem, acho
que é melhor ir-me vestir . . . Caraças! Estão a tocar. Passe bem,
então ! - E desapareceu.

Vendo-se só, Ginnie olhou à sua volta, sem se levantar,


à procura de um bom sítio para deitar fora ou esconder a san­
duíche. Ouviu alguém a chegar da entrada, pôs a sanduíche
no bolso do casaco.
Um rapaz de uns trinta e poucos anos, nem alto nem bai­
xo, entrou na sala. Os traços regulares, o cabelo curto, o corte
do fato, o padrão da gravata não forneciam ainda assim sufi­
ciente informação. Podia ser que trabalhasse, ou andasse a ver
se entrava, para alguma revista. Podia ter trabalhado numa
peça que tivesse acabado em Filadélfia. Podia ser de uma fir­
ma de advogados.
- Olá - disse ele, cordialmente, a Ginnie.
- Olá.
- Viu o Franklin ? - perguntou ele.
- Está a fazer a barba. Pediu-me para lhe dizer que espe-
rasse por ele. Que não demora nada.
NOVE HISTÓRIAS 59

- A fazer a barba. Valha-me Deus. - O rapaz consultou


o relógio. D epois sentou-se numa poltrona de damasco ver­
melho, cruzou as pernas, e levou as mãos à cara. Ou porque
estivesse extenuado, ou porque sentisse os olhos fatigados,
pôs-se a esfregar os olhos fechados com a ponta dos dedos esti­
cados. - Esta foi a manhã mais horrível de toda a minha vida
- disse ele, retirando as mãos da cara. Falava só pela laringe,
como se estivesse completamente esgotado para pôr um pouco
de respiração do diafragma nas palavras.
- Que lhe aconteceu ? - perguntou Ginnie, fitando-o.
- Oh . . . Isso é uma longa história. Não gosto de aborrecer
pessoas que não conheça pelo menos há mil anos. - Ficou
a olhar, vago, desconsolado, na direção das j anelas . - Mas
nunca mais volto a considerar-me por mais remotamente que
sej a j uiz da natureza humana. Pode citar-me à vontade nesta
matéria.
- Que lhe aconteceu ? - repetiu Ginnie.
- Oh, cos diabos. A pessoa que partilhava o meu aparta-
mento há meses e meses e meses . . . Nem sequer quero falar
nele . . . Esse escritor - acrescentou com satisfação, provavel­
mente lembrando-se de algum anátema preferido de um roman­
ce de Hemingway.
- Que é que ele fez ?
- Francamente, preferia n ã o entrar e m pormenores -
disse o rapaz. Tirou um cigarro do seu próprio maço, sem li­
gar à cigarreira transparente em cima da mesa, e acendeu-o
com o seu isqueiro. Tinha umas mãos grandes. Não pareciam
nem fortes, nem hábeis, nem sensíveis. Mas ele usava-as como
se possuíssem uma qualquer energia estética própria dificil­
mente controlável. - Já decidi nem sequer pensar mais no
caso. Mas é que estou mesmo furioso - disse ele. - Quer di­
zer, vem-me este suj eitinho horroroso de Altoona, na Pensil­
vânia, ou um lugar desses. Com um ar de quem está a morrer
60 J.D. SALINGER

àfome. Sou suficientemente bom e decente . . . o Bom Samarita­


no original sou eu . . . para o levar para o meu apartamento,
um apartamentozinho absolutamente microscópico onde eu
próprio mal me consigo mexer. Apresento-o a todos os meus
amigos. Deixo-o atulhar-me o apartamento todo com os hor­
rorosos manuscritos dele, e beatas, e rabanetes, e sei lá que
mais. Apresento-o a todos os produtores teatrais de Nova Ior­
que . Carrego da lavandaria as noj entas camisas dele de um
lado para o outro. E por cima disto tudo . . . - O rapaz deteve­
-se subitamente. - E a paga de toda a minha bondade e de­
cência - prosseguiu - foi que ele se pôs a andar de casa às
cinco ou seis da madrugada, sem sequer deixar um bilhete, le­
vando tudo e mais alguma coisa a que pôde deitar aquelas
mãos noj entas e sujas. - Fez uma pausa para tirar uma fu­
maça e lançou pela boca um fio de fumo delgado e sibilante.
- Nem quero falar nisso. A sério que não. - Olhou para Gin­
nie. - Adoro o seu casaco. - disse ele, já levantado da poltro­
na. Atravessou a sala e agarrou a lapela do casaco de Ginnie
entre os dedos. - É giríssimo . É o primeiro pelo de camelo
realmente bom que vej o depois da guerra. Posso saber onde
é que o comprou ?
- Foi a minha mãe que mo trouxe de Nassau.
O rapaz assentiu com ar entendido e voltou para a cadei­
ra. - É um dos raros sítios onde se pode comprar pelo de ca­
melo realmente bom. - Sentou-se. - Esteve lá muito tempo?
- Como ? - disse Ginnie.
- A sua mãe esteve lá muito tempo ? A razão por que per-
gunto isso é porque a m inha mãe esteve lá em dezemb r o .
E parte d e j aneiro. É habitual e u i r com ela, mas tem sido um
ano tão complicado que simplesmente não podia sair daqui.
- Esteve lá em fevereiro - disse Ginnie.
- Incrível. Onde é que ela ficou? Sabe ?
NOVE HISTÓRIAS 61

- Em casa da minha tia.


Ele fez que sim com a c a beça . - Posso perguntar-lhe
o nome ? É amiga da irmã do Franklin, calculo eu.
- Somos colegas - disse Ginnie, respondendo só à últi­
ma pergunta.
- Não me diga que é você a famosa Maxine de quem
a Selena fala, é?
- Não - disse Ginnie.
O rapaz começou de repente a sacudir as bainhas das cal­
ças com a palma da mão. - Estou cheio de pelos de cão da
cabeça aos pés - disse ele. - A mãe foi passar o fim de sema­
na a Washington e depositou-me o bicho no meu apartamento.
É realmente um amor. Mas com uns hábitos horrorosos. Você
tem cão ?
- Não.
- No fundo, acho que é uma crueldade tê-los numa cida-
de. - Parou de se limpar, recostou-se, e voltou a consultar
o relógio. - Nunca vi este rapaz chegar a horas. Vamos ver
A B ela e o Monstro de Cocteau, que é precisamente o filme
a que tem de se chegar realmente a horas. Quer dizer, senão
lá se vai todo o encanto. Já o viu ?
- Não.
- Oh, tem de ir! Já o vi oito vezes. É absolutamente génio
puro - disse ele. - Há meses que ando a tentar convencer
o Franklin a ir vê-lo. - Abanou a cabeça, desencoraj ado. -
Tem cá uns gostos. Durante a guerra, trabalhámos os dois no
mesmo sítio horroroso, e aquele rapaz insistia em me arrastar
para os filmes mais impossíveis do mundo . Vimos fitas de
gângsteres, fitas de cowboys, musicais . . .
- Também trabalhou n a fábrica d e aviões? - perguntou
Ginnie.
- Bolas, trabalhei. Durante anos e anos e anos. Não fale­
mos nisso, por favor.
62 J.D. SALINGER

- Tem problemas no coração, também ?


- Não, graças a Deus. Deixe-me tocar na madeir a . -
Bateu duas vezes no braço da poltrona. - Tenho uma consti­
tuição de . . .

Assim que Selena entrou n a sala, Ginnie levantou-se rapi­


damente e foi ao encontro dela. Selena tinha tirado os calções
e posto um vestido, uma coisa que normalmente teria irritado
Ginny.
- Desculpa ter-te feito esperar - disse Selena, sem since­
ridade - mas tive de esperar que a Mamã acordasse . . . Olá,
Eric.
- Olá, olá !
- Não quero o dinheiro, de qualquer maneira - disse
Ginnie, falando em voz baixa, de modo a ser ouvida apenas
por Selena.
- O quê ?
- Estive a pensar. Quer dizer, tu trazes as bolas de ténis
e tal, todas as vezes. Esqueci-me disso.
- Mas tu disseste que como eu não tinha de as pagar. . .
- Vem comigo até à porta - disse Ginnie, adiantando-se,
sem se despedir de Eric.
- Mas pensei que tinhas dito que i a s ao cinema logo
à noite e que precisavas do dinheiro e tudo ! - disse Selena, j á
n a entrada.
- Estou cansadíssima - disse Ginnie. Dobrou-se e pegou
no equipamento de ténis. - Ouve. Ligo-te a seguir ao j antar.
Vais fazer alguma coisa de especial hoje à noite ? Talvez passe
por cá.
Selena pregou os olhos nela e disse: - Está bem.
Ginnie abriu a porta da entrada e deu uns passos para fo­
ra. Chamou o elevador. - Conheci o teu irmão - disse ela.
NOVE HISTÓRIAS

- Ai sim ? Não é uma personagem ?


- Que faz ele, afinal ? - perguntou Ginnie, num tom des-
prendido. - Trabalha ou assim ?
- Despediu-se há pouco. O papá quer que ele volte para
a universidade, mas ele não quer.
- Porquê ?
- Eu sei lá. Diz que é velho demais e isso.
- Que idade tem ele ?
- Eu sei lá. Vinte e quatro.
As portas do elevador abriram-se. - Ligo-te mais tarde !
- disse Ginnie.
Ao sair do prédio, seguiu em direção à Lexington para
apanhar o autocarro. Entre a Terceira e a Lexington, enfiou
a mão no bolso do casaco à procura da carteira e encontrou
a metade de sanduíche. Tirou-a e começou a baixar o braço
para a deitar fora, mas em vez disso voltou a pô-la no bolso.
Uns anos antes, tinha levado três dias para se desembaraçar
de um pintainho de Páscoa que havia encontrado morto na
serradura no fundo do caixote do lixo.
O homem que ri

EM 1 9 2 8 , TÍNHA E U NOVE ANOS, pertencia, com o máximo de


esprit de corps, a uma organização conhecida como Coman­
che Club. Nos dias de escola, às três da tarde, éramos vinte
e três Comanches a ser recolhidos pelo nosso Chefe à saída da
Escola Pública n.0 1 65, na Rua 1 09 perto da Amsterdam Ave­
nue. Entrávamos então à cotovelada e ao empurrão para o ve­
lho autocarro reciclado do Chefe e ele conduzia-nos (nos ter­
mos de um acordo pecuniário com os nossos pais) até ao
Central Park. Durante o resto da tarde, permitindo o tempo,
j ogávamos futebol, futebol americano ou basebol, dependen­
do (muito por alto ) da época do ano. Nas tardes de chuva,
o Chefe invariavelmente levava-nos ora ao Museu de História
Natural ora ao Metropolitan Museum of Art.
Aos sábados e na maior parte dos feriados, o Chefe apa­
nhava-nos de manhã cedo nas nossas diferentes casas e, no
autocarro que parecia a desfazer-se, levava-nos para fora de
Manhattan até aos comparativamente vastos espaços de Van
Cortland Park ou às Palisades. Se estávamos virados para os
desportos, íamos para o Van Cortland Park onde os campos
de j ogos tinham a dimensão regulamentar e onde a equipa
66 J.D. SALINGER

adversária não incluía nenhum carrinho de bebé nem velhas


furiosas de bengala na mão. Se os nossos corações Coman­
ches se inclinavam para o campismo, íamos para as Palisades
e mergulhávamos na natureza. ( Lembro-me de me ter perdido
certo sábado algures naquela zona de terreno tramada entre
o marco de Linit e o extremo oeste da Ponte George Washing­
ton. Mas não perdi a cabeça. Limitei-me a ficar sentado à
sombra majestosa de um enorme painel publicitário e, ainda
que lacrimej ante, abri a minha lancheira para estar ocupado,
quase certo de que o Chefe havia de me encontrar. O Chefe
encontrava-nos sempre. )
Nas horas em que o s Comanches o deixavam livre, o Che­
fe era John Gedsudski, de Staten Island. Era um j ovem de vin­
te e dois ou vinte e três anos, extremamente tímido e amável,
estudante de Direito na Universidade de Nova Iorque, e tudo
somado uma pessoa bastante memorável. Não tentarei enu­
merar aqui todas as suas façanhas e virtudes. Queria só referir
que atingiu o grau de Á guia nos escuteiros, que por pouco
não foi o melhor médio de futebol americano de 1 926, e to­
dos sabiam que tinha recebido um convite extremamente cor­
dial para se candidatar à equipa de basebol dos Giants de
Nova Iorque . Era um árbitro imparcial e imperturbável em
todas as nossas caóticas competições desportivas, um mestre
a acender ou apagar fogueiras e um socorrista experimentado
e sem recriminações. Todos nós, do mais pequeno ao maior
mariola, o amávamos e respeitávamos.
O aspeto físico do Chefe em 1 928 está ainda vivo na mi­
nha memória. Se os desejos fossem centímetros, todos nós, os
Comanches, teríamos feito dele um gigante num abrir e fechar
de olhos. Sendo as coisas como são, porém, o Chefe era um
rapaz entroncado de um metro e sessenta ou sessenta e dois,
não mais. Tinha um cabelo preto carregado, cuj o contorno
começava muito em baixo, o nariz largo e carnudo, e o torso
quase do mesmo comprimento que as pernas. No seu blusão de
NOVE HISTÓRIAS

couro, os ombros eram sólidos, mas estreitos e descaídos.


Nesse tempo, porém, eu achava que no Chefe se tinham con­
j ugado todas as qualidades fotogénicas de Buck Jones, Ken
Maynard e Tom Mix harmoniosamente amalgamadas.

Todas as tardes, assim que começava a ficar suficiente­


mente escuro para a equipa que estivesse a perder ter uma
desculpa para falhar umas quantas bolas batidas para o cen­
tro do campo ou uns passes longos, nós, Comanches, entregá­
vamo-nos maciça e egoisticamente aos talentos de contador
de histórias do Chefe. Ao chegar essa hora, éramos normal­
mente um bando excitado e irritável, disputando - com os
punhos ou com as nossas vozes esganiçadas - os lugares do
autocarro mais próximos do Chefe. (O autocarro tinha duas
filas paralelas de assentos de palha. A fila da esquerda tinha
três assentos mais - os melhores do autocarro - colocados
mais à frente à altura do condutor. ) O Chefe só subia para
o autocarro depois de estarmos instalados. A seguir, sentava­
-se voltado para trás no lugar do condutor e, na sua voz de
tenor aflautada mas modulada, contava-nos o novo episódio
de « Ü homem que ri » . Desde que tinha começado a história,
o nosso interesse nunca diminuíra . « Ü homem que ri » era
exatamente a história indicada para um Comanche. Talvez ti­
vesse até uma dimensão clássica. Era uma história que tendia
a alastrar em todas as direções e que no entanto se mantinha
essencialmente portátil . Podíamos sempre levá-la para casa
connosco e refletir nela enquanto estávamos sentados, por
exemplo, com a água a correr na banheira.
Filho único de um casal de missionários abastados, o Ho­
mem Que Ri foi raptado em criança por bandidos chine­
ses. Quando o casal de missionários abastados se recusou
(por razões religiosas) a pagar o resgate do filho, os bandidos,
68 J.D. SALINGER

extremamente enraivecidos, colocaram a cabeça do rapazinho


num torno de carpinteiro e giraram a alavanca várias vezes
para a direita. A vítima desta experiência singular foi-se tor­
nando num adulto com uma cabeça calva em forma de noz
e uma cara que apresentava, em vez de uma boca, uma enor­
me cavidade oval por baixo do nariz. O nariz por seu turno
consistia em duas narinas tapadas. Por isso, cada vez que
o Homem Que Ri respirava, aquela abertura horrível, aflitiva,
por baixo do nariz dilatava-se e contraía-se como (é assim que
eu o imagino) uma espécie de monstruoso vacúolo. (Mais do
que explicar, o Chefe demonstrava o método de respiração de
o Homem Que Ri. ) Os estranhos caíam redondos à vista da
cara horrenda de o Homem Que Ri. Os conhecidos evitavam­
-no. Por estranho que pareça, no entanto, os bandidos deixa­
vam-no andar à solta pelo seu quartel-general - desde que
mantivesse a cara tapada com uma máscara levíssima de um
vermelho pálido feita de pétalas de papoila. A máscara não só
poupava aos bandidos a visão da cara do seu filho adotivo,
como também os mantinha informados da localização dele;
dadas as circunstâncias, ele tresandava a ópio.
Todas as manhãs, na sua solidão extrema, o Homem Que
Ri esgueirava-se ( tinha o passo gracioso de um gato ) para
a densa floresta que rodeava o esconderijo dos bandidos. Uma
vez aí travava amizade com qualquer número e espécie de ani­
mais: cães, ratos-brancos, águias, leões, j iboias, lobos. Além
disso, retirava a máscara e falava com eles, suave e melodiosa­
mente, nas suas próprias linguagens. Os animais não o acha­
vam feio.
(O Chefe levou uns meses a chegar a este ponto da histó­
ria. A partir daí, foi-se tornando cada vez mais arbitrário nos
episódios, para inteira satisfação dos Comanches. )
O Homem Que Ri não tinha igual para encostar o ouvido
ao chão e num abrir e fechar de olhos ficar a saber os mais
NOVE HISTÓRIAS

valiosos segredos profissionais dos bandidos. Não os tinha em


grande conta, porém, e depressa montou o seu próprio sistema,
mais eficaz. Numa escala relativamente pequena, a princípio,
começou a atuar sozinho nas zonas rurais chinesas, roubando,
assaltando, assassinando quando absolutamente necessário.
Não tardou a que os seus engenhosos métodos criminosos,
aliados a um singular amor pelo jogo leal, lhe valessem um lu­
gar caloroso no coração do país. Por estranho que pareça, os
seus pais adotivos ( o s bandidos que tinham começado por
orientar as suas ideias para o crime) foram a bem dizer os úl­
timos a ouvir falar nas proezas dele. Quando souberam, fica­
ram loucos de invej a. Uma noite desfilaram um a um diante
da cama de o Homem Que Ri, pensando tê-lo posto a dormir
profundamente com uma droga, e golpearam o vulto debaixo
dos cobertores com as suas catanas. Veio a ver-se que a vítima
era a mãe do chefe dos bandidos - pessoa antipática e quezi­
lenta . O acontecido apenas aguçou o apetite dos bandidos
pelo sangue de o Homem Que Ri e no fim ele viu-se obrigado
a fechar a quadrilha toda num mausoléu profundo, ainda que
agradavelmente decorado. Eles escapavam-se de vez em quan­
do e causavam-lhe algumas contrariedades, mas ele recusava­
-se a matá-los. (Havia um lado bondoso no carácter de o Ho­
mem Que Ri que quase me deixava louco. )
Não tardou a que o Homem Que Ri atravessasse regular­
mente a fronteira entre a China e Paris, em França, onde se
divertia a exibir o seu génio imenso mas modesto na cara de
Marcel Dufarge, o detetive inteligente e tuberculoso de fama
internacional. Dufarge e a filha (uma rapariga elegantíssima,
embora com algo de travesti ) tornaram-se nos piores inimi­
gos de o Homem Que Ri. Vezes sem conta, tentaram atrair
a uma ratoeira o Homem Que Ri. Por puro prazer, o Homem
Que Ri costumava segui-los até meio-caminho, para depois
J. 0. SALINGER

desaparecer, a maior parte das vezes sem deixar a mínima in­


dicação plausível do seu método de fuga. Limitava-se a lançar
de vez em quando no sistema de esgotos de Paris um sarcásti­
co bilhetinho de despedida que era prontamente levado até
junto à bota de Dufarge. Os Dufarges passavam uma data de
tempo a chafurdar no meio dos esgotos de Paris.
A curto prazo, o Homem Que Ri tinha acumulado a maior
fortuna pessoal do mundo. Grande parte dela ia para contri­
buições anónimas para um mosteiro local - ascetas humildes
que tinham dedicado a vida à criação de cães-polícias ale­
mães. O resto da sua fortuna era convertido em diamantes que
o Homem Que Ri despreocupadamente despej ava, em criptas
de esmeralda, no mar Negro . As suas necessidades pessoais
eram poucas. Alimentava-se exclusivamente de arroz e sangue
de águia, numa cabana exígua com um ginásio e uma sala de
tiro subterrâneos, na tempestuosa costa tibetana. Viviam com
ele quatro acólitos de uma lealdade cega: um lobo cinzento
desenvolto chamado Asa Negra, um anão adorável chamado
Omba, um gigante mongol chamado Hong, a quem os bran­
cos tinham queimado a língua, e uma belíssima rapariga eura­
siática, que, pelo amor não correspondido que tinha por o
Homem Que Ri e a profunda preocupação pela segurança
pessoal dele, revelava por vezes uma atitude bastante reticente
em relação ao crime. O Homem Que Ri dava as suas ordens
a este grupo através de uma cortina de seda preta. Nem se­
quer Omba, o anão adorável, estava autorizado a ver a sua
cara.
Não quer dizer que o faça, mas poderia continuar horas
a fio a acompanhar o leitor - à força , se necessário - de
um lado para o outro da fronteira Paris- China . A verdade
é que considero o Homem Que Ri como uma espécie de su­
perdistinto antepassado meu - uma espécie de Robert E. Lee,
digamos, com as correspondentes virtudes mantidas debaixo
NOVE HISTÓRIAS 71

de água ou sangue. E esta ilusão é das mais moderadas com­


parada com a que eu tinha em 1 928, quando me via não só
como o descendente direto de o Homem Que Ri, mas também
o único legítimo ainda vivo. Em 1 928, eu não era sequer filho
dos meus pais, mas um impostor diabolicamente insinuante,
à espera da mais leve falha da parte deles para ter um pretex­
to para me impor - de preferência sem violência, mas não
necessariamente - e assumir a minha verdadeira identidade.
Como precaução para não partir o coração à minha falsa mãe,
planeava associá-la às minhas atividades clandestinas numa
qualquer função ainda a definir, mas adequadamente presti­
giada. No entanto, a principal coisa que eu tinha a fazer em
1 928 era não dar nas vistas . Representar a farsa. Escovar os
dentes. Pentear o cabelo. A todo o preço, sufocar o meu hor­
rendo riso natural.
Na verdade, eu não era o único descendente legítimo vivo
de o Homem Que R i . Havia vinte e cinco Comanches no
Club, ou sej a vinte e cinco descendentes legítimos vivos de o
Homem Que Ri - todos nós circulando sinistramente, e in­
cógnitos, pela cidade, medindo com o olhar ascensoristas co­
mo potenciais arqui-inimigos, sussurrando ordens disfarçadas
mas fluentes aos ouvidos de cocker spaniels, atirando com um
piparote berlindes à testa de professores de aritmética. E sem­
pre, sempre à espera de uma ocasião decente para lançar
o terror e a admiração no mais próximo coração medíocre.

Uma tarde de fevereiro, pouco depois da abertura da épo­


ca de basebol Comanche, reparei num novo adereço no auto­
carro do Chefe . Por cima do espelho retrovisor do para­
-brisas havia uma pequena fotografia emoldurada de uma
rapariga envergando o traj o académico. Pareceu-me que uma
72 J . D . 5ALINGER

fotografia de rapariga destoava no ambiente declaradamente


masculino do autocarro, e com atrevimento perguntei ao Che­
fe quem ela era. A princípio mostrou-se vago, mas por fim ad­
mitiu que era uma rapariga. Perguntei-lhe como se chamava
ela. Contrariadamente, respondeu: « Mary Hudson. » Pergun­
tei-lhe se ela era do cinema ou coisa assini. Disse que não, que
andava na Wellesley College. Acrescentou, depois de uma re­
flexão um tanto ou quanto demorada, que a Wellesley Colle­
ge era uma universidade de grande classe . Perguntei-lhe, no
entanto, porque tinha a fotografia dela no autocarro, ainda
assim. Encolheu os ombros ligeiramente, apenas o suficiente
para sugerir, pareceu-me, que a fotografia lhe tinha sido mais
ou menos impingida.
Nas duas semanas que se seguiram, a fotografia - embo­
ra impingida à força ou acidentalmente ao Chefe - não foi
retirada do autocarro. Não foi atirada fora com os invólucros
de Baby Ruth e os chupas de alcaçuz caídos no chão. No en­
tanto, nós, Comanches, fomo-nos habituando a ela. Gradual­
mente foi assumindo a apagada personalidade de um conta­
-quilómetros.
Mas certo dia quando íamos a caminho do Parque, o Che­
fe encostou o autocarro ao passeio na Quinta Avenida perto
da Rua Sessenta , a uns bons quinhentos metros depois do
nosso campo de basebol. De imediato, uns vinte copilotos pe­
diram uma explicação, mas o Chefe não deu nenhuma. Em
vez disso, tomou apenas a sua posição de contador de histó­
rias e lançou-se à pressa num novo episódio d' «Ü homem que
ri » . Mal tinha começado, porém, quando alguém bateu à por­
ta do autocarro . Os reflexos do Chefe estavam afinados ao
máximo nesse dia. Voou literalmente do assento, girou o pu­
xador da porta, e uma rapariga com um casaco de pele de
castor subiu para o autocarro.
Assim de repente, não consigo lembrar-me de mais do que
três raparigas na minha vida que me tenham impressionado
NOVE HISTÓRIAS 73

p o r serem indescritivelmente bonitas logo à primeira vista.


Uma foi uma rapariga magra num fato de banho preto que
estava com grandes problemas para conseguir abrir um guar­
da-sol laranj a em Jones Beach, por volta de 1 93 6 . A segunda
foi uma rapariga a bordo de um cruzeiro em 1 939, que atirou
o isqueiro a um golfinho. E a terceira foi a namorada do Che­
fe, Mary Hudson.
- Estou muito atrasada ? - perguntou ela ao Chefe, com
um sorriso.
Era o mesmo que ter perguntado se era feia.
- Não ! - disse o Chefe. Um nadinha nervoso, virou-se
para os Comanches junto do assento dele e fez sinal à fila para
lhe darem l ugar. Mary Hudson sentou-se entre mim e um
rapaz chamado Edgar qualquer coisa, que tinha um tio que
era o melhor amigo de um contrabandista de bebidas alcoóli­
cas. Demos-lhe todo o lugar do mundo. Depois o autocarro
arrancou com uma guinada esquisita, de principiante. Os Co­
manches, do primeiro ao último homem, ficaram em silêncio.
No caminho de volta ao nosso lugar de estacionamento
habitual, Mary Hudson inclinou-se para diante no assento
e fez ao Chefe um relato entusiástico dos comboios que tinha
perdido e do comboio que não tinha perdido; vivia em Dou­
glastown, em Long Island. O Chefe estava nervosíssimo. Não
era só o não dizer uma palavra; mas mal ouvia o que ela di­
zia. A maçaneta da alavanca das velocidades ficou-lhe na mão,
ainda me lembro.
Quando saímos do autocarro, Mary Hudson seguiu con­
nosco. Tenho a certeza de que quando chegámos ao campo de
basebol havia na cara de todos os Comanches uma expressão
estilo há-raparigas-que-não-sabem-quando-devem-ir-para­
- c a s a . E para cúmu l o , quando eu e outro Comanche está­
vamos a atirar moeda ao ar para ver qual das equipas começava
74 J. 0. SALINGER

o jogo, Mary Hudson com um ar suspiroso manifestou o de­


sej o de se j untar aos j ogadores. A resposta não poderia ter
sido mais eloquente. Se até aí nós Comanches nos tínhamos
limitado a um olhar esgazeado para a sua condição de mu­
lher, esse olhar era agora fuzilante . Ela respondeu-nos com
um sorriso. Tinha o seu quê de desconcertante. Foi a altura de
o Chefe intervir, revelando aquilo que até então tinha sido um
bem escondido faro p a r a a incompetênc i a . Tomou Mary
Hudson à parte, o suficiente para os Comanches não ouvirem,
e deu a impressão de estar a argumentar gravemente, racional­
mente . Até que Mary Hudson o interrompeu, e a voz dela
soou bem audível para os Comanches: - Mas eu quero -

disse ela. - Também quero jogar! - O Chefe abanou a cabe­


ça e fez uma nova tentativa. Apontou para o campo, que esta­
va empapado e cheio de covas. Pegou num taco e mostrou-lhe
o peso dele. - Não quero saber - disse Mary Hudson distin­
tamente. - Fiz este caminho todo até Nova Iorque . . . para ir
ao dentista e tudo . . . e agora quero j ogar.
- O Chefe abanou
a cabeça outra vez, mas desistiu. Avançou devagar até à mar­
ca de lançamento, onde os Bravos e os Guerreiros, as duas
equipas Comanches, estavam à espera, e olhou para mim. Eu
era o capitão dos Guerreiros. Mencionou o nome do meu ha­
bitual central exterior, que tinha fica d o em c a s a doente,
e propôs que Mary Hudson o substituísse. Eu disse que não
precisava de nenhum central exterior. O Chefe perguntou-me
que merda queria eu dizer com isso de não precisar de ne­
nhum central exterior. Fiquei chocado. Era a primeira vez que
ouvia o Chefe dizer um palavrão. E ainda por cima, sentia
que Mary Hudson estava a sorrir para mim. Por uma questão
de dignidade, apanhei uma pedra e atirei-a a uma árvore.
Calhou-nos a nós começar a partida. Na primeira entrada
o central exterior não teve nada que fazer. Da minha posição
na primeira base, ia dando uma olhadela para trás de vez em
NOVE HISTÓRIAS 75

quando . Cada vez que o fazia, Mary Hudson fazia-me um


aceno jovial. Tinha posto uma luva de recetor, sua própria es­
colha inabalável. Era horrível de se ver.
Chegada a nossa vez de bater, Mary Hudson ficava com
a nona batida. Quando a informei desta combinação, ela fez
uma carinha amuada e disse: - Bem, então despachem-se. -
E a verdade é que parece que nos despachámo s . E chegou
a vez de ser ela a bater na primeira entrada. Despiu o casaco
de castor - e a luva de recetor - para o acontecimento e avan­
çou para a caixa de batimento no seu vestido castanho-escu­
ro. Quando lhe passei o taco, perguntou-me porque era tão
pesado. O Chefe abandonou a sua posição de árbitro atrás do
lançador e aproximou-se com ar ansioso. Disse a Mary Hudson
para deixar pousado o cabo do taco no ombro direito. - Foi
o que eu fiz - disse ela. Disse-lhe para não estar a agarrar
o taco com tanta força. - E não estou - disse ela. Disse-lhe
para não tirar os olhos da bola. - Não tiro - disse ela. -
Sai mas é daqui. - Girou o taco com toda a força à primeira
bola que lhe foi atirada e bateu-a por cima da cabeça do defe­
sa exterior esquerdo. Não estava mal para uma dupla normal,
mas Mary Hudson conseguiu chegar à terceira base - e em pé.
Quando a minha surpresa se dissipou, e depois a minha
a dmiração, e depois o meu entusiasmo, lancei um olhar ao
Chefe. Parecia estar já não especado atrás do lançador, mas
sim a flutuar por cima dele. Era um homem completamente
feliz. Da terceira base, Mary Hudson acenou para mim. Eu
acenei de volta. Não teria conseguido conter-me, mesmo que
quisesse. Já sem falar na sua tacada, mostrava-se uma rapari­
ga que sabia acenar a alguém da terceira base.
Durante o resto do jogo, conseguiu chegar à base cada vez
que batia. Por qualquer razão, parecia detestar a primeira base;
não havia meio de a aguentar ali. Pelo menos por três vezes,
conseguiu fazer duas bases.
J .D . SALINGER

A presença em campo dela não podia ser pior, mas com


todos os pontos que estávamos a somar a bem dizer nem re­
parávamos nisso. Acho que era capaz de melhorar se corresse
atrás das bolas com quase tudo que quisesse menos uma luva
de recetor. Mas tirá-la, é que não tirava. Dizia que era gira.
Por todo o mês que se seguiu, mais ou menos, j ogou base­
bol com os Comanches duas vezes por semana (sempre que ti­
nha consulta no dentista, ao que parece) . Umas tardes estava
a horas no autocarro; outras, atrasada. Umas vezes falava pe­
los cotovelos no autocarro, outras vezes ficava só sentada
a fumar os seus cigarros Herbert Tareyton (com filtro de cor­
tiça ) . Quando nos sentávamos ao lado dela no autocarro, sen­
tíamos um perfume delicioso.

Num dia invernoso de abril, depois de nos ter apanhado


como de costume às três horas na esquina da 1 09 e da Ams­
terdam, o Chefe com o autocarro cheio virou para Este na
Rua 1 1 0 e desceu rotineiramente a Quinta Avenida. Mas ti­
nha o cabelo molhado e penteado, trazia um sobretudo em
vez do blusão de couro, e eu fundadamente deduzi que Mary
Hudson tinha ficado de vir ter connosco. Quando passámos
disparados pela nossa entrada habitual no Parque, tive a cer­
teza. O Chefe estacionou o autocarro na esquina das Sessen­
tas apropriada para a circunstância . Depois, para matar o
tempo sem fazer sofrer os Comanches, sentou-se às cavalitas
no assento e saiu-se com um novo episódio d' «Ü homem que
ri » . Lembro-me deste episódio até ao mínimo pormenor, e va­
le a pena fazer aqui um breve resumo.
Um fluir de circunstâncias fez com que o melhor amigo de o
Homem Que Ri, o lobo cinzento, Asa Negra, caísse numa arma­
dilha tanto física como intelectual tecida pelos Dufarges. Os Du­
farges, cientes do alto sentido de lealdade de o Homem Que Ri,
NOVE HISTÓRIAS 77

propuseram-lhe a liberdade de Asa Negra em troca da sua.


Com a melhor boa-fé do mundo, o Homem Que Ri concor­
dou com o trato. (Alguns dos mecanismos menos importantes
do seu génio estavam frequentemente suj eitos a misteriosas
pequenas falhas. ) Ficou combinado que o Homem Que Ri iria
ter com os Dufarges à meia-noite num determinado sítio da
densa floresta que rodeia Paris, e aí, à luz do luar, Asa Negra
seria posto em liberdade . No entanto, os D ufarges não ti­
nham nenhuma intenção de libertar Asa Negra, que temiam
e odiavam. Na noite da troca, puseram uma trela a um lobo
cinzento sósia de Asa Negra, depois de lhe terem pintado de
branco a pata traseira esquerda, para parecer a de Asa Negra.
Mas havia duas coisas com que os Dufarges não tinham
contado: a sentimentalidade de o Homem Que Ri e o seu co­
nhecimento da língua dos lobos cinzentos. Assim que se dei­
xou amarrar com arame farpado a uma árvore pela filha de
Dufarge, o Homem Que Ri sentiu-se impelido a erguer a sua
bela voz melodiosa para um curto adeus ao seu suposto ami­
go. O sósia de Asa Negra, a escassos metros dali, iluminado
pelo luar, estava impressionado com o domínio que aquele es­
tranho mostrava da sua linguagem e escutou polidamente por
uns instantes os últimos conselhos, pessoais e profissionais,
que o Homem Que Ri lhe dava. Ao fim de algum tempo, po­
rém, o falso Asa Negra foi ficando mais impaciente e começou
a saltitar de uma pata para outra. De súbito, e até de forma
indelicada, interrompeu o Homem Que Ri com a informação
de que, primeiro, o nome dele não era nem Asa Escura, nem
Asa Negra, nem Pata Cinzenta, nem nada do género, era Ar­
mand, e, em segundo lugar, nunca tinha estado na China na
sua vida nem tinha a mínima intenção de lá ir.
Compreensivelmente furioso, o Homem Que Ri tirou a más­
cara, puxando-a com a língua e confrontou os Dufarges com
J . 0 . SALINGER

a sua cara destapada iluminada pelo luar. Mlle. Dufarge des­


maiou instantaneamente. O pai teve mais sorte. Por acaso, na­
quele mesmo momento estava com um dos seus ataques de
tosse e escapou assim ao fatal desvendar do rosto . Quando
o acesso de tosse cessou e viu a filha estendida no chão ilumi­
nado pelo luar, Dufarge tirou daí as devidas conclusões. Ta­
pando os olhos com a mão, despej ou o carregador inteiro da
sua automática na direção da penosa respiração sibilante de o
Homem Que Ri.
O episódio acabava aqui.
O Chefe tirou do bolso do relógio o seu Ingersoll de pata­
co, olhou-o, depois girou no assento e ligou o motor. Consul­
tei o meu próprio relógio. Eram quase quatro e meia. Quando
o autocarro se pôs em movimento, perguntei ao Chefe se não
ia esperar por Mary Hudson. Não me respondeu, e antes que
eu pudesse repetir a pergunta, virou a cabeça para trás e disse
para todos nós: - Vamos lá a ver se temos um pouco de si­
lêncio no raio deste autocarro. - Para além de tudo mais que
pudesse ser, esta ordem era basic amente desproposita d a .
O autocarro tinha ficado, e estava, caladíssimo. Quase todos
estavam a pensar no ponto em que tinha ficado o Homem
Que Ri. Já há muito que tínhamos deixado de nos preocupar
com ele - a nossa confiança nele era demasiado grande para
isso - mas nunca tínhamos conseguido aceitar com tranquili­
dade os seus momentos de maior perigo.
Na terceira ou quarta entrada do nosso j ogo dessa tarde,
avistei Mary Hudson da primeira base. Estava sentada num
banco a uma centena de metros à minha esquerda, ensandui­
chada entre duas amas com carrinhos de bebé. Vestia o casa­
co de castor, fumava um cigarro, e parecia estar a olhar para
o lado do nosso j ogo. Excitado com a minha descoberta, gri­
tei a informação ao Chefe, atrás do lançador. Veio ter comigo
a toda a pressa, mas sem correr. - Onde? - perguntou. Apon­
tei de novo. Ficou a olhar um momento na direção indicada,
NOVE HISTÓRIAS 79

depois disse que voltava daí a um minuto e deixou o campo.


Saiu devagar, abrindo o so bretudo e enfiando as mãos nos
bolsos de trás das calças. Sentei-me na primeira base e fiquei
a ver. Quando o Chefe chegou j unto de Mary Hudson, o so­
bretudo estava novamente abotoado e as mãos pendentes.
Ficou diante dela uns cinco minutos, percebia-se que a fa­
lar com ela. Depois Mary Hudson levantou-se e os dois enca­
minharam-se para o campo de basebol. Não falavam ao cami­
nhar, nem se olhavam. Quando chegaram ao campo, o Chefe
ocupou a sua posição atrás do lançador. Berrei-lhe: - Ela não
vai j ogar ? - Ele disse-me para calar o bico. Eu calei o bico
e observei Mary Hudson. Deu uns passos devagar atrás da
base, com as mãos nos bolsos do casaco de castor, e finalmen­
te sentou-se num banco de j ogadores isolado mesmo a seguir
à terceira base. Acendeu outro cigarro e cruzou as pernas.
Quando chegou a vez de serem os Guerreiros a bater, fui
ter com ela ao banco e perguntei-lhe se lhe apetecia j ogar
como defesa exterior esquerda. Ela abanou a cabeça. Pergun­
tei-lhe se estava constipada . Voltou a abanar a cabeça. Disse­
-lhe que não tinha ninguém para exterior esquerdo. Disse-lhe
que tinha um tipo a j ogar a exterior centro e a exterior esquer­
do. A informação não mereceu nenhuma resposta . Atirei ao
ar o boné a ver se conseguia apanhá-lo na cabeça . Mas caiu
numa poça de lama . Limpei-o às calças e perguntei a Mary
Hudson se queria vir a minha casa j antar um dia destes. Dis­
se-lhe que o Chefe vinha muitas vezes. - Deixa-me em paz -
disse ela . - Deixa-me em paz, por favor. - Fiquei a olhar
para ela e depois afastei-me em direção ao banco dos Guerrei­
ros, tirando uma tangerina do bolso e atirando-a ao ar. Mais
ou menos a meio do caminho da linha lateral da terceira base,
voltei-me e comecei a andar às arrecuas, com os olhos em
Mary Hudson, a tangerina na mão. Não fazia ideia nenhuma
do que se passava entre o Chefe e Mary Hudson (e ainda não
80 J . D . SALINGER

faço, a não ser num sentido muito vago, intuitivo), mas no en­
tanto não podia estar mais convencido de que Mary Hudson
deixara para sempre a equipa dos Comanches. Era o género de
certeza total, ainda que independente da soma dos factos em
que assentava, que pode tornar o andar às arrecuas mais arris­
cado do que o normal e fui de encontro a um carrinho de bebé.
Depois de mais uma entrada, já não havia luz para conti­
nuarmos. Acabámos o j ogo e começámos a recolher o equipa­
mento. A última vez que olhei para Mary Hudson, ela estava
perto da terceira base a chorar. O Chefe tinha-lhe agarra­
do a manga do casaco de castor, mas ela afastou-se dele. Saiu
a correr pelo campo fora para o caminho asfaltado e conti­
nuou a correr até que deixei de a ver. O Chefe não foi atrás
dela. Limitou-se a ficar a vê-la desaparecer. Depois deu meia­
-volta e desceu para a marca de lançamento e apanhou os
nossos dois tacos; deixávamos sempre os tacos para ele levar.
Aproximei-me e perguntei-lhe se ele e Mary Hudson se ti­
nham zangado. Ele disse-me para meter a fralda da camisa
para dentro.
Como sempre, nós, Comanches, fizemos a correr os últi­
mos cinquenta metros até ao sítio onde tinha ficado o auto­
carro, aos berros, aos encontrões, às rasteiras uns aos outros,
mas todos cientes de estar outra vez na hora d' « O homem
que ri » . Ao atravessar a Quinta Aveni d a , alguém deixou
cair uma camisola que trouxera a mais ou que tinha tirado
e eu tropecei nela e estatelei-me no chão. Ainda corri o resto
do caminho, mas os melhores lugares já estavam ocupados
e tive de ficar sentado a meio do autocarro. Aborrecido com
o acontecido, enfiei uma cotovelada nas costelas do rapaz
à minha direita, depois olhei em volta e vi o Chefe a atraves­
sar a avenida. Ainda não estava escuro, mas já tinha começa­
do a cair aquela obscuridade das cinco e um quarto. O Chefe
atravessou a rua com a gola do sobretudo levantada, os tacos
debaixo do braço esquerdo, e a atenção centrada na r u a .
NOVE HISTÓRIAS 81

O cabelo escuro, que tinha molhado de manhã para pentear,


estava agora seco e esvoaçava. Lembro-me de ter desej ado
que o Chefe tivesse luvas.
O autocarro, como de costume, estava em silêncio quando
ele entrou - tão silencioso, pelo menos, como um teatro
quando as luzes se apagam. As conversas acabaram-se num
sussurro apressado ou terminaram completamente. No entan­
to, a primeira coisa que o Chefe nos disse foi: - Muito bem,
vamos a calar, ou não há história. - De imediato, fez-se um
silêncio incondicional no autocarro, não deixando ao Chefe
outra alternativa senão tomar a sua posição de contador. De­
pois de o fazer, tirou do bolso um lenço e metodicamente
assoou o nariz, uma narina de cada vez. Olhávamos para ele
com paciência e mesmo um certo interesse de espectadores.
Quando acabou de se assoar, dobrou o lenço cuidadosamente
e voltou a guardá-lo no bolso. E então contou-nos o novo epi­
sódio d' « O homem que ri » . De uma ponta à outra, não de­
morou mais do que cinco minutos.
Quatro das balas de Dufarge atingiram o Homem Que Ri,
duas delas no coração. Quando Dufarge , que continuava
a proteger os olhos para não ver a cara de o Homem Que Ri,
ouviu um estranho estertor de agonia vindo da direção do seu
alvo, rej ubilou. O negro coração a bater desvairadamente,
precipitou-se para a filha inconsci ente e reanimou-a . E os
dois, fora de si de júbilo e com a coragem dos cobardes, ousa­
ram então olhar para o Homem Que Ri. A cabeça dele pendia
como morta, o queixo encostado ao peito ensanguentado. De­
vagar, avidamente, pai e filha aproximaram-se para apreciar
a sua presa. Mas uma enorme surpresa os esperava . O Ho­
mem Que Ri, longe de estar morto, estava concentrado a con­
trair os músculos do estômago segundo um método secreto.
Assim que os Dufarges ficaram ao seu alcance, ergueu subi­
tamente a cara, soltou uma gargalhada terrível, e com toda
J.D. SALINGER

a facilidade, e até com vagar, regurgito u a s quatro b a l a s .


O impacto d e tal feito nos Dufarges foi tão forte que o s cora­
ções literalmente lhes rebentaram e eles tombaram mortos aos
pés de o Homem Que Ri. (Já que de qualquer maneira o epi­
sódio ia ser curto, bem podia ter acabado aqui; os Coman­
ches teriam conseguido aceitar a súbita morte dos Dufarges.
Mas não acabou aqui . ) Dias e dias, o Homem Que Ri conti­
nuou atado com arame farpado à árvore, com os Dufarges
a decomporem-se a seus pés. Sangrando profusamente e priva­
do das suas provisões de sangue de águia, nunca antes estive­
ra tão próximo da morte . Um dia, porém, numa voz rouca
mas eloquente, chamou em seu socorro os animais da flores­
ta. Pediu-lhes que fossem buscar Omba, o anão a doráve l .
E e l e s fizeram-no. Mas era u m a viagem demorad a p a r a i r
e voltar até à fronteira China-Paris e quando Omba chegou ao
local com um kit médico e provisões frescas de sangue de
águia, o Homem Que Ri estava em coma . O primeiro gesto
piedoso de Omba foi ir buscar a máscara do seu senhor, que
levada pelo vento tinha caído em cima do peito de Mlle. Du­
farge j á roído pelos vermes. Colocou-a respeitosamente sobre
o rosto horrível de o Homem Que Ri e depois começou a tra­
tar as suas feridas.
Quando os pequenos olhos de o Homem Que Ri por fim
se abriram, Omba prontamente aproximou da máscara o fras­
co de sangue de águia. Mas o Homem Que Ri não bebeu. Em
vez disso pronunciou o nome do seu amado Asa Negra. Om­
ba inclinou a cabeça ligeiramente deformada e revelou ao seu
senhor que os Dufarges tinham matado Asa Negra. Escapou­
-se de o Homem Que Ri um estranho e dilacerante suspiro de
sofrimento extremo. Estendeu o braço desfalecido para o fras­
co de sangue de águia e esmagou-o na mão. O pouco sangue
que restava escorria-lhe num fio pelo pulso. Ordenou a Omba
NOVE HISTÓRIAS

que desviasse os olhos e, soluçando, Omba obedeceu. O último


gesto de o Homem Que Ri, antes de virar a cara para o chão
manchado de sangue, foi arrancar a máscara.
A história acabou aqui, naturalmente. ( Para nunca mais
ser retomada . ) O Chefe pôs o autocarro em movimento . Na
fila ao lado da minha, Billy Walsh, que era o mais novo de to­
dos os Comanches, rompeu em lágrimas. Nenhum de nós
o mandou calar. Quanto a mim, lembro-me de que os j oelhos
me tremiam.
Poucos minutos depois, quando saí do autocarro do Che­
fe, a primeira coisa que me caiu sob os olhos foi um bocado
de papel de seda vermelho a adej ar ao vento contra a base de
um candeeiro. Deu-me a impressão de ser uma máscara de pé­
talas de papoila que alguém perdera . Cheguei a casa com os
dentes a bater incontrolavelmente e mandaram-me direito para
a cama.
Em baixo no bote

PASSAVA UM POUCO DAS QUATRO HORAS de uma tarde de fins


do outono . Havia umas quinze ou vinte vezes desde o meio­
-dia que Sandra, a empregada, se afastava com os lábios fran­
zidos da j anela que dava para o lago. Desta vez, ao afastar-se,
ia atando e desatando distraidamente o avental, usando a mí­
nima folga que a sua enorme cintura permitia. Depois voltou
para a mesa lacada e, ainda com a farda que vestira há pouco,
deixou-se cair na cadeira em frente da Sra. Snell. A Sra. Snell,
tendo acabado de lavar e engomar, estava a tomar a sua habi­
tual chávena de chá antes de descer a rua até à paragem do
autocarro. Tinha o chapéu posto. Era o mesmo curioso chapéu
de feltro preto que usara não só o verão inteiro como os três úl­
timos verões - através de ondas de calor recorde, através de
mudanças de vida, debruçada sobre dezenas de tábuas de engo­
mar, sobre dúzias de aspiradores. Tinha no interior uma etique­
ta da Hattie Carnegie, apagada, mas (poderia dizer-se) altiva.
- Não me vou ralar com isto - anunciou Sandra, pela
quinta ou sexta vez, falando para si própria, tanto como para
a Sra. Snell. - Já resolvi e não me vou ralar com isto. Para quê?
86 J . D . SALINGER

- Faz bem - disse a Sra. Snell. - Eu não me ralava .


A sério. Passe-me a carteira, querida.
Uma carteira de cabedal, extremamente usada, mas com
uma etiqueta no interior tão afamada como a que havia no
interior do chapéu, estava poisada em cima do armário. San­
dra podia chegar-lhe sem ter de se levantar. Estendeu-a por
cima da mesa à Sra. Snell, que a abriu para tirar um maço de
cigarros mentolados e uma carteira de fósforos do Stork Club.
A Sra . Snell acendeu um cigarro, depois levou a chávena
aos lábios, mas pô-la de imediato no pires. - Se isto não ar­
refece mais depressa ainda perco o autocarro. - Levantou os
olhos para Sandra, que olhava fixamente, com ar sombrio, na
direção das frigideiras de cobre alinhadas na parede. - Deixe
de se ralar com isso - ordenou a Sra. Snell. - De que serve
ralar-se ? Ou ele conta à mãe ou não conta. Mais nada. O que
adianta ralar-se ?
- Eu não estou ralada - respondeu Sandra. - Nem me
passa pela cabeça ralar-me com isso. Só que me deixa maluca,
a maneira como aquele miúdo anda por toda a casa em bicos
de pés. Não se ouve, percebe ? Quer dizer, ninguém o ouve,
percebe ? Ainda no outro dia eu estava a descascar feijões, aqui
mesmo nesta mesa, e quase o pisei na mão . Estava sentado,
aqui mesmo debaixo da mesa.
- Bem. Eu cá não me ralava.
- Quer dizer, é que tem de se pesar cada palavra que se
diz diante dele - disse Sandra . - Dá com a gente em ma­
lucos.
- Ainda não consigo bebê-lo . . . - disse a Sra . Snell . -
É terrível. Quando tem de se pesar cada palavra que se diz
diante dele e tudo.
- Dá com todos em malucos! Palavra. Eu, metade do tem­
po ando meio maluca. - Sandra sacudiu do regaço umas mi­
galhas imaginárias, e fungou. - Um miúdo de quatro anos!
NOVE HISTÓRIAS

- Lá i s s o é um miúdo b o nito - disse a S r a . Snell . -


Com aqueles grandes olhos castanhos e tudo.
Sandra fungou de novo. - Vai ficar com um nariz igual
ao do pai. - Levantou a chávena e bebeu sem dificuldade. -
Eu não sei para que querem ficar aqui o mês de outubro todo
- disse ela com irritação, poisando a chávena. - Quer dizer,
já nenhum deles vai sequer até perto da água. Ela não vai, ele
não vai. O miúdo não vai. Já ninguém vai. Nem sequer saem
com aquele maldito barco. Não percebo para que é que deita­
ram fora aquele rico dinheiro.
- Não sei como é que consegue beber o seu. Eu nem se­
quer consigo tocar no meu.
Sandra fitava com rancor a parede em frente dela. - Es­
tou mortinha por me ver de volta à cidade. Falo a sério. Não
gosto nada disto aqui. - Lançou um olhar hostil à Sra. Snell.
- Está muito bem para si que vive aqui o ano inteiro . Tem
aqui a sua vida e tudo. Para si tanto dá.
- Vou beber isto nem que me mate - disse a Sra. Snell,
olhando para o relógio por cima do fogão elétrico.
- Que é que você fazia se estivesse no meu lugar ? - per­
guntou Sandra abruptamente. - Quer dizer, o que é que fa­
zia ? Diga a verdade.
Era o tipo de pergunta em que a Sra. Snell se enfiava como
se fosse num casaco de arminho. Esqueceu de imediato o seu
chá. - Bem, em primeiro lugar - disse ela. - Não me rala­
va com isso. O que eu fazia, era procurar por aí outra . . .
- E u não estou ralada com isto - interrompeu Sandra.
- Eu sei que não, mas o que eu fazia era arranj ar . . .

A porta d e batentes d a sala d e j antar abriu-se e Boo Boo


Tannenbaum, a dona da casa, entrou na cozinha . Era uma
88 J.D. SALINGER

rapariga baixa, quase sem ancas, de vinte e cinco anos, o ca­


belo incaracterístico, sem cor, quebradiço, puxado para trás
das orelhas, bastante grandes . Vestia uns j eans até aos j oe­
lhos, uma camisola preta de gola alta, meias e sapatos rasos.
Pondo de parte o ridículo do nome, pondo de parte a sua ge­
ral falta de graça - no género carinhas pequenas que nunca
mais se esquecem, imoderadamente viva - uma rapariga as­
sombrosa e incomparável. Foi direita ao frigorífico e abriu-o.
Enquanto olhava lá para dentro, as pernas afastadas e a s
mãos nos joelhos, assobiava, desafinada, entredentes, marcan­
do o compasso com um desinibido balanço do rabo. Sandra
e a Sra. Snell tinham-se calado. A Sra. Snell apagou o cigarro,
sem pressa.
- Sandra . . .
- Sim, 'nha senhora - Sandra olhou-a atenta por cima
do chapéu da Sra. Snell.
- Não há mais picles ? Queria levar-lhe um picle.
- Ele comeu-os todos - informou Sandra com um ar en-
tendido. - Comeu-os antes de se ir deitar ontem à noite. Só
havia dois.
- Ah. Bem, compro mais quando for à estação. Pensei
que talvez o pudesse fazer sair daquele barco. - Boo Boo fe­
chou a porta do frigorífico e foi à janela que dava para o lago.
- Precisamos de mais alguma coisa ? - perguntou ela da
janela.
- Só pão.
- Deixei o seu cheque na mesa da entrada, senhora Snell.
Obrigada.
- Okay - disse a Sra. Snell. - Parece que o Lionel quer
fugir de casa. - Deu uma risadinha.
- Parece que sim - disse Boo Boo, e enfiou as mãos nos
bolsos de trás.
NOVE HISTÓRIAS

- Pelo menos não foge para muito longe - disse a Sra .


Snell, com nova risadinha.
A janela, Boo Boo mudou um pouco de posição, de modo a
não ficar completamente de costas para as duas mulheres à me­
sa. - Não - disse ela, e puxou para trás da orelha uma me­
cha de cabelo. Prosseguiu num tom meramente informativo: -
Desde os dois anos que ele foge de casa com regularidade. Mas
nunca para muito longe. Acho que o mais longe que chegou,
pelo menos na cidade, foi o Mall no Central Park. Fica só
a dois quarteirões de nossa casa. O menos longe, ou mais per­
to, foi até à porta de entrada do nosso prédio. Ficou lá à espe­
ra para dizer adeus ao pai.
As duas mulheres à mesa riram-se.
- O Mall é onde todos vão patinar em Nova Iorque -
disse Sandra, muito sociável, para a Sra. Snell. - Os miúdos
e tudo.
- Ah - disse a Sra. Snell.
- Tinha só três anos. Foi no ano passado - disse Boo
Boo, tirando um maço de cigarros e uma carteira de fósforos
do bolso dos j eans. Acendeu um cigarro, enquanto as duas
mulheres a olhavam interessadas. - Grande confusão. Anda­
va a polícia toda à procura dele.
- Encontraram-no ? - perguntou a Sra. Snell.
- Claro que sim ! - disse Sandra, desdenhosa. - Que
é que acha ?
- Encontraram-no às onze e um quarto da noite, no meio
de . . . Meu Deus, fevereiro, acho eu. Nem uma criança no Par­
que . Só assaltantes, acho eu, e uma data de tarados à solta.
Estava sentado no coreto, a rolar um berlinde de um lado
para o outro numa fenda. Meio morto de frio e com um ar . . .
- Minha Nossa Senhora ! - exclamou a Sra. Snell. - E o
que o levou a isso ? Quer dizer, porque é que ele queria fugir
de casa ?
J.D. SALINGER

Boo Boo soprou um anel de fumo, isolado, ratado, para


a vidraça. - Um miúdo qualquer no parque tinha ido ter
com ele para lhe dar a informação despropositada: « Cheiras
mal, pá. » Pelo menos, pensamos que foi por isso. Sei lá, se­
nhora Snell. Escapa ligeiramente à minha compreensão.
- Há quanto tempo faz ele isto ? - perguntou a Sra. Snell.
- Enfim, há quanto tempo faz ele isto ?
- Bem, quando tinha dois anos e meio - disse Boo Boo,
num tom biográfico - foi-se esconder debaixo de um lavató­
rio na cave do nosso prédio. Na lavandaria . A Naomi qual­
quer coisa, uma amiga íntima dele, disse-lhe que tinha uma
minhoca na garrafa termo dela. Pelo menos foi o que conse­
guimos que ele nos contasse. - Boo Boo suspirou, e afastou­
-se da j anela com uma comprida ponta de cinza no cigarro.
Dirigiu-se para a porta do jardim. - Vou tentar outra vez -
disse ela, em tom de despedida às duas mulheres.
Elas riram.
- Mildred - disse Sandra, ainda a rir-se, para a Sra .
Snell -, vais perder o autocarro se não te despachas.
Boo Boo fechou a porta do jardim atrás de si.

Deteve-se no pequeno declive do relvado em frente à casa,


com o sol baixo, ofuscante, do fim da tarde a dar-lhe nas cos­
tas. A uns duzentos metros mais adiante, o seu filho Lionel es­
tava sentado no banco de popa do bote do pai. Amarrado,
e despido da vela principal e da buj arrona, o bote flutuava
formando um ângulo reto perfeito com a ponta do atracadou­
ro. Mais ou menos a uma dezena de metros, flutuava um es­
qui aquático voltado, que alguém perdera ou abandonara,
mas não se viam barcos de recreio no lago; apenas se avistava
a popa da lancha distrital a caminho de Leech's Landing. Boo
Boo sentia uma invulgar dificuldade em ter uma imagem nítida
NOVE HISTÓRIAS 91

d e Lionel. O sol, apesar de não estar muito quente, era tão


brilhante que tornava qualquer imagem relativamente afasta­
da - um rapaz, um barco - tão vacilante e refratada como
uma vara na água. Passados uns minutos, Boo Boo desinteres­
sou-se da imagem. Desfez com os dedos o cigarro deitando-o
fora, ao estilo militar, e depois caminhou em direção ao em­
barcadouro.
Era outubro e j á não se sentiam na cara as baforadas do
calor refletido pelas tábuas do embarcadouro. Foi avançando
a assobiar entredentes « Kentucky Babe » . Quando chegou ao
fim do pontão, acocorou-se, os j oelhos audíveis, no bordo di­
reito e olhou para baixo para Lionel. Ele não levantou os
olhos.
- Ó de bordo - disse Boo Boo. - Amigo. Pirata . Cão
Pulguento. Estou de volta.
Ainda sem levantar os olhos, Lionel deu a impressão de se
sentir impelido de repente a demonstrar as suas artes de nave­
gação. Girou todo para a direita o leme fora de uso, depois
repuxou-o de imediato para si. Continuava de olhos postos
exclusivamente no convés do barco.
- Sou eu - disse Boo Boo. - Vice-almirante Tannen­
baum. Nome de solteira, Glass. Em visita de inspeção aos es­
termáforos.
Houve uma resposta.
- Não és nada almirante. És uma senhora - disse Lionel.
As frases que dizia tinham pelo menos uma quebra por falta
de controlo da respiração, de modo que, por vezes, as pala­
vras a que dava ênfase em vez de subirem, desciam. Boo Boo
não ouvia apenas a voz dele, parecia vê-la.
- Quem te disse isso ? Quem te disse que eu não era um
almirante ?
Lionel respondeu, mas inaudivelmente.
- Quem? - disse Boo Boo.
92 J . D . SALINGER

- O papá.
Ainda acocorada, Boo Boo passou a mão pelo «V» forma­
do pelas pernas, tocando as tábuas do pontão para manter
o equilíbrio. - O teu papá é bom tipo - disse ela - mas é se
calhar o maior marinheiro de água doce que eu conheço .
É absolutamente verdade que quando estou desembarcada
sou uma senhora, isso é verdade. Mas a minha verdadeira vo­
cação é, foi e será navegar nos . . .
- Não é s nada almirante - disse Lionel.
- Como ?
- Não és nada almirante. És uma senhora sempre.
Houve um breve silêncio. Lionel aproveitou-o para mudar
novamente a rota da embarcação - segurava o leme com as
duas mãos. Usava uns calções caqui e uma T-shirt branca, la­
vada, com um desenho, a toda a largura do peito, de Jerome,
o Avestruz a tocar violino. Estava bastante bronzeado, e o ca­
belo, quase exatamente igual ao da mãe na cor e no aspeto,
estava um pouco descolorido pelo sol na parte de cima.
- Muita gente pensa que não sou almirante - disse Boo
Boo, observando-o. - Só porque não ando por aí a dar com
a língua nos dentes. - Sem perder o equilíbrio, tirou um cigar­
ro e fósforos do bolso dos jeans. - É muito raro estar virada
para falar com alguém sobre a minha patente . Em especial
com rapazinhos que nem sequer olham para mim quando falo
com eles. Expulsavam-me a toque de caixa do raio da Mari­
nha. - Sem acender o cigarro, pôs-se em pé de repente, perfi­
lou-se extremamente direita, formou uma oval com o polegar
e o indicador da mão direita, levou essa oval à boca e, como
se tocasse um instrumento de sopro, fez soar qualquer coisa
parecida com um toque de clarim. Lionel levantou os olhos
de imediato. Era mais do que provável que tinha consciência
de ser a fingir, mas no entanto parecia profundamente exitado,
NOVE HISTÓRIAS 93

d e boca a berta . Boo Boo fez soar o toque - u m peculiar


amálgama de « Recolher » e de « Alvorada » - três vezes, sem
qualquer pausa. Depois, com ar solene, fez a continência, vol­
tada para a margem oposta . Quando por fim retomou a po­
sição acocorada na borda do pontão, parecia fazê-lo com o
máximo de contrariedade, como quem acaba de ficar profun­
damente comovida com uma das virtudes da tradição naval
inacessível ao público e aos rapazes pequenos . Contemplou
o horizonte limitado do lago uns instantes, depois pareceu
lembrar-se de que não se encontrava completamente só. Deu
uma olhadela - com gravidade - para baixo a Lionel, ainda
de boca aberta. - Isto era um toque secreto de clarim, que só
os almirantes têm direito a ouvir. - Acendeu o cigarro, e so­
prou o fósforo com um fio de fumo teatralmente fino e com­
prido. - Se alguém sabe que te deixei ouvir este toque . . . -
Abanou a cabeça. Fixou outra vez o sextante do olhar no ho­
rizonte.
- Faz outra vez.
- Impossível.
- Porquê ?
Boo Boo encolheu os ombros. - Para começar, andam
por aí demasiados oficiais de baixa patente. - Mudou de po­
sição, ficando sentada com as pernas cruzadas, à índia. Puxou
as meias para cima . - Mas vou-te dizer o que vou fazer -
disse ela, num tom desprendido. - Se me disseres porque é
que vais fugir de casa, toco para ti todos os toques de clarim
secretos que eu conheço. Está bem ?
De imediato, Lionel virou outra vez os olhos para o con-
vés. - Não - disse ele.
- Porque não ?
- Porque não.
- Porque não porquê ?
- Porque não quero - disse Lionel e deu um puxão ao
leme, para maior ênfase.
94 J.D. SALINGER

Boo Boo pôs uma mão a proteger o lado direito da cara


do clarão do sol. - Tinhas-me dito que não fugias mais de
casa - disse ela . - Falámos nisso e tu disseste que nunca
mais fugias. Tinhas-me prometido.
Lionel respondeu qualquer coisa, mas não se ouviu.
- O quê ? - disse Boo Boo.
- Não prometi nada.
- Ai isso é que prometeste. Prometeste, sim senhor.
Lionel voltou a segurar o leme do barco. - Se és um almi­
rante - disse ele - onde está a tua frota?
- A minha frota . Ainda bem que perguntas - disse Boo
Boo, e começou a baixar-se para o bote.
- S a i daqui ! - ordenou Lionel, mas sem desatar a o s
guinchos, continuando a olhar para baixo . - Não pode en­
trar ninguém.
- Ai não ? - O pé de Boo Boo tocava j á o casco do bar­
co. Obediente, retirou-o até à altura do pontão. - Mesmo
ninguém ? - Retomou a posição à índia. - Porquê ?
Lionel respondeu, mas mais uma vez não foi suficiente-
mente alto.
- O quê ? - disse Boo Boo.
- Porque não têm autorização.
Boo Boo, sem nunca tirar os olhos do miúdo, ficou calada
um bom minuto.
- Tenho pena que digas uma coisa dessas - disse ela,
por fim. - Gostava mesmo de ir aí abaixo ao teu barco. Sin­
to tanto a tua falta . Tenho tantas saudades . Tenho passado
o dia todo sozinha em casa, sem ninguém com quem falar.
Lionel não virou o leme. Examinou os veios da madeira
na barra. - Podes falar com a Sandra - disse ele.
NOVE HISTÓRIAS 95

- A Sandra está ocupada - disse Boo Boo. - De qual­


quer maneira, não é com a Sandra que quero falar, é contigo.
Quero ir ao teu barco e falar contigo.
- Podes falar daí.
- O quê ?
- Podes falar daí.
- Não, posso não. É muito longe . Tenho de estar mais
perto.
Lionel girou o leme. - Ninguém pode entrar - disse ele.
- Bem, e dizes-me daí porque é que vais fugir de casa ? -
perguntou Boo Boo. - Depois de teres prometido que nunca
mais fugias ?
Havia um par de óculos de mergulho no convés do bote,
perto do banco da popa. Em resposta, Lionel prendeu a cor­
reia dos óculos entre o primeiro e o segundo dedo do pé direi­
to e, com um movimento destro, rápido, atirou-os pela borda
fora. Foram imediatamente ao fundo.
- Muito simpático. Muito construtivo - disse Boo Boo.
- São do teu tio Web b . Ah, vai ficar encantado. - Tirou
uma fumaça. - Tinham pertencido ao teu tio Seymour.
- Não me importa.
- Já vi. Já vi que não - disse Boo Boo. Segurava o cigar-
ro nos dedos numa posição esquisita; estava perigosamente
próximo da j unta de um dos dedos. De repente, ao sentir
o calor, deixou cair o cigarro no lago. Depois tirou uma coisa
do bolso. Era um volume, mais ou menos do tamanho de um
baralho de cartas, embrulhado em papel branco e atado com
uma fita verde. - Tenho aqui um porta-chaves - disse ela,
sentindo os olhos do rapaz postos nela. - Tal e qual como
o do papá. Mas com muitas mais chaves do que o do pai. Este
tem dez chaves.
J.D. SALINGER

Lionel inclinou-se para diante no assento, largando o leme.


Estendeu as mãos para o apanhar. - Atira - disse ele . -
Atira lá.
- Espera um momento, queridinho. Tenho de pensar um
bocadinho. Eu devia mas era atirar este porta-chaves para o
lago.
Lionel fitava-a, a boca aberta. Fechou a boca. - É meu -
disse ele, num pouco convicto tom reivindicativo.
Boo Boo, baixando o olhar para ele, encolheu os ombros.
- Não me importa.
Devagar, Lionel voltou a sentar-se no banco, observando a
mãe, e estendeu a mão para trás à procura do leme. Os olhos
mostravam-se intensamente atentos, como a mãe esperara.
- Apanha . - Boo Boo atirou-lhe o embrulho, que acer­
tou em cheio no regaço dele.
Ele olhou-o, pegou nele, observou-o na mão, e atirou-o
- com o braço de lado - para o lago . Logo de seguida le­
vantou os olhos para Boo Boo, com uns olhos não de desafio,
mas de choro . No momento seguinte, a boca torceu-se num
oito horizontal e ele chorava desabaladamente.
Boo Boo pôs-se em pé, com cautela, como alguém que ti­
vesse ficado com os pés dormentes no teatro, e desceu para
o bote. Daí a instantes, estava sentada no banco de popa, com
o piloto no colo, embalando-o enquanto lhe dava beij os na
nuca e lhe explicava: - Os marinheiros não choram, querido.
Os marinheiros nunca choram. Só quando os barcos deles vão
ao fundo. Ou quando estão naufragados, em jangadas e tudo,
sem nada para beber, a não ser. . .
- A Sandra . . . disse à senhora Snell . . . que o papá era u m . . .
grande . . . marrano desleixado.
Impercetivelmente, Boo Boo estremeceu, mas levantou o
miúdo do colo, pô-lo em pé diante dela, e puxou para trás
o cabelo da testa. - Ela disse isso, foi? - disse Boo Boo.
NOVE HISTÓRIAS 97

Lionel abanou a cabeça para baixo e para cima, energica­


mente. Avançou um pouco, ainda a chorar, para ficar encos­
tado às pernas da mãe.
- Bem, não é assim muito grave - disse Boo Boo, segu­
rando-o na dupla tenaz dos braços e das pernas . - Não é a
pior coisa do mundo. - Mordiscou a ponta da orelha do ra­
pazinho. - Sabes o que é um marrano, querido ?
Lionel não quis ou não conseguiu dizer nada de imediato.
D e qualquer modo, esperou que os soluços do choro dimi­
nuíssem um pouco. Depois respondeu qualquer coisa, abafa­
da, mas inteligível, para a tepidez do pescoço de Boo Boo.
- É um cavalo pequenino - disse ele. - Como um pónei.
Para o ver melhor, Boo Boo afastou ligeiramente de si o fi­
lho . Depois enfiou com força uma mão por dentro da parte
de trás das calças dele, com grande sobressalto do miúdo,
mas retirou-a quase de seguida e decorosamente meteu-lhe
a T-shirt para dentro das calças. - Vou-te dizer o que vamos
fazer - disse ela. - Vamos de carro à cidade e vamos com­
prar picles e pão e depois comemos os picles no carro e depois
vamos à estação esperar o papá, e depois trazemos o papá para
casa e dizemos-lhe para nos levar a dar uma volta no barco.
Mas tens de o ajudar a trazer as velas para baixo. Okay?
- Okay - disse Lionel.
Não voltaram para casa a passo; fizeram uma corrida.
Lionel ganhou.
Para Esmé - com amor e sordidez

HA MUITO P o u c o TEMPO, por via aérea, recebi um convite


para um casamento que vai realizar-se em Inglaterra a 18 de
abril. Acontece tratar-se de um casamento a que eu daria tudo
para estar em condições de assistir e, quando o convite che­
gou, pensei que era capaz de me ser possível fazer a viagem ao
estrangeiro, de avião, mandando ao diabo a despesa. No en­
tanto, depois de ter discutido o assunto bastante a fundo com
a minha mulher, uma miúda de um bom senso espantoso, pro­
nunciámo-nos contra - para começar, eu tinha-me esquecido
completamente de que a minha sogra está ansiosa por vir pas­
sar as duas últimas semanas de abril connosco. Realmente, não
são assim tantas as ocasiões que tenho de ver a mãe Grencher
e ela não está a ficar mais nova . Tem cinquenta e oito anos.
( Como ela seria a primeira a admitir. )
De qualquer modo, estej a e u onde estiver não m e conside­
ro o tipo de pessoa incapaz de levantar sequer um dedo para
impedir que um casamento vá por água abaixo. Assim sendo,
lancei-me ao trabalho e passei ao papel umas quantas notas
reveladoras acerca da noiva, como a conheci faz agora quase
seis anos. Caso estas notas possam causar ao noivo, que não
r oo J.D. SALINGER

conheço, um ou dois momentos de maior perplexidade, tanto


melhor. Aqui, ninguém está à espera de agradar. Mas mais,
realmente de esclarecer, de instruir.
Em abril de 1 944, fazia parte de um grupo de uns sessenta
militares americanos que participavam num curso pré-invasão
bastante especializado, orientado pelos serviços secretos ingle­
ses, em Devon, na Inglaterra. E, quando agora penso nisso,
dá-me a impressão de que éramos realmente excecionais, to­
dos os sessenta, no sentido de que nenhum de nós era muito
sociável. Éramos todos essencialmente do género escrevedores
de cartas, e quando nos dirigíamos uns aos outros sem ser por
razões de serviço, normalmente era para perguntar se alguém
tinha tinta de que não precisasse . Quando não estávamos a
escrever cartas ou nas aulas, cada um seguia invariavelmente
o seu caminho. O meu levava-me, quando estava bom tempo, a
umas voltas pelos campos das vizinhanças. Nos dias de chuva,
geralmente ficava sentado em algum sítio seco a ler um livro,
muitas vezes a um braço de uma mesa de pingue-pongue.
O treino durou três semanas, tendo acabado num sábado,
bastante chuvos o . À s sete horas dessa última tarde, todo
o nosso grupo teria de embarcar no comboio para Londres,
onde, segundo o boato que corria, seríamos destacados para
divisões de infantaria e aerotransportadas convocadas para
o desembarque no Dia D. Pelas três da tarde, já tinha metido
todos os meus pertences no saco de campanha, incluindo um
estoj o de máscara de gás cheio de livros que trouxera do
« Outro Lado » . (A máscara de gás propriamente dita tinha-a
atirado por uma vigia do Mauretania umas semanas atrás,
perfeitamente consciente de que caso o inimigo alguma vez
usasse mesmo gás eu nunca haveria de sacar o raio daquela
coisa a tempo . ) Lembro-me de ter estado a uma j anela na
ponta da nossa caserna de chapa ondulada durante um bom
NOVE HISTÓRIAS IOI

bocado, a olhar para a chuva oblíqua, desoladora, com uma


comichão impercetível, se é que real, no dedo inflamado. Ou­
via atrás de mim o arranhar pouco gregário de várias canetas
em várias folhas de aerogramas . De repente, sem nenhuma
ideia especial em mente, deixei a j anela, vesti o impermeável,
um cachecol de caxemira, galochas, luvas de lã, e um boné de
expedicionário (este último, ainda hoje mo dizem, usava-o
com uma inclinação muito minha, ligeiramente abaixo das
duas orelhas) . Em seguida, depois de ter acertado o meu reló­
gio por um que havia nas latrinas, desci o longo caminho em­
pedrado da colina até à cidade. Não liguei aos clarões dos re­
lâmpagos à minha volta. Ou nos estão destinados ou não.
No centro da cidade, que era provavelmente a parte mais
molhada da cidade, parei em frente de uma igreja a ler o pro­
grama afixado, mais porque os algarismos que exibia, brancos
em fundo preto, me tinham chamado a atenção, mas em parte
também porque, depois de três anos no Exército, tinha-me
tornado um viciado na leitura de painéis de avisos. À s três
e um quarto, informava o painel, havia um ensaio do coro in­
fantil. Olhei para o relógio, depois novamente para o painel.
Tinha uma folha de papel afixada, com a lista das crianças
que iriam participar no ensaio. Ali à chuva, li os nomes todos,
depois entrei na igreja.
Cerca de uma dúzia de adultos distribuía-se pelos bancos,
alguns deles tendo no regaço pares de galochas de criança,
com as solas viradas para cima. Passei ao lado deles e sentei­
-me na fila da frente . Na capela-mor, sentadas em três filas
compactas de cadeiras de a uditório , havia cerca de vinte
crianças, raparigas na sua maior parte, com idades entre os
sete e os treze anos . Naquele momento, a ensaiadora, uma
mulher enorme com roupas de tweed, estava a pedir-lhes que
abrissem bem a boca ao cantar. Já alguém, perguntou ela, ti­
nha ouvido falar de algum passarinho que se atrevesse a can­
tar a sua linda canção sem primeiro ter o biquinho muito,
102 J.D. SALINGER

muito, muito bem aberto ? Aparentemente ninguém tinha. Fi­


xavam-na com um olhar imperturbável, opaco . Prosseguiu
dizendo que queria que todas as crianças assimilassem o signifi­
cado das palavras que cantavam, e não apenas recitá-las, como
papagaios patetas. Depois soprou uma nota no lamiré, e as
crianças, como outros tantos levantadores de peso infantis,
ergueram os livros de cânticos.
Cantavam sem acompanhamento musical - ou mais pre­
cisamente no caso deles, sem nenhuma interferência. As vozes
eram melodiosas e sem sentimentalismo, quase ao ponto de
uma pessoa um pouco mais crente do que eu poder, sem es­
forço, ter entrado em levitação . Umas quantas das crianças
mais pequenas arrastavam um nadinha o andamento, mas de
um modo que só a mãe do compositor poderia ver nisso uma
falha. Nunca ouvira aquele cântico, mas pus-me a desej ar que
fosse um daqueles com doze ou mais versos. Enquanto as ou­
via, fui passando em revista as caras de todas as crianças, mas
observei uma em particular, a da miúda que ficava mais perto
de mim, na cadeira da ponta da primeira fila. Teria uns treze
anos, com cabelo liso loiro cinza, que lhe chegava só ao lóbu­
lo da orelha, uma testa delicada e um olhar blasé que, pensei
eu, teria já muito possivelmente contado as pessoas do públi­
co. A voz dela diferenciava-se de forma clara da das outras
crianças, e não só por estar sentada mais perto de mim. Era
dela o melhor registo nas notas mais altas, o som mais melo­
dioso, o mais seguro, que automaticamente conduzia as ou­
tras. A rapariguinha, porém, parecia um pouco enfadada com
o seu próprio talento, ou talvez apenas com o momento e o
lugar; por duas vezes, entre estrofes, vi-a bocej ar, um bocej o
de senhora crescida, um bocejo de boca fechada, mas que não
podia passar despercebido; as narinas denunciaram-na.
NOVE HISTÓRIAS 103

No momento em que o cântico acabou, a ensaiadora co­


meçou a explicar demoradamente a sua opinião sobre as pes­
soas que não conseguem estar com os pés quietos e a boca fe­
chada durante o sermão do padre. Deduzi que a parte cantada
do ensaio acabara e, antes que a voz dissonante da ensaiadora
conseguisse desfazer por completo o encanto criado pela voz
das crianças, levantei-me e saí da igreja.
Chovia ainda mais. Desci a rua e olhei pela j anela do salão
recreativo da Cruz Vermelha, mas os soldados estavam api­
nhados em filas duplas e triplas diante do balcão do café e,
mesmo através dos vidros, ouvia as bolas de pingue-pongue
a saltitar na sala ao lado. Atravessei a rua e entrei num salão
de chá civil, onde não havia ninguém, a não ser uma empre­
gada de meia-idade, que dava a impressão de que teria prefe­
rido um cliente com um impermeável seco. Fiz uso do cabide
com o maior cuidado possível, e depois sentei-me a uma mesa
e pedi um chá e uma torrada com canela . Era a primeira vez
no dia todo que dirigia a palavra a alguém. Depois passei re­
vista a todos os meus bolsos, incluindo os do impermeável,
e acabei por encontrar duas cartas mirradas para reler, uma
da minha mulher, contando-me como o serviço na Schrafft's
da Rua Oitenta e Oito tinha piorado, e outra da minha sogra,
que me pedia o favor de lhe mandar fio de caxemira na pri­
meira ocasião que tivesse de sair do « acampamento » .
I a ainda n a minha primeira chávena de chá, quando en­
trou na sala a miúda que eu tinha estado a ver e a ouvir can­
tar. Os cabelos estavam encharcados e tinha os bordos das
orelhas à mostra. Vinha acompanhada de um rapazinho, sem
dúvida irmão dela, a quem tirou o boné da cabeça com dois
dedos, como se fos s e um espécime l a b oratoria l . A fechar
o cortej o, vinha uma mulher de ar enérgico com um chapéu
de feltro mole - presumivelmente a governanta. A miúda do
coro, despindo o casaco enquanto atravessava a sala, escolheu
1 04 J .D . SALINGER

a mesa - uma boa escolha, do meu ponto de vista, pois fica­


va mesmo à minha frente apenas a dois ou três metros. Ela e a
governanta sentaram-s e . O rapazito, que tinha uns cinco
anos, não estava ainda disposto a sentar-se. Deslizou para fo­
ra do casacão e deixou-o a um lado; depois com a expressão
impassível de um diabrete nato, pôs-se a ímportunar metodi­
camente a governanta empurrando e puxando a cadeira dela
várias vezes, observando a cara que ela fazia . A governanta,
sempre em voz baixa, disse-lhe duas ou três vezes para se sen­
tar e se deixar j á daquelas macaquices, mas foi só quando
a irmã o mandou que ele deu a volta à mesa e encostou o fun­
do das costas ao assento da sua cadeira. Pegou logo no guarda­
napo e pô-lo na cabeça. A irmã tirou-lho, abriu-o, e estendeu­
-lho nos joelhos.
No momento em que lhes traziam o chá, a coralista sur­
preendeu-me a olhar para o grupo. Retribui o meu olhar, com
aqueles seus olhos escrutinadores. E depois, de repente, fez­
-me um pequeno sorriso, reservado. Era um sorriso estranha­
mente radioso, como certos pequenos sorrisos reservados o
são por vezes. Retribui o sorriso, muito menos radiosamente,
mantendo o lábio superior a esconder uma obturação tempo­
rária de soldado raso, negra como o carvão, entre dois dos
meus dentes da frente. Antes que desse por isso, a raparigui­
nha estava em pé, com um aprumo invej ável, ao lado da mi­
nha mesa. Trazia um vestido de tecido escocês - o tartã dos
Campbell, creio eu. A meu ver, um vestido magnífico para
uma menina tão nova usar num dia muito muito chuvoso. -
Pensava que os americanos desdenhavam o chá - disse ela.
Não era uma observação de alguém a armar-se em esperto,
mas antes de alguém que ama a verdade ou que ama as estatís­
ticas. Respondi que alguns de nós nunca bebem mais nada
a não ser chá. Perguntei-lhe se queria sentar-se à minha mesa.
- Obrigada - disse ela. - Talvez só por uma fração de
momento.
NOVE HISTÓRIAS 105

Levantei-me e puxei uma cadeira para ela, a que ficava em


frente de mim, e ela sentou-se num quarto do assento, man­
tendo com facilidade e elegância as costas direitas. Regressei
- quase com precipitação - ao meu lugar, mais do que im­
paciente por começar a conversa. Mas mal me sentei não con­
segui encontrar nada para dizer. Sorri de novo, mantendo
sempre a minha escuríssima obturação fora das vistas. Obser­
vei que estava mesmo um dia horroroso.
- Sim; bastante - disse a minha convidada, no tom claro
e inconfundível de alguém que detesta conversa de chacha.
Colocou os dedos estendidos na borda da mesa, como alguém
numa sessão de espiritismo, e quase no mesmo instante fe­
chou as mãos - as unhas estavam roídas até ao sabugo. Tra­
zia um relógio de pulso, de estilo militar, que mais parecia um
cronógrafo de navegador. Tinha um mostrador largo de mais
para o pulso magro dela. - O senhor estava no ensaio do
coro - disse ela num tom objetivo. - Vi-o lá.
Eu disse que realmente tinha estado, e que tinha distingui­
do a voz dela da dos outros. Disse-lhe que achava que tinha
uma voz lindíssima.
Ela assentiu com a cabeça. - Eu sei. Vou ser cantora pro­
fissional.
- A sério ? Ópera ?
- Meu Deus, não. Vou cantar jazz na rádio e ganhar mon-
tes de dinheiro. Depois, quando tiver trinta anos, retiro-me
e vou viver num rancho no Ohio. - Tocou o topo da cabeça
encharcada com a palma da mão. - Conhece o Ohio ? - per­
guntou.
Respondi que já o tinha atravessado de comboio várias ve­
zes, mas que na realidade não o conhecia. Ofereci-lhe um bo­
cado da minha torrada com canela.
- Não, obrigada - disse ela. - Sou um pisco a comer,
para dizer a verdade.
106 J.D. SALINGER

Dei uma dentada na torrada, e comentei que havia regiões


extremamente bravias no Ohio.
- Eu sei. Disse-me um americano que eu conheci. O se­
nhor é o décimo primeiro americano que conheço.
A governanta estava agora a fazer-lhe sinais desesperados
para que voltasse para a mesa - no fundo, para deixar de
maçar o senhor. A minha convidada, porém, deslocou tran­
quilamente a cadeira uns centímetros de maneira a ficar de
costas, cortando qualquer possibilidade de comunicação com
a mesa de origem. - O senhor anda naquela escola secreta de
espiões lá em cima na colina, não anda ? - perguntou ela
num tom desprendido.
Tão conhecedor como qualquer outro das regras de segu­
rança, respondi que estava no Devonshire por razões de saúde.
- Pois claro - disse ela. - Só que eu não nasci ontem,
não sei se sabe.
Eu disse que também me parecia, já agora . Durante uns
instantes limitei-me a beber o meu chá. Começava a ficar um
nada preocupado com a minha postura e endireitei-me um
pouco na cadeira.
- Estou a achá-lo bastante inteligente para um americano
- disse a minha convidada num tom absorto.
Disse-lhe que me parecia ba stante snobe dizer aquilo,
se fôssemos a ver bem as coisas, e que não esperava aquilo
dela.
Ela corou . . . conferindo-me automaticamente o à-vontade
social que até aí me faltara. - Bem, a maior parte dos ameri­
canos que eu tenho visto portam-se como animais. Andam
sempre aos murros uns aos outros, a insultar toda a gente e . . .
Sabe o que u m deles fez ?
Fiz que não com a cabeça.
NOVE HISTÓRIAS 1 07

- Houve um deles que atirou uma garrafa de whisky va­


zia pela janela da minha tia. Felizmente a janela estava aberta.
Mas isso parece-lhe uma coisa inteligente, a si ?
Não me parecia lá muito, mas não o disse. Disse que mui­
tos soldados, em qualquer parte do mundo, estavam longe de
casa, e que poucos deles haviam tido reais oportunidades na
vida. Disse que pensava que a maior parte das pessoas eram
capazes de compreender isso.
- É possível - disse a minha convidada, sem convicção.
Levou outra vez a mão à cabeça molhada, pegou nuns quantos
fios macios de cabelo loiro, tentando tapar as orelhas à mostra.
- O meu cabelo está todo ensopado - disse ela. - Estou
com um ar horrível. - Levantou os olhos para mim. - O meu
cabelo é bastante ondulado quando está seco.
- Vê-se que sim, vê-se que é.
- Não verdadeiramente encaracolado, mas bastante on-
dulado - disse ela. - É casado ?
Disse que sim.
Ela assentiu com a cabeça. - Está profundamente apaixo­
nado pela sua mulher ? Ou estou a ser demasiado indiscreta ?
Disse-lhe que quando achasse que estava, lhe diria.
Pôs as mãos e os pulsos um pouco mais à frente em cima
da mesa, e lembro-me de ter pensado em fazer alguma coisa
quanto àquele enorme relógio de pulso que ela trazia - tal­
vez sugerir-lhe que o usasse à volta da cintura.
- Normalmente, não sou especialmente gregária - disse
ela, e olhou para mim a ver se eu conhecia o significado da
palavra. Não lhe dei nenhuma pista, porém, nem num sentido
nem noutro. - Vim para a sua mesa simplesmente porque
achei que tinha um ar extremamente só. O senhor tem um
rosto extremamente sensível.
Disse que ela tinha razão, que me tinha sentido só, e que
estava muito contente por ela ter vindo.
108 J.D. SALINGER

- Ando a esforçar-me para ser mais compreensiva. A mi­


nha tia diz que sou uma pessoa tremendamente fria - disse
ela e apalpou de novo o topo da cabeça. - Vivo com a minha
tia. É uma pessoa extremamente simpática. Desde que morreu
a minha mãe, faz tudo o que estej a ao seu alcance para fazer
com que eu e Charles nos sintamos adaptados.
- Ainda bem.
- A minha mãe era uma pessoa extremamente inteligente.
Bastante sensual, sob muitos pontos de vista. - Olhou para
mim com uma espécie de cândida sagacidade. - Acha-me tre­
mendamente fria ?
Disse-lhe que de modo nenhum - muito pelo contrário,
de facto. Disse-lhe o meu nome e perguntei-lhe o dela.
Hesitou. - Chamo-me Esmé. Não me parece que lhe deva
dizer o meu nome completo, por agora. Tenho um título e o
senhor pode ser dos que ficam impressionados com os títulos.
Os americanos ficam impressionados, sabe.
Disse que não me parece que ficasse, mas que talvez fosse
uma boa ideia não revelar o título por enquanto.
Nesse momento, senti um hálito morno na minha nuca.
Voltei-me e quase ia esbarrando o nariz contra o do irmãozito
de Esmé. Sem me ligar, dirigiu-se à irmã com uma voz esgani­
çada estridente: - Miss Megley disse que tens de vir para a
mesa e acabares o teu chá ! - Transmitida a mensagem, reti­
rou-se para a cadeira entre mim e a irmã, à minha direita. Ob­
servei-o com o máximo interesse. Estava verdadeiramente
magnífico nos seus calções de lã de Shetland castanhos, uma
camisola azul-marinho, camisa branca e gravata às riscas. Fi­
xou-me também com uns olhos verdes imensos. - Porque
é que as pessoas se beij am de lado nos filmes ?
- De lado ? - disse eu. Era um problema que também me
tinha desconcertado em criança . Respondi que se calhar era
porque os atores tinham narizes grandes de mais para se bei­
j arem de frente.
NOVE HISTÓRIAS I 09

- Chama-se Charles - disse Esmé. - É extremamente


brilhante para a idade.
- Tem uns olhos mesmo verdes. Não tens, Charles ?
Charles lançou-me o olhar inexpressivo que a minha per­
gunta merecia, depois torceu-se para a frente e para trás na
cadeira até ficar com o corpo todo debaixo da mesa, exceto
a cabeça, que, como um ginasta em ponte, apoiou no assento
da cadeira. - São cor de laranj a - disse ele numa voz força­
da, falando para o teto. Agarrou uma ponta da toalha da me­
sa e tapou com ela a sua encantadora carinha impassível.
- À s vezes é brilhante e às vezes não é - disse Esmé. -
Charles, senta-te direito !
Charles deixou-se ficar na mesma posição. Parecia estar ocu­
pado a conter a respiração.
- Sente muito a falta do nosso pai. Foi m-o-r-t-o no Nor­
te de África.
Exprimi-lhe o meu pesar pelo acontecido.
Esmé assentiu com a cabeça. - O pai adorava-o. - Mor­
discou com ar pensativo a cutícula do polegar. - É muito pa­
recido com a minha mãe; o Charles, quero eu dizer. Eu sou
exatamente como o meu pai. - Continuou a mordiscar a cu­
tícula. - A minha mãe era uma mulher bastante ardente. Era
uma extrovertida. O pai era um introvertido . Formavam um
bom casal, no entanto, de uma maneira superficial. Para falar
com franqueza, o pai na realidade precisava de uma melhor
companhia intelectual do que a mãe era. Ele era um génio ex­
tremamente dotado.
Fiquei à espera, atento, de mais informação, mas não me
foi fornecida. Baixei o olhar para Charles, que agora poisara
a cara de lado no assento. Quando reparou que estava a olhar
para ele, fechou os olhos, como quem dorme, angélico, e pôs
a língua de fora - um apêndice de um comprimento sur­
preendente - e soltou aquilo que no meu país poderia ser um
I IO J . D . SALINGER

magnífico tributo a um árbitro de basebol míope. Fez mesmo


estremecer o salão de chá.
- Para com isso - disse Esmé, manifestamente impassível.
- Viu um americano fazer isso numa fila do fish-and-chips,
e agora faz isso sempre que está aborrecido. Para j á com isso
ou mando-te direitinho para Miss Begley.
Charles abriu os olhos enormes, como sinal de ter ouvido
a ameaça da irmã, mas sem dar outras mostras de estar parti­
cularmente preocupado. Voltou a fechar os olhos e continuou
com a cara apoiada no assento da cadeira.
Observei que talvez ele devesse guardar aquilo - referia­
-me à surriada - para quando começasse a usar o título com
regularidade. Isto, caso também ele tivesse um título.
Esmé lançou-me um olhar demorado, vagamente clínico.
- Tem um sentido de humor subtil, não tem ? - disse ela,
absorta. - O pai dizia que eu não tinha o mínimo sentido de
humor. Dizia que não estava apetrechada para enfrentar a vida
porque não tinha sentido de humor.
Sem tirar os olhos dela, acendi um cigarro e disse que não
achava que o sentido de humor servisse para alguma coisa
num aperto a sério.
- O pai dizia que sim.
Isto era uma profissão de fé, não uma objeção, e eu mudei
depressa de rumo . Fiz que sim com a cabeça e disse-lhe que
o pai dela estaria talvez a ver as coisas a longo prazo e eu a
curto (o que quer que isto quisesse dizer).
- O Charles sente inexcedivelmente a falta dele - disse
Esmé, passados alguns instantes. - Era um homem inexcedi­
velmente adorável. E também extremamente bonito . Não é
que a aparência das pessoas conte grande coisa, mas era boni­
to. Tinha um olhar tremendamente penetrante, para um ho­
mem que era intrinsecamente simpático.
NOVE HISTÓRIAS III

Abanei a cabeça em assentimento. Disse que imaginava


que o pai dela devia ter sido uma pessoa com um vocabulário
muito rico.
- Ah, sim; bastante - disse Esmé . - Era arquivista . . .
amador, naturalmente.
Nesta altura, senti uma batida insistente, quase um soco,
no braço, vinda do lado de Charles. Virei-me para ele. Estava
sentado numa posição até certo ponto normal, não fosse o joe­
lho dobrado por baixo dele. - O que diz uma parede a outra
parede ? - perguntou esganiçado. - É uma adivinha !
Rolei os olhos pensativamente virado para o teto e repeti
a pergunta em voz alta. Depois olhei para Charles com um ar
entupido e disse que desistia.
- Encontramo-nos à esquina ! - veio a resposta, no volu­
me máximo.
Mas no próprio Charles é que o efeito foi enorme. Foi para
ele insuportavelmente divertido. De facto, Esmé teve de lhe ir
dar umas palmadas nas costas, como se ele estivesse com um
ataque de tosse. - Agora para com isso - disse ela. Voltou
para o lugar. - Põe sempre a mesma adivinha a todas as pes­
soas que encontra e de cada vez tem um ataque. Normalmente
baba-se quando se ri. Vá, para com isso, faz favor.
- É de facto uma das melhores adivinhas que eu já ouvi -
disse eu, observando Charles, que a pouco e pouco se recom­
punha. Em resposta a este elogio, afundou-se consideravel­
mente na cadeira e voltou a tapar a cara com a ponta da toa­
lha. E então fitou-me com os olhos destapados, ainda cheios de
um j úbilo que esmorecia e o orgulho de alguém que sabe uma
ou duas adivinhas realmente boas.
- Posso indagar em que estava empregado antes de ingres­
sar no Exército ? - perguntou Esmé.
Disse-lhe que nunca tinha estado empregado, que só tinha
saído da universidade há um ano, mas que gostava de me con­
siderar um contista profissional.
II2 J.D. SALINGER

Ela assentiu polidamente com a cabeça. - Publicado ? -


perguntou.
Era uma pergunta familiar, mas sempre embaraçosa, e a
que eu não era capaz de responder apenas com sim ou não.
Comecei a explicar que a maior parte dos editores americanos
eram um bando de . . .
- O meu pai escrevia maravilhosamente - interrompeu
Esmé . - Tenho a lgumas das cartas dele guardadas para a
posteridade.
Disse-lhe que me parecia uma belíssima ideia. Aconteceu
estar a olhar de novo para o relógio, de mostrador enorme,
com ar de cronógrafo . Perguntei-lhe se tinha pertencido ao
pai.
Olhou para o pulso com um ar grave. - Sim, pertencia -
disse ela. - Deu-mo pouco antes de eu e o Charles termos
sido evacuados. - Embaraçada, tirou as mãos de cima da
mesa, dizendo : - Apenas como memento, claro . Orientou
então a conversa numa direção diferente. - Sentir-me-ia ex­
tremamente lisonj eada se alguma vez escrevesse um conto ex­
clusivamente para mim. Sou uma leitora voraz. - Disse-lhe
que com certeza o faria, se pudesse. Expliquei-lhe que não era
tremendamente prolífico.
- Não tem de ser tremendamente prolífico ! Basta que não
sej a nem infantil nem estúpido. - Refletiu. - Os meus prefe­
ridos são os contos sobre sordidez.
- Sobre quê ? - disse eu, inclinando-me para diante.
- Sordidez. Estou extremamente interessada na sordidez.
Ia para lhe pedir mais pormenores, mas senti Charles a be­
liscar-me, com força, no braço. Virei-me para ele, franzindo
o cenho ao de leve. Estava especado mesmo ao meu lado. -
O que diz uma parede a outra parede ? - perguntou ele, com
uma certa familiaridade.
- Já lhe perguntaste isso - disse Esmé. - Para com isso.
NOVE HISTÓRIAS 113

Sem ligar à irmã, e pisando-me um pé, Charles repetiu a


pergunta crucial. Reparei que o nó da gravata não estava
bem-posto. Aj ustei-lho e, fitando-o nos olhos, sugeri: - En­
contro à esquina ?
No preciso momento em que o disse, desej ei não o ter fei­
to . Charles ficou de boca a berta . Senti-me como se tivesse
sido eu a abri-la com um soco. Saiu de cima do meu pé e,
com impressionante dignidade, dirigiu-se para a mesa dele,
sem olhar para trás.
- Está furioso - disse Esmé. - Tem um temperamento
violento. A minha mãe tinha propensão para o estragar com mi­
mos. O meu pai era o único que não o estragava.
Fiquei de olhos postos em Charles, que se tinha sentado
e bebia o chá, pegando na chávena com as duas mãos. Espera­
va que ele se voltasse, mas não o fez.
Esmé levantou-se. - II faut que je parte aussi - disse ela,
com um suspiro. - Fala francês?
Levantei-me da cadeira, com um sentimento onde se con­
fundia o pesar e o embaraço. Apertámos as mãos; a mão dela,
como eu suspeitara, era uma mão nervosa, húmida na palma.
Disse-lhe, em inglês, que a companhia dela fora um grande
prazer para mim.
Ela assentiu com a cabeça. - Tinha-me parecido que seria
- disse ela. - Sou bastante comunicativa para a minha ida­
de. - Tateou mais uma vez o cabelo. - Estou terrivelmente
desolada com o meu cabelo - disse ela. - Devia estar com
um aspeto horroroso.
- D e maneira nenhuma ! Na realidade, parece-me que
uma grande parte do ondulado já se nota.
Levou rapidamente a mão ao cabelo de novo. - Acha que
voltará aqui no futuro imediato ? - perguntou. - Nós vimos
cá todos os sábados, depois do ensaio do coro.
1 14 J .D . SALINGER

Disse-lhe que nada me daria mais gosto, mas que, infeliz­


mente, estava convencido de que não poderia voltar a fazê-lo.
- Por outras palavras, não pode falar dos movimentos
das tropas - disse Esmé . Não dava sinais de querer deixar
a proximidade da mesa. De facto, cruzou um pé em cima do
outro e, baixando o olhar, alinhou as pontas dos sapatos. Era
um pequeno número bastante bonito, pois estava com meias
brancas e os tornozelos e os pés eram adoráveis. Levantou os
olhos para mim de repente. - Gostava que lhe escrevesse ? -
perguntou, corando um pouco. - Escrevo cartas extremamen­
te bem redigidas para uma pessoa da minha . . .
- Gostava muito . - Saquei de papel e lápis e escrevi o
meu nome, posto, número mecanográfico e o código postal
militar.
- Eu escrevo primeiro - disse ela, pegando no papel -,
para não sentir que tem alguma o b riga ção. - Meteu o ende­
reço no bolso do vestido. - Adeus - disse, dirigindo-se para
a sua mesa.
Mandei vir outro bule de chá e sentei-me a observar os
dois, até que eles, e a atormentada Miss Megley, se levanta­
ram para sair. Charles ia à frente, coxeando de forma dramá­
tica, como um homem com uma perna vários centímetros
mais curta do que a outra. Não olhou para mim. Miss Megley
vinha depois, seguida de Esmé, que me fez um aceno. Acenei
em resposta, soerguendo-me na cadeira. Foi um momento es­
tranhamente comovedor para mim.

Menos de um minuto depois, Esmé voltou a entrar no sa­


lão de chá arrastando Charles por uma manga do casacão .
- O Charles gostava de lhe dar um beijo de despedida - dis­
se ela.
Poisei logo a chávena e disse que era muito simpático, mas
teria ela a certeza?
NOVE HISTÓRIAS 115

- Tenho - disse ela, um nada ríspida. Largou a manga


de Charles e empurrou-o com alguma força na minha direção.
Ele avançou, a cara lívida, e deu-me um beij o húmido e sono­
ro mesmo abaixo da orelha direita. A seguir a esta provação,
ia já a cortar para a porta e para uma vida menos sentimental,
mas eu agarrei-o pelo cinto do casacão, retendo-o, e pergun­
tei-lhe: - Que diz uma parede a outra parede ?
O rosto dele iluminou-se. - Encontramo-nos à esquina !
- guinchou, e saiu a correr da sala, possivelmente num riso
histérico.
Esmé tinha ficado ali em pé, de novo com os tornozelos
cruzados. - Tem mesmo a certeza de que não se esquece de
escrever o conto para mim ? - perguntou. - Não tem de ser
exclusivamente para mim. Pode ser . . .
Disse-lhe que não havia a mínima possibilidade d e m e es­
quecer. Disse-lhe que nunca tinha escrito um conto para nin­
guém, mas que me parecia ser o momento exato para o fazer.
Ela concordou com um aceno da cabeça. - Faça-o extre­
mamente sórdido e comovente - sugeriu. - Está de algum
modo familiarizado com a sordidez ?
Disse-lhe que não propriamente, mas que estava a ficar ca­
da vez mais familiarizado, de uma maneira ou outra, e que fa­
ria o meu melhor para respeitar as especificações dela. Aper­
támos as mãos.
- Não é uma pena que não nos tenhamos conhecido em
circunstâncias menos atenuantes ?
Disse que era, que não havia dúvida que era.
- Adeus - disse Esmé . - Espero que volte da guerra
com todas as suas faculdades intactas.
Agradeci-lhe, e disse mais algumas palavras, e depois fi­
quei a vê-la sair do salão de chá. Saiu devagar, refletidamente,
apalpando as pontas dos cabelos a ver se estavam secos.
116 J . D . SALINGER

Vem agora a parte sórdida, ou comovente, da história, e


o cenário muda por completo . Mudam também as pessoas .
Ainda por cá ando, mas a partir de agora, por razões que não
me é permitido desvendar, tão habilmente disfarçado que nem
o leitor mais sagaz será capaz de me reconhecer.
Eram cerca de dez e meia da noite em Gaufurt, na Baviera,
várias semanas depois do Dia da Vitória na Europa . O sar­
gento-aj udante X estava no seu quarto, no segundo andar de
uma casa civil onde ele e mais nove soldados americanos ti­
nham sido aboletados, ainda antes do armistício. Estava sen­
tado numa cadeira desdobrável de madeira a uma pequena se­
cretária desarrumada, tendo aberto diante dele um romance
de além-Atlântico, que estava a ter dificuldade em ler. A difi­
culdade estava nele, não no romance. Embora os homens que
viviam no primeiro andar fossem os primeiros a deitar a mão
aos livros enviados todos os meses pelos Serviços Especiais,
X tinha a impressão de normalmente lhe calhar o livro que ele
próprio teria escolhido. Mas ele era um rapaz que não tinha
saído da guerra com todas as suas faculdades intactas, e por
mais de uma hora estivera a ler pela terceira vez os mesmos
parágrafos, estando agora a fazer o mesmo com as frases. De
repente fechou o livro, sem marcar a página . Com as mãos,
protegeu por momentos os olhos da luz crua e intensa da lâm­
pada nua por cima da mesa.
Tirou um cigarro do maço que estava em cima da mesa
e acendeu-o com os dedos que não paravam de bater leve­
mente uns nos outros. Reclinou-se um nada na cadeira e ficou
a fumar sem lhe sentir o gosto . Há semanas que fumava ci­
garros uns atrás dos outros. As gengivas sangravam à mais
ligeira pressão da ponta da língua, e ele raramente parava de
experimentar; era como um pequeno j ogo para ele, por vezes
durante horas inteiras. Ficou sentado a fumar e a tentear com
NOVE HISTÓRIAS II7

a língua . D epois, abruptamente, familiarmente e , como de


costume, sem nenhum aviso, pareceu-lhe sentir que o seu espí­
rito se deslocava e vacilava, como a bagagem mal segura num
porta-bagagens do comboio. De imediato, fez a mesma coisa
que desde há semanas costumava fazer para repor ordem nas
coisas: apertou com força as mãos contra as têmporas. Man­
teve a pressão durante algum tempo. O cabelo precisava de
ser cortado, e estava sujo. Tinha-o lavado três ou quatro ve­
zes durante as duas semanas que estivera no hospital em
Frankfurt, mas tinha voltado a ficar suj o com a poeira da lon­
ga viagem de j ipe de volta a Gaufurt. O cabo Z, que o fora
buscar ao hospital, continuava a conduzir, armistício ou não
armistício, um j ipe « estilo combate » , com o para-brisas bai­
xado sobre o capô. Havia milhares de soldados recém-chega­
dos à Alemanha. Ao guiar com o para-brisas baixado, « estilo
combate » , o cabo Z esperava mostrar que não era um deles,
que não era de maneira nenhuma um desses filhos da mãe no­
vos no teatro de operações europeu.
Quando tirou as mãos da cabeça, X ficou de olhos fixos
no tampo da secretária, um repositório de pelo menos duas
dúzias de cartas por abrir e pelo menos cinco ou seis embru­
lhos também por abrir, que lhe eram todos endereçados. Es­
tendeu o braço por cima dessa confusão e pegou num livro
que estava encostado à parede. Era um livro de Goebbels, in­
titulado Die Zeit Ohne Beispiel. Pertencia à rapariga, de trin­
ta e oito anos, solteira, filha da família que, até há algumas
semanas, tinha vivido naquela casa. Ocupara um posto baixo
no Partido Nazi, mas suficientemente alto, pelos padrões dos
Regulamentos do Exército, para entrar na categoria de prisão
automática. Fora o próprio X a prendê-la. Agora, pela tercei­
ra vez desde que regressara do hospital, abriu o livro dela
e leu a breve dedicatória da página de guarda. Escritas a tinta,
118 J . D . 5ALINGER

em alemão, numa letra pequena, desesperadamente sincera,


liam-se as palavras « Meu Deus, a vida é um inferno » . Nada
antes, nem nada a seguir. Solitárias na página, na quietude
doentia do quarto, as palavras pareciam assumir a dimensão
de uma máxima incontestável, clássica at�. X ficou de olhos
pregados na página durante vários minutos, tentando, contra
ventos e marés, não ser ludibriado . Depois, com uma maior
determinação do que a que usara durante semanas, pegou num
lápis e escreveu por baixo da dedicatória, em inglês: « Pais
e professores, ponho a questão: "O que é o Inferno ? " Quanto
a mim, é o sofrimento de ser incapaz de amar. » Começou
a escrever o nome de Dostoiévski por baixo da frase, mas re­
parou - com um terror que lhe percorreu o corpo inteiro -
que aquilo que escrevera era quase totalmente ilegível. Fechou
o livro.
Pegou com rapidez noutra coisa qualquer de cima da me­
sa, uma carta do irmão mais velho, de Albany. Estava ali j á
antes d e ter dado entrada n o hospital. Abriu o envelope, va­
gamente decidido a ler a carta até ao fim, mas leu apenas
a metade inicial da primeira página. Parou depois das pala­
vras « Agora que a p. da guerra acabou e que se calhar tens
uma data de tempo por aí, que tal se mandasses aos miúdos
umas baionetas ou umas suásticas . . . » Depois de a ter rasgado,
ficou a olhar para os pedaços no fundo do caixote do lixo.
Reparou que não tinha dado por uma fotografia dentro do
envelope. Conseguia distinguir uns pés de alguém num relva­
do num sítio qualquer.
Pôs os braços em cima da mesa e repousou neles a cabeça.
Sentia dores da cabeça aos pés, tudo zonas de dor aparente­
mente interdependentes. Mais parecia uma árvore de Natal,
cujas luzes, ligadas em série, tinham de se apagar todas, mes­
mo que só uma delas estivesse fundida.
NOVE HISTÓRIAS 1 19

A porta abriu-se com estrondo, sem que tivessem batido


antes. X levantou a cabeça, voltou-se e viu o cabo Z em pé
à porta. O cabo Z partilhara o j ipe de X e fora o seu fiel com­
panheiro desde o D i a D ao longo de cinco campanhas da
guerra. Vivia no primeiro andar e normalmente ia ter com X
sempre que tinha alguns boatos ou chatices para despej ar. Era
um rapaz enorme e fotogénico de vinte e quatro anos. Duran­
te a guerra, uma revista nacional tinha-o fotografado na flo­
resta de Hürtgen; tinha posado, mais do que por mera amabi­
lidade, com um peru do dia de Ação de Graças em cada mão.
- 'Tás a escrever cartas ? - perguntou. - Isto está uma cata­
cumba, caraças. - Preferia sempre entrar num quarto que ti­
vesse a luz acesa.
X voltou-se na cadeira e disse-lhe para entrar, e para ter
cuidado para não pisar o cão.
- O quê ?
- O Alvin. Está mesmo aos teus pés, Clay. E se acendes-
ses o raio dessa luz ?
Clay descobriu o interruptor da lâmpada do teto, acendeu­
-a, deu alguns passos no quarto ínfimo, de criada, e sentou-se
na borda da cama, fitando o seu anfitrião. O cabelo acobrea­
do, acabado de pentear, pingava com o excesso de água que
fora necessária para o amaciar satisfatoriamente . Um pente
e uma tampa de caneta saíam, de forma descuidada, do bolso
direito da camisa verde-azeitona. Por cima do bolso esquerdo
trazia a medalha de combatente de infantaria ( que, em rigor,
não estava autorizado a usar), a fita do teatro de operações eu­
ropeu, com cinco estrelas de bronze de combate (em vez de
uma única estrela de prata, que era o equivalente às cinco de
bronze), e a fita do serviço militar pré-Pearl Harbour. Suspirou
profundamente e disse: - Porra. - Não queria dizer nada;
a tropa é assim. Tirou um maço de cigarros do bolso da camisa,
I 20 J . D . SALINGER

fez saltar um com um piparote, depois guardou o maço e abo­


toou o bolso. Pôs-se a fumar, percorrendo o quarto com um
olhar vazio. Os olhos poisaram finalmente no rádio. - Ei -
disse ele. - Vão dar um programa bestial na rádio daqui
a uns minutos. O Bob Hope e essa gente toda.
Sem se deixar desencoraj ar, Clay observou X, que tentava
acender um cigarro. - Poça - disse ele, com um entusiasmo
de espectador -, devias ver a merda das tuas mãos . Eh, pá,
'tás mesmo tremeliques. Sabias disso ?
X conseguiu acender o cigarro , assentiu com a cabeça,
e disse que Clay tinha um verdadeiro olho para os pormenores.
- Fora de gozo . Ia quase tendo a merda de um desmaio
quando te vi no hospital. Parecias o raio de um cadáver. Quan­
to peso perdeste ? Quantos quilos ? Sabes ?
- Não sei . Tiveste cartas enquanto estive fora ? Tiveste
notícias da Loretta ?
Loretta era a namorada de Clay. Tencionavam casar logo
que lhes fosse possível. Ela escrevia-lhe com uma certa regula­
ridade, de um paraíso de triplos pontos de exclamação e con­
siderações erradas. Ao longo da guerra, Clay fora lendo a X
as cartas de Loretta, por mais íntimas que fossem - de facto,
quanto mais íntimas, melhor. Tinha por costume, depois de
ler cada carta, pedir a X que lhe alinhavasse ou acrescentasse
umas coisas na carta de resposta, ou escrevesse umas quantas
palavras em francês ou alemão só para impressionar.
- Recebi ontem carta dela. No quarto. Mostro-ta depois
- disse Clay, distraidamente. Sentou-se rígido na borda da
cama, reteve a respiração e soltou um prolongado arroto, que
ficou a ressoar. Com o ar de quem não ficou completamente
satisfeito com a proeza, distendeu-se novamente. - O raio do
irmão dela vai sair da Marinha por causa da anca - disse ele.
- Saiu-lhe na rifa aquela anca, o sacana. - Sentou-se outra
NOVE HISTÓRIAS I2I

vez e fez força para dar mais um arroto, mas não lhe saiu à al­
tura. Veio-lhe à cara uma ponta de apreensão. - Eh, antes que
me esqueça . Amanhã temos de n o s levantar às cinco e ir
a Hamburgo ou a um sítio desses. Vamos buscar blusões Eise­
nhower para todo o destacamento.
X, fitando-o com hostilidade, disse que não queria ne-
nhum blusão Eisenhower.
Clay pareceu surpreendido, até um nada magoado.
- Olha que são bons ! Têm bom ar. Porque não ?
- Por n a d a . Porque t e m o s de n o s levantar à s cinco ?
A guerra acabou, caraças.
- Não sei . . . Temos de estar de volta antes do almoço. Re­
ceberam mais uns impressos que temos de preencher antes do
almoço . . . Perguntei ao Bulling porque é que não os preenchía­
mos hoje à noite ... Ele tem a merda dos impressos em cima da
mesa. Mas não quer abrir j á os envelopes, o filho da mãe.
Ficaram os dois calados uns instantes, maldizendo Bulling.
Subitamente, Clay olhou para X com renovado - maior -
interesse. - Ei - disse ele. - Sabias que tens o raio de um
lado da cara todo aos saltos ?
X disse que estava farto de saber, e tapou o tique com a
mão.
Clay ficou a olhar para ele um bocado e depois disse, com
uma certa vivacidade, como se fosse o mensageiro de notícias
excecionalmente boas: - Escrevi à Loretta a dizer que tu es­
tavas com um esgotamento nervoso.
- Sim ?
- Sim. Ela tem um interesse do caraças por toda essa tre-
ta. Está a especializar-se em psicologia. - Clay estendeu-se na
cama, sapatos incluídos. - Sabes o que ela disse ? Disse que
ninguém apanha um esgotamento nervoso só por causa da
guerra e tal. Diz ela que se calhar tu já eras instável, o raio da
vida toda.
1 22 J.D. SALINGER

X pôs a mão sobre os olhos - a luz por cima da cama pa­


recia cegá-lo - e disse que a capacidade de Loretta para per­
ceber as coisas era sempre uma alegria.
Clay lançou-lhe um olhar rápido. - Ouve lá, meu sacana
- disse ele. - Ela sempre sabe umas coisas mais do raio da
psicologia do que tu.
- Achas que consegues tirar a porcaria desses pés de cima
da minha cama ? - perguntou X.
Clay não mexeu os pés do sítio durante o não-me-venhas­
-dizer-onde-devo-pôr-os-pés de alguns segundos, depois girou-
-os, poisando-os no chão, e sentou-se. - Vou para baixo, as-
sim como assim. Há um rádio no quarto do Walker. - Não
se levantou da cama, no entanto. - Ei. Ainda há pouco estive
lá em baixo a contar àquele filho da mãe que chegou agora,
o Bernstein. Lembras-te quando eu e tu íamos de j ipe para
Valognes, e fomos bombardeados durante quase a porra de
umas duas horas, e a porra daquele gato a que eu dei um tiro
que saltou para o capô do jipe quando estávamos enfiados na­
quela cova ? Lembras-te ?
- Lembro . . . Não comeces com essa treta do gato outra
vez, Clay, porra. Não quero ouvir falar nisso.
- Não, o que eu queria dizer é que escrevi à Loretta a
contar isso. E ela e todos os alunos de psicologia discutiram
o caso. Na aula e tudo. A porra do professor e toda a gente.
- Está bem. Mas não quero ouvir falar nisso, Clay.
- Não, sabes a razão por que lhe mandei um balázio, diz
a Loretta ? Diz ela que eu estava temporariamente demente .
Fora de gozo. Por causa do bombardeamento e tal.
X passou os dedos, uma vez, pelos cabelos suj os, depois
voltou a proteger os olhos da luz. - Não estavas nada de­
mente. Estavas simplesmente a fazer o teu dever. Matar aque­
le gato foi de homem, é o que qualquer um faria, dadas as
circunstâncias.
NOVE HISTÓRIAS 1 23

Clay olhou para ele desconfiado. - Que raio estás para aí


a dizer ?
- Aquele gato era um espião. Era tua obrigação mandar-
-lhe um balázio. Era um alemão em miniatura espertíssimo, dis-
farçado com um casaco de peles barato. Por isso o que fizeste
não teve absolutamente nada de brutal, nem cruel, nem nojen­
to, nem sequer. ..
- Porra ! - disse Clay, os lábios franzidos - Não conse­
gues nunca falar a sério ?
X sentiu um enjoo súbito, girou na cadeira e agarrou o cai­
xote do lixo - mesmo a tempo.
Quando se endireitou e se voltou novamente para o seu vi­
sitante, deu com ele em pé, embaraçado, a meio-caminho entre
a cama e a porta. X ia para se desculpar, mas mudou de ideia
e pegou nos cigarros.
- Anda daí ouvir o Hope no rádio, vá - disse Clay, man­
tendo a distância mas tentando ser amistoso. - Fazia-te bem.
A sério.
- Vai andando, Clay . . . Vou ver a minha coleção de selos.
- Sim ? Tens uma coleção de selos ? Não sabia que tu . . .
- Estava s ó a brincar.
Clay deu uns passos vagarosos para a porta. - Sou capaz
de ir a Ehstadt mais tarde - disse ele. - Há lá um baile. De­
ve acabar lá para as duas. Queres ir ?
- Não, obrigado . . . Sou capaz de ensaiar uns passos aqui
no quarto.
- Okay. Boa noite ! Vê se tens calma, agora, caraças. -
Bateu a porta, mas logo a seguir voltou a abri-la. - Ei. Cha­
teia-te se eu enfiar uma carta para a Loretta por baixo da tua
porta ? Meti-lhe umas tretas em alemão. Importas-te de me
corrigir aquilo ?
- Não. Agora deixa-me em paz, porra.
1 24 J . D . SALINGER

- Está bem - disse Clay. - Sabes o que a minha mãe me


escreveu ? Escreveu a dizer que está contente por tu e eu ficar­
mos j untos e tal a guerra toda. No mesmo j ipe e assim. Diz
ela que as minhas cartas são bestialmente mais inteligentes
desde que andamos juntos.
X levantou os olhos para ele e disse, com um esforço enor­
me: - Obrigado. Diz-lhe obrigado por mim.
- Vou dizer. Bo'noite ! - bateu a porta, agora de vez.

X ficou sentado a olhar para a porta durante um bom bo­


cado, depois virou a cadeira para a secretária e levantou do
chão a máquina de escrever. Arranj ou lugar para ela em cima
da mesa desarrumada, afastando para o lado a pilha desmo­
ronada de cartas e embrulhos por abrir. Pensou que escrever
uma carta a um velho amigo seu em Nova Iorque era capaz
de ser para ele uma rápida , ainda que ligeira, terapia . Mas
não conseguia enfiar devidamente o papel no rolo, tanto lhe
tremiam os dedos agora. Deixou as mãos pendentes uns ins­
tantes, depois voltou a tentar, mas acabou por amachucar
o papel na mão.
Sabia que devia pôr o caixote do lixo fora do quarto, mas
em vez de o fazer, pôs os braços em cima da máquina de es­
crever e voltou a apoiar neles a cabeça, fechando os olhos.
Passados uns minutos latej antes, ao a brir os olhos, deu
por si a tentar identificar um pequeno embrulho, por abrir,
embalado em papel verde. Provavelmente tinha caído da pilha
quando abrira espaço para a máquina. Reparou que tinha sido
reenviado várias vezes. Só num dos lados do embrulho, conse­
guia distinguir pelo menos três dos seus antigos números de
código postal militar.
Abriu o embrulho sem o mínimo interes s e , sem sequer
olhar para o remetente. Abriu-o, queimando o fio com um
NOVE HISTÓRIAS 125

fósforo. Estava mais interessado em ver o fio a arder até ao


fim do que em abrir o embrulho, mas acabou por o abrir.
Dentro da caixa, havia um bilhete, escrito a tinta, em cima
de um pequeno obj eto embrulhado em papel de seda . Pegou
no bilhete e leu-o.

RUA . . . . . . . . . , N . 0 1 7
. . . . • . • . • . • • . . , ÜEVON

7 DE JUNHO D E 1 9 44

CARO SARGENTO X,
Espero que me desculpe ter demorado 38 dias para dar iní­
cio à nossa correspondência, mas tenho andado extremamente
ocupada, pois a minha tia contraiu estreptococos na garganta
e esteve à beira da morte e tenho-me visto j ustificadamente so­
brecarregada com uma responsa bilidade a seguir à outr a . No
entanto tenho pensado em si com frequência e na tarde extre­
mamente agradável que passámos na companhia um do outro
no dia 30 de abril de 1 944, entre as 3 h45 e as 4h 1 5 , caso não
o tenha presente.
Estamos todos tremendamente entusiasmados e subj ugados
com o Dia D e só esperamos que ele traga uma pronta conclu­
são da guerra e de um método de existência que é ridículo para
não dizer mais . Charles e eu estamos bastante preocupados
consigo; esperamos que não estivesse entre aqueles que fizeram
o primeiro assalto inicial na península de Contentin. Estava ?
Por favor, responda o mais prontamente possível. As mais calo­
rosas lembranças à sua mulher.

Com amizade,
ESMÉ

P.S. - Tomo a liberdade de enviar j unto o meu relógio que


poderá manter na sua posse enquanto durar o c onflito . Não
1 26 ] . D . SALINGER

observei se tinha um durante o nosso breve encontro, mas este


é extremamente à prova de água e à prova de choque possuindo
ainda outras virtudes entre as quais a de permitir ver a que ve­
locidade caminhamos s e o desej armos . Estou certa de que o
usará com muito maior vantagem nestes dias difíceis do que eu
j amais o poderia fazer e que o aceitará como um talismã para
lhe dar sorte.
Charles, a quem ando a ensinar a ler e a escrever e que me
parece um pupilo extremamente inteligente, desej a acrescentar
algumas palavras. Por favor, escreva logo que tenha tempo e in­
clinação para o fazer.

O LÁ O LÁ O LÁ O LÁ O LÁ
O LÁ O LÁ O LÁ O LÁ O LÁ
BEIJ O S E ABRAÇOS
CHALES

Passou bastante tempo até X conseguir poisar o bilhete,


quanto mais tirar da caixa o relógio do pai de Esmé. Quando
finalmente o tirou, viu que o vidro se tinha partido pelo cami­
nho. Perguntou a si mesmo se o relógio ainda funcionaria,
mas faltava-lhe a coragem para lhe dar corda e verificar. Li­
mitou-se a ficar sentado com ele na mão d urante mais um
bom bocado. Depois, de súbito, quase extaticamente, sentiu­
-se com sono.
Pegue-se num homem realmente com sono, Esmé, e pode
dizer-se que há sempre uma possibilidade de ele voltar a ser
um homem com todas as suas fac ... com todas as suas f-a-c-u-1-
-d-a-d-e-s intactas.
Linda boca e verdes meus olhos

Q UANDO o TELEFONE TOCOU , o homem de cabelo grisalho


perguntou à rapariga, com muito de uma pequena deferência,
se por uma qualquer razão preferia que ele não atendesse.
A rapariga ouviu-o como que de longe, e voltou-se para ele,
um olho - do lado da luz - firmemente fechado, o olho
aberto muito, ainda que de forma dissimulada, arregalado,
e tão azul que mais parecia quase violeta. O homem de cabelo
grisalho disse-lhe para se despachar, e ela soergueu-se no ante­
braço apenas com a rapidez suficiente para que o movimento
não parecesse de má vontade. Puxou para trás os cabelos da
testa com a mão esquerda e disse: - Poça. Sei lá. Quer dizer,
o que é que tu achas ? - O homem de cabelo grisalho disse
que não via que isso fizesse assim tanta diferença de uma ma­
neira ou outra, e enfiou a mão esquerda sob o braço em que
ela se apoiava, acima do cotovelo, subindo com os dedos,
abrindo espaço para eles por entre as superfícies tépidas do
braço e do peito dela. Estendeu a mão direita para o telefone.
Para pegar nele sem ser às apalpadelas, teve de se erguer um
pouco mais, fazendo com que a parte de trás da cabeça tocas­
se ao de leve o canto do abaj ur. Por instantes, a luz incidiu de
r 28 J . D . SALINGER

modo particularmente lisonjeiro, ainda que com alguma in­


tensidade, sobre o seu cabelo grisalho, quase branco. Embora
despenteado nesse momento, tinha sido obviamente cortado
há pouco tempo - ou antes, aparado há pouco. A linha do
pescoço e as têmporas tinham sido cortadas rentes de modo
convencional, mas os lados e o topo tinham sido deixados um
pouco mais do que para o comprido, e tinham, de facto, algu­
ma coisa de « distinto » . - Está ? - disse ele com voz sonora
ao telefone. A rapariga deixou-se ficar soerguida no antebraço
e observava-o. Os olhos, semicerrados, mais do que atentos ou
interrogativos, refletiam sobretudo o seu próprio tamanho e cor.
Uma voz de homem - completamente sem vida, ainda
que de forma algo r u d e , quase o b scena , reanima d a para
o momento - fez-se ouvir do o utro l a d o do fio : - Lee ?
Acordei-te ?
O homem de cabelo grisalho lançou um breve olhar para
a esquerda, para a ra �ariga. - Quem fala ? - perguntou. -
Arthur?
- Sou . . . Acordei-te ?
- Não, não. Estou na cama, a ler. Passa-se alguma coisa?
- De certeza que não te acordei ? Palavra de honra ?
- Não, não . . . palavra - disse o homem de cabelo grisa-
lho. - Para dizer a verdade, tenho tido a porcaria de uma
média de quatro horas . . .
- A razão por que t e estou a telefonar, Lee, é saber s e por
acaso reparaste quando é que a Joanie saiu. Acaso reparaste
se ela saiu com os Ellenbogens, por acaso ?
O homem de cabelo grisalho olhou de novo para a esquer­
da, mas desta vez para cima, para além da rapariga, que ago­
ra o observava quase como um j ovem polícia irlandês, de
olhos azuis. - Não, não vi, Arthur - disse ele, os olhos fixa­
dos num ponto afastado, obscuro, do quarto, onde a parede
se une ao teto. - Ela não saiu contigo ?
NOVE HISTÓRIAS 1 29

- Não, caraças, não. Não a viste sequer sair, então ?


- Bem, não, realmente não vi, Arthur - disse o homem
de cabelo grisalho. - No fundo, para dizer a verdade, não vi
coisíssima nenhuma a noite inteira. Mal passei a porta, vi-me
envolvido na chatice de uma sessão com aquele parvalhão
francês, ou parvalhão vienês . . . ou lá que raio ele era. O raio
de todos estes estrangeiros estão sempre de olho numa consul­
tazinha j urídica à borla. Porquê ? Que se passa ? A Joanie per­
deu-se ?
- Oh, caraças. Quem sabe ? Não faço ideia. Sabes como
ela é, quando está com os copos e mortinha por fazer alguma.
Sei lá. Talvez ela tenha só . . .
- Ligaste para o s Ellenbogens ? - perguntou o homem de
cabelo grisalho.
- Liguei. Ainda não chegaram. Sei lá. Caraças, nem se­
quer tenho a certeza se ela saiu com eles. Só sei o raio de uma
coisa. É que estou farto de dar voltas à cabeça. Estou a falar
a sério. Desta vez é mesmo a sério. Estou farto. Cinco anos.
Porra.
- Calma, vê se te acalmas um bocado, agora, Arthur -
disse o homem de cabelo grisalho. - Para já, se bem conheço
os Ellenbogens, o mais certo é terem-se enfiado todos num táxi
e terem ido umas horas até à Village. À s tantas desembarcam
os três . . .
- Tenho um palpite de que foi mas é enfiar-se n a cozinha
com algum sacana. É só um palpite. Começa sempre a atirar­
-se a algum sacana na cozinha quando fica com os copos. Es­
tou farto. Palavra de honra que desta vez é a sério. O raio de
cmco . . .
- Onde estás agora, Arthur ? - perguntou o homem de
cabelo grisalho. - Em casa ?
- Sim. Em casa. No lar doce lar. Caraças.
- Bem, vê lá se ficas um pouco mais . . . Será que estás . . .
bêbado o u quê ?
J.D. SALINGER

- Sei lá. Como raio hei de eu saber ?


- Muito bem, ouve uma coisa. Calma. Vamos a ter cal-
ma. - disse o homem de cabelo grisalho. - Tu conheces os
Ellenbogens, caraças. Às tantas o que aconteceu, é que às tan­
tas perderam o último comboio. Vais ver que às tantas desem­
barcam aí os três, com aquelas piadas dos bares . . .
- Eles foram d e carro.
- Como é que sabes ?
- A baby-sitter. Tivemos umas quantas conversas brilhan-
tes como o caraças. Somos íntimos como o raio. Somos dois
compinchas do caraças.
- Está bem. Está bem. E então ? Trata de ficar aí sentadi­
nho e de te acalmar - disse o homem de cabelo grisalho. -
À s tantas saltam aí os três. Vais ver. Sabes como é a Leona .
Não sei que raio lhe dá . . . Ficam todos com aquela animação
tramada do Connecticut quando chegam a Nova Iorque. Sabes
bem isso.
- Pois. Eu sei. Eu sei. Mas sei lá eu.
- Claro que sabes. Usa essa cabeça. O mais certo é aque-
les dois terem arrastado a Joanie pelos . . .
- O uve u m a cois a . Nunca ninguém arrastou a Joanie
para parte nenhuma. Não me venhas agora com essa treta do
arrastar.
- Ninguém te vem com treta nenhuma, Arthur - disse
o homem de cabelo grisalho numa voz calma.
- Eu sei, eu sei ! Desculpa. Poça, estou a perder a cabeça.
Palavra de honra que não fui eu que te acordei ?
- Se fosses dizia-te, Arthur - disse o homem de cabelo
grisalho. - Distraidamente, retirou a mão esquerda de entre
o braço e o peito da rapariga. - Olha, Arthur. Queres um
conselho ? - disse ele. Segurou o fio do telefone entre os de­
dos, mesmo j unto ao auscultador. - Agora estou a falar a sé­
rio. Queres um conselho ?
NOVE HISTÓRIAS 131

- Sim. Sei lá. Poça, não te deixo dormir. Porque não vou
mas é cortar a . . .
- Ouve u m minuto - disse o homem de cabelo grisalho.
- Primeiro . . . agora estou a falar a sério . . . vai-te deitar e des-
cansa. Toma um bom copo para aconchegar e enfia-te debai­
xo dos . . .
- Um copo ! Estás a brincar ? Poça, enfiei quase u m litro
no raio das duas últimas horas. Um copo! Estou com um tal
pifo que mal posso . . .
- Está bem. Está bem. Enfia-te n a cama, então - disse
o homem de cabelo grisalho. - E descansa . . . estás a ouvir ?
Diz a verdade. Serve de alguma coisa ficares para aí sentado
a ralar-te ?
- Pois é, eu sei. Eu nem sequer me preocupava, caraças,
mas não se pode confiar nela ! Palavra de honra. Palavra de
honra que não se pode. Confiar nela é o mesmo que atirar
uma . . . nem sei o quê. Oooh, de que é que serve ? Estou a per­
der o raio da cabeça.
- Está bem. Deixa lá isso, agora. Deixa lá isso, agora.
Queres fazer-me um favor e ver se tiras tudo isso da cabeça ?
- disse o homem de cabelo grisalho. - Com o pouco que sa­
bes, estás a fazer . . . Sinceramente acho que estás a ferver em
pouca . . .
- Sabes o que é que e u faço ? Sabes o que é que eu faço? Até
tenho vergonha de to dizer, mas sabes que raio me apetece fazer
todas as noites? Quando chego a casa ? Queres que te diga ?
- Arthur, ouve. Não é agora o . . .
- Espera u m segundo . . . vou-te dizer, porra. Praticamente
tenho de me controlar para não ir abrir o raio de todos os
roupeiros do apartamento . . . Palavra de honra. Todas as noi­
tes quando chego a casa, estou meio à espera de descobrir um
bando de sacanas escondidos por toda a parte. Ascensoristas.
Marçanos. Polícias . . .
132 J . D . SALINGER

- Está bem. Está bem. Vamos lá a ter alguma calma, Ar­


thur - disse o homem de cabelo grisalho. Desviou o olhar de
repente para a direita, onde um cigarro, que tinha acendido
há algum tempo nessa noite, estava em equilíbrio na borda de
um cinzeiro . Mas estava o bviamente apagado e não pegou
nele. - Para já - disse ele ao telefone - já te disse isso muitas
e muitas vezes, Arthur, é aí precisamente que tu te enganas .
Sabes o que é que t u fazes ? Queres que te diga o que t u fazes ?
Fazes tudo e mais alguma coisa . . . agora a sério . . . fazes tudo
e mais alguma coisa para te torturares a ti próprio. Na verda­
de, tu és uma inspiração para a Joanie . . . - interrompeu-se.
- Tens uma sorte do caraças por ela ser uma miúda maravi­
lhosa. Estou a falar a sério. Tu não queres aceitar que aquela
miúda possa ter o mínimo bom gosto . . . ou miolos, caraças, j á
agora . . .
- Miolos! Estás a brincar ? Ela não tem o raio de miolos
nenhuns ! É um animal!
O homem de cabelo grisalho, as narinas dilatadas, deu
a impressão de soltar um suspiro profundo. - Somos todos
animais - disse ele. - Basicamente, somos todos animais.
- Somos, uma ova. Eu não sou o raio de animal nenhum.
Posso ser o mais estúpido, o mais tramado filho da mãe do sé­
culo vinte, mas não sou nenhum animal. Não me venhas com
essa. Não sou animal nenhum.
- Ouve, Arthur. Isto não nos leva a . . .
- Miolos. Poça, s e soubesses a piada que isso tinha. Ela
acha que é o raio de uma intelectual. Essa é a parte que tem
mais piada, a parte hilariante. Lê a página dos espetáculos,
e vê televisão até ficar praticamente cega . . . e por isso é uma
intelectual. Sabes com quem estou casado ? Queres saber com
quem estou casado ? Estou casado com a maior de todas as
atrizes, romancistas, psicanalistas vivas, ainda por revelar
e por descobrir, e o raio da maior celebridade genial à espera
de reconheci� ento em toda a Nova Iorque. Não sabias, pois
NOVE HISTÓRIAS 133

não ? Caraças, tem tanta piada que me apetece cortar o pesco­


ço. A Madame Bovary do curso noturno da Columbia. A Ma­
dame . . .
- Quem ? - perguntou o homem d e cabelo grisalho, pa­
recendo aborrecido.
- Madame Bovary anda num curso de Crítica de Televi­
são. Poça, se soubesses como . . .
- Está bem, está b e m . B e m vês q u e isto n ã o n o s leva
a lado nenhum - disse o homem de cabelo grisalho. Voltou­
-se e fez sinal à rapariga, levando dois dedos à boca, de que
queria um cigarro. - Antes de mais nada - disse para o tele­
fone - para um tipo bestialmente inteligente como tu, estás
a mostrar uma falta de tato que não podia ser maior. - Endi­
reitou as costas, de modo a que a rapariga conseguisse chegar
aos cigarros atrás dele. - A sério. Vê-se pela tua vida priva­
da, vê-se pela tua . . .
- Miolos. Caraças, essa é demais ! Porra ! J á alguma vez
a ouviste a descrever alguém . . . algum homem, quero eu dizer ?
Um dia que não tenhas nada que fazer, faz-me um favor e pe­
de-lhe que te descreva um homem qualquer. Ela descreve todos
os homens que vê como «tremendamente atraentes » . Nem que
seja o mais velho, o mais esbodegado, o mais sebento dos . . .
- Muito bem, Arthur - disse o homem d e cabelo grisa­
lho, cortante. - Isto não nos leva a lado nenhum. Mas mesmo
nenhum. - Pegou no cigarro aceso que a rapariga lhe esten­
dia. Tinha acendido dois. - Já agora - disse ele, lançando
o fumo pelo nariz - que tal te correu hoje?
- O quê ?
- Que tal te correu hoj e ? - repetiu o homem de cabelo
grisalho. - Como correu o j ulgamento ?
- Oh, bolas ! Sei lá. Uma porcaria. Uns dois minutos an­
tes de eu estar todo lançado para começar as minhas alega­
ç õ e s , o advogado do queixos o , o Liss berg, manda entrar
134 j . D . SALINGER

a doida de uma criada com uma pilha de lençóis como pro­


va . . . cheios de manchas de percevej os. Poça !
- E então ? Perdeste ? - perguntou o homem de cabelo
grisalho, tirando mais uma fumaça.
- Sabes quem era o juiz ? O Mamã Vittorio. Que raio terá
aquele gaj o contra mim, é coisa que nunca hei de saber. Mal
vou a abrir a boca e já ele está a saltar-me em cima. Não se
pode argumentar com um gaj o assim. É impossível.
O homem de cabelo grisalho virou a cabeça para ver o que
estava a fazer a rapariga. Tinha pegado num cinzeiro e estava
a pô-lo no meio dos dois. - Perdeste, então, ou quê ? - disse
ele para o telefone.
- O quê ?
- Perguntei se tinhas perdido.
- Perdi . Ia-te falar nisso. Na festa não me foi possível,
com aquela balbúrdia toda. Achas que o Junior vai aos ara­
mes ? Não é que isso me aqueça ou arrefeça, mas que é que tu
achas ? Achas que vai ?
Com a mão esquerda, o homem de cabelo grisalho aj ustou
a cinza do cigarro na borda do cinzeiro. - Não acho que ele
vá necessariamente aos arames, Arthur - disse ele com cal­
ma. - Mas há muitas hipóteses de que não vá ficar aos pulos
de contente. Sabes há quanto tempo andamos a tratar da por­
caria desses hotéis ? Foi o velho Shanley em pessoa quem co­
meçou todo o . . .
- Eu s e i , eu s e i . O Junior contou-me i s s o p e l o menos
umas cinquenta vezes. É umas das histórias mais lindas que
ouvi em toda a minha vida. Está bem, pronto, perdi o raio do
j ulgamento. Para já, não foi culpa minha. Primeiro, aquele lu­
nático do Vittorio passou o j ulgamento todo a provocar-me.
Depois a anormal daquela criada desata a passar em volta os
lençóis com marcas de percevejos e . . .
NOVE HISTÓRIAS 135

- Ninguém disse que a culpa é tua, Arthur - disse o ho­


mem de cabelo grisalho. - Perguntaste-me se eu achava que
o Junior ia aos arames. Eu limitei-me a dar a minha honesta . . .
- E u sei . . . E u sei isso . . . Sei l á . Que s e lixe. Sou capaz de
voltar para o Exército. Já te falei nisso?
O homem de cabelo grisalho voltou a cabeça para a rapa­
riga mais uma vez, talvez para ela ver como era paciente, até
estoica, a sua expressão. Mas a rapariga não estava a olhar.
Tinha acabado de derrubar o cinzeiro com o j oelho e agora
j untava apressadamente, com os dedos, a cinza entornada
num montinho para a limpar; levantou os olhos para ele um
segundo demasiado tarde. - Não, não falaste, Arthur - dis­
se ele para o telefone.
- P o i s é. S o u c a p a z d i s s o . Ainda n ã o s e i . Não é que
a ideia me entusiasme, naturalmente, e se o puder evitar não
vou. Mas pode ser que tenha de ser. Sei lá. Pelo menos, dá
para esquecer. Se me derem de volta o meu capacetezinho,
a minha grande secretária e o meu belo e grande mosquiteiro,
pode ser que não . . .
- O que e u gostava era d e te enfiar algum bom senso nes­
sa cabeça, rapaz, era o que eu gostava de fazer - disse o ho­
mem de cabelo grisalho. - Para um tipo bestialmente . . . Para
um tipo que é considerado inteligente, falas como uma perfei­
ta criança. E estou-te a falar com toda a sinceridade . Estás
a deixar que uma data de coisinhas sem importância tomem
o raio de tais proporções na tua cabeça que ficas absoluta­
mente incapaz de qualquer . . .
- Devia tê-la deixad o . S abias isso ? Devia ter acabado
com tudo o verão passado, quando eu estava mesmo na maré
de cima . . . sabias isso ? E sabes por que não o fiz ? Queres saber
porque não o fiz ?
- Arthur. Caraças. Isto não nos leva a lado nenhum.
J . 0 . SALINGER

- Espera um segundo . Deixa-me dizer-te porquê ! Sabes


porque não o fiz ? Porque tive pena dela. É a pura e simples
verdade. Tive pena dela.
- Bem, isso não sei. Quer dizer, está fora da minha alça­
da - disse o homem de cabelo grisalho. - Mas o que me pa­
rece é que te esqueces que a Joanie é uma mulher crescida.
Não sei, mas está-me a parecer que ...
- Mulher crescida ! Estás maluco ? Ela não passa de uma
criança crescida, caraças! Ouve, estava eu a fazer a barba ... ou­
ve-me esta ... estava eu a fazer a barba e às tantas ela chama-me
lá da outra ponta do apartamento. Eu vou ver o que se passa ...
mesmo a meio da barba, com espuma pelo raio da cara toda.
E sabes o que ela queria ? Queria saber se eu achava que ela
era inteligente . Palavra de honra . É de meter pena, digo-te .
Olho para ela quando está a dormir e sei do que estou a falar.
Podes crer.
- Bem, sabes melhor do que . . . Quer dizer, são coisas que
estão fora da minha alçada - disse o homem de cabelo grisa­
lho. - A questão é que, caraças, tu não fazes nada de cons­
trutivo para . . .
- Não fomos feitos u m para o outro, é o que é. A história
é só essa. Não fomos nada feitos um para o outro. Sabes do
que é que ela precisa ? Precisa é de um daqueles grandes saca­
nas muito calados que de vez em quando chegue à beira dela
e lhe mande uma boa sova que a ponha a dormir . . . e depois
vá acabar de ler o jornal. É disso que ela precisa. Sou fraco de
mais para ela. Eu sabia isso quando casámos . . . palavra de
honra que sabia . O que te digo é que és um sacana esperto,
que nunca casaste, mas de vez em quando, antes de nos casar­
mos, temos uns flas hes de como vai ser depois de casarmos.
Eu não liguei. Não liguei ao raio de nenhum dos meus flashes.
Sou um fraco. E isso diz tudo numa palavra.
NovE HISTÓRIAS 137

- Não és nada fraco. Só que não usas a cabeça - disse


o homem de cabelo grisalho, aceitando da rapariga um cigar­
ro que ela acabara de acender.
- Claro que sou um fraco ! Claro que sou um fraco ! Por­
ra, eu bem sei se sou um fraco ou não ! Se não fosse um fraco,
j ulgas que havia de ter deixado que tudo . . . Ooh, de que serve
falar nisso ? Claro que sou um fraco . . . Poça, estou a fazer-te
passar a noite toda acordado . Porque não me desligas o raio
do telefone na cara ? A sério. Desliga.
- Não vou nada desligar-te o telefone, Arthur. Gostava de
te dar alguma ajuda, dentro do meu possível - disse o homem
de cabelo grisalho. - Mas a verdade é que tu és o teu pior . . .
- E l a n ã o tem respeito p o r m i m . Nem sequer gosta de
mim, caraças. No fundo . . em última análise . . . eu também já
.

não gosto dela. Sei lá. Gosto e não gosto. Varia. Flutua. Poça !
Sempre qúe estou decidido a bater o pé, vamos j antar fora,
por uma ou outra razão, e eu vou-me encontrar com ela num
sítio qualquer e ela aparece-me com o raio de umas luvas bran­
cas ou coisa assim. Sei lá. Ou começo a pensar na primeira
vez que fomos a New Haven ver o j ogo da Princeton. Tive­
mos um furo mesmo à saída da Alameda, estava um frio de
rachar, e ela ficou a segurar a lanterna enquanto eu resolvia
o raio daquela treta . . . Sabes o que eu quero dizer. Sei lá. Ou
então começo a pensar . . . Poça, até tenho vergonha . . . Começo
a pensar no raio de uma poesia que lhe mandei quando come­
çámos a andar juntos. « Rosa minha cor é e branco, Linda bo­
ca e verdes meus olhos. » Poça, até tenho vergonha . . . mas fa-
zia-me pensar nela. Ela não tem olhos verdes . . . tem uns olhos
que parecem o raio de umas conchas, caraças . . . mas fazia-me
pensar nela, sej a como for. . . Sei lá. De que serve falar nisso ?
Estou a perder o juízo. Desliga, porque não desligas ? A sério.
O homem de cabelo grisalho clareou a garganta e disse:
- Não faço tenções de te desligar o telefone, Arthur. Mas
há uma coisa . . .
138 J . D . 5ALINGER

- Uma vez comprou-me um fato . Com o dinheiro dela.


Falei-te nisso ?
- Não, eu . . .
- Entrou n o Tripler's acho e u e comprou-o. Nem sequer
fui com ela. Quer dizer, também há nela o raio de alguns lados
bons. O mais engraçado é que até não me ficava mal. Tive só
de mandar tirar um bocadinho na parte de trás . . . as calças . . .
e n o comprimento. Quer dizer, também h á nela o raio de al­
guns lados bons.
O homem de cabelo grisalho ficou a ouvir mais uns ins­
tantes. Depois voltou-se de repente para a rapariga. O olhar
que lhe lançou, ainda que só de relance, deu-lhe a entender
claramente o que de repente se estava a passar do outro lado
do fio. - Vá, Arthur. Ouve. Isso não resolve as coisas - disse
ele para o telefone. - Isso não resolve as coisas. A sério. Agora
ouve. Digo-te isto muito sinceramente. Não queres despir-te
e ir para a cama, como um bom menino ? E descansar ? A Joa­
nie provavelmente está aí dentro de dois minutos. Não queres
que ela te vej a nesse estado, pois não ? O raio dos Ellenbogens
provavelmente vão desembarcar aí com ela. Não queres que
aquela malta toda te veja nesse estado, pois não ? - Ficou à es­
cuta. - Arthur? Estás a ouvir ?
- Poça, estou a fazer-te passar a noite toda acordado. Tudo
o que faço, é . . .
- Não estás nada a fazer-me passar a noite toda acordado
- disse o homem de cabelo grisalho. - Nem penses nisso. Já
te disse, tenho tido uma média de quatro horas de sono por
noite. O que eu gostava de fazer, se é que é possível, era aju­
dar-te, rapaz. - Ficou à escuta. - Arthur ? Estás aí?
- Estou. Estou aqui . Ouve. Assim não te deixo dormir,
de qualquer maneira. Posso ir a tua casa beber um copo ? Im­
portas-te ?
NOVE HISTÓRIAS 139

O homem de cabelo grisalho endireitou a s costas, levou


a mão espalmada ao topo da cabeça e disse: - Agora, queres
tu dizer?
- Sim. Quer dizer, se tu não te importas. Fico só um mi­
nuto. Gostava só de me sentar num sítio qualquer e . . . sei lá.
Pode ser ?
- Sim, mas a questão é que acho que não devias - disse
o homem de cabelo grisalho, tirando a mão da cabeça. - Quer
dizer, não me importo nada que venhas, mas francamente
acho que devias ficar aí muito bem sentadinho e descansar até
a Joanie aparecer aí. Sinceramente é o que eu acho. O que tu
queres é estar em casa quando ela aparecer. Tenho razão ou
não tenho ?
- Sim. Sei lá. Palavra de honra que não sei.
- Bem, sei eu, muito sinceramente - disse o homem de ca-
belo grisalho. - Ouve. Porque não te metes já na cama, e des­
cansas, e mais tarde, se te apetecer, me telefonas ? Quer dizer, se
te apetecer conversar. E não te preocupes. Isso é o mais impor­
tante. Estás a ouvir? Não queres fazer isso agora ?
- Está bem.
O homem de cabelo grisalho permaneceu uns instantes com
o telefone junto ao ouvido, depois pô-lo no descanso.
- Que é que ele disse ? - perguntou a rapariga de imediato.
Ele pegou no cigarro do cinzeiro - ou antes, escolheu um
do monte de cigarros fumados e meio fumados. Tirou uma
fumaça e disse: - Queria vir cá beber um copo.
- Poça ! Que é que disseste ? - disse a rapariga.
- Tu ouviste - disse o homem de c a b e l o gri s a l h o , e
olhou para ela. - Estavas a ouvir. Não estavas ? - Esmagou
o cigarro.
- Foste espantoso. Absolutamente maravilhoso - disse
a rapariga, observando-o. - Poça, sinto-me como um cão!
- Bem - disse o homem de cabelo grisalho. - É uma si­
tuação complicada. Não sei se fui assim tão maravilhoso.
j . D . SALINGER

- Foste . Foste espantoso - disse a rapariga . - Estou


desfeita. Estou absolutamente desfeita. Olha para mim !
O homem de cabelo grisalho olhou para ela . - Bem, de
facto é uma situação impossível - disse ele. - Quer dizer,
tudo isto é tão bizarro que nem sequer. . .
- Querido . . . Desculpa - disse, rápida, a rapariga e incli­
nou-se para diante. - Acho que tens uma coisa a arder. -

Com as costas da mão fez um gesto curto, vivo, de quem sa­


code. - Não. Era só um bocado de cinza. - Recostou-se. -
Não, foste maravilhoso - disse ela. - Poça, sinto-me mesmo
como um cão!
- Bem, é uma situação muito, muito complicada. Aquele
tipo está obviamente a passar por uma tremenda . . .
D e repente, tocou o telefone.
O homem de cabelo grisalho disse: - Porra ! - mas le-
vantou-o antes do segundo toque. - Está ? - disse ele.
- Lee ? Estavas a dormir ?
- Não, não.
- Ouve, foi só por pensar que ias gostar de saber. A Joa-
nie acaba de entrar.
- O quê ? - disse o homem de cabelo grisalho, e pôs
a mão a proteger os olhos, apesar de a luz estar atrás dele.
- É verdade. Desembarcou agora mesmo. Uns dez segun­
dos depois de eu acabar de falar contigo. Pensei em te dar só
uma apitadela enquanto ela está na casa de banho. Ouve, mil
vezes obrigado, Lee. A sério . . . sabes o que eu quero dizer.
Não estavas a dormir, pois não ?
- Não, não. Estava só . . . Não, não - disse o homem de
cabelo grisalho, ainda com os dedos a proteger os olhos. Cla­
reou a garganta.
- Pois . O que aconteceu é que ao que parece a Leona se
meteu nos copos e depois teve uma crise de choro, e o Bob
queria que a Joanie saísse com eles e fossem tomar um copo
NOVE HISTÓRIAS

a um sítio qualquer e deixar a coisa acalmar. Eu sei lá. Tu sa­


bes como é. Muito complicado. Mas enfim, agora está em casa.
Que canseira! Palavra de honra, acho que é deste raio de Nova
Iorque. O que acho que vou fazer, se tudo correr bem, é ver
se arranj amos um sítio sossegado no Connecticut ou assim.
Não no fim do mundo, necessariamente, mas longe o suficien­
te para podermos levar o raio de uma vida normal. Quer di­
zer, ela é doida por plantas e essas tretas. À s tantas era capaz
de ficar doida se tivesse o raio do seu próprio j ardim e essas
coisas. Estás a ver o que eu quero dizer? Quer dizer. . . tirando
tu, quem é que nós conhecemos em Nova Iorque, a não ser
um bando de neurótico s ? É uma coisa que dá cabo até de
uma pessoa normal, mais tarde ou mais cedo. Estás a ver
o que eu quero dizer ?
O homem de cabelo grisalho não respondeu n a d a . O s
olhos, sob a pala d a mão, estavam fechados. - Seja como for,
vou falar com ela sobre isso esta noite . Ou amanhã, talvez.
Ela ainda n ã o se sente muito bem. Quer dizer, no fundo
é uma miúda fora de série, e se tivermos uma oportunidade de
nos endireitar um bocado, éramos o raio de uns estúpidos se
pelo menos não experimentássemos. E já agora, vou também
ver se consigo endireitar a porcaria daquela treta dos perceve­
jos. Estive a pensar. Estava cá a pensar numa coisa, Lee. Achas
que se eu for falar pessoalmente com o Junior, conseguia . . .
- Arthur, s e não t e importas, agradecia-te que . . .
- Quer dizer, não quero que fiques a pensar que s ó te te-
lefonei ou assim por estar preocupado com o raio do emprego
ou assim. Não estou. Quer dizer, no fundo, caraças, é o que
menos me importa. Pensei só que se conseguisse esclarecer as
coisas com o Junior sem ter de dar cabo da cabeça, era tolice
da minha parte se não . . .
- Ouve, Arthur - interrompeu o homem d e cabelo grisa­
lho, tirando a mão da cara - estou a ficar com uma dor de
J.D. SALINGER

cabeça tramada. Não sei como é que apanhei esta porcaria .


Importas-te se ficarmos p o r aqui ? Falo contigo amanhã d e
manhã . . . está bem ? - Ficou mais um instante à escuta, de­
pois desligou.
Mais uma vez, a rapariga perguntou-lhe de imediato alguma
coisa, mas ele não respondeu. Tirou do cinzeiro um cigarro ace­
so - o da rapariga - e fez menção de o levar à boca, mas o ci­
garro escapou-lhe dos dedos. A rapariga tentou-o ajudar a apa­
nhá-lo antes que queimasse alguma coisa, mas ele disse-lhe para
fazer o favor de estar quieta, porra, e ela retirou a mão.
A fase azul de De Daumier-Smith

SE FIZESSE ALGUM REAL SENTIDO - e nem para lá caminha -


acho que me inclinaria para dedicar este relato, pelo valor
que possa ter, especialmente pelo que nele possa haver de bre­
jeiro, à memória do brej eiro do meu finado padrasto, Robert
Agadganian, Jr., Bobby - como todos, incluindo eu, lhe cha­
mavam -, falecido em 1 947, certamente com alguma pena, mas
sem uma queixa, de uma trombose. Era um homem aventuro­
so, extremamente magnético e generoso. (Depois de ter passa­
do tantos anos a sonegar-lhe tão picarescos adj etivos, sinto
ser uma questão de vida ou de morte conceder-lhos aqui . )

Os meus pais divorciaram-se durante o inverno d e 1 928 ,


tinha eu oito anos, e a minha mãe casou-se com Bobby Agad­
ganian no fim da primavera seguinte . Um ano mais tarde,
com a bancarrota de Wall Street, Bobby perdeu tudo o que ele
e a minha mãe tinham, com a aparente exceção de uma vari­
nha mágica . Sej a como for , Bobby viu-se, de um dia para
o outro, transformado de corretor de bolsa falido e bon vivant
I44 J . D . 5ALINGER

desfalcado num ativo, ainda que um tanto incompetente, agente


avaliador para uma sociedade de galerias de arte americanas
independentes e de museus de belas-artes. Algumas semanas
mais tarde, em princípios de 1 930, o nosso algo desencontra­
do trio mudou-se de Nova Iorque para Paris, onde Bobby po­
dia orientar melhor a sua nova carreira . C om o sangue-frio,
para não dizer gelado, dos dez anos que na altura eram os
meus, aceitei a grande mudança sem nenhum traumatismo,
tanto quanto sei. O que me abalou, e me abalou tremenda­
mente, foi o regresso a Nova Iorque, nove anos mais tarde,
três meses depois da morte de minha mãe.
Recordo-me de um incidente significativo que ocorreu um
dia ou dois depois de Bobby e eu termos chegado a Nova Ior­
que. Eu ia em pé num autocarro cheiíssimo na Lexington
Avenue, agarrado a um varão lacado j unto ao lugar do moto­
rista, traseiro contra traseiro com o sujeito atrás de mim. Há
uma data de quarteirões que o motorista repetidamente nos
vinha dando, a todos os que se amontoavam j unto à porta da
frente, uma ordem seca para «recuarmos para o fundo do veí­
culo » . Alguns de nós tentaram fazer-lhe a vontade. Outros
não. À s tantas, aproveitando um sinal vermelho, o homem
abespinhado girou no assento e levantou os olhos para mim,
mesmo atrás dele . Com dezanove anos, eu era um tipo que
não usava chapéu, com uma popa ao estilo continental, acha­
tada, preta, não especialmente limpa, pendendo sobre uns
centímetros de testa seriamente borbulhentos. Falou-me numa
voz baixa, quase prudente: - Muito bem, sócio - disse ele
- vamos a mexer esse rabo. - Foi aquele « sócio » , acho eu,
que fez tudo . Sem sequer me dar ao trabalho de me inclinar
um pouco - quer dizer, para manter a conversa pelo menos
tão privada, e de bon gout, como ele a iniciara - informei-o,
em francês, de que ele era um imbecil malcriado, estúpido
e arrogante, e que nunca poderia saber até que ponto eu o de­
testava. Depois, todo satisfeito, recuei para o fundo do veículo.
NOVE HISTÓRIAS 145

As coisas pioraram muito . Certa tarde, passada uma se­


mana ou isso, ia eu a sair do Hotel Ritz, onde eu e Bobby nos
íamos deixando ficar indefinidamente, deu-me a impressão de
que todos os assentos de todos os autocarros de Nova Iorque
tinham sido desaparafusados, tirados para fora e alinhados na
rua, onde estava no auge uma gigantesca dança de cadeiras.
Acho que era capaz de me ter j untado à brincadeira se me ti­
vessem assegurado uma bula especial da Igrej a de Manhattan
garantindo-me que todos os outros j ogadores se manteriam
respeitosamente em pé até eu me sentar. Quando se tornou
claro que não iria acontecer nada do género, passei a uma
ação mais direta. Rezei para que a cidade ficasse livre de pes­
soas, pela graça de ficar sozinho - s-o-z-i-n-h-o: que é a úni­
ca oração de Nova Iorque que raramente se perde ou se atra­
sa pelo caminho, e num abrir e fechar de olhos tudo aquilo
em que eu focava se transformava em solidão maciça. Da par­
te da manhã e princípio da tarde, frequentava - o meu cor­
po - uma escola de arte, que eu detestava, na esquina da
Rua 48 com a Lexington Avenue. (Uma semana antes de eu
e Bobby termos deixado Paris, eu tinha conquistado três pri­
meiros prémios na Exposição Nacional dos Jovens, realizada
nas Freiburg Galleries. Durante a viagem para a América, usa­
va o espelho do nosso camarote para verificar a minha singu­
lar semelhança física com El Greco. ) Passava três fins de tarde
por semana numa cadeira de dentista, onde, num período de
poucos meses, me foram extraídos oito dentes, três deles
à frente. As outras duas tardes, passava-as normalmente a va­
guear pelas galerias de arte, sobretudo na Rua 5 7, onde só me
faltava vaiar as obras americanas. À noite, em geral lia. Com­
prei uma coleção completa dos Clássicos de Harvard - sobre­
tudo por Bobby ter dito que não tínhamos espaço para ela na
nossa suíte - e bastante perversamente li todos os cinquenta
volumes. Quase todas as noites instalava o cavalete entre as duas
J . D . SALINGER

camas do quarto que partilhava com Bobby, e pintava . Só


num mês, de acordo com o meu diário de 1 93 9 , concluí de­
zoito pinturas a óleo. Valerá a pena notar que dezassete delas
eram autorretratos. Por vezes, porém, possivelmente quando
a minha musa se mostrava caprichosa, punha de lado a pintu­
ra e fazia desenhos humorísticos. Um deles, ainda o tenho .
Mostra a imagem cavernosa da boca de um homem a ser tra­
tado pelo dentista . A língua do homem é uma simples nota
americana de cem dólares, e o dentista está a dizer, tristemen­
te, em francês: « Acho que podemos salvar o molar, mas pare­
ce-me que vou ter de extrair essa língua. » Era um dos meus
grandes preferidos.
Como companheiros de quarto, Bobby e eu éramos nem
mais nem menos compatíveis do que, por exemplo, um fina­
lista de Harvard excecionalmente deixa-andar, e um ardina de
Cambridge excecionalmente desagradável . E quando, com
o passar das semanas, fomos a pouco e pouco descobrindo
que estávamos os dois apaixonados pela mesma mulher já fa­
lecida, isso não aj udou nada. De facto, foi antes um tristérri­
mo e diminuto relacionamento de « ora-essa-faz-favor » que se
criou a partir dessa descoberta. Começámos a trocar uns sor­
risos exuberantes cada vez que dávamos de caras um com
o outro à entrada da casa de banho.

Numa semana de maio de 1 940, uns dez meses depois de


Bobby e eu termos dado entrada no Ritz, vi num j ornal do
Quebeque ( um dos dezasseis j ornais e periódicos de língua
francesa que eu me tinha dado ao luxo de assinar) um anún­
cio de quarto de coluna colocado pela direção de uma escola
de arte por correspondência de Montreal. Aconselhava todos
os monitores qualificados - de facto, dizia mesmo que não
podia deixar de os aconselhar fortement - a candidatarem-se
NOVE HISTÓRIAS I 47

imediatamente a um emprego na mais recente, na mais avan­


çada, escola de arte por correspondência do Canadá. Os can­
didatos a monitor, estipulava-se, deviam ser fluentes tanto na
língua inglesa como francesa, e apenas deveria candidatar-se
quem possuísse hábitos temperados e um carácter inquestio­
nável. O curso de verão de Les Amis des Vieux Maitres abria
oficialmente a 1 0 de j unho. Deveriam enviar-se exemplos de
trabalhos, dizia-se, ilustrando tanto o lado académico como
comercial da arte, para apreciação por Monsieur 1. Yoshoto,
directeur, antigo professor da Academia Imperial de Belas­
-Artes, de Tóquio.
No mesmo instante, sentindo-me insuportavelmente quali­
ficado, saquei a máquina de escrever Hermes-Baby de Bobby
de debaixo da cama dele e escrevi, em francês, uma longa
e intemperada carta a M. Y oshoto - faltando a todas as au­
las na escola de arte de Lexington Avenue para o fazer. O pa­
rágrafo inicial cobria umas três páginas, e pouco faltava para
deitar fumo. Dizia que tinha vinte e nove anos e era sobrinho­
-neto de Honoré Daumier. Dizia que tinha acabado de chegar
da minha pequena propriedade no Sul de França, após a mor­
te da minha mulher, para viver nos Estados Unidos - tempo­
rariamente, precisei - com uma familiar inválida. Pintava,
dizia eu, desde os meus primeiros anos, mas, seguindo o con­
selho de Pablo Picasso, um dos mais antigos e queridos ami­
gos dos meus pais, nunca tinha exposto. No entanto, havia
um bom número das minhas pinturas a óleo e aguarelas que
neste momento decoravam algumas das mais requintadas,
mas de modo nenhum nouveau riche, casas de Paris, onde ti­
nham gagné considerável atenção de alguns dos mais formi­
dáveis críticos dos nossos dias. Na sequência, dizia eu, da pre­
matura e trágica morte da minha mulher, de uma ulcération
cancéreuse, tinha pensado decididamente nunca mais pôr um
pincel numa tela. Mas recentes perdas financeiras tinham-me
levado a alterar a minha decidida résolution . D izia que me
148 J.D. SALINGER

sentiria muito honrado em enviar exemplos do meu trabalho


para Les Amis des Vieux Maítres, logo que os recebesse do
meu agente em Paris, a quem iria escrever, é claro, tres pressé.
Subscrevia-me, muito respeitosamente, Jean de Daumier-Smith.
Levou-me quase tanto tempo a escolher um pseudónimo
como a escrever a carta toda.
Escrevi a carta em papel de seda . Enviei-a, no entanto,
num envelope do Ritz. Em seguida, depois de lhe colar um se­
lo de correio expresso que tinha encontrado na gaveta de
cima do Bobby, desci a pôr a carta na caixa de correio no
átrio do hotel. Detive-me a caminho para pôr de sobreaviso
o encarregado do correio ( que iniludivelmente me detestava )
para a futura correspondência em nome de De Daumier-Smi­
th. Depois, por volta das duas e meia, esgueirei-me para a mi­
nha aula de anatomia das duas menos um quarto na escola de
arte na Rua 48 . Os meus colegas pareceram-me, pela primeira
vez, uma malta bastante decente.
Durante os quatro dias que se seguiram, usando o meu
tempo livre e ainda algum tempo que não me pertencia na ín­
tegra, fiz uma dúzia ou mais de desenhos daquilo que eu pen­
sava serem exemplos típicos da arte comercial americana .
Trabalhando sobretudo com aguadas, mas de vez em quando,
para armar, com traço. Desenhei pessoas em trajos de cerimó­
nia saindo de limusines em noites de estreia - pares elegan­
tes, aprumados, superchiques, que manifestamente nunca na
vida tinham infligido a quem quer que fosse o mínimo incó­
modo devido a desmazelo com os sovacos, pares, no fundo,
que nem sovacos tinham. Desenhei j ovens gigantes bronzea­
dos de smoking branco, sentados a mesas brancas na borda
de piscinas azul-turquesa, fazendo brindes, de forma algo ani­
mada, com whisky de uma marca barata mas ostensivamente
na moda. Desenhei crianças coradas, anunciogénicas, trans­
bordando alegria e boa saúde, estendendo as tigelas vazias de
NOVE HISTÓRIAS

cereais do pequeno-almoço e, com ar radioso, pedindo mais.


Desenhei raparigas risonhas de seios protuberantes, fazendo
esqui aquático livres de quaisquer preocupações, em resultado
de estarem amplamente protegidas contra males nacionais co­
mo gengivites, imperfeições faciais, cabelos com mau aspeto
e seguros de vida deficientes ou inadequados. Desenhei donas
de casa que, até acertarem na boa marca de detergente, fica­
vam completamente expostas a cabelos desgrenhados, postu­
ras incorretas, filhos desobedientes, maridos infiéis, mãos ás­
peras (mas esguias) , cozinhas desleixadas (mas enormes) .
Assim que os desenhos ficaram prontos, enviei-os imedia­
tamente a M. Yoshomoto, acompanhados de uma meia dúzia
de pinturas minhas não-comerciais que trouxera de França.
Juntei ainda um bilhete, escrito no que me pareceu ser um
tom muito desprendido que apenas esboçava a pequena histó­
ria muito humana de como eu, completamente só e enfrentan­
do variados obstáculos, na mais pura tradição romântica, ti­
nha atingido os cimos gelados, estremes, solitários, da minha
profissão.
Os dias que se seguiram foram de horrível ansiedade, mas
antes de a semana chegar ao fim chegou uma carta de M.
Yoshoto aceitando-me como monitor de Les Amis des Vieux
Maítres. A carta estava escrita em inglês, apesar de eu ter es­
crito em francês. ( Como vim a saber mais tarde, M. Yoshoto,
que sabia francês mas não inglês, tinha, por qualquer razão,
deixado o encargo de escrever a carta a Mme . Y oshoto, que
sabia o suficiente de inglês. ) M. Y oshoto dizia que o curso de
verão seria provavelmente o mais carregado do ano, e que co­
meçava a 24 de junho. Isto deixava-me quase cinco semanas,
observava ele, para organizar a minha vida. Manifestava-me
a sua mais sentida compreensão pelos meus recentes desaires
emocionais e financeiro s . Esperava que me fosse p o s s ível
apresentar-me em Les Amis des Vieux Maitres no domingo,
23 de junho, a fim de tomar conhecimento das minhas tarefas
J . D . SALINGER

e de travar uma « firme amizade » com os outros monitores


( que, soube-o depois, eram em número de dois, e consistiam
em M. Yoshoto e Mme. Yoshoto ) . Lamentava muito não ser
regra da escola pagar adiantadamente a viagem dos novos
monitores. O ordenado de partida era de vinte e oito dólares
por semana - o que não era, como M. Y oshoto dizia com­
preender, uma grande soma, mas uma vez que incluía aloj a­
mento e alimentação abundante, e dado que pressentia em
mim o verdadeiro espírito de uma vocação, esperava que isso
não me fizesse sentir menos animado . Ficava com ansiedade
à espera de um telegrama com a minha aceitação formal e da
minha chegada com alegria, subscrevendo-se, atentamente,
meu novo amigo e diretor, 1 . Y oshoto, antigo professor da
Academia Imperial de Belas-Artes de Tóquio.
O meu telegrama de aceitação formal seguiu daí a cinco
minutos. Estranhamente, na minha excitação, ou muito possi­
velmente devido a um sentimento de culpa por estar a usar
o telefone de Bobby para mandar o telegrama, sofreei de forma
deliberada a minha prosa e limitei a mensagem a dez palavras.

Nessa noite, quando, como de costume, me encontrei com


Bobby para j antar às sete horas na Sala Oval, fiquei contra­
riado ao ver que tinha trazido com ele uma convidada. Não
lhe tinha dito nem insinuado nada quanto às minhas recentes
atividades extracurriculares, e estava mortinho por fazer esta
notícia de última hora - revelando-lhe todos os pormenores
- quando estivéssemos a sós. A convidada era uma senhora
nova muito bonita, divorciada há poucos meses, com quem
Bobby andava a sair bastante e que eu encontrara em várias
ocasiões. Era uma pessoa absolutamente encantadora, cuj as
mínimas tentativas para conquistar a minha amizade, para
com gentileza me convencer a tirar a minha armadura, ou pelo
NOVE HISTÓRIAS

menos o meu elmo, eu preferi interpretar como um convite


implícito para ir com ela para a cama quando surgisse uma
ocasião - ou sej a, assim que pudéssemos ver-nos livres de
Bobby, que claramente era velho de mais para ela. Mostrei­
-me hostil e lacónico durante o j antar. Passado algum tempo,
ao café, expus num tom sóbrio os meus novos planos para
o verão. Quando acabei, Bobby pôs-me umas quantas pergun­
tas bastante inteligentes. Respondi-lhe com calma, extrema­
mente seco, senhor indiscutível da situação.
- Oh, está-me a parecer interessantíssimo ! - disse a con­
vidada de Bobby, e ficou à espera, de forma descarada, que eu
lhe passasse por baixo da mesa o meu endereço em Montreal.
- Pensava que ias comigo para Rhode Island - disse
Bobby.
- Oh, querido, não queiras ser um desmancha-prazeres
horroroso - disse a Sra. X.
- Não sou, mas não me importava de saber um pouco
mais sobre isso - disse Bobby. Mas acho que pelo tom dele
se via que mentalmente já estava a trocar as reservas de com­
boio que tinha feito para Rhode Island, passando de um com­
partimento para um beliche de baixo.
- Acho que é a coisa mais amorosa, mais lisonjeira, que
ouvi na minha vida - disse-me a Sra . X calorosamente . Os
olhos dela cintilavam de lascívia.

No domingo em que dei entrada no cais da Windsor Sta­


tion em Montreal, vestia um fato de trespasse de fazenda bege
(que eu tinha em altíssima conta}, uma camisa de flanela azul­
-marinho, uma gravata de algodão amarelo liso, sapatos cas­
tanhos e brancos, um panamá ( que pertencia a Bobby e era
um pouco pequeno para mim) e um bigode castanho-averme­
lhado, com três semanas de idade. M. Yoshoto estava lá para
J . D . SALINGER

me receber. Era um homem minúsculo, com uma altura que


não ia além de um metro e meio, envergando um fato de li­
nho bastante suj o, sapatos pretos e um chapéu de feltro preto
com a a b a revirada para cima a toda a volta . Não sorriu,
nem, tanto quanto me lembro, me disse alguma coisa quando
apertámos as mãos. A expressão dele - e a palavra que a de­
fine veio-me diretamente de uma edição francesa dos livros da
série Fu Manchu de Sax Rohmer - era imperscrutável. Por
uma qualquer razão, eu mostrava um sorriso de orelha a ore­
lha. Não conseguia sequer reduzi-lo, quanto mais desligá-lo.
Era uma viagem de autocarro de vários quilómetros da
Windsor Station até à escola. Duvido que M. Y oshoto tenha
dito cinco palavras durante todo o percurso. Fosse a despeito
de tal silêncio, ou por causa dele, eu falava sem parar, com as
pernas cruzadas, o tornozelo no j oelho, e usando constante­
mente a meia como um absorvente do suor na palma da mi­
nha mão. Pareceu-me de toda a urgência não só reiterar as
minhas anteriores mentiras - sobre o meu parentesco com
D a umier, s o bre a minha fa lecida mulher, s o bre a minha
pequena propriedade no Sul de França - como ainda desen­
volver o tema. Por fim, no fundo para me poupar a ter de in­
sistir nestas reminiscências penosas (e estavam a começar a ser
um pouco penos a s ) mudei para o assunto do mais antigo
e querido amigo de meus pais: Pablo Picasso. Le pauvre Pi­
casso, como me referia a ele (escolhi Picasso, devo dizer, por
que me parecia ser o pintor francês mais conhecido na Améri­
c a . Declaradamente, considerava o C anadá como parte da
América. ) Para ilustração de M. Yoshoto, recordei, com uma
exuberante dose de compaixão natural por um gigante caído,
quantas vezes lhe dissera « Monsieur Picasso, oit allez vous?»
e como, em resposta a esta pergunta t ã o profunda, o mestre
NOVE HISTÓRIAS 153

nunca deixava de dar uns passos, pesadamente, através do es­


túdio para contemplar uma pequena reprodução de Les Sal­
timbanques e a glória, há muito perdida, que tinha sido a sua.
O problema com Picasso, expliquei a M. Y oshoto ao sairmos
do autocarro, é que nunca ouvia ninguém - mesmo os ami­
gos mais chegados.
Em 1 939, Les Amis des Vieux Maitres ocupava o primeiro
dos três andares de um pequeno edifício com um ar muito
pouco aliciante - um prédio de rendas baixas, na verdade -
n o bairro de Verdun, o menos convidativo , de Montreal.
A escola ficava mesmo por cima de uma loja de próteses orto­
pédicas. Uma sala espaçosa e uma latrina minúscula, sem fe­
cho, era tudo com que contava Les Amis des Vieux Maitres.
Apesar disso, no momento em que aí entrei, o local pareceu­
-me prodigiosamente apresentável. Havia uma boa razão para
isso. As paredes da « sala dos monitores » estavam decoradas
com vários desenhos emoldurados - tudo aguarelas - feitos
por M. Yoshoto . De vez em quando, sonho ainda com um
ganso branco voando através de um céu azul extremamente
claro, com - e havia nisto uma técnica das mais ousadas
e perfeitas que eu j á vira - o azul do céu, ou um eth os do
azul do céu, refletindo-se nas penas da ave. O desenho estava
pendurado mesmo por cima da secretária de Mme. Y oshoto.
E enchia a sala - este e mais um ou dois desenhos de quali­
dade aproximada.
Mme. Yoshoto, num belo quimono de seda preta e cor de
cerej a , estava a varrer o soalho com uma vassoura de cabo
curto quando M. Yoshoto e eu entrámos na sala dos monito­
res. Era uma mulher de cabelos grisalhos, de certeza uma ca­
beça mais alta do que o marido, com traços que mais pare­
ciam malaios do que j aponeses . Parou de varrer e dirigiu-se
a nós, e M. Yoshoto fez uma breve apresentação. Parecia-me
em tudo tão imperscrutável como M. Y oshoto, se não mais.
J . D . SALINGER

M. Yoshoto ofereceu-se então para me mostrar o meu quarto,


que, explicou ele (em francês), tinha sido ocupado até há pou­
co pelo filho, que fora trabalhar para uma quinta na Colúmbia
Britânica . (Depois do seu longo silêncio no autocarro, estava
grato por o ouvir falar com alguma continuidade, e escutava-o
com avidez. ) Começou por pedir desculpa pelo facto de não
haver cadeiras no quarto do filho - apenas almofadas no
chão - mas eu apressei-me a dar-lhe a entender que isso era
a bem dizer uma bênção. (De facto, acho que disse que detes­
tava cadeiras. Estava tão nervoso que se ele me tivesse infor­
mado que o quarto do filho ficava noite e dia coberto com
uns trinta centímetros de água era muito capaz de ter soltado
um gritinho de prazer. Provavelmente teria dito que sofria de
uma rara doença dos pés que me obrigava a mantê-los molha­
dos oito horas por dia . ) Conduziu-me então ao meu quarto
por umas escadas rangentes de madeira. Pelo caminho fui-lhe
dizendo, de modo bastante intencional, que andava a estudar
o budismo. Mais tarde vim a saber que tanto ele como Mme.
Yoshoto eram presbiterianos.
Altas horas da noite, estendido na cama sem poder dor­
mir, com o jantar malaio-j aponês de Mme. Yoshoto ainda en
masse e subindo e descendo o meu esterno como um elevador,
um dos Y oshomotos começou a gemer no sono, mesmo do
outro lado da parede. Era um gemido agudo, fino, quebrado,
que mais do que de um adulto parecia vir de alguma desampa­
rada criança anormal ou de um pequeno animal disforme .
(Passou a ser uma sessão regular todas as noites. Nunca desco­
bri a qual dos Yashomotos se devia, e muito menos a razão. )
Quando s e tornou insuportável ficar deitado a ouvi-lo, saí da
cama, calcei os chinelos, avancei no escuro e sentei-me numa
das almofadas do chão. Fiquei sentado de pernas cruzadas um
par de horas a fumar, esmagando os cigarros na sola do chi­
nelo para os apagar e guardando as beatas no bolso do peito
do pij ama. (Os Yoshotos não fumavam, e não havia nenhum
NOVE HISTÓRIAS 155

cinzeiro em toda a casa . ) Adormeci por volta das cinco da


manhã.
À s seis e meia, M. Yoshoto bateu à porta e avisou-me de
que o pequeno-almoço seria servido às sete menos um quarto.
Perguntou-me, através da porta, se tinha dormido bem, e eu
respondi « Oui!». Vesti-me então - pondo o meu fato azul, que
achei apropriado para um monitor no primeiro dia de escola,
e uma gravata vermelha Sulka oferecida pela minha mãe - e,
sem me lavar, atravessei apressadamente o corredor até à cozi­
nha dos Yoshomotos.
Mme. Y oshomoto estava ao fogão, a fazer o peixe do pe­
queno-almoço. M. Y oshoto, em camisola interior e calças, es­
tava sentado à mesa da cozinha, lendo um j ornal j aponês.
Fez-me um aceno com a cabeça, formal. Pareceram-me ambos
mais imperscrutáveis do que nunca. Foi-me servido então um
qualquer tipo de peixe num prato com pequenos mas visíveis
vestígios de molho de tomate coagulado à volta. Mme. Y osho­
to perguntou-me, em inglês - e tinha um sotaque inesperada­
mente encantador - se eu preferia um ovo, mas eu disse:
« Non, non, madame ... merci! » E disse que nunca comia ovos.
M. Y oshoto encostou o jornal ao meu copo de água e ficámos
os três a comer em silêncio; ou antes, eles comiam e eu engo­
lia metodicamente em silêncio.
Depois do pequeno-almoço, sem ter de sair da cozinha,
M. Y oshoto vestiu uma camisa sem colarinho e Mme. Y osho­
to tirou o avental, descendo depois os três em fila mais ou
menos atabalhoadamente para a sala dos monitores. Aí, empi­
lhada em desordem em cima da grande secretária de M. Y os­
hoto, via-se uma dúzia ou mais de uns envelopes de papel
pardo, enormes, volumosos, ainda por abrir. A meus olhos,
quase diria terem o ar de acabados de lavar e de pentear, como
novos alunos. M. Yoshoto indicou-me a minha secretária ,
que ficava isolada no canto mais afastado da sala, e pediu-me
J . D . SALINGER

que me sentasse. Depois, com Mme. Y oshoto a seu lado, abriu


alguns dos envelopes. Ele e Mme. Y oshoto pareceram exami­
nar o respetivo conteúdo seguindo um qualquer método, con­
sultando-se mutuamente, de vez em quando, em j aponês, en­
quanto eu me mantinha sentado do outro lado da sala, no
meu fato azul e gravata Sulka, tentando parecer em simultâ­
neo atento, paciente e, de certo modo, indispensável à organi­
zação. Tirei do bolso de dentro do casaco um punhado de lá­
pis de desenho de ponta macia, que trouxera de Nova Iorque,
e poisei-os, com o mínimo de ruído possível, em cima da mesa.
Uma vez, M. Y oshoto levantou o olhar para mim por qual­
quer razão, e eu dardej ei-lhe um sorriso cativante em extre­
mo. Depois, de repente, sem uma palavra ou um olhar para
mim, sentaram-se os dois nos respetivos lugares e lançaram-se
ao trabalho. Eram quase sete e meia.
Por volta das nove horas, M. Y oshoto tirou os óculos, le­
vantou-se e aproximou-se em passinhos leves da minha secre­
tária com um maço de papéis na mão. Eu tinha passado hora
e meia sem fazer absolutamente nada, a não ser tentar evitar
que o meu estômago roncasse de forma audível. Levantei-me
à pressa quando ele chegou perto de mim, curvando-me um
nadinha para não parecer desrespeitosamente alto. Estendeu­
-me o maço de papéis e perguntou-me se não me importava
de traduzir as suas correções escritas de francês para inglês.
Respondi: « Oui, monsieur! » Ele fez uma inclinação impercetí­
vel, e voltou nos seus passinhos leves para a secretária. Empur­
rei o meu punhado de lápis de desenho de ponta macia para
a borda da mesa, peguei na caneta e - de coração pratica­
mente desfeito - lancei-me ao trabalho.
Como muitos artistas realmente bons, M. Y oshoto não
era muito melhor a ensinar a desenhar do que um artista as­
sim-assim que tivesse algum dedo para o ensino. Com o seu
prático sistema de sobreposições - ou seja, com desenhos em
NOVE HISTÓRIAS 1 57

papel vegetal sobrepostos aos dos alunos, acompanhados de


comentários escritos nas costas dos desenhos - revelava uma
grande capacidade para mostrar a um aluno com um talento
razoável como desenhar um porco reconhecível numa pocilga
reconhecível, ou até um porco pitoresco numa pocilga pitores­
ca. Mas nunca conseguiria em toda a sua vida mostrar a al­
guém como desenhar um belo porco numa bela pocilga (o que,
naturalmente, era o único pequeno toque técnico que os seus
melhores alunos ansiavam receber pelo correio ) . Não é que
ele, forçoso me é acrescentar, estivesse a ser de modo cons­
ciente ou inconsciente frugal com o seu talento, ou delibera­
damente avaro dele, mas explicar não era simplesmente o seu
forte. Para mim, não havia nada que me surpreendesse nesta
crua verdade, e por isso não me apanhou desprevenido. Mas
tinha um certo efeito cumulativo, considerando onde me sen­
tava, e à medida que a hora do almoço se anunciava, tinha de
ter muito cuidado para não manchar as traduções com o suor
das mãos. Como que para tornar as coisas mais opressivas,
a letra de M. Y oshoto era quase ilegível. Com uma qualquer
desculpa, chegada a hora do almoço, declinei o convite dos
Yoshotos . Disse que tinha de ir aos correios . D epois desci
quase a correr as escadas para a rua e desatei a andar a toda
a pressa, ao acaso, através de um labirinto de ruas estranhas,
de aspeto degradado. Quando passei por um snack-bar, entrei
e devorei quatro « Coney Island Red-Hots » e três chávenas de
um café turvo.
De volta a Les Amis des Vieux Maitres, comecei a pergun­
tar-me, primeiro de um modo tímido, familiar, que eu por ex­
periência sabia mais ou menos como dominar, dep ois em
completo pânico, se haveria alguma coisa de pessoal no facto
de M. Y oshoto me ter utilizado exclusivamente como tradu­
tor a manhã toda. Teria o velho Fu Manchu percebido desde
o princípio que eu usava, entre outros adereços e acessórios
J . D . SALJNGER

enganadores, um bigode de rapaz de dezanove anos ? Tal pos­


sibilidade era quase impossível de suportar. Ao mesmo tempo
contribuía para corroer lentamente o meu sentido de j ustiça.
Aqui estava eu - um homem que conquistara três primeiros
prémios, um amigo íntimo de Picasso (o que na realidade co­
meçava a pensar que era ) - a s e r u s a d o como traduto r .
O castigo não tinha nada a ver com o crime . Para j á , o meu
bigode, ainda que esparso, era todo meu; não tinha sido cola­
do. Apalpei-o para me tranquilizar enquanto apressava o pas­
so de volta à escola. Mas quanto mais pensava naquilo tudo,
mais depressa caminhava, até que por fim quase galopava, co­
mo se estivesse meio receoso que de um momento para o ou­
tro desatassem a apedrej ar-me de todos os lados. Apesar de
ter demorado apenas uns quarenta minutos a almoçar, os dois
Y oshotos estavam já sentados à secretária a trabalhar quando
voltei. Não levantaram os olhos nem deram qualquer outro
sinal de me terem ouvido entrar. A suar e sem fôlego, fui-me
sentar à minha secretária. Fiquei rigidamente imóvel uns quin­
ze ou vinte minutos, em que me passaram pela cabeça todo
o tipo de outras histórias de Picasso completamente novas, só
para o caso de M. Y oshoto se levantar de repente e vir ter co­
migo para me desmascarar. E de repente ele levantou-se e veio
ter comigo. Pus-me em pé para o receber - de cabeça ergui­
da, se necessário - com, uma nova história de Picasso, mas,
para meu horror, quando chegou j unto de mim, tinha-a já es­
quecido. Escolhi o momento para exprimir a minha admira­
ção pelo desenho do ganso a voar pendurado por cima de
Mme. Yoshoto. Elogiei-o prodigamente durante um bom bo­
cado. Disse que conhecia um homem em Paris - um paralíti­
co riquíssimo, disse eu - que compraria o desenho pelo pre­
ço que M. Y oshoto lhe pedisse. Disse-lhe que poderia entrar
em contacto com ele de imediato, caso M. Y oshoto estivesse
NOVE HISTÓRIAS 1 59

interessado. Felizmente, porém, M . Y oshoto disse que o dese­


nho era de um primo, que estava no Japão de visita à família.
Depois, antes de eu poder exprimir o meu pesar, perguntou­
-me - tratando-me por M. Daumier-Smith - se não me im­
portava de corrigir alguns trabalhos. Foi à secretária dele
e voltou com três envelopes enormes, volumosos, e pô-los em
cima da minha mesa. Depois, enquanto eu continuava aturdi­
do, sem parar de abanar a cabeça em assentimento, apalpando
o casaco para sentir os lápis de desenho que voltara a embol­
sar, M. Yoshoto explicou-me os métodos de ensino da escola
(ou antes, a inexistência de qualquer método ) . Depois de ele
ter voltado para a secretária , demorei alguns minutos a re­
compor-me.
Os três alunos que me foram distribuídos eram todos de
língua ingles a . O primeiro era uma dona de casa de vinte
e três anos, de Toronto, que dizia que o seu nome artístico era
Bambi Kramer, e pedia que a escola lhe mandasse o correio
nesse nome. Quando se inscreviam em Les Amis des Vieux
Maitres , pedia-se aos novos alunos que preenchessem um
questionário e que incluíssem uma fotografia. Miss Kramer ti­
nha incluído uma ampliação de oito por dez polegadas em
papel brilhante de uma fotografia dela, com uma argola no
tornozelo, um fato de banho sem alças e um boné branco de
marinheiro. No questionário afirmava que os seus artistas
preferidos eram Rembrandt e Walt Disney. Dizia que só espe­
rava poder um dia imitá-los. As amostras de desenhos vinham
presas, de modo um pouco subalterno, à fotografia. Eram to­
dos surpreendentes. Um deles era inesquecível. O que era ines­
quecível estava pintado em guaches exuberantes, com uma le­
genda que dizia: « Perdoai-lhes as Suas Ofensas. » Mostrava três
rapazinhos a pescar numa lagoa de aspeto bizarro, o casaco
1 60 J . D . SALINGER

de um deles por cima de uma tabuleta de « Proibido Pescar! » .


O rapaz mais alto, em primeiro plano, parecia ter raquitismo
numa perna e elefantíase na outra - um efeito que, era evi­
dente, Miss Kramer tinha usado de forma deliberada para
mostrar que o rapaz estava com .os pés ligeiramente afastados.
O meu segundo aluno era um « fotógrafo social » de cin­
quenta e seis anos, de Windsor, Ontário, chamado R. Ho­
ward Ridgefield, que dizia que a mulher andava há anos a tei­
mar com ele para que se metesse na mina de dinheiro que era
a pintura. Os artistas favoritos dele eram Rembrandt, Sargent
e « Titan » , mas acrescentava, avisadamente, que não fazia
questão em desenhar no mesmo estilo. Dizia que estava mais
interessado no lado satírico do que no lado artístico da pintu­
ra. Em defesa deste credo, enviava um bom número de dese­
nhos originais e de pinturas a óleo. Uma destas obras - aque­
la que penso ser a sua o bra maior - continua para mim,
passados tantos anos, tão presente na minha memória como,
digamos, a letra de « Sweet Sue » ou de « Let Me Call Y ou
Sweetheart » . Era uma sátira à familiar tragédia de todos os
dias de uma rapariguinha casta, de cabelos loiros abaixo dos
ombros e peitos do tamanho de odres, a ser criminosamente
assediada numa igrej a, à sombra do próprio altar, pelo páro­
co. As roupas das duas personagens apareciam num desalinho
sugestivo. Na realidade, sentia-me muito menos impressiona­
do pelas implicações satíricas do desenho do que pela técnica
utilizada na sua execução. Se não soubesse que viviam a cen­
tenas de quilómetros de distância , iria j urar que Ridgefield
tinha recebido alguma ajuda puramente técnica de Bambi
Kramer.
Tirando circunstâncias muitíssimo excecionais, a minha cos­
tela humorística, quando eu tinha dezanove anos, era sempre
a primeira parte do meu corpo a ficar parcial ou completamente
paralisada em situações críticas . Ridgefield e Miss Kramer
NOVE HISTÓRIAS 161

fizeram-me passar por muita coisa, mas nunca consegui, nem


de longe, achar-lhes a mínima piada . Houve três ou quatro
vezes em que, ao ver o que havia nos envelopes deles, estive
para me levantar e apresentar um protesto formal a M. Y os­
hoto. Mas não tinha uma ideia clara da forma que o meu pro­
testo deveria tomar . Acho que tinha medo que pudesse ir
à mesa dele só para declarar, esganiçado: «A minha mãe mor­
reu e eu tenho de viver com o encantador marido dela, e nin­
guém fala francês em Nova Iorque, e não há nenhumas cadei­
ras no quarto do seu filho. Como pode esperar que eu ensine
estes dois malucos a desenhar ? » Mas afinal, com o meu longo
treino em manter o desespero açaimado, acabei por conseguir
com toda a facilidade ficar no meu lugar. Abri o envelope do
meu terceiro aluno.
O meu terceiro aluno era uma freira da ordem das Irmãs
de São José, chamada irmã lrma, que ensinava « culinária
e desenho » na escola primária de um convento, mesmo à saí­
da de Toronto. E não me ocorre nenhuma boa ideia sobre por
onde começar a descrever o conteúdo do envelope enviado
por ela. Podia só começar por dizer que, em vez de uma foto­
grafia dela, a irmã Irma tinha incluído, sem nenhuma explica­
ção, uma vista do convento. Recordo-me também que deixou
em branco a linha do questionário onde se devia pôr a idade
do aluno. Tirando isso, o questionário estava preenchido de
um modo como talvez nenhum questionário neste mundo me­
reça ser preenchido. Tinha nascido e crescido em Detroit, no
Michigan, onde o pai fora « controlador de produção nos au­
tomóveis Ford » . As habilitações académic a s resumiam-se
a um ano do liceu. Não tinha recebido nenhuma formação em
desenho. D izia que a única razão de ser ela a ensiná-lo era
porque a irmã qualquer coisa tinha falecido e o padre Zim­
mermann ( um nome que reteve particularmente a minha aten­
ção, por ser o nome do dentista que me tinha arrancado oito
J . D . SALINGER

dos meus dente s ) . . . o padre Zimmermann escolhera-a para


a substituir. Dizia que tinha « 34 gatinhas no curso de culiná­
ria e 18 gatinhas no curso de desenho » . Os passatempos dela
eram amar o seu Senhor e a Palavra do seu Senhor e « apanhar
folhas de árvore, mas só quando estavam mesmo caídas no
chão » . O pintor favorito dela era Douglas Bunting. (Um no­
me que, não me envergonho de o confessar, persegui por mais
de um beco sem saída, ao longo destes anos . ) Dizia que as
suas gatinhas gostavam muito de « desenhar pessoas a correr,
que é a coisa em que eu sou pior » . Dizia que ia trabalhar com
afinco para desenhar melhor, e que esperava que não fôsse­
mos muito impacientes com ela.
Havia, ao todo, apenas seis amostras do trabalho dela no
envelope. (Nenhum dos trabalhos estava assinado - um fac­
to sem grande importância, mas que na altura me pareceu
desproporcionadamente refrescante . Os desenhos de Bambi
Kramer e de Ridgefield tinham todos uma assinatura ou - o
que de certo modo me parecia ainda mais irritante - ini­
ciais . ) Passados treze anos, não só me lembro distintamente
de todos os desenhos da irmã Irma, como há quatro deles que
às vezes me parece recordar demasiado bem para mal da mi­
nha paz de espírito. A melhor obra dela era uma aguarela, em
papel pardo. ( O papel pardo, especialmente o de embrulho,
é muito agradável, muito suave para pintar. São muitos os ar­
tistas experientes que o usaram quando não tinham em mãos
alguma coisa importante ou grandiosa. ) A aguarela, apesar
das suas dimensões limitadas (tinha uns vinte centímetros por
vinte e cinco ), era uma representação pormenorizada de Cris­
to a ser levado para o sepulcro no horto de José de Arimateia.
No canto direito em primeiro plano, dois homens que pare­
ciam ser criados de José transportavam desaj eitadamente
o corpo. José de Arimateia seguia atrás deles - talvez, dadas
NOVE HISTÓRIAS

as circunstâncias, um tudo-nada demasiado hirto. A uma dis­


tância respeitosa atrás de José vinham as mulheres da Gali­
leia, à mistura com uma multidão heterogénea, que talvez aí
se tivesse introduzido, de carpideiras, transeuntes, crianças,
e nada menos do que três ímpios rafeiros travessos. Para mim,
a figura central da aguarela era uma mulher à esquerda do
primeiro plano, voltada para o observador. Com a mão direi­
ta erguida, fazia freneticamente sinal a alguém - o filho, tal­
vez, ou o marido, ou talvez o observador - para largar tudo
e vir depressa. Duas das mulheres, na fila da frente da multi­
dão, tinham auréolas. Não tendo nenhuma Bíblia à mão, não
podia ir além de conj eturas quanto à identidade delas. Mas
reparei logo em Maria Madalena. Pelo menos, estava conven­
cido de que era ela. Estava no centro, em primeiro plano, ca­
minhando aparentemente destacada da multidão, os braços
caídos ao longo do corpo. Não se via nenhum sinal de luto,
por assim dizer, estampado na cara - na verdade, nenhum
sinal exterior da sua anterior e invej ável proximidade com
o Defunto. O rosto dela, como todos os outros na pintura, ti­
nha sido feito numa tinta cor de pele, de baixo preço, já pre­
parada . Era penosamente evidente que a própria irmã Irma
achara a cor insatisfatória e tinha feito o seu digno e inexpe­
riente melhor para até certo ponto a esbater. Não havia ne­
nhumas outras falhas sérias na aguarela. Nenhumas, quer-se
dizer, que fossem além de reparos triviais. Era, em qualquer
sentido decisivo, uma obra de artista, em que transparecia um
talento muito, muito disciplinado e Deus sabe quantas horas
de trabalho árduo.
Uma das minhas primeiras reações, naturalmente, foi levar
a correr o envelope da irmã Irma a M. Y oshoto . Mas, mais
uma vez, deixei-me ficar no meu lugar. Não queria correr
o risco de a irmã Irma me ser retira d a . Acabei por fechar
] . D . SALINGER

o envelope com cuidado e de o pôr a um lado da mesa, com


o plano entusiástico de trabalhar nele durante a noite, no meu
tempo livre. Depois, com muito mais tolerância do que pensa­
va haver em mim, quase de boa vontade, passei o resto da tar­
de a fazer correções em papel vegetal em alguns dos nus mas­
c u l i n o s e fe m i n i n o s ( sans ó r g ã o s genit a i s ) d o s a fe t a d o s
e obscenos desenhos d e R . Howard Ridgefield.
Ao chegar a hora do jantar, abri três botões da minha cami­
sa e enfiei aí o envelope da irmã Irma onde nem ladrões nem os
Yoshotos, só para jogar pelo seguro, o poderiam encontrar.
Havia um ritual tácito mas inflexível a presidir a todas as
refeições da noite de Les Amis des Vieux Maitres. Mme. Y os­
hoto levantava-se prestamente da secretária às cinco e meia
e subia as escadas para ir fazer o jantar, e eu e M. Yoshoto se­
guíamos - como se fôssemos em fila indiana - às seis em
ponto. Não havia nenhum desvio, mesmo que essencial ou hi­
giénico. Nessa tarde, porém, sentindo o envelope da irmã Ir­
ma a aquecer-me o peito, nunca me senti tão distendido . Na
verdade, durante todo o j antar, não poderia ter sido mais so­
ciável. Contei a maravilha de uma história de Picasso que ti­
nha acabado de me ocorrer, e que podia muito bem ter reser­
vado para um dia de chuva. M. Yoshoto mal baixou o jornal
para a ouvir, mas Mme. Yoshoto parecia interessada, ou, pelo
menos, não desinteressada. Sej a como for, quando a acabei,
falou comigo pela primeira vez desde que naquela manhã me
tinha perguntado se queria um ovo . Perguntou-me se tinha
a certeza de que não queria uma cadeira no meu quarto. Res­
pondi prontamente: «Non, non . . . merci, madame. » Disse que
a maneira como as almofadas estavam encostadas à parede,
me dava uma boa ocasião de me habituar a ter as costas direi­
tas. Levantei-me para lhe mostrar como as tinha curvadas.
NOVE HISTÓRIAS

Depois do jantar, enquanto os Yoshotos discutiam, em j a­


ponês, talvez algum assunto interessantíssimo, pedi licença
para me levantar da mesa. M. Y oshoto olhou para mim como
quem não está muito certo de como é que, antes do mais, eu
tinha entrado na cozinha dele, mas assentiu com um aceno,
e eu tomei rapidamente o corredor para o meu quarto. Depois
de acender a luz e de fechar a porta atrás de mim, tirei do bol­
so os meus lápis de desenho, tirei o casaco, desabotoei a cami­
sa e sentei-me numa almofada no chão com o envelope da ir­
mã Irma na mão. Até depois das quatro da manhã, com tudo
o que precisava estendido no chão diante de mim, dediquei­
-me ao que na minha opinião eram as necessidades artísticas
mais prementes da irmã Irma.
Para começar fiz uns dez ou doze esboços a lápis. Em vez
de ir à sala dos monitores buscar papel de desenho, fiz os es­
boços no meu próprio bloco de notas, usando os dois lados
do papel. Quando acabei, escrevi uma longa carta, quase in­
terminável.
Toda a minha vida fui dado a guardar coisas como uma
pega excecionalmente neurótica, e tenho ainda o penúltimo
rascunho da carta que escrevi à irmã Irma nessa noite de ju­
nho de 1 9 3 9 . Poderia reproduzi-la aqui palavra a palavra,
mas não é necessário . Utilizei o grosso da carta - o grosso,
digo bem - para sugerir em que ponto e como, no seu traba­
lho mais importante, ela tinha cometido uma pequena falha,
em especial com as cores. Fiz uma lista de alguns materiais ar­
tísti c o s q u e na m i n h a o p i n i ã o e l a n ã o p o d i a d i s p e n s a r ,
e acrescentei o seu custo aproximado. Perguntava-lhe quem
era Douglas Bunting. Perguntava-lhe se podia ver alguns dos
seus trabalhos. Perguntava-lhe (e sabia quanto era imprová­
vel) se alguma vez tinha visto algumas reproduções ou pintu­
ras de Antonello da Messina. Pedia-lhe por favor que me dis­
sesse que idade tinha, e assegurava-lhe, desenvolvidamente,
que esta informação, caso ela a desse, não passaria de mim.
1 66 ] . D . SALINGER

Dizia-lhe que a única razão por que lho perguntava era porque
essa informação me ajudaria a orientá-la de forma mais eficaz.
Virtualmente do mesmo fôlego, perguntava-lhe se estava auto­
rizada a receber visitas no convento.
As últimas linhas (ou centímetros cúbicos) da minha carta
devem, acho eu, ser aqui retranscritas - com a sintaxe, a pon­
tuação, e tudo .

. . . A propósito, se domina a língua francesa, espero que mo


diga, uma vez que posso exprimir-me com grande rigor nessa
língua, tendo passado a maior parte da minha j uventude sobre­
tudo em Paris, França.
Uma vez que está obviamente interessada em desenhar figu­
ras correndo, de maneira a transmitir essa técnica às suas alu­
nas no Convento, incluo alguns esboços feitos por mim que po­
derá utilizar. Como verá desenhei -os bastante à pressa e não
estão de modo nenhum perfeitos ou sequer recomendáveis, mas
penso que lhe mostrarão os rudimentos daquilo em que mos­
trou interesse. Infelizmente o diretor da escola não tem nenhum
sistema no método de ensino, receio bem. Estou encantado por
ver que já está tão avançada, mas não faço ideia nenhuma do
que ele quer que eu faça com os meus outros alunos que estão
muito atrasados e são antes de mais nada imbecis, na minha
opinião.
Infelizmente, sou agnóstico; no entanto, sou um grande ad­
mirador de S. Francisco de Assis, à distância, escusado será di­
zer. Pergunto-me se acaso estará a par do que ele (S. Francisco
de Assis ) disse quando estavam prestes a cauterizar um dos seus
globos oculares com um ferro em brasa. Disse o seguinte : « Ir­
mão Fogo, Deus fez-te belo, forte e útil; peço-te que sejas gentil
comigo. » Sob muitos pontos de vista interessantes, a sua pintu­
ra é um pouco semelhante ao modo como ele falava, na minha
opini ã o . A propósito, posso perguntar se a mulher j ovem em
primeiro plano vestida de azul é Maria Madalen a ? Refiro-me
à pintura de que temos estado a falar, como é natural. Se não é,
NOVE HISTÓRIAS

quer dizer que tenho estado lamentavelmente enganado. O que


não seria novidade, no entanto.
Espero que m e considere inteiramente ao seu d i sp or en­
quanto for aluna de Les Amis des Vieux Maítres . Acho, com
franqueza, que tem um e norme talento e n ã o ficaria mesmo
nada surpreendido se viesse a tornar-se num génio dentro de
poucos anos. Nunca lhe daria falsas esperanças a tal propósito.
Essa é uma das razões por que lhe perguntei se a j ovem mulher
em primeiro plano era Maria Madalena, porque caso o sej a,
quer dizer que está a usar um pouco mais o seu génio incipiente
do que as suas inclinações religiosas, receio bem. No entanto,
é uma coisa que não há que temer, na minha opinião.
Esperando s i n c eramente que esta a encontre de p er feita
e completa saúde, subscrevo-me
Muito respeitosamente,
( assinatura )
}EAN DE ÜAUMIER-5MITH
Monitor
Les Amis des Vieux Maitres

P.S. - Quase me esquecia de lhe dizer que os alunos devem


enviar envelopes para a escola de quinze em quinze dias, às se­
gundas-feiras. Para o primeiro envio não se importa de me fa­
zer alguns esboços de exteriore s ? Faça-os muito livremente, sem
se forçar. Não tenho nenhuma ideia de quanto tempo lhe dão
para desenhar no Convento e espero que mo diga . Peço-lhe
também que compre os materiais indispensáveis que tomei a li­
berdade de propor, pois gostaria que começasse a usar o óleo tão
depressa quanto possível . Se não me leva a mal, acho que é de­
masiado apaixonada para pintar indefinidamente só a aguarela
e não a óleo. Digo isto com toda a obj etividade e sem pretender
ser obnóxio; no fundo, é mais um elogio. Por isso envie-me por
favor todos os seus trabalhos anteriores que tenha à mão, pois
estou impaciente por os ver. Os dias vão-me parecer insuportá­
veis até chegar o próximo envelope, escusado será dizer.
I68 J .D . SALINGER

Se n ã o for um a b u s o , gostaria muito q u e me d i s s e s s e s e


acha a vida d e freira plenamente satisfatória, do ponto de vista
religioso, como é natural . Francamente, tenho andado a estudar
várias religiões como passatempo, desde que li os volumes 3 6,
44 e 45 d o s Harvard Classics, q u e com certeza deve conhecer.
Fiquei em particular entusiasmado com Martinho Lutero, que
era um protestante, naturalmente . Por favor, não se ofenda
com o que digo . Não defendo nenhuma doutrina; não está na
minha natureza fazer tal coisa. Como última recomendação,
por favor não se esqueça de me informar das suas horas de visi­
ta, uma vez que tenho os fins de semana livres tanto quanto sei
e pode dar-se o c a s o de passar nas proximidades um sábado
por acaso. Não se esqueça também por favor de me informar se
tem um domínio razoável da língua francesa, pois que para to­
dos os efeitos pode dizer-se que, comparativamente, quase não
falo inglês devido à minha educação variada e em grande parte
descuidada.

Enviei a carta e os desenhos para a irmã Irma por volta


das três e meia da manhã, tendo para isso saído à rua. De­
pois, literalmente rej ubilante, despi-me, com os dedos embo­
tados e caí na cama.
Quando estava quase a adormecer, fizeram-se ouvir os ge­
midos do quarto dos Yoshotos, do outro lado da parede.
Imaginei os dois Y oshotos a vir ter comigo na manhã seguinte
a pedir-me, a implorar, que ouvisse o secreto problema deles,
até ao mínimo, terrível, pormenor. Via exatamente como se­
ria. Eu, sentado entre os dois à mesa da cozinha, ouvindo um
e outro. Ouvia, ouvia, ouvia, com a cabeça entre as mãos - até
que por fim, não podendo aguentar mais, enfiava a mão pela
garganta abaixo de Mme. Yoshoto, agarrava o coração dela
e aquecia-o como se faz a um passarinho. Depois, quando tudo
ficasse em ordem, mostrava aos Yoshotos os trabalhos da irmã
Irma, e eles partilhariam a minha alegria.
NOVE HISTÓRIAS

Os factos são sempre óbvios demasiado tarde, mas a dife­


rença mais singular entre a felicidade e a alegria é que a felici­
dade é um sólido e a alegria, um líquido. A minha começou
a verter do recipiente logo a partir da manhã seguinte, quan­
do M. Y oshoto deixou cair em cima da minha secretária os
envelopes de dois novos alunos. Estava a trabalhar nos dese­
nhos de Bambi Kramer nesse momento, e até de forma bas­
tante despreocupada, sabendo como sabia que a minha carta
para a irmã lrma estava em segurança no correio. Mas não
estava nem de longe preparado para enfrentar o bizarríssimo
facto de haver duas pessoas no mundo que tinham ainda me­
nos talento para o desenho do que Bambi ou R. Howard Rid­
gefield. Sentindo que toda a virtude me abandonava, acendi
pela primeira vez um cigarro na sala dos monitores desde que
entrara para a equipa. Pareceu ajudar, e voltei ao trabalho de
Bambi. Mas ainda não tinha tirado mais do que três fumaças,
quando senti, sem na realidade levantar os olhos para o lado,
que M. Yoshoto estava a olhar para mim. Depois, como con­
firmação, ouvi a cadeira dele a ser empurrada para trás. Como
sempre, levantei-me para o receber quando se aproximou. Ex­
plicou-me então, no raio de um sussurro irritante, que pes­
soalmente não tinha nenhuma objeção a que eu fumasse, mas
que, infelizmente, o regulamento da escola era contra o fumo
na sala dos monitores. Cortou cerce os meus profusas pedidos
de desculpa com um magnânimo aceno da mão, e voltou para
o canto dele e de Mme. Yoshoto. Pus-me a pensar, em verda­
deiro pânico, como conseguiria passar, sem enlouquecer, os
treze dias seguintes até à segunda-feira em que devia chegar
o envelope da irmã lrma.
J . D . SALINGER

Estávamos na manhã de terça-feira. Passei o resto do dia


e todas as horas de trabalho dos dois dias seguintes manten­
do-me ocupado de um modo febril. Desmontei todos os dese­
nhos de Bambi Kramer e de R. Howard Ridgefield, e montei­
- o s de n o v o c o m p e ç a s c o m p l e t a m e nte n o va s . I n d i q u e i
a ambos literalmente dúzias d e exercícios d e desenho, insul­
tuosos, primários, mas bastante construtivos. Escrevi-lhes lon­
gas cartas. Quase implorei a R. Howard Ridgefield que aban­
donasse por algum tempo a sua veia satírica. Pedi a Bambi,
com a máxima delicadeza, que fizesse o favor de, temporaria­
mente, deixar de enviar mais desenhos com títulos semelhan­
tes a «Perdoai-lhes as Suas Ofensas » . E então, a meio da tarde
de quinta-feira, sentindo-me bom e em forma, peguei num dos
dois novos alunos, um americano de Bangor, no Maine, que
dizia no seu questionário, com uma integridade palavrosa, gé­
nero «para ser honesto » , que era ele próprio o seu artista fa­
vorito. Referia-se a si próprio como um realista-abstracionis­
ta. Depois de sair da escola, no fim da tarde de terça-feira,
tomei o autocarro para o centro de Montreal e fiquei sentado
num cinema de terceira classe a ver o programa inteiro de um
Festival de Desenhos Animados - o que implicava em grande
parte testemunhar uma sucessão de gatos a serem bombardea­
dos por quadrilhas de ratos com rolhas de champanhe. Na
quarta-feira à noite, j untei as almofadas do chão no meu
quarto, empilhei-as em montes de três, e tentei fazer de me­
mória um esboço do enterro de Cristo desenhado pela irmã
Irma.
Sinto-me tentado a dizer que a noite de quinta-feira foi es­
tranha, ou talvez macabra, mas a verdade é que não tenho ad­
j etivos que se apliquem à noite de quinta-feira . Saí de Les
Amis a seguir ao j antar e fui não sei onde - talvez a um cine­
ma, talvez só dar um grande passeio; não consigo lembrar-me
NovE HISTÓRIAS 171

e , desta vez, o meu diário de 1 93 9 também não me serve de


nada, pois a página que me podia aj udar está toda em branco.
Mas sei porque é que a página está em branco. Quando
estava de volta de onde quer que tenha passado o fim do dia
- e lembro-me de que era depois do escurecer -, detive-me
no passeio em frente à escola e olhei para a montra da loja de
próteses ortopédicas. E então aconteceu uma coisa completa­
mente medonha . Fui possuído pelo pensamento de que por
mais serenamente, ou mais sensatamente, ou mais graciosa­
mente, que eu pudesse algum dia aprender a viver a minha vi­
da, nunca passaria no melhor dos casos de um visitante num
j ardim de urinóis e de arrastadeiras de esmalte, com uma dei­
dade-manequim de madeira, sem olhos, postada a meu lado
com uma funda hernial em saldo. Este pensamento, como
é natural, não seria suportável por mais do que uns segundos.
Lembro-me de subir as escadas a correr até ao meu quarto, de
me despir e de me enfiar na cama sem sequer abrir o meu diá­
rio, e muito menos escrever alguma coisa.
Fiquei horas estendido sem dormir, a tremer. Ouvia o ge­
mido no quarto ao lado e pus-me a pensar, concentradamen­
te, na minha pupila vedeta . Tentei visualizar o dia em que
a iria visitar ao convento. Via-a caminhar ao meu encontro -
uma rapariga tímida, bonita, de dezoito anos que não pro­
nunciara ainda os votos finais e era ainda livre de sair para
o mundo ao lado de um Abelardo de sua escolha. Via-nos ca­
minhando devagar, silenciosos, para um sítio afastado, verde­
j ante, dos terrenos do convento, onde de súbito, e castamente,
eu passaria o meu braço em torno da cintura dela. A imagem
era demasiado extática para se manter fixa e acabei por a dei­
xar fugir e adormeci.
I 72 J . D . SALINGER

Passei a manhã de sexta-feira e a maior parte d a tarde


a trabalhar com afinco, tentando, com o uso de papel vegetal,
transformar em árvores reconhecíveis uma floresta de símbolos
fálicos que o homem de Bangor, Maine, tinha conscienciosa­
mente desenhado em papel de linho caríssimo. Mental, espiri­
tual e fisicamente, estava a sentir-me bastante entorpecido por
volta das quatro e meia, e a bem dizer só me levantei por me­
tade quando M. Y oshoto veio ter comigo por um momento.
Estendeu-me uma coisa - estendeu-ma de forma tão impes­
soal como um empregado de mesa banal nos entrega a emen­
ta. Era uma carta da madre superiora do convento da irmã Ir­
ma, informando M. Y oshoto que o padre Zimmermann, por
razões estranhas à sua vontade, se via forçado a alterar a sua
decisão de autorizar a irmã Irma a seguir o curso de Les Amis
des Vieux Maitres . A autora da carta dizia que lamentava
profundamente todos os inconvenientes ou confusões que esta
mudança de planos pudesse causar à escola. E que esperava
que o pagamento da primeira propina de catorze dólares pu­
desse ser devolvido à diocese.
O rato, estou persuadido disso há muitos anos, quando
volta à toca, ainda a coxear da roda giratória abrasante, vem
já com um plano completamente novo e sem falhas para matar
o gato. Depois de a ter lido e relido e depois de, durante muitos
e longos minutos, ter contemplado a carta da madre superiora,
pu-la subitamente de lado e desatei a escrever cartas aos meus
restantes quatro alunos, aconselhando-os a abandonar a ideia
de virem a ser artistas. Disse-lhes, a cada um deles, que não ti­
nham de todo talento que valesse a pena desenvolver e que es­
tavam só a desperdiçar o valioso tempo deles e o da escola .
Escrevi as quatro cartas em francês. Quando acabei, saí de
imediato e deitei as cartas ao correio. O meu contentamento
foi de curta duração, mas enquanto durou foi muito, muito
bom.
NOVE HISTÓRIAS 1 73

Quando chegou a hora do cortej o rumo à cozinha para


o j antar, pedi dispensa. Disse que não estava a sentir-me bem.
(Em 1 939, eu mentia com muito mais convicção do que quan­
do dizia a verdade - por isso estava certo de que M. Yoshoto
me olhava desconfiado quando eu disse que não me sentia
bem. ) Depois subi para o meu quarto e sentei-me numa almo­
fada. Fiquei ali sentado de certeza uma hora, com os olhos
pregados numa fenda do estore que deixava passar a luz do
dia, sem fumar nem despir o casaco ou alargar o nó da grava­
t a . Depois, a bruptamente , levantei-me e fui buscar umas
quantas folhas do meu papel de carta e escrevi uma segunda
carta à irmã Irma, usando o soalho como secretária .
Nunca cheguei a deitar a carta ao correio . A reprodução
que se segue é copiada diretamente do original.

}..í o NTREAL, CANADÁ


28 DE J UNHO DE 1 9 3 9

CARA IRMÃ IRMA,


Terei eu, por acaso, dito alguma coisa de obnóxio o u irreve­
rente na carta que lhe escrevi que tenha chamado a atenção do
padre Zimmermann e lhe tenha causado a si qualquer tipo de
embaraço ? Se assim for, peço-lhe que me dê pelo menos uma
oportunidade razoável de retirar o que quer que sej a que eu te­
nha involuntariamente dito no meu anseio de nos tornarmos
amigos, além de professor e aluna. Será isto pedir de mais ? Não
me parece .
A crua verdade é esta : se não aprender um pouco mais dos
rudimentos da profissão, não passará apenas de uma artista
muito, muito interessante pelo resto da sua vida em vez de ser
uma artista extraordinária. Seria terrível, na minha opinião. Já
viu bem a gravidade da situação ?
É possível que o padre Zimmermann a tenha feito desistir
da escola por pensar que isso a iria impedir de ser uma freira
competente. Se assim for, não posso deixar de pensar que foi
1 74 j . D . SALINGER

muito irrefletido da parte dele, s o b mais do que um aspeto.


Não seria incompatível com o ser freira. Eu próprio vivo como
um monge de ideias erradas. O pior que lhe poderia acontecer
por ser uma artista é que isso a tornaria ligeiramente infeliz de
modo permanente . Isto não tem, no entanto, nada de trágico,
a meu ver. O dia mais feliz da minha vida foi há muito tempo,
tinha eu dezassete anos. la almoçar com a minha mãe, que saía
pela primeira vez à rua depois de uma longa doença, e sentia­
-me arrebatadamente feliz quando de repente, ia eu a entrar na
Avenue Victor Hugo, que é uma rua de Paris, fui de encontro
a um sujeito que não tinha nariz. Peço-lhe que considere este
fator, imploro-lhe até. Está carregado de significado.
É também possível que o padre Zimmermann a tenha leva­
do a anular a matrícula pelo facto de o seu convento não dispor
talvez de meios para pagar o curs o . Espero francamente que
o motivo sej a este, não só por que isso deixaria aliviada a mi­
nha consciência, mas também por razões mais práticas. Se de
facto for esse o caso, basta que me diga uma palavra e eu ofere­
ço os meus serviços gratuitamente por um período indefinido.
Poderíamos discutir melhor este assunto ? Posso perguntar-lhe
de novo quais são os seus dias de visita no convento ? Posso to­
mar a liberdade de planear ir visitá-la ao convento na tarde do
próximo sábado, dia 6 de j ulho, entre as 3 e as 5 horas, depen­
dendo do horário dos comboios entre Montreal e Toronto ? Fico
à espera da sua resposta com grande ansiedade.
Com respeito e admiração
Atentamente,
( assinatura )
]EAN DE DAUMIER-SMITH
Monitor
Les Amis des Vieux Maítres

P . S . - Na minha última carta perguntava-lhe de passagem


se a j ovem de roupas azuis no primeiro plano da sua pintura re­
ligiosa era Maria Madalena, a pecadora. Se ainda não respon­
deu à minha carta, por favor abstenha-se de o fazer. É possível
NOVE HISTÓRIAS 175

que estivesse enganado e não quero ser deliberadamente causa


de quaisquer d e s i l u s õ e s neste ponto d a minha vida . Prefiro
manter-me na ignorância.

Mesmo hoj e, passado tanto tempo como agora passou,


continuo a ter tendência para estremecer quando me lembro
de que levei um smoking quando fui para Les Amis. Mas levei
mesmo um e, depois de ter acabado a carta para a irmã Irma,
vesti-o. Toda esta história parecia estar a pedir uma bebedei­
ra, e uma vez que nunca tinha estado bêbado na minha vida
(com medo de que o excesso de bebida pudesse fazer tremer
a mão que pintava os quadros que tinham conquistado os três
primeiros prémios, etc . , etc . ) , senti-me na obrigação de me
vestir para a trágica ocasião.
Com os Y oshotos ainda na cozinha, desci silenciosamente
as escadas e telefonei para o Hotel Windsor - que a amiga de
Bobby, a Sra. X, me tinha recomendado antes de deixar Nova
Iorque. Reservei uma mesa para uma pessoa, para as oito horas.
Cerca das sete e meia, todo vestido e arranj ado, pus a ca­
beça fora da porta para ver se algum dos Yoshotos estava
à espreita. Por uma qualquer razão, não queria que me vissem
de smoking. Não estavam à vista e eu desci a correr para a rua
e comecei à procura de um táxi. Tinha a carta para a irmã Irma
no bolso do casaco. Tencionava lê-la ao jantar, de preferência
à luz das velas.
Passei quarteirões e mais quarteirões sem avistar um único
táxi, e muito menos um táxi vazio. Era uma caminhada difí­
cil. O bairro Verdun de Montreal não era propriamente uma
zona de gente chique, e eu tinha a impressão de que todos os
que passavam por mim se voltavam, com um olhar basica­
mente desaprovador. Quando, afinal, passei pelo snack-bar
j . D . SALINGER

onde na segunda-feira tinha devorado os « Coney Island Red­


-Hots » , decidi atirar pela borda fora a minha reserva no Ho­
tel Windsor. Entrei no snack-bar, sentei-me num reservado
a uma ponta e deixei a mão esquerda a tapar o laço preto en­
quanto encomendava uma sopa, sanduíches e café forte. Espe­
rava que os outros clientes pensassem que eu era um empre­
gado de mesa a caminho do trabalho.
Quando ia no meu segundo café , saquei da carta para
a irmã lrma e reli-a. Pareceu-me que lhe faltava um pouco de
substância e decidi voltar rapidamente para Les Amis e reto­
cá-la um bocado. Pensei também melhor nos meus planos de
visita à irmã lrma e perguntei a mim mesmo se não seria uma
boa ideia fazer a reserva para o comboio já nessa noite. Com
estes dois pensamentos na ideia - sem que nenhum deles me
desse o tipo de ânimo de que estava a precisar - saí do snack­
-bar e regressei apressadamente à escola.
Uns quinze minutos depois, aconteceu-me uma coisa ex­
tremamente invulgar. Uma afirmação que, tenho consciência
disso, apresenta todos os sinais irritantes de querer criar sus­
pense, mas que muito pelo contrário é a verdade. Preparo-me
para abordar uma experiência extraordinária, daquelas que
ainda hoj e me surpreende como sendo profundamente trans­
cendente, e que gostaria de, tanto quanto possível, evitar pa­
recer estar a fazê-la passar por um caso, ou mesmo um caso
de fronteira, de genuíno misticismo. (O contrário, sinto-o, se­
ria o mesmo que sugerir ou afirmar que a diferença entre as
surtidas espirituais de S. Francisco e as do comum, histérico,
beij ador-de-leprosos de domingo é apenas vertical . )
N o crepúsculo das nove horas, quando m e aproximava do
edifício da escola atravessando a rua, havia uma luz na loj a
de próteses ortopédicas. Fiquei alarmado ao ver uma pessoa
viva na montra, uma rapariga corpulenta dos seus trinta anos,
com um vestido leve, verde, amarelo e lilás . Estava a mudar
NOVE HISTÓRIAS 1 77

a funda hernial no manequim. No momento em que cheguei


j unto da montra, ela acabara de retirar a funda antiga; segu­
rava-a debaixo do braço ( via-lhe o « perfil » direito ) e estava
a atar a nova no manequim. Fiquei especado a observá-la, fas­
cinado, até que ela pressentiu, e depois viu, que estava a ser
o bservada. Fiz-lhe rapidamente um sorriso - para lhe mos­
trar que não havia nada de hostil na figura de smoking à luz
do crepúsculo do outro lado do vidro - mas não serviu de
nada. O embaraço da rapariga ia para além de toda a normal
proporção. Corou, deixou cair a funda que removera, recuou
tropeçando numa pilha de irrigadores - e perdeu o equilí­
brio. Estendi as mãos para ela no mesmo instante, batendo
com as pontas dos dedos no vidro. Caiu pesadamente sobre
o traseiro, como uma patinadora. Levantou-se de imediato
sem olhar para mim. Com a cara ainda corada, puxou o cabe­
lo para trás com uma mão e acabou de atar a funda no mane­
quim. Foi então nesse preciso momento que eu tive a minha
Experiência. De súbito ( e digo isto, parece-me, com todo
o constrangimento que se impõe ) , o Sol surgiu e veio atingir
a cana do meu nariz a uma velocidade de noventa e três mi­
lhões de quilómetros por segundo. Ofuscado e assustadíssimo,
tive de pôr a mão no vidro para manter o equilíbrio. A coisa
não durou mais do que uns breves segundos. Quando recupe­
rei a vista, a rapariga desaparecera da montra, deixando atrás
de si um campo tremulante de delicadas, duas vezes abençoa­
das, flores de esmalte.
Afastei-me da montra e dei duas voltas ao quarteirão, até
os j oelhos deixarem de se dobrar. Depois, sem ousar olhar de
novo para a montra, subi para o meu quarto e estendi-me em
cima da cama. Passados alguns minutos, ou horas, escrevi, em
francês, o seguinte registo no meu diário: «Vou deixar a irmã
Irma livre de seguir o seu próprio destino. Toda a gente é uma
freira. » ( Tout le monde est une nonne. )
J.D. SALINGER

Antes de me deitar para dormir, escrevi cartas aos meus


quatro recém-expulsos alunos, admitindo-os de novo . No
fundo, as cartas pareciam escrever-se por si próprias. Pode ser
que tivesse a ver com o facto de eu, antes de me sentar a es­
crever, ter ido lá abaixo buscar uma cadeira.

Deve parecer completamente anticlímax falar nisto, mas


Les Amis des Vieux Maitres fechou há menos de uma sema­
na, por não ter o alvará em regra (por não ter alvará nenhum,
na verdade) . Fiz as malas e fui ter com Bobby, o meu padras­
to, a Rhode Island, onde passei as seis ou oito semanas se­
guintes, até à reabertura da escola de arte, estudando o mais
interessante dos animais de verão, a Rapariga Americana de
Calções.
Certo ou errado, nunca mais entrei em contacto com a irmã
Irma.
Mas, de vez em quando, ainda me chegam notícias de
Bambi Kramer. A última vez que soube dela, tinha-se lançado
a desenhar os seus próprios cartões de boas-festas. Devem ser
dignos de se ver, se é que ela não perdeu a mão.
Teddy

- Eu DOU-TE JÁ o DIA MAGNÍFICO, meu menino, se não des­


ces imediatamente dessa mala. E não estou a brincar - disse
o S r . McArdle. Falava da cama de dentro - a cama mais
afastada da vigia. Raivosamente, soltando mais uma lamúria
do que um suspiro, afastou com o pé o lençol de cima deixan­
do à mostra os tornozelos, como se a mínima coberta se tives­
se tornado de repente insuportável para o seu corpo bronzea­
do, de aspeto debilitado. Estava deitado de costas, só com as
calças do pij ama, um cigarro aceso na mão direita. A cabeça
estava levantada apenas o suficiente para ficar apoiada des­
confortavelmente, quase masoquistamente, mesmo na base da
cabeceira da cama. A almofada e o cinzeiro estavam no chão,
entre a cama dele e a da Sra. McArdle. Sem levantar o corpo,
estendeu o braço direito, nu, de um rosa inflamado, e sacudiu
a cinza na direção aproximada da mesa de cabeceira. - Ou­
tubro, uma ova - disse ele. - Se isto é um tempo de outu­
bro, quero estar em agosto. - Virou a cabeça para a direita
novamente, para Teddy, à procura de briga. - Então - disse
ele. - Porque raio j ulgas que estou a falar ? Para melhorar
a voz ? Desce daí, fazes favor.
1 80 j.D. SALINGER

Teddy estava e m pé s o bre a parte m a i s larga de uma


Gladstone de cabedal com ar de nova, para ver melhor pela
vigia aberta do camarote dos pais. Calçava uns ténis brancos
extremamente suj o s , sem meias, uns calções de linho que
eram ao mesmo tempo demasiado compridos para ele e com
pelo menos um número a mais no rabo, uma T-shirt deslava­
da com um buraco do tamanho de uma moeda no ombro di­
reito, e um cinto preto incongruentemente bonito de pele de
crocodilo. Estava a precisar de um corte de cabelo - em es­
pecial na parte de trás do pescoço - urgentemente, como só
um rapazinho com uma cabeça quase de gente crescida e um
pescoço de caniço pode precisar.
- Teddy, ouviste o que eu disse ?
Teddy não estava debruçado para fora da vigia tanto ou
de forma tão perigosa como os miúdos da idade dele são ca­
pazes de se debruçar para fora de vigias abertas - de facto,
tinha os dois pés assentes na superfície da Gladstone - mas
também não estava inclinado com segurança; a cara estava
bastante mais fora do que dentro do camarote . Mas podia
ouvir na perfeição a voz do pai - ou antes, a voz do pai mui­
to em particular. O Sr. McArdle quando estava em Nova Ior­
que desempenhava papéis importantes em nada menos do que
três folhetins diários na rádio, e possuía aquilo que se pode
chamar uma voz de personagem principal de terceira classe:
narcisistamente profunda e sonora, funcionalmente preparada
para a qualquer momento se sobrepor à de qualquer macho
que se encontrasse no mesmo espaço, fosse ele um rapazinho,
se necessário. Quando estava em férias das suas funções pro­
fissionais, a voz ficava, em geral, alternadamente apaixonada
pelo puro volume e por uma versão teatral de tranquilidade­
-firmeza. Neste preciso momento, era a vez do volume.
-
Teddy Caraças . . . Ouviste o que eu disse ?
.

Teddy voltou-se pela cintura, sem mudar a posição vigi­


lante dos pés em cima da Gladstone, e lançou ao pai um olhar
NOVE HISTÓRIAS 181

interrogativo, cândido e puro. Os olhos, que eram de uma cor


castanha-clara, e não muito grandes, eram um pouco vesgos
- o olho esquerdo mais do que o direito. Não eram tão ves­
gos que o desfigurassem, ou mesmo que isso se notasse neces­
sariamente ao primeiro olhar. Eram vesgos apenas o pouco
que merece ser mencionado e apenas tendo presente o facto
de ser preciso pensar longa e seriamente antes de se desej ar
que fossem mais direitos, ou mais profundos, ou mais casta­
nhos, ou maiores. A cara, tal como era, transmitia o impacto,
ainda que oblíquo e não imediato, da verdadeira beleza.
- Desce-me já dessa mala. Quantas vezes tenho de to di­
zer ? - disse o Sr. McArdle.
- Deixa-te estar onde estás, querido - disse a Sra. McAr­
dle, que manifestamente tinha um pequeno problema com
a sua sinusite pela manhã . Tinha os olhos abertos, mas só
o necessário. - Não te mexas nem um milímetro. - Estava
deitada sobre o lado direito, a cara, na almofada, voltada pa­
ra a esquerda, para o lado de Teddy e da vigia, de costas para
o marido. O lençol de cima estava bem esticado sobre o corpo
provavelmente despido, envolvendo-a, braços e tudo, até ao
queixo . - Dá uns pulos - disse ela, e fechou os olhos. -
Rebenta com a mala do papá.
- Vê-me só as lindas coisas que tu dizes - disse tranqui­
la-firmemente o Sr. McArdle, dirigindo-se à nuca da mulher.
- Pago vinte e duas libras por uma mala, peço de forma edu­
cada ao miúdo para não estar em cima dela, e tu dizes-lhe para
se pôr aos pulos em cima dela. Qual é a tua ideia ? É para
ter piada ?
- Se aquela mala não consegue aguentar um rapaz de dez
a n o s , com seis quilos a menos para a idade que tem, não
a quero no meu camarote - disse a Sra. McArdle, sem abrir
os olhos.
- Sabes o que me apetecia fazer? - disse o Sr. McArdle.
- Abrir-te o raio dessa cabeça a pontapé.
182 ] . D . SALINGER

- Porque não o fazes ?


Abruptamente, o Sr. McArdle soergueu-se num cotovelo
e esmagou a beata do cigarro no tampo de vidro da mesa de
cabeceira. - Um dia destes . . . - começou, sombrio.
- Um dia deste s , vais ter um ataque cardíaco, muito,
muito trágico - disse a Sra . McArdle com um mínimo de
energia. Sem pôr os braços à mostra, apertou mais o lençol
à volta e por baixo do corpo. - Haverá um pequeno funeral,
de bom gosto, e todos se vão perguntar quem será aquela lin­
da mulher de vestido vermelho, sentada na primeira fila,
a flirtar com o organista e a fazer um santo . . .
- Tens o raio d e uma piada que não tem piada nenhuma
- disse o Sr. McArdle, de novo deitado imóvel de costas.

Durante esta pequena troca de palavras, Teddy tinha dado


meia-volta e retomado a observação do que se passava fora
da vigia . - Passámos pelo Queen Mary, que ia em sentido
contrário, às três e trinta e dois desta manhã, caso alguém es­
tej a interessado - disse ele devagar. - Do que eu duvido. -
A voz dele tinha um curioso e bonito som áspero, como acon­
tece com a voz de alguns miúdos . Cada uma das suas frases
assemelhava-se um pouco a uma pequena ilha antiga, banha­
da por um mar de whisky em miniatura. - Foi o que escre­
veu no quadro aquele empregado do convés que a Booper de­
testa.
- Eu j á te dou o Queen Mary, meu menino, se não sais
agora mesmo de cima dessa mala - disse o pai. Virou a cabe­
ça para Teddy. - Desce daí, já. Vai-me cortar esse cabelo ou
assim. - Olhou de novo para a nuca da mulher. - É mesmo
precoce, caraças.
- Não tenho dinheiro - disse Teddy. Colocou as mãos
mais seguramente na borda da vigia , e poisou o queixo nas
NOVE HISTÓRIAS

costas dos dedos. - Mãe, conheces o homem que está na mesa


ao lado da nossa na sala de j antar ? Não é aquele muito ma­
gro . O outro, na mesma mesa . Mesmo j unto ao sítio onde
o nosso empregado põe a bandeja.
- Mm-hmm - disse a Sra. McArdle. - Teddy. Querido.
Deixa a mãe dormir só mais cinco minutos, se queres ser um
lindo menino.
- Espera só um segundo. Isto é muito interessante - disse
Teddy, sem levantar o queixo do apoio e sem desviar os olhos
do mar. - Estava no ginásio há bocadinho, quando o Sven me
estava a pesar. Veio ter comigo e meteu conversa. Tinha ouvi­
do a última gravação que fiz. Não é a de abril. A de maio. Es­
tava numa festa em Boston pouco antes de ir para a Europa,
e nessa festa havia alguém que conhecia alguém na comissão
Leidekker de avaliação, não disse quem era, e que tinha leva­
do a última gravação que eu tinha feito e ouviram-na na festa.
Parece muito interessado. É amigo do professor Babcock. Ao
que parece também é professor. Disse ele que passou o verão
todo no Trinity College, em Dublin.
- Ah ? - disse a Sra. McArdle . - Estiveram a ouvi-la
numa festa ? - Deixou-se ficar estendida fitando sonolenta
a barriga das pernas de Teddy.
- Acho que sim - disse Teddy. - Ele contou ao Sven
uma data de coisas sobre mim, mesmo comigo ali ao pé. Era
um bocado embaraçoso.
- Porque é que havia de ser embaraçoso ?
Teddy hesitou. - Eu disse « um bocado » embaraçoso. Pus
uma reserva.
- Eu é que te dou a reserva, meu menino, se não desces
do raio dessa mala - disse o Sr. McArdle. Tinha acabado de
acender um novo cigarro. - Vou contar até três. Um, raios
me partam . . . Dois . . .
J . D . SALINGER

- Que horas são? - perguntou de repente a Sra. McAr­


dle à barriga das pernas de Teddy. - Tu e a Booper não ti­
nham uma lição de natação às dez e meia ?
- Temos tempo - disse Teddy. - Puumba ! - Enfiou de
repente a cabeça toda fora da vigia, ficou uns segundos nessa
posição e voltou a retirá-la o tempo necessário para informar:
- Atiraram agora mesmo uma lata do lixo cheia de cascas de
laranja pela janela fora.
- Pela j anela. Pela janela - disse o Sr. McArdle sarcásti­
co, sacudindo a cinza . - Pela vigia , menino, pela vigia. -
Lançou um olhar à mulher. - Liga para Boston. Rápido, te­
lefona já para a comissão Leidekker.
- O h , e s t á s c o m um humor fi níssimo - d i s s e a S r a .
McArdle. - Não t e esforces tanto !
Teddy retirou a ca beça para dentro quase por inteiro .
- Flutuam lindamente - disse ele sem se voltar. - É interes­
sante.
- Teddy, pela última vez. Vou contar até três e depois vou ...
- O que é interessante não é o elas flutuarem - disse
Teddy. - É interessante é eu saber que elas estão ali. Se não
as tivesse visto, não sabia que estavam ali, e se não soubesse
que estavam ali, não podia dizer nem sequer que elas existem.
É um belíssimo exemplo, um perfeito exemplo de como . . .
- Teddy - interrompeu a Sra. McArdle, sem s e mexer vi­
sivelmente debaixo do lençol. - Vai-me chamar a Booper.
Onde é que ela está ? Não a quero a andar por aí nesse sol ou­
tra vez, com aquele escaldão.
- Está bem tapada. Mandei-a vestir as jardineiras - dis­
se Teddy. - Algumas estão a afundar-se agora. Daqui a uns
minutos, o único sítio onde ainda estarão a flutuar é na minha
cabeça . É muito interessante, porque se virmos as coisas de
certo modo, foi onde elas começaram a flutuar, antes de mais
NOVE HISTÓRIAS 185

nada. Se eu não estivesse aqui neste sítio, ou se aparecesse


alguém e me cortasse a cabeça mesmo enquanto eu estava . . .
- Onde é que ela está agora ? - perguntou a Sra. McAr­
dle. - Olha para a mãe um minuto, Teddy.
Teddy voltou-se e olhou para a mãe. - O quê ? - disse ele.
- Onde está a Booper agora ? Não a quero às voltas pelo
meio das cadeiras de convés outra vez, a aborrecer as pessoas.
Se aquele homem horroroso . . .
- Está ótima. Dei-lhe a máquina fotográfica.
O Sr. McArdle soergueu-se vacilante num braço. - Deste­
-lhe a máquina fotográfica ! - disse ele. - Que raio de ideia
foi essa ? A porcaria da minha Leica ! Não quero ter agora
uma miúda à solta aí por todo o . . .
- E u mostrei-lhe como a deve segurar para não a deixar
cair - disse Teddy. - E tirei o rolo, naturalmente.
- Quero aqui a máquina, Teddy. Estás a ouvir. Quero
que desças já de cima dessa mala e tens cinco minutos para
me trazer aqui aquela máquina . . . ou vai passar a haver um
pequeno génio a menos. Estamos entendidos ?
Teddy girou os pés em cima da Gladstone e desceu. Incli­
nou-se e apertou os atacadores do sapato esquerdo enquanto
o pai, ainda soerguido num cotovelo, o observava como um
fiscal.
- Diz à Booper que a quero ver - disse a Sra. McArdle.
- E dá um beij o à mãe.
Depois de apertar o atacador, Teddy deu um beij o rápido
à mãe. Em resposta, ela retirou o braço esquerdo de debaixo
do lençol, dobrado como que para rodear a cintura de Teddy,
mas ainda não acabara e já Teddy tinha seguido. Passara para
o outro lado da cama e entrara no espaço entre as duas ca­
mas. Dobrou-se e levantou-se com a almofada do pai debaixo
do braço esquerdo e segurando na mão direita o cinzeiro de
186 J.D. SALINGER

vidro da mesa de cabeceira. Passando o cinzeiro para a mão


esquerda, aproximou-se da mesinha e, com a mão direita de
través, varreu para o cinzeiro as pontas de cigarro do pai e a
cinza . Depois, antes de voltar a pôr o cinzeiro no sítio, usou
a parte de baixo do braço para limpar a fina camada de cinza
no tampo de vidro da mesinha. Limpou o braço aos calções
de linho. Depois colocou o cinzeiro no tampo de vidro, com
todo o cuidado, como quem acha que um cinzeiro ou se pu­
nha no exato centro de uma mesa de cabeceira ou então não
se punha. Neste momento, o pai, que tinha estado a observá­
-lo, desistiu subitamente de o fazer. - Não queres a tua al­
mofada ? - perguntou Teddy.
- Quero mas é a máquina, meu menino.
- Não podes estar muito confortável nessa posição. Não
é possível - disse Teddy. - Vou deixá-la aqui. - Pôs a al­
mofada ao fundo da cama, afastada dos pés do pai. Dirigiu-se
para a porta do camarote.
- Teddy - disse a mãe, sem se voltar. - Diz à Booper
que a quero ver antes da lição de natação.
- Porque não deixas a miúda em paz ? - perguntou o Sr.
McArdle. - Parece que te chateia que ela tenha a porcaria de
uns minutos de liberdade. Sabes como é que tu a tratas ? Vou-te
dizer exatamente como é que tu a tratas. Trata-la como uma
criminosa em botão.
- Em botão ! Muito giro ! Estás a ficar tão inglês, meu
amor.
Teddy deteve-se um momento à porta, ensaiando refletida­
mente o puxador, girando-o devagar para a esquerda e para
a direita . - Depois de sair desta porta, talvez só exista na
memória de todos os que me conhecem - disse ele. - Talvez
seja apenas uma casca de laranja.
- O quê, querido ? - perguntou a Sra . McArdle, ainda
deitada sobre o lado direito.
NOVE HISTÓRIAS

- Toca a andar, meu menino. Toca a trazer-me aqui essa


Leica.
- Anda dar um beijo à mãe. Um dos grandes.
- Agora não - disse Teddy, distraidamente . - Estou
cansado. - Fechou a porta atrás de si.

O j ornal diário de bordo estava no chão fora da porta .


Era uma única folha de papel brilhante, impressa apenas de
um lado. Teddy pegou nele e começou a ler enquanto descia
lentamente o longo corredor da popa . Do lado oposto, uma
mulher enorme, loira, num uniforme branco engomado avan­
çava para ele, trazendo uma j arra de rosas vermelhas de cau­
les compridos. Ao cruzar-se com Teddy, estendeu a mão es­
querda e passou-lha pela cabeça, dizendo: - Há uma pessoa
que está a precisar de um corte de cabelo ! - Teddy passiva­
mente levantou os olhos do j ornal, mas já a mulher tinha pas­
sado, e ele não olhou para trás. Continuou a ler. No fim do
corredor, diante de um mural enorme com S. Jorge e o Dra­
gão dominando o patamar das escadas, dobrou o j ornal de
bordo em quatro e meteu-o no bolso esquerdo de trás. Depois
subiu as escadas atapetadas, largas e baixas, que levavam ao
convés principal, um piso acima. Subia dois degraus de cada
vez, mas devagar, agarrando o corrimão, pondo nisso toda
a energia, como se o ato de subir escadas fosse para ele, como
o é para muitas crianças, um fim moderadamente agradável
em si mesmo. No patamar do convés principal dirigiu-se dire­
tamente ao balcão do comissár.io de bordo, neste momento
ocupado por uma bonita rapariga com o uniforme de tripu­
lante. Estava ocupada a agrafar algumas folhas de papel co­
piografadas.
- Podia-me dizer a que horas começa o jogo hoj e, faz fa­
vor ? - perguntou Teddy.
188 J . D . SALINGER

- Como ?
- Podia-me dizer a que horas começa hoje o jogo ?
A rapariga fez-lhe um sorriso d� batom. - Que j ogo, meu
querido ? - perguntou ela.
- Sabe qual é. Aquele j ogo de palavras que houve ontem
e anteontem, em que tem de se dizer as palavras que faltam.
O mais importante é pôr tudo em contexto.
A rapariga deteve-se a meio de enfiar três folhas de papel
no agrafador. - Ah - disse ela. - Só lá mais para a tarde,
acho eu. Acho que é por volta das quatro. Não é um bocado
puxado de mais para ti, querido ?
- Não, não é . . . Obrigado - disse Teddy, e fez menção de
se afastar.
- Espera um bocado, meu querido ! Como te chamas ?
- Theodore McArdle - disse Teddy. - E você ?
- Eu ? - disse a rapariga, sorrindo. - Sou a alferes Mat-
hewson.
Teddy observou-a a pressionar o agrafador. - Sabia que
era alferes - disse ele. - Não tenho a certeza, mas acho que
quando lhe perguntam o nome devia dizer o seu nome com­
pleto. Jane Mathewson, ou Phyllis Mathewson, ou o que for.
- Oh, a sério ?
- Como disse, é o que eu acho - disse Teddy. - Mas
não tenho a certeza. Pode ser diferente quando se usa unifor­
me. Sej a como for, obrigado pela informação. Adeus! - Deu
meia-volta e tomou as escadas para o Convés de Passeio, no­
vamente duas a duas, mas desta vez mais depressa.
Encontrou Booper, depois de a ter procurado algum tem­
po com os olhos, mais acima no Convés Desportivo . Estava
num espaço ensolarado - uma clareira, quase - entre dois
cortes de ténis de convés que não estavam a ser usados. Aga­
chada, com o sol nas costas e uma brisa ligeira a encrespar-lhe
os sedosos cabelos loiros, estava ocupada a empilhar doze ou
catorze discos de j ogos de convés em dois montes tangentes,
NOVE HISTÓRIAS

um para os discos pretos e outro para os vermelhos. Um miu­


dito muito pequeno, com roupa de algodão leve, estava em pé
ao lado dela, à direita, numa posição de mero observador.
- Olha ! - disse Booper num tom de comando ao irmão
que se aproximava. Abriu os braços para diante e rodeou as
duas pilhas de discos de jogo para mostrar a sua façanha, para
a isolar de tudo o mais que pudesse haver a bordo. - Myron
- disse ela hostilmente, dirigindo-se ao companheiro - Estás
a fazer sombra, o meu irmão assim não pode ver. Mexe esse
coiro. - Fechou os olhos e ficou à espera, com uma careta de
enfado, até Myron se desviar.
Teddy ficou em pé diante das duas pilhas de discos, com
um olhar apreciador. - Está muito bem - disse ele. - Mui­
to simétrico.
- Este tipo - disse Booper, indicando Myron - nunca
ouviu falar no jogo de gamão. Nem sequer têm um.
Teddy lançou um olhar breve, objetivo, a Myron. - Ouve
- disse ele a Booper -, onde está a máquina fotográfica ?
O papá quer que lha leves já.
- Nem sequer vive em Nova Iorque - informou Booper.
- E o pai dele morreu . Foi morto na Coreia. - Voltou-se
para Myron. - Não foi ? - perguntou, mas sem esperar res­
posta. - Agora se a mãe dele morrer, fica órfão. Nem sequer
sabia isso - Olhou para Myron. - Pois não ?
Myron, circunspeto, cruzou os braços.
- És a pessoa mais estúpida que eu conheço - disse Bo­
oper. - És a pessoa mais estúpida neste oceano. Sabias isso ?
- Não é nada - disse Teddy. - Não és nada, Myron. -
Voltou-se para a irmã: - Ouve lá um segundo. Onde é que
está a máquina fotográfica ? Tens de ma dar imediatamente.
Onde é que está ?
- Ali - disse Booper, sem apontar para lado nenhum.
Puxou para j unto dela as duas pilhas de discos. - O que eu
J . D . SALINGER

precisava agora era de dois gigantes - disse ela. - Podiam


j ogar gamão até ficarem cansados e depois subir para aquela
chaminé e atirar estes discos e matar toda a gente. - Olhou
para Myron. - Podiam matar os teus pais - disse ela com ar
informado. - E se isso não os matasse, sabes o que podias fa­
zer ? Podias pôr veneno num bocado de gelatina e depois dar­
-lhes para a comerem.
A Leica estava a uns passos dali, j unto à balaustrada bran­
ca que rodeava o Convés Desportivo. Estava caída de lado,
no sulco do escoadouro. Teddy foi buscá-la, pegou nela pela
correia e passou-a à volta do pescoço. Depois, logo de segui­
da, voltou a tirá-la. Estendeu-a a Booper. - Booper, faz-me
um favor. Leva-a lá abaixo, faz favor - disse ele. - São dez
horas. Tenho de escrever o meu diário.
- Estou ocupada.
- A mãe quer-te ver imediatamente, de qualquer maneira
- disse Teddy.
- Mentiroso.
- Não sou nada mentiro s o . A sério que quer - disse
Teddy. - Por isso, faz favor leva isto para baixo quando fo­
res . . . Vá, Booper.
- O que é que ela me quer ? - perguntou Booper. - Eu
não a quero ver a ela. - De repente, deu uma palmada na
mão de Myron, que ia a pegar no disco de cima da pilha ver­
melha. - Tira a mão - disse ela.
Teddy passou a correia da Leica à volta do pescoço da
irmã. - Agora a sério. Leva isto lá abaixo ao papá, e depois
vemo-nos na piscina mais tarde - disse ele. - Encontramo­
-nos às dez e meia na piscina. Ou na parte de fora daquele sítio
onde mudas de roupa. Vê se chegas a horas. É lá em baixo no
convés E, não te esqueças, por isso vê se vais a tempo. - Deu
meia-volta e foi-se embora.
- Odeio-te ! Odeio toda a gente neste oceano ! - gritou-
-lhe Booper de longe.
NOVE HISTÓRIAS

Por baixo do Convés Desportivo, no vasto Convés do Sol


na popa, obstinadamente ao ar livre, havia umas setenta e cin­
co ou mais espreguiçadeiras de convés, montadas e alinhadas
em sete ou oito filas, formando corredores com a largura ape­
nas suficiente para o empregado de convés poder passar sem
ter necessariamente de tropeçar na parafernália dos passagei­
ros que tomavam banhos de sol - sacos de tricô, romances
com sobrecapas, frascos de bronzeador, máquinas fotográfi­
cas. A área estava apinhada quando Teddy chegou. Começou
na fila de trás e foi avançando metodicamente, detendo-se
j unto de cada cadeira, estivesse ou não ocupada, para ler
o nome na placa do braço da cadeira. Apenas um ou dois dos
passageiros reclinados falaram com ele - ou antes, disseram
alguma daquelas piadas que os adultos se sentem por vezes
inclinados a dizer a um miúdo de dez anos que com ar con­
centrado procura a cadeira que lhe pertence. A pouca idade
dele e a sua concentração eram obviamente suficientes, talvez
no conj unto da sua atitude faltasse ou houvesse pouco daque­
la gravidade engraçada que faz com que muitos adultos sej am
levados a falar com eles num tom superior ou condescenden­
te. As roupas dele podiam também ter alguma coisa a ver com
isso. O buraco no ombro da T-shirt não tinha nada de engra­
çado. O excesso de tecido na parte de trás dos calções de li­
nho, o excesso de comprimento dos próprios calções, não
eram excessos engraçados.
As quatro espreguiçadeiras de convés dos McArdles, com
almofadas e prontas a ser ocupadas, estavam situad a s no
meio da segunda fila da frente. Teddy sentou-se numa delas
de maneira a que - fosse ou não essa a sua intenção - nin­
guém se sentasse diretamente a seu l a d o . Esticou as per­
nas nuas, por bronzear, os pés j untos, em cima do descanso
das pernas, e, quase em simultâneo, tirou um caderninho do
J . D . SALINGER

bolso direito de trás dos calções . D epois, com instantânea


concentração total, como se apenas existisse ele e o caderni­
nho - nem sol, nem outros passageiros, nem barco - come­
çou a passar as páginas.
Com exceção de algumas pouquíssimas notas a lápis, to­
dos os apontamentos do caderno tinham sido escritos a esfe­
rográfica. A letra era do género caligráfico, como a que nor­
malmente é e n s i n a d a n a s escolas ameri c a n a s , e n ã o a d o
antigo método Palmer. Era legível sem ser bonitinha. O que
nela havia de assinalável era o ritmo. Não havia nada - nada
no sentido mecânico, pelo menos - que fizesse com que as
palavras e as frases parecessem escritas por uma criança.
Teddy passou um tempo considerável a ler o que pareciam
ser as suas notas mais recentes. Cobriam um pouco mais de
três páginas:

Diário de 2 7 de outubro de 1 952


Propriedade de Theodore McArdle.
Convés 4 1 2 A

R e c o m p e n s a a d e q u a d a e a g r a d á vel a q u e m o e n c o n t r a r
e prontamente devolver a Theodore McArdle.

Ver se é possível encontrar as placas militares de identifica ­


ç ã o d o papá e u s á - l a s s e mpre q u e p o s s íve l . Não é nad a que
mate alguém e ele vai ficar contente.

Responder à carta do professor Mandell quando tiver opor­


tunidade e paciência para isso. Pedir-lhe para não me mandar
mais livros de poesia . Já tenho que chegue para 1 ano. Já estou
bastante farto disso de qualquer maneira . Um homem caminha
na praia e infelizmente apanha com um coco na cabeça. A cabe­
ça infelizmente abre-se em duas . Depois a mulher dele vem pela
praia fora a cantar uma cantiga, vê as 2 metades, reconhece-as
e apanha-as. Fica muito triste como é natural e desata num choro
NOVE HISTÓRIAS 193

d e partir o coraç ã o . É exatamente essa a razão por que estou


farto de poesia. Suponha-se que a mulher se limita a pegar nas
2 metades e a gritar-lhes zangada « Para com isso ! » . Mas não
falar nisto quando responder à carta dele. É bastante controver­
so e além disso a Sra. Mandell é poeta .

Arranj ar o endereço de Sven em Elisabeth, Nova Jérsia. Se­


ria interessante conhecer a mulher dele, e também o cão Lindy.
No entanto, não gostaria de ter um cão meu .

Escrever uma carta ao Dr. Wokawara a desej ar-lhe melho­


ras da nefrite. Pedir à mãe o novo endereço dele.

Experimentar o convés desportivo para meditar amanhã de


manhã antes do pequeno-almoço mas sem perder a consciência .
Não perder a consciência também na sala de j antar se o empre­
gado voltar a deixar cair aquela colher enorme. O papá ficou
bastante zangado.

Palavras e expressões para ver na biblioteca amanhã quando


for entregar os livros:
nefrite
miríade
cavalo dado
astuto
triunvirato

Ser mais simpático com o bibliotecário. Discutir algumas ge­


neralidades com ele quando ele começar a ficar dengoso.

De repente, Teddy tirou uma esferográfica pequena, em


forma de bala, do bolso dos calções, tirou-lhe a tampa e co­
meçou a escrever. Usava a coxa direita como apoio, em vez de
usar o braço da cadeira.
1 94 J . D . SALINGER

Diário de 2 8 de outubro de 1 952


Mesmo endereço e recompensa do escrito em 26 e 2 7 de ou­
tubro de 1 952.

Escrevi cartas às seguintes pessoas depois da meditação des-


ta manhã.
Dr. Wokawara
Professor Mandell
Professor Pete
Burgess Hake, Jr.
Roberta Hake
Sanford Hake
Avó Hake
Sr. Graham
Professor W alton

Podia ter perguntado à mãe onde estão as placas de identifi­


cação do papá mas provavelmente ela ia dizer que não tenho de
as usar. Sei que ele as trouxe porque o vi metê-las na mala.

A vida é um cavalo dado na minha opinião.

Acho que é de muito mau gosto o professor Walton criticar


os meus pais. Ele quer que as pessoas sej am de uma determina­
da maneira.

Vai acontecer ou hoje ou a 1 4 de fevereiro de 1 95 8 quando


eu tiver dezasseis anos. Até é ridículo falar nisso.

Depois de escrever esta última nota, Teddy continuou com


a atenção focada na página e com a esferográfica em posição,
como se fosse ainda continuar.
Aparentemente não se apercebera de que tinha um obser­
vador solitário atento. A uns cinco metros à frente da primei­
ra fila de cadeiras, e a uns seis ou sete ofuscantes metros aci­
ma dele, um homem ainda novo observava-o tranquilamente
NOVE HISTÓRIAS 195

apoiado à balaustrada do Convés Desportivo. Estava nisto há


uns dez minutos. Era evidente que o homem chegara agora
a um qualquer tipo de decisão, porque abruptamente retirou
o pé da balaustrada. Manteve-se uns momentos em pé, ainda
a olhar na direção de Teddy, depois afastou-se, desaparecen­
do de vista . Antes que tivesse passado um minuto, porém,
voltou a surgir, conspicuamente vertical, no meio das filas de
cadeiras de convés. Teria uns trinta anos, ou menos. Avançou
pelo corredor de cadeiras direito ao lugar de Teddy, lançando
breves sombras irritantes sobre as páginas dos romances que
as pessoas sentadas estavam a ler e pisando de forma bastante
desinibida (considerando que era a única figura em pé e em
movimento que havia à vista) sacos de tricô e outros pertences
pessoais.
Teddy parecia alheado do facto de haver uma pessoa em
pé j unto à sua cadeira - ou, sequer, da sombra em cima do
caderno. Algumas pessoas, uma fila ou duas atrás dele, po­
rém, mostravam-se menos distraídas. Levantaram os olhos
para o homem, de um modo como, talvez, só pessoas senta­
das numa cadeira de convés podem levantar os olhos para al­
guém. O homem, no entanto, tinha o tipo de pose que dava
a impressão de poder manter-se assim indefinidamente, com
a insignificante ressalva de poder ter pelo menos uma mão no
bolso. - Olá ! - disse ele a Teddy.
Teddy levantou os olhos. - Olá - disse ele. Fechou o ca­
derno em parte, fechando-se a outra parte por si mesma.
- Importa-se que me sente por um minuto ? - perguntou
o homem, com o que parecia ser uma cordialidade sem limi­
tes. - Esta cadeira é de alguém ?
- Bem, estas quatro cadeiras são da minha família - dis­
se Teddy. - Mas os meus pais ainda não se levantaram.
- Ainda não ? Com um dia destes? - disse o homem. Ti­
nha-se já instalado na cadeira à direita de Teddy. As cadeiras
J . D . SALINGER

estavam tão próximas que os braços se tocavam. - É um sa­


crilégio - disse ele. - Um perfeito sacrilégio . - Esticou as
pernas, que eram anormalmente grossas nas ancas, parecendo
quase dois corpos humanos só por si. As roupas correspon­
diam, no fundamental, ao traje regimental das pessoas da cos­
ta leste: cabelo à escovinha em cima, uns mocassins gastos em
baixo, com um uniforme algo baralhado no meio - meias de
lã acastanhadas, calças cinzento antracite, camisa de colari­
nho com botões, sem gravata, e um casaco em espinha de pei­
xe que dava a impressão de ter envelhecido adequadamente
em algum dos mais populares seminários de pós-graduação
em Yale, Harvard ou Princeton. - Caramba, que dia divino
- disse ele apreciativo, piscando os olhos para o sol. - Sou
um perfeito dependente, no que toca ao tempo. - Cruzou
nos tornozelos as pernas pesadas. - De facto, era conhecido
por considerar como um insulto pessoal um dia de chuva nor­
malíssimo . Por isso, isto para mim é um perfeito maná . -
Embora o seu tom de voz fosse, no sentido geral da palavra,
educado, era consideravelmente mais alto do que o necessá­
rio, como se ele tivesse um qualquer entendimento consigo
próprio de que tudo o que dissesse deveria soar muitíssimo
bem - inteligente, culto, e até divertido ou estimulante -
tanto do ponto de vista de Teddy como do das pessoas da fila
de trás, caso estivessem a ouvir. Baixou os olhos obliquamen­
te para Teddy e sorriu. - E você e o tempo como é ? - per­
guntou . O sorriso não era impessoal, mas antes social, ou
mundano, e remetendo, ainda que de modo indireto, para
o seu próprio ego . - O tempo alguma vez o aborrece para
além de toda a proporção razoável ? - perguntou, sorrindo.
- Não o tomo de modo demasiado pessoal, se é isso que
quer dizer - disse Teddy.
O homem riu-se, inclinando a cabeça para trás. - Que
maravilha - disse ele. - A propósito, o meu nome, já agora,
NOVE HISTÓRIAS 197

é Bob Nicholson. Não sei se chegámos a apresentar-nos no gi­


násio. Eu sei o seu nome, naturalmente.
Teddy soergueu-se apoiando-se numa coxa e enfiou o ca­
derno no bolso dos calções.
- Estive a vê-lo escrever . . . dali de cima - disse Nichol­
son, descritivo, apontando. - Caramba. Você estava a traba­
lhar como um pequeno mouro.
Teddy olhou para ele. - Estava a escrever uma coisa no
meu caderno.
Nicholson abanou a cabeça, assentindo com um sorriso.
- Que tal a Europa ? - perguntou em tom de conversa.
- Gostou ?
- Gostei, muito, obrigado.
- Em que sítios é que esteve ?
Teddy subitamente esticou-se para diante e coçou a barriga
da perna. - Bem, levava muito tempo a dizer todos os sítios,
porque levámos o nosso carro e fizemos distâncias bastante
grandes. - Recostou-se. - Mas a minha mãe e eu estivemos
mais tempo em Edimburgo, na Escócia, e em Oxford, em In­
glaterra. Acho que lhe disse no ginásio que eu tinha entrevis­
tas marcadas nessas cidades. Sobretudo na Universidade de
Edimburgo.
- Não, acho que não disse - disse Nicholson. - Estava
ali a pensar se você teria feito alguma coisa do género. Como
é que correu ? Apertaram consigo ?
- Como diz? - disse Teddy.
- Como correu ? Foi interessante ?
- Umas vezes sim. Outras vezes não - disse Teddy. -
Demorámo-nos um pouco de mais. O meu pai queria voltar
para Nova Iorque um pouco antes deste barc o . Mas havia
u m a s p e s s o a s que vinham de Estocolmo, na S u é c i a , e de
Innsbruck, na Á ustria , para me verem e tivemos de ficar lá
à espera.
J . D . SALINGER

- É sempre a mesma coisa.


Teddy olhou pela primeira vez diretamente para ele.
- O senhor é poeta ? - perguntou.
- Poeta ? - disse Nicholson. - Santo Deus, não. Infeliz-
mente, não. Porque pergunta ?
- Não sei. Os poetas estão sempre a fazer do tempo uma
questão muito pessoal. Estão sempre a associar as emoções
deles a coisas que não têm emoções.
Nicholson, sorrindo, enfiou a mão no bolso do casaco e ti­
rou cigarros e fó sforo s . - Eu pens ava que isso era antes
o fundo de comércio deles - disse ele. - Não é nas emoções
que os poetas estão interessados antes de mais nada ?
Teddy aparentemente não o ouviu, ou não estava atento.
Olhava ausente em direção, ou para além, das duas chaminés
gémeas mais acima, no Convés Desportivo.
Nicholson conseguiu acender o cigarro, com alguma difi­
culdade, por causa da leve brisa que soprava de norte. Recos­
tou-se e disse: - Parece que deixou aquela malta bastante ba­
ralhada . . .
- « Nada n a voz d a cigarra anuncia que e m breve morre­
rá » - disse Teddy subitamente. - «Não passa ninguém por
esta estrada, neste entardecer de outono. »
- Que é isso ? - perguntou Nicholson, sorrindo. - Podia
repetir ?
- São dois poemas j aponeses . Não há aqui nada dessas
tretas emocionais - disse Teddy. Endireitou o corpo de re­
pente, inclinou a cabeça de lado e deu uma palmadinha na
orelha. - Ainda tenho água nos ouvidos da minha lição de
natação de ontem - disse ele. Deu mais um par de palmadas
na orelha, depois recostou-se, pousando as mãos nos braços
da cadeira. Era, claro, uma cadeira normal, de adulto, e ele
NOVE HISTÓRIAS 199

parecia sem dúvida pequeno nela, mas a o mesmo tempo tinha


um ar perfeitamente distendido, mesmo sereno.
- Parece que em Boston deixou aquela malta de pedantes
bastante baralhada - disse Nicholson, observando-o. - De­
pois daquela pequena sabatina. Toda a comissão Leidekker a
bem dizer, ao que me contaram. Acho que já lhe disse que ti­
ve uma longa conversa com Al Babcock em j unho passado.
Na mesma noite, realmente, em que ouvi a sua gravação.
- Sim, sim. Disse-me isso.
- Parece-me que aquela malta ficou bastante baralhada
- insistiu Nicholson. - Pelo que me disse o Al, vocês tive-
ram uma tertuliazinha fatal a altas horas de uma noite qual­
quer. .. a mesma noite em que você fez aquela gravação, acho
e u . - Tirou uma fumaça do cigarro. - Pelo que percebi,
você fez umas quantas predições que baralharam os rapazes
como tudo. Foi assim ?
- Gostava de saber por que é que as pessoas acham tão
importante ser-se emotivo - disse Teddy. - A minha mãe
e o meu pai não consideram humana uma pessoa se não achar
que uma data de coisas são tristes ou muito aborrecidas ou
muito . . . muito injustas, ou assim. O meu pai fica todo emo­
cionado mesmo quando está a ler o j ornal. Ele acha que eu
não sou humano.
Nicholson sacudiu a cinza do cigarro para o lado. - Quer
dizer que não sente emoções ? - disse ele.
Teddy refletiu antes de responder. - Se sinto, não me
lembro de alguma vez as ter usado - disse ele. - Não vej o
para que é que servem.
- Ama Deus, não ama ? - perguntou Nicholson, com
um pouco de calma a mais . - Não é esse o seu forte, por
assim dizer ? Daquilo que ouvi na gravação e daquilo que o Al
Babcock. . .
200 J . D . SALINGER

- Sim, claro que O amo. Mas não O amo sentimental­


mente. Ele nunca disse que alguém tinha que O amar sentimen­
talmente - disse Teddy. - Se eu fosse Deus, tenho a certeza
de que não gostaria que as pessoas me amassem sentimental­
mente. É demasiado inconstante.
- Ama os seus pais, não ama ?
- Sim, amo . . . muito - disse Teddy -, mas o senhor quer
que eu use a palavra com o sentido que quer que ela tenha . . .
estou mesmo a ver.
- Muito bem. Em que sentido quer usá-la você ?
Teddy refletiu uns instantes. - Sabe o que a palavra «afini­
dade » significa ? - perguntou, voltando-se para Nicholson.
- Faço uma ideia - disse Nicholson secamente.
- Tenho uma forte afinidade com eles. São meus pais, en-
fim, e todos fazemos parte da harmonia uns dos outros e
assim - disse Teddy. - Queria que tivessem uma vida boa
enquanto forem vivos, porque gostam da boa vida . . . Mas eles
não me amam a mim e à Booper, a minha irmã, da mesma
maneira. Quer dizer, não parecem ser capazes de nos amar tal
como nós somos. Não parecem ser capazes de nos amar se
não puderem mudar-nos um bocadinho. Amam as razões de­
les para nos amar quase tanto como nos amam a nós, e quase
sempre mais. Não é assim tão bom, dessa maneira. - Voltou­
-se de novo para Nicholson, endireitando-se ligeiramente na
cadeira. - Tem horas que me diga, por favor ? - perguntou.
- Tenho uma lição de natação às dez e meia.
- Tem tempo - disse Nicholson ainda antes de olhar para
o relógio. Puxou para trás o punho da camisa. - São agora dez
e dez - disse ele.
- Obrigado - disse Teddy, e recostou-se. - Ainda pode­
mos estar à conversa mais uns dez minutos.
Nicholson passou uma perna para o lado da cadeira, incli­
nou-se para diante, e esmagou a beata do cigarro com o pé.
NOVE HISTÓRIAS 20 1

- Se bem entendo - disse ele, recostando-se -, você é um


firme defensor da teoria vedanta da reencarnação.
- Não é uma teoria, faz parte de . . .
- Muito bem - disse Nicholson apressadamente. Sorriu,
e levantou ao de leve as palmas das mãos, numa espécie de
bênção irónica . - Não vamos discutir esse ponto, para j á .
Deixe-me acabar. - Cruzou outra vez as pernas grossas, es­
tendidas . - Pelo que soube, você recolheu certas informa­
ções, pela meditação, que lhe deixaram a convicção de que na
sua última encarnação era um homem santo na Índia, mas
que de certo modo perdeu a Graça . . .
- Não era um homem santo - disse Teddy. - Era ape­
nas uma pessoa que estava a fazer um bom avanço espiritual.
- Muito bem . . . fosse o que fosse - disse Nicholson. -
Mas a questão é que sente que na sua última encarnação de
certo modo perdeu a Graça antes de atingir a Iluminação.
É verdade, ou estou a . . .
- É verdade - disse Teddy. - Conheci uma senhora e,
digamos, deixei de fazer meditação. - Tirou as mãos dos
braços da cadeira e enfiou-as, como que para as manter quen­
tes, debaixo das coxas. - De qualquer maneira tinha sempre
de tomar outro corpo e voltar de novo à Terra . . . Quer dizer,
não estava tão avançado espiritualmente que, se não tivesse
conhecido a tal senhora, pudesse morrer e ir direito para Bra -
ma sem nunca mais ter de voltar à terra. Mas não teria de ter
reencarnado num corpo americano se não tivesse conhecido
a tal senhora. Quer dizer, é difícil meditar e ter uma vida espi­
ritual na América. As pessoas acham que somos esquisitos se
o tentamos fazer. O meu pai acha que sou esquisito, de certo
modo. E a minha mãe . . . bem, não acha que sej a bom para
mim estar sempre a pensar em Deus. Acha que não é bom para
a saúde.
202 J . D . SALINGER

Nicholson olhava para ele, estudando-o. - Parece-me que


naquela última gravação disse que teve a sua primeira expe­
riência mística aos seis anos. É verdade ?
- Tinha seis anos quando vi que tudo era Deus, e o meu
cabelo ficou em pé e isso tudo - disse Teddy. - Foi num do­
mingo, ainda me lembro. A minha irmã era ainda muito pe­
quena nessa altura, e estava a beber o leite e de repente vi que
ela era Deus e que o leite era Deus. Quer dizer, o que ela esta­
va a fazer era a pôr Deus em Deus, se está a ver o que eu que­
ro dizer.
Nicholson não disse nada.
- Mas podia sair das dimensões finitas bastantes vezes
quando tinha quatro anos - disse Teddy, como quem pensa
melhor. - Não continuamente ou assim, mas bastantes vezes.
Nicholson assentiu com a cabeça. - A sério ? - disse ele.
- Conseguia ?
- Sim - disse Teddy. - Dizia isso na gravação . . . Ou tal-
vez fosse numa que fiz em abril. Não tenho a certeza.
Nicholson tirou mais um cigarro, m a s sem desviar o s
olhos d e Teddy. - Como é que s e sai das dimensões finitas ?
- perguntou, e soltou uma risadinha. - Quer dizer, para co­
meçar muito basicamente, um bloco de madeira é um bloco
de madeira, por exemplo. Tem comprimento, largura . . .
- Não tem. A í é que se engana - disse Teddy. - Toda
a gente pensa que as coisas acabam num ponto qualquer. Mas
não. É isso que eu estava a tentar dizer ao professor Pete. - Me­
xeu-se no assento e tirou do bolso uma lástima de lenço, uma
coisa cinzenta, amarfanhada, e assoou-se. - As coisas só pa­
recem acabar num ponto qualquer porque a maior parte das
pessoas só sabe olhar para as coisas dessa maneira - disse
ele. - Mas isso não quer dizer que acabem. - Guardou
o lenço, e olhou para Nicholson. - Importa-se de levantar
o braço um segundo, faz favor ? - perguntou.
NOVE HISTÓRIAS 203

- O meu braço ? Porquê ?


- Levante-o. Só um segundo.
Nicholson levantou o braço uns centímetros acima do bra­
ço da cadeira. - Este ? - perguntou.
Teddy fez que sim com a cabeça. - Que nome dá a isso ?
- perguntou.
- Como assim ? É o meu braço. É um braço.
- Como sabe que é ? - perguntou Teddy. - Sabe que lhe
chamam um braço, mas como sabe que o é? Tem alguma pro­
va de que é um braço ?
Nicholson tirou um cigarro do maço e acendeu-o. - Fran­
camente, isso tresanda a sofisma do pior - disse ele, soprando
o fumo. - É um braço, valha-me Deus, porque é um braço.
Para já, tem de ter um nome para se distinguir de outros obje­
tos. Quer dizer, não se pode simplesmente . . .
- Está apenas a ser lógico - disse Teddy, impassível.
- Estou a ser apenas o quê ? - perguntou Nicholson, com
uma polidez um pouco exagerada.
- Lógico. Está a dar-me uma resposta normal, inteligente
- disse Teddy. - Estou a tentar aj udá-lo. Perguntou-me
como saio das dimensões finitas quando quero. Não é a lógi­
ca que eu uso, quando o faço. A lógica é a primeira coisa de
que temos de nos desembaraçar.
Nicholson retirou da língua um fio de tabaco, com os dedos.
- Conhece o Adão ? - perguntou Teddy.
- Se conheço quem ?
- Adão. O da Bíblia.
Nicholson sorriu. - Pessoalmente não - disse ele de for-
ma seca.
Teddy hesitou. - Não se zangue comigo - disse ele. -
Fez-me uma pergunta e eu estou a . . .
2 04 J . D . SALINGER

- Não estou zangado consigo, valha-me Deus.


- Está bem - disse Teddy. - Estava reclinado na cadei-
ra, mas com a cabeça voltada para Nicholson. - Lembra-se
daquela maçã que Adão comeu no Paraíso, como vem na Bí­
blia ? - perguntou. - Sabe o que havia naquela maçã ? Lógi­
ca. Lógica e tretas intelectuais. Era só isso o que havia na ma­
çã. Por isso, isto é o que eu acho, o que tem de fazer é vomitá­
-la se quiser ver as coisas como elas são realmente . Quer
dizer, se vomitar a maçã, então j á não tem mais problemas
com blocos de madeira e assim. E fica a saber o que o seu bra­
ço é realmente, se estiver interessado. Está a ver o que eu que­
ro dizer ? Está a seguir o que eu digo ?
- Estou a seguir, sim - disse Nicholson, um pouco seco.
- O problema - disse Teddy - é que a maior parte das
pessoas não quer ver as coisas como elas são. Nem sequer
querem deixar de estar sempre a nascer e a morrer. Querem
sempre novos corpos, em vez de pararem e de ficarem com
Deus, que é onde se está realmente bem. - Refletiu uns ins­
tantes. - Nunca vi um tal bando de comedores de maçãs -
disse ele. Abanou a cabeça.

Nesse momento, um empregado de convés todo vestido de


branco, que fazia a sua ronda naquela área, deteve-se em
frente de Teddy e de Nicholson e perguntou-lhes se desej avam
a canj a da manhã. Nicholson nem sequer respondeu à pergun­
ta. Teddy disse « Não, obrigado » e o empregado seguiu adian­
te.
- Se prefere não falar nisto, não é obrigado - disse Ni­
cholson abruptamente, e um pouco brusco. Sacudiu a cinza
do cigarro. - Mas é verdade ou não é que informou toda
NOVE HISTÓRIAS 20 5

a malta da comissão Leidekker - Walton, Peet, Larsen, Sa­


muels e essa malta toda - de quando, onde e como eles iriam
morrer ? É verdade ou não é ? Não tem de falar nisso se não
quiser, mas ao que dizem os boatos que correm em Boston . . .
- Não, não é verdade - disse Teddy com ênfase. - Fa­
lei-lhes em locais e em momentos em que deviam ter muito,
muito cuidado. E disse-lhes algumas coisas que seria boa ideia
eles fazerem . . . Mas não disse nada parecido com isso. Não fa­
lei em nada de inevitável, dessa maneira. - Voltou a tirar
o lenço e a usá-lo. Nicholson ficou à espera, observando-o. -
E não disse nada de parecido com isso ao professor Peet. Para
começar, ele não era nenhum desses que andam para aí a me­
ter-se comigo e a fazer-me uma data de perguntas. Quer dizer,
o que eu disse ao professor Peet foi que ele não devia conti­
nuar a ser professor para além de janeiro . . . Foi tudo o que lhe
disse. - Recostando-se, Teddy ficou calado por uns instantes.
- Todos aqueles professores praticamente forçaram-me a di­
zer-lhes aquelas coisas todas. Foi depois da entrevista e de
fazermos a gravação, e era bastante tarde, e eles continuavam
ali sentados a fumar cigarros e a começarem a ficar todos den­
gosos.
- Mas não disse ao Walton, ou ao Larsen, por exemplo,
quando ou onde ou como iriam morrer? - insistiu Nicholson.
- Não . Não disse - respondeu Teddy com firmeza. -
Nem sequer lhes teria dito nada daquelas coisas todas, mas
eles não paravam de falar nisso. A bem dizer, o professor
Walton é que começou. Disse que gostava de saber quando
iria morrer, porque então saberia que trabalhos devia fazer
e quais não devia, e como usar o tempo da melhor maneira,
e coisas do género. E então todos eles disseram que . . . E então
contei-lhes algumas coisas.
Nicholson não disse nada.
206 ] . D . SALINGER

- Não lhes disse quando é que iriam mesmo morrer. É um


boato completamente falso - disse Teddy. - Podia ter-lhes
dito, mas sabia que lá no fundo eles não queriam de facto sa­
ber. Quer dizer, eu sabia que mesmo que ensinem Religião
e Filosofia e tudo, continuam a estar cheio� de medo de mor­
rer. - Teddy ficou sentado, ou reclinado, em silêncio uns ins­
tantes. - É tão idiota - disse ele. - Tudo o que acontece
é vermo-nos livres do nosso corpo ao morrermos. É uma coisa
que todos fizeram milhares e milhares de vezes. Lá porque
não se lembram disso, não quer dizer que não o tenham feito.
É mesmo idiota.
- Talvez sej a . Talvez sej a - disse Nicholson. - Mas
continua em pé o facto lógico de que por mais inteligente . . .
- É tão idiota - repetiu Teddy. - Por exemplo, daqui
a cinco minutos tenho uma lição de natação. Podia descer as
escadas para ir à piscina e podia não haver água nenhuma .
Podia ser hoje o dia em que mudam a água ou assim. Mas po­
dia muito bem acontecer que eu fosse até à borda da piscina,
só para ver o fundo, por exemplo, e que a minha irmã viesse
e me desse um empurrão. Eu podia fraturar o crânio e morrer
instantaneamente. - Teddy olhou para Nicholson. - É uma
coisa que podia acontecer - disse ele. - A minha irmã tem
só seis anos, e há muitíssimas vidas que não tem sido um ser
humano, e não gosta muito de mim. Era uma coisa que podia
muito bem acontecer. Mas o que haveria nisso de tão trágico ?
Quer dizer, o que há nisso para se ter medo ? Estaria só a fa­
zer aquilo que me cabe fazer, mais nada, não é verdade ?
Nicholson fungou, inseguro. - Pode não ser uma tragédia
do seu ponto de vista, mas seria de certeza uma coisa triste
para a sua mãe e para o seu pai - disse ele. - Já pensou nisso ?
- Sim, claro que pensei - disse Teddy. - Mas é só porque
eles têm nomes e emoções para tudo o que acontece. - Estava
NOVE HISTÓRIAS 207

ainda com as mãos enfiadas debaixo das coxas. Então reti­


rou-as, pô-las em cima dos braços da cadeira e olhou para Ni­
cholson. - Conhece o Sven ? O homem que se ocupa do giná­
s i o ? B e m , se o S v e n s o n h a s s e e s t a n o i t e q u e o c ã o d e l e
morreu, passava u m a noite muito, muito m á , porque gosta
imenso daquele cão. Mas quando acordasse de manhã, passa­
va tudo. Sabia que tinha sido só um sonho.
Nicholson, fez um aceno de assentimento. - Onde quer
chegar, ao certo ?
- Onde quero chegar é que se o cão dele morresse tinha
sido exatamente a mesma coisa. Só que ele não o teria sabido.
Quer dizer, não teria acordado até ele próprio ter morrido.
Nicholson, com um ar desprendido, ocupava-se a massajar
devagar de forma sensual, a nuca com a mão direita. A esquer­
da, imóvel no braço da cadeira, com um cigarro por acender
nos dedos, parecia estranhamente branca e inorgânica sob
o brilho do sol.
Teddy subitamente levantou-se. - Agora tenho mesmo de
ir, desculpe - disse ele. Sentou-se, hesitante, na perna estira­
da da cadeira, voltado para Nicholson, e meteu a T-shirt para
dentro dos calções. - Falta mais ou menos minuto e meio,
acho eu, para a lição de natação - disse ele. - E ainda tenho
de ir até ao Convés E.
- Posso-lhe perguntar porque é que disse ao professor
Peet que devia deixar de dar aulas depois do ano novo ? -
perguntou Nicholson, um pouco brusco . - Conheço o Bob
Peet. É por isso que pergunto.
Teddy apertou o cinto de crocodilo. - Só porque ele é
uma pessoa bastante espiritual, e neste momento anda a ensi­
nar uma data de coisas que não são muito boas para ele se
realmente quiser fazer alguns progressos espirituais. São coisas
que o estimulam demasiado . É tempo de ele tirar tudo para
fora da cabeça, em vez de meter mais coisas lá para dentro.
208 J . D . SALINGER

Era capaz de conseguir ver-se livre de uma boa porção de maçã


já nesta vida, se ele quisesse. É muito bom na meditação. -
Teddy levantou-se. - É melhor ir andando. Não quero che­
gar demasiado tarde.
Nicholson levantou os olhos para ele, e sustentou o olhar,
retendo-o . - O que é que faria se pudesse mudar o sistema
educativo ? - perguntou ambiguamente . - Já alguma vez
pensou nisso ?
- Tenho mesmo de ir - disse Teddy.
- Responda só a esta pergunta - disse Nicholson. -
A educação é a minha paixão, na verdade . . . É o que eu ensi­
no. É por isso que pergunto.
- Bem . . . Não sei muito bem o que fazia - disse Teddy.
- O que sei é que estou bastante convencido que não come-
çava com as coisas com que as escolas normalmente come­
çam. - Cruzou os braços e refletiu uns instantes. - Acho
que primeiro reunia as crianças todas e lhes mostrava como
meditar. Tentava mostrar-lhes como desco brir quem são,
e não apenas os nomes delas e coisas do género . . . Acho que,
mesmo antes disso, as levava a esvaziarem-se de tudo o que os
pais e toda a gente lhes disse. Quer dizer, mesmo que os pais
só lhes tenham dito que um elefante é grande, fazia com que
se esvaziassem disso. Um elefante só é grande se comparado
com outra coisa, um cão ou uma senhora, por exemplo. -
Teddy refletiu mais um momento. - Nem sequer lhes dizia
que o elefante tem uma tromba. Podia mostrar-lhes um ele­
fante se tivesse algum à mão, mas limitava-me a deixá-los
aproximar-se do elefante sem saberem mais sobre ele do que
aquilo que o elefante sabe so bre eles . A mesma coisa com
a erva e outras coisas. Nem sequer lhes dizia que a erva era
verde. As cores não passam de nomes. Quer dizer, se lhes di­
zemos que a erva é verde, isso faz com que estej am à espera
que a erva tenha um certo aspeto, o aspeto que está na cabeça
NOVE HISTÓRIAS 209

delas, em vez de outro aspeto qualquer que pode ser tão bom,
ou mesmo muito melhor do que esse . . . Não sei. Fazia-as só
vomitar o pedaço da maçã que os pais e os outros lhes tinham
dado a trincar.
- Não havia o risco de se estar a educar uma pequena ge­
ração de ignorantes ?
- Porquê ? Não seriam mais ignorantes d o que o é um ele­
fante. Ou um pássaro. Ou uma árvore - disse Teddy. - Só
porque uma coisa é de certa maneira, em vez de se comportar
de certa maneira, não quer dizer que seja ignorante.
- Não ?
- N ã o ! - d i s s e Teddy . - Além d i s s o , s e q u i s e s s em
aprender as outras tretas todas, nomes e cores e essas coisas,
podiam fazê-lo, se lhes apetecesse, mais tarde quando fossem
mais velhos. Mas eu gostaria que começassem por todas as
verdadeiras maneiras de olhar para as coisas, e não só da ma­
neira como todos os outros comedores de maçãs olham para
as coisas, é isso que eu quero dizer. - Aproximou-se de Ni­
cholson, e estendeu-lhe a mão. - Tenho de ir, agora. A sério.
Gostei muito . . .
- S ó u m segundo . . . sente-se u m minuto - disse Nichol­
son. - Alguma vez pensou se iria gostar de fazer alguma coi­
sa na investigação quando for crescido ? Investigação médica,
ou coisa do género ? Na minha opinião, com a sua capacidade
mental, podia vir a . . .
Teddy respondeu, mas sem s e sentar: - Pensei nisso uma
vez, há uns dois anos - disse ele. - Falei com um bom nú­
mero de médicos. - Abanou a cabeça. - Era capaz de não
me interessar muito. Os médicos ficam demasiado à superfí­
cie. Estão sempre a falar de células e coisas dessas.
- Ah ? Não dá importância à estrutura celular ?
- Dou, claro que dou. Mas os médicos falam sobre célu-
las como se elas só por si tivessem uma importância ilimitada.
210 J . D . SALINGER

Como se elas na realidade não pertencessem às pessoas que as


têm. - Teddy penteou para trás com uma mão os cabelos
que lhe caíam para a testa . - Eu desenvolvi o meu próprio
corpo - disse ele. - Ninguém o fez por mim. Por isso se
o desenvolvi, devia saber como o desenvolver. Inconsciente­
mente, pelo menos. Posso ter perdido o conhecimento cons­
ciente de como o desenvolver algures nas últimas centenas de
milhares de anos, mas o conhecimento ainda aí está, porque,
obviamente, eu usei-o . . . Seria preciso uma boa dose de medi­
tação e de esvaziamento para recuperar tudo isso, quer dizer,
esse conhecimento, mas podíamos fazê-lo se quiséssemos. Se
nos abríssemos suficientemente. - De repente estendeu a mão
e agarrou a mão de Nicholson do braço da cadeira. Abanou­
-a uma vez, cordialmente, e disse : - Adeus. Tenho de ir. -
E desta vez Nicholson não o pôde reter, tal a pressa com que
ele abriu caminho pelo corredor entre as cadeiras.
Nicholson ficou sentado sem se mexer durante uns minu­
tos depois de ele se ter ido embora, as mãos nos braços da ca­
deira, o cigarro por acender entre os dedos da mão esquerda.
Por fim, levantou a mão direita e fez um gesto como que para
ver se ainda tinha o colarinho aberto. Depois acendeu o cigar­
ro e sentou-se imóvel de novo.
Fumou o cigarro até ao fim, depois abruptamente pôs um
pé ao lado da cadeira, pisou o cigarro, levantou-se, e lançou­
-se, bastante apressado, pelo corredor fora.
Usando a escada para a proa, desceu a toda a pressa para
o Convés de Passeio. Sem se deter, continuou para baixo, ain­
da bastante rapidamente, para o Convés Principal. Depois pa­
ra o Convés A. Depois para o Convés B. Depois para o Con­
vés C. Depois para o Convés D.
No Convés D terminava a escada de proa e Nicholson de­
teve-se uns instantes, aparentemente um pouco perdido. No
entanto, avistou alguém que lhe pareceu capaz de o orientar.
NOVE HISTÓRIAS 21 1

A meio do corredor, estava uma empregada sentada numa ca­


deira à entrada de uma cozinha, lendo uma revista e fumando
um cigarro. Nicholson aproximou-se, consultou-a apressada­
mente, agradeceu, e depois deu mais uns passos na direção da
vante e abriu uma pesada porta metálica onde se lia: PISCINA.
Dava para uma escada estreita, sem tapete.
Ia a um pouco mais do que a meio da escada quando ou­
viu um grito penetrante e prolongado - vindo claramente de
uma rapariguinha . Era um grito que ressoava muitíssimo,
como que repercutindo-se dentro de quatro paredes de azu­
lejos.
Índice

Um dia ideal para o peixe-banana 11


Pai torcido no Connecticut 27
Pouco antes da guerra com os esquimós . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 47
O homem que ri 65
Em baixo no bote . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 85
Para Esmé - com amor e sordidez 99
Linda boca e verdes meus olhos 12 7
A fase azul de De Daumier-Smith . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 143
Teddy 1 79
ô
Nove Histórias, de J.D. Salinger, livro
da série serpente emplumada, publicado
por Quetzal Editores, foi composto em
caracteres Sabon, originalmente criados
em 1 96 7 pelo alemão Jan Tschichold
( Leipzig, 1 902-Locarno, 1 974 ) , em
homenagem ao trabalho tipográfico de
Jakob Sabon ( 1 535- 1 5 8 0 ) , e inspirados
nos tipos desenhados por Claude
Garamond (Paris, 1 4 8 0- 1 56 1 ) , e foi
impresso por Bloco Gráfico, Lda .,
em papel Munken Pocket Cream/8 0 g,
em janeiro de 2 0 1 4, numa tiragem
de 1 500 exemplares.