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AULA 11 – CALIBRAÇÃO DE UM SENSOR DE NÍVEL INDUSTRIAL VIA REDE FOUNDATION FIELDBUS

1. Introdução

Foundation Fieldbus (FF) é uma arquitetura aberta para integrar informação, cujo objetivo
principal é interconectar equipamentos de controle e automação industrial, distribuindo as
funções de controle pela rede e fornecendo informação a todas as camadas do sistema. Tal
tecnologia substitui com vantagens a tradicional tecnologia 4−20 mA , possibilitando a
comunicação bidirecional entre os equipamentos de forma mais eficiente.

Muito mais que um protocolo de comunicação digital ou uma rede local para instrumentos de
campo a Foundation Fieldbus engloba diversas tecnologias, tais como processamento distribuído,
diagnóstico avançado e redundância. Através de uma rede FF é possível realizar, dentre outras
aplicações, a calibração de um equipamento industrial, conforme realizado na atividade prática 11,
onde um sensor de nível industrial foi calibrado.

Desta forma, o presente relatório tem como objetivo descrever o processo de calibração do
sensor de nível do Tanque de Aquecimento (TAQ) da planta STEC-NVT, de maneira que este
apresentasse uma faixa de medição adequada ao seu funcionamento.

2. Equipamentos e Softwares Utilizados

Para a realização da atividade prática de calibração de um sensor de nível industrial via rede
Foundation Fieldbus foram utilizados os seguintes equipamentos e softwares:

 Sistemas de Tanques para Estudo de Controle de Nível, Vazão e Temperatura (STEC-NVT):


Trata-se de um sistema integrado de tanques projetado e implementado para estudos de
sintonia de controladores através de um sistema distribuído de automação dotado de uma
rede de comunicação com tecnologia Foundation Fieldbus (FF). Contém instrumentos digitais
e inteligentes com capacidade de processamento local suficiente para executar funções
diversas como, por exemplo, algoritmo PID integrados e filtros digitais, de modo que o
controle seja distribuído por diversos equipamentos.

 Softwares Genesis302, Syscon e CONF700. Tratam-se respectivamente do software SCADA,


(Genesi302), software de configuração da rede (Syscon) e software configurador (CONF700)
do LC700, o controlador da fabricante SMAR utilizado na planta STEC-NVT. Juntos permitem
a configuração e supervisão da planta de forma prática e eficiente através da rede
Foundation Fieldbus.
3. Descrição da Atividade Prática

A atividade prática de calibração de um sensor de nível industrial via rede Foundation Fieldbus
consistiu em estabelecer, sob condições especificadas, uma relação entre os valores e incertezas de
medição fornecidas pelos equipamentos utilizados e as indicações correspondentes pelos
softwares e equipamentos mencionados.

Inicialmente, através do software Syscon foram colocadas todas as malhas do STEC em modo
manual, de forma que fosse possível acionar as bombas BA1 e BA2 para enchimento e
esvaziamento do tanque TAQ.

Com a configuração da planta em modo online foi realizada a parametrização do bloco


funcional AI, correspondente ao sensor de nível LIT-001 do respectivo tanque, sendo este sensor o
objeto de calibração.

Logo depois foram observadas as unidades de engenharia utilizada para medição, sendo os
ajustes definidos para os parâmetros CAL_POINT_LO e CAL_POINT_HI iguais a 0,0000 mm H 2 O
e 5079,8228 mm H 2 O respectivamente. Estes valores correspondem ao range do transdutor de
pressão em mm H 2 O a 4 ºC e não são passíveis de alterações.

Uma vez observadas tais unidades foi realizada a operação de supressão do zero do sensor
uma vez que o mesmo estava instalado abaixo do ponto mínimo do tanque. Assim, alteraram-se os
parâmetros X DSCALE e OUT SCALE conforme dados coletados abaixo:

{ X DSCALE −E U 0=325, 2 mm H 2 0
X DSCALE −E U 100 =748, 5 mm H 2 0

{ OUT SCALE −E U 0=65 mm


OUT SCALE −E U 100 =448 mm

Estes parâmetros fazem referência a dois ajustes em cascata, sendo o ajuste de OUT SCALE
corresponde ao range final de medição de nível em mm . Na ocasião o range de 458 mm foi
obtido subtraindo o valor de nível máximo do tanque (500 mm) pela supressão aproximada do
zero (42 mm) .

Uma vez realizados todos esses procedimentos foi manipulada a válvula TCV-001 para esvaziar
o tanque e obter os pontos de níveis intermediários do range de medição do TAQ, conforme dados
exibidos na Tabela 1.
Tabela 1: Pontos coletados no processo de calibração do sensor de nível LIT-001.

Medid Valor PADRÃO Medidor de Nível do TAQ


a (Visor de Nível do Tanque - mm) (LIT-001 - mm)
1 458 457
2 400 396
3 300 298,6
4 250 249,6
5 200 199,7
6 100 100,8
7 65 64,8

4. Resultados Obtidos

4.1 Ajuste da Reta de Calibração pelo Algoritmo dos Mínimos Quadrados

Com os dados obtidos na Tabela 1 foi possível realizar o ajuste da reta de calibração a partir do
algoritmo de Mínimos Quadrados.

O comportamento estático desse conjunto foi considerado linear de modo que a modelagem
desse comportamento fosse representada por:

y=a ∙ x+ b

Onde y é o resultado lido no medidor de nível do TAQ, x é o valor padrão lido no visor
de nível do tanque, a é o ganho dos instrumentos em questão (ou sensibilidade) e b é o
erro sistemático do processo de calibração.

Em forma matricial, temos que:

Y =θ^ ∙ X m

^ |a b| e
Onde θ= Xm= |X1| .

Utilizando os dados da Tabela 1 obtivemos os seguintes resultados para as matrizes Xm e


Y :

Xm=|4581 400 300 250 200 100 65


1 1 1 1 1 1 |
Y =|457 396 298,6 249,6 199,7 100,8 64,8|
Com o uso do software MATLAB, encontramos o seguinte valor para a matriz θ^ :

^ |0, 9927 0, 9095|


θ=

Dessa forma encontramos que o erro sistemático da medição de nível é igual a 0,9095 mm ,
enquanto que a sensibilidade do conjunto vale 0, 9927 mm/mm .

A reta de calibração estimada pelo método de Mínimos Quadrados tomando como padrão de
referência os valores de nível indicados pelo visor é exibida a seguir, na Figura 1.

Figura 1: Reta de calibração estimada pelo método dos mínimos quadrados para indicações de nível coletadas.

Conforme é possível observar os pontos coletados ficaram todos sobre a reta de calibração
estimada, de onde se pode concluir que a reta obtida pode ser utilizada para calibrar o medidor de
nível do TAQ.

Para o pequeno valor do erro sistemático encontrado podemos justificar erros de leitura, como
por exemplo, o erro de paralaxe que ocorre por observações erradas na escala de nível devido a
desvios óticos causado pelo ângulo de visão do observador.
4.2 Linearidade do Sistema de Medição

Seja a linearidade definida por:

Di f max
Linearidade ( % )=100 ∙
Fundo de Escala

Tabelando os valores da diferença existente entre um ponto da curva de calibração estática e a


melhor reta (no sentido de mínimos quadrados) ajustada obtemos os seguintes dados, conforme
Tabela 2.

Tabela 2: Diferença entre pontos da curva de calibração e a reta estimada pelo método dos mínimos quadrados.

Valor Estimado Pela Reta de Diferença absoluta entre ponto


Medid Medidor de Nível do TAQ Calibração (mm) da curva e a reta estimada
a (LIT-001 - mm) (z=0,9927 ∙ w 0,9095) (mm)
1 457 454,6 2,4
2 396 394,1 1,9
3 298,6 297,4 1,2
4 249,6 248,7 0,9
5 199,7 199,2 0,5
6 100,8 100,6 0,2
7 64,8 65,24 0,44

Assim, tendo para o para o sistema de medição de nível um valor Di f max =2,4 mm , temos
que:

2,4 mm
Linearidade ( % )=100 % ∙ =0, 524 %
458 mm

Uma vez que a linearidade de um sensor é um tipo de parâmetro que expressa o quanto a sua
curva característica se desvia da curva de calibração, podemos dizer que o valor encontrado é
satisfatório, no sentido que as duas curvas são equivalentes com um erro pequeno de linearidade.

4.3 Cálculo da incerteza padrão do medidor LIT-001 e da incerteza expandida para um


intervalo de confiança de 95,45%

Uma vez realizado o ajuste da reta de calibração no item 4.1 foi possível calcular a incerteza
padrão do medidor LIT-001, bem como a incerteza expandida do experimento para um intervalo de
confiança de 95,45 %, desconsiderando a incerteza dos parâmetros da reta estimada, bem como a
do padrão de medição.
A incerteza padrão do medidor LIT-001 pode ser calculada pela variância do erro pela seguinte
fórmula:


n
1
∙ ∑ [ Y i−( a X i +b ) ]
2
SY =
V Y i=1

Onde V Y =n−2 , representa o número de graus de liberdades da reta estimada, excluindo


os dois graus de liberdade correspondentes aos parâmetros estimados a e b .

Ou seja, V Y =5 , levando em consideração n=7 medições. O resultado encontrado para


o desvio foi:

S Y =0, 2852m m

Assim,

S Y 0,2852
uY = = =0, 2852 mm
√m √1

Onde m representa o número de experimentos para obtenção da reta de calibração.

A partir da tabela t de Student para um intervalo de confiança de 95,45 % encontramos um


fator de abrangência t 95, 45 %=2, 649 para V ef =5 .

Dessa forma foi possível calcular o vetor de incertezas expandidas, uma vez:

U Y =t 95, 45 % ∙uY =0,755 mm

Reconstruindo a Tabela 1, obtemos os seguintes dados, conforme na Tabela 3.

Tabela 3: Medições de Nível do TAQ pelo instrumento LIT-001 com as respectivas incertezas.

Medidor de Nível do TAQ


Medida
(LIT-001 - mm)

1 457 ± 0,7
2 396 ± 0,7
3 298,6 ±0,7
4 249,6 ±0,7
5 199,7 ±0,7
6 100,8 ±0,7
7 64,8±0,7
O resultado de medição para os pontos coletados estão exibidos nos gráficos a seguir.

Conforme é possível observar as primeiras medições ficaram fora do erro esperado, o que pode
se justificar principalmente por desvios de paralaxe no padrão nos níveis mais altos do tanque, já
que a leitura da régua se torna mais difícil.

5. Conclusões

A partir do experimento prático de calibração de um sensor de nível industrial via rede


Foundation Fieldbus foi possível entender e aplicar os conceitos de calibração industrial, bem como
alguns conceitos de rede de campo.

Neste experimento observamos um sensor de nível industrial e fizemos a calibração do mesmo


via rede, sem que fosse retirado o instrumento do local de medição.

Ao todo foram realizadas sete medições distintas de nível, observando o valor de referência
indicado no sensor e o valor lido em uma escala graduada no tanque.

Ao obter a reta de calibração pelo método dos Mínimos Quadrados encontramos valores de
a e b bem próximos dos ideais, o que evidencia a precisão do sensor de nível utilizado.
Neste item, identificamos a sensibilidade, o erro sistemático e a incerteza padrão do medidor
LIT-001 através de cálculos de variância.

Com a incerteza padrão obtida usamos um intervalo de confiança de 95,45 % para obtemos
um vetor de incertezas expandidas que nos permitiu identificar os intervalos de confiança do
sistema de medição. Em relação a esses intervalos de confiança percebemos que todos os valores
medidos ficaram dentro dos limites encontrados, o que equivale a um resultado altamente
satisfatório.

Um dado interessante encontrado foi a boa linearidade do sensor. Esse parâmetro evidencia no
experimento um bom desempenho estático dos equipamentos em questão. Deste modo,
concluímos que o sistema de medição em estudo possui alta confiabilidade para os processos de
nível.

6. Bibliografia.

 BRAGA, Carmela M. Polito; MICHEL, Hugo C. C. Caracterização Estática de Instrumentos:


Calibração. Notas de aula de Instrumentação Industrial (Departamento de Engenharia
Eletrônica – UFMG), 2015.

 BRAGA, Carmela M. Polito; MICHEL, Hugo C. C. Expressando a Incerteza Expandida (U Y )


para Indicações Não-corrigidas de um Instrumento Utilizando a Reta de Calibração. Notas
de aula de Instrumentação Industrial (Departamento de Engenharia Eletrônica – UFMG),
2015.

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