Você está na página 1de 98

SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ


CAMPUS UNIVERSITÁRIO DO TOCANTINS – CAMETÁ
NÚCLEO UNIVERSITÁRIO DE OEIRAS DO PARÁ
FACULDADE DE GEOGRAFIA - FAGEO
CURSO DE LICENCIATURA PLENA EM GEOGRAFIA

SUSI DOS REIS SANTANA

MOVIMENTOS SOCIAIS E TERRITORIALIDADES A PARTIR DA CRIAÇÃO DA


RESERVA EXTRATIVISTA ARIÓCA PRUANÃ EM OEIRAS DO PARÁ

Oeiras do Pará-Pará
2018
SUSI DOS REIS SANTANA

MOVIMENTOS SOCIAIS E TERRITORIALIDADES A PARTIR DA CRIAÇÃO DA


RESERVA EXTRATIVISTA ARIÓCA PRUANÃ EM OEIRAS DO PARÁ

Trabalho de Conclusão de Curso, apresentado à


Faculdade de Geografia da Universidade Federal
do Pará - UFPA, Campus de Cametá, como
requisito para a obtenção do grau de Licenciatura
em Geografia.

Orientador: Prof. Me. Mário Júnior de Carvalho


Arnaud.

Oeiras do Pará-Pará
2018
SUSI DOS REIS SANTANA

MOVIMENTOS SOCIAIS E TERRITORIALIDADES A PARTIR DA CRIAÇÃO DA


RESERVA EXTRATIVISTA ARIÓCA PRUANÃ EM OEIRAS DO PARÁ

Trabalho de Conclusão de Curso, apresentado à


Faculdade de Geografia da Universidade Federal
do Pará - UFPA, como requisito para a obtenção
do grau de Licenciatura em Geografia, aprovado
com o conceito ______________________.

BANCA EXAMINADORA

________________________________________
Prof. Me. Mário Júnior de Carvalho Arnaud
Campus de Cametá – UFPA
Orientador

________________________________________
Prof. Dr. Marcel Ribeiro Padinha
Campus de Cametá – UFPA
Membro avaliador Interno

________________________________________
Prof. Dr. Rosivanderson Baía Corrêa
Campus de Cametá – UFPA
Membro avaliador Interno

________________________________________
Prof. Dr. Adalberto Portilho Costa
Campus de Cametá – FAED/UFPA
Membro avaliador externo

Oeiras do Pará, Pará, _____ de ________________2018.


“Ainda que eu falasse a língua dos anjos, se não
tivesse amor eu nada seria”

- 1 CORÍNTIOS 13
DEDICATÓRIA

Dedico à memória de meu amado e


inesquecível irmão Sivan dos Reis Santana.
Dedico também às memórias de meus queridos
avós Raimunda Santana e Heleodoro Magno.
Sei que estão ao lado do Papai do Céu e de lá
velam por mim.
AGRADECIMENTOS

Em nossas vidas para chegarmos aos nossos objetivos, percorremos uma longa
caminhada cheia de momentos bons e outros nem tanto. Durante essa caminhada contamos
com a ajuda e o apoio de muitas pessoas, que contribuem de diferentes maneiras para que
tenhamos êxito naquilo que fazemos. Em minha jornada tenho encontrado diversas pessoas
que têm me marcado, sendo verdadeiras bênçãos em minha vida.
Sendo assim, agradeço em primeiro lugar ao bondoso Deus pelo dom da vida, pela
capacidade de superar meus limites e me erguer diante de situações que tendem a me colocar
para baixo.
Aos meus pais, Manoel da Vera Cruz e Esmerinda Garcia, pela família que tenho,
pelos bons ensinamentos e cultivo de valores éticos e morais que procuro levar sempre
comigo em minha vida pessoal e em sociedade.
Aos meus irmãos Sidervan, Siderivan e Sivan, que de certa forma, os três, foram
meus alfabetizadores particulares, antes mesmo que eu frequentasse a escola. Ao meu irmão
caçula, silvano, é a criança grande da casa, ser humano de coração puro.
Às minhas primeiras professoras alfabetizadoras da escola Magalhães Barata, que
enfrentavam com muita coragem os desafios de uma escola rural e multiseriada, me
conduzindo a descobrir o mundo mágico das letras e dos sons que elas formavam.
Às amigas Sámas, Sandra, Alessandra, Josélle, Mara, são pessoas que guardam em
meu coração, até hoje me recordo dos nossos passeios à tarde, depois da aula, no Cais da
cidade, tudo era motivo de risos, tempos bons que não voltam mais.
À minha amiga irmã Cris Barbosa e à minha prima irmã Célia Tavares, pelo apoio
incondicional, quando de forma prematura, em 2010, perdi meu irmão Sivan, meu
companheiro de planos e de todas as horas. Com essa perda cheguei ao fim do poço, mas
encontrei apoio nos amigos para continuar a caminhada.
Aos amigos Saulo e Elisângela Araújo, pessoas de palavras sábias e confortantes.
Aos professores da FAGEO e demais professores que colaboraram com minha
aprendizagem no período que fiz parte da Geo/2014: José Carlos Cordovil, Marcel Padinha,
Mário Arnaud, Rosivanderson Baía, Weliton Correa, Paulo Melo, Enivaldo Monteiro, José
Domingos, Paulo Melo, Michel Guedes e Edir Augusto. Muito obrigada professores.
À professora Domingas Monteiro, coordenadora do Polo de Oeiras do Pará. Aos
colegas de curso Nilda Cavalcante, Enoque e Juracy pela amizade que construímos.
A escola São Francisco Xavier e a todos os colegas de trabalho, em especial à
Marcilene Veiga, que foi mais que uma ajudante, foi meu braço direito quando precisei me
ausentar da escola por várias vezes, por ocasião da atividade de estágio e produção do TCC.
Ao colega e estudante da Faculdade de Educação do Campo, Nonato Camarão.
Agradeço ao gestor da RESEX, ao Presidente da associação de moradores e aos
moradores da RESEX, pela disponibilidade e solicitude. Todos foram peças essenciais à
construção deste trabalho.
Ao Professor Mário Arnaud pelas orientações para a construção deste trabalho.
Agradeço imensamente ao meu namorado Rollo Barbosa, pelo apoio incondicional
em todos os sentidos.
E, por fim, agradecer aos meus pequenos sobrinhos Lucas e Emanoel pela alegria,
pelo sorriso no rosto e até pelas traquinagens.
Muito, muito obrigada a todos.
Resumo
O presente trabalho tratou sobre os movimentos sociais e as territorialidades construídas a
partir da criação da RESEX Arióca Pruanã, em Oeiras do Pará. Em meados dos anos de 1999
o mencionado município sofreu profundos impactos ambientais e sociais produzidos pela ação
de grandes madeireiras. Com base nisso, objetivou-se conhecer e refletir acerca da
contribuição dos movimentos sociais no processo de mobilização e criação da citada RESEX,
assim como, conhecer as territorialidades a partir dessa produção territorial, no município de
Oeiras do Pará, que muitas vezes se inscrevem no campo da conflitualidade. A pesquisa
adotou uma abordagem qualitativa, com estudos exploratórios envolvendo levantamentos
bibliográficos, análise de documentos sobre a RESEX e entrevistas. As entrevistas com os
atores sociais aconteceram em duas etapas, nos meses de abril e junho de 2018, junto ao
gestor da UC, ao presidente da associação de moradores, ao Pároco da igreja Católica, na
época da criação da RESEX, e mais junto a quatro famílias da comunidade Terra Alta, na
RESEX Arióca Pruanã. As entrevistas para o levantamento e coleta de dados aconteceram
com o auxílio de um roteiro com questões norteadoras, semiestruturadas. Com o trabalho
observou-se as diversas relações de poder entre os atores sociais que constroem o território da
RESEX Arióca Pruanã, as estratégias de reprodução social, a possibilidade de geração de
renda pelos moradores, as problemáticas que afetam a vida dos pertencentes e que contribuem
para a existência de conflitualidades dentro da área. Por fim, conclui-se que a mobilização
social, inicialmente, acampada pelos moradores das próprias comunidades, mais a ação de
diversas instituições e do Estado, foi fundamental para o processo de luta e criação da
RESEX, e que esta ainda necessita superar muitas situações no âmbito da gestão e
organização, para que possa, verdadeiramente, se consolidar na vida dos moradores
pertencentes ao seu território.

Palavras-chaves: Território, Movimentos sociais, Conflitualidades, Comunidade Terra Alta,


Oeiras do Pará, RESEX Arióca Pruanã.
Abstract
The present work dealt with the social movements and the territorialities built from the
creation of the Arioca Pruanã RESEX in Oeiras do Pará. In the middle of the years of 1999
the mentioned municipality suffered deep environmental and social impacts produced by the
action of large loggers. Based on this, it was aimed to know and reflect on the contribution of
social movements in the process of mobilization and creation of the aforementioned RESEX,
as well as, to know the territorialities from this territorial production, in the municipality of
Oeiras do Pará, which are often inscribed in the field of conflict. The research adopted a
qualitative approach, with exploratory studies involving bibliographical surveys, analysis of
RESEX documents and interviews. The interviews with social actors took place in two
phases, in April and June 2018, with the manager of the UC, the president of the residents'
association, the parish priest of the Catholic Church, at the time of the creation of RESEX,
and more with four families from the Terra Alta community, at the Arióca Pruanã RESEX.
The interviews for the collection and collection of data happened with the aid of a script with
guiding, semi-structured questions. The work observed the various power relations between
the social actors that construct the territory of the Arióca Pruanã RESEX, the strategies of
social reproduction, the possibility of income generation by the residents, the problems that
affect the lives of those who belong and contribute for the existence of conflicts within the
area. Finally, it is concluded that the social mobilization, initially camped by the residents of
the communities themselves, plus the actions of various institutions and the State, was
fundamental to the process of struggle and creation of RESEX, and that it still needs to
overcome many situations within the scope of management and organization, so that it can
truly consolidate itself in the lives of the residents belonging to its territory.

Key-words: Territory, Social movements, Conflict, Terra Alta Community, Oeiras do Pará,
RESEX Arióca Pruanã.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1- Quadro das Reserva Extrativistas Paraenses ............................................................ 24


Figura 2 - Mapa de localização da RESEX Arióca Pruanã ...................................................... 40
Figura 3- As comunidades da RESEX Arióca Pruanã ............................................................. 41
Figura 4- Quadro das associações da RESEX Arióca Pruanã .................................................. 47
Figura 5 - Placa de demarcação da área da RESEX Arióca Pruanã, localizada às margens de
rio .............................................................................................................................................. 54
Figura 6 - Placa de demarcação da área da RESEX Arióca Pruanã, localizada em área de terra
firme ......................................................................................................................................... 55
Figura 7 - Aspectos da comunidade Terra Alta, no rio Arióca - RESEX Arióca Pruanã......... 56
Figura 8 - A vila da comunidade Terra Alta, no rio Arióca, na RESEX Arióca Pruanã .......... 57
Figura 9 – Construção de sistema de coleta de água e banheiros pelo Projeto Sanear Amazônia
.................................................................................................................................................. 58
Figura 10 - Aspectos das roças dos agricultores da comunidade Terra Alta ............................ 61
Figura 11 – Aspectos das roças dos moradores da comunidade Terra Alta ............................. 62
Figura 12 - Aspectos do local onde a farinha é produzida ....................................................... 63
Figura 13 - Aspectos do açaizal, na comunidade Terra Alta .................................................... 64
Figura 14 - Aspectos da criação de aves pelas famílias da comunidade Terra Alta................. 65
Figura 15 - Aspectos da pesca artesanal na comunidade Terra Alta ........................................ 66
LISTA DE SIGLAS E ABREVIATURAS

AMOREMA Associação de Moradores da Reserva Extrativista Mapuá

AMOREAP Associação de Moradores da Reserva Extrativista Arióca Pruanã

APP Área de Proteção Permanente

ASS Associação

ART Artigo

CAR Cadastro Ambiental Rural

CCGO Comissão Contra a Grilagem de Terras em Oeiras do Pará

CD Conselho Deliberativo

CNS Conselho Nacional dos Seringueiros

EMATER Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural

EMBRAPA Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária

GPS Sistema de Posicionamento Global

IBAMA Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais

ICMBIO Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade

IEB Instituto Internacional de Educação do Brasil

IFPA Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará

IFT Instituto Floresta Tropical

INCRA Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária

IPAM Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia

MDS Ministério do Desenvolvimento Social

M/D Margem Direita

M/E Margem Esquerda

MMA Ministério do Meio Ambiente


PE Padre

PRES Presidente

RESEX Reserva Extrativista

RL Reserva Legal

SEMMA Secretaria de Meio Ambiente

SICAR Sistema de Cadastro Ambiental Rural

SNUC Sistema Nacional de Unidade de Conservação

S/N Sem Número

STTR Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais

UC Unidade de Conservação

UFPA Universidade Federal do Pará

UNB Universidade de Brasília


SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ........................................................................................................... 14
2. Capítulo 1. A RESERVA EXTRATIVISTA COMO EXPRESSÃO
TERRITORIAL NA AMAZÔNIA PARAENSE ................................................................. 22
1.1 As reservas extrativistas no Pará na perspectiva do território ............................................ 22
3. Capítulo 2. MOVIMENTOS SOCIAIS E A CRIAÇÃO DA RESEX ARIÓCA
PRUANÃ EM OEIRAS DO PARÁ ...................................................................................... 34
2.1 A origem da RESEX Arióca Pruanã: Movimentos sociais e territorialização em Oeiras do
Pará ........................................................................................................................................... 34
2.2 Organização e funcionalidade da RESEX Arióca Pruanã: Aspectos ambientais e
administrativos na comunidade Terra Alta ............................................................................... 45
4. Capítulo 3. A COMUNIDADE E SUAS TERRITORIALIDADES NA RESEX
ARIÓCA PRUANÃ EM OEIRAS DO PARÁ ..................................................................... 60
3.1 Caracterização rural e situação fundiária, conflitualidades e territorialidades na
comunidade Terra Alta – RESEX Arióca Pruanã .................................................................... 60
3.1.1 Caracterização rural e situação fundiária ..................................................................................... 60
3.1.2 As territorialidades e conflitualidades na comunidade Terra Alta dentro da RESEX Arióca
Pruanã.................................................................................................................................................... 70
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS ...................................................................................... 79
REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 82
APÊNDICE ............................................................................................................................. 85
ANEXO .................................................................................................................................... 90
14

1. INTRODUÇÃO

O mencionado trabalho cuidou dos movimentos sociais existentes na Reserva


Extrativista Arióca Pruanã, no município de Oeiras do Pará, e as territorialidades produzidas a
partir da criação desse território. Com ele se buscou conhecer as contribuição de tais
movimentos para a constituição da RESEX, assim como a sua devida importância e influência
junto às manifestações de cunho social, político e espacial que transformam e condicionam a
vida dos pertencentes.
No Brasil, nos últimos tempos a mobilização social mais os movimentos ambientais
têm se apresentado como importantes vias de acesso pelas quais os povos e as comunidades
tradicionais têm buscado discutir sobre questões de cunho ambiental e relacionadas às
políticas públicas que os contemplem nos aspectos sociais, políticos, econômicos e culturais.
No processo de criação da Reserva Extrativista Arióca Pruanã os movimentos sociais
foram primordiais para a construção de ambientes de discussão acerca de problemáticas
ambientais e sociais resultantes da ação de grandes madeireiras que se instalaram no território
do município de Oeiras do Pará, mais especificamente no rio Arióca, em meados do ano de
1999.
Tais empresas de posse de significativos recursos materiais (maquinários) e humanos
(trabalhadores braçais) imprimiram um acelerado ritmo na exploração dos recursos
madeireiros da região, provocando profundos impactos ambientais, como pela depredação de
espécies da flora e da fauna local.
A grilagem de terras, a violência, a intimidação e o medo também passaram fazer
parte do cotidiano dos moradores locais, por ocasião da presença das madeireiras. Na época,
muitos moradores tiveram direitos constitucionais cerceados por tais empresas, como o de ir e
vir, e de permanecer nas terras que tradicionalmente ocupavam.
Diante de tal cenário, a mobilização social, inicialmente acampada por moradores
das comunidades dos rios Arióca e Pruanã, começou a questionar a presença das madeireiras
e, sobretudo, as práticas que as elas vinham imprimindo na região e que estavam perturbando
substancialmente a vivência nas comunidades.
Os moradores munidos de uma coragem impressionante se colocaram na linha de
frente no enfrentamento do poderio capitalista, demonstrando grande capacidade de
mobilização local e articulação política, de maneira que logo dezenas de comunitários
abraçaram a causa, e em seguida várias instituições governamentais e não governamentais
somaram forças na luta contra tais empresas.
15

Da união entre esses diversos atores passou-se ter uma maior mobilização social e
articulação política, no âmbito municipal e fora dele, no sentido de buscar soluções para as
questões ambientais que Oeiras do Pará estava vivenciando, bem como, dar respostas aos
anseios das comunidades que de diversas maneiras estavam sendo estranguladas pelas
empresas madeireiras.
Diante de tal cenário o presente trabalho tem como objeto entender: Qual a
contribuição dos Movimentos Sociais no processo de criação da Reserva Extrativista Arióca
Pruanã, em Oeiras do Pará?
Partindo da premissa que os movimentos sociais contribuíram para a constituição da
Reserva Extrativista Arióca Pruanã, no município de Oeiras do Pará, juntamente com
entidades governamentais e não governamentais, e ainda considerando que tem-se
apresentado potenciais conflitos socioambientais na área da Reserva, foi necessário entender
tais processos.
Foi necessário ainda conhecer que impactos socioespaciais esta RESEX tem
implicado para o espaço municipal, assim como o papel que os movimentos sociais têm
desempenhado diante de tais situações, enquanto agentes que contribuíram para a implantação
da mesma.
O mérito da construção do trabalho foi no sentido de favorecer o conhecimento sobre
como esses movimentos se organizam e atuam na área da RESEX Arióca Pruanã,
possibilitando uma maior compreensão quanto a articulação política e social que eles
possuem, quando necessitam defender o seu território e reivindicar direitos.
Ao final, foi possível conhecer as várias relações que constroem o território da
RESEX Arióca Pruanã e as relações construídas a partir dessa produção territorial.
Conheceram-se ainda as estratégias que os diversos atores têm projetado nesse espaço, seja
para defender seus interesses ou acessar as condições necessárias à sua sobrevivência.
Para a construção deste trabalho foi necessário o cumprimento de alguns
procedimentos metodológicos dentro de uma pesquisa de abordagem qualitativa. Para Minayo
(2009, p. 21), “a pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares, com um nível de
realidade que não pode ou não deveria ser quantificado. Ou seja, ela trabalha com o universo
dos significados, dos motivos, das aspirações, das crenças, dos valores e das atitudes”.
Constituiu-se numa pesquisa que envolveu estudos exploratórios. Segundo Gil (2008,
p. 27), “as pesquisas exploratórias têm como principal finalidade desenvolver, esclarecer e
modificar conceitos e idéias, tendo em vista a formulação de problemas mais precisos ou
hipóteses pesquisáveis para estudos posteriores”. Nesse sentido, buscou-se desenvolver o
16

conhecimento acerca da contribuição dos movimentos sociais no processo de criação da


RESEX Arióca Pruanã, em Oeiras do Pará.
Para Gil (2008, p. 27), o objetivo das pesquisas exploratórias é no sentido de
“proporcionar visão geral, de tipo aproximativo, acerca de determinado fato. Este tipo de
pesquisa é realizado especialmente quando o tema escolhido é pouco explorado e torna-se
difícil sobre ele formular hipóteses precisas e operacionalizáveis”. Sobre a RESEX Arióca
Pruanã, em seus diversos aspectos sociais, políticos, econômicos, culturais, dentro outros,
ainda são pouquíssimos os estudos desenvolvidos.
No âmbito de uma pesquisa exploratória também foram realizados levantamentos
bibliográficos, documentais e entrevistas. Na perspectiva de Gil (2008, p. 27), as pesquisas
exploratórias “habitualmente envolvem levantamento bibliográfico e documental, entrevistas
não padronizadas e estudo de caso”.
Na construção do presente trabalho foi fundamental a realização de pesquisa
bibliográfica, especialmente para tratar dos conceitos que o trabalho se propôs discutir,
recorreu-se também à pesquisa bibliográfica quando se efetuou a discussão acerca de aspectos
relacionados ao processo de consolidação da RESEX Arióca Pruanã, para isso os estudos de
Costa (2014), foram essenciais.
Segundo Gil (2008, p. 50), “a pesquisa bibliográfica é elaborada a partir de material
já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos”. E, ainda, que “a
pesquisa bibliográfica permite ao investigador a cobertura de uma gama de fenômenos muito
ampla do que aquela que poderia pesquisar diretamente” (GIL, 2008, p. 50).
A pesquisa também assumiu um caráter de pesquisa documental, ao utilizar como
fonte de estudo documentos como o Manifesto Popular, a Ata da Associação de Moradores e
o Acordo de Gestão da RESEX Arióca Prunã. Na percepção de Gil (2008, p. 51), a pesquisa
documental “vale-se de materiais que não receberam ainda um tratamento analítico, ou que
ainda podem ser reelaborados de acordo com os objetivos da pesquisa”.
Pode-se ainda dizer que a pesquisa se configurou enquanto um estudo de caso, não
que esta tenha se “caracterizado pelo estudo profundo e exaustivo” (Gil, 2008, p. 57), do
objeto, mas, fundamentalmente, pelo fato que dentre as diversas comunidades pertencentes à
RESEX Arióca Pruanã, as observações, coleta e levantamentos de dados se deram junto a
uma única comunidade, que foi a Terra Alta, no rio Arióca. Assim, embora houvesse outra
comunidade com a mesma nomenclatura dentro do território da RESEX, em questão, ou, haja
uma comunidade com o nome de Terra Alta em qualquer outro recorte do território brasileiro,
a comunidade Terra Alta, localizada no rio Arióca, no município de Oeiras do Pará, será
17

sempre única, os fenômenos e aspectos que nela se apresentam, podem até se assemelhar aos
de outra(s) comunidade(s), mas nunca serão os mesmos, no sentido da maneira como
acontecem e influenciam a vida dos seus moradores.
Sendo assim, o curto tempo em que a pesquisa foi realizada, não implicou em
prejuízos ao trabalho, pois, também segundo Gil (2008, p. 58), “a experiência acumulada nas
últimas décadas mostra que é possível realização de estudos de caso em períodos mais curtos
e com resultados passíveis de confirmação por outros estudos”.
O critério de escolha da Comunidade Terra Alta para o levantamento de dados,
considerou a importância que tal comunidade teve no processo de mobilização para a criação
da RESEX Arióca Pruanã, e ainda por nessa comunidade se apresentar conflitos quanto à
exploração ilegal de recursos madeireiros, a caça e pesca predatória.
A pesquisa na comunidade aconteceu no mês de junho de 2018, atendendo ao
período constante na autorização concedida pelo Sisbio para a realização de atividades com
finalidade científica, envolvendo pesquisa de campo e registros fotográficos, dentro da
RESEX Arióca Pruanã. A pesquisa na comunidade Terra Alta foi realizada junto a quatro
famílias, mediante a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido, além da
apresentação da autorização, acima citada.
Os moradores da Comunidade são representados no texto por letras do alfabeto, em
maiúscula, como forma de resguardar suas identidades e o sigilo das informações prestadas e
usadas nas discussões no decorrer do trabalho.
Além dos quatro moradores da RESEX, a pesquisa contemplou mais três atores
sociais, sendo o gestor da RESEX, o presidente da Associação de Moradores e o Pároco da
igreja Católica, na época, envolvido no processo de criação da UC. As pesquisas com esses
três atores aconteceram no mês de abril/2018.
Para a coleta de dados junto aos atores sociais, a técnica utilizada foi a entrevista.
Acerca dessa técnica GIL (2008), relata que:
Pode-se definir a entrevista como a técnica em que o investigador se apresenta frente
ao investigado e lhe formula perguntas, com o objetivo de obtenção dos dados que
interessam à investigação. A entrevista é, portanto, uma forma de interação social.
Mais especificamente, é uma forma de diálogo assimétrico, em que uma das partes
busca coletar dados e a outra se apresenta como fonte de informação. (GIL, 2008, p.
109).

A entrevista da maneira como se apresentou acima, na perspectiva de Gil (2008),


aconteceu efetivamente junto aos moradores da RESEX e do presidente da Associação de
Moradores. Para Gil (2008, p. 113), “as entrevistas tradicionalmente têm sido realizadas face
18

a face [...]. No entanto, nas últimas décadas vem sendo desenvolvida outra modalidade: a
entrevista por telefone”.
No presente trabalho devido a impossibilidade de contato face a face com dois atores
pesquisados, recorreu-se ao uso de instrumentos como o aparelho celular e o computador.
Referente ao gestor da RESEX, o primeiro contato se deu por ligação via celular, na qual
pôde-se combinar uma estratégia que consistiu no envio do roteiro de entrevista por e-mail,
obtendo-se as respostas também pelo mesmo meio de comunicação. No caso do Pároco da
Igreja Católica, o contato também só foi possível com o auxílio da tecnologia, as informações
por ele prestadas se deram via conversa por mensagem instantânea de texto, por celular, meio
pelo qual também autorizou o uso de suas declarações.
As entrevistas realizadas sejam face a face com os entrevistados ou com o auxílio da
tecnologia, almejaram fundamentalmente o levantamento de informações sobre as impressões
dos atores acerca do processo de criação da RESEX Arióca Pruanã, bem como, relacionadas
aos aspectos da gestão e organização e da própria vivência na área.
Selltiz et al (1967, p. 273 apud GIL, 2008, p. 109), afirma que “enquanto técnica de
coleta de dados, a entrevista é bastante adequada para a obtenção de informações acerca do
que as pessoas sabem, crêem, esperam, sentem ou desejam, pretendem fazer, fazem ou
fizeram, bem como acerca das suas explicações ou razões a respeito das coisas precedentes”.
O critério de escolha dos moradores seguiu a lógica da indicação espontânea, a partir
do contato com o primeiro morador, da fala deste foi possível coletar nomes de outros
personagens locais que podiam contribuir com a pesquisa e assim sucessivamente. Já a
escolha dos demais atores se deu em função dos papéis que desempenham frente à RESEX
Arióca Pruanã, e pela figura articuladora que assumiu na luta pela criação da Unidade.
As entrevistas foram efetuadas com o auxílio de um roteiro, com perguntas
semiestruturadas, assim, as questões norteadoras possibilitaram maior liberdade ao
entrevistado no ato de suas falas, como isso, foi possível obter impressões para além do que
inicialmente se almejou com alguns questionamentos.
Para Gil (2008, p. 111), a entrevista informal é do tipo “menos estruturada possível e
só se distingue da simples conversação porque tem como objetivo básico a coleta de dados”.
As entrevistas informais são realizadas “com informantes-chaves, que podem ser especialistas
no tema em estudo, líderes formais ou informais, personalidades destacadas etc.” (GIL, 2008,
p. 111).
Importante ressaltar que nos dois casos em que as entrevistas não foram realizadas
face a face, é possível que se tenha incorrido em limitações relatadas por Gil (2008, p. 114),
19

como a “menor quantidade de informações” e “impossibilidade de descrever as características


do entrevistado ou as circunstâncias em que se realizou a entrevista”. Mesmo que a coleta de
dados com o auxílio da tecnologia não tenha possibilitado um diálogo profundo entre
entrevistador e entrevistado, como aconteceu na interação direta, de maneira geral, as
informações obtidas foram muito úteis contribuindo grandiosamente com a construção do
trabalho.
Para o registro das informações no momento das entrevistas diretas foi utilizado o
aplicativo do gravador de voz de celular e também notas em caderno. Na transcrição dessas
falas procurou-se ser o mais fiel possível ao vocábulo do entrevistado, para isso, foi
necessário um exaustivo exercício de escuta. As informações prestadas por e-mail e
mensagem de texto foram utilizadas na íntegra, da maneira como o entrevistado enviou,
obedecendo até mesmo os sinais de pontuação.
Os procedimentos analíticos dos dados foram de natureza qualitativa, considerando
os estudos de Miles e Huberman (1994) apud Gil (2008, p. 175), apresentando três etapas
seguidas na análise de dados: redução, exibição e conclusão/verificação.
“A redução dos dados consiste no processo de seleção e posterior simplificação dos
dados que aparecem nas notas redigidas no trabalho de campo” (GIL, 2008, p. 175). Nessa
etapa buscou-se selecionar e ao mesmo tempo reduzir as extensas informações prestadas pelos
entrevistados em respostas mais diretas ao questionamento efetuado.
A apresentação consistiu na “organização dos dados selecionados de forma a
possibilitar a análise sistemática das diferenças e semelhanças e seu inter-relacionamento”
(GIL, 2008, p. 175). A apresentação dos dados foi realizada por meio de textos, que permitiu
analisar as respostas de cada entrevistado referente ao mesmo questionamento, com isso foi
possível observar, por exemplo, informações que continham o mesmo sentido e também
informações divergentes, esse aspecto esteve muito presente especialmente nos dados
coletados junto aos moradores pesquisados.
Na etapa da análise constituída pela conclusão/verificação, busca-se “considerar o
significado dos dados, suas regularidades, padrões e explicações” (GIL, 2008, 176). Nessa
etapa os dados foram revisados, a fim de verificar, além das conclusões esperadas “possíveis
conclusões emergentes” (GIL, 2008, p.176).
A etapa da interpretação dos dados “é entendida como um processo que sucede a
análise. Mas estes dois processos estão intimamente relacionados. Nas pesquisas qualitativas,
especialmente, não há como separar os dois processos” (GIL, 2008, p. 177). “O que se
procura na interpretação é a obtenção de um sentido mais amplo para os dados analisados, o
20

que se faz mediante sua ligação com os conhecimentos disponíveis, derivados principalmente
teorias” (GIL, 2008, p. 178).
Nessa perspectiva, os dados coletados e devidamente analisados foram interpretados
à luz de estudos de autores renomados na área das ciências sociais. O auxílio da pesquisa
documental com destaque para a Ata da Associação dos Moradores da RESEX, o Manifesto
Popular e o Acordo de Gestão da RESEX, foram fundamentais para dar materialidade e
consistência à interpretação dos dados e ao trabalho como um todo, visto que, tratam-se de
documentos que carregam em seu bojo a história da RESEX Arióca Pruanã e os registros da
luta acampada pela criação da mencionada Unidade de Conservação.
Importante ressaltar que durante a elaboração do trabalho a RESEX Arióca Pruanã
entrou em fase de transição e mudança de gestor da Unidade. Porém, como o processo estava
muito recente, as informações prestadas pelos moradores nos aspectos da organização e
gestão da UC, ainda foram referentes à gestão anterior.
Dito isso, o presente trabalho está estruturado em três capítulos. No primeiro capítulo
intitulado de “A Reserva Extrativista como Expressão Territorial na Amazônia Paraense”,
buscou-se estabelecer uma relação entre a criação de reservas extrativistas e a produção
territorial a partir destas, pensando que as ações dos diversos atores que constroem esses
territórios são sempre conduzidas e mediadas pelo exercício do poder.
No segundo capítulo denominado de “Movimentos Sociais e a Criação da RESEX
Arióca Pruanã em Oeiras do Pará”, faz-se uma discussão acerca da participação e luta desses
movimentos no processo de criação de espaços para se pensar ações que resultaram na criação
da Reserva Extrativista Arióca Pruanã, e consequentemente a superação das problemáticas
que afligiam o povo naquele momento, relacionadas às questões ambientais e sociais criadas
pelas empresas madeireiras que se instalaram na área rural de Oeiras do Pará.
E, por último, no terceiro capítulo intitulado de “A Comunidade e suas
Territorialidades na RESEX Arióca Pruanã em Oeiras do Pará”, realiza-se uma discussão
acerca das diversas questões ambientais e sociais produzidas e vivenciadas pelos atores que
constroem o território da RESEX, e as estratégias por eles criadas diante de tais realidades,
que muitas vezes se inscrevem no campo das conflitualidades.
Ao final, foi possível concluir que a mobilização social acampada pelos moradores
das comunidades hoje pertencentes à RESEX somada à ação de órgãos e instituições públicas
e mais às Igrejas (Católica e evangélica Assembleia de Deus) foi essencial para a criação da
Reserva Extrativista Arióca Pruanã, no município de Oeiras do Pará.
21

Criada a mencionada RESEX esta tem contribuído para a construção e/ou acentuação
de questões dentro da área, ligadas à gestão e ao uso dos recursos naturais e à produção de
conflitualidades entre os atores que a constituem. As conflitualidades que se apresentaram
foram condicionantes e condicionadas pelas diversas territorialidades existentes, e estas se
revelaram estratégias cotidianamente construídas pelos atores sociais frente às demandas que
vivenciam em seu dia a dia.
22

2. Capítulo 1. A RESERVA EXTRATIVISTA COMO EXPRESSÃO TERRITORIAL


NA AMAZÔNIA PARAENSE

É histórica a exploração dos recursos naturais na Amazônia. Desde o período da


colonização as terras amazônicas já despertavam grande interesse devido a presença em
abundância de recursos naturais, com destaque inicial para os produtos da floresta que ficaram
historicamente conhecidos como as drogas do sertão (ervas aromáticas, plantas medicinais,
cacau, canela, baunilha, cravo, castanha e guaraná), produtos com excelentes preços na
Europa.
No Pará, o extrativismo da borracha entre 1870 e 1910 significou a mais intensa
atividade na região, tanto em nível comercial quanto de exploração da mão-de-obra sustentada
pelo sistema de aviamento, e ainda pela degradação da floresta devido o caráter predatório
como o látex era extraído. Os tempos passaram, mas isso não significou mudança na maneira
como os recursos naturais continuaram a ser explorados e utilizados, pelo contrário, se tornou
cada vez mais danosa. Mesmo os grandes projetos de desenvolvimento (minerometalúrgicos e
hidrelétricos), que foram implantados na região, na verdade não passaram de instrumentos
institucionalizados de agressão à natureza e às populações locais.
Paralelo às atividades desses projetos também se tem a retirada e comercialização
ilegal da madeira, o avanço pastoril sobre a floresta e cada vez mais a presença do
agronegócio. Somando todos esses fatores, nas últimas décadas o território paraense tem sido
palco de muitas lutas marcadas quase sempre pela opressão e violência ao povo menos
favorecido, que por outro lado, mesmo sendo a parte mais “fraca” considerando que um dos
adversários é o grande capital, não se entrega e resiste na defesa do seu território. Nesse
contexto as Reservas Extrativistas têm vindo ao socorro de centenas de homens e mulheres do
campo amazônico e paraense.

1.1 As Reservas Extrativistas no Pará na perspectiva do território

A expansão capitalista para promover o acúmulo de capital não hesita em projetar


seu domínio e utilizar de maneira desmedida tudo aquilo que coopera para o alcance de seus
objetivos, como é o caso do uso e manipulação desenfreados dos recursos naturais. “O
capitalismo, desde o início de seu desenvolvimento, sempre dependeu da extração da matéria
e da energia, inclusive da energia do próprio trabalho humano, nos mais diferentes recantos
do mundo” (GONÇALVES, 2012, p. 70).
23

No Brasil, nos últimos tempos, a criação de reservas extrativistas têm se colocado


como via de contenção da expansão capitalista sobre espaços privilegiados de recursos
naturais e onde residem povos e comunidades, tradicionalmente.
“Falar de recursos naturais é falar de recursos que, por sua própria natureza, existem
independentemente da ação humana e, assim, não estão disponíveis de acordo com o livre-
arbítrio de quem quer que seja” (GONÇALVES, 2012, p. 66). Nesse sentido, o que se
pretende aqui é pensar a relação entre a criação de Reservas Extrativistas (por essência,
guardiã dos recursos naturais) e a produção territorial a partir destas, buscando conhecer os
atores e as relações que constroem o território, que na sua essência perpassa sempre por uma
relação e exercício do poder.
Na concepção de Haesbaert (2007):
Desde sua origem, o território nasce com uma dupla conotação, material e
simbólica, pois etimologicamente aparece tão próximo de terra-territorium quanto
de térreo-territor (terror, aterrorizar), ou seja, tem a ver com dominação (jurídico-
política) da terra e com a inspiração do terror, do medo – especialmente para aqueles
que, com esta dominação, ficam alijados da terra, ou no “territorium” são impedidos
de entrar. Ao mesmo tempo, por outro lado, podemos dizer que, para aqueles que
têm o privilégio de plenamente usufrui-lo, o território pode inspirar a identificação
(positiva) e afetiva “apropriação”. (HAESBAERT, 2007, p. 20)

Continuando seu raciocínio Haesbaert enfatiza que, “território, assim, em qualquer


acepção, tem a ver com poder, mas não apenas ao tradicional “poder político”. Ele diz
respeito tanto ao poder no sentido mais explícito, de dominação, quanto ao poder no sentido
mais implícito ou simbólico, de apropriação” (HAESBAERT, 2007, p. 20-21). No campo do
poder a discussão sobre território também buscou conhecer as lutas e a diferenciação entre os
grupos pertencentes às RESEX’s e demais atores partícipes da produção territorial.
Conforme a perspectiva de Souza (2000):
Aqui, o território será um campo de forças, uma teia ou rede de relações sociais
que, a par de sua complexidade interna, define, ao mesmo tempo, um limite, uma
alteridade: a diferença entre “nós” (o grupo, os membros da coletividade ou
“comunidade”, os insiders) e os “outros” (os de fora, os estranhos, os outsiders).
(SOUZA, 2000, p. 86).

Nessa linha de raciocínio Gonçalves (2012), discorre que:


As fronteiras, os limites territoriais, se impõem como fundamentais para entender as
relações sociais e de poder, o que implicará relações de pertencimento e
estranhamento (um nós e um eles), assim como relações de dominação e exploração,
através do espaço, pela apropriação/expropriação de seus recursos. (GONÇALVES,
2012, p. 66).

Para conhecer as diversas relações construídas a partir da criação de Reservas


Extrativistas, vale evidenciar a legalidade de sua instituição e finalidade. No Brasil, o Sistema
Nacional de Unidades de Conservação da Natureza – SNUC, foi criado pela Lei nº 9.985 de
24

18/07/2000, que no Art. 14 trata exclusivamente sobre as categorias que formam o Grupo das
Unidades de Uso Sustentável, dentre elas as Reservas Extrativistas, as quais segundo o Art.
18, são áreas onde vivem populações extrativistas tradicionais, tem como objetivos dar
proteção ao modo de vida e a cultura destas populações e ao mesmo tempo promover a
utilização dos recursos naturais de maneira sustentável.
Dentre as Reservas Extrativistas existentes na Amazônia brasileira, 23 unidades,
incluindo as Reservas Extrativistas Marinhas, estão em territórios paraenses.
Figura 1- Quadro das Reserva Extrativistas Paraenses
Continua
Reservas Extrativistas Tipo Localização/
Paraenses Município (s)
Arióca Pruanã RESEX Oeiras do Pará
Chocoaré-Mato Grosso RESEX Santarém Novo
Ipaú-Anilzinho RESEX Baião
Gurupá Melgaço RESEX Gurupá e Melgaço
São João da Ponta RESEX São João da Ponta
Mapuá RESEX Breves
Maracanã RESEX Maracanã
Renascer RESEX Prainha
Rio Iriri RESEX Altamira
Rio Xingu RESEX Altamira
Riozinho do Anfrísio RESEX Altamira
Tapajós-Arapiuns RESEX Santarém e Aveiro
Terra Grande-Pracuúba RESEX Curralinho e São Sebastião da
Boa Vista
Verde Para Sempre RESEX Porto de Moz
Mocapajuba RESEX Marinha São Caetano de Odivelas
Mãe Grande de Curuçá RESEX Marinha Curuçá
25

Figura 1- Quadro das Reservas Extrativistas Paraenses


Conclui
Reservas Extrativistas Tipo Localização/
Paraenses Município (s)
Araí-Peroba RESEX Marinha Augusto Corrêa
Cuinarana RESEX Marinha Magalhães Barata
Caeté-Taperaçu RESEX Marinha Bragança
Gurupi-Piriá RESEX Marinha Viseu
Soure RESEX Marinha Soure
Tracuateua RESEX Marinha Tracuateua
Mestre Lucindo RESEX Marinha Marapanim
1
Fonte: Ibama.gov.br/sisbio/sistema/index.php. (2018) .

A criação de Reservas Extrativistas em um dado recorte espacial sugere muitas


mudanças na maneira como as populações tradicionais passam a se relacionar com a natureza
e até com os demais indivíduos da comunidade, tais mudanças são geradas principalmente em
virtude das normas e regras que passam a vigorar e que muitas vezes vão de encontro com o
modo de viver do povo local.
Nessa perspectiva Aragón (2013), discorre:
Uma das críticas mais severas relacionadas com a prática das áreas protegidas,
especialmente em países subdesenvolvidos, é sua tendência de supervalorizar as
paisagens em termos ecológicos. Frequentemente os critérios em que se fundamenta
o seu desenho não são originários da população afetada nem obedecem às suas
necessidades mais urgentes. Contudo, a mudança de enfoque das ideias dos
conservacionistas nos tempos modernos para um novo paradigma, no qual a
conservação e o desenvolvimento são vistos como processos interdependentes, tem
levado à formulação de esquemas que buscam conciliar a demanda pela preservação
dos ecossistemas com a necessidade de atender de forma sustentável o bom viver
das populações atingidas. (ARAGÓN, 2013, p. 267).

Nesse sentido ao se criar uma reserva extrativista deve-se considerar a demanda pela
proteção dos recursos naturais, e ao mesmo tempo pensar a dinâmica de vida de centenas de
homens e mulheres e toda a relação anteriormente estabelecida com esses espaços de
vivências, pois embora a legalidade de uma RESEX são as múltiplas ações desses homens e
mulheres que darão materialidade e sentido à ela. Por consequência dessas relações entre
indivíduos com o meio natural e mais as ações do Estado, muitas vezes complexas para tais
indivíduos, pressupõe a produção e ao mesmo tempo a luta pelo território.

1
O quadro contendo a relação das Reservas Extrativistas Paraenses foi elaborado a partir do levantamento de
informações no site do Sisbio, por ocasião da elaboração do presente trabalho.
26

A luta pelo direito ao território é simultaneamente uma luta pela redistribuição e


pelo reconhecimento, pois o acesso ao território significa, do ponto de vista material,
o direito aos meios de produção para esses grupos sociais, o direito à terra, à água,
aos recursos naturais que permitem um modo de produzir e de viver próprio. Ao
mesmo tempo, o direito ao território é o direito a uma cultura, a um modo de vida, a
uma identidade própria, expressa num conjunto de práticas e representações sociais
que forma o núcleo simbólico que diferencia esses grupos sociais do conjunto da
sociedade. (CRUZ, 2014, p. 25-26).

O reconhecimento e respeito ao modo peculiar de viver e que os torna únicos é uma


das reivindicações dos pertencentes às reservas extrativistas. Mas, também é no campo da luta
pelo acesso e direito ao território e aos benefícios a partir dessa produção territorial, que se
inscrevem as conflitualidades de diversas ordens que permeiam à vivência de muitas
comunidades. Situações como o cumprimento da legislação ambiental vigente e ao mesmo
tempo a continuidade da extração da madeira para a venda, como acontecia anterior à criação
das unidades, talvez seja uma das problemáticas mais presentes nas reservas extrativistas
paraenses, dada ainda a presença de exemplares nativos que despertam o interesse do ramo
madeireiro no Pará e fora dele.
Enquanto espaços de lutas pela manutenção e fortalecimento da identidade do povo
local, que cada dia mais está em contato com dinâmicas e costumes exógenos, totalmente
diferentes e muitas vezes bem mais “atrativos” que os tradicionais, os povos das áreas das
reservas se veem obrigados a resistir criando estratégias para que aquilo que mais lhes
representa que é a cultura e o seu modo particular de viver e se relacionar com a natureza e
com os seus pares, não venha sofrer o total aculturamento e perda dessa identidade que lhes
diferencia e ao mesmo tempo lhes caracteriza e assegura um lugar no mundo.
Esses atores historicamente marginalizados e esquecidos pelo poder público e
negados pela produção capitalista que vê o seu modo de vida como atrasado e um obstáculo
para o desenvolvimento, não se sujeitam e com uma força muitas vezes desconhecida surgem
como agentes de transformação capazes de lutar pelo território visando melhorias coletivas
como: educação de qualidade, saúde com qualidade, moradia digna, acesso e direito a terra e
aos recursos naturais. Na concepção de Cruz (2014, p. 38), “esse conjunto de agentes e forças
sociais, historicamente marginalizados e invisibilizados no espaço público, torna-se
protagonista na luta por direitos e justiça [...]”.
Na Amazônia paraense essas reinvindicações ganharam força e mobilizaram a
criação de reservas extrativistas, por meio das quais buscam respostas às questões ambientais,
às demandas sociais, ao seu modo particular de viver, de se relacionar com a natureza e retirar
dela o seu sustento. A criação de reserva extrativista também pressupõe a produção de
inúmeras relações dos atores e entre eles, e deles com o meio físico – a produção territorial,
27

dada por relações muitas vezes complexas e que perpassam sempre por uma relação de poder,
luta e resistência.
Segundo Haesbaert (2007):
Enquanto continuum dentro de um processo de dominação e/ou apropriação, o
território e a territorialização devem ser trabalhados na multiplicidade de suas
manifestações – que é também e, sobretudo, multiplicidade de poderes, neles
incorporados através dos múltiplos sujeitos envolvidos (tanto no sentido de quem
sujeita quanto de quem é sujeitado, tanto no sentido das lutas hegemônicas quanto
das lutas de resistência – pois poder sem resistência, por mínima que seja, não
existe). (Haesbaert, 2007, p. 22)

Para Raffestin (1993, p.144), território está imbuído de aspectos do poder uma vez
que, “a produção, por causa de todas as relações que envolve, se inscreve num campo de
poder”. Ainda sobre o exercício do poder, fator decisivo nas relações construídas pelos seres
humanos, Raffestin (1993, p. 159) discorre que “o poder é inevitável [...] é impossível manter
uma relação que não seja marcada por ele”.
Essa é uma linha de raciocínio muito comungada, a produção territorial numa íntima
ligação com o poder, da vida humana em sociedade e com a natureza. Para Cruz (2011, p. 93),
“no conceito de território, o poder e a política estão no foco das linhas de luz e de enunciação
[...]”. Haesbaert (2009, p. 105), enfatiza que “ao território caberia [...], um foco centralizado
na espacialidade das relações de poder”.
Nas contribuições de Souza (2000), o território possui no poder sua definição e
delimitação:

O território [...], é fundamentalmente um espaço definido e delimitado por e a partir


de relações de poder. A questão primordial aqui, não é, na realidade, quais as
características geoecológicas e os recursos naturais de uma certa área, o que se
produz ou quem produz em dado espaço ou ainda quais as ligações afetivas e de
identidade entre um grupos social e seu espaço. Estes aspectos podem ser de crucial
importância para a compreensão da gênese de um território ou do interesse por
tomá-lo ou mantê-lo, como exemplificam as palavras de Sun Tzu a propósito da
conformação do terreno, mas o verdadeiro Leitmotiv é o seguinte: quem domina ou
influencia e como domina ou influencia esse espaço? Este Leitmotiv traz embutida,
ao menos de um ponto de vista não interessado em escamotear conflitos e
contradições sociais, a seguinte questão inseparável, uma vez que o território é
essencialmente um instrumento do exercício do poder: quem domina ou influencia
quem nesse espaço, e como?. (SOUZA, 2000, p. 78-79).

Portanto, todo território é, ao mesmo tempo e obrigatoriamente, em diferentes


combinações, funcional e simbólico, pois as relações de poder têm no espaço um componente
indissociável tanto na realização de “funções” quanto na produção de “significados”
(HAESBAERT, 2007, p. 23). Nas reservas extrativistas as relações existentes são
fundamentalmente uma relação de poder, uma vez que cada um dos atores, à sua maneira,
28

busca defender interesses relacionados às questões ambientais, econômicas, sociais, culturais


e dentre outras, além de reivindicar o direito a terra e ao território.
A população pertencente às Reservas extrativistas na sua maioria formada por
coletores dos produtos da floresta, pequenos agricultores, pescadores, quilombolas e
indígenas, o Estado por meio dos órgãos administrativos e mais o Capital principalmente pela
presença do agronegócio e da pecuária, se inserem num campo de disputas e poder no e pelo
território. Essas são relações na sua maioria conflitantes, pois os atores sociais possuem
diferentes interesses e mais diferentes ainda são as maneiras de alcançá-los.
As “imagens” territoriais revelam as relações de produção e consequentemente as
relações de poder, e é decifrando-as que se chega à estrutura profunda. Do Estado ao
indivíduo, passando por todas as organizações pequenas ou grandes, encontram-se
atores sintagmáticos que “produzem” o território. De fato, o Estado está sempre
organizando o território nacional por intermédio de novos recortes, de novas
implantações e de novas ligações. [...]. Em graus diversos, em momentos diferentes
e em lugares variados, somos todos atores sintagmáticos que produzem “territórios”.
Essa produção de território se inscreve perfeitamente no campo do poder de nossa
problemática relacional. Todos nós combinamos energia e informação, que
estruturamos com códigos em função de certos objetivos. Todos nós elaboramos
estratégias de produção, que se chocam com outras estratégias em diversas relações
de poder. (RAFFESTIN, 1993, p. 152-153).

O Estado no uso da sua função normativa procura de muitas maneiras, especialmente


com políticas de subsídios, amortizar a força do povo e com isso cercear qualquer forma de
resistência frente aos seus ideais dominantes. O grande capital com os seus discursos e
práticas “desenvolvimentistas” procura classificar as especificidades da população local como
atrasadas, impasse para o desenvolvimento, e, portanto, devem ser abandonadas por não se
sustentarem nos dias atuais. Já o povo resiste a tais forças que os dois primeiros atores tentam
exercer sobre ele.
Nesse sentido, dependendo da ação de cada ator, o controle sobre o território se dá de
maneira diversificada, conforme se observa nas considerações de Haesbaert (2005):
Se o território é moldado sempre dentro das relações de poder, em sentido lato, ele
envolve sempre, também, no dizer de Robert Sack, o controle de uma área. Este
controle, contudo, dependendo do tipo (mais funcional ou mais simbólico, por
exemplo) e dos sujeitos que o promovem (a grande empresa, o Estado, os grupos
sociais, etc.), adquire níveis de intensidade os mais diversos. (HAESBAERT, 2005,
p. 6780).

As populações tradicionais tendem a exercer o controle sobre o território das


RESEX’s imprimindo na área o seu modo particular de viver, de produzir o seu sustento, e
exercer sobre ele a sua autonomia. Seguindo a lógica da autonomia, no sentido do povo gerir
o próprio território tem-se as formulações de Souza (2000):
Uma sociedade autônoma é aquela que logra defender e gerir livremente seu
território, catalisador de uma identidade cultural e ao mesmo tempo continente de
29

recursos, recursos cuja acessibilidade se dá, potencialmente, de maneira igual para


todos. Uma sociedade autônoma não é uma sociedade “sem poder” [...]. (SOUZA,
2000, p. 106).

No campo de relações entre os atores que produzem o território, considerando o


exercício do poder e ainda o desejo em alcançar e desfrutar de direitos conquistados, as
RESEX’s possuem uma significação diferente para cada um de seus atores, isso porque o
território dependendo de quem produz e utiliza lhe atribui um significado e intencionalidade,
visando o atendimento dos seus interesses materiais ou imateriais.
Devemos primeiramente distinguir os território de acordo com aqueles que os
constroem, sejam eles indivíduos, grupos sociais/culturais, o Estado, empresas,
instituições como a Igreja etc. Os objetivos do controle social através de sua
territorialização variam conforme a sociedade ou cultura, o grupo e, muitas vezes,
com o próprio indivíduo. (HAESBAERT, 2007, p. 22).

Pode-se dizer que o Estado produz e compreende o território das Reservas


Extrativistas sempre a partir da governabilidade e normatização que exerce sobre esses
espaços, já a produção territorial a partir das comunidades pertencentes é compreendida como
um espaço em que as relações por elas construídas buscam evidenciar sua singularidade e ao
mesmo tempo sua diversidade.
Na compreensão do território pelas classes sociais Fernandes (2009), discute o
território como espaço de governança e da diferencialidade, cada um atendendo a uma
utilidade específica de cada classe social.
As disputas territoriais são, portanto, de significação das relações sociais e de
controle dos diferentes tipos de territórios pelas classes sociais. O território,
compreendido apenas como espaço de governança, é utilizado como forma de
ocultar os diversos territórios e garantir a manutenção de subalternidade entre
relações e territórios dominantes e dominados. O território compreendido pela
diferencialidade pode ser utilizado para a compreensão das diversidades e das
conflitualidades das disputas territoriais. (FERNANDES, 2009, p. 200).

Caso o povo pertencente às reservas extrativistas não aspirasse a compreensão do


território pelo viés da diferencialidade, estas passariam a ser um campo fértil de reprodução
do discurso dominante do Estado e do sistema capitalista de produção e reprodução de
riquezas, que na sua essência, invisibiliza, exclui e oprime a massa popular.
Felizmente, o que se tem é totalmente o inverso, é o contraditório emergindo do meio
do povo, são vozes que se levantam e não se calam, personagens que não se acomodam diante
da realidade imposta e suscitam o debate, a discussão e a proposição para aquilo que julgam
emergentes e essenciais ao bem estar coletivo. “Para muitos “hegemonizados” ou, como
preferimos, subalternizados, o território adquire muitas vezes tamanha força que combina com
igual intensidade funcionalidade e identidade” (HAESBAERT, 2007, p. 23).
30

Acerca do protagonismo acampado pelas novas mobilizações sociais no cenário


político rural, Cruz (2014), discorre:
[...]. Muitos desses “novos” personagens, agora protagonista, eram tidos como
forças sociais que pertenciam ao passado e que, inevitavelmente, seriam
incorporados ou, simplesmente, desapareceriam no processo de modernização
capitalista que a região tem vivenciado nos últimos cinquenta anos. Contrariando
esse diagnóstico, camponeses, indígenas, afrodescendentes, longe de serem
personagens anacrônicos, tornam- se protagonistas da invenção e da construção de
outros possíveis futuros. (CRUZ, 2014, p. 38).

Nos últimos tempos em toda a Amazônia brasileira tem-se observado uma grande
mobilização de vários atores sociais em prol da criação de Unidades de Conservação,
especialmente de Reservas Extrativistas, visando resolver questões ambientais, bem como,
acessar direitos.
[...] todo um aparato de novos atores sociais que passam a reivindicar seus direitos e
também começaram a se organizar para tal. Os povos da floresta são os primeiros a
iniciar reivindicações contra a forma de exploração dos recursos florestais,
reivindicando principalmente a criação de reservas extrativistas. (ARNAUD, 2010,
p. 37)

Esses atores reivindicam a valorização de tudo aquilo que é próprio de suas


vivências, sua relação com os rios, com as matas, seu jeito peculiar de cultivar a terra e dela
obter o sustento da família, sem pressa, sem compromissos imediatos. Essa luta nada mais é,
do que a luta pelo território, o qual está intimamente ligado à própria existência desses
homens e mulheres trabalhadores do campo.
Nas formulações de Fernandes (2009, p. 209), “os sujeitos produzem seus próprios
territórios e a destruição desses territórios significa o fim desses sujeitos”. Assim, para os
trabalhadores do campo amazônico e paraense ter o direito e a posse sobre o território é ponto
crucial de sua existência.
O desapossamento também destrói sujeitos, identidades, grupos sócias e classes
sociais. [...] e aí está o ponto forte da luta territorial, da disputa territorial. Sujeitos e
grupos sociais não existem sem seus territórios. Este é o sentido supremo da luta
pelos territórios dos povos camponeses e indígenas. O capitalismo sempre apropriou
e/ou subalternizou outras relações sociais e sus territórios. O desapossamento
significa a intensificação da destruição dos territórios não subalternos e é exatamente
nesse ponto que destaco as formas de resistência que emergem dos campos, dos
territórios rurais, muito mais que nas cidades. (FERNANDES, 2009, p. 209).

No âmbito da luta pelo território e existência do povo local, as reservas extrativistas


têm assumindo um papel de destaque no campo paraense, e ao mesmo tempo a presença delas
têm revelado ou potencializado muitas situações conflitantes. Mesmo que a criação de
Reservas Extrativistas se dê inicialmente e principalmente a partir da mobilização da
31

comunidade local, para muitos indivíduos que estão nessas áreas a criação desses espaços é
contraditória.
Quando os pertencentes não se sentem abraçados pelas políticas existentes dentro das
RESEX’s ou quando estas não se fazem presentes, a tendência é que se desencadeiem ou se
acentuem inúmeras problemáticas nessas áreas, dentre elas a continuidade da exploração de
madeira para a venda. Questão dessa natureza, sem dúvida, tem provocado muitos embates
entre morador/órgão gestor e morador/morador, já que o morador que não realiza esse tipo de
prática acaba por se tornar uma espécie de delator dos demais.
Assim, pelas múltiplas relações de poder que cotidianamente são construídas,
desconstruídas e reconstruídas por seus diversos atores, as RESEX’s têm se configurado um
produto das lutas sociais e ao mesmo tempo um meio pelo qual várias relações são criadas,
podendo estas ser de caráter amistoso e convergente ou conflitante e divergente, visto que são
construídas e influenciadas pela sociedade, tempo e espaço em que acontecem, numa
verdadeira construção histórica do território.
Saquet (2009) considera que a territorialização resulta e condiciona os processos
sociais e espaciais dentro das vivências históricas das sociedades.
A territorialização constitui e é substantivada, nesse sentido, por diferentes
temporalidades e territorialidades multidimensionais, plurais e estão em unidade. A
territorialização é resultado e condição dos processos sociais e espaciais, significa
movimento histórico e relacional. Sendo multidimensional, pode ser detalhada
através das desigualdades e das diferenças e, sendo unitária, através das identidades.
(SAQUET, 2009, p. 83).

“Para construir um território, o ator projeta no espaço um trabalho, isto é, energia e


informação, adaptando as condições dada às necessidades de uma comunidade ou de uma
sociedade” (RAFFESTIN, 2009, p. 26). O território sendo uma construção histórica e
multidimensional, os atores que o produzem cotidianamente estabelecem múltiplas relações
com o meio social e com o natural, por meio do seu trabalho e emprego de energia nas
diversas dimensões de sua vivência.
É nesse sentido que entendemos o território e a territorialidade como
multidimensionais e inerentes à vida na natureza e na sociedade. Na natureza, o
homem vive relações. Na sociedade, o homem vive relações. Em ambas, o homem
vive relações construindo um mundo objetivo e subjetivo, material e imaterial. O
homem vive relações sociais, construção do território, interações e relações de
poder; diferentes atividades cotidianas, que se revelam na construção de malhas, nós
e redes, construindo o território. (SAQUET, 2009, p. 87).

“O território é produto dos atores sociais, os atores produzem o território partindo da


realidade inicial dada” (RAFFESTIN, 1993, p. 7). Sendo produto de seus atores sociais o
32

território também é entendido como “uma construção coletiva e multidimensional”


(SAQUET, 2009, p. 81).
Portanto, pensar uma Reserva Extrativista dentro do contexto da construção histórica
e multidimensional do território, é pensá-la como o fruto da ação dos seus atores por um
espaço de produção e reprodução de práticas espaciais e sociais, imbricadas de interesses
diversos em que o poder mediatiza e condiciona todas as relações existentes, desde as
amistosas às conflitantes.
Para a criação de uma Reserva Extrativista a iniciativa certamente partiu de alguma
situação de conflito; e, no território paraense sua criação é sempre movida por ações de
enfrentamento a antigas problemáticas (grilagem de terra, extração ilegal de madeira para a
venda, transformação da floresta em área de pasto, caça e pesca predatória e etc.), que afetam
diretamente o meio natural e por consequência a vida de centenas de homens e mulheres que
dele tiram o seu sustento.
Nesse sentido, “na produção territorial sempre tem um ponto de partida que nunca é
ileso das ações do passado. O processo territorial desenvolve-se no tempo, partindo sempre de
uma forma precedente, de outro estado da natureza ou de outro tipo de território”
(RAFFESTIN, 2009, p. 31). Como se observou em Raffestin a produção territorial sempre
parte de uma realidade já existente ou de outros territórios.
Vale ressaltar que a produção territorial nunca chegará a um estado conclusivo,
sempre estará em constante construção e reconstrução, visto que cotidianamente os atores
estão atuando no território.
Haesbaert (2007, p. 20) citando um de seus trabalhos (2004a) diz que “o que existe,
de fato, é um movimento complexo de territorialização, que inclui a vivência concomitante de
diversos territórios – configurando uma multiterritorialidade, ou mesmo a construção de uma
territorialização no e pelo movimento”. Movimento esse que nunca cessa devido a dinâmica
de cada sociedade em seus aspectos políticos, sociais, culturais e econômicos, cotidianamente
construídos pelos seus membros.
“Na vida cotidiana e na constante apropriação e produção do território, há indivíduos
e organizações sociais (instituições), públicas, privadas e não-governamentais com suas
normas, regras, objetivos, princípios, representações e características econômicas, políticas e
culturais [...]” (SAQUET, 2009, p. 84). Nesse sentido, é possível dizer que o território das
Reservas Extrativistas está em constante construção, em constante movimento, diariamente
sendo produzido e ao mesmo tempo produzindo relações, seja no âmbito funcional ou
relacional, material ou simbólico de representação para cada um dos seus atores sociais.
33

Nesse contexto é que as Reservas Extrativistas têm se constituído no campo


amazônico e paraense, dentre elas a RESEX Arióca Pruanã. No constante movimento de
apropriação e construção territorial, também se apresenta a questão da conflitualidade dentro
das Unidades de Conservação.
Entende-se esse processo diretamente relacionado aos processos geográficos
territoriais, conforme a perspectiva de Fernandes (2004):
A conflitualidade é um processo constante alimentado pelas contradições e
desigualdades do capitalismo. O movimento da conflitualidade é paradoxal ao
promover, concomitantemente, a territorialização – desterritorialização –
reterritorialização de diferentes relações sociais. A realização desses processos
geográficos gerados pelo conflito é bem mais compreendida quando analisada nas
suas temporalidades e espacialidades. São processos de desenvolvimento territorial
rural formadores de diferentes organizações sociais. (FERNANDES, 2004, p. 2).

Nesse sentido é que, no capítulo 3, se buscou conhecer e refletir a produção da


conflitualidade na comunidade Terra Alta, dentro da RESEX Arióca Pruanã, no município de
Oeiras do Pará.
34

3. Capítulo 2. MOVIMENTOS SOCIAIS E A CRIAÇÃO DA RESEX ARIÓCA


PRUANÃ EM OEIRAS DO PARÁ

No Brasil, nos últimos tempos, os movimentos sociais em conjunto com o Estado


têm sido os principais agentes quando se trata de implantação de Unidades de Conservação,
especialmente de Reservas Extrativistas. Na Amazônia paraense, nas últimas décadas, tem-se
percebido uma crescente presença desses movimentos, os quais além da criação da RESEX
em si, reivindicam ainda direitos básicos como saúde, educação, moradia, dentre outros, para
a população pertencente.
A criação da RESEX Arióca Pruanã, em Oeiras do Pará, se deu a partir dos anseios
de dezenas de homens e mulheres de diversas comunidades, que na época, se opuseram
veementemente à maciça extração de madeira e aos conflitos que surgiram em função disso
no campo oeirense. Esses foram os principais fatores que provocaram a mobilização e a união
de inúmeras lideranças comunitária no município de Oeiras do Pará, na última década.

2.1 A origem da RESEX Arióca Pruanã: Movimentos sociais e territorialização em


Oeiras do Pará

Sabe-se que no Brasil a criação de Reservas Extrativistas parte das reivindicações


dos movimentos sociais juntamente com os movimentos socioambientais, ambos tendo como
motivação principal o enfrentamento de problemáticas que afligem determinadas populações,
relacionadas às questões ambientais e às questões de cunho social, como: saúde, educação,
moradia e dentre outros.
Na verdade há um entrelaçamento de movimentos na medida em que um influencia
o outro, isto é, os movimentos sociais passam a incorporar o temário ambiental e os
movimentos ambientais passam a considerar as questões sociais. Essa união passa a
representar um importante rumo às questões ambientais [...]. (ARNAUD, 2010, p.
37).

Foi assim na criação da RESEX Chico Mendes em 1990, no Acre, criada em


homenagem ao sindicalista Chico Mendes, assassinado dois anos antes devido os seus
posicionamentos contrários à ação de fazendeiros, madeireiras e mineradoras na região, que
não respeitavam o meio ambiente, e em favor da conservação dos seringais e demais áreas
naturais.
Indubitavelmente, nesse movimento se destaca um dos mártires do meio ambiente,
Chico Mendes, seringueiro, o qual foi um dos primeiros a reclamar a criação das
reservas extrativistas, algo inovador para a época, quando então fundador do
Conselho Nacional dos Seringueiros e militante sindical. (ARNAUD, 2010, p. 38).
35

Via de regra, no município de Oeiras do Pará, a criação da RESEX Arióca Pruanã


também partiu da reivindicação popular e contou com a significativa participação dos
movimentos sociais formados por moradores das diversas comunidades, “a criação da RESEX
Arióca Pruanã ocorreu pela demanda das comunidades locais, através de um longo processo
de discussões e mobilizações sociais” (COSTA, 2014, p. 144).
“A mobilização social e os movimentos ambientais são contribuintes para a
existência de um espaço mais democrático e propício as discussões acerca das questões
ambientais” (ARNAUD, 2010, p. 31). Além, cada vez mais da construção de uma consciência
ambiental por parte da população, os instrumentos do governo como pela criação de
instituições e leis, também somam forças aos movimentos quanto à consolidação de políticas
em defesa das questões ambientais no Brasil.
[...] a produção de conhecimentos e discussões sobre o meio ambiente no Brasil, os
diversos órgãos governamentais que passaram a ser criados, também contribuíram
para o avanço das políticas ambientais que temos na atualidade, inclusive com a
formação de uma legislação mais avançada do mundo, embora sendo pouco
aplicada. (ARNAUD, 2018, p. 31).

Esses mecanismos de defesa das questões ambientais somados à mobilização de


indivíduos simples, muitos com pouca ou nenhuma escolaridade, mas que possuem uma
direta relação com a terra, com as matas e os rios, sendo ao mesmo tempo agricultores,
extrativistas e pescadores, tem sido o principal alicerce da luta em defesa dos recursos
naturais e da própria vida no campo amazônico e paraense.
No município de Oeiras do Pará, o movimento reivindicatório que resultou na
criação da RESEX Arióca Pruanã partiu primeiramente de moradores das comunidades dos
rios Arióca e Pruanã, que observando seu cotidiano ameaçado pela presença de grandes
madeireiras resolveram se mobilizar e reivindicar mecanismos legais que pudessem frear a
ação das empresas e lhes dar segurança frente às ameaças que vinham sofrendo.
Nas declarações do Pe. Manoel Crispim, na época Pároco da igreja Católica em
Oeiras do Pará, e que participou dos movimentos reivindicatórios à criação da RESEX, é
possível perceber claramente a situação enfrentada pelos moradores.
O município de Oeiras do Pará é composto por uma população de pessoas simples e
humildes, principalmente os ribeirinhos, e que sempre tiveram um relacionamento
de amor e respeito com a natureza de onde tiram seu sustento e excedente é levado
para ser vendido na própria cidade. Este relacionamento entre homem e natureza e a
própria sobrevivência de ambos estava sendo ameaçado pelo capitalismo selvagem.
Diante dessas ameaças, as comunidades procuraram ajuda no sentido de criar a
RESEX. (PE. MANOEL CRISPIM, 2018).
36

Em meados do ano de 1999 se instalaram no município de Oeiras do Pará, mais


especificamente no rio Arióca, grandes empresas madeireiras, dando início à exploração
intensa de espécies nobres presentes na região. As principais espécies2 da flora existentes na
área são: Açaí, Andiroba, Anani, Buruti, Ubuçu, Esponja, Faveira, Murumuru, Seringueira,
Virola, Paxiúba, Pau ferro, Sucupira, Jutaí, Tento, Tachi, Acapu, Acariquara, Angelim, Cedro,
Louro vermelho, Quaruba, Cedro, Sucupira, Cupuaçu, Cacau, Castanha do Pará, Bacuri,
Bacaba, Piquiá, Jatobá, Pariri, Sucuba e Maçaranduba (RELATÓRIO
3
PARAMETRIZADO/MMA) .
Para se fixarem na região e iniciar suas atividades, as empresas assediavam os
moradores e compravam por valores irrisórios grandes lotes de terras, ou mesmo adquiriam
dando em troca objetos como motores para barcos e motosserras. Com isso, em pouco tempo,
as madeireiras já dominavam extensas áreas no rio Arióca, e já começavam expandir seu
domínio para as cabeceiras do rio Pruanã, por meio de grandes aberturas matas.
Alguns moradores tempo depois de terem vendido ou trocado suas terras, se
arrependeram, mas era tarde demais, as empresas não entravam em acordo e os expulsavam,
restando como única alternativa estabelecer moradia nas áreas de expansão urbana de Oeiras
do Pará. “Na época, tivemos momentos tensos, pessoas expulsas de casa, ribeirinhos
ameaçados pelos madeireiros” (PE. MANOEL CRISPIM, 2018).
As madeireiras com o auxílio de maquinários, em pouco tempo acessaram pelo rio
Arióca às cabeceiras do rio Pruanã, onde o sr. Antônio Magno, há muito tempo possuía uma
serraria, e diante da presença das empresas não teria como continuar suas atividades e
certamente também seria expulso. A partir dos casos de intimidação e expulsão de moradores
e da ameaça às atividades do Sr. Antônio Magno, iniciou uma das primeiras manifestações
populares contra as madeireiras, mais tarde resultando na criação da RESEX.
Reunindo-se os senhores Benedito da Pureza Tenório (conhecido como Anta),
Antônio Magno, Antônio Araújo (in memoriam), Gabriel e Cariri começaram um movimento
de mobilização junto aos moradores desses dois rios, buscando conscientizar a respeito dos
fatos que estavam acontecendo em decorrência da presença das madeireiras.
Todo esse processo se inicia por conta da revolta que crescia entre os moradores que
viviam nas margens dos rios Arióca e Pruanã que mobilizando um contingente de

2
A relação foi baseada em observações locais e em informações dos comunitários, sem nenhum rigor científico
(RELATÓRIO PARAMETRIZADO/MMA).
3
O Relatório Parametrizado sobre a RESEX Arióca Pruanã foi encontrado no endereço
<http://www.icmbio.gov.br/portal/unidadesdeconservacao/biomas-brasileiros/amazonia/unidades-de-
conservação-amazonia/2010-resex-arioca-pruana>, no campo Saiba Mais (CNUC - MMA). Acesso em: 25 mai.
2018. Infelizmente ao analisar tal documento, não foi possível encontrar a data de elaboração do mesmo, por isso
a ausência de período no texto.
37

comunidades entre os anos de 1998 e 1999, começaram a se preocupar com o futuro


incerto gerado pela degradação ambiental. (COSTA, 2014, p. 144).

Mas, percebendo que somente a mobilização local não seria suficiente para se ter um
resultado efetivo, e que era necessário ir além, resolveram ir à sede do município buscar ajuda
junto ao senhor Júnior Pantoja, devido sua habilidade na elaboração de expedientes.
Com o senhor Júnior Pantoja as reivindicações do grupo passaram a ter um caráter
mais formalizado. Inúmeras Cartas foram encaminhadas às autoridades locais e
posteriormente no âmbito estadual e federal, no sentido de buscar alternativas contra a ação
das madeireiras no município.
Esse grupo de pessoas ficou conhecido como a Comissão Contra a Grilagem de
terras em Oeiras do Pará- CCGO. Na percepção de Costa (2014, p. 147), “a Comissão Contra
a Grilagem em Oeiras do Pará vivenciou o desafio de agregar forças para articular um fórum
que envolvesse a participação tanto da comunidade, como de outras instituições”.
Mesmo com as mobilizações surgindo, ainda não se tinha nenhum impeditivo legal
capaz de frear as atividades das empresas. Assim, calcula-se que, semanalmente, cerca de 4 a
54 balsas carregadas com madeiras passavam em frente à sede do município, a qualquer hora
do dia.
Tanto em Porto de Moz como em Oeiras do Pará, a situação tornou-se insustentável
a partir do momento em que balsas passaram a transportar centenas de toras de
madeira durante períodos consecutivos, causando sentimento de impotência por
parte da população local, especialmente as populações que encampavam a luta pela
preservação da floresta. Esse movimento ininterrupto de balsas parecem mostrar, de
modo concreto, o problema socioambiental grave pelo qual estavam passando as
duas regiões. (COSTA, 2014, p. 40).

Além da intensa devastação da floresta (com a perda da biodiversidade e extinção de


várias espécies animais e vegetais), do loteamento irregular de terras e expulsão de
moradores, com as empresas também surgiram problemáticas de outras naturezas. A vinda de
muitos indivíduos5 de outras localidades fora do município, para trabalhar na extração da
madeira, com frequência contribuiu para muitas situações de desrespeito para com as famílias
locais e para a disseminação de drogas e da violência na região.
Ao passo que a tensão aumentava no campo oeirense, o movimento em defesa do
povo também ficava mais fortalecido, ganhando o apoio de mais comunitários, pessoas
públicas e representantes de instituições diversas. “Em resposta ao grito de ajuda e
necessidade das comunidades, resolvemos nos unir, igreja Católica, Evangélica, Sindicato,

4
Quantidade estimada segundo informações dos moradores locais, sem nenhuma comprovação oficial.
5
Há relatos de moradores que entre esses indivíduos, estavam infiltrados inúmeros meliantes, dentre eles,
pistoleiros.
38

Associações, Poder Executivo, Legislativo, Polícia Federal e IBAMA” (PE. MANOEL


CRISPIM, 2018).
Da troca de ideias entre esses atores e na busca de soluções à questão ambiental que
Oeiras do Pará vivenciava, a ideia da criação de uma reserva extrativista levantada, na época,
pelo presidente do Conselho Nacional dos Seringueiros e também filho de Oeiras do Pará,
Atanagildo de Deus Matos6, conhecido como “Gatão”, se mostrou a alternativa mais viável.
“Foi uma organização formidável, que mobilizou a todos no sentido de garantir e preservar
um patrimônio de fundamental importância para os ribeirinhos, colonos e para o próprio
município” (PE. MANOEL CRISPIM, 2018).
Então, as reivindicações do povo começaram a caminhar no sentido da criação da
RESEX. No dia 13 de setembro de 2004 foi encaminhado o Manifesto Popular7 ao Promotor
da Comarca de Oeiras do Pará, na época, Dr. Paulo Roberto Corrêa Monteiro. Nesse
expediente com mais de 150 assinaturas, e de iniciativa das Comunidades Eclesiais de Bases,
Igrejas Evangélicas, Associação de Produtores Rurais e Extrativistas, Sindicato dos
Trabalhadores Rurais, Comissão Contra a Grilagem de terras em Oeiras do Pará- CCGO, e a
comunidade em geral, foi requerido a criação de uma reserva visando garantir a permanência
legal do homem no campo e a expedição de documentação fundiária (MANIFESTO
POPULAR, 2004).
Almejava-se ainda a preservação e o manejo da floresta e a aquisição de condições
financeiras para as atividades agropecuárias e agrícolas dos moradores (MANIFESTO
POPULAR, 2004).
No Manifesto, além do direito pela posse da terra e a conservação da floresta,
reivindicou-se também o direito à própria existência das comunidades. Entre o período do
Manifesto e a criação da RESEX, em 2005, em muitas reuniões8 e expedientes os moradores e
demais autoridades reivindicaram a imediata interrupção das atividades madeireiras e a
aceleração do processo de criação da Reserva Extrativista em Oeiras do Pará. “Numa reunião
tiveram presente além dos representantes de comunidade, todos os organismos já citados,
além dos empresários e seus advogados” (PE. MANOEL CRISPIM, 2018).

6
Atanagildo de Deus Matos, “Gatão”, é natural da Comunidade Cristã Castanheiro, hoje pertencente à RESEX
Arióca Pruanã.
7
Durante o desenvolvimento do presente trabalho, o documento estava de posse do presidente da associação dos
moradores da RESEX, que gentilmente o disponibilizou para análise.
8
Em um desses eventos um grupo de representantes de moradores acompanhado pelo Padre Manoel Crispim,
reuniu-se, em Belém do Pará, com o Procurador da República no Pará, na oportunidade foi exposta toda a tensão
que Oeiras do Pará estava vivenciando. Diante dos fatos o Procurador recomendou ao IBAMA a imediata
suspensão de todos os planos de manejo em Oeiras do Pará.
39

No município as ações se efetivavam por parte da Promotoria de Justiça, que por


meio de ações judicias ordenou a interrupção da extração de madeira e de outras atividades
ilegais que as empresas vinham praticando no território oeirense.
Toda essa luta resultou na criação da Reserva Extrativista Arióca Pruanã, com uma
área aproximada de 83.445, 125 hectares. Foi criada pelo Decreto S/N de 16 de novembro de
2005, tendo como objetivo “garantir a utilização e a conservação dos recursos naturais
renováveis tradicionalmente utilizados pela população extrativista na área de sua
abrangência” (ART. 2º).
A RESEX, em questão, está localizada no município de Oeiras do Pará/PA.
Município localizado na Região Geográfica Imediata de Cametá (IBGE, 2017).
A partir da necessidade de tornar a RESEX, acima citada, em um espaço de
conservação dos recursos naturais, por consequência esta se tornou um território, formado por
diversas comunidades cristãs (católicas e evangélicas). Tais localidades, anteriormente, cada
uma possuía sua própria maneira de tratar e tomar decisões acerca das questões que afetavam
à vida em comunidade.
Para ilustrar a situação tem o caso da comunidade de Castanheiro, que por volta dos
anos de 1988 doou lotes de terra a várias famílias pertencentes a outras comunidades9 do
município de Oeiras do Pará. Assim como, doou terras a algumas famílias oriundas de
comunidades do município de Cametá10. As famílias agraciadas construíram sítios nos quais
até os dias de hoje vivem e trabalham.
Com a criação do território da RESEX a comunidade Castanheiro não possui mais
esse tipo de autonomia sobre suas terras. Toda forma de uso da área e dos recursos é regulada
pelo órgão gestor. Observa-se aqui, uma clara sobreposição de territórios, visto que, antes da
constituição da RESEX já existia toda uma vivência e reprodução social em tal área.

9
As famílias eram prioritariamente das comunidades Marambira e Pau-de-Rosa, localizadas às margens da BR
422, no município de Oeiras do Pará.
10
As famílias pertenciam, especificamente, às comunidades de Curral do Meio e Juaba, município de Cametá.
40

Figura 2 - Mapa de localização da RESEX Arióca Pruanã

Fonte: IBGE (2015); ICMBIO (2017).

Atualmente a Reserva Extrativista Arióca Pruanã é composta por 19 comunidades


localizadas ao longo do rio Oeiras (Ribeira, Deus Proverá, Filadélfia, Jarité, Betânia, São
Sebastião, Castanheiro, Bela Vista, Melancial, Timbó, Repartimento e Rio Preto), rio Arióca
(Terra Alta, Jacarequara, Vila Arióca, Pedreira, São Raimundo e Vila Nova), rio Pruanã
(Palmeira), e mais a comunidade Bonilha, que fica no entorno da área da RESEX.
41

Figura 3- As comunidades da RESEX Arióca Pruanã

Fonte: IBGE (2015); ICMBIO (2017).

Pelo Relatório Parametrizado do Ministério do Meio Ambiente, a hidrografia da área


da RESEX é formada pelos rios Oeiras, Pruanã, Arióca, Preto, Branco e seus diversos
tributários, igarapés e paranás ou furos. O movimento sazonal e diário das águas é um dos
elementos definidores das paisagens desta região. Os rios Oeiras e Arióca são as principais
referências hidrográficas da RESEX. Em suas margens estão situadas quase todas as
comunidades. O rio Oeiras, o maior, possui uma extensão de 96 km, enquanto que o rio
Arióca, tem 47 km de extensão.
42

A coloração da água dos rios é escura devido a grande concentração de matéria


orgânica em suspensão, oriunda das florestas inundadas, principalmente em seu alto curso. À
medida que se aproxima de suas embocaduras, a influência da maré aumenta gradativamente,
modificando a coloração da água, passando para o marrom claro, demonstrando a influência
do complexo hidrográfico marajoara, determinado pelo rio Amazonas (RELATÓRIO
PARAMETRIZADO/MMA).
Referente à navegabilidade, quanto mais no alto curso a navegação só é possível em
pequenas embarcações, principalmente durante o verão amazônico, devido a grande
quantidade de árvores caídas nos leitos dos rios, banco de areia e à pequena profundidade11.
A vegetação que margeia os rios é bastante abundante em diversas espécies, não
ocorrendo, porém, grandes concentrações de indivíduos por espécie12. Nas áreas próximas à
foz a navegação é tranquila, pois as condições de largura e profundidade permitem o trânsito
de barcos de qualquer tamanho, nos padrões amazônicos (RELATÓRIO
PARAMETRIZADO/MMA).
Em aspectos descritivos, na área da RESEX predominam os solos hidromórficos
gleizados eutróficos13, de textura siltosa nas margens dos cursos e argilosa à medida que se
distancia para o interior (RELATÓRIO PARAMETRIZADO/MMA).
Quanto à descrição da vegetação, a flora da RESEX Arióca Pruanã, é caracterizada
por uma floresta densa ombrófila14. Nesse ambiente desenvolvem-se as principais espécies de
interesse econômico madeireiro. Nas áreas de planícies aluviais periodicamente inundáveis
(várzea), ocorre vegetação mista, caracterizada pela presença de palmeira15 e árvores
consideradas fornecedoras de madeira branca16 (RELATÓRIO PARAMETRIZADO/MMA).
Assim, a criação da RESEX Arióca Pruanã teve como principal atribuição dar
proteção à área e aos recursos nela disponíveis e ao mesmo tempo assegurar a utilização
destes pela população local. Com a criação do território da RESEX aconteceu a saída das

11
Além dos rios Oeiras, Arióca e Prunã, ainda existem dentro da RESEX o rio Branco e o rio Preto, nos quais
entre os meses de outubro e janeiro, a navegação só é possível à canoas movidas a remo, principalmente no rio
Branco, que sofre com as consequências danosas da ação de búfalos da fazenda Araras, confinante da
comunidade rio Branco, que estão destruindo suas nascentes, segundo informações dos moradores
(RELATÓRIO PARAMETRIZADO/MMA).
12
Com exceção do açaí (Euterpe oleracea), em áreas próximas à foz (RELATÓRIO
PARAMETRIZADO/MMA).
13
Gley húmicos e Gley pouco húmicos (RELATÓRIO PARAMETRIZADO/MMA).
14
Com vegetação arbórea de cobertura uniforme e arbórea emergente (RELATÓRIO
PARAMETRIZADO/MMA).
15
Açaí e Buruti (Mauritia flexuosa). (RELATÓRIO PARAMETRIZADO/MMA).
16
Como ucuúba (Virola surinamensis) e samaúma (Ceiba pentandra), entre outras (RELATÓRIO
PARAMETRIZADO/MMA).
43

empresas madeireiras, as quais em um período aproximado de sete anos produziram


profundos impactos ambientais e sociais no território oeirense.
Segundo relatos de moradores ainda é possível observar nas matas das localidades do
rio Arióca grandes clareiras feitas pelas máquinas durante o processo de extração da madeira.
Da mesma maneira que as comunidades do rio Arióca, as demais vilas existentes na
área de abrangência da RESEX Arióca Pruanã passaram pertencer a categoria de população
extrativista tradicional. Os moradores da RESEX Arióca Pruanã têm no extrativismo vegetal e
animal, na pequena produção agrícola17 e na criação de animais de pequeno porte18, as suas
principais fonte de renda e sustento familiar, ligadas ao meio rural.
Com a RESEX passou-se a ter mais uma forma de organização do território oeirense
e a construção de uma territorialidade expressa no sentimento de identidade e pertencimento,
sobretudo, ao se buscar defender e assegurar direitos aos trabalhadores locais. Nesse sentido,
os movimentos sociais nasceram da necessidade de defender o meio natural do capital
avassalador e ainda da necessidade de fortalecimento da identidade local.
Tais movimentos passaram fortalecer a construção identitária do povo local, frente às
reivindicações em prol do bem coletivo, principalmente referente à defesa e luta pelo
território.
Na percepção de Souza (2007), nas comunidades tradicionais a identidade faz parte
da formação dos movimentos e eles crescem em função dessa identidade, em meio a todos os
processos socialmente construídos.
Para as comunidades tradicionais [...], a identidade é parte constitutiva da formação
dos movimentos, eles crescem em função da defesa dessa identidade, de existência
coletiva passam a grupos mobilizados em meio a processos de construção social
identitária definida pela defesa e reivindicação de seus territórios específicos.
(SOUZA, 2007, p.582).

Os movimentos sociais e socioambientais são fortalecidos e fortalecem as lutas


travadas pela classe de homens e mulheres do campo, cidadãos que vivem e reexistem a partir
das relações que estabelecem com a natureza, que ao manipulá-la retiram seu sustento e
constroem sua identidade territorial, o seu sentimento de pertencimento que os torna únicos e
símbolos da resistência.
Dentre os movimentos sociais mais significativos, tem-se o denominado Movimento
dos Povos da Floresta que caracterizava a luta dos seringueiros, índios e populações
tradicionais da Amazônia contra o modelo de exploração de recursos naturais, que
por sua vez ameaçava a forma de produção, a qual se baseava no extrativismo dos
mesmos. (ARNAUD, 2010, p. 37).

17
Com destaque para o cultivo da mandioca para a produção da farinha.
18
Aves e suínos (Pesquisa de Campo).
44

Esses movimentos possuem como marca a luta contra a degradação ambiental e ao


mesmo tempo contra todas as formas de opressão ao trabalhador do campo.
O socioambientalismo é, portanto, a junção de grupos diversos em termos culturais
(índios, seringueiros, castanheiros, pescadores, etc.), mas que se complementam por
sua interatividade e dependência dos recursos naturais e também por enfrentarem
problemas comuns em relação à degradação dos recursos existentes em seu espaço
de vivência. (ARNAUD, 2010, p. 44-45).

Para Cruz (2006), nos últimos tempos as lutas acampadas pelos movimentos sociais
na Amazônia, têm o viés não apenas de superação de mazelas sociais, mas também de
reconhecimento das suas especificidades culturais e de afirmação da sua identidade territorial.
Esses movimentos sociais, emergentes hoje na Amazônia forjados pelos mais
diversos antagonismos têm como referencial e diferencial o fato de serem
movimentos pautados em não só contra a desigualdade, pela redistribuição de
recursos materiais como, por exemplo, a terra, crédito, estradas etc., mas também
são lutas simbólicas por um “novos magmas de significação” que permitam o
reconhecimento das diferenças culturais, dos diferentes modos de lutas e vidas que
expressam em suas diferentes territorialidades. Desse modo, a constituição desses
novos sujeitos se dá nas e pelas lutas de afirmação de suas identidades culturais e
políticas pautadas na territorialidade, logo, são lutas pela afirmação de suas
identidades territoriais. (Cruz, 2006, p. 81).

É pela busca de direitos, de viver com dignidade tendo acesso a terra e aos serviços
sociais e políticos, que os movimentos sociais tem- se articulado e organizado no campo
amazônico e paraense. O território é reivindicado como espaço de vivência, cenário de
construção e reprodução de ações e práticas sociais e espaciais, que muito dizem respeito
sobre como vive a comunidade, sua dinâmica cotidiana e seus costumes historicamente
construídos.
Essas novas formas de organização política implicam em novas táticas e estratégias
levando a uma ampliação das pautas reivindicatórias na luta por direitos que vão
dos direitos sociais básicos como saúde, educação, terra, crédito, bem como pelo
reconhecimento de direitos culturais, como o direito as formas diferenciais de
apropriação e uso da terra e dos recursos naturais, formas diferentes de cultos e
valorização e reconhecimento dos conhecimentos acumulados por tais populações
etc. (CRUZ, 2006, p. 79).

Na Amazônia, os movimentos sociais participantes da criação das RESEX’s são


majoritariamente formados por sujeitos natos do território, tais sujeitos se mobilizam,
inicialmente, tendo como objetivo frear a manipulação predatória dos recursos naturais,
especialmente o madeireiro, que favorece a apropriação ilegal da terra e a expulsão de muitos
moradores. A introdução do capital por meio das grandes empresas madeireiras tem se
apresentado como uma das principais problemáticas que há décadas aflige e provoca
potenciais conflitos no campo amazônico.
Com a introdução do capital os povos e as comunidades tradicionais veem toda a sua
dinâmica de vida ser profundamente alterada. Diante da situação buscam mecanismos de
45

resistência com os quais possam enfrentar a realidade imposta, reivindicar melhorias sociais,
acesso a direitos constitucionais e a continuidade do seu estilo de vida, negligenciados pelo
grande capital e muitas vezes pelo próprio Estado.
A resistência dos Povos e Comunidades tradicionais se dá, portanto, na dialética
conflituosa marcada pela apropriação específica do território por estes grupos em
oposição à expropriação guiada pelo capital. Enquanto os primeiros primam pela
preservação dos recursos naturais através de uma profunda sinergia entre território e
subsistência, permeados pelas identidades peculiares, o capital trata de invisibilizar
estes grupos, esvaziando o território de suas significações (sociais, culturais,
ancestrais...) e visando somente o lucro que dele pode extrair, através da
monocultura, de megaprojetos de infra-estrutura ou exploração ilimitada dos
recursos naturais. (MONT; GÓMEZ, 2010, p. 5).

Nesse contexto, a luta travada pelos movimentos sociais pertencentes à Reserva


Extrativista Arióca Pruanã fez-se e faz-se indispensável, quando suas reivindicações
caminham no sentido de garantir a conservação do meio natural, assegurar direitos sociais,
acesso a terra e ao território, bem como, manter viva a própria comunidade, que estava sendo
“estrangulada” pelo território capitalista, para o qual a dinâmica de uma comunidade
tradicional não tem importância alguma.
Foi no campo de disputa, resistência e luta que a RESEX Arióca Pruanã foi criada no
município de Oeiras do Pará, e desde então, passou a normatizar sobre a dinâmica de vida das
comunidades e seus moradores.
A maioria das comunidades pertencentes à RESEX possuem entre quinze e trinta e
cinco famílias, com aproximadamente cinco membros por família. Calcula-se que atualmente
moram na RESEX Arióca Pruanã, aproximadamente, 2.850 pessoas.

2.2 Organização e funcionalidade da RESEX Arióca Pruanã: Aspectos ambientais e


administrativos na comunidade Terra Alta

Nos meses seguintes à criação da RESEX Arióca Pruanã, foi realizada uma grande
assembleia19 que contou com a participação de mais de 300 (trezentas) pessoas, incluindo
moradores das comunidades, autoridades locais e de outras esferas e representantes de
diversas instituições.
Na oportunidade fizeram-se presentes: Colônia de Pescadores de Oeiras do Pará-
Z50, Igreja Assembleia de Deus, Igreja Católica, Sindicato dos Trabalhadores e
Trabalhadoras Rurais de Oeiras do Pará- STTR, Associação de Mulheres Produtoras Urbanas
e Rurais de Oeiras do Pará, representante da RESEX Ipau-Anilzinho/Baião, Secretaria da

19
A assembleia foi realizada no dia 11 de fevereiro de 2006, no Templo da Igreja Evangélica Assembleia de
Deus, em Oeiras do Pará (ATA DA AMOREAP, 2006).
46

Mulher do CNS/Pará e representante da RESEX Mãe Grande Curuçá, representante da


RESEX Ilha do Combú/Belém, Deputado Estadual Ailton Faleiro, Pesquisador da UFPA,
Poder Legislativo Municipal, Poder Executivo Municipal, Secretaria Municipal de
Agricultura e Meio Ambiente e a Comissão Contra a Grilagem de Terras em Oeiras do Pará-
CCGO (ATA DA AMOREAP, 2006)20.
O evento teve como pauta a criação da associação mãe da RESEX, que ficou
denominada de Associação dos Moradores da Reserva Extrativista Arióca Pruanã-
AMOREAP, e mais a proposta do Estatuto.
Segundo o atual Presidente da AMOREAP, a associação está organizada da seguinte
maneira:
É formada por 19 membros, todos moradores e sócios da reserva, ocupando os
cargos de: Presidente, Vice-Presidente, 1º e 2º Secretários, 1º e 2º Tesoureiros,
Diretor de Patrimônio, Diretor de Esporte, Diretor de Comunicação, Diretoria da
Mulher, Diretoria de Relações Públicas, Diretoria de Assistência Social, e mais o
Conselho Fiscal formado por três membros efetivos e três suplentes. (LUIZ DOS S.
TENÓRIO – Pres. AMOREAP, 2018).

Assim, os moradores pertencentes à RESEX são, imediatamente, representados pela


Associação Mãe, a AMOREAP, que ainda não possui sede própria, as documentações
existentes ficam de posse do atual presidente da associação, em sua residência, na sede do
município.
Por ser uma associação formada eminentemente pelos moradores da própria RESEX,
ela desempenha um papel importantíssimo na vida dos moradores. “É uma associação sem
fins lucrativos, destinada a captar recursos e projetos pro desenvolvimento e melhoria da
qualidade de vida dos moradores da RESEX”, declarou o Presidente da AMOREAP.
Para que a associação possa desempenhar todas as atribuições para as quais foi criada
é indispensável que a sua situação jurídica esteja toda em conformidade, e assim apta à
realização de qualquer atividade, como recebimento e gerenciamento de recursos para a
implementação de políticas públicas ou benfeitorias dentro da RESEX.
No entanto, durante a pesquisa o presidente declarou que a AMOREAP estava
irregular, mas estavam trabalhando para que em breve estivesse com a situação jurídica
regularizada21. “Hoje ela tá irregular, mas no momento estamo aproveitando uma

20
Durante o desenvolvimento do presente trabalho, o documento estava de posse do presidente da associação
dos moradores da RESEX, que gentilmente o disponibilizou para análise.
21
Para isso a AMOREAP estava contando com a parceria de um estudante do curso de Educação do
Campo/UFPA/Polo de Oeiras do Pará, que já possuí formação em Contabilidade, e na oportunidade estava
cumprindo atividade de estágio junto à associação.
47

oportunidade de estágio dentro da RESEX, que tá ajudando cuidar das documentações até a
regularização”, declarou Luiz Tenório, presidente da AMOREAP.
Enquanto a Associação Mãe aguarda pela necessária regulamentação, quando
necessita, a RESEX Arióca Pruanã estabelece parcerias com associações de outras RESEX’s
paraenses, para o recebimento e gestão de eventuais recursos alocados à área.
Nos últimos tempos, essa tem sido a alternativa encontrada pela Reserva Arióca
Pruanã para não perder importantes recursos. “Com isso mesmo dessa forma a AMOREAP
tem lutado pra levar melhorias pras comunidades” (LUIZ DOS S. TENÓRIO – Pres.
AMOREAP, 2018).
Além da AMOREAP, que é a Associação Mãe, existem outras 15 (quinze)
associações de moradores22, dentro da RESEX Arióca Pruanã.
Figura 4- Quadro das associações da RESEX Arióca Pruanã
Continua
Data da
Nº Razão Social/ Nome situação Objetivos Endereço/
fantasia cadastral Comunidade
Atividade de
Ass. Dos Produtores Rurais
01 Associações de Rio Jarité
da Comunidade
23/06/2001 defesa de direitos
Jarité/APROJE
sociais
Atividade de
Ass. Dos Produtores
02 Associações de Vila Valério/Rio
Agrícolas e Extrativistas do
21/01/2002 defesa de direitos Arióca
Rio Arióca/APAERA
sociais
Atividades de
Ass. Dos Produtores Rurais
03 Associações de
e Extrativistas da Terra Alta
03/11/2003 defesa de direitos M/D23 do Rio
do Rio Arióca/APAETA
sociais Arióca, s/n

Atividade de
Ass. Dos Produtores Rurais
04 Associações de M/D do Rio
e Extrativistas da Palmeira
03/11/2003 defesa de direitos Pruanã, s/n
do Rio Pruanã/APREP
sociais
Atividade de
Ass. Dos Produtores rurais
05 Associações de Vila
do Melancial/APROMEL
03/11/2005 defesa de direitos Melancial/Zona
sociais Rural

22
Os levantamentos das informações sobre as associações existentes na RESEX Arióca Pruanã e a elaboração do
quadro se deram a partir de acesso ao site http://www.receita.fazenda.gov.br/PessoaJuridica/CNPJ.
23
Margem Direita.
48

Figura 4- Quadro das associações da RESEX Arióca Pruanã


Conclui
Data da
Nº Razão Social/ Nome situação Objetivos Endereço/
fantasia cadastral Comunidade
Atividade de
Ass. dos Produtores
06 Associações de Vila Castanheiro -
Agrícolas e Extrativistas do
28/11/2005 defesa de direitos M/D do Rio
Castanheiro/ APAEC sociais Oeiras
Atividade de
Ass. dos Produtores
07 Associações de Vila Melancial -
Agrícolas e Extrativistas da
28/11/2005 defesa de direitos M/D do Rio
Vila Melancial/ APAEVIME sociais Oeiras
Atividade de
Ass. Dos Produtores Rurais
08 Associações de Comunidade
e Extrativistas da Nova 09/12/2005
defesa de direitos Nova Judeia
Judeia/APRENJ
sociais
Atividade de
Ass. dos Produtores Rurais e
09 Associações de
Extrativista da Comunidade 04/01/2006
defesa de direitos M/D Rio Arióca
Jacarequara/ APREJA sociais
Atividade de
Ass. dos Produtores Rurais e
10 Associações de M/E24 do Rio
Extrativista da Comunidade 22/03/2006
defesa de direitos Oeiras
Ribeira/ ADOSPAER
sociais
Atividade de
Ass. dos Produtores Rurais e
11 Associações de M/E do Rio
Extrativistas da Comunidade 18/04/2006
defesa de direitos Arióca
São Raimundo/ APRESAR
sociais
Atividade de
Ass. dos Produtores Rurais e
12 Associações de M/E Rio Oeiras
Extrativista de São
22/03/2006 defesa de direitos
Sebastião/ APRUESS
sociais
Atividade de
Ass. dos Produtores Rurais
13 Associações de M/D Rio Oeiras
do Rio Preto/ ASPRIP
09/02/2015 defesa de direitos
sociais
Atividade de
Ass. dos Produtores Rurais
14 09/02/2015 Associações de M/E Rio Oeiras
do Martinho/ APROMART
defesa de direitos
sociais
Atividade de
Ass. dos Produtores Rurais e
15 Associações de Comunidade Bela
Extrativista da Bela Vista/
09/02/2015 defesa de direitos Vista, Rio Oeiras
APREBEV
sociais
Fonte: http://www.receita.fazenda.gov.br/PessoaJuridica/CNPJ

24
Margem Esquerda.
49

Com base na data da situação cadastral, observou-se uma grande movimentação


quanto à inscrição de associações junto à Receita Federal, justamente no período
compreendido entre as mobilizações em favor da RESEX e no ano seguinte à sua criação.
Mesmo as associações com data cadastral num período bem superior à constituição da
Reserva, como é o caso da ASPRIP, APROMART e APREBEV, possuem data de entrada
junto à Receita em anos bem anteriores, coincidido com o período de mobilização e criação
da UC.
Essas associações de moradores foram criadas, inicialmente, tendo como principal
atribuição fortalecer o movimento reivindicatório à criação RESEX. Sendo assim, foram
fundamentais somando forças nos atos públicos realizados na época.
Após a RESEX ter sido criada, vale ressaltar certas questões que contribuíram para o
enfraquecimento em que a maioria dessas associações se encontra. Uma das primeiras
questões é que apesar das associações terem um registro junto à Receita Federal, muitas foram
criadas, mas nem pelo menos possuíam pessoas efetivamente associadas, já outras até tinham
e têm associados, porém, não ao ponto de gerar receitas para a manutenção da associação.
Tais questões implicaram para que esses movimentos emergissem logo na
inadimplência, assim como, no estado de arrefecimento após terem conseguido sua principal e
mais importante conquista, a criação da RESEX Arióca Pruanã.
Criada a RESEX Arióca Pruanã, este território passou a ser gerenciado pelo ICMBio,
órgão federal que executa as ações do Sistema Nacional de Unidades de Conservação,
realizando bimestralmente visitas à Reserva. “A gestão da unidade é realizada apenas por um
gestor pra desenvolver diversas atividades inerentes à UC, como fiscalização, monitoramento,
educação ambiental, reuniões comunitárias, reuniões do Conselho Deliberativo” (PATRICK
JACOB- Chefe da RESEX Arióca Pruanã, 2018).
O Conselho Deliberativo da RESEX Arióca Pruanã foi criado pela Portaria nº 83, de
09 de julho de 2012, e no seu Art. 2º, trata da composição do Conselho a partir de
representações da administração Pública e da sociedade civil.
“O Conselho é gerido pela maioria de representantes das comunidades e mais as
entidades públicas e da sociedade civil”, declarou o gestor da Reserva. “O Conselho
Deliberativo tá organizado da seguinte forma: conselheiros representante do Meio Ambiente,
Educação, Agricultura, Assistência Social, INCRA, CNS, UFPA, EMATER, presidência do
ICMBio, e moradores representantes de todas as comunidades locais” (LUIZ DOS S.
TENÓRIO – Pres. AMOREAP, 2018).
50

Formado em sua maioria pelos próprios moradores das comunidades, o Conselho


Deliberativo se configura como a instituição do poder local e meio pelo qual os usuários
devem debater e tomar as decisões em consonância com as necessidades e interesses da
coletividade. Nesse sentido, segundo a Portaria de criação, o Conselho Deliberativo da
RESEX, tem como finalidade contribuir para o efetivo cumprimento dos objetivos de criação
e implementação do plano de manejo da unidade (ART. 1º).
Referentes às parcerias entre a RESEX Arióca Pruanã e demais instituições quanto
ao desenvolvimento de programas e/ou políticas dentro da Unidade, o presidente da
AMOREAP, declarou que “parceria temos com o IFPA, CNS, IFT, IPAM, IEB, INCRA,
Prefeitura Municipal, embora pouca mas temos, Memorial Chico Mendes, AMOREMA,
MDS, UNB e Fundo Amazônia”. Outras instituições como a EMATER, UFPA, IEB, STTR e
SEMMA, também têm estabelecido parceiras com a RESEX Arióca Pruanã.
“Esses programas e/ou políticas públicas agregam um aumento de renda, além de
proporcionar mais uma alternativa de melhoria de vida às populações locais”, enfatizou o
chefe da RESEX. Dentre os programas e/ou políticas estão o Projeto Sanear Amazônia, o
Manejo Florestal Comunitário e o programa Bolsa Verde.
Por exemplo, o Fundo Amazônia é quem tá arcando com o recurso pro IFT trabalhar
na capacitação e orientação do plano de manejo florestal comunitário. Do MDS foi
de onde veio o recurso pro Projeto Sanear Amazônia, pra construção do saneamento
básico pra população da RESEX. Ele repassa o recurso pro Memorial Chico
Mendes que administra o recurso a nível nacional e repassa para as instituições a
nível de Estado. Na Arióca Pruanã a entidade que administrou o trabalho foi a
AMOREMA, porque a AMOREAP está inadimplente. Em média entre todas as
comunidades, 260 famílias foram agraciadas. (LUIZ DOS S. TENÓRIO – Pres.
AMOREAP, 2018).

Para as famílias beneficiadas pelo Projeto Sanear, a construção de banheiros


sanitários e de sistema de coleta e tratamento de água, significou um ganho muito grande à
saúde e à qualidade de vida, pois, antes os banheiros usados ofertavam pouca ou nenhuma
condição sanitária25 e a água utilizada nas atividades domésticas e para o consumo humano
era diretamente coletada do leito dos rios e igarapés.
Com o programa Bolsa Verde, a cada três meses, as famílias beneficiadas recebem a
importância de R$ 300,00 sacados com o cartão do programa Bolsa Família, esse benefício
sem dúvida representa uma importante fonte de renda, além de contribuir diretamente para a
conservação dos recursos naturais.

25
O banheiro refere-se a uma espécie de casinha, em madeira, construída sobre um buraco escavado diretamente
no solo, a certa distância das residências. Ou simplesmente, qualquer lugar a céu aberto.
51

Pelas informações do presidente da AMOREAP aproximadamente 260 famílias


recebem o Bolsa Verde, sendo que o benefício foi conseguido após muita persistência.
Bolsa Verde, outra luta de novo, uma luta e tanto, fomos revirar, pessoalmente,
papel por papel no ICMBio federal em Brasília, na volta trouxemo o prazo em que ia
receber o Bolsa Verde. Na volta foi feita uma mobilização nas comunidades pra
assinarem os termos, daí pra chegar o Bolsa Verde, foi dessa forma. (LUIZ DOS S.
TENÓRIO – Pres. AMOREAP, 2018).

O programa Bolsa Verde é instituído pela Lei nº 12.512, de 14 de outubro de 2011, e


regulamentado pelo Decreto nº 7.572, de 28 de setembro de 2011, e trata-se de um programa
de transferência de renda.
Esse benefício, criado no âmbito do plano Programa Brasil Sem Miséria, é
destinado àqueles que desenvolvem atividades de uso sustentável dos recursos
naturais em Reservas Extrativistas, Florestas Nacionais, Reservas de
Desenvolvimento Sustentável federais e Assentamentos Ambientalmente
Diferenciados da Reforma Agrária. Também podem ser inclusos no
Programa territórios ocupados por ribeirinhos, extrativistas, populações
indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais, além de outras áreas
rurais definidas por ato do Poder Executivo. O Programa representa um passo
importante na direção de reconhecer e compensar comunidades tradicionais e
agricultores familiares pelos serviços ambientais que prestam à sociedade. (MMA).

Os objetivos do programa visam: incentivar a conservação dos ecossistemas


(manutenção e uso sustentável), promover a cidadania e melhoria das condições de vida,
elevar a renda da população em situação de extrema pobreza que exerça atividades de
conservação dos recursos naturais no meio rural e incentivar a participação dos beneficiários
em ações de capacitação ambiental, social, técnica e profissional. (MMA).
Outro programa implementado logo no início da criação da RESEX Arióca Pruanã,
tratou-se do programa de moradia, por meio do INCRA, em que várias famílias foram
contempladas com a construção de casas, em alvenaria.
Naquela época foi um recurso que veio pelo INCRA via associação e esta repassava
o recurso pra conta do empresário contratado, na época. As casas era no valor de R$
7.000,00. Na época, não tinha uma fiscalização árdua, o dinheiro foi extraviado e
muitas casas não foro terminadas ou feitas. Só aproximadamente 95 casas foro
construídas, e nem todas as comunidades foro agraciadas com a construção dessas
moradias. (LUIZ DOS S. TENÓRIO – Pres. AMOREAP, 2018).

Juntamente com a construção dessas casas as famílias também tiveram acesso a um


crédito com o qual podiam adquirir diversos itens de trabalho, eletrodomésticos, dentre
outros. “Além das casas também veio um fomento no valor de mil e duzentos reais pra
adquirir produtos como: enxada, terçado, botas, carrinho de mão, caixa d’água, motor bomba,
geladeira, fogão, botijão, e também deixar uma parte pra alimentação” (LUIZ DOS S.
TENÓRIO – Pres. AMOREAP, 2018).
52

Mesmo com as benfeitorias e serviços já destacados, e que possuem o objetivo de


melhorar a vida dos usuários da RESEX Arióca Pruanã, certas dificuldades ainda são
enfrentadas no âmbito administrativo e acabam por dificultar as ações dentro da unidade. A
“falta de recursos humanos é a principal dela, pois possui apenas um gestor desde 2013 e sem
perspectiva de ser encaminhado outro, burocracia interna do instituto e dos demais órgãos,
falta de comprometimento da prefeitura local e suas respectivas secretarias e de outros órgãos
também”, destacou o chefe da RESEX.
Entendendo que, para que os efeitos da criação de uma Reserva Extrativista se
tornem mais consolidados é necessário que todos os envolvidos no processo cumpram com as
suas devidas responsabilidades. Assim:
De modo geral a eficácia das políticas ambientais depende de uma legislação
atualizada e de uma integração cada vez mais consistente entre a União, os estados e
os municípios para a consolidação da Gestão Ambiental com políticas permanentes;
e por fim, com recursos humanos e financeiros para a real existência de uma política
ambiental deixando para trás a visão de outrora, de caráter (inicial) estritamente
preservacionista e voltado as ações de comando e controle. (ARNAUD, 2010, p.
35).

Além das situações relatadas pelo gestor da RESEX Arióca Pruanã que dificultam o
desenvolvimento de políticas dentro da área, há ainda questões ligadas à falta de
esclarecimento sobre os instrumentos de gestão criados com a presença da UC. Com isso,
tem- se ainda determinados comportamentos de moradores, quanto à continuidade de antigas
práticas que vão de encontro às políticas da Unidade.
Olha, são vários né, muitas dificuldades encontradas pela diretoria, uma delas é que
foi criada a associação sem muitos esclarecimentos do quê que era uma associação,
que precisava os sócios pagar uma taxa, sem recurso não tem como andar. Outras,
são pessoas que ainda não entenderam que a reserva é uma coisa significante pra
elas, onde eles caça, pesca, faz roça, de onde vai tirar o sustento da família. Pessoas
que levam pessoas de fora pra pescar e caçar. E venda ilegal da madeira, que as
pessoas continuam fazendo. (LUIZ DOS S. TENÓRIO – Pres. AMOREAP, 2018)

No entanto, de maneira geral, o gestor da RESEX e o presidente da associação dos


moradores apontaram que mudanças significativas aconteceram na vida dos pertencentes, uma
vez que, “hoje em dia ocorre uma maior responsabilidade tanto social como ambiental da
unidade por parte das pessoas que residem dentro da unidade, trazendo mais confiabilidade à
gestão através do comprometimento das diversas atividades sendo executadas dentro da
RESEX”, declarou o chefe da RESEX.
O presidente da Associação dos moradores também ressaltou mudanças positivas a
partir da criação da RESEX:
Olha a mudança da população, que eles já tivero hoje, que eu vejo, por exemplo,
com o projeto sanear as pessoas conseguiro aprender como cuidar um pouco da sua
saúde, porque saneamento básico é saúde, né? E recebero uma capacitação como
53

usar, como cuidar dum banheiro, que eram acostumados todo tempo lá no mato, né,
aquela dificuldade. Essas são umas das mudanças. Com relação também a parte
ambiental eles também já tivero mudança hoje, uma parte dela, acredito que 60% da
população já sabe que tem que preservar pra poder ter por mais tempo, né? ele faz o
possível pra não queimar a mata já, já fazem o aceiro direto, já faz o mutirão
mesmo, então foi uma aprendizagem que eles conseguiro fazer depois da criação da
reserva, isso veio com a criação da reserva. (LUIZ DOS S. TENÓRIO – Pres. da
AMOREAP, 2018).

Com isso, para o gestor da RESEX as perspectivas para o momento se dão no sentido
de “melhoria de vida e renda”. O presidente da Associação de moradores deposita suas
esperanças no plano de manejo comunitário, esperando que a população entenda que o
trabalho coletivo é algo benéfico às comunidades.
Para o futuro “proporcionar mais educação de qualidade para os moradores através
das parcerias com as universidades públicas federais (UFPA E IFPA)”, enfatizou o gestor da
RESEX Arióca Pruanã. Educação se mostrou uma demanda também nas colocações do
presidente da AMOREAP.
No caso futuro, por exemplo, o que nós estamos hoje caminhando para isso é as
parcerias como com a UFPA e IFPA [...] quem sabe a longo prazo nós temo a
educação, uma universidade, o ensino superior lá dentro, essa é a nossa esperança.
Então nossa esperança no caso futuro é formar, capacitar os jovens de hoje pra que
mais tarde eles saiba como viver, uma vida digna e preservando sempre a natureza,
dessa forma. (LUIZ DOS S. TENÓRIO – Pres. AMOREAP, 2018).

Educação a serviço não somente da formação acadêmica como também para uma
educação ambiental, sem dúvida, será um ganho muito grande para a RESEX, e, sobretudo,
para a vida dos próprios pertencentes que poderão ter a oportunidade de se capacitar e
construir novos conhecimentos morando na própria comunidade.
Referente à demarcação da RESEX Arióca Pruanã existem placas fixadas ao longo
da área, localizadas às margens dos rios e em áreas terrestres, indicando o território da
mesma.
54

Figura 5 - Placa de demarcação da área da RESEX Arióca Pruanã, localizada às


margens de rio

Fonte: SANTANA, S. dos R. (2018).

Semelhante a essa existem outras placas distribuídas ao longo dos rios que compõem
a hidrografia da RESEX Arióca Pruanã, nelas estão impressas, além da denominação da UC
informações como o decreto de criação, o órgão federal responsável pela Unidade e as
recomendações de acesso à área da RESEX.
Também há placas semelhantes em vários pontos de área terrestre da RESEX Arióca
Pruanã, delimitando e tornando visível o território, mata à dentro.
55

Figura 6 - Placa de demarcação da área da RESEX Arióca Pruanã, localizada em área de


terra firme

Fonte: SANTANA, S. dos R. (2018).

No período da pesquisa o presidente da AMOREAP relatou que estava sendo


programado mais um meio que iria contar com o auxilio de GPS nos serviços de demarcação
e monitoramento da área, “agora na data do dia 16 a 27 de junho, nós vamos montar os
piquetes na demarcação por trás da reserva pra poder monitorar por GPS”.
Esse mecanismo se mostra de muita valia, uma vez que tende facilitar o trabalho de
monitoramento da área, proporcionando melhores resultados técnicos e controle da área,
contribuindo para uma maior proteção dos recursos naturais existente, principalmente os
madeireiros, presentes em toda a RESEX.
Na sua extensão a RESEX Arióca Pruanã apresenta área de terra firme e várzea, cada
uma por sua vez vai ser condicionante dos aspectos paisagísticos e das atividades
desenvolvidas pelos moradores. Podendo ainda uma mesma área apresentar ocorrência de
terra firme e várzea, essa é uma característica observada na comunidade Terra Alta, no rio
Arióca.
56

Segundo informações do presidente da AMOREAP, a Terra Alta é a maior


comunidade da RESEX em número de famílias, com cerca de 43 famílias, apresentando um
número aproximado de 215 moradores.
Figura 7 - Aspectos da comunidade Terra Alta, no rio Arióca - RESEX Arióca Pruanã

Fonte: SANTANA, S. dos R. (2018).

Na imagem acima, tem-se a chegada à vila da comunidade Terra Alta, que fica
localizada à margem direita do rio Arióca. Porém, as famílias pertencentes à comunidade
Terra Alta residem tanto em uma margem quanto em outra do mesmo rio.
57

Figura 8 - A vila da comunidade Terra Alta, no rio Arióca, na RESEX Arióca Pruanã

Fonte: SANTANA, S. dos R. (2018).

Na vila da comunidade Terra Alta, na imagem, existem menos de dez residências, a


centralidade do lugar está na Casa de Oração onde se realizam as cerimônias religiosas e no
barracão, ao lado, onde são realizadas as demais programações comunitárias (na imagem as
duas construções se distinguem pelas cores azul e branca).
Na época da construção das casas, em alvenaria, logo no início da criação da
RESEX, algumas famílias da comunidade, em questão, foram contempladas, bem como,
receberam o fomento para a aquisição de materiais de trabalho, de objetos domésticos e de
gêneros alimentícios.
“Foi, arrecebi, primeiro foi o fomento que veio né, era dois mil e pouco naquele
tempo, que foi recebido, pra material que a gente pidisse, também veio uma despesa26 [...],
depois veio as casas né, [...]” (ENTREVISTADO H, 2018). No entanto, pela falta de
responsabilidade de quem na época gerenciou e executou o serviço, para muitas famílias esse
benefício só ficou no papel.

26
Maneira, local, de referir-se a produtos alimentícios.
58

“Nem todo tem as casa, o nome tá como teja pronto só que não existe, tá pronto no
documento, só que não tá pronto nem nada” (ENTREVISTADO H, 2018). Para além de uma
situação alarmante de falta de compromisso com a gestão e aplicabilidade de recurso público
foi, sobretudo, um imenso desrespeito para com muitas famílias que poderiam ser agraciadas
com uma moradia mais digna.
“É arguns já recebeu casa né, nós temo uma casa em documento pronta, mas nós
nunca recebemo, o documento tá pronto né, que nós temo uma casa, mas nós nunca recebemo,
é umas quantas no Arióca que o documento tá pronto mas ninguém recebeu”
(ENTREVISTADA K, 2018). As famílias da Terra Alta são em sua maioria muito humildes,
os moradores que se encontram na situação relatada continuam morando em suas casas de
madeira, que embora agradáveis para se viver, sem dúvida, tem uma vida útil muito inferior a
de uma construção, em alvenaria.
Anterior ao período da pesquisa, diversas famílias em todas as comunidades da
RESEX foram contempladas pelo Projeto Sanear, inclusive várias famílias da Terra Alta.
“Depois das casa veio os banheiro agora, foi recebido, o pessoal recebero, tão recebendo”
(ENTREVISTADO, H, 2018).
Figura 9 – Construção de sistema de coleta de água e banheiros pelo Projeto Sanear
Amazônia

Fonte: SANTANA, S. dos R. (2018).


59

Tais benfeitorias são ganhos imensos a toda a comunidade, possibilita a melhoria da


qualidade de vida e saúde às famílias, visto que condição sanitária insalubre e água
contaminada têm causado inúmeras moléstias que acometem a população menos favorecida
no mundo todo. Foi possível observar a satisfação das famílias por esses serviços e mesmo o
cuidado com a higiene dos banheiros, colocando placas de comando aos usuários.
Dessa vez a moradora K, que não foi contemplada com a construção das casas, em
alvenaria, foi de fato agraciada pelo projeto Sanear, “banheiro nós temo porque eu foi em
cima27” (ENTREVISTADA K, 2018).
As famílias que foram contempladas pelo Projeto Sanear tem pela primeira vez
acesso as condições sanitárias e coleta de água com o mínimo de dignidade, “pra gente como
a gente, melhorou sobre o abastecimento de água, pra gente foi um coisa boa, banheiro e
abastecimento de água” (ENTREVISTADO W, 2018).
Referente à composição da renda das famílias da comunidade Terra Alta, algumas
famílias tem acesso a benefícios sociais como aposentadoria pelo STTR e salário
maternidade, no caso de mulheres que são associadas no mencionado sindicato. Vale ressaltar
ainda que nos últimos anos muitas famílias se tornaram beneficiárias de programas sociais
como Bolsa Família, que tem sido de fundamental importância para a composição da renda.
Em relação ao Programa Bolsa Verde que somava bastante para a renda das famílias,
foi relatado que desde o início do ano em curso o benefício não estava sendo repassado às
beneficiárias, “até a bolsa verde cortaram agora das mulherada que ganhavo, né, acho que foi
até em janeiro que recebero parece” (ENTREVISTADO H, 2018).
“Porque veio o bolsa verde, mas tiraro, que podia dá uma ajuda né, tiraro, saiu sim,
quem recebia era trezentos reais de três em três mês, mas já dava uma ajuda né, e agora não,
agora não recebe mais” (ENTREVISTADA K, 2018). Os benefícios e programas citados e
que somam para a renda familiar se configuram como “outras estratégias de reprodução social
e possibilidade de geração e renda” (HEIDRICH, 2009, p. 285), pelos moradores da
comunidade Terra Alta.
Além de tais estratégias, os moradores dessa comunidade também desenvolvem em
seus sítios estratégias diretamente ligadas “à economia rural” (HEIDRICH, 2009, p. 285),
como importantes componentes da renda e do sustento familiar. Estas serão mais bem
detalhadas, no capítulo seguinte.

27
Forma, local, de dizer ao reivindicar-se algo.
60

4. Capítulo 3. A COMUNIDADE E SUAS TERRITORIALIDADES NA RESEX


ARIÓCA PRUANÃ EM OEIRAS DO PARÁ

Como a comunidade poderá acessar aos direitos e ao mesmo tempo entender a


situação em que se encontra após alguns anos de criação da RESEX Arióca Pruanã? Como se
comporta a legislação, a questão do uso da terra e dos recursos? Como se dão os processos de
conflitualidades e territorialidades criadas por essas questões novas na vida da comunidade?
São essas questões presentes na Geografia da RESEX Arióca Pruanã e que
tentaremos responder neste capítulo.

3.1 Caracterização rural e situação fundiária, conflitualidades e territorialidades


na comunidade Terra Alta – RESEX Arióca Pruanã

3.1.1 Caracterização rural e situação fundiária

Com a criação da RESEX as comunidades ingressaram em novas etapas de


mobilização e reivindicação referente à consolidação do território, que diz respeito ao acesso
aos diversos meios pelos quais possam obter as condições necessárias de existência em
consonância com os objetivos de uma reserva extrativista, que vai desde as formas de uso dos
recursos, atendimento por políticas sociais à regularização das terras da unidade.
Tudo isso às vezes colocando em questão os aspectos legais da existência de uma
RESEX, em termos legais, e até mesmo propondo adequações e negociações àquilo que a lei
não abarca.
Nesse sentido, faz-se indispensável o desenvolvimento de estratégias territoriais,
pelos moradores, que em seu caráter multidimensional e da ação humana, se configuram
como mecanismos pelos quais se exerce a pressão junto ao Estado e demais atores, visando o
atendimento de suas necessidades, bem como, diz respeito à promoção das condições
necessárias a sua sobrevivência no território.
Referente às estratégias relacionadas às fontes de renda e sustento familiar, pelos
moradores da comunidade Terra Alta. Identificou-se que as principais atividades rurais
desenvolvidas, são: a agricultura, a criação de animais de pequeno porte, o extrativismo do
açaí e da bacaba, a pesca e a caça. Cada uma ocupando um grau de importância na vida do
morador.
Dentre essas atividades o trabalho na roça se destaca na vida das famílias, pois, no
roçado, além da mandioca, os moradores plantam outros produtos como milho, arroz, batata
doce, cará, gengibre, abacaxi, banana, dentre outros, que servem prioritariamente para o
61

sustento familiar, podendo o excedente ser vendido, principalmente na sede do município.


“Geralmente são em áreas de terra firme situadas a mais de 200 metros das margens dos rios,
que os comunitários fazem as roças onde cultivam principalmente mandioca e milho, dentre
outras plantas” (RELATÓRIO PARAMETRIZADO/MMA).
Figura 10 - Aspectos das roças dos agricultores da comunidade Terra Alta

Fonte: SANTANA, S. dos R. (2018).

São em roças como essa que os moradores da comunidade Terra Alta desenvolvem
suas atividades agrícolas. A roça da imagem está em fase de cultivo da mandioca, ao mesmo
tempo em que se observa a presença de pés de bananeiras plantados na mesma área, assim
como outras culturas, como o abacaxi, na imagem abaixo.
62

Figura 11 – Aspectos das roças dos moradores da comunidade Terra Alta

Fonte: SANTANA, S. dos R. (2018).

Nessa parte da roça se observa uma prática muito interessante realizada


culturalmente pelos agricultores, o espaço de solo exposto, na verdade já está sendo usado no
que chamam de “replanta” da mandioca, dentro de alguns dias novos pés de maniva estarão
brotando no local. Observa-se ainda que além do replantio da mandioca, há a presença de pés
de abacaxi já em fase de crescimento bem avançado, demostrando a pluralidade do uso do
roçado pelos moradores.
“É, de trabalho tenho também o plantio do limão, né, na época da lavura é pra
qualquer tipo de coisa, arroz, milho, mandioca, mas é mas a farinha mesmo, a mandioca”
(ENTREVISTADO H, 2018). Assim, dentre os produtos relatados, a mandioca28 para a
fabricação da farinha, adquire centralidade na vida da família sendo um componente,
culturalmente, indispensável na alimentação dos moradores e importante na composição da
renda mensal da família.
“Eu uso também pra vender, a gente faz é negócio de dez, quinze pacote, a maior
parte fica pra consumi” (ENTREVISTADO H, 2018). Em algumas famílias essa produção é
bem maior chegando a mais de trinta pacotes/mês, desse montante a maior parte é destinada à

28
Manihot esculenta Crantz (Disponível em: https://www.embrapa.br>cultivo).
63

venda, “é pra venda também e pro sustento familiar, baseado, nada, nada é feito mais de trinta
pacote, pro consumo é tirado uns três pacote” (ENTREVISTADO W, 2018).
A farinha é produzida ainda de forma bem rudimentar, assim, dependendo do volume
da produção, o trabalho que se tem também é dispendioso ao agricultor.
Figura 12 - Aspectos do local onde a farinha é produzida

Fonte: SANTANA, S. dos R. (2018).

Essa é uma “casa de forno”, é em espaço similar a esse em que ocorre a fabricação
da farinha usada para o consumo familiar e para a comercialização, no porto da casa ou na
sede do município.
Segundo informaram, dependendo da disponibilidade do produto, o valor da venda
do pacote da farinha (30 kg) fica em torno de R$ 60,00 à R$ 110,00. Conforme a Entrevistada
K (2018), no período de realização da pesquisa a produção da farinha estava em baixa no rio
Arióca, um dos motivos é que os roçados que foram plantados no início do ano ainda não
estavam aptos à colheita29. Assim, os moradores estavam colhendo o que ainda restava nos
roçados ou simplesmente não tinham roça.

29
No geral, as famílias começam cultivar a mandioca, próximo ou após completar um ano de plantio.
64

Além da roça, muitos moradores também trabalham na atividade da extração de


frutos da natureza, com destaque para o açaí.
Figura 13 - Aspectos do açaizal, na comunidade Terra Alta

Fonte: SANTANA, S. dos R. (2018).

É de açaizal como esse, ou mesmo das árvores existentes às margens dos rios, que as
famílias durante o período da safra colhem os frutos usados para o consumo familiar e para a
venda.
“É o negócio do açaí, a bacaba e a farinha, o açaí os piquenos vendo, vendo bem
mesmo na época do açaí” (ENTREVISTADA K, 2018). Durante a pesquisa o açaí estava no
início do período da safra, com isso a família já observava significativa melhora na
disponibilidade do produto tanto para o consumo como para a comercialização.
Dessa maneira, conforme se observou acima nos relatos da Entrevistada K (2018), no
período da safra do açaí a economia da família sofre um significativo aquecimento. Isso sem
dúvida nenhuma possibilita a aquisição de bens e produtos que venham favorecer a melhoria
da qualidade de vida do trabalhador e da família dele.
65

Além disso, o açaí, assim como a farinha, é um componente essencial à segurança


alimentar e muito apreciado pelas famílias locais e em praticamente todo o território do
município de Oeiras do Pará.
A criação de animais de pequeno porte como aves e suínos, até foi relatada, mas não
chegou a ocupar um lugar de destaque na vida das famílias. A criação de galinha, por
exemplo, é bastante reduzida, com a presença de pouquíssimos indivíduos nos terreiros das
casas.
Figura 14 - Aspectos da criação de aves pelas famílias da comunidade Terra Alta

Fonte: SANTANA, S. dos R. (2018).

Nessa residência a dona da casa relatou que até já possuiu uma significativa criação
de aves, mas se tornou difícil manter devido a presença de predadores como gaviões e outros
animais.
No caso da pesca e da caça, o que os moradores conseguem capturar, artesanalmente,
serve somente para a alimentação da família.
66

Figura 15 - Aspectos da pesca artesanal na comunidade Terra Alta

Fonte: SANTANA, S. dos R. (2018).

Na imagem, tem-se um morador pescando com o uso de caniço, instrumento de


pesca confeccionado pelos próprios moradores, sem potencial predatório.
Por outro lado, existe um potencial conflito envolvendo as atividades de caça e pesca
na comunidade Terra Alta. A questão será tratada mais detalhadamente, logo à frente.
Assim, de maneira geral, dentre as principais características de geração de renda e
sustento pelas famílias da comunidade Terra Alta, estão os benefícios e programas sociais,
enquanto estratégias “externas à economia rural” (HEIDRICH, 2009, p. 283), as atividades
agrícolas, especialmente, pelo cultivo da mandioca e a coleta do açaí.
Porém, mesmo que a promoção da renda pela extração e venda dos recursos
madeireiros, não apareça nos relatos de atividade desenvolvida pelas famílias, ela continua
67

existindo. A situação também será abordada adiante, com maior atenção, visto que, tal
ocorrência se inscreve no campo das relações de poder entre os atores que constituem a
RESEX, e principalmente das conflitualidades dentro da UC.
As maneiras acima relatadas são as formas pelas quais os moradores se mantêm,
alimentam suas famílias e adquirem, mesmo que de forma mínima, as condições necessárias à
sua vivência dentro da RESEX. Embora, essa não tenha sido uma tarefa fácil, em muitos
momentos, muitas famílias passam por situação de extrema dificuldade.
Eu digo assim, na nossa reserva tá existindo muita fome, a fome não é fácil né,
muita fome memo, chega um tempo que a gente não vê mas peixe, não vê nadinha,
aí passa quantidade de fome mesmo, em toda parage, tem gente que não procura
fazer uma roça, tem gente que só tá fiado também no açaí e quando acaba o açaí? e
pronto. (ENTREVISTADO H, 2018).

Diante desse cenário e no âmbito da vivência em comunidade, a percepção que os


moradores possuem quanto ao período posterior à criação da RESEX, são bastante
antagônicas entre si.
Foi possível observar a opinião de quem ainda não consegue enxergar, em certo
sentido, a RESEX como proponente de melhorias à população local. “Eles faz aquela reunião
faz, mas não afirmo nada, porque não vejo aparecer nada. A situação é, o cara tem que tirar,
matar caça, tem que fazer tudo isso porque não tem outro jeito, né” (ENTREVISTADO H,
2018).
Para outros a RESEX tem conseguido cumprir seu papel junto aos moradores, “Pra
mim ela tá regular né, tem gente que acha que não é bom pra uns, pra quem trabalha direito
ela é, pra outros não, outros que se acha prejudicado é porque quer abusar, mas lei tem que
ser cumprida, tem gente que fica brabo quando levo motosserra dele” (ENTREVISTADO W,
2018).
Fica muito claro que a opinião dos moradores em relação à RESEX é conflitante. E,
ainda a percepção que eles possuem em relação à UC está diretamente relacionada à maneira
como interpretam e observam a atuação do gestor, “nunca achemo que ele tenha agido de
alguma coisa pra prejudicar a gente” (ENTREVISTADO W, 2018). Por outro lado, àqueles
que, porventura, venham a ser responsabilizados por algum ato cometido, tendem formular
uma opinião diferente.
No que tange ao recebimento de incentivos e orientações técnicas para melhorar e/ou
potencializar as atividades agrícolas como o plantio da mandioca e outras culturas, os
moradores informaram que ainda não tiveram acesso a esse tipo de política, “na agricultura
68

nunca teve, nunca teve não” (ENTREVISTADO H, 2018). “Não, orientação técnica nunca
tivemo, a gente até sempre cobra30” (ENTREVISTDO W, 2018).
Observou-se que as orientações que costumam obter estão mais relacionadas ao uso e
manipulação dos recursos naturais e da área, “a orientação que nós temo é sobre o acordo de
gestão, de vez em quando temo reunião, eles fica orientando como trabalhar dentro da área da
reserva, a orientação que eles dá é sobre o desmatamento mais, a queimada, pra que tenha um
controle sobre a queimada” (ENTREVISTADO W, 2018).
“Já, já teve oficina, nós participemo, porque a gente faz a roça, mas antes de queimar
a gente tem que fazer a varrida né, pro fogo não brangir a mata, já foi orientação que eles
dero” (ENTREVISTADA K, 2018). No Item 44 e Subitens 44.1, 44.2, 44.3, 44.4, 44.5 e 44.6,
do Capítulo VI, do Acordo de Gestão (2013), da RESEX Arióca Pruanã, trata-se
exclusivamente das medidas que os moradores devem tomar ao desenvolver suas atividades
agropastoris roça. Essas são orientações sempre presentes e repassadas nas reuniões nas
comunidades, conforme se observou nos relatos acima.
Os moradores que têm como uma de suas atividades a produção do açaí pareceram
estar, atualmente, bem mais apoiados em termos técnicos, “orientação técnica só pelo lado do
manejo do açaí, pra quem tem açaizal, né” (ENTREVISTADO W, 2018).
“A EMATER já deu dois curso de manejo do açaí, pela Embrapa já tivemo curso
com açaí nativo” (ENTREVISTADA X, 2018). A orientação técnica é muito importante para
que as atividades extrativistas ou agrícolas passem a apresentar melhores resultados e com
isso o trabalhador tenha a satisfação de usufruir dos frutos do seu labor cotidiano.
Assim, se somados orientação técnica de apoio à produção e mais políticas de
conscientização para o uso responsável e correto dos recursos naturais da RESEX, será um
ganho enorme para o fortalecimento da UC e consequentemente para a melhoria das
condições de vida da comunidade em geral.
Nesse sentido, o Plano de Manejo31, documento no qual deve constar tudo o que
pode ou não ser feito, de que forma, quando e por quem, dentro da RESEX, se faz muito
necessário.
O Plano de Manejo da RESEX Arióca Pruanã ainda não está consolidado, mas
segundo o presidente da AMOREAP, estão trabalhando para em breve torná-lo uma realidade,

30
Maneira local de dizer quando reivindica-se algo
31
O Plano de Manejo é um instrumento técnico de planejamento e gestão das UC’s, constante no Art. 2º, inciso
XVII, e Art. 27, § 1º, da Lei Federal nº 9.985/2000.
69

“olha, nós temos na fase da elaboração, mais ou menos com oito oficina, já fizemo o
mapeamento, e no mês de junho, agora, vamo fazer a demarcação da área”.
A lei do SNUC- Lei Federal nº 9.985/2000, orienta que os Planos de Manejo para
além de dispositivos técnicos, devem ser documentos de elaboração contínua e participativa,
assim todas as decisões neles contidas devem ser tomadas pela coletividade observando todos
os aspectos que fundamentam a unidade de conservação.
O Plano de Manejo, enquanto importante instrumento de gestão e planejamento, deve
ainda contemplar as especificidades das comunidades, especialmente referente às formas de
atividades desenvolvidas pelos moradores, de maneira a diminuir as conflitualidades
existentes até mesmo entre eles próprios.
No âmbito da situação fundiária, no ano em que a RESEX Arióca Pruanã completa
13 (treze) anos de existência, no município de Oeiras do Pará, vale buscar saber como se
encontra a situação da regularização das suas terras, considerando que nem sempre esse é um
processo célere e que somente a criação da Reserva não implica na sua imediata
regularização, do ponto de vista fundiário.
Para isso, é necessário antes que instituições que delegam sobre o assunto, como o
INCRA, juntamente com o órgão gestor, realizem vistorias e levantamentos no interior da
Unidade, a fim de verificar se há a existência de propriedades e imóveis particulares, caso
existam devem proceder os trâmites legais para a desapropriação dessas propriedades,
passando a adquiri-las e integrando-as às RESEX’s.
Segundo o gestor da RESEX Arióca Pruanã, “a RESEX ainda não possui
regularizado sua situação fundiária, apesar de já possuir o CAR32 (Cadastro Ambiental
Rural)”.
O Cadastro Ambiental Rural (CAR) é um instrumento fundamental para auxiliar no
processo de regularização ambiental de propriedades e posses rurais. Consiste no
levantamento de informações georreferenciadas do imóvel, com delimitação das
Áreas de Proteção Permanente (APP), Reserva Legal (RL), remanescentes de
vegetação nativa, área rural consolidada, áreas de interesse social e de utilidade
pública, com o objetivo de traçar um mapa digital a partir do qual são calculados os
valores das áreas para diagnóstico ambiental. Ferramenta importante para auxiliar no
planejamento do imóvel rural e na recuperação de áreas degradadas, o CAR fomenta
a formação de corredores ecológicos e a conservação dos demais recursos naturais,
contribuindo para a melhoria da qualidade ambiental, sendo atualmente utilizado
pelos governos estadual e federal. (MMA).

A regularização fundiária de uma RESEX é ferramenta fundamental para que as


famílias possam ter pleno acesso a terra e ao território, o direito de utilizar os recursos

32
O Cadastro Ambiental Rural foi ciado pela Lei nº 12.651, de 25/05/2012, e regulamentado pelo Decreto nº
7.830, de 17/10/2012, que criou o Sistema de Cadastro Ambiental Rural – SICAR.
70

naturais da área em seu favor e o acesso a políticas públicas. Sobretudo, a regularização


fundiária é um mecanismo de garantia de segurança na terra, pelo qual pode-se inibir o
conflito e a disputa pelo território, entre a população tradicional e outros possíveis atores
como grileiros, fazendeiros, madeireiros, dentre outros.
Acerca de como o INCRA tem atuado na situação da regularização fundiária da
RESEX Arióca Pruanã, o gestor relatou que “o INCRA só veio atuar a dois anos atrás, porém
ainda sem perspectiva de melhora, tendo em vista a situação atual do governo brasileiro em
relação à questão de recursos destinados do INCRA às RESEX’s. Entretanto, o INCRA vem
participando das últimas reuniões do CD da unidade”.
Dessa maneira, a situação fundiária da comunidade Terra Alta, assim como, de todas
as demais comunidades pertencentes, é que ainda estão no aguardo pela efetiva regularização
de suas terras, para que seus moradores tenham mais segurança na terra e possam usufruir dos
benefícios facilitados pela consolidação da regularização fundiária da UC.

3.1.2 As territorialidades e conflitualidades na comunidade Terra Alta dentro da


RESEX Arióca Pruanã

A comunidade Terra Alta, no rio Arióca, tem aproximadamente trinta e sete anos de
existência, sua origem está ligada aos festejos a São Benedito na casa dos próprios moradores
e posteriormente se tornou uma comunidade cristã ligada a Paróquia de Nossa Senhora
D’Assunção, de Oeiras do Pará. Os festejos ao santo continuam sendo realizados, anualmente,
no mês outubro.
No período em que o rio Arióca vivenciou extremos conflitos sociais e impactos
ambientais gerados pelas madeireiras vindas de fora do município de Oeiras do Pará, a
comunidade Terra Alta esteve no centro dessas questões, “a Terra Alta é onde tinha uma
empresa do lado de baixo e tinha também outra do lado de cima, na vila Jacarequara, nós tava
cercado, nós já tava ameaçado” (ENTREVISTADA K, 2018).
Foram tempos difíceis em que os moradores temeram por suas vidas e viram os
recursos naturais, especialmente o madeireiro, ser rapidamente destruído, e ainda em que a
atividade de maquinários provocou a acelerada destruição da floresta impactando diretamente
na disponibilidade e quantidade da fauna local, que por sua vez afetou muito a vida dos
moradores que tinham (e continuam tendo) na caça, uma das maneiras pela qual providenciam
o alimento para a família.
71

Com a criação da RESEX Arióca Pruanã (resultado de muitas lutas já relatadas), a


problemática da invasão pelas madeireiras foi solucionada, e a comunidade voltou a
experimentar momentos de calmaria, “aí através da reserva melhorou, eu pelo menos tenho o
costume de ir sozinha pra roça, aí eu já tinha medo, porque não sabia a hora que eles tavo lá
né, e só prometio de matar a gente, a reserva, foi uma beleza pra mim, a gente ficou
sossegado mais” (ENTREVISTADA K, 2018).
Sem a presença das madeireiras, dos conflitos por elas criados e de todo o poder
capitalista que elas impunham à comunidade local, e faltando menos de um ano para a
Reserva completar treze anos de existência no município de Oeiras do Pará, é importante
conhecer as territorialidades, bem como, as conflitualidades que se apresentam na
comunidade Terra Alta.
A criação do território da RESEX de muitas formas implicou mudanças na vida dos
moradores, tendo em vista a produção de novas relações e as diversas ações desenvolvidas
pelos atores dentro da Unidade. Tais ações estão diretamente relacionadas à maneira como os
indivíduos utilizam o meio em que vivem, cobram políticas públicas e reivindicam direitos e
benefícios que contemplem as suas necessidades e expectativas do momento vivido,
inscrevendo- se aí a questão da territorialidade.
“A territorialidade, além de incorporar uma dimensão mais estritamente política, diz
respeito também às relações econômicas e culturais” (HAESBAERT, 2007, p. 22). Na
concepção de Sack (1986, p. 6 apud HAESBAERT, 2007, p. 22) a territorialidade está
“intimamente ligada ao modo como as pessoas utilizam a terra, como elas próprias se
organizam no espaço e como elas dão significado ao lugar”.
Na perspectiva de Saquet (2009, p. 86), “a territorialidade corresponde às ações
humanas, ou seja, a tentativa de um indivíduo ou grupo para controlar, influenciar ou afetar
objetos, pessoas e relações numa área delimitada”. A territorialidade, enquanto estratégia
criada pelo ser humano também “se inscreve no quadro da produção, troca e do consumo das
coisas. [...]. É sempre uma relação, mesmo que diferenciada, com os outros atores”
(RAFFESTIN, 1993, p. 161).
Resultado das relações sociais a territorialidade nunca é um fenômeno estanque, ela
pode ser produzida e recriada em consonância com tudo o que está acontecendo e afetando a
vida dos indivíduos em um dado território.
Mas a vida é tecida por relações, e daí a territorialidade pode ser definida como um
conjunto de relações que se originam num sistema tridimensional sociedade-espaço
tempo em vias de atingir a maior autonomia possível, compatível com os recursos
do sistema. [...]. Mas, essa territorialidade é dinâmica, pois os elementos que a
72

constituem, H r E, são suscetíveis de variações no tempo. (RAFFESTIN, 1993, p.


160-161).

As territorialidades produzidas em um território nunca serão iguais às encontradas


em outros territórios, isso se deve a singularidade dos indivíduos e de cada sociedade, capaz
de tornar questões de mesma natureza com intensidades e significância diferenciadas nos
diferentes lugares em que acontecem. “De acordo com a nossa perspectiva, a territorialidade
adquire um valor bem particular, pois reflete a multidimensionalidade do “vivido” territorial
pelos membros de uma coletividade, pelas sociedades em geral” (RAFFESTIN, 1993, p. 158).
Continuando seu raciocínio Raffestin (1993, p. 161), assegura ainda que “cada
sistema territorial segrega sua própria territorialidade, que os indivíduos e as sociedades
vivem”. Sendo a territorialidade a própria vivência cotidiana, sua produção não é um
privilégio apenas desta ou daquela sociedade, e considerando que a natureza humana é sempre
regida por relações, “a territorialidade se manifesta em todas as escalas espaciais e sociais; ela
é consubstancial a todas as relações e seria possível dizer que, de certa forma, é a “face
vivida” da “face agida” do poder” (RAFFESTIN, 1993, p. 161-162).
Se a territorialidade é a “face vivida” da “face agida” do poder, conforme afirma
Raffestin, esse todo vivido se dá por vias muitas vezes complexas, visto que as relações
produzidas pelos atores e entre eles no território são relações dotadas e mediadas pelo poder, e
a territorialidade evidencia esse poder quando “tessituras, nodosidades e redes criam
vizinhanças, acessos, convergências, mas também disjunções, rupturas e distanciamentos que
os indivíduos e os grupos devem assumir” (RAFFESTIN, 1993, p. 161).
A criação da RESEX Arióca Pruanã colocou em evidência, na comunidade Terra
Alta, diferentes territorialidades, como: a forma tradicional do uso da terra e da reprodução do
modo de vida dos agricultores e extrativistas de frutos da natureza, a prática da extração e
venda dos recursos madeireiros, a ocorrência da caça e pesca predatória, e as representações
por meio da ação do órgão gestor e dos membros do Conselho Deliberativo, na comunidade.
Essas territorialidades vêm favorecendo a produção de conflitualidades na
comunidade, em função do diferente modo de viver e de pensar dos atores sociais, e
sobretudo, devido os diferentes interesses que cada um projeta no território.
Na concepção de Fernandes (2004):
A conflitualidade está na natureza do território. O território é um espaço político por
excelência. A criação de territórios está associada às relações de poder, de domínio e
controle político. Os territórios não são apenas espaços físicos, são também espaços
sociais, espaços culturais, onde se manifestam as relações e as idéias transformando
em territórios até mesmo as palavras. As idéias são produtoras de territórios com
suas diferentes e contraditórias interpretações das relações sociais. Os paradigmas
são territórios”. (FERNANDES, 2004, p. 27).
73

Na emergência das territorialidades e produção das conflitualidades, os moradores da


comunidade Terra Alta têm vivenciado a entrada de invasores que praticam a pesca e a caça
predatória, “invasão de caça e pesca né, tem filhos natos que trazem pessoas de Oeiras pra cá,
o Arióca já foi rico de caça e peixe, mas hoje pra dizer a verdade há localidade que não tem
nada, né” (ENTREVISTADO W, 2018).
Essa situação gera o conflito à medida que não é aceita pelos moradores que usam a
pesca conforme o disposto no item 26, do Capítulo V, do Acordo de Gestão da Reserva
Extrativista Arióca Pruanã, que delega a permissão da “pesca na área da RESEX para os
moradores e apenas para consumo familiar, não sendo permitida a comercialização de
pescado capturado no interior da RESEX”.
Conforme relatos de entrevistados, para a captura dos pescados os invasores utilizam
principalmente a pesca de mergulho com lente e flecha, que é proibida no item 33, do capítulo
acima citado. Os peixes capturados são vendidos na sede do município, e os pertencentes à
comunidade ficam no prejuízo pela diminuição de peixes para o consumo da família.
A atividade de caça também apresenta conflito similar ao da pesca. A invasão se dá
em áreas de mata à dentro, a caça predatória com o uso de troncos33 nas matas, representa
também perigo à vida dos próprios moradores.
De todo lugar vem, da cidade vem quantidade. Olha, tem pessoa daqui mesmo que
consente né, só que é poribido isso aí, por lei é poribido, de lente tudo quanto pesca,
os garapé é sempre muito invadido tudo tempo, olha agora tem gente já se
preparando já, comprando moto pra vim aqui por terra pra cá. Tronco, tem gente
que já chegô ter até onze tronco no mato, vem pra cá dormi e deixo tronco no mato,
assim que faze, de manhã só pego a caça e vão imbora né, tronco é perigoso, né.
(ENTREVISTADO H, 2018).

A esperança dos moradores é que tais situações deixem de existir, mas enquanto isso
não acontece a presença do Conselho Deliberativo pelos menos tem implicado para cessar um
pouco as ações dos invasores, “depois do conselho entrar é que eles já fico mais amedrontado
um pouquinho, que paralisa né” (ENTREVISTADO W, 2018).
A problemática da exploração e venda da madeira que foi o vetor principal que
desencadeou os conflitos que serviram de impulsos à luta para a implantação da RESEX
Arióca Pruanã, ainda não ficou totalmente no passado das comunidades do rio Arióca.
Embora, atualmente, essa exploração se dê em proporção muito inferior à extração feita pelas
madeireiras, pois utilizavam grandes maquinários e muitos trabalhadores.

33
Espécie de armadilha com arma de fogo caseira, deixada em lugares estratégicos na floresta para matar caças.
A arma dispara no momento em que qualquer corpo (animais silvestres, galhos de árvores ou pessoas) toca em
um fio diretamente ligado a ela.
74

“Tavo acabando com a natureza, hoje em dia graças a Deus não, o pessoal com
motosserra tiro, mas não é igual como o pessoal da impresa né, o pessoal da impresa veio é
pra acabar mesmo” (ENTREVISTADA K, 2018). Porém, há relatos que nos últimos anos a
RESEX voltou sofrer assédio de madeireiras, “uma maderera já tentou entrá nas terras de
comunidade do rio Arióca vindo pelas cabecera do rio, mas bom que não conseguiu, acho que
foro avisado que o pessoal do conselho já tava sabendo”.
Segundo consta no Acordo de Gestão (2013), da RESEX, “a utilização dos recursos
naturais da RESEX Arióca Pruanã é de exclusividade dos seus moradores, incluindo as
comunidades do entorno, que tradicionalmente exploram a área” (ITEM 11, CAP.II).
No Item 15, do capítulo III, do Acordo acima, trata-se da utilização dos produtos
florestais madeireiros, preceituando que “é permitida a utilização de madeira para uso familiar
e comunitário dentro da RESEX (casas, barco, igreja, etc.) sem necessidade de plano de
manejo florestal comunitário, conforme Art. 32, Inciso III do Código Florestal (Lei nº
12.651/2012)”.
Porém, o que continua acontecendo é a prática de moradores que exploram a madeira
fora das finalidades acima permitidas, ou seja, estão utilizando os recursos madeireiros
prioritariamente para a comercialização, “a gente vê de vez em quanto barco com madeira tá
passando, continua” (ENTREVISTADA K, 2018).
Nesses moldes, a exploração da madeira além de infringir o Acordo de Gestão da
RESEX, também prejudica em potencial a disponibilidade do recurso madeireiro, uma vez
que a retirada predatória não respeita o critério de corte permitido, em lei.
A tirada da madeira num pára, até agora num pára, ela só dá uma paralisada quando
sabe que o gestor está entrando, aí todo mundo esconde madeira por aí, todo mundo
não, uma parte. Os madeireirozinhos que continuo num pararo, quando o gestor vai
embora eles desço com a madeira deles, e continua sempre, quando eles tão lá no
mato não quer dispensar nada, é pau fininho mesmo. (ENTREVSTADO W, 2018).

O corte de árvores deve obedecer ao disposto em lei quanto à sua circunferência


(circunferência maior que 150 cm) e localização, excetuando-se as espécies acapu e
acariquara, utilizados como esteios34 em construções de moradias e estruturas comunitárias
(ITEM 16, CAP. III, ACORDO DE GESTÃO, 2013).
No entanto, por ser uma Reserva Extrativista, em que os recursos madeireiros
também se inscrevem dentre os produtos passíveis de exploração pelos moradores, a atividade
de retirada e venda que continua acontecendo, se apresenta como uma prática dentro da
ilegalidade uma vez que, “a utilização de madeira para ser comercialização só poderá ser

34
Estrutura de sustentação.
75

realizada através de plano de manejo florestal comunitário, de acordo com o planejamento e


zoneamento do Plano de Manejo da RESEX” (ITEM 17, CAP. III, ACORDO DE GESTÃO,
2013).
Como o Plano de Manejo da RESEX Arióca Pruanã ainda existe, os moradores que
anterior à criação da Unidade, tradicionalmente, já exploravam e comercializavam a madeira
como formas de geração da renda, ainda não possuem um instrumento legal que regularize a
sua prática. Dessa maneira, o desenvolvimento da atividade madeireira fora das normas está
sujeita à punição, que vai desde a apreensão e destruição do produto à aplicação de multas,
pelos órgãos de fiscalização.
Quando situações dessa natureza acontecem, para os moradores autuados a criação
da RESEX Arióca Pruanã é vista como algo contraditório ao bem estar de muitas famílias que
continuam tendo na venda da madeira uma ou a principal maneira de gerar renda, “pra quem
sobrevivia só da madeira e continua vivendo, aí ele achou que não mudou, complicou a
situação dele, ele não tive mais aquela liberdade de pra todo instante tá saindo com madeira,
pra esses não mudou” (ENTREVISTADO W, 2018).
Essa questão da retirada e venda da madeira por moradores da RESEX produz,
talvez, a principal forma de conflito na área, pois, de um lado, ficam os moradores que
possuem como atividade a extração e venda da madeira, e do outro, os moradores que
desenvolvem atividades agrícolas e extrativistas de frutos da floresta, como o açaí.
Esses últimos, no geral, se encarregam pelas denúncias contra as atividades
madeireiras. Também são esses que não tendo suas atividades rurais afetadas com a criação da
RESEX, consideram que ela tem se apresentado como um mecanismo de melhorias das
condições de vida na comunidade.
Olha é assim né, pras pessoas que ero acostumados sem ser maderero, acharo que
melhorou, em casa a gente achou que melhorou cada vez mais né, mas pra quem são
maderero eles tivero dificuldade e até hoje eles num aceito né, porque o ramo deles
só era aquilo, a extração da madeira, então eles tivero dificuldade porque quando a
lei da reserva apertou, que não podia comercializar a madeira, eles num tinho roça,
num tinho outro ramo, aí pronto. A gente não, a gente não era acostumado mexer
com a madeira, era acostumado na roça, na lavoura, aí ninguém achou que abalasse
com a gente, né. (ENTREVISTADO W, 2018).

Os moradores que continuam trabalhando com a retirada e venda da madeira, além


de tê-la como uma forma de geração da renda familiar, também a realizam como uma maneira
de reprodução social tradicional, “desde quando eles se criaro, tão trabalho nesse negócio de
pau, pau, desde quando me entendi sempre tem esse negócio de tirar madeira”
(ENTREVISTADA K, 2018).
76

A justificativa mais presente para a continuidade das atividades madeireiras, é que


somente a renda oriunda, por exemplo, do programa Bolsa família não consegue suprir a
necessidade da família e ainda que a RESEX não oportuniza meios de geração de renda aos
seus pertencentes.
Eles falo assim, sempre que a gente conversa né, eles falo que só com o dinheiro do
bolsa família que as mulheres recebo não dá, e também não é todos que tem
mandioca. Eles falo isso, que o gestor vem e fala que não é pra tirar madeira, mas
não traz dinheiro pra eles, e que depois de ter onde eles trabalhar eles num vão
sufrer, é uma complicação só. (ENTREVISTADA K, 2018).

A partir das diversas situações de conflitualidades, acima evidenciadas, pode-se dizer


que a vivência na comunidade Terra Alta ainda muito se assemelha ao que Garrett Hardin
discute na obra “a tragédia dos comuns” publicada na revista Science em 1968, no momento
em que trata sobre “a tragédia da liberdade em uma Vida Comunal (Commons)”, ao relatar
que:
Cada homem está preso em um sistema que o compele a aumentar seu rebanho sem
limites – num mundo que é limitado. Ruína é o destino para o qual todos os homens
correm, cada um perseguindo seu próprio interesse em uma sociedade que acredita
na liberdade dos bens comuns. Liberdade num terreno baldio (common) traz ruína
para todos. (HARDIN, 2011, p. 4-5)35.

Nesse sentido, no momento em que os moradores da comunidade Terra Alta,


decidem cada um à sua maneira manipular a área e os recursos nela disponíveis, em
atendimento aos interesses e necessidades individuais, estão desenvolvendo a tragédia dos
comuns, que em muitos aspectos pode levar a uma situação descomunal recorrente entre os
membros dessa comunidade, contribuindo até mesmo para o enfraquecimento ou o descrédito
da política da RESEX, perante os pertencentes.
No entanto, mesmo com as situações descomunais da invasão para a caça e a pesca
predatória e a retirada de madeira para a comercialização, sem auxílio do Plano de Manejo, os
relatos de melhorias com a criação da RESEX se dão no âmbito da percepção que o
desmatamento acelerado, vivenciado durante a ação das madeireiras, diminuiu
substancialmente, “a conquista foi sobre o desmatamento, né, diminuiu muito sim”
(ENTREVISTADA X, 2018).
Sendo assim, segundos relatos também são observados ganhos no sentido da
presença de animais silvestres na área da comunidade, “a volta das caça a gente achu que
melhoro bastante” (ENTREVISTADO W, 2018).

35
O texto aqui utilizado foi retirado da tradução de José Roberto Bonifácio (RJ, 10/05/2011), acha-se disponível
no endereço: https://edisciplinas.usp.br>resource>view. Acesso em: 15 de set. 2018. Que por sua vez utilizou a
versão disponível no site: <http://www.garretthardinsociety.org/articles/art_tragedy_of_the_commons.html>
77

Porque se não fosse nós ter formado isso aí, a reserva, acho que não existia nada
mas, já tinha tudo acabado, já tinha acabado igual como tem certo lugar que não tem
isso aí e num existe nem um pé de madeira, ainda existe muita madeira aí, agente
ainda vê que tem alguma coisa, caça essas cuisas, se não tivesse parado de explorar
não tinha mais, a gente ainda vê, porco come bem a roça, tudo quanto é bicho a
gente vê ainda. Se não tivesse isso aí, se fosse mais invadido ainda, não tinha nada,
porque tinha acabado com a mata. (ENTREVISTADO H, 2018).

Para potencializar os benefícios da criação da RESEX relacionados à conservação


dos recursos naturais, e nos aspectos sociais e econômicos da vida dos pertencentes, um
mecanismo apontado pelos entrevistados é a implementação de projetos de apoio à produção
agrícola e extrativista, “a coisa é ter projeto né, a reserva tem que correr atrás pra consegui
projetos né, através de projeto que diga o quê a pessoa fazê, porque fazê, ter orientação técnica
né, pra ele ter uma criação, um plantio, pra coletar, que seje mais sucedido a família né”
(ENTREVISTADO W, 2018).
Com esse sentimento, as perspectivas dos pertencentes para o momento é que os
moradores e a RESEX estabeleçam cada vez mais uma relação de cooperação entre si,
“espero assim, que se ela já tá um pouco desenvolvida que se desenvolva mais, pra vê se o
pessoal aprendo mais né, a conviver com a reserva e a reserva aprenda a conviver com eles”
(ENTREVISTADA K, 2018).
Para o futuro almejam que a RESEX implemente políticas no âmbito educacional,
“principalmente escola de qualidade pros nossos filhos né, até hoje a gente vive num debate
pedindo essa escola pra dentro da reserva né, até agora ainda não conseguimos”
(ENTREVISTADO W, 2018).
De maneira geral, mesmo em meio às contradições, os entrevistados depositam na
RESEX Arióca Pruanã a esperança de dias melhores, de maneira que as futuras gerações
também usufruam dos recursos naturais disponíveis na área, “tenho filhos aí, tenho netos, que
eles sejo muito bem ainda vendo os frutos da reserva né” (ENTREVISTADA K, 2018).
Para isso, sendo a RESEX uma instituição legal, é necessário que ela a partir das
ações do Estado, por meio do ICMBio, cumpra seu papel junto aos moradores. É necessário
que implemente políticas públicas voltadas à melhoria da qualidade de vida e geração de
renda. O desenvolvimento de projetos, por exemplo, com o objetivo de oferecer capacitação
aos moradores para a fabricação de alimentos com frutos da floresta, é um espaço que pode
ser criado junto à comunidade Terra Alta e demais localidades da RESEX Arióca Pruanã.
Tal iniciativa, além de ser uma oportunidade possível de construção de novos
conhecimentos pelos moradores, representa ainda um meio sustentável e de conservação dos
78

recursos naturais, contribuindo cada vez mais para a diminuição do desmatamento e


possibilitando uma melhor vivência e a permanência na terra.
Por sua vez, os moradores necessitam reassumir seus papéis de protagonistas
políticos, no sentido de reivindicar e acessar essas políticas e direitos. Nesse sentido, é
importante que os moradores não se coloquem na posição de assumir o papel e o discurso do
Estado, na medida em que muitas vezes se preocupam mais com a gestão e a burocracia da
UC, do que propriamente com a vida dentro da RESEX.
A gestão da RESEX é fundamentalmente papel do Estado. Já os pertencentes devem
sempre assumir o papel de moradores, pois, são ribeirinhos, extrativistas, pescadores e
agricultores. Assim sendo, devem verdadeiramente se opor aos discursos hegemônicos, lutar
pelo fortalecimento de sua identidade territorial e resistir às forças que insistem em lhes
subalternizar e invisibilizar, em todos os aspectos de sua vida.
79

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

No Brasil, nos últimos tempos, a realização de pesquisa em Unidades de


Conservação, tem se mostrado de muita necessidade no sentido de conhecer os processos
percorridos até à criação desses territórios, os atores envolvidos e as questões que serviram de
motivação à sua implementação. No caso das Unidades de Conservação da categoria de uso
sustentável, a criação de Reservas Extrativistas está diretamente ligada às questões ambientais
enfrentadas por trabalhadores rurais, ribeirinhos, pescadores, extrativistas, indígenas e
quilombolas.
A criação de RESEX, especialmente na Amazônia brasileira e paraense, é resultado
da luta de movimentos sociais mais os ambientais que se propõem defender as causas de
homens e mulheres do campo. Nos últimos tempos, os movimentos sociais que emergiram no
campo amazônico e paraense são formados por indivíduos locais, que se revelaram fortes
atores políticos e sociais, capazes de mobilizar pessoas e criar espaços de discussões em que
reivindicam respostas às suas demandas mais latentes.
No município de Oeiras do Pará, a criação da Reserva Extrativista Arióca Pruanã
possui em seu bojo a luta de moradores das comunidades rurais que estavam sofrendo com os
profundos impactos ambientais, sociais e culturais causados por empresas madeireiras que
adentraram no município no final do ano de 1998 e início de 1999. A partir da articulação
local desses sujeitos e posteriormente somada à ação de instituições governamentais e não
governamentais, a RESEX Arióca Pruanã foi criada.
No desenvolvimento da pesquisa buscou-se conhecer os movimentos sociais e as
territorialidades a partir da criação da mencionada RESEX. Aqui vale relatar algumas
considerações que permearam o desenvolvimento deste trabalho. No que se refere a
colaboração do gestor da RESEX e do presidente da associação de moradores, para com o
desenvolvimento do presente trabalho, ressalta-se que foram muitos solícitos contribuindo
grandemente prestando informações e fornecendo documentos primordiais à elaboração do
trabalho. Estes atores também consideram importante a parceria entre a RESEX e as
instituições de ensino superior no desenvolvimento de políticas educacionais dentro da
Unidade, voltadas à construção de uma consciência ambiental, política e social junto aos
pertencentes.
Referente à colaboração dos moradores, percebeu-se de início que a participação em
pesquisas ainda é algo que causa estranheza para muitos, mas à medida que a conversa fluía
estes além de responder aos questionamentos, ainda revelavam outras impressões relacionadas
80

aos seus contentamentos ou descontentamentos com as políticas públicas ou a ausência delas


dentro da RESEX. Mas, em comum têm a esperança que a Unidade consiga proteger os
recursos naturais disponíveis, bem como, proporcionar aos moradores melhorias de vida nos
aspectos políticos, econômicos, sociais e culturais.
De maneira que, essas melhorias possam sanar ou amenizar problemáticas, que têm
contribuído para as conflitualidades latentes na área. No âmbito político, a consolidação do
Plano de Manejo Comunitário, é algo que carece de imediata resposta, por meio dele,
especialmente, a prática tradicional da retirada da madeira pelos moradores para a venda, que
tem gerado conflitos entre estes e os órgãos de fiscalização e mais os pertencentes que não o
fazem, tende a caminhar rumo à conscientização no sentido de que, referente à utilização de
recursos naturais, é importante que cumpram- se regras, pois, só assim o presente e o futuro
terão acesso a esses bens. O Plano de Manejo ainda vem dar legalidade a essa atividade que
faz parte da cultura de muitos moradores da RESEX.
Ressalta-se também a necessidade da regularização fundiária RESEX. Assim como,
a regularização da Associação Mãe e das demais associações existentes na área, de maneira
que, possam estar aptas a desempenhar suas devidas atribuições, especialmente quanto à
busca e reivindicações de políticas ambientais, sociais, econômicas e culturais, que
contribuam para a superação de muitas mazelas dentro da RESEX como o padecimento de
fome que ainda faz parte do cotidiano de muitas famílias.
A regularização da situação jurídica dessas associações ainda pode significar o
reavivamento das mobilizações sociais dentro da RESEX, que no momento parecem estar
arrefecidas, tendo justamente como uma das causas a falta de organização desses
movimentos, que por sua vez perpassa pelo desconhecimento técnico e mesmo político capaz
de levar e mantê-los em situação de sujeitos ativos, para que não se encerrem em si mesmos,
tendo na criação da RESEX a sua principal e única conquista.
A necessidade agora é que acampem lutas pela efetivação de políticas públicas que
venham proporcionar melhorias coletivas e o fortalecimento político das comunidades frente
aos novos desafios.
Com o trabalho observou-se que inúmeros são os desafios apresentados dentro da
RESEX Arióca Pruanã. A situação ambiental da área carece de atenção, pois, embora a
degradação dos recursos esteja se dando em escala muito inferior à ação das madeireiras, a
devastação da floresta ainda continua existindo.
A população necessita ser melhor assistida, tecnicamente, em suas atividades
agrícolas e de geração de renda, e que se implemente outras atividades sustentáveis que
81

venham melhorar cada vez mais as suas condições de vida e ao mesmo tempo promover a
conservação dos recursos naturais da área.
Os movimentos sociais tão importantes no processo de criação da Unidade precisam
retomar seus papéis de protagonistas, fortalecer discursos próprios, e quando necessário
exercer a pressão junto ao Estado e a outros atores sociais, quanto ao acesso às políticas
ambientais e aos bens e serviços sociais para os pertencentes, se inscrevendo aí uma maneira
de diminuir ou sanar muitas conflitualidades. As conflitualidades na RESEX Arióca Pruanã é
algo que carece de atenção, a fim de que se tenha uma maior compreensão acerca desse
processo.
Com o presente trabalho buscou-se conhecer as manifestações sociais que
contribuíram e resultaram na criação da RESEX Arióca Pruanã, assim como, as questões que
se apresentam dentro dessa área, e que influenciam diretamente na dinâmica de vida da
população local, e ainda que mostram a urgência pela implementação de políticas públicas
voltadas a RESEX. Políticas capazes de proporcionar melhorias à vida dos pertencentes e
primar pela conservação de todos os recursos ali presentes.
Do ponto de vista acadêmico, o mérito do trabalho é com vistas na produção de
conhecimento sobre a questão ambiental, a produção territorial e as territorialidades, bem
como, sobre a produção de conflitualidades, a partir da existência das várias territorialidades
nessa área rural.
De maneira que professores, lideranças comunitárias e a população de modo geral,
conhecendo os processos que levaram à criação da Reserva no município de Oeiras do Pará e
mais as relações diariamente construídas nessa área, possam ter subsídios para discutir sobre
esta RESEX, no contexto escolar, nas reuniões em comunidade e mesmo no dia a dia,
podendo com isso levantar discussões e formar opiniões acerca dos efeitos da implantação
desta Unidade no território municipal, sua importância e os desafios ainda enfrentados nesta
Unidade.
82

REFERÊNCIAS

ARAGÓN, Luis E. Há futuro para o desenvolvimento sustentável na Amazônia?. In:_______.


Amazônia, conhecer para desenvolver e conservar: cinco temas para um debate. São
Paulo: Hucitec, 2013, p. 243-296.

ARNAUD, Mário Júnior de Carvalho. Gestão ambiental no Baixo Tocantins: dos


movimentos ambientalistas à elaboração do PPDJUS. Dissertação (Mestrado) – Universidade
Federal do Pará, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em
Geografia, Belém, 2010.

BOLSA VERDE. Disponível in: <http://www.mma.gov.br/desenvolvimento-rural>. Acesso


em: 29 abr. de 2018.

BRASIL. Regulamenta artigos da Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000. (Decreto nº 4340, de


22 de agosto de 2002). Disponível in:
<http://www.mma.gov.br/port/conama/legiabre.cfm?codlegi=374>. Acesso em: 29 abr. 2018.

______.Dispõe sobre a criação da Reserva Extrativista Arióca Pruanã , no Município de


Oeiras do Pará, no Estado do Pará, e dá outras providências. Brasília DF, 2005. (Decreto s/n
de 16 de novembro de 2005). Disponível in:
<http://www.icmbio.gov.br/portal/unidadesdeconservacao/>. Acesso em: 29 abr. 2018.

______.Cria o Conselho Deliberativo da Reserva Extrativista Arióca Pruanã, no Estado do


Pará. Brasília DF. (Portaria nº 83, de 09 de julho de 2012). Disponível in:
<http://www.icmbio.gov.br/portal/unidadesdeconservacao/>. Acesso em: 25 mai. 2018.

______. Aprova o Acordo de Gestão da Reserva Extrativista Arióca Pruanã. Brasília DF.
(Portaria nº 162, de 28 de fevereiro de 2013). Disponível em:
https//www.jusbrasil.com.br/diarios/51421105/dou-secao-1-01-03-2013-pg-110. Acesso em:
25 mai. 2018.

______. Institui o Programa de Apoio à conservação Ambiental e o Programa de Fomento às


atividades Produtivas Rurais. Brasília DF, 2011. (Lei nº 12.512, de 14 de outubro de 2011).
Disponível in: <www.planalto.gov.br>ccivil_03>lei>. Acesso em: 29 abr. de 2018.

______. Dispõe sobre a proteção da vegetação nativa. Brasília DF, 2012. (Lei nº 12.651, de
25/05/2012). Disponível in: <www.planalto.gov.br>lei>/12651>. Acesso em: 29 abr. de 2018.

______. Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza. Brasília DF, 2000. (Lei
nº 9.985, de 18 de julho de 2000).

CADASTRO AMBIENTAL RURAL. Disponível in:


<http://www.mma.gov.br/desenvolvimento-rural/cadastro-ambiental-rural>. Acesso em: 29
abr. de 2018.

COSTA, Adalberto Portilho. Políticas públicas e desenvolvimento nas Resex Verde Para
Sempre e Arióca Pruanã- PARÁ. Tese (Doutorado) – Universidade Federal do Pará, Núcleo
83

de Altos Estudos Amazônicos, Belém, 2014. Programa de Pós-Graduação em


Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido.

CRUZ, Valter do Carmo. R-existências, territorialidades e identidades na Amazônia.


Terra Livre Goiânia Ano 22, v. 1, n. 26, p. 63-89, Jan-Jun/2006.

______. Lutas Sociais, Reconfigurações Identitárias e Estratégias da Reapropriação


Social do Territó-rio na Amazônia. Tese (Doutorado) – Universidade Federal Fluminense,
Departamento de Geografia, Niterói, 2011.

______. Movimentos sociais, identidades coletivas e lutas pelo direito ao território na


Amazônia. In: SILVA, Onildo Araújo da; SANTOS, Edinusia Moreira Carneiro; NETO,
Agripino Souza Coelho. (Org.). Identidade, território e resistência. Rio de Janeiro:
Consequência, 2014, p. 37-68.

Divisão Regional do Brasil em Regiões Geográficas Imediatas e Regiões Geográficas


Intermediárias 2017. Disponível in: <https://www.ibge.gov.br/apps/regioes_geograficas>.
Acesso em: 03 jul. de 2018.

FERNANDES, Bernardo Mançano. Sobre a tipologia de territórios. In: SAQUET, Marcos


Aurelio; SPOSITO, Eliseu Savério. (Org.). Territórios e territorialidades: teorias,
processos e conflitos. São Paulo: Expressão Popular, 2009, p. 197-289.

______. Questão Agrária: conflitualidade e desenvolvimento territorial. Disponível em:


bibspi.planejamento.gov.br>iditem. Acesso em: 30 jun. de 2018.

GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo: Atlas, 2008.

HAESBAERT, Rogério. Território e multiterritorialidade: um debate. GEOgraphia, Ano.


9, nº. 17, p. 19-45, 2007.

______.Da Desterritorialização à Multiterritorialidade. Disponível em:


observatoriogeograficoamericalatina.org. Acesso em: 02 jun. de 2018.

______. Dilemas de conceitos: espaço-território e contenção territorial. In: SAQUET, Marcos


Aurelio; SPOSITO, Eliseu Savério. (Org.). Territórios e territorialidades: teorias,
processos e conflitos. São Paulo: Expressão Popular, 2009, p. 95-119.

HARDIN, Garrett. A tragédia dos comuns. Tradução de José Roberto Bonifácio. Disponível
in: https://edisciplinas.usp.br>resource>view. Acesso em: 15 de set. 2018.

HEIDRICH, Álvaro Luiz. Conflitos territoriais na estratégia de preservação da natureza. In:


SAQUET, Marcos Aurelio; SPOSITO, Eliseu Savério. (Org.). Territórios e
territorialidades: teorias, processos e conflitos. São Paulo: Expressão Popular, 2009, p.
271-289.

MANDIOCA. Portal EMBRAPA. Disponível in:


<https://www.embrapa.../cultivos/mandioca>. Acesso em: 03 de jul. de 2018.
84

MINAYO, Maria Cecília de Souza. O desafio da pesquisa social. In: DESLANDES, Suely
Ferreira; GOMES, Romeu; MINAYO, Maria Cecília de Souza. (Org.). Pesquisa Social:
teoria, método e criatividade. Petrópolis, RJ: Vozes, 2009, p. 9-29.

PORTO-GONÇALVES, Carlos Walter. O desafio ambiental. Rio de Janeiro: Record, 2012.

RAFFESTIN, Claude. Por uma Geografia do Poder. São Paulo: Ática, 1993.

______. A Produção das estruturas territoriais e sua representação. In: SAQUET, Marcos
Aurelio; SPOSITO, Eliseu Savério. (Org.). Territórios e territorialidades: teorias,
processos e conflitos. São Paulo: Expressão Popular, 2009, p. 17-35.

RELATÓRIO PARAMETRIZADO- UNIDADE DE CONSERVAÇÃO. Ministério do


Ministério do Meio Ambiente. Disponível in:
<http://www.icmbio.gov.br/portal/unidadesdeconservacao/biomasbrasileiros/amazonia/unidad
es-de-conservação-amazonia/2010-resex-arioca-pruana>. Acesso em: 25 mai. 2018.

SAQUET, Marcos Aurelio. Por uma abordagem territorial. In: SAQUET, Marcos Aurelio;
SPOSITO, Eliseu Savério. (Org.). Territórios e territorialidades: teorias, processos e
conflitos. São Paulo: Expressão Popular, 2009, p. 73-91.

SISBIO. Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade. Disponível em:


Ibama.gov.br/sisbio/sistema/index.php. Acesso em: 26 abr. de 2018.

SOUZA, Marcelo Lopes de. O território: sobre espaço e poder, autonomia e desenvolvimento.
In: CASTRO, Iná Elias de; GOMES, Paulo Cesar da Costa; CORRÊA, Roberto Lobato.
(Orgs.). Geografia: conceitos e temas. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000, p. 77-116.

SOUZA, Roberto Martins. Da invisibilidade para a existência coletiva: redefinindo


fronteiras étnicas e territoriais mediados pela construção da identidade coletiva dos
povos Faxinalenses. Anais do II Seminário Nacional Movimentos Sociais, Participação e
Democracia. Florianópolis: 2007.
85

APÊNDICE
86

APÊNDICE A – Roteiro de entrevista

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ


CAMPUS UNIVERSITÁRIO DO TOCANTINS/CAMETÁ
NÚCLEO UNIVERSITÁRIO DE OEIRAS DO PARÁ
FACULDADE DE GEOGRAFIA - FAGEO
CURSO DE LICENCIATURA PLENA EM GEOGRAFIA
TURMA: GEOGRAFIA 2014 - INTENSIVO – NÚLCEO DE OEIRAS DO PARÁ
TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO: “MOVIMENTOS SOCIAIS E
TERRITORIALIDADES A PARTIR DA CRIAÇÃO DA RESERVA EXTRATIVISTA
ARIÓCA PRUANÃ EM OEIRAS DO PARÁ”.
DISCENTE: SUSI DOS REIS SANTANA
ORIENTADOR: PROF. ME. MÁRIO JUNIOR DE CARVALHO ARNAUD
Roteiro de entrevista: Presidente da AMOREAP
1- Nome, endereço (localidade, comunidade).
2- Cargo ou função que desempenha junto à Resex Arióca Pruanã.
3- Como a AMOREAP está organizada?
4- Como é a atuação/funcionalidade da AMOREAP? Qual é o principal papel dela?
5- Como encontra-se a situação da associação? Regularizada?
7- Além do órgão gestor, que outras instituições participam das ações e políticas dentro da
Resex? De que forma essas instituições atuam?
8- Que programas e/ou incentivos são direcionados aos usuários da Resex?
9- A resex já possui plano de manejo?
10- Pelo cadastro do ICMBio quantas famílias residem em cada comunidade?
11- Referente a questão sustento e renda da família, quais atividades elas desempenham? Qual
ocupa o maior destaque na vida da famílias?
12- Que incentivos técnicos as famílias tem recebido para prover o seu sustento e a sua renda
na Resex?
13- De maneira geral, quais são as principais problemáticas/dificuldades encontradas pela
administração dentro da Resex?
14- O que mudou na vida dos moradores das comunidades que hoje pertencem à Resex
Arióca Pruanã?
15- Quais as suas perspectivas para o momento e para o futuro da Resex?
87

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ


CAMPUS UNIVERSITÁRIO DO TOCANTINS/CAMETÁ
NÚCLEO UNIVERSITÁRIO DE OEIRAS DO PARÁ
FACULDADE DE GEOGRAFIA - FAGEO
CURSO DE LICENCIATURA PLENA EM GEOGRAFIA
TURMA: GEOGRAFIA 2014 - INTENSIVO – NÚLCEO DE OEIRAS DO PARÁ
TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO: “MOVIMENTOS SOCIAIS E
TERRITORIALIDADES A PARTIR DA CRIAÇÃO DA RESERVA EXTRATIVISTA
ARIÓCA PRUANÃ EM OEIRAS DO PARÁ”.
DISCENTE: SUSI DOS REIS SANTANA
ORIENTADOR: PROF. ME. MÁRIO JUNIOR DE CARVALHO ARNAUD

Roteiro de entrevista: Gestor da Resex


1- Nome (endereço)
2- Cargo ou função que desempenha junto à Resex Arióca-Pruanã.
3- Como se dá a organização e o funcionamento da Resex Arióca-Pruanã?
4- Além do órgão gestor que outros órgãos/instituições participam das ações, programas e/ou
políticas desenvolvidas na Resex?
5- Que ações, programas e/ou políticas são essas? Como elas são efetivadas na vida dos
moradores?
6- Há parcerias da Resex com órgãos/instituições no âmbito municipal? De que maneira?
7 – Qual a situação fundiária da reserva? Como o Incra tem atuado nisso e quais resultados
alcançados?
8- Pelo cadastro do ICMBio quantas famílias residem em cada comunidade?
9- Quais são as principais problemáticas/dificuldades encontradas pela administração dentro
da Resex?
10- Como se dá as visitas do órgão gestor à resex? (periodicidade/ocorrências)
11- De maneira geral, o que mudou na vida dos moradores das comunidades que hoje
pertencem à Resex Arióca Pruanã?
12- Quais as perspectivas da Resex para o momento e para o futuro?
88

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ


CAMPUS UNIVERSITÁRIO DO TOCANTINS/CAMETÁ
NÚCLEO UNIVERSITÁRIO DE OEIRAS DO PARÁ
FACULDADE DE GEOGRAFIA - FAGEO
CURSO DE LICENCIATURA PLENA EM GEOGRAFIA
TURMA: GEOGRAFIA 2014 - INTENSIVO – NÚLCEO DE OEIRAS DO PARÁ
TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO: “MOVIMENTOS SOCIAIS E
TERRITORIALIDADES A PARTIR DA CRIAÇÃO DA RESERVA EXTRATIVISTA
ARIÓCA PRUANÃ EM OEIRAS DO PARÁ”.
DISCENTE: SUSI DOS REIS SANTANA
ORIENTADOR: PROF. ME. MÁRIO JUNIOR DE CARVALHO ARNAUD

Roteiro de pesquisa: moradores


1- Nome e endereço (comunidade, localidade).
2- Desempenha cargo ou função junto à RESEX Arióca-Pruanã?
3- Que atividades a família realiza para obter renda e o sustento?
4- Recebe incentivo ou orientação técnica para o desenvolvimento dessas atividades?
5- Quanto, em média, cada atividade rende mensalmente para a família?
6- A família possui outra renda? (Bolsa Família, aposentadoria, funcionalismo, trabalho para
terceiros).
7- Participou ou foi convidado a participar de algum movimento/reunião para a criação da
RESEX?
8- A partir da RESEX você foi contemplado com algum benefício ou programa? Qual?
9- Como você observa a atuação do órgão gestor e da associação dos moradores dentro da
RESEX? Você se sente representados de fato por eles?
10- Com a RESEX o que mudou na sua vida e a vida da comunidade em que mora? Quais
conquistas foram trazidas após a criação das reservas?
11- Que problemas que existiam antes da RESEX que ainda continuam após a sua criação?
Porque ainda acontecem?
12- O que você espera da RESEX para o momento e para futuro?
89

APÊNDICE B – Termo de consentimento livre e esclarecido


90

ANEXO
91

ANEXO A – Ata da associação de moradores


92
93
94
95

ANEXO B - Manifesto Popular


96
97
98

Você também pode gostar