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REPRESENTAÇÃO E TRAGICIDADE

Ian Calvet Marynower*

RESUMO:

O artigo se insere no projeto O trágico e a cena contemporânea, orientada pela


Professora Carmem Gadelha. Pretendo verificar tensões entre representação e
tragicidade. A existência humana é fadada a inarredáveis representações, a uma
produção constante e infinita de duplos, dos quais, o “si-mesmo”, o “original” jamais se
efetivou. Ao homem, é descartada a possibilidade da escolha: ele existe para ser duplo,
habita as representações de si e do mundo. É a dinâmica eterna e ininterrupta de
produções das representações que dá consistência ao trágico.
Um paralelo entre as questões de Antonin Artaud sobre a representação e a peça
Seis personagens à procura de um autor, do dramaturgo italiano Luigi Pirandello,
torna-se basilar na tentativa elucidar as indagações deste artigo. Enquanto o projeto
Artaudiano visa o aniquilamento da representação em busca do “si-mesmo”, Pirandello
eleva a representação à máxima potencia e faz dela mecanismo de construção
dramatúrgica.

Palavras-chave: tragicidade – representação - modernidade

*Orientação: Carmem Gadelha


A existência é representação: eu existo naquilo que circunscreve o meu ser, um
corpo que também é imaterial, afetivo, imagético, virtual. Estou fadado a ser sempre
uma representação de mim mesmo: um “ser”, um “cidadão”, um “ator”, um
“personagem”. Este corpo, meu, é indissociável da teia relacional da qual estou
inserido; esta teia é, e só pode ser, uma cadeia de múltiplas e infinitas representações, e
ela só se verifica - se afirma enquanto tal, só cria corpo, preenche e circula- através da
linguagem . É a linguagem que torna o meu corpo existente (do latim ex(s)istere: sair
de, manifestar-se, mostrar-se, para fora) é a linguagem que cria o meu corpo, ou,
diferentes corpos de mim mesmo.

Por que ter este corpo, não antes todo o resto? Por que ter este corpo, não antes
nada? É necessário haver um “outro” para que eu possa existir e, na medida em que o
outro me reconhece, jamais poderei ser aquele que me reconheceu. É um paradoxo
insuperável e trágico: só posso existir quando me diferencio do outro, contudo, ao me
diferenciar, se estabelece a incompletude, pois, nunca serei todo o resto que me
diferenciou. É uma dinâmica: diferencia-se para identificar-se sabendo que tudo está em
relação, em troca, em reciprocidade, logo, é preciso manter uma zona de contato, de
mistura, de comum, é fundamental que a diferenciação nunca se efetue por completo.

Ao homem artista cabe a capacidade de lidar com esse fato trágico. Dentro deste
turbilhão incessante de produções de representação, que é a sua existência, ele deve se
apoderar dos mecanismos criativos. Agir sobre a representação, criar e provocar outros
circuitos, representações que constituem tentativas de fugas. Portanto, introduzo
ilustríssimas figuras: de um lado, Antonin Artaud, e do outro, Luigi Pirandello. O
atormentado Artaud e sua empreitada trágica pelo aniquilamento da representação para
encontrar um si mesmo que não se reduplica e o dramaturgo Pirandello que evidencia,
multiplica e joga com os modos de representação. Na sequência, me proponho abordar
os projetos de ambos e identificar as zonas de contato.

Antonin Artaud e a busca do aniquilamento da representação

“Há, portanto, algo que destrói o meu pensamento; algo que não me impede de ser o
que poderia ser, mas que me deixa á bem dizer, em suspenso. Algo furtivo que me
tira as palavras que encontrei.” ARTAUD, Apud. DERRIDÁ. 1995. P.119
Esse “algo que destrói”, dito por Artaud é a representação, o duplo, a linguagem,
aquilo que gera a diferença e a identidade. No surgimento de uma ideia, no lapso
criativo ou no simples ato de começar a pensar em algo, ocorre o furto, tudo aquilo que
se perde. Acredito que a extrema consciência de Artaud sobre este furto constitui a sua
tragicidade; ficar constantemente incompleto, “em suspenso”, sabendo que há sempre
algo que já fugiu, que foge agora e que constantemente fugirá.
"Caro amigo, o que tomastes como obras minhas era apenas o que não se
aproveitava de mim próprio (...) sofrer e pensar estão ligados de uma maneira secreta"
(ARTAUD, Apud DERRIDÁ. 1995. p.127.111) Os escritos de Artaud, sob o ponto de vista do
próprio autor, são representações de um grande “lixão” de objetos em desuso,
descartados, abandonados; representações daquilo que nunca foi de fato. Ele mesmo
diz: “As obras-primas do passado, são boas para o passado, não para
nós”(ARTAUD,2012.p.83). A reflexão, sobre qualquer coisa é uma morte sofrida posto
que é construção de discurso, de representações que afastam cada vez mais o homem do
próprio corpo. Pensar gera a impossibilidade do encontro com o si mesmo, o duplo, cria
a fronteira entre corpo e pensamento.
Nietzsche apresenta a figura de Arquíloco: “Belicoso servidor das musas, que se
entrega febril e fogosamente à existência (...) aterroriza com o grito do seu ódio e do seu
desprezo, com as explosões, delirantes de todos os seus apetites.” (NIETZSCHE,
18p.37) À priori, reconhecemos nesta figura a sua desmedida, sem contornos, o
Dionísio: Ele seria mundo, sem diferença; o “si mesmo” que é sempre outro(s), o todo;
totalmente identificado com o “Uno Primordial”. Contudo, revela-se de imediato o
inexorável fato:
“Arquíloco, homem das paixões ardentes (...) não é mais do que uma aparição do
gênio, que já não é mais Arquíloco. Porque é o gênio do mundo que exprime
simbolicamente o seu sofrimento primordial na figura alegórica do homem
Arquíloco,” (NIETZSCHE, 2008. p.40)
Arquíloco não escapa de ser uma alegoria, individuada, apolínea; ele é uma
representação daquilo que é irrepresentável; um paradoxo que tece definitivamente não
somente a indissociabilidade entre Apolo e Dionísio, como também entre vida e
representação.

“Só no ato da produção artística, e na medida em que se identifica com o artista


primordial do mundo, é que o gênio poderá saber algo da essência eterna da arte;
porque só então, como por milagre, se tornará semelhante a perturbadora figura
lendária que tinha a faculdade de voltar os olhos para dentro de si própria; o gênio
será então objeto e sujeito ao mesmo tempo, será simultaneamente poeta, ator e
espectador.” (NIETZSCHE, 2008. p.42)

No limite, Artaud deseja esse ser-poeta-ator-espectador, sem diferenças. Um ser


que só exista no ato da produção artística, produzir tal como respira, ser uma fabrica de
alteridades para alcançar o si mesmo, evidencia-se, mais uma vez, um paradoxo: buscar
a essência é produzir aquilo que o afasta da mesma. Artaud deseja esta figura lendária
de Nietzsche: captações das reverberações nietzschianas ou profecias do gênio
Nietzsche que deseja plasmar Artaud? É preciso lembrar que a loucura é comum a
ambos.
Antonin Artaud, foi diagnosticado como esquizofrênico, vivendo sua vida
inteira transitando entre os hospícios da França. A questão artaudiana está
intrinsecamente ligada ao seu diagnóstico: um corpo esquizofrênico é um corpo que tem
dificuldade de estabelecer fronteiras entre si e o outro, o dentro e o fora, é um corpo que
tende a perder seus contornos e se espraiar no espaço. “A primeira evidência
esquizofrênica é que a superfície se arrebentou. Não há mais fronteira entre as coisas e
as proposições, precisamente porque não há mais superfície dos corpos. (...) é uma
espécie de corpo-coador;” (DELLEUZE, 1975. p.102) Um corpo furado, que deixa
transpassar, se não há mais superfície existe apenas profundidade, sem limites “Tudo é
mistura de corpo e no corpo, encaixe, penetração.” (DELLEUZE, 1975. p.103)

Artaud é um encarcerado, sua vida é uma guerra contra as palavras que ele
mesmo escreve. Ele está suspenso da “vida” - que se passa fora do hospício. Um corpo
de limite não fixos, paradoxalmente, dentro do espaço limitador da sala; esse corpo
desfronteirizado é, ao mesmo tempo, a prisão de Artaud; esse corpo de contornos
indefinidos também tende a se fundir com a frieza rígida limitadora da sala na qual
habita – prisão que se dilui em outra prisão.
A busca da eliminação do duplo para chegar ao si mesmo, a vida, que pulsa sem
diferenças, também pode ser a busca em derrubar as paredes do hospício e integrar as
fronteiras borradas de seu corpo à vastidão do mundo. Deste modo, Artaud encontraria
outra prisão, mundo, reafirmando cada vez mais a sua tragicidade. Por outro lado, a
mesma busca pode ser o medo de se perder definitivamente, de se diluir por completo,
de se dividir em um outro; neste caso, o trabalho de reconstituição de seus contornos é
eterno, como Sísifo carregando a pedra para o alto da montanha, configurando-se, de
todo modo, a tragicidade de eternamente perder a si mesmo. Artaud morreu
diagnosticado com um câncer no reto provavelmente, por prender suas fezes, conferindo
aí sua fobia em se tornar outro.
Pirandello e “Seis personagens à procura de autor”
Era mais um dia de ensaio da companhia de teatro, contudo, inesperadamente,
surgem “seres” que se intitulam como “personagens” à procura de um autor. O conflito
se estabelece entre o diretor da peça, os atores “reais” e os personagens “ficcionais”, que
buscam meios para manifestar os seus dramas. A aparição destes personagens, como
figuras fantasmáticas que se materializam, deflagram seus desesperos pela
sobrevivência; é só na cena que os personagens podem existir, sem a figura de um autor
para os escrever e o diretor para os criar em cena, não haverá quem os identifique, quem
os diferencie de todo o resto, logo, eles morrem.
É uma cadeia de representações: atores que representam personagens, cada um
com sua história dramática, para serem representados por outros atores, estes também,
não escapam de serem representações feitas por atores. É uma teia de ramificações
crescentes, como dois espelhos em paralelo, mise em abîme. Perde-se o contraste, a
diferença entre ator-personagem, real-ficcional. São infinitas representação do real
tornando-se impossível afirmar quem é o original, o “real fundante”, e quem é a copia.
“Seis personagens à procura de autor” é o próprio aprisionamento. Todos os
personagens são pertencentes à obra, não podem escapar dos seus dramas, das palavras
escritas por Pirandello, do resultado final da trama. Para além deste texto, todos os
personagens já criados na história da humanidade e que povoam o imaginário universal,
resistem no tempo, se individualizam do caos, compõem o cosmos, logo, são seres.
Como seres, se igualam a qualquer outro, como eu ou você.
Ora, ser ou não ser personagem não seria uma questão de estabelecer
dicotomicamente um real ou um ficcional, mais sim, uma questão de ter consciência da
autoria. Se eu não sei quem é o autor, me iludo com uma autonomia que não tenho? Se
eu não sei quem é o autor, ele não existe, logo, sou totalmente autônomo? Se eu não sei
quem é o autor, crio um para me adotar, logo, sou criador e criatura, e ele também, uma
criatura e um criador?
Artaud e Pirandello são faces opostas de uma mesma moeda. Evidenciar a
representação ou buscar nega-la é, de qualquer modo, assumir a inescapabilidade da
mesma. Ambos são produtores de diferença, de contornos; Pirandello, na
exponenciação da representação gera um espaço aprisionador de si mesmo - quanto um
ser autor - e de suas próprias criaturas. Artaud gera o mesmo espaço aprisionador
quando, ao tentar apagar seus traços, os cria cada vez mais. Trabalhar na multiplicação,
como faz Pirandello, ou, na busca por chegar a um “zero” indivisível, como faz Artaud;
é, na mesma medida, trabalhar com possibilidades infinitas.

BIBLIOGRAFIA:

ARTAUD, Antonin .O teatro e o seu duplo. Ed.: Martins Fontes .São Paulo,SP: 2012
DELEUZE, Gilles. A lógica do sentido. Ed.: Editora 34. São Paulo,SP : 1975
DERRIDA, Jacques. A escritura e a diferença. ED.: Perspectiva. 2ª edição. São Paulo.
SP: 1995.
NIETZSCHE, Friedrich. A origem da tragédia. Ed.: Centauro Editora. São Paulo,SP:
2008
PIRANDELLO, Luigi. Seis personagens à procura de autor. Ed: Peixoto Neto. São
Paulo,SP: 2004