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O serviço público como ativo: o caso Brookfield e a produção da

infraestrutura no Brasil

Um dos grandes debates sobre a produção de infraestrutura no Brasil gira em torno da


questão da oferta de saneamento básico, reconhecidamente insuficiente no país. Ainda
perduram, por aqui, índices altíssimos de falta de acesso a esgotamento sanitário e
abastecimento de água – são cerca de 100 milhões de habitantes sem esgoto e 35 milhões
sem água, uma maioria absoluta de famílias pobres e certamente exposta a diversas outras
vulnerabilidades.

Recentemente, o problema – que é de fato real e urgente – ganhou novos contornos, com
a Medida Provisória 868, editada no apagar das luzes do governo de Michel Temer e
provavelmente endossada, já naquele momento, pela gestão eleita de Jair Bolsonaro.
Trata-se de um dispositivo que altera o marco regulatório do setor de saneamento no
Brasil e que, a rigor, tem como objetivo central permitir que se entregue a oferta de tal
serviço público a empresas privadas, fazendo consolidar um modelo de atendimento que,
na verdade, se tentou implementar no país durante a década de 1990, no âmbito da agenda
de privatizações do governo FHC, sem êxito significativo naquele momento, embora com
algum avanço. Hoje, os operadores privados de saneamento estão presentes em 6% dos
municípios brasileiros e enxergam possibilidades colossais de ampliação desse número,
caso a MP 868 se converta em lei.

A persistência da condição deficitária da cobertura e as dúvidas sobre a capacidade de


investimento por parte do Estado dos recursos vultosos calculados como necessários para
a reversão desse quadro por certo servem de apelo ao discurso privatizante, produzindo
uma espécie de “cortina de fumaça” que encobre um conjunto de disputas, estratégias e
instrumentos do mercado financeiro – aquilo que efetivamente estrutura um processo
ultraneoliberalizante que extrapola as especificidades deste ou daquele setor ou contexto,
embora se valha delas para afirmar-se e expandir-se.

Vejamos. A maior empresa privada de saneamento do Brasil é a BRK Ambiental, que


atua hoje em cerca de 180 municípios, distribuídos em 12 estados brasileiros, um número
ainda modesto se comparado, por exemplo, à atuação da Sabesp, que está presente em
370 municípios do estado de São Paulo. Antiga Odebrecht Ambiental, a BRK foi
comprada em 2017 pela gigante canadense Brookfield, que tem uma história peculiar de
atuação em solo nacional. Em suas origens, a Brookfield chegou ao Brasil, em 1899,
como a São Paulo Tramway, Light and Power Company, companhia responsável por
desenvolver sistemas de iluminação pública e de transporte coletivo movido a energia
elétrica na capital paulista.1

Conforme informações disponibilizadas no site da empresa,

“[...] o grupo inaugurou, em 1901, a Usina de Parnaíba, a primeira hidrelétrica a


abastecer a cidade de São Paulo. Em 1905, expandiu suas atividades para a capital
do país na época, com a criação da Rio de Janeiro Tramway, Light and Power
Company. A partir daí, o grupo investiu também em sistemas de distribuição de
gás e telefonia. Em 1925, já figurava como a maior companhia de serviços
públicos da América Latina.” 2

Hoje, a empresa canadense não mais se apresenta como prestadora de serviços públicos,
mas sim como uma das maiores investidoras e gestoras globais de ativos alternativos –
de imóveis (shoppings, galpões logísticos, imóveis residenciais, alojamentos para
estudantes, concessionárias de automóveis, etc), passando por operações de infraestrutura
nos mais variados segmentos (portos, ferrovias, rodovias, eletricidade e gás, transmissão
de energia, telecomunicações, agropecuária, etc), até alcançar investimentos de private
equity, com foco na aquisição e operação de negócios de alta rentabilidade 3, em que
justamente se inclui a compra e a gestão da BRK Ambiental, cujas ações estão distribuídas
entre a canadense (70%) e o Fundo de Investimento do Fundo de Garantia por Tempo de
Serviço – FI-FGTS (30%).

Para além da BRK, no Brasil, os tentáculos da Brookfield parecem multiplicar-se sobre o


domínio do território, com empresas subsidiárias que operam cada um dos segmentos em
que a gigante está presente: a empresa NTS opera mais de 2.000 km de gasodutos na
região Sudeste; a Quantum é a responsável pela construção e futura operação de mais de
4.300 km de linhas de transmissão de energia elétrica; a Arteris é a concessionária que
administra mais de 3.400 km de rodovias no país; a VLI é empresa de logística integrada
que opera 4.800 km de ferrovias, além de portos e terminais intermodais.4

1
https://www.brookfieldbrasilra.com.br/pt/a-brookfield-no-mundo. Acesso em 10 de agosto de 2019.
2
Idem.
3
Idem.
4
Idem.
Enfim, a descrição sobre a atuação da canadense ainda merecia ressalvas quanto à sua
presença também no mercado imobiliário e no agronegócio, mas do que se pôde registrar
até aqui, nos parece que estamos diante de uma determinada lógica de produção e de
gestão do território que transborda, como dizíamos há pouco, as especificidades de uma
leitura setorial, que, ampliada em telescópio, nos aponta mais do que um modus operandi,
mas quiçá uma determinada racionalidade, bastante distintiva, aliás, do estágio atual do
capitalismo financeirizado. Infraestrutura real, projetada, produzida, implementada, se
transmuta em ativo gerido num portfólio de investimentos em fundos privados e públicos,
capazes de garantir retorno seguro aos acionistas – certamente de maneira independente
de seus resultados enquanto atendimento efetivo à população demandatária, ou seja,
destituída de qualquer sentido público que tal produção poderia (ou deveria) implicar.

Nesta perspectiva – e tomando como mote, especificamente, a atuação da Brookfield no


Brasil e em outros países da América Latina – este trabalho tem como objetivo
problematizar a produção recente de infraestrutura no Brasil a partir dos processos de
privatização em curso, atrelados de maneira estrutural à lógica dos mercados
financeirizados, com impactos que acreditamos significativos para o desmonte das
políticas públicas e para o acirramento da produção de desigualdades.

Como hipótese, acreditamos que a experiência narrada deste determinado caso nos pode
iluminar processos espoliativos ainda mais críticos no cenário atual de avanço neoliberal,
em que o Estado se postula como regulador dos mercados não para a garantia do interesse
público, mas para o seu justo contrário – as sobrerregulações via medidas provisórias, tal
como a MP 868 nos sugere, revelam intervenções no sentido de precisamente normatizar
e respaldar de legalidade a dominância financeira.

Como principal resultado de pesquisa, portanto, almejamos qualificar do ponto de vista


teórico-crítico o atrelamento dessas duas dimensões que, em hipótese, entendemos que
estão estruturalmente articuladas hoje – ou seja, de um lado a destituição e a recolocação
do Estado enquanto agente regulador e, de outro, a hegemonia dos mercados
financeirizados que vem transformando as dinâmicas de produção do território em tempos
mais recentes.

Em termos metodológicos, o estudo de um caso singular e de caráter heurístico exige o


cuidado e o comprometimento com leituras multiescalares, o que implica em, de um lado,
prosseguir com a investigação de especificidades e dinâmicas setoriais e contextuais que
se explicitam de maneira mais imediata a partir do empírico, e, de outro, investir, de modo
encadeado, sobre um temário mais amplo, qual seja, os estudos sobre a financeirização e
sobre o neoliberalismo, sobre regulação e sobre os novos arranjos do Estado em face desta
lógica global. Assim sendo, trata-se, desde logo, de uma tentativa de partir de uma
situação empírica exemplar que possa, tal como acreditamos, informar questões teóricas
que superem a sua especificidade e que, afinal, constituam uma agenda ampliada e
possivelmente ainda mais densa de pesquisa.