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A sociedade por quotas unipessoal

do direito moçambicano

João Espírito Santo

I. Introdução
A República de Moçambique aprovou, em 2005, um Código
Comercial (doravante, CCom)1, que traduziu inovações de monta
relativamente à situação anterior do ordenamento jurídico-privado.
O Código Comercial de Moçambique completou, pois, 10 anos em
2015.
No essencial, o sistema jus-comercial moçambicano era, antes da
aprovação do vigente Código Comercial, o recebido, após a
independência, em 1975, de Portugal, tendo sido mantido em vigor
o Código Comercial de 1888 — que regulava os tipos societários-
mercantis recolhidos na tipologia do Code de commerce (1807) —,
bem como a Lei das Sociedades Por Quotas (1901). De notar é,
também, a recepção do Código Civil português de 1966 (doravante,
CC), cuja relevância para o âmbito do Direito Comercial é a própria
de um ramo de direito comum, particularmente no domínio do
Direito das Obrigações.


Doutor em Direito, Professor Auxiliar da Faculdade de Direito da Universidade
de Lisboa; Coordenador Científico da Faculdade de Direito de Bissau.
1
O CCom foi aprovado pelo Decreto-Lei n.º 2/2005, de 27 de Dezembro.

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Diversamente do que antes sucedia com o Código Comercial de
1888, a delimitação da matéria comercial surge no CCom
duplamente centrada, nos conceitos de empresário comercial e de
acto de comércio. Assim, delimitando o objecto da lei comercial,
começa o artigo 1.º do CCom por determinar que a lei comercial
regula a actividade dos empresários comerciais, bem como os actos
considerados comerciais. A qualidade de empresário comercial é
delimitada no artigo 3.º: são empresários comerciais (a) as pessoas,
singulares ou colectivas que, em seu nome, por si ou por intermédio
de terceiros, exercem uma empresa comercial e, (b) as sociedades
comerciais.
Formalmente, o exercício de empresa comercial só releva, para
efeitos do artigo 2.º, relativamente a pessoas singulares e colectivas
que não sejam sociedades comerciais. No tocante às sociedades
comerciais, a sua qualificação como empresários comerciais parece
resultar imediatamente da sua constituição qua tale.
A noção de empresa comercial — da qual depende,
conceptualmente, em parte, a de empresário comercial que não
seja sociedade comercial — resulta do artigo 3.º do CCom.

II. A tipologia das sociedades comerciais


O Direito Comercial comum de Moçambique conhece
actualmente cinco tipos de sociedade comercial (artigo 82, n.º 1, do
CCom): (i) a sociedade em nome colectivo; (ii) a sociedade de capital
e indústria; (iii) a sociedade em comandita; (iv) a sociedade por
quotas; e, (v) a sociedade anónima. A sociedade de capital e
indústria constitui um tipo novo, que não tinha correspondência no
direito anterior.

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Nos termos do n.º 1 do artigo 82 do CCom, são sociedades
comerciais as que adoptem um dos referidos tipos,
independentemente do seu objecto; esta última expressão presta-se
a interpretações diversas: (i) num sentido, poderá significar
independentemente da natureza, civil ou comercial, do objecto2; (ii)
noutro sentido, poderá significar, qualquer que seja a actividade a
que se dedique. Este segundo sentido é compatível com uma
delimitação da sociedade comercial centrada na natureza comercial
do objecto, como sucede na alínea a) do artigo 83 do CCom: é
condição essencial para que uma sociedade se considere comercial
que tenha por objecto praticar um ou mais actos de comércio. O
primeiro sentido reportado para o n.º 1 do artigo 82 do CCom, por
seu turno, induzindo a conclusão de que o sistema jus-comercial
deduz o carácter comercial da sociedade a partir, apenas, da
adopção de um tipo comercial, é incompatível com a norma da
alínea a) do seu artigo 83; dele decorreria o não reconhecimento
autónomo do subtipo sociedade civil sob forma comercial,
conhecido no direito anterior.
Segundo cremos, a correcta interpretação do n.º 1 do artigo 82
do CCom é a apontada em segundo lugar: apesar de o n.º 1 do art.
82 comportar um sentido de comercialidade induzida
exclusivamente pelo tipo societário — o que determinaria a
exclusão, no novo sistema jus-comercial, da sociedade civil sob
forma comercial — o seu sentido é o de que no carácter comercial
do tipo não interfere a natureza do objecto da sociedade: esta
interpretação é compatível com a norma da alínea a) do art. 83 e,
preservando a sociedade civil sob forma comercial, é a única que se
2
A noção de objecto social consta, implicitamente, do n.º 1 do artigo 93 do CCom:
as actividades que a sociedade se propõe exercer.

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harmoniza com o Regulamento de Registo das Entidades Legais,
aprovado depois do CCom (pelo Decreto-Lei n.º 1/2006, de 3 de
Maio), cujo art. 2.º determina a obrigatoriedade do registo das
sociedades civis sob forma comercial3.
O sistema de delimitação da comercialidade das sociedades
vincula o objecto comercial (exercício de uma empresa comercial) à
adopção de um dos tipos comerciais, o que retira à autonomia dos
sócios, nesse caso, a opção por uma sociedade puramente civil
(artigos 980 e ss. do CC); as sociedades com objecto misto —
comercial e civil — submetem-se à regra do tipo comercial
vinculado. No plano global do instituto sociedade continuam, no
novo Direito Comercial, a poder detectar-se três áreas: a da
sociedade comercial (objecto e tipo comercial); a da sociedade civil
sob forma comercial (objecto civil e tipo comercial); e a da
sociedade civil simples, sob forma civil ou civil pura (arts. 980 e ss.
do CC: objecto civil; sem tipo comercial); na interpretação
tradicional do relacionamento entre o art. 980 do CC e o (agora)
disposto no art. 82 do CCom, tratar-se-ia de três espécies do género
extraído desse preceito legal.
No âmbito da tipologia das sociedades comerciais é ainda
possível detectar subtipos. Relativamente à sociedade em
comandita, estabelece o artigo 270 do Código Comercial, que a

3
Este resultado interpretativo é compatível com a norma do art. 5.º do Decreto-
Lei n.º 2/2005, de 27 de Dezembro, não se compreendendo, todavia, por que
razão não foi a mesma levada ao próprio CCom, em cujo art. 82 teria assento
sistemático mais apropriado. Estranha-se, todavia, o disposto no n.º 3 do referido
art. 5.º, que, procurando empurrar as sociedades civis sob forma comercial do
direito pretérito para um enquadramento de empresário comercial, quadra mal
num sistema que continua reconhecer esse subtipo societário.

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mesma comporta duas espécies: comandita por acções e comandita
simples, que se distinguem entre si pela representação das
participações dos sócios comanditários em acções, presente na
primeira e ausente na segunda. O CCom estabelece ainda, num
capítulo próprio [Capítulo V (sociedade por quotas com um único
sócio) do Titulo II (sociedades comerciais em especial) do Livro II
(sociedades comerciais)] um regime particular da sociedade por
quotas com um único sócio, compreendendo os artigos 328 a 330.
Pese embora o facto de esta regulação se encerrar num capítulo,
divisão sistemática paralela à da regulação da sociedade por quotas
plural [Capítulo IV (sociedade por quotas) do Título II (sociedades
comerciais em especial) do Livro II (sociedades comerciais)], verifica-
se aí uma dependência sistemático-tipológica relativamente à
sociedade por quotas plural, que resulta expressamente no n.º 1 do
artigo 328: qualquer pessoa singular pode constituir uma sociedade
por quotas de cujo capital, que constitui uma única quota, seja
inicialmente o único titular, que se rege pelas disposições deste
capítulo e, com as necessárias adaptações, pelas disposições
aplicáveis às sociedades por quotas.

III. O longo caminho da limitação da responsabilidade das


pessoas que exercem o comércio individualmente
A consideração da sociedade como contrato é milenar,
encontrando-se já na iurisprudentia romano-clássica, que concebeu
a societas consensu contracta, categorizada como contrato
consensual [por oposição, quer a contrato formal (verbis ou litteris)
quer a contrato real (re)]. A societas (em sentido restrito e técnico)
constitui “[…] um contrato consensual, pelo qual dois ou mais

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sujeitos (socii) se obrigam reciprocamente a pôr em comum, no
todo ou em parte, os seus bens ou actividades de trabalho, para
atingir um resultado vantajoso para todos (seja ele consequência de
actividades de mera gestão ou lucrativas)”4.
A herança ocidental da societas produziu a dogmatização
contratual do acto genético da sociedade civil, mas também dos
tipos societários mercantis de origem medieva, sendo que, no
domínio mercantil, as codificações oitocentistas viriam a
acrescentar um novo tipo societário às já experimentadas
sociedade geral ou em nome colectivo e sociedade em comandita:
a sociedade anónima.
No decurso do século XIX, a sociedade anónima, cujos directos
antecedentes históricos são as companhias privilegiadas de
seiscentos e setecentos, transitou do Direito Público — no âmbito
do qual se haviam conformado as suas antepassadas — para o
Direito Privado5, evolução que se consumou com a queda da última
barreira publicista: a autorização governamental prévia de
constituição. No quadro do Direito Privado, a sociedade anónima foi
legalmente concebida como mero tipo societário, ao lado de outros,
sendo expectável que a dogmatização do seu acto constitutivo se
fizesse igualmente sob o signo do contrato, o que, efectivamente,
sucedeu. A sociedade anónima estava, porém, destinada a romper
a barreira da mera relação obrigacional entre os sócios e a

4
BURDESE, Manuale di diritto privato romano, 4.ª ed., 1993 (1.ª ed.: 1962), UTET,
Turim (reimp., 2000), 470.
5
Cf., entre vários outros, GALGANO, História do Direito Comercial [trad. portuguesa
de João Espírito Santo (supervisão e notas de José J. Barros), a partir do original
italiano intitulado Storia del Diritto Commerciale, 2.ª ed., Il Mulino, Bolonha,
1980], Signo, Lisboa, s/ data (mas 1990), 61 e ss.

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direccionar-se à configuração de uma autónoma subjectividade,
capaz de titular direitos e obrigações próprios; nesse percurso,
arrastou atrás de si, nos direitos latinos, as sociedades de tradição
medieval.
A ascendência directa — e quiçá, exclusiva — da sociedade
anónima decorre das companhias coloniais privilegiadas, nas quais
a intervenção régia constituía aspecto inultrapassável, senão na
iniciativa da respectiva formação, pelo menos na autorização da
mesma. Estas companhias são privilegiadas num duplo sentido:
beneficiam, por um lado, de monopólios de comércio nos territórios
extra-europeus, no âmbito dos quais exercem prerrogativas régias
e, por outro lado, exercem o comércio com limitação da
responsabilidade dos seus membros, fenómeno praticamente
desconhecido no domínio societário até à era moderna.
A limitação da responsabilidade patrimonial pelo exercício da
actividade comercial constitui uma antiga aspiração das pessoas
envolvidas no comércio, que se liga, por um lado, ao princípio da
responsabilidade patrimonial, centrado no dogma da ilimitação, nos
termos do qual o património do devedor — todo o património —
constitui a garantia dos credores6, e, por outro lado, aos riscos
próprios do exercício do comércio, genericamente tidos como
acrescidos relativamente a actividades de carácter puramente civil,
muito embora não deixem de se evidenciar interpretações
histórico-doutrinárias que vêm na dita aspiração a reivindicação de

6
Sobre a transição, ocorrida já no direito romano, entre a suportação pessoal das
consequências do incumprimento da obrigação e o princípio da responsabilidade
patrimonial, cf., entre outros, MENEZES CORDEIRO, Tratado de Direito Civil
Português, I (Parte Geral), T. I, 3.ª ed., Almedina, Coimbra 2009, 419 e ss.

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um privilégio pelos comerciantes7. A concessão da responsabilidade
limitada — primeiro justificada através da ideia de privilégio
concedido pelo poder político e, depois, após o abandono dos
sistemas de autorização constitutiva das sociedades anónimas,
como uma condição do desenvolvimento do tráfico — surge por
vezes indicada na doutrina como a própria ratio da dogmatização
oitocentista da personificação da sociedade anónima8, mas o ponto
não é pacífico9.
A limitação da responsabilidade dos sócios da sociedade
anónima — permitindo transferir uma parte significativa do risco da
actividade social para os credores do negócio — desafiava o regime
comum da responsabilidade civil, aí residindo a ideia do privilégio
ou isenção da responsabilidade patrimonial de direito comum. Na
verdade, esse sistema de distribuição do risco do negócio social,
que garantia aos accionistas não estarem sujeitos senão à perda do
que houvessem investido na sociedade, era radicalmente diverso
dos conhecidos nas sociedades de tradição medieval. De facto, na
societas privata e até ao aparecimento da anónima embrionária,
nos séculos XVII-XVIII, não existia exemplo de uma responsabilidade
limitada que beneficiasse todos os sócios de uma mesma sociedade.
A responsabilidade limitada de um ou de alguns sócios pelo operar
social, desconhecida na sociedade geral ou em nome colectivo, só

7
Cf. GALGANO, História do Direito Comercial, cit., 63 e 64.
8
Sobre o tema, cf. JOÃO ESPÍRITO SANTO, Sociedades por quotas e
anónimas/Vinculação: objecto social e representação plural, Almedina, Coimbra,
2000, 84.
9
Cf., entre outros, CARMEN BOLDÓ RODA, Levantamiento del velo y persona jurídica
en el derecho privado español, Aranzadi, Madrid, 1996, 31 e 32.

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tinha conhecido até aí um exemplo na sociedade em comandita, o
do sócio comanditário, e à custa de lhe ser negado o direito de
intervir na gestão da sociedade — o que permitia explicar a
responsabilidade limitada com um fundamento de justiça, já que
não responderiam ilimitadamente por actos alheios — e de o seu
nome não poder constar da firma social, para que se não criassem
nos terceiros falsas expectativas de solvabilidade. Assim, outros
sócios teriam que existir que respondessem com todo o seu
património pelo risco próprio do negócio, pois que, por um lado, o
dogma contratual herdado da societas romana não permitia ver na
sociedade outros centros de imputação de direitos e obrigações que
não os próprios sócios, e, por outro lado, o regime comum da
responsabilidade civil não permitia limitar-lhes a responsabilidade
pelo cumprimento das obrigações contraídas qua tale, a menos que
se verificassem as duas circunstâncias anteriormente referidas;
tratava-se dos sócios comanditados; a responsabilidade que sobre
estes incidia determinava que o risco próprio do negócio recaísse
essencialmente sobre si, que tinha como elemento correspectivo a
atribuição da gestão directa da sociedade.
A harmonização formal entre a admissão de um esquema
societário de utilidade puramente privada que garantisse a
responsabilidade limitada de todos os sócios e o regime comum da
responsabilidade civil foi conseguida através da dogmatização da
sociedade anónima como pessoa colectiva. Na verdade, a
ultrapassagem do domínio puramente obrigacional, elevando a
relação contratual constituída entre os sócios à categoria de um
autónomo centro de imputação jurídica em relação àqueles e
reduzindo o contrato que a constitui a um mero acto genético de
uma pessoa colectiva, permitia explicar que os sócios eram terceiros

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em relação à sociedade10. Assim sendo, pelas obrigações da
sociedade respondia o património desta e não o dos respectivos
sócios. E a sociedade respondia pelas suas obrigações com todo o
seu património; o ente colectivo-sociedade não escapava, portanto,
ao regime comum da responsabilidade civil, o que, garantindo a
coerência sistemática, permitia negar — formalmente, pelo menos
— que os accionistas da sociedade anónima gozassem do privilégio
da responsabilidade limitada.
A limitação da responsabilidade do comerciante individual só em
meados do século XX viria a ter uma complacência legislativa, na
Europa continental, através do reconhecimento da sociedade
unipessoal ab origine. Admitido que fora nas codificações mercantis
oitocentistas um tipo societário caracterizado por uma
responsabilidade de todos os sócios que mais não alcançava do que
o montante com que concorriam para a formação de um fundo
patrimonial afecto à realização da actividade social — em suma, a
responsabilidade limitada na empresa colectiva —, as
reivindicações dos sectores sociais envolvidos na actividade
comercial, tantas vezes descritas como necessidades do comércio,
lançaram-se à conquista do alargamento do âmbito da limitação de
responsabilidade para além daquele círculo no qual estava
originariamente permitida. Na base de tais reivindicações estão, no
caso do comércio exercido individualmente, a velha aspiração de
uma isenção do direito comum quanto à responsabilização de todo
o património do devedor; quanto ao exercício colectivo, os próprios
caracteres estruturantes da sociedade anónima — seja a

10
GALGANO, Diritto civile e commerciale, I (citado a partir do extracto contido nas
Letture di diritto civile de Paolo Zatti e Guido Alpa, Cedam, Pádua, 1990), 229 e
230.

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embrionária, da pré-codificação, seja a que irrompeu na codificação
oitocentista —, como a orgânica complexa, visando a
autonomização da gestão em relação à vontade dos sócios qua tale,
com ambiciosas exigências de capital mínimo, frequentemente
recolhido com apelo a subscrição pública das participações, um
número mínimo de sócios exigido sempre acima dos dois
necessários à caracterização de um contrato, e, por último, as
contingências associadas ao sistema da autorização prévia e os
encargos fiscais da constituição, que visam manifestamente a
satisfação dos interesses da empresa que se propõe actividades
económicas de grande envergadura (pense-se na produção em
massa que a maquinaria industrial possibilitou ou na construção e
exploração de vias e de meios de comunicação) e que assentam mal
aos de quem exerce colectivamente actividades comerciais de
pequenas ou médias dimensões, associando-se com poucas
pessoas e da sua confiança, que não investia na actividade
montantes significativos e pretendia uma gestão directa do negócio.
A pequena e média empresa colectivamente exercida estava,
assim, confinada, a estruturas jurídico-societárias onde alguns ou
todos os sócios (sociedade em nome colectivo e em comandita,
respectivamente) teriam que assumir responsabilidade ilimitada
perante os credores da actividade. Este conjunto de razões constitui
a base histórico-sociológica da construção legislativa, no século XIX,
de um novo tipo societário11: a sociedade de responsabilidade

11
Cf., entre muitos outros, GENNARI, Società a responsabilità limitata, Giuffrè,
Milão, 1999, 1; WINDBICHLER, Gesellschaftsrecht, 21.ª ed., Beck, Munique, 2008,
206 e 207.

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limitada ou por quotas dos direitos europeus-continentais, que tem
como equivalente funcional no direito inglês a private company.
No percurso histórico que viria a resultar no generalizado
reconhecimento legislativo da sociedade de responsabilidade
limitada a doutrina aponta geralmente duas cepas: a germânica,
que em 1892 produziu um tipo societário original, a sociedade de
responsabilidade limitada (Gesellschaft mit beschränkter Haftung;
GmbH), e a britânica, que criou a companhia privada (private
company) no Companies Act de 1907. Sobre a occasio legis atrás
referida cumpre, aliás, acrescentar que não falta na doutrina quem
encontre antecedentes da lei alemã na prática societária posterior
à Novelle alemã de 1884, e, bem assim, na prática inglesa firmada
no ciclo evolutivo situado entre o Joint Stock Companies Act de 1844
— que permitiu a personificação colectiva (incorporation) como
mero efeito do registo de um contrato constitutivo junto do então
criado registrar of companies, dando origem às chamadas
registered companies12 —, o Limited Liability Act de 1855 e o
Companies Act de 1856 — que admitiram a responsabilidade
limitada dos sócios das registered companies — e, por último, o
Companies Act de 1862, que criou a company limited by guarantee,
na qual a responsabilidade dos sócios era limitada a um montante
determinado, a efectivar aquando da dissolução13. Com base nestes
12
Cf., entre outros, FARRAR/HANNIGAN, (Farrar's) Company Law, 4.ª ed.,
Butterworth's, Londres/Edimburgo/Dublin, 1998, 19 e 20.
13
Com esse entendimento, cf., entre outros, GARRIGUES, Curso de Derecho
Mercantil, I, 2.ª ed. (revista e actualizada por Evelio Verdera), ed. do A., Madrid,
1955, 292; RIVOLTA, La società a responsabilità limitata, Vol. XXX, T. I, do Trattato
di diritto civile e commerciale (dir. de Antonio Cicu/Francesco Messineo/Luigi
Mengoni), Giuffrè, Milão, 1982, 4 e ss.; GENNARI, La società a responsabilità
limitata, cit., 5.

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enquadramentos legais, a prática societária inglesa terá, então,
gerado dois tipos de sociedades: o das que, por um lado, dedicando-
se a actividades que necessitavam de grandes recursos financeiros,
recorriam à subscrição pública de títulos, negociados em bolsa, e,
por outro lado, o das que, não tendo necessidade de financiamento
massivo, se constituíam com um pequeno número de sócios, que a
financiavam directamente, e cujas participações não eram
negociadas em bolsa; a prática e a literatura jurídicas encontraram
para as primeiras a designação de public companies e, para as
segundas, a de private companies, cujo critério de distinção residia,
obviamente, no modo do seu financiamento.
Entre as décadas de setenta e oitenta do século XX, a Dinamarca
(1973), a Alemanha (1980), a França (1985) e a Holanda (1986)
admitiram, com variantes, sociedades originariamente unipessoais.
A progressiva abertura dos ordenamentos jurídicos à
unipessoalidade societária originária constitui o produto de um
variado conjunto de factores, em que se evidenciam: (i) as antigas
reivindicações do comerciante individual de limitação da
responsabilidade pelo exercício comercial apenas a uma parte do
seu património, afecto a tal actividade, com a consequente
desafectação a esse fim do seu restante património, o que
consubstanciaria a quebra do dogma da ilimitação da
responsabilidade; (ii) em consequência disso, a propagação das
sociedades fictícias de responsabilidade limitada, formalmente
constituídas com a pluralidade de sócios exigida pela lei, mas nas
quais só um deles tinha interesse real, visando o exercício
materialmente individual de uma actividade económica e contando
com a colaboração de sócios de favor, que nenhuma intenção
tinham de vincular-se num contrato de sociedade, para o melhor e

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para o pior, e que muitas vezes estavam preordenados à futura
transmissão da respectiva participação social ao sócio real; (iii) a
aparentemente paradoxal complacência de vários ordenamentos
em relação ao fenómeno da unipessoalidade societária
superveniente, permitindo, mais ou menos abertamente, a
subsistência das sociedades nessa condição como subjectividades
autónomas em relação ao sócio único; e, por último, (iv) as
reivindicações organizativas da empresa societária grupal14.
O primeiro dos factores que se indicam é, sem dúvida, o
historicamente precedente, remontando as primeiras tentativas
doutrinárias para legitimar a reivindicação da limitação da
responsabilidade do comerciante individual ao princípio do século
passado; entre as técnicas jurídicas direccionadas à obtenção de um
tal efeito contam-se, por um lado, a da afectação especial de uma
fracção do património do comerciante à sua actividade comercial, o
que dispensa a interposição de uma nova subjectividade entre o
comerciante e os credores da actividade, e, por outro lado, o da
criação de uma subjectividade autónoma que responde perante os
respectivos credores com a totalidade do seu património (na
realidade, destacado do património da pessoa que a constituiu)15.
Mas, subjacente a essa abertura legislativa à sociedade
originariamente unipessoal está a prevalência de uma concepção
jurídico-económica de que a sociedade constitui, antes de mais,

14
Para uma perspectiva histórico-dogmática da evolução que culminaria no
generalizado reconhecimento legal da unipessoalidade societária originária, em
certos termos, nos ordenamentos jurídicos europeus, cf., entre outros, RICARDO
COSTA, A sociedade por quotas unipessoal no direito português, Almedina,
Coimbra, 2003, 113 e ss.
15
Sobre a questão, cf., entre outros, RICARDO COSTA, ob. cit., 163 e ss.

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uma forma de estruturação jurídica de uma empresa, que, portanto,
desvaloriza a questão numérica dos sócios e a concepção histórico-
dogmática da sociedade como contrato.
No espaço jurídico da União Europeia há que referenciar a
aprovação da décima segunda Directiva em matéria de sociedades
(89/677/CEE), do Conselho, de 21 de Dezembro de 1989, que
aprovou medidas de coordenação das legislações dos Estados-
membros quanto aos tipos societários funcionalmente equivalentes
à sociedade por quotas16.

IV. Aspectos gerais do regime da sociedade unipessoal por


quotas
Sociedade unipessoal é aquela cujo substrato pessoal é
composto por um único sócio. A afirmação não tem unicamente um
suporte doutrinário, podendo sustentar-se com base nas regras do
artigo 328 do CCom.
No ensinamento comum da Teoria Geral do Direito Civil, a
sociedade constitui uma associação — lato sensu — com fins
lucrativos17, cuja regulação de Direito Privado Comum se situa, no
âmbito do Direito das Obrigações, nos artigos 980 a 1021 do CC,

16
Esta Directiva foi, entretanto, substituída pela Directiva 2009/102/CE, do
Parlamento Europeu e do Conselho, de 16 de Setembro de 2009, em matéria de
direito das sociedades, relativa às sociedades de responsabilidade limitada com
um único sócio.
17
Cf., entre outros, PAIS DE VASCONCELOS, Teoria Geral do Direito Civil, 8.ª ed., 2015,
Almedina, Coimbra, 116 e segs,.

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correspondentes ao Capítulo III (sociedade), do Título II (dos
contratos em especial), do Livro II (direito das obrigações).
O CCom explicita os critérios que determinam a comercialidade
de uma sociedade (artigos 82 e 83), mas não contém uma noção
formalmente autónoma de sociedade, o que já sucedia
anteriormente, na regulação das sociedades comerciais contida no
velho Código Comercial português, de 1888. Numa visão
doutrinária comum, a consequência sistemática dessa omissão
seria o recurso à noção civil de sociedade, contida no artigo 980 do
CC, e nos termos do qual aquela se qualifica como contrato pelo
qual duas ou mais pessoas se obrigam a contribuir com bens ou
serviços para o exercício em comum de certa actividade económica
que não seja de mera fruição, a fim de repartirem os lucros
resultantes dessa actividade (é seguro que a noção legal tem em
vista o acto constitutivo da sociedade, podendo discutir-se se o
arrimo ao contrato reporta também uma eventual relação entre os
sócios, de carácter obrigacional, fundada no contrato constitutivo,
que, nesse caso, deveria configurar-se como de execução duradoura
ou continuada).
Nesta óptica — tradicional —, a sociedade que corresponde à
noção do artigo 980 do CC constituiria um género, dentro do qual
poderiam actualmente detectar-se no direito moçambicano duas
espécies: a comercial (tipo comercial: artigo 82 e 83 do CCom) e a
civil (artigos 980 e ss. do CC: sem tipo comercial). Não partilhamos,
todavia, desse entendimento. Segundo cremos, a essência da
sociedade comercial é irredutível à noção do artigo 980 do CC, pelo
que importaria, em termos dogmáticos, construir uma noção
autónoma, partindo do regime jurídico positivo.

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O principal argumento adverso ao entendimento tradicional é o
da abstracta admissibilidade, no domínio societário-mercantil
comum, da constituição de sociedades por uma só parte18, o que
necessariamente decorre de acto jurídico unilateral e deita, assim,
por terra, o essentiălis contratual exigido pelo artigo 980 do CC. Mas
mais: se há tipos societários-mercantis nos quais — apesar de todos
gozarem de personalidade jurídica, nos termos do artigo 86 do
CCom — se pode reconhecer, mais ou menos marcadamente, a
característica de uma actividade económica exercida pelos sócios
em comum, como é o caso da sociedade em nome colectivo, só por
consciente distorção da realidade se pode pretender que o mesmo
sucede relativamente aos tipos societários dotados de uma
estrutura corporativa — para fazer uso de uma concepção
germânica muito difundida — como é o caso da sociedade
anónima19, em particular quando as respectivas acções estejam
admitidas a cotação pública.

18
Sobre a noção técnico-jurídica de parte, cf., entre outros, PAIS DE VASCONCELOS,
Teoria Geral do Direito Civil, cit., 378 e 379.
19
A concepção germânica da personalidade jurídico-colectiva supõe uma
organização corporativa, que permita a formulação de vontades autónomas das
dos sócios, imputadas, portanto, a sujeito diverso, e que, no essencial, se
reconduz à exigência de: (i) uma completa separação entre os patrimónios dos
sócios e da sociedade; e, (ii) uma gestão desse património em termos diversos da
exercida directamente pelos sócios sobre os patrimónios respectivos (a chamada
gestão indirecta, expressão que está a significar que os sócios só mediatamente
influenciam essa gestão, seja pela nomeação de administradores diversos das
pessoas dos sócios, seja porque, ainda que os administradores sejam sócios, a
função de administração não constitui emanação dessa qualidade, mas da
integração no órgão que tem essa competência funcional). A presença dessas
características define a corporação (Körperschaft), sendo que esta concepção
alemã constitui uma recuperação da concepção medieval que tinha a constituição

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A unipessoalidade societária distingue-se em originária e
superveniente (artigo 329, n.º 2, do CCom), sendo a primeira a que
se verifica ao tempo da constituição da sociedade e, a segunda, a
que vem a ocorrer num qualquer ponto cronológico da fase pós-
constitutiva ou dinâmico-funcional de uma sociedade — a que se
segue ao acto constitutivo, até eventual dissolução — que fora
constituída com mais do que um sócio, em razão da concentração
da totalidade das participações sociais na titularidade de um único
sócio.

V. Particularidades do regime da sociedade unipessoal por


quotas

V.1. Unipessoalidade originária e superveniente


A disciplina estabelecida nos artigos 329 e 330 do CCom,
constituindo o regime primário da sociedade por quotas unipessoal,
não é auto-suficiente, como resulta da última parte do n.º 1 do seu
artigo 328, que produz uma remissão genérica para as disposições
aplicáveis às sociedades por quotas: bem entendido, trata-se do
regime das sociedades por quotas plurais.
Perguntar-se-á, todavia, se esse regime jurídico se aplica a
qualquer sociedade por quotas cuja base pessoal seja constituída
por uma única pessoa. A resposta é negativa, porque — como se
verá já de seguida — pode a base pessoal de uma sociedade por

do grupo em assembleia como condição da existência da universitas (assim,


GALGANO, Il principio di maggioranza nelle società personali, 7, Cedam, Pádua,
1960).

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quotas ser composta por uma só pessoa e, todavia, ser-lhe apenas
aplicável o regime da sociedade por quotas plural. É, assim, possível,
conceptualizar a sociedade por quotas unipessoal de direito (aquela
que se submete ao regime disposto no artigo 328, n.º 1, segunda
parte), bem como a sociedade por quotas unipessoal de facto, cujo
regime é o das sociedades por quotas plurais.
Com efeito, o artigo 328, cuja epígrafe é sociedade por
quotas unipessoal, distribui-se por dois números, sendo que o n.º 1
se reporta à unipessoalidade originária e, o n.º 2, à superveniente.
Determina o n.º 1 do artigo 328 do CCom que qualquer pessoa
singular pode constituir uma sociedade por quotas de cujo capital,
que constitui uma única quota, seja inicialmente o único titular; a
uma tal sociedade são aplicáveis, primariamente, as disposições dos
artigos 329 e 330 do CCom, bem como as disposições do regime
próprio das sociedades por quotas plurais. Verifica-se, assim, que a
constituição de uma sociedade por quotas originariamente
unipessoal gera necessariamente uma unipessoalidade de direito20.
Todavia, a sociedade por quotas originariamente plural pode
ver a sua base supervenientemente reduzida a um único sócio,
situação que está prevista na segunda parte do n.º 2 do artigo 328
do CCom, que estatui a aplicação à mesma das disposições do
presente capítulo (isto é, os artigos 329 e 330), decorridos que
sejam noventa dias sem ter sido reconstituída a pluralidade de
sócios. Do que se acaba de dizer pode extrair-se a conclusão de que
a unipessoalidade de direito resulta ex lege da redução da base

20
Esta solução é idêntica à que, no Direito Português, se encontra consagrada no
artigo 270-A, n.º 1, do Código das Sociedades Comerciais.

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pessoal da sociedade por quotas à unidade (um único sócio)
verificada por período de 90 dias ou mais.
A regra do n.º 2, segunda parte, do artigo 328 do CCom
deixa, todavia, um aspecto na sombra: em caso de redução da base
pessoal da sociedade a um único sócio, pode antecipar-se o estatuto
da unipessoalidade de direito relativamente ao prazo de noventa
dias? Cremos que a resposta não pode deixar de ser positiva, já que
outra coisa não seria sistematicamente coerente, em vista da
própria admissibilidade da unipessoalidade originária de direito. O
que se acaba de sustentar, supõe, portanto, que o sócio único possa
proceder à conversão da sociedade por quotas de estatuto jurídico
plural em sociedade por quotas unipessoal, mediante negócio
jurídico unilateral21.
A conversão ex lege a que se reporta o n.º 2 do artigo 328 do
CCom não se verifica se a pluralidade de sócios for reconstituída
depois da concentração das quotas na titularidade de um único
sócio, no prazo de noventa dias, sendo que a conversão da
sociedade unipessoal de direito em sociedade em sociedade por
quotas plural parece decorrer como efeito ex lege da pluralidade de
sócios, nos termos do n.º 2 do artigo 328 do CCom (... enquanto a
unipessoalidade se mantiver…), o que sempre corresponde a um
resultado interpretativo harmónico com a inversa conversão ex
lege.

21
Sustenta-se, aliás, estar a conversão sujeita a registo, por aplicação analógica
do artigo 3.º, p) (no tocante à transformação), do Regulamento de Registo das
Entidades Legais (aprovado pelo DL n.º 1/2006 de 3 de Maio).

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V.2. A titularidade da(s) quota(s) da sociedade unipessoal
A admissibilidade da constituição de sociedade por quotas
originariamente unipessoal está expressamente limitada a pessoas
singulares, do que pode razoavelmente extrair-se a conclusão de
que as pessoas colectivas não têm capacidade de gozo para o efeito
(artigo 160, n.º 1, do CC)22. Ao contrário de outros ordenamentos
lusófonos — Portugal, Cabo Verde e Angola — a lei não contém uma
limitação numérica quanto ao número de sociedades de que uma
pessoa singular pode ser sócia.
A limitação da titularidade da(s) quota(s) de sociedades
unipessoais a pessoas singulares não decorre expressamente do n.º
2 do artigo 328 do CCom relativamente à unipessoalidade
superveniente de direito, mas a interacção sistemática entre os dois
números do artigo 328 não pode conduzir senão à interpretação
restritiva do n.º 2: a unipessoalidade de direito decorrente da
concentração das quotas na titularidade de um único sócio supõe
que se trata de uma pessoa singular: outra interpretação esvazia a
delimitação normativa do n.º 1, já que facilmente se poderia
constituir uma sociedade por quotas plural na qual comparecesse
uma pessoa colectiva como sócia, que viesse depois a adquirir todas
as quotas, visando este esquema a ultrapassagem da delimitação do
n.º 1 em dois tempos. Esta conclusão suporta uma outra: a
concentração das quotas de uma sociedade plural na titularidade

22
Faça-se, notar, a este propósito, que o CCom não contém, relativamente às
sociedades comerciais uma disciplina relativa a sociedades coligadas. A solução
legal de Moçambique é idêntica à de Cabo Verde (cf. o n.º 1 do 336 do Código das
Empresas Comerciais de Cabo Verde), sendo ambas divergentes da solução
portuguesa, que não apresenta tal restrição (cf. os artigos 270-A, n.º 1, e 270-C,
ambos do Código das Sociedades Comerciais de Portugal).

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de uma pessoa colectiva não pode produzir a conversão ex lege em
sociedade unipessoal por quotas de direito, ainda que a pluralidade
de sócios não seja reconstituída no prazo de noventa dias. A
situação identificada não tem previsão como causa de dissolução da
sociedade (artigo 229, n.º 1, do CCom.), mas, atenta a interpretação
restritiva sustentada para o n.º 2 do artigo 328, sempre o acto de
que resulta a concentração, sendo contrário à lei, deve considerar-
se nulo (art. 294 do CC).

V.3. Negócios jurídicos celebrados entre o sócio único e a


sociedade
Determina o n.º 1 do artigo 329 do CCom que o negócio jurídico
celebrado, directamente ou por interposta pessoa, entre a
sociedade e o sócio deve constar de documento escrito, e ser
necessário, útil ou conveniente à prossecução do objecto da
sociedade, sob pena de nulidade.
Estabelecendo um regime particular para os negócios jurídicos
entre a sociedade e o sócio único, a lei moçambicana integra um
padrão presente noutros ordenamentos lusófonos (Portugal,
Angola e Cabo Verde).
Importa, antes de mais, explicitar as razões que o fundam.
A admissão da licitude da celebração de negócios jurídicos entre
o sócio único e a sociedade da qual detém a totalidade do capital
social funda-se no reconhecimento de recíproca alteridade das —
duas — subjectividades em questão, e, portanto na admissibilidade
geral do seu relacionamento jurídico. Este aspecto revela a
dimensão permissiva do regime constante do n.º 1 do artigo 329 do
CCom — cuja óbvia consequência é a inaplicabilidade aos negócios

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em questão do regime do negócio consigo mesmo (artigo 261 do
CC) —, embora o seu carácter mais saliente seja, precisamente, a
dimensão proibitiva, dela se salientando: (i) a imposição da forma
escrita como requisito formal mínimo desses negócios; (ii) a
necessária subordinação dos negócios em causa ao objecto da
sociedade (traduzida na limitação material à necessidade, utilidade
ou conveniência à persecução do objecto da sociedade, que
reproduz a fórmula da capacidade de gozo das sociedades
comerciais, estabelecida no n.º 1 do artigo 88 do CCom) e, por
último, (iii) a determinação da nulidade para a violação desses
requisitos.
O fundamento material da dimensão proibitiva do regime
jurídico dos negócios do sócio único com a sociedade unipessoal
reside numa possível instrumentalização da estrutura societária
personificada por parte daquele, em benefício próprio e em
prejuízo de terceiros, que a ausência de uma contraposição de
interesses, entre vários sócios, facilita23.
O enquadramento dogmático da nulidade em questão — na
perspectiva do seu relacionamento com a imposição do respeito
pelo objecto social — não é evidente: em tese geral, pode a mesma
configurar a consequência de uma incapacidade de gozo para a
assunção das situações jurídicas activas ou passivas decorrentes do
negócio ou de ilegitimidade substantiva dos seus órgãos para o
celebrarem, independentemente de as competências decisória
(intrasocietária) e de representação da sociedade perante terceiros
estarem, ou não, concentradas no mesmo órgão, uma vez que o(s)

23
Sobre o tema, em geral, RICARDO COSTA, A sociedade por quotas unipessoal no
direito português, cit., 641 e ss.

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administradores não tem(êm) que ser sócios (artigo 320, n.º 1, do
CCom) e a competência para decidir a celebração do negócio poder
residir no sócio único, enquanto órgão social substitutivo da
assembleia geral dos sócios (artigos 319 e 330, ambos do CCom)24.
O primeiro dos enquadramentos propostos pressuporia a
inaplicabilidade à sociedade unipessoal da regra do n.º 1 do artigo
152 do CCom, o que, perante a inexistência de regra que o
determine, não parece defensável25; esse enquadramento
dogmático conduz, aliás, a um resultado inaceitável quanto ao
âmbito da capacidade de gozo da sociedade: que o mesmo varie em
função da contraparte do negócio: se se tratasse de terceiro, o
negócio — que não fosse necessário, útil ou conveniente à
prossecução do objecto social — não seria, por tal motivo, inválido,
mas, se a contraparte fosse o sócio único já o negócio seria inválido.
Cremos, assim, que o correcto enquadramento dogmático daquela
nulidade é o que decorre de uma ilegitimidade substantiva, que é,
por definição, relativa: as decisões do sócio único qua tale, de
celebração do negócio, ou do gerente — seja ele, ou não, o sócio —,
bem como os actos executivos externos de negócios da sociedade

24
Em geral, sobre a possível dissociação entre o poder decisório quanto à
realização de um determinado acto pela sociedade e o correspondente poder
representativo, cf. JOÃO ESPÍRITO SANTO, Sociedades por quotas e
anónimas/Vinculação: objecto social e representação plural, Almedina, Coimbra,
2000, 431 e ss.
25
A este propósito, note-se que existe uma descontinuidade entre as normas dos
artigos 88, n.º 1, e 152, n.º 1, ambos do CCom: se o primeiro parece colocar os
actos alheios ao objecto social fora da capacidade de gozo da sociedade, o
conjunto dos n.os 1 e 2 do segundo, ao possibilitar a vinculação da sociedade por
tais actos, pressupõe o inverso.

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com o sócio único, que não sirvam a prossecução do objecto da
sociedade, são ilegítimos26.
Objecto da sociedade são as actividades, indicadas no acto
constitutivo, que a sociedade possa vir a exercer e que constitui
menção obrigatória daquele [artigos 92, n.º 1, d) e 93, n.º 1, ambos
do CCom]. Em geral, o objecto de uma sociedade comercial não lhe
limita a capacidade de gozo (artigo 152, n.º 1, do CCom)27. O dever
imposto no n.º 1 do artigo 329 do CCom quanto ao relacionamento
do negócio com o objecto da sociedade não é diverso daquele que
está subjacente ao n.º 1 do artigo 88, sendo diverso, todavia, o juízo
relativo ao desvalor de um acto que viole a cláusula do objecto da
sociedade: em geral, tal acto não é, qua tale, inválido, vinculando a
sociedade perante terceiros (art. 152, n.º 1, do CCom), podendo
embora constituir, em abstracto, fonte de responsabilidade civil
do(s) titular(es) do órgão; na sociedade por unipessoal, e se se tratar
de negócio celebrado com o sócio único, é nulo (artigo 329, n.º 1,
do CCom).
A acrescer ao requisito substantivo de validade dos negócios
celebrados entre o sócio único e a sociedade unipessoal determina-
se ainda, no n.º 1 do artigo 329 do CCom, um requisito formal dessa
mesma validade, formulado em termos mínimos: tais negócios
obedecem sempre à forma escrita (o que representa o afastamento
do princípio de direito comum constante do artigo 219 do CC), mas

26
Sobre o regime geral da ilegitimidade substantiva, cf. PAIS DE VASCONCELOS, Teoria
Geral do Direito Civil, cit., 87 e 88.
27
Para a distinção geral entre objecto e fim da pessoa coletiva, cf., entre outros,
PAIS DE VASCONCELOS, Teoria Geral do Direito Civil, cit., 159 e ss.; JOÃO ESPÍRITO SANTO,
Sociedades por quotas e anónimas/Vinculação: objecto social e representação
plural, cit., 180 e ss.

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a regra deve entender-se com o sentido que razoavelmente tem:
relativamente a negócios para os quais a lei exija maior solenidade
do que a forma escrita, deve a mesa ser respeitada, sob pena de
nulidade, nos termos do artigo 220 do CC.
Também não parece que tenha sido intenção de legislador
subordinar à regra da forma escrita mínima os negócios celebrados
no exercício do próprio comércio da sociedade e nas condições
habitualmente praticadas para terceiros, que, estando abrangidos
na extensão da letra do preceito, suscitam um resultado de
interpretação restritiva; nesse sentido depõe a analogia com a regra
do artigo 427, n.º 3, do CCom.
Ao requisito material da inclusão do negócio no objecto da
sociedade acrescenta o n.º 2 do artigo 329 do CCom um outro: o
negócio deve ser sempre objecto de relatório prévio a elaborar por
um auditor de contas sem qualquer relação com a sociedade que,
nomeadamente, declare que os interesses sociais se encontram
devidamente acautelados e obedecer o negócio às condições e
preço normais do mercado, sob pena de não poder ser celebrado.
A norma é enigmática quanto à salvaguarda dos interesses sociais,
cujo estabelecimento é depositado no juízo do auditor de contas,
sendo que a expressão não poder ser celebrado, revela, no caso
contrário, um negócio celebrado contra a lei e, portanto, nulo, nos
termos do artigo 294 do CC.
Resta assinalar, neste domínio, que o n.º 2 do artigo 329 do CCom
equipara o sócio único à interposta pessoa, sendo que nada se
esclarece quanto à concretização do conceito para o efeito em
causa. Na realidade, o que parece estar aí em causa é a interposição

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fictícia de pessoas, que, a ser demonstrada, sempre suscitaria a
nulidade do negócio simulado (artigo 240, n.º 2, do CC).

V.4. Competência orgânica do sócio único


Determina-se no artigo 330 do CCom que as decisões sobre
matérias que por lei são da competência deliberativa dos sócios
devem ser tomadas pessoalmente pelo sócio e lançadas num livro
próprio destinado a esse fim, sendo por aquele assinadas.
A norma do artigo 330 tem o sentido de que os actos que, na
sociedade plural, dependem da formulação e manifestação da
vontade de sócios, nos termos do princípio organizativo
concretamente aplicável, que permita reduzir a pluralidade à
unidade, são exercidas pelo sócio único, como elemento universal
da base pessoal da sociedade; a regra abrange competências que,
pertencendo aos sócios nas sociedades plurais, devem ser exercidas
em termos orgânicos (artigo 319 do CCom).
A regra do artigo 330 do CCom tem o alcance de determinar que
o sócio único é um órgão da sociedade: o correspondente àquele
que, nas sociedades por quotas plurais, serve à sintetização das
vontades dos diversos sócios numa vontade unitária.
A assembleia geral é um mecanismo jurídico de síntese das
vontades dos diversos sócios numa única vontade — portanto, de
redução da pluralidade à unidade — a imputar à própria sociedade,
como sujeito de direito diverso dos sócios, que opera através do
princípio maioritário (artigo 318, n.º 3, do CCom). A assembleia
pressupõe, assim, uma pluralidade — um espaço de discussão e,
eventualmente, de contraposição de vontades — que se não
verifica na sociedade unipessoal, razão pela qual seria ilógico

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admitir assembleias do sócio único consigo próprio. Na sociedade
unipessoal não existe assembleia geral.
O que acaba de se referir não colide com a aplicação às decisões
do sócio, enquanto órgão societário, e ex vi artigo 328, n.º 1, do
CCom, do regime das deliberações dos sócios das sociedades por
quotas plurais, cujo sentido não seja esvaído pela singularidade do
órgão, dando-se aqui como exemplos as regras dos artigos 142, n.º
1, c) e d), primeira parte, do CCom.
Determina-se ainda no artigo 330 que as decisões do sócio
devem ser lançadas num livro destinado a esse fim, sendo por
aquele assinadas. A matéria relativa ao registo das deliberações dos
sócios consta do artigo 147 do CCom, sob a epígrafe de actas.
As actas devem conter as menções previstas no n.º 2 do
artigo 147 do CCom, cujo conjunto deverá, naturalmente, sofrer as
adaptações necessárias à situação do único sócio (a título de
exemplo, veja-se que a acta das decisões do sócio único não poderá
conter menções a resultados de votações).
A função da acta — que pode extrair-se do n.º 1 do artigo
147 do CCom — é probatória: as deliberações tomadas em
assembleia geral só podem ser provadas pela acta respectiva, que
constitui formalidade ad probationem das mesmas. A lei não impõe,
em geral, que as actas sejam assinadas pelos sócios que
participaram na assembleia geral, muito embora, no que respeita à
sociedade plural por quotas, se determine no artigo 317, n.º 5, do
CCom, que as actas das assembleias gerais devem ser assinadas por
todos os sócios que nelas tenham participado.

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As regras do artigo 317, n.º 5, e do artigo 330, ambas do CCom,
são formalmente convergentes, mas o seu sentido material — crê-
se — é distinto. É que, na sociedade unipessoal a inserção em acta
da decisão do sócio enquanto órgão de administração stricto sensu
— função que reparte com o(s) gerente(s) ou administrador(es),
cuja titularidade pode não residir no sócio único — serve o
propósito de delimitar, de entre as vontades formadas pelo sócio
único, as que devam imputar-se à sociedade, função geral da tutela
do interesse dos credores da sociedade de uma efectiva
possibilidade de controlo do cumprimento das regras legais
relativas à afectação do património da sociedade à garantia do
cumprimento das suas obrigações, no pressuposto de que a
inexistência de um confronto de interesses de vários sócios cria um
risco acrescido da sua violação.
O sentido da regra da segunda parte do n.º 2 do artigo 330
do CCom, é, pois, o de instituir o registo em acta, e a sua assinatura
pelo sócio qua tale, não como formalidade ad probationem das
decisões a imputar à sociedade, mas como requisito ad substantiam
das mesmas, o que explica a necessidade da adição de uma regra
àquela que já resultava, em geral, do artigo 317, n.º 5, do CCom.

João Espírito Santo

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