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RESENHAS 591

estudos de gênero e sexualidade, Scientifique (CNRS) e professora


como Michel Foucault, Judith Butler na Universidade de Paris Ouest
e Teresa de Lauretis. Paralelamente, Nanterre la Défense e no Museu
transita com facilidade pelo enorme do Quai Branly, também em Paris.
corpus de pesquisa acumulado no Ela trabalha há mais de 20 anos em
campo da antropologia urbana bra- Portugal, investigando os conflitos
sileira, em áreas como sexualidade, e as políticas em torno da gestão da
carreira, envelhecimento e emo- água e buscando considerar estes
ções. Nesse intenso diálogo, Bispo últimos a partir dos processos e
constrói criativas categorias, como das interfaces que articulam suas
performance de superfêmea, juízo dimensões locais, nacionais e glo-
da fama e imaginação grotesca, que bais. É no contexto de tal trajetória
prometem rendimentos importantes que emerge a obra em questão, fruto
se usadas e discutidas junto a in- de uma colaboração de Wateau com
formações provenientes de outros o Instituto de Ciências Sociais da
investimentos etnográficos. Universidade de Lisboa – órgão que
é responsável também pela publica-
DOI http://dx.doi.org/10.1590/1678-49442016v22n2p591
ção do livro. Aí, ela examina como a
WATEAU, Fabienne. 2014. “Que-
construção da barragem de Alqueva
rem fazer um mar...”. Ensaio sobre
– realizada na virada deste século,
a barragem de Alqueva e a aldeia
no rio Minho, em Portugal – levou
submersa da Luz. Lisboa: Imprensa
ao alagamento e à reconstrução,
de Ciências Sociais. 184pp.
num outro lugar, de uma pequena
aldeia de camponeses.
André Dumans Guedes Para o exame desta situação, a
Universidade Federal Fluminense, Niterói/ autora dividiu o livro em seis partes,
RJ, Brasil cada uma delas se desenvolvendo a
partir de um registro narrativo dis-
Pensado à luz dos debates tinto. Esta diversidade é tematizada
políticos e acadêmicos relativos às já no prefácio, cujo título – “Escrita
barragens no Brasil, “Querem fazer e Antropologia” – sinaliza a preocu-
um mar”, livro da pesquisadora pação de Wateau em fazer do livro
francesa Fabienne Wateau, oferece “uma empresa experimental, uma
certamente um desvio de perspectiva outra forma de escrever antropolo-
interessante. É esta chave compa- gia” (:21). Pode-se argumentar que
rativa, portanto, o que orienta esta nesta disciplina tais esforços experi-
resenha. mentais não são tão incomuns como
Wateau é pesquisadora do sugerido. De qualquer forma, no que
Centre National de la Recherche diz respeito ao tema das barragens,
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esforços dessa natureza são sim uma este o maior lago de barragens exis-
raridade, como veremos a seguir. tente na Europa).
A “Introdução”, segunda parte Em toda esta introdução preva-
do livro, se inicia com uma breve lece o que poderíamos chamar de um
história dos efeitos sociais e ambien- olhar sociológico, que privilegia uma
tais ocasionados pelas barragens ao análise relativamente abstrata das
longo do século XX. O caráter pano- dinâmicas econômicas, políticas e so-
râmico desta discussão se justifica ciais em torno da barragem. A autora
pela intenção da autora de contrapor investe deliberadamente neste olhar
a “universalidade” de tais empre- distanciado também com o objetivo
endimentos (e dos conflitos por eles de radicalizar o contraste entre ele e
produzidos) à “singularidade” (:23) o registro prevalecente nas páginas
do que se passou em Alqueva – e a seguintes. Ela nos convida então para
discussão deste caso responde pelas “mudar de escala”, para que possa-
páginas restantes dessa introdução. mos “conhecer o ponto de vista dos
Para Wateau, essa “singularida- habitantes” (:53) da aldeia afetada.
de” evoca sobretudo o que Mauss É na seção seguinte – “Querem
chamou de cores e sabores locais, fazer um mar. Teatro” – que se
ou seja, os traços e as dinâmicas evidenciam os experimentos formais
constituintes dos grupos e das si- anteriormente evocados. Wateau
tuações que são objeto de interesse afirma se inspirar n’As Lanças do
do etnógrafo. Da nossa perspectiva, Crepúsculo, de Philippe Descola, e
porém, há outra possibilidade, mais no Aramis, de Bruno Latour, para
fecunda, de conceber a “singularida- construir um relato híbrido: no seu
de” deste caso: pela ênfase no fato de caso, os dados etnográficos serão
que este empreendimento foi cons- apresentados na forma de uma peça
truído na Europa, num momento em teatral em três atos. Os objetivos
que a “contestação antibarragens” declarados de tal procedimento são
(:55) já havia deixado marcas indelé- “deixar a palavra às pessoas” e, ao
veis no cenário político e intelectual mesmo tempo, “contar uma mesma
deste continente. A própria Wateau história a partir de vários pontos de
reconhece, en passant, que o con- vista, de vários interlocutores” (:18)
texto que estudou é bastante diverso – aí se fazendo presente também a
daquelas situações presentes na influência da antropologia america-
literatura internacional sobre barra- na pós-moderna dos anos 80.
gens, envolvendo sobretudo países Arrisco-me a dizer, porém, que
do Terceiro Mundo e deslocamentos são outras as razões que fazem este
populacionais muito maiores (não projeto experimental bem sucedido
chegam a 400 os reassentados pelo e relevante. Em primeiro lugar, há a
projeto de Alqueva, mesmo sendo questão do excesso de informação
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(ou “dados”) com que se depara o de comunicação, levada adiante por


pesquisador em campo, e o correlato uma infinidade de agentes. Ao invés
problema de sua apresentação. Ain- de ignorar, não reconhecer ou se dei-
da que não explore a fundo este pon- xar confundir por essa profusão de
to, Wateau parece de alguma forma discursos e meios, Wateau consegue
ciente dele, até mesmo porque inicia se servir dela a seu favor. Ela constrói
seu livro se perguntando: “Como então cada cena de sua peça de tea-
dar a conhecer a história de uma tro a partir de imagens disponíveis,
barragem, de uma aldeia [...] de um registradas em vídeo por ela ou por
projecto que levou mais de 80 anos a terceiros. Produzindo antropologia a
ser realizado? Como sintetizar e dar partir destes materiais, o trabalho da
coerência a 15 anos de frequência autora estimula a reflexão sobre ou-
muito regular do terreno [...]?” (:17). tro ponto nevrálgico (também entre
Que o problema se coloque de forma nós pouco trabalhado) da discussão
equivalente em outros campos de a respeito das barragens: justamente
estudo, isto não nos interessa aqui. aquele que diz respeito ao funciona-
O ponto a ser destacado é o modo mento das ciências sociais atuando e
como tal “excesso” se faz presente sendo produzidas nestes contextos.
para o estudioso das barragens, e Na seção seguinte àquela em
a forma como é por ele trabalhado. que nos é apresentada a peça de
É aí que está a principal qualidade teatro – “Retratos atualizados dos
do livro, e onde reside seu potencial personagens” – Wateau nos conta so-
interesse para o debate acadêmico bre a situação atual das pessoas que
brasileiro sobre o tema – no qual a aparecem no filme, dez anos após
preocupação com o trabalho político as filmagens e ao processo de relo-
de denúncia e visibilização parece cação. Manifesta-se aí com especial
desestimular o reconhecimento dos significado aquela “singularidade”
desafios epistemológicos, metodo- de que falávamos anteriormente.
lógicos e etnográficos colocados por Há sim algo de “universal” (:150)
situações tão complexas e multiface- nos sofrimentos e nas dificuldades
tadas como essas. enfrentados por aqueles obrigados
Pois a autora deixa evidente, a abandonar suas casas e aldeia;
em inúmeras passagens, a “enorme muitos adoecem de tristeza, e as
mediatização” (:18) caracterizando o promessas de desenvolvimento e
universo estudado – e com este termo emprego se revelam quase sempre,
ela evoca não meramente o trabalho como em todo canto, um logro. O que
da imprensa, mas a gigantesca pro- há de raro e inusitado na barragem
dução de signos (textos, imagens, de Alqueva, no cotejo com outros ca-
vídeos, documentos das mais diver- sos, é o modo relativamente respei-
sos ordens etc.), em quaisquer meios toso com que a população é tratada,
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e a atenção com que é construída a geral” organizando a peça de teatro


nova aldeia. A autora sinaliza que e seus “três grandes temas” (:125):
este é, provavelmente, o último pro- o deslocamento compulsório da
jeto desta natureza construído em população e a construção da nova
solo europeu. Sua afirmativa de que aldeia; as políticas de gestão da água
uma barragem não corresponde “a na escala nacional e internacional,
uma infraestrutura ideologicamente sobretudo no que diz respeito a
aceitável nos nossos dias” (:41) deve projetos de irrigação (a despeito de
então ser mais bem situada: tais in- sua discussão neste trecho do livro,
fraestruturas não são aceitáveis na este é um tema que pouco aparece
Europa; e se não são aceitáveis ali é anteriormente); e a difusão de me-
porque o são alhures. A quase óbvia canismos de participação pública no
conclusão a ser tirada deste ponto processo de construção da barragem
não está presente no livro (no que e definição do destino dos atingidos.
não podemos criticar tanto a autora; Por fim, a “Conclusão” retoma
é esta resenha que está orientada por a preocupação de Wateau com as
um viés comparativo). Como bem representações e os discursos sobre o
evidenciam conceitos como o de empreendimento. Uma primeira mi-
“racismo ambiental”, as consequên- rada diacrônica havia sido oferecida
cias negativas de empreendimentos pelos “retratos atualizados” dos per-
como as barragens tendem a repro- sonagens; já nestas últimas páginas,
duzir os padrões de desigualdade já as transformações são apresentadas
existentes, atingindo especialmente via um apanhado das notícias de
minorias, grupos subalternos ou – no jornais relativas a Alqueva desde o
plano internacional – países do sul. término de sua construção até 2013.
Se estas barragens são cada vez mais O livro de Wateau pode parecer
raras na Europa é também porque, ingênuo para os que advogam o im-
a partir dos anos 70 e justamente perativo de uma perspectiva crítica,
em função da consciência crescente que argumentariam então que o caso
de seus malefícios, estes projetos considerado é pouco representativo
passaram então a ser exportados – e por isso desinteressante. Por outro
juntamente com as indústrias sujas e lado, este obra se abre para preocu-
eletrointensivas que os acompanham pações e inovações formais e meto-
– para o Terceiro Mundo. dológicas inusuais, também por isso
Na seção seguinte, “A partir bem vindas. Diante destas constata-
dos bastidores”, temos mais uma ções, resta a questão de saber até que
mudança de escala, que nos aproxi- ponto, ou como, seremos capazes,
ma novamente daquele olhar mais nos debates sobre as barragens, de
distanciado e sociológico. Somos conciliar aquela perspectiva crítica
informados deste “contexto mais com essas preocupações e inovações.