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CONSTRUÇÃO DO VÍNCULO MÃE-BEBÉ EM SITUAÇÃO DE

PREMATURIDADE

Alexandra Figueiras, Helga Silva, Inês Calado, Ricardo Ova1

Filomena Matos, Emília Costa2

RESUMO: Este artigo foi desenvolvido no âmbito da disciplina de Psicologia do


Desenvolvimento, pertencente ao curso de Licenciatura em Enfermagem. O trabalho
consiste na análise da construção do vínculo materno-infantil em situações de
prematuridade, através de uma pesquisa acerca do que é o vínculo e as suas
particularidades no caso específico de prematuridade, o seu efeito na mãe e no bebé, tal
como o papel do enfermeiro(a) na promoção da construção deste vínculo. Nesta situação
de prematuridade, a interrupção do processo de mentalização da representação do bebé
pelos pais, a experiência de nascimento traumática tanto para a mãe como para o bebé, a
separação precoce devido às necessidades de cuidados especializados urgentes por parte
do bebé e o medo pela saúde e sobrevivência deste, podem ter repercussões negativas no
processo de vinculação entre pais e bebés. São nestes momentos que o papel do
enfermeiro(a) se torna determinante como agente promotor da construção deste vínculo.
Pretendemos com este artigo obter uma maior compreensão daquilo que é este processo
de vinculação, percebendo como este pode ser construído e desenvolvido. Para tal
recorremos a uma revisão bibliográfica de variados artigos, teses e endereços
institucionais em bases de dados como SCIELO, Google Académico, RCAAP, PubMed,
NCBI, entre outras. A referenciação ao longo do texto, bem como as referências
bibliográficas, foram realizadas de acordo com o documento das normas da APA do ano
de 2013 revisto em 2016.

Palavras-chave: vinculação; prematuro; método canguru.

1
Estudantes do Curso de Licenciatura em Enfermagem da Escola Superior de Saúde da Universidade do Algarve. E-mail:
a61888@ualg.pt, a60552@ualg.pt, a54144@ualg.pt, a61852@ualg.pt.
2
Professoras orientadoras da unidade curricular de Psicologia do Desenvolvimento.

1
ABSTRACT: This article was developed in the context of the Psychology of
Development class, belonging in the Nursing course. This work resides in an analysis of
the construction of the bond between mother and child in pre-term situations, through
research about the definition of bonding and the specifics in pre-term situations, its effect
on the mother and on the baby, as well as the role of nurses in the promotion of the
construction of the bond. In this situation of pretermness, the interruption of the
mentalisation process of the baby’s representation by the parents, the traumatic birth
experience for both the mother and the baby, the early separation due to the need of
specialized care by the baby and the fear for his health and survival, can have negative
repercussions in the bonding process between parents and their baby. It’s in these
moments that the nurses’ role becomes determinant in the promotion of the construction
of the bond. The aim of this article is to obtain a bigger understanding of what is this
bonding process realizing how it can be built and developed. Therefore, we made use of
a bibliographic revision of several articles, thesis, and institutional addresses in databases
such as SCIELO, Google Scholar, RCAAP, PubMed, NCBI, among others. The
referenciation throughout the text, as well as the bibliographic references were made
according to the APA norms of the year 2013 revised in 2016.

Key-words: Bonding; Preterm; Kangaroo Method

1. VÍNCULO MÃE-BEBÉ EM SITUAÇÕES DE PREMATURIDADE E SUAS


PARTICULARIDADES

O vínculo parental, resume-se a uma relação de intimidade, estabelecida entre os


pais, mais concretamente a mãe, e o seu bebé. Como tal, faz sentido debruçarmo-nos
sobre este vínculo com recurso à teoria da vinculação de Bowlby. Este (cit. in Farkas, et
al., 2008) define vínculo como: qualquer forma de comportamento que resulta na
obtenção ou manutenção de uma relação de proximidade com um outro indivíduo mais
competente, tal é notável em situações em que a pessoa se encontra assustada, fatigada
ou doente e procura no outro o conforto e o cuidado como mecanismo de atenuar tais
problemas.
Daí esta teoria basear-se no conceito de que a relação mais importante para a
criança no seu primeiro ano de vida é com o seu cuidador primário, por norma a sua mãe

2
(Pisoni, et al., 2014). Bowlby (cit. in Pisoni, et al., 2014) defende que a vinculação é um
sistema de comportamentos dinâmicos que se apresentam desde o nascimento até à fim
dos dias, motivados por ideias de medo, afetividade, exploração (curiosidade) e cuidar.
Para Silva (2012), citando Bowlby, a teoria da vinculação assenta na necessidade do ser
humano em estabelecer relações afetivas significativas com a sociedade em seu redor,
com o objetivo principal a segurança que essa relação lhe dá para assim, explorar o seu
eu, os outros e o mundo. Deste modo, podemos afirmar que a figura paternal é a primeira
fonte de vinculação da criança e como tal o seu referencial de segurança, ou seja, o seu
apoio em situações consideradas para o bebé de “ameaça” (Farkas, et al., 2008).
Segundo Gomez e Leal (2007), o processo de vinculação inicia-se durante a
gestação, nomeadamente quando a mãe começa a sentir os primeiros movimentos fetais,
sentindo a presença de uma nova forma de vida dentro dela com quem inicia o
estabelecimento de uma relação de afetividade. Ou seja, a mãe começa a investir parte da
sua energia mental no feto (Pisoni, et al., 2014). Figueiredo (2003) defende que esta
relação, que a mãe constrói com o seu feto e posterior bebé, é algo único, específico e
duradouro, visto ser estabelecida de uma forma gradual desde os primeiros contactos entre
ambas as partes. Contudo, esta vinculação apoia-se na ideia imaginária do bebé, isto é, na
idealização de como este será, que é construída durante o período de gestação, pelos pais
(Brazelton, & Cramer, cit. in Silva, 2012).
O parto, dependendo da experiência da mãe, pode ser algo traumático para esta,
muito devido ao sofrimento físico por este causado, mas também por ter impacto no
estado emocional da mesma na situação imediatamente após o parto (Silva, 2012). Klaus
e Kennel (cit. in Figueiredo, 2003) vêem estes momentos pós-parto como alturas críticas
do desenvolvimento deste vínculo, este desenvolvimento acaba por ser facilitado devido
a uma adequação do sistema hormonal da mãe e estímulos originados pela presença do
próprio bebé. O bebé tem assim um papel muito importante no processo de construção
desta relação, uma vez que são as suas competências interacionais que irão permitir um
envolvimento emocional recíproco (Silva, 2012).
Contudo, numa situação de prematuridade esta construção pode estar afetada. O
nascimento prematuro, ou seja, antes das 37 semanas de gestação, tem muitas implicações
na construção da relação entre a mãe e o seu bebé (Zelkowitz, 2017). Uma vez que durante
este último trimestre é que a mãe começa o processo de mentalização daquilo que é o
bebé real, diferente do idealizado/imaginário, e do próprio momento de separação (parto)
(Pisoni, et al., 2014; Carmaneiro, et al., 2009). Logo, o parto prematuro interrompe este

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processo de mentalização de forma abrupta podendo, assim, originar dificuldades no
estabelecimento desta relação, uma vez que a mãe não teve tempo para concluir o seu
processo de mentalização (Pisoni, et al., 2014; Carmaneiro, et al., 2009).
A situação de parto prematuro é algo também traumático para o bebé uma vez que
este ainda não se encontrava totalmente “pronto” para sair do ambiente uterino, isto
origina que o bebé não seja capaz de dar resposta às interações a ele exigidas,
nomeadamente com a mãe podendo estar assim em causa o envolvimento dos pais com o
bebé (Figueiredo, 2003; Silva, 2012).
O facto do processo de mentalização ter sido interrompido pelo parto origina um
choque entre o bebé idealizado e o bebé da incubadora (real) (Carmaneiro, et al., 2009).
Como o nascimento prematuro pode ser algo inesperado os pais podem não estar
preparados para receber o bebé, assim como, para vivenciar o processo de cuidados
especializados, muitas vezes necessários em prematuros (Carmaneiro, et al., 2009; Silva,
2012).

2. EFEITOS DO VÍNCULO NA MÃE E NA FAMÍLIA

Um parto prematuro é um evento stressante tanto para a mãe como para a família,
pelos mais variados motivos. Tal como referido anteriormente, nestas situações a conexão
pré-natal estabelecida entre a mãe e o bebé é interrompida, o que irá fazer com que a mãe
se sinta desamparada, acabando por surgir o medo de não conseguir ser capaz de proteger
o seu filho (Korja, Latva, & Lehtonen, 2012).
Na maior parte das vezes, é necessário que o bebé permaneça hospitalizado (por
vezes, por um longo período de tempo), sendo esta uma experiência bastante desafiadora
tanto para as mães como para a família, tendo em conta que ocorre uma separação física,
psicológica e emocional, o que irá comprometer o estabelecimento do vínculo mãe-bebé
(Korja, et al., 2012; Veronez, Borghesan, Corrêa, & Higarashi, 2017). Durante este
período de hospitalização, a família enfrenta uma fase difícil relacionada com a
experiência da separação, o medo da doença e do desconhecido, o ambiente hospitalar e
a incerteza acerca do presente e do futuro da família (Veronez, et al., 2017). Assim,
acabam por surgir, por parte dos pais, sentimentos de tristeza, dúvida, stress e fragilidade
(Barroso, Pontes, & Rolim, 2015).
Devido a esta separação, é despertada também a sensação de frustração na mãe,
tendo em conta que não lhe é possível pegar no seu filho, aconchegá-lo e acariciá-lo

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(Barroso, et al., 2015). Apesar de por vezes existir a possibilidade de as mães tocarem na
sua criança e acariciarem-na quando esta se encontra dentro da incubadora, muitas destas
mães sentem-se receosas face a esta situação, criando, de certa forma, uma barreira ainda
maior entre mãe e filho (Barroso, et al., 2015).
Se este período de hospitalização se prolongar durante demasiado tempo, estes
sentimentos de impaciência, ansiedade e stresse irão ser exacerbados (Veranez, et al.,
2017). Segundo um estudo realizado por Veranez, et al. (2017), foi possível concluir que
as mães chegam até comparar o ambiente hospitalar ao ambiente de uma prisão, no qual
estão sujeitas a uma série de rotinas e de ordens externas, e onde se sentem presas e
impossibilitadas de expressar a sua opinião e aquilo que estão a sentir.
Tem-se verificado, de acordo com Barroso, et al. (2015), que a incidência de maus
tratos físicos e emocionais é mais elevada nos bebés que, devido à prematuridade, são
separados dos pais depois do nascimento. Isto, poderá ocorrer devido aos fatores
relacionados com esse mesmo nascimento e que levaram a que tenha ocorrido,
inconscientemente, rejeição por parte dos progenitores (Barroso, et al., 2015).
Existe ainda a possibilidade de ocorrer o desenvolvimento de incapacidades no
bebé, o que irá gerar nos pais, mais uma vez, sentimentos de stress e de ansiedade, tendo
em conta que estes acabam por sentir incerteza naquela que é a sua capacidade para criar
o seu filho (Korja, et al., 2012; Zelkowitz, 2017). Esta incerteza, é também muitas vezes
determinada pelo facto da autoestima da mãe se encontrar em baixo (Barroso, et al.,
2015).
Nestes casos, como o filho se encontra maioritariamente numa situação de risco
de vida, os pais sentem-se apreensivos no que diz respeito à sobrevivência do bebé, sendo
que desta perceção surgirá a culpa (Barroso, et al., 2015).
Tratando-se o parto prematuro de um episódio que não fora previsto, este causará,
quase sempre, um abalo no que diz respeito à dinâmica do sistema familiar, em
consequência do misto de sensações originado durante esta situação, que se poderá
traduzir na dificuldade de preservação do vínculo entre pais e filho (Barroso, et al., 2015).
Desta maneira e, de acordo com estudos realizados tanto por Korja, et al. (2009,
cit. in Clarke, 2013) como por Borghini, et al. (2006, cit. in Clarke, 2013), ambos
concluíram que mães de bebés prematuros possuíam um nível inferior de sensibilidade e
estavam menos envolvidas que as mães de bebés nascidos após as 40 semanas de
gestação, o que se irá repercutir naquele que é o vínculo estabelecido entre mãe e filho.

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Num outro estudo realizado por Poehlman e Fiese (2001, cit. in Clarke, 2013),
estes concluíram que a mãe estaria mais predisposta a estar deprimida quando o bebé se
encontrava em risco de vida e, consequentemente, quanto menos o bebé se encontrasse
em risco de vida, menos probabilidade havia de a mãe se apresentar deprimida.
No entanto, segundo Clarke (2013) é importante atender ao facto de que a reação
de uma mãe com um bebé prematuro de 26 semanas é diferente da forma de reagir de
uma mãe com um bebé prematuro de 35 semanas, tendo em conta que os riscos para a
saúde do bebé podem ser muitíssimo diferentes e, na maior parte das vezes, mais
elevados.
De facto, cada pessoa é diferente e, consequentemente, cada mãe é diferente,
reagindo de forma distinta ao parto do bebé prematuro. Esta forma de reagir poderá estar
relacionada com o facto de algumas mães estarem inseridas num contexto social mais
desfavorecido, enquanto que outras pertencem à classe média/alta, sendo este um fator
bastante decisivo no que toca à forma de ver as situações (Clarke, 2013). Facto este que
fora corroborado por Barroso, et al. (2015) que, através do seu estudo, conseguiram
concluir que mães de bebés prematuros que experienciaram eventos stressantes durante a
gravidez e que não lhes fora providenciado suporte social adequado, apresentaram uma
fragilidade psicológica mais elevada, dificuldade exacerbada ao cuidar do seu filho e
também na interação com o mesmo.
De acordo com Barroso, et al. (2015), outro fator que influenciará a forma como
as mães reagem, relaciona-se com a maneira de como a mãe é informada acerca do risco
em que o recém-nascido se encontra e do seu aspeto físico.
No estudo realizado por Clarke (2013), foi possível concluir que devido a
diferentes níveis de suporte e de crise, nem todas as mães de bebés prematuros irão
necessitar da mesma informação e, consequentemente, do mesmo tipo de apoio.

3. EFEITOS DO VÍNCULO NO BEBÉ PREMATURO

A vulnerabilidade presente nos bebés prematuros leva a que estes necessitem


de cuidados especiais, tendo em conta a necessidade de se adaptarem ao seu novo
meio, e sejam fortemente influenciados no seu início de vida por fatores externos, dos
quais um dos mais relevante é a atitude tomada pelos pais face a esta nova fase das
suas vidas (Bond, 2002; Zelkowitz, 2017). Foi-se percebendo que os fatores
ambientais influenciavam mais os bebés prematuros e por isso desenvolveram-se

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estudos sobre o impacto do comportamento dos pais face ao bebé no seu
desenvolvimento (Zelkowitz, 2017). Verificou-se, então, que os bebés prematuros,
por muitas das vezes necessitarem de ficar períodos de tempo internados em meio
hospitalar superiores aos bebés não prematuros e assim permanecerem mais tempo
separados dos seus pais, têm maior risco de sofrer algum atraso ou redução do seu
desenvolvimento (Zelkowitz, 2017).
Segundo um estudo realizado por Clark, Woodward, Horwood e Moor (2008,
cit. in Zelkowitz, 2017) um dos indicadores mais importantes do desenvolvimento da
auto-regulação comportamental e emocional em bebés prematuros são os fatores
sociofamiliares. Sendo importante, para que haja esta regulação, sensibilidade dos
pais em relação às necessidades do seu filho, podendo a falta de tal levar à diminuição
do desenvolvimento social e cognitivo e por isso é de suma importância dar-se atenção
e afeto ao bebé prematuro (Clarke et. al, 2008, cit. in Zelkowitz, 2017). Para Wolke,
Eryigit-Madzwamuse e Gutbrod (2013) o principal preditor de disfunções relacionais,
pertencentes a problemas do desenvolvimento neuronal e presentes ao longo da vida
do bebé prematuro, é a baixa sensibilidade materna para com o seu bebé, em que há
uma menor consciencialização dos sinais do bebé e resposta a estes (Zelkowitz, 2017).
No bebé prematuro uma das estruturas físicas que pode contribuir bastante
para a sua adaptação ao novo meio é a pele, através da qual consegue ter perceção
sensorial, formar uma ligação a nível psicológico ou afetivo com os seus cuidadores,
assim como fornecer informações, através da sua observação, do estado de saúde do
prematuro (Bond, 2002). Deste modo, a pele pode ser um meio para se prover conforto
ao bebé já que para que este se desenvolva é essencial que lhe seja fornecido afeto,
quer no âmbito físico como emocional (Bond, 2002). O toque pele-a-pele entre a mãe
e o seu bebé é então transmissor de tranquilidade e segurança para o mesmo (Fonseca
& Scochi, 2015). Feldman, Rosenthal e Eidelman (2014) realizaram um estudo com
73 bebés prematuros que receberam durante 14 dias consecutivos contacto pele a pele
em comparação com um grupo de controlo de igual número de bebés que não foram
sujeitos a tal intervenção. Perceberam, então, que o contato corporal entre a mãe e o
bebé durante o período pós-parto trouxe benefícios a longo prazo no que se refere ao
desenvolvimento infantil (Feldman et. al, 2014). Especificamente, aos 10 anos de
idade, os prematuros que receberam tal contacto pele a pele apresentaram mais
respostas atenuadoras do stress, um funcionamento do Sistema Nervoso Autónomo
mais maduro, um sono mais organizado, um melhor controlo cognitivo e uma relação

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de reciprocidade mais acentuada com a sua mãe (Feldman et. al, 2014). Butruille et.
al (2017) apoiaram através do seu estudo tais conclusões ao verificarem um impacto
favorável do contacto pele a pele na mãe com o seu bebé prematuro, como, por
exemplo, na atividade parassimpática deste. Outro aspeto interessante acerca desta
prática é o impacto que tem nos parâmetros vitais melhorando, por exemplo, a
saturação de oxigénio, a bradicardia e a taquicardia, a hipotermia e proporcionando
níveis mais elevados de glicose por maior período de tempo impedindo hipoglicemia
(Stuard, 2016).
Se a mãe passar por situações de doença e instabilidade emocional, como a
depressão, em que o número de casos é superior em mães com bebés prematuros, não
conseguirá concretizar tal de forma adequada (Silverstein, Feinbeg, Young & Sauder,
2010). Nestes casos de depressão na mãe podem ocorrer repercussões mais tarde na
forma como perceciona as relações sociais estabelecidas pelo seu filho, em que este
terá tendência a ter uma visão mais negativa, e também na diminuição da participação
deste em atividades, como as criativas, no âmbito pré-escolar (Silverstein, Feinbeg,
Young & Sauder, 2010).
Deste modo, o investimento e a manutenção do vínculo mãe-bebé prematuro
é bastante importante a nível das várias dimensões do bebé e por isso é necessário que
haja comprometimento da mãe ao seu papel (Zelkowitz, 2017).

4. ESTRATÉGIAS DE PROMOÇÃO DO VÍNCULO MÃE-BEBÉ PREMATURO

Durante a hospitalização, os enfermeiros encontram-se numa posição privilegiada


para a implementação de estratégias promotoras da vinculação (Barroso, et al., 2015).
Estes são fundamentais para envolver os familiares, principalmente a mãe do recém-
nascido, promovendo o conforto e a segurança (Barroso, et al., 2015).
O conhecimento dos sentimentos, crenças e compreensão dos pensamentos e
emoções da mãe é imprescindível para uma adequada orientação e implantação de
estratégias facilitadoras para um cuidado individualizado (Dadalto, & Rosa, 2015). Na
primeira visita a mãe deve ser tranquilizada, tendo em conta que o facto de se sentir
assustada e ansiosa poderá prejudicar a interação com o bebé (Barroso, et al., 2015).
Devem ser dadas informações simples sobre o funcionamento da unidade de
internamento e dar oportunidade para o esclarecimento de todas as dúvidas da mãe
(Barroso, et al., 2015). Esta deve ser também consciencializada quanto à aparência e

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características peculiares do recém-nascido, informada sobre a importância e finalidade
dos equipamentos que está a utilizar, bem como ser capacitada a entender as
manifestações das necessidades desse (Barroso, et al., 2015). Deve ser proporcionado
desenvolvimento de um relacionamento apropriado entre enfermeiros e pais com o
objetivo de estabelecer uma comunicação efetiva entre estes, facilitando, assim, o ensino
de forma a que os cuidados sejam prestados de forma autónoma (Barroso, et al., 2015).
Os enfermeiros devem orientar, ensinar, apoiar e encorajar as mães a pegar o
recém-nascido, assim como vestir e alimentá-lo (Barroso, et al., 2015). Quando a mãe e
o bebé ficam juntos, dá-se início uma série de acontecimentos sensoriais, hormonais,
fisiológicos, imunológicos e comportamentais, contribuindo positivamente para o vínculo
mãe-filho (Barroso, et al., 2015). Logo, importa reconhecer as vantagens da participação
materna como a voz dos pais, o carinho e o amor dedicado ao recém-nascido como ganho
considerável na criança, vitais ao tratamento e à recuperação, levando assim à redução do
tempo de internamento (Barroso, et al., 2015).
Os pais, ao experienciarem alguns sinais de interação recíproca, tentam
permanecer próximos do prematuro, pois começam a se aperceber que a sua presença é
percecionada pelo filho através de expressões faciais de reconhecimento da mãe, ao ficar
mais calmo e solicitar aconchego no colo destes (Dadalto & Rosa, 2015). Como forma de
interação para estabelecer o vínculo com o filho, o enfermeiro deve incentivar o contato
pele a pele (método Canguru), o toque, a comunicação e a amamentação (Dadalto & Rosa,
2015). Contudo, nem todos os bebés prematuros podem ser amamentados, pois alguns
encontram-se fisiologicamente imaturos, além de apresentarem dificuldades na
coordenação da sucção, deglutição e respiração (Cruz & Sebastião, 2015).
O Método Canguru envolve o contato pele a pele entre o recém-nascido e os pais
e, quando associado ao cantar da mãe, traz benefícios ainda mais elevados a nível da
estabilidade do Sistema Nervoso Autónomo e da diminuição da ansiedade materna
(Arnon, Diamant, Bauer, Regev, Sirota, & Litmanovitz, 2014). Este inicia-se com o
toque dos pais desde os primeiros momentos do internamento, evoluindo até a posição
canguru, sendo que esta consiste em manter a criança em contato pele a pele, na posição
vertical junto ao peito dos pais (Ministério da Saúde do Brasil, 2016). Este contacto tem
como principal objetivo o acolhimento ao bebé, respeito às individualidades do recém-
nascido e dos seus pais e incentivo do envolvimento dos pais nos cuidados com o bebé
(Ministério da Saúde do Brasil, 2016). Tem como vantagens a redução do tempo de
separação entre a criança e a família, favorecer o vínculo pai-mãe-bebé-família,

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possibilitar uma maior segurança e competência dos pais, proporcionar estímulos
sensoriais positivos, melhorar o desenvolvimento do bebé, estimular o aleitamento
materno, favorecer um controlo térmico adequado, reduzir o risco de infeção hospitalar,
reduzir o stress e a dor e melhorar a comunicação da família com a equipa de saúde
(Ministério da Saúde do Brasil, 2016).
O toque promove alterações no organismo do recém-nascido, este ao ser realizado
de forma delicada e afável, propicia o seu bem-estar em relação ao sono, à alimentação,
ao vínculo com a mãe, e à diminuição de dores o que promove a alta hospitalar precoce
(Santos, & Teixeira, 2017).
O desenvolvimento da linguagem está estreitamente relacionado com as trocas
sociais do bebé com o meio, principalmente com a mãe, que se apresenta como elo entre
este e o meio em que vive (Brocchi, & Leme, 2013). Esta estimulação é de extrema
importância, pois quanto mais rica e variada a interação, maior a probabilidade de efeito
positivo sobre o desenvolvimento do bebé (Brocchi, & Leme, 2013). Se o
desenvolvimento comunicativo da criança não for promovido nos primeiros minutos de
vida, poderão ocorrer consequências ao nível do processo de desenvolvimento futuro. Tal
leva a uma organização comportamental mais tardia, o que pode ocasionar uma menor
resposta social, fator importante para o estabelecimento da relação com a mãe e com
outros indivíduos (Brocchi, & Leme, 2013).
A amamentação promove o fortalecimento da relação mãe-bebé pelo contato
íntimo entre eles- a troca de olhares, o choro, o toque e fala da mãe contribuem para a
instituição do vínculo, fortalecem-no e promovem a autoconfiança da mãe para cuidar do
filho (Cruz, & Sebastião, 2015). Esta também é recomendada devido às suas propriedades
imunológicas, ao seu papel na maturação gastrintestinal e no correto desenvolvimento
neuropsicomotor (Cruz, & Sebastião, 2015).

CONCLUSÃO

Como estudantes de enfermagem, percebemos através da pesquisa realizada, a


importância da vinculação como processo essencial para o bem-estar quer da mãe como
do prematuro, sendo que leva à prevenção de doenças em ambos e à promoção do
desenvolvimento do bebé de forma saudável.

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Sendo a adaptação da mãe e do bebé um período de stresse do qual emergem
inúmeros problemas e preocupações, como o medo frente à fragilidade do filho e da
carência deste de bastante atenção, para que este processo ocorra da melhor forma para
ambos é necessário a participação integral dos enfermeiros. Estes têm um papel essencial,
incentivando a participação ativa da mãe nos cuidados de forma a proporcionar métodos
e estratégias de vinculação. É, portanto, essencial que se promova o bem-estar da mãe,
vivenciando o seu papel da forma mais tranquila e agradável possível, entendendo o
ocorre no bebé prematuro, suas peculiaridades e a necessidade de ser submetido a certas
intervenções. É importante que o enfermeiro e a mãe entendam os benefícios da promoção
da relação mãe-bebé e por isso o enfermeiro deve procurar responder às necessidades da
mãe para que tenha interesse e disposição no investimento desta realação.

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