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HEDONISMO

DANIEL GOMIDE
DEFINIÇÃO E NOTAS HISTÓRICAS
• Hedonismo pode ser definido como qualquer teoria de conduta que estabelece o prazer como critério
para a ação.

• Aristipo (435 a.C) – Um dos discípulos de Sócrates e fundador da Escola cirenaica. É descrita como a
primeira escola de hedonismo. Considerava que o mais alto valor é o prazer e a dor era o valor de
nível mais baixo, devendo assim ser evitada. O prazer, dessa forma, é delimitado pela esfera senciente.

• Epicuro (341 a. C – 270 a.C) – Diferentemente dos cirenaicos, Epicuro observou que a devassidão
pode ter resultados indesejáveis que pode ser resumido no seguinte moto: “Coma, beba e divirta-se,
pois amanhã haverá gota, cirrose hepática e delirium tremens” (CLARK, G. H. De Tales a Dewey. São
Paulo: Cultura Cristã, 2012. 132 p.). Agora tais resultados são constituídos daquilo mesmo que o
hedonismo pretende evitar, isto é, a dor. Dessa forma, Epicuro molda seu hedonismo pela influência
da doutrina socrática da prudência e pela concepção de “vida boa” de Aristóteles.
HEDONISMO E LICENCIOSIDADE
• Enquanto a Escola cirenaica admitia a devassidão e a licenciosidade, os
epicureus não aprovavam necessariamente a vida devassa, mas
privilegiava as virtudes da razão. Clark fornece o seguinte resumo da
visão epicurista: “Prazer não é uma sucessão de rodadas de bebida, de
amor sexual, de pescados e outros regalos; antes, é o raciocínio sóbrio,
a busca das bases de cada escolha e de cada abstinência, e a renúncia
de crenças que lançam a alma em tumultos. A prudência é o bem
maior; não podemos viver uma vida de prazer que não seja também
uma vida de prudência, honra e justiça” (CLARK, G. H. De Tales a
Dewey. São Paulo: Cultura Cristã, 2012. 133 p.). No entanto, por ser
adepto do atomismo, Epicuro não concebia a razão como rigidamente
distinta do corpo. Por conseguinte, não há prazer que não seja
sensorial ou corpóreo.
UTILITARISMO
• Jeremy Bentham (1748 – 1832) – filósofo inglês que revestiu o hedonismo sob a designação
de utilitarismo. O objetivo dos indivíduos é atingir o maior prazer ou o maior bem. Os dois
polos do utilitarismo ainda continuam sendo o prazer e a dor. Assim, enquanto o prazer deve
ser maximizado, a dor deveria ser minimizada: “Bentham viveu em uma época em que a
escravidão, a repressão às mulheres, as condições terríveis nos manicômios e a severa
punição da expressão sexual eram a norma” (Herbert, J. H.. Utilitarian Ethical Theory – A
Smart Student's Guide: A Concise Guide to the Ethical Philosophies of Jeremy Bentham and
John Stuart Mill - Owl Professor Smart Student Guides Book 2. Owl Professor Guides. Edição
do Kindle). Se a maximização do prazer é o objetivo da ação humana, quais são os critérios
para alcançar o maior prazer possível? Bentham propõe o que ficou conhecido como cálculo
utilitarista que é baseado em sete critérios.
CÁLCULO UTILITARISTA (BENTHAM)
• 1 - Duração 1- Quanto tempo dura?

• 2 - Intensidade 2 - Quão intenso é?

• 3 – Proximidade 3 – Quão próximo / remoto?

• 4 – Extensão 4 – Quão amplo é o alcance?

• 5 – Certeza 5 – Quão provável é?

• 6 – Pureza 6 - Quão livre é da dor?


• 7 – Fecundidade 7 - Conduz a mais prazer?
PROBLEMAS COM O UTILITARISMO
• O utilitarismo de Bentham é baseado no que os filósofos denominam • Bentham defende que em virtude das “emoções sociais” presentes

hedonismo egoísta psicológico. “Egoísmo psicológico é a visão de que os no ser humano temos prazer em ajudar outras pessoas e em vê-las
desfrutando do prazer. Assim, ele infere o princípio da utilidade
humanos, por natureza, sempre agem para servir a si mesmos. O
segundo o qual o objetivo da ética não é perseguir tão somente meu
hedonismo é a visão de que obter prazer e evitar a dor é o que, em
próprio prazer e evitar minha própria dor, mas maximizar o prazer
última instância, tem valor para nós como seres humanos [...] O
e minimizar a dor do mundo todo. Contudo, “se o maior bem do
hedonismo egoísta psicológico é a visão de que os humanos sempre maior número [de pessoas] impede um homem de obter o maior
agem para buscar seu próprio prazer” (Herbert, J. H.. Utilitarian bem para si mesmo, que razão pode ser dada para convencê-lo a
Ethical Theory – A Smart Student's Guide: A Concise Guide to the sacrificar seu próprio bem?” (CLARK, G. H. Ensaios sobre Ética e

Ethical Philosophies of Jeremy Bentham and John Stuart Mill – Owl Política. Brasília: Monergismo, 2018. 305 p.)

Professor Smart Student Guides Book 2 . Owl Professor Guides. Edição

do Kindle).
HEDONISMO
CRISTÃO
SUB SPECIE AETERNITATIS
• Referências bíblicas ao prazer - ἡδονή (hédoné): Lc 8:14; Tito 3:3; Tg 4:1, 3;
2Pe 2:13.
• Cristianismo e hedonismo estão em conflito?
• O cristianismo conflita com o hedonismo que se opõe à própria felicidade,
isto é, que se opõe ao Deus triúno.
• O cristianismo não rejeita de modo absoluto o hedonismo porque possui uma
profunda visão da constituição humana. Parte dessa visão é reconhecer o fato
indisputável de que o ser humano age pautado na busca pela felicidade.
SANTO AGOSTINHO E A VIDA FELIZ
• Agostinho, bispo de Hipona, logo após a sua conversão ao cristianismo, escreveu em Cassicíaco no fim do outono de 386 uma
obra intitulada De Beata Vita (A Vida Feliz).

• Santo Agostinho aceita como um aspecto fundamental da natureza humana o fato de que todos os homens desejam a
felicidade (De Trinitate, XIII, iv, 7).

• A pergunta de Agostinho, portanto, não é se todos desejam ser felizes, mas em que consiste a felicidade?

• Na ótica agostiniana, felicidade consiste em possuir a sabedoria, isto é, é possuir a verdade. Aqueles que amam o que pode ser
perdido não podem ser felizes. Contudo, a verdade não é um bem passageiro, mutável. Antes, a verdade é eterna e imutável e
aquele que possui a verdade não pode perdê-la. Mas o que seria essa sabedoria? “Mas que sabedoria será digna desse nome, a
não ser a Sabedoria de Deus? Justamente aprendemos pela autoridade divina, que o Filho de Deus é precisamente a
Sabedoria de Deus (ICor 1,24); e o Filho de Deus, evidentemente, é Deus. Por conseguinte, é feliz quem possui a Deus” (De
Beata Vita, VI, 34).
HEDONISMO OU EUDEMONISMO?
• O eudemonismo parece compreender que o homem pode ser feliz
independente da dor física e que prazeres momentâneos podem ser
prejudicial ao bem-estar.
• A reorientação da felicidade na ética cristã requer a reorientação da dor. Sob
a ótica da eternidade a realidade do inferno deve ser evitada.
• Essa reorientação permite a concepção de um hedonismo cristão, pois o
prazer buscado não é o prazer momentâneo, imediato, e nem a dor a ser
evitada é a dor física momentânea, mas o sofrimento como resultado de
punição ao lago de fogo eterno.
JOÃO CALVINO E O HEDONISMO CRISTÃO
• O hedonismo parece excluir o autossacrifício em benefício do
próximo, isto é, o altruísmo. Isso não ocorre também com o
hedonismo cristão?

• “Por isso, cumpre saber que tudo o que é prometido em Cristo


para a nossa felicidade não subsiste em comodidades exteriores,
para que levemos uma vida alegre e tranquila, para que
tenhamos recursos em abundância, para que estejamos seguros
de todo mal e gozemos das delícias que a carne costuma esperar,
mas reside naquilo que é próprio da vida celeste” (CALVINO, J.
Instituição da Religião Cristã. São Paulo: UNESP, Tomo. I, 2008.
472-473 p.).
A FELICIDADE E A VIDA CELESTIAL
• A vida celestial que constitui a felicidade é manifesta antecipadamente, de
acordo com Calvino, pelo fruto e pelos dons do Espírito Santo. Esse é o eixo
que conecta a felicidade e o altruísmo no hedonismo cristão.

• Possuir a Deus envolve o amor por Deus. E o amor por Deus consiste em
obediência aos seus mandamentos (João 14:21).

• Cristo: modelo por excelência (Hb 12:2).


FELICIDADE E SOFRIMENTO: IRRECONCILIÁVEIS?
• Calvino, além de reconhecer como algo absolutamente certo o desejo universal pela felicidade,
alega que nossa noção de felicidade não pode ser conciliada com as noções de sofrimentos.

• A exigência de carregar a cruz parece anular nossa felicidade. Como Calvino resolve esse
dilema? Tal dilema é solucionado quando mantemos em perspectiva o que Calvino chama de
“resultado final”.

• “Quando finalmente virmos como Deus transforma tudo isso [todas as aflições] para o nosso
bem e para a nossa salvação, nós poderemos concluir que a felicidade será seguramente nossa
[...]” (CALVINO, J. Beatitudes: as Bem-Aventuranças. São Paulo: Fonte Editorial, 2008. 36-37 p.)
JONATHAN EDWARDS
• “Outra parte da plenitude de Deus que ele comunica é a sua felicidade. Esta
felicidade consiste em desfrutar e regozijar-se em si mesmo, e assim também é
a felicidade da criatura. É uma participação no que há em Deus, e Deus e a sua
glória são a base objetiva disto. A felicidade da criatura consiste em regozijar-se
em Deus, através do que também Deus é magnificado e exaltado. A alegria, ou
exultação do coração na glória de Deus, é algo que diz respeito ao louvor. Desse
modo, Deus é tudo em todos, com respeito a cada parte dessa comunicação da
plenitude divina que é feita à criatura” (EDWARDS, J. O fim para o qual Deus
criou o mundo. Monergismo, 2015. Disponível em:
<http://www.monergismo.net.br/textos/livros/Jonathan_Edwards_O-fim-para-
o-qual-Deus-criou-o-mundo.pdf>. Acesso em: 22 março 2019).
JOHN PIPER

• O termo “hedonismo cristão” é amplamente difundido


nos escritos do autor John Piper e resume sua tese
central: “Deus é mais glorificado em
nós quando estamos mais satisfeitos nEle”.

• Piper enfatizou que essa satisfação em Deus não exclui o


sofrimento, mas pressupõe a alegria em meio à aflição.
JOE RIGNEY
• Rigney, autor do livro As Coisas da
Terra, embora abrace o hedonismo
cristão, fornece uma abordagem
corretiva da forte tendência ascética
dessa visão.

• Ênfase equilibrada entre a tendência


ascética e a apreciação da Criação.
GORDON H. CLARK
• Egoísmo ético versus egocentrismo;

• A revelação fornece o escopo adequado para o autointeresse. A doutrina bíblica não


nega a legitimidade do interesse como motivação, mas a reconhece ao enfatizar
recompensas e punições;

• O teísmo cristão exige sacrifícios dos homens, mas não sacrifícios supremos (Mt 18:8-
9; Rm 8:18).

• “Não só os que satisfazem as exigências de Deus serão recompensados com alegrias


indizíveis, mas também o desejo consciente dessas recompensas é uma motivação
legítima” (CLARK, G. H. Uma Visão Cristã dos Homens e do Mundo. Brasília:
Monergismo, 2013. 183 p.).
O APELO DO EVANGELHO AO INTERESSE PRÓPRIO
• “A Bíblia apela diretamente ao medo e interesse próprio; ensina que a
destruição absoluta espera por aquele que rejeita a Cristo; e também
ensina que, embora o cristão possa ter uma tribulação temporária, em
última análise não perde nada, mas ganha tudo em aceitar a Cristo”
(CLARK, G. H. Ensaios sobre Ética e Política. Brasília: Monergismo,
2018. 228 p.).

• Textos bíblicos (lista não exaustiva): Sl 37:4; Sl 42:1-2; Hb 11:26; Hb


10:34.