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ISECENSA – Institutos Superiores de Ensino do CENSA

Disciplina: Termodinâmica I
Professor: André Machado
Aula 01 – Conceitos Fundamentais

1. Conceitos Iniciais

1.1. A definição de energia e a termodinâmica

A engenharia é uma profissão que aplica a ciência, de forma objetiva, na solução de problemas
e na elaboração de produtos e processos que tragam benefícios para a humanidade. Esta é
uma definição importante para todos os estudantes e aspirantes a engenheiros, tendo em
vista que ela demonstra a grande importância de compreender os conceitos e princípios
científicos que servem de ferramentas para o exercício desta profissão.

A termodinâmica, como uma destas ferramentas científicas, merece uma atenção especial,
certo? Mas afinal: o que é termodinâmica? Antes de buscar as informações que respondam a
essa pergunta, iremos definir um conceito básico e muito importante para nós: o de energia.

A energia é um conceito fundamental da física, cujo nome vem do termo grego para
“trabalho”. De forma simplificada, ela representa uma forma de interação entre uma ou mais
partículas. Como exemplos, podemos citar um deslocamento provocado por uma interação
entre dois corpos, ou então a nossa mão sendo aquecida pelo contato com uma superfície
quente. Nestes dois casos houve a interação entre dois corpos que resultou em uma
transferência de uma determinada quantidade de energia.

Como existem muitas formas de interação entre partículas, consequentemente há muitas


formas pelas quais a energia pode ser transferida. Por este motivo, o estudo dela é dividido em
diversas categorias: elétrica, química, térmica, cinética, dentre outras. A Figura 1 representa
algumas das principais formas de energia conhecidas:

Energia

Mecânica Calor Trabalho

Potencial Cinética

Química

Elétrica

Gravitacional

Figura 1.1: Alguns dos principais tipos de energia existentes

1
Olhando o esquema acima, vem uma pergunta: afinal, como funciona esse negócio de
energia? Como ela é produzida? Um dia ela irá acabar?

É aí que a mágica acontece, meu caro! O princípio da conservação da energia, que será
estudado em muitos detalhes neste curso, afirma que a energia nunca é perdida – ela sempre
se transforma. Em outras palavras: os diferentes tipos de energia existentes podem ser
convertidos um no outro – e foi a partir dessa percepção que o homem, desde os tempos mais
antigos, começou a se aproveitar desta propriedade. Exemplos não faltam:

- A conversão de energia química do alimento em energia mecânica para o nosso corpo


- A utilização de arco-e-flecha na antiguidade
- A descoberta do fogo para o aquecimento
- Um objeto caindo de uma montanha - sua velocidade aumenta porque a energia potencial
gravitacional é transformada em energia cinética
- O desenvolvimento de máquinas a vapor (opa!)

Enfim, a partir destes conceitos iniciais sobre energia, é possível definir, finalmente, o conceito
de termodinâmica. Como o próprio nome diz, ela se refere a “termo” = relacionado ao calor, e
“dinâmica” = relacionada ao movimento. Os estudos da termodinâmica se iniciaram com a
invenção da máquina a vapor, que nada mais é do que um dispositivo que transforma energia
térmica (calor) em energia mecânica (trabalho). Portanto, a termodinâmica estuda a
transformação de calor em trabalho e vice-versa. Este nome foi criado já em meados do
século XVIII, por Lord Kelvin.

Nos dias de hoje, o conceito de termodinâmica foi ampliado para englobar outros aspectos – e
não somente a transformação entre calor e trabalho. Ela passou a explicar diversos outros
fenômenos, podendo ser utilizada como ferramenta em áreas como a geração de energia
elétrica, a criogenia e refrigeração, processos de separação, aquecimento, etc. Além disso, foi
criado outro “ramo” para explicar alguns fenômenos. Sabemos que a matéria é formada por
moléculas, partículas muito pequenas que se comportam de acordo com o ambiente em que
se encontram. Como cada partícula interage com as demais de uma forma particular, o estudo
destas interações deveria levar em conta cada uma das moléculas. Alguns processos e
fenômenos somente podem ser explicados através deste tipo de análise (microscópica). Para
isto, foi criada a Termodinâmica estatística. No entanto, durante muito tempo, a
termodinâmica foi utilizada macroscopicamente. Em muitos casos é possível quantificar a
pressão, temperatura e realizar cálculos e projetos de equipamentos como um todo, sem
necessitar de analisar cada molécula. Este tipo de análise macroscópica é abordado na
Termodinâmica clássica.
1.2. Sistema, superfície de controle e volume de controle

Na linguagem da termodinâmica, é importante que cada termo utilizado seja compreendido e


esteja sólido na nossa cabeça. Desta forma, será possível esquematizar facilmente os
problemas e resolvê-los com rapidez e clareza. O primeiro conceito que iremos desenvolver é
o de universo e sistema.

 Universo: compreende todo o espaço físico existente e conhecido.

Na prática, não é conveniente utilizar todo o universo quando se resolve um problema


termodinâmico. Portanto, ele foi dividido entre sistema e vizinhanças.

 Sistema: é a porção do espaço onde há interesse, ou seja, é toda a matéria escolhida para
realizar determinado estudo. Por exemplo, o sistema pode ser o gás contido no interior de um
vaso de pressão.

 Vizinhanças: é a porção do universo que não está contida no sistema. É toda a região “fora”
dele.

Esta abordagem pode ser visualizada através da Figura 2:

Vizinhanças

Sistema
Fronteira

Figura 1.2: Sistema, Vizinhanças e Fronteira

 Fronteira: é a “borda” do sistema, ou seja, a região entre ele e as vizinhanças. A fronteira pode
ser real (como em um tanque) ou imaginária. Além disso, ela pode ser fixa ou móvel.

Observe que a fronteira é a superfície comum entre o sistema e as vizinhanças. Ela não possui
espessura e não ocupa nenhum volume.

Dependendo da abordagem, o sistema pode ser aberto ou fechado.

 Sistema fechado: não existe fluxo de massa através das fronteiras do sistema, isto é, a massa
não entra nem sai do sistema. Portanto, sua massa é fixa.
 Sistema aberto: existe fluxo de massa através das fronteiras do sistema. O fluxo pode ser de
entrada, de saída, ou ambos, e a massa não é necessariamente fixa, uma vez que os fluxos de
entrada e saída podem ser diferentes.

Em ambos os tipos de sistema citados acima, a energia pode cruzar as fronteiras do sistema.
Quando não existir transferência de massa e nem de energia através das fronteiras do sistema,
ele é denominado isolado.
Um sistema pode possuir volume fixo ou variável, dependendo das condições. Note que,
mesmo o sistema sendo fechado (massa fixa), o volume pode ser variável. Observe o exemplo
do conjunto cilindro-pistão da Figura 3:

Figura 1.3: Sistema fechado com volume variável

Se considerarmos o sistema como sendo o gás contido no cilindro, tem-se que se trata de um
sistema fechado, uma vez que a massa não cruza as fronteiras do sistema. Porém, a existência
do pistão móvel permite que o volume ocupado pelo gás seja variável. Caso não houvesse o
pistão móvel, o volume do sistema seria fixo:

Figura 1.4: Sistema fechado com volume fixo

Já para um sistema aberto, tem-se que o volume geralmente é fixo. Em geral, um sistema
aberto será uma região escolhida do universo, por onde a massa pode fluir. Por ser uma região
fixada e o seu volume fixo, os sistemas abertos são muitas vezes denominados volumes de
controle. A superfície que separa um volume de controle das suas vizinhanças (sua fronteira) é
denominada superfície de controle. Exemplos de sistemas abertos comumente analisados na
termodinâmica são: turbinas, compressores, bocais e outros equipamentos de processo.

Obs: observe que um sistema aberto pode, sim, possuir volume variável em determinadas
condições. Por exemplo, se o sistema cilindro-pistão da Figura 3 tivesse uma entrada de gás.

Em geral, um volume de controle é qualquer região arbitrada no espaço. Desta forma, temos
liberdade para escolher qual será o volume de controle a ser analisado de acordo com o
problema. Mas tenha atenção: é de grande importância escolher o volume de controle
adequado para a situação, para que o problema se torne mais fácil. Por exemplo, no caso do
conjunto cilindro-pistão, é “mais fácil” trabalhar com o gás sendo o sistema e todo o resto
como vizinhança, do que ter que analisar gás + paredes do cilindro + pistão ao mesmo tempo.
Observe na Figura 5 um esquema de sistema aberto.
Vizinhanças

massa

massa Volume de Controle

Figura 1.5: Sistema Aberto

1.3. Propriedades Termodinâmicas

Tudo o que está dentro do sistema escolhido pode ser caracterizado através de suas
propriedades. Para a engenharia, elas são as grandezas que podem ser traduzidas em
números, e determinadas através de medições e / ou de cálculos. As propriedades podem ser
classificadas em dois tipos principais:

I. Propriedades Extensivas: dependem do tamanho do sistema, isto é, do seu volume.


Exemplos: massa total do sistema, energia contida no sistema, entropia, dentre outras.

II. Propriedades Intensivas: não dependem do tamanho do sistema. Como exemplo,


podem ser citadas a massa específica (densidade), a energia específica (energia por
unidade de massa ou de volume), temperatura, pressão, etc.

Para ilustrar melhor o que é uma propriedade extensiva e uma intensiva, considere dividir o
sistema em duas partes iguais, cada uma com metade do tamanho original. Neste caso, as
propriedades intensivas irão ter o seu valor idêntico ao original, enquanto que as propriedades
extensivas terão o seu valor reduzido à metade.

Na termodinâmica, as principais propriedades que serão estudadas são:

 Temperatura (T): é definida como uma média estatística do grau de agitação (energia cinética)
das moléculas e / ou partículas de um sistema em equilíbrio térmico. Qualitativamente, é o
que define se o sistema está “frio” ou “quente”. Trata-se de uma propriedade intensiva.

 Pressão (P): é uma propriedade intensiva e, formalmente, é definida como a razão entre uma
força perpendicular a uma área e o valor da área onde aquela força atua. Em geral, a pressão é
utilizada para quantificar forças e trabalho exercidos sobre / por um gás ou líquido. Na prática,
aqui na termodinâmica a força responsável pelo trabalho a ser calculado será sempre dada na
forma de pressão.

Obs: a pressão também é denominada “tensão normal”, pois é uma tensão (força sobre área)
e ocorre na direção normal à superfície.

 Massa (m) ou número de mols (n): é a quantidade de matéria presente, seja em um sistema ou
em parte deste. Pode ser dada como massa total (extensiva) ou como massa específica
(intensiva, também conhecida como densidade ρ). A massa total é toda a matéria contida num
determinado sistema, enquanto que a massa específica é a massa total dividida pelo tamanho
(volume) do sistema.

Obs: a massa ou número de mols são representativos do tamanho do sistema, podendo ser
utilizadas para determinar propriedades intensivas de um sistema. Por exemplo, ao dividir o
volume do sistema pela quantidade de matéria contida nele, tem-se o volume específico.

 Volume (V): é uma propriedade extensiva que representa o tamanho do sistema, dado em
unidades métricas de volume. Ou seja, é a quantidade de espaço ocupada pelo sistema. Como
representa o tamanho do sistema, o volume pode ser utilizado para determinar propriedades
intensivas. Por exemplo, a entalpia total (H) dividida pelo volume (V) torna-se a entalpia
específica do sistema.

Obs: o volume também pode ser uma propriedade intensiva, quando dividido pela massa total
do sistema. Neste caso, tem-se o volume específico (v).

 Peso específico ou gravidade específica (γ): é a massa específica multiplicada pela gravidade:

𝛾 =𝜌∙𝑔

 Energia interna (U): é formalmente definida como a soma das energias de todas as partículas
presentes no sistema. Pode ocorrer na forma de energia cinética, potencial, ligações químicas,
etc., e depende sempre da temperatura, pressão e quantidade de matéria do sistema, sendo
uma propriedade extensiva. A energia interna também pode ser dada como energia interna
específica (u), que é a energia interna por unidade de massa ou de volume. Neste último caso,
ela não dependerá da quantidade de matéria (propriedade intensiva).

 Entalpia (H): é uma propriedade extensiva a soma da energia interna com as demais formas de
energia (“trabalho interno”) da substância contida no sistema. Na prática, representa a
máxima quantidade de energia que pode ser removida do sistema na forma de calor. Pode ser
apresentada na forma de entalpia específica (h), que é a entalpia por unidade de massa, uma
propriedade intensiva.

As demais propriedades serão estudadas ao longo do curso, pois necessitam de mais


conhecimentos prévios para a sua definição.

1.4. O Estado Termodinâmico e o conceito de Equilíbrio

O conjunto das condições em que um sistema se encontra em um dado momento é definido


como o estado do sistema. O estado termodinâmico é caracterizado pelo conjunto das suas
propriedades intensivas. Isto significa que dois sistemas diferentes cuja substância possua as
mesmas propriedades intensivas estarão no mesmo estado.

Para ilustrar melhor o que foi dito acima, vamos considerar um sistema que se encontra em
determinadas condições de forma permanente, isto é, não está passando por nenhuma
alteração em suas propriedades. Nesta situação, é possível medir sua temperatura, sua
pressão e também determinar todas as outras propriedades intensivas. Caso o sistema sofra
alteração em alguma das suas propriedades, as outras também poderão sofrer alterações e,
assim, será atingido um novo estado. Na Figura 6, está apresentado um determinado sistema
em dois estados diferentes.

Estado 1 Estado 2

m1 = 10 kg
o
T1 = 300 C m2 = 10 kg
3
V1 = 1 m o
T2 = 300 C
3
V2 = 0,7 m

Figura 1.6: Um mesmo sistema em dois estados diferentes.

Observe que, em ambos os estados, a massa contida no sistema e a temperatura são idênticos.
Porém, como o volume é diferente, a massa específica de ambos também é diferente e,
portanto os estados são distintos.

Obs: uma vez que as propriedades intensivas variam com o estado termodinâmico, elas
também podem ser definidas como funções de estado. Isto significa que cada estado possui
um conjunto único de propriedades termodinâmicas, que serão funções daquele estado.

O estado termodinâmico, conforme será visto nas próximas seções, é responsável por diversos
fenômenos da natureza, como, por exemplo, a fase do sistema – sólido, líquido ou gás. Por
exemplo, todos nós sabemos que a água entra em ebulição a 100 oC. Isto nos diz o seguinte:
que a água no estado de 101 oC e pressão atmosférica estará em fase gás. Ao definir o estado
do sistema, definimos também as suas condições, como a fase ou uma mistura delas. Isto será
visto com mais detalhes posteriormente, e, portanto, esta discussão será somente superficial
por enquanto.

O Equilíbrio Termodinâmico ocorre quando não há forças motrizes no interior do sistema, ou


seja, ele se encontra perfeitamente balanceado e não há potenciais de alteração em seu
interior. Mas o que isto significa? Iremos explicar este conceito através de um exemplo bem
simples e que todos conhecem: um objeto colocado dentro de uma geladeira. Vamos lá:

Os refrigeradores modernos possuem um termostato, isto é, um controlador de temperatura


que irá ligar e desligar o sistema de acordo com a temperatura desejada. Suponha que a
geladeira está programada para a temperatura de 0 oC e um objeto a 25 oC é posicionado em
seu interior. Sabemos que, nestas condições, o objeto irá “esfriar” até atingir a temperatura
programada na geladeira, uma vez que esta estará removendo energia do seu interior para
atingir a temperatura desejada. Quando o objeto finalmente atinge a temperatura igual à do
interior da geladeira, ele estará em equilíbrio térmico com esta.

Neste caso, há uma força motriz que leva à troca de energia, a fim de que o equilíbrio térmico
seja atingido. É o mesmo que acontece se deixarmos um copo com água gelada em contato
com o ambiente: ele irá trocar energia, pois a diferença de temperatura leva a um
desequilíbrio termodinâmico que será “solucionado” através da troca térmica.

Desta forma, tem-se uma conclusão importante: na natureza, tudo tende a atingir o equilíbrio!
Se um sistema em determinadas condições não estiver em equilíbrio termodinâmico com as
suas vizinhanças, ele passará por um processo no qual a energia (e, talvez, massa) serão
trocados a fim de que o equilíbrio seja atingido. Ao atingir este equilíbrio, por fim, não haverá
mais troca térmica e nem de massa.

Quando se fala em “equilíbrio termodinâmico”, devem ser levados em conta todos os tipos de
equilíbrio que devem ser estabelecidos, sendo os principais listados a seguir:

I. Equilíbrio térmico: trata-se do equilíbrio entre as temperaturas, para que não haja a
força motriz para a transferência de calor.
II. Equilíbrio mecânico: trata-se do equilíbrio de forças, para que não haja a força motriz
para o movimento. Em geral, será dado como equilíbrio de pressão.
III. Equilíbrio químico: é o equilíbrio na composição de substâncias do sistema para que
não haja reação química. Na situação de equilíbrio químico, as composições não
mudam com o tempo.
IV. Equilíbrio de fases: neste caso, são tratadas as fases do sistema. Em determinadas
situações, pode haver mais de uma fase, de forma que a quantidade de matéria em
cada fase é determinada pelo equilíbrio de fases.

Quando todas as situações de equilíbrio são estabelecidas, o sistema não terá mais nenhuma
força motriz, de forma que não irá mais trocar energia e / ou massa com as vizinhanças. Com
base em todos estes conceitos, pode-se definir a Termodinâmica como sendo a ciência que
estuda os estados de equilíbrio: na prática, a termodinâmica determina os estados em
equilíbrio e o que deve ser feito para atingir cada um deles. Portanto, a termodinâmica
estuda os processos que ocorrem na natureza com base no “antes” e no “depois”: ela não
considera o “durante”, tarefa que será trabalhada na disciplina de transferência de calor.

2. Calor e Trabalho

2.1. As formas de Energia

A gente viu, no Capítulo 1, a definição de diversos conceitos importantes para o estudo da


termodinâmica. Dentre eles, estava o conceito de energia. Vimos que a energia é uma
grandeza física capaz de quantificar e expressar as diferentes interações entre dois ou mais
corpos.

Esse conceito de energia permite que a gente explique vários fenômenos físicos, todos eles
baseados na conversão entre os diferentes tipos de energia. Quer ver só?
Exemplo: uma geladeira operando no interior de uma sala fechada e isolada termicamente,
por mais estranho que pareça, irá aquecer a sala com o tempo. Isto ocorre porque a energia
elétrica que vem da tomada é convertida em energia térmica (calor).

Figura 2.1: Um refrigerador ligado em uma sala bem fechada e isolada.

Baseado nisso tudo, a gente agora vai estudar quais são os principais tipos de energia que vão
ser importantes para a gente, beleza?

Energia Interna: é a soma de todas as formas de energia microscópicas no interior do sistema.


A energia interna pode ser interpretada tanto a nível microscópico, quanto a nível
macroscópico. A nível microscópico, ou molecular, a energia interna está geralmente
relacionada a dois tipos básicos: a energia cinética molecular e a energia potencial molecular.

Vimos que todos os corpos com temperatura diferente de zero (absoluto) possuem uma
grande movimentação de suas partículas. A energia cinética está relacionada aos movimentos
de vibração, translação e rotação das moléculas

Figura 2.2: Movimentos de translação, rotação e vibração das moléculas.

A energia potencial molecular está relacionada às interações entre átomos e entre moléculas,
como as ligações químicas e a energia nuclear.

A nível macroscópico, considera-se a energia do sistema como um todo, no caso sendo um


conjunto de átomos e / ou moléculas. A energia interna macroscópica é difícil de ser
quantificada, porém suas variações podem ser medidas a partir de várias situações e
processos. Os mais comuns e importantes são:

I) Variações de Temperatura

II) Mudanças de fase


III) Reações Químicas

Em todas as situações citadas acima, houve mudança na energia potencial (mudança de fase e
reação química) ou na energia cinética (mudança de temperatura). Portanto, a energia interna
pode ser medida indiretamente através destes parâmetros.

Energia cinética: é aquela associada ao movimento do sistema com relação a um referencial. A


energia cinética é calculada por:

𝑣2
𝐸𝑐 = 𝑚
2

Onde: Ec é a energia cinética total do sistema, m é a massa do sistema e v é a velocidade do


sistema.

Energia Potencial: está relacionada à posição de um sistema em um campo gravitacional. É


calculada por:

𝐸𝑝 = 𝑚𝑔𝑧

Onde: Ep é a energia potencial total do sistema, m é a massa do sistema, g é a aceleração da


gravidade e z é a posição (ou altura) do sistema.

Obs: a unidade de energia no SI é o Joule (J). Outras unidades comuns são: BTU, cal.

2.2. Calor e Mecanismos de Transferência de Calor

O calor é uma das formas através das quais a energia pode cruzar as fronteiras de um sistema.
Na termodinâmica, estudaremos calor, trabalho, e a energia contida na massa que cruza as
fronteiras do sistema como formas de transferência de energia.

A definição formal de calor é: “a energia transferida entre dois ou mais corpos (ou partículas)
devido a um gradiente (diferença) de temperaturas. Isto significa que, para que exista
transferência de energia térmica na forma de calor, é necessário que haja uma diferença de
temperaturas.

Por exemplo, uma latinha de refrigerante gelada colocada em uma mesa à temperatura
ambiente irá trocar calor com a mesa e com o ambiente até que, eventualmente, atinja uma
temperatura de equilíbrio igual à da mesa e do ambiente. É por isto que a latinha “esquenta”
quando sai da geladeira. Inclusive a nossa própria noção de ‘quente’ e ‘frio’ vem destas
transferências de energia que ocorrem no nosso corpo!

Uma vez que o calor está relacionado à transferência de energia, ele não pode ser medido
como um conteúdo (a quantidade de calor contida em um sistema, por exemplo), e sim
quando atravessa as fronteiras. Ele só pode ser percebido quando há transferência

Um sistema (ou processo) no qual não haja transferência de calor é denominado adiabático.
Um processo adiabático pode ocorrer principalmente em duas situações: 1) o sistema é bem
fechado e isolado termicamente; 2) as temperaturas do sistema e das vizinhanças são iguais.
Existem três mecanismos principais de transferência de calor: a condução, a convecção e a
radiação. Estes mecanismos são estudados com detalhe nas disciplinas de transferência de
calor. A grande diferença entre as disciplinas se dá no fato de que, enquanto a termodinâmica
estuda o equilíbrio (o antes e o depois), a transferência de calor estuda o caminho (o
“durante”).

Como se trata de uma forma de energia (ainda que em transferência), a unidade do calor
também é o J. Frequentemente ele é expresso como uma taxa (quantidade de calor em um
período de tempo), na forma de J/s (Watt, ou W). A representação do calor nas equações
ocorre através da letra Q.

Obs: a transferência de calor sempre ocorre da temperatura mais alta para a temperatura
mais baixa.

2.3. Trabalho e formas de trabalho

O trabalho, assim como o calor, é uma forma de transferência de energia. É uma das formas
através das quais a energia pode cruzar as fronteiras de um sistema. O trabalho está
geralmente associado a algo útil que pode ser extraído do sistema. Por exemplo, pode ser um
trabalho mecânico (compressão, expansão, um eixo rotatório), trabalho elétrico, trabalho
magnético, etc.

O conceito principal de trabalho é definido da seguinte forma: “trabalho é o produto


resultante da ação de uma força ao longo de uma distância”.

Logo, o trabalho está associado a qualquer situação onde um ou mais corpos se deslocam
através de uma distância. Sendo assim, é fácil reconhecer o trabalho em situações reais: ao
levantar um braço, mover um objeto, escoar um fluido, estamos realizando trabalho.

A unidade de trabalho, sendo uma forma de energia é o Joule (J). O trabalho, nas equações e
textos, é comumente representado pela letra W.

Obs: não confundir o membro W (trabalho) das equações com a unidade de potência W
(watt)!!!

 Trabalho elétrico: o trabalho elétrico ocorrerá quando cargas elétricas se moverem ao


longo de uma distância onde houver a ação de um campo elétrico. Neste caso, a força
será a força elétrica. O trabalho elétrico é constantemente calculado através da
potência elétrica:
𝑊𝑒𝑙 = 𝑉𝐼

Onde V é a diferença de potencial elétrico (em Volts, V) e I é a corrente elétrica em ampères


(A). Sendo a potência elétrica uma quantidade de energia dividida por um período de tempo, é
só multiplicar pela quantidade de tempo para, então, encontrar o total de trabalho elétrico.
 Trabalho mecânico: o trabalho mecânico é a forma mais simples de se visualizar o
trabalho, pois se trata simplesmente de uma força empurrando um objeto ao longo de
uma distância.

𝑊 = 𝐹𝑠

Onde W é o trabalho, F é a força aplicada e s é a distância percorrida. Mas e se a força não for
constante, e variar ao longo da distância? Ora, aprendemos no cálculo (viu? é para isso que ele
serve!) que a soma dos valores de uma função em um dado intervalo é calculado através de
uma integral. Portanto, de uma forma mais genérica, temos:
2
𝑊= 𝐹 𝑑𝑠
1

Onde está sendo calculado o trabalho realizado pela força F ao longo do caminho entre 1 e 2.
Esta forma é a mais genérica de todas, e ela é aquela que você, estudante de engenharia, deve
dominar, pois se aplicará em todos os casos. Agora veremos dois casos especiais que podemos
utilizar ao longo dos nossos estudos.

 Trabalho contra uma mola: uma mola se comprime ou se estica toda vez que uma
força é aplicada a ela. A resistência à compressão ou tração é sempre uma função do
comprimento da mola, e, portanto, também é a força que deve ser aplicada. Portanto,
o trabalho calculado para uma força agindo sobre uma mola é dado por:
𝑥2
𝑊= 𝐹 𝑑𝑥
𝑥1

Onde x1 é o comprimento inicial, e x2 é o comprimento final da mola. Para um caso onde a


mola é linear, a força é linear com relação ao deslocamento:

𝐹 = 𝑘𝑥

De onde concluímos que o trabalho será calculado por:

1
𝑊 = 𝑘(𝑥2 2 − 𝑥1 2 )
2

2.4. Convenção de sinais para calor e trabalho

Uma propriedade importante das grandezas calor e trabalho é que elas são direcionais, uma
vez que se tratam de formas de transferência de energia – podem entrar ou sair de um
sistema.

Desta forma, para que os problemas da termodinâmica sejam resolvidos corretamente, é


importante que os sinais destas grandezas sejam aplicados adequadamente. Estes sinais vão
de acordo com a forma utilizada para as Leis da Termodinâmica. Neste curso, as convenções
são as seguintes:
I. Calor entra no sistema: Q > 0 (positivo)
II. Calor sai do sistema: Q < 0 (negativo)
III. Trabalho realizado pelo sistema: W > 0 (positivo)
IV. Trabalho realizado sobre o sistema: W < 0 (negativo)

Obs: é muito mais importante compreender os sinais do que simplesmente ‘decorar’ a


convenção. Desta forma, o engenheiro será capaz de solucionar problemas mesmo quando a
convenção não for a habitual.

2.5. Processos Termodinâmicos: funções de estado

A gente viu anteriormente que, na termodinâmica, algumas propriedades dependem somente


do estado do sistema. Estas grandezas foram denominadas funções de estado. Analisando sob
o ponto de vista das formas de energia, pode-se interpretar a energia interna como sendo uma
função de estado. Mas o que é isso?

Para entender melhor este conceito, devemos definir o que é um processo. Um processo
termodinâmico é uma transformação causada por um desequilíbrio, através da qual o
sistema tende a interagir com as vizinhanças a fim de atingir um novo estado de equilíbrio.
Assim sendo, todas as vezes que um sistema sair do equilíbrio, ele irá sofrer um processo para
que chegue a um novo estado que esteja em equilíbrio. Por exemplo, a latinha de refrigerante
colocada no congelador entrará em desequilíbrio com as vizinhanças (temperaturas
diferentes), de forma que haverá uma força motriz (a diferença entre as temperaturas) que
fará com que ela troque energia com as vizinhanças até que ela esteja na mesma temperatura
que estas.

Portanto, sempre que houver uma força motriz, haverá um processo termodinâmico. Esta
força motriz é causada por um distúrbio ou desequilíbrio do sistema com as suas vizinhanças.
No exemplo anterior, a latinha se encontrava inicialmente no “estado 1” (temperatura
ambiente) e, após sofrer o processo termodinâmico, chegou ao “estado 2” (temperatura do
congelador). Logo, um processo termodinâmico pode ser interpretado como uma
transformação que leva um sistema de um estado de equilíbrio a outro estado de equilíbrio.

A partir dos conceitos acima e da definição da energia interna, conclui-se que, como uma
função de estado, a energia interna do sistema só depende dos estados inicial e final.
Portanto, a energia interna não depende do caminho. Mas o que significa não depender do
caminho?

Considere o exemplo a seguir, onde um sistema é levado do Estado 1 ao Estado 2 através de


dois processos distintos A e B.
Figura 2.3: Um sistema passando por dois processos que levam do estado 1 ao estado 2.

Ambos os processos levarão o sistema do Estado 1 para o Estado 2. Desta forma, todas as
propriedades do sistema serão as mesmas independente do processo, correto? A energia
interna, a temperatura, a pressão, entre outras propriedades do sistema, serão todos
independentes do caminho. Estas propriedades que somente dependem dos estados inicial e
final são denominadas funções de estado.

Calor e Trabalho são formas de transferência de energia que dependem do caminho, ou seja,
eles não são iguais nos processos A e B. Por este motivo, a termodinâmica é uma ciência tão
importante na formação do engenheiro: ela nos ajuda a controlar quantidade de calor e de
trabalho que podem ser obtidos em algum equipamento ou processo, de acordo com as
nossas necessidades, com a melhor eficiência possível. Estes conceitos serão detalhados nos
próximos capítulos.

Agora podemos encerrar com o conteúdo e ir para os exercícios (ufa!)


Capítulo 1 – Conceitos Iniciais

1) Um funcionário de escritório diz que uma xícara de café frio sobre sua mesa aqueceu
até 80 °C, retirando a energia do ar ambiente, que está a 25 °C. Existe alguma verdade
nessa alegação? Esse processo viola alguma lei da termodinâmica?

2) Determine a massa e o peso do ar contido em uma sala cujas dimensões são 6 m x 6 m


x 8 m. Suponha que a densidade do ar seja de 1,16 kg/m3

3) O calor específico a pressão constante do ar a 25 °C é 1,005 kJ/kg·°C. Expresse esse


valor em kJ/kg·K, J/g·°C, kcal/ kg·°C, e Btu/lbm·°F.

4) Em algum estágio da solução de um problema, uma pessoa acabou chegando à


equação E = 25 kJ + 7 kJ/kg. Aqui, E é a energia total e tem como unidade o quilojoule.
Determine como corrigir o erro e discuta o que o causou.

5) O tanque de gasolina de um carro é completado com um bocal que descarrega


gasolina a uma vazão constante. Com base nas unidades de grandezas físicas, obtenha
uma expressão para o tempo de enchimento, considerando o volume V do tanque (em
L) e da taxa de descarga de gasolina (em L/s).

6) Qual é a diferença entre as propriedades intensivas e extensivas? O peso de um


sistema é uma propriedade intensiva ou extensiva?

7) Para que um sistema esteja em equilíbrio termodinâmico, a temperatura e a pressão


precisam ser as mesmas em todos os lugares?

Capítulo 2 – Energia e suas formas

8) O que é energia total? Identifique as diferentes formas de energia que constituem a


energia total.

9) O que é energia mecânica? Em que ela difere da energia térmica? Quais são as formas
de energia mecânica presentes no escoamento de um fluido?

10) Em um determinado local, o vento tem a velocidade constante de 10 m/s. Determine a


energia mecânica do ar por unidade de massa e o potencial para geração de potência
de uma turbina eólica com pás de 60 m de diâmetro naquele local. Considere a
densidade do ar 1,25 kg/m3.

11) Dois locais estão sendo considerados para geração de energia eólica. No primeiro
local, o vento sopra a 7 m/s durante 3.000 horas por ano, enquanto no segundo local o
vento sopra a 10 m/s durante 2.000 horas por ano. Considerando, por questões de
simplicidade, que a velocidade do vento seja desprezível no restante do ano para os
dois casos, determine qual é o melhor local para a geração de potência. Dica: Observe
que o fluxo de massa do ar é proporcional à velocidade do vento.
12) Considere um rio escoando em direção a um lago com uma velocidade média de 3 m/s
a uma vazão de 500 m3/s em um local 90 m acima da superfície do lago. Determine a
energia mecânica total da água do rio por unidade de massa e o potencial para
geração de potência do rio naquele local.

13) Responda às perguntas:

a) Sob quais formas a energia pode atravessar as fronteiras de um sistema


fechado? Quando a energia que atravessa as fronteiras de um sistema fechado
é calor e quando ela é trabalho?
b) O que é um processo adiabático? O que é um sistema adiabático?

14) Uma sala de aula para 40 pessoas deve ser climatizada por meio de aparelhos de
condicionamento de ar com capacidade de resfriamento de 5 kW. Considera-se que
uma pessoa parada dissipe calor a uma taxa de aproximadamente 360 kJ/h. Existem 10
lâmpadas incandescentes na sala, cada uma com uma capacidade nominal de 100 W. A
taxa de transferência de calor para a sala através das paredes e das janelas é estimada
em 15.000 kJ/h. Para que o ar da sala seja mantido à temperatura constante de 21 ºC,
determine o número de aparelhos de condicionamento de ar necessários.

15) Um ventilador deve acelerar ar parado até a velocidade de 8 m/s a uma taxa de 9
m3/s. Determine a potência mínima que deve ser fornecida ao ventilador. Suponha
que a densidade do ar seja de 1,18 kg/m3.

16) As necessidades de iluminação de um depósito estão sendo atendidas com seis


conjuntos de lâmpadas fluorescentes, sendo que cada conjunto contém quatro
lâmpadas de 60 W cada. As lâmpadas permanecem acesas das 6 às 18 horas durante
os 365 dias do ano. No momento, utiliza-se o depósito a uma média de três horas por
dia. Considerando que o preço da eletricidade é de US$ 0,08/kWh, determine a
quantidade de energia e o dinheiro economizado como resultado da instalação de
sensores de movimento. Determine também o período de recuperação do
investimento, considerando que o preço de compra do sensor é de US$ 32 e que foi
necessária uma hora para a sua instalação ao custo de US$ 40.

17) Analise a situação abaixo.

Um veranista sente bastante calor ao chegar a sua casa de praia e se irrita ao constatar
que o sistema de ar condicionado do seu quarto não está funcionando. Tentando
solucionar o problema e resfriar o quarto, ele teve a idéia de ligar o frigobar que se
encontra no interior do quarto, deixando sua porta aberta. As portas e janelas do quarto
foram mantidas fechadas. A decisão do veranista foi sábia? O que acontecerá com a
temperatura do quarto?
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