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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO JOÃO DEL-REI

Departamento de Filosofia e Métodos


Unidade Curricular: Filosofia Contemporânea I
Docente: Prof. Ms. Maria José Andrade Netto
Discente: Wesley Fernando Rodrigues de Sousa – 170400049

Atividade avaliativa: Filosofia contemporânea I

1) Comentar o trecho considerando a perspectiva ética do


pensamento de Schopenhauer.

No trecho, ocorre duas cenas: a primeira, estão em um bar amigos, quando


chega uma menina vendendo flores, dizendo: “Dá uma flor para sua namorada,
tio”; já na segunda cena, conta-se a história da questão da pobreza infantil. Sabe-
se que no Brasil, em especial, há milhões de crianças em situações vulneráveis
e até mesmo em situação de grande pobreza. Assim, algumas pessoas se
disponibilizam a ajudá-las de alguma maneira, como é o caso citado de exemplo
de uma artista plástica carioca.
Esses dois momentos ilustram, pois, momentos de ações morais,
humanas. No nosso cotidiano enfrentamos situações pelas quais nossas
atitudes são passiveis de julgamentos morais, e não apenas, também somos nós
autores de ações morais, sejam elas, todavia, aceitáveis, sejam elas
reprováveis. Tais casos podem ser analisados a partir da perspectiva ética de
Schopenhauer.
Para Schopenhauer, em seu livro sobre “Os fundamentos da moral”, ele
delineia algumas fundamentações morais, em especial no capítulo 16,
“Estabelecimento e prova da única motivação moral genuína”, afirma que
nenhuma ação acorre sem motivação suficiente. No entanto, a objeção do autor
é bem clara: o que nos move para a ação moral é o bem-estar, ou seja, a
motivação para o agir moral seria oposto do mal-fazer e do egoísmo.
A ação altruísta para os seres semelhantes não deveria ser o simples fato
de uma ação visando o bem próprio, mas sim o bem de terceiros. No caso da
menina das flores, mesmo que alguns dos rapazes do bar não tenha de fato
alguma namorada, o gesto de comprar uma flor ajudaria a menina, ao passo que,
consequentemente, ele se “ajudaria” porque teria agora uma flor. Essa ação
teria, por detrás de si, sentimento não egoísta que, ao ser generoso com a
menina, acabaria por se beneficiar também, no final das contas. Seria, portanto,
a ação mais generosa e aceitável possível dentro desse contexto.
Por outro lado, no caso da artista plástica, ela diz que passa uma tarde por
semana com as crianças da escola Desenvolvimento Psico-Social Infantil. Para
ela, ao estar ali com as crianças brincando e fazendo as atividades, “seria uma
via de mão dupla”. Tanto as crianças ficam felizes e contentes com quem importa
com elas, quanto a artista que, ao estar junto delas, aprende sobre afetos e
companhia sincera. Isso estaria, de acordo com Schopenhauer, em uma
situação que, segundo o autor, o bem-estar deve estar vinculado ao bem-estar
pessoal, mas que não se limite à própria pessoa, mas assim, nesse bem-estar
pessoal, possa ser alcançado para outros.
Em linhas gerais, o pensamento de Schopenhauer entende que a
moralidade dos humanos, altruísta e geral, tende a tornar a vida menos sofrida
e, consequentemente, aliviando das dores do mundo, com lampejos de alegria
e felicidade, por meio de um bem-estar coletivo e não egoísta. Como seres
insatisfeitos, o ser humano tem, a partir da prática moral, seu meio de não
apenas exercer sua liberdade moral, mas de fazer dela um caminho para a
compaixão pela espécie humana.

2) Elaborar um texto à luz do pensamento de Schopenhauer


justificando o raciocínio: “Se o mundo enquanto fenômeno é
representação, o mundo enquanto coisa-em-si será vontade”.

A filosofia de Schopenhauer pode ser caracterizada por um momento em


ele viveu em período fértil da produção intelectual alemã. Nesse ínterim o
romantismo, com alguns grandes poetas e filósofos (Hölderlin, Goethe,
Schleiermacher, etc), porém, nesse mesmo desenrolo, emerge-se também o
idealismo alemão, tendo Fichte, Schelling e Hegel.
No caso de Schopenhauer, sua produção intelectual se concentra em meio
aos idealistas alemães, tendo em Hegel, seu grande adversário tanto intelectual
quanto pessoal. Mas, sua grande influência foi mesmo Kant. Para o autor, “o
mundo é minha representação”. Essa é exatamente a sentença de abertura do
seu principal livro (publicado em 1818), “O mundo como vontade e
representação”. Segundo ele, todo conhecimento de mundo, as posições reais,
contrastes internos, fazem parte da representação do mundo. Seria factível e
certo que o mundo é nossa representação, nenhum de nós poderia sair de nós,
por assim dizer, para ver as coisas como eventualmente seriam e tudo aquilo
que temos conhecimento se encontra dentro de nossa consciência é uma
verdade.
A representação tem a relação sujeito-objeto. Essa relação desempenha a
dupla função de o sujeito ser o sustentáculo do mundo; e o objeto da
representação, aquilo que é conhecido, condicionado pelas formas a priori do
espaço e tempo. O mundo como representação é o mundo dos fenômenos,
ordenada pelas categorias de espaço, tempo e causalidade.
No que diz respeito ao mundo como vontade, embora Schopenhauer utilize
o termo coisa-em-si para referir-se à vontade (o mundo como vontade), podemos
entender esse conceito a partir da “solução da terceira antinomia”, cujo Kant
estabelece a ideia transcendental de liberdade, então, nesse caso, pode-se
entender a vontade como coisa-em-si. Nesse aspecto, o conceito de vontade
funciona, de fato, como uma essência metafisica, pois, a própria interpretação
do mundo sensível como fenômeno, tal como se dá em Platão e em Kant,
pressupõe um não sensível a dar-lhe sentido.
A presença do conceito de coisa-em-si no interior da filosofia de
Schopenhauer visa a manutenção, contra o idealismo especulativo, da
diversidade entre real e ideal, o que significa sustentar a impossibilidade de um
acesso cognitivo aquilo que garante o sentido moral do mundo. Mas para que o
conceito de mundo como vontade funcione como essência metafísica que
mantém o significado moral do mundo sem confundir-se com o conceito vazio e
dogmático de absoluto e necessário pensar a idealidade e a realidade do mundo
distintas entre si. Porém, estão subsumidas em um mesmo conceito capaz de
legitimar uma teoria onde o ser e postulado diferente da representação.
A vontade é um impulso vital que nos mantêm ativos, como também seria
onde a moralidade pode consistir em superar a própria negação da vontade.