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Genética Mendeliana Genética Mendeliana UNIVERSIDADE ESTADUAL DO MARANHÃO
Genética Mendeliana
Genética
Mendeliana
UNIVERSIDADE
ESTADUAL DO
MARANHÃO

FaBrÍCio silva GarCeZ isadora teresa FranÇa Pereira

Genética Mendeliana

são luís

F aBrÍCio s ilva G arCeZ i sadora t eresa F ranÇa P ereira Genética Mendeliana

2016

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Proibida a reprodução desta publicação, no todo ou em parte, sem a prévia autorização desta instituição.

Garcez, Fabrício Silva.

Genética mendeliana / Fabrício Silva Garcez, Isadora Teresa França Pereira.–São Luís: UemaNet, 2016.

64 p.

1.Genética. I.Pereira, Isadora Teresa França. II.Título

CDU: 575

ÍCONES

Orientação para estudo

Ao longo deste fascículo serão encontrados alguns ícones utilizados para facilitar a comunicação com você.

Saiba o que cada um significa.

a comunicação com você. Saiba o que cada um significa. ATIVIDADES SAIBA MAIS GLOSSÁRIO SUGESTÃO DE

ATIVIDADES

com você. Saiba o que cada um significa. ATIVIDADES SAIBA MAIS GLOSSÁRIO SUGESTÃO DE LEITURA DICA

SAIBA MAIS

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GLOSSÁRIO

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DICA DE SITE

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ATENÇÃO

Palavra dos professores-autores

7

Apresentação

 

9

UNIDADE 1 - Introdução ao estudo da Genética

11

1.1 O Que a Genética Estuda?

11

1.2 A História da Genética

12

 

1.2.1 Pré-Genética

14

1.2.2 Genética Clássica

14

1.2.3 Período Moderno

15

1.2.4 Período da Genética Molecular

16

1.3

Gregor Mendel (1822-1884)

18

1.3.1

O Museu de Mendel

19

Resumo

21

Atividades

21

Referências

21

UNIDADE 2 - Herança monoíbrida e diíbrida

23

2.1 Cruzamento Monoíbrido

23

2.2 Cruzamento Diíbrido

27

2.3 Padrões de herança

28

 

2.3.1 Dominância completa

29

2.3.2 Dominância incompleta

29

2.3.3 Co-dominância

30

2.4 Alelos letais

31

2.5 Penetrância e Expressividade

33

 

2.5.1

Expressividade

33

Resumo

33

Atividades

34

Referências

35

UNIDADE 3 - Recombinação Genética

37

3.1 Recombinação Genética

37

 

3.1.1 Recombinação Geral

38

3.1.2 Recombinação Sítio-específica

39

3.2 DNA recombinante e biotecnologia

39

39 3.2 DNA recombinante e biotecnologia 39 3.2.1 Aplicações da tecnologia do DNA recombinante 41

3.2.2

Terapia gênica ou geneterapia

43

 

3.2.3

CRISPR-cas9, uma revolução na manipulação de genes

44

3.3

DNA Recombinante: prólogo ou epílogo?

46

Resumo

 

46

Atividades

47

Referências

47

UNIDADE 4 - Mapeamento Genético

49

4.1 Principais conceitos, Ligação e Crossing-Over

49

4.2 Mapa Genético

52

4.3 Marcadores moleculares

53

4.4 Construção dos mapas de ligação e genômica

56

4.5 Mapeamento de QLTs

59

Resumo

 

59

Atividades

60

Referências

63

PALAVRA DOS PROFESSORES-AUTORES

Caro estudante,

Mais um ciclo se inicia para obtenção do sucesso no final desta trajetória que será se tornar Especialista em Ensino de Genética. É com grande satisfação que apresentamos a vocês o fascículo da disciplina Genética Mendeliana.

Esperamos nesta disciplina problematizar, contextualizar e discutir os desafios na aprendizagem dos conceitos primordiais em Genética Mendeliana para o ensino de genética. Serão apresentados elementos para facilitar sua compreensão como aluno, e mais tarde permitir a sua experiência como educador, levando reflexões e experiências consolidadas nesta disciplina para seus futuros alunos.

Aproveite com êxito o material disponibilizado para facilitar seu aprendizado. E desejamos sucesso no encerramento desta etapa.

Isadora Teresa França Pereira Fabrício Silva Garcez

Caro estudante,

Caro estudante, A disciplina de Genética Mendeliana visa apresentar importantes conceitos relacionados à herança

A

disciplina de Genética Mendeliana visa apresentar importantes

conceitos relacionados à herança genética passada de geração à geração.

conceitos relacionados à herança genética passada de geração à geração.

O

material aqui apresentado, ilustra com clareza a importância dos

processos envolvidos na transmissão de características dos pais para seus descendentes. Dessa forma, o fascículo foi organizado em quatro unidades para sua melhor compreensão, onde serão descritas a seguir:

 

Na unidade 1 – Nesta unidade serão apresentados conceitos básicos envolvendo o estudo de genética, contexto histórico, além das linhas e teorias concretizadas pelos pesquisadores da época sobre herança genética.

contexto histórico, além das linhas e teorias concretizadas pelos pesquisadores da época sobre herança genética.

Na

unidade 2 – Nesta unidade, você irá conhecer as principais aplicações

da

genética mendeliana, bem como os princípios das Leis postuladas por

Mendel.

Na

unidade 3 – Nesta unidade comentaremos sobre processos envolvidos

na

recombinação gênica, bem como suas consequências envolvendo

mecanismos de evolução e sua influência na biodiversidade.

Na unidade 4 – Por fim, nesta última unidade intitulada Mapeamento Genético, abordaremos os princípios para construção de um mapa genético, bem como entender e diferenciar os principais tipos de Mapas. Discutiremos também, a evolução do cenário de estudos genômicos e como isso afetou de forma positiva estudos com mapeamento genético.

Bons estudos!

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA GENÉTICA

Objetivos

Compreender alguns conceitos base que envolvem o estudo da genética;

Identificar os principais fatos que contribuíram para a construção do que hoje se entende por genética;

Reconhecer a importância das contribuições de Mendel e de seus estudos para a genética.

1.1 O Que a Genética Estuda?

Quando se discute a respeito da base que constitui o estudo da genética, três pontos principais logo surgem: o gene, a hereditariedade e a variação. De uma forma direta, a genética é geralmente definida como a ciência responsável pelo estudo dos genes e dos mecanismos envolvidos na transmissão destes para as gerações seguintes, ou seja, tenta compreender

os mecanismos e a base por trás da herança e da variação.

E qual seria então a diferença entre hereditariedade e variabilidade? Bem,

a herança é o que faz com que dois indivíduos aparentados compartilhem

características semelhantes entre si. Em contrapartida, a variação é a responsável por manter a unicidade de cada um dos indivíduos. Por exemplo, mesmo que dois irmãos apresentem características semelhantes entre si, estas herdadas dos pais, ainda assim, cada um deles irá possuir características únicas responsáveis por diferenciá-los um do outro.

Além de buscar entender tais mecanismos, a genética também abrange outras questões bastante interessantes, como por exemplo, a grande variação encontrada em todas as formas de vida, que consiste na base central para os processos de formação de novas espécies,

e os mecanismos envolvidos no desenvolvimento de organismos multicelulares complexos a partir de uma única célula.

e os mecanismos envolvidos no desenvolvimento de organismos multicelulares complexos a partir de uma única célula.

1.2 A História da Genética

Apesar dos conceitos envolvendo hereditariedade atualmente se encontrarem bem definidos, durante grande parte da história humana os detalhes científicos acerca dos mecanismos envolvidos eram desconhecidos, levando a formulação de várias teorias e linhas de pensamento. Talvez as mais conhecidas ocorreram durante os anos 1700s, a partir do microscopista holandês Anton van Leeuwenhoek que afirmou descobrir o que ele chamou de “animalcules” no esperma de seres humanos e outros animais. Mais tarde, outros cientistas especularam que viram um “homem pequeno” (homúnculo) dentro de cada espermatozoide (Figura 1). Estes cientistas formaram uma escola de pensamento conhecida como os “espermistas”. Em oposição

a essa teoria estavam os “ovistas”, que acreditavam que as mulheres

carregavam ovos contendo ambos os sexos, já determinados bem antes

da concepção, e que o esperma serviria apenas como um estímulo para

o crescimento desses ovos.

Tanto os “espermistas” quanto os “ovistas” defendiam uma linha de pensamento conhecida como “Teoria da Pré-formação”, a qual sugere que os organismos já se encontram completamente formados no interior das células sexuais ou gametas.

formados no interior das células sexuais ou gametas. Figura 1 – Esquematização de um homúnculo, segundo

Figura 1 – Esquematização de um homúnculo, segundo Hartsoeker, 1964 Fonte: http://idd0073h.eresmas.net/public/artic06/r&i05.gif

O avanço tecnológico de importantes ferramentas de estudo, como

o microscópio, permitiu aos cientistas uma análise mais aprofundada acerca dos gametas, o que levou a formulação de uma nova teoria conhecida como “Teoria da Epigênese” ou “Epigenética”. Tal teoria

defendia o conceito de que os organismos na verdade surgiam a partir da união do gameta masculino com o gameta feminino, o que levaria a formação de uma única célula, denominada de “célula-ovo” ou “zigoto”, que posteriormente, a partir de inúmeras divisões e especificações daria origem ao organismo em si, com todas as suas características e complexidades inerentes (Figura 2). Essa linha de pensamento foi inicialmente defendida pelos pesquisadores Karl Ernst von Baer e Caspar Friedrich Wolff, sendo devidamente comprovada e difundida nos dias atuais.

Com a realização de novos estudos, impulsionados principalmente pelos avanços tecnológicos de cada era, novas descobertas puderam ser feitas e novas teorias construídas, contribuindo bastante com o conhecimento que temos hoje em dia acerca do tema.

com o conhecimento que temos hoje em dia acerca do tema. Figura 2 – Esquematização da

Figura 2 – Esquematização da formação do organismo a partir da união de gametas de ambos os sexos, de acordo com os conceitos defendidos pela Teoria da Epigênese Fonte: http://www.sobiologia.com.br

Para um melhor entendimento a respeito da História da Genética e suas descobertas, esta encontra-se dividida em quatro períodos: Pré- Genética, Genética Clássica, Período Moderno e Período da Genética Molecular.

1.2.1 Pré-Genética

Período situado entre os anos de 1665 a 1884, impulsionado principalmente pela descoberta das células, culminando na realização dos primeiros estudos e descobertas acerca de suas características e processos envolvendo a divisão celular. Foi nesse período que Gregor Mendel publicou seu trabalho “Experimentos em Hibridação Vegetal”, baseado em experiências de hibridação com ervilhas, propondo o conceito de unidade ou partículas hereditárias, o que hoje em dia definimos como genes. Apesar da importância dos estudos de Mendel, estes só vieram a ser reconhecidos anos mais tarde.

1665

Descoberta das células

Robert Hooke

1833

Descoberta do núcleo celular e de sua importância para a célula

Robert Brown

1838

a 1839

Formulação da Teoria Celular

Mathias Schleiden e Theodor Schwann

1859

Publicação do livro “A Origem das Espécies”

Charles Darwin

1865

Publicação do livro “Experimentos em Hibridação Vegetal”

Gregor Mendel

1875

a 1876

Contribuições acerca dos conceitos de herança e fertilização

Hertwig e Strasburger

1882

a 1884

Divisão celular: Mitose e Meiose

Flemming e Van Beneden

Fonte: Sistematizado pelo autor do fascículo

1.2.2 Genética Clássica

Período situado entre os anos de 1900 a 1927, é marcado principalmente pela redescoberta das leis fundamentais da hereditariedade, propostas por Mendel, e pelo nascimento do termo “Genética”, utilizado pela primeira vez pelo biólogo William Bateson.

1900

Início da Genética com a redescoberta dos estudos de Mendel

Carls Correns, Hugo de Vries e Erich von Tschermak

1902 a 1909

Surgimento do termo “Genética”, bem como de outras importantes definições: homozigoto, heterozigoto, alelomorfo e epistasia.

Wiliam Bateson

1905

Primeira descrição dos cromossomos sexuais X e Y

Nettie Stevens e Edmund Wilsons

1908

Proposição de que certas doenças metabólicas em humanos eram herdadas e tinham fatores mendelianos como base

Archibald Garrod

 

Localização dos genes nos cromossomos

Thomas Hunt

1910

Morgan

1927

Mudanças físicas nos genes são definidas como mutações

Hermann J. Muller

Fonte: Sistematizado pelo autor do fascículo

J. Muller Fonte: Sistematizado pelo autor do fascículo No dia 20 de julho de 2015 comemorou-se

No dia 20 de julho de 2015 comemorou-se os 150 anos da publicação do livro “Experimentos em Hibridação Vegetal”, por Gregor Mendel. Nesse dia, as principais instituições de pesquisa ao longo dos cinco continentes se reuniram para celebrar a visão revolucionária do monge através de uma orquestra realizada na cidade natal do pesquisador, em Brno na RepúblicaTcheca, sendo transmitida ao vivo para todo o mundo. O espetáculo foi chamado de“Mendel: O Legado”e um pequeno trecho pode ser visto através do site: http://www.mendelthelegacy.com/

1.2.3 Período Moderno

Período situado entre os anos de 1928 a 1968, marcada por várias descobertas científicas, principalmente em torno de características do DNA, onde foi proposto pela primeira vez o modelo tridimensional de sua estrutura pelos pesquisadores James Watson e Francis Crick.

 

Descoberta de uma molécula de

 

1928

hereditariedade em bactérias, mais tarde conhecida como DNA

Frederick Griffith

1931

Crossing over é a causa da recombinação genética

Harriet B. Creighton e Barbara McClintock

1941

Visão de genes como codificadores de proteínas

George Beadle e Edward L Tatum

 

Genes eram compostos de um tipo

 

1944

específico de ácido nucleico (ácido desoxirribonucleico – DNA) e não de proteína

Oswald Avery

1951

Regras de proporção dos nucleotídeos (A e T; C e G)

Erwin Chargaff

 

Proposição da estrutura molecular

James Watson e Francis Crick

1953

do DNA e a composição molecular do gene

1956

Número correto de cromossomos na espécie humana

Jo Hin Tijo e Albert Levan

1959

Descobertas de anomalias cromossômicas em humanos

Vários autores

1961 a 1964

Decifrado o primeiro código genético

M. W. Nirenberg, J. H. Matthaei e P. Leder

1968

Descoberta das enzimas de restrição

Werner Arber, Daniel Nathans e Hamilton Smith

Fonte: Sistematizado pelo autor do fascículo

1.2.4 Período da Genética Molecular

Período iniciado nos anos de 1970s, marcado pelas inúmeras pesquisas que surgem após as descobertas envolvendo a molécula do DNA. Época que teve como importante fator o avanço das chamadas “tecnologias do DNA recombinante” e o desenvolvimento de métodos e técnicas de sequenciamento. Tais avanços permitiu

a realização de estudos marcantes na história da genética, como

o nascimento do primeiro clone animal e o sequenciamento do genoma humano.

1970

Isolamento de enzimas de restrição

Hamilton Smith e Kent Knox

1972

Primeira molécula de DNA recombinante

Paul Berg e Herb Boyer

1973

Melhoramento das técnicas de eletroforese

Joseph Sambrooke, Annie Chang e Stanley Cohen

1977

DNA é sequenciado pela primeira vez

Fred Sanger, Walter Gilbert e Allan Maxam

 

Técnica de amplificação do DNA

 

1985

pela PCR (reação de polimerização em cadeia)

Kary B Mullis

1988

Início do “Projeto Genoma Humano”

Vários autores

1989

Descobertas na área da genética forense

Allec Jeffreys

 

Sequenciado o primeiro genoma

 

1995

de um ser vivo (Haemophilus influenzae)

Vários autores

 

Primeiro eucarioto a ter

 

1996

seu genoma sequenciado (Saccharomyces cerevisiae)

Vários autores

1997

Nascimento do primeiro animal clonado, a ovelha “Dolly”

Ian Wilmut

2001

Publicado primeiro rascunho do genoma humano

Vários autores

 

Sequenciado 99% do genoma

 

2003

humano pelo “Projeto Genoma Humano”

Vários autores

Fonte: Sistematizado pelo autor do fascículo

1.3 Gregor Mendel (1822-1884)

Nascido em uma pequena vila austríaca (Heinzendorf bei Odrau, hoje parte da República Checa) em julho de 1822, Gregor Johann Mendel (Figura 3) fazia parte de uma família humilde de camponeses e apesar de se revelar um jovem bastante estudioso, não tinha condições financeiras para arcar com o custo dos estudos, ingressando como noviço no mosteiro da Ordem de Santo Agostinho no ano de 1843 (atual mosteiro de Brno, República Checa).

no ano de 1843 (atual mosteiro de Brno, República Checa). Figura 3 - Gregor Johann Mendel

Figura 3 - Gregor Johann Mendel (1822 - 1844) Fonte: Adaptada do site http://www.mun.ca/

biology/scarr/2250_Did_Mendel_cheat.html

Após ingressar na Universidade de Viena em 1847, Mendel realizou estudos meteorológicos e que envolviam teorias da evolução, apesar de seu maior interesse ser em plantas. Entre os anos de 1856 e 1865 o monge austríaco realizou vários experimentos envolvendo ervilhas, buscando investigar os padrões de hereditariedade de características existentes na planta.

Foi então que em 1865 Mendel formulou e apresentou os resultados de seus estudos à Sociedade de História Natural de Brno, o que ele deu

o nome de leis da hereditariedade, hoje conhecidas como as Leis de

Mendel. Com base nos seus experimentos com ervilhas, Mendel propôs

o conceito de unidades hereditárias, essa que foi a primeira definição do que hoje é conhecido como herança particulada. As características em

si não são herdadas, mas as unidades (ou partículas) que determinam os

caracteres observáveis são transmitidos de ambos os genitores aos seus

filhos. Isto deu início ao conceito que temos hoje de gene.

Apesar de sua pesquisa representar uma revolução científica, com alguns conceitos e definições sendo utilizados até os dias de hoje, não foi muito bem recebido pela comunidade científica na época e pouca importância foi dada aos seus resultados. Somente em 1990, mais de

um século após a sua morte (1884), os biólogos Carls Correns, Hugo de Vries e Erich von Tschermak “redescobriram” os trabalhos realizados por Mendel, desta vez dando o devido reconhecimento a sua pesquisa, o que levou o monge a ser considerado atualmente o “Pai da Genética”.

1.3.1 O Museu de Mendel

atualmente o “Pai da Genética”. 1.3.1 O Museu de Mendel Figura 4 - Museu de Mendel,

Figura 4 - Museu de Mendel, Universidade de Masaryk Fonte: http://mendelmuseum.muni.cz/en/

No ano de 2007, na Uni- versidade de Masaryk em Brno (República Tcheca), foi inaugurado um instituto em homenagem aos traba- lhos realizados por Mendel, o chamado Museu de Men- del (Figura 4). A criação do museu foi idealizada pela

sociedade austríaca, cientistas e patronos afiliados. O museu tem como objetivo principal promover o legado do monge, que é conhecido prin- cipalmente por seus estudos sobre plantas, em particular com ervilhas.

No entanto, o instituto também aborda outras áreas de estudo em que Mendel atuou, tais como na meteorologia e criação de abelhas.

O Museu de Mendel de-

monstra de forma prática a genialidade do pesquisa- dor, permitindo o contato

do público em geral com

as pesquisas desenvolvidas

pelo monge e suas princi- pais contribuições para a genética. Há também um lugar para o mundo da arte

dentro dos planos de ex- posições do museu, que frequentemente organiza exposições de curto prazo. Dentro do museu está localizado o local de trabalho original de Mendel, sendo sua plantação de ervilhas preservada até hoje (Figura 5).

sua plantação de ervilhas preservada até hoje (Figura 5). Figura 5 - Exposição da plantação de

Figura 5 - Exposição da plantação de ervilhas utilizadas por Mendel em seus estudos Fonte: http://mendelmuseum.muni.cz/en/

O Museu de Mendel pode ser acessado através do site (http://

mendelmuseum.muni.cz/en/), onde o visitante pode ler mais a respeito

de suas várias exposições e visualizar imagens das galerias e eventos

organizados pelo instituto (Figura 6).

galerias e eventos organizados pelo instituto (Figura 6). Figura 6 – Exposição do Museu de Mendel,

Figura 6 – Exposição do Museu de Mendel, destacando os monges Agostinianos. Fonte: http://mendelmuseum.muni.cz/en/

Os resultados e conceitos obtidos com base nos experimentos com ervilhas que Mendel realizou (Figura 7), bem como alguns trabalhos inspirados por suas pesquisas, será estudado com mais detalhes nas próximas unidades deste fascículo.

com mais detalhes nas próximas unidades deste fascículo. Figura 7 - Charge satirizando os experimentos de

Figura 7 - Charge satirizando os experimentos de Mendel com ervilhas Fonte: http://eebweb.arizona.edu/courses/ecol320/Mendel’sPeaSoupSmall.jpg

Resumo

Nesta primeira Unidade, abordamos alguns conceitos básicos que envolvem o estudo de genética, descrevendo todo o contexto histórico e as principais teorias e linhas de pensamento seguidas pelos pesquisadores da época. Além disso, destacamos as principais descobertas e contribuições científicas, citando alguns importantes fatos e personagens que marcaram o crescimento e o entendimento do que hoje se sabe a respeito desta importante e cada vez mais ascendente área da ciência.

importante e cada vez mais ascendente área da ciência. 1. Com base na descrição dos acontecimentos

1. Com base na descrição dos acontecimentos históricos envolvidos no surgimento da genética, como conhecemos atualmente, destaque e comente o fato que você considera como sendo o mais marcante em cada um dos períodos históricos citados na unidade.

Refereências

BURNS, G.W. & BOTTINO P.J. Genética. Editora Guanabara Koogan: 6. ed. Rio de Janeiro – RJ, 1991. 381 p.

GRIFFITHS, A.J.; WESSLER, S.R.; LEWOTIN, R.C.; CARROLL, S.B. Introdução à Genética. Editora Guanabara Koogan: 9. ed. Rio de Janeiro – RJ, 2009. 726 p.

PIZZAIA, D.; ZAROS, L.G.; ROSÁRIO, M.F. Variação e Herança. EDUFRN. Natal – RN, 2012. 294 p.

GUIMARÃES JÚNIOR, A.C. Apostila Pré-Universitário Regular. Sistema Ari Sá de Ensino: 6. ed. Fortaleza – CE, 2015. 672 p.

Ari Sá de Ensino: 6. ed. Fortaleza – CE, 2015. 672 p. A Masaryk (Brno, República

A

Masaryk (Brno, República

Tcheca), através de seu site, apresenta aos visitantes uma forma interativa de se compreender os mecanismos envolvidos na herança genética. O site contém explicações ilustrativas acerca dos principais conceitos envolvendo os grupos sanguíneos, Fator Rh, Sistema ABO e herança genética. A página ainda disponibiliza ao visitante a oportunidade de participar de um

jogo, onde se aplica os

de

de

dade

Universidade

conceitos abordados. O site se encontra em inglês e pode ser acessado em:

http://mendelmuseum.

muni.cz/aplikace/

mmMendelovoMuzeum/

KrevniSkupiny/lang_en/

index.html.

HERANÇA MONOÍBRIDA E DIÍBRIDA

Objetivos

Compreender

os

conceitos

elementares

da

genética

básica;

Reconhecer os padrões de Herança Mendeliana;

Entender as leis de Mendel e suas implicações.

2.1 Cruzamento Monoíbrido

Em algum momento de sua vida acadêmica, você deve ter ouvido falar

de Mendel e seus famosos experimentos com ervilhas, que mais tarde

teve outros modelos biológicos a partir do mesmo experimento. Esta

unidade será dedicada para discutir, analisar e compreender como

foram realizados seus experimentos.

e compreender como foram realizados seus experimentos. Gene : é a unidade funcional de hereditariedade que

Gene: é a unidade funcional de hereditariedade que codifica uma ma

cadeia polipeptídica

Alelos: são formas alternativas de um mesmo gene que ocupam o

mesmo loco em cromossomos homólogos e que afetam o mesmo

caractere de um modo diferente

Por cruzamento Monoíbrido, ou Primeira Lei de Mendel, ainda

conhecida como Princípio da Segregação ou Lei da Pureza dos Gametas,

Mendel postulou que os padrões de herança são determinados por

genes (unidades independentes herdada ao longo das gerações) que

ocorrem em pares em um indivíduo, mas que segregam um do outro na

independentes herdada ao longo das gerações) que ocorrem em pares em um indivíduo, mas que segregam
independentes herdada ao longo das gerações) que ocorrem em pares em um indivíduo, mas que segregam
independentes herdada ao longo das gerações) que ocorrem em pares em um indivíduo, mas que segregam

formação de gametas, onde esse gameta recebe apenas um ou outro alelo pareado. Antes dessa lei vir à tona, o que prevalecia era que as células sexuais (espermatozoide e ovócitos) continham uma amostra de essências de várias partes que faziam parte da composição dos corpos dos pais. Esse conceito era conhecido como Herança por Mistura ou Mesclagem. A ideia parecia fazer sentindo, pois a prole concebida tinha características dos dois indivíduos. Porém muitas vezes os filhos não apresentavam características dos pais, mas sim dos seus antepassados.

características dos pais, mas sim dos seus antepassados. Figura 1 - Exemplo de Herança por mistura

Figura 1 - Exemplo de Herança por mistura ou mesclagem Fonte: https://www.stormfront.org/forum/t838080-3/

A ideia errônea e inicial era mais ou menos o que a ilustração acima mostra. Um típico erro pré-formulação da teoria de Mendel. A herança não ocorre por mistura, não havendo homogenização de características na reprodução sexuada.

Depois do postulado de Mendel, a ideia propagada era bem diferente, vide a imagem a seguir.

Figura 2 - Experimentos de Mendel utilizando cruzamentos recíprocos entre linhagens puras Fonte:

Figura 2 - Experimentos de Mendel utilizando cruzamentos recíprocos entre linhagens puras Fonte: http://docentes.esalq.usp.br/aafgarci/pub/genet2.pdf

O sucesso da teoria de Mendel se deu por diversas razões, dentre elas:

Houve um planejamento cuidadoso para seus experimentos;

Escolha do modelo biológico adequado para sua pesquisa;

Gerou uma grande quantidade de dados que proporcionou chegar às hipóteses formuladas;

Executou uma os experimentos atentando-se criteriosamente para o rigor científico de suas proposições;

Realizou uma análise matemática de seus dados, mostrando que os resultados eram consistentes com suas hipóteses; e

Replicou seus resultados em novos experimentos.

Os passos que remetem esse estudo seguiu uma série de etapas, fazendo

o modelo biológico escolhido ser ideal para esse experimento, a ervilha.

Para a escolha do material Mendel

considerou que era necessário que

o caráter escolhido apresentasse ex-

pressões contrastantes ou mesmo

formas alternativas, ou seja, ele bus-

cava um modelo que apresentasse

Variabilidade Genética. Como

exemplos dessa variedade pode-se

destacar as características ao lado:

variedade pode-se destacar as características ao lado: Figura 3 - Variedade de características das ervilhas

Figura 3 - Variedade de características das ervilhas utilizadas por Mendel para seu experimento Fonte: http://docentes.esalq.usp.br/aafgarci/

pub/genet2.pdf

BOX GLOSSÁRIO

Heterozigose: é o estado em qu de alelos diferentes para um d

Herança monoíbrida e diíbrida | Unidade 2

25

Heterozigose: é o esta- do em que o indivíduo é dotado de alelos diferen- tes

Heterozigose: é o esta- do em que o indivíduo é dotado de alelos diferen- tes para um determinado gene.

Para a condução do experimento com criterioso rigor científico, Mendel procurou conhecer a forma de polinização desta espécie. Ele viu que poderia ser de duas formas: AUTÓGAMA ou ALÓGAMA. Na autogamia há fusão de gametas masculinos e femininos em um mesmo indivíduo,

já a alogamia ocorre quando gametas advindos de seres do sexo oposto

geram um novo indivíduo e estas são caracterizadas pela Heterozigose. Em seguida Mendel começou a autofecundação das plantas para ob- tenção dos progenitores puros (Geração Parental) através de plantio isolado para posterior observação de descendência (Geração Filial).

A imagem a seguir, mostra o processo de autofecundação das flores

realizado por Mendel, para o início dos experimentos.

realizado por Mendel, para o início dos experimentos. Figura 4 - Experimento de Mendel com o

Figura 4 - Experimento de Mendel com o processo de auto fecundação das flores Fonte: www.geocities

Agora você pode estar se perguntando o por quê de Mendel ter

escolhido as ervilhas como modelo biológico inicial. Para um estudo que durou cerca de oito anos, Mendel precisaria elencar características que fossem prioritárias para a realização dos experimentos. A ervilha então surgiu como um modelo primordial, pois é uma espécie de fácil cultivo, possui o ciclo de vida relativamente curto, é capaz de produzir muitos descendentes por planta, possui características bem variáveis, visíveis

e de fácil observação e possuem flores hermafroditas, possibilitando a autofecundação e formação de linhagens puras.

2.2 Cruzamento Diíbrido

O Cruzamento Diíbrido ou mais comumente conhecido como Segunda

Lei de Mendel ocorre quando dois genes controlam a expressão de

duas características distintas, cada uma controlada por um gene com dois alelos, onde metade dos gametas carrega um dos alelos e a outra metade carrega outro alelo, ou seja se segregam independentemente.

A Segunda Lei de Mendel é válida para genes que se encontram em

cromossomos não homólogos. Baseado nessa informação, pode-se dizer que indivíduos puros tem alelos idênticos, enquanto os híbridos tem alelos diferentes.

Cromossomos homó- logos: são cromosso- mos iguais entre si que juntos formam um par Híbrido:
Cromossomos homó-
logos: são cromosso-
mos iguais entre si que
juntos formam um par
Híbrido: define um cru-
zamento genético entre
duas espécies distintas,
que geralmente não tem
descendência devido à
incompatibilidade dos
genes.

De forma mais explanatória, vamos verificar como funcionou esta segunda fase de experiências de Mendel!

Utilizando ainda como modelo as ervilhas, Mendel pegou ervilhas de linhagens puras que tivessem as sementes amarelas e lisas e outra linhagem, também pura, de ervilhas verdes e rugosas. Então esses cruzamentos reuniram dois pares de características representados pela cor e pela forma. E como conclusão do estudo anterior, a primeira lei, Mendel concluiu que os fatores liso e amarelo eram caracteres dominantes e as características verde e rugosa eram recessivos.

A seguir, esse exemplo está ilustrado em dois níveis: experimental e

conceitual.

Figura 5 - Exemplo dos experimentos de Mendel com abordagem experimental e conceitual Fonte: http://genetica.50webs.com

Figura 5 - Exemplo dos experimentos de Mendel com abordagem experimental e conceitual Fonte: http://genetica.50webs.com

2.3 Padrões de herança

Anteriormente, mencionamos que uma característica pode ser determi- nada por um gene e que esse gene pode se mostrar variável em uma população, logo o alelo é a forma que varia em um gene. Mas como é determinado se o alelo é dominante ou recessivo?

Vamos trabalhar com uma característica hipotética. Que tal a cor dos olhos? Digamos que a cor azul dos olhos é determinada por um alelo e a cor preta é determinada por outro alelo de um mesmo gene. Isso significa que uma sequência de nucleotídeos, baseada no código genético determina a cor azul. E uma outra sequência diferente de DNA determina a cor preta. Entenda que o DNA não é responsável pela codificação do pigmento, mas tem a informação genética necessária para a síntese de uma enzima responsável por produzir o pigmento. Por

exemplo, se você tem dois alelos para a determinação da cor azul dos

olhos, então teremos olhos azuis. Se temos dois alelos que determinam

a cor preta, então teremos olhos pretos. Porém se há interação dos

dois diferentes alelos, o indivíduo será heterozigoto e haverá assim a formação do fenótipo, o que definirá suas relações de dominância.

A dominância está relacionada com a capacidade de manifestação da

característica no heterozigoto, e quando essa variação se expressa em

uma escala quantitativa, pode haver dominância completa, incompleta ou co-dominância.

2.3.1 Dominância completa

Nos casos de dominância completa ou simples, o heterozigoto tem fenótipo igual a um dos homozigotos, condicionado pelo alelo dominante. A manifestação do alelo recessivo só se dá em homozigose. Dessa forma, existem apenas dois alelos possíveis.

Dessa forma, existem apenas dois alelos possíveis. Fenótipo: é o conjunto de características obser- váveis

Fenótipo: é o conjunto de características obser- váveis de um organismo como: morfologia, fisio- logia e comportamento

um organismo como: morfologia, fisio- logia e comportamento Figura 6 - Exemplo de dominância completa Fonte:

Figura 6 - Exemplo de dominância completa Fonte: http://www.imagui.com/a/dibujos-de-una-madre-embarazada-caKbGKXjk

2.3.2 Dominância incompleta

Nos casos que residem dominância incompleta, o indivíduo heterozigoto vai apresentar um fenótipo diferente dos indivíduos homozigotos, digamos que é um fenótipo intermediário entre os dois indivíduos homozigotos.

Figura 7 - Exemplo de dominância incompleta Fonte: http://www.imagui.com/a/dibujos-de-una-madre-embarazada-caKbGKXjk

Figura 7 - Exemplo de dominância incompleta Fonte: http://www.imagui.com/a/dibujos-de-una-madre-embarazada-caKbGKXjk

2.3.3 Co-dominância

Os casos de co-dominância, são bem confundidos com os casos de dominância incompleta. Neste caso, o heterozigoto exibe uma uma mistura dos caracteres fenotípicos de ambos homozigotos, em vez de uma só expressão intermediária. Em um exemplo hipotético, teríamos a situação a seguir:

Em um exemplo hipotético, teríamos a situação a seguir: Figura 8 - Exemplo de co-dominância incompleta

Figura 8 - Exemplo de co-dominância incompleta Fonte: http://www.imagui.com/a/dibujos-de-una-madre-embarazada-caKbGKXjk

2.4

Alelos letais

Esse é um tipo de modificação das proporções monoíbridas que é produzida por alelos com efeitos que podem levar à morte dos portadores de alguns genótipos antes do seu nascimento, ou após o nascimento proporcionando alterações fenotípicas e genotípicas. Nos casos de morte antes do nascimento as proporções são diferentes (2:1) daquelas enunciadas por Mendel em sua primeira lei, como demonstrado no exemplo a seguir.

em sua primeira lei, como demonstrado no exemplo a seguir. Figura 9 - Exemplo de alelos

Figura 9 - Exemplo de alelos letais Fonte: www.colegiopodium.com.br

O exemplo mais clássico é o da anemia falciforme em humanos.

Essa condição envolve um par de alelos que apresenta dominância incompleta, e prevalece principalmente em negros, mas no Brasil, devido a intensa miscigenação histórica, pode ser observada em em

pessoas da raça branca ou parda. Essa doença hereditária é totalmente caracterizada pela alteração dos glóbulos vermelhos do sangue. Essa alteração deixa os glóbulos em formato de foice, por isso o nome falciforme. A membrana destas células apresentam alterações e estas

se rompem com mais facilidade, causando a anemia. Vale lembrar que

esses genes se manifestam em homozigose.

Figura 10 - Anemia falciforme em humanos Fonte: www.complexohupes.ufba.br 2.5 Penetrância e Expressividade Os

Figura 10 - Anemia falciforme em humanos Fonte: www.complexohupes.ufba.br

2.5 Penetrância e Expressividade

Os conceitos de penetrância e expressividade estão relacionados a

correlação genótipo x fenótipo, pois foi possível observar fenômenos

descritos em heredogramas diferentes dos padrões das Leis de Mendel.

heredogramas diferentes dos padrões das Leis de Mendel. Genes epistáticos: são genes que interagem entre si.

Genes epistáticos: são genes que interagem entre si. A epistasia ocor- re quando a ação de um gene é modificada pela ação de um ou diversos genes que se associam independentemente.

A penetrância é a porcentagem de indivíduos de uma população

caracterizados por apresentar um determinado genótipo que exibem

o fenótipo associado. A penetrância pode ser de dois tipos: completa e

incompleta. Observe:

penetrância completa - todos os indivíduos portadores de um genó- tipo manifestam o fenótipo correspondente; e

penetrância incompleta - apenas uma parcela dos indivíduos com o

mesmo genótipo expressa o fenótipo correspondente.

Atenção: Um determinado genótipo pode não expressar o fenótipo

correspondente devido a genes epistáticos ou até mesmo o efeito do

ambiente.

Figura 11 - Ilustração de dez variações nos padrões de manchas em beagles Fonte: http://slideplayer.com.br/slide/1670611/

2.5.1 Expressividade

A expressividade por sua vez,

reflete o grau do defeito exercido

pelo gene no fenótipo. É o modo

de expressão do alelo que pode

ser de dois tipos: uniforme ou

variável. Observe:

que pode ser de dois tipos: uniforme ou variável. Observe: • uniforme - um alelo expres-

uniforme - um alelo expres- sa sempre um único tipo de fenótipo, de fácil reconheci- mento

variável - o alelo pode resul- tar no aparecimento de vários padrões fenotípicos ou vários graus de expressão. Esta ca-

racterística apresenta traços autossômicos dominantes. À primeira vista parece tratar-se de caracteres com controle genético mais complexo, mas na verdade trata-se de um alelo com uma gran- de variedade de expressões.

Resumo

Nesta unidade, discutimos as aplicações da genética mendeliana e seus

princípios fundamentados nos experimentos de Mendel. Foram ainda

abordados conceitos da genética básica para um maior entendimento

do conjunto de conceitos estudados quando se fala em padrões de

herança. Esses padrões foram bem explorados a fim de delinear o

entendimento das Leis postuladas por Mendel.

1. Herança Mendeliana e sua Aplicabilidade - Desafio Ao longo desta unidade foi reportado os
1. Herança Mendeliana e sua Aplicabilidade - Desafio
Ao longo desta unidade foi reportado os experimentos
de Mendel e suas aplicações com um modelo biológico
relativamente simples, as ervilhas. O desafio proposto é o
seguinte, imagine que você precisa preparar uma aula para
seus alunos e que deverá propor os próprios modelos para
explicar os enunciados das Leis de Mendel. Elabore então,
uma proposta didática para ser realizada em sala de aula com
seus alunos especificando bem a metodologia utilizada.
2. Quiz
Sabemos que a língua humana tem uma série de funções,
principalmente no que diz respeito a fala. Mas existe
uma habilidade deste músculo que algumas pessoas não
adquiriram: a habilidade de enrolar a língua. Após o estudo
desta unidade faça um resumo sucinto para explicar por que
algumas pessoas não conseguem enrolar a língua? A que
condição essa característica está relacionada?
Fonte: https://dialogoscciencia.wordpress.com/2014/05/page/2/

Referências

GRIFFITHS AJF; GELBART WM; MILLER JH; LEWONTIN RC. Genética Moderna. RJ: Guanabara Koogan, 2001.

GUERRA, M. Introdução à Citogenética Geral. Guanabara Koogan, Rio de Janeiro - RJ. 1988.

NUSSBAUM, RL. THOMPSON & THOMPSON. Genética Médica. Guanabara Koogan, Rio de Janeiro - RJ, 2002.

SNUSTAD, DP; SIMMONS, MJ; JENKINS, J.B. Principles of Genetics. John Wiley & Sons, Inc, 1997.

BURNS GW; BOTTINO PJ. Genética. Editora Guanabara Koogan, 1991.

RECOMBINAÇÃO GENÉTICA

Objetivos

Compreender os processos envolvidos na recombinação gênica, bem como as consequências inerentes ao mecanismo para a evolução;

Diferenciar recombinação gênica geral de recombinação sítio-específicas;

Conhecer as diferentes aplicações da tecnologia de DNA recombinante;

Avaliar a importância no avanço da biotecnologia e suas implicações futuras.

3.1 Recombinação Genética

Recombinação gênica ou genética, em termos gerais, é o nome que se dá ao mecanismo de troca de genes entre duas moléculas de DNA. Essa importante capacidade das células de sofrerem rearranjos em seu DNA, pode ocasionar desde a formação de novas combinações de genes em um cromossomo, até alterações quantitativas e qualitativas na expressão desses genes.

Bem como a mutação, a recombinação gênica tem uma grande influência na diversidade genética de uma população, o que concede aos mesmos uma maior capacidade de se adaptar a novos distúrbios e/ou condições impostas pelo ambiente, aumentando com isso as chances de sobrevivência e evolução dos organismos. Em alguns micro-organismos atuais, altamente evoluídos, o mecanismo de recombinação é considerado por alguns como sendo ainda mais benéfico do que mutação. Isto é devido graças a possibilidade de combinação de novos genes, o que permite ao organismo a capacidade de realizar importantes novas funções vitais a sua adaptabilidade.

novos genes, o que permite ao organismo a capacidade de realizar importantes novas funções vitais a
novos genes, o que permite ao organismo a capacidade de realizar importantes novas funções vitais a
novos genes, o que permite ao organismo a capacidade de realizar importantes novas funções vitais a
novos genes, o que permite ao organismo a capacidade de realizar importantes novas funções vitais a
novos genes, o que permite ao organismo a capacidade de realizar importantes novas funções vitais a

Figura 1 – Charge ilustrando a mutação gênica Fonte: Adaptado de https://www.pinterest.com

gênica Fonte: Adaptado de https://www.pinterest.com Moléculas Homólogas: Possuem relação de se- melhança

Moléculas Homólogas:

Possuem relação de se- melhança de posição entre suas partes. Crossing-over: Cruza- mento cromossômico (ou crossing-over) é uma troca de material genético entre cromos- somas homólogos.

troca de material genético entre cromos- somas homólogos. Genoma: O genoma é toda a informação here-

Genoma: O genoma é toda a informação here- ditária de um organismo que está codificada em seu DNA (ou, em alguns vírus, no RNA).

Em bactérias, a recombinação pode ocorrer de diversas formas (p. ex. transformação, conjugação, transdução). Já em eucariotos, o processo ocorre de forma mais ordenada, normalmente como parte do ciclo sexual do organismo.

DNA

são comumente

como parte do ciclo sexual do organismo. DNA são comumente Os mecanismos de rearranjos do classificados

Os mecanismos de rearranjos

do

classificados em dois tipos, conforme veremos a seguir: a recombinação geral e a recombinação sítio-específica.

3.1.1 Recombinação Geral

Este tipo de recombinação pode ocorrer em qualquer região ao longo de duas moléculas de DNA complementares entre si, ou seja, qualquer lugar da sequência de nucleotídeos homóloga das duas moléculas de DNA envolvidas. O processo geralmente segue as seguintes etapas: duas moléculas de DNA homólogas alinhadas sobrepõem-se e trocam partes entre si, processo conhecido como crossing-over (Figura 2), suas fitas duplas quebram-se e as duas extremidades quebradas se unem com suas parceiras intactas para formar novamente duas hélices intactas, cada uma composta por partes provenientes das duas moléculas de DNA iniciais.

A frequência com que esse tipo de recombinação ocorre não é constante ao longo de todo o genoma e é influenciada por efeitos tanto a níveis globais quanto locais. Essa frequência, por exemplo, pode ser diferenciada entre oócitos e espermatozoides. Por consequência disso, em mulheres, a frequência com que ocorre a recombinação geral é o dobro da que ocorre em homens. Inclusive dentro de um mesmo genoma, essa frequência irá depender da estrutura do cromossomo.

Figura 2 - Ilustração demonstrando como ocorre o processo de crossing-over nos cromossomos Fonte: Adaptado

Figura 2 - Ilustração demonstrando como ocorre o processo de crossing-over nos cromossomos Fonte: Adaptado de https://www.pinterest.com

3.1.2 Recombinação Sítio-específica

Neste outro processo de recombinação, pequenos segmentos de DNA podem ser movidos de seus locais de origem, resultando fre- quentemente na expressão de diferentes genes ou grupos de genes, diferente da recombinação geral, que através do mecanismo de cros- sing-over, costuma preservar a ordem das sequências de DNA.

Na recombinação sítio-específica, como o próprio nome sugere, os eventos de quebra não são realizados de forma aleatória nas fitas de DNA, mas sim, regulados por enzimas especializadas, que localizam as sequências de ligação alvo e catalisam a quebra e a reunião de moléculas.

Os sítios necessários para esse tipo de recombinação, são geralmente pequenos (com poucas dezenas de pares de base) e contém sequências já reconhecidas especificamente por uma ou mais proteínas envolvidas na reação.

por uma ou mais proteínas envolvidas na reação. Genes: Na definição da genética clássica, é a

Genes: Na definição

da genética clássica, é

a unidade fundamen-

tal da hereditariedade, onde estão presentes os ácidos nucleicos, porta- dores de informações genéticas que propor- cionam a diversidade entre os indivíduos.

que propor- cionam a diversidade entre os indivíduos. Catalisador: Substância que acelera a velocidade de

Catalisador: Substância

que acelera a velocidade

de uma reação, sem ser

consumido, durante o processo.

3.2 DNA Recombinante e Biotecnologia

Em meados da década de 70 um grupo de cientistas iniciou uma série de experimentos envolvendo uma nova técnica, desenvolvida pelos mesmos, e que envolvia manipulação gênica, algo até então inconcebível para a época. A técnica, na época ainda em fase de testes,

possibilitava a construção de novas combinações de moléculas de DNA que não existiam na natureza. Com o passar dos anos, a técnica passou por constantes melhorias e aprimoramentos, surgindo então as moléculas conhecidas hoje em dia como DNA recombinante.

A tecnologia de DNA recombinante ou engenharia genética, consiste basicamente na reunião de DNAs derivados de fontes biologicamente diferentes. O avanço tecnológico obtido nos últimos anos permitiu o melhoramento de técnicas nessa área, surgindo inclusive um ramo da indústria, conhecido como biotecnologia, ou o uso de processos biológicos para a produção de substâncias úteis.

A base da técnica de DNA recombinante pode ser dividida em três etapas principais (Figura 3):

Replicação: A replica- ção é o processo de duplicação de uma mo- lécula de DNA
Replicação: A replica-
ção é o processo de
duplicação de uma mo-
lécula de DNA de dupla
cadeia (hélice).

I. Primeiramente a produção de vários fragmentos de DNA, prove- nientes de diferentes fontes e contendo sequências dos genes de interesse.

II. Depois disso os vários fragmentos ou segmentos são reunidos em uma única molécula de DNA, capaz de realizar o processo de replicação, onde geralmente um plasmídeo bacteriano (vetor) é utilizado.

III. Por fim, ocorre a transformação de células bacterianas com a molécula recombinante, primeiro acontecendo a replicação das mesmas (clonadas) e depois a expressão.

replicação das mesmas (clonadas) e depois a expressão . Figura 3 - Esquema ilustrando as várias

Figura 3 - Esquema ilustrando as várias etapas que compõem a base da técnica de DNA recombinante Fonte: http://engenhariageneticabioq.page.tl

3.2.1

Aplicações da tecnologia do DNA recombinante

O universo de possibilidades que surge a respeito das inúmeras aplicações das tecnologias de DNA recombinante é bem amplo. Dentre todas, algumas linhas de pesquisa encontram-se bem avançadas atualmente.

Engenharia bacteriana:

Essa técnica consiste basicamente na construção de bactérias para realizar processos específicos ou produzir moléculas importantes, tais como antibióticos e hormônios. Em sua primeira aplicação, foi realizada a combinação de vários genes para metabolizar petróleo em um único plasmídeo, que posteriormente foi introduzido em uma bactéria marinha. Este organismo pôde então ser usado para limpar manchas de óleo nos oceanos.

Dois bons exemplos a serem citados de bactérias sendo induzidas a produzir importantes proteínas humanas é o caso do hormônio de crescimento humano, a somatostatina, e a insulina (Figura 4).

humano, a somatostatina, e a insulina (Figura 4). Figura 4 - Insulina comercialmente produzida a partir

Figura 4 - Insulina comercialmente produzida a partir do uso da técnica de DNA recombinante Fonte: http://www.drug3k.com

Modificando genótipos de plantas:

Permite alterar os genótipos de plantas, geralmente voltadas ao cultivo, servindo como um auxílio aos horticultores (Figura 5). A maioria dos genes introduzidos estão relacionados a resistência de antibióticos, porém alguns objetivam conferir resistência a certos herbicidas e insetos. Neste último, o gene introduzido possibilita a produção de uma proteína tóxica as larvas de insetos.

a produção de uma proteína tóxica as larvas de insetos. Figura 5 - Modificando genótipos de

Figura 5 - Modificando genótipos de plantas Fonte: http://canal411.com

Modificando genótipos de animais:

Outra importante aplicação das técnicas de DNA recombinante e que vem progredindo a passos largos é a realização de alterações na hereditariedade de animais para corrigir defeitos genéticos ou aprimorar características desejáveis (Figura 6).

Um caso famoso envolvendo a aplicação de tal técnica, permitiu a ligação de um gene estrutural para a produção de hormônio de crescimento humano a uma região reguladora de um gene de camundongo. Como resultado, parte da prole que se desenvolveu produziu normalmente o hormônio, além de serem transmitidas e se expressarem em metade das proles da geração seguinte.

Figura 6 - Modificação genética de animais Fonte: http://www.crvlagoa.com.br 3.2.2 Terapia gênica ou geneterapia A

Figura 6 - Modificação genética de animais Fonte: http://www.crvlagoa.com.br

3.2.2 Terapia gênica ou geneterapia

A terapia gênica ou geneterapia consiste em uma avançada técnica utilizada no tratamento de doenças através da introdução de genes normais em pessoas que tenham um alelo causador de alguma doença. A técnica é direcionada principalmente ao tratamento de doenças relacionadas a medula óssea vermelha e ao sangue, como por exemplo a anemia falciforme, hemofilia e talassemia.

Nesses casos, coletam-se amostras da medula óssea de pessoas afetadas e cultivam-se as células em laboratório. Nessas células cultivadas inserem-se os alelos normais, adicionando-se os vírus ou plasmídeos clonados. Essas células, sob tais condições, passam então a produzir as proteínas necessárias a uma condição normal. Em uma etapa posterior, as células da medula óssea do paciente são destruídas, através da radiação, e as novas células cultivadas com o gene normal são então introduzidas (Figura 7). Com isso, o indivíduo não manifesta mais a doença enquanto tais células persistirem.

Figura 7 - Esquema ilustrando o processo geral de terapia gênica Fonte: http://soumaisenem.com.br/ As duas

Figura 7 - Esquema ilustrando o processo geral de terapia gênica Fonte: http://soumaisenem.com.br/

As duas principais formas de se introduzir genes em humanos nos casos de terapia gênica são:

Técnica ex vivo: Consiste na utilização de um vírus ou plasmídeo, modificado em laboratório, para que possa servir como uma es- pécie de vetor para a transmissão do alelo normal. Após induzi- rem as células cultivadas em laboratório a produzirem as proteí- nas desejadas, as células são então introduzidas no paciente em um processo semelhante a uma transfusão de sangue.

Técnica in vivo: Consiste em uma clonagem do alelo normal e do seu preparo para a introdução no paciente por meio de uma injeção intravenosa ou intramuscular. Com isso, o alelo normal incorpora-se as células do paciente e passa a comandar a síntese de proteína normal.

3.2.3 CRISPR-cas9, uma revolução na manipulação de genes

Matéria publicada no jornal Les Echos, conta que uma nova técnica de modificação do genoma, CRISPR-cas9, se espalhou como fogo nos laboratórios e levanta sérias questões éticas. Lembre-se desta sigla impronunciável,porquevocêaindavaiouvirfalarnissoembreve,muitas e muitas vezes. Trata-se de uma nova ferramenta de edição de genoma que pode transformar esse campo da biologia, segundo um recente estudo feito em embriões humanos geneticamente modificados. Mas

cientistas querem mexer com genoma há décadas. Por que a CRISPR de uma hora para outra se tornou uma grande esperança?

Uma explicação rápida para isso é que a CRISPR permite que cientistas modifiquem genomas com uma precisão nunca antes atingida, além da eficiência e flexibilidade.

Os últimos anos foram cheios de conquistas para a CRISPR, que criou macacos com mutações programadas e também evitou a infecção do HIV em células humanas. No começo deste mês, cientistas chineses anunciaram que aplicaram a técnica em embriões humanos, o que dá uma dica dos potenciais da CRISPR para curar qualquer doença genética. E sim, isso pode nos levar à era do design de bebês (no entanto, como os resultados desse estudo nos mostram, ainda estamos longe de conseguir levar essa tecnologia para a medicina).

Em resumo, a CRISPR é muito melhor do que técnicas antigas de edição genética. E sabe o que é mais interessante? Essa técnica não foi inventada por cientistas. A CRISPR/Cas9 vem de bactérias estreptococos…

A CRISPR é na verdade um mecanismo de defesa antigo e natural

encontradoemdiversasbactérias.Nosanos1980,cientistasobservaram

um padrão estranho em alguns genomas bacterianos. Uma sequência de DNA poderia ser repetida diversas vezes, com sequências únicas entre as repetições. Eles chamaram essa configuração estranha de “agrupados de curtas repetições palindrômicas regularmente interespaçadas”, ou CRISPR, na sigla em inglês.

Isso era um enigma até cientistas perceberem que as sequências únicas entre as repetições combinavam com o DNA de vírus —

especificamente de vírus que são predadores de bactérias. A CRISPR

é uma parte do sistema imunológico bacteriano, que mantém partes

de vírus perigosos ao redor para poder reconhecer e se defender dessas ameaças durante os próximos ataques. A segunda parte desse mecanismo de defesa é um conjunto de enzimas chamadas Cas (proteínas associadas à CRISPR), que podem cortar precisamente

o DNA e eliminar vírus invasores.

(Matéria publicada pelo Jornal do Brasil no dia 03/01/2016, disponível através do site <http://www.jb.com.br/ciencia-e-tecnologia/

noticias/2016/01/03/crispr-cas9-revolucao-na-manipulacao-de-genes/>)

3.3

DNA Recombinante: prólogo ou epílogo?

Com tantos avanços na utilização do DNA recombinante, essa hoje é vista por muitos como de grande benefício potencial para a espécie humana, porém ainda é tratada com cautela por alguns. É possível que, com o advento de novas tecnologias, uma maior quantidade de proteínas humanas possa ser produzida a partir de micro-organismos portadores de genes humanos e disponibilizados a população em farmácias.

Atualmente, grandes laboratórios de pesquisa na área já são financiados por indústrias e produtores interessados em melhorias genéticas em animais de criação e plantações, visando grandes benefícios a produção nessas áreas. Em contrapartida, tal avanço ainda gera preocupação por parte da população, tais como o impacto ambiental na liberação de organismos geneticamente modificados, ou o possível escape na produção industrial de um organismo modificado.

O grande questionamento que fica, frente aos avanços obtidos até então e as novas aplicações da técnica, é justamente a respeito da sua utilização. Prólogo ou epílogo? Estamos apenas no início frente ao grande número de possibilidades que ainda restam ser exploradas ou estamos caminhando para um desfecho trágico como tantas outras tecnologias do passado?

Resumo

Nessa Unidade, pudemos conhecer a base que envolve o mecanismo de recombinação genética, seus conceitos, diferentes tipos e como tal processo influencia a biodiversidade, e por consequente, a evolução. Destacamos ainda a aplicabilidade desses mecanismos no desenvolvimento de uma nova tecnologia, chamada de DNA recombinante, bem como suas várias aplicabilidades no ramo da biotecnologia e as perspectivas referentes ao uso da técnica.

1. No último capítulo desta Unidade III (DNA Recombinante: prólogo ou epílogo?), foi levantada uma

1. No último capítulo desta Unidade III (DNA Recombinante:

prólogo ou epílogo?), foi levantada uma reflexão quanto ao uso do DNA recombinante e suas implicações e perspectivas futuras. Frente a isso, elabore um texto contendo aspectos positivos e negativos dessa tecnologia e ao final exponha sua opinião a respeito do método, prólogo ou epílogo?

Referências

BURNS, G.W & BOTTINO P.J. Genética. Editora Guanabara Koogan: 6. ed. Rio de Janeiro – RJ, 1991. 381 p.

ZAHA, A.; FERREIRA H.B.; PASSAGLIA, L.M.P. Biologia Molecular Básica. Mercado Aberto, Porto Alegre – RS: 3. ed. 2003.

GRIFFITHS, A. J.; WESSLER, S.R.; LEWOTIN, R.C.; CARROLL, S.B. Introdução à Genética. Editora Guanabara Koogan: 9. ed. Rio de Janeiro – RJ, 2009. 726 p.

gestão de de
gestão
de
de

Uma boa

página da web é o portal da Universidade Federal da Bahia que oferece aos visitantes um con- teúdo bem completo acerca de recombina- ção genética, com várias animações e exercícios que facilitam a com- preensão do assunto. O conteúdo do portal da UFBA é de acesso livre ao público no endere- ço: http://www.moodle. ufba.br/mod/book/view.

php?id=84098

sugestão

STRACHAN, T. & READ A.P. Human Molecular Genetics. Editora Wiley-Liss: 4. ed. Reino Unido, 2010. 807 p.

GUIMARÃES JÚNIOR, A.C. Apostila Pré-Universitário Regular. Sistema Ari Sá de Ensino: 6. ed. Fortaleza – CE, 2015. 672 p.

Recombinação Genética | UNIDADE 3

47

MAPEAMENTO GENÉTICO

Objetivos

Compreender em que se fundamenta um mapa genético;

Explicar os princípios básicos da elaboração de mapas genéticos;

Entender os princípios da genômica e sua importância na introdução de mapas genéticos.

4.1 Principais conceitos, Ligação e Crossing-Over

Alguns trabalhos realizados com ervilhas por Bateson, Saunders e Punnet em 1902 e Drosophila melanogaster em 1910 por Morgan e colaboradores foram a base para a teoria de que a segregação de alguns caracteres não ocorria independentemente como postulado por Mendel em 1866. O que estes pesquisadores sugeriam é que os genes tinham uma disposição linear em cada cromossomo, a partir da teoria cromossômica da herança, fazendo que surgisse daí a ideia de mapeamento genético.

Essa teoria é resultado de várias frentes de investigação científica, como os trabalhos de cruzamentos feitos por Mendel analisando a transmissão de caracteres de pais para filhos, bem como estudos envolvendo o componente químico responsável pela hereditariedade dos caracteres e ainda os estudos de microscopia examinando os processos de mitose, meiose e fertilização.

Diante disso, mapa genético, mapa cromossômico ou mapa de ligação é a representação gráfica das distâncias entre genes e suas posições relativas em um cromossomo. A distância entre

Teoria cromossômica da herança: é a relação entre a transmissão de cromossomos com os padrões
Teoria cromossômica
da herança: é a relação
entre a transmissão de
cromossomos com os
padrões de herança ob-
servados por Mendel.
da herança: é a relação entre a transmissão de cromossomos com os padrões de herança ob-
Permutação entre ge- nes: é o percentual de genes recombinantes produzidos em cruza- mentos.
Permutação entre ge-
nes: é o percentual de
genes recombinantes
produzidos em cruza-
mentos.

esses genes é calculada a partir de taxas de permutações ou taxa de crossing-over (Figura 1) entre eles e a essa taxa de medida denominamos morganídeo (em homenagem ao geneticista Morgan).

Para a construção de mapas genéticos é necessário levar em consideração a incidência de recombinação gênica (usando a lógica de quanto maior for a taxa de recombinação, maior será a distância entre os genes) e a linearidade dos genes no filamento cromossômico (GARDNER e SNUSTAD, 1986; GRIFFITHS et al., 1998).

Na Biotecnologia, o mapeamento genético é de grande interesse servindo como base do isolamento de genes, também conhecido como clonagem baseada em mapeamento ou clonagem posicional, com o qual é possível fazer a construção de grandes bibliotecas utilizando porções de DNA genômico. O objetivo de se utilizar o mapeamento está envolvido com estudos comparativos e até mesmo estudo de evolução dos genomas, aderindo-se à prática de comparar as estruturas genômicas dos diferentes organismos, homologia dos genes, níveis de conservação e variabilidade e ordem de ligação dos cromossomos.

e variabilidade e ordem de ligação dos cromossomos. Figura 1 - Processo de crossing-over Fonte:

Figura 1 - Processo de crossing-over Fonte: http://docentes.esalq.usp.br/aafgarci/pub/genet5.pdf

Existem ainda as formas de manifestações visíveis desses crossings, os chamados quiasmas (Figura 2). Estes nada mais são do que o ponto de encontro entre cromátides, mediante a divisão celular. Esse fenômeno esta caracterizado por conta de ligação de genes, que vem a proporcionar maior variabilidade genética e percentual gaméticos

diferentes das encontradas no que foi postulado na segunda lei de Mendel.

encontradas no que foi postulado na segunda lei de Mendel. Figura 2 - Processo de formação

Figura 2 - Processo de formação de quiasmas Fonte: http://docentes.esalq.usp.br/aafgarci/pub/genet5.pdf

Levando-se em consideração a fase gamética, os genes ligados podem se ordenar de duas maneiras:

Posição CIS

É quando dois alelos dominantes encontram-se em um mesmo cromossomo, e os dois alelos recessivos ficam em outro cromossomo homólogo. Utilizando-se como exemplo um diíbrido AaBb os genes ficariam dispostos da seguinte forma: AB/ab.

Posição TRANS

Na posição TRANS, os dois alelos dominantes encontram-se cada um em um dos cromossomos homólogos. Dessa forma, ainda utilizando o exemplo do diíbrido AaBb, os genes ficariam dispostos da seguinte forma aB/Ab, sendo que considerando a posição parental este aparecerá em maior frequência nos gametas.

Abaixo (Figura 3) podemos observar o arranjo esquemático da posição CIS e TRANS.

Para fixar:

o arranjo esquemático da posição CIS e TRANS. Para fixar: Figura 3 - Esquema do arranjo

Figura 3 - Esquema do arranjo cis e trans Fonte: http://slideplayer.com.br/slide/1817836/

Ainda existem outros tipos de mapa, e deve-se ter muita atenção para não confundí-los. Vamos diferenciá-los?

4.2 Mapa Genético

Este é baseado nas estimativas de recombinação entre os marcadores em uma população segregante. Este requer polimorfismo genético entre os loci para verificar se ocorreu recombinação.

Mapa Físico

Baseado no alinhamento físico dos fragmentos de DNA de um único genótipo. A clonagem é determinada por hibridação com marcadores geneticamente mapeados e identificando clones sobrepostos a partir de bibliotecas genômicas de grandes inserções.

4.3

Marcadores moleculares

O recente avanço de tecnologias com ênfase em estudos de genéti-

ca da conservação tem consolidado um cenário significante para as novas técnicas de biologia molecular e para técnicas mais antigas, porém aprimoradas. A preocupação acerca do esgotamento da di- versidade biológica tem levado vários estudiosos, em diversas áreas da biologia, a um estudo mais aprofundado para o entendimento da variabilidade e evolução de diversos organismos (p. ex. EIZIRIK, 1996; NEWTON, 1999; ANDERSEN, 2003; TCHAICKA, 2006).

Marcadores moleculares são definidos como derivados de pequenas regiões do DNA, que podem apresentar polimorfismo entre indiví- duos dentro de uma espécie. Dentre as características que identificam um marcador genético como ideal pode-se citar o alto nível de poli- morfismo, estabilidade em diferentes ambientes, detecção de gran- de número de locos não ligados e ser de herança simples (MATIOLI, 2001). De acordo com Andersen e Lubberstedt (2003), os marcadores moleculares estão inseridos em várias categorias que são classificados como: marcadores aleatórios (são gerados aleatoriamente, em sítios polimórficos do genoma), marcadores genes-alvo (derivados de po- limorfismos dentro de genes), PCR de sequência específica (Reação de polimerização em cadeia – baseada na amplificação exponencial específica de uma quantidade reduzida de DNA) e marcadores funcio- nais (são derivados de sítios polimórficos dentro de genes que podem estar envolvidos em determinadas variações fenotípicas).

A primeira técnica para análise de proteínas, empregada para estu-

dos de variação genética em organismos foi desenvolvida em 1951 por Kunkel e Teselius e aperfeiçoada com uma camada suporte de poliacrilamida (ORNSTEIN & DAVIS, 1962). É uma técnica baseada na migração diferencial de proteínas em campo elétrico, onde as ban- das resultantes dessa técnica são utilizadas para comparar as amos- tras. Estas bandas podem ser analisadas através dos padrões de ta- manho, intensidade da cor e distância do ponto onde foi aplicado. A utilização de isoenzimas pode ser aplicada principalmente na deter- minação de genótipos contrastantes e determinação da divergência genética em plantas (COSTA e SOUSA, 1999).

Na década de 1970, houve o surgimento do primeiro marcador am- plamente utilizado pelos geneticistas, que é baseado na técnica de

identificação por hibridização de DNA, os RFLPs (Restriction Fragment Length Polymorphism/ Polimorfismo no comprimento de fragmentos de restrição), onde as diferenças no DNA podem resultar em corte diferenciado por enzimas de restrição (BOTSTEIN et al., 1980). Estas enzimas tem a função de reconhecer sequências específicas e cortar

o DNA nestas posições, que irá resultar em fragmentos de diferentes

tamanhos. A utilização destes marcadores estão associados princi- palmente à estudos de diversidade genética, identificação de culti- vares e seleção assistida por marcadores. Entre as vantagens da utili- zação deste marcador estão a detecção de variações em sequências de DNA de 4 a 8pb, dando uma boa cobertura no genoma, expressão co-dominante, alta repetibilidade e consistência.

Os minissatélites ou locos VNRT (Variable Number of Tandem Repeats/ Número variável de repetições seriadas) são considerados uma va- riação da técnica RFLP. Também baseados em identificação por hi- bridização, os minissatélites são sequências de 6 a 100 nucleotídeos

enfileirados de DNA (JEFFREYS et al., 1985), cuja a unidade repetitiva

é observada inúmeras vezes em um loco que se repetem em vários

outros locos do genoma, lado a lado. Esses marcadores possuem pra- ticamente as mesmas vantagens dos RFLPs e tiveram ampla utiliza- ção na identificação de variedades de espécies, cultivares e clones, na análise de diversidade genética e determinação de paternidade, porém não são reconhecidos para realização de mapeamento gené- tico ou testes de ligação gênica entre marcadores e genes de inte- resse. Os minissatélites se diferenciam dos RFLPs pelo tipo de sonda utilizada na etapa de detecção de polimorfismo de DNA.

O desenvolvimento de marcadores moleculares baseados em PCR (Polymerase Chain Reaction/ Reação em Cadeia da Polimerase) ocorreu em 1990, com a utilização da técnica conhecida como RAPD que utiliza primers (iniciadores necessários na replicação do DNA) mais curtos e de sequência arbitrária. Essa técnica utiliza como primer um único oligonucleotídeo (9 a 10 bases) e a sequência é construída aleatoriamente, resultando na amplificação de uma sequência alvo totalmente desconhecida. Como característica, pode-se destacar a detecção de polimorfismo em apenas um par de bases e são herdados como marcadores dominantes, ou seja, não há a possibilidade de diferenciar organimos heterozigotos e homozigotos dominantes sem cruzamentos (CASTIGLIONI e BICUDO, 2003). As vantagens da utilização desta técnica são versáteis em relação as outras metodologias, pois elas

não necessitam de construção de bancos genômicos, apresenta um baixo custo, permite gerar uma grande quantidade de polimorfismos no segmento de DNA e amostrar regiões de DNA repetitivo. Uma das grandes limitações na reprodutibilidade desta técnica é a existência de produtos de amplificação inespecíficos (primers derivados) e a presença destes produtos não deve-se ao anelamento aleatório, pois são consideravelmente grandes, variando de 200 a 2000pb.

O AFLP (Amplified Fragmente Length Polymorphism) é uma técnica

baseada na detecção de polimorfismos no DNA quando nenhuma informação sobre o genoma está disponível (Vos et al., 1995).

A partir desta técnica é possível reproduzir perfis moleculares

através da amplificação seletiva de fragmentos de restrição de diferentes comprimentos obtidos a partir da digestão de DNA genômico. São usadas para DNA de qualquer origem e complexidade e este é cortado com duas enzimas distintas onde adaptadores específicos para cada sítio de restrição são ligados às extremidades dos fragmentos de DNA. Estes fragmentos são amplificados utilizando primers complementares, então é realizada uma segunda amplificação utilizando um primer complementar estendido por duas bases arbitrárias. Destacam-se como vantagens desta técnica um alto rendimento dos fragmentos de restriçao, não demanda sequenciamento, várias possibilidades de combinação e boa reprodutibilidade. Seu uso é sempre associado a análise de diversidade genética, identificação de variedades, seleção assistida, ensaios de qualidade de mudas, rápida construção e saturação de mapas moleculares e integração entre mapas físicos e moleculares.

Os microssatélites ou SSR (Simple Sequence Repeats) foram introduzidos como técnica em 1989 (LITT e LUTY, 1989), através da utilização de PCR para sua genotipagem. Cada microssatélite é um loco genético altamente variável (1 a 4 sequências de nucleotídeos) apresentando sequências repetitivas (em tandem). Esse marcador é extremamente útil no mapeamento genético do genoma humano, pela abundância destas regiões no genoma e o seu alto grau de polimorfismo. Seu uso ganhou notoriedade na genética forense, na identificação de um indivíduo por meio do DNA extraída da cena de um crime. A principal limitação desta técnica é a grande demanda para o desenvolvimento prévio dos marcadores, pois exige pessoal especializado e na aplicação mais ampla, requer o uso de sequenciamento automático.

As mutações que ocorrem em bases únicas da cadeia de bases nitrogenadas são conhecidas como SNPs ( Single-Nucleotide Polymorphism/ Polimorfismo de base única) . Essas mutações podem ser do tipo transição (troca de uma purina por outra purina, ou pirimidina por uma pirimidina) e transversão (troca de uma purina por uma pirimidina). Os SNPs são considerados marcadores bi- alélilicos e podem ocorrer em regiões codificadoras ou com função regulatória (CAETANO, 2009). Esse marcador era baseado no método de sequenciamento de Sanger, porém com o desenvolvimento de novas tecnologias de sequenciamento os custos baixaram exorbitantemente e a geração de dados está desenfreada.

O sequenciamento de segunda geração (next generation sequencing)

é capaz de produzir um conjunto de dados com milhões de bases sequenciadas em menos de dois dias. As plataformas de sequenciamento mais utilizadas no mundo são: Roche 454 (MARGULIES et al. 2005) Solexa-Illumina (BENNETT 2004) e ABI Solid (VALOUEV et al., 2008). A eficiência na produção de dados desta técnica deve-se ao uso da clonagem in vitro em suporte sólido para unidades de sequenciamento. O grande desafio agora está em qualificar profissionais para o desenvolvimento de scripts avançados que permitam realizar análises satisfatórias sem necessitar da demanda de clusters para obtenção das mesmas. Desta forma a bioinformática surge como um campo altamente escasso e com necessidade de profissionais atuantes.

4.4 Construção dos mapas de ligação e genômica

A primeira coisa deve-se considerar ao construir um mapa de ligação

é que este tem como base a segregação de centenas de marcadores moleculares, e na era da produção de dados em larga escala genômica e seus problemas na organização e armazenamento desses dados, a bioinformática entra como coadjuvante na construção desses mapas. A construção de mapas genéticos tornou-se viável com a descoberta da ligação entre genes e da sua localização nos cromossomos. O primeiro mapa genético foi construído em 1913, por um pesquisador chamado Sturtevant. Ele utilizou seis genes de Drosophila melanogaster, onde foi possível determinar a posição relativa e ordem dos gens utilizando a distância de ligação.

A resolução desses mapas pode ser de alta, média e baixa resolução

conforme o número de genes e marcadores ordenados. Neste aspecto é importante ressaltar que a construção de um mapa genético compreende quatro etapas (Figura 4), são elas:

Identificação de marcadores genéticos Desenvolvimento de uma população segregante Análise da herança dos
Identificação de marcadores genéticos
Desenvolvimento de uma população
segregante
Análise da herança dos marcadores genéticos na
população
Estabelecimento da ordem dos marcadores
genéticos e da distância entre eles

Figura 4 - Etapas da construção de um mapa genético

A frequência de genes recombinantes que são produzidos por crossing-over é o que desencadeia o mapeamento cromossômico. Quanto maior for a distância entre os genes, maior a probabilidade de ocorrer crossing-over e maior a proporção de produtos recombinantes. Isso define a distância que irá separar dois loci gênicos em um mapa cromossômico.

A construção dos primeiros mapas genéticos utilizou marcadores

morfológicos e citológicos baseados em culturas de tomate, batata,

milho e ervilha. Em 1960 tem-se registro dos primeiros mapas genéticos baseados em marcadores bioquímicos, as isoenzimas, aplicados a diversas plantas (CARNEIRO & VEIRA, 2002).

aplicados a diversas plantas (CARNEIRO & VEIRA, 2002). Locus (singular) Loci (plural): Local fixo em um

Locus (singular) Loci (plural): Local fixo em um cromossomo, onde está localizado um de- terminado gene ou mar- cador genético.

Na década de 1980, com o advento de marcadores baseados em sequências de DNA, os mapas passaram a ter ampla utilização, deixando a utlização de marcadores morfológicos e isoenzimas no passado. Hoje no entanto, com as tecnologias de nova geração que nos permitem análises da complexidade do genoma, a construção dos mapas genéticos tornou-se bem mais rápida e permitindo conhecimento amplo a nível genômico.

Os marcadores moleculares têm utilidade na identificação de um gene de interesse. De forma geral esses marcadores são sítios de heterozigose de DNA, porém isso não quer dizer que estes marcadores são necessariamente associados à variações fenotípicas. Eles são usados como marcação para locus cromossômicos. Dessa forma, um marcador molecular pode ser inserido em um mapa cromossômico realizando análises da frequência de recombinação. Entre os marcadores moleculares mais utilizados no mapeamento pode-se citar polimorfismos de um único nucleotídeo e polimorfismos de tamanho de sequência simples.

As sequências genômicas de indivíduos de uma mesma espécie são praticamente idênticas. Por exemplo, se você pega várias sequências de indivíduos diferentes da espécie Leopardus tigrinus, elas podem revelar que esses indivíduos são cerca de 99.9% idênticos. A diferença de 0.1% é baseada no polimorfismo de um único nucleotídeo, que são os conhecidos SNPs, como pode ser observado na Figura 5.

os conhecidos SNPs, como pode ser observado na Figura 5. Figura 5 - Representação de polimorfismo

Figura 5 - Representação de polimorfismo de um único nucleotídeo (SNPs) Fonte: http://biogeniq.ca/snp/

Um mapa de sequência genômica fornece o meio adequado para avançar na análise e anotação de genomas completos, utilizando como comparação espécies correlatas. Isso abre portas para uma área interessante e que tem crescido muito, perfazendo a compreensão do genoma como um sistema integral, a genômica funcional.

4.5 Mapeamento de QLTs

A maioria de características herdáveis, ou seja, aquelas que

são passadas de pai para filho tem importância econômica justamente por serem poligênicas (vários genes interagindo para

determinar uma característica, testando os efeitos aditivos sobre

o outro), quantitativas e complexas. Esse tipo de herança pode sofrer uma grande influência do ambiente tendo um pequeno

efeito no fenótipo, sendo determinado pela segregação de diversos locos. Os QLTs (Quantitative Trait Loci), são locos capazes de controlar características quantitativas, em outra linha podem ser considerados um segmento cromossômico que afeta um determinado caráter. Estes não são necessariamente um único gene. A utilização de marcadores genéticos capazes de controlar a expressão de um caráter quantitativo tem sido introduzidos desde

a década de 1920, mas só com a disponibilização de marcadores de DNA e métodos utilizando biometria, o mapeamento de QLT teve progresso.

Para saber mais sobre QLT da Silva Rodrigues, J. I., de Miranda, F. D., Fer-
Para
saber
mais
sobre
QLT
da Silva Rodrigues, J. I.,
de Miranda, F. D., Fer-
reira, A., Borges, L. L., da
Silva Ferreira, M. F., Good
God, P. I. V.,
& Moreira,
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1353.

AsaplicaçõesdomapeamentodeQLTtemaplicaçõesprincipalmente

no melhoramento genético, no entendimento da interação entre

genótipos e ambiente e na clonagem de QLT.

Resumo

Nesta Unidade, a discussão transcorreu sobre os importantes conceitos introduzidos no tema mapeamento genético, como

se dá a construção desses mapas e principais tipos de mapas.

Abordamos também quais as principais etapas na elaboração de

mapas genéticos e suas aplicações que datam até os dias atuais e como o cenário mudou com os estudos genômicos desenvolvidos

na atualidade.

Diante do exposto nesta unidade, leia a matéria abaixo e cite outras duas aplicações do
Diante do exposto nesta unidade, leia a matéria abaixo e cite outras
duas aplicações do mapeamento genético no cenário econômico e
biotecnológico. Em seguida monte uma proposta resumida de projeto
(até 200 palavras) utilizando a técnica de mapeamento genético.
O efeito Angelina Jolie nas startups de mapeamento genético
Figura 6 - Angelina Jolie: ela fez crescer o interesse por testes de sequenciamento
genético em escala global
Fonte: Guilherme Manechini, deRevista EXAME
Leon Neal/AFP Photo
São Paulo - A atriz americana Angelina Jolie causou comoção mundial
em maio ao anunciar que faria uma dupla mastectomia preventiva. O
motivo era a probabilidade alta que teria de desenvolver câncer de
mama. Ao realizar o mapeamento de seu genoma, a atriz identificou
o gene causador do câncer que vitimou sua mãe e uma tia, o que
elevava em mais de 80% as chances de ter a doença.
A intervenção cirúrgica não serviu apenas para Angelina evitar o risco
de desenvolver a doença. Para uma parte da comunidade médica, a atriz
ajudou também a explicar ao público leigo como funciona uma área
que registrou um avanço notável nas últimas décadas: a identificação e
o tratamento de doenças por meio do sequenciamento genético.
Ao longo de mais de 30 anos, o mapeamento do genoma humano
foi feito de maneira quase artesanal, pois exigia a análise de gene
por gene em um procedimento demorado. O trabalho só foi
concluído em 2001 e demandou investimentos de 2,7 bilhões de
dólares. Antes da finalização, os testes, na época chamados de
primeira geração, eram feitos como parte de pesquisas.

60

GENÉTICA

A partir de 2005, já batizados de segunda geração, ganharam escala

comercial. O problema, no começo, era o preço. O valor de cerca de 350 000 dólares cobrado em 2007 era salgado até para algumas celebridades de Hollywood. Hoje, graças ao aumento da capacidade de processamento dos computadores, pagam-se 7 000 dólares por um teste completo.

É essa verdadeira revolução no diagnóstico médico que começa a dar

os primeiros passos no Brasil. Desde o ano passado, empreendedores estão batendo na porta de grandes hospitais e laboratórios de análise para oferecer exames de segunda geração. O caso mais recente do setor é o da Genomika, startup com sede em Recife, criada no início deste ano.

A empresa tem entre seus sócios Silvio Meira, cientista-chefe do Cesar,

centro de inovação com sede em Pernambuco. Com um investimento

de cerca de 5 milhões de dólares para a compra de equipamentos,

a Genomika já fechou contrato com o laboratório Salomão Zoppi e com o Hospital Albert Einstein, ambos em São Paulo.

Segundo o geneticista João Bosco Oliveira, sócio e presidente da Genomika, o foco da empresa são testes nas áreas de oncologia e de identificação de doenças raras.

O preço pode variar de 2 000 a 6 000 reais, e o prazo de entrega é de

cinco semanas. Funciona assim: por meio da coleta de sangue ou de

saliva, prepara-se o DNA para o sequenciamento.

Depois, faz-se a análise de bioinformática, que é o processo de cruzar as informações obtidas no teste com bancos de dados de DNAs do mundo inteiro para ver se algum paciente que já foi diagnosticado com uma doença tem genes que se assemelhem aos do DNA analisado.

Ainspiração paraa criaçãoda Genomika foram empresas americanas, como a Quest e a Foundation One, ambas especializadas em sequenciamento genético. Oliveira passou sete anos debruçado sobre o tema nos Estados Unidos, onde chefiou o departamento de genética e imunologia do Instituto Nacional de Saúde, em Washington, órgão de pesquisa ligado ao governo americano.

“A grande barreira de entrada nesse segmento não é o capital. É o conhecimento”, diz Oliveira. A Genomika emprega 14 pessoas, sendo sete doutores em genética e biotecnologia. Segundo Oliveira, todos eles tiveram de passar por especialização nos Estados Unidos, que dura de dois a três anos.

Além do conhecimento médico para a interpretação dos dados, a análise do genoma exige uma área de tecnologia consistente para

o processamento de dados. Foi isso que atraiu o executivo Laércio Cosentino, presidente da empresa de software TOTVS, a investir na Mendelics, com sede em São Paulo, hoje uma das principais empresas brasileiras do segmento de mapeamento genético.

Segundo David Schlesinger, especialista em genética do Hospital Albert Einstein e sócio-fundador da Mendelics, a empresa já realizou mais de 1000 testes no país desde maio do ano passado, quando foi lançada.

Além das duas empresas, que são focadas exclusivamente nos

testes genéticos, laboratórios como Fleury, com sede em São Paulo,

e Hermes Pardini, de Minas Gerais, já oferecem alguns tipos de exame de sequenciamento genético de segunda geração.

A popularização desses testes ainda está sendo assimilada por planos de saúde, que não definiram se vão pagar a conta. Nem mesmo nos Estados Unidos, onde os mapeamentos já movimentam cerca de 6 bilhões de dólares por ano, há uma posição clara sobre essa questão.

Em uma apresentação realizada no ano passado, executivos do UnitedHealth Group, um dos maiores planos de saúde americanos, destacaram que os benefícios gerados pelos exames podem ser significativos — apesar do alto custo. Em muitos casos, os testes acabam bara-teando os tratamentos de saúde, pois oferecem remédios mais precisos aos pacientes, evitando gastos provocados por diagnósticos equivocados.

Estudos recentes sugerem que os testes genéticos estão disponíveis para menos de 2% da população mundial, mas poderiam beneficiar até 60% em uma década. Por ora, os testes mais específicos, utilizados na identificação de doenças raras ou hereditárias, como

o feito por Angelina Jolie, são os que têm atraído o interesse de pacientes e de empresas.

Nos principais centros globais de pesquisas médicas, a atenção está voltada para a próxima fase do sequenciamento genético. A meta é identificar os genes causadores de doenças ainda na fase embrionária. Quando isso começar a ocorrer em grande escala, teremos uma geração de pessoas mais saudáveis, que não precisarão tomar atitudes drásticas como a de Angelina.

Tópicos: Angelina Jolie, Câncer, Doenças, DNA, Ciência, Fleury, Empresas, Setor de saúde, Genoma, Genética, Hospital Albert Einstein, Startups, UnitedHealth, Empresas americanas

62

GENÉTICA

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GENÉTICA