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CORRUPÇÃO DO ACORDO TÁCITO À CORRUPÇÃO PLANEJADA

Citação: Rabelo Profeta, Gilberto. Corrupção do Acordo Tácito à corrupção planejada. http://gilbertoprofeta. blogspot. com/p/blog-page_31. Html.

ÍNDICE

1. O que é Corrupção

2. A corrupção atual sistematizada desde o Governo Collor

3. Histórico da Corrupção da Petrobras e fundos de pensão desde o Governo Sarney

4. Certeza absoluta de impunidade

5. A desconstrução da lei de licitação a partir do governo Lula

6. Teoria do Domínio do Fato

7. A Teoria do Domínio do Fato, governo e corrupção

8. O governante que não sabe de nada não é mero participante, é coautor

9. Corrupção: que crime é este que não se consegue punir por falta de provas?

10. A corrupção como resultado de acordo tácito segundo a Teoria dos Sistemas (Morin)

11. Quais são as condições para o aparecimento da corrupção?

12. O Ovo ou a galinha: a solicitação ou a oferta de vantagem indevida?

13. Corrupção planejada: acordo verbal

14. Corrupção: crime sem prova material?

15. Como acabar com a corrupção

16. Referências

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1 O que é Corrupção

Os analistas procuram relativizar o conceito de corrupção para adequar-se a momentos e concepções vigentes em cada sociedade. [CCOD] É a busca da relativização de tudo, e, qualquer que seja sua utilidade social, a relativização do Direito tem servido não à Sociedade como um todo, mas a "sociedades fechadas", grupelhos de indivíduos que se apropriam do Poder e usurpam direitos individuais em nome de uma ideologia marxista ou com tintas marxistas, escondendo uma realidade de privilégios a uma classe política sob o manto de benefícios sociais e proteção aos mais pobres. Esta visão distorcida das Coisas da Realidade, que em si é uma manifestação da corrupção institucionalizada, não impede que a corrupção seja, em termos absolutos, "relação entre quem tem poder decisório e quem tem poder econômico" [CCOD] no trato com as coisas públicas, em benefício de pessoas e em detrimento do Estado.

Os artigos sobre a corrupção misturam a corrupção moral com a corrupção política e se preocupam em fazer o brasileiro crer que a corrupção está em sua veia, no jeitinho brasileiro, na lei de Gerson, contudo, a corrupção política se dá entre pessoas já moralmente corrompidas. Felizmente não há homens moralmente puros, é uma impossibilidade, por isto o Estado exige que além das leis jurídicas os políticos sigam as leis morais e sejam punidos quando a ambas infringe. Daí se vê que a relativização do Direito e da Moral é um instrumento da corrupção.

1.1 Corrupção, definição

"Corrupção é o ato final e criminalmente punível, iniciado sempre por outro crime menor, nomeadamente falsidade, abuso de poder, abandono de funções, denegação de justiça . ), e cujo objetivo é, gestualmente, verbalmente ou sem respostas, intimidar, consentir, aguardar, aceitar, solicitar ou prometer uma vantagem patrimonial ou não patrimonial indevida, para si ou para terceiro". [CPWIKI]

Considerando as empreiteiras, é o uso do poder econômico para que as leis sejam burladas ou interpretadas de modo a favorecer a alguém ou algum grupo de influência política ou econômica, em qualquer época e lugar. Deste modo é que surge a situação em que o detentor de poder decisório, detendo também o poder econômico corrompe outros detentores de poder decisório, não detentores de poder econômico, mediante a distribuição de vantagens aparentemente aprovadas pelas próprias leis que os segundos criam em sua função legislativa, ao mesmo tempo em que corrompe os detentores de poder moderador, judiciário, vigilante do cumprimento das leis, para que as fraudes e burlas sejam toleradas.

As definições encontradas não premiam a situação em que se pede o pagamento de propina simplesmente para se fazer andar a máquina administrativa em favor de quem a paga, sem que sejam burladas as leis ou mal interpretadas a favor de quem paga: nestes casos apenas não se identificou qual foi a vantagem indevida obtida.

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1.2 Não tem um conceito jurídico unívoco

Não existe um conceito jurídico unívoco acerca do que, efetivamente, consiste a corrupção, [ROSSCC] o que é um impropério sendo facilmente identificáveis todos os elementos da equação: existe o Estado e nele o agente público, com um salário para exercer suas funções, como intermediário entre o Estado e o agente privado, corrupção é quando o agente público recebe uma vantagem além do salário para cumprir sua função de intermediário, ainda que não esteja praticando ilícitos, mas simplesmente fazer andar a máquina administrativa. Quando um agente público coloca um processo de alguém que conheça na frente de um processo de alguém que não conheça, ainda que não receba vantagens pecuniárias, o reconhecimento e a gratidão são a recompensa, mas há o prejuízo do autor do processo que foi retardado.

Não existir um conceito jurídico unívoco definindo a corrupção aponta uma falha do campo semântico jurídico e é uma brecha que permite argumentações falaciosas a favor de quem comete o crime.

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2 A corrupção atual sistematizada desde o Governo Collor

2.1 Introdução

Trata-se a corrupção atual no país e sob investigação na Operação Lava Jato como se fosse um fenômeno iniciado recentemente, com omissão dos dados que levam à percepção de que a corrupção atual e o Petrolão se iniciam no período Collor, com a institucionalização da corrupção e aprimoramento dos mecanismos de sua perpetuação. Há Institucionalização do crime quando os criminosos são autoridades públicas

constituídas. Institucionalizar a corrupção é também fazê-la de forma que não haja risco

de ruptura das instituições e da governabilidade do país, com a criação de mecanismos

que a tornem "necessária" ao desenvolvimento e ao bem-estar social, e pelos quais será justificada. É preciso entender, então, a corrupção como um sistema, um fato perene de que surgem emergências de acontecimentos organizados de ilícitos, um sistema pró- corrupção que gerencia estas emergências. É necessário, portanto, analisar os fatores que nutrem este sistema pró-corrupção e combatê-los, sem o que não se obtém controle sobre

a corrupção.

O poder constituído não tem interesse Real de acabar com a corrupção desde então,

embora as denúncias tenham sido repetidas. É sabido desde então que a impunidade é o fator determinante da corrupção. Não foram criados mecanismos efetivos de combate à corrupção, mas ao contrário, criaram-se mecanismos que dão a certeza absoluta de impunidade, um Sistema de Impunidade nos três poderes constituídos, Executivo, Legislativo e Judiciário. Em 24 anos, todas as formas de sofisma foram usadas para que nada se fizesse para coibir a corrupção ao mesmo tempo em que se vende ao povo, por marketing publicitário, a ideia de que a corrupção está sendo combatida. A principal desculpa de que eram acusações sem provas é uma falácia que tem sido aceito acriticamente: foram feitas denúncias, e estas não necessitam de provas, apenas de indícios. O caminhar da História prova que as denúncias continham acusações

admissíveis e verdadeiras.

2.2 Acordo tácito de omissão e conivência

Você sabia que a corrupção na Petrobras e nos fundos de pensão foi denunciada em 1991 e nada se fez para o combate efetivo? Quais os motivos? Por que os três poderes constituídos são ineptos para tomar as medidas necessárias para punição dos corruptos e ressarcimento dos prejuízos.

A réplica que se faz quando se fala da corrupção atual e seus autores é que a corrupção

sempre existiu, e é lógico que havia corrupção também antes do governo Collor. Nunca

se assumiu é que já existia bem antes o nutriente da corrupção, o acordo tácito entre os

três poderes constituídos para o perdão antecipado a crime de omissão e a possibilidade,

sem certeza, de impunidade para a corrupção.

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Os dados disponíveis na Internet, que se torna o Inconsciente Coletivo da Humanidade, nos registros de divulgação de informações mostra estarem presentes na Política do momento muitos dos personagens que estavam atuantes no período Collor, ou pessoas por eles manipuladas, marionetes, Não se podendo crer que todos os políticos sejam estúpidos a ponto de não perceberem a realidade em que atuam, pode-se afirmar que há um sistema de crimes por omissão em que todos os agentes públicos, políticos ou não, participam, Executivo, Legislativo e Judiciário. Todos se omitem por acordo tácito e criam, por serem também legisladores ou exercerem influência nos legisladores, um sistema que garante uma Certeza de Impunidade aos atos de corrupção, fazendo dela depender empregos e o desenvolvimento do país, com manipuladores da opinião pública criando a mitologia necessária para que todo o povo, ou pelo menos uma maioria de pessoas com direito a voto, acreditem na necessidade dos atos ilícitos para o desenvolvimento econômico e bem-estar da população.

2.3 Juízo de fato, juízo de valor

Está em andamento um sistema de manipulação da mente do homem como indivíduo e como cidadão para se implantar um sistema de governo não necessariamente aceito por todos se o conhecessem nas consequências que trará para a vida cotidiana de cada um, ao mesmo tempo em que procura se fazer que a corrupção que o sustenta seja aceita como fato comum na vida em sociedade. Esta manipulação se faz pelas manifestações a favor de alteração de fatores culturais, em direção à mudança de significados, normas e valores, seguindo as prescrições de Gramsci para a implantação da hegemonia do marxismo no país. A grande arma desta manipulação é a articulação de falácias em sofismas bem elaborados, explorando a incapacidade natural do homem, não apenas o brasileiro, de reconhecer os mecanismos de manipulação de sua mente e de, deles, decretar sua independência pela procura dos meios de Compreender a Realidade, Aprender a Ler, a reconhecer Mentiras, Falácias e Sofismas, para não ser apenas uma mente antena repetidora de conceitos que nela são inseridos e organizam o pensamento na direção ideológica desejada. Aprender a ler para não ser manipulado. A Realidade é que a corrupção passa a ser o preço que se paga pela concretização dos ideais ditos progressistas do regime que se implanta paulatinamente no país. Para se compreender esta manipulação, é preciso distinguir o juízo de fato de Juízo de valor. Juízos de fato são aqueles que dizem o que as coisas são, como são e por que são. Juízos de valor procuram determinar sentimentos, atos, comportamentos e obrigações e avaliam intenções e ações de cada um segundo o critério do correto e do incorreto. [CORPO] São julgamentos sobre coisas, pessoas, ações, experiências, acontecimentos, sentimentos, estados de espírito, intenções e decisões como bons ou maus, desejáveis ou indesejáveis. Para se controlar os juízos de fato aplicam-se a mentira e a falácia, descrevendo as coisas como elas não são, escondendo detalhes importantes para a sua compreensão, e as explicam com falácias e sofismas, induzindo a crença de que são o que são sem que o sejam. É notório o fato de a mídia estar sempre chamando de presidente aos ditadores, por exemplo.

São assim também muitas análises da corrupção. Tendenciosas, podem considerar como a corrupção funciona na Realidade como se não houvesse a necessidade de ser combatida

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e mantida em níveis irrisórios, com argumentações falaciosas procurando interpretar seus mecanismos e causas de modo a alterar sua percepção pelo cidadão comum e os juízos de valor que possa dela fazer. Está em jogo um sistema de repetição de conceitos, também muitas vezes falaciosos, que organizam a mente do leitor/ouvinte em direção a uma compreensão defeituosa da Realidade, criando convicções que alteram os juízos de valor sobre a corrupção: para considerá-la um ilícito a ser tolerado.

2.3.1 Compreensão imediata e manipulação da mente

Esta manipulação da mente explora a tendência natural de se ler a Realidade e os textos por compreensão imediata: às palavras e coisas são apostos apenas os sentidos que se têm internalizado na mente, sem levar em conta os múltiplos significados que toda palavra contém ou o que o emissor do discurso quis dizer. Esta tendência tem sido usada para manipular a compreensão que o homem comum, singular, tenha da Realidade veiculando textos que inserem na mente de cada um dos significados a serem apostos às coisas e às palavras, visando a adesão a ideias e valores que não são os seus próprios e a que não iria aderir se permitido a ele a compreensão correta dos significados e dos valores envolvidos. Há no momento a manipulação tendenciosa dos juízos de fato e de valor de cada cidadão para a implantação da hegemonia do marxismo como lido por Antonio Gramsci, o comunismo disfarçado em democracia. Esta destruição e reconstrução da Cultura estão em andamento no Brasil e na América Latina, e também em países ditos desenvolvidos (com menor velocidade e ênfase) e se fundamenta na leitura e complementação dos escritos de Antonio Gramsci. O Juízo de valor fica prejudicado seja por parcialidade ideológica, seja por leniência com o ilícito. Na tolerância ao ilícito entra a relativização do Direito passando a considerar que o Fim justifica os meios, premissa pregada por Antonio Gramsci, a partir de sua leitura, também afetada pela relativização, de Maquiavel, O Príncipe. O risco é conhecido, mas ignorado, foi assim que o cidadão comum participou das atrocidades do Nazismo. É necessário ainda a análise do tema corrupção no texto de Maquiavel. [GRPCMP]

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3 Histórico da Corrupção da Petrobras e fundos de pensão desde o Governo Sarney

3.1 Apresentação

É preciso compreender que a Internet é o Inconsciente Coletivo da humanidade, e como

tal, tudo ali está registrado, mas sendo preciso busca e análise para recuperar: se estão

registrados fatos estão também registrados os meios de que se usou para os camuflar. A Mentira, a Falácia em sofismas bem ou mal construídos sempre foi e será usado para mascarar a Verdade, o verdadeiro fluxo de Acontecimentos que se deram na Realidade, daí a necessidade de compreender que saber ler não é apenas articular palavras em sentenças e as sentenças de um texto, é preciso aprender a distinguir os sofismas e suas falácias.

Você sabe o que é “corrupção institucionalizada”? Por que “empreiteira” é ”pessoa jurídica” e quando em 1991 foi denunciado que havia corrupção na relação empreiteiras

x governo e não se abriu processo judicial justificando que a denúncia não indicava os

nomes das “pessoas “ envolvidas? Por que os políticos e os juízes supremos engoliram calado esta falácia? Por que as denúncias são feitas a jornalistas e não ao Ministério Público, abrindo processo judicial se forem acusações admissíveis e com indícios de serem procedentes de ilícitos praticados? Você já percebeu que, quando denúncias são feitas e não se tomam as providências judiciais cabíveis, a História e o Tempo provam se eram acusações admissíveis e procedentes? A quase bancarrota da Petrobras não tem também como culpados os que foram omissos e coniventes, não levando a frente as denúncias? Se Collor mandou interpelar o primeiro denunciante ao jornalismo de que havia corrupção em seu governo envolvendo as grandes obras públicas e empreiteiras, qual o motivo pelo qual nenhum outro presidente se deu ao trabalho de interpelar os

denunciantes? Você percebeu o ato falho da presidente entregando seus companheiros como participantes de uma organização criminosa?

A corrupção na BR Distribuidora foi descoberta no governo Sarney (1985-90), o alto escalão da subsidiária da Petrobras foi afastado após denúncias por uma série de reportagens do Estado de S. Paulo, em fins de 1988, intitulada “O Caso BR”, assinadas por jornalistas Ricardo Boechat, Suely Caldas, Aluizio Maranhão e Luiz Guilhermino. O ponto de partida foram denúncias do presidente do BNDES contra a BR de um esquema envolvendo aplicações financeiras ou contratações bancárias, resultando em desfalque de pelo menos US$ 20 milhões nos cofres da BR Distribuidora. [CPPE]

Sabe-se desde 1992 que as Licitações para as obras públicas abrem as portas para a corrupção. A Lei das Licitações não foi revogada, mas foram editadas outras leis que a modifica substancialmente facilitando a corrupção. E isto só foi possível pelo acordo tácito de omissão e conivência e pela impunidade reinante. Prova cabal da Certeza Absoluta é a ferida imposta à Constituição pela nomeação de Procurador Geral da República para o cargo de Ministro da Justiça, e a ainda promessa de recorrer da suspensão da posse imposta por ministro do STF. Um presidente só toma decisões tão

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abertamente inconstitucionais quando tem a Certeza Absoluta de Impunidade. A corrupção é antiga e o que há de novo é o espírito crescente de que a corrupção na política não é um crime tolerado, mas a ser combatido. Esta intolerância à corrupção tem sido explorada nas campanhas presidenciais desde antes de Jânio Quadros, que renunciou devido à "forças ocultas". A impunidade também é antiga. No governo Sarney, PMDB, denunciou-se o foco do incêndio pela fumaça, ou seja, sem indicar os nomes das pessoas físicas ou jurídicas envolvidas, mas não se tomam providências e o incêndio toma as proporções atuais. A mídia anunciou no dia 14/3/1990, que em janeiro o ministro do Planejamento, Aníbal Teixeira pedira demissão, com denúncias de corrupção [Veja Edição 1121, 14/3/1990] e nenhuma providência se tomou. O ministro demissionário não ter disse nomes de pessoas, físicas ou jurídicas, entretanto, apontou o foco: nas grandes obras e construções do governo. Deste modo, Collor, assumindo em 15 de março, após campanha eleitoral em que conquista votos também com a promessa de acabar com a corrupção, comete o seu primeiro crime, omissão em mandar instalar a sindicância necessária.

Qual o motivo pelo qual uma denúncia de que as grandes obras e construções do governo são foco de corrupção não tenha sido motivo suficiente para as diligências necessárias em busca dos nomes exigidos pela Lei? Quais os motivos pelos quais Aníbal Teixeira não entrou com denúncia popular no Ministério Público e fez girar a roda da Justiça? Em essência, o ministro demissionário foi omisso, embora possa ter sido forçado à omissão pelos pré-requisitos para se fazer uma denúncia popular: não basta indicar onde está havendo corrupção, é preciso ser portador de uma prova, mas se aceita passivamente que não há provas para os atos de corrupção. Todos fingem acreditar neste sofisma. O único crime para o qual não existem provas é o que não foi cometido. Talvez o defeito esteja na interpretação inadequada do que seja "denúncia” e do que seja "acusação" (ver Diferenciação entre denúncia e acusação), fazendo os dois termos se confundirem em um só significado "acusação", mesmo que os textos permitam a diferenciação, pelo contexto e pela aplicabilidade de ambos.

Às vésperas de o presidente assumir seu mandato denuncia-se corrupção nas grandes obras e construções do governo, e Collor assume como se nada houvera sido denunciado:

este fato não é prova de omissão e motivo para punição. De outro lado, ninguém cobrou de Collor uma ação contra a corrupção denunciada. Quais os motivos? Quais as consequências?

Se a denúncia de corrupção na Petrobras e nos fundos de pensão se faz desde o governo Sarney e nenhuma atitude de coibição e punição se tomou, tem-se que os políticos temem acabar com a corrupção efetivamente, pois acabaria com a propina que sempre a eles foi paga. De outro lado, não se acabará com a propina como antes era praticada e muito menos com a corrupção como atualmente praticada enquanto houver leniência com a falácia, a mentira e o sofisma.

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3.2 Luis Roberto Ponte: as licitações, portas abertas à corrupção

Se Collor se omitiu quanto às denúncias de Aníbal Teixeira, logo no início do mandato

ordenou que fosse interpelado na Justiça o deputado Luis Roberto Ponte, que foi Chefe

do Gabinete Civil de José Sarney. O deputado, em abril de 1991, faz publicar uma carta

em que denuncia a pressão para o pagamento de propinas no país em níveis insuportáveis e dá genericamente o governo como o autor dessa pressão (Veja Ed 1180, 1/5/1991). "A corrupção sempre existiu, mas está tomando proporções alarmantes", acentuando não haver como

provar. Em essência, a cobrança de propinas sempre existiu, sob pressão de agentes políticos, mas passou a ser sob pressão do próprio governo. A entidade de classe dos empreiteiros, Câmara Brasileira da Indústria da Construção, manda reproduzir a carta em vários jornais, endossando-a.

Em conclusão, o esquema de pagamento de propinas foi denunciado em 1991 e não se abriu processo para apuração. Ponte, em sequência, elaborou a Lei de Licitações e, se não entrou com processo judicial, traz à lembrança o fato de que nunca se procurou verificar porque as denúncias chegam a jornais e não a instâncias judiciais. A denúncia, no entanto,

se refere ao início da sistematização e institucionalização da corrupção e do mecanismo pelo qual ela se mantém perene.

3.2.1 Consequências da denúncia de Ponte

Em relação à corrupção, há uma diferença entre o período Collor e os mais de 12 anos em

que o Partido dos Trabalhadores está no poder: faziam-se leis contra a corrupção e agora

se

fazem medidas provisórias que amenizam o combate à corrupção. Naquele momento

o

sistema anticorrupção funciona e o próprio acusado, o governo, patrocina o

aparecimento de medidas efetivas contra a corrupção e a denúncia de Roberto Ponte resultou na Lei de Licitações, a 8. 666/93, também por ele redigida. [L8666, LRPEPE]

3.2.1.1 A Lei Nº 8.666, de 21 de junho de 1993

A Lei 8. 666 regulamenta o art. 37, inciso XXI, da Constituição Federal, instituindo

normas para licitações e contratos da Administração Pública. [L8666A. L8666B] Seria necessário analisar um a um os artigos que foram posteriormente alterados e como beneficiariam a corrupção; fica-se, no entanto, com as opiniões do autor da Lei, a serem apresentadas posteriormente.

3.3 CPI do Orçamento 1994

3.3.1 Relatório Final, 1994

A CPI do Orçamento se inicia com o chefe da assessoria técnica da Comissão do

Orçamento do Congresso denunciando um esquema de empreiteiras, de que ele próprio

fazia parte, manipulando o orçamento público, em outubro de 1993. Deixa ele

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transparecer a corrupção como organização criminosa transparece ao colocar em prática

a Lei de Silêncio quando, tendo sido preso, manda matar sua esposa que denunciara a

corrupção, e, declarando-se inocente responsabiliza dois deputados participantes do esquema como mandantes do crime. O acusado se negou peremptoriamente, sempre, a revelar todos os segredos do esquema, findo a falecer em 2004. [https://pt. wikipedia.

org/wiki/Anões_do_Orçamento]

A História caminhou o suficiente para demonstrar que, apesar de bem-intencionada, a

CPI do Orçamento se transformou em mais uma farsa para dar satisfação de que há o combate à corrupção, procurando controlar apenas aquela que, por se declarar

abusivamente transparente, não puder ser escondida, mas deixou restar que eram apenas

os "Anões do Orçamento", políticos menores com cargo ou influência sobre a Comissão Mista de Orçamento, os políticos envolvidos no esquema.

3.3.2 Existência de crime organizado no Executivo e Legislativo

Na CPI do Orçamento apurou-se a existência de organizações destinadas a lesar o Estado, ao mesmo tempo em que denuncia o acordo tácito de omissão e conivência com a corrupção: uma instalada no Executivo, que definia os recursos, e outra no Legislativo, que, embora sabendo da ilicitude dos recursos, ordenava o pagamento. [CPORF] Em consequência, constando o mecanismo da corrupção no Relatório Final da CPI do Orçamento, e já tendo sido denunciado que a pressão pelo pagamento de propina partia

do próprio governo (Veja Ed 1180, 1/5/1991), todos os políticos eleitos desde então que não apontaram esta situação, principalmente os que exerceram cargos de governo, cometeram crime de omissão, o que os faz partícipes do acordo tácito de omissão e conivência. Omissos também foram os que fizeram as denúncias de corrupção, e, tendo a capacidade de introduzir as alterações que realmente permitam o controle da corrupção no Sistema de Significação, Normas e Valores, contribuíram com a formação de opinião pública de que a corrupção não tem cura. Todos os governantes que assinaram Medidas Provisórias

e emendas a Leis facilitando a atuação destas múltiplas organizações criminosas são

coatores da corrupção. Não são cúmplices involuntários, uma vez que, por mais iletrado

que seja o governante, não pode ignorar o que há de corrupto no país e estar orientado no mínimo quanto à súmula dos relatórios finais das CPIs que apuraram a corrupção e apontaram tais organizações criminosas. Entretanto, o Direito não prevê como crime este tipo de omissão e conivência, ainda que a prova do tempo tenha determinado que todas as denúncias havidas do período Collor em diante preenchiam todos os critérios de admissibilidade e de procedibilidade necessários para se aceitar as acusações e instaurar

os processos judiciais necessários.

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3.3.3

políticos

A prova do tempo não é prova jurídica suficiente. Em uma situação em que a corrupção se torna perene, institucionalizada e com mecanismos de blindagem que dão a certeza absoluta de impunidade, a suspensão de direitos políticos não pode ser temporária, mas vitalícia. Todo aquele que se omite e se torna conivente com os atos ilícitos dos governantes, garantindo-lhes votos para que suas propostas de facilitação da corrupção sejam aprovadas, deve ser juridicamente advertido, sendo primário, e, na reincidência reiterada, sofrer processo de cassação e perda vitalícia de direitos de exercer cargos de agentes públicos, em qualquer instância e tempo, ainda que seja a mera possibilidade de influenciar outros agentes públicos. É preciso considerar que um político ou partido que dê abrigo a corruptos com perda de mandato estão sensibilizados para cometer ilícitos. Não há sentido além do culto à corrupção em se permitir a aderência a partidos políticos de indivíduos cassados exatamente por corrupção. Não seria uma proposta utópica não fosse a existência de acordo tácito de omissão e conivência.

direitos

Corrupção

e

perda

vitalícia

de

Naturalmente, o acordo tácito de omissão e conivência atinge também o Judiciário:

"Quando um Estado se encontra infeccionado é difícil que essa infecção se limite a um só de seus Poderes". [CPORF] Os homens públicos sabem como funciona a corrupção e o que deve ser combatido é sua tolerância, que dá a Certeza de Impunidade, com os atos ilícitos em qualquer dos poderes constituídos.

3.3.4 Recomendações da CPI do Orçamento

As recomendações da CPI do Orçamento foram: [CROM10]

a) Elaboração compartilhada dos Orçamentos pelos Poderes Legislativo e Executivo;

b) Limitação do poder de emendar a lei orçamentária;

c) Definição de percentual mínimo de aplicação de recursos em continuidade de obras;

d) Extinção das subvenções sociais;

e) Limitação das transferências federais voluntárias;

f) Mudança na legislação referente aos créditos suplementares;

g) Aparelhamento organizacional e material do Poder Legislativo;

h) Restauração das Comissões de Fiscalização e Controle da Câmara dos Deputados e do Senado Federal;

i) Fortalecimento dos Sistemas de Controle Externo e interno;

j) Mudanças nos Regimentos Internos do Senado Federal, da Câmara dos Deputados e Comum do Congresso Nacional, quanto aos prazos das CPIs e CPMIs;

k) Mudanças na legislação eleitoral e partidária;

l) Abolição do sigilo fiscal e bancário para mandatários políticos;

m) Mudanças na Constituição Federal no tocante aos princípios informadores dos casos de inelegibilidade, e consequente alteração da lei que estabelece tais casos;

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n) Mudanças no regime da imunidade parlamentar;

o) Inscrição constitucional da pena de suspensão do exercício do mandato;

p) Contingenciamento orçamentário e impositividade da lei orçamentária.

3.3.4.1 Elaboração compartilhada dos Orçamentos pelo Legislativo e Executivo

Como recomendado pela CPI o orçamento como um "pré-orçamento" passou a ser discutido em todas as Comissões Técnicas Permanentes e um ponto-chave da sistemática proposta seria a fixação, na Lei de Diretrizes Orçamentárias - LDO, do volume global de dotações para cada unidade orçamentária. [CORM10] No Relatório final não há nenhuma preocupação com as más interpretações que se possa dar ao que a LDO dispõe ou aos mecanismos de controle de possíveis brechas e interstícios nas leis, e não se percebeu que um "pré-orçamento" daria ao Executivo a liberdade de arbítrio sobre o orçamento.

A Lei de Dotação Orçamentária existe, e seu não cumprimento se faz com a certeza de impunidade dada pela má interpretação do que seja líder de partido: são donos da consciência dos liderados, obrigando-os a votos que vão contra o que lhes dita a consciência. Há a aceitação de um paradoxo, o crime cometido por político contra o patrimônio público só será considerado crime se houve aprovação da acusação em eleição. Ou de outra forma, o crime de responsabilidade por não cumprimento da Lei Orçamentária só será considerado crime se a acusação for aprovada por 2/3 dos membros da Câmara e a acusação só será efetivada por 2/3 dos membros do Senado, com voto de liderança e não voto de consciência. A Lei 1. 079/50 em seu artigo 23 prevê apenas a proibição do "encaminhamento de voto" durante a votação|, não impedindo que tenha havido o encaminhamento previamente em reuniões partidárias. Não há nenhuma salvaguarda constitucional para o caso presente em que os votos são controlados pela liderança de governo e de partido: pode-se descumprir a lei, desde que se tenha a maioria absolvidora nas Casas Legislativas, ainda que esta maioria seja obtida por meios imorais. Novamente, a Constituição não premia o voto de consciência.

3.3.4.2 Definição de percentual mínimo de aplicação de recursos em continuidade de obras

A recomendação procurou controlar o "esquema das empreiteiras" em que agentes políticos exerciam poder na Comissão Mista de Planos, Orçamentos Públicos e Fiscalização CMO, favorecendo uns projetos em detrimento de outros, com a inclusão de projetos novos abrindo uma espécie de "janela orçamentária". [CORM10] A observação de que grupos de poder instalados na CMO (parlamentares) agiam "sem levar em conta o impacto que a continuidade ou a conclusão da correspondente obra ou serviço acarretaria ao longo do tempo" [CORM10] continuou a prevalecer, no entanto, de forma mais aprimorada, como demonstram as consequências da corrupção e o volume de obras paradas no país. [NSPOPE] Não foram criadas salvaguardas contra a corrupção e as licitações e o orçamento passaram a ser legislados por Medidas Provisórias,

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inconstitucionais devido ao fato de que se trata de um instrumento excepcional que se torna rotina para tornar lei todas as vontades do Executivo. É outro ponto em que há leniência excessiva de todos os homens públicos e formadores de opinião.

3.3.4.3 Extinção das subvenções sociais

"Subvenções sociais consistem em transferência de recursos que independe de lei

específica a instituições públicas ou privadas (de caráter assistencial serviços essenciais

de assistência: social, médica e educacional ou cultural, ), sem finalidade lucrativa, com

o objetivo de cobrir despesas de custeio, afeita ao controle interno dos órgãos concedentes

A CPI

constatou serem as subvenções sociais caminho para diversas modalidades de corrupção e mau uso do dinheiro público, e propôs a extinção de todas as subvenções sociais, específicas e globais. [CORM10, CPORF] O caráter inidôneo das subvenções sociais aparece pela existência na União de instituições dirigidas à ação social, como o Instituto Nacional de Seguridade Social e a Legião Brasileira de Assistência, além de outros órgãos nas diversas estruturas do Executivo, e, quando necessárias, ser atribuição dos Estados.

Se o "esquema das subvenções" foi controlado o que se assistiu, posteriormente, foi a demagogia e populismo dos benefícios sociais como distribuição do Bolsa Família, de

caráter nitidamente eleitoreiro, problema a que não se presta atenção, apesar de se ter já denunciada exclusão dos verdadeiros possíveis beneficiados do programa, aqueles com renda familiar inferior à determinada pela lei que a instituiu, ou seja, a 140 reais por mês:

famílias com esta renda estão excluídos da sociedade que não tomam conhecimento dos benefícios sociais e tomam conhecimento não se inscrevem. Qualquer benefício social dedicado a erradicar a miséria deve "caçar" um a um os miseráveis, providenciando-lhes

os documentos necessários para serem inscritos. O número de miseráveis aumentou no

país, o que demonstra não se tratar de justiça social os benefícios sociais concedidos. [Ipea

mostra que aumentou número de miseráveis no país em 2013 Jornal O Globo http://oglobo. globo. com/economia/ipea-mostra-que-

Não houve preocupação

também com a denúncia de que os benefícios são distribuídos por militantes dos partidos coligados com o PT, não os concedendo àqueles que potencialmente não seriam seus eleitores.

O que se denuncia é facilmente verificável nas reportagens sobre beneficiários do Bolsa

Família, pelo vestuário e objetos que portam. Observa-se que a cada tentativa de controle

da

corrupção por meio de Leis há um redirecionamento das forças em direção ao retorno

da

situação anterior, prevalecendo os mecanismos que facilitam a corrupção: o executivo

mantém controle absoluto do orçamento e o usa a corrupção a favor de um programa político, ainda que este programa político esteja se mostrando falho em vários países em que foi adotado.

13

imunidade

parlamentar

Se em 1993 o relatório recomenda mudanças no regime de imunidade parlamentar, necessário é que se altere a compreensão do que seja imunidade parlamentar, que passou

a fazer parte do sistema que dá a Certeza de Impunidade.

Em 2015, manifestou-se o desejo, inclusive entre os políticos, de tornar a corrupção um crime hediondo. [Q7DQTC] Não são analisadas quais seriam as vantagens de se tratar a corrupção como crime hediondo, mas constata-se que a Constituição não prescreve a perda de imunidade parlamentar para os crimes de corrupção. A corrupção é um crime que depende de problema de caráter e formação moral do agente para ocorrer: todo ser humano pode ser tentado ao crime quando surge a oportunidade; alguns cedem facilmente; quanto maior a formação moral menor a probabilidade de ceder ao aforismo "a oportunidade faz o ladrão". Não produz resultados práticos enxergar e apontar que

corrupção é roubo e o corrupto um ladrão, é preciso assumir até as últimas consequências:

a corrupção, embora ocorrendo na administração pública é roubo e como tal é crime

3.3.4.4 Mudanças

no

regime

da

comum e não está coberto por imunidade parlamentar. Quais os motivos pelos quais as constituições geralmente assim não consideram, sendo tão óbvio? No que respeita à Constituição de 1988 é fácil perceber que, não tendo sido elaborada por uma constituinte com representantes de todos os segmentos da sociedade, mas por políticos eleitos para cargo legislativo, não haveria estes autointitulados constituintes de legislar contra si

mesmos: não é da natureza humana.

A corrupção não deixa de ser crime comum apenas por ter sido praticada por político, é outro absurdo que se descobre: a imunidade parlamentar mesmo para crimes de corrupção

é outro instrumento que dá a Certeza de Impunidade e é aceita por acordo tácito de

omissão e conivência entre todos os participantes dos três poderes constituídos. Contudo,

tendo a Constituição de 1988 se mostrado apenas um quadro negro onde são apostas emendas de acordo com as necessidades do momento, nenhum agente político ou jurídico irá propor emenda constitucional que leve à compreensão do que é, em essência, a corrupção, um crime comum, e, na insistência de que não seja crime comum, é crime de lesa-pátria.

de

suspensão do exercício do mandato

É absurdo desejar que tudo esteja previsto na Constituição: é absurdamente imoral o acusado permanecer em exercício de cargo político, votando medidas que o protejam, que amenizem sua situação criminosa. O problema é que "o que é imoral e não está previsto em lei ser também ilegal" é considerado legal, mesmo que a Constituição fale em probidade e moralidade no exercício das funções públicas. É por este caminho que todos os formadores de opinião que pregam a relatividade da Moral e do Direito pregam também a favor da corrupção: embora alguns apontem a imoralidade do fato, assiste-se a

3.3.4.5 Inscrição

constitucional

da

pena

14

todo momento, políticos em investigação criminal no exercício do cargo, influenciando leis e votos que os absolva.

3.3.4.6 Limitação do poder de emendar a lei orçamentária

A primeira constatação é que o orçamento não precisa mais sofrer emendas pelo

Congresso para ser modificada, o executivo dispôs da coisa pública como bem entendeu, cometendo crime de responsabilidade fiscal por provocar déficit orçamentário, e, tendo

as contas reprovadas pelo TCU, foi, em 2014 e 2015, absolvido por voto viciado por manipulação do papel de líder de partido e de governo. O poder de emendar a lei

orçamentária virou moeda de troca para comprar votos dos parlamentares, que, pondo-os

no dilema entre "não se vender" e não conseguir liberação dos recursos correspondentes

à suas emendas apresentadas, ou "vender-se" e conseguir, cedem sua consciência à consciência dos líderes de partido. [CORM10] É mecanismo que também garante a CERTEZA DE IMPUNIDADE com votação inclusive para a absolvição de crimes cometidos. O governo tem se mantido no poder por voto de cabresto.

3.3.4.7 Contingenciamento orçamentário e impositividade da lei orçamentária

O contingenciamento, ou bloqueio das dotações orçamentárias, é uma prática iniciada por

Collor e seguida por sucessores, no pressuposto de que a LDO, Lei de Dotação

Orçamentária, é uma lei puramente autorizativa de gastos e não de execução impositiva.

É o próprio executivo quem arbitra o processo orçamentário, determinando o que se faz

e quando se faz. Se as contas do governo foram aprovadas, apesar de recomendação em contrário pelo TCU, há um ciclo vicioso de déficit orçamentário que está longe de se desfazer, prevendo-se que o Congresso aprovará mediante o voto de cabresto, em que o líder de partido é dono da consciência de cada membro de seu partido, e ele próprio é submisso ao governo. Não se encontrou, na Internet, análise do papel dos líderes de governo e de partido, não se encontrou denúncias de que é ato de corrupção distribuir

cargos a troco de votos, mas há a denúncia, em 2004 e em 2005 de que o contingenciamento é um Instrumento de barganha. [CORM10, ECCO]

Se a situação anterior, que permitiu o esquema das empreiteiras com os anões do orçamento sofreu alterações na pretensão de controlar influências espúrias de políticos, o funcionamento da administração do orçamento fluiu para a situação atual, em que tudo

se passa como mero teatro, representação de que o funcionamento é correto, legal e

moralmente adequado. Apenas que, no teatro, os atos não têm consequência prática e a imoralidade com que se administra a coisa pública trouxe o país ao caos.

3.3.4.7.1 Instrumento de barganha

"O fato de existir o contingenciamento sem nenhuma limitação, sem nenhuma restrição, sem nenhum critério, faz com que isso se transforme em instrumento de barganha, "

15

[ECCO] profecia de 2005 que se concretiza a partir de Lula e apodrece no governo Dilma.

O presidente passa a manipular "a seu bel-prazer o orçamento aprovado pelo Congresso,

no que nada fica a dever aos regimes mais autoritários que já tivemos, pela desenvoltura em reter a aplicação, manipular dotações constantes da lei orçamentária e barganhar sua

] sem estar submetido a qualquer regra objetiva de interesse da coletividade,

mas fazendo-o com base em critérios essencialmente políticos, pessoais ou eleitorais". [CORM10] Foi este o instrumento com o qual os governos petistas lograram trazer o país ao caos econômico atual e a liberação de todas as verbas para pagamento de obras superfaturadas. O que se observa, no entanto, é que muitos denunciam a vinculação do

PT com o Foro de São Paulo e suas prescrições para a implantação de um regime comunista, mas pouco se lê sobre o fato de que a partir de Lula o governo passa a cumprir o programa político partidário de seu partido, o PT e os partidos vermelhos coligados, o que tem sido denunciado em frases soltas, e não em análises profundas do problema. Daí

o fato de se argumentar que a corrupção é necessária, e deve-se aceitar que é necessária

por critério de utilidade, útil a programa político partidário financiado pela corrupção.

Na argumentação dos partidos no poder, a barganha de cargos políticos e a corrupção e malversação do dinheiro público teve como objetivo o interesse da coletividade. De outro lado, há dificuldade dos mentores ideológicos do regime que se pretende implantar no país em assumir que este interesse coletivo não foi alcançado aqui e nos países que seguiram o mesmo modelo. Houve a desorganização da economia, a parada do desenvolvimento, o retorno da inflação com a diminuição do bem-estar social. Os partidos coligados ao Partido dos Trabalhadores, vinculados a setores esquerdistas da Igreja Católica, conduziram o país ao estado atual não apenas pela corrupção, mas também pela incompreensão dos instrumentos com que se resolve a equação entre a Sociedade, o Homem, a Natureza e os Objetos: a Filantropia foi um dos primeiros instrumentos para se distribuir o Bem Estar a todos em uma sociedade, usado logo após os discursos do Iluminismo e da Revolução Francesa e foi abandonado, por não produzir desenvolvimento. A Caridade pregada pelo Catolicismo Marxista pode, historicamente, ter produzido santos, mas nunca produziu o desenvolvimento de um Estado, embora tenha sido sempre necessário para amenizar o sofrimento dos que são absolutamente desprovidos. Produziu também um pavilhão de espertalhões que se enriquecem pela exploração dos homens de boa vontade que têm a necessidade caritativa e compaixão com os que sentem fome. Em termos políticos não se percebeu que em regimes populistas a Pobreza nunca acabará, pois é a pobreza que os mantêm no poder.

A concessão de benefícios sociais se fez sem previsão orçamentária, não cumpriu seus

objetivos sociais, cumprindo apenas os objetivos eleitoreiros, e é um dos mecanismos

pelos quais o Brasil se atolou no caos atual.

Está registrado na História que o descontingenciamento lubrificou o esquema das empreiteiras com os anões do orçamento, sendo tarefa remunerada por propinas a aprovação de emendas orçamentárias beneficiando as empreiteiras. [CRIB]

Em 1992, Gustavo Franco, [CCRF] ainda professor de Economia na PUC do Rio de Janeiro, alerta em artigo na Folha de São Paulo ser a corrupção fruto direto da falta de

liberação

16

transparência e das decisões discricionárias, e que o resultado do contingenciamento é "a mercadoria, a verba orçamentária, tornar-se escassa e adquirir um preço no mercado negro", [CRIB] predispondo os empreiteiros à aceitação de pagamento de comissões. Denuncia, indiretamente, não haver um orçamento "de verdade", quando não haveria necessidade de contingenciamento. Embora teoricamente válido o seu ponto de vista, o que se observou foi o problema de o orçamento ser transferido para o Executivo, com o papel do Congresso de fazer de conta que aprova algo que sabe não será cumprido, e não o sendo, ferida a Lei de Responsabilidade Fiscal, a mesma Câmara aprovará, contando com o voto de liderança, não admitindo ter havido crime de responsabilidade do presidente da República. Tudo funciona como uma ação entre amigos, em que os políticos de situação são os atores, e os de oposição, seguem o acordo tácito de omissão e conivência: dão votos contrários, nunca suficientes para admitir o crime de responsabilidade, mas são surdos às denúncias de que o processo é viciado pelo Desejo e Intenção de Corrupção e, assim, promove a manutenção da corrupção. Se o orçamento é aprovado e não precisa ser seguido, que é o resultado final do que se observa na prática, por que fazer um orçamento e o aprovar pelo Congresso? Na prática o Executivo é o dono do orçamento.

Paulo Bernardo em 2005 reabre a questão do contingenciamento, e na mesma Comissão Mista do Orçamento que fora o ninho dos anões do orçamento, como seu presidente, reacendendo a ideia de ser apenas "um orçamento autorizativo" necessitando "contingenciamento discricionário da execução orçamentária". [CRIB] Houve, então, uma tentativa de reforma orçamentária, sem sucesso. Paulo Bernardo será em 2009 o ministro de Planejamento e se a prática de manipulação do orçamento era discricionária, mas discreta com Lula, nos governos Dilma passou a ser a regra.

Entretanto, é preciso contar com a aprovação pelas casas legislativas, o que se obtém pelo sofisma do papel do líder de partido e de governo. É desta forma que o partido que está governando pôde arruinar a economia do país para cumprir os objetivos de seu programa político-partidário. Há uma aceitação acrítica dos programas sociais e envio de recursos financeiros para países que comungam da mesma ideologia e que também tiveram suas economias destruídas. O Programa Mais Médicos usa o mesmo instrumento da corrupção, pagar mais por menos e não há força política disposta a terminá-lo, apesar de o governo pagar ao governo de Cuba por três médicos para cada médico que recebe.

A situação reina e permanecerá mediante o sistema de impunidade vigente, agora com a

Certeza de Impunidade dada pelo Poder Judiciário, que não se acanha de editar decisões

inconstitucionais, invertendo seu papel de fiscal da constitucionalidade.

Pode-se concluir que o problema não é o orçamento em si, é a falta de visão dos homens

públicos em cargos de agentes públicos, sejam agentes políticos ou judiciários, que não enxergam o funcionamento do aparelho sistêmico do Estado a ponto de conseguir prever

as consequências de seus atos e de suas aprovações de atos alheios. É lícito afirmar que há inépcia dos bem-intencionados que convivem com a existência de intenção de corrupção dos mal-intencionados, e que estes últimos galgam aos postos mais altos de liderança e comando. Simplesmente por quê? Porque o número de políticos imorais e

17

desonestos é bastante alto, e contam eles com a adesão dos políticos homens de boa formação moral a um acordo tácito de omissão e conivência, acordo este que também responde pelo nascimento, crescimento e manutenção da corrupção.

3.3.4.8 Limitação do poder de emendar a lei orçamentária; Limitação das transferências federais voluntárias

A limitação do poder de emendar a lei orçamentária não ocorreu. [CORM10] Ao contrário

aumentou e se dissolveu na conivência com o governo ter todo o poder sobre o orçamento:

não há, na prática, um orçamento, nem mesmo um limite de gastos. Houve comprovação

pelo TCU do ilícito de não se cumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal, mas o ilícito só

é considerado crime cometido por votação nas casas legislativas, pelo sistema de

impunidade vigente nos três poderes constituídos, todos os homens públicos, agentes públicos, agentes políticos, jurídicos e formadores de opinião fazendo de conta não

perceber as manobras do Executivo para garantir os votos necessários que o absolverão

de crimes cometidos, voto de liderança.

3.3.4.9 Conclusão: o sistema político brasileiro tem a intenção de corrupção

As recomendações da CPI do orçamento não foram cumpridas e as que foram cumpridas parcialmente sofreram modificações impostas pelo sistema político em vigor. Pela teoria

dos sistemas, a cada encruzilhada de decisão, sim ou não, há uma significação, uma norma

e um valor a serem adotados, levando a uma ou outra direção. Se estas significações,

normas e valores determinam a aceitação dos atos imorais, a relativização do Direito e da Moral, a leniência com o ilícito, etc., o sistema social caminha para a corrupção. É de

novo a questão do Desejo, que se pode ter pela natureza humana, e a Intenção, que se tem

por falta de caráter e formação moral: no sistema político brasileiro estão em postos chave

na condução do país os políticos que têm a intenção da corrupção e cujas decisões tendem a amenizar toda e qualquer medida que se tome para controlar a corrupção.

3.3.5 Corrupção: crime imprescritível

A corrupção da Petrobras e dos fundos de pensão foi denunciada em 1991 e o tempo

determinou que era denúncia procedente. Fica bastante claro que a corrupção não é um

crime que possa prescrever.

3.4 Esquema PP em 1992

Depois, no governo Collor, em 1992, apurou-se o aliciamento de funcionários e operação de um sistema de propinas dentro da BR Distribuidora, de novo o mesmo foco de corrupção. Tendo como fonte "que fala sem se identificar", Suely Caldas e Aluizio Maranhão tornam público em uma série de reportagens a denúncia de Luiz Octávio da

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Motta Veiga, presidente da Petrobras, de que Collor tentava montar ali um esquema de corrupção. Não aceitando participar foi excluído da empresa. O Cargo de confiança de

Collor na subsidiária da Petrobras foi Leoni Ramos, acusado depois de operar um sistema

de cobrança de propinas na Petrobras e em fundos de pensão de estatais. [CPPE]

Na presidência da Petrobras entra Ernesto Weber, e inicia-se o aliciamento de funcionários pelo advogado João Alves, com a ameaça de, não havendo aceitação da proposta, a retaliação será rebaixamento de cargo ou congelamento dentro da empresa. Os que não aceitavam procuravam os jornalistas, e de novo os personagens são a Petrobras e os fundos de pensão, da Vale, do Banco do Brasil, da Petrobras e dos Correios. Faz-se uma CPI no Senado e, de novo, o remédio ineficaz, o afastamento dos personagens envolvidos. Fica claro mais uma vez que o sistema político garante aos envolvidos que não serão punidos, apenas afastados de seus cargos.

Não consta ter havido processo judicial e incriminação dos responsáveis ou apurada a participação de Collor. Foram omissos os que tomaram conhecimento dos fatos denunciados e não levaram adiante a apuração da admissibilidade da acusação e autorização de abertura de processo judicial, um crime de omissão praticado, portanto, por todos os políticos e ministros de STF como garantia de impunidade aos políticos envolvidos.

Uma pesquisa simples no Google, ano a ano até 2011, não produz resultados que apontem ter havido "denúncias de corrupção" feitas por presidentes e executivos da Petrobras ou do BNDES. Presidentes da Petrobras não mais denunciaram a corrupção na Petrobras, necessitando pesquisa mais complexa para se afirmar categoricamente.

3.5 Denúncia de Cecílio do Rego Almeida em 1992

Em 1992 Cecílio do Rego Almeida, da Construtora CR Almeida, faz denúncias de corrupção e deixa claro que a raiz da corrupção é a impunidade. [MRVCRA]

3.5.1 Proposta de Cecílio do Rego Almeida

O sistema de impunidades funciona eficientemente a ponto de permitir a proposição de

uma lei ou mesmo uma medida provisória, como fez Rego Almeida, que anule todas as concorrências que feriram a Lei de Licitações em vigor (Decreto Lei 2300/86): estas deveriam ter sido anuladas se houvesse fiscalização séria e não conivente com a corrupção, não deveriam ter sido efetivadas se não houvesse improbidade administrativa. Não se encontrou referências de que sua proposta tenha sido considerada, apesar de Rego Almeida ter feito uma previsão de queda de 50% dos preços de obras públicas, economia que seria aplicada na contratação de dois promotores públicos, ficando obrigadas as prefeituras a encaminhar os processos de licitação para serem examinados. É a resposta ao conhecimento de que as Leis de Licitação é que permitiam a corrupção, seja pela omissão em ser aplicada a fiscalização, seja por conterem "interstícios" que permitem interpretações inidôneas e burla. [MRVCRA]

19

3.5.2

Empresas citadas

Rego de Almeida cita a OAS e a Odebrecht, entre outros nomes. Afirma que "a OAS é o paradigma da corrupção" e denuncia a existência de empresas que não têm o equipamento necessário para fazer obras e subempreitam obras por 50% do valor contratado. [MRVCRA] Não são as mesmas empreiteiras que são atores na corrupção atual?

3.5.3 Abertura a empresas estrangeiras

Rego Almeida vê também a reserva de mercado a empresas nacionais como causa de corrupção e propôs a abertura a das concorrências a todos os países que fizessem parte do Banco Mundial, apostando na diminuição dos preços. [MRVCRA] Não houve esta abertura, mas a proposta deixa antever a possibilidade de existir metodologia suficiente para se analisar o preço real de uma grande obra, o que tornaria mais facilmente visível o sobrepreço a ela aplicado.

3.5.4 Denúncia vazia

Foi uma denúncia vazia no sentido de que não surtiu efeitos jurídicos. Em 1992 Cecílio do Rego Almeida, da Construtora CR Almeida, faz denúncias de corrupção e deixa claro que a raiz da corrupção é a impunidade [MRVCRA] e um participante do sistema de licitações públicas denunciar corrupção no sistema não foi considerado um indicador suficiente para se abrir sindicância e apuração, acusação jurídica e abertura de processo judicial.

3.5.5 Proposta de Roberto Requião

Requião propõe apenas que seja cumprida a recomendação da CPI do orçamento, "quebrar o sigilo bancário de todos que detenham cargos públicos nos três poderes", e acrescenta estender a medida aos dirigentes partidários, e também recuar no tempo o tanto necessário para demonstrar há quanto tempo existe corrupção. [MRVCRA]

3.5.6 Denúncia de Cartel

Em 1992, houve a denúncia de formação de cartel de empreiteiras visando à corrupção:

não foram tomadas medidas de controle e prevenção. Embora interessante a ideia de que as pessoas envolvidas combinaram entre si políticas de preço, condições de operação, diretrizes políticas de quanto pagar aos políticos, ela não é plausível no momento atual. Pode ter ocorrido no período em que Rego Almeida faz a denúncia, o que ele nega na entrevista, [MRVCRA] mas a denúncia demonstra que cartel não é a solução quando se visa a perpetuidade, haverá sempre descontentes para denunciar. O processo necessariamente joga o jogo entre as articulações possíveis e aquelas necessárias para não ser descoberto. Durante o processo de corrupção havido no governo Collor descobriu-se que o presidente, todos os envolvidos com o poder político decisório e todos os envolvidos com o esquema das empreiteiras têm de estar em condições de "provar" que não sabem de nada: apenas um acordo em que as adesões são espontâneas e os papeis são

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assumidos sem delegação de tarefas permite esta prática, como já se mostrou, acordo tácito pelo Desejo em comum de corrupção. Em conclusão, quando Rego Almeida desmente o jornalista dizendo ser mentira a formação de um cartel, o jornalista insiste na afirmativa e Rego Almeida insiste na negativa, é possível que o funcionamento ainda estivesse na base do acordo tácito, sem planejamento. Cada ator sabe qual o papel dele é esperado e atua de acordo, e não se pode provar que todos estão mancomunados. A ideia de formação de cartel serve para os propósitos da corrupção e de sua impunidade, os culpados são apenas os empreiteiros, os políticos são inocentes.

3.5.7 O sistema de impunidade se modifica para garantir penas mínimas possíveis

Na acusação de formação de cartel há nuances legais a serem consideradas. Se todos se convencerem de que houve a formação de cartel, ficam sensibilizados a aceitar a aplicação de penas cabíveis à formação de cartel. É preciso rever o histórico atual em que foi feita novamente a denúncia de formação de cartel pela Procuradoria Geral da República e o processo evoluiu para acordo de leniência, que necessita de uma acusação para ser proposta. E o que é leniência? Tolerância. Entretanto, parece firmado o conceito de que a corrupção atual tenha padrão de organização criminosa (http://lavajato. mpf. mp. br/atuacao-na-1a-instancia/decisoes-da-justica), contudo, não se aplica a formadores de cartel a punição de sequestro de bens que se aplica a organizações criminosas. O sequestro de bens e a intervenção nas empreiteiras são medidas que garantiriam o que se pretendeu preservar, o emprego de milhares de trabalhadores, sem a tolerância ao crime e à corrupção. É de novo a manifestação de que a punição nunca será aplicada, certeza de impunidade.

Não há a necessidade de ter havido discussão em que se chegasse a um consenso em se propor acordo de leniência. Um indivíduo reflete sobre o problema proposto, formula uma argumentação perante os demais os quais aceitam a solução, apenas confiando que ela esteja dentro dos parâmetros pré-estabelecidos no corpo teórico que orienta a ação, no caso atual há um corpo ideológico doutrinário com regras claras sendo seguidas. Este corpo teórico ideológico determina um acordo prévio de conivência, mesmo que ao sistema se agreguem indivíduos que se omitem e sejam coniventes por acordo tácito. Não há formação de provas e apenas a sistematização dos eventos em termos descritivos pode deixar transparecer uma doutrina e ideologia orientando o pensamento de cada um dos envolvidos.

3.6 Denúncia de Paulo Francis

Em 1996, o jornalista Paulo Francis acusou a alta cúpula da Petrobras de ter contas na Suíça, e foi processado, [CPPE] ele e não os por ele denunciados, inépcia do sistema em combater a corrupção efetivamente. Pretende-se que a corrupção na Petrobras tenha iniciado em 1996, como denunciara Paulo Francis, apura-se, no entanto, que a corrupção se iniciou no governo Sarney e se institucionalizou no governo Collor. Juridicamente não basta suspeitar que haja ilícito em andamento, naquele período eram necessárias provas

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e hoje são suficientes indício, e não consta que Paulo Francis tenha feito sua denúncia demonstrando os indícios de ilicitude, ou os autores da reportagem aqui citada não se preocuparam com este detalhe, embora reconheçam que a suspeita de Paulo Francis remonte a 1990, sendo "preciso reconhecer que a corrupção na estatal tem raízes mais profundas". [PCCNRP ]

Aparentemente não houve a preocupação de se apurar os fatos no governo FHC, mas na realidade houve omissão e conivência de todos os governos desde Collor, com a participação do sistema de significação, normas e valores jurídico. Paulo Francis não tinha provas contra os diretores acusados e o Poder Judiciário aceitou um processo contra ele no valor de 100 milhões de dólares, condenando-o, o que o teria levado à depressão e morte.

3.7 Submissão do Congresso ao Executivo

Em 2000, para Henrique Fontana, então deputado federal pelo PT, o Congresso é submisso aos interesses do Executivo, que usa do tráfico de influência com os parlamentares. Afirma que "o problema reside na impunidade" e só a mudança profunda na estrutura do poder é capaz de mudar esta situação. [TF18J2] Não aponta qual o mecanismo desta submissão, que se apura ser consequência do sistema de líderes de governo e de partidos. Como o papel de líderes garante esta submissão e a impunidade? A que preço garante os votos ao governo? O que se faz necessário é corrigir o papel dos líderes políticos, deixando a eles apenas o papel atribuído pela Constituição: como atualmente interpretado transformou a prática política em uma brincadeira infantil de Boca de Forno, tudo que seu mestre mandar, faremos todos, submissão que exige seu pagamento. O defeito não é na estrutura de poder, está na interpretação que dela se faz e na omissão e conivência com as inconstitucionalidades e os ilícitos cometidos. Por exemplo, quando o STF emite uma decisão "interpretando" a Constituição alterando o que nela está explícito, transferir as funções da Câmara de Deputados para o Senado no que se refere ao rito do impeachment, TODOS os políticos teriam de ter levantado sua voz contra, o que não ocorreu, todos, ou quase, se submeteram à arbitrariedade de um STF que legisla.

Em 2000, o senador Pedro Simon, pelo PMDB, declarou que "o Brasil é tido como o país da impunidade e isso acontece pelo rol de fatos que vem ocorrendo, inclusive no governo de Fernando Henrique". [TF18J2] O senador afirmou que o país está longe de ter uma estrutura séria e responsável, porque a credibilidade está abalada. Não consta que tenha feito denúncias e solicitação de investigação, nem contra o governo FHC, nem contra o de Lula ou de Dilma. Acusar adversários de corruptos é apenas um jogo para ganhar votos, da mesma forma como a instalação CPIs de corrupção se transformaram em um modo de camuflar o acordo tácito de omissão e conivência.

Em 2000, para o deputado estadual Bernardo de Souza, pelo PSB, o Brasil já dispunha de mecanismos suficientes para punir os responsáveis por atos ilícitos, a lei federal de improbidade administrativa, Lei 8. 429. Ele defende como alternativa complementar uma discussão ampliada em torno do código de ética da administração pública, com princípios

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rígidos sobre a atuação no poder. [TF18J2] Ocorre que o Brasil sempre dispôs de mecanismos suficientes para apurar e punir os atos ilícitos de políticos na condução da Coisa Pública, os quais funcionam a favor da corrupção e não contra. Há milênios existem política e corrupção na política e o acordo tácito de omissão e conivência entre os políticos, e o que se reflete na inocuidade da Lei 8. 429.

3.8 Princípios Éticos e Morais x corrupção

Se Luis Roberto Ponte, PMDB, em 1991, havia percebido a impunidade como causa da corrupção, acredita, em 2000, que não há qualquer tipo de solução que evite a corrupção, senão os princípios éticos, morais e muita competência das pessoas que estão no poder. Ponte defende a utilização de todos os meios para investigar as denúncias envolvendo o

alto escalão da Presidência. [TF18J2] O artigo 37 da Constituição prescreve a obediência

a princípios morais na administração pública direta ou indireta. O que se observa,

entretanto, ao lado da relativização da moral há a aceitação da não punibilidade de atos imorais, facilitando que aquilo que é imoral possa ser legal, como, por exemplo, a venda de consultoria por políticos na ativa.

De outro lado, condicionar a Moralidade a processos judiciais é um absurdo quando a Constituição diz prezar a Moralidade sem dispor um artigo sobre punição os imorais. Desde então, não se viu o crescimento da punição para os crimes de corrupção, assistiu- se foi o crescimento da impunibilidade com a criação da certeza absoluta da impunidade.

3.9 Em 2000, a estruturação desestruturante da Petrobras

O plano PP, elaborado por técnicos do governo Collor, se inspirou em orientação do CS

Fisrt Boston e no decálogo da privatização do Banco Mundial, recomendava a divisão da Petrobrás em unidades de negócios para competirem entre si por melhores resultados. Foi comentado na época ser uma estruturação que levaria a competição autofágica que facilitaria a privatização ou destruição da Petrobrás. A reestruturação segundo este modelo é concretizada, em 24 de outubro de 2000, pelo presidente da Petrobrás, o brasileiro naturalizado francês Philippe Reichstul, dividindo-a em 40 unidades de negócios e 20 unidades corporativas. Foi novamente apontado ser um modelo inadequado para companhias petrolíferas, que quase levou a IBM e a British Petroleum à falência, com prejuízos na ordem de US$ 4 bilhões e US$ 3 bilhões, respectivamente. [JCSRB] Se a reestruturação possa ter sido boa ou não em termos de Bolsa de Valores, ela com certeza foi boa para o sistema de corrupção em vigor, institucionalizado, criam-se mais cargos executivos aonde colocar pessoas em cargos de confiança, o desmembramento serviu como material de troca de favores e obtenção de votos nas casas legislativas, com os votos individuais manipulados pelos líderes políticos.

23

3.10

Em 2009, a punição máxima: afastamento do

cargo

Historicamente, descoberto um foco de corrupção e um nome para ser colocado como responsável, este é apenas afastado do cargo, havendo o direito de se tornar novamente agentes públicos: Leoni Ramos, da era Collor, ressurge em 2009, como apurado pela operação Lava Jato. Apenas o afastamento do cargo não é punição e tem o significado de "deixou-se pegar, não serve para o cargo". Não foram encontrados indícios de que tenha havido punição ressarcimento dos prejuízos e cassação de direitos políticos. Os agentes públicos envolvidos não foram processados e não perderam o direito de exercerem cargos de agentes públicos novamente.

Não é, contudo, coincidência que a BR distribuidora volte para as mãos de Collor em 2009, "em troca de apoio político à base governista no Congresso Nacional". [LRBDCP] Por que Lula desconheceu a História da Corrupção, que a Petrobras e os fundos de pensão começaram a ser solapados exatamente na BR Distribuidora? Por que ele e todos os políticos com cargos públicos ou não, não se puseram contra a nomeação de Leoni Ramos como executivo na BR Distribuidora? Por causa do acordo tácito de omissão e conivência. Não importa também ao Poder Judiciário, em todas as suas instâncias, se houve cometimento de crime no passado, é preciso que se prove ter havido no presente. Os políticos com intenção de corrupção podem se articular à vontade para lesar o Bem Público, a História não é levada em consideração no controle da corrupção.

A História caminhou o suficiente para demonstrar, pela quase bancarrota da Petrobras e deterioração dos fundos de pensão, que o sistema dá a Certeza de Impunidade a partir já do Sistema de Significação, Normas e Valores que rege a vida política do país: aquele que comete um ato ilícito pode ser afastado do cargo e a ele retornar, bastando que todos "esqueçam", "não saibam de nada" do ocorrido. Esquecer o ato corrupto e seus atores é o mecanismo que garante, portanto, a perpetuação da corrupção.

3.11 Governo Dilma

Na crise atual, os crimes de responsabilidade fiscal foram cometidos na certeza absoluta de que, gastando-se mais do que se arrecada, ficando o país a beira do caos, a maioria dos políticos não votaria contra a aprovação das contas no final do ano. O governou contou com a consciência que pede que tudo se faça para evitar a bancarrota total do país, também um acordo tácito. De outro lado, não evitar a bancarrota representaria assumir a culpa para si mesmo, isentando os autores do crime de responsabilidade. Também se argumentou abertamente que punir as empreiteiras responsáveis pela corrupção vigente e a dilapidação da Petrobras representaria fazê-las demitir em massa, piorando a situação caótica a que o país chegou. É interessante como o guru da esquerda vermelha, Gramsci, prescreve um sistema em que "intelectuais" revisem os conceitos e os valores morais e culturais do país, que é seguido à risca, e surgem textos que procuram induzir a convicção de que a corrupção é necessária ao desenvolvimento e ao bem-estar social, e a seguir a utilização destes conceitos reciclados para garantir a continuidade do governo Dilma, ao

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mesmo tempo em que garante a impunidade dos corruptos com acordo de leniência. Há um sistema de impunidade vigente nos três poderes constituídos, executivo, legislativo e judiciário e a única forma de desmontá-lo é descobrir cada um dos fatores que o compõem. É não senso argumentar que corrupção sempre existiu e fazer o povo acreditar que está em sua índole ser corrupto por adotar jeitinhos e a lei de procurar tirar vantagem de tudo, e ao mesmo tempo ignorar os mecanismos que permitem a corrupção. É não senso pensar que a corrupção nasceu com o socialismo vermelho que governa o país há 13 anos, o qual se defende dizendo a corrupção provir do governo que o antecedeu, outro não senso. A corrupção já existia quando foi reinventada no governo Collor e culminou no assassinato de PC Farias; o que houve desde então foi seu crescimento progressivo fundado na CERTEZA DE IMPUNIDADE que se criou.

A certeza de impunidade está sutilmente incrustada no sistema político atual e um jogo

de interpretações impedirá que seja desmontado completamente. As interpretações da

Constituição e da Lei 1. 079, em 1992, para se construir o rito de impeachment que agora

se aperfeiçoa, contêm mecanismos que podem absolver qualquer presidente acusado de

atos ilícitos, bastando contar com uma maioria de 2/3 dos membros nas casas legislativas, facilmente obtida pela má interpretação do papel de líderes, dando a eles direito de imporem sua consciência à consciência de seus liderados, e da exigência constitucional

de 2/3 dos membros transformada em 2/3 dos votos, estes manipulados e conduzidos pelas lideranças políticas. O que há de diferente no momento atual, na Operação Lava Jato, é que se vislumbra um cenário em que o sistema de impunidade instituído nos três poderes constituídos possa ser desmontado e nossos políticos assumam seus cargos cientes de que nenhuma impunidade será permitida. Contudo, nada será conseguido se não se compreender que o sistema de impunidade está calcado no acordo tácito de omissão e convivência entre os políticos, no uso da Mentira e sofismas, mesmo que mal fundadas em falácias mal articuladas.

3.12 Por que a denúncia a jornalistas e não abertura de processos?

Por que a História registra a denúncia de corrupção a jornalistas e não a abertura de

processos judiciais? As denúncias são dirigidas a jornalistas, os quais, no denominado jornalismo investigativo, procuram a admissibilidade da acusação e se ela procede de atos atípicos e ilícitos praticados, e não são dirigidas às Instituições que constitucionalmente têm este dever como função. Este questionamento não tem sido feito, não há a preocupação efetiva com o fato de que o Sistema de Impunidade deixe ao jornalismo investigativo a tarefa de apurar as denúncias. Se os três poderes que instituíram e mantêm

a certeza de impunidade se preocuparem com as denúncias, os consequentes processos

judiciais de apuração e punição caminharão em direção ao controle da corrupção. Como

se pode afirmar que são "os três poderes" e não elementos "podres" que dele participa?

Pelo contrato tácito de omissão e conivência de que todos os agentes públicos participam:

a corrupção nos fundos de pensão e na Petrobrás só durou tanto tempo por omissão e

conivência com todos os indícios e denúncias de que ela existia; neste período houve

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muita palavra contra a corrupção e pouco ato efetivo, como veio a ser a Operação Lava Jato. Aproveita-se de um erro na interpretação do que seja "denúncia" e do que seja "acusação", cujo trabalho de diferenciação necessita ser realizado. Nada se pode fazer juridicamente quando as denúncias são vagas, e são exigidas provas de ilícitos e autores nas denúncias. O sucesso do jornalismo investigativo, abrindo diligências a partir de indícios de que em tal instância do campo político e de governo há corrupção, nomeando- se apenas o objeto, obras e órgãos de administração pública ou pessoas jurídicas, determina que o judiciário pode, sim, aceitar denúncias vagas e apurar responsabilidades. Se há denúncias de corrupção e estas se provam acusações juridicamente válidas pelo passar do tempo, pelas consequências finais como no caso da Petrobras, a conclusão é que não há, no país, em funcionamento um sistema de controle da corrupção, apenas medidas paliativas convivem com um acordo tácito de omissão e conivência vigente nos três poderes constituídos. A atuação do jornalismo investigativo e os louros que pôde receber pela apuração dos crimes de corrupção no Brasil levam à certeza de que o sistema judicial também se inclui na fabricação do acordo tácito: se a investigação não judicial pode encontrar os culpados a partir de denúncias ditas juridicamente vagas, por que motivo o Poder Legislativo, na fabricação das Leis, e o Poder Judiciário, na vigilância de que as Leis sejam cumpridas, nunca teve instrumentos suficientes para terminar de vez com a corrupção? Ocorre, no entanto, o contrário, quando forçados a enfrentar o problema criam leis que não funcionam, tal como a Lei de Improbidade Administrativa que é inócua, [L8429] ou modificam as leis segundo seu próprio arbítrio, alterando a função do executivo, que não é legislar. O que está realmente acontecendo? O problema é que o sistema beira à estupidez com a anuência dos três poderes, executivo, legislativo judiciário: os próprios políticos acusados de corrupção criam as leis, criam as CPIs, criam os processos judiciais e indicam os juízes que os julgarão.

Criam a sua impunidade, julgam a si mesmos e se absolvem, e como o povo a isto assiste calado, os "analistas" encontram uma tolerância com a ilegalidade. Se o fato não tem sido apontado como problema, como solucionar?

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4Certeza absoluta de impunidade

Com a operação Lava Jato há de um lado um esforço para se combater a Impunidade e uma Certeza de Impunidade que se apoia também em nomes indicados para funções jurídicas em várias instâncias, com a distribuição de cargos públicos, verbas, privilégios

e de cargos para parentes. Prova cabal da Certeza Absoluta é a ferida imposta à

Constituição pela nomeação de Procurador Geral da República para o cargo de Ministro da Justiça, e a ainda promessa de recorrer da suspensão da posse imposta por ministro do STF. Um presidente só toma decisões tão abertamente inconstitucionais quando tem

a Certeza Absoluta de Impunidade.

4.1 Sistema de Impunidade nos três poderes

constituídos

Qual a relação entre a propina que se pagava por Carta Régia em Portugal com a propina objetivo atual da corrupção? Por que os analistas do tema não enxergam o óbvio: a corrupção no Estado está relacionada com a produção de riqueza, os corruptos fazendo o povo trabalhar em prol de seu enriquecimento, ainda que este seja colocado em nome de laranjas? Por que a corrupção só é verdadeiramente punida quando se torna excessivamente visível? Por que a impunidade é a verdadeira causa da corrupção? A corrupção se dá pela vigência de um sistema de impunidade, um acordo tácito de omissão e conivência entre os políticos e sua ocorrência demonstra a falha das leis ou seus "interstícios". [CCOD]

4.1.1 Certeza absoluta de impunidade: diferença entre o período Collor e o atual

1.1 Certeza absoluta de impunidade

Como fator circunstancial desde 1991, quando foram feitas as primeiras denúncias de ilícitos ocorrendo na Petrobras e nos fundos de pensão, o poder constituído não tem interesse real de acabar com a corrupção. Não foram criados mecanismos efetivos de combate à corrupção, mas ao contrário, criaram-se mecanismos que dão a certeza absoluta de impunidade, um Sistema de Impunidade nos três poderes constituídos, Executivo, Legislativo e Judiciário. Em 24 anos, todas as formas de sofismas foram usadas para que nada se fizesse para coibir a corrupção ao mesmo tempo em que se vende, por marketing publicitário, ao povo a ideia de que a corrupção está sendo combatida. A principal desculpa de que eram acusações sem provas é um sofisma que tem sido aceito acriticamente: foram feitas denúncias, e estas não necessitam de provas, apenas de indícios dos ilícitos. Por este erro de hermenêutica a corrupção de 1991 se institucionalizou e chegou aos dias de hoje com força destruidora da estabilidade do Estado. O caminhar da História prova que as denúncias continham acusações

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admissíveis e verdadeiras: é erro de interpretação e compreensão da História não tomar os fatos como provas contundentes e finais de culpabilidade.

O que diferencia a corrupção atual de toda a havida anteriormente é que se criou a Certeza de Impunidade, com mecanismos que se aperfeiçoaram desde o Caso Collor para blindar autores de corrupção e os ilícitos de governantes. A situação socioeconômica a que o Brasil foi trazido nos últimos doze anos se deve exatamente à CERTEZA ABSOLUTA DE IMPUNIDADE. A certeza absoluta de que a lei não será cumprida é a mãe da corrupção.

4.1.1.1 Quem dá a certeza absoluta de

impunidade?

Quem dá a certeza absoluta de impunidade? O acordo tácito de omissão e conivência entre os políticos, mesmo que em campos adversários: só não pode haver corrupção que apareça excessivamente, quando se faz um teatro, sem consequências práticas reais, de punição e de procura de controle da corrupção. Apenas o acordo tácito de omissão e conivência explica não se ter obtido controle do processo de corrupção atual, apesar de ter sido denunciado várias vezes a partir de 1991, estando em cena os mesmos atores daquela época, e aperfeiçoados os mecanismos de impunidade por uso de falácias bem articuladas em sofismas. Serviu apenas para o amadurecimento político do povo todo o teatro havido contra a corrupção e toda desilusão com aqueles que conseguiram votos com a promessa de uma política digna, fundada não apenas no que é legal, mas também no que é Moral.

4.1.1.2 Quando a Certeza Absoluta de

Impunidade acabará?

Apenas quando o Poder Judiciário não estiver aparelhado para aceitar sofismas e falácias e o STF ser realmente o órgão fiscalizador do cumprimento da Constituição e das Leis. Este tempo ainda está longe, pela conivência e omissão reinantes, a decisão do STF para o rito do impeachment é inconstitucional por transferir por meio de falácias para o Senado a função dada pela Constituição à Câmara dos Deputados, admitir a acusação e autorizar a instauração de impeachment para que o Senado processe e julgue o presidente da República.

4.1.2 O principal instrumento da impunidade:

Mentira, Falácia e Sofisma

4.1.2.1 Corrupção e mentira

"Quando o representante do estado democrático esconde seus atos, engana, camufla a realidade, impedindo de chegar ao conhecimento público àquilo que de fato deveria se revelar, mas não os revela, justamente porque em razão desses atos eles obtêm

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vantagens ilegais, surgindo, daí uma das práticas criminosas comumente chamadas de corrupção". [OCRD]

A mentira e a simulação, fazer aparecer aquilo que não existe, e a dissimulação, não

fazer aparecer que existe, é usado e abusado pelos governos da esquerda vermelha no Brasil, e na Venezuela. Parece um comportamento derivado de Gramsci, pela má leitura

de Maquiavel, com o esquecimento de que, na Política, que deve trabalhar com a Realidade com a qual sobrevivem os eleitores, o excesso de mentira e de sofismas desacredita o autor, por mais culto e bem-intencionado, fazendo-o perder votos.

4.1.2.2 Brasil, país da impunidade e da Mentira e do sofisma

Como já demonstrado, o Brasil é, no momento, um país da impunidade e do faz de conta, valendo o sofisma jurídico, formal, contando sempre com o acordo tácito de omissão e conivência, não havendo a preocupação de desconstrução dos discursos falaciosos, que têm aceitação passiva.

4.1.3 A impunidade está prevista nas leis e na Constituição?

O Sistema de Significação, Normas e Valores jurídico garante a impunidade ao dar azo

a que se possa interpretar como não previstos na legislação serem crimes de conspiração e traição os crimes de compra de aprovação de projetos de lei e mesmo medidas provisórias e os atos políticos que levaram à corrupção institucionalizada, como no mensalão e no Petrolão, tratando-os como crimes de irresponsabilidade, com foro privilegiado. A ordem jurídica atual permite que tais crimes de corrupção cometidos por políticos, se julgados e condenados levem a penas brandas e não obrigatoriedade de ressarcimento dos prejuízos causados e das consequências advindas destes prejuízos. Embora esteja previsto na Constituição os crimes contra a segurança nacional, é possível interpretar-se que a corrupção institucionalizada não esteja prevista como crime contra a estabilidade da República. A ausência na Constituição de previsão de crimes de

corrupção e suas punições, se lida junto ao fato de que a Constituição fora elaborada pelos mesmos políticos comprometidos ideologicamente com a luta armada contra a ditadura militar, eleitos para mandatos legislativos, em oposição ao voto vencido de votação em separado para membros de uma constituinte. Promulgou-se uma Constituição que representava não os objetivos e interesses da nação brasileira, mas de um grupo comprometido "com ideais de longa data reprimidos pela ditadura militar (e

com a oportunidade de garantir a si mesmos privilégios e oportunidades).

imaginar que os políticos daquela época abririam mão de tarefa tão importante, não somente pela oportunidade histórica de defender ideais de longa data reprimidos pela ditadura militar, mas também pela oportunidade de lhes garantir privilégios e oportunidades em um raro momento da história do país". Se a Constituição tivesse sido elaborada por uma assembleia formada por notáveis de todos os segmentos da sociedade

] "Difícil

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brasileira, com mandato exclusivo para esta tarefa, sendo dissolvida logo após sua promulgação, " [BPCCC] e, assim, não é representativa da população brasileira, o que tem se mostrado claramente na divisão, quase meio a meio, dos votos dados a continuísmo da política ideológica que se pretende implantar no país, respaldado na Constituição por eles mesmos elaborada. Em suma, a Constituição Brasileira não é representativa de todos os segmentos da vida nacional.

4.1.4 Corrupção e foro privilegiado

A

corrupção é apropriação de bens móveis do Estado por agentes públicos e privados, e

se

aproxima mais de roubo puro e simples que de apropriação indébita, crime comum, e

o sistema jurídico desconhece este fato concedendo foro privilegiado para políticos em cargo eletivo condenados por corrupção.

Não seria aconselhável o uso do termo "propina" quando o agente público recebe vantagens para cometer ilícito: o que se faz é roubo puro e simples, em essência o agente público apropria-se, para si ou para outros, de bens pertencentes ao Estado. O agente público mancomuna-se com um agente privado que presta serviço ao Estado, acrescendo valores ao preço cobrado, que é transferido do Estado para o agente público. Em essência, o agente público apropria-se, para si ou para outros, de valor pecuniário pertencente ao Estado. Deve-se concluir que, em essência, o ilícito de corrupção praticado por agente público é um ato de improbidade que se aproxima do crime comum, e dele se afasta pela interpretação atual por estar coberto por foro privilegiado a quem dele tem direito. A propina é um pagamento que um agente privado paga a agente público, de seu próprio bolso, é como a gorjeta que se dá a um garçom ou outro prestador de serviço.

4.2 Punição apenas parcial: Prejuízos secundários

A legislação não se preocupa de fato com a corrupção e sua correção, não prescrevendo

a responsabilidade dos grupos envolvidos não determinando o ressarcimento completo

dos prejuízos causados: quem pagará a conta da desvalorização da Petrobrás? Quem pagará as indenizações que a Petrobras terá de pagar como resultado dos processos que estão em andamento no exterior?

Em 1º de agosto de 2013, a Lei 12. 846 foi publicada no Diário Oficial com a seguinte Redação referente à responsabilidade dos grupos econômicos:

Art. 4º § 2º As sociedades controladoras, controladas, coligadas ou, no âmbito do respectivo contrato, as consorciadas, serão solidariamente responsáveis pela prática dos atos previstos nesta lei, restringindo-se tal responsabilidade à obrigação de pagamento de multa e reparação integral do dano causado (grifo acrescentado).

Não leva em consideração o valor da multa e sua abrangência: deverá cobrir o quê? E não leva em consideração a reparação dos danos secundários. A Lei 8. 429, art. 16, §1º, [L8429] também é insuficiente neste aspecto, prevendo o sequestro de bens suficientes

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para cobrir a reparação do dano, mas quem arcará com a indenização que será imposta pelas ações contra a Petrobrás? Quem se preocupou com o prejuízo imposto aos beneficiários dos fundos de pensão? Pelo contrário, o acordo de leniência evita exatamente que os donos das empreiteiras sejam prejudicados. Há um acordo tácito que dá a certeza absoluta de impunidade e está sendo cumprido.

O que significa, então, "reparação integral do dano causado"? É assim que a Petrobras

deverá arcar com a indenização que será devida a acionistas estrangeiros, quando

ganharem suas ações judiciais, sem nenhuma responsabilidade de quem provocou as perdas, os agentes corruptos, ativo e passivo.

Também, o Poder Legislativo e Judiciário não se manifestam a respeito: não há previsão nas leis pela responsabilidade pelos danos secundários, mas pode haver leis pelas quais, por analogia, torne os agentes corruptos responsáveis também pelos prejuízos secundários. Entretanto, busca-se mal interpretar a lei e não dela extrair todas as consequências: a reparação integral do dano causado abrange também os danos secundários.

4.3 Quem garante a impunidade

A Corrupção é fruto da Certeza de Impunidade e quem garante a Certeza de Impunidade

é o Poder Constituído, com a postura do “nada vi e nada sei”, a conivência com atos condenáveis e ou imorais, leniência com crime de responsabilidade fiscal, distribuição indultos de Natal em pleno pós Carnaval, acordos de leniência. E o que é Leniência?

4.3.1 Garantia de impunidade por voto de correligionários

Criou-se uma situação absurda, não verificado se apenas no Brasil, feitas as delegações necessárias e descoberto o crime cometido pelo Presidente da República a punição fica em dependência de votação de correligionários do acusado. É outro fator que garante a impunidade: foi constatado que cometeu crime haverá votação se será considerado crime e punido. Neste caso, a impunidade fica garantida com o voto de liderança, que é voto de cabresto puro e simples, e bastando contar com a Situação montada por Chaves na Venezuela para se perpetuar no poder. E quando a imensa maioria dos políticos está envolvida em corrupção e os outros cumprem um acordo tácito de omissão e conivência, sem nunca tomar atos de consequência prática?

A argumentação surgida no governo Dilma de que punir as empreiteiras responsáveis

pela corrupção vigente representaria demissão em massa, desemprego piorando a situação caótica a que o país chegou. Esta argumentação dá uma certeza absoluta de impunidade desde que se conte com maioria de votos nas Casas Legislativas, é ponto pacífico que nenhum político desejará ser acusado de ter contribuído para o desemprego maciço.

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4.4 Impunidade e leniência

4.4.1 Ilegalidade tolerada

"Os ilícitos (e, portanto, a corrupção) têm sido colocados como resultado de o que cada sociedade vai reconhecendo como normal e anormal, lícito ou ilícito, legítimo ou ilegítimo", [OCRD] na suposição incorreta de que as sociedades têm a corrupção como uma ilegalidade tolerada. É uma falácia difundida com pseudociência e se prova absurda.

4.4.1.1 O que é ilegalidade tolerada?

Foucault [CCOD] especula sobre o que a sociedade vai considerar tolerável ou intolerável, legítimo ou ilegítimo, lícito ou ilícito em cada uma das esferas sociais, fugindo do conceito primário do que é crime: mesmo que haja movimentos de tolerância ao ilícito, crime ocorre sempre que uma Lei não é observada. A Ideologia transfere para a sociedade algo que fica restrito à esfera administrativa do Estado, nos três poderes, Executivo, Legislativo e Judiciário, a tolerância à ilegalidade.

4.4.2 Sistema de impunidade montado nos três

poderes constituídos

A ilegalidade tolerada nada mais é que instrumento do Sistema de Impunidade montado nos três poderes constituídos, um acordo tácito entre os detentores de poder, executivo, legislativo e judiciário, para que todos usufruam de vantagens indevidas a seu tempo, ainda que em forma de privilégios. A constatação da existência de um Sistema de impunidade montado nos três poderes constituídos ocorre simultaneamente à percepção da corrupção como uma das formas do crime organizado que questiona radicalmente os fundamentos das práticas de governo, abrindo fossos entre "o que é" e o que "deve ser" na gestão, minando a confiança na política. Neste contexto a corrupção deixa de ser vista como uma "ilegalidade tolerada" e começa a ocupar sua dimensão como crime, ligado a outros crimes. [OCRD]

4.4.3 E o que é Leniência?

"O mesmo que lenidade. Excessiva tolerância". (http://www. dicionarioinformal. com. br/leniência/). "Tolerância

com o que é ilícito ou proibido; condescendência". (http://www. nossalinguaportuguesa. com. br/dicionar…/leniência/) O

que significa? Isto quer dizer que o Acordo de Leniência com os corruptores já estava em vigência a partir do momento em que pessoas responsáveis pela condução do País ou pela fiscalização de Estatais puderam dizer “eu não sei de nada”, sem terem sido interpelados por outros órgãos e instituições do Poder Constituído, contando com silêncios de políticos ou com alaridos de que nada resulta.

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São conceitos que se pretende derivados de Maquiavel, O Príncipe:

"Em um sentido bastante maquiaveliano, é importante distinguir a política do mundo real e os valores normativos que são passíveis de acordo racional, o que explica esse contexto de tolerância. É dessa forma que a corrupção é normal à política, apesar de todos os esforços para impedi-la". [TCBANM]

Esta afirmativa soa como o crime é normal à sociedade, e, em consequência, deve ser tolerado. Não é maquiaveliano, mas maquiavelismo. Ocorre que Maquiavel mereceu uma leitura tendenciosa e malfeita por Gramsci: embora O Príncipe descreva vários tipos de governo com vários tipos de prática, incluindo a corrupção, Maquiavel pede "(ao) príncipe governante, ao contrário do que dele se tem lido, piedade, fé, integridade, humanidade, religião e o exemplo que pede seja seguido é Moisés". [GRPCMP]

É necessário perceber que a corrupção não é normal na política, apenas existe um

sistema de impunidade que vai desde o "governante que não sabe de nada" até às decisões que justificam os atos corruptos ou favoreçam a corrupção por meio de sofismas a partir de falácias bem articuladas. Se, segundo Bobbio, [OCRD] o Estado Moderno é o Estado em que a transparência dos atos do poder (governo) institui o estado de direito, e o corolário é o Estado em que impera a corrupção, no sentido amplo da filosofia moral, não impera o estado de direito: a Mentira usurpa os direitos dos cidadãos fazendo-os crer que têm direitos.

A existência de um sistema que garanta a certeza absoluta de impunidade não faz com

que os atos ilícitos cometidos por políticos e governantes sejam "normais", lícitos. A

incapacidade de o homem comum compreender os meandros e interstícios das leis, sua leitura da realidade por meio da compreensão imediata, esta manipulada por agentes mediadores a serviço dos governantes omissos e dos políticos corruptos, sua impossibilidade de denunciando, ser ouvido, faz com que "o povo tolera a corrupção" seja apenas um mito, outra falácia a ser reconhecida e combatida.

4.4.4 Tolerância à corrupção na base da vida democrática pós-1985

A antinomia entre normas morais e prática social da corrupção no Brasil revela uma

outra antinomia: "a corrupção é explicada, no plano da sociedade brasileira, pelo fosso que separa os aspectos morais e valorativos da vida e a cultura política. Isso acarreta uma tolerância à corrupção que está na base da vida democrática pós-1985". [TCBANM] Filgueiras sugere que a pretensa tolerância do brasileiro com a corrupção seja posterior a 1985, antes da promulgação da Constituição, mas bem posterior à institucionalização da corrupção no período Collor. Não se pode esquecer o trabalho de doutrinação marxista nas escolas públicas, em que, se pretendendo instalar um regime socialista prepara-se a mente dos cidadãos para o aceitar; tem havido um movimento de modificação da cultura, a la Gramsci, com artigos que tomam como corrupção todos atos ilícitos nas relações sociais, construindo a tolerância com a corrupção. Surge, então, a afirmativa recorrente de que a corrupção é necessária para o desenvolvimento.

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Constrói-se um eleitorado que é tolerante com a Mentira e o embuste e sugere que a corrupção é necessária a um programa político partidário que procura a dissolução dos princípios morais necessários à vida pública.

"Porém, sua função de desenvolvimento é cumprida desde que ela esteja sob o controle das instituições políticas, de tipo moderno. Do ponto de vista dos benefícios, a corrupção pode agilizar a burocracia, ao tornar mais rápida a emissão de documentos e autorizações formais por parte do Estado. A corrupção azeita o desenvolvimento ao estabelecer um laço informal entre burocratas e investidores privados que favorece o desenvolvimento econômico (LEFF, 1964)". [TCBANM]

É o analista fabricando a tolerância da ilegalidade, não aponta que a burocracia

determina a corrupção, mas, ao contrário, que esta agiliza aquela, favorecendo o desenvolvimento econômico. Pode-se buscar informações para nutrir argumentos a favor ou contra a corrupção, não apenas no sentido direto, do tipo "a corrupção é necessária ao desenvolvimento econômico", mas também de forma indireta, quando o texto construído aponta em direção à aceitação da corrupção como ilegalidade tolerada, que é também um conceito mal estudado no contexto da corrupção política: há tolerância ou há acomodação frente a uma corrupção exercida e sobre a qual não se consegue atuar impedindo-a?

É um sofisma em que houve o esquecimento de que a corrupção está relacionada à

produção de riqueza, ainda que de forma ilícita, e não entra em contexto com todas as informações de que a corrupção subtrai recursos exatamente destinados ao

desenvolvimento. O sofisma deturpa a Realidade, o desenvolvimento é necessário à corrupção, não havendo gastos de governo com obras e serviços não há liberação de verbas sobre as quais pagar propinas.

4.4.5 A corrupção é meramente um instrumento de poder

Lord Acton afirmou que "o poder tende a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente", [CPWIKI] que parece ser uma afirmativa verdadeira, mas é uma falácia ao tentar justificar a corrupção como necessária à sociedade. "A demonstração de que o poder político absoluto é intrinsecamente e totalmente corruptor foi cabalmente feita pelo exercício do poder totalitário pelo nazismo alemão e pelo stalinismo comunista russo", [CPWIKI] No entanto, o verbete na Wikipédia se refere à corrupção moral em seu sentido mais amplo, em que tudo se justifica para se impor uma ideologia ao povo. A corrupção é, como já apontado, um apanágio dos sistemas autoritários e, embora aqui não se aprofunde no tema, é consequência da necessidade de manter-se o povo submisso ao poder, e não uma necessidade para que o povo alcance o desenvolvimento desejado.

É meramente um instrumento de poder. Assim, pode-se enxergar o marketing de que há

uma corrupção necessária e a justificativa encontrada na índole imoral do brasileiro como um fator de fabricação da aceitação de um regime totalitário que se deseja impor ao povo brasileiro. A corrupção é um instrumento de controle do povo e da produção de

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riqueza, extraindo esta da energia daquele. Todos são iguais perante a lei, mas se, e somente se, tiverem o como pagar pelo direito.

4.4.6 A corrupção reduz custos

A afirmação que a corrupção reduz custos porque diminui os procedimentos

burocráticos legais exigidos em função do fornecimento de subornos ou propinas (que são menores que os custos burocráticos) [CPWIKI] não se sustenta numa análise mais profunda. A razão é que tais propinas induzem os funcionários públicos e empregados de empresas privadas interessadas em barreiras legais de entrada em seu setor aos novos concorrentes a formarem grupos de interesse e a pressionar os respectivos parlamentos para criarem novas leis e normas legais. Os legisladores corruptos acumpliciados com os agentes públicos e privados de corrupção imporão maiores custos em um novo ciclo de corrupção. A redução de custos aumenta o lucro e o lucro pertence ao corrupto e não à sociedade. Criada a necessidade pessoal do recebimento da propina o resultado é "aprimorar-se" mais a burocracia para que a propina se prove cada vez mais necessária. Apesar deste tipo de afirmativas, não há um movimento de diminuição da burocracia, mas de aumento.

4.4.7 As causas da corrupção fabricam a sua

necessidade

As causas da corrupção são apenas parte do mecanismo de sua perpetuação são causas e consequências da corrupção. Se a corrupção "facilita" o desenvolvimento, reduz custos e gera empregos, não é que seja necessária, são argumentos que procuram convencer a todos de sua necessidade. No processo de retroalimentação que constrói e mantém o sistema pró-corrupção, a partir das causas é construída a necessidade da corrupção. Também a corrupção constrói a necessidade do desenvolvimento, ou melhor, de obras públicas que possam receber a rubrica de desenvolvimentista, sendo um exemplo o número de estádios de futebol que foram construídos para a Copa, muitos dos quais serão transformados em elefantes brancos com o tempo, se já não o são.

4.4.8 Corrupção tolerada, mas por quem?

A tolerância à corrupção como necessária é dada pela moralidade política, que

"especifica os valores que fundamentam o julgamento moral da corrupção que significam, dessa forma, pressupostos que informam o conteúdo do julgamento moral". [TCBANM] Assim, constrói-se um corpo teórico que justifica a corrupção, e os políticos podem praticar a corrupção sem que se julguem imorais. Deve-se partir do princípio de que a corrupção não pode ser tolerada, configurando um ato ilícito não apenas contra o Estado, mas contra todos os cidadãos: a corrupção mantida em níveis mínimos é requisito para o estado de direito. A corrupção não é fator determinante de que se aja em resposta à necessidade de forma ilícita quando se está diante dos limites da necessidade, como se pretende. [TCBANM] Ao contrário, a corrupção cria a necessidade, e assim foram construídos tantos estádios de futebol para a Copa de 2015.

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Questiona-se, então: o número de estádios de futebol construídos aumentou o desenvolvimento do país?

Corrupção tolerada, resta saber tolerada por quem? O conceito aplica-se mais a corrupção escondida: não se sabendo dela ela é tolerada? (Ver A falta de transparência) Não há ilegalidade tolerada, mas ilegalidade consensualmente adotada ainda que tacitamente por aqueles que estão em situação de poder cometê-la.

A corrupção é uma ilegalidade tolerada pelos políticos e a tolerância é dada por um

sistema de certeza de impunidade e um acordo tácito de omissão e conivência: grupos que disputam o Poder aceitam determinadas ilegalidades, ou as propõem em um jogo de aceitação mútua, para que se equilibrem como forças atuantes: em nenhum momento pode-se dizer que o povo administrado pelo governo tolere a corrupção e as tais ilegalidades toleradas. Procura-se não perceber que a Ilegalidade Tolerada é apenas a teorização sobre os mecanismos de aceitação da corrupção e dos atos ilícitos, relativizando o Direito a partir do poder econômico.

4.4.9 Ilegalidade tolerada e sentido não unívoco dos termos

Tem-se então que os corpos teóricos permitem a impunidade da corrupção simplesmente por os formadores de opinião não adotarem definição adequada do que seja corrupção, com o surgimento de divulgadores, de forma direta ou indireta, de que a corrupção seja meramente um ilícito e que deva ser tolerada. Assim, quando o legislador permite vários sentidos para um mesmo termo está participando dos mecanismos de impunidade, facilitando os argumentos falaciosos que a ela levem.

O conceito de ilegalidade tolerada nasce de uma visão distorcida da realidade: uma vez

instituído o ilícito em uma situação em que não se tem Direito por não exercício do Poder e da autoridade, as diversas classes se constroem da maneira possível, organizam-

se apesar dele. Como se forma uma estrutura pode parecer que em se retirando o ilícito

a estrutura se rompa, e pode parecer que, em dependência do ilícito, haja tolerância. É mais necessidade de convivência pela sobrevivência, com o detalhe de que o ilícito de quem exerce o Poder não é percebido por todos que a ele se submetem. Só é possível

falar de ilegalidade tolerada apenas para aqueles que cercam o Poder, aqueles que se beneficiam indiretamente dos ilícitos cometidos por quem governa.

É este o caso do sistema de impunidade estabelecido nos três poderes constituídos no

Brasil: todos juntos procurando manter o sistema, mesmo quando fazem oposição. Uma

justiça que faça olhos cegos a ilegalidades toleradas não é justiça.

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4.4.10

Acordo mútuo de tolerância entre

detentores de poder econômico e aqueles que podem exercer controle sobre eles

Enquanto as análises da corrupção procuram demonstrar sua necessidade para o desenvolvimento político, econômico e social, demonstram como os detentores do poder decisório se articulam para a tolerância mútua. Descrevem a construção de máquinas políticas que visam influenciar as decisões já no nível legislativo, "por meio da persuasão das elites partidárias". [CPAFHC]

Sem a visão correta do que ocorre na Realidade torna-se impossível administrá-la a favor da Sociedade e do indivíduo. Mesmo Fernando Henrique Cardoso [CPAFHC] se deixa levar pela teorização que descreve inadequadamente a Realidade e os acontecimentos que entre as Coisas Reais ocorrem e, apesar de denunciar que Lula dá legitimidade ao ilícito a que se denominou "toma lá, dá cá", ou seja, a distribuição de cargos "para garantir apoios", transfere para a sociedade, a transformação de um "o desvio em norma mais ou menos aceita pela sociedade". [CPAFHC]A História, contudo, é clara em demonstrar que o brasileiro não tolera, desde longa data, a corrupção e os ilícitos cometidos por políticos, estejam ou não em exercícios de cargos eletivos. No período que aqui se procura cobrir, de Jânio Quadros ao momento atual, as eleições majoritárias se deram a políticos que conseguiram convencer o povo de que acabariam com a corrupção, com boas intenções, ou com má fé, mentindo para conseguir os votos. Em seu artigo intitulado "Corrupção e poder", de 6/11/2011, o ex- presidente deixa implícito que a tolerância da ilegalidade é entre os agentes políticos, em um acordo tácito: Fernando Henrique não deixa bem claro que a distribuição de cargos públicos para garantia de apoio e votos é exercício do poder mediante corrupção, mesmo que a ocupação de cargos de governo não possa ser considerada vantagem indevida obtida por um político. A grande omissão que reina quanto a este aspecto é o silêncio que se faz a nomeações pelo executivo de jovens inexperientes, parentes de agraciados de que se depende de alguma forma, para o cargo de desembargador, por exemplo, ou a aceitação de que candidatos a juízes supremos, que não preencham os critérios exigidos por Lei de notório saber e ilibada reputação, sejam apresentados ao Congresso para serem "escolhidos" por votos manipulados por lideranças partidárias e de governo. Não havendo o preenchimento dos critérios exigidos pela Legislação vigente, os cargos que foram preenchidos desta forma estão ocupados ilegalmente. Não é purismo no seguimento da Lei, é o seguimento da Lei: ou é obedecida ou houve ilícito. Esta conivência e omissão dos políticos é uma das portas que permitem a corrupção.

4.4.11 É um mito, a tolerância não é da população

A corrupção ser tolerada não é a regra, apenas uma parcela da população segue a tolerância que os políticos que comandam sua mente aceita e acha normal. No entanto, esta tolerância foi construída por doutrinação, e as pessoas comuns que acreditam ser

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tolerável são guiadas por encantamento por palavras e um dia acordarão e deixarão o estágio de imaturidade. Não há citações de artigos que determinem a veracidade da afirmativa por pesquisas idôneas como tem sido a tolerância com a corrupção pelo homem comum através do tempo.

4.4.12 O que é o Direito nas sociedades com ilegalidade tolerada?

Foucault analisa a questão da legalidade-ilegalidade para dizer "longo período de legalidade dos suplícios, quando os suplícios eram impostos por leis". Eram legais no sentido apenas de que estavam prescritos em leis, estas em si "ilegais", quando desrespeitavam o homem submisso em favor de quem o submete. A forma de se combater a corrupção exige que se faça a distinção entre lei legal e lei imposta por um agente detentor do poder, ainda que econômico, a Lei do Mais Forte. É apenas na vigência de leis "ilegais" que se poderá conceituar "ilegalidade tolerada", para a sobrevivência e a obtenção da submissão é necessário que o que se impõe seja desrespeitado muitas vezes, lembrando o ditado para "os amigos tudo, para os inimigos a Lei".

Não se podem comparar sociedades legais "ilegais", em que a lei é imposta para fazer valer a vontade do poder, com sociedades "legais" em que se pressuponha a igualdade de direito para todos. Isto por quê? Não eram ilegalidades toleradas, mas mera "condição do funcionamento político e econômico da sociedade", [FVP] e assim, nas situações de autoritarismo, seja prevalecendo o Poder de um monarca ou uma ditadura, as Leis determinando o direito do detentor do Poder não podem constituir-se em Direito, mas em Falta de Direito: o Direito em essência não era o que estava prescrito nas Leis, mas o que era tolerado. Há, portanto, todo um trabalho de pesquisa a ser realizado: o que é o Direito nas sociedades que sobreviviam política e economicamente na base das ilegalidades toleradas? Da mesma forma, nas sociedades atuais que se pretendem democráticas não cabe a existência de ilegalidades toleradas.

Não há ilegalidade tolerada, a lei escrita difere da lei consuetudinária, a que deixa a sociedade fluir. Embora ainda uma conclusão parcial,

"As camadas mais desfavorecidas da população não tinham privilégios, em princípio:

mas gozavam, no que lhes impunham as leis e os costumes, de margens de tolerância, conquistadas pela força ou pela obstinação; e essas margens eram para elas condição tão indispensável de existência que muitas vezes estavam prontas a se sublevar para defendê-las; as tentativas periodicamente feitas para reduzi-las, alegando velhas regras ou subutilizando os processos de repressão, provocavam sempre agitações populares, do mesmo modo que as tentativas para reduzir certos privilégios agitavam a nobreza, o clero e a burguesia". [FVP]

Uma grande falácia que não corresponde à História, as revoluções se fizeram pela crueldade do poder sobre o homem comum e a aparência de tolerância é dada pela necessidade de sobrevivência. A história da ilegalidade tolerada é a história da

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submissão do homem por quem detém o poder, pela força ou por ser o controlador dos meios de se produzir riqueza.

4.4.13 Ser obrigado a aceitar não é tolerar

Apregoa-se uma "tolerância à corrupção" pelo brasileiro [TCBANM] sem levar em consideração que o homem do povo é obrigado a conviver com a corrupção e isto não significa que a tolera. Não se leva em consideração também que a ideia de tolerância à corrupção não se casa com a eleição de todo político que, por sua oratória, convença o povo que acabará com a corrupção. A imoralidade do brasileiro é apenas suposição, e não um fato comprovado; é uma afirmativa que generaliza excessivamente, o que é suficiente para provar-se uma afirmativa falsa, uma falácia. Contudo, há uma forte influência religiosa na formação do caráter do brasileiro, que está sendo combatida para a implantação da ideologia marxista seguindo-se as recomendações de Gramsci, e em breve afirmativas deste naipe serão verdadeiras.

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5 A desconstrução da lei de licitação a partir do governo Lula

A Lei de Licitações, 8. 666/93 foi denunciada ineficiente em 2010 com o anúncio de

investimento público pelos PAC 1 e 2, obras da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016. [ILPEC] Há o reconhecimento de estar viva a indústria ilícita de licitações, contra a qual não se tomam medidas concretas, - não se tomam medidas contra a corrupção, mas a seu favor. Quem faz a crítica é Luis Roberto Ponte, [PSPS] o autor da Lei 8. 666.

"Seguindo diretrizes do ex-presidente (Lula), no final de junho de 2011, com a justificativa de que o país precisaria ter agilidade na contratação das obras e serviços para a realização da Copa do Mundo, o Governo Dilma editou a Medida Provisória nº 527/2011. Numa tramitação relâmpago, em menos de dois meses, o País ganhou a Lei nº 12. 462, de agosto de 2011, que institui o Regime Diferenciado de Contratações Públicas (RDC)". Roberto Ponte [PSPS] denuncia tratar-se de uma Lei que flexibiliza e, ao mesmo tempo, fragiliza todo o processo de contratação de obras e serviços públicos até então regulados pela Lei de Licitações. Votou-se tudo que o seu mestre mandou, acriticamente, revogando para determinadas obras a Lei 8. 666/83.

5.1 Licitação sem projeto pronto: uma causa óbvia

da corrupção

Argumenta-se pressa para iniciar as obras, embora tanto a Copa de 2014 e as Olimpíadas

já estivessem há muito anunciadas, e retira-se a exigência de se ter um projeto prévio para

iniciar a chamada para licitação. Como se pode dar o preço de uma construção pesada sem se ter um projeto prévio? Fazendo a integração da licitação do projeto e da obra, a empreiteira deve apresentar um projeto (pré-projeto), e se vencer executará as obras. O governo não tem um projeto a executar e delega às empreiteiras dar o preço para um projeto e uma proposta de preço para sua execução. O Executivo legisla e dá ao sistema pró-corrupção o que ele tanto deseja: um projeto aberto de construção de obras com preço indeterminado, a ser construído durante a execução da obra. O que significa, no entanto, não ter projetos prontos para as obras federais? Única e simplesmente falta de planejamento.

5.2 Crítica de Luis Roberto Ponte

MP 630/13, convertida na Lei nº 12. 980, de 2014, altera a Lei n o 12. 462, de 4 de

agosto de 2011, institui o Regime Diferenciado de Contratações Públicas - RDC. Para Luis Roberto Ponte, [DKPC, LRPEPE] a Lei retorna as licitações à situação anterior à Lei 8. 666:

Ressuscita dispositivos obscuros do Decreto-Lei 2. 300. Legaliza mecanismos de corrupção utilizados antes da Lei 8. 666. Tornar sigilosos os orçamentos das obras até a abertura dos envelopes:

A

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O que associado à desclassificação das propostas com preços inferiores a um valor

mínimo era muito usado para direcionar uma obra pública ao parceiro escolhido, quando em conluio o governante utiliza um valor mínimo bem alto e o fornece à empreiteira por ele escolhida, garantindo a vitória na licitação por preço tão elevado quanto desejarem.

Usa critérios subjetivos no julgamento das propostas, com "nebulosos conceitos técnicos, ambientais e econômicos (Art. 4º, e vários outros dispositivos nele disseminados)";

Um mecanismo que também foi usado para justificar a obra a quem desejasse.

Associa, na mesma licitação, a realização do projeto e da obra (Art. 9º), com prazo de 30 dias para a entrega da proposta.

Torna impossível o julgamento objetivo; a falta de projeto prévio facilita o superfaturamento; o prazo de 30 dias para entrega das propostas é incompatível com a confecção da proposta e de um projeto sério, e impossível de ser cumprido responsavelmente por quem não tenha tido anteriores informações privilegiadas, que contém a sugestão de formação de cartel, além de excluir as empresas de menor porte.

A previsão de se "pagar valores adicionais ao empreiteiro como prêmio por desempenho, qualidade, prazos etc. (Art. 10)":

Dá abertura para acréscimos subjetivos de pagamento e deixa em aberto o valor final da obra, ao desrespeitar a barreira dos 25% para acréscimos de valor estabelecida na Lei 8. 666. Não é, desde Collor, o governo a fonte de pressão para o pagamento de propinas? Basta, então, mudar o nome "propina" desde que não se mude a essência da Coisa Nomeada.

O homem moderno ainda não aprendeu que a nomeação das Coisas da Realidade está

sendo manipulada fazendo-o raciocinar pelo Nome e não pela essência da Coisa Real a

que se dá o nome. Como assim? Houve a inversão do processo usual de previsão de multas

se não há o cumprimento de prazos, e legaliza o pagamento de propinas agora com o

nome de "prêmio". Este mecanismo ludibriou a quantos? Quantos o perceberam e se calaram em nome do acordo tácito de omissão e conivência? Políticos há que foram alertados da jogada e se calaram.

As licitações ainda são a porta inicial da corrupção. As denúncias de Roberto Ponte novamente se confirmam. A corrupção na Copa 2014 é ainda um livro fechado, estão envolvidas na construção dos estádios as mesmas empreiteiras. "Andrade Gutierrez confessa suborno na Copa e pagará multa de R$ 1 bi". [AGCSCP]

5.3 Crítica de Pedro Simon, anulação da lei 8.666

Em 2014, o senador Pedro Simon [PSPS] discursa sobre o acerto da Lei 8. 666 e critica a Medida Provisória 630/13, que, “pela sétima vez a modifica, para expandir seu espectro

de aplicação para outras obras e outros contratos que vão além das intervenções feitas

para atender à Copa do Mundo”, incluindo agora “contratações passíveis de serem feitas sob esse regime, que tenham como objeto obras e serviços de engenharia para construção,

ampliação e reforma de estabelecimentos penais e unidades de atendimento

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socioeducativo”, ao lado de medidas que visam a não paralisação de obras. Denuncia que

o substitutivo da Senadora do Paraná, Gleisi Hoffmann, “estende o RDC para todas as

licitações e contratos da União, dos Estados e Municípios” e comenta “o que no início era feito para a Copa do Mundo, depois se estendeu para entidades de educacionais. E agora é para todos os contratos firmados pelo Governo Federal”.

O que Pedro Simon denúncia é o acometimento da Lei 8. 666 por doença como a

Hanseníase, com perda de partes gradativamente, ou seja, a Lei 8. 666 está sendo revogada por amputações sucessivas de seu alcance. Pedro Simon mostra a validade da Lei 8. 666, apontando a renegociação e queda para quase a metade de preços contratados com o Ministério dos Transportes, a consequente livre concorrência. Assim, a Lei 8. 666 surtiu os efeitos esperados e fica altamente suspeita a revogação da Lei ainda que para casos específicos e não seu aperfeiçoamento. Pedro Simon, e outros aqui não apurados, prega no deserto; o sistema de omissão e conivência permitiu que houvesse a alteração da Lei de Licitação imposta por Medida Provisória, ou seja, por responsabilidade da presidente que a editou, e o resultado foi o que se esperava: "de repente, sem mais nem menos, entregamos as obras aos empreiteiros para eles fazerem como bem entendem, e estão aí os estádios construídos com três, quatro, cinco vezes mais". [PSPS]

5.4 A Lei de licitações é novamente criticada em

2015

Tendo sido a Lei 8. 666 anulada paulatinamente por um processo sutil pelo qual não se pode afirmar que tenha sido revogada, é hoje possível encontrar quem a afirme cheia de falhas e formalismo e queira sua reformulação. O processo da articulação entre as Coisas Reais que subjaz às palavras que descrevem a Realidade é invisível, mas pode ser enxergado mediante uma parada e suspensão de julgamento, uma busca da evidência não pelo cartesianismo como ensinado, mas como modificado por Artaud, duvidar não até encontrar as evidências, mas até "destruir as evidências". As evidências são apenas aglomerados de palavras que se colocam sobre os fatos da Realidade escondendo-os.

A Lei 8. 666 perdeu sua validade sem ter sido revogada, mas por alterações sucessivas

estendendo sua não observação a várias obras do governo, com tendência a abranger todas

as obras. O executivo passou a legislar por meio de medidas provisórias sobre as licitações

e a situação atual voltou a ser a mesma denunciada pelo autor da Lei 8. 666, em 1991, as licitações e as contratações das grandes obras e construções públicas continuam a ser o grande foco de corrupção, depois de uma tentativa de seu controle. As propinas foram institucionalizadas com o nome de "prêmio" por cumprimento contratual. A intenção de

se combater a corrupção foi vencida pela intenção de manter a corrupção.

5.4.1 A inconstitucional Medida Provisória no.703/15: Acordo de leniência

A MP 703/13 altera a Lei 12. 846 (RDC) que dispõe sobre acordos de leniência não tem

sentido em um sistema em que a mentira a fraude o sofisma são as regras fundamentais.

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O acordo de leniência é o mais recente instrumento do sistema de impunidade com a

certeza absoluta de impunidade: procura-se adaptação, se o país não pode parar, cria-se o governante que não sabe de nada; se a empresa não pode parar, cria-se o acordo de leniência. O fato de o Acordo de Leniência se inspirar em práticas internacionais não diminui em nada a análise até agora aqui realizada, uma vez que a corrupção é

internacional e está em vigor em todos os países em maior ou menor grau de acordo com

o maior ou menor grau de acordo tácito de omissão e conivência entre os políticos.

5.4.2 Críticas à MP 703/15

5.4.3 É inconstitucional

A MP 703 é inconstitucional. [MP703V] O executivo legisla ferindo o artigo 62,

parágrafo 1º, inciso I, alínea 'b' da CF que veda a edição de MP sobre matéria de direito penal, processual penal e processual civil. Também é inconstitucional por pretender

"limitar a atuação dos Tribunais de Contas apenas ao momento posterior à celebração dos acordos". Não se pode deixar de lembrar-se da reclamação de Lula de que a fiscalização

do TCU atrapalha a governabilidade, leia-se, a corrupção.

5.4.4 Perdoa os crimes de corrupção havidos, por

modesta devolução do produto do crime

Modesto Carvalhosa, [MCMPE] em dezembro de 2015, analisa a MP que instituiu o acordo de leniência. Por uma promessa de seguir código de ética e fazer auditorias

internas, etc., dá impunidade às pessoas jurídicas, para que possam continuar contratando com o Estado, e ficando livres de todos os processos judiciais, sem multa e sem ressarcimento de prejuízos, se não houve modificação posterior ao artigo citado. Carvalhosa compreende ser a legalização da corrupção no país, que é a grita geral como

se vê em pesquisa na Google, e não contradiz o que está expresso na MP nº 703/2015.

[MP70315] O sistema político brasileiro dá a certeza de impunidade à "pessoa" que tem

os recursos para cometer a corrupção e pune os "laranjas" destas pessoas. A MP 7003 é falaciosa, fruto da má interpretação do que seja "pessoa" e "pessoa jurídica":

"''Pessoa' é o ente físico ou coletivo suscetível de direitos e obrigações, sendo sinônimo

de sujeito de direito. Já 'sujeito de direito' é aquele que é sujeito de um dever jurídico, de

uma pretensão ou titularidade jurídica, que é o poder de fazer valer, através de uma ação,

o não cumprimento do dever jurídico, ou melhor, o poder de intervir na produção da

decisão judicial". [MHDCDC] "Além das pessoas físicas ou naturais, passou-se a reconhecer, como sujeito de direito, entidades abstratas, criadas pelo homem, às quais se atribui personalidade. São as denominadas pessoas jurídicas, que assim como as pessoas físicas, são criações do direito". [PMTDP] (Transcrito de Wikipédia).

A pessoa jurídica, deste modo, é idêntica à pessoa física no que respeita ao Direito. Esta

alteração dada para acordo de leniência tornando inimputáveis as pessoas jurídicas não podem ser analisada fora de um Sistema de Significação, Normas e Valores em que o

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fluxo de ideias e pensamentos se faz em função não apenas do Desejo, mas nitidamente

da Intenção de corrupção. O corpo teórico deste SSNV tem sido montado paulatinamente

produzindo afirmativas como "a corrupção é necessária para o desenvolvimento econômico e bem-estar social", é uma ilegalidade tolerada, "o fim justifica os meios". Punir pessoas físicas vinculadas a pessoas jurídicas dando a elas a autoria da corrupção é

esquecer que executivos única e simplesmente seguem a Personalidade da pessoa jurídica que representam. Isto fica bem claro no caso brasileiro em que as empreiteiras têm estrutura de família, como explicito em seus nomes jurídicos, Camargo Correia, Odebrecht, Mendes Junior, e estão presentes no processo de corrupção desde o período Collor, quando os executivos que seriam punidos não eram os mesmos que hoje receberiam punições pela corrupção promovida pela empreiteira.

Também determinar a suspensão de qualquer "processo em curso em qualquer órgão que tenha como objeto as licitações e contratos envolvidos no acordo de leniência" fere a autonomia do TCU, por limitar as competências do controle externo outorgadas pela Constituição Federal. [MP703V]

5.4.5 Dificulta a descoberta dos agentes políticos da corrupção

Para o procurador da República Carlos Fernando Lima, principal negociador de acordos de delação na Operação Lava-Jato, a MP dificulta a descoberta dos agentes políticos da corrupção. [MPALCP]

5.4.6 MP 703 Anula a lei 8.429

A MP 703 anula a lei 8. 420, que estabelece no parágrafo 1º do artigo 17 a vedação de

acordo em ação de improbidade, "alterando, pois a legislação processual". [MP703V]

5.4.7 “Vocês não sabem do que somos capazes”

Percebe-se que o executivo altera toda a legislação que procura controlar a corrupção tendo se transformado no dono absoluto do orçamento, apesar da representação teatral do Congresso de que exerce este controle. "A mensagem que fica é a de que, se necessário, quando interesses poderosos estão em jogo, o governo federal fará alterações necessárias para salvar empresas, ou quem mais a coalização de partidos entender importantes para a manutenção do status quo" [MPALCP] Interpreta-se que o governo federal fará o que for necessário para manter a situação da corrupção. A corrupção não financia a implantação do regime político a que se aderem o partido do governo e os partidos que o suportam?

5.4.8 Justificativas da edição da MP 703

Justificou-se a MP como objetivando evitar que as investigações causem mais desemprego, [MPALCP] o que é uma falácia quando o que se salva são as empresas. Justificar a alteração da Lei de Licitação pela prevenção de desemprego foi a mesma usada por Lula em 2010, quando reclamou da fiscalização do TCU, no caso da Refinaria

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Abreu e Lima. Lula conseguiu a liberação de recursos com a argumentação de que a fiscalização paralisaria as obras e teria um prejuízo financeiro e perda de 25 mil empregos. [TSBOP] A ameaça de paralisação de obras e desemprego surtiu o efeito imediato de liberação de recursos e o efeito em longo prazo de prova de que a paralisação que seria imposta pelo TCU na fase inicial da obra era necessária. O governo "comprou" um superfaturamento de mais de 17 bilhões por liberar 13, 5 milhões por interferência indevida do então presidente: a todos passou despercebido quem teria orientado Lula,

Reafirma-se, agora, à empreiteira que não será punida, pode culpar o governo por paralisações nas obras e ameaçar desemprego. Contudo, se em lugar da certeza de impunidade tivesse a certeza de que não entraria em novas licitações, as obras só paralisariam se a empreiteira estivesse em bancarrota.

5.5 Acordo de leniência e corrupção necessária

Justificar acordo de leniência com a preservação do emprego sugere estar a MP 703 fundada na ideia de que a corrupção seja necessária ao desenvolvimento econômico e ao bem-estar social. Esta ideia é uma falácia, sendo a Realidade outra, o funcionamento da corrupção exige que haja um desenvolvimento econômico para que ela ocorra. Da mesma forma, o conceito de ilegalidade tolerada é útil ao sistema da corrupção e justifica a necessidade da corrupção para o bem-estar social. A corrupção solapa os recursos públicos e dificulta a vida do povo, principalmente os mais pobres. Qualquer sociedade corrupta que se despreocupe do bem-estar social da massa não conseguirá que haja insatisfação popular que se manifeste em votos e perpetuação do sistema político que sustenta a impunidade da corrupção.

5.5.1 O Estado assumir a empresa

A argumentação de que uma empresa pode falir se for condenada é falaciosa, o Estado pode assumir as empresas preservando os empregos, em vez de as quebrar.

intervenção

judicial?

Os estudiosos do funcionamento da política percebem seu distanciamento das normas morais, com a aceitação de que "na política, um pouco de desonestidade pode cumprir uma função importante". [TCBANM] Esta "função importante", no entanto, é cumprida em detrimento de alguém ou alguma instituição, em lucro de quem tem poder decisório ou influência sobre ele. É o modo como a corrupção funciona e procura-se modificar o Sistema de Significação, Normas e Valores da Sociedade para a aceitação de uma tolerância à ilegalidade, justificando uma corrupção que se volte para o desenvolvimento econômico ou social. É interessante como o sistema político em vigência no País retira das pessoas jurídicas a responsabilidade do crime de corrupção e coloca sob as costas das pessoas físicas que a fazem funcionar, ao mesmo tempo em que formadores de opinião procuram criar os mecanismos de atenuação do crime de corrupção: o culpado é a pessoa

5.5.2

Corrupção

tolerada?

E

a

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física que administra a empreiteira, que não será punida, pois houve desenvolvimento econômico e social permitidos pela corrupção.

O absurdo desta justificação da corrupção como ilegalidade tolerada é vista no "e se" no

momento atual houvesse ocorrido uma explosão de desenvolvimento e de bem-estar social: neste caso, toda a corrupção estaria justificada e a Operação Lava Jato teria sido

abortada em seu início, se tivesse sido iniciada.

Não é este o espírito dos acordos de leniência promovidos com as empreiteiras envolvidas no Lava Jato, tolerância com a corrupção para que não haja desemprego? Contudo, há outros mecanismos jurídicos que podem garantir o emprego, mesmo punindo-se a empresa corrupta, a intervenção judicial ou sequestro de bens, que não foram cogitados, preferindo-se ceder ao poder econômico e modificar a Lei, adotando a leniência. O que temos? Teóricos analisam mal o funcionamento da Realidade e criam uma tolerância a que Lei seja desrespeitada; criam conceitos de tolerância à ilegalidade frouxos que se dissolvem facilmente, o homem do povo não tolera a corrupção, apenas convive com ela,

se sabe que ela existe, por ser impotente contra o estado de coisas vigentes. Então, a Lei

é modificada tornando a "tolerância à ilegalidade" algo legal, previsto em lei, acordo de leniência. Fica escancaradamente claro que a tolerância à ilegalidade é exercida não pelas pessoas comuns de um Estado, mas por aqueles que elaboram as leis, que as executam e

que fiscalizam o seu cumprimento, Legislativo, Executivo e Judiciário.

5.5.3 Intervenção judicial

A adoção deste instrumento esbarra, contudo, no fato de que, em essência, o que houve

na Petrobras foi a intervenção federal com a indicação de executivos que cederam à intenção de corrupção, ou que foram escolhidos porque cederiam à intenção de corrupção. Qualquer intervenção judicial nas empreiteiras esbarraria na indicação de executivos por um sistema político que se mostra corrupto, no momento uns na situação cometendo ilícitos e outros na oposição cumprindo um acordo de omissão e conivência: desde 1991 houve várias denúncias de corrupção na Petrobras e nos fundos de pensão, várias CPIs de apuração de corrupção, e nada foi feito até a Operação Lava Jato, que ainda corre o risco de ser abortada em seus efeitos práticos pelo sistema político pró-corrupção em vigor.

5.5.4 Sequestro de bens

Não se cogitou também do sequestro de bens como previsto no art. 125 e ss do Código de Processo Penal.

5.6 O sistema político pró-corrupção vigente retorna o país ao estado anterior à Lei 8.666

Uma questão não foi levantada: quem orientou a presidente Dilma na edição da MP que alterou a Lei de Licitações? Todos se esquecem, ou fazem de conta esquecer, que a corrupção está institucionalizada desde o governo Collor, e que os agentes públicos e as empreiteiras são praticamente os mesmos atores da corrupção daquele período. Os

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governos de Lula e Dilma editaram medidas provisórias revogando a Lei 8. 666, em pequenas anulações sucessivas e ampliação dos limites das exceções concedidas nas licitações de obras e construções governamentais. Estas medidas provisórias foram transformadas em leis simplesmente por os políticos, uns serem marionetados pelo executivo, aprovando tudo que seu mestre mandar, e outros por discursarem contra sem tomarem medidas efetivas contra o estado de coisas atual. Inconstitucionalidades são cometidas a toda hora pelo executivo e referendadas pelo STF e todos aceitam passivamente: neste caso, qual a Constituição brasileira, a que está escrita ou a Constituição flexível e volúvel que está na mente dos supremos juízes federais?Em suma,

houve ingerência de Lula para que a Lei 8. 666 fosse alterada, levando a presidente Dilma

a editar medida provisória para apressar a contratação de obras necessárias à Copa de

2014 e as modificações revogam a Lei 8. 666, em essência. Fica transparente o papel do executivo como um fator pró-corrupção e a inépcia administrativa do governante:

anunciado em 2007 que o Brasil sediaria a Copa, havia tempo hábil para a licitação de projetos e das obras, sem necessidade de interferir nas Leis vigentes. Roberto Ponte denunciou, em 1991, que a fonte da pressão para o pagamento das propinas é o próprio executivo e todos fazem de conta que nada sabem e aprovam a MP que modifica a Lei de Licitação e a seguir a Medida Provisória 630 que altera Lei que instituiu o RDC, [PSPS] estendendo-a a outras obras não relacionadas com a Copa. E depois aprovam a MP 703. Tudo que seu mestre mandar, faremos todos. Estas MPs são aprovadas e a Lei 8. 666 é gradativamente descaracterizada, e continuará sendo, sem nunca ser revogada. O problema maior é que o Executivo legisla e todos se omitem coniventemente, respeitando

o sofisma do voto de liderança.

Observa-se em atuação o mesmo mecanismo de desconstrução da fiscalização do orçamento pelo Legislativo. Quanto ao orçamento, a partir das recomendações da CPI do Orçamento criam-se mecanismos fiscalizadores no Legislativo, com comissão de

orçamento, qualquer que seja o nome que tenha recebido, e aprimoram-se os mecanismos fiscalizadores no Tribunal de Contas da União. Estes mecanismos fiscalizadores são paulatinamente desconstruídos culminando na situação atual em que o Executivo é o dono absoluto do Orçamento e a ação do Tribunal de Contas da União é dissolvida no mecanismo de voto por líder manipulando a consciência de liderados, estes recebendo cargos ou verbas por descontingenciamento, ou apenas a promessa de seu recebimento.

É preciso dizer, o TCU apenas representa um papel para dar satisfação pública, teatro,

embora o exerça melhor que o Congresso Nacional. Qual o valor prático de uma fiscalização rigorosa e a acusação de crime de responsabilidade fiscal se a aceitação da acusação dependerá de voto dos cúmplices no processo de deterioração do uso da coisa pública? Só há um resultado prático, algumas pessoas enxergarão o absurdo e o denunciarão, mesmo que preguem no deserto.

Na desconstrução da Lei 8. 666, em pauta, Ponte denuncia os mecanismos de funcionamento da corrupção por empreiteiras a partir da licitação, e percebe a necessidade de lei complementar que regulamente o artigo 37 da Constituição. Elabora então a Lei 8. 666, com a ajuda de Fernando Henrique Cardoso, afirma, e obtém êxito inicial no controle da corrupção. A Lei 8. 666, não podendo ser revogada, passa a ser então paulatinamente

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criticada e não é modificada, mas aproveita-se a pressa para diferenciar regras de licitação para as obras do PAC e da copa do Mundo, depois para as obras das Olimpíadas, e depois para outras obras do governo, mostrando estar aberto o mecanismo pelo qual as obras e construções públicas possam ser incluídas nas exceções à Lei 8. 666, basta assinar uma medida provisória utilizando-se uma falácia que o acordo tácito de omissão e convivência aprova e transforma em lei. As exceções passam a ser maior do que a própria Lei. Não se encontrou análise sobre estas leis que passam a ser exceções à Lei 8. 666, e não se pesquisou para este trabalho a corrupção que possa ter havido nas obras do PAC, da Copa

e das Olimpíadas.

Revogação da lei de licitação retornando à situação vigente no governo Collor, acordo de leniência com perdão dos ilícitos cometidos mediante o pagamento de uma multa simbólica (o Imposto de Renda não recolhido sobre o valor roubado?), indultos de Natal em pleno carnaval ou Semana Santa: com estes mecanismos fica garantida a perenidade da corrupção no país, apesar da Operação Lava Jato: ainda vão surgir novos surtos de corrupção.

No sistema pró-corrupção em vigência, com o impeachment de Collor percebeu-se que o governante não pode saber de nada; com Lula, percebeu-se que, além de não saber de nada, o governante não pode apelar para a Lei de Gerson e querer levar vantagem; com Dilma, percebeu-se que é preciso blindar o presidente para não haver solução de continuidade do governo, o que quebra ou dificulta a corrupção forçando o reinício da montagem do sistema, é preciso blindar o presidente com argumentações que justifiquem seus atos: assim, todos os atos presidenciais que favorecem a corrupção estão justificados por falácias, seja preservando os benefícios sociais (e não houve uma avaliação adequada, imparcial, destes benefícios sociais como causa da situação econômica precária atual); seja preservando os empregos, etc. O sistema pró-corrupção flui nos subterrâneos sob as palavras e consegue anular um a um os mecanismos que foram criados para o controle da corrupção e com a anuência de todos os homens públicos por acordo tácito de omissão e conivência. Houve sim protestos da oposição contra várias das medidas, mas protestos sem efeitos práticos, que seria a revogação do sistema vigente que dá a certeza de impunidade com abertura de processos judiciais. Recorre-se facilmente ao STF para determinar os caminhos a serem seguidos, mas se aceita um STF que tem de se reunir para decidir se é válida a nomeação para ministro de Estado de um procurador geral da república: todos fingem esquecer que a vedação está absurdamente clara na Constituição

e que o julgamento é sumário.

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6 Teoria do Domínio do Fato

Analisa-se a Teoria do Domínio do Fato para se compreender sua aplicabilidade nos crimes de corrupção.

A teoria do domínio do fato foi criada por Hans Welzel em 1939, [1] e desenvolvida pelo jurista Claus Roxin (em Täterschaft und Tatherrschaft, 1963), ganhando projeção na Europa e na América Latina. [TDFEDP]

"Na verdade, a teoria do domínio do fato é muito simples". Roxin, quando os crimes do nazismo começavam a ser julgados, procurou corrigir a situação para que os membros do Partido Nazista fossem responsabilizados não como partícipes, mas como coautores dos crimes cometidos por subordinados que respondiam a suas ordens. É este o princípio: o governante e seus auxiliares induzem os crimes e seus subordinados não podem ser responsabilizados sozinhos, a subordinação hierárquica funciona como "mandante do crime". [SADFFG]

A Teoria do Domínio do Fato não se aplica, no entanto, diretamente aos crimes de corrupção contra o Estado. O Sistema de Significação, Normas e Valores da Corrupção (SSNV) não é sistematizado e é mais complexo que o do Nazismo, que tem um corpo ideológico-doutrinário bem definido, mesmo nos detalhes que são meramente consuetudinários. O SSNV da corrupção corre à parte do SSNV cultural, preenchendo, no entanto, o caldo cultural com textos em que se articulam falácias, como os que vendem o pensamento de que a corrupção é necessária ao desenvolvimento econômico e ao bem- estar social. ou que é da índole do brasileiro ser corrupto e isto se reflete na política. Não foi encontrada na Internet uma sistematização destes textos.

6.1 Definição de autor

Na proposta inicial de Welzel-Roxin são três os critérios para se determinar quem é o autor do ilícito: aquele que possui domínio da ação; que possui domínio de volição e/ou cognição; que possui domínio funcional (caso clássico de coautoria). [TDFLNJ]

6.2 O que é volição?

Volição (do latim volitione) é o processo cognitivo pelo qual um indivíduo se decide a praticar uma ação em particular. [Wikipedia] É, portanto, Intenção. Em verdade, na Teoria do Domínio do Fato, "parte-se do conceito restritivo de autoria, ciente do critério distintivo entre autor e partícipe, para sintetizar elementos de ordem subjetiva, tais como volição e cognição”. [TDFLNJ]

Em essência, a Teoria do Domínio do Fato se define por um autor que tem a volição, cognição e o domínio do fato, ou seja, é capaz de iniciar ou impedir sua execução, por ter conhecimento e domínio dos fatos.

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6.3

É uma teoria compatível com o Código Penal

Brasileiro

O Ministro Celso de Mello criticou os comentários que se referem à tese como algo novo, pois considera que o domínio do fato já é aplicado amplamente no Brasil. "O fato é que os crimes de poder são delitos de domínio e cuja prática justifica, sim, perfeitamente compatível com o Código Penal Brasileiro, o domínio do fato”. [MSTDF]

6.4 Não apenas é compatível, adotou a TDF

Vários juristas admitem que o Código Penal adotou a teoria do domínio final do fato ao adotar a teoria finalista da coerência lógica. [FMRDP]

6.5 Interpretações desencontradas

As interpretações da Teoria do Domínio do Fato são desencontradas, o que tem origem nos textos de acusação e defesa nos casos em que já foi aplicada, com uso de falácias e sofismas, como fica demonstrado em vários autores que acusam o mau uso da teoria na condenação de José Dirceu. Não se encontrou uma abordagem sistemática compreensiva do tema, e como já apontado, falta uma abordagem que a torne aplicável a crimes de corrupção.

6.6 Requisitos para aplicação da Teoria do Domínio do fato

"Os requisitos objetivos básicos que norteiam a possibilidade de aplicação da Teoria do Domínio do Fato e os defeitos para a aplicação na corrupção seriam:

a) Presença de estrutura de poder com organização hierárquica;

b) Fungibilidade dos executores: ou seja, são substituíveis depois de usados, [FNCL13] sem que se interrompa o processo;

c) Prova da emissão de ordem de execução delitiva do dominador para os dominados. No entanto, em acordos tácitos não há emissão de ordem de execução, como será demonstrado;

d) Prova da ciência e do controle sobre a ação dos executores. [TDFLNJ]Trata-se de estudar a Realidade da prática de ilícitos em busca dos fatores determinantes da consecução da corrupção.

6.7 Autoria

Na Teoria do Domínio do Fato parte-se do conceito restritivo de autoria, ciente do critério distintivo entre autor e partícipe, para sintetizar elementos de ordem subjetiva, tais como volição e cognição, (agregados da Teoria Extensiva de autoria), que compõem esta doutrina de essência híbrida (objetivo-subjetiva). [TDFLNJ] Welzel, um dos autores iniciais da Teoria, considera autor de ilícito "todo aquele que contribui com alguma causa

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para o resultado. " [TDFAC] É autor aquele que tem poder sobre os demais autores do crime, poder dado por comandar a ação de seus subordinados ou saber dos crimes e se omitir na sua interrupção, [PTFCDC] a que se deve acrescentar "tendo o poder de o interromper".

6.8 Poder de comando

Também como interpretada, "para que seja aplicada a Teoria do Domínio do Fato, é

necessário que o ocupante do topo de uma organização

] comande os agentes diretos

Há que se perceber, contudo, que este comando é também tácito, as ordens são inferidas

e não recebidas.

6.8.1 Emitir ou não emitir a ordem para o ilícito

A teoria do domínio do fato, interpretado a partir de Roxin, [PCETSP] "quem ocupa

posição de comando tem que ter, de fato, emitido a ordem. E isso deve ser provado",

afirma que é autor - e não mero partícipe - a pessoa que, mesmo não tendo praticado diretamente a infração penal, decidiu e ordenou sua prática a subordinado seu, o qual foi

o agente que diretamente a praticou em obediência ao primeiro. Na relação de hierarquia acentua-se sempre que "o superior dá ordem a subordinado".

6.8.2 Cumprir ordens de superiores

É ingenuidade supor que em sistema pró-corrupção ocorra "dar e receber ordens" para a execução do ato ilícito, exceto excepcionalmente ou quando já praticada como crime organizado com certeza absoluta de impunidade. Toda contratação ilícita que se queira

manter secreta e que se verbaliza por ordens dadas cria a possibilidade de sua descoberta

ao

se levantar suspeita de sua existência que dê motivo a interrogatório, pelo cometimento

de

contradições. É de se supor que aquele que verbaliza os termos do acordo tácito para

corrupção é descartado, por representar risco de o processo se dar a conhecer. Também quem é ingênuo o suficiente para verbalizar o acordo tácito de que participa traz o risco

de entregar todo o esquema em um interrogatório.

A ordem é também dada tacitamente, muito mais no gesto de não interromper a

consecução do ilícito. De outro lado, no acordo tácito, um agente não vai fazer afirmativas que o comprometa, do tipo "eu entendi que". Em verdade, em um acordo tácito, o superior ("mandante") está em condições de transferir a responsabilidade para o subordinado, provando, se preciso, que "ele entendeu que" e arrolando provas de sua falta de caráter.

O

subordinado se cala sabendo que não há como provar que o superior deu ordem que

na

verdade não foi dada, levou-se à indução de sua compreensão. As ordens vão aparecer

claramente verbalizadas talvez na execução (assassinato) de algum personagem do próprio grupo, ou de alguém fora dele, que ameace o grupo, bem como nas organizações mafiosas em que o não cumprimento da lei do silêncio é punido com a morte.

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A depender destas interpretações em busca de quem ordenou nunca se haverá de controlar

a corrupção em qualquer país, por mais que os órgãos fiscalizem as contas de governo e paralisem as obras com as evidências de ilícito.

Quando o envolvido na corrupção é o governante, desejar saber se ele deu ordens para que se cumpra o ato ilícito é fruto do desconhecimento da hierarquia em um Estado, quem comanda não é o governante, este apenas executa as ordens emanadas da Ideologia que controla sua mente e de seus correligionários e a compreensão desta Ideologia por todos envolvidos é que determina o que se fará em cada situação. É lógico que houve ordens explícitas em todos os governos autoritários para que se realizasse um crime comum.

Contudo, é preciso que sejam estudadas as ordens emanadas de ditadores para se verificar

se os atos de corrupção cometidos o foram a partir de ordens explicitas do tipo "faça isto".

É esperado que, quando o sistema de impunidade montado nos poderes constituídos é

altamente efetivo, garantindo a Certeza de Impunidade, ou no momento em que esta garantia começa a falhar, aumenta o número de ordens emanadas, podendo mesmo se ordenar que sejam cometidos atos de corrupção no primeiro caso, e no segundo caso ordens para que se tomem medidas de acobertamento do delito, principalmente em situações de desespero. De qualquer forma, repete-se, é condição que mantém o sistema pró-corrupção a não verbalização de ordens ou de intenções. As circunstâncias determinam o que será realizado por cada um dos envolvidos, tacitamente. Quando a corrupção se torna institucionalizada, qualquer Ideologia se deixa misturar com o Sistema de Significação, Normas e Valores Pró-Corrupção: o governante passa a ter a intenção de praticar o ilícito de corrupção, embora possa ter argumentações que "provem" seu

empenho em combater a corrupção.

Na postulação de Roxin, é preciso provar que, quem comanda "sabia do ocorrido e mandou seguirem frente, sem nada fazer". [PTFCDC] Na corrupção quem comanda o orçamento, o governante, não manda seguir em frente com o ilícito, nem sugere, nem se omite por impedir que siga em frente. Simplesmente deixa seguir em frente tendo o poder de interromper o processo é a ordem dada para que se prossiga.

6.8.3 É acordo tácito

Não há comando dos fatos nem por parte do agente público nem do privado. Apenas há

o deixar fluir o sistema que foi colocado em movimentação e que tem vida própria, com

os mecanismos de sua proteção desenvolvidos durante este período (estruturação da organização pró-corrupção por retroalimentação às ações e reações positivas ou negativas a elas). Sendo o resultado de regras acordadas tacitamente, mais por gestos e palavras que

apenas sugerem, ou escritos produzidos de forma que se possa afirmar serem referentes a outras coisas, e mesmo dessas obter provas de "veracidade".

6.8.4 Não há ordem explícita para se cometer o ato

Os agentes da sociedade que procuram atuar no controle da corrupção desconhecem haver um acordo tácito entre pessoas com a intenção de corrupção. Não se forma uma organização criminosa no sentido clássico do termo, não se trata de uma quadrilha que se

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reúne pelo chamado "vamos assaltar o banco tal" com distribuição de tarefas entre os participantes. Na defesa de José Dirceu no mensalão aplicou-se a Teoria do Domínio do Fato e argumentou-se em sua defesa que seria necessário provar que teve participação na corrupção e ordenou seguir em frente. [PTFCDC] O agente político escolhe agentes públicos que conseguem perceber o funcionamento do sistema pró-corrupção e tenham vencido os escrúpulos morais de dar continuidade ao processo concordando tacitamente em participar do ilícito, e assim não há emissão de ordens e produção de provas documentais clássicas, principalmente verbais, orais ou por escrito. Não há mesmo a possibilidade de confissão de que o agente político tenha convidado o executor a participar de atos ilícitos.

A exigência de que é preciso provar ter sido ordenado por alguém que se faça o ilícito

pode ser válida para o crime comum organizado, não se aplica na organização e pessoas para cometer corrupção contra o Estado, ou talvez mesmo contra empresas. Embora seja

uma interpretação que aparece sempre na mídia, é ingenuidade suprema verbalizar o que

se

vai fazer por acordo tácito. A corrupção é um crime que procura não produzir provas,

e,

ordenando claramente a execução todos os corruptos executores diminuiriam suas

culpas denunciando aquele que emitiu a ordem.

6.9 Provas x indícios

Segundo a Teoria do Domínio do Fato, para que a autoria seja comprovada basta a dedução lógica e a responsabilização objetiva, supervalorizando-se os indícios. [https://pt.

wikipedia. org/wiki/Teoria_do_dominio_do_fato] Pode ser má interpretação do anônimo que contribuiu

para o verbete da Wikipedia, pois para Roxin, a decisão de praticar o crime "precisa ser provada, não basta que haja indícios de que ela possa ter ocorrido". [PCETSP] As duas informações levam à compreensão de que os indícios são supervalorizados, mas não são suficientes como prova. A prova é uma: o governante foi alertado pelo sistema de fiscalização e controle e mesmo assim liberou as verbas. O problema é a insistência em

se pedir provas [SADFFG] para se condenar algo que procura não deixar provas e a

argumentação de que afinal quem aprovou a liberação das verbas foi o Congresso, escondendo o fato de que as votações se fazem como mero teatro, correligionários brincando de tudo que seu mestre mandar e opositores fazendo um teatro (ação sem consequências práticas) de que são contrários à aprovação, mas sendo omissos quando a liberação da verba pró-corrupção é aprovada.

6.10 Domínio do fato

Tem domínio do fato quem tem o controle final do fato e pode decidir se interrompe ou não o processo de ilicitude. [TDFAC]

6.11 O dever de saber os atos de um subordinado

Roxin [PCETSP] argumenta que "a posição hierárquica não fundamenta, sob nenhuma circunstância, o domínio do fato. O mero ter que saber não basta". É preciso discordar de Roxin, cuja afirmativa não se aplica sequer a crimes de fundo ideológico, em que, por

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convicção, o governante ordena a execução do ilícito. Nos governos autoritários são prescritas regras de controle para o conhecimento rigoroso dos atos dos subordinados e também dos cidadãos. Neste caso, "o mero ter que saber" é suficiente. Nos regimes democráticos, há o dever de ter de saber não de todos os atos dos subordinados, mas de todos os atos ilícitos dos subordinados. Como agente institucional, seja em empresa privada ou instituições governamentais, o superior tem o dever de conhecer os ilícitos praticados por subordinados.

Em se tratando de um órgão de Estado que tem um agente público escolhido por quem participa do Poder decisório, o Executivo, não se há de eximir o agente político de culpa dos atos ilícitos praticados pelo agente público por ele indicado, por confiança. Talvez possa se eximir de culpa em se tratando de atos ilícitos esporádicos, mas nunca numa corrupção sistematizada e institucionalizada, com um sistema de fiscalização e controle que funcione efetivamente. Não se tem conhecimento de que Lula, ao interferir na função fiscalizadora do TCU tenha sido advertido que cometia um ilícito, e não se podendo admitir inépcia dos órgãos fiscalizadores do cumprimento da Constituição e das leis das contas da União que dela derivam, não apenas os ministros do STF e TCU, mas todos os políticos, houve conivência, a manifestação do acordo tácito de omissão e conivência em atuação: o delito não foi denunciado.

Uns comentadores afirmam que o simples "dever saber" é suficiente, outros negam. com o argumento de ir contra o princípio de presunção de inocência. A Teoria do Domínio do Fato foi criada para crimes de cunho ideológico, em que o governante sabe e não pode negar o ilícito, diferentemente dos processos de fluxos de pensamentos e atos sociais em que o governante sabe e tem argumentos, ainda que falaciosos, mas aceitos consensualmente, que permitem negar que saiba, quando o SSNV que rege o fluxo de acontecimentos é consentido tacitamente, como a corrupção.

"O acolhimento da Teoria do Domínio do Fato faz-se impor, quando o seu titular deve conhecer as circunstâncias fáticas que fundamente o domínio sobre os acontecimentos". [ELMPFM]

Nenhum Presidente da República pode ignorar o foco de corrupção, as obras e serviços públicos contratados, e as pessoas jurídicas que a cometem e se houver um que não conheça as circunstâncias fáticas que levam ao ato ilícito, é por inépcia, ignorância, negligência, omissão ou conivência, ou má fé: os fatos e os mecanismos em que se dão são bem conhecidos desde 1991.

É lógico que o governante, sabendo ser seu dever combater a corrupção, não consegue sozinho combatê-la, por isto são criados mecanismos fiscalizadores, inclusive de seu Desejo de corrupção, impedindo-o de tornar-se volição/Intenção. Se há provas de que sabe, como, por exemplo, alerta dos sistemas de fiscalização e controle, o acusado não pode negar que saiba. Comete ilícito o governante que suspender, por quaisquer motivos, as funções fiscalizadoras dos órgãos de controle existentes.

Afirmar que a corrupção sempre existiu deve levar à convicção de que nenhum governante pode dizer que não sabe da existência de corrupção dado a natureza do ilícito

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e um presidente que se elege com a bandeira de acabar com a corrupção tem o dever de estar atento aos indícios de corrupção. A partir denúncia de Aníbal Teixeira, ainda no governo Sarney, e de Luis Roberto Ponte, em 1991, de que resultou a Lei 8. 666/93, é dever de todo presidente saber que o foco de corrupção é o próprio governo na administração das grandes obras e construções. Foram criados mecanismos de fiscalização do orçamento e estes foram combatidos pelos próprios governantes, que permaneceram alheios às criticas de que estavam sendo reabertas as portas da corrupção. O que se assistiu nos governos Lula não foi apenas a politização da corrupção, tornar-se necessária para o financiamento de um projeto de governo, mas a anulação de todos os esforços legais para o controle efetivo da corrupção. Assim, conseguiu-se que o executivo se firmasse como dono absoluto do orçamento; reclamou-se da fiscalização do TCU; firmou-se o conceito de que para combater a corrupção é preciso provas concretas e nomes dos corruptos; criaram-se por medidas provisórias exceções à Lei 8. 666 sem a revogar. Cometeu-se o delito de se ter recebido a denúncia de que em dado órgão estatal houve um incêndio criminoso e não se apagar o fogo por o denunciante não ter dado o nome do autor e as provas de autoria.

6.12 Dever de saber, cargo de confiança e relação

de hierarquia

Todos envolvidos na condução do país devem saber dos atos de seus subordinados em todas as instâncias de governo. A corrupção é um fato conhecido na Política desde antanho e apenas é uma ilegalidade tolerada, não pelo povo, mas pelos próprios políticos. Não se há de declarar que um político não tem o dever de saber quando foram criados órgãos de fiscalização e controle e há emissão de alertas e recomendações contrárias a atos de corrupção. O Presidente nomeia o Ministro e este nomeia os executivos, o Presidente se torna responsável pelos atos destes executivos quando os órgãos de fiscalização denunciam as ilicitudes por ele cometidas e não são tomadas medidas de apuração e responsabilização criminal, além do afastamento do cargo. A punição historicamente sempre foi afastar o acusado e nada se fazer para interromper o fluxo de atos do sistema de corrupção, ou seja, acordo tácito de omissão e conivência.

As ilicitudes na Petrobras e nos fundos de pensão são denunciadas reiteradamente a partir de 1991, o morador de rua tem o direito de não saber disto, nunca o governante ou o político ainda que sem cargo, em qualquer nível, federal, estadual e municipal.

6.13 Corrupção: acordo tácito

Não se trata mais de omissão, mas de autoria, uma vez que há acordo tácito de intenções, não apenas de vontades.

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7 A Teoria do Domínio do Fato, governo e corrupção

No Código Penal, as soluções dadas aos ilícitos (erros) cometidos por subordinados em

relação hierárquica não se aplicam à corrupção nas instâncias de Governo. Considerando

o governante hierarquicamente superior a cidadãos comuns que com ele se relacionem,

não há coação irresistível do agente público sobre aquele que paga o suborno, não há emissão de ordem para que este cometa o ilícito. Ao governante resta apenas a função de

assinar ou não a liberação da verba. É um jogo com regras pré-estabelecidas pelo funcionamento do sistema de corrupção, não escritas, não verbalizadas. O Código Penal não é suficiente para lidar com os crimes de corrupção.

7.1 Relação de hierarquia

No Código Penal, as soluções dadas aos ilícitos (erros) cometidos por subordinados em

relação hierárquica, não se aplicam à corrupção nas instâncias de Governo. Considerando

o governante hierarquicamente superior a cidadãos comuns que com ele se relacionem,

não há coação irresistível do agente público sobre quem paga o suborno, não há emissão de ordem para que este cometa o ilícito. Ao governante resta apenas a função de assinar ou não a liberação da verba. É um jogo com regras pré-estabelecidas pelo funcionamento do sistema de corrupção, não escritas, não verbalizadas. O Código Penal não é suficiente para lidar com os crimes de corrupção.

Segundo a teoria da acusação, o político deveria ter domínio do que fazem subordinados, mas necessário provar que ele estaria ciente do problema. [PTFCDC] Não se há de confundir as mentes com a argumentação de que o agente público que nomeia alguém para um cargo de confiança não tem responsabilidade sobre os atos cometidos por outros nomeados por quem foi por ele nomeado. [PTFCDC] São cargos de confiança e só há sentido em isentar quem nomeia se não toma conhecimento de ilícitos praticados pelo nomeado, se o nomeante não fiscaliza os atos do nomeado. As leis necessitam ser mais explícitas, uma vez que, em se sabendo, a conduta do nomeante se resume a afastar o nomeado. É preciso estabelecer que o afastamento do cargo seja necessário, mas é omissão grave a não abertura de processo com apuração do ilícito cometido e a busca de ressarcimento de prejuízos. Se é cargo de confiança não se pode alegar não saber dos atos do subordinado: se comete ilícitos valendo-se da confiança, foi mal escolhido, e à menor suspeita deve ser afastado e responsabilizado criminalmente. Mais grave ainda, quando se indica alguém por confiança adquire-se a certeza de que seu comportamento já está tacitamente acordado, para o bem ou para o mal, a confiança de que será feito o que necessita ser feito.

7.2 Confiança e Cargo de Confiança

Devem ser considerados subordinados de um político todos os nomeados por ele para cargos de confiança, e quem nomeia confia que os atos do nomeado seriam os seus se

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ocupando o cargo. "Luhmann compreende confiança através de três dimensões: a primeira é subjetiva, de operação reflexiva, isto é, de que é preciso ter confiança e confiar nessa confiança; a segunda enfoca as expectativas compartilhadas reciprocamente entre indivíduos; e a terceira é sistêmica, transcendendo aspectos psíquicos e as relações individuais: a confiança, aqui, se estrutura em expectativas generalizadas em sistemas e

organizações.

são normalmente incorporadas à continuidade das atividades cotidianas e reforçadas pelas circunstâncias intrínsecas do dia a dia. Nesse sentido, a confiança, assim, é muito menos um salto para o compromisso do que uma aceitação tácita de circunstâncias nas quais

alternativas estão amplamente descartadas". [CMAS]

Deve ser lido em contexto com o SSNV pró-corrupção, em que se prega a relativização do Direito, a convicção de que "os fins justificam os meios", a convicção de que a corrupção seja necessária ao desenvolvimento econômico e bem-estar social, bem como

a argumentação com falácias, em um sistema de acordo tácito de omissão e conivência.

A pregação pelo afrouxamento das regras morais, a leniência com a indisciplina e a

delinquência, são fatores que facilitam o aparecimento da corrupção por facilitar a transformação do Desejo de corrupção em Intenção. No campo político há o gramscismo, com a má leitura de Maquiavel e a divulgação de prescrições para a implantação da hegemonia de uma ideologia, prescrições que se deterioram também em função da adoção dos comportamentos que prescreve, como consequências.

Os cargos de confiança determinam uma relação de chefia para os atos concernentes à função executiva delegada, e esta relação de chefia pode se estender aos atos ilícitos por ventura praticados. Contudo, tomando-se conhecimento de que o cargo de confiança foi usado para a prática de corrupção e não tendo havido exoneração do cargo e tomadas as medidas judiciais necessárias para apuração e punição na forma da Lei, o superior que fez a nomeação é coautor do ilícito, bastando-se provar que tenha tomado conhecimento.

O fato de encontrar indícios de que tenha participado da divisão do produto da corrupção

apenas ratifica, mas é prova de coautoria se não se provou ter tomado conhecimento do ilícito praticado. O sistema que criou as circunstâncias de corrupção na Petrobras e nos

] Para Giddens, em condições de Modernidade, as atitudes de confiança

fundos de Pensão, relacionadas a recebimento de propinas de empreiteiras é bem conhecido desde 1991 com reiteradas denúncias que, por omissão e conveniência política, caíram no esquecimento. A nomeação de ministros e demais ocupantes de cargos de governo, bem como a indicação de executivos para as estatais se faz na confiança plena de que seguirão o fluxo das coisas e acontecimentos na Realidade, e adotarão comportamentos que manterão o status quo pró-corrupção vigente.

O sistema que criou as circunstâncias de corrupção na Petrobras e nos fundos de Pensão,

relacionadas a recebimento de propinas de empreiteiras é bem conhecido desde 1991 com

reiteradas denúncias que, por omissão e conveniência política, caíram no esquecimento.

A nomeação de ministros e demais ocupantes de cargos de governo, bem como a

indicação de executivos para as estatais se faz na confiança plena de que seguirão o fluxo das coisas e acontecimentos na Realidade, e adotarão comportamentos que manterão o status quo pró-corrupção vigente.

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7.3 Determinante da execução

"Autor é quem tem o poder de decisão sobre a realização do fato, mas é indispensável que resulte demonstrado que quem detém posição de comando determinou a prática da ação, sendo irrelevante, portanto, a simples posição hierárquica superior". [TDFAC]

Entretanto, é preciso verificar em qual campo semântico está "determinou", se significa mandar, ou se está em contexto com os "juízos determinantes" de Kant, que fundamentam

a teoria de Welzel. [HWMDP] Se uma empreiteira promove uma ação ilícita em sua

relação com o governo com a finalidade de obter um sobre preço sobre o que se contrata,

o governante efetuar ou mandar efetuar o pagamento determina o ato corrupto, é fator determinante da consecução do ilícito, mesmo que o governante não o ordene.

7.3.1 Vontade : Volição x Intenção

O governante tem a intenção de corrupção se, ao ser informado do ato ilícito, não envida

esforços para paralisar a consecução do ato, mesmo que isto signifique paralisar obras. pois não pode ignorar que o combate à corrupção é seu dever.

7.4 A Teoria do Domínio do Fato e a corrupção

política

A Teoria do Domínio do Fato desconhece tratar-se a corrupção de um processo construído

por acordo tácito e que, mesmo quando se torna planejada, o acordo tácito é um fator

importante. Não leva em consideração também a existência de um acordo tácito de omissão e conivência entre os políticos. A Constituição e os Códigos Penais também

dificultam a ação judicial por não serem claros quanto à existência de acordos tácitos para

a consecução de crimes. Estas falhas permitem que, pelo culto à Mentira, à Falácia e ao Sofisma, consiga-se inocentar os culpados pela prestidigitação com as palavras.

7.5 Má leitura do Sistema de Coisas Reais que

concretiza a corrupção

Os analistas e comentadores da Teoria do Domínio dos Fatos não levam em consideração

a realidade dos fatos relacionados com a corrupção. Os agentes públicos e privados

promovem a corrupção por acordo tácito, "repartindo entre si as tarefas em que se pode

dividir a empresa criminosa, ou, então, um coopera apenas na obra de outro, sem acordo (escrito) embora, mas com a consciência dessa cooperação". [ESCP]

Nos processos de corrupção já sistematizados não há uma emissão de ordem de execução,

há um acordo tácito entre dois agentes com a intenção de cometer o ilícito, as regras foram

predeterminadas pelo fluxo anterior das ações ilícitas aceitas; as justificativas foram apresentadas com sofismas que se fizeram aceitos por um acordo tácito de omissão e conivência. Não há comando explícito por parte do agente público ou privado, apenas um deixar fluir, no caso deixar fluir o sistema que foi colocado em movimentação no governo Collor e que tem vida própria, com os mecanismos de sua proteção desenvolvidos durante

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todos estes anos. O comando implícito se encontra por indícios, e não por provas definitivas, e estes indícios sempre apontam para um indivíduo chave, aquele que pode interromper o processo de ilicitude. A prova da corrupção passa a ser a continuidade das ações; a prova da participação da Presidência da República é o desenrolar de medidas provisórias que atenuam ou anulam os mecanismos que se colocam para combater a corrupção e a ausência de atitudes que interrompam o processo. Na fase adiantada do processo de corrupção da Petrobras e fundos de pensão não há nem mesmo combinação de valores a serem pagos/recebidos de forma clara.

7.6 Autor intelectual do ato de corrupção

Não há autor intelectual, agentes com intenção de corrupção se reúnem para contratar alguma obra e todos os fatores que prejudiquem a intenção são afastados, podendo haver algum gesto, algum sinal até mesmo combinado, mas não contratação verbalizada, oral ou escrita.

7.7 Ação intencional

Em que pese opiniões abalizadas de estudiosos, Bourdieu, O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005, [TCBANM] a ação corrupta é intencional, tanto da parte do agente público quanto do agente privado, e é espontânea, o que permite deludir não ser intencional. Bourdieu recusa "as alternativas da consciência e da inconsciência, da racionalidade e da irracionalidade" e a elas retorna ao admitir o conceito de habitus que "atrela às práticas cotidianas o conhecimento moral da sociedade". O conhecimento moral da sociedade está necessariamente no inconsciente de todos, como de todo corrupto, não sendo possível imaginar que alguém tenha sido criado em uma família que não tenha induzido a sua formação moral, mas está na consciência apenas daqueles que se voltaram para si mesmos para conhecer os parâmetros que compõem seu sistema de significação, normas e valores, que derivou do SSNV recebido da cultura, via família.

Mesmo no que diz respeito à política, a ação é intencional e espontânea. É intencional, pois o ator deve vencer suas preocupações morais para aceitar efetuar a ação, mesmo que não seja mais no momento em que a pratica "mais uma vez". É espontânea, pois uma vez o agente tenha decidido efetivar o ato ilícito e o faça repetidamente torna-se hábito. Não será espontânea enquanto o hábito não estiver já estabelecido.

7.8 Corruptor e corrompido

Na situação atual não existe a figura do corruptor e do corrompido: o pagamento de propina se institucionalizou, virou instrumento político e passou a ser aceito como praxe:

os políticos corruptos não mais impõem ou pague propina ou não terá obra para fazer, e os agentes privados não mais oferecem propinas e subornos. Institucionalizada a corrupção passou a ser um conluio em que mesmo o aspecto ilícito do pagamento extra se dissolveu no termo "prêmio", por meio de medida provisória (acordo de leniência). Assim, a procura de provas de que houve um corruptor e um corrompido dificulta que haja controle da corrupção. É o defeito já apontado na conceituação de corrupção ativa e

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passiva: no acordo tácito há um crime cometido em comum, coautoria. Da mesma forma, é não senso confundir a corrupção política com a corrupção moral, em que um adulto

corrompe uma criança ou outro adulto “inocente” e ingênuo. Não serve a conceituação

da corrupção como "um agente corrompe o outro", os participantes já estão corrompidos,

sendo este um dos fatores determinantes primários de praticarem corrupção, e atuam tacitamente em uma instituição corrompida por um sistema pró-corrupção em vigência.

7.9 O governante pode interromper a continuidade do ato ilícito

Um sistema pró-corrupção está fluindo por sob as palavras, sendo necessário que se adote mecanismos de apuração de responsabilidade mais efetivos. Não se pode deixar iludir pelas aparências. Tudo o que se percebe da Realidade são representações, mero teatro, a Realidade flui abaixo das aparências que se dá a perceber.

Este sistema pró-corrupção favorece a emergência de organização das interações entre

pessoas visando corrupção e está em vigência nos três poderes constituídos, Executivo, Legislativo e Judiciário, ainda que a vantagem indevida seja apenas a obtenção e garantia

de manutenção de privilégios, tais como altos salários e aditivos ao salário, estes muitas

vezes fundados em motivos torpes, sendo motivo torpe conceder auxilio moradia a quem conseguiu o privilégio de ter alto salário. Ou a nomeação de filhos e parentes para cargos públicos. Este sistema pró-corrupção tem experimentado sua difusão para o seio da sociedade por um Sistema de Significação, Normas e Valores que se constrói seguindo

as prescrições de Gramsci. O Presidente da República é alertado pelo TCU, órgão de

fiscalização, das evidências de ilícitos nas obras públicas e o Congresso, órgão de

controle, é alertado para não aprovação das contas do governo se há indícios de destinação

de verbas a pagamentos ilícitos. Considerando as atribuições do Presidente da República.

Art. 84. Compete privativamente ao Presidente da República: (EC no 23/99 e EC no 32/2001): VIdispor, mediante decreto, sobre: a) organização e funcionamento da

administração federal, quando não implicar aumento de despesa nem criação ou extinção

de órgãos públicos.

Considerando a determinação constitucional de que os atos do Presidente da República que atentem contra a lei orçamentária e a probidade administrativa,

Art. 85. São crimes de responsabilidade os atos do Presidente da República que atentem

contra a Constituição Federal e, especialmente, contra: V a probidade na administração;

VI a lei orçamentária.

Considerando que o governante deve saber dos ilícitos praticados por agentes públicos

ou privados em suas relações com a Coisa Pública, dever saber que é cumprido pelas funções dos órgãos de fiscalização e controle do orçamento,

Conclui-se que o Presidente da República tendo o dever de mandar verificar todos os casos de corrupção de que seja alertado pela fiscalização e controle, e, tendo o poder de

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interromper, não interrompe seu processo de consecução, é ele o autor dos processos de corrupção havidos em seu mandato. É o que se procura demonstrar.

O fato de a situação atual se tornar semelhante ao período Collor, cuja corrupção

denunciada gerou a Lei 8. 666, que inicia um processo de controle sobre a corrupção, e

se torna semelhante exatamente por tornar sem efeito esta e as outras medidas de controle da corrupção, indica que devem ser valorizados os fatores subjetivos que levam à corrupção, como a Intenção de corrupção e à tolerância à omissão e à conivência com a corrupção. (retirar este parágrafo no texto final, está repetido)

O governante detém o controle final do ato ilícito, tendo um "poder de decisão sobre a

realização do fato", [DPEACT] pelo poder de vetar o pagamento da propina e do sobrepreço. É parte da relação que leva ao ato ilícito, que sem sua ação não é concretizado. Sua não intervenção em caso de corrupção de que recebeu alerta, ainda que de suspeição por indícios, consiste em decisão pela prática delituosa, por não determinar sua interrupção.

7.9.1 Domínio do fato e coautoria

Estando a corrupção institucionalizada, o governante "tem domínio sobre a função que lhe cabe na parceria" [FMRDP] com o agente privado, é também autor da corrupção.

No caso atual, a função que cabe à Presidência da República é garantir a verba, por dominar o orçamento; garantir a continuidade do processo de corrupção por legislar por medidas provisórias que anulem os efeitos fiscalizatórios e de controle sobre as obras e construções federais. A corrupção como "ação entre amigos", entre empreiteiros e o governante, se torna visível na relação de "amizade" e convívio social do presidente com

o dono das empreiteiras envolvidas na Operação Lava Jato. Se não ocorre esta

imiscuidade, que deixa transparente a relação de compadrio, incluindo o favoritismo, entre empreiteiros e o ocupante atual da Presidência se deve ao fato de que o sistema pró-

corrupção amadurece e procura corrigir suas falhas que possam levar à sua desorganização. Embora no governo Dilma a imiscuidade tenha saído do campo social, permanece como visitas de ministros ao governante em momentos que antecedem decisões do STF, e a nomeação de filhos de ministros para cargos no Judiciário, como noticiado na mídia. Outro fator é manter-se o governante anterior no papel de orientador dos atos do atual, inclusive ditando medidas provisórias a serem editadas, como as que alteraram as regras de licitação para as obras necessárias à Copa de 2014.

7.9.2 O governante tem domínio do fato

Deste modo, o governante é autor de crime de corrupção, por, tendo conhecimento do fato típico, podendo "controlar a (sua) realização, decidindo sobre sua continuidade ou paralisação", [DCNB] não o fez.

Como já demonstrado, o governante tem a obrigação de saber e sabendo tem que tomar

as medidas necessárias para abortar o processo; na eventualidade de não ter sido

comunicado do fato pelos órgãos de fiscalização e controle, o governante pode não ser

61

autor, mas será partícipe por ter o dever de procurar saber, enquanto os órgãos de fiscalização e controle serão autores, por, tendo os indícios de corrupção, não ter levado ao conhecimento do governante.

7.9.3 Não é crime de omissão

Se "a Teoria de Domínio do Fato não se aplica a crimes por omissão", [FMRDP] o governante, tendo sido alertado, não se omite se envida esforços para que o ato ilícito não se complete. Em um ambiente em que as circunstancialidades já estão predeterminadas, conhecido o processo em que se dá o ato corrupto e seus autores imediatos, os executores do ato, não sendo atos ilícitos isolados, mas continuados, não se trata mais de omissão, configurando a intenção de que o processo não se interrompa, ou seja, a intenção de corrupção.

7.9.4 O governante está em posição de comando

Na Teoria do Domínio do Fato, como tem sido interpretada para aplicação em crimes organizados, para ser considerado autor do crime quem tem o domínio do fato tem também de emitir as ordens para que seja executado o ato ilícito, ter o poder de comando. Já discutido a possibilidade de má interpretação desta teoria em relação à confusão entre "determinar a execução" e "dar ordens para a execução". Na organização para a corrupção não há uma pessoa em posição de comando, embora eventualmente alguém possa cometer o desatino de mandar executar um ato de corrupção. O presidente determina a execução do ato corrupto ao não o interromper suspendendo o pagamento.

62

8 O governante que não sabe de nada não é mero participante, é coautor

Se houve a denúncia em 1991 de que o foco de corrupção nas grandes obras e construções

federais estava no próprio governo e nas empreiteiras que as executam, pela Teoria do Domínio do Fato demonstra-se como a Presidência da República passou a ser, após o primeiro mandato de Lula, mais claramente coautora dos crimes de corrupção. Já se apontou que houve, pela edição de medidas provisórias sucessivas que se transformaram

em leis, a anulação da legislação sobre as licitações, bem como a anulação da fiscalização

e controle sobre o orçamento, tornando-se o executivo o dono absoluto do orçamento.

A sociedade tem se deixado levar sempre pelo conceito de que o autor de um ilícito é

apenas aquele que o executa, e, deste modo, os mandantes ficavam de fora da culpabilidade como autores do crime. Corrigida esta aberração pelo uso da Teoria do Domínio do fato ainda restam impunes todos aqueles que fazem fluir na sociedade um

sistema a favor da corrupção. No caso atual a reiterada afirmação de que "eu não sei de nada" leva à descoberta da necessidade de um governante que não saiba de nada para que

a corrupção se concretize sem solução de continuidade do governo e da própria corrupção.

8.1 A corrupção depende de um governante que não sabe de nada

Tanto a situação quanto a oposição tratam a corrupção atual como se tivesse nascido agora, ainda é a mesma que se tornou institucionalizada no governo Collor, com as

mesmas empreiteiras envolvidas e os mesmos atores e instrumentos políticos envolvidos,

a compra de apoio político para a manutenção no poder. Isto foi denunciado desde 1994,

como registrado na Internet, a materialização de um teórico Inconsciente Coletivo. Do

impeachment de Collor e da evolução de regras contrárias à corrupção ou que pudesse de alguma forma impedir seu desenvolvimento, emergiu um acordo tácito pela necessidade

da figura de "um governante que não sabe de nada". As conceituações de Foucault sobre

a ilegalidade tolerada deixam transparecer que a corrupção como ilícito tolerado depende

sempre de que quem tem o poder decisório possa argumentar "eu não soube, eu não sabia,

eu não sei".

Ilegalidade

tolerada

Foi denunciado no governo Collor que a pressão para o pagamento de propinas nas grandes obras e construções partia exatamente do próprio governo. Descobriu-se que Collor não estava em condições de negar ter conhecimento da corrupção, apadrinhado que estava com seu tesoureiro de campanha, Paulo Cesar Farias. Não foi preciso que os corruptos se reunissem em assembleia e deliberassem pela necessidade da figura de "um governante que não sabe de nada". Da mesma forma, não é necessário que governo e

8.2

Condição

necessária

para

ser

63

empreiteiras tenham combinado entre si o financiamento de um projeto de governo e manutenção no poder pela corrupção. O governante, participando do esquema de corrupção, adota automaticamente o papel que dele o sistema exige, e age de forma a que possa se defender dizendo não ter sabido de nada, de nada ter tomado conhecimento. É necessidade determinante da eficácia de não se saber de nada que todos os homens envolvidos com a máquina pública, sua administração e fiscalização, ou seja, os poderes executivo, legislativo e judiciário, sejam omissos e coniventes, fazendo vista grossa a tudo quanto predetermine o fluxo de acontecimentos estar se dirigindo para atos ilícitos.

na

Petrobras

Se não é possível ao governante não saber da corrupção nas grandes obras e construções, há sistemas instituídos de fiscalização e controle. Lula aderiu ao bordão "eu não sei de nada", mas foi alertado das irregularidades na Petrobras, em 2009, pelo TCU que recomendou o bloqueio de recursos para os empreendimentos da estatal no orçamento do ano seguinte. A resposta do presidente foi vetar dispositivos da lei orçamentária, aprovada pelo Congresso, que impediriam os repasses. [TSBOP]

Lula tomou medidas a favor da corrupção e o sistema político permaneceu em silêncio.

O noticiário da época disse que "o Palácio do Planalto foi alertado", mas a essência do

fato é que quando a Presidência da República foi alertada, estavam ali alertados todos os presidentes que sucedessem a Lula, e Dilma não pode argumentar que não sabia de nada.

Da mesma forma, estavam alertados todos os presidentes que assumiram a partir de

Collor, embora as denúncias não tivessem o cunho jurídico de um tribunal de contas, mas a História caminhou para demonstrar que, ali, naquele 1991, deveriam ter sido tomadas

as medidas de vulto que hoje compõem a Operação Lava Jato.

Ao contrário do que anunciado em seus discursos o governo está empenhado no

combate à corrupção Dilma, ao assumir o primeiro mandato dá continuidade ao processo de anular as leis que procuravam controle sobre a corrupção, mediante atos legislativos via medidas provisórias. O sistema político calou-se e não houve senão a aprovação e transformação em leis das medidas provisórias. O acordo tácito de omissão

e conivência foi cumprido, não houve ação que barrasse o papel do executivo que,

dificultando a fiscalização, já estava exercendo uma função claramente pró-corrupção.

Não é possível a um governante de nada saber efetivamente se está administrando realmente o país, há mecanismos fiscalizadores em atuação, há uma História escrita de fatos de corrupção e de fatos de busca de seu controle. O governante não pode desconhecer a História de seu país, e é dever precípuo de todo governante conhecer a História da corrupção e anticorrupção em seu país, principalmente quando este governante é alçado ao poder com o discurso de combater a corrupção, só se pode combater o que se conhece. O TCU foi conivente com o cerceamento de sua função fiscalizadora; os políticos foram coniventes não fazendo prevalecer a função do TCU e foram, assim, negligentes com a Coisa Pública. O Poder Judiciário foi negligente ao não alertar ao executivo sobre a imbecilidade que estava sendo cometida. Ou a função dos

64

8.3

Lula

foi

alertado

das

irregularidades

políticos e dos juízes supremos é meramente receber altos salários e principescas mordomias? A condição necessária para a corrupção ser uma ilegalidade tolerada é o acordo tácito de omissão e conivência ao lado da negligência dos três poderes, Executivo, Legislativo e Judiciário para com a Coisa Pública.

8.4 Governante x Desejo de corrupção x Intenção

Para que um governante "não saiba de nada" é também condição necessária que não tenha apenas o Desejo da corrupção, mas tenha vencido todos os seus escrúpulos e adquirido a Intenção da corrupção. Jânio Quadros deu o nome de "forças ocultas" às forças que tacitamente o obrigavam a ceder e deixou claro, também como Getúlio Vargas, que a solução para o governante bem intencionado a quem é tacitamente pedido que não saiba

de nada - deixar as coisas fluírem da forma como funcionam na prática -, é suicidar-se ou

renunciar. As renúncias não se deram por esse motivo, mas para escapar da punição.

8.5 Não saber de nada e Lei do silêncio

O sistema político faz de conta desconhecer que não saber estando em cargo de decisão

é muito mais que omitir-se, os governantes contam com sistemas de informação e o Estado com sistemas de fiscalização. A complexidade da máquina administrativa de um Estado é tal que um governante não saber de nada por pouco tempo, é admissível, não saber de nada por muito tempo é suspeito. Entretanto, não saber de nada por todo o tempo é evidência de autoria, por negligência, omissão ou participação, prova de que não se está governando ou não se está fiscalizando. Em ouros termos, ou o governante não está administrando o Estado ou o administra pró-corrupção e ao afirmar "nada sei" está seguindo a lei do silêncio.

O processo de degradação gradual, desde 1992, da Petrobras devida à corrupção, leva a

uma questão que insiste em não ser feita, tanto pelos políticos "interessados" em acabar com a corrupção quanto pela mídia especializada: quais os motivos pelos quais não houve

denúncias a partir de executivos do alto escalão, desde a presidência, de corrupção na Petrobras e no BNDES? Após a denúncia de Motta Veiga, presidente de Petrobras no

governo Collor, em 1992, a História encarregou-se de mostrar o alto volume de corrupção

na

Petrobras e a transformação do BNDES em uma caixa preta.

A

resposta está no item "governante que não sabe de nada", mudando-se para "dirigente":

os

dirigentes passaram a ser indicados de acordo com sua capacidade de perceber acordos

tácitos em direção à corrupção e de se omitir e ser conivente. Com o volume de corrupção na estatal, seus presidentes desde então foram omissos, não se podendo conceber que o

último presidente que realmente administrou a Petrobras tenha sido o denunciante Luiz Octávio da Motta Veiga. Este dado junto com a corrupção já institucionalizada leva ao questionamento se nos altos cargos da instituição não estariam colocadas pessoas que obedeceriam ao código de honra do terrorismo, de jamais delatar seus companheiros?

65

8.6 Lei do silêncio: Lapsus linguae da Presidente

Lembrar a Lei do Silêncio dos terroristas, que é em verdade a Lei do Silêncio da Máfia, é permitido não apenas por inexistência de denúncias por agentes públicos vinculados à Petrobras e ao BNDES posteriores a 1990, mas também por ato falho da atual presidente

da República. Em discurso a presidente diz não respeitar delatores, cita como exemplos

Joaquim Silvério dos Reis, o traidor da Inconfidência Mineira e o fato de que na Ditadura tentaram a transformar em delatora e que ela resistiu. Até mesmo para quem não sabe ler um pingo é letra. As informações estão muito mais nas correntes de impressões sob as palavras do que nelas mesmas. A presidente cita o fato de “ter resistido à tentativa de dela

obter delações” afirmativa que esconde outro significado, o pedido encoberto de que “resistam companheiros”. As situações citadas são de delatores ou possíveis delatores que estavam sob código de honra de um grupo que procurava subverter a ordem das coisas. Esqueceu-se de que sugerir serem traidores os delatores no momento atual transforma o código de honra de revolucionários em código de honra de criminosos. Quando alguém comete um crime a mando de outro, mandante, não há provas a serem buscadas quando este outro o denuncia. A existência deste código de honra se manifesta também na recusa

de envolvidos em fazer delações premiadas, embora aqui se deva lembrar que têm certeza

absoluta da impunidade, e que, se presos, em breve serão soltos, ainda que por indultos

de Natal concedidos em pleno Carnaval.

A solução encontrada para a corrupção é a delação premiada, que “visa combater

principalmente o cerne das organizações criminosas: o Código de Honra (omertà). Esse

código imposto a todos os integrantes permite que todos os delitos praticados pelas organizações fiquem no anonimato. Com a quebra desse Código de Honra, o grande obstáculo para tornar a delação premiada eficaz ocorre nas suas consequências, onde a vingança e a morte dos delatores são evidentemente praticadas pelos próprios integrantes

da organização criminosa às quais pertenciam antes. Dessa forma, preferem optar pelo

silêncio e pela integridade física e moral”. [RJSUID]

Embora se possa comparar ao Código de Honra da Máfia, o respeito ao código de honra

de revolucionários, ou melhor, é o que prevalece em virtude de que se protege e blinda

não apenas a um governo corrupto, mas a um regime político que se quer implantar no país. Há uma revolução vermelha em marcha financiada pela corrupção e seguindo as prescrições de Gramsci para implantar a hegemonia da ideologia marxista-leninista. São coniventes os agentes públicos em cargo de decisão em seus diversos postos no Executivo, Legislativo, Judiciário e Militar enquanto promovem atos contra os excessos de corrupção não impedem e criam mecanismos efetivos de seu desaparecimento.

[http://intertemas. unitoledo. br/revista/index. php/Juridica/article/viewFile/3123/2884, acessado em 13/2/2016. ] Deste mal

sofreu PC Farias e a solução se encaminhou para ser a venda de CERTEZA ABSOLUTA DE IMPUNIDADE, administrada pelos três poderes constituídos, o Executivo com suas influências nos órgãos de investigação e de punição; o judiciário com sua conivência com sofismas com falácias bem articuladas “descriminalizando o crime”; o executivo com sua edição de medidas provisórias que perturbam o combate à corrupção, o legislativo com a aprovação destas medidas provisórias e de emendas à constituição que dificultam a

66

apuração de ilícitos cometidos por políticos, todos com a aprovação de apuração de crimes secundários, os quais deveriam ser postergados em prol da necessidade primária de se combater a corrupção em seu centro mantenedor, desmanchando os esquemas de manipulação do poder e do orçamento denunciados desde 1991, denúncias ratificadas em 1994, com a CPI do Orçamento.

O governo usa e abusa do preceito do maquiavelismo de como usar a corrupção a seu

favor, uma observação que se tornou prescrição de Gramsci para a implantação da hegemonia marxista, como se fosse princípio defendido por Maquiavel, sendo apenas um adendo dado por Napoleão em seus comentários de O Príncipe.

Note-se que os homens devem ser mimados ou destruídos, pois podem vingar-se de ofensas leves, porém não o podem das graves. Deste modo, a ofensa que se faça deve ser tal, que não se precise temer a vingança. NMP-17

É um ato falho importante, pois a Lei do Silêncio caracteriza a corrupção como crime

organizado. [MDCDP] Se o ato falho não constitui uma prova jurídica, desnuda aos olhos dos mais atentos o real mecanismo da impunidade que reina no país.

O

governante que não sabe de nada cumpre a lei do silêncio que "seguramente só atende

os

desejos de quem teme pela sequência das denúncias, por já estar envolvido e não querer

A Lei do silêncio não reza apenas "não delatarás", mas também pede para que não se

saiba quais são os verdadeiros objetivos da organização criminosa ou das organizações

que procuram alterar a ordem das coisas, como impor um regime diferente a um Estado, revoluções declaradas ou mascaradas, estas pregando serem democráticas.

8.7 O governante não saber de nada permite a

corrupção e a impunidade

É difícil supor a imagem de um governante que nunca e o tempo todo saiba de nada

realmente. O governante que não sabe de nada sobre a corrupção nos diversos órgãos que administra é coautor dos atos ilícitos, e não é por omissão, mas por seu próprio comportamento induzir novos atos ilícitos, que estes florescem em situações de má administração. Não se há de falar em omissão quando o governante ou seus familiares e

laranjas se enriquecem no exercício de seu mandato, principalmente quando há outros indícios de que tenha se favorecido do sistema de propinas e vantagens indevidas.

8.8 O governante que garante a corrupção não

pode sofrer impeachment

É sofisma argumentar que um processo de impeachment desestabiliza o Estado, como

fizeram ministros do STF no julgamento do rito de impeachment. É admitir que o crime de corrupção não possa ser punido se a ele está vinculado a pessoa do governante. Não

houve desestabilização do Estado quando do suicídio de Getúlio, da renúncia de Jânio ou

da renúncia de Collor para impedir seu impeachment. O Estado brasileiro se encaminha

67

para desestabilização completa por insistência em se prorrogar o processo de

impeachment ou a anulação das eleições via TSE. Ao contrário, com o impeachment há

o risco de solução de continuidade na corrupção e no programa de governo que ela

financia. O sistema de impunidade montado nos três poderes constituídos, que se aperfeiçoa para a manutenção de um sistema de corrupção já vigente no período Collor, criou o mecanismo para que, roubando, nunca o país parasse de funcionar; instituiu-se a figura do governante que não sabe de nada. Se Collor renunciou para não sofrer impeachment, se PC Farias foi assassinado por "forças ocultas", estas mesmas "forças ocultas" criaram a figura do governante que não sabe de nada, e que, para não saber de nada, não comete o crime de omissão, mas de coautoria, o que todos os políticos fazem questão de não assumir.

Qual é o papel do chefe de Estado em um sistema institucionalizado de corrupção senão

o de não saber quando a Realidade se mostra escancarada à sua mente, como quem não

viu ou não leu? Não existe crime por negligência e por omissão na esfera governamental? Um presidente que nada sabe não é o melhor instrumento para o sucesso de um sistema

de corrupção institucionalizado?

8.9 A diferença do momento atual com o período Collor

Corrupção sempre houve e o fato que diferencia o momento atual do passado é a determinação de se acabar com a corrupção política e a malversação da Coisa Pública pela Operação Lava Jato. Nunca existiu um governante que tenha assumido podendo dizer que não tivesse conhecimento de corrupção em seu país, e também nunca existiu aquele que se diferenciou por determinar medidas efetivas contra a corrupção; o governante a partir da institucionalização da corrupção tem a obrigação de não "saber de nada".

A presidente Dilma soube da corrupção no primeiro e assumiu o segundo mandato

omitindo-se em FAZER, logo após a posse, os atos necessários para realmente combater

a corrupção. Ao contrário, manteve em postos chaves do governo personagens atuantes

desde o caso Collor, e novos atores que dão a certeza política de impunidade à corrupção.

E cometeu os mesmos erros administrativos que levaram o país ao caos econômico. Com

medidas provisórias continuou com o fluxo de leis que anularam a Lei 8. 666 sem a

revogar.

O Sistema de impunidade vigente faz de conta não perceber este crime

de omissão e conivência entre os homens que conduzem o destino do país.

8.10 Concurso de pessoas para o crime: O Código Penal não prevê diretamente a Teoria do Domínio de Fato

O Código Penal em vigência, artigo 29, trata do Concurso de Pessoas nos crimes como a

participação direta ou indireta de mais de um agente, com os nomes de concurso de pessoas, concurso de agentes, coautoria e participação. [ESCP] Não premia claramente a

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Teoria do Domínio do Fato e esta, em necessidade de ser aplicada, o é á base de analogias e interpretações, terreno baldio das Mentiras, das Falácias e dos Sofismas.

8.11 O governante concorre para a execução da corrupção

Em termos de concurso de pessoas, o governante concorre para a execução do ato corrupto, uma vez que é ele quem, direta ou indiretamente, libera o pagamento da propina ou do sobrepreço, "assegurando a realização do crime, garantindo a impunidade", [ESCP] pela legislação mediante medidas provisórias que anularam os controles obtidos contra corrupção e pela participação no sistema de impunidade que garante a Certeza Absoluta de Impunidade.

69

9 Corrupção: que crime é este que não se consegue punir por falta de provas?

9.1 O sistema de impunidade vigente tolera, com

limites amplos, a corrupção

Encontra-se um fator determinante da corrupção perene, a convicção de que corrupção é um ilícito que "não deixa provas". É uma falácia para tornar inimputáveis os corruptos. Não existe crime perfeito que não deixe provas, há uma inépcia dos poderes constituídos em achar e aceitar as provas que determinam a culpabilidade. Os políticos corruptos conseguem seu objetivo transformando o significado das palavras, falácias que se articulam em sofismas, atualmente não se importando mesmo se são sofismas simplórios, facilmente perceptíveis a um olhar não especializado atento. De outro lado, há um sistema montado nos três poderes constituídos que garante a impunidade, e aceitar que não há prova de corrupção é um elemento deste sistema. Embora, pelo art. 5 o da Constituição,

Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade,

Pelo sistema de impunidade vigente, os políticos podem cometer atos de corrupção desde que não ultrapassem os limites amplos da tolerabilidade.

9.2 Gravação prevista como ilícita, mas que em

essência é lícita

Veja-se a situação que o Sistema de Significação, Normas e Valores no campo semântico jurídico aceita como válida: no caso da denúncia por um assessor de Delcídio de que um ministro "o procurou para oferecer ajuda a Delcídio e evitar que o senador fechasse acordo com o Ministério Público para contar o que sabe em troca de uma redução da pena". [SEADGC] A conversa foi gravada pelo assessor e ele e outro, seu chefe, foram exonerados pelo presidente do Senado, "com base no inciso da lei do servidor público que permite a exoneração de cargos de confiança a juízo da autoridade competente". Esta exoneração se faz em cumprimento do direito constitucional previsto no art. 5° que garante o sigilo das comunicações? Não, a justificativa dada é quebra de confiança, por ser de confiança o cargo exercido pelo exonerado.

Tem-se que analisar a legalidade da gravação e o fato de ser quebra de confiança gravar e denunciar um ilícito presenciado. O Código Penal trata de gravação feita por um dos interlocutores, sem a ciência do outro, que o Supremo Tribunal Federal entende não depender de prévia ordem judicial. "A prova (gravação) quando produzida para defesa

e] não se está utilizando prova ilícita mas sim prova lícita",

[PISTF] e mantém "a necessidade de autorização judicial, para a interceptação e a escuta,

própria pode ser utilizada,

70

nas quais existe o elemento da terceira pessoa além dos próprios interlocutores". [GCVSTF]

Não se encontrou referências ou alusões ao problema que se coloca, um agente público testemunha um ilícito praticado por um igual ou superior e grava som ou imagem pretendendo produzir prova documental. Pelo que se infere deve ele obter autorização judicial para produzir uma prova documental juridicamente válida. O fato está ocorrendo ali e naquele exato momento, há sentido em se solicitar a suspensão da conversa para que fosse obtida a autorização judicial para a gravação? Há sentido em se deixar sem documentação um ato de improbidade de importância gravíssima, mesmo não se tratando de ilícito classificável como corrupção? Há em cada recinto de órgão vinculado aos poderes constituídos um juiz do STF para conceder a cada ilícito praticado na presença de um agente público uma autorização para a gravação? De um lado, o agente público está obrigado a guardar sigilo sobre os assuntos da repartição, e tem como pena máxima a demissão; de outro lado são passíveis de tomar conhecimento de atos ilícitos cometidos por superiores aqueles agentes públicos que estão em cargos de confiança, em que há aceitação prévia de calar-se sobre o que vê ou ouve no exercício do cargo. A situação é esdrúxula também pelo fato de que silenciando-se no testemunho de ter presenciado ilícito deste calão ou de corrupção o agente público comete crime de omissão.

Há uma falha legal, ou interstício, que tem sido usada para agentes públicos não denunciarem ilícitos de que são testemunhas sem deles participar.

9.3 Questionamentos necessários

No caso citado não se teve conhecimento de manifestações contrárias à exoneração e a gravação foi entregue à Procuradoria Geral da União, não se procurando aqui evidências se foram ou serão adotadas como provas, o que não interessa para a análise que se faz. A exoneração do assessor que gravou sua conversa com um ministro de Estado deixa transparecer um problema grave: não é isto a manifestação da Lei do Silêncio dos criminosos? Quem ocupa um cargo de confiança em qualquer dos três poderes deve se calar ao testemunhar um ato de improbidade de seus superiores? Esta exoneração não induz a que todos os funcionários que testemunhem atos ilícitos cometidos por superiores se silenciem para não sofrerem o "assassinato" de cargo? Não torna nula a Lei de Improbidade administrativa que prescreve ser crime de omissão testemunhar um ilícito e não denunciar? Se os políticos se silenciam sobre a exoneração com a justificativa de que "houve quebra de confiança" ao gravar um ilícito praticado por um ministro, não estão eles coniventes com a situação de que cargo de confiança é formação de quadrilha?

9.4 Não há uma atitude preventiva da corrupção

pelos legisladores

"A prevalecer a redação do projeto do novo Código de Processo Penal, aprovada pelo Senado, será necessária prévia ordem judicial para a obtenção desse meio de prova, o que

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trará sérias dificuldades para o esclarecimento de crimes graves, como o sequestro e a corrupção". [GCVSTF]

9.5 Materialidade do crime de corrupção

A materialidade de crime de corrupção nas relações entre agentes públicos e privados

segue os critérios da Lei 8. 429/92, de improbidade administrativa, fazendo-se por palavras, gestos ou escritos. Os atos que constituem o FAZER da corrupção ativa ou passiva podem não deixar indícios ou evidências diretas de terem ocorrido. "Solicitar, "oferecer", "exibir", "prometer" ou "propor para que seja aceita" uma vantagem indevida são realizados oralmente ou por gestos e quase nunca remetem a atos que deixem provas documentais escritas, embora possa haver gravação de som e/ou imagem, os quais podem ou não ser aceitos como provas jurídicas. No entanto, estas duas últimas provas documentais só podem ser aceitas se autorizadas judicialmente, com ressalvas para algumas situações.

9.5.1 Materialidade do crime por palavras e gestos

Se um agente público denuncia um ato de corrupção por ele presenciado terá de apresentar

provas, não bastando sua afirmativa de que presenciou o fato. A Lei 8. 429 de improbidade administrativa diz que "a materialidade do fato consiste em oferecer (exibir ou propor para que seja aceita) ou prometer (obrigar-se a dar) vantagem indevida a funcionário público, para levá-lo a praticar, omitir ou retardar ato de ofício", e que "os meios de execução do delito podem ser palavras, gestos, escritos". [Lei 8. 429]

O paradoxo é evidente: a materialidade do fato são palavras, gestos e escritos, mas as

palavras do denunciante que testemunhou o fato, escutando as palavras, vendo os gestos ou lendo os escritos referentes a atos ilícitos não serve como prova material nem mesmo para que se façam as investigações necessárias. Não pode, também, o agente público gravar som ou imagem do que testemunha, nem reter consigo cópias dos documentos oficiais: o agente público não pode produzir provas do que testemunhou e os legisladores não se preocuparam com esta falha jurídica.

Todos os homens públicos envolvidos nos três poderes constituídos, bem como todos os comentadores e analistas da corrupção como um fenômeno social, fazem de conta não perceber o paradoxo, ter de denunciar, mas não poder denunciar.

9.5.2 Materialidade do crime por escritos

A princípio são permitidos todos os tipos de provas, salvo aquelas que sejam ilícitas ou

imorais, não existindo, entre os meios de prova especificados em lei qualquer hierarquia, todas possuem poder valorativo idêntico. [ASPDDP]

As provas mais usadas em denúncia são: os documentos (que o autor deverá juntar com a petição inicial e o réu com peça de contestação); as declarações das partes; o depoimento das testemunhas; as perícias e a inspeção judicial. [ASPDDP]

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Assim, todos os que afirmam não ter a delação valor de prova procuram simplesmente provocar confusão conceitual. As delações têm valor de prova dentro do contexto das provas judiciais no processo penal brasileiro, apenas não podem ser a única prova usada contra o acusado.

9.5.3 Provas documentais

São consideradas as provas mais fortes do processo instrumental, apesar do princípio da persuasão racional facultar ao juiz o seu afastamento pelos demais meios, seja testemunhal ou pericial produzidos nos autos. [ASPDDP] Assim, todo sistema de corrupção cuida para que não sejam produzidas provas documentais.

As provas documentais podem ser diretas, por documentos escritos, gravação de som ou imagem, mas não se faz combinação de ato ilícito por escrito, embora possam ser encontrados planejamentos escritos do ato a ser cometido, e como se viu não há sentido em se obter primeiro uma autorização para gravação de som ou imagem. Ou podem ser indiretas, como as obtidas por quebra de sigilo bancário e telefônico. Não se pode dizer que os documentos que registram depósitos bancário impressos em papel termossensível, apagando-se com o tempo, seja um instrumento criado por pessoas inidôneas pensando em não se deixar provas perenes de atos corruptos, mas demonstra a incapacidade de ação preventiva da corrupção: todos aos pagamentos de propinas por depósitos bancários em "contas de" estariam automaticamente documentados. Provas documentais, como as obtidas pelas quebras de sigilos bancário e telefônico de acusados, seriam mais fortes para este tipo de condenação, explica ele. [PTFCDC]

9.5.4 Provas testemunhais

Ocorrem pela interrogação de quem testemunhou os fatos e para que sejam provas fortes

é necessário que a testemunha seja desinteressada sobre os fatos. [PTFCDC] Contudo,

dificilmente são combinados atos ilícitos na presença de testemunhas não comprometidas

por interesses diretos ou indiretos, são desenvolvidos perante agentes políticos e seus agentes públicos de confiança, e, estes sob ameaça de perda do cargo têm interesse direto em mantê-lo. Não há a figura de "cargo de confiança" da Sociedade, o agente público estar exercendo função de confiança da Sociedade, embora implicitamente todo agente público esteja exercendo cargos a favor da Sociedade. Há cargo de confiança de político,

e demonstra-se atualmente ser de confiança para silenciar-se sobre o que vê e ouve. A

prova testemunhal é a mais frágil das provas. Isso porque ela pode facilmente se mostrar desconexa, não apresentar números ou pontos específicos. É por isso que "só com prova

testemunhal, dificilmente alguém é condenado por corrupção". [PTFCDC]

Entretanto, deve ser suficiente para a formulação da denúncia, desde que se desfaça a confusão entre denúncia e acusação: a denúncia contém necessariamente uma acusação que precisa ser depurada de vícios e conter indícios suficientes que justifiquem ação judicial. A denúncia como bem definida deve ser admissível e procedente de atos ilícitos, não em provas definitivas, mas indícios e evidências de autoria de ilícito.

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9.5.5 Brechas e interstícios nas leis: licitação de obras sem projeto prévio

As brechas e interstícios nas leis podem constituir provas de ilícito, como demonstra a abertura dada para licitação de obras sem projeto prévio, desde que seja levado em consideração existir um sistema pró-corrupção alimentando a corrupção. Com a edição

de medidas provisórias que anulam a Lei 8. 666 em seu alcance sem a revogar, e se tornam

leis, foi exaustivamente denunciado que a licitação de obras sem projeto prévio é uma porta aberta à corrupção e ao superfaturamento. O problema é que não existe lei perfeita, e toda lei terá interstícios os quais serão usados, com falácias, para burlar o que nela está estabelecido. Se a Lei 8. 666 fecha uma série de interstícios e brechas no processo de licitação e sua praticamente revogação por meio de medidas provisórias levou a licitações de obras sem projeto prévio, sua modificação por outras leis deve considerar todos os

aspectos que ela abrange, e, deixando abertas as brechas e os interstícios que ela fecha, deve ser considerada sem efeito e nula. A modificação de uma lei que controla as possibilidades de burla e uso de falácias para dar cobertura a práticas ilícitas é um ilícito a ser punido. O cerne da questão, todos fazem de conta não enxergar, apesar de muitos apontarem o principal defeito: [ASPDDP, PSPS, TSDNLL] as licitações são feitas sem projeto pronto. Todos procuram ignorar que é o Estado assinar um cheque em branco para

as empreiteiras e que esta é a verdadeira porta aberta para os superfaturamentos. É um

absurdo que haja omissão das casas legislativas a respeito de se dar um cheque em branco

às empreiteiras, desde o início da emissão das medidas provisórias que alteraram as regras

de licitação: é o acordo tácito de omissão e conivência. Não se tem conhecimento de medidas judiciais contra as leis, e seus autores, que alteraram a Lei 8. 666. Os motivos pelos quais as medidas provisórias alterando o processo de licitação, no primeiro caso, a urgência das obras para a copa, não justificam a abertura dada para a corrupção. É preciso

investigar quem orienta a presidente na elaboração destas medidas provisórias, uma vez que ela não dispõe dos conhecimentos necessários para interferir no processo de licitação. Para o combate à corrupção e a outros ilícitos cometidos em ambientes dos três poderes constituídos há que se transformar o agente público em agente jurídico colocando-o autorizado a priori, pela nomeação, a efetuar gravações de som e imagem e até mesmo guardar consigo provas escritas que desonerem seus superiores por conterem provas de ilícitos cometidos. Não é o agente público que se obriga a silenciar-se quando testemunha ato ilícito de subordinados ou superiores em função pública; são estes que devem se resguardar de cometer ilícitos.

Utopia?

9.5.6 Há uma falha jurídica que passa despercebida, voluntaria ou involuntariamente.

O

fato é que a corrupção nunca deixa provas escritas, mas deixa rastros e indícios. Não

se

pode mais negar que o processo político em andamento no Brasil é um casamento da

política com a corrupção. Entretanto, as denúncias formuladas por Luis Roberto Ponte

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em 1992, que culminaram na Lei 8. 429/92 estão provadas, não por provas documentais materiais, nem mesmo por presunção hominus, em que pelo raciocínio parte-se de um indício e se chega a um fato relevante. Estão provadas simplesmente pelo fato de que o que ele aponta como defeitos nas regras de licitação e procura corrigir com a Lei 8. 429, tiveram a comprovação pelo tempo, com a situação do caos econômico atual e na quase bancarrota, com previsão de bancarrota total, da Petrobras e dos fundos de pensão. Como mostrado, a corrupção experimentou um pequeno período de correção a que se seguem as manipulações das regras licitatórias por medidas provisórias que se tornaram, com a conivência das casas legislativas, leis em vigência atualmente. Não é prova jurídica, no entanto, mas aponta para a inépcia política e jurídica para se determinar as provas de corrupção e a correção dos mecanismos que aproveitam os interstícios e as falhas das leis.

9.5.7 A teoria da prova criminal desconhece o mecanismo da corrupção

Para o criminalista Zenkner Schmidt, exige-se que haja comprovação da conduta descrita no verbo nuclear do tipo penal e dos demais elementos do tipo. "No caso do artigo 317 (corrupção), exige-se prova da solicitação ou do recebimento do valor de origem ilícita, pelo menos. Em caso de concurso de pessoas, exige-se a prova de cada tarefa desempenhada por cada um dos concorrentes". O que é necessário, afirma, é que as diversas provas apontem a uma verdade por associação. [PTFCDC] Quando, na corrupção exige prova da solicitação de vantagem indevida; a prova de recebimento também é exigida, mas a primeira é subjetiva, pode ser um acordo firmado apenas com uma palavra, um gesto. Na corrupção institucionalizada estas palavras e gestos se determinam com o valor semântico de combinação do ato ilícito, e já a solicitação ou oferta de vantagem indevida pode estar tacitamente combinada por uma indicação para cargo de confiança, nepotismo, etc. Não se trata de um "um tudo leva a crer", mas um conjunto de evidências, indícios, que deve apontar uma verdade de forma suficiente a não restar dúvidas. Esta leitura, no entanto, está sujeita a argumentações falaciosas que tanto procuram transformar em verdade o que não é, quanto procuram transformar em falso o que é verdade. Daí a necessidade de se aprender a ler a ponto de se saber reconhecer falácias e sofismas.

9.6 Corrupção, o crime perfeito: nada é considerado prova do ilícito cometido

9.6.1 Diferenciação entre denúncia e acusação

Um dos motivos para não abertura de processos contra corruptos parece ser a má interpretação do que seja denúncia e acusação, e o não discernimento entre acusação e acusação juridicamente válida. Embora já tenha sido tema de análise anterior, a rediscussão cabe aqui contextualmente. Muito sofisma se constrói a partir de que "denúncia" tem entre seus significados "acusação". É passível de ser tolerado um leigo usar como recurso de argumentação que "denúncia" é "acusação" , mas um advogado,

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ainda que apenas em formação, usar deste recurso é indicador de má-fé. Embora o campo semântico jurídico não determine, muitas vezes, de modo claro a diferenciação entre denúncia e acusação, Santoro Filho [DRAPP] demonstra como uma denúncia contendo uma acusação é depurada para dela se extrair uma acusação juridicamente válida, verificar se a acusação formulada na denúncia procede de ato ilícito típico com indícios de autoria do acusado. Não se trata de "provar" que a acusação procede de atos ilícitos de que o acusado seja autor, mas provar que há indícios de que proceda e de que seja o autor. [DRAPP] Não se trata de verificar se a acusação procede realmente de atos ilícitos, de procurar fundamentos, provas jurídicas, de que os atos cometidos foram ilícitos ou não e permitam inocentar ou condenar o acusado, que é julgá-lo e processá-lo. Uma denúncia sempre contém uma acusação, que pode ser admissível ou não, e são admissíveis as acusações juridicamente válidas, não se abrindo processo judicial a partir de uma denúncia. Deste modo, a denúncia é uma acusação no sentido leigo, e esta acusação pode ser juridicamente válida ou não, que é o sentido de "acusação" no campo semântico jurídico. Em consequência, recebida uma denúncia ou queixa crime com uma acusação é preciso primeiro determinar se se trata de acusação juridicamente válida, ou seja, para a qual caiba a abertura de processo, e isto significa juridicamente "admitir uma denúncia". Recebida uma denúncia de que em órgãos públicos se pratica corrupção ou que determinado agente público pratica corrupção deve-se analisar se é uma acusação juridicamente válida, o que inclui a verificação se a acusação não comporta excludentes de ilicitude. Para se admitir uma denúncia é conditio sine qua non que se verifique se a acusação nela contida procede, quando não se procuram provas, mas evidências, "indícios" de suspeitabilidade de autoria de crime. O problema passa a ser o significado de "provas", “indícios” e “evidências”, que para o leigo têm o mesmo sentido (são provas), de que houve autoria de ilícito.

Os princípios aplicados a esclarecer a denúncia compreendem [DAAAP]:

a) "Observar os princípios constitucionais em vigor;

b) Observar o que está estabelecido em lei e normas jurídicas que regulam os atos denunciados;

c) Esclarecer a idoneidade das alegações de irregularidades;

d) Empreender, se julgar necessário, medidas investigativas de menor para maior complexidade no sentido de verificar a verossimilidade do que se denuncia, orientando-se pelo princípio da razoabilidade, da proporcionalidade e do livre convencimento;

e) Suspender os trabalhos investigativos ao menor sinal de calúnia ou práticas ilegais, sem constrangimento do investigado". Os atos destinados a apurar os fatos e esclarecer a denúncia, "consistem em tomar depoimento do denunciante, do denunciado e suas respectivas testemunhas, na obtenção de todas as provas permitidas em lei e na promoção de quaisquer diligências que se façam necessárias para o esclarecimento da denúncia". [Artigo 15 da Resolução n° 34] O significado de "esclarecer a denúncia" é, portanto, buscar as evidências de admissibilidade ou não e procedência ou não da denúncia,

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que significa verificar se a denúncia contém uma acusação juridicamente válida, não por provas definitivas, mas por indícios.

9.6.2 Requisitos para a denúncia

A conceituação de denúncia dá margem a sofismas já desde o Código Penal, que usa o termo para se referir a acusação:

"A denúncia ou a queixa deve descrever com clareza todos os elementos do tipo penal cuja violação imputa ao réu, mencionando todas as circunstâncias fáticas necessárias ao exercício da ampla defesa. Na peça acusatória inicial, devem, pois, ficar respondidas as seguintes questões relativas à prática do crime: quem o fez, quando o agente o fez, onde o fez, os meios que empregou, o que fez, por que o fez e como o fez (CPP, art. 41)". [DFTAP]

Esta confusão entre "denúncia", "acusação" e "acusação juridicamente válida" não permite que se façam acusações por indícios de corrupção, mas por provas irrefutáveis, que só se obtêm quando o processo já se completou com todos os prejuízos consequentes. Assim, a corrupção, crime de difícil tipificação de autoria, corre sempre o risco de ficar impune.

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10 A corrupção como resultado de acordo tácito segundo a Teoria dos Sistemas (Morin)

10.1 Apresentação

Como surgem os acordos para a corrupção? Como surgem as organizações com objetivos

de corrupção? Quando há verbalização oral e escrita nos atos de corrupção? A divisão de

propina com partido político é indicador de que houve planejamento ou é preciso encontrar provas de que houve? Há um fluxo espontâneo de ações que anularam as medidas anticorrupção como a Lei 8. 666, ou é um fluxo orientado por um mentor intelectual? Por que a Operação Mãos Limpas na Itália teve muito sucesso, mas não acabou com a corrupção na Itália? Por que Operação Lava Jatos terá muito sucesso em acabar com o surto atual de corrupção, mas não acabará com a corrupção no país? Por que a corrupção na Petrobras e nos fundos de pensão foi denunciada várias vezes desde 1991 e mesmo assim chegou ao estado e volume atual? Quem se omitiu? Quem foi

conivente com a corrupção deixando-a evoluir sem barreiras? Por que, por mais que se

combata a corrupção, ela sempre reaparece? Por que em toda eleição há acusações mútuas

de corrupção e nunca se abre processos judiciais que punam os acusados?

Por que a Presidência da República pode legislar, por medidas provisórias, anulando a lei

de licitações sem a revogar, e todos os mecanismos anticorrupção já criados, inclusive a

fiscalização pelo TCU? Não há um sistema pró-corrupção em vigência? As tentativas de controle da corrupção não têm visado apenas à corrupção que ultrapassou um nível tolerado pelos políticos?

São muitos os questionamentos. Serão respondidos a partir da visão de sistema de Edgar Morim em O Método I, a Natureza da Natureza.

O jogo das interações;

Do objeto ao sistema; da interação à organização;

As emergências;

A organização da organização;

Et Cetera.

Transcrevemos o trecho de O Método I em que se ilustra o resultado das interações entre elementos em desordem, chamando a atenção ao fato de que nas organizações que têm como objetivo atos ilícitos os elementos são seres humanos, portadores de mente e de consciência.

O primeiro ilustra o princípio a que Von Foerster chamou ordem from noise (Von

Foerster, 1960): direi antes principio de organização pela desordem. Considere-se um

número determinado de cubos leves cobertos dum material magnético e caracterizados

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pela polarização oposta dos dois pares de três lados que se juntam em dois cantos opostos. Colocam-se os cubos numa caixa. Fecha-se a caixa e agita-se. Sob o efeito da agitação, os cubos associam-se segundo uma arquitetura aleatória (fantasista) e estável. A cada agitação nova alguns cubos entram no sistema e completam-no até que a totalidade dos cubos constitua uma unidade original, imprevisível à partida enquanto tal, ordenada e organizada ao mesmo tempo. As condições de tal construção são: á) Determinações e imposições próprias dos elementos materiais em presença (forma cúbica, constituição metálica, magnetização diferencial) e que constituem princípios de ordem; b) Uma possibilidade de interações seletivas capaz de ligar estes elementos em certas condições

e ocorrências (interações magnéticas); c) Um aprovisionamento de energia não direcional

(agitação desordenada); d) A produção, graças a esta energia, de encontros muito numerosos, entre os quais uma minoria ad hoc estabelece as interações seletivamente estáveis, que se tornam, assim, organizacionais. Assim, ordem, desordem e organização coproduziram-se simultânea e reciprocamente. Sob o efeito dos encontros aleatórios, as imposições originais produziram ordem organizacional, as interações produziram inter- relações organizacionais. Mas também podemos dizer que, sob o efeito das imposições originais e das potencialidades organizacionais, os movimentos desordenados, desencadeando encontros aleatórios, produziram ordem e organização. Existe, portanto, de fato, um anel de coprodução mútua:

ordem =>; desordem =>; interações =>; organização =>; ordem

Assim constituída, a organização mantém-se relativamente estável, mesmo quando a caixa continua a ser agitada pelos mesmos abalos que a produziram. Donde este traço

notável: uma vez constituídas, a organização e a sua ordem própria são capazes de resistir

a um grande número de desordens. A ordem e a organização, nascidas com a cooperação

da desordem, são capazes de ganhar terreno à desordem. Esta característica é duma importância cosmológica e física capital. A organização, e a ordem nova que a ela está

ligada, embora saídas de interações minoritárias no jogo inumerável das internações em desordem, dispõem de uma força de coesão, de estabilidade e de resistência que as torna privilegiadas num universo de internações fugidias, repulsivas ou destrutivas (cf. cap. ii, p. 137); beneficiam, em suma, dum princípio de seleção natural física. (Veremos até que

o único princípio de seleção natural é físico e não biológico).

de seleção natural física. (Veremos até que o único princípio de seleção natural é físico e

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10.2 Sistematização compreensiva da corrupção pela teoria dos sistemas

Conhecidas as forças psicossociais, dinâmica de grupo, atuantes nos grupos de corrupção pode-se derivar da visão de Morin para a gênese do universo a partir da interação entre elementos físicos, um modelo para a gênese da corrupção e sua manutenção em uma sociedade.

10.2.1 Introdução

A visão atual é a de que agentes públicos e privados promovem a corrupção, seja por

acordo entre os agentes ou uma colaboração consciente desta cooperação. [ESCP] A

possibilidade lógica é ser inicialmente por acordo tácito, a verbalização em dependência

da inexperiência dos envolvidos ou da garantia de impunidade. Embora a corrupção possa

se organizar e possa se tornar planejada, o acordo tácito entre os indivíduos participantes está sempre presente.

Em toda sociedade constituída há um sistema de significações, normas e valores que favorecem a corrupção, não sistematizado, e ao qual se aderem aqueles que têm a Intenção da corrupção, e é necessário para a compreensão deste sistema partir de uma situação ideal em que na sociedade não exista corrupção, analisando as causas determinantes de seu aparecimento, o modo como aparece e evolui. Faz-se considerações posteriores para a situação em que haja sistema pró-corrupção já em atuação.

Propõe-se servir da teoria dos sistemas como instrumento de corte da Realidade e da

teorização de Edgar Morin [EMM1] sobre o nascimento da Ordem e dos Sistemas a partir

de

considerações sobre a natureza da Natureza. A leitura de Morin se faz com os pontos

de

vista de Lauro de Oliveira e Lima sobre a dinâmica de grupo, [LOLDG] que trata da

inter-relações entre indivíduos em grupos que visam um objetivo. As citações entre aspas

é sempre de O Método, [EMM1] se não houver indicação em contrário.

Morin inicia a partir do elemento físico, não portador de uma mente copiadora e transformadora da Realidade, ao mesmo tempo em que não faz uso da metáfora pampsiquista, que dá um psiquismo a todo elemento da Natureza, nem da metáfora do panteísmo, de que a primeira é derivação.

10.2.2 Sistematização compreensiva da corrupção

pela teoria dos sistemas

Pode-se compreender a corrupção como um sistema, invisível, de que emergem surtos de corrupção, ou, dizendo de outra forma, há uma corrupção perene, com suas leis e regras, de que a sociedade tem se contentado a combater os excessos quando ultrapassa determinados limites considerados toleráveis pela classe política. A sociedade tem procurado controlar a corrupção a partir dos surtos em que ela se torna visível, pouco

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impedindo a emergência de novos surtos, apesar de tantos discursos que pregam o propósito de combater a corrupção.

Para Morin, "todo sistema depende também do espírito, no sentido em que o isolamento dum sistema e o isolamento do conceito de sistema são abstrações operadas pelo observador/conceptor". Esta visão não é adequada: os sistemas são concretos, apenas sua sistematização teórica é uma abstração. O sistema em si é um inter-relacionamento entre as Coisas da Realidade, existe ali e é observado pelo indivíduo que dele participa, o qual poderá ou não sistematizar conceitos explicando-o. Um sistema ativo na Realidade depende, muitas vezes, para ser percebido, das palavras que o aponte. Não é como na visão marxista de que a palavra (Abstração) cria a Coisa (Concreto): a palavra pode facilitar a percepção da coisa ou dificultar, mas não cria a Coisa Real. Um sistema em que os elementos constituintes são seres humanos com suas mentes e consciências depende também do espírito, no sentido de que o observador altera o sistema de acordo com a direção em que flui para sua integração ou desintegração, alterando seu próprio comportamento visando a primeira e procurando evitar a segunda. Neste ponto de sua teorização, Morin não diferencia o observador teórico do observador que vivencia o sistema, pois enquanto o homem vivencia como dele participante coloca em operação a intuição, em que os conceitos podem não ser claros e verbalizados, mas que o aproxima mais fielmente da Realidade. É a compreensão que se tem quando se joga um gato contra a parede repetidamente e se percebe que ele sempre encontra a parede com as quatro patas vinculado à compreensão de que o homem é um animal.

Sistematizações podem ser feitas, e são, "provando" ser a corrupção necessária e as explicações teóricas em um sistema como a corrupção pode tender a usos de falácias e sofismas, mais no sentido de justificar atos corruptos do que em fazer compreender de que modo ela se dá nas sociedades, fundamento necessário para seu controle.

10.2.3 O jogo das interações

Na situação inicial, a partir da desordem entre os elementos-indivíduos que se colocam em interação por "ações recíprocas que modificam o comportamento ou a natureza dos elementos, corpos, objetos, fenômenos (ou pessoas, comunidades, sociedades) que estão presentes ou se influenciam". Estas interações supõem elementos-indivíduos que podem se encontrar e condições de encontro; “Obedecem a determinações/imposições que dependem da natureza dos elementos, que se encontram”; “Tornam-se, em certas condições, inter-relações (associações, ligações, combinações, comunicação, etc. ), ou seja, dão origem a fenômenos de organização". “Comportam diversamente reações, ações de trocas, retroações ou ações que atuam retroativamente sobre o processo que as produz, e eventualmente sobre a sua origem e ou causa”.

Deve-se acrescentar o que se infere dos postulados de Morin, as determinações e imposições dependem também do ambiente, fatores circunstanciais, em que os elementos em interação estão inseridos.

Para explicar acordos tácitos, ou seja, sem verbalização, para a corrupção pode-se iniciar de um conjunto de elementos, indivíduos que, praticando atos ilícitos isoladamente, ou

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não, mas tendo a Intenção, entram em interações mútuas, fazendo nascer uma ordem e uma organização, que cresce fazendo surgir um sistema pró-corrupção.

As consequências desse jogo de interações são várias e serão analisadas primeiro as determinações e imposições que os leva a interagir em função de um objetivo, a prática do ilícito da corrupção e, em seguida, as interações em si, os elementos-indivíduos se interagem e fazem surgir uma organização para a corrupção dentro do seio das relações entre agentes públicos e privados empreiteiras. Posteriormente serão analisadas as determinações e imposições que os leva a interagir em função de um objetivo, a prática do ilícito da corrupção.

10.2.3.1 Inter-relações e dinâmica de grupo

Pelos postulados de dinâmica de grupo, [LOLDG] deve-se compreender que "em um primeiro momento, não há chefia", cargo de comando: cada participante é líder de si mesmo, e faz os atos necessários para atingir seus objetivos, coordenando-os para que se adequem aos atos daqueles a quem se associa por acordo tácito.

O

próprio individuo regula suas intuições para chegar ao pensamento de grupo que gera

as

regras assim o cada indivíduo é líder de si mesmo, e, em virtude do pensamento grupal

a ordem que dá a se mesmo é aquela que o grupo dele espera.

Com o tempo e o fluir das ações do grupo, surge uma "liderança, que é um fenômeno relacional, emergencial e corresponde ao encontro adequado de uma aptidão individual com uma situação grupal", as capacidades organizadoras pelas quais sinaliza ao grupo ser

o membro "o mais apto para levar o grupo ao objetivo", contudo, deve-se "levar em

consideração os indivíduos que constituem o grupo e as circunstâncias". De outro lado, "os mais aptos tendem a procurar os grupos em que sua aptidão seja funcional". Surge, então, a cooperação mútua, "de que resulta a ordem", de que vai resultando a reciprocidade, a reversibilidade, que "é a capacidade de reverter mentalmente um processo de transformação já ocorrido até o momento inicial, anulando assim a ação interiorizada", e a objetividade. "As regras surgem da cooperação mútua mas são

impostas pelo fluxo de ações e não há deliberação consensuada de regras, o que tornaria

o grupo passível de ser descoberto mais facilmente. Não há dominação, submissão,

apenas cooperação visando um objetivo comum. A cooperação é uma lógica das ações, cada indivíduo exerce o ato determinado pelo papel que assume no grupo tão logo surja

a oportunidade de efetivá-lo". "A ordem não é um valor absoluto, sua validade decorre

da participação do indivíduo na elaboração das regras" e estas se constroem por ações consonantes com as ações dos demais participantes. As ações dissonantes serão assimiladas na medida em que contribuam para o aperfeiçoamento do grupo no que concerne atingir os objetivos. Destes processos vão surgindo as regras de funcionamento do grupo, de forma tácita, em que todos e cada um são responsáveis por decisões tomadas:

não é necessário encontrar provas claras de autoria: prova-se que há associação em busca de um mesmo objetivo, o produto da corrupção, de que a participação na divisão deste produto é prova mais que suficiente.

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Sendo um grupo associado por acordo tácito, cada um percebendo no outro as qualidades que facilitem alcançar um objetivo, não surgirá um chefe que "domine pela força, pela inteligência, por aptidões extraordinárias, independentemente da dinâmica real do grupo". Neste aspecto distancia-se de uma quadrilha de malfeitores que necessita de um chefe que conduza a todos. Em situação de surtos emergenciais de corrupção, o grupo pode mudar de liderança à medida que as exigências da execução do planejamento vão exigindo aptidões diferentes (planejador, argumentador, elaborador, executor, controlador, etc.). Na liderança inicial, o líder aparece de forma espontânea e sem discussão como se tivesse havido um insight, entretanto, no caso da corrupção política as pessoas são escolhidas pelo líder de acordo com suas características individuais favoráveis ao cometimento de ilícito. Pode surgir, então, a situação em que o líder é nomeado e seguido tacitamente, mas se torna, sem o conhecimento dos demais participantes, o planejador, controlador e visa manter-se na liderança ao mesmo tempo em que procura corresponder à Intenção de todos os participantes do grupo. Em uma investigação policial, encontrando-se indícios de que um indivíduo do grupo planeja, controla, embora mantendo dos demais distância sigilosa, é prova suficiente de que é o chefe do grupo: torna-se um líder fixo. O natural da liderança é flutuar e variar de acordo com a circunstâncias, e o primeiro ponto a considerar é que a corrupção se dá em surtos, para cada susto surto surge uma liderança. Deste modo, não há uma liderança específica mesmo que em um novo surto de corrupção não haja substituição da liderança. Contudo, quando são encontrados indícios de que esse líder coordena atos futuros a serem adotados fica configurado não mais um acordo Tácito mas um planejamento, mesmo que este planejamento seja apenas a nível individual. Neste caso o indivíduo tomara decisões e fará atos que provocarão ações dos outros membros por percepção intuitiva, não havendo a necessidade de verbalização de ordens. No caso atual, o fato de o surto de corrupção durar 24 anos com os mesmos personagens significa planejamento e não meramente acordo Tácito entre os indivíduos, e prescinde de provas para afirmar tratar-se de quadrilha, ainda que ingenuamente os demais participantes possam negar estarem sendo chefiados e guiado por este líder.

Deve-se compreender também que havendo relações entre agente público e privado para

o cometimento de ilícito de corrupção, há distribuição de papeis, surgindo líderes em cada

instância, tudo sendo assumido tacitamente de forma a que cada indivíduo possa afirmar não saber nada acima de sua posição e nível, que é uma característica de sociedades secretas, mas é uma dada pelo caráter tácito das associações e inter-relações. Nos grupos voltados para a corrupção, cada um tem consciência de seu papel e exerce as funções que

dele se espera, mas tacitamente: cada um compreende o que deve fazer para que o grupo atinja o objetivo. Mesmo quando há superiores envolvidos, há uma atenuação de seu papel hierárquico quando o subordinado faz tacitamente o que dele se espera: produz indícios

do envolvimento de seu superior, necessitando, por exemplo, obter controle do que a ele

é devido e foi pago. É nítido que, havendo a distribuição de propinas pelo subordinado a

outros indivíduos que não o seu superior, não se trata mais de acordo tácito, mas de ordens recebidas: o subordinado não sabe exatamente a quem destinar o produto do ato ilícito a não ser aqueles que percebeu estar envolvido no processo: esta percepção pode ser dada por outro, quando há a necessidade de verbalização. O receptor inicial da propina talvez

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possa ser vítima de extorsão por quem tenha tomado conhecimento de que pratica ilícitos, mas quem participa da divisão do produto do ilícito se torna parte do grupo.

"Sendo a liderança um fenômeno típico da "dinâmica do grupo", não se pode admitir que alguém lidere o grupo sem a ele pertencer. O que se chama de liderança "de fora" do grupo é, simplesmente, chefia baseada num status conferido pela sociedade, pela lei ou pelas circunstâncias pessoais que fazem alguém dominar um grupo".

10.3 A corrupção segundo a Teoria dos Sistemas (Morin)

Conhecidas as forças psicossociais, dinâmica de grupo, atuantes nos grupos de corrupção pode-se derivar da visão de Morin para a gênese do universo a partir da interação entre elementos físicos, um modelo para a gênese da corrupção e sua manutenção em uma sociedade.

10.3.1 O que é Teoria dos Sistemas

10.3.1.1 Definição

Os sistemas estão presentes na Realidade como inter-relações entre as coisas reais. Embora Bertalanffy, ao propor a teoria dos sistemas, tenha enfatizado que os sistemas reais são abertos e na interação com seus ambientes adquirem novas propriedades, que emergem em evolução contínua, os teóricos [STCDP] acentuam sempre o caráter conceitual dos sistemas: o estudo transdisciplinar da organização abstrata do fenômeno criando modelos que os descrevem. Deste modo, para uma atuação efetiva em um conjunto de relações entre Coisas Reais, sistema concreto, a sua sistematização (sistema conceitual) deve seguir uma metodologia diferente da que tem sido adotada, mediante o uso de novos parâmetros. Os parâmetros seguidos para a execução deste trabalho estão descritos em As Memórias de Schreber decodificadas: Pássaros Falantes. [GRPMSD] Salienta-se a necessidade de suspensão do julgamento, o que torna toda leitura mediante pontos de vista ideológicos fabricadora de conceitos que se distanciam do sistema concreto que se pretenda descrever, e a necessidade de se duvidar do que se lê, em textos ou no sistema de Coisas Reais, a Realidade, ultrapassando a dúvida metódica cartesiana (duvidar até alcançar a evidência) para atingir a dúvida sistemática, artaudiana (duvidar até destruir as evidências).

10.3.1.2 há a confusão entre "sistema" e "conceituação sobre um sistema"

O sistema é uma Coisa Real, está presente na Realidade e diz respeito a inter-relações entre Coisas Reais, as quais dependem de suas propriedades intrínsecas. Pela Teoria dos Sistemas não se reduz uma entidade às propriedades das partes componentes, mas o foco é dirigido nas relações entre os elementos e nas relações que as conecta ao todo. É esta

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organização que determina um sistema, que é independente da substancia concreta dos elementos componentes. [STCDP]

10.3.1.3 Pensamento sistemático x analítico

Pela Teoria dos Sistemas o conhecimento humano é visto em um contexto muito mais amplo e mais significativa do que nos estudos filosóficos de Platão a Filosofia Analítica”.

[EK2KK]

Os avanços no pensamento analítico seriam insuficientes para dar uma percepção integrada da Realidade, mas são acompanhadas por desenvolvimentos mais impressivos no pensamento sistêmico, integrador, na teoria geral dos sistemas, nos estudos interdisciplinares e nas "ciências da complexidade". [EK4PIS]

10.3.1.4

Falhas e interstícios no sistema social e nas

leis

A teoria dos sistemas sugere que muitos dos acidentes ocorrem como resultado de uma

série de pequenas falhas, como resultado de defeitos no sistema. Correspondentemente,

os sistemas abstratos seriam designados para tornar os erros menos prováveis e identificar

aqueles que ocorrem inevitavelmente. Um número de fatores próprios dos sistemas pode

aumentar a probabilidade de erros. [HPIM18]

Esta teorização aplicada na corrupção faz compreender que as falhas e interstícios no sistema social permitem a corrupção, tanto a corrupção moral quanto a corrupção política, que é meramente roubo, pois quem a pratica já está moralmente corrompido. Assim, as falhas e interstícios nas leis permitem a corrupção, mas também a ausência de instrumentos preventivos e a formação do sistema de significação, normas e valores de cada indivíduo para que aceite a corrupção como um fato necessário ao Estado. Ou seja,

a transformação dos fatores culturais tradicionais em busca da hegemonia de um tipo de marxismo gramsciano.

10.3.1.5 Modificar a parte não modifica o todo

“A Teoria dos Sistemas compartilha muitas características com a Teoria da Forma, assim

o que acontece a uma parte do todo é determinado pelas leis da estrutura interna do todo

e o que acontece ao todo não pode sempre se deduzido das características das partes em separado. Como os elementos em um sistema sofrem restrições mútuas, o estado de um elemento pode alterar o estado de outro elemento e vice-versa. Também, como observado

na Teoria da Forma, os elementos podem se alterar de alguma forma e o todo permanecer idêntico, ou ainda pequenas alterações em cada elemento pode alterar o todo completamente”. [HTALV]

Tem-se que grandes mudanças no comportamento de cada um dos indivíduos podem não alterar o todo da corrupção, mas pequenas alterações podem alterar o todo. A história da corrupção tem mostrado que, embora necessário, punir os corruptos e deles exigir indenizações não acaba com a corrupção. As alterações surgirão por retroalimentação,

85

surgindo medidas que anulem as forças antagônicas. É preciso alterações mínima nos

elementos do sistema pró-corrupção, elementos estes que são ideias, conceitos, valores:

enquanto não se objetivar combater a corrupção combatendo as forças diretrizes que a sustentam o homem será escravo daquele que detém o poder sobre a produção de riqueza,

o poder político.

10.3.2 Imposições iniciais

Há fatores presentes na ação política que determinam e alguns impõem a ação corrupta,

e que se tornam mais precisas e multiplicam-se, fixando as possibilidades de interação entre os indivíduos que vão constituir a base dos processos da organização para a corrupção.

A partir daí, desenrola-se, através das interações, a sequência

Ordem => desordem => organização => sistema.

Como já demonstrado, a imposição inicial para a corrupção é a convicção adquirida de

que político pode cobrar propina para fazer andar a máquina administrativa, que se soma

à necessidade econômica, por parte do agente privado, de se considerar qualquer

pagamento como despesa que deve gerar lucro. Chama-se a atenção para o fato de que estando o surto atual de corrupção vigente desde 1991 e em atuação um sistema pró- corrupção são determinações pessoais ou circunstanciais que agem como impositores da corrupção a que deve anuir quem queira participar de obras públicas ou exercer cargos executivos nas estatais que as promovem.

10.3.3 Formação do sistema para a corrupção

Pode-se imaginar o surto de corrupção iniciar-se sem ocorrência de verbalizações, as quais surgem nas fases iniciais por inexperiência dos participantes, diminuem com o andamento e sistematização do processo e seu amadurecimento por retroalimentação, e podem aumentar quando há grande número de participantes. Contudo, o aumento da verbalização torna a corrupção visível e, assim, depende de um sistema que garanta a impunidade se descoberta, ao mesmo tempo em que a certeza absoluta de impunidade leva ao aumento de verbalização. A busca de objetivos comuns sem que haja uma verbalização é a característica de um acordo tácito. Nos grupos que objetivam a corrupção

a lei de silêncio funciona, entretanto, não sendo como nas organizações mafiosas em que

a punição pode vir a ser o assassinato, ameaça que permite maior liberdade de ação e uma certeza de que as palavras ditas e combinadas fiquem no âmbito da organização. Com o aumento da verbalização atinge-se um dado ponto em que se torna planejamento para a corrupção.

10.3.4 Desordem leva à ordem

Se é válido para sistemas físicos que as interações entre os elementos levam ao aparecimento da ordem é mais válido ainda para sistemas de indivíduos, mentes e consciências, à procura de mesmo objetivo, a propina e ou os privilégios que se obtém

86

pelo exercício da função política. Em termos de corrupção a desordem seria a prática de ilícitos de forma individual e desordenada e os indivíduos em interação percebem os modos de melhor funcionamento e transformam associação ao acaso por associação por Desejos, Intenção e objetivos comuns. Com o tempo o processo se torna espontâneo, mas sempre presente, mesmo quando a corrupção estiver institucionalizada e tornada instrumento político.

Indivíduos com Intenção de corrupção atuando livremente ao se interagirem começam a cooperar mutuamente, dando início ao aparecimento da ordem ou esquema. Consequentemente, atos ilícitos individuais não devidamente punidos fazem aparecer uma ordem, em que os ilícitos são praticados de forma conjunta, cada indivíduo exercendo o seu papel, não de forma combinada, mas ajustando seu comportamento pelo comportamento do outro que tem a mesma Intenção, de forma que o ilícito tenha melhor resultado. Com o crescimento do grupo surgem ações desintegradoras entre os próprios componentes, por mais dificuldade de percepção.

10.3.5 A ordem leva à organização

Se surge em um sistema político ordenamentos de indivíduos em busca dos privilégios e do "direito" de cobrar propina e estes ordenamentos não são abortados, há a evolução da ordem para organização. A estes fatores deve-se acrescentar as informações privilegiadas, estas sempre relacionadas à produção de riqueza e auto enriquecimento e de familiares.

10.3.5.1 Que é a organização?

Numa primeira definição, "a organização é a disposição de relações entre componentes ou indivíduos, que produz uma unidade complexa ou sistema, dotada de qualidades desconhecidas ao nível dos componentes ou indivíduos". Assim, as consciências participantes no grupo se dão a conhecer apenas pelos atos cometidos em função do objetivo comum, ficando todas as deliberações mentais que levaram aos atos desconhecidas dos demais participantes. Nesta fase, se houver verbalizações estas podem constituir indiretas, piadas, etc., confiando-se na capacidade de percepção do interlocutor, mas, com maior probabilidade, a retroalimentação de um ato são as consequências dele resultantes.

a

organização

"A ideia de organização remete para a disposição das partes num, em um, e por um todo". Este caráter "por um todo" explica uma necessidade de tolerância, omissão e conivência mútua para que a corrupção sobreviva" Deste modo, todo participante tem o poder de parar o processo mediante denuncia judicial e todos contribuem em sua construção e organização. Todos no grupo são solidários, não denunciam não por se omitirem, e sim por conivência, mas cada um tem um papel superior ao de cúmplice. A ação continuada de omissão em denunciar descaracteriza o ato como mera omissão.

10.3.5.2

Não

um

comando

criando

87

e

organizações

"A ordem e a organização, nascidas com a cooperação da desordem (ou) as inter-relações entre elementos, acontecimentos ou indivíduos, desde que tenham um caráter regular ou estável, tornam-se organizacionais". Aplicando-se à corrupção, atos de corrupção que se tornem regulares e estáveis "são geradoras de formas e de organização e fazem nascer e perdurar sistemas", a partir de uma minoria ad hoc estabelece as interações seletivamente estáveis, que se tornam, assim, organizacionais". Ad hoc é uma expressão geralmente usada para informar que determinado acontecimento tem caráter temporário e que se destina para aquele fim específico. A partir de um dado ponto de interações entre indivíduos que visam ao ilícito, surge a ideia de sistema de ações para um fim em comum. São várias as definições de sistema e a de Ackoff dirá que "é a unidade resultante das partes em interação mútua", ou a de Saussure, "ligando-a ao conceito de totalidade e de inter-relação, o conceito de organização: o sistema é uma totalidade organizada, feita de elementos solidários que só podem definir-se uns em relação aos outros em função do lugar que ocupam nesta totalidade". Por fim, Morin, adota a definição de sistema como unidade global organizada de inter-relações entre elementos, ações ou indivíduos". Assim, um surto de corrupção só é por acordo tácito se for temporário, a continuidade do processo é determinada pelo controle dos fatores que o inibem, e sugere planejamento, de que meros indícios constituem prova de formação de organização criminosa, quadrilha. Deste modo, em uma organização para corrupção, surgem lideranças, escolhidas tacitamente e não se há de procurar provas de que estes líderes chefiam um grupo, pois em realidade não chefiam, apenas lideram.

10.3.7 Das inter-relações à ordem, à organização e ao sistema

10.3.6

Das

interações

nascem

formas

Constrói-se um sistema em que

a) "Determinações e imposições próprias dos (indivíduos) envolvidos e das circunstâncias, que constituem princípios de ordem;

b) Uma possibilidade de interações seletivas capaz de ligar estes indivíduos em certas condições e ocorrências;

c) Um aprovisionamento de energia não direcional (todos aqueles com intenção de corrupção podem participar), com a produção, graças a esta energia, de encontros muito numerosos, estabelecendo as interações seletivamente estáveis, que se tornam, assim, organizacionais.

Também, "toda a organização que determina e desenvolve especializações e hierarquizações determina e desenvolve imposições, sujeições e repressões".

São estas determinações e imposições que levam à emergência de surtos de corrupção, assim, de novo se chega à conclusão de que uma corrupção prolongada de 1991 aos dias de hoje indica planejamento e controle dos fatores que levam à emergência de surtos de

88

corrupção. Junto com a presença dos mesmos personagens, embora com o acréscimo de novos indivíduos, qualquer indício de planejamento é prova de comando e autoria do processo, ainda que pelos meios usuais de prova o acusado possa dizer que não exercia o poder de comando.

de

determinações/imposições iniciais

A ordem, que emerge sob a forma de determinações/imposições iniciais, vai desenvolver-

se através de materializações e, depois, de interações e de organizações e inter-relações

organizacionais. É quando entram as características individuais de cada participante, fazendo com que o grau de sucesso de cada um varie. Como "o todo é inferior à soma das partes: isto significa que qualidades ou propriedades ligadas às partes consideradas isoladamente desaparecem no seio do sistema. Esta ideia raramente é reconhecida". Assim, a Ética e a Moralidade individual tendem a desaparecer no sistema pró-corrupção. Na corrupção torna-se necessária a presença de indivíduos especializados na lavagem do dinheiro e doleiros, sem os quais a produção do objetivo (propinas) se limita.

Para se combater a corrupção não bastam discursos e denúncias vazias sem consequências judiciais, é preciso combater e anular estas determinações e imposições para a corrupção.

A percepção do sistema e seu funcionamento varia de indivíduo a indivíduo e assim sua

capacidade de fazê-lo fluir e produzir os objetivos. Quanto menos indivíduos capacitados

a isto, maior a verbalização e maior a probabilidade de o esquema vir a ser descoberto. As interações que produzem o objetivo procurado se tornam determinações da corrupção. Em se tratando de indivíduos como consciências participantes do sistema torna-se necessário que surja um mecanismo de que o que é manifesto não "seja percebido", o acordo tácito de omissão e conivência, que permite a participação com a alegação de nada saber.

10.3.8

A

ordem

emerge

sob

a

forma

10.3.9 Organização da organização

Em uma situação ideal de não existência prévia de organização para corrupção e sistema pró-corrupção, a organização da organização corrupta se faz lentamente, por retroalimentação do próprio sistema. É um jogo entre forças organizadoras e desorganizadoras, como será mostrado, com soluções dadas para cada situação desorganizadora, que são aceitas também tacitamente, e é deste modo que a estrutura da organização promove a organização da estrutura pró-corrupção, ou seja, são criados elementos estruturais no sistema que garante a corrupção a partir das soluções dadas a cada medida contrária a atos corruptos. Se o governante que dá certeza de impunidade ao sistema de corrupção sofre impeachment, como no caso Collor, o Desejo de Devir do sistema escolhe as soluções a ele apresentadas que levem a não risco de impeachment do governante, que passa a ser o governante que não sabe de nada, mas se locupleta dos resultados da corrupção e depois surge o governante que não sabe de nada e também nada

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ou muito pouco recebe do produto da corrupção: este governante pensa ter a salvaguarda de nada ter ido parar em seus cofres particulares.

Em consequência, todo aquele que tendo o poder de legislar e editar leis que favorecem

a corrupção são elementos ativos do sistema e são coautores da corrupção em curso. O

governante que assina a lei pode ter sido levado a assinar por outros indivíduos, mas, como todo governante tem o dever de combater a corrupção, tem a obrigação de saber os meios de a prevenir: o erro de elaborar leis a favor da corrupção é prova de autoria se há continuidade.

A interação entre dois elementos se torna inter-relação quando em busca de um objetivo comum. "Toda a inter-relação dotada de certa estabilidade ou regularidade toma um caráter organizacional e produz um sistema", assim, todo e qualquer ato corrupto deve ser combatido para que a corrupção sistematizada não apareça. Não se há que ter leniência.

10.3.10 Evolução do sistema

Organizado o sistema por determinações e imposições do ambiente, surgem determinações e imposições próprias das pessoas envolvidas, que, por retroalimentação induzem novas determinações e imposições do próprio sistema. Surgem também inter- relações seletivas capazes de ligar estes elementos-indivíduos em certas condições e ocorrências, é o momento em que o que flui por acordo tácito começa fluir também por planejamento.

10.3.11 As interações e inter-relações

"As inter-relações podem conservar fortemente a individualidade de cada elemento", e, neste caso as consciências individuais se unem por acordo tácito, "ou podem implicar uma relação mais intima e mais transformacional entre elementos, determinando um

conjunto mais unificado. Podem ser garantidas por dependências ou outras inter-relações

e interações organizacionais; ações reguladoras ou comunicações informacionais".

As inter-relações ou ligações podem ir da associação (ligação de elementos ou indivíduos que conservam fortemente a sua individualidade), e, neste caso as consciências individuais se unem por acordo tácito, à combinação (que implica uma relação mais intima e mais transformacional entre elementos e determina um conjunto mais unificado).

Neste caso, a corrupção vai se tornando mais planejada, mas combinada entre os parceiros, de que meros indícios se transformam em provas finais.

As ligações nos sistemas podem ser garantidas:

a) Por dependências fixas e rígidas;

b) Por inter-relações ativas e interações organizacionais;

c) Por retroações reguladoras;

d) Por comunicações informacionais.

Na corrupção, as dependências entre os participantes tendem a ser fixas e rígidas, um tendo o outro como potencial denunciador; as inter-relações tendem a ser ativas e

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organizacionais à medida que surgem necessidades organizacionais. Seria possível que estas inter-relações continuassem a se dar tacitamente, mas tendo o homem como elemento de interação não há possibilidade de não ocorrer um planejamento, ainda que este permaneça sob segredo, mas perceptível tacitamente pelos participantes através dos atos que gera. As retroações reguladoras das interações são dados pela análise, individual e intuitiva, dos resultados das interações. As comunicações não se fazem abertamente, mas por sinais muitas vezes não verbais, até mesmo troca de olhares, tal como não há verbalização do funcionamento, por ser um fator de desordem e desorganização do sistema.

10.3.12 Organização + sistema

Juntando a organização ao sistema tem-se que a organização liga, de modo inter- relacional, elementos ou acontecimentos ou indivíduos diversos que, a partir dai, se tornam os componentes dum todo. Garante solidariedade e solidez relativa a estas ligações, e, portanto, garante ao sistema uma certa possibilidade de duração apesar das perturbações desintegradoras. Em consequência, "a organização transforma, produz, liga, mantém". É preciso apenas que nos sistemas em que os elementos são as mentes dos seres humanos cada um dos indivíduos participantes tenha obrigatoriamente de conhecer as "qualidades" do sistema a que adere, como condição sine qua non. Não se trata de um conhecimento teórico senão intuitivo do sistema pró-corrupção.

10.3.13 ideia de unidade

Unidade significa integridade. A primeira e fundamental complexidade do sistema consiste em associar em si a ideia de unidade, por um lado, de diversidade ou multiplicidade do outro. É uma unidade original, não originária, mas tem de ser produzido, construído e organizado. O sistema é ao mesmo tempo superior, inferior e diferente da soma das partes. As próprias partes são inferiores, eventualmente superiores,

e de qualquer modo diferentes daquilo que eram ou seriam fora do sistema. Esta

formulação paradoxal mostra-nos primeiro o absurdo que seria reduzir a descrição do sistema a termos quantitativos. Significa não só que a descrição deve ser também qualitativa, mas, sobretudo, que deve ser complexa. Esta formulação paradoxal mostra- nos ao mesmo tempo em que um sistema é Um todo que toma forma ao mesmo tempo em que os seus elementos se transformam. O sistema da corrupção é aberto, crescente, enquanto os elementos-indivíduos que o compõem sofrem transformações, desde o não ser corrupto e tornar-se até o afrouxamento dos cuidados que tornam o processo invisível.

É uma ideia de unidade que permite ao sistema pró-corrupção a entrada e saída de

elementos sem solução de continuidade do processo, que é também caráter das organizações criminosas. Não mais vem a ser este ou aquele agente público ou privado que é corrupto, o sistema é pró-corrupção e este caráter "por um todo" explica também a

necessidade de tolerância, omissão e conivência mútua.

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10.3.14 Sistema pró-corrupção

Como se organiza este sistema pró-corrupção? Não basta associar inter-relação e unidade de sistema pró-corrupção, totalidade, é preciso perceber que "as inter-relações entre elementos, acontecimentos ou indivíduos, desde que tenham um caráter regular ou estável, tornam-se organizacionais", ou seja, as emergências de corrupção organizam o sistema aperfeiçoando-o. Pode-se conceber o sistema pró-corrupção como unidade global organizada de inter-relações entre elementos, ações ou indivíduos. Se a organização do mundo físico se dá como que seguindo uma inteligência, logos, esta é percebida de forma intuitiva pelo leigo e com metodologia pelos cientistas, determinando as leis de funcionamento dos vários sistemas envolvidos. No caso dos sistemas pró-objetivos pré- determinados, no caso pró-corrupção, os indivíduos envolvidos percebem intuitivamente as regras de funcionamento deste jogo de inter-relações e as seguem, sem as sistematizar em um corpo teórico que oriente os atos ilícitos. Textos que favorecem a manutenção do sistema pró-corrupção são absurdamente não conectados diretamente com o fato, como os textos que procuram convencer o homem comum de que a corrupção é necessária e que tem base na índole corrupta do próprio brasileiro. Estes textos convencem todo o leitor que não perceba as falácias e sofismas envolvidos: é apenas necessário que a corrupção permita o desenvolvimento econômico de que se nutre; e se houver de culpar fatores internos de cada homem, não se há de diferenciar o brasileiro, mas se referir à humanidade toda, uma vez que a corrupção é universal.

10.3.15 A estrutura da organização e a organização da estrutura

"É geralmente o conjunto das regras de agrupamento, de ligação, de interdependência, de transformações, que concebemos sob o nome de estrutura" e se identifica com um sistema. Pode-se dizer, então, que o sistema político e regime de governo atual é pró- corrupção, não que tenha sido a corrupção inventada agora, mas que houve a sistematização do processo, embora não transformado em um corpo teórico escrito, mas com regras claras que mantêm a corrupção perene.

10.3.16 De onde surgem as regras ou leis de funcionamento do grupo corrupto?

Pode ser transposta para a corrupção a informação de que "a organização precisa de princípios de ordem que intervenham através das interações que a constituem" e "a ordem só desabrocha quando a organização cria o seu próprio determinismo e o faz reinar no seu meio".

As regras ou leis de funcionamento do grupo corrupto nascem das interações/inter- relações entre os elementos, no caso indivíduos. Em situação de aparecimento da corrupção onde ela não exista previamente, os encontros (interações) entre os indivíduos com Intenção de corrupção são determinados pela lei da semelhança, semelhantes se

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atraem, opostos se repulsam, pelas qualidades individuais que sejam comuns, excluindo os que tenham qualidades anticorrupção.

Dependem também dos fatores circunstanciais que favoreçam a corrupção. "Os efeitos destes encontros sobre elementos bem determinados, em condições determinadas, tornam-se necessários e fundam a ordem das "leis". Da mesma forma, no nascimento "a organização precisa de princípios de ordem que intervenham através das interações que a constituem" e "a ordem só desabrocha quando a organização cria o seu próprio determinismo e o faz reinar no seu meio". A ordem é dada pelas regras ou leis de funcionamento do grupo. De modo semelhante ao nascimento de sistemas na natureza, "as condições não obedecem às leis, mais precisamente, condicionam-nas", as condições determinantes da corrupção não obedecem às leis de funcionamento da corrupção, mas as condicionam. Parece haver uma confusão a este respeito quando os funcionalistas analisaram a corrupção para concluir ser um fator necessário ao desenvolvimento econômico e ao bem-estar social, sendo o contrário, o desenvolvimento e o bem-estar condicionam o aparecimento da corrupção, pois sem desenvolvimento não há obras pelas quais receber propinas, que é o fator determinante, e sem bem-estar social não haverá a aparente tolerância com o ilícito.

"A organização dura em função da possibilidade de interação entre os elementos constituintes". Da mesma forma, na corrupção "a organização e a ordem que lhe é aferente constituem um princípio de seleção que diminui as ocorrências possíveis de desordem, ou de sua desorganização, aumenta no espaço e no tempo as suas possibilidades de sobrevivência e/ou desenvolvimento". Deste modo, os elementos participantes entre os quais será distribuída a propina são selecionados de forma a garantir a sobrevivência do esquema, e, "desordem", significando desintegração, agregam-se elementos que possam garantir impunidade e leis que desobstruam os antagonismos à corrupção.

10.3.17 O que permite aplicar em acordos tácitos

"Não basta associar inter-relação e totalidade, é preciso ligar à organização e o combate à corrupção necessita atuar nestas três noções indissociáveis, totalidade, inter-relações e organização". Cada elemento que se inscreveu na política para fins de corrupção tem uma noção intuitiva deste sistema em sua totalidade, noção que aperfeiçoa no exercício político ao mesmo tempo em que, por retroalimentação, faz evoluir o sistema da corrupção em sua totalidade.

10.3.18 Corrupção e acordo tácito: estrutura- estruturante

Surgindo um acordo tácito cada agente assume seus papéis seguindo a funcionalidade já construída e construindo novas regras de acordo com as necessidades pró-corrupção criadas pelo sistema. A prática da corrupção depende da estrutura em que a corrupção seja resultado funcional, funcionalidade percebida, internalizada e jamais verbalizada, não se conhecendo análises do psiquismo de corruptos para se verificar se há

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conscientização de se estar praticando um ato ilícito no momento em que o pratica. Este hábito de corrupção não é criado "no conjunto do mundo cotidiano da sociedade", como quis Bourdieu, mas criado na funcionalidade dos subconjuntos da sociedade que se articularam para a prática dos ilícitos e do crime. Ao explicar o conceito de habitus, Filgueiras retorna à psicologia do aprendizado na construção individual dos modos de perceber, de pensar e de sentir que levam os atores a agirem de uma maneira, em uma circunstância dada". "Essas disposições para a ação, como circunscreve Bourdieu em relação ao conceito de habitus, são produtos de uma aprendizagem social, flexível e plástica, porquanto constituem o modo de valorizar e julgar o mundo". Isto traduz o ser conduzido por um sistema de significações, normas e valores derivado da Cultura onde

se insere.

Também, ao contrário do que diz Bordieu, estas disposições para a ação do ilícito de corrupção dependem da conscientização de que nada pode ser verbalizado: a verbalização expõe a intenção. Todo aquele que percebe a funcionalidade de uma estrutura pró- corrupção e a verbaliza não é aceito como cúmplice, dado ao fato de que pode facilmente dar a todos o conhecimento do verdadeiro objetivo do grupo voltado ao ilícito. Entretanto, deve-se apoiar em Bourdieu para afirmar que este habitus para o ilícito da corrupção "é estruturado e estruturante, visto que são disposições interiorizadas pelos indivíduos, no plano da estrutura, e geradoras de práticas e representações coletivas, no plano da estruturação" (Ver O mecanismo de acordos tácitos) e esta característica faz o sistema evoluir e aperfeiçoar sem que se possa dizer quem introduziu as modificações necessárias para sua manutenção e perpetuação. Contrariamente, no entanto, o habitus depende de uma consciência ou de um cálculo racional dos fins, embora a nível individual e colocado diante do agente com o qual se faz parceria para o ilícito de forma implícita, nunca ou quase nunca explícita, de modo que o parceiro, aja de acordo por perceber direção que ambos querem tomar. É racional quando se perceber que a Razão humana é produto da internalização de uma "razão", Logos, que rege a Realidade em seu devir.

O acordo tácito acompanha a evolução estruturada-estruturante da corrupção, em anel de

circularidade: o acordo tácito estrutura a corrupção e a corrupção estrutura o acordo tácito.

Daí não se pode valer da percepção de um momento, mas sim da continuidade histórica do processo de corrupção.

10.3.19 Retroalimentação e evolução do sistema

Morin faz uma analogia da evolução do sistema por retroalimentação com a consciência, "dotada de potencialidades organizativas, capazes de retroagir sobre o próprio ser, de modificá-lo e desenvolvê-lo", em uma retroatividade organizacional, em que as consequências do que se faz retroage transformando aquilo que as produziu. O sistema pró-corrupção é um jogo entre consciências com a Intenção de ilícito e, assim, cada consciência, ao atuar por sua vez, altera o sistema para o reorganizar diante de uma solução antagônica que prejudique a obtenção do objetivo. O sistema da corrupção pode ter evoluído da obrigatoriedade de pagamento de propina, que por sua proibição gera a solicitação e a oferta de propina. Contudo, quem solicita tem consigo o controle da situação e quem oferta obtém maior controle sobre o quanto se dá e o que se recebe em

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troca. No jogo de interesses mútuos, teria havido então a evolução para a oferta e

execução de serviços desnecessários, com discursos políticos criando sua necessidade, e então, para a manipulação aberta das medidas provisórias e emendas às leis de forma a beneficiarem o sistema de corrupção. Foi necessário, no entanto, que todos os políticos

se omitissem coniventemente e fizessem o teatro da anticorrupção, com medidas sem consequências práticas, como denuncias em campanhas eleitorais.

10.3.19.1 Anulação da lei de licitações

Um Estado, por seus governantes, tem o dever de combater a corrupção, e, assim, o governante tem o dever de conhecer o processo de corrupção em suas minúcias, tornando-

se capaz de evitar a edição de leis que a facilitem. É inadmissível um governante gastar

bilhões em propaganda durante seu governo, apregoando sempre estar combatendo a corrupção e ao mesmo tempo legislar anulando uma lei que se mostrou efetiva, sem a revogar, mas impondo exceções a ela. Não se trata de omissão ou negligência, mas de dar

continuidade a um processo de facilitação da corrupção, sendo responsáveis todos os envolvidos na elaboração de medidas provisórias que culminaram na anulação sem revogação de uma lei anticorrupção.

10.3.20 Desorganização e reorganização

O sistema pró-corrupção está ativo e se reorganiza a cada tentativa da sociedade de o

desorganizar.

10.3.20.1 Forças antagônicas à corrupção e sua anulação

A cada surto de corrupção em se tomando medidas apuradoras e punitivas, bem como

elaboração de leis anticorrupção, o sistema pró-corrupção se aperfeiçoa pela tomada de medidas contra as soluções que o antagonizam e procuram sua desorganização. Pela teoria dos sistemas, "a única possibilidade de lutar contra o efeito desintegrador dos antagonismos é ativa; por exemplo,

a) Integrar e utilizar o mais possível os antagonismos de modo organizacional;

b) Renovar a energia indo buscá-la ao meio, e regenerar a organização;

c) Autodefender-se de modo eficaz contra as agressões externas e corrigir as desordens internas;

d) Auto multiplicar-se de modo que a taxa de reprodução ultrapasse a taxa de desintegração".

Deste modo, a corrupção institucionalizada e tornada instrumento político aperfeiçoou-se gradativamente de 1991 até os dias atuais, repetindo,

Primeiro, de um governante que sabia de tudo, Collor, para um governante que sabia, mas podia afirmar "eu não sei de nada", Lula, chegando ao governante que se pensa inimputável por não saber de nada e não se encontram provas diretas de que saiba de alguma coisa. Este "não saber de nada" depende de o sistema conter um acordo de

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omissão e conivência que faça todos acreditarem que não se sabe de nada, fazendo de conta que não existe mecanismo de fiscalização e controle ou ajudando a o anular;

Segundo, as denúncias de corrupção na Petrobras e fundos de pensão geraram a Lei das

Licitações que foi anulada por medidas provisórias, sem a revogar, e todos os políticos se

silenciaram;

Terceiro, as poucas recomendações da CPI do orçamento que foram implementadas foram anuladas por medida provisória criando o Acordo de Leniência, em que as empreiteiras se livram de processos mediante o pagamento de uma taxa de devolução do que subtraíram aos cofres públicos, criando o paradoxo de que as empreiteiras não podem quebrar, mas a estatal e o Estado podem;

Quarto, a Lei de Improbidade para punir agentes públicos envolvidos em corrupção mostrou-se inócua, por não se ter criado mecanismos que tornem a "materialidade dos fatos" dada por palavras, gestos e escritos, em real materialidade dos fatos, ou seja, mecanismos que os transformem em provas iniciais para qualquer denúncia judicial;

Quinto, assiste-se no momento a apresentação de inúmeros projetos de lei que procura anular as consequências da Operação Lava Jato, dar foro privilegiado a ex-presidentes, etc. [PCCEAC]

Sexto, há em andamento um processo de transformação cultural em que a corrupção é privilegiada como necessária e são valorizados aforismas como “os fins justificam os meios”, a delinquência e a relativização da moralidade e do direito.

Não há previsão constitucional de que o legislador não possa legislar a favor da corrupção

e dos corruptos. Este fator sistêmico de impor-se aos mecanismos anticorrupção está claro nas organizações mafiosas, de forma preventiva, com a Lei do Silêncio e as punições consequentes. A Lei do Silêncio não diz apenas não falar, mas também não ver e não ouvir, eliminando aqueles elementos que desrespeitem as regras de manutenção da organização. É meio estúpida a situação atual em que as organizações criminosas podem instituir normas que procuram anular todos e quaisquer movimentos (desde elaboração

de leis até delações) que antagonizam suas atividades, ao lado de Estado que permite que

legisladores proponham, e aprovem, leis que favorecem a corrupção e outros ilícitos.

O sistema pró-corrupção está inserido no sistema da sociedade como um todo, estando

organizado e organizando-se diante das soluções que a sociedade tome para o desorganizar. Assim, sendo o sistema pró-corrupção constituído de elementos portadores de sistema mental, de consciência, as soluções que o reorganizam não se dão aleatoriamente a la doutrina darwianiana da evolução. As soluções que reorganizam o sistema pró-corrupção são dadas por consciências que dele participam, da mesma forma como as medidas desintegradoras são tomadas por consciências anticorrupção. Deste

modo, todo elemento, indivíduo ou regra, que se torne contrário à corrupção é eliminado,

e o processo caminha permitindo que surjam outras emergências de corrupção. Não é

necessário um longo tempo para que surjam os indícios de corrupção a partir das leis facilitadores, já estão surgindo as provas de que houve corrupção nas obras dos estádios que se tinha pressa de construir para a Copa de 2014.

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De um lado: o sistema pró-corrupção reorganizou-se diante de medidas que traziam o risco de o desintegrar, e uma consciência, um indivíduo interessado na manutenção da corrupção, articulou a elaboração de medidas provisórias que anularam o risco. De outro lado: o sistema político e judicial calou-se diante da anulação da lei de licitações e todos os indivíduos que compõem estes dois sistemas pensam poder dizer "eu não percebi", "eu não sei", e isto já é manifestação do acordo tácito existente de omissão e conivência: todos os homens públicos, de todos os poderes constituídos, estão prontos a dizer publicamente que sempre atuaram contra a corrupção. O fato de que não se pode fugir é que o sistema pró-corrupção é invisível apenas àqueles que não estão efetivamente preocupados em criar mecanismos que controlem a corrupção. Pode-se dizer que o sistema social, aquele que rege a sociedade, representado nos três poderes constituídos, está atuando a favor da corrupção, pela manutenção de salários de príncipes e outros privilégios, e pelo direito de receber propina para fazer andar a máquina administrativa a favor de quem a pague.

Em conclusão, todo autor de projeto de lei, medida provisória ou decreto presidencial que favoreça a corrupção é coautor do sistema pró-corrupção em vigor, e deve ser punido, inclusive com a perda vitalícia de direitos políticos.

10.3.20.2 O que combate corrupção a organiza

"Todo o sistema apresenta uma face diurna emersa, que é associativa, organizacional, funcional, e uma face de sombra, imersa, virtual, que é o negativo da outra. Há antagonismo latente entre o que é atualizado e o que é virtualizado. A solidariedade manifestada no seio do sistema e a funcionalidade da sua organização criam e dissimulam ao mesmo tempo este antagonismo portador duma potencialidade de desorganização e desintegração". É desta forma que se pode ver governantes e políticos corruptos discursando estarem envidando todos os esforços contra a corrupção enquanto a deixam fluir impunemente. As leis anticorrupção que são elaboradas funcionam ao mesmo tempo como alerta aos mantenedores do sistema pró-corrupção dos pontos em que este falha, aprimorando-o com novas propostas. É desde modo que a Lei de Improbidade administrativa fez recrudescer o pedido de provas concretas a cada denúncia, com a omissão e conivência de todos, os quais se utilizam de falácias: as denúncias necessitam de indícios de ilícito e não de provas. Seria suficiente a denúncia de um agente público que ajude a digitar um documento em que se incluam medidas pró-corrupção para que medidas corretivas, quiçá judiciais, fossem tomadas.

"Podemos, portanto, enunciar o princípio de antagonismo sistêmico: a unidade complexa do sistema cria e ao mesmo tempo rejeita o antagonismo. deste modo qualquer pensamento contrário é anulado de imediato, antes mesmo de ser conscientizado, entrando em atuação fatores de dinâmica de grupo".

Assim, o sistema pró-corrupção tem como necessário denunciar a corrupção em discursos

e tomar cuidados para que não se criem soluções efetivas contra a corrupção. Há, no