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Nathaly Ribeiro das Chagas

Faculdade de Direito - UFPR


MIGNOLO: “​Histórias Locais/Projetos Globais: colonialidade, saberes subalternos e
pensamento liminar”

Introdução1: a gnose e imaginário o sistema mundial colonial/ moderno2

I ​- p. 23

● Um dos primeiros passos para a configuração da diferença colonial: missionários


espanhóis julgavam como ​civilizados e hierarquicamente superior os indivíduos
que sabiam escrever (quem sabia ou não a ​escrita alfabética​). Já entre os séculos
XVIII e XIX o critério de avaliação não era a escrita, mas a história, isto é, “povos
sem história” situavam-se num momento anterior ao presente e os povos “com
história” poderiam até mesmo escrever a história dos “povos sem história”.

● Adiante, Mignolo faz um crítica a Weber, ao alegar que, em pleno século XX, o
autor se utilizou do discurso dos missionários espanhóis do século XVI ao
celebrar a conquista (do Ocidente) do ​verdadeiro saber como valor universal​.
Desse modo, Weber estaria cego para a diferença colonial, bem como para a
subalternização do conhecimento nela presente (e foi assim que Weber inspirou
Mignolo a escrever sobre a colonialidade).
❖ Por isso deve-se tomar cuidado, diversos autores (in)conscientemente
acabam reproduzindo um discurso colonial e/ou pós colonial. Há
possibilidades de criarem um novo espaço de reflexão orientados pela ideia
de que o conhecimento e a compreensão acadêmica devem ser
complementados pelo “aprender com” aqueles que vivem e refletem a partir
de legados colonialistas e pós colonialistas3. É desse modo que corre-se o
risco de exportar teorias, o colonialismo (cultural) interno, não estimulando a
reflexão crítica e a emancipação política e intelectual dos povos colonizados.

❖ Nesse sentido dispõe Carl Pletsch (1981) “(...) o Terceiro Mundo produz não
apenas "culturas" a serem estudadas por antropólogos e etno-historiadores,
mas também intelectuais que geram teorias e refletem sobre sua própria
história e cultura”.4

● Importante: o ​pensamento liminar ​é inimaginável sem a compreensão da


diferença colonial​. Além do mais, o reconhecimento da diferença colonial,
contemplada das ​perspectivas subalternas​, exige o pensamento liminar.

● Torna-se relevante apontar que no texto Mignolo usa o termo ​“libertação” ​quando
argumenta tendo em vista as perspectivas das fronteiras ​externas ​do sistema

1
Estudo referente a aula 7. Tema: Colonialismo
2
MIGNOLO, Walter D. ​Histórias Locais/Projetos Globais: colonialidade, saberes subalternos e
pensamento limina​r. Tradução de Solange Ribeiro de Oliveira. Belo Horizonte: UFMG, 2003, p. 23 -
76 (“Introdução: a gnose e imaginário o sistema mundial colonial/ moderno”.)
3
Pós colonialistas: buscam compreender a realidade particular a partir de uma cultura particular,
diferente dos descolonialistas que buscam compreender a realidade através dos contatos (geral).
4
Para isso são necessárias condições materiais, intrinsecamente ligadas à colonialidade do poder.
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Nathaly Ribeiro das Chagas
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MIGNOLO: “​Histórias Locais/Projetos Globais: colonialidade, saberes subalternos e
pensamento liminar”

mundial colonial/moderno, isto é, além da modernidade e utiliza ​“emancipação”


para o mesmo propósito dentro das fronteiras ​internas ​do sistema mundial
colonial/moderno (dentro da modernidade).

● Mignolo sustenta que um dos principais argumentos do livro é a ideia de que se


nem mesmo os estados-nações são concebidos na sua homogeneidade e a
produção de bens não está ligada apenas a um país (trazendo como exemplo os
diversos locais envolvidos na fabricação de um automóvel), tampouco não
deve-se conceber como homogêneas a ética protestante ou a de Confúcio ou a
religião dos índios norte-americanos. Assim, as relações entre fé e conhecimento
devem ser repensadas.

II ​- p. 30

● Gnose​: permite falar de um “conhecimento” além das culturas acadêmicas,


ressaltando-se que dentro das culturas acadêmicas são familiares as palavras
como hermenêutica e epistemologia5 que foram reconfiguradas a partir de uma
visão ocidental do saber (lembrando também que a gnose foi “apropriada” pelos
gnósticos um movimento religioso e remissório hostil ao cristianismo, de onde
decorre a recepção negativa dada ao "gnosticismo" no moderno mundo colonial
(da Renascença até o pós-Guerra Fria). Contudo, essa não é visão que interessa
ao autor).
● Os filólogos gregos recomendam que não se estabeleça uma distinção rígida
entre gnose e episteme e sim que se examinem ​seus usos específicos em cada
autor .
❖ é nesse sentido que Mignolo aponta alguns dos usos da palavra gnosiologia:
❖ A ​Oxford Companion of Philosophy associa a gnosiologia à palavra grega
“conhecimento”, assim não há clara distinção entre gnosiologia e episteme.
Contudo, há aqui uma importante caracterização: a gnosiologia diz respeito a
um conhecimento não acessível à experiência dos sentidos, isto é, apenas
atingido através da contemplação mística ou puro raciocínio lógico e
matemático.
❖ Mudimbe: usa gnose para captar uma ampla gama de formas de conhecimento
que a “filosofia” e a “epistemologia” haviam descartado, isto porque ao ser
pedido para que escrevesse uma introdução à filosofia africana expressou seu
descontentamento já que a sistema de conhecimento africano se opunha à
filosofia, para Mudimbe a filosofia tornou-se um instrumento de subalternização
de formas de conhecimentos não abrangidas por ela.
❖ Gnose não equivale a doxa nem a episteme (pg 33) - gnose é mais ligada ao
conhecimento em geral (por isso Mudimbe utilizou-se da palavra gnose, para

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Hermenêutica: coube a ela o domínio do sentido e da compreensão humana e à Epistemologia o
domínio do conhecimento e da verdade.
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poder enfatizar a relevância crucial do "sistema africano tradicional de


pensamento").
● Gnose liminar​: ​conhecimento de uma perspectiva subalterna6, é o conhecimento
concebido das margens externas do sistema mundial colonial/moderno

● gnosiologia marginal: discurso sobre o saber colonial, concebe-se na intercessão


conflituosa de conhecimento produzido nas perspectivas dos colonialismos
modernos (retórica, filosofia, ciência) e do conhecimento produzido na perspectiva
das modernidades coloniais na África, Ásia, nas Américas e no Caribe

● GNOSIOLOGIA LIMINAR: reflexão ​crítica ​sobre a ​produção do conhecimento a


partir tanto das margens ​internas7 do sistema mundial colonial moderno (conflitos
imperiais, línguas hegemônicas, direcionalidade de traduções, etc) quanto das
margens ​externas8 (conflitos imperiais com culturas que estão sendo colonizadas,
bem como as etapas subsequentes de independência ou descolonização)

● Ponto importante: a ​epistemologia ​é uma conceitualização e reflexão sobre o


conhecimento articulado em harmonia com a coesão das línguas nacionais e a
formação do estado nação, já a ​gnose liminar ​constrói-se em diálogo com a
epistemologia a partir de ​saberes ​que foram ​subalternizados nos processos
imperiais coloniais

● Principal tese do livro: o longo processo de subalternização do conhecimento →


isto é, as modernidades coloniais ou as modernidades subalternas ao se
fundamentarem sob a distinção entre epistemologia e hermenêutica acabaram por
subalternizar outros conhecimentos e assim sucessivamente (que será abordada
através de críticas históricas)
● segunda tese: o processo de subalternização do conhecimento vem sofrendo
diversas transformações, principalmente devida a influência de novas formas de
conhecimento para as quais o que foi subalternizado (e antes era interessante
apenas como objeto de estudo) passa a ganhar novo espaço de enunciação,
descrito como gnose liminar. Aí é que a gnose liminar pode ser definida como a
razão subalterna que luta para colocar em primeiro plano a criatividade e a força
de saberes que foram subalternizados (colocados como dependentes e/ou
inferiores) durante um ​processo ​de ​colonização ​e que teve como resultado a
modernidade e na razão moderna9.

6
“um conjunto diverso de práticas teóricas emergindo dos e respondendo aos legados coloniais na
interseção da história euro-americana moderna”
7
Exemplo: gradativa ascensão dos EUA como potência mundial e o deslocamento da Inglaterra de
sua posição hegemônica imperial
8
Ex: as fronteiras com a Espanha e o mundo islâmico, bem como com os incas ou astecas no século
16, ou as que existiram entre os britânicos e os indianos no século 19, ou as lembranças da
escravidão no concerto das histórias imperiais.
9
“Não existe modernidade sem colonialidade”. A colonialidade é a face oculta da lua moderna, isto é,
a questão colonial funda a modernidade.
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● Diferença Colonial: ​“a classificação do planeta no imaginário colonial/ moderno


praticada pela colonialidade do poder, uma energia e um maquinário que
transformam diferenças em valores”. ​O prof falou em sala que: todos os povos
que passaram pelo colonialismo vão viver as diferenças/ contradições. Qual
contradição? → a de ter que conhecer tanto a história dos colonos quanto a
própria história na íntegra “refletimos o que somos a partir do que não somos”.
Assim, tem-se que as diferenças que diferem-se dos colonos, são inferiores.

● SEMIOSE COLONIAL enfatiza os conflitos gerados pela colonialidade no nível


das interações sócio-semióticas, isto é, no terreno dos signos, como por exemplo
os conflitos gerados dentro da religião, da educação e da conversão ligados aos
demais signos (língua, vestuário, alimentação, etc).

● Colonialidade do poder → a diferença colonial: é condição de possibilidade e o


que legitima a subalternização do conhecimento e a subjugação dos povos.

III - p. 40

● Colonialidade do poder segundo Quijano implica e se constitui:


❖ classificação e reclassificação da população do planeta - baseados nas
“culturas” de cada época.
❖ estrutura funcional institucional para articular e administrar tais classificações
(aparatos do Estado, Universidades, Igrejas etc).
❖ definição de espaços adequados para esses objetivos.
❖ perspectiva epistemológica para articular o sentido e o perfil da nova matriz de
poder e a partir da qual canalizar a nova produção de conhecimento.
★ Assim, o eurocentrismo se torna uma metáfora para descrever a
colonialidade do poder na perspectiva da subalternidade. Do ponto de vista
epistemológico o saber e a história europeia foram vistos como como
projetos globais, como a história universal de Hegel, na qual a maioria dos
atores não puderam ser também narradores.
★ é desse modo que a semiose colonial visa identificar quais os momentos
específicos de tensão (momento de conflito entre duas10 histórias e saberes
locais, um querendo avançar no sentido de um projeto global para se impor
e outro forçado a se adequar a essa nova realidade).

10
Por isso é necessária uma abordagem bilateral: hermenêutica pluritópica.
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IV - p. 42

● Existem diversos níveis de subalternidade. Ex; Gramsci: ligada a estrutura de


poder estabelecida em função das relações de classe nas sociedades ocidentais
(industrializadas), Mignolo sugere as relações etnoraciais como imprescindíveis
para o estabelecimento das relações de classe estruturadas em função do
trabalho, da escravidão, da exploração, etc. Outro nível é o da religião, ex: o
cristianismo não foi tolerante com o judaísmo → o cristianismo se tornou o 1°
projeto global do sistema mundial colonial/ moderno11.

● “A expansão ocidental posterior ao século 16 não foi apenas econômica e


religiosa, mas também a expansão de formas hegemônicas de conhecimento que
moldaram a própria concepção de economia e de religião”.

V - p. 48

● Imaginário do sistema mundial colonial/ moderno: é sua própria auto descrição,


as formas pelas quais descreve a si mesmo através do discurso do Estado , dos
intelectuais e dos acadêmicos.
● Mas o que é imaginário? inclui ​todas as formas pelas quais uma cultura percebe e
concebe o mundo​. Assim, ​toda cultura humana tem seu próprio imaginário.

● Para Mignolo “​direito dos povos​” situam-se no âmago colonial. escondido da


modernidade e busca a articulação de uma nova fronteira (​foi uma discussão a
respeito não de escravos africanos, mas de ameríndios - ​lembrar da discussão de
que se os indígenas eram pessoas também, eles eram “servos de Deus”, em
tese, não poderia ser escravizados - discussão entre Las Casas e Sepúlveda),
enquanto que “​direitos do homem e do cidadão​” busca uma universalidade numa
Europa já consolidada e possibilitada pelas riquezas advindas dos territórios
coloniais.

VI p. 6212

● Fronteiras: são momentos da expansão colonial e nas mudanças das hegemonias


coloniais (podem ser internas ou externas13) Ex: a revolução marxista-leninista
que redesenhou algumas fronteiras e a União Soviética no sistema mundial
moderno e deu início a um “colonialismo” seu.

11
Mas enfim, do que se trata o sistema mundial colonial/ moderno? “É a integração mundial ou
planetária a partir da expansão colonial ou imperial, definindo suas fronteiras internas e externas”.
12
​O autor explica algumas terminologias por ele usadas.
13
Fronteiras internas (conflitos entre impérios) e externas (conflitos entre cosmologias - “visões de
mundo”, explicações do universo, etc).
5
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pensamento liminar”

VII - p. 67

● Observações sobre histórias locais, projetos globais:


- O autor diz: que a análise do sistema mundial, as teorias
pós-modernas e estratégias desconstrucionistas são importantes
empreendimentos críticos, que embora não sejam cegos para o
colonialismo como objeto de estudo, são cegos para a diferença
colonial.
● como exemplo do ponto abordado acima, Mignolo cita a estudiosa Béji, que
diferencia em seus escritos a civilização de cultura, para ela a civilização está
ligada a ideia de modernidade, tecnologia, etc e associada à razão. Enquanto que
a cultura é entendida como o domínio da tradição e ligada também às esferas da
vida que os projetos civilizadores tentam domesticar, associada à paixão por
vezes. Para a autora, a cultura mundial é uma nova forma de civilização e não
implica numa razão universal (segundo Mignolo é uma noção ós ocidental de
civilização e portanto, resultaria do pensamento liminar)
● Assim, a cultura mundial de Béji caminha paralelamente a ideia de Mignolo de
histórias locais, assim Mignolo define “cultura mundial” como rearticulação e
apropriação de projetos globais14 la e na perspectiva das histórias locais15
● “A ​mundialização ​é precisamente o que todos temos hoje em comum: a
dimensão onde me vejo habitando e a relação na qual todos bem nos podemos
perder. O infeliz outro lado da mundialização é a chamada ​globalização ​ou
mercado global: a redução ao mínimo, a corrida em direção ao fundo, a
estandardização; a imposição de corporações multinacionais com seu éthos
(demasiadamente próprio do homem) de lucro bestial, círculos de circunferência
ubíqua e sem centro em lugar algum” (Glissant, 1998: 2).

VIII - p. 74
“considerações finais “

● Não existe modernidade sem colonialidade


● O pensamento subalterno só pode existir na perspectiva subalterna, não dentro
da modernidade isto porque dentro da perspectiva territorial (modernidade) o
pensamento liminar se torna uma máquina e apropriação de diferenças e da
diferença colonial → é só mais um objeto de estudo, enquanto na perspectiva da
subalternidade o pensamento liminar é um instrumento de descolonização
intelectual, resultando portanto, na descolonização política e econômica.

14
em outros autores aparecerá como “globalização”
15
“ “ mundialização
6

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