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Jacques Derripa A Universidade sem condi¢ao Tradugao Evando Nascimento Titulo original: L'Universté sans condition Copyright © 2001, Editions Galiée, 9, rueLinné, 75005 Pacis Revisto Tullo Kawa Assisténcia editorial Flavia Moino ¢ Matsa Kawata ‘Composigdo Wildiney Di Masi / Estagao Liberdade Ilustragdo da capa Fernand Léger: shitulo, Stalingrado, gouache e crayon s/papel, ca. 1952. ‘Museu Fernand Léger, Blo (Franca) Capa Equipe Estacio Liberdade Editor Angel Bojadsen CIP-BRASIL. Catalogagio na Fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ Derrida, Jacques, 1980- ‘A Universidade sem condigio / Jacques Derrida; radugio Evando Neseimento, — Si Paulo : Estaglo Liberdade, 2003 ‘Traduslo de: L'Univemité sans condition ISBN: 85-7448-0746 1. Ensino - Filosofia. 2. Ensino superior - Finalidades e objetivos. 3. Universidades e faculdades - Filosofia. 1. Tiulo. 03-0715 cop 378.155 cbU 378.41 Todos os direitos desta edicao reservados & Ediiora Estagio Liberdade Leda Rua Dona Elisa, 116 ~ 0155-030 ~ So Paulo SP ‘Tels: (11) 3661 2881 . Pax: (1) 3825 4239 e-mail: editora@estacaoliberdacle com.br hhup.//www estacaoliberdade.com.br NOTA DO TRADUTOR “Traduzir Jacques Derrida é entrar no jogo de seus conceitos e metéforas. Assim, mesmo no idioma fran- és, ler Derrida 6 traduzi-lo, ou seja, decifrar 0 valor, a0 mesmo tempo filos6fico ¢ literatio, de suas pro- posigdes. No caso desta traducio, as dificuldaces foram con- siderdveis por se tratar de uma conferéncia original- ‘mente pronunciada em inglés — na qual se faz mais de uma referéncia a0 francés — e publicada em seguicla na Franca. Destaquemos os principais problemas: 1. A expresso do titulo comespondesia mais usual- mente em portugués a “incondiciona entanto, mafté-la, a fim de preservar < permuta en- ". Resolvi, no tre 0 adjetivo inconditionnel © suns condition, este dizendo respeito a um render-se ou entregar-se [se rendre] de uma pessoa, um pafs ou urna institui¢ao, sem opor resisténcia, por Ihe faltar o poder, ou seja, incondicionalmente, como acontece muitas vezés a Universidade. Ao lado disso, 0 texto igualmente pro- poe o sentido afirmativo de a instituigao universitéria Jacouss Danna poder nfo estar na dependéncia de condigao ou in- jungao alguma, ser “livre” em suma, 2. Como vem assinalado de passagem, algumas palavras e expressdes foram citadas em francés na conferéncia norte-americana. A opgao neste caso foi deixar a formulagdo original sem tradugdo quando 0 texto explicita a referéncia ao idioma gilico. Destaco especialmente mondialisation, termo corrente para 0 que chamamos globalizagio: em mais de um momento, através de uma referéncia velada a Heidegger, Derri- da tira proveito do “mundo” embutido na designagdo francesa, disce:nindo-o do globo, do cosmos e de ou- tros equivalentes, 3. Ha uma série de termos, relacionados ao campo da promessa e da responsabilidade, que nem sempre podem ser traduzidos da mesma maneira em todos os contextos: gage (penhor, garantia; prova, testemunho; aposta), engager (comprometer, contratar, empenhar, hipotecar, entabular; introduzir; comegar, ini tar, incitar; investir, i; exOr- ngajar), s’engager (inscrever-se; penetrar, embrenhar-se; prometer, tomar posi¢do ou partido em relagio a problemas sociais e politicos; alistar-se; compromete! se; engajar-se), engagement (compromisso, contrato, obrigacao jurfdica, empenho, hipoteca; alistamento; tomada de posi¢o em relagdo a certos problemas politicos e sociais; engajamento, etc.). Essas palavras est@o na base da formacdo de alguns enunciados performativos: segundo a teoria dos speech acts de se, empenhar-se; aventurar A UNVERsioane SEM conDIGAO Austin, sao aqueles que, pelo simples ato de enun- iar, realizam uma ago — por exemplo, “Eu prometo me empenhar...” 4, HA outra série de termos, correlata a anterior, ¢ que dizem respeito 20 acontecimento ou evento (évé- nement). Neste como em outros textos, Derrida fala de um acontecimento em sentido forte: aquele que acontece independentemente da vontade dos sujeitos, embora esteja relacionado até certo ponto ao empe- nho e a responsabilidade destes, Nesse tipo de refle- xo comparecem, dentre outros: se passer (passar-se, acontecer), avoir lieu (ter lugar, acontecer), arriver (chegar e acontecer), larrivant(o que chega, 0 “chegante”, cujo substantive correlato € anivance. “cheganca”, uma voz média nem ativa nem passiva), le tout autre (lite- ralmente *o todo outro", ou: © totalmente diferente, signo da alteridade radical, sem 0 que nao existe acontecimento ou eventé de fato). Atingir um equilibrio inventivo no jogo entre a estrangeirizagao da lingua de chegada (o portugués) ea domesticagao tradutoria do idioma de partida (0 francés) foi tanto mais necess4rio porque se trata de um. autor que desde sempre colocou a tarefa da tradugio ‘como uma das estratégias fundamentais da propria desconstrugio, dentro ¢ fora da Universidade, EN. Esta conferéncia foi inicialménte-pro- nunciada em inglés na Universidade de Stanford, California, em abril de 1998, dentro da série das Presidential Lectures. Eu tinha sido ento convidado a tra- tar preferencialmente da arte e das hu- ‘manidades na Universidade de amanha. primeiro titulo da conferéncia foi, por- tanto: © porvir da profissdo oui A Universidade sem condigto (gracas as “Humanidades’, © que poderia ter lugar amanha) Isto, sem divida, seré como uma profissdo de fé: a profissdo de f€ de um professor que fizesse como se solicitasse a vocés permissdo para ser infiel ou traidor de seus habitos, Antes mesmo de comecar a empreender, efetiva- mente, um itinerfrio tortuoso, eis sem rodeios, e em linhas gerais, a tese que submeto a discussio de vo- és. Ela vird distribuida numa série de proposigdes. Na verdade, serd menos uma tese, ou mesmo uma hipd- tese, que um compromisso declarative, um apelo em forma de profissio de fé: fé na Universidade e, nela, f@ nas Humanidades de amanha O longo titulo propasto significa primeiramente que a Universidade moderna deveria set sem condi 640. Por “Universidade moderna” entendamos aquela cujo modelo europeu, depois de uma hist6ria me- dieval rica e complexa, tornou-se preponderante, ou seja, “Classico” hd dois séculos, em Estados de tipo de- mocritico. Para além do que se chama liberdade acadé- mica, essa Universidade exige e deveria ter reconhecida B Jacques Demupa uma liberdade incondicional de questionamento € de proposigao, ou até mesmo, e mais ainda, o de dizer publicamente tudo o que uma pesquisa, um saber ¢ um pensamento da verdade exigem. Por mais ‘enigmética que permanega, a referéncia a verdade pa- rece fundamental o bastante para ser encontrada, junto com a luz (L103), nas insignias simbélicas de mais de uma universidade. A Universidade faz profissdo da verdade. Bla de- clara, promete um compromisso sem limites para com a verdade. ‘ Sem diivida, o estatuto € o devir da verdade, bem como 0 valor de verdade, dao lugar a discusses infin- das (verdade de adequagio ou verdade de revelagio, verdade como objeto de discursos te6rico-constatativos ou de acontecimentos poético-performativos, etc.). Mas isso € discutido justamente, de forma privilegiada, na Universidade e em departamentos pertencentes as Humanidades. Deixemos essas temerosas questdes por enquanto em suspenso. Sublinhemos apenas, antecipadamente, que essa imensa questo da verdade e da luz, a ques- tao das Luzes — Aufkldrung, Enlightenment, Ilumi- nismo, lustracién, Iluminismo— sempre esteve ligada a do homem. Ela implica um conceito do préprio do homem, o qual fundou, de uma s6 vez, o Humanismo € 2 idéia historica das Humanidades. Hoje, a declara- ao renovada e reelaborada dos “Direitos do Homem” (1948) ¢ a instituigd0 do conceito juridico de “Crime 4 | | 1 ‘A Ustvinsipane six conpicho contra a Humanidade” (1945) constituem 0 horizonte da mondialisation e do direito internacional, o qual supostamente olha por ela. (Mantenho a palavra fran- cesa “mondialisation” em lugar de “globalization” ou “Globalisierung”, a fim de conservar a referéncia a um “mundo” — world, Welt, mundus —, que ndo é nem © globo, nem o cosmos, nem o universo.) Sabemos que a rede conceitual do homem, do préprio do ho- mem, do direito do homem, do crime contra a huma- nidade do homem organiza uma tal globalizagio. Essa globalizag4o quer, portanto, ser uma huma- nizagio, Ora, se tal conceito do, homem parece ao mes- mo tempo indispensvel e sempre problematico, pois bem, esse ser um dos motivos de minha hipétese ou, se preferirem, uma de minhas teses ao modo de pro- fissto de fé, ele s6 pode ser discutido ou reelaborado, como tal € sem condigao, sem pressugosigdes, no es- pago de novas Humanidades. Vou tentar esclarecer 0 que entendo por “novas” Humanidades. Mas, embora essas discussdes possam. ser criticas‘ou desconstrutivas, referindo-se A questo a historia da verdade em sua relacao com a questao do homem, do proprio do homem, de direito do ho- ‘mem, do crime contra a humanidade, etc., tudo isso deve em principio encontrar seu luger de discussio incondicional e sem pressuposto, seu espaco legitimo de trabalho e de reelaboragdo, na Universidade e, nela, por exceléncia, nas Humanidides, Nao para af se fechas, 15 Mice Pereasow leria no apenas a postular a homogeneidade dos corpos u dos ou desunidos em uma luta cujas paradas [enjeuar} estio or ser determinedas, mas igualmente a ndo reconhecer os Propésitos que os guiam, os desejos que eles nutrem, os deve- es que eles se impdem ou que lhes séo impostos e até mesmo a vontade que afirmam. E isso que Heidegger, de certa forma, deixa entender em seu célebre e controverso discurso proferi, do em 1933, por ocasiao da sua posse como reitor da Univer. sidade de Friburgo. Ap6s haver definido a esséncia da cigncia, ® Go como uma tomada de conhecimento, mas, antes, como um triplice lago que, no horizonte do Ser, prende o povo alemao {Povo que quereria presumivelmente ser um “povo conforme © espirito") ao destino do Estado em uma missio espiritul, Heidegger escreve: A vvontade-da-esséncia do corpo docente deve desper- tar ¢ reforgar-se visando & simplicidade e & amplitude do saber que diz respeito a esséncia da ciéncia, A vontade-da- esséncia do corpo discente deve obrigar-se a atingir a mais alta clareza e o mais alto rigor do saber; e deve dar 20 saber gue ela tem, por conivéncia, do povo e de seu Estado, a forma da esséncia da ciéncia, trazendo-lhe exigéncia e deter- ‘minicade, Essas duas vontades devem obrigar-se reciproca- mente 20 combate. Todas as capacidades de vontade e de pensamento, todas as forcas do coracio e todas as aptidées da came devem desdobrar-se pelo combate, reforcar-se no combate e conservar-se enquanto combate! Se quiserem, deixemos de lado, esta noite, a questio de saber como o saber co povo e do Estado seria transmitido aos estudantes para simplesmente assinalarmos que néo se pode nio ser impressionado, e perturbado, pelo carater agonistico 4+ Die Selbstbehauptung der dewschen Universtit/Lauto-afirmation de Université allemand Tad francesa Gérard Granel, Mauvetin Tans Europ Repres, 1982, p.20. A Uxiversioaoe rece impor-se ao esptrito de Heidegger, opgio isersta am pres ingest de eens sete atmas e o saber, e que deve conservar-se, até mesmo reservar-se, ilo combate. Poise é isto que importa, tanto para Heidegger sbb o regime nazista quante para nés sob um regime que al- uns chamam neoliberal ~ esse combate pelo qual se define a Aiposigio eidética entre a forca dos mestres, dos guias, ea resi téncia dos estudantes, dos guiados, seria precisamente um lu- dor de abertura, um luger a partir do qual se instituiria, se fiw posso dizer, a autonomia da Universidade alema: Somente o combate mantém a oposigio aberta, somen- te ele implanta no conjunto do corpo dos professores ¢ dos, alunos aqueladisposigio fundamental a partir da qual a auto- afirmacio autodefinidora autoriza a automeditagéo em vis- ta de uma autonomia auténtica, Seria preciso, sem diivida, interroger mais a fundo essa ltadeia de autoi, Apelando simultaneamente para o combate ¢ para a solidariedade, ela estabelece, com efeito, uma relagio com 0 outro, com 0 hétera, que implica um jogo de oposigbes abertas e, para falar com franqueza, um combate responsével, Dat a pergunta a qual Heidegger é levado, e na qual, para con- vocar vocés, para provocar-nos, substituo aqui ~com um gesto que mereceria, evidentemerte, uma critica radical - 0 adjeti- vo alema pelo adjetivo brasileira’: oa pau naree lene mci en, dvr eds . singulntes ream iesuruep Tastes chs Oxegen meeps coer. ial Con cn atypia pee etnsnea ome eden eg ecaerac dregs smi pian uve de nao oes {Sowuu Anmo seen ne weno aes ere ESStzin concn como cr nen ee one eae ofa ‘See ne qt sats de lose pinete roca ey re pr ede cere Sipe Sleeps een incense itso aa pls ni ton te oot wee) ede 7 Micia. Perensow Queremos aesséncia da universidade brasileira, ou nfo a queremos? Depende de nés saber se, e até onde, fazemos esforca com vistas a essa automeditagio e auto-afirmacio, ‘um esforgo fundamental, e ndo apenas ocasional -, ou entfo se (com as melhores intengSes do mundo) nos contentamps com modificar velhas orientacées e acrescentar novas. O que ninguém nos impediré de fazer*. ‘ © que ninguém, com efeito, nos impedird de fazer... ‘A vontade aqui em acdo implica um “nés” que comprp- mete corpos (Heidegger fala de coragéo e de carne): um caf- po docente e um corpo discente, em uma direcdo comum. Ela obrige a um encontro que requer uma “lucidez”, ela proprja efeito de um jogo de forcas. Esse encontro, esse combate insti- tuem-se em vista da essénciae, assim, em funcio do elo entrea esséncia e a verdade. E por esse motivo que, antes mesmo. sabermos se queremos ou no a esséncia da Universidade bra sileira, precisariamos, segundo essa l6gica, segundo essa polj- tica, assumir nossa responsabilidade e interrogar-nos sobre a esséncia enquanto tal, ou seja, como diria Heidegger, dicigir nosso olhar para o que caracteriza a “verdade” enquanto val ‘A questdo passaria entdo a ser: queremos 0 que caracteriza‘a verdade da Universidade brasileira? Mas minha responsabilidade aqui é mais modesta, e nog- sa tarefa mais delicads, do que enfrentar a questo da verdadg Ela é, por assim dizer, mais reduzida e se mantém nos estreitas Tar ovico dh aproniagl ue cons, reflexes de Maur Blanchot ae phar indvetemente cicada vcore eideggerian do destino begemiss ‘Eipooslends banca no veptss do pense regs, «eps oy tories de gues adeto do ants s tera sens pear cond Eeesies sds corvette pe mio reponides ioe hut coupe dsr anu, dctyfoe devas inuger, Seca pst dortntzome usp (os elie eqs lace ne réflexion. Paris: Fourbi, 1996, p. 1, nota 3 Este texto€ uma reimpressg aque pba no nimere 29, demu de 1964, dreva Le data! 6 thi, p21 18 A Univensioane limites do corpo docente ~ se € que podemos perceber, na situagdo que nesta noite é a nossa, o que esse corpo, estra- mho a si mesmo, e seus efeitos de corpo a corpo’. Pois parece- ‘me — ao menos é o que se constata quando se Ié a proposta de estatuto da Universidade Federal do Ric Grande do Sul, feita pela Associagéo dos Docentes em 1° de dezembro de 1993 (Titulo II1, Capitulo I: “Dos docentes”) - que fazemos hoje cada vez menos caso do corpo enquanto tal de docentes (mes- ‘mo que 0s mais variados tipos de dispositivos prevejam diver- sas vantagens em termos de transporte, alimentacéo, etc.), 0 ;passo que, para tomar apenas este exemplo, a Carta de Funda do da Universidade Jagellona, em Cracévia, que data de 12 de maio de 1364 e se baseia nos costumes das Escolas de Bo- lonha e de Pédua, leva em consideragio~ ¢ verdade, para nés, de maneira curiosa — no o préprio corpo, evidentemente, mas pelo menos todas as suas necessidades fisicas ¢ morais. Néo somente estdo assegurados os direitos, liberdades e estatutos dos membros do corpo docente, mas constata-se também, além_ das isengSes de taxas e de impostos que lhes so concedidas, uma preocupagio fundamental com a livre passagem de qual- quer substancia, como cavalos, livros, roupas, leng6is, dinhei- 10 utensilios domésticos. Mais ainda, Caso um professor ou tum de seus servidores seja roubado por um stidito do reino, a Universidade compromete-se a reparar os danos causados. ‘Uma vez comprometida a Universidade, os membros do corpo docente encontram-se, por assim dizer, protegidos, a menos, naturalmente, que cometam adultério, se entreguem a prosti- tuigdo, perpetrem assassinatos ou cometam crimes capitais* 7. Refirosme, nesta questio, #0 texto de Jseques Derrida dedicado 20 GREPH (Groupe de Recherches sur lEnseignement Phlssophique), constituido em 15 {Se ancire de 1975, “Onde scaba e onde comeca um corpo docente?”. Du drat la philosopie. Pars: Gaile, p. 111-145, Tratase do fato de o corpo docente ni encontrar seu incalculvellacro mortal senlona medida em ques apague da ena enguanto corpo portador de uma representasio,signifcagie, enquanto simulacro de corpo homogéneo, 8, ‘The Founding Charter ofthe Jagellonian University. Krakow :Jogllonian University Foundation, sd. Aproveito para mencionar que uma mudanga de estetsto~ que 19 ict Perensow Mas em nossa éroca, nesse assunto, qual 6 minha respon- sebilidade, qual & entio nossa responsabilidade num pais, 0 Brasil, onde uma larga fatia da propriedade permanece infor- mal? A questio no se esgote af, pois os verbos que acompa- nham a palavra responsabilidade (aqui se poderia pronunciar © termo em inglés: responsibility, e ouvir nele a obrigacéo que ele comanda no horizonte do parlamentarismo britanico) j4 deveriam compelir-nos a redobrar nossa vigilancia. Com efei- to, em prinefpio, ume responsabilidade é tomada por alguém, em uma determinada ordem do discurso, perante uma deter- minada instituicéo, de acordo com determinados imperativos. Mas essa “tomada” poderia constituir tanto um compromisso de alguém perante um outro quanto uma su(pe)rpresa, uma retracio, um esforco, uma consumagao, um pligio, uma per- missio, um roubo [vel], até mesmo um estupro [vial] ‘Como, por qué, com que objetivo se assume entdo uma responsabilidade? Quem a reivindica, declina, estabelece, prova, demonstra, umenta, agrava, e em virtude de que lei(s), segundo que desejo? Quem se encarrega dela, quem se des- carrega dela, que peso representa ela? © que essa responsa- bilidade que trazemos aqui A nossa atencio? Como se é cons- ciente de uma responsabilidade, como se toma conscigncia Timplica, no case concreto que nos interessa, urna mudanga de denominagio, ov sj, a eventual passagemde uma Pundagio Universitria para uma Universidade Federal (ver, a respeto, o relario "Denominagio da Institulgso" [Processo 123116.001356/94-59], de 26 de setembro de 1984) ~ deve ser analiseds, alérm ‘ou agutm de rau efaitor cconémicoee potticor, oa perzpeciva dos afeitar do name préprio. Sobre ese aspecto, Derrida foi extremamente claro, Proponho, para alimentar o reflexs, consular, além dele, 0 excelente enssio de Gauri Viswanathan “The Naming of Yale College. British Imperialism and American Higher Education’, publeado em Cultures of United States Imperialism, Amy Kaplan & Donsld E Pease, eds. Durham, London : Duke University Press, 1993, 1p. 85-108. Viswanathan procura, entre outras coisas, esclaecer as condisSes que {ornaram possvelonaseimento de Yale, a0 permitir a tranigio do mereantilismo britnico para a circulagio da riqueea colonial em ums economia glabal. Qcorre {que essa transicfo tem justamente a ver com a “usurpagio" do nome, pois 2 Universidade leva o nome de Elihu Yale um funciondio que fez fortuna com a East India Company, enquanto Idea da fundagto ver de um grupo dedissidentes cdo Connecticut, cos representantes foram Cotton Mather e Jeremy Dummer 2 A Unovansioane dela? Esté sempre implicada uma tomada de consciéncia em qualquer responsabilidade? O que & mesmo ~ a questio conti- hua, de qualquer forma, longe de ser resolvida ~ a conscién- cia? Qual é a parte de desconhecido - ou de loucura, igual- mente ~ que recai sobre aquele, ou aquela, ou aqueles que tomam, ou evitam, igualmente, uma responsabilidade? (© Proprio Impossivet. Seria dificil encontrar alguém mais dedicado ao seu tra- batho do que Akaki Akdsievitch. Mais do que isso: ele tinha citime do seu trabalho, Nao: ele the tinha amor. Na atividade de copiar ele construfa um mundo proprio, variado e agradé- tel. [..] Um diretor, homem de bom coragao, quis recompensa- lo pela longa dedicagdo e mandou que Ihe dessem um trabalho mais importante que a simples cépia, ow sejai de um caso jd concluido ele deveria fazer uma circular e enviar a outra repar- tigdo; o trabalho consistia apenas em mudar os titulos e passar os verbos da primeira para a terceira pessoa, Isso constituiu ppara ele uma tarefa tao dificil que, todo suado, enxugando a testa, ele finalmente disse: "Nao, é melhor eu copiar alguma coisa.” Desde entao ele foi deizado definitivamente na escrita Nicolau Gogol, © Capote®. Comesarei com a seguinte proposicio: Tomar uma res- ponsabilidade talvez seja doravante imposstvel ~ pelo menos se continuarmos a nos colucar sob o regime da obrigagao, do imperativo. Ninguém pode, na realidade, tomar uma respon- sabilidade sem se refletir enquanto sujeito; em outras pala- ras, sem cumprir um gesto de dominio. © que néo quer di- zer, insisto, que uma respensabilidade nao seja um princfpio, tuma obrigagdo ou uma necessidade que nos incumbem, que 9, Trad, Maria Aparecida Botelho Ferera Soares. Rio de Janeiro : Alhambra, 1986, plSl4 a “Micttt Perenson ‘nos cabem. A proposicéo apresentada significaria simplesmente que nao somos nem os sujeitos nem os objetos da responsapi- lidade, que devemos fazer-nos ou tornar-nos responsaveis, pu seja, supermorais, ultrapassando o reino do “calculével” rusno 0 futuro. A impossibilidade de tomar uma responsabilidad, da tomada, & qual nos obriga a responsabilidade, faz voar qm estilhacos a clivagem entre sujeito e objeto. O sujeito que se acha efetivamente, um dia, no momento pragmético depsa tomada toma repentinamente consciéncia de que sua coAs- ciéncia esté em jogo, pois descobre que no pode estatuir quan- to ao ew a partir do qual acredita falar, ser, dizer e fazer. Sea tomada de responsabilidade impossivel, é porquy a responsabilidade, num sentido nio-situével que deveremos pye- cisar e que tem a ver com a linguagem, € o préprio imposstupl. O que implica ser a responsabilidade estranha a qualquer ras- ponsabilidade, a qualquer imputabilidade e, por conseguinje, a qualquer economia, a qualquer falta, expiago e culpabilida- de, Pois a palavra responsabilidade entretém, no esquecamos, ‘uma inquietante e estranha familiaridade com a palavra culpa- bilidade. O que, obviamente, compromete a questio do cole- tivo, do body politic, do nés, da comunidade, da Universiqa- de, do corpo, do corpo docente, do ensino, do dominio, perda, Em uma palavra, nietzschiana, a impossivel responsabi- lidade, a responsabilidade enquanto impossivel, s6 pode si- tuar-se além do bem e do mal. A palavra responsabilidade envolve igualmente o sentido ea dirego desta aula, na medids em que ela se dé como inau- gural, cerimonial. Qual é 0 elo de uma aula com uma consa- gracdo? O que e/ou quem consagra uma aula? O que se en- trega? O que se recebe? Que matéria é assim entregue, por que corpo € para que corpo? Como um corpo entrega essa matéria, essa hylé, se ele mesmo pertence a um corpo em prin- cfpio, e de acordo com 0 entendimento comum e institucional, mais amplo do que ele? Como um corpo que se erige pode ser mais amplo do que outro corpo, jé erigido? Como a questo do niimero joga nessa medida, no ensino, no Estado? 2 AUnivinsioane ‘A esse jogo de questSes sem respostas imediatas ou trangtilizadoras eu poderia entregar-me durante toda esta aula. Mas falta-nos tempo, nosso tempo. E esse jogo, ainda que nos aproxime do impossivel que eu evocava hi pouco de passa- gem, reduz~ se eu me colocar no espago propriamente econd- mico da Qualidade Total (ser necessario voltar a essa expres- so) - 0 alcance da aula. Pois, no fundo, o que é uma aula? Lerrura Da AULA Para inaugurar aproximativamente minha palestra, res- ponderei, embora deva retomar posteriormente a questo, ci- tando duas frases, aparentemente simples, duos frases que fun- damentam para quem as proferiu uma interrogacio acerca da ameaca que pesava - ¢ que ainda pesa — sobre o ensino da filosofia'®. Eis as duas frases em questio: Ho hé lugar neutro ou natural no ensino. ‘Aqui, por exemplo, néo é um luger indiferente.” O que dizem essas frases proferidas por Jacques Derrida modo. alga risco de ser afogada’na economia global da performatividade. Pois, tas Rare hc et SSS CR Sie cm Dera, vero limo capitulo dollve de Rodolphe Casché The 2 Mice Peressow em um contexto singular” e a partir de um contexto singular? E em que dizem respeito nossa questdo: 0 que é uma aula? Seriam, obviamente, necessérias intimeras péginas para anali- sar as duas frases e seus efeitos. O prdprio Derrida est4 se ocupando disso jé hé um bom tempo, Por isso, nao farei aqui senio algumas consideracdes gerais, Inicialmente, hé, nessas frases, um imperativo locativo. ‘Trata-se, in situ, de espaco, de lugar. Nao hé apenas 0 docente, sua palavra e sua voz que ocupam uma posicio, visto que 0 lugar a partir do qual € proferido o ensino também ocupa uma posicio. Por outro lado, esse lugar é dado por Derrida na for- ‘ma negativa: “Nao ha” e “Aqui [...] néo é". Aliés, a reiteragio e a repeticéo da negaco afetam a positividade do lugar. Elas encarnam uma decisio. Clamam por um combate, por um con- flito, talvez. até mesmo por uma espécie de hostilidade. Em todo caso, pela violéncia da artificialidade, do brilho, da pat xo, do engejamento, da adversidade, Mas essa adversidade e esse combete tomam uma forma muito particular na exata medida em que no se comprometem em fungo de um polemos, ou seja, de um diferendo no sentido em que Jean- Francois Lyotard entende esse termo. Elas implicam a abertu- ra de um espaco em que se decompéem todas as oposigdes, isto €, para retomar o termo de Derrida, uma diferenca!?, um movimento pelo qual as oposicSes que assinam e que marcam © conceito de responsabilidade se encontram diferidas, des- Viadas. Esse espaco ¢ aquele em que a responsabilidade se vé delegada por uma discdrdia ativa. Esse espaco € 0 espaco do nfio-origindrio, da néo-precedéncia, um espaco no qual o en- 11 Ibid. (ver supra, nota 6), p. 122. 12. Acerca da diferenca, ver, evidentemente, Da Gramatologia. Sto Paulo Perspectiva, 1972, e “A Diferenga”. In: Margens da Filosofia. 2 ed. S30 Paulo Papirus, 1991, p. 27-69. Lyotard define o diferendo da seguinte maneirs ‘Diferentemente de um lig, um diferenda serla um caso de conflto entre (elo menos) duas partes que nfo poderta set decid equanimemente por fala