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HISTÓRIA MODERNA:

DA TRANSIÇÃO DO
FEUDALISMO ÀS REFORMAS
RELIGIOSAS

KAREN FERNANDA DA SILVA BORTOLOTI

1ª edição
SESES
rio de janeiro  2017
Conselho editorial  roberto paes e luciana varga

Autor do original  karen fernanda da silva bortoloti

Projeto editorial  roberto paes

Coordenação de produção  luciana varga, paula r. de a. machado e aline karina


rabello

Projeto gráfico  paulo vitor bastos

Diagramação  allan gadelha

Revisão linguística  katia souza

Revisão de conteúdo  fábio afonso frizzo de moraes lima

Imagem de capa  inu | shutterstock.com

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)

B739h Bortoloti, Karen Fernanda da Silva


História moderna: da transição do feudalismo às reformas religiosas.
/ Karen Fernanda da Silva Bortoloti.
Rio de Janeiro: SESES, 2017.
136 p.: il.

iISBN 978-85-5548-445-2

1.Idade moderna. 2. Renascimento. 3. Reforma religiosa.


4.Capitalismo. I. SESES. II. Estácio.
CDD 981

Diretoria de Ensino — Fábrica de Conhecimento


Rua do Bispo, 83, bloco F, Campus João Uchôa
Rio Comprido — Rio de Janeiro — rj — cep 20261-063
Sumário

Prefácio 7

1. Problemas de história moderna 9


Nascimento da Modernidade 10

Periodização 19

Mercantilismo: aspectos do processo de transição 22

Transição do Feudalismo para o Capitalismo 27

Condições da centralização política 32

2. Renascimento 37
O Renascimento 38

Antiguidade clássica: a inspiração 41

O Humanismo 43

Pensando o Renascimento 46

Renascimento na Itália 49

Expansão do Renascimento 52

Renascimento artístico 55

Renascimento e educação 57

As ciências avançam 58

3. Novos e velhos mundos, novos e velhos impérios 61


Expansão: a única saída 62

O pioneirismo português 66
Império no oriente 72

A hora da espanha 73

Conflitos entre Portugal e Espanha 75

Império otomano 76

Expansão francesa 77

Expansão Inglesa 78

Expansão holandesa 79

O desenvolvimento comercial e artesanal 79

Capitalismo comercial 81

4. Reformas: religiãoe ideias 85


A crise 86

Pensando o movimento 90

Pré-reforma 92

A reforma 95

Martinho Lutero 96

Lutero e a educação 100

João Calvino e a predestinação 101

Anglicanismo: a reforma na Inglaterra 102

igreja católica reage 104

5. O estado absolutista 113


Pensando alguns conceitos 114

Antigo regime 115

A sociedade de corte 116


Justificativa teórica 119

O Absolutismo 120

Absolutismo na França 123

Absolutismo na Inglaterra 126

Portugal e Espanha 128

Absolutismo e cultura 129


Prefácio

Prezados(as) alunos(as),

Este livro é o texto básico elaborado para a disciplina “História Moderna: da


transformação do feudalismo às reformas religiosas”; nele você encontrará o con-
teúdo que será discutido na disciplina.
Ao longo deste livro você irá se familiarizar com as diferentes interpretações
históricas sobre o período. Você estudará, a partir de uma historiografia multi-
facetada e pluridisciplinar, alguns conteúdos relevantes desse período histórico.
Recorreremos à historiografia dita clássica e às novas tendências das pesquisas de
cunho histórico, privilegiando a análise reflexiva e crítica.
Um dos objetivos deste livro é romper com as interpretações tradicionais, de
cunho puramente factível e de memorização; seguindo o apontado pelos historia-
dores partidários da Escola dos Annales, buscaremos compreender os processos
históricos e não apenas os fatos isolados.
Além desta ruptura, traçaremos um panorama histórico dos tempos moder-
nos, analisando seus conteúdos de forma crítica e consciente, observando que os
processos históricos transcorridos nesse período influenciaram significativamente
a história da humanidade.
Deste modo, buscaremos chegar a um conceito de História Moderna.
Analisaremos a relação entre os principais temas da História Moderna e procura-
remos mostrar que Renascimento, Reformas religiosas e Expansão ultramarina são
processos que ocorrem simultaneamente e estão relacionados.
Iniciaremos nossas reflexões analisando a discussão a respeito da periodização
do que se convencionou denominar Idade Moderna, depois partiremos para o
estudo do Capitalismo comercial; a seguir, veremos o Renascimento cultural da
época moderna, as Reformas religiosas e, também, a Formação das monarquias
nacionais absolutistas.
Portanto, verificaremos a formação do Estado Moderno e seu poder absoluto.
Conheceremos um “novo mundo” através das viagens marítimas. Veremos como
novas religiões desbancam a supremacia da Igreja Católica. E, finalmente, apreen-
deremos a mudança de visão de mundo ensejada pelo Renascimento.
Acredito que, ao finalizar a leitura deste livro, você terá um panorama do que foi
a chamada Idade Moderna e poderá escolher qual modelo interpretativo lhe agrada.

Bons estudos!

7
1
Problemas de
história moderna
Problemas de história moderna
Neste primeiro capítulo do livro História moderna: da transição do feuda-
lismo às reformas religiosas, vamos entrar em contato com a discussão historio-
gráfica, por meio de reflexões sobre o que é e qual é o recorte cronológico que
delimita a chamada Idade Moderna e as ponderações a respeito da transição do
feudalismo para o capitalismo. Ao longo de nossa análise, estudaremos o que foi
o Mercantilismo, fundamental para compreendermos a transição do modo de
produção feudal para o modo de produção capitalista e, também, os primeiros
passos do processo de centralização política, que culminou na estruturação dos
Estados nacionais.

OBJETIVOS
• Analisar a transição da Idade Média para a Idade Moderna;
• Refletir sobre o problema da periodização da Idade Moderna;
• Compreender o debate existente sobre os fatores que propiciaram a passagem do
modo de produção feudal para o modo de produção capitalista.

Nascimento da Modernidade

Podemos, ou como preferem alguns historiadores, devemos analisar o iní-


cio de um período histórico a partir de seus antecedentes temporais; assim, para
compreendermos o chamado período moderno, a História moderna, é imperativo
compreendermos o ocaso do sistema feudal, mais exatamente a Baixa Idade Média.
Atualmente a historiografia já esclareceu em diversos aspectos que a Idade
Média não foi um longo período de trevas, ignorância, medo e dogmatismo
como afirmavam os renascentistas, mas o período de gestação da sociedade
moderna; uma sociedade moribunda sob suas formas camponesas, porém viva
pelo que elaborou de essencial para nossas estruturas sociais e, também, mentais
(SOUZA, 2005).
A chamada Baixa Idade Média pode ser caracterizada como um momento
de transformação no sistema feudal, pois foi marcada pela redução das invasões
dos chamados bárbaros, fato que favoreceu a estabilidade social em virtude da
diminuição de disputas com esses invasores. Além da estabilidade, ocorreu uma

capítulo 1 • 10
significativa melhora das condições de saúde com a diminuição das epidemias e o
número de nascimentos começou a ultrapassar o de mortes, favorecendo o cresci-
mento populacional e, consequentemente, ampliando a necessidade por alimentos.
A maior demanda por alimentos impulsionou a ampliação das áreas de plantio
e o aperfeiçoamento técnico do cultivo para aumentar a produtividade.

Ajuda a explicar o crescimento populacional dos séculos X-XIII o surgimento ou


difusão de uma série de inovações nas técnicas agrícolas. Na verdade, discute-se
qual teria sido o elemento a desencadear o processo: o crescimento populacional,
pressionando por maior produção, levou ao progresso técnico, ou, ao contrário, foi o
progresso técnico que possibilitou a expansão demográfica? A primeira tese foi de-
fendida, dentre outros, por David Herlihy (22: 1958, 23) e a segunda, por estudiosos
como Georges Duby (43:1, 211). De qualquer forma, dentre os aperfeiçoamentos
técnicos da época, três exerceram uma ação direta sobre a elevação da produtivi-
dade agrícola: a nova atrelagem dos animais, a charrua pesada e o sistema trienal
(FRANCO JR, 2001 p. 33).

Todavia, mesmo este movimento no sentido de ampliar a produção não foi


suficiente para suprir a necessidade crescente dos feudos que eram obrigados a par-
ticipar do processo de circulação de mercadorias já comercializadas nas pequenas
feiras que se formam ao redor destes espaços. O crescimento populacional acabou
por se revelar excessivamente elevado para as condições europeias do período es-
pecialmente porque, durante o apogeu daquele fenômeno, tinham sido ocupadas
terras de menor fertilidade, que se exauriam em poucos anos, baixando a produti-
vidade média e desestabilizando o frágil equilíbrio produção-consumo (FRANCO
JR, 2001). Este processo, sem dúvida, fortaleceu o crescente mercado consumidor.
Como os tempos eram de mudança e busca de soluções para os problemas
emergentes, este processo foi muito conflituoso ao estremecer a principal rela-
ção existente durante a Idade Média, a do senhor feudal com os servos. É fácil
compreender o conflito quando observamos que, para atender as necessidades do
momento, os senhores feudais exigiram mais dos servos e estes, impossibilitados
de atender às novas exigências, foram compelidos a deixar as terras, que até então
lhes garantiam sustento e proteção. Era o início do processo de ruptura do sus-
tentáculo da economia feudal, o trabalho servil.
Simultaneamente, para impedir a fragmentação de seu poder e garantir a he-
gemonia feudal, os senhores feudais começaram a deixar os feudos como herança

capítulo 1 • 11
apenas para o primogênito, excluindo os outros filhos que, como os servos, perdiam
proteção e sustento. Os filhos mais novos eram obrigados a procurar outros meios
de sobrevivência como um casamento vantajoso, o sequestro de grandes senhores
para cobrar resgate ou, simplesmente, o assalto nas estradas. Essas conjunturas acen-
tuavam o clima de disputa entre os nobres cavaleiros que, durante esse período, efe-
tuavam torneios e combates que transformavam os campos em verdadeiras arenas.

Com o tempo, as relações feudais – que tinham alcance muito geral – passaram a ca-
racterizar relações sociais específicas de determinadas categorias sociais, apesar das
enormes diferenças que existiam entre eles. O feudo de um duque não era o mesmo
de um pintor ou ourives, do mesmo modo que, hoje, o salário de um operário não é
a mesma coisa que a renda do diretor da empesa. Entretanto, o uso mais frequente
da palavra feudo era aplicado a propriedades mais importantes, onde as relações de
vassalagem e servidão, com toda a sua carga de serviços obrigatórios e subordinação
ao senhor, ocorria na sua forma mais “pura” (MICELI, 1986, p.37).

Procurando solucionar essa situação com vistas ao restabelecimento da paz


social, a Igreja proclamou o movimento conhecido por Paz de Deus, ou seja, a
proteção aos lavradores, viajantes e mulheres. Os combates, sob pena de exco-
munhão, passaram a ser limitados a noventas dias por ano, proibidos em dias de
festas, e os guerreiros foram pressionados a jurar sobre relíquias que respeitariam
as igrejas, os membros do clero e os bens dos humildes. Esta medida auxiliou na
regulamentação destes torneios e evitou que a produção agrícola fosse prejudicada.
Todavia, cabe destacar que este ambiente povoado por tensões causadas pela
exclusão social melhorou apenas quando os marginalizados foram mobilizados
para as Cruzadas, que eram expedições militares organizadas pela Igreja e pelos
nobres, com o objetivo inicial de recuperar a Terra Santa e, posteriormente, outros
territórios ocupados pelos muçulmanos, como parte da Península Ibérica.

MULTIMÍDIA
Indicação de filme: O sétimo selo (1957, Suécia, Direção: Igmar Bergman). Filme retrata
um pouco da vida na Europa do século XIII, arrasada pela peste negra. Por meio de seus perso-
nagens, o filme apresenta aspectos da religiosidade medieval, especialmente em relação à morte.

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A adesão ao movimento pode ser compreendida porque era, para seus parti-
cipantes, a oportunidade de remissão dos pecados, proteção eclesiástica sobre suas
famílias e bens, suspensão do pagamento de juros. O homem da Idade Média
compreendia o mundo ao seu redor balizado por um ordenamento cósmico espe-
cífico das sociedades chamadas tradicionais, cuja tendência fundamental consiste
em abreviar as partes em uma totalidade orgânica do mundo. O cosmos do medie-
vo organizava-se, necessariamente, em função de uma perspectiva transcendental.

Quem não se ilumina


com o esplendor de todas as
coisas criadas, é cego.

Quem não desperta com tantos


clamores, é surdo.

Quem, com todas essas


coisas, não se põe a louvar
Deus, é mudo.

Quem, a partir
de indícios tão
evidentes, não volta
a mente para o
primeiro princípio,
é tolo.

São Boaventura

A primeira Cruzada ocorreu entre 1096 e 1099 e alcançou algum sucesso ao


conquistar Jerusalém após três anos de lutas, o que permitiu a fundação de alguns
Estados cristãos na Palestina, com a divisão de suas terras da mesma forma que
acontecia na Europa feudal. Todavia, imediatamente depois a Terra Santa foi reto-
mada pelos muçulmanos. Ancorados no relativo sucesso inicial, foram realizadas
mais sete Cruzadas, a última em 1270, mas todas falharam.

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MULTIMÍDIA
Indicação de filme: O incrível exército de Brancaleone (1965, Itália, Direção: Mário
Moricelli). O filme retrata os hábitos dos cavaleiros medievais por meio de uma demolidora e
bem humorada sátira cujo personagem Brancaleone, um cavaleiro muito atrapalhado, lidera
um diminuto exército que vaga pela Europa em busca de um feudo.

EIS QUE SURGE A BURGUESIA


As cidades, mesmo renascendo a partir do desenvolvimento do comércio, muito ligadas
às fortificações estavam vinculadas aos senhores feudais. Os burgos ganharam impulso
com o comércio de mercadorias trazidas do Oriente – produtos exóticos e de luxo, como
especiarias e essências. O Ocidente, por sua vez, exportava tecido, lã, armas e artesanato.

Esses proprietários das terras, onde estavam localizados os burgos, cobravam altas ta-
xas dos moradores que rapidamente buscaram desvencilhar-se destas taxas. Com a ex-
pansão das atividades comerciais, muitos burgos tornaram-se independentes, deixando
de pagar as tributações ao senhor feudal e começaram a arrecadar suas próprias taxas.

Surge, para designar os moradores destes espaços e que se dedicavam ao comércio ou


atividades a ele relacionadas, o termo burguesia.

Assim, o movimento que nasceu especialmente para combater conflitos so-


ciais, promovendo o reenquadramento da sociedade no modelo clerical, coroan-
do a Reforma Gregoriana ao colocar a sociedade cristã sob mando do papado e
favorecer a conquista de novas terras pela nobreza feudal, na verdade acelerou a
dinâmica social e trouxe à tona novos problemas. Primeiramente, o fracasso das
Cruzadas ofuscou muito da autoridade moral do clero, contribuindo para que o
seu poder de intermediação com a Divindade fosse colocado em xeque. A Igreja
perdia o controle sobre o próprio movimento cruzadístico. Em segundo lugar, a
aristocracia laica, em sua maioria, nada ganhou com as Cruzadas.

capítulo 1 • 14
LEITURA
Sugestão de leitura: Umberto Eco, Idade Média. Bárbaros, cristãos e mulçumanos. Um-
berto Eco, em parceria com os mais renomados medievalistas, nos conduz a uma viagem
envolvente e surpreendente através da sociedade, arte, história, literatura, música, filosofia e
ciência deste período intenso da história da civilização europeia.

A GUERRA DOS CEM ANOS

A série de conflitos entre os reis da França e da Inglaterra, pelo domínio territorial e


comercial da Gália e de Flandres, foi denominado pela historiografia de Guerra dos Cem
anos, o grande conflito feudal da Idade Média (FRANCO JR, 2001 p.88). Apesar do
nome, o conflito arrastou-se por mais de cem anos, de 1337 a 1453.

Este conflito, a princípio, foi gerado pelo fato dos alguns senhores feudais serem vassalos,
simultaneamente, do rei francês e do inglês fazendo com que ambos se julgassem no
direito de exercer seu domínio sobre a mesma região. Mas o que deflagrou o conflito foi
a reivindicação que o rei Eduardo III fez para a coroa francesa, porque como único neto de
Felipe, o Belo, achava-se no direito de ocupar o trono. A nobreza francesa, para impedir
a ascensão de Eduardo III, evocava a Lei Sálica, segundo a qual o trono não poderia ser
ocupado por descendentes mulheres ou por descendentes da linhagem feminina.

Com a ascensão de Felipe de Valois ao trono da França, Eduardo III ambicionando impor seus
direitos à força, invadiu o norte da França com o apoio de Flandres, que defendia os interesses
econômicos da região, e a guerra alastrou-se pela França. Plantações foram arrasadas, cam-
poneses massacrados, cavaleiros ingleses lutavam ao lado dos franceses e vice-versa.

Os servos se rebelavam e se recusavam a cumprir as ordens costumeiras, pois não estavam


sendo protegidos. Muitos burgos entravam no conflito não para defender um dos lados, mas
para conquistar a sua autonomia política, com o auxílio, especialmente, de exércitos mer-
cenários, que ganharam notoriedade neste momento. Foi, podemos dizer, o fim de gloriosa
cavalaria medieval e dos castelos circundados por altas muralhas (BLOCH, 1982).

capítulo 1 • 15
Neste momento, começou a surgir na região do conflito, um forte sentimento de na-
cionalismo. Esse nacionalismo, historicamente representado pela lendária figura de
Joana D’Arc, que derrota os ingleses à frente de um pequeno exército, ameaçava a
nobreza, que se via obrigada a reconhecer a autoridade de um poder central, perdendo
muito de seus privilégios. A guerra terminou em 1453 com a vitória francesa.

Apesar do fracasso, o mediterrâneo foi aberto à navegação e os contatos cultu-


rais e comerciais entre o Ocidente e o Oriente foram restabelecidos. Esta aproxi-
mação favoreceu, ainda, a circulação de pessoas e de riquezas na Europa, fortale-
cendo o comércio e estimulando o povoamento das cidades.
Jacques Le Goff (2002) frisou que o processo de afirmação da cidade medieval
entre os séculos X e XIII colaborou para a sistematização de um dos mais pujantes
movimentos de urbanização da Europa. O espaço urbano afirmava-se não ape-
nas como um espaço de circulação de mercadorias, mas como lugar de reflexão
e participação política. Lembrando que os centros urbanos foram despovoados,
transformados parcialmente em simples aldeias com grandes extensões de áreas
rurais até o interior dos muros e não totalmente desarticulados, como considerava
a historiografia tradicional do século XIX.
O reavivamento do comércio e o consequente desenvolvimento monetário,
o crescimento das cidades, a expansão do mercado, o surgimento de uma classe
de comerciantes eram os primeiros sinais da profunda mudança econômica em
curso no mundo medieval. Nasceram outras formas de enriquecimento, como
o crescimento das atividades bancárias e do comércio de diferentes mercadorias,
acendendo, assim, o comércio e a produção para o mercado. Com o desenvolvi-
mento comercial, todo o sistema feudal entrava em crise.

Com o tempo, as relações feudais – que tinham alcance muito geral – passaram a ca-
racterizar relações sociais específicas de determinadas categorias sociais, apesar das
enormes diferenças que existiam entre eles. O feudo de um duque não era o mesmo
de um pintor ou ourives, do mesmo modo que, hoje, o salário de um operário não é
a mesma coisa que a renda do diretor da empesa. Entretanto, o uso mais frequente
da palavra feudo era aplicado a propriedades mais importantes, onde as relações de
vassalagem e servidão, com toda a sua carga de serviços obrigatórios e subordinação
ao senhor, ocorria na sua forma mais “pura” (MICELI, 1986, p.37).

capítulo 1 • 16
AS CORPORAÇÕES DE OFÍCIO
Com a revitalização do comércio e o desenvolvimento das atividades produtivas artesa-
nais, comerciantes e artesãos iniciaram um processo de organização em associações
conhecidas como corporações de ofícios e guildas, destinadas a regulamentar suas ati-
vidades. Gradativamente, estas organizações passaram a controlar o mercado, determi-
nando o preço da matéria-prima e da mão de obra, a estabelecer normas para proteger
os produtores e os consumidores contra fraudes e falsificações.

As corporações organizadas pelos mercadores e artesãos buscavam proteger os in-


teresses de seus membros diante das ameaças dos senhores feudais. Procuravam
compensar a oferta de produtos disponíveis e limitar a concorrência entre os produtos
disponíveis e, assim, diminuir a concorrência entre os produtores. Dominavam, também,
a cunhagem das moedas para evitar a desvalorização.

O crescimento das atividades comerciais, por outro lado, obrigou muitos artesãos a
dependerem de um comerciante para obter matéria-prima e ferramentas para o traba-
lho. Conhecidos como jornaleiros, pois eram contratados por jornada de trabalho, ge-
ralmente mal pagas, cujos valores sofriam com variações do mercado e o desemprego.
Os comerciantes intervinham na produção para obter melhores ganhos, tratando de
comprar a matéria-prima o mais barato possível e pagar pouco pela mão de obra. Esse
novo elemento, o comerciante manufatureiro, vai favorecer o aparecimento da manu-
fatura da época moderna.

Muitos historiadores afirmam que foi a diminuição da população, devido à


peste negra, aliada à escassez de mão de obra, várias rebeliões do povo contra a
fome e as más condições de vida que, consequentemente, atrapalhavam as ativida-
des econômicas, que contribuíram para o ocaso do sistema feudal.
Atrelado a esta verdadeira crise, cabe destacar que com o domínio de
Constantinopla pelos muçulmanos, o comércio entre Europa e Ásia caíra abrup-
tamente, uma vez que nem por terra nem por mar os comerciantes conseguiam
passagem para as rotas que conduziam à Índia e à China, de onde procediam as
especiarias utilizadas para conservar alimentos, além de artigos de luxo, e para
onde se destinavam suas mercadorias mais valiosas.

capítulo 1 • 17
A cidade de Constantinopla, atual Istambul, era depositária da herança
do antigo Império Bizantino, que permaneceu poderoso depois da queda de
Roma; aliando componentes latinos, gregos, orientais e cristãos, a cidade atre-
lava a organização urbana de Roma à arquitetura e arte gregas, com claras
influências orientais.
A civilização bizantina constituiu-se, durante o período medieval europeu,
como o principal sustentáculo da cristandade contra a expansão muçulmana, pre-
servando grande parte dos conhecimentos do mundo antigo. Além de seu vigor
imperial, Constantinopla estava geograficamente bem localizada, entre a Europa
e a Ásia e na rota dos estreitos que favoreciam o comércio entre o mar Negro e o
Mediterrâneo, contribuindo para que a cidade se tornasse, especialmente a partir
do século V, um importante centro político e administrativo do império e um
entreposto comercial entre o Ocidente e o Oriente. Centro de afluência de gente
de todos os cantos do mundo, tratava-se, na verdade, do maior centro financeiro,
mercantil e cultural de toda aquela parte do mundo.
Apesar de seu esplendor, o império bizantino esteve sempre ameaçado por
invasores estrangeiros, envolvido em brigas religiosas e em lutas internas. Em
1453, foi definitivamente conquistado pelos turcos otomanos, o que ocasionou
a desestruturação econômica, a falta de apoio da Igreja e sua regressão territorial
gradual. A crise que já assolava a Europa Medieval, foi, assim, agravada pela
perda deste entreposto.
Os turcos anexaram todas as terras do Império Bizantino e passaram a contro-
lar todas as rotas comerciais impedindo o fluxo de mercadorias para o Ocidente.
Alexandria, São João D’Acre e Constantinopla continuavam a ser portos comer-
ciais movimentados; todavia, o custo das mercadorias era exorbitante. Os merca-
dores precisavam buscar fontes de abastecimento livres do domínio muçulmano
e, também, do monopólio veneziano no Mediterrâneo ou descobrir novos locais
fornecedores para, apenas assim, impulsionarem o comércio.
Este cenário crítico encontrou solução para parte de suas mazelas com a ex-
ploração de outros mercados para o oferecimento de alimentos, cujos campos es-
gotados e doentes não eram capazes de produzir para alimentar toda a população,
produtos para movimentar a engrenagem do comércio, metais preciosos a preços
mais vantajosos, mais consumidores para as mercadorias europeias.

capítulo 1 • 18
Periodização

Uma das características humanas é a compreensão dos acontecimentos pelo


viés da temporalidade. Diferentes culturas, nos mais longínquos tempos, preo-
cuparam-se com o cômputo do tempo. Ferramentas à base de água (clepsidra),
relógio de sol, entre outros, confirmam essa necessidade de registrar o tempo.
Para a História o tempo é um companheiro invencível e essencial, pois não
pode existir, no contexto humano, História sem tempo. Assim, o homem, poste-
riormente o homem historiador, procurou marcar o tempo e fragmentá-lo para
analisar os mais intrínsecos aspectos. Portanto, a História constitui-se de recortes
e continuidades temporais que lhe são imputadas para estabelecer períodos que
facilitem a apreensão e compreensão da dinâmica do ocorrido, do registrado.

CONCEITO
Segundo o dicionário online de Língua Portuguesa, moderno é aquilo que pertence ao
tempo presente ou a uma época relativamente recente; hodierno, atual. Aquilo que é moder-
no ou de acordo com o gosto moderno. Acesse: http://www.dicio.com.br/moderno/

Diante do exposto, é relevante destacar que, sendo a História um processo,


não podemos acreditar que um único acontecimento inaugure ou encerre um de-
terminado período; assim, não temos um consenso a respeito do término da Idade
Média e início da Moderna. A História é composta por rupturas e continuações
temporais que lhe são atribuídas para determinar períodos que facilitem a com-
preensão da dinâmica dos acontecimentos e também do seu registro.
A ideia de modernidade nasce, como destacou Jacques Le Goff (1994), no mo-
mento em que há um sentimento de ruptura com o passado. Assim, um dos pri-
meiros pensadores a utilizar a ideia de modernidade foi Charles Baudelaire, escritor
francês da segunda metade do século XIX, autor da obra As flores do mal, que
pensava a modernidade como as mudanças que iam se operando em seu presente,
utilizando a palavra sobretudo para a análise dos costumes, da arte e da moda.

capítulo 1 • 19
CONEXÃO
Acesse a obra As flores do mal, de Charles Baudelaire, em: https://docente.ifrn.edu.br/
paulomartins/livros-classicos-de-literatura/as-flores-do-mal-de-charles-baudelaire.

Durante a nossa formação escolar, os livros didáticos e os professores, em


grande parte, abordavam o início da Idade Moderna, o período histórico entre os
anos de 1453 e 1789, como algo claro para todos. Usamos comumente o termo
‘moderna’ porque, no momento em que essa delimitação cronológica foi feita,
acreditava-se que a sociedade que vivia na época moderna era mais evoluída, de-
senvolvida, do que a que havia vivido no período imediatamente anterior. Apesar
de atualmente, continuarmos a usar essa periodização, a historiografia não concor-
da mais que a sociedade moderna é mais desenvolvida ou melhor que a medieval.
Como destacam Falcon e Rodrigues (2006), modernos foram os nominalistas
medievais, os humanistas do Renascimento, e aqueles que, no século XVII, trava-
ram formidável batalha contra os antigos. Apenas, gradativamente, as sociedades
ocidentais tomaram consciência da modernidade nascente. Foi posteriormente,
portanto, que elaborou-se a noção de uma História Moderna, distinta enquanto
época histórica daquelas que lhe haviam antecedido.
Durante o Renascimento, intelectuais como Rabelais celebravam os novos
tempos, em que se conhecia o latim, o grego e o hebraico, comparando-o à “bar-
bárie” medieval. Refutavam o obscurantismo medieval em favor de uma religião
mais humanizada e íntima. Thomas Morus, na obra Utopia, proclamava a possi-
bilidade de o homem ser feliz afastado da antiga opressão religiosa. Fortalecia-se a
expressão italiana Modernitá (MICELI, 2013).
Com a reconfiguração política imposta pelo término da Segunda Guerra,
com o processo de descolonização e a elaboração do conceito de Terceiro
Mundo, outra compreensão para o início da modernidade conquistou relevân-
cia. Segundo esta interpretação, a chegada da Idade Moderna teria ocorrido não
no século XVI, com o Renascimento Cultural, mas no final do século XVIII,
com a Revolução Industrial. Para os historiadores que defendiam essa nova pers-
pectiva, profundas alterações na vida social e econômica ocorreram apenas com
o deslocamento da população do campo para as cidades. A modernidade ense-
jada no século XVI ficou restrita às elites intelectuais, à nobreza e à burguesia
(WEHLING; WEHLING, 2000).

capítulo 1 • 20
Em fins do século XX, as pesquisas sobre os séculos finais da Idade Média con-
tribuíram para que alguns historiadores recuassem a modernidade para o século
XV com o argumento de que os elementos fundamentais da transição para a mo-
dernidade já estavam maduros no referido século, tais como o desenvolvimento
do comércio, o reavivamento das vilas e cidades, a centralização monárquica e a
crítica ao cristianismo medieval.
Estas três concepções podem ser tidas como válidas ao analisarmos os argu-
mentos apresentados; todavia, o mais importante é reconhecer que se trata de um
longo processo histórico, no qual se teceu o mundo em que vivemos. Qualquer
recorte cronológico é arbitrário, ou seja, um historiador ou um grupo de historia-
dores, escolhe fatos ou datas que, acredita-se, causaram transformações tão vorazes
na sociedade, capazes o suficiente para determinarem o estabelecimento de uma
nova época. As rupturas devem aqui ser entendidas como convenções artificiais e
passíveis de críticas. Historiadores, em diferentes épocas, já creditaram o fim da
Idade Média à queda de Constantinopla, em 1453, à chegada dos europeus ao
continente americano, em 1492, ou ao início da Reforma Protestante.
Alguns historiadores concordam, outros discordam, e há os que propõem
outros recortes. Podemos observar esta dificuldade de periodização histórica em
Braudel (1997) quando afirma que o milagre, no Ocidente, não está exatamente
em ter articulado uma nova sociedade após a destruição, pois a história está repleta
de idas e vindas seculares, de expansões, nascimentos e renascimentos urbanos.
Em outra perspectiva, Jacques Le Goff, rompe com a periodização estabe-
lecida e propõe nova periodização em decorrência da análise da germinação de
acontecimentos desse período entre os séculos IV ao XVIII. Para o estudioso,
com um intuito um tanto quanto desperiodizador, por exemplo, eventos como a
Peste Bubônica (1720) e a Revolução Francesa (1789) são marcos que podem ser
inseridos no período medieval (SOUZA, 2005).
Baschet (2006), também rompendo com as concepções convencionais, elege
o ano de 1492 como o mais significativo para o Ocidente, uma vez que estabe-
leceu, segundo o autor, a articulação entre o que restava da Idade Média e os
Tempos Modernos, em virtude dos relevantes acontecimentos que o perpassa-
ram, como o a chegada de Colombo às Ilhas Caraíbas, o término do cerco de
Granada por Fernando de Aragão e Isabel, o banimento dos judeus dos reinos de
Aragão e Castela e a publicação da primeira gramática de uma língua vernácula
por Antônio de Nebrija.

capítulo 1 • 21
Autores que seguem uma interpretação marxista da História afirmam que a
Idade Moderna, enquanto objeto de estudo, abrange o período que se estende da
crise da sociedade feudal europeia, por volta do século XIV, às revoluções burgue-
sas dos séculos XVII e XVIII.
Cabe lembrar que essa periodização pode e deve ser questionada se o pesquisa-
dor tem como referências outros parâmetros; como já afirmamos, qualquer recorte
cronológico, por mais didático que nos pareça, é passível de ser questionado.

Mercantilismo: aspectos do processo de transição

Como já verificamos, a intervenção do Estado passou a ser o modelo mais


veloz e eficaz para superar a crise do final da Idade Média; na esfera política, o
fortalecimento do Estado levou, como veremos, ao Absolutismo e, no plano eco-
nômico, gestou o Mercantilismo.

A definição mais aceita de mercantilismo informa que esse termo compreende um


conjunto de ideias e práticas econômicas dos Estados da Europa ocidental entre os
séculos XV, XVI e XVIII voltadas para o comércio, principalmente, e baseadas no con-
trole da economia pelo Estado. Mercantilismo dá nome, nesse sentido, às diferen-
tes práticas e teorias econômicas do período do Absolutismo europeu (SILVA; SILVA,
2009, p. 283).

Assim, podemos demarcar o início do mercantilismo com a expansão comer-


cial que a Europa conheceu especialmente a partir da baixa Idade Média e com-
preendê-lo como a política econômica adotada nesta região durante o processo
de consolidação monárquica e também após a sua conclusão. Este foi utilizado
como instrumento de unificação, de superação das crises e conflitos e, também,
de engrandecimento nacional.
Interferindo muito na Economia, como faziam em outras esferas, os governos
das monarquias buscavam alcançar o máximo possível de desenvolvimento eco-
nômico, através do acúmulo de riquezas, pois compreendiam que quanto maior
a quantidade de riquezas dentro de um reino, maior seria seu prestígio, poder e
respeito para além de suas fronteiras. Assim, acreditavam que a riqueza de uma
nação era determinada pela quantidade de ouro e prata que ela possui.
É importante destacar que o mercantilismo não foi uma escola de pensamento
econômico devidamente estruturada, porque nasceu da prática, das necessidades

capítulo 1 • 22
políticas que formataram a realidade de protecionismo, intervencionismo no pro-
cesso de consolidação econômica europeia (DEYON, 2001).

Não existe definição comum do mercantilismo e de seus caracteres fundamentais.


Uns falam do nacionalismo autárquico, outros, do intervencionismo do Estado, outros
ainda atribuem uma importância primordial ao bulionismo, isto é, à crença de que a
acumulação dos metais preciosos é a única forma de riqueza (DEYON, 2001. p 14).

Deste modo, os governantes consideravam que toda a riqueza era fixa e que
não poderia ser ampliada e, para um país enriquecer, deveria empobrecer outro
por meio da conquista de suas riquezas. Tal concepção corroborou para o acirra-
mento das disputas entre as nações.
As disputas entre as jovens monarquias, por sua vez, contribuíram para que
todos os outros interesses fossem relegados a segundo plano: a economia local
tinha que se transformar em nacional e o lucro individual desaparecer quando
necessários ao fortalecimento do poder nacional. Os Estados monárquicos dos
séculos XV e XVI encontraram no mercantilismo os primeiros elementos de sua
política econômica; numa certa medida, o mercantilismo que começa a se afirmar
na França e na Inglaterra da segunda metade do século XVI estendeu aos limites
das monarquias as inquietações e as práticas das cidades medievais.
Nos limites dos novos territórios, o mercantilismo preconizou o desapareci-
mento das alfândegas interiores, a eliminação ou redução das limitações à pro-
dução forçados pelas corporações de ofício, o emprego de sistemas contábeis e
acompanhamento das contas de receitas e despesas do Estado, a criação de uma
fiscalização centralizada e a adoção de leis que desestimulassem a importação de
bens improdutivos e de grande valor. O comércio externo é chave para a realização
do poder e da riqueza, pretendendo-se uma balança comercial sempre positiva.
Ao Estado caberia, portanto, intervir na vida econômica de forma a garantir que
a ação dos indivíduos gerasse o maior acúmulo possível de metais para a nação.
A primeira característica do mercantilismo era o metalismo. O metalismo,
primeiramente, pode ser definido como o desejo pelo metal, pois a monarquia
mais rica seria a que possuísse o maior estoque de metais. As monarquias que
não possuíssem fontes de metais preciosos deveriam consegui-los de outras na-
ções, por meio do comércio, ou seja, deveriam comercializar mercadorias, que
seriam pagas com o metal.

capítulo 1 • 23
As restrições, privilégios, concessões, subsídios e incentivos, com vistas a au-
mentar a quantidade de metais preciosos do país favoreceu o fortalecimento do
mercantilismo como política econômica da mesma forma que o fizeram o aper-
feiçoamento dos instrumentos jurídicos, contábeis e políticos que deliberavam a
respeito das atividades comerciais e manufatureiras, especialmente na Inglaterra e
na França, onde o sistema amadureceu, permitindo as formulações do liberalismo
e da fisiocracia, precursores das ciências econômicas e grandes críticos das princi-
pais teses mercantis.
O mais importante para cada jovem nação era exportar, mais do que im-
portar, para que houvesse um saldo positivo na balança comercial. A Economia
organizada pelo mercantilismo buscava, especialmente, os meios de proporcio-
nar o maior lucro possível a cada nação, o que significava uma grande mudança
em relação ao ideal medieval de autarquia, que implicava, em última análise,
na imutabilidade da situação dos indivíduos e das classes dentro da sociedade
(HECKSCHER, 1983).
Atrapalhar as importações de produtos estrangeiros era a maneira utilizada
para conseguir um saldo favorável na balança comercial. Deste modo, adotava-
-se uma política econômica protecionista, cobrando elevados impostos alfan-
degários. As matérias-primas, contudo, fugiam a essa norma, pois eram trans-
formadas em produtos manufaturados nacionais, que posteriormente seriam
exportados. O protecionismo mercantilista não só buscava impedir a entrada de
produtos estrangeiros, mas também dificultar ou impedir a saída de mercadorias
nacionais que pudessem fortalecer ou enriquecer outras monarquias. Pelo mes-
mo motivo, tentavam impedir que pessoas que tivessem conhecimentos técnicos
saíssem de seu país.
Como todas as nações europeias adotaram praticamente as mesmas medidas,
chegou-se a um impasse, que, por sua vez, gerava conflitos, com cada país queren-
do impor aos demais tratados comerciais que lhe oferecessem vantagens. A solução
para tal dificuldade foi a procura por novos territórios, que se tornariam mercados
consumidores exclusivos dos produtos metropolitanos e forneceriam matérias-pri-
mas e produtos que poderiam ser exportados. Assim, graças à exportação destes
novos territórios, as colônias, as economias nacionais europeias conseguiram acu-
mular capitais e atingir os objetivos da política econômica mercantilista.
Foi na Inglaterra do século XV que o mercantilismo teve aplicação pioneira,
com as primeiras medidas protecionistas no setor têxtil, que proibiam a exporta-
ção de lã na forma de matéria-prima e tributavam as importações de tecidos de lã.

capítulo 1 • 24
Dessa forma, garantia-se a produção interna de tecidos, incentivavam-se as vendas
para o exterior e acumulavam-se metais preciosos devido a uma balança comercial
favorável. Por isso, o modelo inglês ficou conhecido como mercantilismo comer-
cial manufatureiro (DEYON, 2001).
Na Espanha, o mercantilismo era de caráter metalista, pois a política adota-
da foi acumular ouro e prata por meio da exploração das minas do México e do
Peru, bem como a cobrança de impostos nas colônias do Novo Mundo. Os metais
preciosos eram transportados para a Espanha em embarcações que navegavam iso-
ladas; todavia, em virtude dos ataques de corsários, a coroa espanhola organizou
um sistema de frotas, em que os navios protegidos pela marinha de guerra, trans-
portavam as mercadorias das colônias para os portos metropolitanos. Chegando à
Espanha, os metais eram entesourados.
Na França, a orientação mercantilista foi ditada por Jean-Baptiste Colbert,
ministro do rei Luís XIV. A receita francesa consistia em produzir artigos ma-
nufaturados caros e destiná-los à exportação. O ministro francês afirmava que,
para a França ser rica, era necessário que seus vizinhos empobrecessem, ou seja,
deveria exportar mais do que importar. O governo francês estimulava a produção
de tecidos de seda, perfume, móveis, tapetes e cristais. Assim, o “colbertismo” se
assemelhava ao mercantilismo britânico, embora privilegiasse os produtos de luxo.
A principal crítica ao mercantilismo foi elaborada pelo filósofo e economista
britânico Adam Smith, que denunciou a falsa assimilação, feita por muitos teó-
ricos dessa corrente econômica, entre dinheiro e riqueza. Todavia, o forte prote-
cionismo alfandegário e comercial e a subordinação da Economia das colônias à
da metrópole não tinham como fim último o desenvolvimento da manufatura
nacional, mas a acumulação de metais nobres. Smith, ao contrário, preconizou a
livre atividade comercial e manufatureira em qualquer território, pois acreditava
que a riqueza não se identificava com o simples acúmulo de reservas monetárias,
mas com a produção de bens.
Para o bem ou para o mal, apesar das diferentes análises econômicas a que foi
submetido, não podemos esquecer que o mercantilismo foi o instrumento que as-
segurou as condições econômicas e financeiras necessárias à expansão dos Estados
europeus no início do que se convencionou denominar Idade Moderna.

capítulo 1 • 25
Mas, deixando de lado a controvérsia, qual a importância de estudarmos o mercanti-
lismo hoje? Como conjunto de práticas econômicas, ele está na origem mesma da co-
lonização promovida pelos países ibéricos, direcionando as economias desses países
para a formação de colônias e a exploração comercial. Precisamos levar sempre em
conta as dificuldades inerentes a esse conceito, tanto por se tratar de uma abordagem
que requer um bom entendimento dos princípios da economia (para se trabalhar com
os alunos a balança comercial favorável e o protecionismo, por exemplo) quanto pelas
sutilezas distintas entre a mentalidade barroca da época e a mentalidade burguesa
a qual nós pertencemos. Por outro lado, o professor deve ainda ter bastante cuidado
para não considerar o mercantilismo uma corrente filosófica, pois tal armadilha é co-
mum nos livros didáticos (SILVA; SILVA, 2009, p. 285).

PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DO MERCANTILISMO:


A riqueza de um Estado estaria ligada ao
acúmulo de metais nobres, ouro e pra-
METALISMO ta. Estes metais seriam acumulados por
meio do comércio externo e exploração
de outros territórios fornecedores.

O Estado mercantilista fortaleceu uma


política de intervenção na Economia, in-
centivando a produção de artigos com-
petitivos que pudessem concorrer no
PROTECIONISMO ALFANDEGÁRIO mercado externo. Os monarcas criavam
impostos e taxas para conter a importa-
ção, com o objetivo de estimular as ma-
nufaturas nacionais e evitar a saída de
moedas para outras nações.

O Estado concentrava todos os seus


esforços para exportar mais do que im-
BALANÇA COMERCIAL FAVORÁVEL portar; assim, entrariam mais moedas do
que sairiam, deixando o país em situação
financeira favorável

capítulo 1 • 26
Transição do Feudalismo para o Capitalismo

Em fins da Baixa Idade Média, inaugura-se um processo de crise e de ruptura


do Feudalismo, como observamos anteriormente, que irá desencadear profundas
transformações na vida produtiva, substituindo a economia agrícola de servidão e
de subsistência pela atividade mercantil e lucrativa. Trata-se, melhor dizendo, da
passagem da economia agrário-senhorial para a implementação da produtividade
econômica de mercado livre, pela sistematização do comércio por meio das trocas
monetárias e pela força de trabalho assalariado.
Entretanto, o Capitalismo irá constituir-se gradualmente, confirmando-se e alcan-
çando quase toda a Europa depois dos séculos XVI e XVII. Em suas origens, a men-
talidade capitalista está identificada às práticas comerciais, ao empreendimento indivi-
dualista e competitivo, bem como ao afã de lucro interminável, ao cálculo previsível.
A transição do feudalismo para o capitalismo não foi abordada pela historio-
grafia de maneira homogênea, mas sim por meio de enriquecedoras discussões que
buscaram caminhos para interpretar a especificidade do sistema capitalista, ou do
“modo de produção capitalista”, como preferiria Karl Marx.
Os alemães Max Weber e Werner Sombart, em princípios do século XX, tam-
bém se preocuparam com a demarcação das origens do Capitalismo Europeu,
porém com base na religião, quando tentaram determinar sua especificidade.

Outro grande teórico do Capitalismo foi Max Weber, para quem o Capitalismo não po-
deria ser conceituado unicamente com base em cálculos econômicos, sendo isolado de
questões culturais. Criticou ainda a opinião então comum de que o Capitalismo era pura
e simplesmente o espírito ou a ânsia do lucro. O “impulso para o ganho” ou a “ânsia de
lucro”, afirmou Weber, não tem nada a ver com o Capitalismo em si, pois em todas as
épocas e lugares os indivíduos souberam se aproveitar de alguma situação favorável
ao lucro monetário. Para Weber, atitudes “capitalistas” isoladas, aventureiras, existiram
em todo o mundo em diferentes épocas da história: financiamento de guerras, ações
de pirataria, empréstimos para governos etc. Sua tese defende, no entanto, que a forma
moderna ocidental era a mais aperfeiçoada de Capitalismo (SILVA; SILVA, 2009, p. 44).

Seguindo a preocupação de Max Weber e Werner Sombart em interpretar as


origens do Capitalismo Europeu, nos anos de 1940, o economista inglês Maurice
Dobb, com seus Estudos sobre o desenvolvimento do Capitalismo, demarcou tal

capítulo 1 • 27
origem a partir da circulação de mercadorias entre Cidade e Campo, proveniente
da ‘crise’ estrutural do sistema feudal.
Criticando a tese de Henry Pirenne, Dobb incentivou uma discussão que per-
durou nos anos 1950 e 1960 entre os historiadores marxistas, especialmente Paul
Sweezy e Rodney Hilton. Os debates foram acalorados e resultaram na publica-
ção de duas obras A transição do feudalismo para o capitalismo e Do feudalismo
ao capitalismo.
Maurice Dobb mostrou-se muito preocupado com o uso do termo “feudalis-
mo” por acreditar que os conceitos, as definições são cruciais para as reflexões que
desejava elaborar. Para o autor, o feudalismo deveria ser entendido a partir da re-
lação entre o produtor direto e o senhor, mas dentro do contexto socioeconômico
da obrigação que os ligava. É justamente esta forma de compreender o feudalismo,
como um modo de produção cuja articulação é garantida pelas relações de servi-
dão, que diferencia, segundo o próprio autor, o seu trabalho dos estudos que o
antecederam (SWEEZY; DOBB, 2004).
A origem de um modo de produção, segundo Dobb, não deve ser determi-
nada pela primeira vez que este aparece, mas sim a partir do momento em que
adquire relevância a ponto de modelar toda uma sociedade, rearranjando toda a
estrutura social. Assim, destaca o autor, as forças externas devem ser consideradas
relevantes para o processo de revolução de uma sociedade; todavia, as contradições
internas, inerentes ao modo de produção em transformação, sempre desempe-
nham papel primordial.
Este posicionamento revela que para Dobb os modos de produção não se en-
contram em sua forma pura, mas contam com uma mistura de diferentes elemen-
tos que ser inter-relacionam. Assim, são as contradições internas que determinam
os impactos exercidos pelos demais aspectos na produção da sociedade. O que
realmente importa para a análise, é a maneira como ocorre a articulação entre os
elementos internos e externos e não a exclusão de um deles (MARIUTTI, 2004).
Pautado em Marx, Dobb aponta que as relações servis de produção derivam
das condições peculiares do feudalismo, principalmente no sistema de coproprie-
dade da terra, em que o senhor é dono da terra e os servos, de pequenas faixas des-
ta grande propriedade. De acordo com Mariutti (2004), na explicação de Dobb a
base de toda a estrutura social e das relações feudais era determinada pelo modo
em que se encontravam distribuídos os meios de produção e a forma da expropria-
ção do excedente por parte da classe dominante, os senhores.

capítulo 1 • 28
Deste modo, para compreender a derrocada do feudalismo é preciso centrar
a análise no conflito entre servos e senhores e como tal antagonismo alterou a
estrutura básica da sociedade feudal. Esta luta de classes conduziu, segundo ele, à
desarticulação do feudalismo e à gradual estruturação do capitalismo.
O economista marxista norte-americano Paul Malor Sweezy também nos le-
gou uma concepção sobre a transição do feudalismo ao capitalismo, criticando
especialmente as proposições apresentadas por Dobb. Inicialmente, é relevante
destacar que o autor não propõe de maneira sistemática uma explicação alternati-
va, contentando-se, como afirma Mariutti (2004), em formular críticas e comen-
tários a respeito das proposições apresentadas pelo outro autor.
Sweezy rejeita a definição apresentada por Dobb para o feudalismo, afirmando
que não devemos equalizar a servidão ao feudalismo, porque esta pode ser compa-
tível com outros sistemas e não apenas o feudal. Assim, o autor busca a principal
característica do feudalismo no fato de a economia feudal ser voltada à produção
de valores de uso e encara a eventual presença do comércio de longa distância
como uma força externa, operando às margens da sociedade. Assim, foi o desen-
volvimento das relações de troca no seio de uma sociedade produtora de valores
de uso que a desestabilizou.
Para Sweezy, as contradições internas ao sistema feudal não eram capazes de
transformá-lo, ou seja, em seus aspectos fundamentais, o modo de produção feu-
dal se reproduziria de forma sempre igual. A mudança tornou-se possível apenas
com o surgimento e intensificação de uma força externa, o comércio de longa
distância, que desarticulou, gradualmente, o sistema feudal, transformando-o no
que Sweezy considera a sua base, uma economia produtora de valores de troca.
O autor destaca que o comércio não derrubou automaticamente o feudalismo,
não foi a única força atuando neste sentido, mas a principal. Admite, ainda, que
coexistiu uma economia de trocas com relações de servidão.
Portanto, Sweezy propõe a existência, dentro do processo de transição, de um
momento de coexistência entre dois modos de produção, que se influenciam até
que o mais poderoso derruba seu opositor. Seria, para o autor, a forma usual de
transição, uma verdadeira luta entre dois modos de produção, em que o vitorioso
torna-se dominante à medida em que destrói o outro.
Outro ponto de divergência entre os autores é a questão do fortalecimento da
nobreza, que para Sweezy não foi uma tendência natural ou interna ao feudalis-
mo, mas, na verdade, um reflexo de algo que ocorria fora do sistema feudal. Seria,
mesmo, reflexo do crescimento e aperfeiçoamento do comércio de longa distância.

capítulo 1 • 29
Deste modo, podemos verificar que o sustentáculo das reflexões do autor a
respeito da transição está no autodesenvolvimento do comércio que conduz à in-
tensificação das forças produtivas, promovendo uma organização mais racional
e o aperfeiçoamento da divisão do trabalho, propiciando maior produtividade e
minando as relações servis de produção.
O filósofo e historiador da Economia húngaro Karl Polanyi, no livro A grande
transformação, publicada originalmente em 1944, também analisou o desenvolvi-
mento do sistema capitalista. Polanyi apresentou um estudo dos sistemas econômi-
cos desde os primórdios até o aparecimento da economia de mercado autorregulável.
Polanyi retorna ao feudalismo mostrando que elementos sociais como a terra,
o trabalho não estavam subordinados à Economia. Foi a passagem para um sis-
tema mercantil que fez com que todos os componentes inerentes à sociedade se
tornassem parte da economia de mercado, pois uma economia de mercado requer
uma sociedade de mercado. Deste modo, há a inserção no mecanismo do mercado
de tudo o que compõe substancialmente a sociedade (POLANYI, 2011).
Nos anos de 1970, Perry Anderson, no seu livro Linhagens do Estado
Absolutista (ANDERSON, 1995), apresenta com maestria a transição do feu-
dalismo para o capitalismo, no período que se convencionou chamar de Idade
Moderna. Anderson indica que o fim da servidão não deve ser compreendido
como o fim das relações feudais no campo, pois este ocaso não alterou a natureza
da renda fundiária. O produtor direto, como antes, continuava sendo o dono da
terra, por meio de herança ou de qualquer outro direito tradicional, e deveria dar
ao seu senhor, como proprietário da sua condição de produção mais essencial, um
excedente de trabalho, ou seja, trabalho não pago pelo qual não é recebido equiva-
lente sob forma de um sobreproduto transformado em dinheiro.
Para o autor inglês, no início da época moderna, a classe dominante, eco-
nômica e politicamente, era a mesma do período anterior, a aristocracia feudal.
A supressão do poder dos senhores feudais era inevitável com o fim da servidão,
favorecendo, portanto, o deslocamento da coerção político-legal, de sentido as-
cendente, para uma cúpula centralizada e militarizada, o Estado.
Apesar de a questão das origens do Capitalismo ter sido, como verificamos, tema
de muitas discussões e polêmicas, a grande parte dos trabalhos, de alguma maneira,
acompanhou uma explicação que naturalizava o nascimento do sistema capitalista
na história das sociedades do passado, que se impôs nas sociedades do presente,
como se a história obedecesse a uma trajetória linear que culminou no Capitalismo.

capítulo 1 • 30
E esse é justamente o questionamento apresentado por Ellen M. Wood na obra
A origem do capitalismo (WOOD, 2001). Para a autora, mesmo a interpretação
marxista está presa a esta explicação linear da história, na qual se naturaliza o apare-
cimento do capitalismo. A partir disto, a historiadora norte-americana buscou rein-
terpretar as origens do capitalismo, questionando a colocação do sistema capitalista
como algo natural, que representa uma forma social historicamente especifica.
Wood aponta que não é o mercado, nem o Estado, nem o dinheiro, ou mesmo
o trabalho que definem o Capitalismo, ou expressam a sua especificidade. Sendo
um sistema econômico e social historicamente arquitetado, o Capitalismo, se-
gundo a autora, seria definido por tornar todas as ações humanas passíveis de um
valor expresso no mercado.
O feudalismo, segundo a autora, produziu uma diversidade de formas e conse-
quências em toda a Europa, e, dentre estres resultados, o capitalismo. Para explicar
tal afirmação, destaca que não existia um mercado único e unificado, convivendo
inícios não capitalistas de comércio com formas de exploração não capitalistas.
Por sua vez, o desenvolvimento de um mercado nacional foi um corolário, e não
um motivo, do capitalismo. O desenvolvimento de um mercado nacional com-
petitivo unificado refletiu as mudanças no modo de exploração e no Estado. Para
ela, o capitalismo não é um efeito natural e inevitável da natureza humana, ou da
tendência social a comerciar, permutar e trocar, mas um produto tardio e locali-
zado de condições históricas muito específicas que foi, desde o início, uma força
fortemente contraditória.
Sintetizando, Ellen Wood buscou apresentar os fatores básicos para o desen-
volvimento do capitalismo rompendo com o modelo mercantil, ou seja, discor-
dando de um processo de transição, de transformação de uma sociedade em outra.

CONEXÃO
Para entender mais sobre a transição do feudalismo para o capitalismo, consulte:
http://www.portalconscienciapolitica.com.br/economia-politica/capitalismo/

capítulo 1 • 31
DO FEUDALISMO PARA O CAPITALISMO - ERIC HOBSBAWM
Dos vários estágios do desenvolvimento histórico relacionados por Marx no Prefácio de
The critique of political economy — os modos de produção "asiático, o antigo, o feudal
e o burguês moderno", o feudal e o capitalista foram aceitos sem problemas sérios,
enquanto a existência ou universalidade dos outros dois tem sido contestada ou negada.

Por outro lado, o problema da transição do feudalismo para o capitalismo provavelmente


deu origem a discussões marxistas mais numerosas do que qualquer outro relaciona-
mento com a periodização da história mundial. Na década de 1950 ocorreu o conhecido
debate internacional sobre esta questão, em que tomaram parte Paul Sweezy, Maurice
Dobb, H. K. Takahashi, Christopher Hill e Rodney Hilton (suplementado por intervenções
do falecido Georges Lefebvre, A. Soboul e Giuliano Procacci). Na mesma década teve
lugar na URSS uma discussão animada mas inconcludente sobre a "lei fundamental
do feudalismo", isto é, sobre o mecanismo que necessariamente leva o feudalismo a
ser substituído pelo capitalismo, assim como a tendência histórica da acumulação de
capital, na análise de Marx, leva o capitalismo à ruína. Sem dúvida, houve outros deba-
tes semelhantes, particularmente em países asiáticos, dos quais infelizmente não tenho
conhecimento. O objetivo desta nota não é dar mais outra resposta às perguntas sobre
a transição do feudalismo para o capitalismo, mas encaixá-la na discussão mais geral
sobre os estágios do desenvolvimento social, reaberta por Marxism Today. [...]

[...] A transição do feudalismo para o capitalismo é, portanto, um processo longo que


nada tem de uniforme. Cobre pelo menos cinco ou seis fases. A controvérsia sobre
essa transição tem se voltado principalmente para as características dos séculos que
decorreram entre os primeiros sinais evidentes de derrocada do feudalismo (período c,
a "crise feudal" no século XIV) e o triunfo definitivo do capitalismo no final do século
XVIII (p. 201-205).
SWEEZY, Paul; DOBB, Maurice; et al. A transição do feudalismo para o capitalismo. 5.
ed. São Paulo: Paz e Terra, 2004, p. 201-205.

Condições da centralização política

Como analisamos, não podemos compreender o final da Idade Média como


algo que aconteceu de um dia para o outro, mas como um processo cuja gestação

capítulo 1 • 32
foi lenta. Da mesma forma, não devemos acreditar que o processo de centralização
política foi calmo e imperceptível.
A centralização política na Europa deve ser vista como uma transformação in-
timamente relacionada com o desenvolvimento comercial e econômico europeu. A
Economia mercantil, além de favorecer a estruturação de novas camadas sociais em
condições de competir com os nobres pelo poder político, praticamente obrigou o sis-
tema feudal a se transformar, pois a terra não era mais suficiente para garantir a riqueza.
O enfraquecimento do poder da nobreza feudal e o interesse dos comerciantes
em padronizar a moeda, os pesos e as medidas favoreceu o poder real. Todavia, é
importante destacar que nem sempre este apoio foi homogêneo, muitas vezes, sob
a proteção de um senhor feudal, os comerciantes se agrupavam ou, ainda, forma-
vam cidades independentes.
Politicamente, a Igreja e o papa, que de certa maneira haviam dominado até
aquele momento, também perderam espaço e abriram brechas para que os reis
fossem tomando o lugar por eles ocupado na cobrança de impostos e na adminis-
tração da justiça, por exemplo.
Os reis, seguindo quase sempre a mesma lógica, buscaram o apoio dos habi-
tantes, especialmente da burguesia mercantil ligada ao comércio internacional da
cidade ou das cidades do que seria o domínio real, iniciaram a emissão de moeda,
para substituir as dos senhores feudais, e passaram a arrecadar impostos, obtendo
uma importante fonte de renda.
Todavia, a medida que podemos considerar crucial para o processo de centra-
lização política foi a organização do exército real, uma vez que tal ação favoreceu o
domínio gradual dos senhores feudais e a expansão dos domínios reais.
Organizado o exército os reis lançaram mão da diplomacia como arma para
fortalecer seus domínios, criando intrigas entre os nobres e depois intervindo para
usurpar as propriedades das duas partes. Além disso, com o poder que conquista-
vam passaram a distribuir justiça, legislando e fazendo justiça (BLOCH, 1982).
Aproximadamente no século XVI, a administração dos reinos passou a ser
mais sistematizada, com o progresso das instituições judiciárias (parlamentos) e
fiscais (para arrecadar impostos), criadas em diversos locais, e da corte, que agre-
gava príncipes, senhores feudais, bispos e militares, que abandonavam suas terras
para viverem ao redor do rei, como súditos.
Podemos citar como exemplo deste processo de centralização os monarcas
Carlos VIII, Luís XI e Francisco I que completaram a obra de três séculos de centra-
lização do poder na França usando o trajeto: união entre o rei e a burguesia nacional;

capítulo 1 • 33
arrecadação de taxas e impostos; organização de exércitos permanentes; expansão
dos domínios territoriais; organização administrativa e centralização da justiça.
Como destacou Perry Anderson (1995), a longa crise da Economia feudal e
da sociedade europeias durante os séculos XIV e XV marcou as dificuldades e os
limites do modo de produção feudal no último período da Idade Média. Qual foi
então, o resultado político das convulsões deste período? Ao longo do século XVI,
os Estados Absolutistas emergiram no ocidente.
As monarquias centralizadas da França, Inglaterra e Espanha representavam
uma ruptura decisiva com as formações sociais medievais, com seus sistemas de
propriedade e vassalagem.
As monarquias introduziram os exércitos, uma burocracia permanente, o siste-
ma tributário, a codificação do Direito e os primórdios de um mercado unificado.
Todas estas características parecem ser eminentemente capitalistas, porém, o caráter
feudal ainda presente neste Estado acabava por frustrar as promessas ao capitalismo.
Era uma promessa porque exército, diplomacia, burocracia e dinastia continua-
vam a ser um complexo feudal fortalecido, enfatiza Anderson. O domínio do Estado
que nascia era o da nobreza feudal, na época de transição para o capitalismo. O seu
crepúsculo assinalaria a crise de poder de sua classe, ou seja, o advento das revoluções
burguesas e a emergência do Estado capitalista (ANDERSON, 1995).

ATIVIDADE
1) Elabore uma análise acerca dos aspectos que contribuíram para a desarticulação do sis-
tema feudal.
2) O mercantilismo almejava colocar a vida econômica a serviço do interesse do Estado.
Justifique essa afirmação.

REFLEXÃO
Ao longo deste primeiro capítulo, verificamos que qualquer recorte cronológico que bus-
que demarcar o final da Idade Médio e o princípio da época moderna é passível de questio-
namento, ou seja, qualquer recorte cronológico é arbitrário. Estudamos que o termo ‘moderno’
é um vocábulo que, quando usado para definir uma época da História humana, é ideológico e
traz em si a ideia de que a época moderna é melhor, mais adiantada do que a de seus ante-
cessores. Todavia, não podemos esquecer que essa ideia de que a época moderna é melhor
do que a Idade Média não é mais uma ideia aceita unanimemente pela historiografia.

capítulo 1 • 34
Além da questão referente à periodização da Idade Moderna, analisamos alguns pontos
de vista sobre o processo de transição do feudalismo para o capitalismo, estudamos a política
econômica da época moderna – o Mercantilismo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ANDERSON, Perry. Linhagens do Estado absolutista. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1995.
ANGOLD, Michael. Bizâncio: a ponte da Antiguidade para a Idade Média. Rio de Janeiro: Imago, 2002.
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BRAUDEL, Fernand. Civilização Material, Economia e Capitalismo, Séculos XV-XVIII. São Paulo:
Martins Fontes, 1997.
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capítulo 1 • 35
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WOOD, Ellen Meiksins. A origem do capitalismo. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar, 2001.

capítulo 1 • 36
2
Renascimento
Renascimento
Como já discutimos anteriormente, a intensificação das atividades comerciais
e da produção artesanal favoreceu o florescimento das adormecidas cidades medie-
vais, contribuiu para o surgimento de uma nova classe social, a burguesia, e, ainda,
na posterior constituição das monarquias nacionais.
Estas mudanças vieram seguidas de uma nova visão de mundo, que se mani-
festou na arte e na cultura, que ficou conhecida como Renascimento. Assim, nesse
segundo capítulo, analisaremos o Renascimento.

OBJETIVOS
• Analisar o que foi o Renascimento;
• Estudar a historiografia do Renascimento;
• Compreender a relevância do Humanismo para o Renascimento;
• Analisar a origem geográfica do movimento renascentista;
• Entender a contribuição do retorno da cultura greco-romana para o Ocidente;
• Estudar a expansão do Renascimento pela Europa.

O Renascimento

Renascimento, ou Renascença como preferem alguns historiadores, foi o de-


senvolvimento de uma cultura que deixava para trás o domínio imposto pela Igreja
Católica durante o período medieval e que tinha um caráter predominantemente
humanista, ou seja, colocava novamente o homem e suas obras no centro das aten-
ções (Antropocentrismo: do grego antropos, homem. Visão de mundo em que
o ser humano ocupa posição central no universo, em oposição ao Teocentrismo
medieval, que colocava Deus em lugar de destaque).
Dizemos Renascimento porque foi nessa época que o racionalismo pro-
posto pela cultura clássica foi revalorizado, o homem não queria mais ver
tudo através dos olhos de Deus, queria retomar a direção de sua vida. A noção
de pecado foi minimizada e a moralidade redefinida; o corpo, por exemplo,
não foi mais visto como algo sagrado e inviolável, favorecendo o retorno da
Anatomia e das experiências científicas de uma forma geral. Os renascentis-
tas preocupavam-se com a vida, não queriam mais contemplar a morte. O

capítulo 2 • 38
renascentista tinha consciência de que conhecer era poder, pois o conhecimen-
to possibilitava descobrir, inventar e produzir.
Uma característica que define bem o Renascimento é o individualismo em
oposição ao coletivismo medieval, a partir desse momento o indivíduo deveria
buscar sozinho a satisfação de seus desejos.
Geograficamente, o Renascimento cultural teve início na região onde hoje
está a Itália, isso ocorreu principalmente porque foi nessa localidade que o comér-
cio e a vida urbana retomaram sua importância.
Profundas mudanças ocorreram na Europa entre o final da Idade Média e
o início da Idade Moderna, a intensificação da vida urbana, da Economia e do
comércio, o enriquecimento da burguesia e o fortalecimento do poder dos monar-
cas. Esse foi também o período das grandes navegações, da elaboração das novas
técnicas de exploração agrícola e mineral, da difusão do uso da arma de fogo, da
imprensa, de novos tipos de papel e de tintas, do desenvolvimento da Matemática,
da Geometria, da Cartografia e da Medicina.
As transformações culturais e científicas provinham de mudanças ocorridas
durante a Baixa Idade Média. As ligações comerciais com o mundo islâmico e
bizantino, favorecidas pela navegação do Mediterrâneo, trouxeram novas contri-
buições para o continente europeu. Obras da Grécia Antiga foram redescobertas
pelos europeus, graças ao contato com os árabes, que as haviam preservado e
trazido. Os árabes também difundiam as invenções orientais, que foram sendo
assimiladas e integradas pelos europeus. O ensino da língua grega foi retomado
nas escolas e universidades.
Essas mudanças despertaram, como não poderia deixar de ser, novas ideias
a respeito da natureza e do ser humano. Pensadores, denominados humanistas
(erudito dos séculos XV e XVI, conhecedor das línguas e literaturas antigas, consi-
deradas, então, fundamentais para o conhecimento do ser humano), acreditavam
que o homem, com a educação adequada, seria capaz de dominar o seu destino,
controlar e transformar a natureza. Essa nova concepção de mundo, chamada de
Antropocentrismo, se opunha aos valores medievais, atribuindo ao homem, e não
mais à vontade de Deus, a responsabilidade por suas conquistas e fracassos.
Os pensadores desse período não se limitaram a fazer renascer os textos gre-
co-romanos, buscaram também melhorar a sociedade em que viviam; o inglês
Thomas Morus, por exemplo, imaginou, em sua obra Utopia (1516), uma socie-
dade ideal baseada na igualdade e na tolerância. O holandês Erasmo de Rotterdam
criticou os costumes e os abusos da Igreja Católica em seu livro Elogio da Loucura

capítulo 2 • 39
(1511). O italiano Nicolau Maquiavel, na sua obra O Príncipe (1513), estudou
como se toma, se conserva e se perde o poder. O francês Rabelais, em seus livros
Pantagruel (1532) e Gargântua (1534), defendeu a ideia de que os homens de-
viam se guiar apenas pelas leis da natureza.
O que devemos ressaltar é que os humanistas, mesmo criticando a Igreja
Católica e dela discordando, não eram ateus, mas cristãos que desejavam reinter-
pretar as mensagens bíblicas; todavia, muitos deles foram perseguidos ou conde-
nados por suas ideias.

CURIOSIDADE
Mecenato: a burguesia italiana estimulava os artistas e intelectuais renascentistas por meio
de financiamento, ou seja, pagavam para que esses artistas e intelectuais pudessem viver
exclusivamente de suas obras de arte e suas pesquisas.

Desse modo, podemos notar que o movimento renascentista apresentou uma


resposta a uma tentativa de compreender o homem e logo, o universo na épo-
ca de crise do feudalismo, apresentava uma ruptura com o mundo medieval. O
Renascimento traduzia novas concepções culturais que tinham como referência
intelectual o humanismo, que buscava definir o papel ocupado pelo homem no
universo. Atualmente, esse conceito não é mais aceito, entendemos que esse pe-
ríodo que se condicionou chamar Renascimento é mais um período de transição
entre as concepções medieval e moderna do papel ocupado pelo homem no mun-
do (ACKER, 1992).
As alterações no plano cultural já vinham ocorrendo desde muito antes, desde
o início do século XII, uma vez que temas como individualismo e racionalismo já
estavam presentes nas preocupações dos estudiosos da época. O empirismo, uma
das características distintivas do Renascimento, já era objeto de estudo e discussão
nas Universidades de Oxford e Paris, em pleno século XIII, por intelectuais como
Roger Bacon, por exemplo (BURKE, 2008).

capítulo 2 • 40
Antiguidade clássica: a inspiração

CONCEITO
Clássico é um termo usado em História para designar a cultura greco-romana da Antigui-
dade; é, portanto, um conceito histórico delimitado no tempo e no espaço. Todavia, esse
termo também é muito empregado em outras áreas humanistas, como a Literatura e a Arte
(SILVA; SILVA, 2009).

A principal fonte do Humanismo pode ser encontrada na Antiguidade


Clássica. Apesar de a Idade Média não ter ignorado totalmente este período,
compreendia-o de modo diferente e até mesmo truncado, pois não conhecia to-
dos os textos gregos, e os que conhecia era por meio de traduções e adaptações,
como, por exemplo, Homero através de Virgílio e os estoicos através de Cícero.
Deformado, porque essas obras atendiam apenas politicamente às instituições do
Estado Romano.
No século XIV, alguns artistas e literatos, com destaque para Petrarca e
Boccacio, iniciaram um movimento de reconquista da herança antiga, ao intro-
duzirem na Europa manuscritos de obras ainda desconhecidas (BURKE, 1999).
Em meados do século XV, organizaram-se vários círculos de intelectuais, em
Roma, apoiados por membros do alto clero, em Florença, apoiados pelos Medici,
e em Veneza. Estes intelectuais introduziram diversos manuscritos contendo os
ensinamentos do grego, completando o processo de retomada cultural e estimu-
lando o estudo crescente da Antiguidade. Esses homens que apoiaram os intelec-
tuais e artistas receberam o nome genérico de ‘mecenas’.
O contato com as obras de Platão e Aristóteles favoreceu o estudo da Filosofia,
o que satisfez as necessidades espirituais de um século profundamente religioso.
Também importante para as ciências que se baseavam em Aristóteles foi a redes-
coberta de compiladores bizantinos mais fiéis de Pitágoras, Ptolomeu e Euclides.
Essa aproximação com autores gregos que, durante a Idade Média não foram
analisados, fez surgir uma aproximação entre as culturas do passado e a cultu-
ra moderna. O contato propiciou que a época moderna fizesse suas leituras e
interpretações do passado, transformando a Antiguidade Clássica em fonte de
inspiração para se pensar o mundo de modo distinto daquele que se pensava na
Idade Média.

capítulo 2 • 41
O pensamento e a Filosofia idealistas, pautados na procura do divino, carac-
terizaram o pensamento dos humanistas no final do século XV e início do século
XVI. O homem passa a ser concebido como era na antiguidade, como o centro do
universo, imagem de Deus, criatura elevada entre todas as demais, apesar de mate-
rial. A vocação humana para o conhecimento ultrapassava o mundo das aparências
sensíveis e atingia as ideias que lhe permitiam alcançar Deus.
As ideias humanistas difundiram-se pela Europa, mas não foram conheci-
das por todos os homens dessa época. Um camponês da região da Toscana, por
exemplo, não tinha a menor ideia do que se discutia nos centros intelectuais. A
imprensa conquistou um importante papel na difusão das ideias humanistas, pois
com a fundação da oficina de Gutenberg, em 1348, e a invenção dos tipos móveis
cunharam-se as técnicas necessárias à impressão. Assim, os manuscritos das pri-
meiras obras dos humanistas foram difundidos, da mesma maneira que as obras
antigas, por serem impressos.
Contribuiu também para a difusão destas ideias as viagens, que promoviam
um grande intercâmbio cultural entre as várias regiões europeias, principalmente
com professores universitários passando temporada em uma universidade diferen-
te da que estava normalmente sediado.

MECENAS
A definição mais comum para Mecenas é a de indivíduo abastado que protege ar-
tistas, escritores ou homens de ciências, destinando recursos financeiros para um
campo do saber ou das artes. Tem origem em Mecenas, conselheiro do imperador
romano Otávio Augusto. Como intelectual, cercou-se de artistas e letrados. Mecena-
to é a expressão que se utiliza para a proteção dada às artes, ciências e letras, por
pessoas ricas (SEVCENKO, 1995).

capítulo 2 • 42
A rica classe de mercadores iniciou a conquista do poder, dominando as repúbli-
cas do norte da Itália. Veneza, Gênova e Florença eram governadas por mercadores.
Ao longo desse período, uma das formas de conseguir prestígio político era ser retra-
tado em uma obra de arte. Por este motivo, ricos burgueses patrocinavam artistas. Tal
comportamento era seguido também pelos membros do alto clero, da nobreza e pelos
reis. Esses protetores das artes ficaram conhecidos como mecenas.
A Itália, que nessa época era um conjunto de Estados, alguns soberanos e outros
dependentes de nações estrangeiras, era dominada por lutas políticas, pelos conflitos
entre famílias poderosas e pela rivalidade entre as cidades. Exércitos de mercenários
se colocavam a serviços destes segmentos. Os condottiere, líderes de bandos de mer-
cenários, quando conquistavam o poder, estimulavam a produção intelectual, para se
valorizarem e para projetarem sua cidade em relação às demais (BURKE, 1999).

O Humanismo

O principal ponto das inquietações do pensamento renascentista, o homem,


passou a ser considerado a obra mais perfeita da criação divina, capaz de com-
preender, transformar a dominar a natureza. A partir do movimento renascentista,
o Humanismo se tornará referência para os pensadores dos séculos seguintes, in-
clusive para os iluministas no século XVIII (SEVCENKO, 1995).

COMENTÁRIO
Podemos falar humanismo sempre que o valor principal de uma doutrina é a pessoa
humana, o sentimento, a personalidade, a originalidade e a superioridade do homem sobre
a natureza.

Assim, observamos que o termo humanismo, possui uma forte conotação his-
tórica localizada no tempo e no espaço, pois delineia um movimento moral, es-
tético, filosófico e, também, religioso, arquitetado pelas correntes do pensamento
medieval, que adquiriu, no momento do Renascimento, uma nova conotação. O
termo ganhou notoriedade no século XV, na Península Itálica, e difundido, no

capítulo 2 • 43
século XVI, através da Europa, o humanismo caracterizou-se por um esforço em
avaliar o homem em sua essência.

O termo Humanismo surgiu no século XVI para designar as atitudes renascentistas


que enfatizavam o homem e sua posição privilegiada na Terra. O próprio conceito de
Renascimento também só começou a ser empregado a partir do século XVI, para de-
signar a retomada do pensamento e das formas de expressão da Antiguidade Clássica
(SILVA; SILVA, 2009, p. 193).

Alguns autores avaliam o Humanismo como um fenômeno dialético, por-


que se de um lado, valorizava o humano, contrariando a mentalidade teocêntrica
medieval, simultaneamente possuía fortes preocupações religiosas, sendo o movi-
mento inexplicável sem suas preocupações espirituais e o anseio por uma reforma
da Igreja Católica. Ou seja, a conjuntura em que o humanista ganhou espaço, ape-
sar de seu antropocentrismo, foi influenciada pelo Cristianismo e pelos dilemas da
Igreja Católica no início da Idade Moderna.
Esta classificação justifica-se porque, inicialmente, o humanismo baseou-se na
herança medieval, mesmo contrapondo-se ao sistema existente. Assim, ao longo
do tempo, a Bíblia deu aos homens uma cosmologia, uma história, uma moral e
uma finalidade existencial, enquanto a Idade Média construiu uma Filosofia, de
início submissa à Teologia, mas tentando explicar os temas em que a Bíblia não
mais satisfazia a curiosidade do espírito humano. Surgiu, portanto, uma ciência
que possibilitou ao homem entender o mundo em que vivia (QUEIRÓZ, 1995).

COMENTÁRIO
O principal núcleo do humanismo foi a cidade de Florença, onde Lourenço de Médici fun-
dou a academia, que reunia estudiosos ilustres. Um dos seus maiores pensadores foi Nicolau
Maquiavel, autor da obra O Príncipe.

Abria-se ao homem a possibilidade de entender o mundo em que vivia. A


partir disso, a Filosofia e a ciência apoiaram-se em Aristóteles, conhecido mui-
to bem desde o século XIII, por meio de documentos traduzidos e comentados

capítulo 2 • 44
pelos árabes e judeus. Por intermédio destas traduções, difundiram-se a obra de
Aristóteles e seus ensinamentos. São Tomás de Aquino, com um modo de pensar
que mais o afastava do que o aproximava do cristianismo, introduziu uma solução
global, promovendo a unidade da verdade, por meio do acordo da fé com a razão.
A análise dos textos clássicos despertou o gosto pela pesquisa histórica e pelo
conhecimento das línguas clássicas, o latim e o grego. O latim clássico foi recupe-
rado e passou a ser a língua com a qual os estudiosos se comunicavam e escreviam
suas obras. A partir do século XIV, ao mesmo tempo que os renascentistas se de-
dicavam ao estudo das línguas clássicas, diferentes dialetos davam origem a novas
línguas, posteriormente chamadas de línguas nacionais.
É importante destacar que o desenvolvimento de línguas locais foi significa-
tivo para a consolidação das fronteiras entre os diversos Estados europeus que,
então, se unificavam; foi também relevante para a formação de uma identidade
nacional e cultural entre as diversas populações reunidas sob o domínio dos reis
(BURKE, 2008).
O empenho no estudo dos textos dos autores gregos e latinos proporcionou
modificações na educação escolar com a introdução do estudo do latim e do gre-
go, a preocupação com o desenvolvimento do espírito analítico e da capacidade
crítica, da observação da natureza e a pesquisa sobre seus fenômenos, a ausência
de preocupações com temas que remetem a questões teológicas, como a questão
da fé, da Trindade, da natureza de Deus ou da imortalidade da alma. Ganhou
espaço nas escolas e universidades a atenção ao movimento artístico e a uma nova
cultura. Nas universidades, ainda, observamos a introdução de disciplinas como
poesia, História e Filosofia (FERREIRA, 2015, p. 40). No fim do século XV,
o nominalismo de Guilherme D’Occam passou a dominar os ensinamentos nas
universidades. Para D’Occam, as verdades da fé não poderiam ser analisadas racio-
nalmente, enquanto a razão, a partir das aparências sensíveis, podia organizar uma
ciência racional genuinamente experimental que nada devia aos Textos Sagrados.
O afastamento entre fé e razão apresentado por Guilherme D’Occam trouxe
consequências para a religião, a Filosofia e as ciências, acendendo a crise do pen-
samento medieval, a qual explica a hostilidade dos humanistas à Escolástica e o
sucesso dos novos modos de pensar.

capítulo 2 • 45
CURIOSIDADE
A Escolástica foi a Filosofia na qual se baseou todo o pensamento culto medieval, ditado
pela Igreja Católica.

Com o Humanismo, o olhar humano desviava-se do céu para a terra, ocupan-


do-se mais com as questões cotidianas. A curiosidade, aguçada pela observação
direta dos fatos, aumentou o interesse pelo corpo e pela natureza circundante.
Nos estudos de Medicina cresceram os conhecimentos de Anatomia com a prática
da dissecação de cadáveres humanos, até então proibida pela Igreja Católica. O
sistema heliocêntrico de Copérnico construía uma nova imagem do mundo.
Por fim, não podemos ignorar que a forma de pensar apresentada pelo huma-
nismo associava-se às transformações econômicas que vinham ocorrendo desde a
Idade Média, com o desenvolvimento das atividades artesanais e comerciais dos
burgueses e antigos servos. Essa verdadeira revolução comercial que teve lugar no
século XVI caracterizou-se pelo novo modo de produção capitalista, acentuando a
decadência do feudalismo, cuja riqueza era baseada na posse da terra.

Pensando o Renascimento

Assim como a Idade Moderna, a concepção de Renascimento é uma elabora-


ção mais recente, proveniente do século XIX, e representa a ideia da contempo-
raneidade e do que vigora. Para a historiografia, o Renascimento é uma categoria
que parece sobreviver na diversidade de metodologias históricas e na compreensão
possível de contemporaneidade (QUEIRÓZ, 1995).
Analisando alguns livros ou manuais de ensino de História, observamos que
o Renascimento é comumente apresentado como um movimento marcado por
importante acontecimento artístico-cultural que invadiu o Ocidente a partir do
século XV, quando o período medieval desaparece na bruma que faz romper a mo-
dernidade, com todo o seu vigor voltado ao desenvolvimento das artes, da ciência,
da Política e da Economia.
Assim, o contexto em que surge o Renascimento é apreciado como um mo-
mento de ruptura histórica, quase brusca, com a Idade Média, como uma luz que
ilumina as trevas impostas pelo teocentrismo medieval. O termo Idade Média

capítulo 2 • 46
carrega, de acordo com esta concepção, uma carga negativa, por ser apresenta-
do como um período de apatia que em nada contribuiu para o desenvolvimen-
to humano.
Neste quadro, o Renascimento é pintado como um daqueles momentos his-
tóricos, que por ser muito conhecido e discutido, algumas vezes é mal compreen-
dido. Relacionado a outros importantes conceitos como Humanismo e Reforma
Religiosa, o Renascimento produziu significativa influência na formação do que
chamamos de mundo ocidental.
Umberto ECO (2012) apresenta uma informação que pode ser considerada
para o início de nossa reflexão sobre o Renascimento como movimento histórico
complexo e que merece atenção de historiadores, professores e estudantes. O re-
ferido autor afirma que o período medieval não poder ser considerado como uma
oposição ao Renascimento, pois os homens daquele período não tinham apenas
uma visão sombria da vida, mas, ao contrário, um gosto pela luz. Sendo um mo-
vimento complexo, o Renascimento foi fruto de muitos debates.
Os historiadores mostram-se um tanto ou quanto insatisfeitos com a versão
que enaltece o Renascimento, mesmo que admirem, por exemplo, Michelangelo
e as contribuições desse período. Esta insatisfação contribuiu para que estudiosos
passassem a analisar as transformações engendradas pelo Renascimento como uma
continuidade histórica e não como uma ruptura com a Idade Média, como ainda
verificamos na literatura escolar e em parte da historiografia.
O historiador Peter Burke denomina essa concepção que prega o Renascimento,
como R maiúsculo, como a abrupta ruptura com a Idade Média, de “O Mito
do Renascimento” (BURKE, 2008). Os primeiros a forjarem esta ideia sobre o
Renascimento foram os herdeiros mais diretos da Idade Média, subestimando as
suas contribuições, como filhos que se rebelam contra os pais. A versão que apre-
sentaram do Renascimento era um mito na medida em que apresentava uma des-
crição ardilosa do passado. Para Burke, o termo Renascimento poderia ser usado
como um conceito organizador, com a finalidade didática, mas que não prejudi-
casse a compreensão da Idade Média.

capítulo 2 • 47
Esta ideia de Renascimento é um mito. “Mito” é, evidentemente, um termo ambíguo e é
aqui deliberadamente usado em dois sentidos diferentes. Quando os historiadores se
referem a “mitos”, habitualmente falam de afirmações sobre o passado de algum modo
enganadoras ou cuja falsidade se pode provar. No caso da descrição do Renascimento
por parte de Burckhardt, estes historiadores opõem-se aos vincados contrastes que
ele estabelece entre o Renascimento e a Idade Média, entre a Itália e o resto da Euro-
pa. Consideram que são contrastes exagerados uma vez que ignoram as muitas inova-
ções produzidas na Idade Média, a sobrevivência de atitudes tradicionais no século XVI
e mesmo mais tarde, e o interesse italiano pela pintura e pela música de outros países,
em especial dos Países Baixos (BURKE, 2008, p.10).

Para Burckhardt, o Renascimento caracterizou-se, principalmente, por ser um


período em que a cultura teria se sobreposto tanto ao Estado quanto à religião,
que eram elementos opressores, respaldando, assim, o aparecimento e valorização
do indivíduo moderno. Ao contrário da Idade Média, quando o homem só tinha
consciência de si na condição de membro de um povo, uma etnia, uma família ou
corporação, na Península Itálica foi possível tornar-se um indivíduo espiritual, que
se reconhecia e pensava como tal (MICELI, 2013, p. 35).
O Renascimento não pode ser considerado simplesmente como um recuo à
cultura greco-romana, pelo simples fato de que nenhuma cultura renasce fora de
sua época, e nem como algo isolado no tempo e no espaço. Devemos ser cautelo-
sos ao interpretarmos o ideal de imitação (imitatio) dos antigos, proposto como o
objetivo maior e mais sublime dos humanistas por Petrarca (SEVCENKO,1995).
O historiador francês Pierre Vilar (1988) afirma que os séculos XV e XVI foram na
realidade signatários de inovações mais relevantes até mesmo que o século seguin-
te, o que demonstra que há períodos de “renascimentos” acontecendo ao longo da
História, os quais não estão contidos nem na Idade Média nem no Renascimento.
Baschet (2006), na obra A Civilização Feudal, destaca que os advogados de
uma visão obscurantista da Idade Média surpreender-se-ão ao com os longos “re-
nascimentos” que permearam o período e que o desejo de uma revitalização da
Antiguidade, característica atribuída ao movimento moderno, não é atributo dos
séculos XV e XVI. Baschet, além de retratar a antecipação do Renascimento, tra-
duz tal conceito como o retorno do homem à Antiguidade, porém não por meio
de uma ruptura com os indivíduos e as suas realizações no período medieval, mas
concordando com a noção de continuidade histórica.

capítulo 2 • 48
De maneira um pouco mais radical, Delumeau (1984) acredita que os concei-
tos de Idade Média e Renascimento deveriam ser excluídos dos livros e manuais
de História, pois reforçam preconceitos e dificultam a compreensão do processo
de transição ao corroborarem a ideia de que existiu uma brusca ruptura entre um
período de trevas e uma época de luz.
É indiscutível, portanto, o significado do Renascimento como força de se-
cularização e inovação, capaz de influenciar a vida social e cultural da época.
Compreende-se o papel do Renascimento para libertar não só a sociedade mas
também a mundialidade da Política e da Economia do controle da Ética e da
Teologia tradicionais.

Em que ponto ficamos? Houve de facto um Renascimento? Se descrevermos o Renasci-


mento em termos de púrpura e oiro, como um milagre cultural isolado, ou como o súbito
emergir da modernidade, a minha resposta será “não”. Os arquitetos do Renascimento
produziram obras-primas, mas também os mestres maçons do período gótico o fizeram.
A Itália do século XVI teve o seu Rafael, mas o Japão do século XVIII teve o seu Hokusai.
Maquiavel foi um poderoso e original pensador, mas também o foi o historiador Ibn Khal-
dun, que viveu no norte de África durante o século XIV (BURKE, 2008, p. 16).

Responder a estes e outros questionamentos é a nossa tarefa como historiado-


res por meio de pesquisas que ainda estão sendo feitas, seja para comprovar o que
já foi apontado ou para indicar este momento histórico como um momento de
continuidade histórica e não mais uma ruptura com a Idade Média.

Renascimento na Itália

LEITURA
BURKE, Peter. O Renascimento italiano. Cultura e sociedade na Itália. São Paulo: Nova
Alexandria, 1999. Nesta obra, o historiador inglês Peter Burke analisa a pintura, escultura,
arquitetura, música, literatura e conhecimento acadêmico da Itália, destacando as caracte-
rísticas gerais da cultura e apresentando denso embasamento teórico sobre o fenômeno.

capítulo 2 • 49
Como destaca Burke (1999), apesar de ser imprescindível rever a ideia de
que os italianos foram os mais ativos e criativos durante o período chamado de
Renascimento, em detrimento da passividade e imitação dos demais europeus,
é impossível não começar a analisar a Itália. Neste país, o Renascimento se deu
como resultado de 300 anos de mudanças culturais.
Primeiramente, é importante lembrarmos que a Itália foi a sede do Império
Romano e neste território diversos monumentos sobreviveram desde a Antiguidade,
como, por exemplo, monumentos arquitetônicos, estátuas, arcos de triunfo, o
Panteão, o Coliseu, o Arco de Constantino, o Teatro de Marcelo, dentre outros.
Roma foi o principal alvo do entusiasmo renascentista, uma vez que a Grécia
integrava o Império Otomano, apresentando um acesso mais difícil aos escritores
e poetas. Assim, não é surpreendente que a recuperação da cultura clássica tenha
tido lugar dentre os italianos, que celebravam seus antepassados.

MULTIMÍDIA
Decameron (1970, França - Alemanha – Itália, direção: Pier Paolo Pasolini). Adaptação
de dez contos da obra homônima de Bocaccio, filme apresenta aspectos do cotidiano, da
religiosidade e dos costumes da cidade de Nápoles no século XIV.

Além desta questão geográfica, cabe destacar outros aspectos que favoreceram
o desenvolvimento do Renascimento na Península Itálica. Um ponto que deve ser
considerado é o desenvolvimento comercial e urbano; as cidades italianas tiveram
um grande desenvolvimento comercial, tendo sido governadas ou dirigidas por
uma classe de poderosos mercadores. Estes mercadores, que enriqueceram comer-
cializando via mar Mediterrâneo, sentiram necessidade da implantação da ordem
econômica capitalista, que possibilitava a livre concorrência, o individualismo e
a busca racional do lucro. Enfim, desejavam os novos valores que o pensamento
renascentista refletia.
Alguns eruditos, especialmente de Florença, iniciaram um movimento que
foi considerado por muitos estudiosos como pré-renascentista e denominado
Trecento, que corresponde ao século XIV. O Trecento marca a transição da arte
bizantina para a arte renascentista, todavia os ventos do pensamento humanista
influenciou os artistas e começaram a aparecer nas representações pictóricas cenas

capítulo 2 • 50
cotidianas. Giotto é o primeiro artista a imprimir naturalismo nas suas obras, e é
o nome mais importante do período (BURKE, 2008).
O Quatrocento, equivalente ao século XV, tido como o período áureo da
Renascença, é um momento que marcou a elevação do status do artista, ante-
riormente visto como um operário. A arte passou a ser compreendida como ob-
jeto de valor e os artistas conquistaram respeito e maior autonomia na realização
de suas obras.
Nas artes, o tema central continuou sendo o homem, cujas imagens busca-
vam reproduzir a sua anatomia. O modelo greco-romano foi utilizado na re-
tratação dos santos, dando-se ênfase a aspectos da natureza. O nu entrou como
um elemento natural nesse ambiente, e a técnica se enriqueceu com novas com-
binações de tintas. Florença era neste momento o principal centro renascentista
e, dentre os muitos nomes do período, podemos destacar Leonardo Da Vinci e
Sandro Botticelli.
O século XVI é conhecido na história do Renascimento como o Cinquecento,
para muitos autores é o encerramento do Renascimento e a passagem para o
Maneirismo e o Barroco. A Itália, na realidade, chegava ao auge da efervescência
artística e literária. O humanismo penetrava nas universidades europeias de ma-
neira contundente. As cidades abrigavam muitos artistas, protegidos pelos me-
cenas. Com o interesse da Igreja pelas artes, Roma transformou-se no principal
centro cultural da Península Itálica (CORK; FARTHING, 2011).
Neste período, o realismo expresso em cada detalhe dos corpos ganha evi-
dência, o brilho das pinturas do Quatrocento vai dando lugar às cores mais es-
curas. É um momento de grande produção literária, com Gil Vicente, Luís de
Camões, Maquiavel, mas também de desenvolvimento no campo das ciências
com Copérnico, Galileu Galilei e Giordano Bruno. Começavam, também, novos
questionamentos e o afastamento da antiguidade clássica. O maior artista do pe-
ríodo foi Michelangelo (BURKE, 2008).
As universidades na Itália rapidamente romperam com a escolástica substi-
tuindo-a pelo humanismo. O racionalismo grego retorna às discussões intelec-
tuais devido ao contato com os autores clássicos. Todos os valores tidos como
sagrados durante a Idade Média foram rediscutidos à luz do espírito crítico. Com
a iminente queda de Constantinopla em virtude do avanço dos turcos, muitos
sábios bizantinos refugiaram-se na Península Itálica, difundindo a cultura oriental,
preservada em Bizâncio. Este deslocamento de intelectuais foi uma importante
contribuição ao movimento renascentista.

capítulo 2 • 51
O declínio do movimento renascentista italiano foi motivado pela crise eco-
nômica das cidades, provocada pela perda do monopólio sobre o comércio de es-
peciarias, pela Reforma Religiosa, e sobretudo, a Contrarreforma. Toda a polêmica
que se desenvolveu, como veremos, pelo embate religioso fez com que a religião
voltasse a ocupar o principal espaço da vida humana na Itália (QUEIRÓZ, 1995).
Ao mesmo tempo, a Igreja Católica elaborou um grande movimento de re-
pressão, apoiado na publicação do Index e na retomada da Inquisição, que atingiu
todo sujeito que, de alguma forma, se opusesse à Igreja. Como o movimento
protestante não existiu na Itália, a repressão recaiu sobre os intelectuais e artis-
tas renascentistas.

Expansão do Renascimento

Artistas e intelectuais europeus acreditavam que o movimento renascentista


italiano era um modelo, um paradigma a ser seguido. Entusiasmados e influencia-
dos pelos novos elementos estéticos, viajavam para as cidades italianas buscando
conhecimentos e, também, inspiração (MICELI, 2013). Nesse processo de inter-
câmbio cultural, o papel da imprensa foi significativo, pois favoreceu a circulação
das inovações e ideias.
Nos Países Baixos, a entrada das ideias e da estética renascentistas foi lenta e
difícil. Todavia, o crescimento econômico proporcionou o desenvolvimento das
artes, especialmente a pintura. A prosperidade flamenga e os costumes da socie-
dade foram retratados em todos os detalhes. Assim, artistas, como E. Van Eyck,
propuseram um tipo de pintura inserida na linha do realismo minucioso, ainda
dominado pelas formas góticas (CORK; FARTHING, 2011).
Cabe destacar que o pensamento humanista ganhou muito com a obra de
Erasmo de Roterdã, que apresentou severas críticas à sociedade da época, espe-
cialmente à Igreja e ao clero, em seu livro Elogio da Loucura. Erasmo também fez
uma tradução do Novo Testamento, em 1516, buscando aproximar-se ao máximo
do original. Não concordava com a erudição dos nominalistas e dos tomistas, que,
para ele, só se preocupavam com disputas interpretativas e filosóficas.

COMENTÁRIO
O holandês Erasmo de Roterdã foi, sem dúvida, uma figura bastante influente na reforma
do processo educacional no século XVI. O príncipe dos humanistas afirmava, primeiramente,

capítulo 2 • 52
que seu objetivo era retirar os jovens da estagnação da ignorância, opondo-se tanto ao mé-
todo da escolástica, seguido em todas as escolas da Europa, e à esterilidade das aulas, como
também, e de maneira especial, à brutalidade da disciplina coercitiva. O humanista voltou
suas atenções para as crianças especialmente na obra Sobre o ensino de boas maneiras
para crianças, apresentando soluções para problemas do cotidiano infantil que ainda era mis-
terioso para os adultos, problemas para os quais todos os jovens deveriam estar preparados
para poder viver humanisticamente.

Em Portugal, o Renascimento manifestou-se especialmente na literatura,


que podemos observar na exaltação dos feitos náuticos nos versos dos poe-
tas. A influência italiana traduziu-se nos sonetos de Sá de Miranda. Luís de
Camões, em sua epopeia Os lusíadas, narrou as aventuras de Vasco da Gama
no caminho das Índias, inspirando-se nos poemas épicos atribuídos a Homero,
a Odisseia e a Ilíada, combinando mitologia grega com a história de Portugal
e elementos da cultura cristã. O teatrólogo Gil Vicente reformulou o teatro
português retratando em suas peças os costumes lusitanos, criticando aspectos
da sociedade, como a religião.
Na Espanha, o autor Miguel de Cervantes escreveu uma famosa sátira à deca-
dência da cavalaria e dos costumes medievais na obra Dom Quixote de La Mancha,
apresentando as transformações sociais pelas quais passava a Espanha. Calderón
de La Barca produziu obras para o teatro, entre comédias, tragédias e autos reli-
giosos, abordando aspectos da pobreza em tom dramático. A pintura espanhola
ficou conhecida pela obra de Luís de Morales, conhecido como o Divino, autor de
diversas pinturas religiosas como Madonas e Imagens de Mater Dolorosa.
Além da literatura, na Península Ibérica, os conhecimentos técnicos e cien-
tíficos difundidos durante o Renascimento tornaram possíveis a construção de
embarcações melhores e o desenvolvimento de técnicas de navegação. Portugueses
e espanhóis lançaram-se ao mar e desvendaram outras terras na Ásia e na América.
Mesmo que Espanha e Portugal fossem ligados política e economicamente à Itália,
não aderiram a todos os valores do Renascimento, reagindo contra as ideias de
Erasmo e contra o paganismo presente nas pinturas e esculturas (HELLER,1982).
Na Europa Central, os Estados alemães encontravam-se em franco desenvol-
vimento, as navegações no Mar do Norte formavam núcleos de riqueza, onde flo-
resciam movimentos artísticos e culturais. Os estudos nas universidades levaram
à concepção de teorias astronômicas, como as do alemão Johannes Kepler e do

capítulo 2 • 53
polonês Copérnico. Ambos desenvolveram a tese heliocêntrica, porém Copérnico
acreditava que a órbita dos planetas era circular, enquanto Kepler defendia que as
órbitas eram elípticas.
Na Alemanha, o crescimento das ideias renascentistas e a influência italiana
foi cerceado pela divisão política e religiosa da região. O misticismo e a religiosida-
de alemães estiveram presentes nas pinturas e xilogravuras de Albrecht Dürer, in-
fluenciado pelo gótico e, depois de sua viagem à Itália, por artistas italianos como
Bellini e Da Vinci, e nos retratos realizados por Hans Holbein (MICELI, 2013).
O Renascimento inglês destacou-se mais na literatura, tendo como principais
nomes Thomas Morus e William Shakespeare. Morus é o autor de Utopia (do
grego “lugar que não existe”), obra de grande relevância para o humanismo e que
influenciou Erasmo de Roterdã, que manifestou os mesmos ideais. Nesse livro,
Morus descreve uma sociedade imaginária, perfeita, em que não existem diferen-
ças, guerras, intolerância religiosa e tirania. William Shakespeare é considerado
grande teatrólogo até os dias atuais e nos legou inúmeras obras que trazem dis-
cussões filosóficas e psicológicas em suas tramas. Ainda hoje são encenadas obras
de Shakespeare, como Romeu e Julieta, Hamlet, O Rei Lear, Júlio Cesar, Otelo e
muitas outras.
O inglês Francis Bacon defendeu o método de experimentação e o método
indutivo para o desenvolvimento da ciência. O seu compatriota Willian Harvey
se dedicou à pesquisa da circulação sanguínea e descobriu a função do coração.
Os franceses tiveram contato com a produção italiana e com os clássicos dos
Renascimento; todavia, as controvérsias religiosas foram o principal entrave dos
artistas e contribuíram para que no século XVI, a arte gótica ainda sobrevives-
se. Durante o reinado de Francisco I, a arte italiana foi apreciada e patrocinada
pelo rei.
As sátiras contra a Igreja, a escolástica e os costumes sociais foram os temas
centrais do escritor francês François Rabelais na obra Gargântua e Pantagruel,
publicada em 1534. A defesa da natureza humana elaborada por Michel de
Montaigne na obra Ensaios em que apresenta, ainda, sua filosofia cética a qual-
quer dogma ou verdade definitiva.
Esses intelectuais abriram caminho para o desenvolvimento do classicismo,
movimento artístico e literário que considera a tradição dos clássicos gregos e
romanos, e alcançou seu ponto áureo na França. Pouco depois esse país transfor-
mou-se no novo centro cultural da Europa, liderando as pesquisas e a renovação
artística (MICELI, 2013).

capítulo 2 • 54
Renascimento artístico

Apesar do que já discutimos até aqui acerca do Renascimento, é importante


refletirmos um pouco mais sobre as questões artísticas deste importante movi-
mento. Na Idade Média, os estilos artísticos tinham basicamente uma conotação
religiosa, cujo objetivo era despertar nos fiéis o temor a Deus e fazê-los refletir
sobre a vida após a morte e a salvação da alma.
A arte no Renascimento, ao contrário, passa a expressar as inquietações sur-
gidas com o desenvolvimento comercial e urbano. Os principais temas eram a
dignidade, a individualidade e a racionalidade do homem. As primeiras mani-
festações deste novo estilo apareceram no norte da península Itálica, com Giotto
di Bondone.
O novo homem pensado pelo Renascimento para habitar um novo mundo
substituiu o medo religioso, que lhe dificultava o caminhar, pela fé na racionali-
dade como elemento capaz de modificar todas as esferas de sua vida. Essa valo-
rização da capacidade de conhecer o mundo pelo uso da razão revelou o interes-
se pelo universo humano e gerou uma concepção de vida que ficou conhecida
como humanismo.
Para expressar a profunda fidúcia no homem, o artista buscou como modelo
a antiguidade clássica. A escolha de tal repertório se explica pelo destaque que
aquela sociedade atribuía ao homem, à vida terrena e à razão. Dos gregos e lati-
nos reavivaram a noção de equilíbrio, a certeza de que só através da inteligência
e da razão seria possível atingir a beleza, o bem e a verdade. A valorização desses
aspectos foi na obra renascentista intensamente alimentada pela forte influência
do desenvolvimento científico que a humanidade vivia. A observação meticulosa
e o hábito de analisar com exatidão os fatos e a natureza passaram a ser encarados
como uma espécie de etapa do trabalho artístico, especialmente nas artes plásticas.
Durante o Renascimento nasce a prática de pintar retratos, que ganhou espe-
cial destaque, como vimos, pelo desejo de promoção dos burgueses que contrata-
vam pintores para reproduzirem a sua imagem, geralmente em espaços internos,
cercado por seus objetos pessoais para que esse ambiente evidenciasse sua posição
social. Além disso, o homem e a natureza começaram a ser pintados juntos.
Renasce, também, a prática de reproduzir o corpo humano, comum na arte
da Antiguidade Clássica e praticamente proibido na Idade Média, na maioria das
vezes nu, perfeito e belo em sua forma física. O corpo humano passou a ser visto e

capítulo 2 • 55
apreciado, como fonte de beleza e realização, como se a vida ideal, antes reservada
para após a morte, estivesse agora palpável, ao alcance do homem.
Dentre as características da pintura renascentista, podemos destacar o natu-
ralismo, que é a representação do homem em sua beleza natural, o realismo, no
qual as imagens representam as formas como são observadas pelo artista, e, como
vimos, o desenvolvimento de retratos, refletindo o individualismo do homem
do renascimento.
Com relação às novas técnicas de pintura, destaca-se a perspectiva, representa-
ção do espaço em profundidade, técnica baseada na Geometria, que representa os
objetos em três dimensões, de tal modo que, quanto maior a distância entre eles
e o observador, menores aparecem reproduzidos na tela. Essa técnica, podemos
afirmar, expressava uma nova visão de mundo. Além da perspectiva, podemos
destacar o Sfumato, que foi elaborada por Leonardo da Vinci e consiste no esmae-
cimento dos contornos, num jogo de luz e sombra que dão a ilusão de distancia-
mento, o uso do contraste claro-escuro, a representação geométrica das figuras
(pirâmide), que oferecem equilíbrio ao conjunto e, ainda, o uso da tinta a óleo
(CORK; FARTHING, 2011).
A escultura no Renascimento passa a ser uma peça separada da arquitetura, a
harmonia, a profundidade e perspectiva, também contribuem para esta manifes-
tação artística, além, claro, do realismo, presente no rigor anatômico, cujo melhor
exemplo é o Davi, de Michelangelo. Do ponto de vista arquitetônico, o equilíbrio
e a simetria conquistaram espaço e a verticalidade gótica passou para linhas mais
horizontais, sendo elementos arquitetônicos deste período o arco de volta perfeita,
a abóbada de berço, a cúpula e as justaposições de ordens arquitetônicas, como a
dórica, jônica e coríntia.
Na literatura vamos encontrar como principal característica do Renascimento
a busca de ideias como ordem, regularidade e precisão formal, marca característi-
ca da produção greco-romana. Do mesmo modo, devemos destacar a opção por
assuntos considerados nobres, como grandes atos heroicos, tal como faz Luís Vaz
de Camões em “Os Lusíadas”, em que enaltece a viagem de Vasco da Gama às
Índias, e o hedonismo, ou seja, a valorização dos prazeres sensoriais em oposição
ao pensamento medieval que associava o pecado aos prazeres materiais.
Com a Renascença, o artista adquiriu prestígio social perante a burguesia,
que contrata seus serviços. Ao mesmo tempo, com o desenvolvimento de novos
materiais, como a tinta a óleo, surgem as telas, o que facilitou a comercialização
dos quadros e esculturas, agora mercadorias (HELLER, 1982).

capítulo 2 • 56
Renascimento e educação

Erroneamente, alguns estudiosos negligenciam a importância dada pelo


Renascimento à educação. Durante esse período ocorreu também uma virada na
história da educação e da pedagogia, graças aos ideais antropológicos, dos quais
a educação se tornou expressão, e às novas exigências didáticas que colocaram
em circulação.
O homem renascentista tinha muita vontade de romper com as contradições
do passado religioso, e essa vontade também pode ser observada na educação. A
educação buscava bases não religiosas, a fim de se tornar instrumento adequado
para a transmissão dos valores burgueses. Essa educação leiga conduziria o aluno
na busca de sua verdade através do uso da razão. A formação intelectual começou
a ser valorizada e a burguesia, a mais nova camada social, exigia uma ligação do
ensino com as práticas cotidianas. Na região das atuais Itália e Alemanha surgiram
escolas com o objetivo específico de formar os futuros criadores das artes e da
ciência. O conhecimento religioso imposto durante a Idade Média perdera parte
de sua força e fora superado pelo racionalismo.
As universidades, que conservavam suas características medievais e que tarda-
ram a ser penetradas pelo espírito humanista, foram substituídas pelas Academias,
que permitiam um estudo livre e desinteressado.
Todavia, ainda que fosse grande a produção intelectual no Renascimento,
não havia propriamente uma filosofia específica da educação, mas fragmentos
de reflexão pedagógica como parte de uma reflexão filosófica mais ampla. Os
teóricos renascentistas apresentaram algumas ponderações pedagógicas que me-
recem a nossa atenção por mostrarem os caminhos que eram propostos para a
educação das crianças.
Com o Renascimento, ao contrário do que ocorria durante a Idade Média, há
uma maior preocupação dos adultos com as crianças, preocupação essa que se re-
fletirá na elaboração de concepções analíticas, de teorias sobre o desenvolvimento
infantil, o fortalecimento do colégio, lugar social que presencia essa transforma-
ção, o mundo da infância separa-se, definitivamente, do mundo adulto.
O Renascimento Cultural, além disso, foi responsável pelo surgimento de
expressões para designar a infância, mas sem distinção entre as maiores e as me-
nores. Nos colégios, expressões como puer e adolescens eram empregadas indis-
tintamente, pois se, por um lado, já havia uma preocupação e um vocabulário

capítulo 2 • 57
para a primeira infância, por outro, não havia a ideia do que hoje chamamos de
adolescência, só se saía da infância quando se saía da dependência (ARIÈS, 1981).

A longa duração da infância, tal como aparecia na língua comum, provinha da indiferença
que se sentia então pelos fenômenos propriamente biológicos: ninguém teria a ideia de
limitar a infância pela puberdade. A ideia de infância estava ligada à ideia de dependên-
cia: as palavras fils, valets e garçons eram também palavras do vocabulário das relações
feudais e senhoriais de dependência. Só se saía da infância ao se sair da dependência,
ou ao menos, dos graus mais baixos de dependência (ARIÈS, 1981, p. 42).

As ciências avançam

CONEXÃO
Saiba mais em http://www.historiadaarte.com.br/renascimento.html

O desenvolvimento científico do Renascimento negou muitas lendas e mitos


consolidados durante a Idade Média, pois existia uma relativa liberdade de pes-
quisa, o que permitiu o avanço do conhecimento em diversas áreas. A partir da
efervescência intelectual promovida pelo Renascimento, observamos o primeiro
passo para a valorização da natureza e da dinâmica de seus fenômenos. As reflexões
que permitiram que o conhecimento científico fosse efetivado e desvinculado do
aspecto religioso e animista que preponderava antes do nascimento da ciência
foram iniciados com os pensadores renascentistas (FERREIRA, 2015).
Os detalhes da natureza retratados pelo perfeccionismo dos artistas renascen-
tistas como Botticelli são importante legado para a Biologia, especialmente para a
Botânica. A medicina, que durante a Idade Média não teve progresso, foi favoreci-
da pelo poder das universidades e pela experimentação na Anatomia que não mais
sofria as imposições religiosas.
A Química na Renascença teve ainda, mesmo que pareça contraditório, for-
te influência da Alquimia, especialmente com Paracelso, que também era médi-
co. “A alquimia prestou significativa colaboração nas técnicas de metalurgia e de

capítulo 2 • 58
mineração, os primeiros ramos da química a contribuir para os aperfeiçoamentos
tecnológicos” (CHASSOT, 1994, p. 91)
A Matemática foi, dentre todas as ciências, a que teve maior desenvolvimento,
especialmente em virtude da redescoberta dos textos de Euclides que ofereceram
soluções para os problemas com os quais se defrontavam os construtores de cate-
drais e os geógrafos a serviço das expedições de navegadores.
Na Astronomia, que podemos classificar como pré-copernicana, o alemão
Nicolau de Cusa fez considerações importantes, que mesmo não sendo adotadas
no ensino da Astronomia, que continuou seguindo os ensinamentos aristotélico-
-ptolomaicos, podem ser compreendidas como revolucionárias. Nicolau de Cusa
afirmava que a Terra se movia não em uma órbita, mas com um movimento apa-
rente, e que existia vida em outras partes do universo que não a Terra. A teoria
heliocêntrica de que o Sol ocupa o centro do universo, ganhou fundamentação
com o astrônomo polonês Nicolau Copérnico (1473-1543).
Todavia, para muitos historiadores e pesquisadores, o grande nome renas-
centista foi Leonardo da Vinci. Além das artes, dedicou-se à pesquisa intelectual
com a mesma intensidade, foi um homem de saber enciclopédico, conhecedor
de Anatomia, Geologia, Botânica, Hidráulica, Matemática, Óptica, Arquitetura,
Engenharia e Filosofia, ou seja, a expressão do espírito do Renascimento. Ele não
foi um especialista, e por isso simboliza sua época.
Da Vinci realizou estudos a respeito da circulação do sangue, da gravitação
universal, da navegação submarina, da lei da gravidade e do voo de objetos mais
pesados do que o ar. Mesmo sem publicar nenhuma obra, seus cadernos repletos
de notas e projetos de aparelhos mecânicos revelam a grandiosidade desse homem
do Renascimento.

MULTIMÍDIA
Indicação de filme: Galileo (1975, Estados Unidos, direção: Joseph Losey). Filme apresen-
ta a biografia do notável físico italiano, Galileu Galilei, com base na peça teatral homônima
de Bertolt Brecht. O filme dramatiza o julgamento do italiano e sua prisão domiciliar, por
defender a teoria do heliocentrismo.

capítulo 2 • 59
Na Itália também viveu Galileu Galilei, cientista nascido na cidade de Pisa e
que pode ser considerado o fundador, o pai da Física moderna. Estudou a lei da
queda dos corpos e da gravitação universal, e muitas de suas teorias ainda hoje
formam a base da Física. Em suas pesquisas astronômicas, estudou a Via Láctea,
descobriu as manchas solares e os quatro satélites de Júpiter. Porém, a grande
contribuição de Galileu foi a constatação de diferenças entre o conhecimento aris-
totélico, teorias que foram formuladas na antiguidade por Aristóteles e que eram
aceitas sem questionamentos, e a natureza tal como ela era. Para Galileu, as teorias
precisavam ser comprovadas por meio de experiências e observações da realidade.
Apesar da relativa liberdade investigativa, a intolerância ainda se manifestava
e o napolitano Giordano Bruno, um ex-frade dominicano, foi queimado como
herege pela Inquisição. Entre as ideias que Giordano Bruno defendia destaca-se
a de que o universo era infinito e que nele existiam inúmeros mundos habitados.
A influência italiana na cultura europeia foi significativa, pois graças aos mer-
cadores, a produção cultural, científica e tecnológica foi propagada. O desenvolvi-
mento do capitalismo se processava pela Europa e o espírito renascentista o acom-
panhava (BURKE, 1999).
Todavia, com o deslocamento do eixo econômico do Mediterrâneo para o
Atlântico, a expansão marítima ibérica e os problemas religiosos do século XVI,
a intensidade do Renascimento italiano diminuiu. As guerras devastaram a
Península Ibérica. A intolerância traduzia-se na perseguição aos letrados, que fu-
giam ou morriam. A decadência atingiu a Itália e a produção cultural e científica
entrou em declínio.

capítulo 2 • 60
A REVOLUÇÃO COPERNICANA E AS CIÊNCIAS NO RENASCIMENTO
Nas universidades medievais, era ensinada a ideia tradicional do grego Ptolomeu, de
que a Terra está no centro do universo. Acreditava-se que o Sol, a Lua, os planetas e as
estrelas giravam em torno da Terra. A Igreja apoiava essa teoria geocêntrica, afirmando
que ela se baseava em passagens da Bíblia.

Mas o astrônomo polonês Nicolau Copérnico observou o céu noturno a olho nu, execu-
tou cálculos e chegou à conclusão de que a Terra era um humilde planeta girando em
torno do Sol. A teoria heliocêntrica de Copérnico representou uma revolução extraordi-
nária no conhecimento humano. A Europa descobria que a Terra não estava no centro
do universo e que a Igreja Católica não era infalível na hora de falar sobre a natureza.
A obra de Copérnico foi um sucesso total entre os astrônomos renascentistas. Mas a
Igreja sentiu sua autoridade intelectual desafiada e proibiu que se apoiassem as teorias
heliocêntricas.

As novas ideias sobre a natureza e as necessidades econômicas da burguesia deram


partida para a grande era de descobertas e invenções.

Na Matemática, o italiano Cardano criou os números negativos, ou seja, menores do


que zero. O holandês Stevin mostrou que as frações podem ser escritas com números
decimais. Na Física a grande revolução iria acontecer no final do Renascimento, graças
às grandiosas obras, como já destacamos, do polonês Copérnico e do italiano Galileu.
A Química ainda não existia como ciência. O que havia era a Alquimia, que misturava
curiosidade científica com misticismo. Os alquimistas descobriram coisas importantes
como fazer alguns ácidos e tipos de álcool. Mas também perderam muito tempo pro-
curando a pedra filosofal, que será capaz de transformar qualquer metal em ouro. No
século XV foram arquitetadas máquinas importantes, como, por exemplo, a alavanca
de rosca. Outras invenções foram também a máquina de fabricar parafusos de metal
e o torno mecânico movido com o pé por um sistema de correias de transmissão, que
permitia fazer peças e objetos cilíndricos.

capítulo 2 • 61
ATIVIDADE
1- O Renascimento cultural foi um movimento que caracterizou a Idade Moderna e ganhou
esta denominação dos próprios integrantes desse movimento. O que isso revela sobre a
percepção que essas pessoas tinham de sua época?
2- Reflita a respeito das condições básicas que proporcionaram o Renascimento cultural e
científico na Península Itálica.

REFLEXÃO
Como observamos, o Renascimento foi um período de contradições, como o são as épo-
cas de transição. A burguesia, enriquecida, assumia padrões aristocráticos e almejava uma
educação que permitisse formar o homem de negócios, simultaneamente capaz de conhecer
as letras greco-romanas e de dedicar-se aos prazeres da vida. Por outro lado, as escolas e
universidades religiosas espalhavam-se pela Europa.
A sociedade ensejada pelo Renascimento, embora rejeitasse a autoridade dogmática
da cultura eclesiástica medieval, manteve-se ainda intensamente hierarquizada, apesar das
profundas mudanças.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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século XIV ao século XVI. São Paulo: Atual, 1992.
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do feudalismo ao capitalismo: uma discussão histórica. 3. ed. São Paulo: Contexto, 1988.

capítulo 2 • 63
capítulo 2 • 64
3
Novos e velhos
mundos, novos e
velhos impérios
Novos e velhos mundos, novos e velhos impérios
Neste capítulo vamos discutir o período consagrado pela historiografia como
o período das Grandes Navegações que, como mais uma faceta da História mo-
derna, modificou o mundo ao ampliar os contatos e, consequentemente, as trocas
culturais e comerciais.
A necessidade de alimentos, a procura por terras agricultáveis, a ausência de
ouro e prata para alimentar o metalismo, o comércio de especiarias e a expansão
dos mercados consumidores ajudam a explicar a expansão marítima europeia.
Portanto, vamos analisar os aspectos desta aventura que, para muitos, tinha o
caráter de uma cruzada em favor da propagação da fé.

OBJETIVOS
• Analisar os principais fatores contribuintes para a expansão marítima europeia do século XVI.
• Perceber os desdobramentos das Grandes Navegações para o mundo do século XVI.
• Compreender os fatores que contribuíram para o pioneirismo português.
• Entender como ocorreu o desenvolvimento do capitalismo comercial.

Expansão: a única saída

Podemos apontar o século XVI como o século do transporte marítimo, quando


os homens dos seiscentos lançaram-se às águas em razão das dificuldades das via-
gens terrestres e a necessidade de novos territórios fornecedores e consumidores.
Buscavam nesse momento, na realidade, uma maneira de se recuperar da depres-
são econômica dos séculos XIV e XV, por meio da busca de ouro e especiarias. As
técnicas de navegação, praticadas desde o século XII, foram aperfeiçoadas, tornan-
do mais simples a expansão. A princípio foram os rios que receberam os viajantes,
como o Sena, Reno e outros, depois, o afastamento das costas se tornou uma
exigência daqueles que buscavam novas terras (MICLIACCI, 1997).
O período denominado por muito tempo pelos historiadores de “descobrimento”
compreende os desdobramentos das expressivas mudanças ocorridas nas estrutu-
ras da sociedade europeia, ou seja, a efervescência do Mercantilismo, a gestação e
o fortalecimento dos Estados Nacionais, a construção de novos tipos de embar-
cações, mais velozes e seguras, a aquisição de novas técnicas e instrumentos que
alteraram definitivamente a arte de navegar.

capítulo 3 • 66
O MEDO DO MAR
Navegar ainda no XVI era uma tarefa muito arriscada, especialmente quando se tratava
de mares desconhecidos. O medo gerado pela falta de conhecimento e pela imagina-
ção da época era comum. A maioria dos europeus acreditava que o mar pudesse ser
povoado por monstros, animais gigantescos ou que em outros lugares habitavam seres
estranhos e perigosos. Outros, além disso, tinham uma visão da terra como algo plano e,
portanto, finita e impossível de navegar.

LEITURA
Sugestão de leitura: DEL PRIORI, Mary. Esquecidos por Deus. Monstros no mundo euro-
peu e ibero-americano (séculos XVI – XVIII). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

As razões para navegar no século XVI eram diversas, sendo a primeira de-
las a procura por alimentos, pois, como já vimos, a Europa passara por severas
crises, em que a fome e a necessidade de subsistência atormentavam soberanos
e comerciantes. Além da questão comercial existia a crença, herdada da Idade
Média, de que as novas terras seriam espaços do sagrado, um novo Éden habitado
por homens e animais diferentes. Assim, podemos apontar, como já é feito pela
historiografia, que elementos econômicos, sociais, políticos e culturais ajudaram
a expansão marítima e comercial europeia, todos, claro, envoltos pelo ambien-
te renascentista.
A produção agrícola interna não era suficiente para alimentar a população,
que voltava a crescer; simultaneamente, a população rural não era um mercado
consumidor expressivo pois, empobrecida, não seria suficiente para absorver toda
a produção artesanal.
As nações que primeiro centralizaram o poder e se depararam com os proble-
mas que de certa forma foram herdados das crises do período de transição, tenta-
vam buscar novos produtos para enriquecer as atividades da emergente burguesia,
como, por exemplo, a busca de uma nova rota para o Oriente. As mercadorias
mais procuradas vinham do Oriente (Ásia e África) e chegavam à Europa após
percorrerem um longo e difícil caminho por terra e por mar, o que aumentava

capítulo 3 • 67
o seu preço final. Além desta questão, no século XV, o comércio de especiarias
e mercadorias de luxo do Oriente era lucrativo e praticamente exclusividade dos
comerciantes de Gênova e Veneza, o que instigou, por parte dos comerciantes de
outros países, a vontade de romper com o monopólio das cidades italianas, tentan-
do descobrir rotas alternativas para o comércio com o Oriente (RAMOS, 2008).
A descoberta de novas rotas para o Oriente significava, também, a ampliação
de mercados consumidores para os produtos europeus. As manufaturas e o arte-
sanato europeus precisavam ampliar o seu número de consumidores e, portanto,
as necessidades de venda e compra de produtos só poderiam ser satisfeitas com o
aumento do mercado consumidor fora da Europa.
A falta de metais preciosos, necessários ao Mercantilismo, como analisamos,
também pode ser elencada como um fator do processo expansionista. As minas
europeias já estavam esgotadas e não produziam em quantidade suficiente para a
cunhagem de metais, portanto, precisavam explorar novas minas fora da Europa.
Os novos Estados Nacionais Absolutistas tinham interesses, como vimos,
mercantis, e a expansão comercial ampliaria os poderes do monarca, manteria os
privilégios da nobreza e elevaria os lucros da burguesia. Assim, os Estados deram
todo o apoio à expansão marítima.
A Igreja Católica também estava interessada neste empreendimento, já que
significava a possibilidade de garantirem a catequese dos infiéis e pagãos, que
substituiriam os fiéis perdidos para as igrejas Protestantes. Como o contexto que
gestou a expansão era o mesmo que forjou a Reforma religiosa que exigiu um po-
sicionamento da Igreja Católica, ainda influenciada pelo ideal cruzadista de pro-
pagar a fé cristã, é impossível ignorarmos o peso da religiosidade e a justificativa
de conquistar e converter povos não cristãos do mundo. “Cristãos e especiarias”,
teria respondido Vasco da Gama quando interrogado sobre aquilo que buscava na
Índia, em 1519 (RAMOS, 2012).
Era fundamental, portanto, encontrar novas rotas, mas a navegação a longo
curso exigia técnicas mais avançadas que os europeus, acostumados à navegação no
Mediterrâneo, ainda desconheciam, apesar dos conhecimentos náuticos. Algumas
invenções orientais, como, por exemplo, a pólvora e a bússola, foram introduzidas
na Europa pelos árabes e aproveitadas pelos europeus.
Como as condições de navegação no Atlântico eram adversas, aprimoraram
as técnicas de construção de navios e a própria arte de navegar. Diante da neces-
sidade desenvolveram ou aprimoraram roteiros, cartas e mapas indicando rotas e
acidentes geográficos. O advento da imprensa propiciou a reprodução e difusão

capítulo 3 • 68
de cartas de marear e mapas; a bússola e o astrolábio que auxiliavam na leitura
da latitude e da longitude; a caravela, embarcação que poderia percorrer longas
distâncias, graças a sua arquitetura e capacidade de armazenar grande quantidade
de suprimentos; a pólvora, muito importante para a defesa das embarcações e das
feitorias em terras estranhas.
Fica claro, então, que o processo de expansão não pode ser compreendido
como um processo desta ou daquela nacionalidade, deste ou daquele Estado, mas
como um artifício que envolve uma complexa trama de relações que se estendia
por toda a Europa, ocidental e central. Cabe destacar ainda que, longe de ser
apenas econômico ou comercial, envolveu interesses e ações políticas, concepções
filosóficas, alterações linguísticas, conflitos religiosos (NOVAES, 1998).
Foi mais um momento de rupturas, pois além das invenções técnicas, pro-
moveram transformações nas estruturas materiais e mentais que favoreceram a as-
censão do indivíduo em detrimento do anonimato medieval. Com o surgimento
da ideia de indivíduo, nasce um novo homem, cuja autonomia favorece, através
da experiência, a configuração de uma nova ordem econômica e política que se
contrapõe ao caráter ideológico dominante (NOVAES, 1998).

O FINANCIAMENTO
Os ideais expansionistas da já fortalecida burguesia europeia iam ao encontro das neces-
sidades da realeza naquele momento. Os reis das jovens monarquias precisavam de re-
cursos para centralizar a administração, manter o exército nacional e, também, consolidar
fronteiras do Estado que, gradativamente, assumia o papel de interventor na Economia,
acelerando o processo de centralização. Diversos reinos conquistaram uma relativa paz, o
que lhes proporcionou condições para investir na expansão por via marítima.

O comércio, o lucro, as sedas, as especiarias, o desejo de acumular riquezas e aventuras


atraíam os navegadores. Parte do espírito das cruzadas ainda sobrevivia. Nas embar-
cações portuguesas e espanholas, seguiam religiosos com a missão de converter os
pagãos dos novos territórios ao cristianismo. Existia na sociedade europeia uma visão
ainda medieval do universo que acreditava, por exemplo, que abomináveis monstros
marinhos atacavam as naus e que seres fantásticos viviam em lugares escondidos nas
terras ainda desconhecidas.

capítulo 3 • 69
O pioneirismo português

Quando iniciamos o estudo da história de nosso país no Ensino Fundamental,


aprendemos que o Brasil foi “descoberto” por Pedro Alvares Cabral, em 1500.
Mas este fato, antes de mais nada constitui um dos episódios da expansão maríti-
ma portuguesa, cujas raízes estão no século XV (RAMOS, 2012).

CURIOSIDADE
O termo Descobrimento foi usado pela historiografia tradicional latino-americana e ibé-
rica, a partir do século XIX, para aludir à chegada dos primeiros europeus à América e ao
início do processo de colonização do continente. O historiador brasileiro Capistrano de Abreu,
no livro Capítulos de História Colonial, faz as primeiras críticas ao movimento predatório
das bandeiras contra os índios e inaugura uma reflexão a respeito do emprego do termo. A
análise do processo predatório de colonização prosperou e hoje grande parte dos historia-
dores latino-americanos prefere usar conquista ou colonização para designar o processo de
desbravamento da América pelos europeus (SILVA; SILVA, 2009).

Mas por que um pequeno país da Península Ibérica lançou-se pioneiramente


à expansão no século XV? A resposta para esta pergunta pode parecer, ao primei-
ro olhar, ingênua, mas não é única e está relacionada a uma série de fatores. As
causas da expansão portuguesa já foram exaustivamente discutidas pela historio-
grafia, sendo, portanto, inútil procurar exclusividades (WEHLING; WEHLING,
2000). O importante é entendermos que se combinaram fatores econômicos, po-
líticos e religiosos.
Primeiramente, Portugal se firmava na Europa como um país com a política
centralizada e autônomo, autonomia essa que contribuía para que voltasse suas
atenções para o exterior, por questões de fornecimento e comércio. Essa estabilida-
de política, favorecida pela aliança entre a dinastia de Avis, a burguesia e a nobreza,
e a experiência dos portugueses com o comércio de longa distância, acumulada
especialmente com o contato com o mundo islâmico do mediterrâneo, atraía os
comerciantes europeus (MARQUES, 1987).
Entre os séculos XV e XVI, Portugal foi o país unificado que melhor enfren-
tou a crise e esteve menos sujeito a convulsões e disputas, ao contrário de outros

capítulo 3 • 70
reinos unificados, como França, Inglaterra e Espanha, que estiveram envolvidas
em guerras e complicações dinásticas (BOXER, 2002).
Esta tranquilidade deveu-se à consolidação do poder real. A monarquia portu-
guesa foi estruturada a partir de 1139, por D. Afonso Henriques, que deu início à
dinastia de Borgonha, que permaneceu no poder até 1383. Assim, precocemente
os portugueses buscaram consolidar sua emancipação política, contribuindo para
a solidificação do reino de Portugal e para o fortalecimento da autoridade do mo-
narca. A centralização política portuguesa se completou com a Revolução de Avis,
ocorrida entre 1383 e 1385, quando a população, inclusive os burgueses, auxilia-
ram na solução do problema de sucessão dinástica quando o rei de Castela entrou
em Portugal para assumir o trono. O assassinato de um burguês desencadeou a
Revolução que não foi um simples levante, mas a libertação de Portugal e a sua
entrada definitiva na Idade Moderna (RAMOS, 2012). No conflito, firmaram-se
simultaneamente independência do pequeno país e a ascensão ao poder da figura
central da revolução, D. João, conhecido como o mestre de Avis, filho bastardo
do rei Pedro I.
Apesar de alguns historiadores afirmarem que a Revolução de Avis foi uma
revolução burguesa, ela resultou, na verdade de uma política colocada em prática
pelo mestre de Avis, em um esforço de centralização do poder monárquico. O que
verificamos é uma nobreza que se adaptou aos interesses régios, sendo apontada
por alguns autores como “nova nobreza de corte”, mais dependente dos favores
reais e da administração pública. E, realmente, a nobreza representou, depois, um
braço da burocracia muito útil ao assumir os cargos superiores da administração
colonial (WEHLING; WEHLING, 2000).
Resolvida a questão com Castela, renovada a nobreza e diante da ânsia da bur-
guesia, sob o comando de D. João I, a cruzada contra os infiéis foi retomada como
forma de direcionar a belicosidade da velha nobreza. Os lusos direcionaram seus
olhos para o norte da África, dando início à expansão ultramarina.
A posição geográfica de Portugal, com seus ancoradouros naturais, favoreceu
o seu pioneirismo. O pequeno território português está localizado na região mais
ocidental da Europa continental e por isso os seus portos eram utilizados como
escala para navios que interligavam a Península Itálica e o Mar do Norte. Com
todo o litoral voltado para o Atlântico, o país tinha nas atividades marítimas uma
importante base econômica especialmente com a pesca de bacalhau. Como desta-
cou Braudel, Portugal soube usar a sua posição geográfica para controlar a “econo-
mia-mundo” (BRAUDEL, 1996).

capítulo 3 • 71
Embora a posição geográfica de Portugal explique a intimidade do povo com
a navegação, não justifica totalmente o pioneirismo; a questão, como veremos, é
mais complexa.
Esta vontade de desbravar os mares que banhavam o país fez com que os
portugueses desenvolvessem os estudos náuticos e criassem o que hoje chamaría-
mos de centro de pesquisas, a Escola de Sagres, no sul de Portugal. Fundada pelo
infante D. Henrique, filho do rei D. João I, concentrou o desenvolvimento dos
conhecimentos náuticos acumulados com as experiências das expedições às costas
africanas. As perspectivas de êxito e a atração do comércio fizeram de Sagres o
principal centro do esforço expansionista, aglomerando numerosos pilotos, car-
tógrafos e astrônomos, cujos trabalhos favoreceram o avanço da arte de navegar.
O apoio do monarca deu-se de forma direta por meio da participação do infante,
cujas iniciativas em relação às navegações foram decisivas, sendo por isso chamado
por muitos cronistas de o Navegador.
A Igreja Católica incentivou as iniciativas portuguesas por meio do reconheci-
mento da posse das terras alcançadas e riquezas conquistadas. Existia o interesse da
Igreja em converter as populações dessas novas terras. Várias bulas papais garanti-
ram os direitos lusitanos, procurando preservá-los da futura intervenção de outros
países europeus. Assim, cada vez mais se estreitavam os vínculos entre o Estado
português e a Igreja Católica. Como consequência dessa união, novas empreitadas
foram concretizadas no oceano atlântico.
Algo que precisa ser esclarecido é que a expansão portuguesa ocorreu por
etapas ao longo dos séculos XV e XVI com momentos e áreas de interesse es-
pecíficos; portanto, não mais se sustenta a ideia de que tenha existido, desde o
início, um plano para alcançar o Oriente. O sucesso da rota marítima para a
Índia, e mesmo a chegada ao Brasil, por muitas décadas acabaram ofuscando as
realizações anteriores.

A rota marítima para a Índia cumpriu-se em três fases. Na primeira, Diogo Cão des-
cobriu a foz do rio Zaire, no litoral angolano. Na segunda, Bartolomeu Dias, em 1488,
dobrou o Cabo da Boa Esperança, atingindo a tão desejada passagem para o oceano
Índico. Na terceira, em 1498, já sob o rei dom Manuel I, Vasco da Gama finalmen-
te atingiu Calicute, na Índia, completando o ciclo iniciado em 1474 por dom João II.
(WEHLING; WEHLING, p.40)

capítulo 3 • 72
O empenho inicial de Portugal concentrou-se em Ceuta, rica cidade mourisca
que dominava a passagem do Mediterrâneo para o Atlântico. Tanto à nobreza
como à burguesia interessava a incorporação territorial desta localidade e a pro-
babilidade de obter rendas advindas do comércio, já que por Ceuta passavam as
mais importantes caravanas. Além disso, a nobreza pretendia retomar as investidas
contra o islamismo (BOXER, 2002).
Em meio a estas investidas, em 1415, Portugal tomou Ceuta, com a morte
de muitos comerciantes mouros e a conversão forçada, para escapar da morte, de
outros tantos. Porém, o ímpeto religioso que devastou a cidade fez com que a mes-
ma perdesse sua relevância comercial, pois as caravanas mouras passaram a utilizar
rotas que não passavam pela cidade. Frustrada a ação no norte africano, iniciou-se
a política oceânica (RUSSEL-WOOD, 1997).
Em seguida, os lusitanos conquistaram a Ilha da Madeira, em 1425, as ilhas
de Açores, em 1427 e outras regiões no percurso do litoral atlântico africano.
Portanto, as explorações empreendidas, inicialmente, pela costa ocidental da África
tinham como objetivo estabelecer contatos comerciais com centros fornecedores
de ouro, comercializar escravos e mesmo garantir a continuidade da Reconquista,
pois almejava permanecer combatendo os muçulmanos e cristianizar os pagãos.
As expedições avançavam paulatinamente em direção ao sul, realizando levan-
tamento dos mercados e pontos estratégicos. Essas informações possibilitaram a
adoção de uma estratégia mais ampla, avançar com segurança e preservar todas as
“descobertas” sob segredo de Estado. Porém, com a morte de D. Henrique, em
1460, houve uma interrupção na expansão portuguesa, que continuaria somente
com a ascensão de D. João II ao trono, em 1481.
Em 1488, Bartolomeu Dias atingiu o Oceano Indico, ultrapassando o Cabo das
Tormentas, posteriormente chamado de Cabo da Boa Esperança. Em 1497, seguindo
o mesmo caminho de Bartolomeu Dias, Vasco da Gama, completou o périplo afri-
cano, passando por Moçambique e chegando, já em 1498, em Calicute, na Índia. O
grande sucesso da empreitada de Vasco da Gama permitiu que os portugueses pudes-
sem brigar pela hegemonia das especiarias orientais (MICLIACCI, 1997).
A notícia da descoberta do caminho marítimo para as Índias, que há muito era
esperada, causou verdadeira empolgação no reino lusitano, que desejava investir
no lucrativo comércio de especiarias. Em 1500, com o objetivo de consolidar o
domínio comercial nas Índias, a Coroa portuguesa organizou, até então, a maior
e mais bem equipada expedição com milhares de tripulantes e treze embarcações.
Essa poderosa esquadra foi comandada pelo capitão mor Pedro Álvares Cabral

capítulo 3 • 73
e tinha o claro objetivo de travar definitivamente contatos comerciais com esta
nova área. O contato dar-se-ia através do estabelecimento de feitorias, que eram
postos de trocas de mercadorias. Não cabe a este trabalho discutir a intenciona-
lidade ou casualidade do reconhecimento de terras a oeste do Atlântico e se ditas
terras foram visitadas em datas anteriores a 1500. Várias foram as discussões a este
respeito e “todos os esforços até hoje feitos para recuar o descobrimento do Brasil
para antes de 1500 não têm resistido às críticas” (ABREU, 1976, p 40). O que
realmente apresenta relevância é que a chegada da frota cabralina a este território,
sendo intencional ou não, trouxe importantes consequências a Portugal.
Além da questão da intencionalidade ou não de Cabral, outro ponto polêmico
é quanto ao ineditismo da viagem. Alguns documentos posteriormente analisados
por historiadores apontam que antes da viagem de Pedro Alvares Cabral ao Brasil,
houve duas viagens comandadas pelos navegadores espanhóis Vicente Pizón e
Diego de Lepe, os quais percorreram o litoral brasileiro entre janeiro e março de
1500. No entanto, há algumas aberturas que geram polêmicas historiográficas,
pois uma teoria afirma que, em 1498, o explorador português Duarte Pacheco
Pereira, enviado especial de D. Manuel I, teria desembarcado em terras brasileiras,
cuja descrição estaria registrada no livro Sobre os Mares do Mundo escrito por ele
entre 1505 e 1508.
É relevante notar que a expedição liderada por Cabral não foi a última em-
preendida pelos portugueses. Em 1511, eles conquistaram Malaca, no sudoeste
asiático, em 1517, chegaram à China, onde, em 1555, através de um acordo com
o imperador, dominaram a Ilha que passou a ser chamada de Macau. Essa impor-
tante cidade se transformou num ponto estratégico usado pelos lusitanos como
porta de entrada ao Império Chinês (MICLIACCI, 1997).
As rentáveis viagens marítimas organizadas pelos portugueses ao Oriente con-
tribuíram para o surgimento da lucrativa “Carreira da Índia”. Essa viagem ocorria
anualmente, saindo de Lisboa até a cidade de Goa, na Índia. O objetivo dessas via-
gens era comercializar pimenta, principal produto de exportação lusitano para a
Europa. No final do século XVI, Goa era o principal centro comercial do Oriente,
além de concentrar o maior número de portugueses fora do país (RAMOS, 2012).
Controlando o comércio das especiarias, com domínios coloniais e com um
Estado fortemente centralizado, tudo convergia para alçar Portugal a uma posição
de prestígio no cenário internacional. Contudo, Portugal não soube aproveitar por
muito tempo tais vantagens e os extraordinários lucros adquiridos, aos poucos, fo-
ram diminuindo. O grande império constituído era muito dispendioso, gerando

capítulo 3 • 74
mais prejuízos do que ganhos. Perante essa situação, a monarquia portuguesa teve
que pedir empréstimos e adotar uma rígida política fiscal para manter a adminis-
tração das terras conquistadas. Para atrapalhar ainda mais, a evasão populacional,
gerada pela dedicação aos empreendimentos externos, provocou uma drástica que-
da na produção agrícola. Dessa forma, países como Holanda e Inglaterra foram
beneficiados ainda mais com as conquistas portuguesas, pois além de negociarem
os produtos orientais na Europa também lucravam com a concessão de emprésti-
mos bancários (BOXER, 2002).

CONEXÃO
Para compreender mais a respeito do debate historiográfico ao redor da “Atlantic history” leia
o texto Sulcando os mares: Um historiador do império português enfrenta a “Atlantic History”
de A.J.R. RUSSELL-WOOD disponível em http://www.scielo.br/pdf/his/v28n1/02.pdf

Mar Português
Fernando Pessoa
Ó, mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele foi que espelhou o céu.

capítulo 3 • 75
Império no oriente

LEITURA
Sugestão de Leitura: BOXER, Charles Ralph. O império marítimo português: 1415-
1825. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

O tráfico português para as Índias aniquilou o mercado egípcio e arruinou o


comércio de Veneza. O Mediterrâneo não era mais a rota de ligação entre a Europa
e a Ásia, a nova rota era o Atlântico. Por volta de 1504, os venezianos voltavam
com os navios vazios de Alexandria (RAMOS, 2013).
Portugal, com a nomeação de governadores na Índia, conseguiu estabelecer
um verdadeiro império na Ásia. Passaram a controlar e policiar os estreitos, entra-
das de golfos e baías, ilhas e outros pontos estratégicos.
Bases comerciais e militares foram estabelecidas na estrada do Mar Vermelho,
em Calicute, Goa, Timor e Malaca. Toda a Indochina se abria ao comércio oci-
dental. Em 1520 os portugueses atingiram a China e, posteriormente, o Japão.
A conquista ocorreu por meio de diferentes estratégias, como a dominação
religiosa, pois a ligação entre a Coroa portuguesa e a Igreja permaneceu estreita.
Os povos convertidos ao cristianismo, por sua vez, submetiam-se às leis portugue-
sas. Todavia, não podemos esquecer que a dominação religiosa gerou conflitos;
os povos asiáticos, ao contrário de muitos povos americanos, possuíam religiões
estruturadas e institucionalizadas há séculos. Em pouco tempo ocorreram atritos,
inclusive armados, com os praticantes do hinduísmo, budismo, xintoísmo e isla-
mismo (BOXER, 2002).
A construção do império asiático modificou toda a economia europeia, o mo-
nopólio dos comerciantes italianos e mulçumanos foi definitivamente rompido.
As fontes produtoras de especiarias, sedas e metais preciosos estavam abertas atra-
vés da rota Atlântico-Índico.
Todavia, a iminência de revoltas obrigava os portugueses a manter frotas e
exércitos nos portos estratégicos, pois o fim do monopólio veneziano levou os ita-
lianos cristãos a se unirem aos árabes e turcos muçulmanos para combater a ousa-
dia e sucesso dos portugueses. Os gastos provocados por esses embates oneravam

capítulo 3 • 76
os cofres reais e a burguesia se recusava a compartilhá-los; em pouco tempo o
império estava ameaçado de ruir.

O MERCANTILISMO NA PENÍNSULA IBÉRICA


Durante a expansão marítima europeia os Estados europeus colocaram em prática uma
série de ações econômicas que visavam ao desenvolvimento das atividades manufatu-
reiras, cujos resultados financeiros contribuíram para o enriquecimento da burguesia e o
fortalecimento do poder dos monarcas. Desse modo, os países objetivavam acumular mui-
tos metais preciosos e grande parte dos lucros era obtida através da exploração colonial.

As práticas econômicas eram controladas diretamente pelo Estado, que definia as priorida-
des, concedia os monopólios, estabelecia as taxas alfandegárias, incentivava a construção
naval e também atuava na formação e administração do sistema colonial. Portanto, o mer-
cantilismo, deve ser entendido como uma série de ideias e práticas econômicas que fortale-
ceu os Estados Modernos, a burguesia mercantil, as conquistas marítimas e a colonização.

As Coroas Ibéricas acreditaram o metalismo ou bulionismo (palavra derivada do inglês


bullion, que significa metal precioso), por entenderem que a prosperidade da nação
estava relacionada unicamente à acumulação de ouro e prata.

A princípio, os portugueses se dedicaram ao exclusivismo comercial das especiarias


orientais, mas depois sistematizaram a colonização nas terras americanas, passando a
adotar o que chamamos de colonialismo, uma postura de expropriação dos bens mais
lucrativos das regiões coloniais. Na América espanhola o sistema colonial foi quase que
exclusivamente estruturado na extração de metais preciosos, ou seja, no metalismo.
Entretanto, vale salientar que os espanhóis também se dedicaram ao comércio de es-
cravos, a assaltos, às atividades agrícolas e à pecuária.

A hora da espanha

Paralelamente ao processo de expansão marítima, pesquisas discutiam a tese


da esfericidade da terra, agora apoiada nas notícias dos navegadores da costa da
África. Partidário desta hipótese, o genovês Cristóvão Colombo não conquistou o

capítulo 3 • 77
apoio de D. João II para chegar à Índia navegando sempre a oeste e buscava quem
financiasse uma expedição.
A Espanha ainda estava envolvida na Reconquista e apenas em 1492 conseguiu
vencer os mouros em Granada, último reduto árabe na Península Ibérica. Neste
momento, o país ibérico também concretizava, sob a coordenação de Castela, a
sua unificação política e a formação do Estado Nacional, essenciais para o desen-
volvimento das atividades marítimas no Atlântico. Após a expulsão dos mouros,
portanto, os espanhóis se dispuseram a financiar navegações (RAMOS, 2008).
Como Portugal, a localização geográfica do outro país católico da península,
era favorável ao avanço ultramarino. Além disso, havia na Espanha um grupo de
burgueses interessados em investir nos negócios relacionados às navegações e ao
comércio oriental.

LEITURA
Sugestão de Leitura: BETHELL, Leslie (org.). História da América Latina. São Paulo:
Edusp, 1998.

Diante deste cenário, Colombo não teve dificuldades para convencer os reis
espanhóis Fernando e Isabel e iniciou o ousado empreendimento expansionista
espanhol. Colombo desenvolveu um projeto arrojado para a época. Influenciado
pelo espírito renascentista e conhecendo cartografia, apostou na esfericidade da
terra para alcançar o Oriente navegando pelo Ocidente. Evidentemente, hoje, sa-
bemos que ele tinha razão, mas ele não tinha certeza de que entre a Ásia e a Europa
existia um continente, a América. Foi um empreendimento arriscado, rumo ao
desconhecido, uma luta contra a natureza, as lendas e as antigas certezas.
Após abastecimento nas Canárias, a frota de Colombo navegou mais de um
mês até que encontrou sinais de terra. Em 12 de outubro de 1492, as três embar-
cações comandadas por Colombo aportaram na ilha de Guanaani, rebatizada de
São Salvador. Nessa mesma viagem, Colombo descobriu as ilhas de Cuba e São
Domingos. Acreditava que havia chegado às Índias, mas estava num novo conti-
nente, bem distante das terras que pretendiam alcançar, chamando, por isso, seus
habitantes de índios.
Empolgado, retornou à Espanha, onde recebeu diversos títulos e honras. Mais
três viagens foram realizadas, em 1493 e 1498, respectivamente, ao longo da costa

capítulo 3 • 78
da atual Venezuela e pelas ilhas da América Central, numa tentativa de chegar à
China e ao Japão (MICLIACCI, 1997).
Enfrentando atritos com os colonizadores, rejeitando a ideia de que havia
chegado à América, como defendia Américo Vespúcio, e sem sucesso em suas
tentativas de explorar as terras recém-encontradas, segundo alguns historiadores, a
glória de Colombo foi rápida e instantânea.

Conflitos entre Portugal e Espanha

Os dois países ibéricos rivalizavam na navegação do “Mar Oceano”. Graças à


centralização política e ao apoio da burguesia, os Estados ibéricos estavam muito à
frente das demais nações europeias em termos de navegação ultramarina.
A propagação na Europa das informações de que a Espanha havia alcançado as
Índias desencadeou uma intensa disputa entre portugueses e espanhóis, uma vez
que imediatamente os portugueses protestaram a posse das terras, usando como
argumento os privilégios concedidos pelo Papa.
Porém, em Roma a situação não era mais tão favorável a Portugal, o Papa
Alexandre VI, espanhol, estendeu à Espanha os mesmos privilégios dados ao seu
vizinho. Segundo a proposta do pontífice, tal acordo seria oficializado pela Bula
Intercoetera, que, dessa forma, legitimava à Espanha todas as terras localizadas a
oeste e ao governo português as terras situadas a leste do meridiano que passava
cem léguas a oeste da ilha de Cabo Verde.
Temendo que a rota para Oriente fosse prejudicada, Portugal não aceitou a
proposta. Esta negativa de Portugal ameaçava a Espanha que, impossibilitada de
entrar em uma guerra em virtude das sequelas com os recentes conflitos da unifi-
cação, aceitou discutir com os lusitanos. O impasse resolveu-se com a assinatura
do Tratado de Tordesilhas, em 1494. A linha divisória passaria a 370 léguas a
oeste do Cabo Verde. Imediatamente, as demais nações europeias contestaram o
tratado, pois também se atribuíam direitos à navegação e às novas terras.
O Tratado de Tordesilhas foi muito favorável aos portugueses, porque garan-
tiu o domínio sobre o Atlântico Sul, o controle sobre a rota oriental e a posse
das terras que a Coroa portuguesa pudesse encontrar. Essa postura assumida por
Portugal no momento de “divisão” do mundo é, para muitos historiadores, a prin-
cipal evidência de que já sabia da existência das terras continentais, que a seguir
seria a sua principal colônia ocidental.

capítulo 3 • 79
Império otomano

Ao longo de nossa vida escolar, aprendemos que o início da chamada Idade


Moderna se deu com a tomada de Constantinopla pelos turcos otomanos, em
1453, o que nos faz estudar o referido império apenas como tema dentro do
processo de transição da Idade Média para a Idade Moderna. Assim, o Império
Otomano está no que podemos denominar periferia da historiografia, apesar de
sua história ter diversos pontos de intersecção com a história da Europa Ocidental
(FERRO, 1999).
É na Ásia Menor, região da atual Turquia, que está a gênese desse império.
Antes mesmo do despontar do século XIV, os turcomanos, até então dominados
pelos mongóis, emanciparam-se e fundaram uma série de principados, princi-
palmente nas fronteiras bizantinas, sendo que um deles foi fundado por Osmã,
ancestral dos Osmanlis ou Otomanos (PERROY, 1965, p. 74), que instaurou a
dinastia otomana, que deu origem ao nome do império – após o declínio da di-
nastia anterior, a seljúcida, e se tornou a potência dominante não só na Turquia,
mas em todo o mundo muçulmano.
A porção oriental do continente europeu foi palco de muitas conquistas oto-
manas, dos Bálcãs até as portas de Viena. As poucas milhas marítimas que se-
paravam os otomanos da Europa abriam-lhes possibilidades quase ilimitadas de
conquista. Uma vez conquistada Constantinopla, os turcos puderam atravessar
a Trácia e a Macedônia bizantinas, e avançar em direção aos Bálcãs. Os novos
vassalos balcânicos, bem como o imperador bizantino, enviaram aos turcos nu-
merosos contingentes.
Outro aspecto que aproxima otomanos e europeus é o entrave que o avan-
ço dos primeiros provocou no comércio entre Ocidente e Extremo Oriente.
Como os turcos detinham o controle do mundo muçulmano e, portanto, o
acesso ao Extremo Oriente, os ocidentais precisaram encontrar uma alterna-
tiva para o comércio, o que resultou nas aventuras marítimas em direção ao
continente americano.
Em princípios do século XV, os turcos realizaram novos progressos, conquis-
tando a Bósnia e a Valáquia, eliminando uma coalizão dos príncipes cristãos da
Polônia, Hungria e Valáquia, e então coroaram sua conquista com a tomada de
Constantinopla. Outras regiões também foram dominadas pelos turco-otomanos,
como o Oriente Médio, com a conquista da Pérsia, e a África do Norte com con-
quistas até as fronteiras do Marrocos (DEMANT, 2004).

capítulo 3 • 80
A decadência do Império Otomano foi lenta e está ligada ao processo de ex-
pansão marítima europeia, uma vez que o contato dos europeus com os povos
americanos e africanos e as relações produtivas e comerciais ali estruturadas, des-
favoreceu as relações econômicas com os turco-otomanos e também prejudicou a
expansão destes para outras áreas, agora dominadas por europeus.

LEITURA
Sugestão de leitura: GONÇALVES, José Henrique Rollo. O Império Otomano e as Rivali-
dades Imperialistas. In: SILVA, Francisco Carlos Teixeira da; CABRAL, Ricardo Pereira; MU-
NHOZ, Sidnei J. (coord.). Impérios na História. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009.

Expansão francesa

Os franceses lançaram-se ao mar a partir do século XV, mas foi a dinastia Valois
a responsável pela participação francesa no processo de expansão marítima. O mo-
narca Francisco I contestou a partilha do mundo entre Portugal e Espanha e refutou
o direito do sumo pontífice de beneficiar os países ibéricos (MICLIACCI, 1997).
Com a intenção de encontrar uma passagem para o Pacífico através do
Atlântico, Juan Verazzano e Jacques Cartier comandaram as primeiras expedições
francesas. O primeiro viajou até a Nova Inglaterra, em 1524, chegando ao sul
do atual Canadá, enquanto Cartier viajou ao Canadá, em 1534, navegando pelo
rio São Lourenço. Porém, ambas as viagens fracassaram, o que levou Verazzano e
Cartier a se dedicarem à pirataria, principalmente no Brasil. Posteriormente, os
franceses se preocuparam em formar as colônias da América do Norte.
Apesar da entrada tardia no processo de expansão marítima, os franceses sou-
beram aproveitar a integração comercial e, além da exploração das colônias, o
Estado centralizador, especialmente no século XVII, incrementou as suas ativida-
des com as produções manufatureiras. A manufatura de produtos de luxo fez com
que surgissem eficientes companhias de comércio, que receberam fortes estímulos
e concessão de monopólios do governo da França.

capítulo 3 • 81
Expansão Inglesa

No final do século XV, a Inglaterra iniciou sua expansão marítima. A Guerra


dos Cem anos e a Guerra das Duas Rosas haviam atrasado o desenvolvimento ma-
rítimo britânico, que só foi possível com a participação direta da burguesia inglesa.
A dinastia Tudor proporcionou a aliança da Coroa com os banqueiros. A bur-
guesia encontrou apoio para suas pretensões, e, assim, iniciou-se o processo de
navegação, com os navegadores italianos Sebastião e João Caboto, que exploraram
as regiões do Labrador e Terra Nova, no que hoje é o Canadá.
Assim como os franceses, os ingleses eram excelentes piratas e contrabandistas.
Vários navios que cruzavam as costas do Atlântico eram saqueados e roubados
pelos famosos corsários ingleses. Por conseguir grandes tesouros para a Coroa, os
corsários comandavam viagens ao redor do mundo, atingiram o litoral sul-ame-
ricano, a costa ocidental da América Central e do Norte. É importante destacar
que os ingleses procuravam uma passagem para o continente asiático pelo extremo
norte da América e do Mar Norte. A partir do século XVII, a Inglaterra inicia seu
projeto de colonização da região que atualmente pertence aos Estados Unidos
(MICLIACCI, 1997).
Em 1600, foi organizada a Companhia das Índias Ocidentais que inseriu um
centro de negócios na Índia e na Indonésia. Em seguida, os ingleses estabeleceram
entrepostos na Índia e na América. Essas ações resultaram no desenvolvimento
da marinha mercante inglesa e na expansão da exportação. Graças aos Atos de
Navegação, promulgados pelo governo inglês, a marinha mercante se aperfeiçoou
e se modernizou. Em 1651, o primeiro ato foi aprovado por Oliver Cromwell e
estabelecia que os produtos europeus só poderiam ser transportados por navios
ingleses ou de seus países de origem. Dessa maneira, as mercadorias africanas,
asiáticas e americanas só poderiam ser importadas em navios coloniais ou ingleses.
Em 1660 foi aprovado o segundo ato, que especificava que o capitão e no míni-
mo três quartos dos tripulantes dos navios tinham que ser britânicos. Para alguns
historiadores, essas duas medidas, juntamente com o tráfico de escravos, foram
fundamentais para a prosperidade do Estado inglês e para o desenvolvimento da
Economia (THEODORO, 1994).

capítulo 3 • 82
COMENTÁRIO
A adesão tardia da França e da Inglaterra na corrida marítima pode ser justificada pe-
las dificuldades provocadas pela Guerra de Cem Anos (1337-1453), que envolveu os dois
países. Como analisamos, a unidade político-administrativa era um dos pontos básicos para
os ousados projetos expansionistas, como foi o caso dos países ibéricos, pioneiros nos em-
preendimentos marítimos. Assim, quando a França e a Inglaterra solucionaram os problemas
políticos, puderam entrar na expansão ultramarina.

Expansão holandesa

A Holanda iniciou suas conquistas marítimas apenas em meados do século


XVI. Após a libertação do domínio espanhol, formaram-se empresas que financia-
vam as navegações, mas as expedições pelo Mar do Norte e de Barents não tiveram
grande êxito.
Nesse período, a Holanda se destacava como revendedora e produtora de
mercadorias no comércio e no continente europeu. Mesmo com os problemas
políticos, os holandeses eram exímios comerciantes e financistas, como foi o caso,
por exemplo, do financiamento da produção açucareira no Brasil, sendo respon-
sável pelo seu refinamento e posterior distribuição na Europa. Além de investir na
indústria manufatureira de açúcar, a partir da segunda metade do século XVI a
Holanda se dedicou ao lucrativo empreendimento do tráfico de escravos africanos
para América.
Percebemos, assim, que na Holanda, a política mercantilista desenvolveu-se
por intermédio de uma forte burguesia mercantil e bancária. O mercantilismo
holandês foi fundamentado na Companhia das Índias Orientais, responsável pelo
controle dos negócios holandeses no Oriente e pela exploração de riquezas e bens
de regiões coloniais; nas atividades bancárias ofereciam linhas de crédito e moedas
de vários países aos comerciantes e, por fim, na frota mercante transportava volu-
mosas cargas nos trajetos marítimos (RAMOS, 2008).

O desenvolvimento comercial e artesanal

Como verificamos, a crise que assombrou a Europa nos séculos XIV e XV,
no momento de transição da Idade Média para a Moderna, contribuiu para a

capítulo 3 • 83
desarticulação de grande parte dos elementos que constituíam a sociedade favo-
recendo a intervenção do Estado, ainda muito jovem, para superar os problemas
surgidos; e para a formação e fortalecimento da burguesia, o desenvolvimento
das cidades, o aumento da produtividade agrícola e artesanal, a intensificação do
comércio e o aparecimento do sistema financeiro (BRAUDEL, 1996).
O comércio interno europeu, nesse momento de transição para a Idade
Moderna, não era muito diverso ao praticado no período medieval. Exceto pelas
dificuldades de comunicação entre as diversas regiões, havia uma tendência à au-
tossuficiência, ou seja, cada localidade produzia os bens necessários ao mercado
consumidor local. Apesar disso, quantitativamente, podemos afirmar que o co-
mércio conheceu certa prosperidade, tendo como principais centros: Antuérpia,
Amsterdã e Londres, especialmente a partir do século XVII.
Na realidade, as grandes transformações comerciais ocorreram no plano in-
ternacional, com os europeus desbravando e organizando um circuito mercantil,
pela primeira vez, mundial. A princípio, a Índia foi a área mais importante dessa
rede, por conta de especiarias ali produzidas. Rapidamente, os altos lucros obtidos
com o comércio das especiarias chamaram a atenção de franceses, holandeses e
ingleses, que passaram a concorrer com os portugueses, os primeiros europeus a
chegarem à Índia.
Outro importante fluxo comercial estabelecido envolvia os três continentes,
África, América e Europa, e ficou conhecido como comércio triangular, no qual
a África fornecia escravos, que eram vendidos na América, e comprava tabaco,
rum, armas e tecidos dos europeus; a América fornecia metais preciosos, açúcar,
algodão, tabaco, rum, cereais, madeira e peles; e a Europa fornecia produtos ma-
nufaturados. Esse comércio triangular garantiu uma surpreendente dinâmica ao
comércio mundial da época moderna.
Além do desenvolvimento comercial, com a Idade Moderna ocorreu um sig-
nificativo crescimento das manufaturas na Europa, que ainda não conhecia o pro-
gresso técnico e o aumento de produtividade que conseguiria na segunda metade
do século XVIII.
Este desenvolvimento foi incentivado pelo crescimento populacional e a ex-
pansão territorial, que pressionou o setor produtivo para intensificar suas ativi-
dades. Assim, a indústria artesanal precisou expandir-se, abandonando o sistema
de corporações de ofício e desenvolvendo um novo sistema: o sistema doméstico.
Todavia, cabe lembrar que o sistema de corporações de ofício, que sur-
giu ainda na Idade Média, não foi extinto nesse momento por ser facilmente

capítulo 3 • 84
controlado pelo Estado, que tentava administrar todas as atividades econômi-
cas. Cada corporação de ofício era dirigida por um conjunto de regulamentos
que estabeleciam as matérias-primas a serem usadas, as técnicas produtivas, a
qualidade e, também, o preço de venda da mercadoria. Com este controle, as
corporações sobreviveram até a industrialização do século XIX, tendo vida mais
curta apenas na Inglaterra e na Holanda.
Os comerciantes, para escapar das regulamentações e garantirem bons preços,
criaram o sistema doméstico, uma forma de organização em que o artesão não es-
tava ligado à corporação e trabalhava em sua própria casa. Para isso, o comerciante
entregava ao artesão a matéria-prima e pagava-lhe por unidade produzida. Desse
modo, ele era o dono da mercadoria, podendo vendê-la da maneira que mais lhe
interessasse. Os comerciantes, portanto, não atuavam apenas na comercialização
de produtos, mas também na sua produção.

Capitalismo comercial

ATENÇÃO
Não esqueça que o desenvolvimento do capitalismo comercial, durante a época moder-
na, esteve relacionado tanto com o crescimento econômico que ocorreu na Europa entre os
séculos XI e XIII, quanto com a crise econômica dos séculos XIV e XV.

O desenvolvimento comercial contribuiu para a estruturação de uma nova


camada social, a burguesia, o renascimento da vida urbana, o aumento da pro-
dutividade agrícola e artesanal, a ativação do comércio e o surgimento do sistema
financeiro. O segundo elemento, a crise do final da Idade Média, desarticulou a
estrutura social europeia exigindo uma intervenção do Estado, recém-criado, para
sanar os problemas surgidos (BRAUDEL, 1996).
Preliminarmente, importa registrar, no âmbito do sistema produtivo, a for-
mação de um capitalismo mercantil como novo modelo de desenvolvimento das
forças materiais em que o capital é o instrumento essencial das atividades reais.
Assim, o sistema econômico nascido da crise do final do período medieval pode
ser definido como um sistema econômico fundamentado na propriedade priva-
da dos meios de produção, que eram empregados de modo a se reproduzirem

capítulo 3 • 85
continuamente. Os indivíduos sem capital juntaram-se ao sistema colocando à
venda a única coisa que possuíam, a sua força de trabalho, entendida como uma
mercadoria e, portanto, tendo valor variável, conforme sua oferta e procura.
Vendendo sua força de trabalho, o indivíduo, até então desprovido de di-
nheiro, passa a ter condições para consumir mercadorias, aumentando o lucro
dos comerciantes, que, para manterem seus negócios, continuam consumindo a
mercadoria trabalho, perpetuando-se, assim, o sistema.
Na história do capitalismo, a relativa importância dos setores econômicos
muda, existindo, em cada fase, uma atividade principal, responsável por gerar
mais lucros; tal situação possibilita a acumulação e, consequentemente, a expansão
do sistema. Deste modo, entre os séculos XV e XVIII, a atividade principal foi a
mercantil, daí utilizarmos o termo ‘capitalismo comercial’.

ATIVIDADE
1. Explique qual o significado econômico e cultural da Expansão Marítima para o mundo ocidental.
2. Reflita a respeito dos fatores que contribuíram para que a expansão europeia dos séculos
XV e XVI tivesse como ponto de partida a Península Ibérica.

REFLEXÃO
O Estado moderno se assentava sobre três elementos básicos, o centralismo, o mer-
cantilismo e o colonialismo. Ele foi elaborado e consolidado pela aliança entre monarcas e a
burguesia mercantil. Para essa camada social, a figura do soberano que centralizava o poder
em um amplo território era útil, por estabelecer a ordem da qual essa classe necessitava para
se desenvolver economicamente.
A aliança era vantajosa aos dois lados, uma vez que a padronização da moeda, dos pesos
e das medidas fortalecia também o tesouro real e, assim, os reis poderiam contratar exércitos
mercenários que garantissem o cumprimento de suas determinações, não dependendo mais
dos soldados cedidos pelos nobres, como era desde a Idade Média.
A verdadeira revolução comercial, promovida pela expansão territorial facilitada pela na-
vegação ultramarina, assumiu um caráter global e teve uma importância fundamental para
o futuro desenvolvimento industrial. Ao concentrar a riqueza na mão da burguesia, o capi-
talismo comercial alterou o equilíbrio social e aumentou o número de miseráveis na Europa
moderna e, também, em suas colônias.

capítulo 3 • 86
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ABREU, João Capistrano de. Capítulos de História colonial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976.
AMADO, Janaína; FIGUEIREDO, Luiz Carlos. A Formação do Império Português (1415-1580). São
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BOXER, Charles Ralph. O império marítimo português: 1415-1825. São Paulo: Companhia das
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BRAUDEL, Fernand. Civilização Material, Economia e Capitalismo: séculos XV e XVIII. São Paulo:
Martins Fontes, 1996.
DEL PRIORI, Mary. Esquecidos por Deus. Monstros no mundo europeu e ibero-americano (séculos
XVI –XVIII). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
DEMANT, Peter. O mundo muçulmano. São Paulo: Contexto, 2004.
FERRO, Marc. A manipulação da História no ensino e nos meios de comunicação. São Paulo:
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GONÇALVES, José Henrique Rollo. O Império Otomano e as Rivalidades Imperialistas. In: SILVA,
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História. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009.
HOLANDA, Sérgio Buarque de. Visão do Paraíso. São Paulo: Brasiliense, 2000.
LOCKHART, James; SCHWARTZ, Stuart. A América Latina na época colonial. Rio de Janeiro:
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MARQUES, Antônio Henrique R. de Oliveira. Portugal na Crise dos séculos XIV e XV. Lisboa:
Presença, 1987.
MICELI, Paulo. O ponto onde estamos. Campinas: Editora Unicamp, 1997.
__________. História Moderna. São Paulo: Contexto, 2013.
MICLIACCI, Paulo. Os descobrimentos. São Paulo: Scipione, 1997.
NOVAES, Adauto (org.). Experiência e destino. A descoberta do homem e do mundo. São Paulo:
Companhia das Letras, 1998.
PERROY, Édouard. História geral das civilizações. Volume III. São Paulo: Difusão Europeia do Livro,
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RAMOS, Fabio Pestana. Por mares nunca dantes navegados: a aventura dos descobrimentos. São
Paulo: Contexto, 2008.
__________. Em busca de cristãos e especiarias. Santo André: FPR/PEAH, 2012.
RUSSEL-WOOD, A. J. R. Portugal e o Mar: um Mundo Entrelaçado. Lisboa: Assírio & Alvim, 1997.
SILVA, Kalina Vanderlei; SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de conceitos históricos. 2. ed. São
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capítulo 3 • 87
SOUZA, Laura de Mello e. Inferno Atlântico. Demonologia e colonização. Séculos XVI-XVIII. São
Paulo: Companhia das Letras, 1993.
THEODORO, Janice. Pensadores, exploradores e mercadores. São Paulo: Scipione, 1994.
WEHLING, Arno; WEHLING, Maria José C. M. Formação do Brasil colonial. 3. ed. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 2000.

capítulo 3 • 88
4
Reformas: religião
e ideias
Reformas: religião e ideias
Neste capítulo, analisaremos as mudanças que ocorreram no campo religio-
so durante a Idade Moderna; para tanto, estudaremos as Reformas lideradas por
Martinho Lutero, João Calvino, Henrique VIII e, também, pela Igreja Católica.
Com o desenvolvimento das pesquisas históricas, a historiografia refletiu sobre
os fatores que contribuíram para as reformas religiosas, uma vez que a princípio
os historiadores afirmavam que este movimento teve raízes apenas nas questões
religiosas. Assim, além de analisarmos os principais movimentos reformistas, veri-
ficaremos como a Reforma Protestante foi pensada.

OBJETIVOS
• Analisar o que foi a Reforma religiosa;
• Refletir sobre as razões que conduziram à Reforma Protestante;
• Entender a Reforma Protestante e a reação da Igreja Católica;
• Entender como ocorreu o desenvolvimento do capitalismo comercial.
•  Analisar os principais nomes envolvidos nas querelas que levaram ao rompimento com o
poder papal;
•  Compreender como nasceu a Companhia de Jesus.

A crise

Para analisarmos e compreendermos os movimentos reformistas, apesar de, como


já apresentamos, não ser a religião o único ponto de contradição que levou à
Reforma Protestante, é necessário também entendermos o clima de inquietação
religiosa em que a Europa vivia desde o final da Idade Média.
Todos se sentiam culpados, o medo dos castigos eternos traduzia-se nas imagens
terríveis dos pintores e poetas. A Guerra das Duas Rosas e a crescente ameaça
turca acentuaram nos indivíduos a culpa e a responsabilidade por desgraças. Uma
angústia generalizada marcou uma época de profunda fé e todas as camadas sociais
foram dominadas por esses sentimentos (NATEL, 2016).

capítulo 4 • 90
LEITURA
Sugestão de leitura: conheça uma pouco sobre a Guerra das duas rosas em: http://mun-
do-guerra.blogspot.com.br/2011/04/guerra-das-duas-rosas.htm

Em fins do século XV, espalhou-se a crença de que ninguém entraria no pa-


raíso após o Cisma do Ocidente, e esse clima aflitivo foi reforçado por teólogos
e pregadores populares, que, preocupados com os graves pecados, enxergavam os
últimos anos como o exórdio do Apocalipse.
As diversas crises pelas quais a Europa passou desde a Baixa Idade Média aju-
daram a fragilizar o poder clerical. Guerras, fomes, destruição e dificuldades di-
versas não foram suficientes para que a Igreja repensasse a sua postura. Há tempos
padres, bispos e papas estavam afastados de ideais tipicamente cristãos como a
solidariedade, a simplicidade e a honestidade. Em lugar disto, o esplendor parecia
ser a marca da Igreja. E para manter o luxo, as estratégias eram as mais variadas
possíveis, desde a venda de cargos eclesiásticos e relíquias, até a comercialização de
indulgências. Por meio desta última prática, boa parte ou todos os pecados de um
fiel poderia ser absolvida com o pagamento à Igreja. Evidentemente, muitos fiéis e
até mesmo muitos clérigos estavam insatisfeitos com estas negociações.

A ideia tradicional de perdão sustentada pela Igreja foi se modificando. Decorridas


algumas décadas, estava instituída a prática da venda do perdão. Bastava pagar, e o
cristão ficava livre dos pecados do passado e do futuro. Era possível também com-
prar indulgências em favor dos mortos. Assim, um amigo ou parente falecido passaria
menos tempo ou sofreria menos no purgatório - aquela região onde o cristão ficava
de castigo, até pagar pelos pecados cometidos e ser declarado apto a entrar no céu.
(BLAINEY, 2012, p. 113)

As dificuldades materiais que assolaram a população europeia durante os séculos XIV


e XV conduziram a uma desordem moral, apesar dos esforços da Igreja Católica para se
fazer presente em todos os momentos da vida cotidiana. A inquietação do homem do
final do século XV e início do XVI projetada nas suas relações para com Deus iria provo-
car, como causa imediata, mas fundamental, a cisão no seio da Igreja (SEFFNER, 1993).
Os teólogos desse período, pautados em São Tomás de Aquino, procuraram
traduzir em linguagem lógica o mistério divino, submetendo a fé a conceitos de

capítulo 4 • 91
silogismos, ou seja, propuseram em termos racionais, a relação do homem com
Deus. Essa postura tornou a salvação acessível apenas a uma elite intelectualizada
e a maior parte da população viu-se abandonada, sem conseguir entender como
deveria proceder para ser um bom fiel.
Em meio a essa atmosfera de aflição e medo coletivos, é fácil entender o sucesso
dos escapulários, das indulgências e das relíquias, que se transformaram em represen-
tações de segurança encontradas pelo cristão diante da morte e da perdição eterna.
A Igreja Católica vinha, portanto, desde o termo da Idade Média, perdendo
sua identidade, pois preocupações materiais estavam levando a instituição a se
desviar do objetivo espiritual. A instituição havia se afastado muito de suas ori-
gens e de seus ensinamentos, como pobreza, simplicidade e sofrimento. O clero,
em grande parte, estava desrespeitando as regras religiosas, sobretudo em relação
ao celibato. A população estaca cada vez mais insatisfeita com clérigos que mal
sabiam rezar uma missa e comandar os rituais católicos.

A IGREJA E SUAS RENDAS


Com o declínio das rendas feudais, a Igreja lança mão de outras fontes: intensifica-se a
venda de cargos eclesiásticos, a criação de dioceses e paróquias. O comércio e a vene-
ração de artigos religiosos atingiram tal vulto que alguns críticos da Igreja denunciavam
o fato de que nada menos de cinco tíbias do jumento montado por Jesus quando entrou
em Jerusalém eram exibidas em diferentes lugares, sem contar as doze cabeças de
João Batista, inúmeras penas do Espírito Santo e inclusive um ovo exibido pelo arcebis-
po de Mogúncia, além de espinhos da cruz de Cristo, pedaços do Santo Sudário ou do
manto da Virgem Maria, migalhas de pão que Jesus partiu na última ceia...

Outra forma de arrecadar dinheiro era a venda de dispensas. Uma dispensa era uma
autorização dada pela Igreja que isentava o indivíduo de alguma lei específica estabele-
cida pela própria Igreja. Dispensas comumente vendidas eram para a isenção de jejuns
ou para contornar leis matrimoniais. Por exemplo: primos em primeiro grau poderiam
casar-se pagando determinada taxa. Já no caso de parentescos mais próximos, como
casamentos entre tio e sobrinha, a taxa se elevava.

SEFFENER, Fernando. Da Reforma à Contra-Reforma. O cristianismo em crise. São


Paulo: Atual, 1993, p.20-21.

capítulo 4 • 92
Além disso, os preceitos católicos estavam em contradição com os anseios
econômicos da burguesia emergente. Continuamente mais importante diante
da lógica das monarquias nacionais, os burgueses não encontravam respaldo às
suas atividades no discurso da Igreja Católica que, tendo enriquecido dentro de
uma lógica feudal, criticava severamente a usura, a acumulação de dinheiro, os
empréstimos a juros, a obtenção de lucro. Assim, ao enquadrar como pecami-
nosas as operações básicas da Economia burguesia, a Igreja conquistou um im-
portante inimigo. O burguês, já no século XVI, reconhecia-se socialmente como
um grupo diferenciado, dono de um sentimento de dignidade, independência e
autonomia (FEBVRE, 1976).
A soma destes fatores estabeleceu um clima de animosidade frente aos dogmas
católicos, justamente por sua contraposição ao mundo burguês, às monarquias
nacionais e às ideias consideradas fundamentais ao universo cristão. As mudanças
oriundas desta insatisfação geraram uma nova configuração do universo religioso,
moldada principalmente pela necessidade de se ajustar aos avanços dos interes-
ses burgueses.
Paralelamente, os monarcas conduziam um processo de centralização real no
qual os bens da Igreja eram encarados com voracidade. A Igreja Católica, assim,
também vivenciava problemas de ordem política. A formação das monarquias na-
cionais contribuiu para um incipiente sentimento de pertencimento a um Estado,
território, língua e governante, próximo e identificado com seu povo. Deste modo,
o Papa era agora uma figura distante. Um líder que, de Roma, enviava seus mensa-
geiros às terras por ele dominadas apenas para cobrar impostos, arrebatar recursos,
exaurir finanças. Instigada por esta situação, a autoridade real entrou em atrito
com as determinações papais (FEBVRE, 1976).
O movimento reformista pode ser observado como uma resposta às necessi-
dades espirituais de uma cristandade inquieta e angustiada, que não via na litur-
gia nem na da dogmática católica uma saída para seus problemas. A Igreja não
conseguia mais atender às necessidades dos fiéis e reverter este quadro caótico.
A exigência de uma reforma interna, de uma regeneração das práticas e dogmas
tornava-se cada vez mais clara.
Portanto, não podemos sustentar que o movimento reformista alcançou gran-
des proporções devido apenas à rebeldia de Lutero ou de Calvino. A questão re-
formista já estava em pauta; o que não se esperava era que, partindo de dentro da
instituição, provocaria cisões tão profundas.

capítulo 4 • 93
É importante destacar que o protestantismo teve mutações, com diferentes
vertentes dependendo da localidade e do período onde surgiu, e a oposição à Igreja
Católica parece ser uma constante nos anos iniciais do movimento da Reforma.

Pensando o movimento

Nos séculos XVIII e XIX, em meio ao ambiente iluminista potencialmente


revolucionário e antieclesiástico, e em consequência mesmo das reflexões historio-
gráficas do período, afirmou-se que os fatores responsáveis pelas reformas religio-
sas haviam sido os excessos e abusos financeiros da Igreja e a incapacidade religiosa
do clero católico. Associaram-se essas justificativas à reforma luterana, direcionada
em favor de príncipes luteranos, que almejavam apropriar-se, especialmente das
terras da Igreja.
Leopold von Ranke inaugurou, no início dos Oitocentos, uma abordagem
menos religiosa, ao mesmo tempo em que a História se afirmava como discipli-
na e atendendo, também, aos propósitos nacionais e políticos da Prússia após o
Congresso de Viena, em 1815. Para o historiador, com a Reforma luterana nas-
cia a Idade Moderna, quando o povo se tornava partícipe da história. Podemos,
assim, compreender que a sua percepção de História Moderna não era tramada
apenas por governantes e clérigos, mas harmonizava-se às necessidades políticas do
Estado prussiano (MONTEIRO, 2007).
Enquanto estudiosos laicos apresentavam a Reforma religiosa como alicerce
do caminho para a liberdade, católicos, defensores da infalibilidade papal, obser-
vavam-na como um equívoco que desestabilizou princípios de autoridade, ordem
social e disciplina, característicos da cristandade medieval (MARRAMAO, 1997).
Muitos historiadores protestantes interpretaram a Reforma como um movi-
mento exclusivamente religioso que buscava a essência do cristianismo, a Igreja
e a religião em suas origens. Todavia, a historiografia questionou esse posiciona-
mento por ignorar fatores intelectuais, econômicos e políticos que prepararam o
campo para que se desse a Reforma.
A historiografia muitas vezes não delegou ao assunto a minúcia necessária,
deixando em segundo plano os desdobramentos e relações. Segundo Monteiro
(2007), apenas a partir dos anos 1930 é possível observar uma mudança signifi-
cativa na análise das questões religiosas referentes ao século XVI com as pesquisas
lideradas por Delio Cantimori, Lucien Febvre e Hubert Jedin, por exemplo.

capítulo 4 • 94
O historiador italiano Delio Cantimori, propondo uma pesquisa mais argu-
mentativa que contemple a piedade religiosa, rompendo com controvérsias teo-
lógicas e eclesiásticas que caracterizavam muitos dos estudos, buscou argumentar
que o princípio da Reforma Protestante representou o fracasso do ideal humanis-
ta, da autoconfiança exacerbada no potencial do homem, grande otimismo em sua
transformação através do livre arbítrio (MONTEIRO,2007).
O cofundador da Escola dos Annales, Lucien Febvre, assim como Delio
Cantimori, propunha uma história da espiritualidade que englobasse as questões
institucionais e teológicas. O autor defende que a Reforma religiosa deve ser ana-
lisada a partir de uma grave crise moral e religiosa que arrasou a Europa naquele
período e também os aspectos políticos, econômicos, sociais, culturais e artísticos;
enfim, a história do movimento reformista, segundo o historiador francês, não
poderia restringir-se a marcos institucionais (MONTEIRO, 2007).
Seguindo o caminho de Lucien Febvre, Delumeau atentou-se à verificação dos
comportamentos religiosos na Europa do início do século XVI constatando que
o cristianismo mais íntimo era vivenciado apenas pelas elites, enquanto a maioria
da população vivia em um mundo de ignorância religiosa. Para o referido autor, a
Reforma Protestante foi a ascensão da vontade cristianizadora contra o catolicis-
mo, mas também contra a idolatria, vilões não distintos para eles.
Existem ainda historiadores que interpretaram a Reforma Protestante a par-
tir do viés econômico, incorrendo num determinismo econômico muitas vezes
associado ao marxismo. Para este grupo, o movimento é compreendido como o
resultado da tentativa do papado romano de explorar economicamente a região
da atual Alemanha para lucro próprio. Essa concepção diminui o movimento re-
ligioso a uma consequência do capitalismo, sem avaliar que, desde o século XIII,
as formas “pré-capitalistas” existiam na Itália e, também, nos Países Baixos, onde
ocorriam movimentos contestatórios.
Por outro lado, devemos considerar que os historiadores que privilegiam a
história política, corrente historiográfica que esteve ligada intimamente às visuali-
zações do poder no Estado, acreditam que a Reforma foi resultado da oposição das
monarquias nacionais a uma Igreja internacional, sendo, portanto, um episódio
político de origem nacionalista (NATEL, 2015).
Ao contrário da ordem absolutista que estava presente em Portugal e Espanha,
no século XVI os cenários que foram palco do início da Reforma Protestante
foram os Estados Germânicos, que estavam divididos em principados. Nestes
principados predominava o trabalho servil da terra pelos camponeses e apenas

capítulo 4 • 95
algumas cidades tinham comércio próprio. Além disso, Carlos V, monarca dos
Países Baixos, almejava centralizar seu poder por meio da unificação de todo o seu
vasto domínio, instaurando uma monarquia universal católica, o que geraria acir-
radas disputas com os príncipes germânicos. Sem dúvida, essa disputa política foi
o cenário ideal e bem aproveitado por Lutero para introduzir suas ideias reformis-
tas, recebendo apoio dos príncipes ameaçados e da sociedade burguesa, contrários
à centralização do poder pelo monarca católico.
Acreditamos que não seja pertinente separar tão enfaticamente os fatores que
contribuíram para o processo de Reforma religiosa, ainda que isso favoreça a ins-
trumentalização didática deste assunto, pois, como já discutimos anteriormente, o
período era de enormes contradições e mudanças em diferentes áreas.
Para analisarmos a Reforma religiosa, é imperativo considerarmos as dimen-
sões políticas, sociais e econômicas que desenharam o cenário em que se deu
o referido movimento. De tal modo, devemos considerar que a Reforma não
esteve exclusivamente relacionada à religião, apesar de ter favorecido mudanças
nas crenças e nas práticas religiosas, como defende um número crescente de
historiadores (NATEL, 2015).
Para encerrar nossa reflexão a respeito da historiografia da Reforma, é impor-
tante destacar que o termo “protestante” foi usado para designar os indivíduos
que, defendendo uma profunda mudança na estrutura da Igreja Católica, aderiam
ao movimento liderado por Martinho Lutero (SILVA; SILVA, 2009).

LEITURA
Para compreender mais a respeito deste debate historiográfico acerca da Reforma Reli-
giosa, leia o artigo As Reformas Religiosas na Europa Moderna notas para um debate
historiográfico, de Rodrigo Bentes Monteiro. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.
php?script=sci_arttext&pid=S0104-87752007000100008&lng=en&nrm=iso&tlng=en>
Acesso em 2/11/2016.

Pré-reforma

Desde o século XII houve movimentos reformistas na Europa, alguns não se


sustentaram por falta de coesão interna, enquanto outros foram esmagados pela
força das armas. A Igreja Católica, portanto, já vinha observando movimentações

capítulo 4 • 96
internas e externas que propunham reformas antes de Martinho Lutero se destacar
no cenário religioso da Reforma Protestante; era comum membros da alta hierar-
quia eclesiástica, ou não, manifestar insatisfações e a ela propor mudanças. A ideia
de reforma religiosa, portanto, não surgiu no século XVI, pois podemos localizar
nos séculos precedentes pessoas com estes interesses e correntes religiosas agindo
no sentido de sua concretização.
Esse período, que podemos denominar de pré-reformista, começou no século
XII, com Pedro Valdo, um comerciante da cidade de Lyon. Pedro Valdo teve con-
tato, por volta de 1176, com uma tradução do Novo Testamento em linguagem
popular e pôs-se a pregá-la à população menos abastada de Lyon, que não tinha
acesso a sacerdotes, rejeitando o uso de imagens católicas, que, acreditava, era
simples idolatria. Valdo ainda abandonou a vida anterior ao exercício da pregação
e dividiu seus bens com os pobres (SEFFNER,1993).
Na universidade de Oxford, na Inglaterra, nasceu outro movimento a favor de
uma religião sem corrupções, liderado pelo professor John Wycliff. Ele traduziu
a Bíblia do latim para o inglês, com o objetivo de torná-la acessível a todos, com-
bateu abertamente os grandes proprietários eclesiásticos e pregou a libertação da
Inglaterra do domínio papal. Pregando o retorno a uma Igreja primitiva, sem os-
tentações, recusou o culto aos santos, negou a validade das indulgências e acusou o
clero de cobrar mais impostos que o monarca. Para ele, a pobreza que pregava para
a Igreja Católica era incompatível com os desejos pontifícios. Declarado como
herético, teve seus livros queimados conforme decreto do Concílio de Constança
(1414 – 1419).
Na Boêmia, atual República Tcheca, outro professor se propôs como refor-
mista; Johann Huss, representante do nacionalismo boêmio contra o domínio
do Sacro Império Romano-Germânico. Como Wycliff, Huss pregava o fim do
culto aos santos e das indulgências e incitou os tchecos contra o clero alemão.
Acusado de apoiar as teses classificadas como heréticas de Wycliff, Huss foi pre-
so, excomungado e condenado à morte na fogueira. Seus partidários, denomina-
dos de hussistas, empreenderam uma luta armada contra os soldados imperiais,
mas foram derrotados. Huss foi considerado herege pelas autoridades católicas do
Concílio de Constança, para onde foi enviado por ordem do imperador do Sacro
Império Romano-Germânico, e queimado em praça pública (LUIZZETO,1998).
A situação nos territórios alemães, parte do Sacro Império Romano-
Germânico, era propícia a um movimento reformista, pois, comparado a outros
soberanos, o imperador era politicamente fraco, seu poder não era hereditário.

capítulo 4 • 97
Os poderes do império, divididos em mais de 300 entidades políticas separadas,
centravam-se, especialmente, nos Sete Eleitores, príncipes e arcebispos, que gover-
navam os territórios mais importantes e elegiam o imperador (SEFFNER,1993).
A Igreja, além de possuir grande parte das terras, era representada por um clero
aristocrático, corrupto e despreparado para orientar os fiéis.
A nobreza, com destaque para os príncipes alemães, buscava uma desculpa
para se apossar dos bens da Igreja, bem como não pagar tributos à autoridade
papal. Com o fortalecimento dos Estados, passou-se a questionar cada vez mais o
pagamento destes tributos. Nos territórios alemães, a submissão ao papa era vista
por número cada vez maior de pessoas como uma dominação estrangeira, favo-
recendo o clima reformista e preparando o terreno para o posterior rompimento
com Roma.
Entre essas vozes protestantes estava, também, a do monge dominicano
Girolamo Savanarola, pregador reformista, intérprete do Humanismo e da cul-
tura renascentista. Designado para pregar em Florença, opôs-se à vida pagã, à
imoralidade prevalecente em muitas classes da sociedade e, também, à corrupção
existente no seio da Igreja. O seu desejo de combater as fraquezas humana fez com
que, a mando do papa, fosse preso, torturado e enforcado (LUIZZETO, 1998).
O misticismo francês confundia-se com o nacionalismo e, em meio a todos
esses movimentos, surgiu a liderança da camponesa Joana D’Arc, que reanimou os
soldados franceses e conduziu o rei Carlos VII à vitória. Dizia-se enviada por Deus
para combater os ingleses, alistou-se no exército real e liderou vários combatentes.
Aprisionada pelos inimigos de Carlos VII, foi vendida aos ingleses. Em Ruão, foi
condenada por bruxaria e heresia pelo Tribunal da Inquisição e foi queimada viva,
em 1431. Contraditoriamente, séculos depois Joana D’Arc foi canonizada pela
mesma instituição que a condenou.
Como destaca Skinner (2000), as ideias reformistas já estavam propagadas
desde a Idade Média e encontravam raízes nos pensadores anticlericais anteriores
à Reforma. A literatura crítica e polêmica que provinha desse período se deve aos
humanistas da época. É relevante lembrarmos que nesse momento que denomi-
namos pré-reformista, inúmeros católicos, como Thomas Morus ou Erasmo de
Roterdã, criticaram os abissais excessos praticados pelo clero e mostraram que
era forçoso reformar a Igreja Católica. Erasmo de Roterdã, além da sua tradução
latina do Novo Testamento, afastando-se da versão oficial da Vulgata, e a sátira
contra o papa Júlio II, de 1513, apresenta uma dura crítica à Igreja em seu livro
Elogio à Loucura.

capítulo 4 • 98
A reforma

CURIOSIDADE
Apesar de associarmos o ano de 1517 à Reforma Protestante, esse título foi dado ao movi-
mento apenas em 1555, em meio às lutas entre católicos e luteranos.

No bojo do movimento humanista encontramos as bases que melhor funda-


mentam o acontecimento, pois trata-se de uma retomada do ideal divino ao criar
o ser humano. Esse renascimento é, podemos dizer, um extraordinário florescer da
vida, que não ficou limitado dentro destes marcos.
Deste modo, uma vertente dos humanistas voltou-se para a reflexão sobre o
papel da Igreja Católica e dos dogmas que ela pregava. A Europa viu-se arrastada
por uma efervescência contestadora, chegando às bases da Igreja Católica. Como
vimos, alguns pensadores, como Jonh Wicliff, Jonh Huss e Erasmo de Roterdã,
principal representante do humanismo cristão, opunham-se a alguns preceitos e
dogmas do catolicismo.
Ao contrário do que inicialmente possa parecer, a Reforma Protestante não foi
um movimento com objetivos de fracionamento. Estava, na verdade, mais volta-
do para a correção e superação das deficiências de longa data vividas pela Igreja
Católica. Os desdobramentos deste processo, experimentado na primeira década
do século XVI, levaram a uma separação inesperada entre clérigos e ao surgimento
de um novo ramo cristão, os protestantes.
O marco que é historicamente indicado como o início do processo reformista
é a reação de Martinho Lutero, em 1517, ao afixar suas teses em Wittenberg. A
partir dessa iniciativa, outros líderes promoveram ações que foram consideradas
reformistas, como João Calvino e Henrique VIII, e com eles novas Igrejas, mas
todas seguindo preceitos como a salvação pela graça mediante apenas a fé, a auto-
ridade única da Bíblia e o sacerdócio de todos os crentes (OLSON, 2001).

capítulo 4 • 99
Martinho Lutero

MULTIMÍDIA
Lutero (2004, Alemanha, direção: Eric Till). O filme relata a vida do reformador alemão Marti-
nho Lutero, desde que ele se tornou monge até a Confissão de Augsburgo.

Martinho Lutero, filho de um próspero mineiro, deixou Eisleben, sua cidade


natal, ainda jovem, para estudar. Aos 24 anos já era monge agostiniano e aos 30
anos formou-se em Teologia Bíblica, uma das cadeiras mais conceituadas na re-
cém-criada universidade de Wittenberg.
Por volta de 1510, Lutero empreendeu uma verdadeira peregrinação a Roma;
todavia, a estada no coração da cristandade o intrigou e contribuiu para a in-
quietação que o assolava. Lutero, na verdade, sentia falta de alguma coisa em sua
vida religiosa, e buscou ansiosamente uma resposta na Bíblia, tornando-se quase
obcecado por questões ligadas a pecado e penitência, em relação a si e a outros
religiosos (BLAINEY, 2012).
A partir das Cartas de São Paulo, elaborou suas ponderações, todas voltadas
à justificação da fé como único ponto de partida para extrapolar os ensinamentos
que recebeu. Segundo a interpretação de Lutero, a chave da salvação não estava
nas boas ações, em uma vida virtuosa nem na prática de rituais, mas sim no rela-
cionamento do indivíduo com Deus. Os cristãos, segundo ele, não conseguiriam
a salvação apenas com ações e busca do perdão católico, porque perdão e salva-
ção eram dádivas de Deus, aos quais fariam jus somente aqueles que o amassem
e confiassem em sua misericórdia. Lutero deu a essa crença a denominação de
"justificação pela fé", demonstrando assim que a princípio a sua preocupação não
era reformulação da Igreja, mas a salvação da alma (BLAINEY, 2012). Assim,
descobriu a paz em uma noção renovada de penitência, arquitetada a partir da
justificação pela fé do cristão, livre dos seus méritos.
A justificação pela fé defendida por Lutero não aceitava atribuir às obras de
caridade algum valor, contrapondo-se à teoria da salvação pelo mérito, defendi-
da pela maioria dos clérigos católicos. Indignado com a venda de indulgências,
Lutero revoltou-se e, em 1517, apresentou seus posicionamentos nas 95 teses

capítulo 4 • 100
afixadas na porta de uma igreja na cidade de Wittenberg, atual Alemanha, em que
denunciava as falsas seguranças dadas aos católicos (SEFFNER, 1993).
Analisando as teses apresentadas por Martinho Lutero, podemos verificar que
o objetivo era uma reformulação do catolicismo, para que este ajustasse as suas
ações, ou seja, inicialmente não pretendia uma cisão dentro da Igreja, mas denun-
ciar uma situação da qual discordava. Fica evidente no documento a denúncia das
atividades papais, da venda de indulgências, entre outros e, também, a preocupa-
ção com o aspecto teológico que versa sobre a salvação do homem. Para o monge,
a Igreja Católica não estava preocupada com o que deveria ser seu principal obje-
tivo (LIENHARD, 2005, p. 68). As teses de Lutero opunham-se, ainda, ao libera-
lismo intelectual dos humanistas ao afirmar que apenas a fé assegurava a salvação.
Essa nova posição gerou um conflito na Alemanha entre os dominicanos e
os agostinianos. O papado de Leão X interferiu, repudiando o posicionamento.
Lutero respondeu queimando a bula papal, rejeitando a infalibilidade do pontifi-
cado e a funcionalidade dos sacramentos afastados da fé e, por isso, foi excomun-
gado em 1520.
No ano seguinte, o imperador do Sacro Império Romano-Germânico, Carlos
V, convocou a Dieta de Worms, assembleia política, que condenou Lutero como
herege. Por outro lado, nobres, não apenas da Saxônia, humanistas, como Hutten
e Melanchton e estudantes de Wittemberg o apoiaram e abriram seus castelos.
Observamos, portanto, que com apoio, a revolta, que, no início, era particular,
transformou-se em um cisma.
Havia condições favoráveis à propagação das ideias de Lutero, pois coexistia
aos problemas religiosos uma série de fatores sociais e econômicos, especialmente
na região da atual Alemanha. Entre esses fatores, podemos destacar o fato de gran-
de parte das terras da região pertencerem à Igreja, existindo um grande interesse da
nobreza em se apoderar dessas terras. Sedentos de poder e de riqueza, a nobreza e
a burguesia mostravam-se insatisfeitos com a Igreja e o Imperador; os camponeses
e os artesãos urbanos, por sua vez, também julgavam a Igreja culpada pela situação
de miséria em que viviam.

COMENTÁRIO
É importante lembrarmos que no momento em que se estruturava o que posteriormente
ficou conhecido como Reforma, não existia uma monarca na Alemanha, como havia, há mui-
to, na França ou na Inglaterra, e que poderia reunir, nos momentos de crise, todas as energias

capítulo 4 • 101
do país ao redor de sua pessoa e de sua dinastia. As terras germânicas apresentavam uma
contradição, pois apesar da burguesia fragilizada, a Igreja era poderosa e abastada. (FEB-
VRE, 1976).

A rejeição luterana ao universalismo católico em prol dos direitos do Estado


conquistou apoio da nobreza, que com a Reforma poderia se apoderar dos bens da
Igreja, e despertou o entusiasmo popular. Os príncipes locais foram apoiados por
Lutero, que reconhecia neles uma soberania tanto terrena como espiritual e, sob o
pretexto de acatar a nova religião, os nobres confiscaram os bens do clero.
Os camponeses se aproveitaram da situação e passaram a atacar as proprieda-
des senhoriais. Os anabatistas, seita religiosa que aceitava apenas o batismo na ida-
de adulta, liderados por Thomas Müntzer, eram contrários ao acúmulo de riquezas
pelo clero. Lutero, que defendia a obediência à autoridade secular e necessitava do
apoio dos príncipes, condenou esse e outros movimentos. A revolta anabatista foi
duramente reprimida.
Conquistando apoio, o movimento encabeçado por Lutero, e que ficou co-
nhecido como Reforma, adquiriu características de igreja nacional. O próprio
Martinho Lutero traduziu a Bíblia para o alemão, abrindo caminho para a parti-
cipação popular. Esta transmutação ia de encontro aos desejos da realeza do início
da Idade Moderna europeia, pois a centralização do poder era efetivada caso o
monarca controlasse também a hierarquia eclesiástica.
O movimento manteve a crença de que Jesus Cristo estaria presente na euca-
ristia, mas rejeitou transubstanciação, a transformação do pão e do vinho em cor-
po e sangue de Cristo. Com a leitura e interpretação da Bíblia, o culto religioso foi
simplificado, dando ao fiel a noção de maior contato com Deus sem a necessidade
de um clérigo (SEFFNER, 1993).

PRINCÍPIOS MAIS IMPORTANTES DA DOUTRINA LUTERANA:


• Salvação do homem justificada pela fé;
• Aceitação da predestinação;
• Livre interpretação da Bíblia;
• Manutenção apenas dos sacramentos do batismo e da eucaristia;
• Rejeição da hierarquia católica;
• Abolição do celibato clerical.

capítulo 4 • 102
Vendo na Reforma uma oportunidade para resistir ao imperador do Sacro
Império Romano-Germânico, os príncipes se levantaram contra o imperador
Carlos V, que tentou controlar os descontentamentos convocando duas dietas em
Spira. Na primeira dieta, em 1526, decidiu-se que os governantes de cada terri-
tório eram livres para escolher sua religião; na segunda, em 1529, o catolicismo
foi imposto a todos os luteranos. A reação dos partícipes valeu a eles o título
de Protestantes.
Enquanto o imperador buscava implantar o centralismo monárquico, os prín-
cipes não abriam mão dos direitos feudais. Na guerra que sobreveio, os príncipes
se uniram na chamada Liga de Samalkalde para combater os avanços de Carlos
V e seus partidários católicos. Após quase vinte anos de conflito, estabeleceu-se
a Paz de Augsburgo, em 1555 (SEFFNER, 1993). No ano seguinte, Carlos V
abdicou do trono da Espanha em prol de Felipe II, e do Sacro Império Romano-
Germânico, em nome de seu irmão Fernando I. Sua dinastia, a dos Habsburgo,
continuava reinando em duas importantes nações europeias, e o imperador reti-
rou-se para um convento, onde faleceu.
O afastamento de Carlos V contribuiu para a diminuição dos embates e, em
1559, Fernando I convocou a Dieta de Augsburgo, para resolver as situações pen-
dentes. Pelo acordo firmado, a Igreja Luterana era reconhecida nos territórios ale-
mães, e cada príncipe decidiria a religião a ser adotada em seus domínios. Porém,
com isso a divisão interna alemã e a intolerância religiosa acentuaram-se e os sobe-
ranos passaram a impor sua religião aos súditos ao sabor das conveniências.
A livre interpretação da Bíblia levou o movimento reformista a tomar sentidos
diversos na Europa. Em algumas regiões, como nos países nórdicos, o luteranis-
mo foi adotado pelo Estado, perdendo todo o seu dinamismo. As disputas entre
príncipes católicos e protestantes eram mais questões políticas do que religiosas.
Porém, rompia-se definitivamente a unidade do cristianismo no continente.

capítulo 4 • 103
BATALHAS RELIGIOSAS
O ideário e a doutrina religiosa apresentados por Martinho Lutero contribuíram para acir-
rar ainda mais os ânimos dos príncipes alemães contra a Igreja Católica, mas também
evidenciaram as já latentes rivalidades regionais. As tentativas da dinastia Habsburgo em
criar um império unificado em um legítimo Estado nacional encontraram forte resistência
dos príncipes, interessados em manter seus territórios sobre controle. Como a Igreja Ca-
tólica apoiava a dinastia, grande parte dos príncipes aderiram às perspectivas luteranas.
Por outro lado, o Imperador Carlos V e importantes nobres católicos uniram forças contra
um grupo de príncipes luteranos. Deste modo, iniciou-se um conflito que só teve fim em
1555, com a assinatura da Paz de Augsburgo, até mesmo porque Carlos estava ocupado
demais combatendo a França e o Império Otomano para deter os príncipes adeptos do
protestantismo. Por meio deste documento, cada príncipe poderia estabelecer sua religião
nos territórios sob seu controle. A celebração deste acordo acabou com o conflito, mas
manteve a Alemanha desagregada em diversos Estados e contribuiu para adiar em sécu-
los a sua centralização política, concretizada apenas no século XIX.

Lutero e a educação

Além de alvitrar a criação de uma nova religião, mais livre e menos dogmáti-
ca, Martinho Lutero também voltou suas atenções para a educação das crianças
e jovens, que seriam os responsáveis pela propagação e manutenção de sua Igreja.
Para Lutero, a estabilidade da nova Igreja e da nova ordem espiritual dependia da
capacidade das crianças de compreenderem as sagradas Escrituras, o que se con-
seguiria através de uma boa educação. Dessa forma, a Igreja, juntamente com o
Estado, deveria assumir a obra educativa.
O reformador propunha um plano de ensino que englobasse o estudo da lín-
gua materna, História, canto, música, matemática, ressaltando sempre a eficácia
dos professores bem formados. As escolas, para atingirem os objetivos propostos,
seriam mantidas por patrimônios e dotadas, sempre, de boas bibliotecas.
O aluno deveria passar parte do dia na escola e o restante trabalhando em casa
ou aprendendo uma profissão, os estudos precisariam, segundo Lutero, ser com-
pletados pelo trabalho. Lutero não aprovava, em nenhum caso, o uso dos castigos
físicos e a memorização de conteúdos, práticas comuns nesse período histórico.

capítulo 4 • 104
LEITURA
Para compreender mais a respeito das propostas educacionais de Martinho Lutero, leia o
texto As concepções educacionais de Martinho Lutero, de Luciane Muniz Ribeiro Barbosa,
Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ep/v33n1/a11v33n1.pdf

João Calvino e a predestinação

João Calvino nasceu uma geração depois de Martinho Lutero. Como seu pri-
meiro lar foi a cidade de Noyon, ao norte de Paris, ele começou a vida mais perto de
Londres do que de Genebra, cidade à qual sua fama ficou ligada. Sério, impetuoso
por natureza e de pensamento bem organizado, Calvino começou a estudar a Bíblia
e a escrever sobre suas conclusões no momento em que as ideias de Lutero desperta-
vam simultaneamente hostilidade e curiosidade em Paris (BLAINEY, 2002).
As obras de Lutero, podemos dizer, tiveram continuidade nas ações do teólogo
francês João Calvino, para quem nem a fé nem as obras garantiriam a salvação do
homem, pois as pessoas estavam predestinadas por Deus a ser salvas ou condena-
das e queimadas no inferno. Estas ideias foram defendidas na obra Instituição da
religião cristã (1536), nada que os homens fizessem em vida poderia alterar-lhes o
destino, já traçado anteriormente.

As ideias de Calvino sobre predestinação tornaram-se notórias. Ele afirmava que Deus
decide antecipadamente o que acontece à alma de todos os homens e mulheres. As-
sim, por mais que a pessoa se esforçasse, tinha o destino traçado desde o nascimento.
Não havia tribunal de apelação nem luta por oportunidades iguais. Calvino considerava
a vida uma corrida com resultado pré-estabelecido. Segundo ele, a criação não é feita
em série, mas ‘alguns nascem predestinados à vida eterna, e outros, à condenação
eterna’. Em essência, a doutrina enfatizava o poder e a sabedoria de Deus e, em con-
traste, a fragilidade e a ignorância dos seres humanos (BLAINEY, 2002, p.126).

Os valores defendidos pelo calvinismo eram úteis à burguesia nascente, pois


admitiam o lucro ou a acumulação, a prática da usura e as atividades comerciais;
o trabalho, é bom enfatizar, era muito valorizado e visto como fonte de enriqueci-
mento individual. Calvino acreditava que a acumulação material poderia ser tida

capítulo 4 • 105
como um indício, mas não uma garantia, de que o indivíduo seria um eleito de
Deus, ou seja, teria a sua alma salva (LUIZZETO,1998).
As ideias de João Calvino espalharam-se pela França, Inglaterra, Escócia e
Holanda no século XVI. No contexto das guerras religiosas e das disputas por
territórios coloniais, os calvinistas franceses, chamados de huguenotes, tentaram
estabelecer-se na colônia portuguesa, no território dos atuais Rio de Janeiro e
Maranhão, nos séculos XVI e XVII.
Calvino foi perseguido por suas ideias e procurou refúgio em Genebra, na
Suíça, onde encontrou um público receptivo às suas concepções. Ali, Calvino al-
cançou rapidamente o poder e aplicou suas ideias à administração pública. Depois
da morte de Lutero, em 1546, Calvino tornou-se praticamente o líder não oficial
do protestantismo e fez de Genebra o reduto de estudantes, teólogos e religio-
sos dissidentes.
É evidente a influência de João Calvino no campo da teologia e ele é muito
conhecido por todos aqueles que estudam o cristianismo e os movimentos que o
transformaram a partir de sua contestação; todavia, a importância de sua obra não
está apenas nesse ponto, pois sua cosmovisão alterou o pensamento dos homens
também na Economia, na Política e na cultura (SKINNER, 2000). Como destaca
o sociólogo alemão Max Weber (2003), existia uma forte ligação da ética protes-
tante com o espírito capitalista, especialmente porque o desenvolvimento comer-
cial encontrou apoio nas ideias religiosas reformadas. A prosperidade econômica
não era mais condenável, mas entendida como um sinal de salvação.

Anglicanismo: a reforma na Inglaterra

A Inglaterra foi palco de um movimento reformador imposto aos súditos pela


realeza. Motivações políticas levaram o Rei Henrique VIII a se afastar da Igreja,
apesar de alegar razões pessoais. Henrique VIII, rei da Inglaterra, havia sido du-
rante certo tempo aliado do papa, tendo recebido, inclusive, o título de defensor
da fé católica; contudo uma série de fatores políticos, econômicos e sociais fez
com que ele rompesse com a Igreja Católica e fundasse uma Igreja nacional na
Inglaterra denominada Igreja Anglicana (LUIZZETO,1998).
A esposa do monarca inglês, a princesa espanhola Catarina de Aragão, passara
da idade fértil sem que da união tivesse nascido um herdeiro homem que pudesse
manter a sua linhagem no trono, e Henrique VIII solicitou a anulação de seu

capítulo 4 • 106
casamento. Roma, seguindo os preceitos do sacramento, negou o pedido, o que
gerou um atrito entre a monarquia inglesa e o papado.

MULTIMÍDIA
Indicação de filme: A Outra (2008, Estados Unidos, direção: Justin Chadwick). O filme,
adaptado do livro A Irmã de Ana Bolena, escrito por Philippa Gregory, apresenta a relação
de Henrique VIII e Ana Bolena, cujo encontro mudou radicalmente a história da Inglaterra.

Além deste desentendimento, é importante destacar que a Igreja possuía uma


forte influência política na Inglaterra, pois era proprietária de muitas terras e co-
mercializava os objetos sagrados e, assim, competia com a monarquia no que dizia
respeito a sua autoridade. Como já tinha acontecido com outros Estados euro-
peus, a nobreza inglesa tinha interesse econômico em tomar as terras da Igreja.
Porém, para que isso acontecesse, a nobreza notou que deveria aliar-se ao rei, com
o propósito de enfraquecer os poderes de Roma na Inglaterra (SEFFNER, 1993).
Diante disso, Henrique VIII encontrou na Reforma a fórmula para se afas-
tar da interferência do poder papal, construir um Estado nacional absolutista
na Inglaterra e se apoderar dos bens eclesiásticos, além de se libertar dos impos-
tos cobrados pela Igreja Católica. Em 1534, o monarca inglês editou o Ato de
Supremacia em que nomeava a si mesmo como chefe da Igreja da Inglaterra, a
Igreja Anglicana, mas que se afigurava como uma igreja nacional católica, mesmo
tendo rompido com Roma.
Foram introduzidos a crença na salvação pela fé, a celebração da liturgia em
inglês, o fim do celibato clerical, suprimiu-se o clero regular e seus bens, devolvi-
dos à Coroa, foram vendidos, e, claro, a instituição do divórcio. Este último ato
permitiu ao monarca separar-se de sua primeira esposa e casar-se com Ana Bolena.
A nova Igreja foi imposta, iniciando-se as perseguições aos refratários. Os sú-
ditos ingleses deveriam, a partir de então, submeterem-se a essa supremacia, caso
contrário seriam excomungados e perseguidos pela justiça real. Thomas Morus,
autor de Utopia e chanceler inglês, demitiu-se do cargo quando o rei rompeu com
a Igreja Católica. Três anos mais tarde, foi decapitado por se recusar a reconhecer
a autoridade espiritual de Henrique VIII.
Os herdeiros de Henrique VIII, cada qual em seu reinado, tentaram impor sua
igreja ao povo inglês, como o calvinista Eduardo VI e a católica Maria I. Porém, a

capítulo 4 • 107
ascensão de Elizabete I, também filha de Henrique VIII, restaurou o anglicanismo
e fortaleceu o Estado sobre sua Igreja. Posteriormente, seria adotado o calvinismo,
mantendo parte da liturgia católica.
Diante do exposto, fica claro que a Igreja Anglicana favorece uma união ori-
ginal entre os ritos católicos e os dogmas de caráter protestante. Essa solução foi
elaborada pela monarquia inglesa para conseguir a convivência social dos diversos
grupos religiosos rivais no território. Assim, de acordo com as necessidades, a
Igreja Anglicana oscilava entre a forma católica e o conteúdo protestante, confor-
me queria agradar a um ou outro grupo.

CURIOSIDADE
Na Escócia, o movimento reformista foi liderado por John Knox, pregador do calvinismo. Seus
seguidores foram denominados presbiterianos, pois a instituição religiosa organizou-se a partir
dos conselhos de presbíteros. Na Inglaterra, os calvinistas eram conhecidos como puritanos.

igreja católica reage

Os avanços do protestantismo na Europa ameaçavam seriamente a suprema-


cia da Igreja Católica. Com exceção de Portugal, Espanha e dos territórios sob
domínio papal, o restante do continente se encontrava às voltas com conflitos
religiosos. A vertiginosa expansão destes conflitos apressou a Reforma Católica,
que alguns autores denominam Contrarreforma. A reação da Igreja não se limitou
a combater a expansão do movimento reformista, mas buscou reformular também
seus conceitos e se adaptar às novíssimas condições políticas europeias.
Preocupados também com a gradativa perda de fiéis em virtude do avanço
do protestantismo, o alto clero católico reuniu-se em Concílio na cidade italiana
de Trento. O Concílio de Trento (1545-1563) tinha como principal objetivo de-
senhar o plano de reação da Igreja Católica (SEFFNER, 1993). Nesse Concílio
foram, portanto, definidas as ações para conter os movimentos reformistas,
dentre as quais podemos destacar: catequese dos habitantes do chamado Novo
Mundo, especialmente pela ação de missionários; reavivamento do Tribunal do
Santo Ofício para condenar os hereges que contestavam a soberania da Igreja
Católica; criação do Index Librorum Proibitorum, uma lista de livros cuja leitu-
ra, segundo a Inquisição, era proibida aos fiéis católicos; redefinição dos deveres

capítulo 4 • 108
do clero, especialmente quanto à disciplina e à necessidade de preparação em
seminários; estabelecimento de que as crenças católicas poderiam ter origem na
Bíblia ou nas tradições transmitidas pela Igreja; restrição da interpretação da
Bíblia aos membros autorizados da Igreja; manutenção dos princípios de valia
das obras, o culto da Virgem Maria e das imagens e, finalmente, reafirmação da
infalibilidade do papa.

COMENTÁRIO
O Concílio que se reuniu na Península Itálica, entre os anos de 1545 e 1563, não traba-
lhou em tempo contínuo.

O Concílio de Trento consolidava a posição da Igreja fornecendo aos cristãos


que não a abandonaram um corpo doutrinário claro, mais preciso, estruturado,
cuja divulgação e administração estaria a cargo de um clero renovado, instruído,
preparado e dedicado ao trabalho pastoral. Confirmavam-se os pontos essenciais
do catolicismo, tais como a essencialidade da Igreja e o valor dos sacramentos,
definindo novas tarefas para os eclesiásticos e dando impulso ao desenvolvimento
de novas ordens religiosas. Notamos, assim, que o evento tentou solucionar uma
antiga reivindicação da hierarquia eclesiástica que era o problema da formação
moral, intelectual e religiosa do clero. Um clero moralmente organizado muito
poderia contribuir para a obra contrarreformista.
Por todos os modos possíveis tentou-se converter as populações que aderiam
às “heresias”. Assim, este movimento religioso compreendia não apenas a reforma
interna da Igreja Católica, mas também uma ação tendente a combater a expansão
do movimento protestante que estava rompendo a unidade da Igreja Católica.
A Companhia de Jesus foi uma das ordens mais importantes na formulação de
uma resposta ao protestantismo produzida durante o Concílio. A nova ordem bus-
cou, para o revigoramento da fé católica, um modelo segundo o qual o papel do
missionário era facilitar e intermediar o processo em direção à salvação para que
o homem, pecador por natureza, conseguisse purificar-se. Para que essa função
fosse cumprida, todos deveriam agir de uma mesma maneira através do método
disciplinar prescrito por Inacio de Loyola em seus Exercícios Espirituais. Segundo
esse método, o homem deveria refletir sobre suas experiências a partir de uma va-
riedade de perspectivas e com uma diversidade de formas de oração. A partir desse

capítulo 4 • 109
recolhimento, regressaria à ação com acrescido ímpeto e apto a se redimir do pe-
cado; desta forma, Inácio deixa explícito o duplo objetivo de sua doutrina, a saber,
a santificação pessoal e a atividade apostólica. “Inácio de Loyola transformou o
método de santificação pessoal transcrito nos Exercícios Espirituais em um modo
para a boa administração da Companhia de Jesus” (EISEMBERG, 2000, p. 33).
Dentro deste contexto de verdadeira luta pela expansão do cristianismo aos
povos recém-conquistados e pelo renascimento do fervor religioso entre os já con-
quistados e os hereges, a Companhia de Jesus conheceu rápido sucesso, tornando-
-se em pouco tempo uma instituição influente em todo o mundo.
Havia no exato momento de constituição da ordem uma necessidade de apoio
à centralização da Igreja Católica, daí os inacianos conquistarem rapidamente a
“bandeira papista”, não apenas por suas virtudes religiosas (EISEMBERG, 2000,
p. 32), mas devido à urgente necessidade de verdadeiros cristãos dispostos a labu-
tar pelos ideais católicos.
Porém, os inacianos não ascenderam rapidamente devido apenas ao contexto
histórico vivido pela Europa naquele momento, mas porque ampliaram o seu
campo de atuação enveredando pelo caminho educacional. Foram felizes ao no-
tarem que a educação e a disciplina, que era forte dentro da Ordem, eram fatores
de suma importância para a conversão, como comprova a experiência de vida
de Loyola.
Como bem frisa Leonel Franca, os jesuítas não pretendiam romper com as
tradições educacionais vigentes até então, ajustaram-se às exigências morais de sua
época. (FRANCA, 1936, p.14)
A formação dos primeiros membros da Companhia de Jesus deu-se na
Universidade de Paris, então centro da cultura europeia; assim, a organização pe-
dagógica parisiense influenciou profundamente na orientação dos novos educado-
res. Porém, devemos deixar claro que o “Modus Parisiensis” serviu apenas como
base de apoio, não houve uma imitação servil.
Como respiravam o Renascimento da Antiguidade Clássica, este movimento
também influenciou o trabalho dos jesuítas. Os autores clássicos que constituíam
a base da cultura humanista foram colocados a serviço da religião e encaixados em
formas organizativas rígidas, visto que o humanismo não encontrou grande apoio
nos países ibéricos.
De Paris recolheram também a influência Tomista que conhecia nessa uni-
versidade um movimento de restauração, pois este sistema filosófico tinha como
principal proposta a conciliação dos dogmas cristãos com a filosofia de Aristóteles.

capítulo 4 • 110
Escolheram até mesmo S. Tomás como doutor próprio, depois da ordem domini-
cana da qual S. Tomás fizera parte.
Assim, apoiados em sólidas bases teóricas e patrocinados pela Coroa lusitana,
os jesuítas, a partir do Colégio erigido por Simão Rodrigues em Coimbra, davam
as bases para a fundação das primeiras casas da Companhia fora do território por-
tuguês. Em 1546, Portugal foi elevado à categoria de primeira província jesuítica
e Simão Rodrigues escolhido como provincial. Desta maneira, surgiram colégios
e casas em todos os locais em que a Companhia tinha possibilidade de penetrar.
Apesar do reconhecimento de seu trabalho, Loyola, num primeiro momen-
to, era contrário à propagação dos colégios, principalmente para estudantes não
pertencentes à Ordem. Porém, ao notar que esta rápida expansão seria favorável à
sua obra e aos desejos do Concílio de Trento, abriu mão de sua relutância inicial.
Foi com a abertura do colégio de Messina, em 1548, que a Companhia de Jesus
enveredou definitivamente pelo caminho da educação.
A nosso ver, os inacianos deram tanta importância à educação porque, no con-
texto da Contrarreforma, a Igreja Católica precisava continuar responsável pela
formação de uma intelectualidade atuante junto ao corpo social. No Concílio
de Trento, posterior a essa expansão inicial, pretendia-se o revigoramento da es-
trutura unitária da Igreja através, dentre outras estratégias, da reorganização das
escolas católicas e também dos seminários. A obra desenvolvida pelos jesuítas com
o objetivo de fazer triunfar a tese da supremacia absoluta do Papa foi coroada pelo
sucesso, servindo de exemplo prático para ações posteriores.
Desta forma, a Companhia de Jesus e sua organização educacional, expandi-
ram-se por todo o mundo, mesclando conservadorismo com as necessidades de
mudança impostas pelo momento histórico, atuando de forma marcante nos sécu-
los posteriores e ganhando a batalha contra a expansão protestante. Garantiam-se
assim os domínios portugueses no novo mundo e do catolicismo sobre os po-
vos conquistados.
A atuação dos jesuítas foi, assim, o item de maior destaque na Reforma
Católica. Esses religiosos procuravam, simultaneamente, reconquistar as regiões
perdidas ao protestantismo e conquistar novos adeptos nas terras recém-conquis-
tadas. Fundaram, como vimos, colégios por toda a Europa católica e exerceram
significativa influência sobre as camadas mais abastadas da sociedade. Fizeram-se
presentes também nas colonizações portuguesa e espanhola. Desembarcaram na
América, África e Ásia, tentando a conversão das populações nativas ao catolicismo.

capítulo 4 • 111
Além do trabalho missionário, o papa Paulo I reavivou o Tribunal do Santo
Ofício, ou como preferem muitos historiadores, Inquisição. Criado no século
XIII, foi nesse momento colocado sob direção dos dominicanos com o objetivo de
combater os progressos do protestantismo e qualquer um que apresentasse postura
suspeita. Após seu reavivamento na Itália, a inquisição foi criada em outros países
europeus, com atuação exemplar na Itália, Espanha e Portugal, onde perseguiu
todos aqueles que, por meio do humanismo ou de teologias luteranas e calvinistas,
contrariavam a ortodoxia católica ou cometiam heresias (NOVINSKY, 1983).
É importante destacar que as vítimas da Reforma Católica acabaram sendo
envolvidas sob a denominação de “hereges” e, neste rótulo, quase tudo poderia
entrar. Dependia muito da interpretação que fosse feita sobre os seus atos.

A Inquisição é menos um conceito que uma instituição. Inquisição é o termo pelo qual
é mais comumente conhecido o Tribunal do Santo Ofício, órgão de investigação e re-
pressão instituído pela Igreja Católica na Idade Média que teve seu apogeu depois da
Reforma Católica, a partir do século XVI. (SILVA; SILVA, 2009, p. 234)

Na Península Ibérica a Inquisição transformou-se em uma das mais importantes


instituições de apoio ao estabelecimento e ao fortalecimento do Estado e da monar-
quia centralizada. O controle exercido pelo órgão sobre a sociedade era desmedido,
censurando livros e pensamentos. A autoridade do Tribunal não se resumia aos ju-
deus e hereges, mas abarcava a todos, impondo formas de comportamento, princi-
palmente sexual. A misoginia, ou seja, a aversão às mulheres, era uma das caracterís-
ticas mais fortes dessa instituição, que desde a Idade Média alimentava discursos de
medo e desconfiança contra as mulheres (NOVINSKY, 1983).

LEITURA
Sugestão de leitura: GINZBURG, Carlo. O Queijo e os Vermes. 3 ed. São Paulo: Cia da
Letras, 2003. A história do moleiro Menocchio, apresentada por Carlo Ginzburg, auxilia a
evidenciar a força conquistada pela Inquisição e a forma impiedosa como ela se manifestou
no ataque aos ditos “hereges”.

capítulo 4 • 112
Como um verdadeiro órgão judiciário, a Inquisição utilizou-se, desde os seus
primórdios, da violência. Além da fogueira, para conseguir detalhadas confissões
de hereges, judeus, feiticeiras, entre outros indivíduos tidos como perigosos para a
Igreja, a tortura era considerada um instrumento legitimo e apropriado de inves-
tigação. Deste modo, o Tribunal se especializou em técnicas de tortura, inclusive
elaborando manuais até hoje famosos, como o Martelo das feiticeiras. Sob tortura,
a maioria dos acusados, indivíduos denunciados muitas vezes por pura paranoia,
confessava todos os supostos crimes (SILVA; SILVA, 2009).

COMENTÁRIO
A Espanha formou diversos tribunais em seu Império, inclusive na América. Portugal, por
sua vez, não tinha os mesmos interesses religiosos e nacionalistas que a Espanha.

Em 1564, o papa Paulo IV, antigo inquisidor, e os demais senhores da Igreja


Católica identificaram um importante aliado dos protestantes e hereges, a palavra
escrita. A partir deste momento investiram contra as obras literárias e científicas
estabelecendo a Congregação do Index, com a função de selecionar os livros que
os cristãos poderiam ou não ler e controlar a produção de livros e outros impressos
que pudessem ajudar a difundir ideias infaustas à fé católica. Inúmeros autores
acabaram entrando nesta listagem sinistra e muitos livros e hereges foram man-
dados para a fogueira. Entre as obras proibidas constavam não apenas escritos
religiosos de Lutero e Calvino, mas também obras científicas como as de Galileu
e Copérnico.

CONCEITO
O Index, concebido no século XVI, foi mais uma arma numa guerra de retomada de fiéis.
Golpes deste tipo funcionaram como um bloqueio e limitaram os avanços protestantes na
Península Itálica, Portugal e Espanha. A Igreja continha o avanço da doutrina rival.

Para concluirmos, é importante destacar que não houve nesse momento da his-
tória uma discussão ou um debate sério entre um representante da Igreja Católica
e qualquer autoridade protestante acerca de temáticas doutrinárias. Todos ficaram

capítulo 4 • 113
unidos às suas metáforas e interpretações distintas dos mesmos textos bíblicos.
Essa falta de diálogo, aliada à defesa exacerbada de suas doutrinas, ocasionou guer-
ras, conflitos e ações repressivas de ambos os lados.

ATIVIDADE
1- Pondere a respeito da contribuição do Renascimento para a crise do pensamento religio-
so na Europa, no início da Idade Moderna.
2- Reflita sobre as relações entre o que Martilho Lutero defendia e o interesse das autorida-
des políticas locais.
3- Explique por que podemos afirmar que a Reforma na Inglaterra foi um processo essen-
cialmente político.

REFLEXÃO
Analisando a historiografia atual, é possível perceber que a Reforma não surgiu apenas
a partir dos gestos rebeldes de Martinho Lutero e João Calvino, mesmo que estivessem des-
contentes com os abusos sociais e morais da Igreja, não foram os únicos nem os primeiros a
demostrar contrariedade com a Igreja Católica.
Como estudamos, os exageros do clero católico não eram uma novidade surgida no sé-
culo XVI; antes de os reformadores protestantes dominarem o cenário, já haviam sido feitas
austeras e diferentes críticas à Igreja Romana.
Sem negar a autoridade e a importância do calvinismo e do luteranismo para aquele mo-
mento, é necessário levarmos em conta que sem a adesão da massa, disposta a se converter
e o apoio da burguesia, interessada em diminuir o poder de Roma e expandir seus lucros,
seria impossível falar em Reforma e em religiões protestantes.
Como efeito, o movimento reformista abalou profundamente o poder centralizado da
Igreja Católica, apresentando novas opções religiosas. Como destacou Max Weber (2003),
o calvinismo instigou o desenvolvimento do capitalismo ao propor uma religião pautada no
trabalho e no lucro. Lutero, ao propor a livre interpretação da Bíblia, contribuiu para o apren-
dizado da leitura.
Todavia, as mudanças ocasionadas pela Reforma não foram suficientes para eliminar,
por exemplo, a intolerância religiosa com relação às artes e às ciências, que passou a ser

capítulo 4 • 114
praticada tanto por católicos quanto por protestantes e ainda contribuiu para a disseminação
de sangrentas guerras religiosas entre católicos e protestantes pela Europa.

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capítulo 4 • 115
capítulo 4 • 116
5
O estado
absolutista
O estado absolutista
Perante as diversas mudanças ocorridas na Europa desde o final do período
medieval, qual teria sido o resultado político disto tudo? De acordo com o histo-
riador Perry Anderson (1995), a mais relevante delas teria sido a emergência do
Estado Absolutista no século XVI.
O termo absolutismo foi usado pela primeira vez no século XVIII para indicar
toda a doutrina que defendia o poder absoluto do Estado. Neste sistema de go-
verno, o poder monárquico é exercido sem restrições ou limites por seu detentor
(ABBAGNANO, 2000).
Assim, nesse último capítulo de nosso livro vamos analisar os principais aspectos
do regime de governo conhecido como absolutismo, bem como suas bases teóricas.

OBJETIVOS
• Compreender os principais traços que caracterizam o absolutismo;
• Conhecer alguns conceitos relacionados ao absolutismo;
• Analisar os principais teóricos do absolutismo;
• Verificar os principais Estados absolutistas da Europa.

Pensando alguns conceitos

Ao iniciarmos nossa discussão a respeito da estruturação do Estado absolutista


da Idade Moderna, é relevante que entendamos alguns conceitos que norteiem a
nossa compreensão.
Quando falamos em Estado, precisamos entender que se trata de um conceito
polissêmico, pois é usado sempre de acordo com um contexto e um recorte de
tempo e espaço selecionado pelo interlocutor, não sendo, portanto, um vocábulo
homogêneo. Entender esta polissemia evita anacronismos, prejudiciais ao estudo
da História.
Normalmente, quando falamos em Estado, sempre nos reportamos a questões
políticas ou de poder, mas Estado não é apenas um ordenamento jurídico, ele
está relacionado à sociedade e às relações sociais existentes (FOUCAULT, 2007).
Assim, podemos verificar que a relação entre o Estado e os poderes periféricos
sustenta o equilíbrio da estrutura política.

capítulo 5 • 118
Devemos entender também que Estado Moderno não é sinônimo de Estado
Absolutista. Primeiro porque em alguns locais a configuração absolutista de Estado
não passou de tentativa e, em segundo, essa construção posterior do conceito vi-
sava desqualificar e, também, homogeneizar tudo que era anterior ao declínio do
Antigo Regime, o que nos parece equivocado por não respeitar as particularidades
pertinentes e atreladas ao conceito.
Além disso, devemos considerar que ao falarmos que o monarca centralizou
todos os poderes não significa, como pode parecer, que havia uma negação dos
poderes periféricos. A legitimação do monarca não se deu em detrimento dos
demais setores sociais ou instituições, sendo o poder central apenas uma parte
da sociedade.
Portanto, ao abordarmos o Estado Absolutista, temos que compreender que
este se tornou uma cultura política de uma determinada sociedade em um deter-
minado espaço e tempo.

Antigo regime

A expressão “Antigo Regime”, e não termo, como preferem alguns historiado-


res, pode ser considerada uma expressão tradicional que originalmente designava
a estrutura social e política da França, a qual viria a desaparecer com a Revolução
Francesa. Tal expressão, apesar de muito utilizada pela historiografia, é uma ex-
pressão anacrônica por ter sido cunhada pela Revolução Francesa para se referir ao
período em que o domínio estava nas mãos do Estado absolutista. Além disso, ten-
de a generalizar características do período de transição francês para toda a Europa
absolutista (SILVA; SILVA, 2009). Portanto, a expressão “Antigo Regime”, di-
fundida após a Revolução Francesa e hoje de uso corrente entre os historiadores
da época moderna, ainda necessita de uma conceituação rigorosa. Até mesmo
porque indica sociedades nas quais predomina grande diversidade, permitindo,
deste modo, diferentes recortes para sua conceituação.
Podemos dizer que Antigo Regime é, na realidade, a contraparte social no
Estado absoluto, tendo, portanto, relação com a estrutura social comumente co-
nhecida como sociedade do Antigo Regime. Ou seja, a estrutura social estratifi-
cada, ainda fundamentada na sociedade de ordens do medievo, mas com novos
elementos, dos quais a burguesia é o principal fator de diferenciação (FALCON;
RODRIGUES, 2000).

capítulo 5 • 119
Apesar da tendência à generalização das características socioculturais do
Antigo Regime, existia uma interdependência entre os Estados Absolutistas e a cri-
se de um afetava os outros, num processo de círculo vicioso que debilitava o todo,
o absolutismo. Portanto, a crise deste foi a crise de seus elementos componentes.
Sem a preocupação de localizar o ponto inicial dessa ruptura, lembremos ape-
nas que a crise na sociedade estamental refletiu-se no capitalismo comercial e,
desse modo, afetou também o Absolutismo, fazendo surgir uma nova ideologia
contrária a ele: o Iluminismo, ocorrendo, assim, sua ruína.
Em síntese, podemos compreender o Antigo Regime como algo que surgiu
para remediar as crises e a desagregação do mundo feudal, visando a atender às
necessidades de uma época, mas de tal modo “desindividualizou” o homem, aba-
fou sua criatividade e reduziu sua liberdade que logo deixou de satisfazer os dese-
jos humanos.

A sociedade de corte

O contrassenso do absolutismo ocidental era que ele era essencialmente um


aparato para a proteção da propriedade e das prerrogativas aristocráticas, apesar
de, simultaneamente, os meios através dos quais tal proteção era promovida pu-
dessem assegurar os interesses básicos da burguesia emergente.
De certa forma, existia compatibilidade, nesta fase, entre a nobreza e o pro-
grama do Estado absolutista e as operações do capital mercantil e manufatureiro.
A nobreza podia confiar o poder à monarquia e permitir o enriquecimento da
burguesia porque as camadas menos abastadas estavam ainda à sua mercê. O do-
mínio do Estado absolutista era, para entendermos melhor, o da nobreza feudal,
na época de transição para o capitalismo (ANDERSON, 1995).
A historiografia tem demonstrado que alguns fatos sofrem variações de um
período histórico a outro, instituindo novas configurações, mais ou menos com-
plexas, passíveis de diferentes interpretações, que precisam ser analisadas e en-
tendidas. Dentre estes fatos, já muito estudados, estão as formas de ligação e de
associação que estiveram presentes na sociedade durante a estruturação e fortaleci-
mento das monarquias absolutistas.
Ao falarmos dessa sociedade, é imprescindível que nos atenhamos ao apre-
sentado por Nobert Elias na obra A Sociedade de Corte (2001), uma vez que o
referido autor, ao analisar a estruturação do mecanismo absolutista constatou que
não existia um grupo dominante, mas grupos emaranhados e que transitavam

capítulo 5 • 120
nesse emaranhado. Neste período histórico, o monarca, os nobres e os burgueses
estavam envolvidos de tal maneira que Elias rejeita, ao analisá-los, a ideia, comum
às Ciências Sociais, da existência de dominantes e dominados.
Para Elias, na sociedade absolutista, usando o exemplo de Luís XIV por acre-
ditar que este encarnava o modelo do soberano absoluto, a rede humana estabele-
cida pelo monarca demarcou um modelo específico de governo, que para manter
a estabilidade necessária ao seu poder, exerceu um controle político por meio do
cerimonial (ELIAS, 2001).
A etiqueta era um meio, com características próprias, para o monarca con-
trolar e manipular os membros da corte. Esta etiqueta tinha variações, podendo
ser usada como um instrumento de superioridade ou de afirmação, pois tínha-
mos uma nobreza de herança feudal e a burguesia, que precisava se afirmar neste
novo espaço.
Mas como funcionava esse instrumento de dominação? Por meio da exigência
imposta pela etiqueta, o monarca controlava as ações e a vida de cada membro de
sua corte e, assim, manipulando-os de acordo com seus interesses, pois os indi-
víduos, nobres ou burgueses, desejavam agradar ao monarca para permanecer na
posição em que estavam dentro da complexa relação social estabelecida. O rei era,
portanto, o principal mediador das relações sociais no âmbito da corte, o centro
dessa configuração social.
Como a nobreza feudal não foi completamente removida do cenário político,
ela não perdeu seu prestígio, a monarquia absolutista soube conjugar todos os
interesses na sua forma de reinar. Essa camada social assumiu o papel de súditos
reais, gravitando ao redor do rei. Como destaca Raimundo Faoro, a ética medieval
sobreviveu, mesmo sendo estranhamente contemporânea à aventura ultramarina.
(FAORO, 2008, pp. 78-79). Por outro lado, o Estado absolutista, com suas estru-
turas administrativas, era um instrumento tipicamente burguês.
A promoção das famílias burguesas à condição de membros da nobreza pro-
moveu o que Elias chama de “acortesanamento” da burguesia e aburguesamento
da nobreza, porque as expressões e valores que simbolizavam a sociedade de corte
passaram às famílias burguesas ascendentes, que assimilaram tais valores e expres-
sões da nobreza.
Segundo o autor, Luís XIV se manteve por muito tempo no governo exata-
mente por saber controlar esses instrumentos, pois compreendia perfeitamente
a luta por status e a necessidade de distanciamento das camadas inferiores que

capítulo 5 • 121
a nobreza travava. Esse distanciamento do soberano seria a maneira pela qual o
rei mantinha o equilíbrio das tensões existentes entre as camadas sociais, além de
manter com frequência essa mesma crise entre nobreza e burguesia.
Assim, para estar sempre bem perante o monarca, o súdito deveria saber con-
ter suas emoções, controlar-se, o que Elias denomina racionalidade cortesã. A ca-
pacidade de disciplina era o passaporte para o poder e valia tanto para burgueses,
que buscavam acumulação econômica, quanto para nobres, que estavam atrás de
mais prestígio e reconhecimento social.

CONCEITO
Autocontrole é um conceito muito relevante para Norbert Elias, pois para manter-se den-
tro da sociedade de corte o indivíduo deveria ser o próprio agente repressor na medida em
que se autopoliciava e internalizava as coações externas.

Um dos principais mecanismos de ascensão na sociedade cortesã era a outorga


de títulos pelo rei ou seus representantes; assim, famílias burguesas eram benefi-
ciadas com títulos nobiliários. Por outro lado, o rei poderia abrandar o empobre-
cimento de uma família nobre, outorgando um cargo ou beneficiando-a com uma
pensão. Assim, quanto mais “favores” o rei oferecia, maior era o domínio sobre os
beneficiados.
Percebemos que essa sociedade, a sociedade cortesã, não era uma sociedade
pacífica, mas uma sociedade com um equilíbrio multipolar de tensões. Quando
algum dos pesos necessários para a manutenção deste equilíbrio pende para um
dos lados, essa sociedade perde a sua importância, deixa de existir por perder a sua
própria razão de ser.

LEITURA
Indicação de leitura: RIBEIRO, Renato Janine. A etiqueta no Antigo Regime. São Paulo:
Moderna, 1999.

capítulo 5 • 122
Justificativa teórica

Os principais teóricos do Absolutismo se apropriaram do discurso racional, de


origem renascentista, para respaldar práticas do poder absolutista. Muitos filósofos
deste período desenvolveram teorias e chegaram até mesmo a escrever livros defen-
dendo o poder absoluto dos monarcas.
A natureza do regime político e a origem do poder soberano do monarca fo-
ram embasadas teoricamente por pensadores como Maquiavel, Bodin, Hobbes e
Boussuet, que colocaram o poder real acima de qualquer contestação. De acordo
com o pensador Nicolau Maquiavel, o Estado amoral e desvinculado de preocupa-
ções ético-religiosas, encarnado na figura do “príncipe”, estava acima do interesse
individual, que deveria ser sacrificado em nome do bem da nação. O pensador ita-
liano propôs que o príncipe lançasse mão de todos os meios, inclusive a violência,
desde que fossem mobilizados para atingir o fim almejado. Maquiavel aponta que
o príncipe deveria ser amado e temido, não podendo ser os dois e preferencial-
mente deveria ser antes temido do que amado.

CURIOSIDADE
Nicolau Maquiavel
O florentino renascentista Nicolau Maquiavel, importante teórico da política, foi o criador
das teorias sobre as quais se assentaram o Estado moderno. Em sua obra mais relevante O
príncipe, uma espécie de manual para governantes, elaborada para seu mecenas Lourenço
de Médici, é ainda nos dias atuais considerada de grande importância para os estudos de
ciência política. Nessa obra, Maquiavel apresenta a ideia de que o soberano não deveria ter
escrúpulos para manter o controle do Estado. Para o autor, os fins justificavam os meios, dan-
do origem ao termo maquiavelismo. Atualmente o termo tem o sentido popular de conduta
desonesta, desleal, traiçoeira, “maquiavélica”.

Maquiavel foi um importante pensador político de sua época. Na Europa,


durante a Idade Moderna, a política dos governantes e as relações internacionais
muitas vezes seguiram a máxima do pensador italiano.
O francês Jean Bodin concebia o Estado como a extensão de uma família e,
deste modo, o rei governava para o bem de seus numerosos “filhos”. Em sua obra
A República, Bodin defendeu que o monarca não deveria prestar contas a quem

capítulo 5 • 123
quer que fosse, além de não acatar a existência de um parlamento, submetendo-se
apenas à vontade de Deus. De acordo com a sua teoria da “soberania não com-
partilhada”, qualquer desobediência ou revolução implicariam em crime de dupla
natureza, contra o monarca e contra Deus. Mesmo que o monarca se excedesse
no poder, o povo não poderia se rebelar, já que a mais dura tirania é melhor que
a anarquia.
Outro ideólogo do Absolutismo foi o filósofo inglês Thomas Hobbes, autor
de Leviatã. Esse autor sustentava que, no estágio primitivo da sociedade, tudo era
caótico e, em virtude da falta de governo, os indivíduos viviam num estado de
permanente de “guerra de todos contra todos”, pois, na expressão mais conhecida
do autor, “o homem é o lobo do homem”. Todavia, em um dado momento, as
comunidades primitivas teriam delegado o poder a um de seus membros para es-
tabelecer a ordem; sendo assim, o poder real vinha do consentimento dos súditos e
não de Deus, do direito divino. Como “o homem é o lobo do homem”, tornou-se
imperativa a presença do Estado, verdadeiro monstro (Leviatã) limitador da liber-
dade de todos, mas um mal necessário.
Para Hobbes, teria sido firmado um contrato social entre o soberano e o povo
para que a ordem e a paz fossem alcançadas e que fosse evitado o que ele chamou
de caos social. Todavia, para que esse objetivo fosse alcançado, os poderes do go-
vernante deveriam ser absolutos, sendo, portanto, o absolutismo imprescindível
para a organização social.
Jacques Bossuet, por sua vez, justificava o poder absolutista afirmando que na
unidade reside a vida; fora da unidade, a morte é certa. A teoria da origem divina
do poder real, segundo a qual os poderes monárquicos eram concedidos por Deus,
foi fundamentada nas obras Memórias para a educação do delfim e Política segundo
a Sagrada Escritura, elaboradas pelo bispo francês, confessor e o tutor responsável
pela educação de Luís XIV. Segundo o religioso, o soberano era eleito por Deus, sen-
do, assim, seu principal representante, ao qual todos deviam obediência. Ao ser co-
roado Luís XIV, o jovem soberano começou a mostrar que havia aprendido as lições.

O Absolutismo

A organização dos Estados absolutos na Europa pode ser observada desde o


fim da Idade Média, ou seja, no momento de transição para a Idade Moderna
quando se definiram os limites e as fronteiras destes Estados, e se acentuou com
o fortalecimento da burguesia e do mercantilismo. No momento de centralização

capítulo 5 • 124
política, portanto, as relações sociais foram marcadas por características feudais
e por atributos embrionários das relações burguesas. Ao contrário do que possa
parecer, o fim ou o declínio da servidão não significou a completa abolição das re-
lações feudais no campo, principalmente por se tratar de um período de transição.
O Estado centralizado apareceu, assim, conectado às agitações políticas entre
nobreza e burguesia, características desse momento histórico, além das disputas
políticas entre os príncipes e a Igreja Católica, visto que o Papado durante o perío-
do medieval foi uma apreciável força internacional.
Nesse processo de centralização, foi notável a união entre religião e política,
uma vez que o poder absoluto muitas vezes outorgava ao monarca um caráter
sacralizado. Esse aspecto, como veremos, foi mais marcante na França justificado
pela teoria do direito divino dos reis, defendida por teóricos como o bispo Bossuet.
Fica claro, portanto, que o Estado absolutista está ligado a um determinado
momento da história das nações europeias, o período em que uma monarquia
fortalecida com os conflitos políticos internos entre diferentes grupos sociais, e
apoiada em justificativas filosóficas, consolidou o Estado nacional. Porém, apesar
de algumas características comuns, como a concentração de poder na figura do
rei, a burocracia, o exército e a mercantilização da Economia, o absolutismo apre-
sentou variações regionais, cada uma delas com suas particularidades, como são a
Espanha e a Rússia, por exemplo.
Outra questão que merece nossa atenção é que o poder do rei não era abso-
luto, no sentido de que não era ilimitado. Nenhum monarca absolutista reinava
sozinho, sem qualquer controle por parte da sociedade. Apesar de centralizado e
forte, o poder, em geral era limitado pela tradição, pelos costumes, quando não
pela existência de parlamentos e ministros com poder de decisão (SILVA; SILVA,
2009). O poder do rei na Europa não chegava a dispor das propriedades e de seus
súditos (ANDERSON, 1995).
A decadência do Estado absolutista ocorreu com a ascensão política da bur-
guesia nos Estados europeus modernos, no século XVIII, que favoreceu o apa-
recimento de teorias as quais, opostas ao absolutismo, defendiam um governo
constitucional, representativo e uma Economia sem a interferência do Estado.
Muitos autores abordaram a conceituação do Absolutismo, suas características
e delimitações no espaço e tempo. Friedrich Engels, Nicolas Poulantzas, Fernand
Braudel, Norbert Elias, dentre outros, trabalharam a origem do Absolutismo e sua
natureza política.

capítulo 5 • 125
Perry Anderson (1995), um dos principais historiadores do absolutismo, des-
taca que nos primeiros momentos do Estado absoluto, quando a época moderna
ainda se delineava, a classe econômica e politicamente dominante era a mesma
da Idade Média, a aristocracia feudal. Portanto, inicialmente, o absolutismo era
um mecanismo de dominação feudal, utilizado para fixar as massas camponesas
na sua posição social tradicional. Esse modelo de monarquia, podemos afirmar,
lançou mão de instrumentos modernizadores para a conservação da autoridade da
nobreza sobre a massa camponesa.

AUTOR
Perry Anderson, autor da obra Linhagens do Estado Absolutista, publicada em 1974,
segue uma linha historiográfica marxista não ortodoxa. Vinculado à historiografia marxista
inglesa, à New Left ou movimento neomarxista, em alguns momentos de sua obra, Ander-
son discorda da proposta marxista, buscando liberdade frente ao que foi estabelecido por
essa abordagem.

Anderson, contrapondo-se ao que fora apresentado por Engels e Norbert Elias,


afirmava que a nobreza teve uma força maior no processo de centralização do po-
der. Negava, assim, a existência de um equilíbrio entre nobres e burgueses, afir-
mando que o Estado absolutista foi favorecido pelo temor que os nobres tinham
da desordem que poderia ser causada pela massa, especialmente, os camponeses.
Mas, e o papel da burguesia de que tanto falamos nos capítulos anteriores e
que sempre esteve presente nos estudos da História moderna? O autor aponta que
a burguesia se infiltrou gradualmente no Estado por meio do financiamento esta-
tal ou com a compra de cargos e títulos nobiliários, por exemplo.
Outro importante autor que aborda o tema é Schiera (1997), afirmando que o
absolutismo é tratado como uma forma de governo que se aproxima do despotis-
mo, criticando claramente a visão de Estado absolutista difundida desde o século
XIX, com uma perspectiva generalizada de Estado de um soberano com poder
ilimitado acima de tudo, um poder quase autoritário.
Para o autor, essa ideia é equivocada porque o problema, no Estado absolutis-
ta, estava na delimitação do poder entre quem o detém e os que são legislados por
ele, ou seja, o soberano e seus súditos. Assim, o absolutismo deve ser entendido
como uma forma de governo na qual os poderes são institucionais e centrados.

capítulo 5 • 126
A partir do que estudamos até aqui, podemos verificar que a discussão a res-
peito do Estado absolutista é marcada por várias perspectivas, que em alguns pon-
tos não se correspondem, como a designação do próprio termo ou a origem do
Estado absolutista.
Além das relevantes análises a respeito do Estado absolutista, cujas discussões
ultrapassam os limites deste trabalho, é importante considerarmos que o valor
histórico do Estado absoluto está no fato de sua extensão ter sido responsável
pela consolidação do Estado moderno europeu, que, em virtude do processo de
expansão territorial, teve influência no desenvolvimento dos Estados latino-ameri-
canos, que imitaram os padrões de Estado nacional oriundos da Europa ocidental
(CARMO; COUTO, 2000).

Absolutismo na França

A centralização política na França ocorreu entre o fim da Guerra dos Cem


anos (1453) e meados do século XVII. As dinastias dos Capetíngios e dos Valois
intensificaram o processo nos reinados de Felipe, o Belo e Luís XI. Ambos lutaram
contra a intromissão da nobreza nos assuntos estatais. A Guerra de Cem Anos,
segundo alguns historiadores, foi fundamental para a constituição da monarquia
francesa, pois gerou um sentimento de nacionalidade, unificou o exército e fra-
gilizou a nobreza. Por outro lado, a duração da guerra retardou o processo de
centralização, já em andamento desde o século XIII.
Com o fim do conflito, Carlos VII aprovou algumas medidas, como uma
reforma financeira e o controle sobre o exército, que fortaleceram a monarquia.
Porém, no século XV, quando Luís XI chega ao poder, inicia-se uma oposição en-
tre a nobreza e o monarca que consegue reprimir os nobres na região de Borgonha.
A derrota da nobreza resume a unificação, legitimação e fortalecimento da mo-
narquia da França.
O rei Francisco I assinou com o papa Leão X a Concordata de Bolonha
(1516), documento que garantia unicamente aos monarcas franceses o direito
de indicar os nomes que ocupariam os cargos eclesiásticos na França. Em 1534,
Francisco I decretou o Protestantismo proibido na França, o que provocou a fuga
do reformador João Calvino para Genebra.
Ao longo do século XVI, a França foi palco de diversos conflitos sociais, reli-
giosos e dinásticos envolvendo a nobreza feudal católica e uma parte da burguesia

capítulo 5 • 127
adepta ao calvinismo. Henrique II, filho e sucessor de Francisco I, permitiu a
atuação política de sua esposa, Catarina de Médici, representante, como podemos
concluir por seu nome, da poderosa família de banqueiros italianos. A monarca
francesa foi também atuante no reinado de seus filhos Francisco II, Carlos IX e
Henrique III (LADURIE, 1994).
No início do reinado de Carlos IX, que assumiria o trono com apenas dez
anos de idade, Catarina ficou com a regência. Defendendo os interesses da aristo-
cracia católica e latifundiária, a regente aliou-se ao Duque de Guise, chefe da Liga
Católica e aspirante ao trono. Temendo essa união, um dos líderes da oposição
calvinista, o almirante Gaspar de Coligny aproximou-se do rei Carlos IX, sobre o
qual exerceu influência por algum tempo.
No governo de Carlos IX, intensificaram-se os conflitos envolvendo os bur-
gueses calvinistas, chamados de huguenotes e os nobres católicos. Os calvinistas
franceses lutavam por segurança e estabilidade para seus negócios. O ápice deu-se
quando o almirante Gaspar Coligny sofreu um atentado ordenado por Catarina
de Médici. Como o atentando não ceifou a vida do líder calvinista, Catarina orde-
nou um ataque aos huguenotes. No episódio que ficou historicamente conhecido
como noite de São Bartolomeu (24 de agosto de 1572), milhares de protestantes,
inclusive Coligny, foram cruelmente massacrados em Paris.
A partir de então o trono passou a ser disputado por Henrique III, da dinas-
tia de Valois, pelo líder católico Henrique de Guise e por Henrique de Navarra,
protestante casado com a católica Margarida de Valois, filha de Henrique II e
Catarina de Medici. Na disputa pelo trono, os dois primeiros foram assassinados
e o trono coube a Henrique de Navarra, renomeado Henrique IV, da família de
Bourbon, que se tornou a nova dinastia real francesa. O novo monarca, para
agradar a maioria católica, converteu-se ao catolicismo, mas conservou o apoio
dos huguenotes.
As ações de Henrique IV voltaram-se para mediar os conflitos entre católicos
e protestantes, com destaque para a promulgação do Edito de Nantes que liberava
o culto aos protestantes, para evitar a continuidade dos dissabores com Felipe II
da Espanha, que apoiava os católicos contra o rei francês. Os huguenotes foram
incentivados a investir no comércio e na navegação, sendo, assim, retomada a
aliança entre o rei e a burguesia.
A morte de Henrique IV colocou o poder nas mãos de sua esposa, Maria de
Médicis, que exerceu a função de regente em virtude da menoridade do herdeiro,
o futuro Luís XIII.

capítulo 5 • 128
Ao assumir o trono, Luís XIII buscou colocar a França em destaque entre
as potências europeias e contou com a importante ajuda do ministro, o cardeal
Richelieu. O cardeal governou a França de fato, superando em poder o próprio
monarca. Nesse período os franceses enfrentaram a Dinastia Habsburgo, pre-
sente na Espanha e na Áustria, na Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), cuja
vitória da França criou condições necessárias para a consolidação definitiva do
absolutismo no país.
Quando Luís XIII morre, em meados do século XVII, mais uma vez o trono
ficou nas mãos de uma regente, Ana D’Áustria, que conservou como ministro o
sucessor de Richelieu, o também cardeal, Mazzarino, ao qual coube lutar contra a
oposição da nobreza e da burguesia.
Após a morte do cardeal Mazzarino, o rei Luís XIV assumiu diretamente o
governo, decidindo ser seu próprio primeiro-ministro e simbolizando o apogeu do
absolutismo francês. No governo, ele concentrou plenos poderes em suas mãos,
dando significado literal a sua famosa frase “O Estado sou eu”. A nobreza foi po-
liticamente neutralizada ao passar a viver à custa do Estado, pois a dependência
econômica a submetia ao rei. Os postos mais importantes passaram a ser ocupados
pelos burgueses, que assumiam um caráter aristocrático ao adquirir títulos, e Luís
XIV colou-se no topo da administração (BURKE, 1994).
O “Rei Sol”, como ficou conhecido, estabeleceu uma notável centralização e
controle do poder, confundindo-se com o Estado. Para conquistar a unidade na-
cional, Luís XIV revogou o Edito de Nantes em 1685, extinguindo as garantias de
tolerância religiosa dos huguenotes e provocando o êxodo da burguesia protestan-
te. Apesar desta fuga, o seu reinado caracterizou-se pelo desenvolvimento mercan-
tilista, resultado dos esforços conjuntos do monarca e da burguesia. O principal
artífice dessa aliança foi o ministro das finanças Jean-Baptiste Colbert. O ministro
estabeleceu uma política metalista clássica e orientou a consecução de uma balan-
ça comercial favorável. Esse período foi caracterizado pelo incentivo à navegação
marítima, à conquista de colônias e ampliação das manufaturas (LOPES, 1996).
Porém, para dar hegemonia à França, o monarca arrastou o país para diversas
guerras desastrosas. O futuro Luís XV herdou um país em difícil situação econô-
mica. Essa situação foi particularmente agravada pela Guerra dos Sete Anos na
qual, além dos gastos militares, os franceses perderam para os ingleses possessões
coloniais na Ásia e na América. A derrota francesa desprestigiou ainda mais a di-
nastia Bourbon, derrubada no reinado.

capítulo 5 • 129
RELAÇÕES INTERNACIONAIS
As relações internacionais marcaram profundamente a história da Europa moderna. A
partir da constituição de um Direito Público Internacional, as diversas nações deveriam
procurar resolver os seus conflitos por meio de negociações. A diplomacia seria uma
tentativa de substituir as guerras por acordos pacíficos. Todavia, isso não se concretizou
plenamente e os europeus conviveram com o fantasma das guerras ao longo dos sécu-
los em que se consolidaram as monarquias absolutas.

Absolutismo na Inglaterra

Na Inglaterra, quando a família Tudor saiu vitoriosa da Guerra das Duas


Rosas, findando o século XV, Henrique VII assumiu o poder e inaugurou a dinas-
tia Tudor. Com a ascensão de seu sucessor, Henrique VIII, o absolutismo atingiu
seu ponto máximo na Inglaterra. Henrique VIII solidificou as práticas absolutis-
tas, redobrou o apoio ao comércio e rompeu com a Igreja Católica, fundando,
como já estudamos, a Igreja Anglicana.

LEITURA
Indicação de leitura: BINGHAM, Jane Tudors: A Verdadeira História de uma Dinastia Glo-
riosa. 5. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 2015.

Os reinados de seus sucessores, Eduardo VI e Maria I, não foram expressi-


vos, mesmo com os ideais do absolutismo mantidos. Na Inglaterra, esse sistema
político teve seu ápice no reinado de Elizabeth I, outra filha de Henrique VII.
Muito hábil nas relações com o Parlamento e muito firme em sua posição frente
às pressões da Igreja Católica, a monarca conquistou grande popularidade. Seu
governo estimulou ataques de corsários aos galeões e às colônias espanholas na
América, visando à acumulação de metais preciosos e ao combate a inimigos po-
líticos e religiosos.

capítulo 5 • 130
MULTIMÍDIA
Indicação de filme: Elizabeth (1998, Inglaterra – Estados Unidos, direção Shekhar Kapur).
O filme retrata a Inglaterra do século XVI quando Elizabeth I é coroada rainha e luta pelo
poder de seu país na Europa.

Quando Elizabeth, a “rainha virgem”, morreu, a ausência de herdeiros diretos


do trono fez com que o poder passasse para seu primo, Jaime I, rei da Escócia e
filho de Maria Stuart. Encerrava-se a dinastia Tudor e iniciava-se a dinastia Stuart.
Com essa nova dinastia, tinha início a história do Reino Unido da Grã-Bretanha,
compreendendo Inglaterra, Escócia, Gales e Irlanda.
Carlos I tentou ampliar o poder absolutista real violando as prerrogativas do
Parlamento. Porém, precisando de recursos para custear as guerras externas, foi
obrigado a ampliar os poderes do Parlamento. O descontentamento com a polí-
tica fiscal e religiosa de Carlos levou à revolta aberta do Parlamento, liderada por
Oliver Cromwell. Vitoriosa a revolta, Cromwell mandou decapitar o rei e gover-
nou o país de modo ditatorial até sua morte, em 1658. Seu filho, Ricardo, assumiu
o poder, mas não reunia condições de governar. Por pressão dos presbiterianos, o
Parlamento, reunido em 1660, forçou a abdicação de Ricardo Cromwell e recon-
duziu a dinastia Stuart ao trono.
Carlos II, filho de Carlos I, assumiu o trono em 1660, mas suas pretensões
absolutistas chocavam-se com os interesses do Parlamento, além do temor da vol-
ta da influência papal nos assuntos internos do país. Para afastar essa ameaça, o
Parlamento aprovou, em 1679, o Ato da exclusão, que obrigava todos os funcio-
nários reais a prestar juramento ao anglicanismo; assim, um católico não poderia
ser soberano na Inglaterra.
Com a morte do irmão, ascendeu ao trono Jaime II, católico, que pretendia
resgatar o absolutismo inglês com o apoio do monarca francês Luís XIV. Diante
dessa ameaça e receosos de uma rebelião popular, os membros do Parlamento uni-
ram-se para afastar o perigo católico e convidaram o príncipe holandês, Guilherme
de Orange, casado com Maria, filha protestante de Jaime II. Guilherme aceitou a
proposta e desembarcou com suas tropas na Inglaterra, em 1688. Jaime II tentou
resistir, mas nem seu próprio exército o queria no poder. O soberano inglês viu-se
obrigado a fugir para a França, o que foi considerado pelo Parlamento como ato

capítulo 5 • 131
de abdicação. A chegada de Guilherme à Inglaterra e a fuga de Jaime II para a
França fazem parte do que ficou conhecido como Revolução Gloriosa.
Antes mesmo da coroação, Guilherme jurou a Declaração dos Direitos, que
reduzia drasticamente os poderes do monarca e encarregava o Parlamento do go-
verno efetivo do país (PENNA, 1997). A Revolução Gloriosa se consolidava e,
com ela, demarcava-se o predomínio do poder do Parlamento sobre a monarquia.
Os novos tempos derrubariam as restrições mercantilistas absolutistas e propicia-
riam progresso à burguesia manufatureira.
Cabe destacar que o principal teórico desse novo modelo de governo foi o
filósofo inglês John Locke, considerado o pai do liberalismo político, segundo o
qual o Estado existia para garantir a segurança e os direitos individuais, que seriam
o direito à vida, à liberdade e à propriedade, entendidos como direitos naturais,
por isso, próprios a todos os homens, especialmente os burgueses.
Segundo Locke, que refutava o direito divino e o absolutismo, o poder legi-
timo seria aquele emanado da vontade popular, pois a soberania pertence ao povo
que a delega a uma assembleia ou a um monarca. Caso o governo desrespeitasse os
direitos individuais, os governados tinham direito à rebelião. Esses direitos foram
estabelecidos por força de lei, e, a partir de então, o absolutismo desaparece do
Reino Unido (JAPIASSÚ; MARCONDES, 2006).

Portugal e Espanha

Os árabes permaneceram, como já discutimos, do século VIII até o XV na


Península Ibérica. Nesse território, mouros e católicos conviveram em alternados pe-
ríodos de paz e conflitos até, por volta do século XI. Todavia, as cruzadas desencadea-
ram uma intensa luta com o propósito de expulsar os islâmicos. Essas lutas, conhecidas
como Guerra de Reconquista, favoreceram a retomada da Península e a divisão do
território em condados, em Portugal e reinos, na Espanha (POMER, 1986).
Assim, Portugal nasceu a partir de uma faixa de terra conquistada pelos cris-
tãos sob o comando do monarca Afonso VI de Leão, que repassou o seu controle
da área batizada de Condado Portucalense, para o francês Henrique de Borgonha,
em virtude da sua dedicação no combate aos árabes. Em 1139, essas terras são
repassadas para o filho de Henrique de Borgonha, Afonso Henrique. Com apoio
de um grupo de políticos, ele consegue a emancipação do condado, dando origem
a Portugal (FALCON, 1986).

capítulo 5 • 132
Análogo ao processo de unificação portuguesa, o Estado espanhol se formou
a partir da expulsão dos islâmicos da região, que originou os reinos de Leão e
Castela, Navarra e Aragão. Por meio de conflitos e matrimônios, alguns destes
reinos foram anexados, como ocorreu com a união entre os reis católicos Fernando
e Isabel. Esse casamento uniu os reinos de Leão e Castela e o reino de Aragão,
dando origem à atual Espanha. Influenciados por um forte sentimento religioso,
Fernando e Isabel tiveram uma participação decisiva na expulsão dos árabes da
Península Ibérica no final do século XV.
No século XVI, a Espanha se apresenta no cenário internacional como uma
grande potência, devido a sua recente centralização política. O monarca Carlos I
de Habsburgo foi o responsável pela consolidação do absolutismo na Espanha. No
ano de 1519, tornou-se imperador do Sacro Império Romano-Germânico, pas-
sando a ser chamado de Carlos V. Em 1556, ele dividiu o reino com seus irmãos
Fernando, que dominou os territórios da Áustria e Alemanha, e Filipe II, que ficou
com a Espanha, colônias espanholas, regiões da Itália e Países Baixos.
Todavia, os problemas econômicos ocasionados pelas perdas na Europa, acres-
cidos à crise na extração de metais preciosos nas colônias e à falta de modernização
dos aparelhos administrativos, contribuíram para que a principal potência do século
XVI, e consequentemente sua monarquia, entrasse em declínio (FALCON, 1986).

Na Espanha, o Absolutismo foi legitimado por teses contratuais. Ou seja, o poder cen-
tralizado do rei era explicado pela existência de um contrato entre rei e sociedade. A
sociedade espanhola era então compreendida, segundo o historiador Richard Morse,
como uma entidade ordenada, na qual a tarefa de organizar a estrutura social pertencia
ao rei. Além disso, as vontades do rei e do povo deveriam estar em harmonia, buscando
o bem-estar comum (SILVA; SILVA, 2009).

Absolutismo e cultura

No final do século XVI e início do XVII, a Europa passava por uma crise eco-
nômica e social; essa instabilidade foi provocada, entre outros fatores, pela reforma
católica, a qual influenciou a cultura barroca, que também é conhecida como a
arte da Contrarreforma (FRANÇA, 1997).
A arte barroca expressa as agitações econômicas, religiosas e sociais do período
e como tal não contemplou apenas a nobreza, mas alcançou o público em geral

capítulo 5 • 133
(BOSI, 1995). A partir da Península Itálica, o barroco floresceu nas demais regiões
da Europa e também no Novo Mundo, como no Brasil.
A arte barroca buscava o sobrenatural e o maravilhoso e tinha como principais
características o culto do contraste, o dualismo, o pessimismo, como uma decla-
rada falta de perspectiva e um forte apelo moralista, como um instrumento para
educar e para pregar a religiosidade.
O pintor italiano Caravaggio foi um dos mais expressivos artistas da época,
empregando em suas obras o contraste dramático de luz e sombra, característica
que, como destacamos, se tornou referência no barroco.
Na França, com a construção do Palácio de Versalhes nas proximidades de
Paris, a vida cultural atraiu a atenção de todas as monarquias europeias. Teatro,
literatura e ciência encontraram condições favoráveis para o seu desenvolvimento
com o amparo do monarca, nobres e burgueses. As representações teatrais se en-
riqueceram com as tragédias e as comédias, que criticavam o comportamento de
burgueses e aristocratas. A esse período pertencem Molière e Racine.

LEITURA
Sugestão de Leitura: MARAVALL, José Antonio. A cultura do Barroco: análise de uma
estrutura histórica. São Paulo: Edusp/Imprensa Oficial, 1997.

A produção literária conheceu seu período clássico com autores como La


Fontaine, Madame Sévigné, Boileau, Fénelon, La Bruyère. Dentre as concepções
filosóficas, destacam-se o racionalismo e o método científico de René Descartes e
a união do cálculo matemático às reflexões filosóficas elaborada por Pascal.
Na Holanda, o barroco adquiriu características próprias como a austeridade
e a praticidade. Realista, o artista holandês não se prendia a padrões de beleza,
preferindo retratar cenas do cotidiano, diferenciando-se dos artistas italianos, que
retratavam, na maioria das vezes, temas nobres. Os destaques da arte barroca nos
Países Baixos foram Peter Rubens que pintou diversos quadros cujo objetivo era
exaltar a religiosidade católica; Rembrandt van Rijn, cuja obra se caracteriza pela
predominância de expressões dramáticas e pela utilização de vívidos efeitos de
luz, e Vermeer, que diferente de Rembrandt, trabalhou os tons em plena clari-
dade, com temas sempre voltados para a vida burguesa da Holanda seiscentista
(PROENÇA, 2007).

capítulo 5 • 134
Na Espanha, o barroco se desenvolveu, sobretudo, na arquitetura, nos enta-
lhes requintados das portas de edifícios religiosos e civis. A cultura barroca foi ca-
racterizada pelo nacionalismo, realismo, de influência italiana, e fé religiosa. Nesse
país se destacaram Diego Velásquez, o mestre da representação de luz e sombra e
El Greco, com obras que se caracterizavam pela predominância da verticalidade,
com figuras alongadas e geralmente pintadas em cores frias (PROENÇA, 2007).
A difusão da música barroca foi intensa, pois a produção musical do período
foi marcada por muita alegria e espiritualidade. Os mais importantes composi-
tores dessa fase foram Antônio Vivaldi, autor de As quatro estações, e o alemão
Johann Sebastian Bach, considerado como um dos mais brilhantes compositores
de todos os tempos, com mais de 200 cantatas, entre elas Paixão segundo Mateus,
além de peças orquestrais como os Concertos de Brandenburgo (CANDÉ, 1994).

ATIVIDADE
1. Avalie a relação estabelecida entre o monarca e a burguesia na estruturação do Esta-
do Moderno.
2. Reflita sobre o significado da Teoria do Direito Divino, que justificava o absolutismo dos
reis da Idade Moderna.

REFLEXÃO
Ante o ambiente do final da Idade Média, desmembrado pelo feudalismo e afetado pela fome
e pela guerra, o homem europeu, totalmente inseguro e desiludido com os velhos valores,
buscava uma nova realidade. Assim, nasceu, sob o aspecto econômico, o Capitalismo mer-
cantil, o cultural, o Renascimento, o religioso, a Reforma, e o político, o Estado Moderno, no
qual o indivíduo esperava encontrar a ordem, a paz, a segurança, enfim, as condições que lhe
faltaram nos séculos anteriores.
Completou-se o processo de centralização política ainda sob ares medievais, passando
o monarca a ter jurisdição sobre todo o território então delimitado. Os tributos pagos ao mo-
narca substituíram o senhorial, a força armada nacional suplantou os cavalheiros, os vassalos
transformaram-se em súditos, todos os homens, cidadãos.
O rei passou a deter todos os poderes, sendo o administrador, o líder do exército, o repre-
sentante de Deus, o legislador e o executor. Seu poder estendeu-se, dirigia a vida econômica,

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controlava a sociedade, fixava as metas políticas, deliberava sobre as relações internacionais
e, ainda, definia os valores culturais.
Desde a Idade Média, já existiam pretensões centralizadoras, mas com a transição para
a Idade Moderna surgiram as condições que permitiram consolidar tal ideal. De fato, para
centralizar, os monarcas precisavam superar dois obstáculos, um interno, a nobreza feudal
e outro externo, a Igreja Católica. Na Idade Moderna, a concentração de poderes tornou-se
viável graças à contraposição entre os poderes universalistas e supranacionais e os poderes
particularistas e regionalistas. O conflito interno entre esses componentes, as longas dispu-
tas entre o soberano e o papa pela hegemonia europeia e os embates entre a burguesia e a
nobreza feudal enfraqueceram-nos, favorecendo o despontar de um poder nacional.
Portanto, naquele contexto, os fatores decisivos para o Absolutismo foram o Renasci-
mento, a Reforma e as lutas entre a burguesia e a nobreza. O Renascimento colaborou
para a constituição do Estado Moderno, ao extinguir o monopólio cultural-religioso, roubando
parte do prestígio da Igreja, e ao revalorizar o direito romano, que defendia a concentração
da autoridade pública.
A Reforma abalou ainda mais as pretensões políticas da Igreja Católica, enfraquecendo-
-a, o que facilitou a organização de Estados modernos e admitiu que muitos reis exercessem
os poderes anteriormente restritos as autoridades eclesiásticas. Não podemos esquecer que,
em alguns países, como Inglaterra e Suécia, os próprios monarcas lideraram o movimento
reformista contra a Igreja.
Finalmente, o fator mais importante do Absolutismo foi a oposição de interesses entre a
burguesia e a nobreza. Para os burgueses, a descentralização feudal e a consequente multi-
plicidade de impostos e moedas representavam uma barreira à expansão dos negócios. Para
os nobres, tal descentralização significava maior prestígio e poder. Deste modo, num primeiro
momento, deu-se a aliança rei-burguesia contra a nobreza para consolidação do processo de
centralização política. No entanto, prevendo futuras dificuldades com a emergente burgue-
sia, o monarca não aniquilou completamente o poder da nobreza. Assim, o monarca ganhou
todos os poderes.

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