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Nem identidade, estrutura ou personalidade: reflexões

sobre o lugar da “subjetividade” e sua incidência no


pensamento psicanalítico contemporâneo
Neither identity, structure or personality: reflections on “subjectivity”
and its impact on the contemporary psychoanalytic perspective

Júlio César Diniz Hoenisch1


Carlos da Silva Cirino2

Palavras-chave
Identidade, estrutura, personalidade, subjetividade.

Resumo
O presente artigo tem como objetivo principal problematizar o uso do conceito “subjetivi-
dade” no discurso psicanalítico e suas raízes filosóficas em Michel Foucault, bem como as
contribuições de Deleuze e Guattari para a clínica. Desenvolve-se uma análise do histórico
do conceito de subjetividade no “campo psi”, destacando as diferenças entre subjetividade,
identidade, estrutura e personalidade. Os autores sugerem pistas para o termo “subjetivi-
dade”, ainda que se mostre necessária maior discussão epistemológica para esclarecer seu
emprego em Psicanálise sem contradições com os termos “identidade”, “estrutura” ou “per-
sonalidade”.

SUBJETIVIDADE, GENEALOGIA E “subjetividade”, posto como operações se-


FRONTEIRAS TEÓRICAS: BREVE paradas, ainda que sejam mantidos em di-
INCURSÃO cotomias tais como indivíduo e sociedade
e assim por diante, não é sustentável no
O conceito de subjetividade não é novo, campo psicanalítico. A banda de Moebius,
mas apresenta papel crescente no campo utilizada por Lacan para ilustrar a comple-
da Psicanálise contemporânea em diferen- xidade entre o que seria da dimensão do
tes acepções e é hoje uma referência para interior e do exterior, ilustra que, onde se
grupos de pesquisa, críticas à cultura, te- julga haver uma oposição ou uma relação
ses, dissertações e artigos. Introduzindo a dialética, de fato é uma continuidade, em
questão, podemos dizer que o termo subje- que é impossível delimitar o fim e o come-
tividade, da maneira como é empregado na ço, o dentro e o fora, o avesso e o direito.
Psicanálise, não deve ser confundido com Portanto, pensar a subjetividade e sua com-
uma visão particular de algo, ou como esta- preensão no saber psicanalítico implica, em
mos habituados a ouvir, “essa é uma ques- primeira instância, perceber que diversos
tão subjetiva”. O par “objetividade” versus autores e escolas teóricas não só advindas

1 Psicólogo, Especialista em Saúde Pública/FioCruz, Mestre em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica
do Rio Grande do Sul (PUC/RS), Prof. Visitante do Departamento de Ciências Humanas e Filosofia da Uni-
versidade Estadual de Feira de Santana/BA, pesquisador do Núcleo de Estudos da Contemporaneidade.
2 Psicólogo, Mestre em Psicologia Social pela Universidade Federal da Paraíba (2003).

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Nem identidade, estrutura ou personalidade

do pós-freudismo, mas da Psicologia, So- final do século XX, sobretudo após as ex-
ciologia e Filosofia também o empregam. periências do socialismo real, aplicado na
Tal constatação é importante para pensar- extinta União Soviética.
mos que a delimitação desse operador con- Do sujeito do iluminismo e da reflexão
ceitual – a subjetividade – merece detida clássica da Filosofia e, eventualmente capaz
análise sobre sua aplicabilidade e efeitos de se emancipar pela via da razão, Fou-
discursivos e políticos em um campo de cault pretende propor o conceito de subje-
conhecimento. Ao empregarmos o signi- tividade como sendo “a maneira pela qual
ficante “subjetividade” como, por exem- nos tornamos o que somos” (FOUCAULT,
plo, pensar a subjetivação na perspectiva 1995, p. 246). Constrói-se um aparato in-
psicanalítica, implica esforço intelectual telectual para referir o homem ou a subje-
considerável para esclarecê-lo, não sendo, tividade como resultante de um processo
portanto, uma substituição para o conceito amplo, que implica a História, a Antropo-
de psíquico ou de desenvolvimento psico- logia, a Medicina, a Sociologia e todo acer-
lógico. Caso subjetividade seja compreen- vo justamente das “Ciências Humanas”.
dida como sinônimo dos conceitos acima Para Foucault, somos então essa resultante
mencionados, é pertinente ao pesquisador de atravessamentos, ordenamentos semió-
esclarecer que o toma como tal. A perspec- ticos, regimes de verdades e controle, além
tiva e a conceituação de subjetividade para de aparatos linguísticos. Convém salientar
a Psicologia sócio-histórica certamente di- que Foucault não considera que seja sufi-
ferem dos empregos do termo para a teoria ciente para compreender os processos de
psicanalítica, o que nos remete à pluralida- subjetivação apelarmos unicamente à Lin-
de de significados possíveis, retratando a guística. O ser é em parte ser da linguagem,
complexidade das teorizações sobre a sub- mas a emergência de novas figuras existen-
jetividade. ciais supera o conceito de sujeito tal como
Em que pese as diversas possibilida- é descrito pela Filosofia. Devemos agregar
des de sentido de subjetividade e subjeti- ainda à subjetividade e aos processos de
vação, para compreender seu surgimento, subjetivação a temática do poder. Des-
em maior ou menor grau, é necessário que sa forma, tornarmo-nos o que somos não
recorramos à Filosofia - em especial a Mi- pode ser dissociado do poder e das gerên-
chel Foucault – e aos estudos empreendi- cias ortopédicas que este engendra a partir
dos pelos teóricos Gilles Deleuze e Felix do século XVII, segundo o autor.
Guatarri. Para o primeiro, a subjetividade Subjetividade e processos de subjetiva-
é da esfera da produção de um “si” (FOU- ção não devem, todavia, ser confundidos.
CAULT, 1995), sobretudo. É na obra de Mi- Os processos de subjetivação são estraté-
chel Foucault que a idéia de processos de gias criadas pelo poder para produzir não
produção de formas de ser, emaranhada a só corpos dóceis, mas subjetividades ali-
questões como política, poder, linguagem nhadas a determinadas finalidades. Em ter-
e verdade, é delimitada como ferramenta mos gerais, poderíamos dizer que a subjeti-
analítico-conceitual. As razões que levam vidade é um feixe de linhas finas, que con-
Foucault a realizar essa invenção conceitu- gregam o resultado de vários processos de
al parecem ocorrer pela compreensão desse subjetivação. Se assim é, torna-se significa-
autor de que o conceito de ideologia não tivo para os pensadores do chamado “cam-
é suficiente para dar conta dos fenômenos po psi” esclarecer o que queremos dizer ao
sociais e humanos que se testemunham no utilizar o significante “subjetividade”, sob

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o risco de estarmos tomando um conceito mais ferrenhas à noção de estrutura estão


por outro ou incorrendo em consideráveis presentes no trabalho de Deleuze e Guatar-
fragilidades do ponto de vista epistêmico. ri, postas em uma obra de grande impacto
No presente trabalho, o termo “campo psi” intelectual na França, denominada “O An-
abarcará as práticas, discursos e produções ti-Édipo: capitalismo e esquizofrenia” (DE-
teóricas da Psicologia, Psicanálise e Psi- LEUZE; GUATARRI, 1972). Entre outras
quiatria em suas intersecções com o pensa- críticas agudas, toma-se a esquizofrenia em
mento freudiano e as Ciências Humanas. sua dimensão positiva, propondo-se que,
É relevante destacar que é na esteira na verdade, louco está o mundo. Também
do pensamento de Foucault e amplamente a partir da organização das ideias desses
inspirados por ele que surgem os princípios autores em diálogo com variadas áreas de
de uma crítica contundente ao sujeito saber, se proporá o surgimento de um mo-
- sobretudo o sujeito da Psicanálise. Os vimento – que não pode ser definido como
grandes responsáveis pela divulgação dessa uma “escola” – denominada esquizoanálise.
recusa ao sujeito psicanalítico (sujeito do É apropriado destacar que a esquizoanálise
desejo e da falta) serão Gilles Deleuze e Felix rechaça enfaticamente a ideia de que seus
Guatarri. Autores do campo psicanalítico princípios se tornem uma escola teórica
inicialmente – inclusive tendo frequentado ou uma matriz de pensamento. Peremp-
ambos os seminários de Lacan – no decorrer toriamente os autores defendem a ideia de
de seu amadurecimento intelectual passam princípios de criação, não reprodução de
a questionar o primado do significante e pensamento. A lógica formal, a Linguística,
as compreensões psicanalíticas sobre as tudo é referido como instrumentos ou fer-
implicações de compreender o sujeito como ramentas. Nenhum conceito deve ser en-
efeito do discurso. A ruptura dos autores gessado e remetido à ordem de instituído,
com o campo psicanalítico englobará pois a proposta de trabalho é justamente
também uma recusa aos princípios desconstruir a reprodução “ad infinitum”
linguísticos de Saussure, de onde Lacan de fórmulas e pensamentos cristalizados.
buscará inspiração para a construção dos Por isso defendem a proposição de um pa-
conceitos de significante e produção do radigma ético-estético-político.
axioma “inconsciente estruturado como Ao inconsciente “mecânico” propos-
uma linguagem”. to pela Psicanálise, sobretudo por Lacan
Lacan não utiliza os conceitos de signi- e seu já referido axioma, “o inconsciente
ficante e significado da mesma forma que é estruturado como uma linguagem”, De-
o criador da Linguística Estrutural, antes leuze e Guatarri propõem o conceito de
realizando uma reversão entre a primazia “inconsciente maquínico”, muito distante
do significado sobre o significante, de ma- do freudo-lacaniano e sem negatividade
neira que a organização linguística que se inerente ao desejo. Um desejo de pura po-
observa na Psicanálise é uma aproximação sitividade.
e diálogo com o estruturalismo linguístico, Se para Freud e Lacan o sujeito deseja
não uma incorporação da linguística em porque há algo - o objeto - perdido, para
seu campo pura e simplesmente. Em que a esquizoanálise o que teremos é pura po-
pese tal diferenciação, a estrutura como sitividade do desejo. Nada falta ao desejo,
um elemento aberto e livre de significados pois o desejo é construído, semiotizado,
fixos sofrerá críticas do movimento pós- lapidado, efeito de diversos agenciamen-
estruturalista (DOSSE, 2007). As críticas tos coletivos de enunciação (GUATARRI,

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1989), portanto passível de ser capturado tivos que implicam a lenta produção de um
pelos aparatos do poder e da sociedade sujeito – nesse caso, tratando-se de sujei-
capitalista, com seus dispositivos de con- to por sujeito do desejo. De acordo com
trole. Esses conjuntos de agenciamentos o pensamento freudiano, a identificação
produzem, então, subjetividades hegemô- será o primeiro traço do bebê como huma-
nicas, uniformizando os coletivos, tendo no, de onde nascem os rudimentos de Eu
como resultado formas de ser serializadas. e outras linhas de identificação, que serão
Essa hegemonia então produzida atende- primordialmente de natureza inconsciente
ria às diversas demandas do que os au- (FREUD, 1996). É imperativo ainda ressal-
tores denominam “Capitalismo Mundial tar que a concepção de identidade pode ser
Integrado” (CMI) - um conjunto de forças encontrada na Psicologia do Ego, mas mes-
sem rosto, que cada vez mais regulariam a mo assim somente como representante do
existência e norteariam a face mais visível sentimento de continuidade – inerente ao
das formações de subjetividade, que são as Eu - e soma de representações que o sujeito
identidades. produz de si mesmo. Todavia é importante
lembrar que essas representações de si são
AS IDENTIDADES, mantidas em grande parte na relação de al-
AS IDENTIFICAÇÕES E A teridade e olhar, logo não completamente
SUBJETIVIDADE fixa e imutável.
No sistema de pensamento lacaniano, a
Identidade não deve ser confundida teorização mais próxima que obtemos so-
com o conceito de subjetividade nos prin- bre a identidade seria o resultado do Está-
cípios esquizoanalíticos e tampouco para gio do Espelho, onde a criança se identifica
a própria Psicanálise, notadamente a laca- a partir do olhar da mãe – obviamente aqui
niana. Em verdade o pensamento de Lacan tomado como metáfora – com uma ima-
estende-se de maneira distanciada do freu- gem integrada, toda, justamente em um
diano no que concerne aos conceitos de momento em que a vivência corporal é de
identificação. Segundo Roudinesco e Plon fragmentação.
(1998), ao retomar de Freud o conceito de Não que não haja um esboço de sujeito
traço único da identificação regressiva, La- antes do Estágio do Espelho; a existência
can o supera ao formatar a Proposição do do sujeito é, com efeito, já acenada no de-
“traço unário”. Remete-se o unário ao um, sejo dos pais e no bebê virtual, aquele que
que no pensamento do autor não implica o é desejado e que habita o psiquismo deles.
mesmo sentido da lógica clássica, nem de Sempre é relevante lembrarmos que as ope-
um que remete à unidade, mas sim à dife- rações e metáforas psicanalíticas devem ser
rença. tomadas justamente por metáforas, opera-
Para os princípios esquizoanalíticos, a ções simbólicas e funções. Se operarmos
identidade seria uma cristalização de um com o Édipo, castração e outros conceitos
território existencial, aprisionante do devir, em sua dimensão imaginária, o resultado
do vir a ser que está presente como condi- será inevitavelmente uma leitura simplista
ção de possibilidade a todo ser. Já para a e conservadora dos fenômenos, incorrendo
Psicanálise, não encontramos na obra freu- em equívocos graves, como o mito da “fa-
diana o conceito de identidade. Ao invés de mília estruturada” e seus supostos desvios.
identidade, cabe no pensamento freudiano É digno de destaque como o mito da família
o termo “identificações”; processos primi- desestruturada é resistente, ainda que inú-

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meros estudos indiquem que esta expres- apresentam uma concepção de subjetivida-
são é inadequada e tributária do modelo de. Nesse caso, estaríamos tomando a ideia
burguês de família, em especial da família de “como um sujeito se constitui como tal”,
patriarcal romana. Sustentar sua defesa na como sinônimo de subjetividade.
contemporaneidade é um risco, tendo em Esta pode ser uma saída teórica razoável,
vista os novos arranjos familiares. Mesmo mas novamente nos remetemos ao risco de
as próprias diferenças culturais da humani- equívocos teóricos importantes. A consti-
dade já seriam suficientes para indicar que tuição da subjetividade para o lacanismo se
o conceito de família é largamente diver- afasta largamente das teorizações da esqui-
gente no espaço e no tempo. zoanálise. Não que o significante “subjeti-
Como alguns segmentos psicanalíticos vidade” não esteja presente nas teorizações
já indicaram exaustivamente, o sujeito e e ensino de Lacan, por exemplo. Temos na
seus rudimentos genealógicos remontam Psicanálise um importante conceito que é
a uma época anterior à identificação com a “retificação subjetiva”, que em termos ge-
o olhar da mãe, via função materna, que rais implica uma retomada de coordenadas
é sustentada pelo Outro. Por tratar-se de do sujeito diante de seu sintoma e forma de
função simbólica ou um lugar vazio, pode gozo. A retificação subjetiva remete a uma
ser ocupada pela mãe, mas também pelo reorganização entre saber, sintoma e rela-
pai, pela tribo, por qualquer um que no- ção com o Outro, favorecendo a produção
meie e sustente um desejo para que este de diferença de si e a desconstrução da alie-
sujeito exista. O resultado no jogo das nação do desejo. Mas certamente não figura
identificações é uma identidade inacaba- substituindo o conceito de subjetividade e
da, pois constantemente resvala na incom- subjetivação. Em revisão empreendida por
pletude da falta; por isso o estatuto de fic- nós, o verbete “subjetividade” não foi en-
ção atribuído à suposta estabilidade do Eu. contrado em nenhum dos mais conhecidos
Não há estabilidade em virtude de que a dicionários do campo psicanalítico, o que
falta e o que pudesse eventualmente tam- justifica a necessidade de buscar esclarecer
poná-la não cessam de escorregar de um seu lugar teórico-conceitual nas produções
objeto para outro, em uma incessante mi- desse campo. Foram consultados os seguin-
ríade que remete o desejo para mais adian- tes dicionários: “Dicionário Internacional
te. Logo não há princípio do idêntico, pois de Psicanálise”, com direção geral de Alain
mesmo a repetição do sintoma apresenta de Mijolla (2005); “Dicionário Enciclopé-
uma diferença em relação à sua insistência dico de Psicanálise: o legado de Freud e La-
pulsional. can”, editado por Pierre Kauffman (1996);
O risco que corremos ao tentar aproxi- “Dicionário de Psicanálise”, organizado por
mar ou incluir o conceito de subjetividade Elizabeth Roudinesco e Michel Plon (1998)
como construto psicanalítico está em essa e, por fim, o já clássico e renomado “Vo-
inclusão resultar obscura e por vezes toma- cabulário de Psicanálise”, de Laplanche e
da como sinônimo de identidade, o que, Pontalis (2001).
pelo que vimos aqui e em outra oportuni-
dade (BERNARDES; HOENISCH, 2003), ESTRUTURA E PERSONALIDADE
não seria cabível. Se tomarmos, ainda que
genericamente, o termo subjetividade, po- Se o verbete “subjetividade” não é en-
deríamos, realizando uma “torção” teórica, contrado nos dicionários referidos, o mes-
afirmar que todas as teorias do “campo psi” mo não pode ser afirmado sobre o conceito

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de “estrutura”. Este último é mais exami- ral psicótica. Assim, ainda que elementos
nado e discutido que o conceito de sub- neuróticos e perversos estejam presentes
jetividade - mas não menos controverso nessa configuração, sua expressão e an-
ou polêmico. Justamente essas discussões coragem imaginária (no caso da psicose),
nos permitem compreender que a estru- papel na economia psíquica, formação de
tura não é equivalente ao uso de subjetivi- sintoma e inscrição social serão modestos.
dade ou subjetivação. Para o processo de Discutir em profundidade a conceituação
constituição da estrutura, o termo cabível de estrutura na teoria psicanalítica supera
é estruturação, que podemos afirmar, em em muito as dimensões deste trabalho. Se a
linhas gerais, tratar-se da constituição de retomamos aqui é basicamente para deline-
uma configuração de elementos dentro de ar as consideráveis diferenças entre estru-
um campo. A configuração do campo im- turação e subjetivação, dois processos que
plica uma possibilidade de arranjos desses deverão ser considerados como fundantes
elementos, sem, contudo, abandonar uma e fundamentais, que por vezes apresentam
constância – que é justamente a forma ou convergências, mas jamais são sinônimos.
limite para os ordenamentos dos elementos A mesma distância teórica cabe ao conceito
no sistema. Se tivermos um conjunto com de personalidade.
os elementos “A”, “B” e “C”, circunscritos a Se o conceito de subjetividade surge
um espaço, estes poderão ser rearranjados com a finalidade de desalojar o sujeito da
e combinados de inúmeras formas, sendo razão e da emancipação, como pensá-la
análoga à personalidade? Ademais, o pró-
possível inclusive sua combinação para daí
prio conceito de personalidade fica suma-
emergirem novos elementos, mas de forma
mente vago e indefinido, em que pese as
relativamente circunscrita.
tentativas de sistematizá-lo. No campo do
Mas mesmo o conceito de estrutura,
Direito, por exemplo, essa diversidade de
caro à Psicanálise clássica, pode ser per-
conceituações de personalidade, ou pelo
feitamente deixado de lado por outros seg-
contrário, falta de clareza sobre ele, abre
mentos, também sob a denominação de
um flanco infinito de equívocos e discursos
Psicanálise, que compreendem a subjetivi-
despregados, sobretudo na Criminologia,
dade como da ordem do pós-estrutural. com seu inapropriado conceito de “perso-
Essa breve explanação serve de ilustra- nalidade criminal”.
ção sobre o controvertido tema da possibi- Somemos a isso a compreensão de que
lidade da mudança de estrutura, por exem- subjetividade e personalidade também não
plo, de psicótica para neurótica. Ainda que são equivalentes aos conceitos de estrutu-
todos os elementos das três estruturas es- ra e teremos um debate fecundo ainda por
tejam presentes na organização psíquica e ser travado. O conceito de estrutura, caro
se apresentem na forma de traço ou mon- a alguns segmentos da Psicanálise, é per-
tagem, a partir dos destinos da travessia feitamente deixado de lado por outros que
do complexo de Édipo e do encontro com também se denominam psicanalíticos. A
a Castração é que as operações psíquicas diferença é que há um segmento de psica-
serão construídas em seus limites, inclusi- nalistas que compreendem a subjetividade
ve por ausência de elementos constitutivos como um fenômeno eminentemente pós-
para sua ocorrência. estruturalista.
Por exemplo, o fracasso do complexo de Haveria uma Psicanálise pós-estrutura-
Édipo, que resulta em sua não ocorrência, lista, portanto? Não foram poucas as críti-
está alinhado a uma configuração estrutu- cas à Psicanálise em sua junção ao pensa-

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mento estrutural, sendo este visto como necessary to clarify its use in psychoanalysis,
uma tentativa de tornar o referencial psi- without contradictions with the terms
canalítico “científico”. Em nossa opinião, “identity”, “structure” or “personality.
este debate ainda não está encerrado, e a
questão do avanço do uso do termo subje-
tividade pode, em alguns casos, estar sen-
do utilizada para contornarmos justamente Referências
essa discussão sobre o lugar da estrutura na
conceituação psicanalítica. A fecundidade BERNARDES, A. G.; HOENISCH, J. C. D. Subjeti-
desse debate reside em esclarecer – função vidade e identidades: possibilidades de Interlocu-
do pensamento psicanalítico, alinhado à ção da Psicologia Social com os Estudos Culturais.
ciência, mas não submetido a ela - os usos In: BRUSCHI, M. ; GUARESCHI, N. M. Psicologia
dos termos estrutura, subjetividade e subje- Social nos Estudos Culturais. Rio de Janeiro: Vozes,
2003. p.95-126.
tivação com vistas a produzir novas formas
de compreensão do lugar da Psicanálise no DELEUZE, G; GUATTARI, F. O anti-édipo: capitalis-
contemporâneo. Dessa forma, responden- mo e esquizofrenia. Tradução de Joana Moraes Vare-
do aos desafios e críticas que a acompa- la; Manuel Maria Carrilho. Lisboa: Assírio & Alvim,
1972.
nham desde sua criação por Freud. Se a
estrutura não é o equivalente à essência – e DOSSE, F. História do estruturalismo. Bauru: EDUSC,
isso parece já estar claro no campo psica- 2007.
nalítico – se o lugar do sujeito é um lugar FOUCAULT, M.. O sujeito e o poder. In DREYFUS,
vazio, a ser ocupado pelos significantes por H. ; RABINOV, P. (Org.), Michel Foucault, uma tra-
ele passíveis de incorporação, a complexi- jetória filosófica: para além do estruturalismo e da
hermenêutica. Rio de Janeiro: Forense Universitária,
dade da formação do sujeito em Psicanálise
1995.
ainda está longe de ser uma etapa encerrada
por nossa disciplina e urge continuarmos o FREUD, S. Psicologia das Massas e Análise do Ego
[1921]. In: Edição standard brasileira das obras psico-
debate sobre a genealogia do sujeito e suas
lógicas completas. Trad. Jayme Salomão. Rio de Janei-
aproximações e afastamentos do conceito ro: Imago, 1996. v.XVIII.
de subjetividade.
GUATTARI, F. Caosmose: um novo paradigma. Rio
de Janeiro: Editora 34, 1989.
Keywords KAUFMANN, P. Dicionário enciclopédico de Psica-
Identity, structure, personality, subjectivity. nálise: O legado de Freud e Lacan. Primeiro grande
dicionário lacaniano. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
Abstract 1996.
The following article discusses the main use of LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J.B. Vocabulário de
the term “subjectivity” in the psychoanalytic Psicanálise. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
discourse, its philosophical origins in Michel MIJOLLA, A. Dicionário internacional de Psicanálise:
Foucault and the contributions of Deleuze conceitos, noções, biografias, obras, eventos, institui-
and Guattari to the clinic. It develops ções. Rio de Janeiro: Imago, 2005.
an analysis of the historical concept of ROUDINESCO, E.; PLON, M. Dicionário de Psica-
subjectivity in the “psi field” and highlights nálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
the differences between subjectivity, identity,
structure and personality. The authors write
some topics about the term “subjectivity”,
even though an epistemological discussion is

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Tramitação:
Recebido: 29.09.2010
Aprovado: 17.11.2010
Nome do autor principal:
Júlio César Diniz Hoenisch
Endereço: Rua Marques de Monte Santo,
nº 59, ap. 203
CEP: 41940-330 Salvador-BA
E-mail: cesarhoenisch@gmail.com

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