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REVIST� DE SAUDE MENTAL DO IRS - FHEMIG


abrecampos
Revista de Saúde Mental do Instituto Raul Soares - Ano 1 - N11 O - 2000

T@íbhoteta jf reullíana

Psicanálise e Instituição
A Segunda Clínica de Lacan

Alfredo Zenoni

Instituto Raul Soares - Rede FHEMIG


T@íbhoteta jf reullíana

Abrecampos, v.l - 2000


Belo Horizonte, 2000 - v. Ilust. 23cm.
Anual
l.Saúde Mental- Periódicos 2. Psicanálise- Perió­
dicos 3. Psiquiatria- Periódicos 4.Instituição- Periódi­
cos

I. Instituto Raul Soares 11. FHEMIG

CDU- 613 .. 86

Ficha Catalográfica: Inês Maria Rodrigues


FUNDAÇÃO HOSPITALAR DO ESTADO DE MINAS GERAIS

Governador do Estado: Itamar Franco

Secretário de Estado de Saúde: Adelmo Carneiro Leão

Superintendente Geral: Ivan Batista Coelho

Diretor Hospitalar: Helvécio Magalhães Junior

Diretor de Planejamento e Finanças: Augusto Monteiro Guimarães

Diretor Administrativo: Maria Helena Santos

Diretor de Ensino e Pesquisa: Egléia Maria da Cunha Melo

Coordenador de Saúde Mental: José Cesar de Morais

INSTITUTO RAUL SOARES

Diretor Geral: Wellerson Durães Alkimim

Chefe da Divisão Assistencial: Marco Antônio R. Andrade

Gerente Administrativo: Daniela Maria Dinardi A. Pinto

Coordenador do Núcleo de Ensino e Pesquisa: Silvane Carozzi


abrecampos
Revista de Saúde Mental do Instituto Raul Soares -
Rede FHEMIG
Ano I - N2 O - Junho /2000

Comissão Editorial

Elisa AI varenga
Flavio Durães
Helio Lauar de Barros
Juliana Meirelles Motta
Maria Alice Bemardes do Vale
Maria Aparecida de Moraes Silva
Regina Capanema de Almeida
Silvane Carozzi
Wellerson Durães Alkimim

Tradução:Elisa Alvarenga
Revisão de Linguagem: Elisa Alvarenga, Maria Aparecida de
Morais Souza, Silvane Carozzi
Diagramação: Silvane Carozzi
Capa: Helio Lauar de Barros - Figura central baseado no
Relevo Espacial de Hélio Oticica

Organização: Núcleo de Ensino e Pesquisa - NEP/IRS


Av. do Contorno, 3017 - Santa Efigência - Belo Horizonte ­
Minas Gerais - CEP 30 11 O - 080
-

Apoio:

Diretoria de Ensino e Pesquisa- DIREP/FHEMIG


UNICENTRO NEWTON PAIVA
Editorial

É com grande alegria que o Instituto Raul Soares entrega ao públi­


co leitor a primeira edição da revista "abrecampos". Da concepção
até a entrega da revista vivemos uma grande aventura, muitos foram os
obstáculos, as dificuldades, que enfrentamos, mas aqui estamos. As con­
ferências que apresentamos nesta primeira edição foram proferidas no
final del998. Porém, a atualidade do tema justifica a sua publicação.
Além disso, são inéditas e tem sido grande a demanda de sua publica­
ção, desde a sua apresentação há quase dois anos.
Queremos agradecer ao psicanalista Alfredo Zenoni por ter, gen­
tilmente, cedido os originais de suas conferências para publicação, aqui
no Brasil, pelo Instituto Raul Soares.
A revista "abrecampos" quer ser, como o nome indica, um
'locus' onde se possam tornar v isíveis novas perspectivas
epistemológicas, clínicas e dispositivos terapêuticos no campo da Saú­
de Mental. Não se trata, pois, de uma publicação com a pretensão de dar
a última palavra, sobre que assunto for, no campo da Saúde Mental, mas
de um esforço para dar visibilidade às várias perspectivas que surgem e
promover o seu debate.
Acreditamos que a revista "abrecampos" contribuirá, de ma­
neira substancial, para enriquecer o debate em tomo das questões mais
importantes concernentes à área de atuação do Instituto Raul Soares e
das instituições correlatas.
Nosso projeto ganhou enorme força com a realização da parceria
com o Unicentro Newton Paiva, o que tomou possível, em termos
operacionais e financeiros, a realização desta edição. A ele, nossos agra­
decimentos.
A todos que, de uma forma ou de outra, contribuíram para a reali­
zação desta edição agradecemos e convidamos ao trabalho. A próxima
edição já está sendo preparada.

Silvane Catarina de OliveiraCarozzi


Coordenadora do Núcleo de ensino e Pesquisa/ IRS
A realização desta edição é um dos resultados da
parceria entre o Instituto Raul Soares!Fhemig -
Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais
e o Unicentro Newton Paiv a.
Sumário

Apresentação ......... . . . . . . . . . .......................................... 9

Qual instituição para o sujeito psicótico ? ............. 12

A clínica da psicose: o trabalho feito por muitos .32 .

A psicose fora do desencadeamento . . . ......... . . . ........ 51

Discussão de Caso Clínico . . ....... . . . . . . . ..................... 70


Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

Apresentação

Trazer Alfredo Zenoni a Belo Horizonte era um desejo de mui­


tos, leitores que éramos de seus textos sobre a Psicanálise na Ins­
tituição. Mas isso só foi possível graças à decisão de poucos, e em
especial, de Cezar Rodrigues Campos, que sabia da importância
do seu trabalho para a leitura de nossa experiência. Hoje, quase
um ano depois, a publicação de suas conferências não perde sua
atualidade, e é uma homenagem também a Cezar, que não etá
mais entre nós. Essa publicação é uma ocasião de torná-lo pre­
sente, no debate com Zenoni, assim como no relato e discussão de
um caso clínico.
Três conferências- "Qual instituição para o sujeito psicótico",
"A psicose fora do desencadeamento" e "O trabalho feito por
muitos" - e um caso clínico comentado por Zenoni encontram
aqui o seu registro, testemunhando do interesse, renovado, da Psi­
canálise pela clínica da psicose e, em particular, pela clínica na
Instituição.
Italiano radicado na Bélgica, Alfredo Zenoni é analista mem­
bro da École de la Cause freudienne, de Paris, e terapeuta res­
ponsável por uma estrutura residencial que abriga pacientes
psicóticos, após a alta hospitalar. É desse lugar, então, de psica­
nalista, e ao mesmo tempo, de trabalhador da Saúde Mental, que
ele nos surpreende com uma nova forma de pensar as relações da
Psicanálise com a Instituição de Saúde Mental.
Na sua primeira conferência, introduzindo a questão da Psica­
nálise na Instituição, Zenoni nos diz que a questão não é saber se
a Psicanálise pode ser praticada na Instituição, mas como o dis­
curso analítico pode ser útil à clínica, orientar o tratamento. O
analista, na Instituição, não deve se excluir nem reivindicar um
estatuto especial, pois seu desejo não está limitado à cura analíti­
ca. O desejo do analista é também um dever em relação à própria
Psicanálise. Assim, a questão da Psicanálise na Instituição é me-

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Alfredo Zenoni

nos a da prática do analista que a da transmissão da Psicanálise.


Para Zenoni, a Instituição tem, basicamente, duas funções: a
função social de acolher; abrigar o sujeito psicótico, e a função
clínica, terapêutica, de tratá-lo. O paciente em crise deve ser aco­
lhido, mesmo que não se implique de imediato no tratamento, e
este acolhimento pode vir a provocar uma demanda. Do lado da
equipe de técnicos de Saúde Mental, Zenoni não coloca, tampouco,
um imperativo de filiação à Psicanálise: os técnicos são, antes de
mais nada, alunos da clínica, e sua aproximação do discurso ana­
lítico se dá pela via da transferência de trabalho na Instituição.
Zenoni nos fala um pouco das estruturas residenciais na Bélgi­
ca, e de um funcionamento que poderia nos inspirar para a cria­
ção de nossas tão esperadas moradias ou pensões protegidas.
Após intr�duzir a questão de "qual instituição para o sujeito
psicótico ", entramos n o tema da "psicose fora d o
desencadeamento".
Se nos primeiros tempos do ensino de Lacan, costumávamos
aplicar a teoria psicanalítica à clínica das psicoses, com o segun­
do tempo do ensino de Lacan, trata-se de aplicar o que a psicose
nos ensina à clínica psicanalítica. Zenoni nos expõe, com simpli­
cidade e clareza, o que tem-se chamado de segunda clínica de
Lacan, ou clínica do sintoma. Se na primeira clínica, correspon­
dente aos anos 50, Lacan dava ênfase à presença ou ausência do
Nome-do-pai, determinando as estruturas clínicas, na segunda
clínica o Nome-do-pai passa a ser apenas um sintoma entre ou­
tras possíveis formas de arranjo do sujeito com uma falta funda­
mental que existe para todo ser falante.
A segunda clínica, dita continuísta, não invalida o diagnóstico
estrutural, mas acentua o que há de comum entre as estruturas e
de próximo entre os fenômenos, que deixam de ser exclusivos ou
patognomônicos de uma estrutura. As estruturas permanecem, mas
os fenômenos são destipificados. Não basta fazer uma lista de sin­
tomas, enfim, repertoriá-los, para fazer um diagnóstico, é preciso

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Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

construir uma lógica com os fenômenos observados, contraria­


mente à proposta das classificações modernas.
A segunda clínica, no que toca às psicoses, é também anti­
segregativa, retirando à psicose qualquer imputação de déficit, e
classificando-a, enquanto posição do sujeito, ao lado da neurose
e da perversão, em oposição aos quadros orgânicos. Trata-se en­
tão de uma clínica das modalidades de gozo, não consequências
negativas de uma falta, mas soluções positivas, invenções do su­
jeito psicótico, que o analista acompanha no seu "auto-tratamen­
to", numa posição de secretário ativo. Nesse sentido Zenoni la­
menta, na discussão de um caso clínico, que o diagnóstico de Psi­
cose Maníaco-Depressiva venha paulatinamente substituir outros
diagnósticos de psicose, fazendo crer que, por trás do transtorno
do humor, existiria um distúrbio orgânico primário.
Em "O trabalho feito por muitos", Zenoni vai dar ênfase à
Instituição como lugar de diluição do sujeito suposto saber, insu­
portável para o sujeito psicótico. Através de vários exemplos clí­
nicos, ele nos mostra estratégias de manejo no tratamento do su­
jeito psicótico, com soluções encontradas, ora pelo sujeito, ora
pela equipe de técnicos, para lidar com aquilo que frequentemen­
te desencadeia passagens ao ato. Nesse sentido, Zenoni nos acon­
selha não encorajarmos o trabalho de interpretação e elaboração
de sentido, que pode concluir na passagem ao ato, mas o recurso
ao uso combinatório da linguagem, ao escrito. Joyce será então o
modelo para práticas menos elaboradas, a serem encorajadas,
práticas da letra esvaziadas de sentido.
Temos então aqui, com estas três conferências e a discussão de
um caso, um material de grande valor para qualquer um que se
aventure na prática institucional, vetorializada pela Psicanálise,
com o sujeito psicótico. O lugar que o psicanalista pode ocupar
terá que ser visto caso a caso, na medida em que nos dispusermos
a aprender com o sujeito psicótico.
ElisaAlvarenga
01.06.00

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Qual Instituição Para o Sujeito Psicótico?

Eu lhes agradeço, inicialmente, o convite para vir a este país,


que para nós é sempre um pouco mítico, o Brasil, mas também a
oportunidade de trabalhar com vocês questões que se tornaram
um pouco menos marginais para os psicanalistas, menos margi­
nais do que elas eram há dez ou vinte anos. Talvez porque, neste
tempo, uma certa idéia sobre o analista solitário, analista apagado,
que não tem nenhum ideal e que não acredita em nada, deixou
lugar a uma outra idéia, evocada por Éric Laurent, recentemente
em uma conferência, que é a idéia do analista cidadão. Os analis­
tas começaram a apreender, ou deveriam começar a apreender, que
há uma comunidade de interesses entre o discurso analítico e a
democracia e que não se trata somente de escutar fechado no seu
consultório, mas de saber transmitir o que concerne à condição
humana, o que, da particularidade de um sujeito, pode ser útil para
um número maior de pessoas. Para parafrasear o que diz Lacan em
"Televisão", a propósito da saída do discurso capitalista, ele não
será um progresso se for somente para alguns. Os psicanalistas
devem tomar posição, ter uma incidência sobre a orientação da

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política de saúde mental de um estado ou de uma região. Pedir um
tipo de saúde mental ou respeito aos direitos do homem; deve ser
solidário da introdução do lugar do sujeito na clínica psiquiátrica.
Houve um tempo que pensava que os analistas deviam se
manifestar apenas no campo da cultura. Nós acreditamos que de­
vemos intervir também sobre pontos mais precisos da sociedade,
como em comitês de ética, redes de ajuda, práticas institucionais e
sociais, para que a dimensão do sujeito, no sentido psicanalítico
sej a levada em conta, ao contrário da sua exclusão pelo discurso
da ciência, que está nesse momento fagocitando a psiquiatria. O
que afastou os psicanalistas de uma intervenção no campo da saú­
de mental foi uma formulação do problema em termos de relações
de antinomia ou de compromisso entre duas práticas: por um lado,
a prática da análise, e, por outro lado, a prática de cuidados médi­
cos, sociais e psiquiátricos. Pode-se opor, quase termo a termo, os
objetivos da saúde mental e os do discurso do analista, para mos­
trar a sua inconciliabilidade. Conclui-se, então, que o analista de­
veria, ou se afastar da instituição ou aí se situar, mas em uma posi­
ção anti-institucional.
Eu vou lembrar alguns termos desta oposição. A instituição
visa reduzir a pregnância do sintoma, enquanto que o analista ten­
ta fazer emergir o significante inconsciente. A instituição quer o
bem e a saúde do indivíduo, enquanto o analista não visa nenhum
bem mas somente a emergência do desejo, que pode comportar o
mal-estar e a angústia. A instituição responde à demanda, enquan­
to o analista, por sua escuta radical, visa a raiz mesma da deman­
da. A instituição tenta construir a unidade do sujeito, enquanto o
analista visa a divisão do sujeito. A conclusão prática dessas opo­
sições é de conduzir o analista a oscilar entre uma atitude de recu­
sa ou de crítica à instituição, crítica à instituição como lugar de
tratamento psicanalítico, ou então uma inserção, mas contra a ori­
entação da política institucional. Em ambos os casos, a psicanáli­
se acaba não tendo mais nenhuma incidência sobre a clínica e so-

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Alfredo Zenoni

bre a prática institucional. Se a questão da relação entre a psicaná­


lise e a instituição se esgotasse nesta oposição, ela se traduziria na
questão: é possível praticar a psicanálise na instituição ou não?
Isso depende, creio, do fato de se ter ligado muito a psicaná­
lise, o discurso analítico, à cura, ao tratamento do neurótico. Esta
redução da psicanálise ao tratamento dos neuróticos ignora, ou
desconhece, que as instituições ou as redes de ajuda se ocupam de
outras categorias sociais diferentes das que se endereçam normal­
mente aos psicanalistas. E não somente isso, mas também se ocu­
pam de abrigar outras categorias clínicas diferentes da neurose.
Elas respondem antes à passagem ao ato. Enfim, essa identifica­
ção da psicanálise à cura, ao tratamento dos neuróticos, arrisca-se
a ignorar que a consideração do mal estar da civilização teve uma
incidência sobre as teorias das pulsões e sobre a prática da psica­
nálise no próprio Freud. Então há um impasse, quando transpo­
mos o tratamento dos neuróticos à instituição, diretamente.
O esquema comum da prática da psicanálise vai da vida soci­
al ao consultório do analista. Há um estado da clínica em que esta
passagem não é possível. Então, a prática tende a transpor o con­
sultório do analista ao interior da instituição, o que faz com que a
instituição apareça, nessa aplicação, como sendo simplesmente o
envoltório do consultório do psicanalista. Esse esquema, que trans­
forma a instituição um "em tomo" do consultório do analista, des­
conhece a razão da existência da instituição e, por essa mesma
razão, a natureza da clínica que a instituição acolhe. Quando dis­
cutimos para saber quando a instituição é compatível com o con­
sultório do analista ou não, desconhecemos a razão da existência
da instituição. Porque antes de existir para eventualmente tratar
do sujeito, a instituição existe para acolhê-lo, colocá-lo ao abrigo,
colocá-lo à distância, assisti-lo . Antes de ter um obj etivo
terapêutico, a instituição é uma necessidade social, é a necessida­
de de uma resposta social a fenômenos clínicos, a certos estados
da psicose, a certas passagens ao ato, a alguns estados de

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Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de LLlcan

depauperamento físico, que podem levar o sujeito à exclusão soci­


al absoluta e até à morte. É isto, então, que motiva a criação de
uma instituição e não se deve comparar a instituição de cuidados e
a consulta psicanalítica e ver se a instituição realiza os objetivos
da psicanálise. Não se deve fazer essa comparação. Não devemos
tampouco nos limitar a introduzir o consultório do psicanalista na
instituição e considerar simplesmente que a instituição é a sala de
espera do analista.
Trata-se de reconhecer a diferença de duas práticas. A prática
do tratamento psicanalítico é uma coisa e a prática da instituição é
outra. A clínica permite frequentemente, a entrada na experiência
psicanalítica, mas nem sempre. A clínica exige, também frequen­
temente, uma resposta que pode ser simplesmente a de uma práti­
ca social ou institucional. Mais ainda que fenômenos de lingua­
gem ou delírio, trata-se, nessa clínica, daquilo que do gozo, como
diz Lacan, faz retorno no corpo e no agir: passagem ao ato suicida
ou perigosa, auto-mutilações, errância, imobilidade catatônica,
perda de qualquer interesse, uso excessivo de drogas. Ora, não é
porque a resposta a esta clínica se inscreve no discurso do mestre
que ela deve ser abandonada pelos analistas ou que os analistas
devem se inscrever para contestá-la, por uma outra prática. Quan­
do constatamos que na base da existência da instituição há a clíni­
ca, nós podemos propor uma terceira via, uma outra forma de co­
locar o problema, que nos permite sair do eterno debate de saber
se a psicanálise pode ou não ser praticada na instituição e se a
instituição é ou não compatível com o discurso do analista. A ques­
tão, então, não é da relação entre a instituição e a prática da psica­
nálise de consultório, mas a terceira via, que nós propomos, é a de
considerar que há duas práticas distintas. A prática da cura, do
tratamento a dois e a prática institucional que é necessariamente
coletiva.
Não é porque uma prática é a dois que ela é, necessariamen­
te, o discurso do analista. O discurso do analista não coincide ne-

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Alfredo Zenoni

cessariamente com a prática a dois. Nós podemos legitimamente


colocar a questão se o discurso do analista pode orientar uma cura
a dois ou se ele pode orientar uma prática feita por muitos. A ques­
tão não é de saber qual psicanálise praticar na instituição, mas
qual instituição praticar na psicanálise. Então, não é a psicanálise
na instituição, mas a instituição na psicanálise. Colocar o proble­
ma nesses termos supõe reconhecer a motivação clínica da insti­
tuição. A instituição constitui a resposta praticável em alguns esta­
dos da clínica, a única resposta praticável na ausência da qual as
pessoas que sofrem, ou as pessoas que lhes são próximas, ficam
expostas a um insuportável, que pode ter consequências dramáti­
cas. Em alguns estados da clínica, não se trata de ir ao consultório
do analista, trata-se de ser protegido.
Uma j ovem mulher que encontramos na apresentação de pa­
cientes e cuja posição subjetiva se traduzia por uma certeza - a
certeza de ser feia e monstruosa a tal ponto que ela não podia se
suportar sem a presença de alguém que a amasse - passava todo o
tempo, de um homem a outro sofrendo toda espécie de violência
e inconvenientes. Ela dizia no hospital: "fora daqui eu vou dizer
sim a não importa a quem, não importa o quê". É por isso que ela
queria ficar no hospital. Lembrar a motivação clínica da existên­
cia da instituição tem a vantagem de evitar desconhecer sua fun­
ção social insubstituível e de evitar sua supressão como foi o caso
na Itália. Não é porque a instituição cura que ela deve ser mantida,
nem porque ela não cura que ela deve ser suprimida. Se mantemos
a instituição porque ela cura, há um grande risco de considerar
natural que o paciente fique no hospital indefinidamente, que fi­
que no hospital enquanto não fique curado. Se consideramos que a
instituição deve curar e se consideramos que a instituição não cura,
o risco é grande de deixar o paciente na errância e aos dramas de
retomar a uma família e ao seu lugar natural, que dá, frequente­
mente, lugar à vagabundagem. Isso acontece quando desconhece­
mos a função social da instituição. Eu diria mesmo que manter

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Psicanálise e Instituição -A Segunda Clínica de Lacan

essa função social tem por função colocar um limite à função tera­
pêutica. Sem o limite da sua função social, a instituição corre o
risco de se transformar em um lugar de alienação, de experimenta­
ção e, sem o limite da sua função terapêutica, ela corre o risco de
ser simplesmente suprimida. Fazer valer a necessidade social de
uma resposta institucional à clínica, uma resposta no social, tem a
vantagem que eu mencionei - de evitar suprimir a instituição ou
hospitalizar indefinidamente os pacientes. A primeira vantagem é
evitar esses dois riscos. A segunda vantagem é a de deslocar o
assento do conflito entre dois discursos a uma questão clínica co­
mum.
Quando o estado crítico da psicose pode permitir a adesão da
transferência a um analista, não é necessário e nem desejável que
o sujeito seja acolhido na instituição. O tratamento da psicose não
exige automaticamente uma estrutura coletiva de resposta. Muitas
vezes, o sujeito se arranja para criar, ele mesmo, uma pequena
instituição em torno dele mesmo, com várias pessoas que inter­
vêm. Assim, quando o tratamento da psicose pode aderir ao ana­
lista, a resposta institucional não é necessária. Mas, a clínica, às
vezes, exige uma estrutura coletiva de resposta. É a clínica que
exige respostas que não podem ser dadas por um só. Trata-se, en­
tão, de saber se a psicanálise pode orientar uma prática que pode
não ser a de um só, nem de um só momento do dia. Isso porque a
agitação, a injúria, a crise epileptiforme, a briga, a interpretação
persecutória de um gesto não esperam a entrevista do dia seguinte
para se produzir. Uma certa maneira de responder e de endereçar­
se ao sujeito, uma certa maneira de intervir ou não, um cálculo da
posição que é preciso ocupar, são exigidos em todos os momentos
da permanência do paciente na instituição, sob pena de tornar-se
isso difícil para os outros ou insuportável para o sujeito. A ques­
tão, então, é saber se nós podemos orientar uma prática que não é
de um só e que não se limita a certos momentos de um dia. O
acolhimento institucional não está limitado no tempo e nem a uma

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Alfredo Zenoni

só pessoa.
Tomemos o caso do adolescente que tem uma faca e não quer
abandoná-la, mas a equipe teme que ele possa se ferir ou ferir os
outros. É preciso tomar uma posição diante disso e essa tomada de
posição pode ser feita por qualquer um dos membros do coletivo
institucional. É preciso encontrar uma resposta. Então, a resposta,
neste caso, foi a de propor ao adolescente guardar a faca dentro de
uma caixa fechada com chave e que a caixa fosse colocada no
escritório da diretora, que era a única a ter a chave da caixa. Isso é
uma historinha que permitiu ao sujeito separar-se da faca sem perdê­
la e de não continuar a se constituir em perigo para os outros.
Se uma pessoa que mora na instituição vem se queixar que os
outros o agridem, acusando-o de ser um ladrão, ele vem pedir que
todos os que o chamam de ladrão sejam afastados da instituição.
Não se trata de dizer a ele que, de fato, ele entra nos quartos para
pegar cigarros dos outros. Primeiro, é melhor acolhê-lo com o seu
protesto, por exemplo, por uma declaração de ordem geral que
reconheça sua posição, dizendo que as agressões verbais não são
permitidas nessa casa. É uma maneira inicial de acolhê-lo com o
seu protesto. Antes de evocar as outras disposições relativas aos
quartos, não se trata de discutir com ele para dizer-lhe que talvez
os outros tenham razão. Trata-se, sobretudo, de presentificar um
Outro no qual ele tem um lugar, que o acolhe enquanto mestre,
como alguem que tem razão, por uma declaração do tipo geral,
universal, antes de se colocar numa relação dual com ele. São ti­
pos de intervenção que todos os membros do coletivo podem ser
levados a fazer. Não são reservadas a um ou outro ou a algum
momento do dia. É a natureza mesma da clínica, acolhida na insti­
tuição, que exige uma resposta comum, uma resposta da qual cada
um pode ser o vetor.
Se levamos em conta que a motivação de instituição é a clíni­
ca, a questão não é mais entre a psicanálise e a instituição, mas da
relação entre a clínica e a instituição e, no centro dessa clínica, a

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Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

clínica da psicose. Ou, como dizia Lacan no fechamento das Jor­


nadas sobre as Psicoses das Crianças, a questão de uma instituição
que esteja realmente em relação com a psicose. A primeira trans­
formação da questão não é a psicanálise e a instituição, mas clíni­
ca e instituição e a segunda transformação da questão, não é psi­
canálise e instituição, mas a questão da psicose e da psicanálise,
que dá valor a um segundo tempo do ensino de Lacan.
Passo a uma segunda parte. Podemos dizer que o primeiro
tempo do ensino de Lacan consistia em considerar a psicose prin­
cipalmente e essencialmente em termos de déficit. Partia da neu­
rose e aplicava às psicoses a psicanálise elaborada a partir do tra­
tamento dos neuróticos. Enquanto que um segundo momento do
ensino de Lacan consiste antes em aplicar a psicose à psicanálise,
impondo uma reviravolta conceitual, modificações teóricas e
consequências práticas, passando então, da aplicação da psicaná­
lise à psicose à aplicação da psicose à psicanálise. Nós passamos
de urn.Aclínica que importava, para o dispositivo institucional, a
prática da psicanálise como praticada na cura dos neuróticos, seja
para praticá-la só, seja para aplicar as categorias da cura dos neu­
róticos à instituição. Então, passamos de uma aproximação tera­
pêutica a uma aproximação que eu diria ser mais didática para
nós. É a psicose que nos ensina sobre a estrutura e que nos ensina
sobre as soluções que ela mesma encontra para fazer face a uma
falta central do próprio simbólico. É na escola da psicose que nós
nos colocamos para aprender como praticar.
Colocar-nos numa posição de aprendizagem em relação à clí­
nica, posição de aprendizagem na qual nos coloca a psicose, mas
também o segundo tempo do ensino de Lacan, o segundo tempo
relativo à teoria das psicoses, tem uma primeira consequência so­
bre a estrutura da própria equipe, porque ela leva a uma
desierarquização do saber prévio. Diante de tudo que temos para
aprender, o saber constituído, os títulos, os diplomas, tudo isso vai
ser fortemente relativizado nessa posição de pesquisa, de estudo,

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Alfredo Zenoni

de questionamento. Essa posição tem a imensa vantagem de con­


tribuir para dissipar os efeitos imaginários que comporta toda hie­
rarquia do saber, em proveito de uma comunidade de trabalho en­
tre praticantes, trabalhadores, alunos da clínica. Estar entre traba­
lhadores, em uma posição não hierárquica em relação ao saber,
repercute-se em uma divisão de uma mesma responsabilidade. A
libido da equipe investe-se em colocar hipóteses em comum e dis­
cuti-las quanto à estratégia a adotar, em relação à análise do que
teve algum efeito antes, em vez de investir em questões de prerro­
gativas.
Em segundo lugar, que é o mais importante, este ,esvazia­
mento de saber prévio redobra a dispersão natural do sujeito su­
posto saber, a dispersão do suposto saber que está implicada num
trabalho feito por muitos. Então, o fato de estar trabalhando com
muitos já dispersa o sujeito suposto saber e essa dispersão é redo­
brada pelo fato de que estamos numa posição de aprendizagem.
Essa posição de um sujeito suposto não saber é uma posição favo­
rável para encontrar um sujeito que sabe o que acontece com ele,
que é ele mesmo a significação do que lhe é endereçado enigmati­
camente. É uma posição favorável para encontrar esse sujeito, sem
alimentar uma posição intrusiva, persecutória de transferência.
Então, a inclusão da clínica nos fundamentos da instituição,
e sua repercussão sobre a estrutura da equipe comporta, desde j á,
uma condição de tratamento que é adequada à posição subjetiva
que ela acolhe. Ela nos permite saber não saber de uma boa ma­
neira no acolhimento dos sujeitos e é por isso que ela tem uma
virtude de apaziguamento para o sujeito neurótico. Mas, quando
se trata das psicoses, essa significação do saber se liga à existência
mesma do sujeito, porque na psicose o saber não é suposto, mas
realizado pelo próprio sujeito, que é a referência, o gozo desse
saber. É por isso que quando o Outro se apresenta como o Outro
do saber, ele pode ser encontrado sob uma forma erotomaníaca ou
persecutória. Enquanto que a posição do sujeito suposto não saber

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Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de wcan

deixa principalmente ao sujeito a iniciativa de saber.


Um jovem tem uma verdadeira paixão pelo Pink Floyd, que
vem provavelmente do seu pai. Ele grava todos os discos, ele imi­
ta os gestos do baterista, mas desenvolve também, em torno de
tudo isso, uma interpretação delirante e uma grande agitação. De­
vemos encoraja-lo nessa via aumentando, por exemplo, as ocasi­
ões em que ele pode escutar essa música, participar de concertos,
enquanto que quando lhe colocamos a questão: "você vai mexer
com música mais tarde, por exemplo, profissionalmente?" ele res­
ponde: "é preciso que eu faça meu negócio de ônibus, de carro."
Quem sabe se nessa história devemos encorajar a interpretação
delirante ou levar em conta o que ele diz a propósito desses ôni­
bus? Ficamos sabendo, com efeito, que ele conhece toda a carto­
grafia da região, as distâncias em quilômetros, as estradas. É ele
que organiza os itinerários das excursões. É uma via menos se­
mântica na relação com a linguagem, do que a via das interpreta­
ções e de todo o discurso que ele pode ter sobre Pink Floyd. Como
acompanhá-lo? Como orientar nosso acompanhamento? Eis aí um
tipo de problema que pode animar um trabalho em comum de uma
equipe, mas cuja orientação vai ser diferente segundo o ponto de
gravidade do saber, isto é, seja ele colocado do lado do sujeito ou
do lado do técnico. Se nós consideramos que há algo para desen­
volver do lado da apresentação, é porque nós pensamos nas suas
relações com seu pai. Nós mesmos é que desenvolvemos toda
uma explicação e uma interpretação, enquanto que o sujeito, quando
nós lhe colocamos a questão, vem nos falar de todas estas históri­
as de geografia. Se colocamos a ênfase sobre o saber da equipe,
podemos ser tentados a encorajar a primeira via, a da música. Se,
ao contrário, deixamos ao sujeito a chance de inventar esse seu
próprio trajeto, mesmo se isso parece ter pouco sentido para nós,
talvez essa segunda via seja mais conforme com o tratamento da
psicose, inerente à própria psicose.
A primeira condição deste acolhimento institucional da psi-

ab recampos - Ano I - no. o - Junho/2000 ---,---

21
Alfredo Zenoni

cose é o esvaziamento de saber, que deriva do fato de colocar a


clínica em posição de mestre. E a segunda condição ligada a esta
consiste num certo esvaziamento do querer ou do poder. O acolhi­
mento feito por muitos da clínica é também o acolhimento de vá­
rias pessoas. Nós não somos somente muitos como técnicos, mas
há também muitos sujeitos acolhidos. Há o problema que nós vi­
mos hoje na discussão de casos que é o problema da coabitação
dos sujeitos que vivem em comum. A necessidade de uma certa
regulação desta comunidade. Isso coloca o problema da regra e da
lei. Da mesma forma que ao nível do saber nós operamos o esva­
ziamento, como operar o esvaziamento ao nível do querer, como
presentificar para o sujeito um Outro que não sej a a encarnação do
querer do Outro?
Um dos grandes problemas de supervisão na instituição é o
problema da coabitação dos sujeitos que residem aí, o problema
da violência, os roubos, os insultos, as injúrias. O sujeito não está
somente diante dos técnicos, mas também diante dos outros paci­
entes. A nossa posição deve ser de representantes da lei? Em um
certo sentido sim, porque somos responsáveis por esses sujeitos,
não temos apenas uma relação individual com cada um deles. De­
vemos também garantir a coexistência de todos. A manobra con­
siste em não presentificar a vontade do Outro, mas em presentificar
um Outro que é ele mesmo submetido a uma lei. Não devemos
ficar numa posição paterna ao considerar que nós introduzimos a
dimensão da lei, mas nos mostramos nós mesmos enquanto sub­
metidos à lei. É por isso que trata-se de formular as coisas de tal
maneira que ela nos implique também.
Para dar um exemplo simples e banal, quando as injúrias ar­
riscam produzir agressividade no outro, antes de dizer você não
pode injuriar o outro devemos formular algo que fala da regra se­
.
gundo a qual as injúrias não são permitidas na casa, nem para os
residentes na casa nem para os membros da equipe. Um residente
nos dá uma idéia disso ele mesmo, quando nos diz como ele res-

ab recampos - Ano I - na o - Junho/2000


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Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Úlcan

ponde a uma acusação que lhe fazem outros residentes do lugar: a


acusação sobretudo das mulheres, que o acusam de andar nu. Ele
responde: "são as enfermeiras que querem me ver todo nu". O
estilo de resposta que nós temos que ter nesse momento não é de
proibir-lhe de andar nu, mas como ele próprio nos sugere: "nin­
guém tem o direito de obrigá-lo a andar nu", que é então, de algu­
ma maneira, uma forma de colocar o assento sobre o Outro que
quer algo dele e em relação ao qual nós nos colocamos do seu
lado. "O Outro não tem o direito de obrigar você a andar nu". Não
somos nós que o proibimos de andar nu, mas nós nos colocamos
do lado dele para colocar uma barra sobre o Outro. "Você pode até
vestir uma calça, é melhor".
A regra que rege a vida coletiva é uma regra que se aplica
inicialmente ao Outro. Um pouco da mesma maneira que os cole­
gas que trabalham com crianças psicóticas podem, ocasionalmen­
te, endereçar-se ao Outro para repreendê-lo porque ele está chate­
ando o sujeito ou porque ele o obriga a fazer alguma coisa. A um
menino chamado Dimítrio que dizia que não conseguia trabalhar,
perguntamos: "Alguém te impede de trabalhar?" - "Sim". O téc­
nico diz: "mostre-me esse chato". E a criança indica uma manchi­
nha no chão. Então, o técnico começa a brigar com esse pontinho
no chão.
Quando uma criança tem grande dificuldade para se separar
da sua mãe ou da professora, é sobre esse Outro, que é a mãe ou a
professora, que deve se efetuar a operação de regulação, e não
sobre a criança. É o Outro que devemos regular, limitar. Então,
por exemplo, uma criança que queria ir para a piscina, mas não
conseguia se separar da professora. O técnico fala a um colega:
"Jean François, é preciso que Danielle deixe a criança ir para a
piscina". Então, Jean François diz à colega: "perfeitamente, deixe
Lulu tranq u i l a agora" . O que permite que a cri ança v á
tranquilamente dizendo à professora: "até logo!" É u m pequeno
exemplo da prática com as crianças.

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23
Alfredo Zenoni

As coisas são mais complicadas quando estamos diante de


pacientes adultos, quando se trata de agressões, roubos, injúrias.
O importante nesses casos é considerar que nós não estamos lá
para fazer respeitar a lei, mas para presentificar um Outro que res­
peita a lei e está, ele mesmo, submetido à lei; que contribui para
criar um esvaziamento do querer do Outro. Não personificamos
um Outro que quer, mas um Outro do querer que é submetido à
lei; que tem a vantagem de confrontar o sujeito não a um Outro
que quer alguma coisa, mas a um Outro que está do seu lado, em
relação a um Outro que não é regulado. Nós nos colocamos do
lado do sujeito enquanto ele mesmo é defensor da ordem e aqui
trata-se de evitar dois problemas. O problema da regra pela pró­
pria regra, que deve ser mantida a todo preço, sem exceção, isso é
um primeiro risco. O outro risco é o da regra terapêutica, regra que
é aplicada ou não segundo o estado de saúde do sujeito, regra que
decide se o sujeito é ou não responsável. Nós constatamos que o
fato de considerá-lo sempre como responsável, nunca tem efeitos
nefastos sobre ele. Enquanto que considerar que às vezes ele não é
responsável, pode ter efeitos de desencadeamento. E quando nos
colocamos do seu lado, para protegê-lo, digamos, do gozo do Ou­
tro, nós o consideramos, no entanto, como responsável. O fato de
adotarmos uma posição de esvaziamento do querer conceme, es­
sencialmente, o Outro e não o sujeito. O sujeito permanece res­
ponsável.
Eu tentei mostrar como uma certa maneira de colocar o pro­
blema comporta já condições favoráveis ao tratamento. Podemos
considerar que o que eu desenvolvi é, essencialmente, uma teoria
da equipe. Eu coloquei a ênfase, sobretudo, sobre a comunidade
dos técnicos. Uma prática feita por muitos tem por efeito, inicial­
mente, tratar os efeitos imaginários próprios a todo coletivo. Cons­
tituir uma comunidade de trabalho fundada na clínica não é sim­
plesmente uma teoria da equipe, mas realiza condições propícias
ao acompanhamento do sujeito que ela acolhe. É uma teoria da

abrecampos - Ano I - na o- Junho/2000


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Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

equipe, de como vão se colocar a trabalho, mas considera que há


uma incidência sobre o tratamento, enquanto ela presentifíca o
Outro, cujo saber e o poder são esvaziados. Inscrever-se nessa prá­
tica feita por muitos pode ser para o analista uma ocasião mais
eficaz de transmissão da operação freudiana na clínica do que se
ele passar seu tempo reivindicando sua especialidade. O desejo do
analista não está limitado ao tratamento, à cura analítica. O desejo
do analista é também um dever em relação à própria psicanálise. É
por isso que eu penso que a questão psicanálise e instituição é
menos a questão da prática do analista, do que a questão da trans­
missão da psicanálise. Espero ter-lhes dado algumas indicações
para o debate do qual vocês vão participar agora. Obrigado

Discussão:

Cezar Rodrigues Campos: Essa posição de debatedor com­


porta várias questões. Eu vou escolher iniciar o debate com uma
ou duas questões. Primeiro eu queria ressaltar a importância des­
sas conferências para as nossas práticas no serviço público, dizen­
do que concordo com essa terceira via e a questão da função social
e da função clínica da instituição.
No nosso meio, a função social das instituições, historica­
mente, funcionou como impossibilitadora da clínica, dessa clínica
que Zenoni está propondo e que nós estamos experimentando na
cidade de Belo Horizonte, há alguns anos. A função social de aco­
lhimento, de suporte para a clínica em situações críticas e insupor­
táveis para o sujeito, no nosso entender, dentro da nossa história,
da nossa cidade, do nosso país, não ocorre espontaneamente e nem
por ação de uma filtragem; produzindo o discurso analítico, pro­
duzindo um tipo de instituição. Nós tivemos que fazer uma
desconstrução desse tipo de instituição, não para suprimí-la, por­
que nós sabemos e concordamos que ela, nesses momentos críti-

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25
Alfredo Zenoni

cos, insuportáveis para os sujeitos, é a única opção. A instituição


tem uma função social. Nós não tentamos e nem advogamos isso,
a supressão da instituição. Nós estamos trabalhando para suprimir
uma instituição com uma determinada lógica que não permite a
realização dessa clínica. O nosso trabalho tem sido a desmontagem
dessa instituição prescrita pela nossa formação social, que tem se
revelado muito mais discriminadora e produtora de exclusão do
que de efeitos clínicos. Nós temos trabalhado no sentido de des­
montar essas instituições e construir exatamente uma instituição
que cumpra essa função social de abrigamento, de acolhimento e
de suporte para essas situações críticas do sujeito num momento
que ele não suporta. Esse tem sido o nosso trabalho. No nosso
país, no nosso estadb, na nossa cidade, a gente tem feito isso e tem
tentado construir uma rede de serviços no campo da saúde mental
na cidade de Belo Horizonte, cujos dispositivos cumpram deter­
minadas funções nos diversos momentos da clínica, principalmente
na clínica da psicose, mas também na clínica das outras demandas
que aparecem no campo da saúde mental. A pergunta que eu faço
é como isso ocorreu numa Bélgica, se o senhor se refere à constru­
ção desse tipo de clínica na cidade da Bélgica, ou num setor, ou
num serviço e o que o senhor acha da possibilidade de nós fazer­
mos isso. Essa é uma primeira pergunta.
A segunda pergunta é, eu concordo plenamente com essa
posição nossa de alunos da psicose. Acho que a psicose é total­
mente inesperada, não existe um saber que recobre a psicose. Ela
está permanentemente a nos ensinar coisas. A pergunta vem a res­
peito do coletivo. Fico surpreso, de uma forma satisfatória, com
e s s a abordagem do coletivo, da equipe, a questão da
desierarquização, a retirada da hierarquia do saber prévio. Isso é
importantíssimo, é isso que temos feito como estratégia para que
possamos construir um tipo de clínica. Isso é indispensável, essa
estratégia do acolhimento. Eu acho que realmente é o caminho
para se começar a construir qualquer caso clínico. Eu queria per-

ab recampos - Ano I - ftlO - Junho/2000


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Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

guntar o seguinte: eu entendi que na instituição, no trabalho cole­


tivo, a equipe vai estar numa posição em que vai operar na disper­
são do sujeito suposto saber à enésima potência. Como é que fica
a questão da escuta individual? Ela é indispensável ou ela existe
para marcar uma posição para continuar posteriormente, mesmo
que ela não tenha um efeito? Se o enfoque é dado na abordagem
de cada membro da equipe, como fica essa questão da abordagem
individual, ela deve existir ou ela é dispensada nesse momento
para ser retomada em outro momento? Deve existir para marcar
esse lugar, essa função, para dar um certa articulação às diversas
ações que acontecem? Enfim, como fica essa questão da referên­
cia individual, da referência da escuta individual? São essas duas
questões que eu queria colocar para o professor para iniciar o de­
bate. Obrigado.

Alfredo Zenoni: A primeira questão é sobre a maneira como


essas mudanças foram feitas na Bélgica. Existe uma tradição que
remonta aos anos 50. Primeiro, a criação de setores psiquiátricos e
nos anos sessenta começou-se a criar, sobretudo na capital, estru­
turas residenciais extra-hospitalares, comunidades de vinte a vinte
e cinco residentes (moradores); mais tarde, apartamentos supervi­
sionados, uma situação relativamente privilegiada. Mesmo na Fran­
ça não há um equivalente disso. Na França, sobretudo, foram de­
senvolvidos os setores. As estruturas residenciais custam mais, mas
eu creio que elas são indispensáveis para conciliar as duas fun­
ções, a função social da instituição e a função do tratamento. O
risco da instituição clássica que provocou sua desconstrução e
destruição na Itália é a dessocialização, a segregação, onde os pa­
cientes terminam sendo habitantes de uma estrutura à parte. Me
parece que o que não foi feito na Itália, por razões ideológicas,
ideológicas no que conceme à doença mental, foi levar em conta a
função social da instituição. Eles somente consideraram a função
terapêutica e eles constataram que ela não era terapêutica. Eles

ab recampos - Ano I - na o- Junho/2000 ------

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Alfredo Zenoni

fecharam os hospitais sem perceber que havia uma outra função


que não era encampada por uma outra estrutura residencial. Eu
creio que quando criticaram a instituição psiquiátrica como um
lugar de alienação e até de tortura não se viu que isso era devido à
identidade grande demais da função terapêutica com a instituição.
Quando vemos a instituição na sua função terapêutica unicamen­
te, há dois riscos: primeiro suprimi-Ia porque ela não é terapêuti­
ca, porque os psicóticos continuam a ser psicóticos. Então, supri­
mimos a instituição, colocamos os pacientes fora e supomos que
eles não vão mais ser alienados. Esse é o primeiro risco, que é a
supressão da instituição. O segundo risco é manter o sujeito o tempo
todo na instituição porque ele não se cura. Nós tomamos apenas o
ponto de vista da cura. Ou a suprimimos, ou a mantemos indefini­
damente. Por isso eu coloquei a ênfase na função social, não para
eliminar a função terapêutica, mas para separá-Ias. A instituição
pode ter uma função social, mesmo que ela não cure e, mesmo se
distinguimos as duas funções, nós podemos garantir a função tera­
pêutica. É preciso distinguir a dimensão do sujeito e a dimensão
do cidadão, do indivíduo, que tem direito a assistência e ajuda. A
dimensão do sujeito é a dimensão da implicação, da liberdade, da
responsabilidade. Os cuidados não são recusados a um indivíduo,
mesmo que o sujeito não se implique. São dois planos diferentes e
quando distinguimos os dois planos, guardamos a chance do pla­
no do sujeito. Se oferecemos a assistência e o acolhimento em
troca de psicoterapia e o sujeito aceita o tratamento, será um trata­
mento pró-forma, um tratamento no qual o sujeito não se implica.
É preciso que o sujeito tenha a assistência à qual ele tem direito,
com a liberdade de recusar o tratamento. É somente essa liberdade
que garante essa possibilidade. É como quando, por exemplo, só
libera-se um sujeito da prisão se ele fizer uma psicoterapia. É muito
ambíguo. Isso compromete a possibilidade do sujeito se engaj ar.
É importante distinguir a dimensão social e a dimensão terapêuti­
ca. Essa distinção só é possível se colocamos, no ponto de partida,

ab recampos - Ano I - na o - Junho/2000


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Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

a clínica. A causa pela qual os sujeitos estão na instituição, antes


do quê, para quê, com vistas a quê eles estão na instituição. As
estruturas residenciais abertas criadas na Bélgica permitem isso.
O sujeito pode ser acolhido sem ser obrigado a fazer um tratamen­
to. Esse tratamento é deixado como uma opção para o sujeito. Mas
essa liberdade dada ao sujeito j á tem efeitos terapêuticos.
A segunda questão é sobre a escuta individual. A dimensão
da comunidade de trabalho assegura as condições necessárias para
o tratamento. Mas as condições necessárias não são as condições
suficientes. A dimensão coletiva é sobretudo sensível na prática
com as crianças. Com as crianças é preciso estar sempre presente,
é preciso ser inter-cambiável e não se pode ficar sozinho com uma
comunidade de crianças. Mesmo com os adultos, a estrutura da
comunidade de trabalho é necessária em uma instituição, mas não
suficiente. Este é um aspecto que eu não desenvolvi hoje, aquele
da escolha individual, que, segundo as instituições, se faz de ma­
neira diferente. Em algumas instituições, é o paciente que escolhe
o interlocutor e, em outras, é a equipe que designa o interlocutor.
Na instituição em que eu trabalho, nós deixamos o paciente esco­
lher o seu interlocutor na comunidade. É uma escolha que pode,
aliás, ser plural. Ele pode escolher um membro da equipe como
referência.
Outra questão é: todos tem formação analítica? Não obriga­
toriamente. É pela transferência de trabalho que livremente os di­
ferentes membros da equipe se tomam alunos da clínica, estudio­
sos da clínica e num terceiro tempo, podem entrar em análise. Mas
não é obrigatório. O essencial é que haj a responsabilidade de cada
um no acolhimento da clínica e na elaboração de uma estratégia.
Acontece também que sujeitos se enderecem a algum técnico que
está em formação analítica.

Pergunta inaudível

abrecampos - Ano I - na o - Junho/2000 ------

29
Alfredo Zenoni

Alfredo Zenoni: Trabalhamos em uma associação que se cha­


ma A Equipe. Há cinco estruturas: duas residenciais e três de hos­
pital-dia. Eu sou o terapeuta responsável de uma das estruturas
residenciais que se chama Le Foyer. Mas em Bruxelas há cinco
comunidades terapêuticas. É excepcional, mesmo na Europa. Na
Holanda há também muitas estruturas residenciais.

Elisa Alvarenga: É preciso lembrar que em Bruxelas há um


milhão de habitantes.

Pergunta inaudível

Alfredo Zenoni: Eu dizia que o tratamento da psicose não


exige, necessariamente, uma instituição, corno prova o fato de que
muitos psicóticos vêm me ver no consultório. Falando com cole­
gas, vemos que há cada vez mais psicóticos que vem ao consultó­
rio do analista. No entanto, eu dizia que sujeitos que vêm para um
tratamento com um analista, se arranjam para que isso tome a for­
ma de uma instituição invisível, muitas vezes. Por exemplo, eles
introduzem um segundo analista, um psiquiatra, uma assistente
social, um médico, o administrador dos bens, etc. Eu faço com
que todas essas pessoas terminem por constituir uma rede. O mí­
nimo é um analista, um psiquiatra e um assistente social. Mas, de
fato, vemos que há uma certa pluralização do endereçamento do
sujeito, mas não necessariamente.

Pergunta inaudível

Alfredo Zenoni : A estrutura residencial é uma estrutura fora


do hospital e os pacientes vêm livremente. O princípio de receber
sob a base da demanda deles, e eles têm que demandar várias ve­
zes, já cria uma seleção. Há sujeitos que não querem voltar, que
preferem voltar para a casa da mãe e há sujeitos que prefhem

ab recampos - Ano I - na o - lunho/2000


30
Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

permanecer no hospital , porque a estrutura residencial tem movi­


mento demais. Metade dos sujeitos que fazem contato não vêm de
fato. Então, o fato de deixar a iniciativa para o sujeito, faz com que
uma grande parte dos sujeitos acabem não vindo. Isso já, de uma
certa forma, seleciona os sujeitos que vão ficar. Isso é o mais com­
plicado porque, uma vez que eles passam os limites da entrada,
eles ficam bem numa estrutura livre, comunitária. O problema é a
saída deles. Nós estabelecemos um limite absoluto de dois anos. A
metade do tempo desses dois anos é para preparar alguma coisa
para depois, apartamentos, aloj amentos, etc. Às vezes eles se or­
ganizam a dois ou a três para alugar uma casa ou um apartamento,
mas há uns 20% talvez que não conseguem sair e acabam voltan­
do ao hospital.

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31
Alfredo Zenoni

A Clínica Da Psicose: O Trabalho Feito Por Muitos

Na conferência de ontem à noite eu evoquei uma reviravolta


na teoria das psicoses em Lacan, a mudança que consistia em in­
verter a aplicação da psicanálise à psicose, mudando para a aplica­
ção da psicose à psicanálise. É uma mudança teórica e clínica ra­
dical, a partir do momento que Lacan considera o fato de que
existam posições subjetivas que podem dispensar o Nome do Pai.
Isso implica que o Nome do Pai não estej a automaticamente ins­
crito no significante, que a estrutura do Outro pode ser concebida
sem o Nome do Pai.
A partir dessa nova concepção, o estatuto da psicose muda.
Enquanto que, num primeiro tempo do ensino de Lacan, a psicose
era concebida como uma falta de neurose, no segundo tempo do
ensino de Lacan, a neurose, ela mesma, aparece como uma estru­
tura artificial, ao mesmo título que a psicose, em relação a uma
falta no simbólico, nele mesmo, no próprio simbólico. Nós passa­
mos de uma perspectiva em que a neurose e a psicose eram estrita­
mente opostas, a uma perspectiva que as coloca um pouco mais
em continuidade em relação a alguma coisa. Um ponto na estrutu-

------ abrecam p os - Ano I - nQ O - Junho/2000


32
Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

ra que é comum a todos os seres falantes e que é essa ausência de


um significante último, de uma garantia do Outro e de uma
reabsorção completa do gozo no simbólico. Há sempre, para todos
os seres falantes, um gozo que permanece, que não é totalmente
simbolizado. Para todo sujeito há um confronto com um ponto do
significante, um ponto da linguagem onde o significante não
corresponde a uma significação, onde o significante é enigmático.
Essa falta ou esse distúrbio no Outro é um distúrbio ao qual todos
os seres falantes estão confrontados.
A primeira perspectiva clínica que se destaca das teorias das
psicoses, em Lacan, é uma perspectiva de oposição binária. A dis­
tinção entre a neurose e a psicose se faz sob a base da presença ou
ausência do significante do Nome do Pai, no plano da estrutura.
No plano dos fenômenos clínicos, igualmente em termos de pre­
sença ou ausência dessa insígnia. Por exemplo, o neologismo, como
fenômeno típico da psicose, em oposição a ausência de neologis­
mo, que caracterizaria a neurose; presença ou ausência de um de­
terminado fenômeno. Na segunda perspectiva teórica de Lacan o
esquema muda. Colocamos aqui em evidência o que há de comum
a todas as estruturas subjetivas, ou sej a, essa falta no Outro, que é,
em resumo, o problema ao qual cada ser falante está confrontado
porque a linguagem não pode dizer tudo, a linguagem não pode
seguir com o sujeito até o momento de seu ato, da sua responsabi­
lidade. Há sempre um momento de enigma, de incompletude do
Outro.
Agora, o Nome do Pai como solução para esse problema da
incompletude do Outro aparece como uma solução entre outras,
para o problema da inconsistência do Outro. Mas, podem haver
outras soluções para esse problema. Então, colocando em evidên­
cia o que é comum às diferentes posições subjetivas, relativizamos
também a presença ou ausência de fenômenos que manifestam
estas posições subjetivas. Nós estamos menos diante de oposições
de presença ou ausência de fenômenos, do que diante de fenôme-

ab recampos - Ano I - no. o - Junho/2000


33
Alfredo Zenoni

nos semelhantes, fenômenos que se diferenciam entre si como


modalidades da mesma coisa. Por um lado, temos a relativização
de uma solução neurótica, mas, do outro lado, estamos diante de
uma clínica mais frouxa como conseqüência do fato de que muda
a concepção da estrutura do Outro.
É o que nós podemos chamar, nas nossas Seções Clínicas
francofônicas, a emergência de uma clínica continuista, em oposi­
ção a uma clínica binária, que deriva da primeira teoria da psicose
em Lacan. Continuista porque ela acentua o que há de comum
entre as estruturas e o que há de próximo entre os fenômenos. Esta
colocação em continuidade tem uma vantagem e um inconvenien­
te. A vantagem é de afastar, de uma vez por todas, a noção da
psicose como uma deficiência. Na primeira concepção de Lacan,
nós podemos ainda deduzir uma teoria da psicose como falta do
que define a neurose, e considerá-la essencialmente em termos de
déficit. Com essa nova concepção continuista temos uma espécie
de desierarquização diagnóstica. Não que o diagnóstico da psico­
se seja mais grave que o diagnóstico da neurose, mas que estej a
e m pé de igualdade com a neurose. Neurose, psicose e perversão
estão em continuidade, em oposição, por exemplo, à demência e
aos problemas neurológicos. A psicose se encontra antes do mes­
mo lado da neurose, antes do que do lado das demências, como
era antigamente a tendência a considerá-la. Ainda com relação às
primeiras teorias da psicose, quando a psicose é concebida essen­
cialmente em termos de déficit, nós somos espontaneamente leva­
dos a assimilá-la a uma demência.
Enquanto a operação freudiana e lacaniana, renovada pelo
segundo tempo do ensino de Lacan, consiste em fazer valer o pa­
rentesco entre a neurose, a psicose e a perversão, distinguindo-as
de todos os problemas de ordem orgânica. Isso tem um efeito anti­
segregação porque, no que concerne à posição subjetiva do
psicótico, isso consiste em mostrar que a psicose é um destino
subjetivo, positivo, entre outros, em oposição ao que seria uma

------- ab recampos - Ano I - na o - Junho/2000


34
Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

concepção da psicose como ausência do sujeito. Essa é a vanta­


gem clínica dessa continuidade. O inconveniente, mesmo se não é
inconveniente, é o inconveniente na primeira abordagem desta con­
tinuidade. Ela produz uma descontinuidade entre as estruturas e
os fenômenos. Isto é, nós não estamos mais diante de fenômenos
típicos. Quanto mais nos colocamos do lado da continuidade entre
as estruturas, menos estamos diante de sintomas específicos de
uma determinada estrutura. Estamos antes diante de fenômenos
comuns a todas as estruturas e que se distinguem, entre eles, uni­
camente por nuanças, o que nos obriga a um trabalho de logificação
muito maior, para poder repartir os fenômenos, segundo as estru­
turas subjetivas. O inconveniente desta maior continuidade é nos
dar mais trabalho.
Uma conseqüência dessa nova clínica é também de relativizar
as relações entre as psicoses e os fenômenos típicos que as defi­
nem e que estão ligados ao que nós chamamos de desencadeamento
da psicose, que são fenômenos essencialmente de distúrbios da
linguagem e delírio. Temos então a psicose em um laço menos
estreito a esses fenômenos típicos, os fenômenos típicos do
desencadeamento. Nessa segunda clínica a psicose será abordada,
portanto, a partir de fenômenos que ela tem em comum com ou­
tras estruturas clínicas.
Tomemos, por exemplo, a queixa que um sujeito pode ter de
se sentir excluído. Isso pode ser o caso, por exemplo, de uma po­
sição histérica. O sujeito histérico vem com um sentimento de nun­
ca estar no seu lugar e mesmo de ter u'mteerto gosto de nunca estar
no seu lugar. Para não se sentir preso numa definição, faz greve do
significante mestre, diz Lacan. Ele não está nunca onde ele está.
Ele está sempre com o sentimento de estar excluído do seu lugar,
de ser inclassificável, de não estar na sua classe; é como um arqui­
vo que não está no seu lugar. É uma maneira de não estar aí. Há
um sentimento na significação de exclusão, que é próprio ao sujei­
to como tal. O sujeito, enquanto ele é distinto do significante que

ab recampos - Ano I - nQ O - Junho/2000


35
·Alfredo Zenoni

o identifica, o sujeito é sempre de alguma forma, menos Um, me­


nos o Um que o identifica.
Mas, o sujeito obsessivo pode vir se queixar e testemunhar
essa exclusão sob uma outra forma, diferente da do sujeito histéri­
co. É antes sob a forma de uma prisão voluntária. É o sujeito que
se fecha num lugar que ele constrói para ele mesmo, para se prote­
ger da intrusão do Outro. Para não ser prisioneiro do Outro, ele
tem o sentimento de ser prisioneiro de si mesmo e é, por isso, que
ele goza, antes de tudo, de sua solidão e que ele pode ter o senti­
mento de viver uma vida que não é muito viva. Ele também tem o
sentimento de estar excluído, mas sob o modo da auto-proteção,
enquanto que no sujeito histérico é antes sob o modo do desapare­
cimento, da evanecência.
Bom, o sujeito psicótico também pode investir na significa­
ção da exclusão, significação de estar à parte, de ser excepcional.
Então, pode estar diante da hostilidade de todo mundo, sentir-se
perseguido e, no entanto, prometido a um destino excepcional.
Ele também pode se queixar de não estar incluído no conjunto dos
outros, mas esta não inclusão é, ao mesmo tempo, o que ele reivin­
dica como destino excepcional .
Em seguida a uma profunda decepção amorosa, um homem
de trinta anos, que nós vamos chamar de Giovani, apresenta-se no
serviço de saúde mental para pedir ajuda. Seu estado de espírito
habitual é de depressão, diz ele, e por isso ele se encontra
freqüentemente só, como um marciano contra todo mundo. Desde
o final de seus estudos universitários, ele leva a vida com uma
atitude de inacessibilidade que o leva também a uma rigidez da
qual ele se queixa, mas que lhe permite manter os outros à distân­
cia. Ele se considera um grande observador ao mesmo tempo que
ele se sente constantemente observado, como se estivesse sempre
passando por uma prova. "A responsabilidade, isso me mata". Fa­
lando da sua vida amorosa, Giovani diz que as mulheres o fasci­
nam, e que ele as considera como uma outra espécie. Seu olhar vai

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36
Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

sempre em direção a elas, não sem angústia, desde a sua mais


tenra infância. O sexo, como instinto animal, como ele diz, nunca
deixa o seu pensamento, ao ponto que ele se considera um viciado
do sexo.
Nesse caso, considerando o que j á foi dito até aqui, estamos
diante de uma mortificação obsessiva, na qual o sexual faz irrupção
no pensamento sob a forma de tentações, obsessões, de uma infa­
tigável verificação fálica, ou estamos diante de um sujeito que não
pode estar separado do seu ser de objeto? É um sujeito para o qual
o gozo faz retomo no real. Giovani diz que ele se sente olhado,
observado pelas mulheres. Ele diz que é sedutor e um belo ho­
mem. Ele se considera um objeto sexual para as mulheres, mas
desde a sua última experiência amorosa, ele evita as mulheres, ele
tem ressentimentos contra todo o gênero feminino e quando uma
mulher se aproxima dele, ele se angustia, sente alguma coisa físi­
ca, um buraco no peito, se sente muito vulnerável e, ao mesmo
tempo, o seu ressentimento lhe dá vontade de esmagar as mulhe­
res, como se elas fossem baratas, sobretudo as que querem se mis­
turar à vida dele, entrar na vida dele.
O primeiro encontro com uma mulher data da sua infância.
Ele tinha sete anos e encontrou, durante as férias, uma menininha
que tinha um ano a mais do que ele. Ele não fez nada, foi ela que o
tocou, o abraçou e o beijou. Ele vai dizer a propósito de suas lem­
branças: "foi como uma vertigem ou como uma náusea que a gen­
te sente no mar". Ele perdeu de vista o mundo e foi justamente
nesta época que começaram a se manifestar crises que foram con­
sideradas epilépticas, mas que não eram constituídas por convul­
sões. Eram antes momentos de áurea, de perda de consciência,
durante os quais ele ficava rígido, imóvel, sem palavras, uma ma­
neira de se deixar cair que deve ser colocada em relação à imagem
do corpo e que lembra o que Lacan diz a propósito de um episódio
da adolescência de Joyce, quando este foi surrado por seus com­
panheiros, em que ele diz que não sentiu nada e que o seu corpo

ab recampos - Ano I - na o - Junho/2000


37
Alfredo Zenoni

tinha se soltado dele como a casca de uma fruta. O episódio que


Giovani evoca de sua i nfância, é o testemunho desse
desenovelamento, desse destacamento da imagem do corpo e do
real do corpo. E ele dirá que, na escola, durante o recreio, ele não
sabia se defender das crueldades das outras crianças.
Vou um pouco mais rápido porque aqui há outro aspecto da
construção da sua vida, que ele faz. Ele se lembra com nostalgia
do período em que estava na universidade e durante o qual ele se
sentia auto suficiente, porque lá só se tratava da relação entre ele e
os livros, contrariamente ao que se passa no seu meio de trabalho,
onde ele tem que se relacionar com os outros. A existência solitá­
ria que ele leva, os diversos fracassos das tentativas de inserção
profissional, não deixa menos com ele o sentimento de que ele
está destinado a coisas grandes no mundo. Ele possui uma visão
panorâmica das coisa que faz dele uma espécie de visionário, em­
bora ele reconheça que é míope para os seus próprios erros. Isso
dá a ele o sentimento de estar rodeado por seres inúteis ou de estar
sendo dirigido por incompetentes.
Eis aí um tipo de encontro que pode acontecer conosco tanto
num centro de saúde mental quanto no consultório de um psicana­
lista, no qual nós podemos estar diante de fenômenos que podem
ser conforme as nuanças, que podem ser testemunho de uma posi­
ção subjetiva ou de uma outra. Não poderíamos supor que nesse
sujeito o registro imaginário, do qual testemunha o seu narcisismo,
essa alta concepção que ele tem de si mesmo, vem se enovelar ao
real do gozo, se ligar ao real do gozo, sem poder se apoiar sobre o
artifício do Nome do Pai, que permitiria, então, uma negativação
desse gozo? Tanto que nós temos a impressão que, para ele, o gozo
retoma no real, como uma sensação na relação com as mulheres,
uma angústia, e esse ponto de incapacidade do qual testemunha
esse seu primeiro encontro infantil com essa menininha.
Não vou continuar relatando essa observação, eu a utilizei
apenas para evocar um tipo de encontro em que os fenômenos

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Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

podem se distribuir numa estrutura ou em outra, sem que nós te­


nhamos, para nos apoiar, a presença ou ausência de fenômenos
típicos. Alguns sujeitos vêm, por exemplo, se queixar de pensa­
mentos compulsivos. Um sujeito vem se queixar que ele tem o
tempo todo a idéia de cortar os seus cabelos, de raspar sua cabeça,
de cortar o seu pescoço, de furar seu próprio corpo, de furar seus
olhos. Então, por isso ele tem fobia de tudo que tem ponta, tudo
que corta. Será que devemos situar esses pensamentos, esses me­
dos fóbicos do lado do neurótico ou do lado de uma impulsão,
furar os olhos, cortar o pescoço, quer dizer, atingir a si mesmo na
própria vida? Devemos tomar isso como uma tentativa de realizar
uma castração no real, tentativa de simbolizar a carne, mas com
meios reais? O que nos orienta mais no lado da hipótese da psico­
se é a frase que ele diz, em determinado momento: "é como se a
idéia de ser criminoso de mim mesmo, de fazer um crime contra
mim mesmo, me fosse mais suportável do que a idéia de fazer um
crime contra um outro", que fala de alguma coisa da ordem de
uma passagem ao ato, do assassinato, enquanto o retorno no real
de uma castração, uma negativação que não pode se realizar sim­
bolicamente.
Muitos sujeitos vêm, sej a para se queixar, sej a para expor,
para falar de uma tendência homossexual, do medo de ser homos­
sexual, de práticas homossexuais, sem que nós possamos necessa­
riamente atribuir essa homossexualidade a uma oposição subjeti­
va mais do que a uma outra. É o próprio Lacan que nota, na "Ques­
tão Preliminar", que a homossexualidade deve ser considerada
como sintoma. Devemos considerá-la aí como uma tentativa do
sujeito de encontrar uma solução que o leva a se colocar como
objeto do Outro, objeto do Outro enquanto aquilo que tem para ele
uma dimensão persecutória. Então, a homossexualidade pode ser
uma espécie de conciliação com essa posição. É uma maneira de
tratar uma questão que é para ele o destino de ser, de certa forma,
feminilizado, diferentemente de uma sexualidade que é o desmen-

abrecampos - Ano I - n11 0 - Junho/2000


39
Alfredo Zenoni

tido ou a recusa da castração, no entanto, inscrita. Então, distin­


guimos uma homossexualidade que é uma tentativa de Jetichizar a
castração, de uma homossexualidade que é, ao contrário, uma ten­
tativa de assumir seu ser de gozo, ao encontrar o gozo do Outro
como perseguidor.
É então, uma clínica bem diferente ou um outro aspecto da
clínica que nós temos, quando consideramos o que é comum a
todo ser falante. Antes de partir do que se opõe à classe dos seres
falantes, nós partimos do que define essa nova clínica, do que de­
fine o ser falante, enquanto que a linguagem tem efeito sobre o
real do corpo e introduz o que Lacan chama de uma outra satisfa­
ção, um gozo além do princípio do prazer, que é também a pulsão.
Então, todo ser falante, quer seja ele neurótico, psicótico ou per­
verso, tem relação com uma linguagem que bate no seu corpo,
que o marca, que o esvazia do seu gozo, que dá origem a outras
formas de satisfação, que nós chamamos com Freud de: as pulsões.
Então, com essa nova clínica, nós nos interrogamos menos sobre
os fenômenos típicos, do que sobre os fenômenos que são comuns
a todo ser falante, enquanto afetado pela linguagem. A grande ques­
tão dessa nova clínica ou desse aspecto da clínica, é a do estatuto
da pulsão. Nós estamos menos ligados aos fenômenos de lingua­
gem do que às modalidades de gozo e aos diferentes estatutos da
pulsão, segundo as diferentes estruturas subjetivas.
Como vocês sabem, há toda uma tradição da psicanálise que
relaciona as diferentes estruturas clínicas aos diferentes estágios
pulsionais. Por exemplo, a melancolia é relacionado com a pulsão
oral, a neurose obsessiva com a pulsão anal, etc. A posição que
nós tomamos, com Lacan e com Freud, é considerar que todas as
pulsões estão em jogo em todas as estruturas clínicas e o que dife­
rencia as estruturas clínicas são as modalidades da pulsão. Não se
trata de opor a oralidade à analidade, como duas estruturas clíni­
cas distintas, mas de opor uma forma de oralidade a uma outra
forma de oralidade. Por exemplo, uma maneira de não comer a

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Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

uma outra maneira de não comer. Uma maneira de não comer que
consiste numa estratégia de insatisfação, que consiste em comer
nada, como diz Lacan, a uma outra maneira de não comer, por
exemplo, porque a comida está envenenada, ou de não comer por­
que se sente morto. Cada vez, a pulsão oral está em jogo, mas
segundo modalidades diferentes. Mas, muitas vezes, os fenôme­
nos são muito próximos. Como não estamos falando de fenôme­
nos típicos, devemos cada vez tentar ver qual a lógica subjetiva
que está em j ogo. Esta lógica subjetiva depende essencialmente
do estatuto do gozo, ou do estatuto da pulsão. Por exemplo, o fato
de não comer ou de comer nada, pode ser representado por esse
circuito, onde esse nada que se come, é constituído essencialmen­
te por uma ausência de objeto. Lacan diz, por exemplo, que o cú­
mulo da pulsão oral consiste em pedir o menu. Quando nós come­
mos, enquanto seres falantes, nós comemos também uma outra
satisfação que é feita da culinária, das maneiras de estar à mesa, da
preparação, que é algo não substancial. Isso é a satisfação pulsional,
que faz com que, quando nós comemos, nós comamos também o
vazio. O que faz com que comer não sej a satisfazer uma necessi­
dade.
A anorexia neurótica acentua essa dimensão do vazio, talvez
como defesa contra o desejo, diante de um Outro que sabe qual é o
objeto que o sujeito gostaria de ter. Para defender seu desejo, o
sujeito busca uma outra satisfação que é essa satisfação de comer
nada. Ou a pulsão oral pode não se organizar nesse circuito. Não é
um ponto que o sujeito vai contornar no campo da alimentação,
que motiva seu desejo, sua atividade. Mas é o sujeito mesmo que
é esse objeto, o sujeito mesmo que não está separado deste objeto
e então nós estamos diante do que nós poderíamos chamar de pulsão
do Outro. Nós estamos também diante da oralidade, mas é o sujei­
to que, por exemplo, quando ele se olha numa vitrine, como me
dizia recentemente um sujeito, tem a impressão de ver a goela de
Deus que quer devorá-lo, ou então é a criança psicótica, que só

ab recampos - Ano I - na o - Junho/2000


41
Alfredo Zenoni

come a beirada do biscoito porque a satisfação de comer é uma


satisfação do Outro. É ele mesmo que corre o risco de ser comido
pelo Outro. Então ele só come o cantinho do biscoito. É sempre a
oralidade, mas sob uma outra forma fenomenológica.
Essa nova clínica é essencialmente uma clínica que trata do
estatuto do gozo, das modalidades de retomo do gozo, que não se
limitam aos fenômenos típicos da psicose como na alucinação au­
ditiva ou nos fenômenos de linguagem. São também aspectos de
retomo do gozo no corpo ou no ato, no agir. Há também retomo
do gozo nos afetos e, ao mesmo tempo, essa clínica do retomo do
gozo é também uma clínica que tem a vantagem de ser uma forma
que o sujeito encontra de tratar o retomo do gozo. Enfim, na pri­
meira clínica, que poderia ser deduzida do primeiro ensino de
Lacan, nós estávamos diante das conseqüências negativas de uma
falta. Nessa nova clínica das psicoses, ou simplesmente nessa clí­
nica, clínica das modalidades de gozo, não estamos somente dian­
te das conseqüências negativas de uma falta, mas nós estamos di­
ante de soluções positivas, de invenções da parte do sujeito. Mes­
mo que essas invenções possam ter um caráter dramático, elas são
sempre consideradas sob um ângulo de tratamento. No limite,
mesmo a auto-mutilação pode ser considerada como uma forma
dramática de tratamento do gozo.
Então, o interesse prático e clínico dessa nova teoria é de nos
permitir encontrar o sujeito psicótico no processo do seu auto­
tratamento e de poder nos apoiar sobre o que ele próprio inventa,
sej a para prolongar isso, sej a para deslocá-lo. Para prolongá-lo,
por exemplo, no caso de Giovani, acompanhando-o na procura de
uma profissão, onde ele não estej a tanto em relação com os outros,
mas em relação com os livros; por exemplo, encorajando-o a en­
contrar um trabalho de bibliotecário. Ele vai acabar se apaziguan­
do com um trabalho de bibliotecário na Universidade. Mas quan­
do estamos diante de formas de tratamento dramático, selvagens,
não se trata apenas de acompanhar o sujeito, mas de se inserir no

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Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

seu próprio tratamento para tentar transpo-lo a um plano mais da


ordem do semblante, permanecendo no veio do que ele mesmo
inventa. Considero que a clínica do segundo tempo do ensino de
Lacan não é simplesmente uma clínica que não segrega o sujeito
em classes, que opõe os positivos e os negativos, mas é uma clíni­
ca que nos dá instrumentos para acompanhar o sujeito, nas elabo­
rações do tratamento que ele mesmo coloca. É disso que nós va­
mos falar hoje à tarde. Obrigado.

Discussão:

Francisco Paes Barreto : Dois breves comentários. Inicial­


mente um comentário mais geral. Eu gostaria de situar para Zenoni
duas características de Minas Gerais. A primeira é uma forte pre­
sença da clínica lacaniana nos serviços públicos da rede de Saúde
Mental, no tratamento de psicóticos, no tratamento de toxicôma­
nos, no tratamento de crianças e de neuróticos. Esse é um primeiro
aspecto. Evidentemente, tudo isso chama a atenção e coloca num
primeiro plano os direitos do sujeito. Uma questão ética ligada à
clínica lacaniana. Eu diria, por exemplo, com relação ao psicótico,
que a presença da clínica lacaniana no serviço público vai nos
lembrar a todo momento que o louco é um sujeito. Além dessa
questão clínica, surgem inevitavelmente implicações políticas
como, por exemplo, aquelas que têm a ver com os direitos do ci­
dadão. Para nós, afirmar que o louco é um cidadão, tornou-se
corolário de o louco é um sujeito. Consequentemente, nós tive­
mos que assumir posições políticas e o que me interessa ressaltar
aqui é que a clínica lacaniana, em Minas Gerais, estabeleceu uma
aliança com a reforma psiquiátrica. Não havia outro caminho a
seguir, dada a brutalidade da segregação produzida pelos asilos,
pelos manicômios. A segunda característica seria essa aliança em
Minas Gerais da clínica lacaniana com a ref�rma psiquiátrica. É
um comentário mais geral que eu trago para o conhecimento de

ab recampos - Ano I - no. O - Junho/2000 -------

43
Alfredo Zenoni

Zenoni, se ele j á não sabe disso, e passo agora a um comentário


mais específico, do que foi dito aqui hoje.
Zenoni nos traz de uma maneira muito feliz, muito rica, con­
tribuições para um tema que é um antigo tema nosso, vamos dizer
assim. Zenoni traz de uma maneira inteiramente nova, contribui­
ções sobre um tema antigo. Qual é esse tema? Eu vou dizer: é o
problema da descontinuidade e o problema da continuidade na clí­
nica. Isso nos vem desde a velha psiquiatria clássica. Eu vou lem­
brar aqui dois autores que nos são familiares: Kraepelin e
Kretschmer. Kraepelin na linha da descontinuidade e Kretschmer
na linha da continuidade. Por exemplo, Kraepelin estabelecia uma
oposição entre demência precoce e loucura maníaco-depressiva,
haveria uma polaridade entre elas. A demência precoce seria uma
entidade mórbida, a loucura maníaco-depressiva seria outra enti­
dade mórbida. Estaria ai a questão da descontinuidade na psiquia­
tria clássica. Já Kretschmer fala em continuidade no campo da
esqui zofreni a, por exemp l o . Esquizotímico, esquizóide,
esquizofrênico. Fala da continuidade na psicose maníaco­
depressiva, por exemplo. Ciclotímico, ciclóide e psicótico manía­
co-depressivo. Mas ele vai mais além, ele coloca uma continuida­
de mesmo entre esquizofrenia e psicose maníaco-depressiva. Ele
dizia o seguinte: "não há aqui uma polaridade, há uma gradação".
Diante de um psicótico, nós devemos nos perguntar até que ponto
ele é esquizofrênico, até que ponto ele é maníaco-depressivo. Toda
uma idéia de gradação está presente em Kretschmer. Isso continua
na psicanálise. Na linha da descontinuidade eu vou citar Lacan
com as estruturas clínicas. Lacan nos fala claramente que há uma
demarcação entre neurose, psicose e perversão. Ele faz uma críti­
ca do borderline. Sua frase "não é louco quem quer" aponta para a
estrutura. Já Melaine Klein, está na linha da continuidade. Ela fala
em núcleo psicótico, o nosso núcleo psicótico. Ela fala de uma
continuidade, e é a partir das concepções dela que foi possível
surgir o borderline. Então, nós temos, na psicanálise, de um lado

------ ab recampos - Ano ! - no. O - Junho/2000


44
Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

Lacan, com a clínica da descontinuidade, das estruturas clínicas e,


de outro lado, Melaine Klein com a continuidade. O que Zenoni
nos traz é a última clínica de Lacan. Uma última clínica que recoloca
a questão da continuidade. Lacan, na sua última clínica, na sua
clínica borromeana, trazendo a questão da continuidade. Mas, e aí
vem meu último comentário, não de uma maneira que signifique
um abandono da antiga posição. Lacan não abandonou uma clíni­
ca da descontinuidade para abraçar uma clínica da continuidade. A
posição dele é mais complexa. A nova clínica de Lacan não exclui
a antiga. A clínica borromeana que é, nesse aspecto, uma clínica
da continuidade, não abole a velha clínica lacaniana das estrutu­
ras. Como é possível isso? Como é possível evoluir para uma clí­
nica da continuidade, sem abolir uma posição anterior da
descontinuidade? Miller faz uma colocação que eu acho muito fe­
liz. Ele situa a nova clínica através de uma lembrança de Leibniz.
Leibniz estabelece uma oposição, uma polarização entre repouso
e movimento, para mais adiante dizer que o repouso é um estado
particular do movimento. Em Leibniz nós temos, de maneira rigo­
rosa, como é que a descontinuidade pode conviver com a conti­
nuidade, sem haver uma exclusão mútua. Através desta lembran­
ça, eu encerro o meu comentário, agradecendo mais uma vez a
Zenoni e passando adiante.

Alfredo Zenoni: Eu gostaria de dar uma resposta ao comen­


tário de meu colega. De fato, uma leitura unilateral dessa clínica
do último ensino de Lacan pode acontecer no sentido de tomar
caduca a primeira clínica, de relativizar a tripartição clássica: neu­
rose, psicose, perversão. Eu queria dizer que não é essa tripartição
que é relativizada. O que é relativizado é a relação entre uma es­
trutura clínica e os fenômenos. São os fenômenos que são
destipificados. A colocação em continuidade das três estruturas
não é uma abolição da diferença entre elas, mas uma relativa abo­
lição das estruturas e fenômenos patognomônicos. A conseqüên-

abrecampos - Ano I - a o - Junho/2000


n

45
Alfredo Zenoni

cia disso é que nos exige um maior labor de construção. A clínica


não consiste simplesmente em aplicar uma lista de sintomas pré­
estabelecido, mas, a cada vez, em construir uma lógica, em desta­
car a convergência de fenômenos. Na clínica mais classificatória,
nós opomos fenômenos típicos entre eles. Isso pode contaminar
também a clínica lacaniana quando vamos, muito depressa, opon­
do os fenômenos. Por exemplo, se num relato clínico há uma refe­
rência à presença do pai e nós dizemos que não é psicose. Se há
presença da demanda, de questão, é uma neurose. O risco de uma
clínica classificatória é de conectar muito estreitamente os fenô­
menos com uma determinada estrutura, porque o apelo ao pai está
presente também na psicose, ao passo que a demanda é também
transclínica. Diferentes estruturas se apresentam em modalidades
diferentes. Então, não se trata de opor classes de fenômenos, fenô­
menos típicos opostos a outros fenômenos típicos, mas de desta­
car lógicas diferentes do mesmo fenômeno, por exemplo, lógicas
diferentes do apelo ao pai, lógicas diferentes da castração, da pulsão,
lógicas diferentes dos fenômenos de oralidade, j á que a pulsão não
é um fenômeno.

Elisa Alvarenga: Eu queria dar como exemplo a lembrança,


que me ocorre, de um paciente que vem a um plantão do hospital
psiquiátrico e que fica caindo no chão, caindo e rolando no chão.
À primeira vista parece uma conversão histérica e hoje, nessa nova
clínica de Lacan, essas quedas ao chão que pareciam uma conver­
são histérica, seriam chamadas nessa nova clínica, de neo-conver­
são. Ou seja, esse paciente terminou por fazer um quadro catatônico
muito grave e foi finalmente diagnosticado como esquizofrênico
catatônico. Esse paciente que no plantão parecia um histérico, fez
um grave quadro de esquizofrenia catatônica. Parecia uma con­
versão, mas era um fenômeno inicial da psicose que se manifesta­
va daquela forma. Então, acho que isso é o que os psicanalistas
estão chamando atualmente de neo-conversão. Parece uma con-

------- abrecampos - Ano I - na o - Junho/2000


46
Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

versão histérica, mas é um fenômeno a ser considerado dentro de


uma nova lógica para se pensar o diagnóstico.

Platéia: Eu queria fazer mais um comentário, ao comentário


de Barreto, à conferência de ontem de Zenoni e à de hoje. Eu fi­
quei muito bem impressionado com essa proposta da clínica, des­
sa nova clínica. Ontem eu estava pensando, o Barreto estava ci­
tando hoje a questão da aliança entre a clínica lacaniana e o movi­
mento que fazemos e que chamamos, às vezes de reforma psiqui­
átrica, às vezes de luta anti-manicomial. Esse movimento foi ini­
ciado na terra de Zenoni, por Baságlia e aí eu chamo a atenção
para aquela questão da função social da instituição. b que deve­
mos à Baságlia é o fato dele ter iniciado essa questão do ponto de
vista mundial. Foi o primeiro que questionou, que apontou a con­
tradição da função social estar se sobrepondo sempre à função
clínica, às vezes até impedindo a função clínica. Baságlia foi o
primeiro a apontar essa contradição. O seu trabalho, evidentemen­
te, iniciou um processo de desmontagem dessa função social que,
analisada historicamente, tinha muito mais efeitos de exclusão, do
que efeitos clínicos. Então, o trabalho iniciado com Baságlia é no
sentido de inventar outra instituição que não capturasse essa pes­
soa que nos demandava. A crítica que podemos fazer ao movi­
mento italiano é que, uma vez iniciado esse processo indispensá­
vel, louvável, repito que nós devemos isso a Baságlia, a clínica se
perdeu. Quer dizer, não cuidaram da clínica, a clínica se disper­
sou, ficou-se achando que as ações sociais pudessem resolver essa
questão clínica. Aí sim houve uma segregação daquelas pessoas,
principalmente dos psicóticos, ou seja, eles não tinham onde aportar
porque não havia um esquema clínico que pudesse dar conta dessa
abordagem. Essa que é a crítica que podemos fazer a Baságlia, a
questão clínica não foi suficientemente abordada. Penso que isso
é questão de tempo, alguma coisa vai acontecer, como já está acon­
tecendo em Santos, que repete mais ou menos o movimento da

ab recampos - Ano l - na O - Junho/2000 ------

47
Alfredo Zenoni

Itália. Uma clínica do sujeito se impõe para que essa segregação


não ocorra. Mas, todas as clínicas anteriores a essa que Zenoni
está citando hoje, todas elas, contribuíram talvez involuntariamente
para colocar o doente mental como um desqualificado social. A
inscrição dele na cultura era de um menor, uma pessoa deficitária,
uma pessoa onde falta algo, um ser humano que teve a sua
estruturação deficitária. Então, a inscrição social, a inscrição cul­
tural destes doentes sempre foi negativa. Acho que essa clínica
que Zenoni propõe hoje possibilita desfazer politicamente, cultu­
ralmente, esse lugar do louco como um elemento desqualificado.
É a clinica positiva. O louco, dentro dessa formulação, é um
batalhador, é um sujeito que trabalha para lidar com a dispersão
do gozo, com as dificuldades pulsionais. Ele trabalha
'
positivamente
e é um trabalhador que consegue verdadeiros milagres com essa
disposição, com essa estrutura que ele tem. Eu acho importante,
inclusive me alonguei nesse comentário exatamente para colocar
essa questão da clínica. É a primeira vez que eu vejo uma clínica
que coloca o doente mental de forma positiva. É um trabalhador,
uma pessoa que procura viver da melhor maneira possível, dis­
pondo de diversos arranjos do gozo. Eu acho isso muito importan­
te do ponto de vista clínico, muito importante do ponto de vista
social e muito importante no sentido da construção de uma nova
cultura; que essa diferença sej a um diferença positiva.

Augusto Nunes: eu tenho só um comentário a fazer.


Eu acho que deve ser ressaltado uma coisa que, através do
gozo, o que você propõe na sua colocação é um retorno radical ao
conceito de pulsão. Porque se antes na primeira oposição se fazia
oposição entre presença e ausência, a partir do momento que as
estruturas se estabelecem, isso não se toma mais necessário. En­
tão é possível fazer uma oposição mais determinada do pulsional
com o que não está mais nesse campo, como as demências, os
quadro orgânicos, etc. Então eu acho interessante retomar que a

------ ab recampos - Ano I - na o - Junho/2000


48
Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

novidade é muito antiga. Já está lá nos famosos "Três ensaios" e


que me agrada muito esses retornos e essas retomadas, no que
poderíamos chamar uma retificação teórica cada vez mais apurada
da psicanálise.
Alfredo Zenoni: Eu agradeço seu comentário que me permi­
te entender um pouco melhor como no estrangeiro situa-se a figu­
ra de Baságlia e a função que ele pode ter na reforma psiquiátrica,
apesar da contrapartida anti-clínica. Eu vou responder também fa­
zendo um comentário sobre o estudo de caso que nós fizemos on­
tem de manhã. É alguma coisa que me foi sugerida pelo fato de
que o diagnóstico foi mudado a partir de 1.994. Antes era psicose
esquizofrênica e depois se tomou PMD unipolar. Isso me pareceu
um sinal de uma mutação na clínica psiquiátrica, regressiva, se
posso dizer, na medida em que os problemas do humor generaliza­
dos correm um risco de levar a psicose para o lado do orgânico. Eu
vejo muito, nos hospitais de Bruxelas, por exemplo, o diagnóstico
de PMD estava mais presente em detrimento dos outros diagnósti­
cos. Eu me pergunto se a difusão desse diagnóstico de PMD não
assinala um retomo a uma clínica do déficit e nós devemos defen­
der uma clínica diferencial das psicoses, no sentido que Lacan diz
que a operação de Freud nesse assunto das psicoses, foi a de intro­
duzir o sujeito. Me parece que defender a paranóia e a esquizofrenia
contra a psicose maníaco-depressiva, para dizer as coisas um pou­
co grosseiramente, é solidária de uma defesa do sujeito na clínica,
mostrando que a psicose faz parte de uma posição subjetiva.
Agora, podemos dizer que o segundo e o terceiro tempo do
ensino de Lacan é uma espécie de segundo retomo a Freud, ao
Freud das pulsões. O primeiro retomo a Freud de Lacan é um re­
tomo ao Freud das formações do inconsciente, da estrutura lin­
güística da interpretação, da prática da psicanálise. O segundo re­
tomo a Freud de Lacan é um retomo ao que, na própria prática da
análise, há de satisfação pulsional ineliminável. Tudo na prática
da psicanálise não é significante, mas era necessário que Lacan

abrecampos - Ano I - no. O - Junho/2000 -------

.f ()
Alfredo Zenoni

passasse pela estrutura lingüística para que a satisfação própria à


pulsão não fosse confundida com uma satisfação do organismo,
para que ela fosse, então, o que Lacan chama de outra satisfação,
que está ligada ao fato de ser falante, mas que é, no entanto, uma
satisfação. É de fato, um retorno à pulsão, mas a uma pulsão
desbiologizada. É essa a segunda clínica de Lacan, que é mais
uma clínica, ao mesmo tempo, da transferência e uma clínica do
sintoma como solução. Não somente de um sintoma que deve ser
decifrado, mas do sintoma como efeito de criação. Embora ainda
devamos aí diferenciar a neurose e a psicose, há alguma coisa em
comum às duas. Nos dois casos o sintoma aparece vindo no lugar
de uma certa impossibilidade, a impossibilidade da relação sexu­
al, ou a impossibilidade do Outro ser completo. Então, há uma
perspectiva de continuidade entre a neurose e a psicose através do
sintoma na sua relação com a pulsão.

Elisa Alvarenga: O que Zenoni está colocando é uma forma


de falar da psicose estritamente dentro da causalidade psíquica. É
um retorno a uma causalidade psíquica da psicose, que muitas ve­
zes foi confundida com quadros orgânicos.

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50
Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

A Psicose Fora do Desencadeamento

Alfredo Zenoni: Ontem nós evocamos uma manobra na trans­


ferência que coloca a equipe de técnicos em uma posição em rela­
ção à transferência, análoga àquela do secretário do alienado, com
esse duplo esvaziamento do saber e do querer que comporta a prá­
tica feita por muitos. Isso supõe se fazer de destinatário dos sinais
que são endereçados. Trata-se de escolher isso mais do que aquilo.
Mas, como eu dizia ontem, isso só designa a condição necessária
para presentificar um Outro da transferência, que tenta não ficar
preso na perseguição ou na erotomania. Essa é a condição neces­
sária em relação à transferência. Mas há todo um outro aspecto do
tratamento que está implicado nessa noção de secretário do alie­
nado e que é a de acompanhar o trabalho que o próprio sujeito
psicótico já iniciou. E aqui não é tanto a noção de interpretação
que guia a prática do analista, precisamente pelas razões que aca­
bamos de dizer sobre a transferência, mas antes a noção de cons­
trução. No plano da interpretação, é o próprio sujeito que se ocupa
disto. É toda a dimensão da linguagem que comporta a elaboração
do sentido. No entanto, essa elaboração de sentido, que é a do

abrecamp o s - Ano I - no. o - Junho/2000 ------

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Alfredo Zenoni

tempo para compreender, tende irresistivelmente, cedo ou tarde,


para um momento de conclusão, um momento de conclusão que
na psicose atinge o real do sujeito. Não somente em um ato, mas
em uma passagem ao ato. É por isso que no plano da elaboração
do sentido, no plano da interpretação, Lacan sublinhou a anotação
freudiana do trabalho de Schreber, a saber, o caráter assintótico
desta elaboração. A posição do analista, em relação ao trabalho de
interpretação, é, antes, negativa. É, antes, não fazê-lo, não é de
encoraj ar essa elaboração de sentido.
Uma colega de Bordeaux notava, durante a última reunião
das Seções Clínicas, que o essencial na relação com o clínico, no
que conceme à interpretação, ao delírio, é que isso deve ter um
caráter terceiro entre o sujeito psicótico e o clínico. É suficiente
que o psicanalista fique avisado que essa elaboração de sentido
pode tomar um caráter de objeto. Mas, não se trata de encorajá-la,
de desenvolvê-la, porque a elaboração de saber comporta sempre
deciframento, tradução, explicação. Ela pode levar a essa dimen­
são de enigma, de alguma coisa que não é decifrada, que não é
compreendida, que pode ter um caráter persecutório para o sujei­
to, que pode levar o sujeito a se interrogar sobre o quê o psicana­
lista quis lhe dizer. De maneira geral, a elaboração de saber corre
sempre o risco de passar ao real para atingir um momento de con­
clusão, um momento de nomeação absoluta, do ser do sujeito. Isso
é muito próximo da passagem ao ato. Então, em nível da elabora­
ção de saber é melhor que o clínico permaneça discreto.
Há todo um outro plano da linguagem que merece ser enco­
raj ado, sublinhado, que é o plano no qual o significante pode se
tomar como real. Um significante não tanto enquanto ele envia a
um outro significante para produzir um sentido, mas o significante
isolado, de certa forma. Um significante que não reenvia a outro
significante; não é um significante que coloca a questão: o que
isso quer dizer? Então, é o significante no seu estatuto de letra ou
de número. E aqui podemos encorajar práticas que se fazem justa-

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Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

mente na borda do sentido, que impedem o sujeito de abordar a


zona do sentido. Já em um nível muito elementar, podemos consi­
derar todas as práticas que utilizam o significante enquanto ele
não quer dizer nada, práticas de estudos de línguas, que estudam a
gramática, a sintaxe, o dicionário, que abordam a linguagem não
sob o ângulo do sentido, mas sob o ângulo da sua combinatória
formal. Nesse estudo de línguas, constatamos o seu interesse para
a linguagem como máquina. Então, o interesse pela informática,
enquanto que isso tem o efeito de afastar o sujeito da dimensão
interpretativa, o interesse pela matemática, pela lógica, é cada vez
abordar a linguagem separada do sentido, separada do momento
de concluir. É por isso que nas nossas instituições nós favorece­
mos a introdução dos computadores. O interesse pelos j ogos de
linguagem, pelas palavras-cruzadas. Tudo que é combinatório na
linguagem independente do sentido. Um outro aspecto da lingua­
gem, enquanto separada da dimensão do sentido é justamente a
linguagem enquanto escrita, enquanto letra. Os testemunhos são
muitos a mostrar que o recurso ao escrito permite a um sujeito
continuar um longo tratamento, sem que haja rupturas ou passa­
gens ao ato. Eu mesmo recebo uma senhora, uma mulher jovem,
que tinha muitas dificuldades para falar e cujo tratamento consis­
tia numa constante verificação para que eu não a mandasse embo­
ra. Antes de vir à sessão, ela ficava na maior angústia e ela se
encontrava, depois da sessão, em um vazio insuportável. Pouco a
pouco, ela mesma encontrou uma solução que consistia em vir às
sessões para localizar aí a presença, mas que isso se separasse da
dimensão do sentido e da interpretação. Então, ela colocava den­
tro da minha caixa de correio um texto com todos os seus sonhos,
cuidadosamente datilografados, endereçados ao meu nome, assi­
nados pelo seu nome. Tanto que a interpretação do sentido que
está presente nos sonhos, os sonhos que são, por definição, enig­
mas a decifrar, encontrava-se transformada em uma espécie de
poema, que ela depositava no meu consultório. Não para que eu os

ab recampos - Ano I - na o- Junho/2000 -------

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Alfredo Zenoni

interpretasse, mas para que eles fosse depositados, guardados en­


quanto escritos, reduzidos à sua letra. Nós tomamos essas referên­
cias das relações do escrito com a psicose nas invenções do pró­
prio sujeito psicótico, em todo caso é a hipótese de Lacan - a in­
venção de uma escrita totalmente isolada do sentido. Talvez não
seja justo dizer totalmente isolada do sentido. Nós poderíamos dizer
até mesmo o contrário, tão cheia de sentido, que não temos mais
nenhuma questão para colocar, nada mais para decifrar. É a inven­
ção dessa escrita por Joyce que tenta eliminar qualquer dimensão
de alusão, todo envio a outro sentido, toda a dimensão do
deciframento e da interpretação, porque ele já inclui, nele mesmo,
todos os deciframentos possíveis, todas as alusões possíveis. Atra­
vés dessa descoberta, ele consegue se liberar do que há de amea­
çador no significante, os ecos ameaçadores do enigma, colocando
isso no papel sob a forma de letras, mexendo com a linguagem,
quase como um objeto de arte, um objeto de arte plástica, como na
colagem, como no cubismo, que faz com que o simbólico perma­
neça real. Isso não é literatura. Trata-se de uma literatura da qual
foi suprimido o sentido. A idéia de Lacan é que a escrita de Joyce
pode dar-nos a idéia de um tratamento possível da linguagem, de
tal forma que essa linguagem· não comporte mais essa dimensão
persecutória, o endereçamento ao sujeito, com todo o trabalho de
interpretação que arrisca retomar contra o próprio sujeito, no sen­
tido de levá-lo a se engajar numa passagem ao ato. Então, a escrita
de Joyce pode fornecer um modelo para práticas menos elabora­
das que podem ser encorajadas na relação com o sujeito psicótico.
Por exemplo, encontramos no hospital uma jovem de vinte e
oito anos que j á tinha um longo passado psiquiátrico, com tentati­
vas de suicídio e com marcas feitas no rosto com lâmina de barbe­
ar. Ela não tem nada a dizer; ela não sabe por que faz isso. Ela só
pode dizer que começou a fazer isso quando fracassou num exa­
me, ao final de um curso. Um rapaz da sua classe teria zombado
dela. Isso se tomou insuportável. Ela consegue, assim mesmo, con-

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Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

tinuar seus estudos, mas as passagens ao ato se tomam tão violen­


tas que ela acaba sendo hospitalizada. Fazem três anos que ela é
hospitalizada constantemente. Cada vez que ela encontra alguém
que zomba dela ou que ela pensa que zomba dela, ela mutila seu
rosto e seu antebraço com todo tipo de instrumentos. O problema
na psicose é que a inscrição da linguagem sobre o corpo, que de­
termina uma perda de gozo, não se encontra localizada numa sig­
nificação de perda simbólica, que é localizada no falo. Então, o
sujeito psicótico deve inventar essa significação de perda e ele só
pode fazê-lo com meios reais. São, de certa forma, significações
de perda realizadas. É por isso que as tentativas de suicídio e as
auto mutilações são freqüentes na psicose. Bem, essas passagens
ao ato, de mutilação do rosto, cessaram quando essa paciente pode
mostrar ao analista cadernos que guardava há dez anos. A partir do
momento em que o analista acentuou essa dimensão da escrita, a
paciente começou a fazer um ritual de escrita, que consistia em
escrever cartas ao seu analista todas as manhãs, diante do espelho.
Ela tinha sua própria imagem no espelho, mas no lugar de marcar
essa imagem com marcas sobre o corpo, ela transpunha essas mar­
cas sobre o papel, com as letras. Era preciso duas coisas: a ima­
gem no espelho e as marcas. E com esse ritual, a passagem ao ato
e as auto mutilações cessaram.
Nós encontramos sujeitos na dimensão dos quais a clínica se
resume a momentos de angústia intensa, de tristeza, que se tratam
com drogas ou com álcool. O problema prático desta clínica é que
ela está sempre ameaçada de uma passagem ao ato suicida, com
progressivas tomadas de drogas ou com auto-mutilações fatais. É
por isso que, ao tratar o consumo de drogas e o consumo de álcool,
isso só pode ser feito se nós encontramos um derivativo ao trata­
mento do gozo pelo real, para então, evitar o tratamento do gozo
no real, pelas auto-mutilações, pelas marcas sobre o corpo. Por
exemplo, nós encontramos no nosso Centro uma mulher de 39
anos que foi muitas vezes hospitalizada para tratar do seu alcoo-

abrecam pos - Ano I - no. O - Junho/2000 ------

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Alfredo Zenoni

Iismo. Nada havia de particular no plano clássico dos sinais de


psicose a não ser que ela dizia que quando cessava de beber tinha
crises de tetania, e ela sentia necessidade de cortar seus antebraços
com pedaços de garrafas. Isso foi uma descoberta por parte dela,
favorecida pelo fato de ela ter encontrado no hospital um homem
que tinha sido pintor. Veio então, a descoberta de começar a fabri­
car obras, espécies de montagens, que eram feitas com pedaços de
vidros. Ela quebrava garrafas, vidros, mas desta vez para recom­
por um objeto porque ela se cortava não com facas, mas com pe­
daços de garrafas. Então, a descoberta dela foi a de fazer um obje­
to de arte com os instrumentos mesmos com os quais ela se feria.
De certa forma, era fazer uma conexão entre o real da marca com
o imaginário estético e a dimensão simbólica da obra de arte, sim­
bólico em nível da letra, daquilo que o simbólico tem de real. Era,
de certa forma, uma estética do corpo despedaçado.
Uma outra paciente melancólica, que havia feito várias tenta­
tivas de passagens ao ato suicidas, tinha tido a idéia de pegar, nas
latas de lixo, todos os pedaços de vidro que ela colava depois so­
bre uma superfície, para fazer disso uma espécie de espelho e ela
chamava essa operação de "se recuperar pela recuperação". Era
preciso que fossem coisas jogadas fora e que esse lixo fosse trans­
formado em direção de uma dimensão estética, estabelecendo as­
sim uma certa distância entre ela mesma e o lixo, uma espécie de
exteriorização do seu ser de dejeto, que a afastava da eminência da
passagem ao ato. Todas essas atividades que colocam em evidên­
cia a conexão do simbólico com o real são atividades que não se
situam no plano da interpretação, mas sobretudo no plano da cons­
trução.
Isso permite destacar uma outra linha de prática bem diferen­
te da dimensão da prática com os neuróticos. É a diferença que o
nosso colega Jean Louis Gault resumia pela oposição entre trata­
mento do sintoma e tratamento pelo sintoma. O tratamento do sin­
toma, que iria do simbólico em direção ao real, na neurose; o tra-

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Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

tamento pelo sintoma que não é feito por alguma coisa que se
desfaz, mas por alguma coisa que se constrói. Se nós soubermos
ocupar um lugar justo na transferência, se nós nos afastarmos de
qualquer posição interpretativa, nós podemos acompanhar o su­
jeito nas suas invenções, no sentido de tomar possível, com o laço
social, mesmo que sej a sob uma forma marginal, o sintoma
construído pelo próprio sujeito. O sintoma pode ser ocasionalmente
também um sintoma somático, e não devemos nos precipitar a
interpretar os fenômenos corporais como se fossem fenômenos
interpretáveis, porque os fenômenos corporais que nós chamamos
de hipocondríacos têm uma função terapêutica. Ao lado de fenô­
menos corporais, nós podemos fazer de tal forma que sintomas se
construam com elementos não semânticos da linguagem, que têm
a mesma função que os sintomas corporais, a saber, de localização
do gozo, de localização da castração real, alhures do que na vida
do sujeito. É nesse sentido que eu dizia ontem que nós estamos,
em relação ao trabalho dos sujeitos psicóticos, na posição de apren­
dizagem, de alunos, mas com esse sujeito, nós somos também se­
cretários do alienado. Essa posição de aluno deve ser uma posição
de alunos ativos. Este tipo de tratamento pode se efetuar tanto no
consultório do analista quanto nas instituições. O que é comum a
ambos é a transposição do tratamento do gozo, do real do corpo,
do real da vida ao real do simbólico, ao que o simbólico tem de
real. Eis aí algumas indicações para dar um idéia do que nós pode­
mos com os sujeitos psicóticos. Obrigado.

Antônio Beneti: Bom, primeiro quero agradecer a contribui­


ção de Zenoni, que nos traz uma conferência extremamente rica
no sentido da clínica da psicose e com um exemplo de trabalho,
através de dois casos clínicos, que nos permitem pensar algo em
relação à clínica da psicose. Parece que tivemos um problema, e
estamos nele ainda, porque sempre que vamos falar da psicose
alguma coisa do real aparece. Deus hoje resolveu fazer chover,

abrecam pos - Ano I - n11 0 - Junho/2000 -------

57
Alfredo Zenoni

com todo esse barulho. De qualquer forma, eu pude escutar alguns


pontos e sobre eles eu vou me deter um pouco para colocar algu­
ma coisa para Zenoni. Primeiro ponto, quando Zenoni traz a ques­
tão do tratamento possível. Sobre o final do tratamento, Lacan é
bastante preciso e ele diz: o osso da cura - não é com essas pala­
vras, mas é assim que eu o leio - o osso do tratamento na psicose
é a manobra da transferência. Colocada essa primeira questão so­
bre a manobra na transferência, Zenoni nos marcou a dimensão
erotômana e persecutória. Penso que uma questão que nos surge,
sempre, na cura da psicose é a dimensão da passagem ao ato rela­
cionada, articulada, associada à transferência, à manobra da trans­
ferência e à dimensão do acting-out na psicose. Bom, Zenoni mar­
cou a exclusão da dimensão da interpretação por parte do analista.
Na cura da psicose, o intérprete é o sujeito psicótico. Já se coloca,
então, uma questão para nós: quais seriam as manobras da transfe­
rência, por parte do analista, fora do campo da palavra? Colocada
essa primeira questão: que tipo de intervenções poderíamos fazer
fora do campo da palavra no manejo desse vínculo?, eu iria para o
segundo ponto, que seriam os lugares possíveis para o analista.
Quis Zenoni se referir à posição terceira do secretário. Eu
pediria que ele fizesse uma distinção, para nós, do lugar da teste­
munha e do secretário. E acho muito interessante que, na cura da
psicose, não há lugar para um analista S2, mas o lugar do apren­
diz, do ignorante quanto ao saber. Uma outra questão, avançando
um pouco, seria a questão do analista com um certo saber fazer,
um savoir faire com o sintoma psicótico. Se eu consigo escutar
aqui, um saber fazer com o sintoma psicótico seria uma escuta do
sujeito psicótico nas suas soluções possíveis, quer dizer, a partir
das soluções possíveis que o sujeito nos traz, e aí estaríamos na
dimensão das três suplências do imaginário, do simbólico e do
real. Zenoni nos traz o exemplo de Joyce com a suplência no real
e de Schreber com a suplência simbólica. Bom, ai uma questão
que ele nos traz e que eu achei muito preciosa, seria a função do

abrecam p os - Ano I - na o - Junho/2000


58
Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

escrito na psicose, porque, se Joyce utiliza um caminho, através


do escrito, com suas epifanias, reduzindo o significante à sua pura
materialidade, à sua dimensão de letra, com toda a extração do
sentido, Schreber faz o oposto, com um texto onde o ponto de
basta vai se dar numa metáfora. Como é que, na cura da psicose,
poderíamos introduzir, seria possível intervenções do analista no
sentido de um encoraj amento à escrita, em determinadas situa­
ções? Ou se aguardaríamos isso como um dado que o sujeito nos
traz, como no primeiro caso clínico que ele nos relatou?
Bom, colocando mais uma questão, nos casos em que estarí­
amos diante de uma estrutura psicótica estabilizada, vamos dizer
estabilizada com toda prudência, estabilizada pela passagem ao
ato, como colocar o sujeito numa experiência pela palavra, ou seja,
num dispositivo analítico? Sabemos que nessas experiências, as
passagens ao ato se reduzem enquanto sua função é de moderação
do gozo. Mas, o mais freqüente é que o sujeito passe ao delírio.
Quais seriam as intervenções possíveis nesse percurso do sujeito
na cura, que pudes sem, de alguma maneira, evitar u m
desencadeamento? Uma questão que eu tenho me debruçado so­
bre ela é a do uso de drogas e de álcool , que me parece,
contemporaneamente, estaria mais excessivo por parte dos
psicóticos. Poderíamos falar, em determinadas situações, da toxi­
comania como uma suplência psicótica contemporânea, em certos
casos, em que cumpriria uma função de estabilização nessa passa­
gem ao ato de se drogar, como uma moderação do gozo, como
algo da ordem do Kakon? Poderíamos pensar isso, e qual o mane­
jo nessas situações? É o que eu pude escutar aqui e colocar para
Zenoni.

Alfredo Zenoni: Bem, eu vou fazer mais um comentário do


que uma resposta. Primeiro eu vou lembrar o que eu disse ontem.
É que não toda a clínica das psicoses pode se endereçar ao analis­
ta. Há estados da clínica que exigem uma resposta institucional.

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Alfredo Zenoni

Então, a questão do tratamento com o analista se coloca quando


este tratamento é possível. Isso não impede que nós possamos cons­
tatar que quando um sujeito psicótico chega a estabelecer uma
transferência com o analista, a necessidade das hospitalizações
diminui. Mas, há mesmo, grosseiramente falando, duas categorias
de psicose, como elas foram chamadas recentemente na conven­
ção de Antibes, nas Seções Clínicas, na França. As psicoses ordi­
nárias, que são as psicoses das quais nós falamos em Antibes e que
são os psicóticos que geralmente vão procurar um analista ou um
clínico. E depois as psicoses extraordinárias, como nós as chama­
mos, tais como a psicose de Schreber. Podemos ter sobre a clínica
das psicoses duas percepções diferentes, segundo uma abordagem
da psicose do ponto de vista da c l ínica que exige u m a
hospitalização, o u sob a vertente da clínica que exige u m trata­
mento a dois. A questão que nós tentamos trabalhar é saber se há
passagens possíveis de uma à outra. Do tratamento a dois ao trata­
mento institucional e inversamente. Hoje, e em outros contextos,
isso foi possível, num contexto de tratamento institucional porque
há, por exemplo, as oficinas, porque eles podem encontrar pesso­
as diferentes, porque há o que nós chamamos de atividade. Então,
há alguma coisa que se passa nas invenções no interior das insti­
tuições que podem ser retomadas no encontro com o analista. Isso
é um comentário geral no espírito com o qual nós abordamos esse
problema.
Como eu dizia ontem, a questão não é saber se podemos pra­
ticar a psicanálise na instituição, mas se o discurso analítico pode
orientar o tratamento a dois e o tratamento feito por muitos na
instituição. Talvez o lugar que o analista pode ocupar no tratamen­
to analítico, na transferência, não é sempre o mesmo segundo o
caso. Nós sabemos que em alguns casos essa transferência pode
ser situada, principalmente, no eixo imaginário, no limite de rela­
ções amigáveis e que, em outros casos, o analista ocupa o lugar da
presença e que não é possível fazer de outra forma. É aí a posição

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60
Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

mais delicada. Isso permite ao sujeito localizar a posição enigmá­


tica na análise ou, para falar da paciente da qual eu falei há pouco,
isso pode lhe permitir se separar da posição de ser a coisa incestu­
osa de seu irmão, de ser isso, a coisa e de deslocar isso para a
transferência. Mas, com o risco, cada vez maior, de uma dimensão
ereto-persecutória. Ela vinha cada vez para saber por que eu a re­
cebia, uma vez que ela era uma merda. Eu sem dúvida iria mandá­
la embora logo. Eu não a suportaria e ao mesmo tempo ela não
suportava saber que havia outras mulheres que vinham ao meu
consultório. Então, essa dimensão da presença, que às vezes nós
ocupamos sem poder fazer de outra forma, está muito mais do
lado do real, de certa forma. No caso da minha paciente, eu acho
que a saída ao que ia se tomar algo difícil no plano transferencial,
ela mesma a encontrou, com essa maneira de encher minha caixa
de correio de cartas. Há então, essa noção de secretário e testemu­
nha. Será que elas são suficientes para pensar a nossa noção? O
que é comum aos dois, testemunho e secretário, é que a dimensão
do saber é deixada do lado do sujeito. De certa forma, a dimensão
do depósito da letra, literal, se encontra do lado do analista. Talvez
a dimensão da testemunha coloque sobretudo a ênfase sobre a di­
mensão do não-saber, enquanto que a dimensão do secretário co­
loca o acento sobre a dimensão da letra. Por outro lado, secretário
não é simplesmente copista. É estar a serviço do sujeito ativamen­
te e não simplesmente testemunha. Mas, a questão da testemunha
é importante no plano do saber.
Agora, Schreber faz o oposto de Joyce. Mas, justamente
Schreber esteve no hospital psiquiátrico. Vocês sabem que ele foi
novamente hospitalizado depois de ter escrito suas memórias.
Schreber é o protótipo do trabalho no plano do sentido, no plano
da interpretação. Mas, a questão é: no plano do sentido e da inter­
pretação, a compatibilidade com o laço social não seria mais pro­
blemática? Maleval notava que a dimensão do delírio na interpre­
tação era compatível com o laço social, quando o delírio se

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Alfredo Zenoni

parafrenizava, tomava uma maneira fantástica, não incluindo as


pessoas em tomo, concemindo um além do mundo. Mas, se o de­
lírio não toma essa forma parafrênica, ou a solução pela metáfora,
que pode dar lugar a escritos abundantes, parece menos compatí­
vel com o laço social, mais exposto às passagens ao ato que o
tratamento pelo real do simbólico, do simbólico enquanto objeto.
Isso não quer dizer que o sujeito se toma mais sociável, ele pode
até ficar mais solitário que o sujeito delirante. Mas, no entanto, é
uma solidão mais distante da passagem ao ato e mais compatível
com o laço social em alguma forma de marginalidade, por exem­
plo. Há sujeitos que podem não mais serem hospitalizados duran­
te anos e eles conseguem combi nar um endereç amento
transferencial com alguma prática da letra, qualquer que seja ela.
Não somente no sentido da escrita, mas no sentido daquilo que
conecta o real com o simbólico, o real com o imaginário, com a
estética. Será que nós podemos encorajar isso no curso de um tra­
tamento?
Na instituição a coisa é mais fácil, porque nós oferecemos ao
sujeito várias possibilidades das quais ele pode se valer no plano
da arte, da informática, da escrita. Na relação a dois, na relação
transferencial, e aí eu falo do papel ativo do secretário, eu não
seria tanto partidário de encorajar o paciente a fazer isso ou aqui­
lo, artificialmente, mas, ao contrário, de apreender qualquer tenta­
tiva que o próprio sujeito evoque, que seja sob o plano de um
álbum de fotografias, de organização de uma viagem. Por exem­
plo, a paciente que eu evocava: a metade das sessões que não é a
metade na qual ela fala do seu irmão ou do seu sobrinho, é consti­
tuída pela programação das suas viagens, com todo tipo de docu­
mentos, de fotos. Mas é ela mesma que traz isso. Se nós não tivés­
semos o trabalho que Lacan fez a partir da psicose, talvez nós
tivéssemos abordado a psicose muito exclusivamente no plano da
interpretação e nós não teríamos dado importância a esse esboços
de invenção que o sujeito traz. Nós teríamos permanecido unica-

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62
Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

mente na vertente do sintoma, como algo a decifrar. Nós ficaría­


mos nos perguntando por que o sujeito traz isso, por que o sujeito
nos coloca nessa posição, ao invés de colocá-lo no plano do sinto­
ma como uma construção. No que concerne ao álcool e à droga, eu
preferiria que você desse a sua opinião sobre esta questão da dro­
ga e do álcool . Se eu entendi bem, acho que você disse que temos
que ter uma prudência na abordagem do sintoma ou da passagem
ao ato no consumo de drogas, prudente no sentido de não tomar
isso como um objetivo do tratamento. Será que você poderia de­
senvolver um pouco essa idéia?

Antônio Beneti: Bom, eu coloquei a questão da prudência de


hipotetizar a toxicomania como uma solução psicótica contempo­
rânea, porque não são todos que utilizam droga que seriam sujei­
tos psicóticos. Esse é o primeiro ponto. Segundo, eu tenho alguns
casos na clínica que se apresentaram, que chegaram a mim como
toxicômanos, com essa passagem ao ato de se drogar e outras pas­
sagens ao ato e que, pelo menos dois, no decorrer do tratamento,
com uma diminuição progressiva do consumo de drogas, vieram a
se revelar, pelo menos na minha escuta, no meu diagnóstico, como
sujeitos psicóticos. Um deles, nitidamente delirante, já tinha tido
uma alucinação verbal antes do uso de drogas e o uso da droga e
do álcool - ele se alcoolizava muito e utilizava muita droga, coca­
ína, maconha, - de alguma maneira impedia ou dificultava, ou não
permitia, o trabalho do delírio. Um outro caso, depois da redução
do uso de drogas com várias reincidências, - periodicamente, ele
faz uma passagem ao ato de se drogar, - trouxe uma situação que
não me parecia bem uma estrutura fantasmática. Ele passa ao ato
de se drogar no momento do relacionamento sexual com a mulher,
faz algumas fantasias, e fantasias sempre no sentido de que ele se
coloque como mulher e imagina um homem que o penetre, nessa
cena. Bom, mas eu ainda não poderia dizer se eu estaria diante de
uma situação neurótica ou de uma estrutura neurótica, de uma

abrecam pos - Ano I - na o- Junho/2000 -------

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Alfredo Zenoni

temática obsessiva, por exemplo, ou se eu estaria diante de um


psicótico porque ele, em determinados momentos, busca alguns
desvios com relação ao tratamento da sua problemática. Por exem­
plo, ele busca a religião, lendo a Bíblia, buscando se confidenciar
com o padre e, em outros momentos faz um discurso onde busca a
solução de seus problemas através da ciência, com citações do
discurso da ciência. É um quadro que eu não tenho claro. Mas
tenho uma clareza, quando a abstinência se prolonga e ele vai tra­
zendo um pouco mais as suas questões da relação com a mulher,
ele tem filhos, - a questão da paternidade, em determinado mo­
mento, é insuportável - e ele se droga muito. Ele vira um verdadei­
ro toxicômano naqueles momentos e se mantém assim durante um
tempo, depois ele retoma. É em nível de consultório, não é na
instituição. Um terceiro caso, de um usuário também de droga e
álcool, inclusive com injeção de vodka na veia, j amais apresentou
um delírio. Tive que contar com a ajuda da instituição em uma
oportunidade. Nunca me trouxe nada que eu pudesse dizer que se
tratasse de um fantasma, uma estrutura fantasmática. Ele está j á
h á alguns anos comigo, está trabalhando e s e casou recentemente.
Mas, depois do casamento, ele me trouxe uma história que ele
nunca tinha me dito, que é dele ter tido um filho com uma mulher.
Ele não sabia disso. A mulher o procura depois de muitos anos e
lhe comunica que ele é pai e ele me relata isso agora, recentemen­
te. Isso aconteceu num período em que ele não estava em trata­
mento, ele havia interrompido porque essa cura é marcada por in­
terrupções. Ele me comunica claramente que teve um quadro
psicótico com alucinações. Bem, periodicamente, é insuportável
para ele a experiência pela palavra, vir às sessões, e ele se droga,
se transforma numa peste, vamos dizer assim, num verdadeiro to­
xicômano, que vai às favelas atrás de drogas, etc. A minha
constatação é que os psicóticos utilizam, cada vez mais, a quími­
ca, vamos dizer assim, contemporaneamente. Não sei se podería­
mos falar de alguma suplência química na psicose. Teríamos que

abrecam pos - Ano I - na o - Junho/2000


64
Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

pensar nos três registros: imaginário, simbólico, real. Não sei bem
como pensar, é uma questão que eu estou nela e trabalhando, um
pouco, sobre a questão que Lacan coloca no Seminário Les non­
dupes errent, quando ele retoma a questão da Pregung, com a ques­
tão da nomeação: você é toxicômano, você é isso, você é aquilo_
Não é muito claro para mim, mas é aí que eu estou.

Alfredo Zenoni: Agora estou refletindo alto. Haveria uma


certa equivalência entre uma espécie de nomeação real, uma no­
meação produzida pelo real da ciência, uma vez que as drogas são
um produto da ciência e a dimensão simbólica da nomeação quan­
do ele diz: sou toxicômano. Eu digo nomeação real em analogia
com os fenômenos psicossomáticos. O fenômeno psicossomático,
Lacan diz em algum lugar, é uma espécie de nome próprio que faz
suplência à nomeação simbólica e que se faz sob a forma de uma
marca real no imaginário, uma incorporação da libido na imagem
do corpo. A libido, ao invés de ficar à deriva, como é o caso da
psicose, onde ela não está localizada, não fica localizada nas zo­
nas erógenas, graças aos fenômenos psicossomáticos, ela se in­
corpora, de certa forma, na imagem do corpo. É o corpo que regis­
tra o traumatismo ante s do inconsciente. O fenômeno
psicossomático é um real no imaginário, que permite uma certa
nomeação.
Será que podemos fazer um analogia com a droga? Um certo
real conectado com o imaginário do corpo, podemos dizer tam­
bém conectado com o princípio do prazer, dá lugar a uma espécie
de nomeação real. Para prolongar o que você dizia em relação à
questão da suplência química. É por isso que o termo de sintoma
introduzido por Lacan, no final de seu ensino, é interessante, pode
ter uma função. Isso permite levar em conta diferentes fenômenos
de conexão entre o real e o imaginário, ou entre o real e o simbóli­
co, para fazer suplência à localização do gozo, tal como ela é
fornecida pelo discurso, pelo discurso do mestre. Eu creio que o

abrecampos - Ano I - na o - Junho/2000 --�------

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Alfredo Zenoni

sintoma, da maneira como Lacan o coloca no final de seu ensino,


1tem essencialmente esse valor de suplência, suplência à função
ique tem o discurso de laço social. Esse sintoma vem no lugar do
fora do discurso, de certa forma. Então, o uso de drogas, cuja fun­
ção você situou no tratamento, deve ser abordado da mesma for­
ma que algum sintoma somático do sujeito psicótico.

Platéia: Como fazer a oferta de uma escuta psicanalítica,


após
o desencadeamento, sem produzir esse efeito de elaboração de sen­
tido, de certa forma, um certo encorajamento, que você falou que
não é indicado? E a questão do delírio como tentativa de cura,
como seria o manejo dessa questão?

Alfredo Zenoni: Sua questão é muito precisa, conceme à psi­


cose enquanto ligada ao desencadeamento, o que nós já dissemos
sobre os fenômenos de linguagem e de interpretação. Aí também
eu creio que o que deve eventualmente ser encorajado, o que seria
encorajador, é que o trabalho interpretativo do sujeito tome a for­
ma de uma construção, de uma sistematização. No sentido em que
Lacan falava de um efeito de estabilização, pela constituição de
uma metáfora delirante. Digamos que nem todo delírio é uma me­
táfora delirante. Uma metáfora delirante é quando o delírio atinge
a função de fazer suplência à metáfora paterna. Portanto, de resta­
belecer, como diz Lacan na "Questão Preliminar", a relação entre
o significante e o significado, com a estabilização. Eu sou mais
parti dário da idéia da minha colega de B ordeaux, Carde
Dewambrechies, que é fazer de tal forma que a dimensão delirante
não permaneça no não dito, que ela seja evocada, mas sem que o
analista encoraj e um desenvolvimento. É algo que deve ser
objetivado, está aí. Isso é introduzido no campo da transferência,
mas não tem especialmente que ser elaborado, pelas razões que eu
disse: não é certo que a elaboração de saber e da significação pos­
sam permanecer numa temporalidade assintótica. Elas podem de-

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Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

sembocar num momento de concluir, paralelamente à elaboração


de saber, que não deve ser necessariamente desenvolvida, nem im­
pedida.
Eu acho que o que é mais favorável e compatível com o laço
social é a promoção, digamos, de práticas que não incluem a di­
mensão da interpretação, práticas de lisibilidade, de não lisibilidade,
práticas objetais da linguagem, literais. Tais que elas possam, oca­
sionalmente, ser depositadas no analista. Como testemunhava
Antonin Artaud, o fato de escrever tinha, para ele, um efeito de
apaziguamento. É uma conexão do simbólico com o real que não
passa pelo real do corpo. O real do gozo, em conexão com o sim­
bólico, sem incluir a anatomia do corpo. Depositar no analista,
isso tem uma função de ponto de basta, de ponto de parada, que
me parece afastar melhor da passagem ao ato do que a elaboração
de saber. É por isso que quando há uma elaboração delirante de
saber, eu acho que nós podemos encorajar a escrita disso, no caso
em que o sujeito mesmo faça essa elaboração de saber, para orientá­
lo num outro tipo de relação com o simbólico, diferente da relação
de sentido, em direção a uma relação do simbólico materializado.
Não o simbólico na medida do que ele quer dizer. Isso permanece,
no entanto, uma questão.

Platéia: Eu queria que o senhor me clareasse: o senhor aten­


de o paciente psicótico em crise. Como lidar com essa crise? Qual
é manejo? Até quando vai a elaboração desse sintoma no trata­
mento mais adiante?
O senhor falou ontem que, muitas vezes, os casos são perma­
nentes. É muito difícil para a nossa clínica prever um ano, dois
anos. O senhor ontem colocou um teto, se eu entendi bem, de dois
anos. Eu queria entender melhor como se dá a alta, quando ela
chega a esse ponto e esse processo que vocês vivenciam lá da resi­
dência, como foi colocado ontem, quando eles se agregam, assim
eu entendi, quando eles se reúnem e passam a morar juntos. O

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67
Alfredo Zenoni

Estado banca isso? Há uma grande diferença, nós estamos apren­


dendo muito com o senhor e nós temos uma grande diferença cul­
tural, econômica, social.

Alfredo Zenoni: Se eu compreendi bem, a primeira questão


é sobre os estados de crise. Como fazer com isso. Por exemplo, a
paciente da qual eu falei, que se cortava com vidros, uma das pri­
meiras reações, porque ela se cortava profundamente, era de fazer
sutura, levá-la a um hospital de urgência para fazer sutura. Inver­
samente, há atos agressivos que, em certos casos, exigem inter­
venção de força. São limites do real. A questão é: nós podemos
nos inspirar naquilo que o próprio sujeito propõe para permitir um
outro uso desses dejetos? Podem ser pedaços de vidros, mas po­
dem ser pedaços de caixas que ele deixa no seu quarto, para que
um objeto fora do corpo seja constituído. Não há uma receita, mas
o importante é não colocar a questão no plano do quê ela quis
dizer, mas do que ela f<l) para ver qual é a função dessa passagem
ao ato e tentar ver se é possível transpor essa função para fora do
corpo, para fora do outro semelhante. Eu sei que não posso res­
ponder à sua questão, mas é ter algumas coordenadas para cada
um dar as suas respostas.
A segunda questão é uma questão mais precisa sobre a práti­
ca que conceme a instituição onde eu trabalho. É verdade que os
contextos são muito diferentes de um país para o outro. Como eu
dizia ontem, em Bruxelas tivemos a vantagem, nos anos 60 e 70,
de ter muitos subsídios da parte dos poderes públicos, que subsi­
diaram muitas residências e comunidades. Agora não é mais a mes­
ma coisa. É um período de austeridade econômica. Então, não é
possível abrir novas instituições, mas as instituições existentes já
permitem uma certa circulação dos pacientes. Nós colocamos esse
limite de dois anos, de preferência, a permitir que o sujeito ficasse
dez anos, achando que assim seria mais favorável a socialização,
um limite para que o sujeito mude de comunidade, vá para uma

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Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

outra comunidade terapêutica, ao invés de ficar muitos anos numa


mesma comunidade, para favorecer a provisoriedade da sua insta­
lação na psiquiatria, para manter o caráter transitório da perma­
nência, mesmo se ele vai ter que ir para uma outra estrutura
assistencial. Isso permite ao sujeito visualizar que ele poderia ter
uma outra forma de se instalar na relação conosco, mas um pouco
separado. Todos são problemas em nível do tratamento, da cura,
mas também em nível da instituição, de introduzir uma separação
assintótica. Da mesma forma que o final de uma análise de um
sujeito psicótico não se coloca da mesma forma que o de um sujei­
to neurótico, porque se trata, na psicose, justamente de evitar o
momento de concluir, em relação à estrutura institucional, em ge­
ral, há algo de análogo que é visado, uma separação e um laço ao
mesmo tempo. É uma separação para que o sujeito possa se ins­
crever no laço social e, no entanto, um laço para que ele não seja
deixado cair. É preciso dizer também que os sujeitos psicóticos
que tiveram a ocasião de ter um salário e de trabalhar, quando a
psicose se desencadeou na idade adulta, às vezes aos 30, 35 anos,
eles têm uma seguridade social e recebem uma pensão. Então, eles
podem alugar um apartamento e viver juntos com esses subsídios,
o que não é o caso de outros países da Europa, onde as condições
econômicas são muito diferentes.

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Discussão de Caso Clínico

Cezar Rodrigues Campos:

Bom dia a todos, especialmente ao nosso convidado Alfredo


Zenoni, muito benvindo entre nós. Eu vou fazer o papel, mais ou
menos, de um relator de caso, um secretário da reunião, porque eu
nunca atendi essa pessoa. Essa pessoa foi atendida, nesses últimos
dezesseis anos, nos vários serviços que nós temos. Então, há aqui,
entre nós, pessoas que atenderam esse paciente em suas internações,
aqui no Instituto Raul Soares (IRS), sempre aqui. Ele passou pelo
Hospital-Dia, um projeto terapêutico já um pouco diferente da
hospitalização e nos últimos dois anos ele está no Cersam Leste. É
um relato que eu fiz mediante a pesquisa em todos os prontuários,
prontuários do paciente e da mãe do paciente. A descrição está um
pouco longa e acho importante que esse caso seja discutido, por- ·
que é um caso muito difícil e, ao mesmo tempo, emblemático de
uma centena de casos dos quais temos que cuidar e, principalmen­
te, agora, com essa variação que nós estamos fazendo em termos
de instituição. Ou seja, temos uma rede que deve dar conta dos
vários momentos da psicose, como prioridade.

abrecam pos - Ano I - na. o - Junho/2000


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Caso clínico:

E.M., 32 anos, sexo masculino, negro, solteiro, desemprega­


do, natural de Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil.
História pessoal e familiar: Nasceu em BH, num bairro pobre
e violento da periferia. A mãe teve eclâmpsia e o parto foi difícil.
Foi amamentado pela mãe por um mês, apesar de proibição médi­
ca. A mãe faleceu e, desde cedo, foi criado pela avó. As informa­
ções sobre a época da morte da mãe, são contraditórias. Não se
sabe quando exatamente ela morreu. O pai aparece pouco na his­
tória. Após a morte da esposa casou-se de novo, afastando-se de
E.M. Aos sete anos de idade foi levado ao médico pela avó, que
receava a loucura da mãe, do pai, dos tios. O médico disse que o
menino era normal. Estudou até a 5a série do 1 o ciclo. Quando
rapaz, trabalhava como servente de pedreiro, nunca teve emprego
fichado ou carteira assinada, o que ele diz ser o sonho de toda a
sua vida. Após a morte da avó, ele então com 1 9 anos, foi morar
com a família da tia, irmã da mãe. Depois com uma outra tia. Não
há relato de namoradas, mas registro de vida sexual com várias
mulheres no seu bairro, nas instituições e em outras partes da ci-

abreca m p o s - Ano I - na o - Junho/2000 ------

71
Alfredo Zenoni

dade. Há relato de uso de drogas e álcool, eventualmente. Não se


apegou a nenhuma. É conhecido no bairro como Bruce Lee,
Silvester Stalone, Doido, Barata. São citadas algumas jornadas com
turmas, mas não são citados nomes de amigos, amigas, etc. Não
tem laços mais profundos. Cita a avó como uma pessoa importan­
te, as tias, os primos e raramente duas irmãs que têm famílias e
moram fora. Fala na mãe com tristeza pela sua morte, não sabendo
precisar a época. Foi quando ele nasceu, ele diz, ou um mês de­
pois. No prontuário, há até uma alusão a que a mãe tenha morrido
quando ele tinha 11 anos de idade. Fala do pai com revolta dizen­
do que nunca ligou para ele, nunca deu apoio financeiro, nem
afetivo.

História da mãe:

Antes de 1964, a mãe esteve internada neste mesmo hospital.


O Instituto Raul Soares era então um hospital para quadros psiqui­
átricos agudos. E no hospital de Barbacena, internavam-se paci­
entes crônicos, dos quais Zenoni viu as fotografias. Não foram
encontrados prontuários dessas duas primeiras internações. De 1 964
à 1968, eu recuperei os prontuários do Galba Velloso, onde ela se
internou mais de cinco vezes. O Hospital Galba Velloso era um
hospital psiquiátrico público, para mulheres em quadros agudos.
Em todas as internações, o quadro clínico predominante era: dis­
túrbio de conduta, heteroagressividade, idéias persecutórias, alu­
cinações visuais: ela via cobras, falava e andava muito, queria sem­
pre fugir do lugar onde estava. Na sua terceira internação, dedu­
zindo pelas datas, estava grávida de E.M., mas não há registros
desse fato no prontuário. Cita-se que teve seis filhos, morrendo
três deles de gastroenterite. Ficaram vivos duas filhas e o caçula,
E.M. Sua primeira crise foi desencadeada no seu primeiro parto.
Relata-se a atração por poços d' água, como o Ribeirão Arrudas,

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Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

querendo sempre pular dentro deles. Ressalta-se, em 1968, na úl­


tima internação dela que está registrada, a sua heteroagressividade,
dirigida ao filho mais novo, no caso E.M., então com 15 meses de
idade. O diagnóstico era psicose esquizofrênica.

A história institucional de E.M.:

A primeira internação ocorreu em 15/03/83 . Não temos da­


dos dessa primeira internação. Um registro posterior informa que
ocorreu por ocasião da morte de uma tia materna. Essa internação
aconteceu no Instituto Raul Soares, o mesmo onde a mãe se inter­
nara 20 anos antes.
A segunda internação ocorreu em 15/05/85. Ele diz que ficou
nervoso, brigou em casa, a tia o acusou de usar drogas, coisa que
ele não fazia. Foi preso. Quando saiu da delegacia, foi nadar no
Parque Municipal, e a polícia o trouxe para o Instituto Raul Soa­
res. Desde então era só ficar nervoso que o internavam. Foi inter­
nado mais treze vezes neste mesmo hospital. O quadro predomi­
nante , em to das as internações, sob o ponto de vista
fenomenológico, era o segui nte : exc itação psicomotora,
taquipsiquismo, humor exaltado, agressividade. Ele batia e chuta­
va outros pacientes quando o contrariavam ou quando pediam coi­
sas a ele. Não tinha limites, quando contrariado ficava irado e era
contido fisicamente ou com grandes doses de neurolépticos. Há
relato de delírios místicos, de grandeza, persecutórios, alucina­
ções visuais e auditivas . O diagnóstico era psicose, psicose
esquizofrênica até 1984 e depois houve uma mudança no diagnós­
tico para PMD unipolar, forma maníaca. Quase sempre era trazido
pela polícia em quadro agudo. Às vezes, era acompanhado por
familiares, outras vinha sozinho, pedindo ou forçando a internação.
Às vezes simulava impregnação, solicitava internação para não
cometer atos violentos que pressentia. Muitas vezes forçava a en-

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73
Alfredo Zenoni

trada e a saída, fugindo no decorrer do tratamento. Demonstrava


conhecer os movimentos da instituição, entrando e saindo de um
território que, por vezes, parecia dominado. Houve muitas recusas
de internação e encaminhamentos ao ambulatório, ao qual nunca
aderiu.
A proposta terapêutica, nessas últimas internações, visava a
erradicação dos sintomas e a reinserção social, quer dizer, condi­
ções para ele viver lá fora através de altas doses de neurolépticos
e, depois, estabilizadores do humor, associados a atividades cole­
tivas, oficinas, grupos, terapia ocupacional. Faziam parte também
do projeto terapêutico tentativas de escuta, por profissionais em
formação. Não havia continuidade, porque os profissionais termi­
navam seus estágios, o próprio paciente interrompia o atendimen­
to, ou a escuta se perdia nas contradições do modelo de atendi­
mento.
Exemplo de al gumas falas colhidas durante algumas
internações são: "estou em missão secreta aqui no hospital. Jesus
Cristo, Nossa Senhora e três capetas apareceram para mim. Tenho
pai, mas não o considero como pai, pois nunca me deu nada. Te­
nho poderes. Sou um preto especial. Deus me escolheu para fazer
o bem. Minha mãe morreu aqui no hospital quando eu nasci, mi­
nha mãe morreu de desgosto, meu pai judiava muito dela. Gosto
do hospital, vocês são minha família. Aqui me sinto em casa, só
falta a chave. Não agüento ficar preso aqui como um leão. Quando
eu sair daqui eu vou matar todos vocês, só porque a minha família
não gosta de mim. Sou Deus, sou santo, sou psiquiatrà, sou forma­
do em direito, eu faço as leis para acabar com os bandidos. Eu
tenho a impressão que sou filho de Deus, sou santo. Eu quero re­
ceber alta para ir para a casa do meu pai. Sou Bruce Lee, sou
Michael Jackson - jack = Deus; son = filho. Estou ouvindo vozes
falando para eu matar as pessoas, para pular na frente dos carros.
Ando enxergando coisas e estou com medo das pessoas. Meu ner­
vosismo é por causa da família. O que eu mais quero é trabalhar

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74
Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Úlcan

fichado, mas perdi a carteira de reservista e a identidade. Ninguém


liga para mim, ninguém me ajuda, me sinto abandonado."
Algumas mudanças foram feitas no modelo de atenção. Até
aqui o tentado era tratamento hospitalar, várias vezes uma tentati­
va de encaminhamento ao ambulatório, ao qual ele nunca aderiu.
Então, aqui começa a introduzir-se alguma coisa nova em termos
de uma tentativa de articulação da instituição hospitalar, com al­
guns serviços abertos. A revisão dos documentos do caso demons­
tra que o hospital, nesse período, funcionou como uma caixa de
repetição, não oferecendo chances de saídas. A oferta do hospital e
ambulatório eram sem consistência, não conseguiam servir de
enquadramento para o caso. As chances começam a aparecer, es­
peramos que não tarde demais, com os serviços externos, como
relato a seguir.
Em 1 994 uma internação foi articulada pela residente de psi­
quiatria, também com formação analítica, que é a Míriam, que
está aqui presente. Ela articulou uma internação com uma passa­
gem pelo Hospital-Dia, com uma seqüência no Hospital-Dia. Ela
fazia uma escuta sistematizada com orientação da psicanálise, isso
está relatado, claramente n<? S prontuários. Havia a medicação
. neuroléptica, estabilizadores de humor e ações coletivas, assem­
bléias, oficinas, esportes. Havia um trabalho interdisciplinar arti­
culado, orientado pela psicanálise. É o processo de trabalho que o
Hospital-Dia do Raul Soares faz. Foi sustentado durante sete me­
ses e foi um período dos melhores em termos de resultados. Isso
dá para ver bem quando olhamos toda a seqüência do tratamento.
Durante todos os tratamentos, a atuação dele é permanente e nesse
período a atuação ficou muito reduzida, a agressividade, aquelas
respostas agressivas ficaram muito reduzidas e o relacionamento
social melhorou bastante. O próprio paciente interrompeu o trata­
mento, ficando seis meses ausente do serviço. Ao retomar, a resi­
dente havia terminado seu curso e não estava mais aqui. A inter­
rupção se deu nas férias da psiquiatra e após o episódio de morte

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Alfredo Zenoni

de uma pessoa de uma turma de seis amigos. Quando saíram para


nadar, um deles morreu afogado. Ele ficava sempre dizendo que
não era responsável, que não tinha nada com isso, que foi um aci,_
dente. Ele só reaparece na urgência do hospital 1 7 meses depois.
Aqui há um episódio, uma parte do tratamento, em que temos que
ver bem o que é que promoveu essa melhora para aproveitá-lo em
tempos futuros. Ele internou-se em crise dia 1 0/0 1197, havendo
outra tentativa de continuidade com o serviço externo. Aí no caso,
o serviço externo havia sido criado recentemente na cidade, uma
rede de serviço que pretende ser substitutiva ao modelo centrado
no hospital psiquiátrico, constituída por centros de tratamento de
crises, os Cersams, os Centros de Convivência e os ambulatórios
de Saúde Mental e unidades básicas de saúde espalhadas pela ci­
dade, 62 no total. São serviços parecidos com aqueles criados em
Trieste no que se refere a considerar os direitos de cidadania, os
sujeitos de plenos direitos como pré-condição para qualquer pro­
jeto clínico. Porém, diferentemente de Trieste, consideram a psi­
canálise um saber imprescindível nesse projeto. E.M. está nesse
serviço de crise há quase dois anos. O projeto consta de uma refe­
rência individual, no caso um psicanalista, que faz uma escuta, um
psiquiatra, que cuida da medicação, e o restante da equipe que
oferece oficinas e atividades coletivas no serviço e fora dele. A
equipe acha que houve uma mudança no quadro, uma melhor es­
tabilização, ou seja, não têm ocorrido, nesses dois anos, as crises
psicóticas que ele tinha antes e sim atuações freqüentes dentro do
serviço, trazendo dificuldade de manejo, divisão da equipe quanto
às formas de lidar com os limites. Como o grupo deve trabalhar
essa questão crucial para o caso e como suportar e manejar essas
atuações agressivas, essa é uma grande questão que nós estamos
trazendo para que Alfredo Zenoni nos auxilie com a experiência
que ele tem. Se houve uma mudança no quadro, se a psicose se
ajeitou de uma outra forma, a estrutura se ajeitou de uma outra
forma, não necessitando mais rupturas violentas, achamos que hou-

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76
Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de wcan

ve um avanço no atendimento do caso. Então, a nossa questão é


como conservar esse estado de melhora, o serviço dando suporte a
essa nova forma de organização da sua psicose e, quem sabe, me­
lhorar alguma éoisa a mais, conseguir mais alguma coisa, ou seja,
uma ascensão social, um emprego para ele, alguma coisa que ele
possa suportar. Por isso, uma das finalidades dessa reunião, inclu­
sive, é ter a ajuda de Zenoni no que se refere a como a nossa equi­
pe vai dar seqüência a este caso, evidentemente articulado com a
rede, de um modo geral. Estão descritos aqui os últimos aconteci­
mentos lá do Cersam, como se deu a última internação. Atualmen­
te ele está internado aqui no IRS. Um episódio ocorreu em mea­
dos de 1 997, quando alguém da equipe negou diretamente uma
solicitação do paciente. Este virou a mesa com bandejas e objetos
quase em cima de duas profissionais que ali estavam, provocando
grande apreensão e receio. A atitude do paciente, na época, foi
solicitar a internação no Raul Soares. A atitude da equipe foi, atra­
vés da gerente que é a figura de autoridade administrativa do ser­
viço, suspendê-lo por uma semana do serviço, o que ele aceitou.
Em uma outra situação, E.M. portava um instrumento usado em
lutas marciais dentro do serviço. A gerente solicitou que esse obje­
to ficasse sob sua guarda e ele concordou. O mesmo ocorreu com
uma faca que portava: a gerente a guardou. Uma seqüência de
fatos, há cerca de dois meses, provocou uma tensão quase insu­
portável na equipe, quase colocando o trabalho a perder. Por outro
lado, possibilitou muitas discussões, abrindo possibilidades de apu­
ração da clínica, construção do caso clínico. Essa pesquisa foi fei­
ta em função disso. Se avançarmos nessa questão dos limites da
passagem ao ato, estaremos aumentando o potencial da clínica nos
serviços abertos. Nós temos muitos casos desse tipo. Temos que
lidar constantemente com esse tipo de problema. Queremos usar a
internação com maior precisão clínica. Será o lugar para determi­
nados estados da psicose, para os quais não há outra resposta prá­
tica naquele momento. Naquele momento na clínica, a seqüência

ab recam pos - Ano I - no. o - Junho/2000 ------

77
Alfredo Zenoni

de fatos foi a seguinte, para a gente discutir essa questão de como


lidar com a passagem ao ato e a atuação freqüente dele.
Primeiro, na referência individual, trabalhava-se a questão
de um emprego que se tomava possível para E.M., removiam-se
os obstáculos fazendo a mediação desses obstáculos concretos.
Por exemplo, a locomoção. "Não posso me empregar porque não
tenho como ir ao lugar." Então, foi providenciado vale-transporte.
Para a falta de documentos, conseguiu-se a carteira de identidade,
etc. Ficou para o paciente a apresentação, em dia e horários mar­
cados, para iniciar o trabalho. E.M. tomou na véspera três compri­
midos de Diazepan e não acordou na hora, no dia seguinte. Não
conseguiu realizar o sonho de tantos anos, ter um trabalho ficha­
do, como ele diz. Segundo, na questão das regras de convivência,
tinha reclamado com a gerente que outro paciente tinha se apossa­
do de uma calça sua. Segundo ele, a gerente não tinha tomado
nenhuma providência. Terceiro, o instrumento de luta marcial sob
a guarda da gerente tinha desaparecido e ele cobrava isso da auto­
ridade do serviço. Quarto, festejava-se o aniversário do serviço
com uma programação festiva. Havia um campeonato de futebol.
O paciente era um dos jogadores do time, ficou na reserva e não
jogou nenhum minuto. Após o jogo, E.M. chega ao serviço e pau­
sadamente, com uma cadeira, quebra todas as vidraças. A seguir,
assentou-se e ficou quieto. A equipe que ali estava decidiu puni­
lo. A gerente falou diretamente com ele que estaria suspenso do
serviço por um tempo determinado. Imediatamente, com uma vas­
soura, um instrumento, procurou o carro da gerente e quebrou o
que pôde, olhando para conferir se ela estava vendo. A seguir, a
polícia chegou, sem que o serviço a tenha chamado. Eu pergunto:
o serviço deveria chamar a polícia? O serviço não deu queixa à
polícia do ocorrido. Deveria dar? E.M. pediu para o serviço
encaminhá-lo para internação. Deveria fazê-lo? A polícia acabou
levando E.M. para as imediações do IRS e E.M. lá se internou,
não por indicação do serviço, que não sabia bem o que fazer. Há

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Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

mais ou menos 40 dias, o paciente está internado no IRS , a equipe


discute o que fazer e como dar seqüência ao caso. E.M. não teve
uma ruptura psicótica aqui no hospital, não teve delírios, alucina­
ções, não teve um quadro produtivo, atuações. Também nesse caso,
não houve uma franca psicose. Os atos o levaram à internação.
Tem estado apreensivo, com medo de não voltar ao Cersam. Fala
em alguma forma de pagamento para o que destruiu da gerente.
Ele não fala em pagar o que ele destruiu da coisa pública. Ele só
fala da gerente.
A seguir, o texto feito pelo psicanalista, que é a referência
individual de E.M., Frederico, que está aqui conosco também.
As dificuldades de abordagem deste caso podem ser aponta­
das a partir da frase ouvida na última seção clínica: ele é um doido
que sabe fingir de doido, ele coloca-se diante de um paradoxo. Se
ele finge é porque pode não ser doido, o que remeteria à neurose.
Por outro lado, ele finge porque sabe que é, finge como forma de
não ser efetivamente doido, isto é, para que não desencadeie uma
psicose que existe nele em es tado bruto. Que não haj a
desencadeamento não quer dizer que não se trate de psicose. Po­
demos dizer, então, que se construiu uma amarração sintomática,
sendo a psicose um fenômeno de fundo. A passagem ao ato seria
uma ruptura que não chega a ser um desligamento em relação a
esta forma sintomática. Recordemos as palavras chaves do caso.
Destaca-se, inicialmente, a sua errância, ausência da laços famili­
ares. O caso é trabalhado mais na vertente de uma patologia do
laço social do que a partir de fenômenos elementares, pouco evi­
dentes. Logo se estabelece um laço forte, um serviço, indicando
que ele tomou, literalmente, nossa seta de referência e a tomou
para fazer dela um sintoma que nos engloba, estamos implicados
no seu sintoma, o que toma a sua abordagem mais difícil e a dis­
cussão mais calorosa. Ele quer se tomar, um de nós, - se diz funci­
onário do CERSAM, - assume a condição de garantidor da ordem.
O CERSAM é para ele um território, domínio identificatório e

abreca m p o s - Ano I - na o - Junho/2000 _ ___:_


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79
Alfredo Zenoni

domínio de gozo. Mas, este laço forte com o serviço constitui uma
amarração frágil. É apenas uma forma de suprir o que para ele foi
o fracasso do lado social. Assim se produzem as rupturas. Ele tem
que buscar em um Outro o que autentificaria essa função. Uma
autoridade reconhecida, encarnada, como absoluta. Qualquer tro­
peço desta autoridade, o mínimo encontro com o real, que faz furo
nessa construção imaginária, pois não existe autoridade absoluta,
faz desmoronar a amarração. À exigência interativa de ordem, sus­
tentada pelo seu apelo à autoridade, segue-se a quebradeira, a
ameaça pelo uso da força, a lógica selvagem onde o uso da palavra
está cassado e o que prevalece é o pulsional, uma satisfação
pulsional em lugar de uma satisfação narcísica. A culpa moral não
funciona aqui como anteparo. O corpo se enfeita, desfila sua oni­
potência. "Isso dá no corpo", diz no seu furor. Que ele se antecipe
a isso não significa necessariamente que ele o premedite. A anteci­
pação se dá, em geral, através de um pedido de internação. Sem
saber porque, ele pode se tomar violento. Para isso, às vezes, ele
se faz de doido, ou simula uma crise convulsiva. Ao comentar
suas passagens ao ato, revela a impotência de fazer-se ouvir. "Eu
falei". Seu corpo é a sua metáfora delirante. A esse corpo ele sem­
pre retoma como o seu refúgio contra o desencadeamento e para
se fazer valer. É incapaz de sustentar o "eu quero". Diante das
contingências das frustrações ele diz: "eu quebro". Certa vez eu
anotei essa frase que me pareceu significativa. "eu não sou um
João Ninguém, tenho que mostrar a eles que eu tenho valor, mas é
perigoso eu me tomar um malandro". Isso me lembra a sua troca
delirante de nome. Dizia se chamar Janis Lee, condensação de
Janis Joplin e Bruce Lee. O culto ao corpo vem em suplência a
essa vacilação do nome próprio. Constitui uma tentativa de filiação.
"Não tenho identidade", repete, como justificativa por não arru­
mar trabalho. Penso que devemos fazer a distinção entre essa jus­
tificativa e a impossibilidade de fazer um laço social. Acho cada
vez mais difícil calcular o corte entre seu tratamento e a sua per-

------ a brecam pos - Ano I - n11 0 - Junho/2000


80
Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

manência-dia no Cersam. Seria suportável? É preciso mediá-lo,


como dizia da última vez, em lugar de apenas desligá-lo. Não po­
demos jogá-lo no vazio se ele não tem recurso. Isso pressupõe
alguém que sirva de ponte para se atravessar o vazio que o separa
do social, que faça a tentativa, pois não há garantia de que ele
consiga se manter. Quanto a fazê-lo pagar pelo prejuízo, penso
que ele mesmo o demanda. Aqui não cabem justificativas a um
dano real, sendo possível para ele repará-lo. Ajudaria, talvez, para
uma reparação desta autoridade danificada. Temos uma ocorrên­
cia e a nota de compra dos vidros. O ideal seria fazê-lo a partir de
alguma representação social, quem sabe, um tribunal de pequenas
causas.
Bom, esse é o relato que eu, que não estou no caso, consegui
fazer. É importante agora que as pessoas que participaram e estão
participando deste projeto complementem, corrijam ou retifiquem
alguma coisa do que foi dito aqui. Depois passaremos a palavra a
Alfredo Zenoni e após os comentários dele faremos a discussão.
Então, se alguém quiser fazer um comentário, eu peço que seja
breve.

Alfredo Zenoni: Eu pediria uma precisão a respeito da mãe


do paciente. Eu não entendi bem se a mãe morreu um mês depois
do nascimento dele.

Cezar Rodrigues Campos: Bom, ela não morreu porque em


1 968 o paciente estava com quinze meses e está relatado na
internação da mãe que a relação com o filho de quinze meses era
de constante agressividade. Então ela não morreu ao nascimento
dele.

Alfredo Zenoni: Quando o sujeito tinha 1 5 meses, houve ma­


nifestações de agressividade em relação à criança pela mãe. Ao
mesmo tempo que a mãe, ela mesma se sentia atraída pela morte.

abrecam p o s - Ano I - na o - Junho/2000 ------

81
Alfredo Zenoni

Havia ao mesmo tempo o risco de suicídio e de matar a criança.


Isso faz pensar algumas coisas sobre o suicídio altruísta, como é
chamado. Há algumas formas de suicídio, onde o sujeito se mata
e, para o bem da criança, a mata também, dizendo que a criança
não poderia sobreviver à morte da mãe. Isso coloca uma questão
sobre a posição subjetiva da mãe, que foi diagnosticada como
esquizofrênica, mas que talvez tivesse também uma dimensão me­
lancólica. Eu queria pedir que precisassem mais algumas informa­
ções. Houve várias recusas de hospitalização. A recusa foi da par­
te do paciente ou da parte da equipe? Houve recusas de
hospitalizações da parte do serviço? No fundo, o trabalho começa
a partir de 1 994? Em Bruxelas, acontece também de dar supervi­
são nas instituições e, muitas vezes, a supervisão é de casos de
pacientes cuja patologia gira em tomo das passagens ao ato. E a
questão crucial é como trabalhar com esses pacientes, cuja maior
manifestação clínica é esse agir. É um problema clínico e
institucional. Por isso mesmo é que são trazidos à instituição. Eles
são difíceis e não há respostas. Na medida em que o acompanha­
mento de um paciente psicótico se faz regularmente, o caso já não
é proposto à supervisão. O problema do tratamento, do acompa­
nhamento do sujeito psicótico se coloca quando o· quadro é domi­
nado pela passagem ao ato. Eu gostaria de fazer um primeiro co­
mentário sobre a noção de desencadeamento. É verdade que o
desencadeamento da psicose foi sobretudo relacionado, por Lacan,
com fenômenos de linguagem e desencadeamento do delírio. No
entanto, nós observam o s , freqüentemente n a c l ínica, o
desencadeamento de psicoses. Nós temos chamado recentemente
de neo-desencadeamento ou novas formas de desencadeamento,
do registro do ato, suicídio, tentativas de suicídio na adolescência
sem explicação, comportamentos agressivos súbitos, sujeitos que
quebram tudo na casa deles. São formas de retomo do gozo, não
na percepção, sob a forma de alucinações auditivas, sob a forma
do automatismo mental, mas sob a forma do ato. O gozo não retoma

abreca m p o s - Ano I - na o - Junho/2000


82
Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

simplesmente na linguagem, no lugar do Outro, mas também no


corpo e no agir. E é isso que coloca o problema de acompanha­
mento e tratamento na instituição.
Eu faria dois comentários. Primeiro que, a partir do momento
que o sujeito tem um interlocutor regular e em que há uma coorde­
nação das intervenções, há bons resultados, uma melhora durante
sete meses. Infelizmente, como freqüentemente acontece nos hos­
pitais, o interlocutor privilegiado é um residente, que vai embora e
não pode continuar o trabalho. É um primeiro problema prático.
Conceme toda essa série de passagens ao ato. No serviço externo,
creio, nos meados de 1 997, alguém da equipe recusou-lhe uma
solicitação e ele virou a mesa. No entanto, quando ele passeia no
serviço com um instrumento usado em lutas marciais, ele aceita
confiar o objeto à coordenadora, ele aceita também entregar o ca­
nivete. Toda a questão é saber como enunciar os limites e as regras
a um paciente como este. Ao observar como o paciente reage, me
parece que a passagem ao ato pode ser evitada quando ele próprio
é colocado do lado da autoridade ou quando a autoridade se colo­
ca para o seu lado. Tudo está na maneira de recusar ou de interdi­
tar, sendo que o sujeito, ele mesmo, se coloca como defensor da
ordem. A manobra consiste justamente em fazer dele um colabo­
rador na defesa da ordem. Eu vou falar disso nessas três conferên­
cias. Me parece que lá onde o sujeito reage com passagens ao ato
violentas é quando ele está diante de uma recusa dual, quando se
endereçam a ele intersubjetivamente. Enquanto que quando se o
coloca no funcionamento da instituição, como fazendo parte deste
funcionamento, ele consente à regras. A maneira de colocar limi­
tes e regras deve ser feita de tal maneira que o paciente não se
sinta interpelado de maneira dual e imaginária. Para dar uma for­
mulação simples não é dizer "você não pode fazer isso", mas an­
tes: "Não pode acontecer que as pessoas aqui se façam injúrias".
Os instrumentos de combate, canivetes, devem ter um lugar pró­
prio na instituição. As coisas devem ser feitas de tal forma que o

abrecam pos - Ano I - na o - Junho/2000 ----·-· ·-··---··-··

83
Alfredo Zenoni

sujeito se sinta do mesmo lado que a lei e não confrontado com a


lei. O que é surpreendente no caso deste paciente é ao mesmo
tempo, a incapacidade de suportar uma recusa, uma contrariedade
e ao mesmo tempo a exigência de uma ordem absoluta. É a difi­
culdade sensível na instituição com estes sujeitos para os quais a
dimensão simbólica da lei não está inscrita, que são levados a fa­
zer uma suplência por uma lei absoluta, uma autoridade absoluta,
como dizem aqui, e que ao mesmo tempo tende a fazer-se, ela
mesma, como suporte dessa lei. Por um lado, o sujeito se sente
identificado com a instituição, há muitas falas dele que vão nesse
sentido, e por outro lado ele se coloca confrontado com a autorida­
de institucional. Se examinamos os diferentes episódios relatados
aqui, parece que cada vez que a lei é formulada de uma maneira
flutuante ou contraditória, há uma passagem ao ato. Quando ele se
queixou que alguém roubou as suas calças e a coordenadora não
deu nenhuma seqüência à sua queixa, quando o instrumento de
luta marcial confiado à coordenadora desapareceu e depois quan­
do ele não faz parte da equipe de futebol, ele fica na reserva. Ve­
mos aqui que as passagens ao ato são coordenadas a uma certa
irregularidade do Outro. O problema das instituições é não tanto
de confrontar o sujeito com limites do comportamento, mas de
presentificar, ao lado dele, um outro que é limitado, que é regula­
do também. Nós não representamos a lei para o sujeito. Nós estamos
submetidos à lei como ele. É a maneira de incluí-lo nessa submis­
são, na qual nós também estamos incluídos. Nós podemos nos
apoiar sobre a sua identificação à ordem e ao mesmo tempo per­
mitir a ele se colocar antes do lado da identificação do que da
passagem ao ato.
Vou fazer ainda dois comentários. Um sobre a questão do
trabalho e outro sobre a questão do alojamento. Quando ele fre­
qüenta o serviço externo, onde ele vive? A questão do trabalho me
parece análoga à questão da lei, da ordem do mundo. Isso teste­
munha da presença de alguns ideais. O problema é que esses ide-

------ abrecam pos - Ano I - no. o - Junho/2000


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Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

ais não estão relacionados com uma causa do desejo. Eu vou fazer
um esquema. É um esquema grosseiro. Coloca de um lado o ima­
ginário e o simbólico, que é também o campo da realidade, da
sociedade e, do outro lado, o real. Na neurose, a pulsão, a causa do
desejo é transferida ao campo do Outro. Por que o objeto é perdi­
do, nós o buscamos na vida, na sociedade, na realidade, trabalhan­
do, procurando um objeto de amor, correndo atrás de Deus sabe o
quê, o que faz com que haja um projeto. Porque o objeto está per­
dido, a gente tenta recuperá-lo na realidade, no parceiro. Na psico­
se, o objeto não está perdido, então ele não é transferido para o
campo do Outro. É por isso que a televisão fala dele, que ele rece­
be mensagens, que ele se sente observado e visado pelos outros. A
contrapartida dessa não separação do objeto é que a realidade, para
ele, é feita de ideais, mas de ideais vazios. Esses ideais podem ser
perseguidos pelo sujeito, mas essencialmente sob um plano pura­
mente identificatório. Isso pode ir muito longe, essa identificação.
É o que foi desenvolvido sob um certo ângulo sob o nome de per­
sonalidade "como se", mas que pode ser estendida sob a noção de
identificação em geral na psicose. A identificação pode acompa­
nhar o sujeito bem longe, inclusive no plano sexual, no plano tam­
bém do trabalho. O sujeito pode, por exemplo, fazer como seu pai,
trabalhar na mesma profissão que o pai, mas quando ele se encon­
tra só, quando no trabalho ele não está protegido pelas identifica­
ções, então há uma ruptura. Ele não pode assumir a responsabili­
dade. Com esse paciente, há todas essas identificações imaginári­
as a personagens fictícios, mas sob o plano do trabalho, nós temos
simplesmente uma fórmula, ter um trabalho fixo. Minha questão
é: não haveria uma identificação que contivesse algo mais pulsional,
que contivesse mais gozo, que pudesse desembocar numa pers­
pectiva de trabalho?
A segunda questão é: será que nós devemos ter para um su­
jeito como perspectiva que ele trabalhe? Ou antes, que ele encon­
tre uma prática, qualquer que seja ela, na qual ele possa exteriorizar

a b recam pos - Ano I - na o - Junho/2000 ------

85
Alji'tdo Ztnoni

alguma coisa do seu estatuto de objeto? Talvez isso coloque al­


guns problemas sob o plano dos subsídios para viver da seguridade
social. Essa é uma questão que eu queria discutir com vocês e a
outra é a do alojamento. Há as questões da passagem ao ato de que
nós já falamos, que pode acontecer quando o Outro não é regular.
Isso não impede que o sujeito, ele mesmo, seja violento. O que é
interessante é que ele mesmo consiga tomar uma certa distância
dessa violência e que, prevendo esses momentos de violência, ele
peça para ser hospitalizado. Ele diz que no hospital ele está em
casa. E, por outro lado, ele aceita o princípio de uma responsabili­
dade pessoal, notadamente no que conceme a pagar os prejuízos.
Uma idéia que me veio a propósito de onde morar. O hospital não
poderia ser utilizado como um alojamento oficial, onde ele esti­
vesse na casa dele, sendo ele sempre autorizado a ficar fora? É um
problema que nós temos para esse tipo de sujeitos, com esse vai e
vem entre o exterior e o interior. Uma vez nós tivemos um proble­
ma com um sujeito que cada vez que ele saia, passava ao ato. Os
psiquiatras decidiram mantê-lo no hospital, inscrito no hospital,
mas ele estava sempre com permissão para sair ao exterior. Então,
inscrito no hospital, mas vivendo no exterior. É uma solução que
diminuiu as entradas e saídas do hospital. Então, o hospital não é
somente um lugar que responde aos estados agudos. Para alguns
sujeitos, o hospital é um abrigo e o fato de ter esse abrigo no hos­
pital, mesmo não vivendo no hospital, constitui um ponto de
exterioridade em relação a tudo que é persecutório no mundo. Vocês
mesmos colocaram questões, não sei se vocês querem insistir em
alguns pontos onde eu não respondi ou reagir ao que eu acabo de
dizer.

Elisa Alvarenga: Eu gostaria de colocar uma questão sobre


os momentos em que ele foi suspenso dos serviços. Há um mo­
mento de suspensão e no final há uma questão colocada pelo
Frederico sobre se não seria preciso mediá-lo, no lugar de desligá-

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Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

lo. O que poderia ser pensado no lugar dessa suspensão, no lugar


desse desligamento?

Frederico: Em relação à questão da suspensão, houve dois


momentos em que essa suspensão foi aplicada. A primeira vez após
o episódio da derrubada da mesa. Ela se mostrou produtiva. Tal­
vez tenha sido o único momento, enquanto eu estou responsável
pelo escuta do paciente, onde houve mais trabalho no consultório.
O paciente se voltou um pouco para a sua história pessoal, traba­
lhou algumas questões relativas à sua identidade, construiu, en­
fim, algum sentido para as suas passagens ao ato, que ele relacio­
nava a uma perda do nome próprio. Na segunda tentativa, após o
episódio da quebradeira dos vidros, foi aplicada a suspensão e o
resultado foi a agressão ao carro da gerente. Nesse meio tempo, é
um dado que não está no relatório de Cezar, ele simulou um suicí­
dio. Colocou uma corda no pescoço, na presença de outras pesso­
as, e teve que ser contido. Então, na minha opinião, a idéia de uma
mediação é uma idéia substitutiva desse tipo de procedimento. O
paciente sempre constrói uma idéia, remeto a uma conversa de
ontem com o paciente, que se ele sair da instituição e ficar na rua,
ele vai quebrar todos os carros. Uma precisão: ele não tem, apesar
de morar, às vezes, na casa da tia ou de um primo, hoje ele diz que
não tem lugar para morar e tem um grande horror ao seu ambiente,
uma vez que os primos traficam drogas, cometem violências, etc.
Está sempre apontando para esse perigo de se tomar como um
deles, como alguma coisa que pudesse acontecer e pegá-lo e ele
não soubesse como fazer frente a esse perigo. Então, eu penso que
hoje a questão da moradia é crucial e eu penso inclusive que ela é
a única possibilidade para que ele desenvolva um trabalho em ní­
vel de um atendimento, por exemplo. Tudo que ele diz nos atendi­
mentos é: "eu quero um lugar para morar, eu quero um trabalho,
eu quero viver dignamente". Atualmente estamos pensando numa
idéia de subsídio que possibilitasse a ele alugar um quarto, como

abrecampos - Ano I - no. o - Junho/2000 ------

87
Alfredo Zenoni

ele demanda.

Platéia: Eu estava só querendo complementar, por que a pro­


posta de Zenoni, de certa maneira, vai no sentido inverso de umas
conclusões que tiramos de uma reunião ontem à noite, lá no
Cersam. Eu não acredito que seja uma proposta definitiva, porque
ela surgiu ontem e eu estou me referindo à proposição dele, se eu
entendi, que uma idéia possível de alojamento para o caso E.M.
seria ele morar dentro do hospital, de tal forma que essa entrada e
saída estivessem franqueadas a ele, assim como funciona no
Cersam, onde a porta é, para ele, aberta o tempo todo. Mas, a con­
clusão a que chegávamos ontem é se mantê-lo no hospital, moran­
do aqui indefinidamente, não seria de novo jogá-lo numa espécie
de gozo mortífero no qual ele se joga com uma certa insistência.

Frederico: Uma complementação. O paciente não pede para


ficar no hospital definitivamente, ad infinitum. Ele diz que esse é
o único lugar hoje onde ele pode se sentir seguro. Quer dizer que
ele aponta insistentemente para uma saída.

Alfredo Zenoni: O problema é conciliar o lugar que tem o


hospital para um grande número de sujeitos psicóticos como abri­
go, ponto de exterioridade, abrigo em relação à sociedade, às ame­
aças, aos perigos, como conciliar o hospital como abrigo e a ins­
crição como laço social. No caso do alojamento, pode ser um quar­
to, um apartamento. Nós sabemos que para muitos sujeitos há, ao
mesmo tempo, críticas e recusas a estar no hospital, porque no
hospital se perde a liberdade, se está no meio dos loucos. Mas, ao
mesmo tempo, há incapacidade de viver só sem encontrar uma
angústia muito grande. Esse é o desafio: como conciliar as duas
coisas? Eu fiz uma analogia com um caso que um colega me con­
tou que foi apresentado na França. É o caso de um homem que era
hospitalizado, melhorava, quando voltava para a casa da mãe, pas-

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Psicanálise e Instituição · A Segunda Clínica de Lacan

sava ao ato e voltava ao hospital sucessivamente. O colega então


encontrou essa idéia de inscrevê-lo no hospital e, ao mesmo tem­
po, que ele tivesse permissão constante de sair. Imediatamente as
passagens ao ato e as hospitalizações diminuíram. Há sujeitos que
aceitam estar lá a partir do momento em que não são obrigados a
estar lá. Por exemplo, nos serviços de segmento aos pacientes de­
pois da alta, como o que eu trabalho, há uma estrutura residencial.
Muitos sujeitos psicóticos aceitam ficar ai com a condição de es­
tar ao ponto de partir. Eles ficam dois anos, três anos, mas com a
idéia de que eles não são identificados por isso. Eles não são iden­
tificados ao estatuto de doentes mentais. Eles estão ai de maneira
provisória, esperando. Eles são atendidos e moram nesse lugar.
Então, ao mesmo tempo o sujeito tem uma necessidade de ser cui­
dado, mas ele reivindica a sua autonomia. Eu temo que para esse
sujeito, ir morar sozinho em um quarto, o faça se sentir desligado
de uma presença, de uma identificação, que é constituída tanto
pelo hospital quanto pelas pessoas da sua família, e que se sinta
deixado cair. É um receio que eu tenho. Creio que o ideal seria que
ele tivesse uma estrutura comunitária de moradia. É nesse sentido
que os hospitais deveriam evoluir, promover estruturas residenciais
abertas, comunitárias, com a presença identificatória de um ideal
do eu. Tenho a idéia de que o quarto sozinho poderia ter esse as­
pecto de deixar cair o sujeito, mas pode-se também tentar.
Vou dar um passo atrás sobre a questão da passagem ao ato.
Há um trabalho a ser feito da equipe sobre ela mesma, sobre a
maneira de apresentar as regras, os limites, analisar as circunstân­
cias nas quais houve essas passagens ao ato e tirar daí lições para
a maneira de praticar. Houve uma crítica, uma análise desses epi­
sódios pelo serviço?

Platéia: Posteriormente, quando nós chegamos a discutir o


caso, porque realmente era um caso difícil de estar levando, nós
discutimos essas situações separadamente como a do j ogo de fute-

abrecampos - Ano I - nu. o - Junho/2000 -------

89
A lfredo Zenoni

boi, a agressão das mesas, ou seja, em que situações ele reagiu


dessa forma agressiva. Então, pensamos da não participação no
futebol, pois isso foi uma gota d' água no dia em que ele quebrou o
carro, e outras situações em que, na instituição, ele ficava agressi­
vo, que a gente poderia estar negociando de uma outra forma esse
dizer não para ele. E retomamos também o que ele acabou de co­
locar, de como fazer a equipe interagir um pouco mais nessas res­
postas a ele, cada um não dizer de maneira diferente, agir diferen­
te, pensar uma forma de estar lidando nessa negociação, de colo­
car limites.

Platéia: Eu penso nessa negação, em relação ao momento do


laço social que seria uma partida de futebol e lembrando de expe­
riências aqui em 1 994 no hospital dia em que E.M. pôde ser pre­
miado pela própria equipe com uma medalha por ter conseguido
que o time ganhasse. Nesse momento ele oferece a medalha para
mim, e eu a devolvo a ele, no sentido de retomar o mérito. Foi
positivo no sentido de trazer mais para um sentido pessoal, de que
é possível ele conseguir, o mérito pode ser dele também, ele é
capaz.

Alfredo Zenoni: Você devolveu a medalha a ele? Ele aceitou


a medalha de volta? Poderia ser também uma possibilidade por­
que para os sujeitos psicóticos nós somos apenas depósitos, recep­
táculos, onde eles podem depositar alguma coisa do seu ser, por
exemplo no modelo dos escritos, as cartas que eles nos escrevem,
os diários que eles depositam em nós, fotos. Não é para que nós
gozemos disso , mas para sermos depositários. O consultório do
analista é um local de esvaziamento, de depósito. Isso pode ser
uma forma d9 sujeito de ter um lugar no lugar do Outro, estando
ao mesmo tempo separado do seu ser de gozo. Suas cartas não
ficam com você, é alguma coisa do ser que se encontra localizado
nas cartas, ele se separa e ao mesmo tempo ele não se separa por-

------ abrecampos - Ano I - na o - Junho/2000


90
Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

que ele está depositado no seu consultório. É uma inscrição com


uma certa separação do seu ser de gozo. Talvez a medalha poderia
ficar lá depositada, assim como o instrumento de luta marcial, de­
positado. Tudo que é uma exteriorização do ser do sujeito para
além do analista. A própria instituição pode ser esse lugar de depó­
sito. Sob o modelo do que é o depósito por excelência, que é o
depósito dos escritos, das obras, dos desenhos, das pinturas, isso
faz uma ligação com a sua questão. Eu coloquei a questão, se não
deveríamos dar mais ênfase ao trabalho, no sentido de uma práti­
ca, do que ao trabalho no sentido remunerado. O trabalho como
inscrição social de ter tal profissão, isto pode subsistir em um su­
jeito como um ideal. É o caso de nosso paciente, um trabalho fixo.
Isso me parece realmente da ordem do como se, que não deve ser
desprezado, isso faz parte de um suporte imaginário, mas eu per­
gunto se deveria encorajar o sujeito nesse sentido se ele mesmo
não vai nesse sentido, porque no dia que ele tem essa possibilida­
de ele toma uns três comprimidos de Diazepan e não acorda. Há
muitos sujeitos que dizem, eu quero fazer uma formação, e no dia
em que eles podem ir a essa formação eles fazem uma tentativa de
suicídio, uma passagem ao ato e vão se refugiar no hospital. Então
a inscrição no laço social comporta para cada sujeito um apelo ao
Nome-do-pai. Um significante que chama o sujeito no momento
em que ele está sozinho. É por isso que alguns sujeitos podem
trabalhar desde que a empresa seja inscrita em nome do pai, ou do
tio, mas quando ele tem que procurar sozinho um trabalho, aí apa­
rece a dificuldade de justificar a sua existência com os próprios
fundos.
Em oposição ao trabalho que comporta essa inscrição no so­
cial e essa responsabilidade, outras práticas que comportariam mais
o ser do sujeito, práticas artísticas por exemplo, estão menos liga­
das ao contrato social, ao engajamento e à responsabilidade, mas
podem exteriorizar o ser do suj eito, localizar algo do gozo. Essas
práticas não seriam um lugar de satisfação mais compatível com o

abrecam pos - Ano I - na o - Junho/2000 ------

91
Alfredo Zenoni

laço social do que a perseguição de ideais vazios? Porque na hora


que se trata de realizar esses ideais, o sujeito passa em casa e toma
uns comprimidos de Diazepan. Ele dá um jeito de sair de cena, de
se suicidar socialmente. É a angústia que aparece. Essas práticas
podem fornecer ao sujeito algo mais compatível com o lado soci­
al, mais do que perseguir o sentido social do trabalho no sentido
restrito. Há duas formas de trabalho na psicose. Primeiro, o traba­
lho do delírio, o registro da metáfora, o sentido assintótico e se ele
não é assintótico, ele pode desembocar na passagem ao ato. Quan­
do dizemos assintótico é para evitar, por exemplo, que o sujeito se
faça trocar de sexo no real, onde o momento de compreender de­
semboca na passagem ao ato. É por isso que com o último ensino
de Lacan sobre a psicose, mais do que desenvolver a dimensão
auto-terapêutica do delírio, no sentido que Freud dizia que o delí­
rio é uma tentativa de cura, há a idéia de desenvolver uma outra
pragmática da linguagem que não coloca tanto o assento sobre o
sentido, a interpretação, mas sobre práticas da letra em que a lin­
guagem é apreendida, sobretudo, no sentido do objeto, do real, e,
em continuidade com isso, toda a prática de produção de objetos
fora do corpo é uma outra via de sintomatização, do que a do delí­
rio. São duas formas possíveis, mas o delírio comporta sempre o
risco de chegar a uma conclusão e pode ser no ato. É uma maneira
de tratar o objeto a, que na psicose permanece no bolso do sujeito,
de tratá-lo fora do corpo com a letra, objetos de arte, todas as prá­
ticas que o sujeito pode encontrar para conectar esse objeto real
com um semblante, a linguagem, que é uma forma de satisfação
pulsional diferente da alucinação auditiva ou da passagem ao ato.

Andréia eu acho que esta questão que ele está colocando do


:

pós-hospital poderia ser, tratar com os lares abrigados. É o que


estamos tentando, mas esta inscrição, se eu entendi direito a im­
portância desta inscrição, porque ela não poderia ser trabalhada
através do CERSAM, que é uma instituição? Mesmo que fizésse-

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Psicanálise e Instituição - A Segunda Clínica de Lacan

mos essa tentativa de ele estar morando num quarto, numa pensão
por enquanto , por que essa inscrição que ele propôs no hospital
não poderia ser no CERSAM? Essa é a questão que eu coloco para
ele.

Alfredo Zenoni: a ressalva é que o serviço aberto não tem


nenhum alojamento. Mas pode ser uma inscrição. A inscrição pode
se no hospital se o paciente concorda, se ele diz que viver na sua
família é se confrontar com o gozo do Outro, seus primos que são
traficantes. Para alguns sujeitos tudo o que é tráfico de drogas,
tráfico ilícito é uma presentificação do gozo do Outro. Ele se sente
concemido. Se viver na sua família é insuportável, talvez seria
uma alternativa dizer que o seu alojamento é o hospital. Mesmo se
ele vive com sua família. O alojamento oficial não é onde está o
gozo. Pode ser o hospital na falta de ter uma outra estrutura
residencial. É preciso ver como o sujeito toma isso, é preciso ver
se isso se apresenta no fio do que ele diz. Há sujeitos também que
não querem ter nada a ver com o hospital, na medida em que o
hospital não funciona para ele como abrigo, mas assimilação aos
outros loucos. É preciso ver com o sujeito, mas eu estou me base­
ando no que ele diz. Quando ele diz que no hospital ele está na
casa dele, e que ele precisa só da chave, isso não é uma razão para
mantê-lo no hospital, mas é preciso pensar que lugar dar ao hospi­
tal no seu esquema geral ou no serviço do dia.

a b recam pos - Ano I - no. o - Junho/2000 ------

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