Você está na página 1de 109

D.

AFONSO HENRIQUES
Diogo Freitas do Amaral

DIOGO FREITAS DO AMARAL


D. AFONSO HENRIQUES
Biografia
12.ª edição
BERTRAND EDITORA
2000

Diogo Freitas do Amaral


Capa: D. Afonso Henriques, estátua de Soares dos Reis Fotografia: Foto Tó -Estoril
Todos os direitos para a publicação desta obra em língua portuguesa, excepto Brasil,
reservados por Bertrand Editora, Lda.

Nota do autor
Este livro não é obra de investigação, mas de reflexão e divulgação.
Não tem autoria de historiador, mas de cidadão. Não tem aspirações científicas, mas
cívicas. E não pretende defender nenhuma tese sobre o magno problema dos factores da
formação de Portugal, nem tão-pouco retratar a história integral do País no século XII - mas
apenas compreender, e dar a conhecer melhor, a acção do principal protagonista da nossa
independência.
Por isso tem o carácter de biografia.

D.F.A.
Fotocomposição e montagem: Espaço 2 Gráfico Impressão e Acabamento: Tilgráfica, S.A.
Depósito Legal n.o 158337/00 Acabou de imprimir-se em Dezembro de 2000 ISBN: 972-
25-1157-2
Índice
Nota do autor...2
Capítulo I
A Europa no século XII...5
Capítulo II
Nascimento e infância de D. Afonso...10
Capítulo III
Juventude e formação do infante...14
Capítulo IV
O infante arma-se cavaleiro...17
Capítulo V
O episódio de Egas Moniz...19
Capítulo VI
A revolta dos barões portucalenses...22
Capítulo VII
A batalha de S. Mamede...23
Capítulo VIII
As grandes opções do príncipe...26
Capítulo IX
Pressões sobre a Galiza...29
Capítulo X
A “capital” em Coimbra e o caso do bispo negro...34
Capítulo XI
A batalha de Ourique...38
Capítulo XII
O título de Rei e o primeiro filho...42
Capítulo XIII
Valdevez e a Conferência de Zamora...45
Capítulo XIV
A vassalagem ao Papa...49
Capítulo XV
As pretensas Cortes de Lamego...54
Capítulo XVI
O casamento com D. Mafalda de Sabóia...56
Capítulo XVII
Os filhos de D. Afonso Henriques...59
Capítulo XVIII
A conquista de Santarém...62
Capítulo XIX
A tomada de Lisboa...65
Capítulo XX
O feito de Martim Moniz e a trasladação de S. Vicente...70
Capítulo XXI
A conquista do Alentejo...72
Capítulo XXII
Desvios estratégicos: o desastre de Badajoz...79
Capítulo XXIII
A crise da sucessão...83
Capítulo XXIV
Os anos do fim...88
Capítulo XXV
D. Afonso Henriques: o Homem e a obra...93
Cronologia...97
Agradecimentos...99
Bibliografia seleccionada...103
Capítulo I
A Europa no século XII
D. Afonso Henriques nasce, segundo a melhor opinião, no ano de 1109.
Em que mundo lhe é dado nascer? A Europa vive então em plena Idade Média: os países
são monarquias, as economias são agrárias, as sociedades são feudais, as mentalidades são
religiosas, o poder espiritual pertence à Igreja Católica, o chefe da cristandade é o Papa.
O clero dedica-se ao culto, à educação e à assistência; a nobreza vive das taxas locais e dos
rendimentos da agricultura, e assegura as necessidades militares da defesa do reino e da
conquista de novos territórios- o povo é constituído essencialmente por trabalhadores
agrícolas - os servos da gleba e os escravos -, que vivem em economia de subsistência,
chefiados administrativamente pelos senhores da terra, e enquadrados moralmente pelos
bispos e párocos.
A carta geográfica da Europa está bem desenhada: apesar de alguma confusão na Península
Ibérica, já existe o Reino da França, o Reino da Inglaterra, o Império Romano-Germânico,
os reinos da Escócia, Noruega, Suécia e Dinamarca, o principado da Polónia, o Reino da
Hungria, e está prestes a surgir o principado da Rússia- Roma é a cidade dos Papas. Nada
disto é muito diferente do que no nosso tempo nos habituámos a considerar como Europa
(mapa 1). Onde as semelhanças com a actualidade são poucas é na Península Ibérica: não
existem ainda nem a Espanha, nem Portugal. O que há, no início do século XII, é a metade
Sul dominada por emiratos árabes, e na metade Norte, sucedendo ao Reino das Astúrias, os
reinos de Leão, Castela, Aragão e Navarra, bem como o condado de Barcelona (mapa 2).
Sabe-se porque é que isto é assim. É que, depois de a Península Ibérica ter sido ocupada e
governada durante oito séculos pelos romanos, essa situação foi substituída pelas ocupações
visigótica e muçulmana, a segunda das quais, a partir do Norte de África, invadiu toda a
Península e penetrou no Sul de França, até à cidade de Poitiers.
Os romanos, que dominaram a Península Ibérica durante a maior parte da sua ocupação,
bem como os visigodos, eram povos convertidos ao cristianismo.
Quer isto dizer, portanto, que a estreita faixa de território situada no Norte da Península
Ibérica, e que permaneceu imune à ocupação muçulmana no século viii, era constituída por
uma população essencialmente cristã. Esta, em tempos de profunda religiosidade, não se
conformou com a vitória dos muçulmanos e projectou a sua desforra.
Era necessário partir à conquista do Sul e retomar a Península Ibérica aos mouros: foi a esta
campanha militar, que durou sete séculos, que se chamou a Reconquísta Crístã. Iniciou-se
em Covadonga, sob a chefia do Rei Pelágio, no século viii, e só terminou em Granada, sob
a direcção dos reis Católicos, Fernando e Isabel, no século XV.
Quem vão ser os principais agentes dessa Reconquista? Os grandes inspiradores serão os
Papas; os grandes aliados serão a França e a Inglaterra; os grandes executores serão os reis,
os senhores feudais e os bispos da Península Ibérica, nomeadamente os reis de Leão.
Destes, destacam-se sobretudo três grandes monarcas leoneses, que conduzem a
Reconquista até ao Sul: Afonso III, que ocupa Lamego, Viseu e Coimbra (910); Fernando
Magno que, após as incursões de Almançor para norte, recupera o território até ao
Mondego (1064), e Afonso VI que, reunindo nas suas mãos os reinos de Leão, Galiza e
Castela, se faz coroar imperador, conquista Toledo, Valência e Saragoça, e depois ocupa
vitoriosamente Santarém e Lisboa, conseguindo fazer descer a fronteira cristã até ao Tejo
(1094).
Os muçulmanos, porém, recuperam Lisboa e Santarém logo em 1095, impondo assim o
regresso da fronteira à linha do rio Mondego.
É nesta altura, ou mais precisamente no ano seguinte, 1096, que Afonso VI de Leão - numa
clara delegação de autoridade, em busca de maior eficiência - decide confiar a Galiza e a
terra portucalense aos seus dois genros: o imperador leonês casa a filha mais velha, Urraca,
com o conde D. Raimundo de Borgonha, e a filha mais nova, ilegítima, Teresa, com um
primo daquele, o conde D. Henrique de Borgonha.
Ao primeiro casal atribui o governo da Galiza; ao segundo concede a administração do
Condado Portucalense. A diferença das zonas geográficas tem uma razão de ser: é que D.
Raimundo, um ano antes, mostrou ser fraco lutador frente aos mouros e melhor será,
portanto, colocá-lo mais a norte; D. Henrique revelou ser um bom chefe militar, pelo que
lhe assenta logicamente um lugar na primeira linha do combate, mais a sul.
O Condado Portucalense é concedido a D. Henrique e D. Teresa em 1096, ano do
respectivo casamento: o território concedido era vasto - do rio Minho, a norte, até ao rio
Mondego, a sul. Para cima do Minho, o território era galego; para sul do Mondego, a terra
era dos sarracenos. A condição implícita na concessão era, pois, a de não expandir o
Condado Portucalense para norte, usurpando terra que estava em mãos amigas, mas alargá-
lo o mais possível para sul, anexando o território ocupado pelo inimigo.
A concessão do Condado Portucalense a D. Teresa e seu marido não foi dada numa só vida,
mas, pelo contrário, foi feita a título hereditário, devendo passar por morte deles aos
respectivos filhos e netos.
Por isso, falecido D. Henrique e afastada D. Teresa, o filho mais velho deles, D. Afonso
Henriques, sucedeu naturalmente na chefia do condado, sem necessidade de confirmação
ou renovação da concessão por parte do Rei de Leão.
O casamento de D. Henrique e de D. Teresa teve lugar, como vimos, em 1096. Mas o casal,
apesar de ter procriado três filhas (Urraca, Teresa e Sancha), teve que esperar treze anos até
ver nascer o seu único filho varão: D. Afonso Henriques veio à luz, com efeito, apenas em
1109.
Chamaram-lhe Afonso em homenagem ao avô - o Imperador de Leão, Afonso VI -, e
Henriques por causa do pai, D. Henrique (Henriques significava “filho de Henrique”). Na
altura não se atribuíam apelidos familiares, como hoje fazemos.
D. Henrique e D. Teresa, sem nunca praticarem actos de revolta ou insubordinação contra o
Imperador de Leão, desenvolveram inicialmente a autonomia do Condado Portucalense,
mas sempre no seio da monarquia leonesa. Só mais tarde, com o filho deles, D. Afonso
Henriques, essa política se transformou numa verdadeira luta pela independência de
Portugal.
D. Afonso Henriques nasce, pois, em 1109. Nesse ano, qual é a situação política da
Europa?
O Imperador de Leão, Castela e Galiza (incluindo a terra portucalense) é Afonso VI - o
grande unificador dos reinos do norte peninsular, o conquistador de Toledo, o homem que
trouxe os cristãos até ao Tejo, ocupando Lisboa.’
O Rei de França é Luís VI, o Gordo (1108-1137) - o verdadeiro consolidador da monarquia
capeta, que combateu vivamente o feudalismo e repeliu a invasão do imperador germânico
Henrique V.
O Rei de Inglaterra é Henrique 1, Beauclerc (1100- 113 5) quarto filho de Guilherme, o
Conquístador, que promulgou uma «Carta de Liberdades», importante precursora da
“Magna Charta”, do século seguinte.
O Imperador Romano-Germânico é Henrique V (1106-1125) - o homem que conseguiu
finalmente resolver com o papado a difícil “querela das investiduras”, na Concordata de
Worms (1123).
E na Santa Sé reina o Papa Pascoal II (1099-1118) - que se empenhou a fundo na «querela
das investiduras», lutando contra os imperadores Henrique IV e Henrique V, mas não
conseguiu resolvê-la.
No século XII a Europa está desassossegada: de 1109 a 1113 lavra mais uma guerra anglo-
francesa e, ao mesmo tempo, está em curso o conflito entre o Papado e o Império, em que
se joga o primado do poder espiritual ou do poder temporal nos países europeus.
O século XII ficará sobretudo marcado como “o século das Cruzadas”, movimento geral de
toda a Cristandade conduzido no sentido de libertar do domínio muçulmano os Lugares
Santos e, em especial, Jerusalém.
Quando nasce D. Afonso Henriques, a Primeira Cruzada já se efectuou: teve lugar de 1096
a 1099 e alcançou um certo êxito (importantes conquistas aos Turcos e tomada de
Jerusalém). Mas as posições obtidas foram perdidas pouco depois e uma Segunda Cruzada
será lançada pelo Papa Eugénio III, em 1145 - já em pleno reinado do nosso primeiro
monarca. Será, aliás, no âmbito desta Segunda Cruzada que alguns milhares de
combatentes estrangeiros, nomeadamente ingleses, auxiliarão o Rei português na conquista
de Lisboa aos mouros. Alguns falarão então numa “Cruzada do Ocidente”, a par das
cruzadas do Oriente. Estas continuarão ainda nas décadas seguintes.
Toda a vida de D. Afonso Henriques decorrerá em pleno século XII, entre 1109 e 1185.
Que outras figuras conhecidas da história universal vivem no mesmo período? Não muitas:
em três reis de França, três reis de Inglaterra e doze pontífices romanos, não se destaca
nenhum nome verdadeiramente importante, a não ser o do Papa Alexandre III, que aliás
ficará para sempre ligado à História de Portugal, por ter sido o subscritor da bula Manifestís
probatum. É neste período que nasce e morre assassinado, às ordens do seu rei, o célebre
arcebispo de Cantuária, Thomas Becket; nascem também nesta época o futuro imperador
dos Mongóis, Gengis Khan, e o conhecido Rei de Inglaterra, Ricardo, Coração de Leão.
Morre Santo Anselmo, ilustre doutor da Igreja, nasce S. Francisco de Assis, grande santo
que se pode considerar o precursor dos ecologistas, e é canonizado Carlos Magno, o
fundador do Estado francês.
Ainda no século xii produzem-se outros acontecimentos de bastante relevo: emergem as
primeiras cidades europeias; prossegue a construção de algumas das mais belas catedrais
(Chartres, Oxford, Mainz); são fundadas as três primeiras universidades do mundo
(Bolonha, Paris, Oxford); nasce o grande filósofo árabe, Averróis; e dão os seus primeiros
passos a poesia e a música trovadorescas. O 1º Concílio de Latrão (1123) proíbe o
casamento dos padres católicos. A cidade de Moscovo aparece citada pela primeira vez.
Inicia-se a construção da Igreja de Notre-Dame de Paris, e da famosa Ponte de Avignon.
Aparecem as primeiras janelas de vidro nas casas inglesas. Em 1160 é escrito o célebre
poema épico celta, Tristão e Isolda; dez anos depois surge o primeiro romance de cavalaria,
Lancelote, e em 117 6 são reduzidas a escrito as famosas Lendas do Rei Artur.
Neste contexto e nesta época, D. Afonso Henriques surgirá, em todos os aspectos, como um
homem do seu tempo: será um cavaleiro medieval, crente fervoroso e feroz combatente;
viverá uma vida épica, mergulhada em batalhas gloriosas, em lendas míticas e em cantigas
de amor; construirá castelos, igrejas e mosteiros; e será sobretudo um rei-fundador,
determinado a criar um país e a dar-lhe condições de independência. Monarca cristão do
século XII peninsular, será principalmente um militante da Cruzada do Ocidente, apostado
numa luta sem quartel contra os infiéis muçulmanos.
O retrato que dele fazem as crónicas antigas não deixa dúvidas sobre o personagem: por um
lado, «homem muito benévolo e devoto», “prudentíssimo e dotado de claro engenho”, “de
nobre figura, belo rosto e olhar agradável”; mas, por outro, homem “mui grande de corpo e
de mui assinalada valentia”, “de força grande e coração muito maior”, e “grande cortador
de espada” ...
Capítulo II
Nascimento e infância de D. Afonso

D. Afonso Henriques terá nascido em 1109. Esta afirmação está longe de ser pacífica, uma
vez que não chegou até nós nenhum documento comprovativo da data do nascimento ou do
baptizado. Assim, as opiniões dos historiadores vão-se formando ou pela consulta directa
das crónicas antigas, ou pela tentativa de descobrir onde se encontrava amãe do jovem
príncipe nas datas em que se admite ter ele nascido.
As incertezas são muitas: a data preferida por maior número de historiadores é 1109; mas
também aparecem citadas 1100- 1105, ou 1106-1110, ou 1111. Para todos os efeitos,
vamos aqui tomar como boa a data de 1109. E mencionaremos, por curiosidade, que um
historiador português julga mesmo poder indicar, com algum grau de certeza, o dia e o mês
do nascimento: este teria ocorrido, provavelmente, em 5 de Agosto de 1109.
Se as dúvidas e opiniões contraditórias são muitas a respeito da data do nascimento de D.
Afonso Henriques, maiores são ainda as incertezas e divergências quanto ao local do
nascimento: segundo a tradição foi Guimarães; mas vários estudiosos contestam-na,
defendendo antes que foi Coimbra ou Viseu, ou Astorga. Não me parece que haja neste
momento uma sedimentação consistente para se poder chegar a uma conclusão clara:
continuarei, pois, até melhor prova em contrário, a presumir que o nosso primeiro rei
nasceu em Guimarães (a Cidade-Berço) e que aí foi baptizado, na Igreja de S. Miguel do
Castelo.
Este jovem príncipe, filho de pai francês e de mãe leonesa tem uma ascendência notável:
ele é, nem mais nem menos, neto do Imperador de Leão - o qual, por sua vez, descende em
linha recta de Hugo Capeto, Rei de França, fundador da dinastia dos Capetos, que dominou
a época medieval francesa.
Nasce bom e são, o príncipe D. Afonso? A lenda diz que não, sustentando que veio à luz
aleijado, e que só por um milagre de Nossa Senhora ficou são e escorreito:
“Veio a Raínha (D. Teresa) a parir um filho grande e formoso, que não podía ser uma mais
bela criatura, salvo que nasce com as pernas tão encolhídas, que, pelo parecer dos médicos
e de todos, julgavam que nunca podería ser são delas. (... ) Tanto que D. Egas Moniz soube
que a Rainha paríra, cavalgou à pressa, e veio a Guimarães, onde o Conde D. Henrique
estava, e pedíu-lhe por mercê que lhe desse o fílho que lhe nascera para o poder criar, como
lhe tínha prometido.
O Conde respondeu-lhe que não quisesse tomar tal encargo porque o filho que Deus lhe
dera nascera, pelos seus pecados, tolhido, de maneira que todos acreditavam que nunca
vingaria nem víría a ser homem.
D. Egas, quando isto ouviu, sofreu muito e disse:
- Senhor, antes cuido eu que por meus pecados aconteceu isto. Mas, já que a Deus aprouve
de ser esse o meu destino dai-me mesmo assim o vosso fílho, seja qual for o seu estado.
E o Conde, embora tivesse grande relutância, pelo bem que a D. Egas Moníz queria, de o
encarregar de semelhante tarefa, por causa do aleijão da criança, contudo deu-lha para lhe
ser agradável.
E quando D. Egas víu a críatura tão formosa e com tal aleijão, teve grande pena dela: e
confíando em Deus, que lhe poderia dar saúde, tomou-a e fê-la criar, sem menos ardor e
cuidado que se fosse muito sã.
E estando D. Egas deitado uma noite dormindo, tendo já o menino cinco anos, apareceu-lhe
Nossa Senhora e dísse:
- D. Egas, dormes? Ele, acordando com esta vísão e voz, respondeu:
- Senhora, quem sois vós? Ela disse:
- Eu sou a Vírgem María, que te mando que vás a um tal lugar (dando-lhe logo os sinais
dele) e faz aí cavar, e acharás lá uma igreja, que noutro tempo foi começada em meu nome,
e uma imagem minha. Faz reconstruir a igreja e a imagem feita à minha honra, e isto feito,
farás aí vígília, pondo o menino que crias sobre o altar: e sabe que se curará, e será são de
todo. E não trabalhes menos, de aí em díante, a criá-lo bem e a guardá-lo como fazes,
porque o meu fílho quer por ele destruír muitos inimigos da fé.
Desaparecída esta vísão, fícou D. Egas Moniz muito consolado e alegre, como vassalo que
com são e verdadeiro amor amava o seu senhor e as suas coisas.
E assim que foi manhã, levantou-se logo e foi com muita gente àquele lugar que lhe fora
dito: e mandando aí cavar achou aquela igreja e imagem, pondo em obra todas as coisas
que Nossa Senhora lhe mandara, à qual aprouve, por sua santa piedade, logo que o menino
foi posto sobre o seu altar, ser logo curado e são das pernas, sem nenhum aleijão, como se
nunca tivesse tido nada.
Vendo D. Egas este tamanho prazer e milagre, deu muitos louvores a Deus e à Senhora sua
Mãe, criando e guardando de aí em diante, com muito maior cuidado, o menino, de quem
foi sempre o aio.
( ... ) E por causa deste milagre, foi depois feito nesta igreja, com muita devoção, o
mosteiro de Cárquere.” (Cárquere é hoje uma freguesia do concelho de Resende, distrito de
Viseu).
Como se vê, D. Afonso Henriques, segundo a lenda, foi à nascença uma criança
miraculada, o que evidenciava bem segundo a mentalidade medieval - que estava
predestinado por Deus para altos feitos patrióticos. Quem tomou conta do jovem príncipe,
desde a mais tenra idade foi D. Egas Moniz - um grande fidalgo de Entre Douro e Minho,
pertencente a uma das famílias mais nobres e poderosas do condado Portucalense. (Há
opiniões em contrário: há quem entenda que o aio de D. Afonso Henriques não foi Egas
Moniz, mas antes Sociro Mendes, o Bom).
A família de Egas Moniz era de Ribadouro (região mais vasta que a actual freguesia do
mesmo nome no concelho de Baião, distrito do Porto), e possuía terras em numerosas
localidades no Norte de Portugal.
Quando D. Egas Moniz tomou conta do príncipe D. Afonso devia ter cerca de 35 anos de
idade e tinha acabado de se casar, em segundas núpcias, com D. Teresa Afonso, filha do
conde das Astúrias (nobre leonês): é pois natural que D. Afonso Henriques tenha crescido e
brincado juntamente com os filhos de Egas Moniz. Egas Moniz não era apenas um membro
ilustre da nobreza portocalense, um homem rico e poderoso, um cavaleiro capaz de reunir
algumas centenas de homens para combaterem o inimigo que lhes fosse designado: era
também um homem de honra, dotado de uma sã formação moral, capaz de definir
princípios de conduta exigentes e de se manter fiel a eles na prática quotidiana.Numa
palavra: foi uma boa escolha do conde D. Henrique para preceptor do filho que um dia lhe
havia de suceder na chefia do Condado Portucalense. Para além de lhe dar uma boa
educação física e militar, incutiu-lhe sãos princípios morais que moldaram o carácter do
futuro rei.
Não há a certeza do local onde Afonso Henriques, com o seu aio, terá passado os primeiros
anos da sua mocidade: uns pensam que terá sido em Ribadouro, outros entendem que foi
sobretudo em Cresconhe, Sanfins do Douro (distrito de Vila Real),outros ainda que terá
sido em Britiande, junto a Lamego.
Seja como for, uma coisa é certa: a partir de 1113, quando Afonso ia nos seus quatro ou
cinco anos, D. Egas é nomeado governador de Lamego, onde ficará instalado até 1117.
Podemos pois deduzir que o infante D. Afonso terá estado entre os quatro ou cinco anos e
os oito ou nove na região de Lamego.
Muito provavelmente, ao aproximar-se dos dez anos de idade (1119), o infante terá passado
a residir em Guimarães, recebendo também a influência espiritual e cívica do poderoso
arcebispo de Braga, D. Paio Mendes, que pertencia a outra das mais influentes famílias da
nobreza portucalense - a dos senhores da Maia . Tanto com este prelado como com um dos
seus sucessores, D. João Peculiar, manteve D. Afonso Henriques as melhores relações
pessoais e políticas - um dos motivos pelos quais, no seu longo reinado, não houve
qualquer contencioso grave entre a Igreja e o Estado (um dos problemas mais difíceis da
Idade Média europeia, como se sabe).
Ao nascer, D. Afonso Henriques tem já na família três irmãs mais velhas: chamam-se elas
D. Urraca, a primeira, D. Teresa Henriques, a do meio, e D. Sancha, a mais nova. Ignora-se
se foram educadas junto do príncipe, ou se este foi mantido isolado, em locais distantes. O
que se sabe é que alguns dos filhos delas - sobrinhos de D. Afonso Henriques - aparecerão
mais tarde a pelejar junto dele contra os mouros no sul do país.
Há quem diga que D. Afonso Henriques teve um irmão, filho ilegítimo, D. Pedro Afonso -
que o futuro rei de Portugal estimou e protegeu, e que veio a ser mestre de Aviz, acabando
Por professar em Alcobaça, onde terá morrido em 1169: não se encontra, porém,
confirmação documental desta notícia.

Faltam elementos que nos elucidem sobre o género de educação que ao infante D. Afonso
terá sido dada por Egas Moniz e por sua mulher, D. Teresa Afonso. Mas sabendo-se que
eram uma família nobre, portucalense, católica, não é difícil concluir que lhe ensinaram o
«galaico -português» (língua que então se falava no Condado Portucalense) e talvez um
pouco de latim, que lhe deram as noções elementares da fé católica, ensinando-o a rezar a
Deus e à Virgem, e que o procuraram adestrar na ginástica e na equitação.
Companheiros de brincadeira - que havia de incluir, por certo, verdadeiros «torneios
medievais» em miniatura ou «a fin gir» -, se não eram as irmãs do príncipe, eram com
certeza os filhos de Egas Moniz, mais velhos os do seu primeiro casamento, da mesma
idade que Afonso os do segundo.
É pouco verosímil que D. Afonso Henriques, aos três anos de idade, tenha sido levado a
Astorga, junto de León, que era ao tempo um senhorio do pai. D. Henrique encontrava-se
nesse seu feudo em 24 de Abril de 1112, quando faleceu. Diz a lenda que teve então, pouco
antes de morrer, uma conversa muito séria com o seu único filho varão, por isso seu
presumível sucessor, acerca da herança política que lhe deixava:
“Veio o Conde a adoecer, de maneira que bem conheceu não haver nele esperança de vida.
pelo que, vendo-se em tal ponto chamou seu fílho D. Afonso Henriques, e fez-lhe uma fala
mui de cavaleiro entendido e esforçado, e muito conveniente ao tempo e feitos em que
deixava seu filho, dizendo desta maneira: - “Fílho, esta hora derradeira que Deus me ordena
para te haver de deixar com a vída deste mundo, faz-me que te veja e fale com redobrado
amor e sentido do nosso afastamento: e por isso assenta no teu coração as mínhas palavras
de pai, pois que após estas já não hás-de ouvir outras.
Deves, filho, saber que o poderio que o Senhor Deus neste mundo ordenou de alguns
príncípais sobre outros submetidos a eles, foi dado de tal modo que os maus sejam
constrangidos, e os bons vívam entre eles em paz e sossego, porque a conservação dos bons
é a punição dos maus: pelo que, filho, more sempre em teu coração a vontade de fazer
justíça: vírtude é que dura para sempre na vontade e corações dos justos, e dá igualmente a
cada um o seu direito, que é o maior louvor e merecimento que os príncipes no seu governo
podem alcançar, pois todo o governo e bem comum consiste principalmente em duas
coisas, em prémio e em pena. E assim como os bons pela justiça se fazem melhores,
recebendo prémio e galardão das suas boas obras, assím os maus vêm a ser bons, ou ao
menos a cessar os seus males com receio da pena: e portanto, filho, faz sempre com que
todos tenham direito, tanto os grandes como os Pequenos, e nunca por rogo nem cobíça,
nem qualquer outra afeição, deixes de fazer justiça: pois no dia em que um só palmo a
deixares de fazer, logo no outro se arredará do teu coração uma braçada.
Aplíca-te muito em saberes se os que têm cargo de ti fazem justiça e direito correctamente,
e se a fizerem, faz-lhes bem e mercês: mas se fizerem o contrário, dá-lhes pena segundo o
seu merecímento: nem consíntas em modo algum que os teus homens sejam soberbos ou
atrevidos em mal fazer, pois perderás o teu valor e estima, se tais coisas não proíbires: mas
segue sempre a justíça, temendo e amando muito a Deus, para que sejas dos teus amado e
temido. Tendo Deus em tua ajuda, terás as gentes em teu serviço; e sem ele não há poder
nem saber que te aprovei te. De sua mão somos isso que somos: e o que temos não
teríamos, se da sua mão e vontade o não tivéssemos: e portanto trata de conservar ao seu
serviço o que tiveres.
De toda esta terra que eu te deixo, daquí de Astorga até Leão, não percas dela um palmo,
que eu a ganhei com grande fadíga e trabalho.
Toma, filho, um pouco do meu coração, para que sejas esforçado e sem medo: dos fidalgos
sê companheiro, e dá-lhes dos teus dinheiros; e aos concelhos dá agasalho e trata-os bem. E
chama agora estes de Astorga, e mandarei que te façam logo homenagem da víla e do
castelo, e desde que me levarem a enterrar, torna logo e não a percas, pois daqui
conquístarás toda a outra terra adíante. E manda-me com alguns vassalos meus e teus, que
me vão a enterrar em Santa Maria de Braga, que eu povoei.
Tudo isto, fílho, faz assim com a mínha benção, para que seJas como um filho abençoado
ao serviço de Deus, com muita honra e prosperidade.”
As concepções políticas e religiosas que inspiram este texto do século xvi não são muito
diferentes daquelas que vigoravam em Portugal no século xii: a origem divina do Poder, a
responsabilidade dos reis perante Deus, a justiça como tarefa fundamental do governo dos
povos, a dupla face da justiça como prémio concedido aos bons e castigo imposto aos
maus, a necessidade de tratar igualmente bem todos os grupos sociais («assim grandes
como pequenos»), a especial protecção devida aos concelhos ou municípios, etc.
D. Afonso Henriques cumpriu todos os encargos desta fala de seu pai, inclusivamente
levando-o a enterrar na Sé de Braga, onde ainda hoje se encontra sepultado, juntamente
com D. Teresa, sua mulher.
Só num ponto o infante, quando maior, se desviou das recomendações atribuídas ao pai: de
facto, não deu grande importância às terras situadas perto de León. Pelo contrário, sedeado
primeiro em Guimarães e depois em Coimbra, Afonso Henriques seguiu uma estratégia
político -militar bem diferente: tentar alargar os limites do Condado Portucalense para
norte, invadindo a Galiza, e procurar estender a fronteira para sul, conquistando o Ribatejo
e o Alentejo. As cercanias de León deixaram pura e simplesmente de o interessar.
Capítulo III
Juventude e formação do infante

O príncipe D. Afonso pouco terá privado com seus pais: com O pai, D. Henrique, porque
este morreu quando ele tinha apenas três anos; e com a mãe, D. Teresa, porque ela andou
constantemente envolvida na política galega e leonesa, fazendo e desfazendo alianças,
conquistando e perdendo castelos, ganhando e recuperando terras - e não devia ser o género
de mãe com muito tempo e paciência para se ocupar da educação dos filhos. Era, aliás, uma
mulher muito bela e fascinante - «formosíssima», segundo os cronistas -, a qual despertou
paixões em vários homens ilustres e teve uma vida amorosa agitada, o que a deve ter
mantido igualmente afastada do filho.
Falecido D. Henrique em 1112, toda a parte mais importante da juventude de Afonso
Henriques vai decorrer sob o governo da rainha D. Teresa (como ela tanto gostava de se
chamar): de 1112 a 112 8 decorrem os 16 anos de governo de D. Teresa, e também os 16
anos mais significativos da educação do jovem príncipe (dos três aos 19 anos de idade).
Mas há, no governo do Condado Portucalense pela rainha D. Teresa, duas fases bem
diferentes: a primeira dura nove anos e vai de 1112 a 112 1 - é uma fase de lucidez,
marcada pela continuidade da linha política de autonomia relativa do Condado, definida
pelo marido; a segunda dura sete anos e vai de 112 1 a 112 8 - é uma fase de desorientação
e desnorte, caracterizada por uma política de submissão à hegemonia galega, que rompe
com a tradição de D. Henrique e dos condes portucalenses dos dois séculos anteriores,
causando um mal-estar crescente na nobreza minhota.
Ora, a estas duas fases da governação de D. Teresa vão corresponder dois períodos
igualmente distintos na juventude de D. Afonso Henriques - o período da infância, marcado
por uma vida despreocupada e feliz, sobretudo voltada para o crescimento saudável e para
uma educação esmerada; e o período da adolescência, caracterizado pela precoce
politização do príncipe, desde cedo envolvido nas malhas de uma conspiração crescente,
em vias de se tornar na revolta dos barões portucalenses contra D. Teresa e contra a
preponderância galega que ela deixava afirmar-se em Portugal.
O primeiro período decorreu em boa paz, como vimos no capítulo anterior, sob a orientação
de D. Egas Moniz e de D. Teresa Afonso, sua mulher.
Foi a época dos primeiros passos, das primeiras palavras, dos primeiros jogos; foi a época
de Ribadouro, de Crasconhe, de Britiande e de Lamego; foi a época de uma infância calma
e descuidada, decerto na companhia dos filhos e filhas do casal Egas Moniz e de outros
amigos das redondezas.
O infante nem se terá dado conta da febril actividade ppolítica e militar de sua mãe, da
participação dela na Cúria Régia d Oviedo, em 1115, tinha ele seis anos, ou das lutas de D.
Teresa com sua irmã D. Urraca, no contexto da complexa e anárquica política leonesa da
época.
D. Afonso Henriques talvez nem tenha sabido do segundo casamento que a mãe fez, na
Galiza, com D. Bermudo Peres de Trava, filho mais velho do mais nobre e poderoso fidalgo
galego - D. Pedro Froilaz, conde de Trava?
Nem terá sido informado de como esse casamento depressa se desfez, se é que alguma vez
chegou a passar de projecto, ou se não foi apenas uma irregular união de facto apadrinhada
pelo poderoso clã dos Travas - que com essa união pretendiam selar para o futuro uma
aliança duradoira entre a principal família da Galiza e a rainha de Portugal, perseguindo o
velho sonho da reunificação galaico-portuguesa.
Tudo lhe terá passado ao largo; tudo lhe terá sido mais ou menos indiferente.
Mas no ano de 1120, tendo D. Afonso Henriques 11 anos, as coisas começam a mudar.
D. Teresa volta-se para um irmão mais novo da família Trava, de seu nome Fernão, e toma-
se de amores por ele. Não se sabe ao certo se casam ou se apenas passam a viver
maritalmente: mas uma crónica antiga diz que mantêm entre eles «um casamento sem Deus
e sem direito», o que dá a entender que se trata de mera união de facto.
Esta união tinha na época carácter incestuoso, pois, segundo o direito canónico de então,
bastava que a primeira relação com Bermudo tivesse existido, ainda que ilícita, para tornar
ilegítima a união com um irmão seu.
E neste caso houve mesmo um duplo incesto: porque, entretanto, a filha mais velha de D.
Teresa, Urraca, casou pela mesma altura (1121-1122) com o primeiro amante da mãe,
Bermudo - que assim passava de concubino a genro.
D. Teresa mostrou com tudo isto não temer as censuras eclesiásticas; mas é fácil de
adivinhar que elas existiram e foram, decerto, contundentes.
Para um rapaz de 11 anos, educado longe da corte e nos princípios rígidos da fé católica,
ver a sua mãe viúva esquecer rapidamente o pai e passar de mão em mão por entre os
membros da família Trava - não deve ter sido uma experiência agradável. Aqui devem ter
começado a germinar sentimentos de revolta no peito do infante D. Afonso, quer contra a
sua mãe, quer contra o novo amante dela, Fernão Peres de Trava - sentimentos esses que
certamente lhe terão sido avolumados pelos comentários, que facilmente se adivinham, do
arcebispo de Braga, D. Paio Mendes.
Seja como for, D. Teresa regressa a Portugal e instala-se em Coimbra com o amante, com
quem passa a viver maritalmente: a partir de Janeiro de 1121, todos os documentos régios
contêm a assinatura de Fernão Peres de Trava, que exerce jurisdição sobre Coimbra e
Portugal, isto é, sobre todo o território do Condado Portucalense de então.
É manifesto que D. Teresa - ou fosse por amores, ou por uma recente conversão à doutrina
da unidade da Galiza com Portugal - investiu Fernão Peres na máxima autoridade político-
administrativa em terras portuguesas. E o conde galego que já era o homem mais poderoso
da Galiza («este Conde... era naquele tempo o maior homem da Espanha que rei não fosse).
- tornou-se também, rapidamente, no homem mais poderoso de Portugal.
Podia ter usado todo este poder apenas para si e para D. Teresa, deixando os altos postos da
administração do Condado à nobreza portucalense, que os detinha há várias gerações. Mas
não foi essa a sua opção política: inspirado pelo modelo dos reis Garcia e Fernando Magno
- que tinham sido reis da Galiza e Portugal unificados -, Fernão Peres de Trava quis
trabalhar para a unificação dos dois territórios e “galizificou” a administração portuguesa.
Ou seja, começou de imediato a substituir, nos mais elevados cargos do Condado
Portucalense, os portugueses pelos galegos.
Logo em 112 1, foram afastadas as três principais famílias da nobreza de Entre Douro e
Minho: os senhores de Ribadouro, Maia, e de Sousa. Se tivermos presente que o arcebispo
de Braga, D. Paio Mendes, pertencia aos senhores da Maia, podem concluir que, de uma
assentada, o fidalgo galego pôs contra si o alto clero e a nobreza principal do Condado
Portucalense.
E repare-se: não se tratava apenas de lhes retirar funções honoríficas: o que Fernão Peres
fez foi afastar as principais famílias da nobreza portuguesa de cargos que significavam
poder político-militar e elevados rendimentos económicos.
Começou aqui o espírito de revolta do clero e da nobreza minhotos contra a hegemonia
galega - e, portanto, também contra a rainha D. Teresa, que a tudo dava cobertura.
Deve ser por esta altura que o jovem Afonso Henriques, com perto de 12 anos, e decerto
vivendo já em Guimarães, é posto ao corrente dos sentimentos do clero e da nobreza contra
o conde galego: não se esqueça que um dos primeiros a ser atingidos pela purga» contra os
portugueses foi D. Egas Moniz, aio e preceptor de D. Afonso Henriques. A queixa há-de ter
sido instantânea - embora provavelmente feita só contra Fernão Peres de Trava, pois nos
primeiros tempos ninguém se atreveria a murmurar contra a própria mãe do infante.
Conciliábulos, críticas, conspirações - deve ter havido bastantes, provavelmente na Sé de
Braga. Tanto que, logo no ano seguinte (Verão de 1122), D. Teresa - inesperadamente -
manda prender o arcebispo de Braga.- Não se conhecem os motivos exactos deste acto de
força inusual, mas “no contexto do ano de 112 2, é provável que Diego Gelmírez (o
arcebispo de Santiago) tivesse persuadido a “rainha” de que Paio Mendes (o arcebispo de
Braga), conspirava contra ela”.
Por ordem directa do Papa, o arcebispo é solto logo no Outono de 1122. Mas a luta tinha
começado: de um lado, o sonho da unidade Galiza - Portugal, protagonizado pelo arcebispo
de Santiago, pelos Travas e pela rainha D. Teresa; do outro, o projecto de autonomia do
Condado Portucalense, sem hegemonia galega ou leonesa, assumido pelo arcebispo de
Braga, pela nobreza de Entre Douro e Minho e ... por quem? Por que chefe político com
pergaminhos régios?
O escolhido para o efeito só podia ser um - o jovem príncipe D. Afonso Henriques, neto e
bisneto de reis dos mais ilustres da Europa, que pelo direito hereditário era naturalmente o
sucessor natural de D. Henrique e D. Teresa.
A Igreja de Braga, na sua luta já antiga contra a Sé de Santiago de Compostela, e a nobreza
do Norte de Portugal, na sua revolta recente contra a hegemonia galega dos Travas, deram
as mãos e escolheram D. Afonso Henriques Como chefe? Ainda não: tinha apenas 12 anos.
Escolheram-no como símbolo e como” bandeira. Ele era o futuro chefe - quiçá o futuro rei -
, em nome de quem se podia começara lutar.
E a luta começou. Não conhecemos os pormenores dessa luta, entre 1122 e 1125: foram
certamente três anos de muitas combinações e alianças.
Mas sabemos que um dos objectivos principais então escolhidos foi o da preparação rápida
e completa de D. Afonso Henriques para assumir, tão cedo quanto possível, as
responsabilidades que o esperavam.
Os esforços terão cabido, na parte civil, a D. Egas Moniz, agora já sem necessidade da
ajuda de sua mulher, porque se tratava de ministrar uma educação viril, e, na parte
religiosa, a D. Paio Mendes, arcebispo de Braga.
Entre Guimarães e Braga vão apenas 20 quilómetros: as deslocações entre uma cidade e a
outra devem ter-se multiplicado.
O príncipe D. Afonso terá sido instruído, antes de mais, nas artes marciais: a marcha, a
equitação, a esgrima, o manejo da maça, da corda, do arco e flecha, a luta corpo a corpo.
Mas desta vez era preciso ir mais longe, explicando-lhe a “doutrina da monarquia”, um
pouco de História, e as noções elementares da política.
Como o provou depois pela vida fora, D. Afonso Henriques foi um bom aluno dos seus
mestres. De Egas Moniz terá recebido a preparação física e política; de D. Paio Mendes terá
colhido ensinamentos preciosos de religião, de moral, e de política também; de ambos terá
podido recolher a noção de que se lhe preparava um importante destino», porventura um
“destino real”.
Já nesta altura o infante D. Afonso devia revelar alguns dos traços mais característicos da
sua personalidade futura: era esperto e sagaz; era firme e possuía autoridade natural - era
são, alto, robusto; gozava de boa saúde, física e mental; era determinado, voluntarioso,
quase obsessivo, e tinha uma energia inquebrantável.
Aos 12 anos foi escolhido pela nobreza minhota para defender os interesses desta- aos 18 já
mandava em todos - e até desautorizava o seu aio e preceptor, Egas Moniz. Parafraseando
Camões, D. Afonso Henriques tinha nascido para mandar, mais que para ser mandado.
Capítulo IV
O infante arma-se cavaleiro

Para garantir o destino real que os seus próximos lhe preparavam, era indispensável que D.
Afonso Henriques fosse armado cavaleiro, entrando assim no grémio dos cavaleiros
medievais. Melhor: era necessário que ele tivesse a ousadia, ou que alguém o levasse a tê-
la, de se armar a si próprio cavaleiro - como faziam os filhos dos reis com direito à
sucessão.
As atenções de Egas Moniz e D. Paio Mendes viraram-se então para o primo direito de D.
Afonso Henriques, o jovem Afonso Raimundes, futuro Afonso VII de Leão e Castela. Este,
num ambiente de incerteza quanto aos seus direitos sucessórios, armara-se a si próprio
cavaleiro, em Santiago de Compostela, em 1124: não deviam eles levar o príncipe
português a fazer o mesmo?
Assim se fez, em 1125. Com mais um ano de mentalização, e deixando que Afonso
Henriques completasse os 16 anos - a idade da maioridade política, na época -,
convenceram-no a ir até à catedral de Zamora, em pleno reino de León, e a armar-se a si
próprio cavaleiro, no dia de Pentecostes.
E assim foi. Diz a Crónica dos Godos:
Na Sé de Zamora, junto ao altar de S. Salvador, em sí mesmo colocou pelas próprias mãos
as armas militares retiradas do altar, tal como é costume dos reis fazer-se.
Este texto, apesar de singelo, dá-nos uma quantidade preciosa de informações: que D.
Afonso Henriques se armou cavaleiro; que o fez na catedral de Zamora, junto ao altar de S.
Salvador; que se armou cavaleiro a si próprio, como é costume fazerem os próprios reis; e
que o fez retirando as armas militares do altar, e colocando-as sobre o seu corpo pelas suas
próprias mãos.
Não as recebeu, portanto, das mãos do pai, que já tinha morrido, nem da mãe, que devia
estar ausente, nein do arcebispo de Braga, que estava presente mas deve ter sido o principal
inspirador de que a cerimónia se processasse segundo o costume dos reis.
Que “armas militares” terá o príncipe retirado do altar para colocar em si mesmo? Não o
diz a cróníca: mas podemos alvitrar que terão sido a espada, o escudo, o elmo e as esporas,
Quiçá também o cinto de cavaleiro e a loriga, uma espécie de saio de malha coberto de
lâminas de ferro.
Por efeito directo e imediato deste acto, D. Afonso Henriques ingressou na categoria dos
militares adultos, com licença para participar na guerra e para matar em combate. Passou a
poder dispor de cavalo próprio e a poder comandar um grupo autónomo de cavaleiros-
vilãos e de peões. Ficou adstrito aos deveres de honra e militares próprios da cavalaria
medieval. E, sobretudo, ficou consciente de que, como filho e neto de reis, tinha começado
a caminhada que o havia de levar ao trono de seu pai. Só não era claro, na sua mente, se
para isso teria ou não de esperar pela morte da mãe: o futuro o diria.
Quem terá estado presente nesta cerimónia, que se pretendia solene? Além do príncipe e do
arcebispo de Braga, decerto estiveram lá juntos os conjurados da revolta em andamento -
Egas Moniz e os irmãos, de Ribadouro; os da Maia- e os de Sousa.
Ausentes estiveram com certeza a rainha D. Teresa, os Travas, da Galiza, e os demais
nobres galegos ou portucalenses que alinhavam já com o partido da mãe contra o partido do
filho. Afonso VII, claro está, também não devia estar perto: não era do seu interesse
contribuir para valorizar a pessoa do herdeiro de seus tios, que era já um foco polarizador
de sentimentos antigalegos e antileoneses.
Sabendo-se que Braga conduzia uma luta muito viva para ser uma sé metropolita
independente de Santiago de Compostela e de Toledo, e sabendo-se também que o
respectivo arcebispo abraçava a causa do separatismo português, pareceria à primeira vista
mais lógico que o local escolhido para D. Afonso se armar cavaleiro com o significado
político inequívoco que se pretendia emprestar à cerimónia, fosse a Sé de Braga. Porquê
então Zamora?
Tem-se hoje em dia por certo que quem influenciou o infante e as outras testemunhas
presenciais a realizar o acto nesse local foi o próprio arcebispo de Braga, D. Paio Mendes.
As razões da escolha de Zamora são obscuras. Mas talvez tenham a ver com o facto de o
arcebispo se encontrar lá no momento da cerimónia, por falta de condições de segurança
em Braga, ou com o facto de o senhorio da cidade de Zamora pertencer na época à rainha
D. Teresa,’ sendo a cidade portanto terra de portugueses.
Contudo, não parece razoável admitir que o acto solene pelo qual o príncipe português se
armou cavaleiro, à maneira dos reis», tenha sido praticado com o pleno conhecimento e
concordância de D. Teresa e de Fernão Peres de Trava:’ o acto foi um desafio à autoridade
e à política de ambos, que o devem ter encarado com a maior preocupação.
Ou fosse por mera coincidência, ou antes por deliberada retaliação, a verdade é que também
no mesmo ano de 112 5 ocorreu uma segunda «purga» de nobres portugueses, afastados de
altos cargos administrativos do Condado Portucalense - e desta vez muito maior e mais
ampla do que a de 1121. São agora atingidos os da Silva, os Ramirões, os de Lanhoso, os
Guedões, os da Palmeira, os de Azevedo, e muitos outros.
É toda a classe dirigente lusitana que se vê afastada, em bloco, dos lugares de influência
política e de poder económico no Condado Portucalense, sendo substituída por gente de
fora, da Galiza. A partir daqui, e muito compreensivelmente, a indignação é geral e a
preparação da revolta vai crescer de intensidade.
D. Afonso Henriques é aliciado para a conjura, mas - com prudência e habilidade táctica -
mantém-se formalmente boas relações com a mãe, com quem continua a assinar
documentos régios até 1127.
A partir do Verão de 1127, dá-se uma separação física importante: D. Afonso Henriques
assume a autoridade do comando político-militar a norte do Douro, deixando a D. Teresa as
terras entre o Douro e o Mondego. O filho instala-se em Guimarães, a mãe e o amante em
Coimbra. E as duas cortes vão conspirar abertamente uma contra a outra.
Entretanto, Afonso VII de Leão havia começado a reinar em 1126, por morte de sua mãe, a
rainha D. Urraca (irmã de D. Teresa e, portanto, tia de Afonso Henriques). Sentindo
necessidade de afirmar a sua autoridade sobre vassalos irrequietos e insubordinados, trata
primeiro de resolver os problemas que tem em Leão e Aragão, e olha de seguida para os da
Galiza. Para segurar a tia, D. Teresa, e Fernão Peres de Trava, chama-os a um encontro
conciliador em Zamora, ainda em 1126 ou nos começos de 1127, do qual resulta o
estabelecimento de tréguas. Mas estas, como é lógico, preocupam fortemente os barões
portucalenses: não se estará a tramar uma aliança leonesa-galaico-portuguesa, a fim de
consolidar definitivamente a hegemonia «estrangeira» sobre o Condado Portucalense?
E não será muito mais difícil combater contra os Travas e contra Afonso VII
simultaneamente, em vez de os atacar um de cada vez?
O príncipe, já armado cavaleiro e nominalmente à frente dos revoltosos, é posto ao corrente
das nuvens negras que se acumulam no horizonte.
Capítulo V
O episódio de Egas Moniz

Da insubordinação latente dos portugueses chegam ecos a Afonso VII, quem sabe se
transmitidos mesmo pelo conde de Trava. O rei leonês sente que tem de vir a Portugal
impor a sua autoridade e exigir um acto de vassalagem a D. Afonso Henriques. Por isso se
dirige a Guimarães e põe cerco ao castelo.
D. Afonso Henriques, com 18 anos de idade, é apanhado de surpresa e não está
militarmente preparado para dar batalha ao primo e suserano, Afonso VII de Leão e
Castela. Mas também não lhe quer ceder: recusa-se a praticar, pessoalmente, um acto de
vassalagem.
Entra então em cena o seu aio e principal conselheiro político, Egas Moniz. O episódio -
não se sabe bem ao certo se é história, se é lenda - é narrado nas crónicas antigas desta
forma:
Ao cabo de pouco tempo, estando El-Rei D. Afonso de Castela, chamado Imperador, em
Toledo, e sentindo muito o pouco caso que dele fazia o Príncípe D. Afonso Henriques,
achando ele que toda a EsPanha lhe havía de obedecer e respeitar o senhorio, determinou
em conselho muito secreto tornar a Portugal: e ajuntada muita gente o mais
dissimuladamente que pôde, abalou para a Galíza e chegou de surpresa a Guimarães, onde
cercou o Príncípe Dom Afonso, que dentro estava despercebido, nem a vila estava
abastecída, pelo que em Poucos dias a tomaría El-Rei de Castela se lhe mantivesse o cerco.
Sobre isto, vendo Dom Egas Moníz, aio do Príncipe, o grande perígo em que seu senhor
estava, vestindo sua capa de pele, traje daquele tempo, cavalgou secretamente um dia pela
manhã cedo sem levar ninguém consigo, e foi ao arraial dos inimigos.
E deu o seguinte conselho a Afonso VII: - Senhor, não foste bem aconselhado em vires
aqui cercar esta vila, porque o Príncípe vosso primo é tal cavaleiro, como vós sabeis ... e
tem consigo dentro tanta gente e tão boa, além da muita que tem por essas terras, toda
obediente ao seu querer e mandar, que grande será o esforço, e muito maior o risco, de
quem o forçar para lhe tomar a víla. (... ) E quanto ao que dizeis, Senhor, que vosso primo
vos respeite o senhorio e vá às vossas cortes, a mim parece-me certo e conforme à razão. E,
Senhor, ainda me parece mais: que se vós partirdes daqui para vossa terra, de modo que não
pareça que vosso primo vos obedece pela força ou pelo medo, eu conseguirei convencê-lo a
que vá às vossas cortes onde vós quiserdes: e disto, Senhor, vos farei preito e menagem.
Quando El-Rei de Castela ouviu isto, agradou-lhe muito de receber a promessa de D. Egas
Moníz acerca do caso, e ficou de partír no outro dia.
Até aqui, o narrador conta a iniciativa que, por sua conta e risco, sem autorização superior,
tomou D. Egas Moniz para livrar D. Afonso Henriques do beco sem saída em que se
encontrava, cercado no seu castelo por Afonso VII.
Vejamos agora como reagiu D. Afonso Henriques quando soube do que se tinha passado:
No día seguinte, El-Rei de Castela levantou o cerco e partíu com toda a sua hoste, como
dissera a D. Egas Moníz. E o Príncípe D. Afonso Henriques viu partír El-Rei e, espantando-
se muito, porque não sabia a causa, perguntou a Dom Egas que lhe parecía de tal
levantamento e partida de El-Rei de Castela, por que motivos entendia que isso acontecera.
Dom Egas, então, contou-lhe tudo como era e como a coisa se passara.
Ouvindo isto, o Príncipe sentíu grande pesar e fícou muito indignado, dízendo que antes
escolheria ser morto do que fazer o que D. Egas prometera, ou ir às cortes de El-Rei de
Castela.
Esta passagem tem o maior interesse porque mostra D. Afonso Henriques, pela primeira
vez, a não seguir um conselho do seu aio e preceptor Egas Moniz, de tão determinado que
estava a não reconhecer a supremacia política do rei de Leão e Castela.
A cena que se segue - nesta descrição que mais parece uma peça de teatro em três actos - é
bem conhecida, pois nos habituámos a ouví-la desde os bancos da escola primária: Vindo o
termo do prazo em que o Príncípe D. Afonso Henriques havia de ír às cortes que se faziam
em Toledo, segundo a promessa que D. Egas fizera a El-Rei de Castela, D. Egas assumiu a
responsabilidade de tudo e partiu com sua mulher e filhos, e chegaram a Toledo: foram
descer ao Paço onde El-Rei estava. E ali se despiram de todos os panos, salvo os de línho (
... ); descalçaram-se todos, e puseram baraços nos pescoços. E assim entraram pelo Paço,
onde El-Rei estava com muitos fidalgos e cavaleiros: e aproximando-se de El-Rei,
puseram-se todos de joelhos diante dele.
Falou então D. Egas Moniz, e disse: - Senhor, estando vós em Guimarães sobre o Príncipe
vosso primo e meu senhor, eu vos fiz a promessa que sabeis, a qual eu fíz por ver que a sua
pessoa e honra naquele momento corria grande risco de se perder ( ... ). E eu, porque o críei
desde o seu nascimento, quando o vi em tamanho trabalho e perigo, tomei de mim aquela
ideia de ír até vós e fazer o que fiz.
Porém, e uma vez que D. Afonso Henriques não quis assumir o compromisso prometido
por D. Egas Moniz, este oferece a Afonso VII o sacrifício supremo: - Por causa disto,
Senhor, me venho apresentar ante vós, com estas mãos com que vos fiz a promessa, e com
esta língua com que vo-la disse,- e mais vos trago aquí a minha mulher e estes moços, meus
filhos. Para que, se a vossa íra houver por maior a minha culpa do que o meu corpo pode
expiar, por esta mulher e por estes moços, de cuja fraqueza e idade a ira dos inimigos
costuma apíedar-se, seja a vossa indígnação satisfeita. Tomai, Senhor, se assim vos parecer,
por culpa de um só, vingança de muitos. (...) Para que se diga em todo o tempo que mais
cumpriu D. Egas do que errou.
Aqui termina o gesto honrado e cavalheiresco de Egas Moniz. Mas o cronista ainda
acrescenta dois apontamentos finais.
Um é o de que desde que Egas acabou de falar, ficou El-Rei muito irado, e quería mandá-lo
matar, dizendo que o havia enganado. Mas os fidalgos e nobres ali presentes convenceram-
no a perdoar Egas Moniz - pois ele e todos os príncipes deviam desejar ter muitos como ele.
E El-Rei perdoou e, depois de lhe fazer muita mercê, mandou-o livremente tornar para
Portugal.’
O segundo apontamento é menos conhecido mas não é menos saboroso: Desde que D. Egas
Moniz assim partiu de El-Rei de Castela, quíte e livre da sua promessa, e com toda a sua
graça, fez o seu caminho para Guímarães. E antes que aí chegasse, o Príncipe D. Afonso
Henriques, sabendo da sua vínda, saíu a recebê-lo com toda a sua corte e muito alegre,
porque sempre esperara que ele em Castela fosse morto ou desonrado. E tanto quanto estas
coisas lhe tínham dado pesar, assim lhe davam agora sobejo prazer. Em Guimarães, depois
de alguns dias, o Príncipe, para se acautelar de não caír em outra tal míngua e desastre de se
ver cercado, não preparado como dantes, começou a abastecer os seus castelos e vílas de
todas as coisas necessárias para a sua defesa.
O saldo do «episódio Egas Moniz» fora, afinal de contas, bastante positivo para D. Afonso
Henriques: não cedera perante Afonso VII de Leão e Castela, não fora derrotado
militarmente, não perdera o seu principal amigo e conselheiro pollítico - e aprendera a
lição, mandando guarnecer e preparar todos os seus castelos e vilas para não voltarem a ser
apanhados desprevenidos.
O Cerco de Afonso VII a Guimarães fez intercalar uma pausa na escalada dos preparativos
para uma confrontação física entre o partido do infante D. Afonso e o partido da rainha D.
Teresa. Mas, resolvido - e bem resolvido - o problema do cerco, e afastada para longe a
presença de Afonso VII - com quem era ainda muito cedo para terçar armas -, tornava-se
agora inevitável esclarecer quem mandava em Portugal. O desenlace do conflito durou
menos de um ano.
Capítulo VI
A revolta dos barões portucalenses
Armando-se a si próprio cavaleiro aos 16 anos, o príncipe D. Afonso ganhou consciência da
sua posição e do seu provável destino. Vencendo, por um acto de natureza política, o cerco
de Guimarães, deve ter-se sentido, aos 18 anos, finalmente investido numa função de
liderança: era a primeira vez que não obedecia a Egas Moniz, ou a quem quer que fosse. A
sua própria vontade fora lei.
A partir daqui, o mandado torna-se mandante: e tudo vai começar a correr de acordo com as
ordens e instruções de Afonso Henriques. Está com 18 anos de idade: atingiu a maioridade
civil, acha-se forte e capaz de orientar as coisas. Pela primeira vez sente subir-lhe à cabeça
um néctar mais inebriante do que o vinho, um afrodisíaco mais poderoso do que o sexo - o
poder, isto é, a capacidade de mandar e de se fazer obedecer.
Está com ele a grande maioria da nobreza minhota: estão todos os saneados» por Fernão
Peres de Trava, mas não apenas esses. Muitos outros se vão passando para o seu lado.
É significativo o apoio incondicional que recebe de seu cunhado D. Sancho Nunes, filho do
conde D. Nuno de Cela Nova (galego-leonês), casado com sua irmã Teresa Henriques, a
segunda. Apesar das suas origens, toma partido por D. Afonso Henriques, e estará com ele
até à batalha de S. Mamede.
Mas D. Afonso Henriques não quer ficar indefinidamente à espera do confronto militar: vai
ser ele a procurá-lo e a abrir as hostilidades. A partir de agora, a iniciativa será sua.Em fins
de 1127, princípios de 1128, lança-se para o sul, abaixo do rio Douro, penetrando pela
primeira vez à frente das suas tropas nos terrenos de D. Teresa e de Fernão Peres de Trava.
Lança uma ofensiva contra dois importantes castelos que estavam na posse destes: Neiva e
Feira. Conquista-os para si. E não fica inactivo: «Destes dois castelos fazia muita guerra a
seu padrasto.
O poderio militar, a grande disciplina e o bom comando tornam preocupante a ofensiva
lançada pelo jovem príncipe. As hostes de D. Teresa sentem-se receosas e pedem tréguas.
Em Março de 1128 chega a ter lugar uma tentativa de acordo, que se realiza em Vila Nova
de Paiva (actual distrito de Viseu). Mas em vão: as negociações ficam goradas. O caminho
para a batalha campal está desimpedido.
D. Afonso Henriques, com 19 anos de idade, está cheio de confiança em si próprio. Para ele
já não restam dúvidas: o confronto militar vai dar-se, e ser-lhe-á favorável. Em breve
assumirá a chefia do Condado Portucalense.
Com efeito, em 27 de Maio de 1128, o príncipe faz uma ampla doação de bens à Sé de
Braga, e no documento que a titula escreve estas palavras determinadas: «Quando tiver
adquirido a terra portucalense ... ».’ Repare-se bem: D. Afonso não diz «se vier a adquirir»,
diz «quando tiver adquirido». A firmeza do propósito não pode ser maior. O embate está
por dias.
Sabe-se, aliás, que a rebelião propriamente dita estalou no mês de Abril em toda a província
de Entre Douro e Minho, «dilatando-se pelo distrito de Guimarães, pelo condado de
Refóios de Lima, pelo território de Braga e pelas terras, enfim, dos nobres que seguiam a
parcialidade do infante».
Terá havido nesta altura algum encontro, alguma negociação, entre D. Afonso Henriques e
Fernão Peres de Trava? Depois das conversações de Vila Nova de Paiva, não parece
provável. No entanto, a lenda põe ambos a dialogar:
Vieram ambos à fala, com a Raínha D. Teresa presente. E dísse o Conde D. Fernão:
- Príncipe, não nos afadiguemos mais nesta contenda, mas juntemo-nos um día numa
batalha, eu e vós, quando quiserdes: e ou vós saíreis de Portugal ou eu.
Respondeu o Príncipe D. Afonso: - Não devia agradar a Deus uma tal coisa, que vós me
queirais deitar fora da terra que meu pai ganhou.
Acudiu então a Raínha, sua mãe, dízendo: - Minha é esta terra, e será, que meu pai ma deu
e deixou. Disse então o Conde D. Fernão a ela:
- Não andemos mais neste debate: ou vós ireis comigo para a Galiza, ou deixareis a terra a
vosso filho, se tiver mais poder que vós.
Diz o cronista que no final desta conversa «se desafiaram para um dia certo, e vieram
juntar-se em Guimarães».
Terá sido assim? Será que o dia foi marcado de comum acordo? E será que se tratou, afinal,
de uma espécie de torneio medieval, destinado a apurar quem tinha a sorte pelo seu lado ou,
na linguagem de época, a averiguar de que lado estava a vontade de Deus?
Não o sabemos ao certo. O que sabemos é que o confronto físico das duas facções teve
lugar no mês seguinte, no dia 24 de Junho de 1128, próximo do castelo de Guimarães: foi a
batalha de S. Mamede.
Capítulo VII
A batalha de S. Mamede

Chamou-se de S. Mamede esta batalha porque, segundo a tradição, teve lugar nos campos
da freguesia de S. Mamede de Aldão - que ainda hoje existe e fica situada entre a freguesia
de Guimarães (castelo) e a de S. Torcato.
Alexandre Herculano, no seu romance histórico O Bobo, imagina como terá sido, em
Guimarães, a véspera da batalha. Só que ele inverte aí as posições: em vez de colocar
Afonso Henriques dentro do castelo - como parece que terá sido -, instala lá D. Teresa e
Fernão Peres de Trava, pondo o príncipe do lado de fora, a cair sobre Guimarães com as
suas tropas, e a tentar fomentar algumas traições dentro do castelo, que acaba por lhe abrir
as portas, de forma sediciosa, logo depois da batalha.
Contudo, na sua Históría de Portugal - neste aspecto, mais credível -, relata a versão
tradicional, segundo a qual D. Teresa, «tendo marchado para Guimarães com as tropas dos
fidalgos galegos e dos portugueses seus partidários, aí se encontrou com o exército do
infante no campo de S. Mamede».
Os cultores da história militar têm procurado fazer a reconstituição da batalha, mas a
verdade é que pouco ou nada têm conseguido descobrir de verdadeiramente novo. Sabemos
ao certo em que data ocorreu. Já quanto ao local, as opiniões divergem. Para uns, o feito
deu-se na localidade de Santidanhas, hoje impossível de identificar; para outros, terá tido
lugar no Campo do Torneio, junto ao rio Celho; para um terceiro grupo, enfim, e de acordo
com uma tradição secular, a batalha deu-se em terrenos da freguesia de S. Mamede de
Aldão, num local sugestivamente crismado pela população como “Campo da Ataca. A
Câmara Municipal de Guimarães assinalou o local com uma placa e uma escultura alusiva
ao acto.
De onde vieram os contendores? Também pouco se sabe: a conjectura mais credível propõe
que as tropas lusitanas de D. Teresa viriam de Coimbra e as hostes galegas de Peres de
Trava, da Galiza, tendo-se ambas reunido a norte de Guimarães, talvez na Póvoa de
Lanhoso.
Quanto ao número de soldados presentes na batalha, as estimativas variam bastante, mas a
mais consistente aponta para 300 homens do lado de D. Teresa e um máximo de 600 do
lado de D. Afonso Henriques, dos quais 80 a 100 cavaleiros, não mais.
Do lado de D. Teresa sabemos que estavam: Fernão Peres de Trava, com toda a autoridade
militar que lhe fora delegada; o irmão Bermudo, cunhado de Afonso Henriques (por ter
casado com a irmã mais velha deste, D. Urraca); alguns fidalgos de Coimbra, do Porto e de
Baião, relativamente poucos; e parte significativa da nobreza galega.
Do lado de D. Afonso Henriques as hostes eram mais numerosas e representativas - estava
o Entre Douro e Minho em peso: D. Egas Moniz e seus irmãos Ermígio Moniz e Mem
Moniz, de Ribadouro; Soeiro e Gonçalo Mendes, de Sousa; Paio Soares e outros, da Maia;
o já referido cunhado de D. Afonso Henriques, casado com sua irmã Teresa Henriques, D.
Sancho Nunes, e quase todos os “saneados” de 1125, como os da Silva, os Ramirões, os de
Lanhoso, os Guedões, os da Palmeira, os de Azevedo, os de Marnel, e tantos outros.Sobre o
modo como se desenrolou a batalha temos, pelo menos, duas versões. A primeira pode
considerar-se lendária e é dramatizada assim:
A batalha foí bravamente pelejada, e o Príncipe D. Afonso lançado do campo desbaratado.
E indo ele assim, a uma légua de Guímarães, encontrou-se com D. Egas Moniz, seu aio,
que o vínha ajudar e estar com ele na batalha.
E, quando D. Egas o víu, disse: - Que é isto, Senhor? Como víndes vós assím? Respondeu o
Príncípe: - Venho mui desbaratado porque me venceu o meu padrasto e a minha mãe, que
estava com ele.
Dísse então D. Egas: - Não fizestes bem nem com razão, dardes a batalha sem mim. Mas
tornai lá, e eu convosco, e espero em Deus que hoje prendamos vosso padrasto e vossa
mãe. Recolhei a vós toda a vossa gente que vem fugindo, e voltemos a pelejar.
E tornaram então outra vez à batalha, e venceram-na: e o Príncipe prendeu alí o padrasto e a
mãe.
A segunda versão, menos dramática mas porventura mais verdadeira, considera que não
houve duas fases de uma batalha, mas apenas, primeiro, o afugentamento de um grupo de
vigilância do partido do Príncipe e, depois, a própria batalha em si, de que o grupo de D.
Afonso Henriques teria logo saído vitorioso.
Terminada a batalha com a vitória de D. Afonso Henriques e da sua gente, outras duas
versões disputam a narração do que se terá passado a seguir. Diz a lenda: O Príncípe D.
Afonso pôs então a sua mãe em ferros. E ela, vendo-se assim presa, disse:
- Dom Afonso, meu filho, prendeste-me e deserdaste-me da terra e honra que me deixou
meu pai, e afastaste-me de meu marido. A Deus peço que preso sejais vós, assím como eu
me vejo agora. E porque pusestes em ferros as mínhas pernas, que vos ajudaram a trazer e a
criar com muitas dores do meu ventre e fora dele, com ferros sejam as vossas pernas
quebradas, e praza a Deus que assím seja.
E depois aconteceu a este Príncipe D. Afonso, sendo já Rei, que se lhe quebrou uma perna
ao sair pela porta de Badajoz, e foi preso de El-Rei D. Fernando de Leão: e todos dizem que
lhe isso aconteceu pela maldição que lhe lançou sua mãe.
A versão dos historiadores modernos é no sentido de que nenhum documento permite
provar que D. Afonso Henriques tenha colocado a mãe a ferros ou a tenha mandado presa
para qualquer castelo. Antes pelo contrário: o que se sabe é que D. Teresa e Fernão Peres
de Trava foram expulsos do Condado Portucalense para a Galiza onde D. Teresa recolheu
a um convento em que morreu dois anos depois, e onde o conde de Trava recolheu e
educou uma filha que tivera de D. Teresa, chamada Dona Sancha, a qual era, portanto,
meia-irmã de D. Afonso Henriques. Não se sabe se este alguma vez a conheceu.
Qual a interpretação a dar à famosa batalha de S. Mamede? Embora, do ponto de vista
militar e social, S. Mamede tenha sido muito mais uma batalha entre a nobreza portucalense
e a nobreza galega, a verdade é que, do ponto de vista político e jurídico, ela saldou-se por
uma clara vitória do príncipe D. Afonso Henriques contra a rainha D. Teresa.
E assim, o principal efeito da vitória foi a imediata assunção, por D. Afonso Henriques, da
posição incontestada de chefe do Condado Portucalense. Curiosa e significativamente, o
projecto separatista que o animava levou-o a nunca se intitular conde de Portugal, mas a
usar sempre expressões de mais alta estirpe - como infante ou príncipe.
Poderá dizer-se que S. Mamede representou o momento principal da independência de
Portugal?
Alexandre Herculano aproximou-se bastante desta teoria ao declarar que, por ser essa
batalha uma luta dos barões portucalenses contra a hegemonia galega na nossa terra, havia
nela um “pretexto de nacionalidade que servia de estandarte à revolução”, pelo que S.
Mamede “equivalia a uma declaração formal de independência”. E José Mattoso não anda
muito longe deste pensamento ao chamar ao dia 24 de Junho de 112 8, dia da batalha de S.
Mamede, “a primeira tarde portuguesa”.
Em minha opinião, não há dúvida de que a batalha de S. Mamede foi o início do processo
que conduziu à independência de Portugal, porque nos libertou de uma das dependências
políticas em que então nos encontrávamos - a dependência da hegemonia galega,
representada pela poderosa influência de Fernão Peres de Trava e do seu clã nos negócios
do Condado Portucalense, através da ligação amorosa com a rainha D. Teresa.
E não é certamente por acaso que uma crónica medieval se referia aos galegos instalados
em posições de poder no Condado Portucalense como “estranhos” (alienígenae) e
“exteriores à nação” (exteros natíone) .
Mas, se S. Mamede foi o início do processo da nossa independência, não foi todavia o
termo desse processo, pois não nos libertou, nem visava libertar-nos, da outra (e mais forte)
dependência política a que então estávamos sujeitos - a dependência formal do Reino de
Leão e Castela, em que nos inseríamos como parte integrante.
Com S. Mamede, Portugal deixou de ser uma província da Galiza: mas continuou ainda a
ser, por alguns anos, um condado incorporado na monarquia leonesa.
D. Henrique e D. Teresa nunca puseram isso em dúvida, nem lutaram contra tal situação.
Só D. Afonso Henriques encaminhou a sua acção política e militar no sentido de nos
libertar, primeiro, da hegemonia galega e, depois, do domínio leonês.
Conseguido o primeiro objectivo em 1128, o segundo ia levar 15 anos a alcançar.

Capítulo VIII
As grandes opções do príncipe

Afonso VII, rei de Leão e Castela, não reagiu à batalha de S. Mamede. Considerou-a um
mero facto interno da vida do Condado Portucalense, traduzido na simples substituição de
D. Teresa por D. Afonso Henriques na situação de «conde de Portugal». Cometeu
certamente um erro de análise: mas a verdade é que, preocupado com o seu próprio
casamento,’nada fez e nada disse quanto aos acontecimentos de Guimarães.
Segundo Alexandre Herculano, Afonso VII “não podia olhar com indiferença para esse
grave sucesso”. E tinha “dois meios de acudir ao mal: ou restituía pelas armas à rainha
fugitiva o poder de que seu filho a privara ou, aceitando o facto consumado, exigia de
Afonso Henriques que se considerasse como simples lugar-tenente ou vassalo da coroa,
qual fora a sua mãe”. Pois bem: o rei de Leão não fez uma coisa nem outra; fechou os olhos
e aceitou sem pestanejar que o novo chefe do Condado Portucalense era o filho, já não era a
mãe. Havia de pagar caro este deslize.
Quem também não reagiu foram D.Teresa e o valido todo-poderoso, Fernão Peres de Trava.
Que a mãe de D. Afonso Henriques não tenha reagido - ou por se encontrar doente, ou por
não querer prolongar uma luta penosa contra o seu próprio filho -, ainda se compreende. De
resto, ela ingressou logo num convento na Galiza, em 1128, e viria a morrer cedo, em 1130.
Agora que os Travas tenham desistido assim tão depressa do seu projecto político de
dominação do Condado Portucalense, e do sonho de unidade galaico-portuguesa, como reis
da Galiza, já é algo de mais surpreendente.’ De facto, nem a família Trava nem o arcebispo
de Santiago reagiram contra as consequências de S. Mamede ou procuraram tirar desforra.
Talvez isto nos diga alguma coisa sobre a força e amplitude da revolta dos barões
portucalenses, bem como sobre a impressão causada pelas qualidades combatentes e de
liderança demonstradas pelo jovem príncipe português.
No Condado Portucalense, “expulsos de Portugal a rainha D. Teresa e o conde Fernão
Peres, toda a província seguiu a fortuna do vencedor”, isto é, foi geral a aceitação da nova
liderança assumida por D. Afonso Henriques. Um ou outro pequeno foco de contestação
foram prontamente dominados.
O primeiro acto do novo governante terá sido, de acordo com os documentos disponíveis, a
nomeação para os mais altos cargos políticos, militares e administrativos do Condado
Portucalense de todos os “barões” que haviam sido demitidos em 1121 e 1125 por Fernão
Peres de Trava e que, por isso, tinham entrado em revolta. Na verdade, logo nos
documentos régios de
1128, no próprio ano de S. Mamede, aparecem de novo todos os nomes saneados nos
últimos sete anos: o afastamento dos nobres galegos foi geral e imediato.
Curiosamente, manteve-se da administração anterior o cunhado de Afonso Henriques,
Bermudo Peres de Trava, casado com D. Urraca, irmã mais velha daquele, e que continuou
com o governo de Viseu, apesar de ter apoiado D. Teresa em S. Mamede. As ligações
familiares entre D. Afonso Henriques e o clã dos Travas mantiveram-se fortes - e não
levaram nunca a soluções radicais. Ninguém matou ninguém... Bermudo acabou por se
revoltar em 1131, no castelo de Seia, mas a sua tentativa falhou e ele foi expulso de
Portugal.
Nas novas nomeações efectuadas por D. Afonso Henriques conta-se ainda, como não podia
deixar de ser, a confirmação do couto de Braga ao respectivo arcebispo, D. Paio Mendes, a
quem foram concedidas numerosas outras mercês (Capela, Penafiel, Bastuço e outras
terras). O próprio arcebispo foi nomeado, além de capelão-mor do Condado, chanceler-mor
da Cúria Régia.
No ano seguinte, o castelo de Soure (actual distrito de Coimbra) é concedido aos
Templários, poderosa ordem militar europeia que assim faz a sua entrada em Portugal.
À parte estas nomeações e concessões, a segunda metade de 1128 e todo o ano de 1129
constituem um período calmo, não havendo notícia de que o tenham perturbado quaisquer
inquietações, nem a norte, na Galiza, nem a sul, para baixo do Mondego.
Que se terá passado nestes 18 meses de inacção? Sem dúvida que D. Afonso Henriques
aproveitou para saborear e explorar a sua vitória; para reorganizar à sua maneira a Cúria
Régia; para recompensar amigos e aliados. Mas não pode ter feito só isso. Algo mais deve
ter ocupado o seu tempo e os seus pensamentos.
Tenho para mim que 1129 deve ter sido uma pausa para reflexão estratégica.
Na realidade, o jovem Afonso Henriques viu-se de repente, aos 19 anos, investido numa
posição de grande poder e responsabilidade: em menos de um ano, recusara prestar
vassalagem a seu primo, Afonso VII de Leão; fora escolhido e aceite como chefe da revolta
dos barões portucalenses contra o poderio galego; derrotara militarmente Fernão Peres de
Trava e a sua coligação galaico-coimbrã; e sucedeu no trono a sua mãe, a rainha D. Teresa.
Não fora contestado nesta nova posição. E, para todos os efeitos, era agora o conde da terra
portucalense, o chefe indisputado dos portugueses, o interlocutor único com o Rei de Leão
e os demais poderes da Ibéria.
A pergunta que inevitavelmente lhe deve ter acudido ao espírito foi esta: que fazer? Que
fazer, agora, com todo este poder que me caiu nas mãos?
Pelos seus próprios conhecimentos e pela reflexão dos amigos e conselheiros mais
próximos, dois pares de opções estavam naquele momento abertas, no plano estratégico, à
livre decisão política de D. Afonso Henriques: por um lado, continuar, como seus pais, a
respeitar fielmente os compromissos feudais para com Afonso VII (reconhecendo-lhe
supremacia, participando na sua cúria, aceitando-o como Imperador de toda a Espanha) ou,
pelo contrário, tentar tudo para se libertar dessa situação e fazer de Portugal um reino
independente? Por outro lado, encaminhar a acção político -militar do Condado
Portucalense para, na base da condição implícita com que ele fora concedido, respeitar a
fronteira norte no rio Minho e partir à conquista de novas terras para o sul, abaixo do
Mondego, ou, pelo contrário, segurando com firmeza a fronteira sul, tentar conquistar o
Norte, alargando o Condado pela Galiza adentro?
Estas eram as grandes opções estratégicas que importava tomar.
Quanto à primeira, o impulso já vinha de longe e tornara-se recentemente demasiado forte
para que pudesse haver duas opiniões: Portugal não devia continuar, bem comportado,
como condado integrado na monarquia leonesa, antes devia caminhar, com toda a firmeza,
e à medida do possível, para se tornar num reino independente.
Quanto à segunda opção, as coisas não eram tão fáceis nem tão óbvias.
Se era verdade que o Condado Portucalense fora entregue a D. Henrique e D. Teresa para
combater os muçulmanos do Sul no quadro geral da Reconquista Cristã, não era menos
verdade que as investidas dos sarracenos atravessavam um período de grande acalmia, não
pondo em risco a fronteira do Mondego, sendo certo que os pais de Afonso Henriques
tinham conseguido alargar as fronteiras iniciais do condado - Tui, Toronho, Limia, ao
norte, Astorga e Zamora, a nordeste -, encontrando aí grande receptividade ao domínio
português por parte das populações e da nobreza.
No fundo, no fundo, tudo se resumiria - na cabeça do jovem Afonso Henriques - a optar
entre dois exemplos que lhe teriam sido apontados vezes sem conta pelos seus aios,
preceptores e conselheiros: seguir o exemplo do avô Afonso VI, que tinha conquistado aos
mouros Santarém e Lisboa, ou seguir o exemplo dos avós Garcia e Fernando Magno, que
tinham unificado num só reino a Galiza e Portucale?
Não custa a crer - embora não passe de mera conjectura
- que Egas Moniz, marcado pelo episódio da vassalagem ao Rei de Leão, e forte guerreiro
ansioso por combater os infiéis, representasse a corrente partidária da conquista do sul; e
que D. Paio Mendes, arcebispo de Braga, sonhando ultrapassar e porventura dominar
Santiago de Compostela, encabeçasse a facção adepta da conquista do norte.
Como sempre costuma acontecer nestas coisas, as opiniões e os argumentos de um lado e
doutro terão acabado por se equivaler e anular: e D. Afonso Henriques ter-se-á visto na
necessidade de se isolar, no castelo de Guimarães, para decidir sozinho.
Não é talvez impossível, à luz dos desenvolvimentos posteriores, reconstituir aqui o
essencial do que poderá ter sido o seu pensamento.
Afonso era neto de reis e filho de uma rainha; fora educado para reinar; fora instruído para
se armar a si próprio cavaleiro «segundo o costume dos reis». Queria, pois, ser rei de
Portugal. Tanto mais que à sua volta só via reis - o Rei de Leão e Castela, seu primo direito;
os reis de Aragão e de Navarra; o Rei de França; os reis mouros. Porque não aceder,
também ele, a idêntica condição?
O objectivo seduzia-o, e não devia parecer-lhe inatingível: não eram reis os governantes de
Leão e Castela, de Aragão, de Navarra? Não havia a tradição da multiplicidade de reinos na
Península Ibérica? Não fora já um reino independente a Galiza, incluindo Portucale? Não
era hereditária a própria concessão do Condado Portucalense? E não fora fácil para este
expulsar os “estrangeiros” que o tinham querido dominar? Tudo parecia apontar, por
conseguinte, para a viabilidade política da autodeterminação do reino de Portugal.
Este seria, assim, o primeiro grande objectivo estratégico a atingir.
Quanto ao segundo, ele teria de subordinar-se logicamente ao primeiro: o que é que
contribuiria mais, e mais depressa, para a independência de Portugal? Respeitar o statu quo
a norte e alargar as conquistas a sul, ou, pelo contrário, lançar uma guerrilha permanente
sobre a Galiza e deixar para mais tarde a guerra com os muçulmanos?
Partir desde logo à conquista do Sul equivalia a não pôr nada em causa nas relações de
Portugal com a Galiza e com o reino de Leão: era fazer a vontade a Afonso VII.
Diferentemente, para arrancar a este a independência de Portugal, o que importava era
tornar o relacionamento Portugal-Galiza e Portugal-Leão tão conflituoso quanto possível,
para obrigar Afonso VII a negociar e a ceder crescentes graus de autonomia a Portugal, até
se atingir a independência.
O sonho dos avôs Garcia e Fernando Magno sobrepôs-se, assim, ao sonho do avô Afonso
VI: a Galiza teria prioridade político-militar; o Gharb (território ao sul do Mondego,
dominado pelos muçulmanos) ficaria à espera de melhor oportunidade.
Uma vez tomada esta decisão, de antepor a conquista da Galiza à conquista do Gharb, D.
Afonso Henriques tirou dela a consequencia política imediata que se impunha: entre D.
Egas Moniz, partidário da conquista do sul, e D. Paio Mendes, defensor da conquista do
norte, foi o arcebispo de Braga o escolhido para chanceler-mor. Egas Moniz só viria a
ocupar um alto cargo na Cúria oito anos depois, já com a estratégia toda virada para a
conquista do sul.
Este, o plano estratégico que terá sido decidido por D. Afonso Henriques em 1128-1129.
No entanto, como quase sempre sucede com todos os planos, a realidade veio a alterá-lo
substancialmente: a conquista da Galiza não se consumou; a conquista do Gharb depressa
se tornou prioritária; e durante muitos anos ambas tiveram de ser executadas em
simultâneo.
Mas num ponto, pelo menos, o jovem príncipe português viu bem e viu longe: tudo tinha de
começar pela Galiza - perturbar, fustigar e instabilizar o noroeste peninsular era a única
forma de fazer dobrar a vontade firme do poderoso Rei de Leão e Castela.
E foi assim que, após a pausa de 1128-1129, logo em 1130 D. Afonso Henriques invadiu a
Galiza. Era a primeira de uma longa série de várias incursões, que se prolongariam por uma
década e meia. Da primeira vez tinha ele 19 anos; da última contava 34. Naquela, ainda era
apenas conde dos portucalenses- nesta, já era Rei de Portugal.
Capítulo IX
Pressões sobre a Galiza
De 1130 a 1137, vamos pois assistir, de acordo com a opção feita, aos primeiros sete anos
consecutivos de pressões sobre a Galiza - nomeadamente sobre os territórios ou províncias
da Galiza que pelo acordo de 1121 tinham sido concedidos a D. Teresa: Toronho e Límia
(hoje, aproximadamente, a zona ao sul de Vigo e de Ourense).
D. Afonso Henriques, ao invadir terras e ocupar castelos na Galiza, não estava apenas a
demonstrar insubordinação e infidelidade para com Afonso VII de Leão: estava também a
procurar recuperar territórios que haviam sido de sua mãe e que portanto se achava no
direito de reaver para si.
A primeira invasão da Galiza deu-se no ano de 1130, mediante a ocupação de Tui e de
alguns lugares mais próximos. Não tendo encontrado resistência, o ínfante regressou a
Portugal satisfeito : tinha visitado terra que considerava sua, e ninguém o perturbara nessa
missão.
A segunda invasão da Galiza ocorre dois anos mais tarde, em fins de 1132 ou princípios de
1133. Mas desta vez as coisas não correm bem: o infante D. Afonso encontra pela frente
uma cara bem conhecida, o ex-amante de sua mãe, Fernão Peres de Trava, que juntamente
com outro conde galego, Rodrigo Vela, formava a guarda avançada de Afonso VII para a
defesa da Galiza. O confronto acaba numa derrota para o chefe português, que se retira para
Portugal.
Mas D. Afonso Henriques não desanima e volta a insistir no ano seguinte: em 1134 está de
novo em Toronho e na Límia, e a sua incursão é de tal modo bem sucedida que aí edifica
um castelo - o único que, tanto quanto se sabe, construiu na Galiza -, o castelo de Celmes . (
A localização da povoação de Celmes, na Galiza, foi-me revelada pela Sr. Prof. Doutora
Gregoria Cavero Dominguez, da Universidade de León, a quem o agradeço
reconhecidamente.) Uma vez edificado, foi dotado de uma pequena guarnição, que o ficou
a defender, e o infante voltou a Portugal.
Afonso VII não perdoou a ousadia, pois considerava a Límia, como Toronho, territórios
seus, não incluídos no Condado Portucalense, e avançou sobre o castelo de Celmes, que
cercou, tendo derrotado e aprisionado os militares portugueses que o guardavam. A notícia
provocou na corte de D. Afonso Henriques uma “tristeza intolerável”.
Afinal, os territórios que tinham pertencido a D. Teresa não eram reconhecidos ao filho, e o
rei leonês tinha-os como seus: a luta pela respectiva posse ia ser renhida e prolongada, e o
resultado era incerto. D. Afonso Henriques teve de aguardar mais três anos, até 113 7,
refazendo o ânimo dos seus homens e reorganizando o exército, até tentar nova incursão na
Galiza.
Mas, entretanto, outras coisas importantes vão acontecendo. No auge do seu poder e
prestígio, tendo rechaçado as ousadias do infante português e tendo conseguido obter ou
confirmar a vassalagem dos principais magnatas de Leão, Aragão e Navarra, Afonso VII
faz-se coroar imperador. Imperador de Leão? Não: Imperador das Espanhas ou, como ele
próprio prefere, Imperador de toda a Espanha. A cerimónia ocorre em Leão, em cortes
extraordinárias convocadas expressamente para o efeito, no dia 4 de Julho de 1135. Estão
presentes todos os nobres de condição mais elevada, que se reconhecem vassalos de Afonso
VII. Com uma única excepção, que logo assume tons de escândalo político: D. Afonso
Henriques não vai, não está presente, não presta vassalagem ao novo imperador. Mais um
acto de rebeldia e separatismo, que é vivamente ressentido na corte leonesa, mas que na
altura não provoca nenhuma reacção imediata. Instala-se a animosidade entre os dois
primos: as posições de um e de outro começam a tornar-se divergentes.
No mesmo ano de 1135, D. Afonso Henriques, já a viver menos em Guimarães do que em
Coimbra - nova “capital” do Condado Portucalense -, resolve fortalecer e proteger mais
eficazmente a sua fronteira sul. E toma a importantíssima decisão de construir o castelo de
Leiria - que servirá um duplo objectivo: defender militarmente a cidade de Coimbra; e
funcionar como ponto de partida para futuras incursões em direcção a Santarém e a Lisboa.
A derrota de Celmes colocou na primeira linha das preocupações a Reconquista, o avanço
para o sul.
Decerto por isto mesmo, e talvez também pela sua avançada idade, D. Paio Mendes,
arcebispo de Braga, que fora o principal conselheiro político de D. Afonso Henriques desde
1128, é agora substituído - em 1136 - por Egas Moniz, nomeado “dapifer curiae”, o
equivalente ao cargo actual de primeiro-ministro.
Entretanto, D. Afonso Henriques aproveita estes anos de paz para se dedicar à
administração interna do território: funda igrejas e mosteiros, faz numerosas doações de
bens da coroa, concede um foral a Seia.
1137 vai ser o ano da grande aposta na conquista total da Galiza. As circunstâncias não
podem ser mais propícias: do lado português, o exército está reorganizado e muito
aumentado; a leste de Leão, o Rei Garcia Ramires, de Navarra, disposto a lutar pela sua
independência, propõe uma aliança a D. Afonso Henriques, combinando ambos atacar os
territórios de Afonso VII em simultâneo, um pelo oeste e outro pelo leste; finalmente, e
como se tudo isto fosse pouco, estala uma ampla revolta da nobreza galega contra o
Imperador de Leão, acontecendo que os governadores de Toronho e da Límia, os condes
Gomes Nunes e Rodrigo Peres, se viram contra o seu suserano e prometem colaboração,
senão mesmo vassalagem, a D. Afonso Henriques.
Este sente que o momento é propício e, num repente, ocupa Tui e toma posse dos
numerosos castelos e terras que lhe são oferecidos pelos dois condes galegos revoltados.
Ainda encontra um foco de resistência em Alariz, onde Fernando Anes se mantém fiel a
Afonso VII, mas aquele é militarmente derrotado.
Garcia de Navarra inicia o seu ataque pelo leste.
D. Afonso Henriques, entusiasmado, distribui as suas tropas pelos numerosos lugares que
se colocaram sob as suas ordens, e vem a Portugal buscar reforços.
À frente de um novo exército, fresco e maior, rapidamente recrutado no norte do país, volta
de imediato à Galiza para explorar até ao fim as condições que lhe são objectivamente tão
favoráveis.
Os condes fiéis ao Imperador, Fernão Peres de Trava e Rodrigo Vela, saem-lhe ao caminho
e oferecem-lhe duro combate: é a batalha de Cerneja, de que D. Afonso Henriques sai
vencedor.
Nas hostes portuguesas vive-se um momento impar: o entusiasmo transforma-se em
euforia.
Na verdade, todo o sul da Galiza está nas mãos de D. Afonso Henriques. E não apenas pela
vitória das armas: também pela adesão voluntária dos principais governadores da região e,
presume-se, das respectivas populações. Afonso VII está neutralizado pela guerra com
Navarra, a leste. Os territórios que pertenceram a D. Teresa - as províncias de Toronho e
Límia - estão agora finalmente nas mãos de D. Afonso Henriques. O Condado Portucalense
aumentou cerca de um terço!
E, como sugere Alexandre Herculano, dominado o sul da Galiza, porque não sonhar com a
conquista do norte?” E porque não também com Zamora, que chegara a ser igualmente de
D. Teresa? Com alguma sorte, o Condado Portucalense quase poderia duplicar para o
norte...
É neste preciso momento, no início do Verão de 1137, quando tudo parece sorrir a D.
Afonso Henriques, quando a sua estratégia de conquista do Norte começa a resultar
plenamente, que o azar cai em cheio sobre a cabeça do infante português. Dois factos
políticos muito graves exprimem essa grande viragem.
Por um lado, chegam más notícias do sul: os mouros tinham atacado o castelo de Leiria e,
numa batalha violenta, em que 240 cavaleiros e homens de armas portugueses morreram,
tinham-se assenhoreado do castelo; ao mesmo tempo, uma outra coluna sarracena havia
derrotado um corpo de tropas português em Tomar. Toda a fronteira sul ficava, assim, posta
em perigo: sem Leiria, o próximo alvo seria facilmente a cidade de Coimbra. A situação era
muito grave, e exigia atenção imediata.
Por outro lado, Afonso VII de Leão, tendo alcançado clara vantagem sobre Garcia de
Navarra, pôde virar-se para a Galiza e tirar desforra das vitórias portuguesas. Sem perder
tempo, dirigiu-se com o seu exército para oeste, ocupou Tui, e preparou uma vasta ofensiva
contra D. Afonso Henriques: convocou toda a nobreza militar da Galiza para se juntar em
Tui com o fim de invadir Portugal pelo norte e exigir a submissão total do infante
português, senão mesmo destituí-lo da chefia do Condado Portucalense. Era o xeque-mate.
Deste modo, D. Afonso Henriques - provavelmente instalado em Guimarães - passa da
euforia à mais profunda preocupação. De repente, está encurralado num beco sem saída: se
se mantém com as suas tropas na Galiza, perderá o sul; se vem com os seus homens para
Leiria, perderá o norte.
A única saída plenamente vitoriosa seria constituir dois poderosos exércitos, um para
defender a Galiza e outro para recuperar e manter Leiria. Mas isso é impossível, porque os
recursos humanos do Condado Portucalense não comportam tamanho esforço.
Provavelmente D. Afonso Henriques reúne-se em Guimarães com os seus principais
conselheiros políticos e chefes militares: deve ter então realizado uma importante cúria
régía (o equivalente ao que são hoje os conselhos de ministros). Todas as hipóteses terão
sido ponderadas. Mas D. Afonso Henriques não tinha à mão nenhuma solução fácil. E já
não é só a Galiza que está em risco: a própria existência do Condado Portucalense
encontra-se ameaçada. Com efeito, os portugueses não têm exército que possa desbaratar,
em confronto directo, as tropas do Imperador de Leão.
Este pretende mesmo invadir Portugal: mas, ao que parece, a nobreza galega - dividida nas
suas lealdades - reage lentamente e demora muito a formar o grande exército que Afonso
VII reclama. Também este se acha assim, em dificuldades: recuperou a Galiza, mas não
consegue, pelo menos de momento, invadir Portugal.
Ambos se encontram naquilo que, na teoria dos jogos, se chama uma no win situation:
ninguém consegue ganhar.
É neste quadro que tanto D. Afonso Henriques como Afonso VII de Leão se predispõem a
negociar, ou seja, a encontrar um compromisso para o conflito que os opõe. E os
conselheiros de ambos assim o recomendam vivamente. Nasce daqui o tratado ou pacto de
Tui, de 4 de Julho de 1137, pelo qual os dois primos fazem as pazes.
O pacto (a que não se deve chamar tratado, pois Portugal ainda não era, à data, um país
independente) é formalizado na cidade de Tui, com a maior solenidade.
Assinaram-no, pela parte portuguesa, o arcebispo de Braga, D. Paio Mendes, e o bispo do
Porto, D. João Peculiar, e, pela parte leonesa, os bispos de Segóvia, Tui e Orense. “É de
crer que fossem estes prelados quem trabalhasse então na concórdia dos seus príncipes. O
pacto foi assinado pelo infante D. Afonso, acompanhado por 150 homens bons portugueses.
Que dizia o texto desse pacto? Essencialmente, três coisas: que o infante prometia
fidelidade e amizade ao Imperador, a quem nunca provocaria morte ou dano; que o infante
prometia respeitar os territórios do Imperador, de tal modo que os não invadiria mais e, se
algum dos seus barões o invadisse, ele ajudaria lealmente a restituí-los ao Imperador; e que,
se os filhos do Imperador quisessem manter a paz, o infante ficava obrigado a fazer o
mesmo. Acessoriamente, o Imperador concedia ao infante, naquele acto, uma honra (terra
imune) - porventura Astorga - pela qual o infante se constituía vassalo do Imperador, e que
lhe deveria restituir em qualquer ocasião em que lhe fosse requerida.
Vários problemas se podem pôr acerca deste pacto.
O primeiro é o de saber quem terá tomado a iniciativa de pedír as pazes - a parte portuguesa
ou a parte leonesa? Se é certo que D. Afonso Henriques era quem estava em maiores
dificuldades, não é menos certo que tão-pouco Afonso VII conseguia reunir o exército com
que pretendia invadir Portugal. Provavelmente, a ideia do pacto nasceu dos bispos
portugueses e galegos que, concordando no essencial, terão conseguido influenciar os
respectivos príncipes.
O segundo problema interessante a discutir é o de saber se o acordo de Tui foi um pacto de
amizade entre dois principes que negociavam em pé de igualdade, ou antes um pacto de
vassalagem feudal entre um suserano que ficava por cima (Afonso VII) e um vassalo que
ficava por baixo (D. Afonso Henriques). Ambas as opiniões têm sido defendidas, sobretudo
com base na análise textual do pacto.
Pessoalmente, e baseando-me sobretudo no contexto político, inclino-me para o carácter de
pacto de vassalagem feudal, porquanto os reis de Leão sempre acentuaram, enquanto
puderam, a sua suserania sobre os condes portucalenses: foi assim com Afonso VI na
própria concessão do Condado e foi assim com Afonso VII na Conferência de Zamora,
como adiante veremos - ora, se nesta, em 1143, ainda o Imperador marcava a sua
superioridade feudal sobre D. Afonso Henriques, por que não teria feito o mesmo, por
maioria de razão, seis anos antes, em Tui?
Terceiro problema, porventura o mais interessante dos três: o pacto de Tui foi uma derrota
política para D. Afonso Henriques, como pretendem Alexandre Herculano e Gama Barros,
ou uma assinalável vitória, como sustentam Torquato de Sousa Soares e Veríssimo Serrão?
Para mim, a resposta é simples: o pacto de Tui foi uma derrota política. Isso resulta
claramente do texto do acordo, que só comporta obrigações para o infante português e
nenhumas impõe ao imperador de Leão. Mas o mesmo resulta também do que na moderna
teoria dos jogos se designa por “lógica da situação”.
De facto, qual era a situação de D. Afonso Henriques antes do pacto? Era a de senhor
absoluto de todo o sul da Galiza, nomeadamente das províncias de Toronho e Umia, e
suserano dos condes galegos Gomes Nunes e Rodrigo Peres; vencedor da batalha de
Cerneja; possuidor do castelo de Celmes e de muitos outros que se haviam passado para
ele; senhor da cidade de Tui - e tudo isto sem contestação ou reacção imediata da parte de
Afonso VII.
E qual foi a situação em que ficou D. Afonso Henriques depois do pacto? Perdeu tudo o
que tinha adquirido na Galiza, teve de devolver quanto conquistara, e foi forçado a
prometer que nunca mais invadiria os territórios do Imperador e que, se algum dos seus
homens os invadisse, prontamente restituiria tudo.
Se isto não é uma derrota política, não vejo outro nome que se lhe possa dar. Alguns
historiadores portugueses não querem admitir, talvez por preconceito patriótico, que D.
Afonso Henriques tenha sofrido qualquer derrota: mas isso não é verdade. Sofreu algumas:
só que conseguiu muitas mais vitórias, e nunca desanimou com as derrotas que teve: por
isso chegou onde chegou.
Uma das grandes qualidades de D. Afonso Henriques era não ficar paralisado pelos reveses
da sorte, e, depois de completada uma operação, saber avançar logo para o objectivo
seguinte. Trotsky conta, nas suas Memórias, que o principal defeito de alguns dos seus
camaradas revolucionários era ficarem parados diante de uma dificuldade e não saberem
what to do next. Pois bem: o infante português não padecia desse defeito.
Perdida a Galiza, desfeito o sonho da conquista do norte, ele percebeu logo que era
necessário partir à conquista do sul.
Por isso, ao regressar de Tui com os seus homens, D. Afonso Henriques não devia vir triste
e hesitante, mas forte e determinado. A sua palavra de ordem, seca e clara, terá sido, para
usar uma expressão utilizada mais tarde noutro contexto: “Para Leiria, rapidamente e em
força!”
Capítulo X
A “capital” em Coimbra e o caso do bispo negro
Creio ter sido o ilustre historiador José Mattoso quem primeiro chamou a atenção para o
facto de, por volta de 113 1, D. Afonso Henriques ter passado a residir a maior parte do
tempo em Coimbra - o que implicou não só a instalação da corte e a reunião da cúria régia
nesta cidade, mas a própria transferência da «capital» do reino de Guimarães para a cidade
do Mondego.
Não deixa de ser um pouco estranho que esta mudança se tenha dado em plena campanha
da Galiza, com o infante todo voltado para a conquista do norte, em vez de ter tido lugar
seis anos mais tarde, após o pacto de Tui, quando as prioridades da governação ofensiva se
voltaram definitivamente para a defesa de Coimbra e, depois, para a reconquista do sul
(Leiria, Santarém, Lisboa).
Seja porém como for, o certo é que a transferência da “capital” do reino para a linha
meridional das suas fronteiras de então teve grande significado: o príncipe libertou-se das
pressões da nobreza senhorial de Entre Douro e Minho, criou uma nova nobreza mais dócil,
apoiou-se mais do que inicialmente nos concelhos a que foi dando foral, fundou o Mosteiro
de Santa Cruz de Coimbra - que em breve se tornou em grande centro espiritual e cultural
do país -, organizou melhor uma plataforma permanente de expedições militares em
direcção ao sul e, por último - the last but not the least -, promoveu a rápida integração num
só bloco social e político dos tradicionais condados de Portucale e de Coimbra, fundindo e
incorporando numa sociedade plural o norte cristão com o sul muçulmano. (Inspiramo-nos,
nesta síntese, em José Mattoso. Ver, em sentido diverso, a opinião de A. H. de Oliveira
Marques, segundo a qual a integração do norte cristão com o sul muçulmano só teve lugar
um século mais tarde, com a fixação da «capital» em Lisboa, no reinado de D. Afonso III: )
A fixação da “capital em Coimbra permitiu a D. Afonso Henriques cuidar atentamente da
defesa da cidade, com a construção ou reconstrução de castelos em Montemor, Lousã,
Miranda, Soure, Penela, Germanelo, Pombal e, finalmente, Leiria, entre 1136 e 1142.
A seguir, e mais para sul, foram erguidos ou recuperados os castelos de Ourém, Alcobaça,
óbidos, Torres Novas, Ceras, Tomar, Zêzere e Almourol.
Já não era, agora, apenas a defesa de Coimbra que estava em causa: era a construção de
uma rampa de lançamento para o ataque aos grandes centros nevrálgicos civis e militares da
ocupação muçulmana - Santarém e Lisboa.
Já acima se disse que Coimbra fora, entre finais do século xi e princípios do século xii, um
importante pólo de presença moçárabe. Houve luta de influências entre o clero
“colonizador”, proveniente do norte, e o clero local, espiritualmente mestiço. É nesse
contexto que tem interesse recordar aqui uma das lendas mais curiosas que se formaram na
Idade Média sobre D. Afonso Henriques - a famosa lenda do “bispo negro”.
Não há nenhuma certeza sobre a autenticidade desta história, antes tudo leva a crer que ela
nunca ocorreu, ou se passou noutra época e com outras personagens.
No entanto, a verdade é que os cronicões portugueses a contaram todos como se fosse um
importante episódio da vida de D. Afonso Henriques. Por isso a refiro aqui.
Após a batalha de S. Mamede, D. Afonso Henriques encontrava-se em Coimbra, e terá
prendido «(a ferros») sua mãe, a rainha D. Teresa. Esta decidiu então escrever ao Papa,
reclamando da malvadez e crueldade do seu filho:
Depois disto, estando El-Rei D. Afonso Henríques em Coimbra, sua mãe se queixou muito
ao Santo Padre da prisão em que a tinha seu filho, havia já tanto tempo. O Santo Padre teve
aquela coisa por estranha e muito mal feita, e determinou mandar a Portugal sobre o caso o
Bispo de Coimbra, que então lá estava em Roma, dando-lhe cartas e grandes instruções
para El-Rei D. Afonso, mandando-lhe que tirasse sua mãe da prisão; não o querendo assím
cumprir, que fosse interdito todo o reino.
Partiu o Bispo para Portugal. E depois de dar as cartas do Santo Padre e transmítir a sua
míssão, El-Rei perguntou ao Bispo que tinha o Santo Padre que ver com ele ter sua mãe
presa; e dísse-lhe que tivesse a certeza que nem por mandado do Papa, nem nenhum outro,
ele em modo algum a soltaria, porque o tínha assim por melhor serviço de Deus e bem do
seu reino.
Quando o Bispo víu que outro recado não podia nem esperava achar em El-Rei,
encarregou-se de cumprír o que o Santo Padre lhe tínha mandado: então excomungou toda
a terra (portuguesa) e partiu de noite, fugindo.
Este o primeiro acto do drama. Mas D. Afonso Henriques não mostra medo nenhum, e vai
resolver o problema de forma rápida e eficaz:
Quando veio a manhã, disseram a El-Rei que estava excomungado, e toda a sua terra. Ele
ficou muito irado, e foi à Sé, onde fez entrar todos os cónegos na Sala do Cabido, e disse-
lhes:
- De entre todos me dai um Bispo. Eles responderam:
- Bispo temos; como vos daremos Bispo? Disse El-Rei:
- Esse que vós dizeis, nunca aquí será Bispo no resto dos meus dias. Mas, se assim é, saíde
todos pela porta fora, que eu acharei quem fazer Bispo.
Eles saíram. E El-Rei, junto à porta, viu vir um clérigo que era negro, e disse-lhe: - Como é
o teu nome?
O clérigo respondeu:
- Meu nome é Martim.
- E teu pai como se chamava?
- Suleima, disse ele. El-Rei perguntou-lhe:
- És bom clérigo, e sabes bem o oficio da Igreja? E ele respondeu:
- Não há dois melhores em toda a Espanha, nem que melhor o saibam.
Então lhe dísse El-Rei:
- Tu serás Bispo, D. Suleima, e faz já o necessário para que me dígas missa.
- Senhor (disse ele), eu não sou ordenado como Bispo, para vo-la poder dizer.
Respondeu El-Rei:
- Eu te ordeno como Bispo, para que ma possas dizer; e aparelha- te para que logo ma
digas, senão eu te cortarei a cabeça com esta espada.
E o clérigo, com medo, vestiu-se para dizer missa solenemente como Bispo.
Sabido este feito em Roma, cuidaram que El-Rei era herege, e o Papa envíou-lhe um
Cardeal que lhe ensinasse a fé.
Este episódio é muito curioso, não só pelo que revela da prática medieval de serem os reis
(e não o Papa) a nomear os bispos - costume que ainda hoje se mantém na Inglaterra
protestante -, mas sobretudo pelo facto de aparecer em Coimbra um bispo negro. Que
significará isto?
Segundo os especialistas, significa que se tratava de um sacerdote moçárabe, filho de pai
árabe (Suleima é o mesmo que Sulimão ou Zoleiman) mas com nome próprio cristão
(Martim ou Martinho). Os moçárabes eram, como se sabe, os cristãos que viviam sob o
domínio muçulmano e que, por isso, se adaptavam a algumas regras e práticas sarracenas.
A referência à cor da pele - um negro - não significa que se tratasse de um preto da África
Central, mas apenas de um homem mais escuro do que os outros, provavelmente
descendente do cruzamento de sangue cristão com sangue mouro sudanês, ou semelhante.
Coimbra tinha tido uma forte componente moçárabe, a seguir à reconquista de 1064.
D. Afonso Henriques impõe, portanto, um bispo negro, mas o fazê-lo à força leva o Papa a
intervir. Vejamos, em terceiro lugar, como reage o monarca português à interferência de
Roma nas suas decisões:
Vindo já o Cardeal perto de Coimbra, onde El-Rei estava, vieram alguns fidalgos a El-Rei e
disseram-lhe:
- Senhor, aqui vos vem um Cardeal de Roma, por estardes em conflito e descontentamento
com o Papa, por este novo Bispo que fizestes.
Disse El-Rei:
- Aínda me não arrependo. E eles prosseguindo mais avante, disseram:
- Senhor, todos os reis por cujas terras ele vem, segundo se diz, lhe fazem quanta honra
podem, e o provam beijando-lhe a mão.
Disse então El-Rei:
- Não sei de Cardeal nem Papa, que a Coímbra viesse e me estendesse a mão para lha
beijar, em minha casa, que eu não lhe cortasse o braço pelo cotovelo com esta espada, e
disto não podia ele escapar.
Estas palavras soube-as o Cardeal ao chegar a Coimbra, e tomou grande receio. Em
chegando, foi logo direito à alcáçova onde El-Rei repousava. Ali o recebeu El-Rei muito
bem, e disse-lhe:
- Pois, Cardeal, a que viestes a esta terra, que riquezas me trazeis de Roma para estes
combates que tão amíúde faço de día e de noite contra os mouros? Dom Cardeal amigo, se
vós porventura me trazeis algo que me deis, dai-mo,- se me não trazeis nada, tornai-vos
para donde viestes.
- Senhor (disse o Cardeal), eu venho a vós da parte do Santo Padre para vos ensinar a fé de
Cristo.
Respondeu então El-Rei:
- É certo que nós também aqui temos bons livros da fé nesta terra, como vós lá em Roma. E
portanto bem sabemos como o filho de Deus encarnou na Virgem María e dela nasceu, e
isto por obra do Espírito Santo, e como morreu na cruz para remir a geração humana, e
descendo aos infernos ao terceiro día ressuscitou imortal, e que o Pai e o Filho e o Espírito
Santo são três pessoas realmente repartidas em uma só essência. Esta fé temos e cremos
firmemente, tão bem como vós lá em Roma. Pelo que não temos agora necessidade de
receber de vós outra doutrina nem ensino. Foi-se então o Cardeal para a pousada, e mandou
logo dar de comer aos animais: e assim que foi meia-noite, mandou chamar todos os
clérigos da cidade, e excomungou a cidade e todo o reino,- e pôs-se a cavalo, e saíu à
pressa, e antes da manhã andou duas léguas.
Como se vê, o caso estava malparado. Mas não terminou aqui. D. Afonso Henriques não
era homem para se ficar:
Levantou-se El-Rei ao outro dia pela manhã, e dísse a seus cavaleiros: - Vamos ver o
Cardeal.
Disseram eles:
- Senhor, muito antes da manhã ele foi-se daqui, e deixou-vos excomungado, a vós e à
vossa terra.
Logo disse El-Rei:
- Selai-me depressa um cavalo. E cingiu sua espada, e cavalgou com grande pressa quanto
pôde atrás dele. E foi alcançar o Cardeal em um lugar que chamam a Vimieira, perto de
Poiares, camínho da Beira.
E assím que chegou a ele, lançou-lhe uma mão ao cabeção (colarinho) e com a outra tírou a
espada, e levantou o braço com ela, dízendo:
Dá a cabeça, traidor, querendo-lha cortar.
Disseram quatro cavaleiros:
- Senhor, por favor não queirais fazer isso, pois se matardes este Cardeal, cuidarão de todo
em Roma que sois herege.
Disse então El-Rei:
- Por essas palavras que agora dissestes, vós lhe daes a cabeça. Mas, se assim é, Dom
Cardeal: ou vós desfareis tudo quando fizestes, ou cá vos fica mesmo a cabeça.
- Senhor (disse o Cardeal), não me queirais fazer mal. Toda a coisa que vós quiserdes, eu a
farei de boa mente.
Disse El-Rei:
- O que eu quero que vós façais é que descomungueis quanto excomungastes, e que não
leveis daqui ouro nem prata, nem anímais senão três, que vos bastarão; e mais, que me
envieis uma carta de Roma, prometendo que nunca eu, nem Portugal, em meus dias seja
excomungado, pois eu o ganhei com esta minha espada: é isto que quero de vós agora. Mas
vós deixareis aqui este vosso sobrinho, filho de vossa írmã, em penhor, até que a carta
venha. E se ela até quatro meses aqui não chegar, que eu lhe corte a cabeça.
A tudo o Cardeal disse que concordava, e assím o fícou de fazer.
Então lhe tomou El-Rei quanta prata e ouro lhe achou, e animais, não o deixando levar mais
de três; e tírou El-Rei a capa e despiu-se todo, e mostrou muitos sinais de ferídas que tinha
pelo corpo, e disse:
- Cardeal, como eu sou herege, bem se mostra por estes sínais das minhas feridas: estas em
tal peleja, e estas em tal cidade ou vila que tomei, e todas por serviço de Deus, contra os
inímigos da nossa fé. E para esta tarefa levar avante vos tomo este ouro e prata, porque
estou com muita falta deles, e me são necessários para mim e para os meus.
Foi-se então o Cardeal, e El-Rei tornou para Coimbra. Então lhe outorgou o Papa a carta,
na maneira que o Cardeal quís, e mandou-a a El-Rei antes dos quatro meses: e El-Rei lhe
enviou seu sobrinho, honradamente como cumpria.
Este, o longo e pitoresco episódio do bispo negro, que foi escrito por alguém que dava de
D. Afonso Henriques uma imagem feroz e violenta. Mas Duarte Galvão, que reproduz a
história toda já no século XVI, sem qualquer animosidade contra o nosso primeiro rei, antes
com grande admiração e respeito por ele, dá-se ao trabalho de explicar que, às vezes, os reis
não podem actuar como as outras pessoas, e têm de tomar certas atitudes mais duras:
Assim como se não pode negar coisas de tal modo feitas serem fora do que os homens
devem fazer, assim também se não podem deixar de confessar o modo e maneira do Rei
serem muito fora dos outros homens: pois o Rei não é Rei por sí nem para si: e para actuar
e se salvar, um há-de ser o camínho do Rei, e outro o do frade.
Tais atitudes mais extraordinárias, tomadas por um rei católico e virtuoso, diz Duarte
Galvão, hão-de vir sempre “da vontade e querer de Deus, ainda que seja fora da vontade e
parecer dos homens”. Por isso, conclui, não as devemos julgar ligeiramente: são casos
excepcionais, especialmente autorizados por Deus, “e assim não nos fará novidade nem
espanto lê-los, nem ouvi-los”.
Era a explicação própria de um defensor da doutrina do “direito divino dos reis”, segundo a
qual os reis reinavam em virtude da vontade de Deus e, por isso, não deviam obediência ao
Papa nem aos bispos: o poder temporal tinha primazia sobre o poder espiritual.
Não era esta a doutrina vigente no século XII, época em que a supremacia do Papado era
crescente e viria a ser oficialmente consagrada por Inocêncio III, no século seguinte.
Temos assim de concluir que D. Afonso Henriques podia ter ordenado um bispo negro em
Coimbra, mas nunca teria ameaçado de morte um cardeal enviado especialmente pelo Papa
- até porque ele sempre necessitou muito do apoio da Igreja, e de Roma, para prosseguir a
política de autonomia progressiva de Portugal.
Capítulo XI
A batalha de Ourique
Aprovado o pacto de Tui, em 1137, é a altura de D. Afonso Henriques se voltar
definitivamente para a fronteira sul. Dois anos antes, em 1135, mandara construir o castelo
de Leiria, que deslocava cerca de cem quilómetros mais para baixo a linha de fronteira do
Condado Portucalense com o Islão.
Mas os muçulmanos não se deram por vencidos e, atacando o novo castelo em 1137,
destruíram-no e arrasaram-no. D. Afonso Henriques firmou o propósito de o recuperar e
reconstruir, o que decidiu fazer na Primavera de 1139.
Encontrando-se em Maio deste ano em Coimbra, decidiu reunir tropas suficientes para o
efeito nesse mês e no seguinte.
Em fins de Junho ou começos de Julho, o príncipe português parte com as suas tropas em
direcção ao sul, com o propósito declarado de retomar e reerguer o castelo de Leiria.
Em 2 5 de Julho de 1137 (dia de Santiago), dá-se uma importante batalha, num local que as
fontes da época e posteriores denominam de Ourique (Aulic, Oric ou Ouric, conforme os
textos), e consideram bem encravada no coração do território sarraceno de então (tunc cor
terrae sarracenorum).
A batalha terá sido forte e renhida, forçando D. Afonso Henriques a combater contra cinco
reis mouros - um deles expressamente nomeado, Ismar, e os outros apontados como tendo
vindo de Sevilha, Badajoz, Évora e Beja. Ao que parece, Ismar (também denominado
Esmar ou Ezamare) era nada mais nada menos do que o governador militar, ou alcaide, de
Santarém - que tinha a seu cargo a fronteira norte dos sarracenos e que já fora o responsável
pela destruição, dois anos antes, do nosso castelo de Leiria.
Com os exageros da época, dizem as crónicas que os dois exércitos formavam multidões:
para uma, 40 mil homens, para outra 10 mil, além de muitas mulheres, lutando como
amazonas». Não deve ter sido bem assim: quando muito, algumas centenas de cada lado.
O resultado da contenda foi uma clara vitória para os portugueses, que mataram tantos
infiéis e mostraram tal coragem e determinação que puseram Ismar em debandada e com
ele todos os sobreviventes.
A expedição não terá sido muito demorada, porque dias depois D. Afonso Henriques, ao
que consta, já estava de volta a Coimbra com a sua gente.
Estes são, na sua singeleza, os factos conhecidos e comprovados relativamente à batalha de
Ourique - a qual vai conhecer, porém, nos séculos seguintes, um aumento enorme de
proporções, dado ter sido a primeira vitória mílitar de D. Afonso Henriques sobre os
mouros.
Assim, de crónica em crónica, de autor em autor, de século em século, a batalha de Ourique
vai sofrer uma profunda metamorfose, que dela fará - até à crítica de Alexandre Herculano -
a “pedra angular da monarquia portuguesa”, como este lhe chamou.
De pequena confrontação transforma-se em grande batalha; de prélio ocorrido por ocasião
da tentativa de recuperação do castelo de Leiria converte-se numa extraordinária e
arrojadíssima descida até ao sul do Alentejo; de simples feito militar passa a momento
glorioso em que o núcleo dirigente do país aclama D. Afonso Henriques como Rei de
Portugal; a batalha de Ourique estará também na origem da configuração dada pelo nosso
primeiro monarca às armas reais, com o “escudo das cinco quinas” a simbolizar os cinco
reis mouros derrotados (como disse Camões, “cinco escudos azuis esclarecidos, em sinal
destes cinco reis vencidos”). E, por último, como se tudo isto não bastasse, gera-se a lenda
do “milagre de Ourique”, ou seja, começa-se a acreditar, a partir de certa altura, que Cristo
apareceu a D. Afonso Henriques na véspera da batalha para lhe dar ânimo e prometer a
vitória, consagrando-o assim como chefe digno da protecção divina e colocando Portugal,
desde o início, como país amparado pela vontade de Deus.
Este ponto - o chamado “milagre de Ourique” - deve ser compreendido à luz da grande
religiosidade da Idade Média e da crença que havia na existência de milagres como forma
possível, embora excepcional, de intervenção divina na vida humana: à luz destas
concepções, a melhor maneira de justificar a independência de Portugal era ligá-la
directamente a um milagre. A lenda conta-o assim:
Quando foi finda a tarde, depois que o príncipe fez pôr as guardas no seu arraial, o eremita
que estava na eremida que acíma dissemos veio até ele e dísse-lhe: - Príncipe D. Afonso,
Deus te manda por mim dizer que, pela grande vontade e desejo que tens de o servír, quer
que tu sejas ledo e esforçado: ele te fará amanhã vencer El-Rei Ismar e todos os seus
grandes poderes. E mais te manda por mím dizer que, quando ouvíres tocar uma campaínha
que está na eremida, deves saír fora e ele te aparecerá no céu, assim como padeceu pelos
pecadores. Desde que partíu o eremita, o Príncipe D. Afonso pôs os joelhos em terra e
disse: - Oh bom Senhor Deus, todo-poderoso, a quem todas as criaturas obedecem, sujeitas
a teu poder e querer, a tí só conheço, e agradeço mandares-me prometer tão grande coisa
como esta. E tu, Senhor, sabes que por te servír passo muita fadíga e trabalho contra estes
teus ínímigos, com os quais, por serem contra ti, eu não quero paz nem quero tê-los como
amigos.
E desde que isto disse, com outras palavras muito devotas encomendou-se a Deus e à
Vírgem gloriosa, Sua mãe. Então encostou-se e adormeceu.
E quando foi uma meia hora antes da manhã, tocou a campainha como o eremíta dissera, e
o príncipe saiu fora da sua tenda e, segundo ele mesmo dísse e deu testemunho em sua
história, viu Nosso Senhor em cruz, na maneira que lhe dissera o eremita. E adorou-o muito
devotamente com lágrimas de grande prazer, dízendo:
- Senhor, aos hereges é que é precíso apareceres, pois eu sem nenhuma dúvída creio e
espero em ti firmemente. Neste aparecímento foí o príncípe D. Afonso certíficado por Deus
de sempre Portugal haver de ser conservado em reino. Tudo é para crer que Nosso Senhor
quereria e faría a Príncípe tão vírtuoso, sobre quem fundara reino e Reis tão virtuosos para
o seu serviço e da santa fé católíca.
Nota: Todas as Histórias de Portugal contam bem estes aspectos da batalha de Ourique: ver,
em especial, a de Barcelos, a de Veríssimo Serrão e a de José Mattoso.
Foi esta a versão religiosa e sobrenatural do fundamento da nacionalidade portuguesa que
prevaleceu nas grandes crises da nossa independência face a Castela - 1383-85 e 1580-
1640- e que se manteve convictamente enraizada na consciência nacional durante cinco
séculos.
Só em 1846, com a publicação do primeiro volume da Históría de Portugal, de Alexandre
Herculano, este ilustre historiador pôs em dúvida - aliás, com palavras bastante moderadas -
o chamado «milagre de Ourique», e preferiu considerar a respectiva batalha como um
episódio menor, secundário, sem grande importância na nossa história ou no próprio
desenvolvimento do reinado de D. Afonso Henriques.’
Tanto bastou para que contra ele se levantasse um vigoroso coro de protestos, provenientes
dos sectores católicos mais tradicionalistas, aos quais Herculano respondeu indignado.
O problema pode ser hoje colocado em termos de total serenidade: quem acreditar em
milagres tem todo o direito de acreditar no “milagre de Ourique”; quem não acreditar em
milagres - ou não aceitar a ideia de uma intervenção providencial na resolução de casos
pontuais da vida humana -tem todo o direito de negar a existência do “milagre de Ourique”.
O que ninguém poderá negar é que a crença no milagre de Ourique alimentou, durante pelo
menos cinco séculos, o sentimento patriótico português: e isto é um facto histórico, não
porque tenha necessariamente havido milagre, mas porque o país em peso acreditou que
houve.
Outro ponto que também fez parte durante séculos da tradição lendária portuguesa sobre a
batalha de Ourique foi a ideia de que D. Afonso Henriques, no início do combate, terá sido
aclamado Rei de Portugal pelos barões e soldados ali presentes. Diz a crónica:
E quando os senhores e grandes que estavam com o Príncipe D. Afonso víram as hostes dos
mouros e a grande multidão deles sem conto, chegaram ao Príncípe e disseram:
- Senhor, nós vimos a vós para que nos façais uma mercê, a qual será um grande bem e
honra para os que aqui sobreviverem, e para os que morrerem, e para todos os da geração
deles.
O Príncípe respondeu-lhes que dissessem o que queriam, que não havia coisa que em seu
poder fosse de fazer, que de boa vontade não fizesse.
Eles disseram:
- Senhor, o que toda esta vossa gente vos pede é que consintais que vos façam Rei, e assím
haverá mais ânimo para pelejar.
Respondeu ele e disse:
- Amigos, senhores, irmãos: eu tenho de vós suficíente honra e senhorio, por sempre ser de
vós muito bem servido e guardado; e porque disso me contento bem, não me quero chamar
Rei nem sê-lo. Mas eu, como vosso irmão e companheiro, vos ajudarei com o meu corpo
contra estes infiéis inimigos da fé. Além disso, para o que dizeis, o lugar e a hora não são
convenientes.- para o feito em que estamos, sede vós muito esforçados e não temais nada,
pois o Senhor Jesus Cristo, por cuja fé estamos aqui juntos e prontos a pelejar e a espargír o
nosso sangue, como ele fez por nós, nos ajudará contra estes inimigos, e os dará vencidos
em nossas mãos. O precioso apóstolo Santiago, cujo dia hoje é, será o nosso capitão e
fiador nesta batalha.
Responderam eles todos:
- Senhor, praza a Deus que assím seja, e não menos o esperamos da sua graça. Porém, para
ele ser melhor servido por vós e por nós neste feito, e em todos os outros adiante, é muito
necessário que vos alcemos por Rei; e não deve uma só vontade vossa impedír a de todos,
que tanto vo-lo pedimos e desejamos.
O Príncipe, vendo-se tão apertado por eles, disse que, pois se assim era, que fizessem o que
bem lhes parecesse.
E então todos o levantaram por Rei, bradando com grande prazer e alegria:
- Real, real, por El-Rei D. Afonso Henriques de Portugal!
Não se sabe ao certo, claro está, se as coisas se passaram deste modo. Um pequeno
pormenor inclina-me a pensar que sim. De facto, se a narrativa da aclamação régia fosse
apresentada como uma consequência da vitória de D. Afonso Henriques sobre os mouros,
bem podia tratar-se de uma invenção fabricada pelos cronistas um ou dois séculos depois:
como diziam os clássicos, o primeiro rei foi um general vitorioso numa batalha.
O certo é, porém, que a história nos é contada ao invés, apresentando-se a aclamação como
um acto prévio, em relação à batalha, requerido pelos nobres e pelos soldados ali presentes,
a fim de que houvesse, por essa razão, “mais animo para pelejar”. Dificilmente esta
sequência seria inventada pelo cronista, porque não lembraria a um estranho aos factos
coroar um chefe militar como rei antes da sua primeira grande batalha - antes, portanto, de
se saber se ele ia ganhar ou perder o combate.
Em Ourique, D. Afonso Henriques não esteve sozinho com os seus soldados:
acompanharam-no e ajudaram-no os principais cavaleiros e barões do reino, a saber, D.
Egas Moniz (*), D. Pero Pais, alferes-mor, D. Lourenço Viegas e D. Gonçalo de Sousa, os
irmãos Martim Moniz e Mem Moniz, e D. Diogo Gonçalves. Dois deles, pelo menos,
morreram em combate: Mem Moniz e Diogo Gonçalves. Foram os primeiros heróis na
gesta de Afonso Henriques à conquista do sul.
Nota: Duarte Galvão, conta que Egas Moniz morreu a caminho de Ourique, no meio do
percurso: porém, a informação está errada, porque a batalha de Ourique teve lugar em 1139
e a morte de Egas Moniz só ocorreu em 1146.
Os historiadores não conseguem pôr-se de acordo sobre o local onde efectivamente se
travou a batalha de Ourique.
A opinião tradicional, que Alexandre Herculano perfilhou, é a de que o prélio teve lugar no
actual concelho de Ourique, distrito de Beja.
Mas esta opinião não resiste a uma reflexão aprofundada: primeiro, como é que as tropas de
D. Afonso Henriques, que ainda estavam em Coimbra no final do mês de Junho,
conseguem aparecer em 25 de Julho - isto é, apenas três semanas depois - no sul do
Alentejo, a mais de 300 quilómetros de Coimbra?
Segundo, como é que D. Afonso Henriques vai encontrar no sul do Alentejo, como
adversário principal, o rei Ismar, que era o alcaide de Santarém? Foram combinados, um de
Coimbra e outro de Santarém, realizar um torneio conjunto no Baixo Alentejo?
Terceiro, como é que se aceita ser verosímil que D. Afonso Henriques tenha conseguido
chegar de Coimbra ao sul do Alentejo sem problemas ou dificuldades - iludindo a
vigilância e torneando a defesa dos mouros, que ainda ocupavam na altura Santarém,
Lisboa e arredores, Palmela, Alcácer do Sal, Évora e Beja? Como se infiltraram as tropas
portuguesas por entre todos estes pontos fortes do domínio muçulmano, que Afonso
Henriques só haveria de conquistar - um a um - ao longo dos 20 anos seguintes?
A hipótese não tem verosimilhança. Por isso, já desde 1900 o Prof. David Lopes sustentou,
com maior razoabilidade, que, dadas as posições militares fixas de portugueses e
muçulmanos à época, Ourique tinha necessariamente de situar-se a norte de Santarém
(cidade e castelo dominados pelos árabes, tendo como governador ou alcaide o nosso já
conhecido Ismar), e a sul da linha Leiria-Ourém-Tomar (ocupada pelos portugueses).
Só que, em clara contradição com esta poderosa argumentação, o ilustre professor concluiu
que a batalha em causa teria tido lugar no «Chão de Ourique», próximo do Cartaxo - que é
uma região situada cerca de 15 quilómetros a sul de Santarém... Não pode ser: Ismar não o
consentiria.
Se D. Afonso Henriques partiu de Coimbra em direcção ao sul, para recuperar Leiria, e se
defrontou, pouco tempo depois, com as hostes de Ismar, que lhe saíram ao caminho, é
lógico concluir que Ourique só podia situar-se entre Leiria e Santarém
- zona que, aliás, era então pertença da mourama e correspondia portanto à descrição da
crónica já citada: achava-se «no coração da terra dos sarracenos».
Ora bem: se Ourique se situava entre Leiria e Santarém, ficam automaticamente excluídas
as teses - um tanto ou quanto fantasistas - que apontam para o Alentejo, para Lisboa, para o
Cartaxo (tudo locais ao sul de Santarém), bem como para Penela e Montemor-o-Velho
(ambas ao norte de Leiria).
Concluo, pois, que de todas as localizações até hoje propostas para situar a batalha de
Ourique, a única que faz sentido e se mostra razoável é a do «Campo de Ourique», junto à
nascente do rio Lis, na freguesia das Cortes, concelho de Leiria - que fica situada a cerca de
oito quilómetros a sul da cidade de Leiria (e portanto na zona entre Leiria e Santarém). Foi
esta a localização proposta pelo Dr. José Saraiva, em 1929, e que se me afigura correcta.
Notas:
1- Duarte Galvão diz ter Martin Moniz morrido na batalha de Ourique, mas isso não é
verdade, pois este faleceu na tomada de Lisboa, 8 anos depois.
2- Um dos argumentos que considero mais convincentes, de entre os usados pelo Sr. Dr.
José Saraiva, é o de que, na época da batalha de Ourique, e mesmo alguns anos mais
tarde, ainda a Câmara Municipal de Coimbra levantava entre o povo o pregão da guerra
santa para defender o castelo de Leiria , o que prova como se estava longe do Tejo e do
Além-Tejo...
Segundo o meu modo de ver, as coisas ter-se-ão passado desta maneira: em Maio-Junho de
1139, D. Afonso Henriques estava em Coimbra ‘e Ismar em Santarém; aquele decidiu
formar um exército para ir recuperar o castelo de Leiria, antes arrasado por este. Em
princípios de Julho, o príncipe português põe-se ao caminho e percorre os 60 quilómetros
que separam Coimbra de Leiria; apossa-se novamente desta cidade e deixa uma parte dos
seus homens a guardá-la, bem como a reconstruir o castelo. Depois continua mais para sul:
assim como em 1142 tentará conquistar Lisboa, não surpreende que em 113 9 lhe tenha
ocorrido tentar conquistar Santarém. D. Afonso Henriques parte, portanto, de Leiria para
Santarém. Mas Ismar, que está atento e controla agilmente o território entre Santarém e
Leiria, avança para norte, para lhe sair ao caminho, e enfrenta-se com os cristãos a sul de
Leiria.
Dá-se então a batalha de Ourique, que portanto não é um fossado, mas uma confrontação
directa de dois exércitos, no caminho entre as cidades de onde partiram (Coimbra e
Santarém).
Ismar é derrotado e foge. Mas fica por perto. Tão perto que logo em começos de 1140 -
poucos meses depois - cai de novo sobre Leiria, que volta a ocupar.
Tudo isto é razoável e faz sentido. É nesta zona (Coimbra, Leiria, Santarém) que se tem de
situar o Ourique da célebre batalha. Querer vê-lo noutra qualquer parte do país é totalmente
ilógico; e querer colocá-lo no sul do Alentejo é - salvo o devido respeito - surrealista: se,
naquelas circunstâncias concretas, D. Afonso Henriques e o seu exército tivessem
conseguido ir sem embaraços ao sul do Alentejo - em três semanas -, e voltar de lá sem
problemas e em pouco tempo até Coimbra, esse seria certamente um outro “milagre de
Ourique”!
Capítulo XII
O título de Rei e o primeiro filho

D. Afonso Henriques nunca se intitulou a si próprio, nem deixou que o chamassem, conde
de Portugal ou dos portugueses: conde era, na verdade, uma designação que evocava
dependência de outrem, e que portanto não convinha a quem sempre teve em mira tornar-se
independente.
Assim, enquanto foi menor chamaram-lhe, como era costume, infante; e quando atingiu a
maioridade passou a intitular-se príncípe.
Segundo a tradição, a designação de rei - acabamos de vê-lo - foi-lhe dada pelo seu exército
e conselheiros na véspera da batalha de Ourique, quando D. Afonso ia em 30 anos de idade.
Com aclamação ou sem ela, o que parece fora de dúvida é que foi depois dessa batalha, e
por causa dela, que D. Afonso Henriques assumiu para sempre o título de Rei, e passou a
assinar com essa designação os documentos oficiais.
Com efeito, até à batalha de Ourique, nunca a denominação de rei aparece em nenhum
documento;’ depois dela, e logo a seguir, o título real surge com frequência. Nenhuma
outra explicação permite compreender a mudança ocorrida, senão a própria batalha de
Ourique?
Repare-se bem nas datas. Ourique tem lugar em 25 de Julho de 1139. Pois, nos meses
seguintes, aparecem nada menos de cinco documentos em que D. Afonso Henriques se
intitula e assina Rei dos Portugueses:
- Documento de Outubro de 1139: Alphonsus... Portugalensium rex;
- Documento de Fevereiro de 1140: RexAlphonsus, Portugalensíum prínceps;
- Documento de Abril de 1140: Ego, egregíw rex Alphonsus;
-Documento de Junho de 1140: Rex Alphonsus;
- Documento de Novembro de 1140: Ego Alphonsus rex, Portugalensíum princeps.
Os historiadores divergem sobre qual destes cinco documentos deve ser considerado o
primeiro autêntico - será o de Outubro de 39? ou o de Fevereiro de 40? ou ainda o de Abril
de 40? Ou algum dos outros?
Pouco importa. O importante é que D. Afonso Henriques, logo a seguir à vitória de
Ourique, começa a usar oficialmente o título de Rei. O facto tem um duplo significado -
interno e internacional.
No plano da política interna, ele pretende significar que D. Afonso Henriques considera ter
atingido a mais alta posição hierárquica e simbólica no Estado português. Já não é um
menor, nem um principiante, nem um líder precário: ele é o Rei, é o Chefe do Estado.
No plano da política externa, o facto significa que D. Afonso Henriques se considera agora
um governante situado em perfeita igualdade com os mais altos dirigentes da Península
Ibérica: ele é Rei de Portugal e, com isso, coloca-se no mesmo plano ou nível protocolar
que o Rei de Leão e Castela, que o Rei de Navarra ou que o Rei de Aragão. Isto para já não
falar dos reis de França ou de Inglaterra. Será este o momento em que Portugal se torna um
país independente?
Há quem tenha entendido que sim. Não é essa, no entanto, a minha opinião. Para que assim
fosse, seria necessário que «realeza» fosse sinónimo de “ independência”, e não pudesse ter
outro significado diferente.
Ora, não era assim. Ao longo da História - todos o sabem - houve ducados e condados que
eram independentes, embora não fossem reinos (por exemplo, Flandres e Sabóia), e houve
reinos que, apesar de o serem, eram dependentes de um imperador (por exemplo, no século
xii, na Península Ibérica, os reinos de Aragão e Navarra, dependentes do Imperador de
Leão, ou, nos séculos xix e xx, os reinos da Baviera, da Saxónia, do Wurtenberg e de
Hanôver, incorporados no II Reich alemão após 1870). O título usado pelo chefe supremo
de uma comunidade política era, pois, uma dignidade pessoal, mas nada nos dizia, só por si,
acerca do estatuto de maior ou menor autonomia dessa comunidade em relação a outras.
Ora a verdade é que Portugal, apesar de ter passado, em 1139-1140, de condado a reino -
tendo agora por chefe supremo um Rei, e não mais um conde -, continuava a ser um
território não autónomo, ou seja, um território integrado no Império leonês. D. Afonso
Henriques podia ser Rei de Portugal, mas era vassalo do Imperador de Leão - a cujo
império pertencia -, do mesmo modo que também eram vassalos dele os reis de Aragão e de
Navarra, não obstante designarem-se reis.
A assunção do título de rei por D. Afonso Henriques foi, pois, um momento importante,
quer sob o aspecto pessoal quer político, na vida portuguesa, e constituiu mais um passo
muito relevante a caminho da independência. Mostrou mesmo uma vontade de ser
independente. Mas não foi ainda o momento da independência.
Pode calcular-se, contudo, o alto grau de satisfação pessoal que este novo passo constituiu
para D. Afonso Henriques: não só ou não tanto pela honra em si mesma considerada, que
era enorme, mas porque ela representava uma nova etapa na execução da estratégia política
definida após a batalha de S. Mamede.
A fase seguinte consistiria em procurar obter o reconhecimento diplomático do título real
por parte da potência internacional que mais tinha a perder com isso: justamente o
Imperador de Leão e Castela, Afonso VII. Esta nova fase não durou tanto como a anterior:
se a caminhada de S. Mamede a Ourique tinha levado onze anos, o percurso de Ourique a
Zamora (onde tal reconhecimento veio a ser obtido) demorou apenas quatro anos.
Mas os anos de 1139 e 1140 não foram apenas anos de glória e satisfação para D. Afonso
Henriques no plano político, com a vitória de Ourique e a assunção do título de Rei: esses
anos foram também um momento de felicidade e alegria pessoal, porque presenciaram a
concepção e o nascimento do seu primeiro filho, Fernando Afonso, que veio à luz em data
não conhecida, no ano de 1140.
Verifica-se assim um paralelismo curioso na vida política e pessoal de D. Afonso
Henriques - no plano político, ele afirma-se como chefe supremo em 113 9 e recolhe o
respectivo fruto em 1140, assumindo o título de Rei; no plano pessoal, vive o seu primeiro
caso amoroso sério em 1139 e dele colhe o respectivo fruto em 1140, vendo nascer o
primeiro filho.
Em que circunstâncias se dá este importante acontecimento na vida de D. Afonso
Henriques?
Antes de mais, cumpre sublinhar que por esta altura o Rei de Portugal ainda não era casado:
o seu casamento só viria a dar-se dali a mais seis anos. Era, no entanto, um homem feito:
tinha 30 anos de idade.
Claro está que nada sabemos da sua vida amorosa anterior. Mas é de crer que ela tenha sido
semelhante à dos outros rapazes da sua idade e condição, no meio em que foi criado. Como
vimos, D. Afonso Henriques não foi educado pelos pais, nem viveu na corte: cresceu e
amadureceu no interior do país, em zonas rurais junto do rio Douro, em casa de fidalgos
abastados e influentes. A sua iniciação sexual deve ter sido idêntica à dos outros jovens em
circunstâncias como as suas.
Não é de crer que o príncipe D. Afonso se tenha mantido casto até aos 30 anos de idade:
mas, pelos vistos, das suas relações com o sexo feminino não nasceu mais cedo nenhum
“fruto proibido”.
Até que em 1139 aconteceu um facto importante: não foi apenas uma ligação amorosa de
que nasceu um filho. Foi muito mais do que isso: D. Afonso Henriques - no auge da sua
pujança pessoal e da sua trajectória militar e política - conhece uma mulher, de quem se
enamora intensamente, e que será a grande paixão da sua vida.
Quem é a feliz contemplada? Mistérios desta vida: é uma rapariga da melhor nobreza
galega, jovem e bonita por certo, de seu nome Flâmula Gomes, que é nem mais nem menos
do que uma sobrinha de Fernão Peres de Trava - o amante de D. Teresa, mãe de D. Afonso
Henriques.
Malhas que o destino tece: o filho veio a ter como amante uma sobrinha do amante da mãe!
De novo se reforçavam as ligações da corte portuguesa com o poderoso clã galego dos
Travas.
Veja-se como a vida destas duas famílias se cruzou e entrelaçou de forma intensa e
invulgar: primeiro a ligação de D. Teresa com Bermudo; depois a sua união de facto com o
irmão dele, Fernão; de seguida, o casamento de Bermudo com a filha mais velha de D.
Teresa, Urraca; e por fim a ligação amorosa - que haveria de prolongar-se - entre o filho de
D. Teresa e uma sobrinha de Fernão e de Bermudo, filha de uma irmã deles, Elvira! Dir-se-
ia que um imã atraía poderosamente as duas famílias, como que a tentar forçar a
concretização do sonho de unificar Portugal e a Galiza!
Não são conhecidas, ao menos por enquanto, as circunstâncias em que Flâmula Gomes veio
para Portugal e conheceu Afonso Henriques. Valerá a pena ter presente, contudo, que o tio
dela, Fernão Peres de Trava, voltou várias vezes a Portugal depois de haver sido derrotado
na batalha de S. Mamede, e pode ter trazido a sobrinha consigo- e que Flâmula foi primeiro
casada
com Paio Soares, de quem teve três filhos, e depois de viúva fez-se monja no mosteiro
beneditino de Vairão. Mais tarde, teve um filho de Mem Rodrigues de Tougues, que
morreu pouco depois. Só em seguida conheceu Afonso Henriques. Não era propriamente
uma donzela inocente...
Nota: Flâmula também aparece mencionada com o nome de Chamoa, ou Châmoa.
Quando a conhece, Afonso Henriques apaixona-se vivamente por Flâmula Gomes, e dessa
paixão nasce um primeiro filho, ilegítimo, em 1140, e hão-de nascer outros mais tarde.
Este primeiro filho varão, que se chamará Fernando Afonso, não vai ser apenas um
elemento sentimentalmente importante para o Rei de Portugal, por ser o seu filho mais
velho: vai também desempenhar um papel político de primeira grandeza, sob vários
aspectos, ainda em vida de seu pai e já depois da morte dele.
Por ter sido o primeiro, por ter sido filho varão, por ter nascido de uma forte e séria paixão,
e por ter vindo ao mundo na sequência da vitória de Ourique e do início do uso do título de
Rei pelo pai - podemos seguramente concluir que Fernando Afonso não foi um filho
enjeitado, qual fruto indesejado de um amor ilícito, mas antes um filho muito querido, cujo
nascimento deve ter sido um momento de rara felicidade para o pai. Veio a ser, aliás,
educado na corte.
Ser rei e ser pai no mesmo ano - foi algo que D. Afonso Henriques não mais terá esquecido.
Agora havia que trabalhar para obter o reconhecimento oficial dos dois factos consumados
- para obter o reconhecimento, por Afonso VII, do título de Rei e, quiçá, para obter o
reconhecimento, pela Igreja, da sua ligação amorosa e do seu filho.
Capítulo XIII
Valdevez e a Conferência de Zamora

D. Afonso Henriques saiu da vitória de Ourique e da assunção do título de Rei, em 1139-


40, reforçado na sua autoridade política e determinado a obter o reconhecimento, por
Afonso VII, Imperador de Leão e Castela, da sua dignidade régia.
Qual a melhor táctica que devia utilizar para alcançar esse objectivo estratégico? À sua
escolha tinha duas tácticas possíveis.
A primeira era a táctica da paz, da cooperação, do cumprimento escrupuloso do pacto de
Tui: eventualmente, Afonso VII não deixaria de recompensar D. Afonso Henriques pelo
alívio da pressão militar a noroeste da Península, num momento em que se achava
envolvido em tantas outras frentes de luta.
A segunda táctica possível era a da guerra, da não cooperação, da manutenção e aumento
da pressão militar na Galiza, ainda que em manifesta violação do acordado em Tui: talvez
Afonso VII, justamente por ter outras preocupações mais fortes na sua acção governativa -
quer com Navarra e Aragão a leste, quer com os mouros a sul -, acabasse por querer pôr um
ponto final na desinquietação permanente que se vivia no noroeste peninsular, e concedesse
a D. Afonso Henriques o ambicionado reconhecimento. (Nos nossos dias, Yasser Arafat
seguiu esta táctica guerreira para obter de Israel o autogoverno da Palestina.)
A opção tomada pelo rei português foi a segunda, apesar dos riscos que comportava: veio
aqui à superfície o «génio belicoso e destro nas armas» que os cronicões lhe atribuíam.
Segundo Alexandre Herculano, «quem quebrou as pazes juradas» foi D. Afonso Henriques,
porque era a ele que interessava “anular o tratado de 1137” e, acrescento eu, obter o
reconhecimento diplomático do título de rei.
D. Afonso reuniu os seus exércitos, em número apreciável, e voltou a invadir a Galiza - era
a 5.ª incursão em dez anos! cercando e tomando Tui. Estávamos em Agosto de 1140.
As forças portuguesas encontraram forte resistência por parte do governador da Límia,
Fernando Anes, tendo D. Afonso Henriques sido ferido numa escaramuça. Afonso VII não
gostou da quebra das pazes de Tui e entrou com as suas hostes na Galiza, recuperando
muitos dos locais tomados pelos portugueses.
Os dois exércitos acabaram por se encontrar junto de Arcos de Valdevez, no Alto Minho
português: o primeiro combate foi-nos favorável, tendo sido preso o conde Radimiro, que
chefiava a força leonesa . Isso determinou a realização de um torneio - ou bafordo» - entre
um número limitado de cavaleiros portugueses e leoneses. Este segundo combate foi-nos
ainda mais favorável, tendo ficado prisioneiros vários nobres leoneses ilustres, entre os
quais um irmão do imperador, Fernando Furtado, o cunhado de Afonso Henriques,
Bermudo Peres de Trava, e o conde Ponce de Cabrera.
Foi tal o prestígio das tropas portuguesas e do seu chefe, D. Afonso Henriques, e tal o
desânimo que se apoderou dos leoneses - sobretudo com a detenção de quatro prisioneiros
de guerra de grande nomeada -, que o próprio Imperador Afonso VII, através do arcebispo
de Braga, pediu tréguas aos portugueses, não fosse a guerrilha crescente desembocar numa
grande batalha geral, que cada vez mais “se tornava inevitável”.
Notas: Alexandre Herculano situou esta nova campanha da Galiza nos fins de 1139 ou, o
que nos parece mais de crer, nos princípios do ano seguinte. Porém, os trabalhos de A.
Botelho da Costa Veiga demonstram que a campanha começou em Agosto de 1140 e só
terminou, com o armistício de Valdevez, em Setembro de 1141. Os “dois primos falaram
amigavelmente um com o outro” e ajustou-se um cessar-fogo (como hoje lhe
chamaríamos), “por alguns anos”, até que «depois, com mais sossego, se pudesse assentar
uma paz definitiva e duradoira» - a qual viria a acordar-se, dois anos mais tarde, em
Zamora.
A táctica agressiva dera resultado: foi a guerra que conduziu à paz e ao reconhecimento
diplomático pretendido por Afonso Henriques.
Não se pense, porém, que os dois anos que medearam entre Valdevez e Zamora foram de
merecido descanso para o Rei de Portugal.
É que o seu grande adversário muçulmano, Ismar, governador de Santarém, tendo sabido
das dificuldades militares da primeira fase da campanha da Galiza (1140), voltou a atacar
em força o castelo de Leiria, matou parte da população, prendeu o alcaide português, D.
Paio Guterres, e, prosseguindo na incursão para a Beira interior, tomou e saqueou
Trancoso, hoje pertencente ao distrito da Guarda.
Isto obrigou D. Afonso Henriques a descer até Trancoso, atravessando o rio Douro em
Lamego, e a dar batalha aos mouros, que em dois recontros seguidos desbaratou por
completo, em fins de 1141.
O Rei português não ficou satisfeito com esta excessiva ousadia dos muçulmanos, e decidiu
puni-los com maior ousadia a Sul: em 1142 tentou conquistar Lisboa, com a ajuda de uma
armada francesa que, a caminho da Terra Santa, fundeara no porto de Gaia.
Mas a tentativa falhou, porque as forças sob comando português não eram suficientes, o
planeamento fora precipitado, e Lisboa mostrou ser um lugar forte e bem defendido».
Nota: Quanto à data desta primeira tentativa de conquista de Lisboa, que Herculano punha
em 1140, parece hoje líquido que foi em 1142.
A situação familiar de D. Afonso Henriques sofrera entretanto uma alteração: a paixão
fervorosa por Flâmula Gomes levara ao nascimento de um segundo filho, também varão,
que teve o nome singelo de D. Afonso.
O Rei cada vez mais desejava legalizar a situação, casando com a sua amada. E, de facto,
alguns autores (sem confirmação documental) chegam a falar de um casamento entre os
dois, que posteriormente teria sido anulado.
Mas a Igreja deve ter manifestado forte oposição, dada a natureza ilegítima (e até
incestuosa, duplamente incestuosa, como vimos) das relações maritais entre a família real
portuguesa e a família Peres de Trava. Não é de excluir, tão-pouco, que o alto clero e a
nobreza - convictos adversários da união galaico-portuguesa - vissem como potencialmente
perigoso, e politicamente incorrecto, o casamento católico solene entre o Rei português e
uma filha dilecta da mais poderosa família galega, muito ligada à nossa corte, e com
provadas ambições hegemónicas sobre Portugal.
Por este lado, portanto, os projectos pessoais de D. Afonso Henriques não avançavam. Mas
o projecto político, esse, ia de vento em popa: como afirma Alexandre Herculano, o infante
concebera «o pensamento de fundar um reino independente no Oeste da Península», e o Rei
estava agora em condições de o concretizar - tinha o apoio político e militar dos barões
portucalenses, do povo, da Igreja, e tinha uma forte capacidade de liderança e um ânimo
determinado na prossecução dos seus fins. Alguém escreveu que o czar Nicolau II, da
Rússia, era um monarca «sem paixão e sem projecto»: o contrário se poderá dizer de D.
Afonso Henriques. Ele era, verdadeiramente, um rei com paixão e com projecto. Zamora
foi o seu próximo passo.
A paz que ficara prometida, nas suas linhas gerais, em Valdevez, em Setembro de 114 1,
veio a ser formalmente negociada e concluída em Zamora - cidade leonesa, próxima de
Bragança em 4 e 5 de Outubro de 1143.
Em que circunstâncias?
Naquela época, realizara-se um concílio provincial dos bispos hispânicos em Valladolid,
sob a presidência do cardeal romano Guido de Vico, legado do Papa Inocêncio II.
Tanto ele como o Imperador de Leão e o Rei de Portugal se dirigiram então a Zamora, que
fica a escassos 30 quilómetros de Valladolid, para negociarem a paz definitiva.
Guido de Vico assistiu à conferência, como medianeiro, e ela saldou-se por um acordo
amigável concluído entre as duas partes, que para sempre prometeram reciprocamente paz e
concórdia.
Não chegou até nós nenhum documento que reproduza o texto de algum acordo celebrado
ou que contenha a acta das reuniões. Mas conhecem-se documentos pelos quais se fica a
saber que, por um lado, o Imperador de Leão reconheceu a D. Afonso Henriques o título de
Rei e que, por outro lado, este recebeu daquele o senhorio de Astorga - que já fora de seu
pai -, considerando-se por esse facto vassalo do Imperador.
Segundo Alexandre Herculano, além desta dependência particular, relativa ao senhorio de
Astorga, o Rei de Portugal ficou também numa espécie de dependência política de Afonso
VII, o Imperador das Espanhas, ou de toda a Espanha, como ele se intitulava nos seus
diplomas».
Qual o significado político da Conferência de Zamora? Terá ela constituído o momento
decisivo da independência de Portugal?
Alexandre Herculano pensa que sim. Para ele, «a separação de Portugal era, enfim, um
facto materialmente consumado e completo, fosse qual fosse a dependência nominal em
que o seu príncipe ficasse do imperador». No entanto, Herculano reconhece que «a
concessão de Astorga, como senhorio dependente em tudo da coroa, era talvez um laço
armado à ambição de Afonso Henriques. Por esse meio, os caracteres de rei de Portugal e
de vassalo de Leão, acumulados no mesmo indivíduo, tornavam-se mais evidentes».
Na esteira de Herculano, outros historiadores mais recentes seguem idêntica opinião:
António Ennes,’ Alfredo Pimenta, Orlando Ribeiro e Veríssimo Serrão.
Salvo o devido respeito, não concordo com esta interpretação. De facto, se o objectivo da
Conferência de Zamora era obter a paz, como se pode saltar daí para concluir que ela teve
como resultado a independência de Portugal?
Que a parte portuguesa o desejasse, é fácil de compreender: mas como podia o Imperador
de toda a Espanha aceitar, de boa mente, deixar de o ser, desanexando do seu império
Portugal, um dos maiores territórios que o compunham?
A independência de Portugal era do interesse de D. Afonso Henriques, mas não era do
interesse de Afonso VII: para este, era essencial que se continuasse a manter o vínculo de
vassalagem do seu primo para com ele, para que ele próprio pudesse continuar a ser
Imperador de toda a Espanha.
A habilidade de Afonso VII esteve em dar alguma coisa de importante a D. Afonso
Henriques - o reconhecimento do título de Rei de Portugal -, sem todavia lhe dar tudo o que
ele queria - a independência pura e simples -, antes mantendo-o na condição de vassalo da
coroa leonesa, através da tenência de Astorga.
Ora, a verdade é que não só a subordinação através de Astorga impedia a independência de
Portugal, mas também o reconhecimento do título de rei não equivalia ao reconhecimento
da independência do país.
A dependência resultante do senhorio de Astorga afectava a autonomia de Portugal: porque
ser vassalo obrigava a socorrer o suserano com forças militares, sempre que necessário, e
essas forças - dada a pequenês de Astorga - só podia o rei português recrutá-las em
Portugal. Era, pois, com o exército português que D. Afonso Henriques respondia perante
Afonso VII pelos seus deveres de senhor de Astorga: mantinha-se, assim, o «fio que o
prendia ao senhor de toda a Espanha».
Por outro lado, o reconhecimento do título de rei não era equivalente ao reconhecimento da
independência de Portugal, pois - como vimos - «rei» e «reino» não são sinónimos de
independência política.
Na prática, um imperador só o era verdadeiramente se tivesse na sua dependência, como
vassalos, vários reis: se dele só dependessem condes ou duques, não era um imperador, mas
um rei.
Ora, Afonso VII era realmente, em 1143, suserano de dois reis - os reis de Navarra e de
Aragão. Não custa a crer, portanto, que para ele fosse aceitável - ou até mesmo desejável -
passar a ter mais um rei na sua alçada. Reconhecer ao conde de Portugal o título de rei não
era nada de absurdo ou de excessivo: era uma solução aceitável. E tinha precedentes na
monarquia leonesa.
Numa palavra: não me parece possível pretender extrair do reconhecimento do título de rei
a D. Afonso Henriques, obtido em Zamora em 1143, o significado de um reconhecimento
(explícito ou implícito) da independência de Portugal. No contexto peninsular da época, e
ponderados todos os interesses em jogo, o reconhecimento do título de rei ao chefe do
Condado Portucalense só fazia sentido dentro do quadro do império hispânico, e com
expressa submissão ao respectivo imperador.
D. Afonso Henriques passava, pois, a ser considerado Rei de Portugal - mas Portugal, tal
como Navarra e Aragão, continuava a ser um território incorporado no império leonês, e o
seu rei continuava vassalo do Imperador.
Sendo assim, a Conferência de Zamora não foi uma grande vitória diplomática de D.
Afonso Henriques.
Este obteve, é certo, o reconhecimento do título de Rei de Portugal; mas não alcançou o seu
objectivo principal, que era a independência completa do reino.
Pelo contrário, foi maior o êxito de Afonso VII: sem ceder um milímetro na questão da
vassalagem - e portanto na dependência política de Portugal face a Leão -, só teve de
reconhecer ao primo o título de rei, o que era também do seu interesse, pois lhe reforçava a
qualidade de Imperador de toda a Espanha.
Tal como no cerco de Guimarães e no pacto de Tui, Zamora não foi, assim, um grande
êxito para D. Afonso Henriques. Talvez tenha sido mesmo uma certa desilusão: pela
terceira vez consecutiva, em cerca de 15 anos, o chefe dos portugueses não conseguia
livrar-se da supremacia feudal do Imperador de Leão.
Foi aqui, sem dúvida, que D. Afonso Henriques compreendeu que a política de stop and go
até aí seguida para com o seu primo Afonso VII (guerrilha - acordo de paz - guerrilha -
acordo de paz - guerrilha) não levaria a nada. Por duas razões: Primeiro, porque Portugal
não tinha força militar suficiente para impor uma derrota global a Leão; e segundo, porque
Afonso VII : Não podia nem queria reconhecer a independência de Portugal, que era
contrária aos seus interesses e ao direito público leonês.
Assim, deve ter-se tornado claro para o rei português e para os seus conselheiros, à luz dos
resultados da Conferência de Zamora, que o objectivo da libertação de Portugal face à
dependência política de Leão não podia ser prosseguido no plano bilateral - quer pela
guerra, quer pela diplomacia - e só podia ser atingido num plano internacional mais vasto -
o das relações com a Santa Sé.
Como dizia Herculano, «as instituições da monarquia (leonesa) contradiziam a separação
(de Portugal): era, portanto, necessário anulá-las por uma jurisprudência superior a elas. Só
colocando o seu trono à sombra do sólio pontifício Afonso Henriqes podia torná-lo sólido e
estável».
É por isso que, neste momento, D. Afonso Henriques deixa de se interessar com Leão e vai
voltar-se em cheio para Roma. Ainda que, para tanto, com os olhos na independência
portuguesa vá ter de, em dois meses, dar o dito por não dito e violar os acordos
estabelecidos com Afonso VII.
Na verdade, a Conferência de Zamora teve lugar nos começos de Outubro de 1143: ora, a
13 de Dezembro do mesmo ano, já D. Afonso Henriques está a escrever uma carta ao Papa,
em que dá uma reviravolta de 180 graus.
Capítulo XIV
A vassalagem ao Papa

Na Idade Média era frequente solicitar-se ao Papa a chamada “liberdade romana”, que
podia ser requerida por uma diocese, por um convento, ou mesmo por um país. Segundo
Luís Gonzaga de Azevedo, a “liberdade romana” consistia em que «o mosteiro, ou diocese,
ou reino, a que era concedida, ficava isento dos poderes civis ou eclesiásticos do lugar a
que antes estava sujeito, reconhecendo para o futuro só a autoridade do romano Pontífice
ou dos seus legados, ao qual ficava pagando um censo módico».
Foi nesta figura da “liberdade romana” que os conselheiros de D. Afonso Henriques decerto
se inspiraram para tentar resolver o problema - até aí insolúvel - da independência de
Portugal. Sobretudo D. João Peculiar, o novo arcebispo de Braga - grande amigo e
conselheiro do rei português - e outros clérigos devem ter congeminado que se D. Afonso
Henriques apelasse à “liberdade romana”, e esta lhe fosse concedida, ele se libertaria para
sempre da dependência feudal do Imperador de Leão.
Tratava-se de um gesto muito ousado: porque significava negar os compromissos que
acabavam de ser assumidos para com Afonso VII. Mas D. Afonso Henriques e os seus
próximos queriam alcançar a independência. Esse era o grande objectivo. E para atingir
esse fim, não olhavam a meios.
Durou apenas dois meses a conceber e a arquitectar o plano do salto para Roma: de 5 de
Outubro, data da Conferência de Zamora, a 13 de Dezembro, data da carta enviada ao Papa.
Foi a
carta Claves regni (as chaves do reino), de 13 de Dezembro de
1143, pela qual D. Afonso Henriques - que se intitula «Afonso, por graça de Deus Rei de
Portugal» - decide enfeudar o reino de Portugal à Santa Sé, afirmando nomeadamente ao
Papa Inocêncio 11 que declara constituir a sua «terra» como censual de S. Pedro e da Santa
Igreja de Roma», com o «tributo anual de quatro onças de ouro», censo que deverão pagar
também os seus sucessores- declara-se verdadeiro soldado de S. Pedro e do Pontífice
Romano», que toma como seu «padroeiro e advogado»- e, finalmente, solicita para si e para
a sua terra «a defesa e auxílio da Sé Apostólica», em tudo o que respeite à «dignidade e
honra» dessa terra, afirmando que pretende nunca mais ser «obrigado a admitir nela o poder
de qualquer senhorio eclesiástico ou secular, senão o da Santa Sé e dos seus legados».
A carta é subscrita por D. Afonso Henriques, Rei dOs Portugueses, e confirmada por D.
João Peculiar, arcebispo de Braga, D. Bernardo, bispo de Coimbra, e D. Pedro, bispo do
Porto.
Descontando as fórmulas puramente religiosas e notariais, verifica-se que esta carta contém
três elementos essenciais:
- A prestação de vassalagem ao Papa;
- A promessa de pagamento de um certo tributo anual em ouro;
- O pedido de protecção directa da Santa Sé, especialmente para não ter de admitir mais, na
terra portuguesa, o poder de qualquer senhorio «eclesiástico ou secular».
É no terceiro elemento que consiste a mudança radical de política, por parte de D. Afonso
Henriques, em relação à monarquia leonesa. Na verdade, o Rei de Portugal podia ter-se
constituído vassalo da Santa Sé por meras razões de carácter religioso ou de política geral,
sem pôr em causa a sua dependência vassálica para com o Imperador de Leão.
Mas não: é precisamente essa dependência que ele, com a Claves regni, pretende quebrar.
De facto, o que o nosso monarca afirma ao Papa é que pretende, em troca da sua
vassalagem a S. Pedro, a protecção da dignidade e honra» da terra portuguesa e o apoio da
Sé Apostólica para que ele nunca mais seja «obrigado a admitir nela o poder de qualquer
senhorio eclesiástico ou secular».
Não admitir mais, na terra portuguesa, qualquer senhorio secular - o que é ? É não admitir
mais a suserania feudal do Imperador de Leão; é trocar a vassalagem (temporal) ao
Imperador Afonso VII pela vassalagem (espiritual) ao Papa.
Deste modo, quando D. Afonso Henriques, em contrapartida da vassalagem prestada a
Roma, solicita a protecção pontifícia contra o «poder de qualquer senhorio secular» - e
acentua mesmo que pretende «nunca ser obrigado a admitir», sobre Portugal, qualquer
forma de «senhorio secular» -, ele está, pura e simplesmente, a declarar a sua intenção de se
desligar do vínculo vassálico que o subordina a Afonso VII de Leão e de se colocar,
mediante a subordinação directa e exclusiva a Roma, em plena igualdade com o Imperador
de Leão e com os demais poderes soberanos do mundo.
Ou seja: D. Afonso Henriques declara, na Claves regni, a sua vontade de, com o apoio do
Papa, se tornar independente.
É este, em minha opinião, o significado jurídico e político da carta de D. Afonso Henriques
ao Papa: trata-se do que modernamente se designa por declaração unilateral de
independência. «Unilateral» - no sentido de «não acordada» ou «não pactuada» com
Afonso VII de Leão.
É esta intenção de ruptura definitiva e total do Rei português com o Imperador de Leão -
em clara e frontal violação dos acordos firmados na Conferência de Zamora - que está
nitidamente contida na carta Claves regni. É, aliás, nesse preciso sentido que esta carta vai
ser interpretada na época, quer pela Santa Sé, quer por Afonso VII. O próprio Alexandre
Herculano reconhece que, com tal atitude, «Afonso Henriques, apenas assentada a paz de
Zamora, tratou de iludir as consequências dela».
Concluo, pois, que o momento decisivo da independência de Portugal foi o do acto de
vassalagem ao Papa, através da Claves regni, em 13 de Dezembro de 1143.
Não foi moralmente correcto, decerto, violar de uma forma tão frontal e flagrante os
acordos celebrados com Afonso VII em Zamora. Mas todas as declarações unilaterais de
independência são rupturas com a anterior potência administradora: só no caso da História
de Portugal, pense-se no Brasil, na Guiné, ou em Angola. A ruptura que D. Afonso
Henriques protagonizou no século xii também o foi.
Vejamos agora que reacções provocou esse gesto, da parte da Santa Sé e do Imperador de
Leão.
Do lado de Roma, a reacção não se fez esperar. Apesar das mortes seguidas dos Papas
Inocêncio II e Celestino II, Lúcio II respondeu ao monarca português em 1 de Maio de
1144, através da carta Devotíonem tuam.
Uma parte desta carta não é, formalmente, favorável às pretensões de D. Afonso Henriques:
em vez de o tratar por «rei», trata-o apenas por «ilustre duque portucalense»; chama a
Portugal «terra», e não «reino»; não fala em independência, nem promete expressamente a
protecção requerida contra «o poder de qualquer senhorio secular».
Mas a outra parte é bastante favorável: considera D. Afonso Henriques como ovelha que
Cristo recomendou à guarda de Pedro, por se dedicar à luta contra os pagãos; aceita a
vassalagem prestada à Santa Sé e o tributo anual em ouro prometido ao Pontífice romano; e
exprime o voto de que D. Afonso Henriques e os seus sucessores permaneçam sempre
«defendidos do assalto dos inimigos visíveis e invisíveis» e protegidos por S. Pedro «tanto
nas almas como nos corpos».
Como interpretar esta carta do Papa Lúcio II? Para uns, como Carl Erdmann, ela não tem
qualquer valor político, pois não responde positivamente a nenhum dos pedidos feitos por
D. Afonso Henriques.
Para outros, como Luís Gonzaga de Azevedo, ela constitui uma enorme vitória diplomática,
que contém uma aceitação quase completa das pretensões do Rei de Portugal.
Por mim, acho que nem oito nem oitenta: Lúcio II não concedeu tudo o que lhe fora pedido,
mas também não se colocou na posição oposta de nada conceder.
Com efeito, não é possível negar que a Devotionem tuam não reconhece a D.Afonso
Henriques o título de rei - que no ano anterior já lhe fora reconhecido em Zamora por
Afonso VII -, nem chama reino a Portugal, nem aceita expressamente os vários pedidos
feitos por D. Afonso Henriques ao Papa.
Mas, por outro lado, seria desadequado ignorar que Lúcio II aceita a vassalagem de D.
Afonso Henriques e, em troca, promete-lhe a protecção especial de S. Pedro - não apenas
nos assuntos espirituais («protecção das almas») mas também nos temporais «(protecção
dos corpos»), e não só contra as tentações do pecado «(defesa dos inimigos invisíveis»)
mas também contra os perigos da vida política e militar («defesa dos inimigos visíveis»).
É, pois, razoável concluir que a Devotíonem tuam não constitui a derrota humilhante de D.
Afonso Henriques pretendida por Erdmann, embora tão-pouco represente a vitória
retumbante reivindicada por Gonzaga de Azevedo.
O ponto essencial parece-me ser o seguinte. Da carta de Lúcio II resulta claramente que a
vassalagem prestada pelo Rei de Portugal ao Papa foi aceite. E o sinal visível, material,
tangível, dessa vassalagem - o tributo anual em ouro - também foi aceite.
De modo que temos de concluir que, se o Papa aceitou para si os direitos decorrentes da
vassalagem, também aceitou os respectivos deveres.
Seria contrário à moral e à justiça que Roma aceitasse os benefícios que lhe eram
oferecidos e, ao mesmo tempo, recusasse os correspondentes encargos. Alguém de boa-fé
pode pensar que o Papa quisesse receber o ouro mas negar a protecção que ele caucionava?
Portanto, temos de chegar à conclusão inevitável de que, ao aceitar a vassalagem a S. Pedro
e o tributo em ouro ao Sumo Pontífice, Roma aceitou também as pretensões correlativas
formuladas por D. Afonso Henriques.
Fê-lo implicitamente, por óbvias cautelas diplomáticas, mas fê-lo sem qualquer dúvida.
Roma aceitou, pois, o dever de protecção contra a interferência em Portugal de qualquer
poder temporal alheio. Leia-se: contra a interferência do Imperador de Leão. Roma aceitou,
por conseguinte, ainda que implicitamente, a independência de Portugal face ao reino de
Leão.
Declarada unilateralmente em Dezembro de 1143, e reconhecida implicitamente em Maio
de 1144, é deste período que data, quanto a mim, sem margem para dúvidas, a
independência de Portugal.
A melhor prova de que a independência de Portugal não se deu em Zamora, em 114 3, mas
no enfeudamento de Portugal ao Papa, em 1143-44, está nos protestos vigorosos que
Afonso VII de Leão apresentou em Roma contra a carta Devotionem tuam, de Lúcio 11,
logo que teve conhecimento dela - o que só terá sucedido por volta de 114 7 -48.
É fácil de perceber que, se em Zamora tivesse sido reconhecida a independência de
Portugal, Afonso VII não teria nada que se queixar por o Papa a ter reconhecido também.
Assim como não é difícil compreender que, se a Devotionem tuam não concedesse mais a
Portugal do que Afonso VII estava disposto a conceder, ele não teria tão-pouco quaisquer
motivos para protestar.
Que protesto enviou Afonso VII a Roma? Foi, simultaneamente, um protesto político e
eclesiástico, como nos elucida Alexandre Herculano: no plano político, «queixava-se o
Imperador de que o Pontífice lhe quisesse diminuir o senhorio e a dignidade, e quebrar os
foros da monarquia, e de que tivesse aceitado algumas coisas de Afonso Henriques e
concedido outras que este pretendera, de modo que os direitos da coroa leonesa eram
lesados, ou antes destruídos, com uma injustiça não transitória, mas perpétua» (referência à
«aceitação do censo» em ouro e às «promessas de protecção contra quem pretendesse
dominar em Portugal»); no plano eclesiástico, «queixava-se também de que o arcebispo de
Braga não reconhecesse a primazia de Toledo».
Quem respondeu a Afonso VII já não foi Lúcio II, mas sim Eugénio III, que lhe sucedera. E
escreveu-lhe uma carta, que é caracterizada pela «ambiguidade» e «astúcia» na parte
política, e que dá razão com toda a clareza a Afonso VII na parte eclesiástica.
O Imperador de Leão não voltou a reagir. Mas, com o tempo, percebeu muito bem que a
causa estava perdida: o triunfo diplomático junto do Pontífice romano não fora dele, fora de
D. Afonso Henriques. A “liberdade romana” fora concedida a Portugal: e isso «destruíra os
direitos da coroa leonesa», de uma forma «não transitória, mas perpétua». Afonso VII tinha
entendido muito bem, sem sombra de ilusão, o verdadeiro alcance do enfeudamento de
Portugal à Santa Sé, e da respectiva aceitação por esta.
Em face das circunstâncias, Afonso VII resignou-se diante do facto consumado da
«separação de Portugal da monarquia leonesa: ao menos não nos restam monumentos
[documentos] de nenhuma outra tentativa do Imperador para recobrar a mínima autoridade
directa nesta parte da Espanha [isto é, em Portugal]».
Merece uma palavra de respeito e admiração este rei leonês que, perante a força, a
persistência e a lucidez do separatismo de Afonso Henriques - aliás, seu primo direito -, foi
cedendo aos poucos e acabou por aceitar os factos consumados, sem novos protestos para
Roma, nem reivindicações ou ameaças para com Portugal.
Rei «fraco» lhe chamam por isso, hoje em dia, alguns historiadores espanhóis. Rei «realista
e sensato» lhe podemos chamar nós, porque percebeu a força das realidades e não insistiu
no impossível. Este rei leonês merecia uma estátua em Portugal.
Se ainda houvesse dúvidas sobre a aceitação, por parte do ímperador ibérico, da
independência de Portugal, efectivada em 1143 -44, duas últimas provas serviriam para
desfazê-las.
A primeira consiste num facto referido por um dos maiores especialistas espanhóis sobre a
vida de Afonso VII, o professor Manuel Recuero Astray. Segundo este autor, pouco antes
da morte do Imperador (que ocorreu em 115 7), ou seja, por volta de 1156-57, os cronistas
leoneses descreviam por forma «gloriosa e laudatória» a grandeza dos domínios de Afonso
VII. Porém, em nenhuma dessas crónicas se incluía Portugal na órbita do império leonês; e,
entre os vassalos do Imperador, não figurava nunca D. Afonso Henriques. Quer dizer: antes
ainda da morte de Afonso VII, e com pleno conhecimento deste, já Portugal tinha sido
eliminado por completo das crónicas oficiais da corte de Leão.
A segunda prova - ainda mais concludente, por isso que é positiva, e não apenas negativa -
consta de um documento recentemente publicado em Espanha, e que creio estar a revelar
aqui em primeira mão: trata-se da carta régia de Afonso VI I, de 1 de Dezembro de 1156,
emitida em Palencia, na qual o Imperador leonês confirma a divisão de certas propriedades
entre o arcebispado e o cabido de Tui. Neste documento, Afonso VII, que mais uma vez se
intitula «Imperador de toda a Espanha», regula matérias que contendem com terrenos a
norte e a sul do rio Minho, dizendo que a sua decisão foi tomada “ex consensu domní
Adefonsi Regís Portugalie” («com o consentimento de D. Afonso, Rei de Portugal»). Ora,
se o Imperador de Leão, para regular uma matéria a que hoje chamaríamos de «cooperação
transfronteiriça», recolhe e regista o acordo prévio do Rei de Portugal - sem ao mesmo
tempo o citar como vassalo, o que faz em relação ao conde de Barcelona e aos reis de
Navarra e de Múrcia -, isso equivale, sem qualquer margem para dúvidas, ao
reconhecimento da soberania portuguesa e ao tratamento de D. Afonso Henriques num
plano de igualdade entre dois chefes de Estado de países independentes.
As duas provas acima apresentadas confirmam plenamente, a meu ver, que a independência
portuguesa se consumou, não em Zamora mas por efeito das cartas Claves regní e
Devotíonem tuam - e, em qualquer caso, antes da morte de Afonso VII, em 1157, e da bula
Manifestís probatum, de 1179.
Portugal era, finalmente, um Estado independente, como tal aceite pelos três poderes que
tinham sobre o assunto uma palavra a dizer - a nobreza galega, a monarquia leonesa, e a
Santa Sé.
D. Afonso Henriques, aos 35 anos de idade, podia considerar-se um homem satisfeito e
feliz: Realizara o seu primeiro grande objectivo político. Conquistara a independência de
Portugal. Mas ainda não tinha concluído todo o seu projecto.
Capítulo XV
As pretensas Cortes de Lamego
Quando o monge de Alcobaça, Frei António Brandão publicou em Lisboa, no ano de 1632
(sob o domínio filipino), a 3.ª parte da Monarquia Lusitana - a primeira «História de
Portugal» dos tempos modernos -, fez nela referência, no capítulo XIII da secção dedicada
a D. Afonso Henriques, às «cortes que el-rei celebrou em Lamego depois que o Sumo
Pontífice lhe mandou a bula da confirmação do reino», o que teria acontecido em 1143 ou
1144 - portanto, a seguir à carta Devotionem tuam, de Lúcio II, que acabámos de analisar.
Durante três séculos, os principais historiadores e os portugueses em geral mantiveram a
convicção da autenticidade das Cortes de Lamego. Porém, Alexandre Herculano impugnou
frontalmente a sua veracidade.
E, hoje em dia, a convicção generalizada é a de que a acta das Cortes de Lamego constitui
um documento forjado no período filipino, com o objectivo de sustentar a ilegitimidade do
domínio castelhano sobre Portugal.
Seja como for, parece-me interessante relatar aqui o episódio, certamente falso, no qual se
acreditou piamente em Portugal durante séculos. Mais uma das muitas lendas que
mitificaram D. Afonso Henriques e o seu reinado!
Diz o cronista que ele próprio viu o traslado das Cortes de Lamego «em um caderno que
me veio à mão e compreende outras coisas do cartório de Alcobaça».
O documento, primeiramente transcrito em latim e depois em português, começa assim: Em
nome da santa e índivídua Trindade, Padre, Fílho e Espírito Santo, que é indivisa e
inseparável. Eu, D. Afonso, fílho do conde D. Henrique e da raínha D. Teresa, neto do
grande D. Afonso, Imperador das Espanhas, que há pouco pela divina píedade fui
sublimado à dignidade de rei.
Já que Deus nos concedeu alguma quíetação, e com seu favor alcançámos vitória dos
nossos novos ínimigos, e por esta causa estamos mais aliviados, para que não suceda depois
faltar-nos o tempo, convocamos a cortes todos os que se seguem.
Vem então a lista das individualidades presentes, bem como a menção do local onde a
reunião terá tido lugar:
O arcebispo de Braga, o bispo de Víseu, o bispo do Porto, o bispo de Coimbra, o bispo de
Lamego, e as pessoas da vossa corte que se nomearão abaixo, e os procuradores da boa
gente, cada um por suas cidades, por Coímbra, Guimarães, Lamego, Víseu, Barcelos, Porto,
Trancoso, Chaves, Castelo-Real, Vouzela, Paredes Velhas, Ceia, Covilhã, Montemor,
Esgueira, Vila de Rei e, por parte do senhor rei, Lourenço Viegas, havendo também grande
multídão de monges e de clérigos.
Ajuntámo-nos em Lamego, na Igreja de Santa María de Almacave.
É curioso sublinhar que esta Igreja de Santa Maria de Almacave - genuíno exemplar do
estilo gótíco medieval - ainda hoje existe e pode ser visitada.
Segue-se a descrição dos vários assuntos que terão sido tratados nas Cortes de Lamego, que
poderemos enumerar aqui, como se fosse numa «ordem do dia» de um parlamento dos
nossos dias, em cinco pontos:
1 . Confirmação de D. Afonso Henriques como Rei de Portugal;
2. Aprovação das regras de sucessão no trono;
3. Estabelecimento das leis da nobreza;
4. Definição dos crimes mais graves e respectivas penas;
5. Deliberação sobre a independência de Portugal face ao Rei de Leão.
A pretensa acta das Cortes de Lamego começa por narrar a aclamação de D. Afonso
Henriques como Rei de Portugal nestes termos saborosos:
Sentou-se el-rei no trono real sem as insígnías reais e, levantando-se Lourenço Viegas,
procurador de el-rei, disse:
- Fez-vos ajuntar aquí el-rei D. Afonso, o qual levantastes no Campo de Ouríque, para que
vejais as letras [a carta] do Santo Padre, e digais se quereis que ele seja rei.
Disseram todos:
- Nós queremos que ele seja rei. E dísse o procurador:
- Se assim é vossa vontade, dai-lhe a insígnía real. E disseram todos:
- Demos em nome de Deus. E levantou-se o arcebispo de Braga, e tomou das mãos do
abade de Lorvão uma grande coroa de ouro cheia de pedras preciosas, que fora dos reis
godos, e a tinham dado ao mosteiro, e puseram-na na cabeça de el-rei. E o senhor rei, com a
espada nua em sua mão, com a qual entrou na batalha, dísse:
- Bendito seja Deus, que me ajudou. Com esta espada vos livrei e vencí nossos inimigos, e
vós me fizestes rei e companheiro vosso. E pois mo fizestes, façamos leis pelas quais se
governe em paz nossa terra.
Esta teria sido a confirmação de D. Afonso Henriques como Rei de Portugal. Perguntar-se-
á: para quê, se já fora aclamado em Ourique? Responde-nos o próprio Frei António
Brandão mais adiante: «Não há inconveniente algum que, tendo já os povos de Portugal
levantado por rei ao infante D. Afonso Henriques, tornassem nestas cortes a dar o seu
consentimento.» Porque em Ourique não estava todo o clero nem toda a nobreza, nem tão-
pouco havia procuradores das cidades e vilas; ao passo que em Lamego fez-se uma «eleição
do povo todo», «para maior solenidade e perpetuidade desta eleição».
Confirmado D. Afonso Henriques como Rei de Portugal, confirmada ficava também a
independência do reino face à monarquia leonesa:
E dísse o procurador de el-rei, Lourenço Viegas:
- Quereis que el-rei, nosso Senhor, vá às cortes de l-rei de Leão, ou lhe dê tributo, ou a
alguma outra pessoa, tirando ao senhor Papa que o confírmou no reino? E todos se
levantaram e, tendo as espadas nuas postas em pé, disseram:
- Nós somos livres, nosso rei é livre, nossas mãos nos libertaram, e o senhor que tal
consentír, morra; e se for rei, não reine, mas perca o senhorío.
E o senhor rei se levantou outra vez, com a coroa na cabeça e a espada nua na mão, e falou
a todos:
- Vós sabeis muito bem quantas batalhas tenho feito pela vossa liberdade; sois disto boas
testemunhas, e o é também meu braço e espada. Se alguém tal coisa consentir, morra pelo
mesmo caso, e se for filho meu ou neto, não reine.
E disseram todos:
- Boa palavra, morra El-rei, se for tal que consínta em dominio alheio, não reine.
E el-rei outra vez:
- Assim se faça.
Eis os dois primeiros pontos tratados na tal acta das Cortes de Lamego: a confirmação da
aclamação de D. Afonso Henriques como Rei de Portugal, e a resolução de manter a
independência do reino, nomeadamente em face do Imperador de Leão.
O outro aspecto que teria sido tratado com desenvolvimento nas Cortes de Lamego era o da
aprovação das regras de sucessão no trono. Foram aprovadas cinco regras fundamentais: a
regra da sucessão de pais a filhos; a regra da sucessão dos irmãos; a sujeição a confirmação
pelas Cortes dos filhos dos irmãos; a possibilidade de sucessão das filhas, não havendo
filhos varões, e, enfim, a regra de as filhas mais velhas não casarem senão com portugueses
e de que, se casassem com príncipes estrangeiros, não herdariam o trono - «porque nunca
queremos que o nosso reino saia fora das mãos dos portugueses, que com seu valor nos
fizeram Rei sem ajuda alheia, mostrando nisto sua fortaleza e derramando seu sangue».
Como disse logo de início, esta foi a regra das Cortes de Lamego que fez desconfiar
Herculano e os nossos historiadores mais recentes, por a julgarem forjada com o intuito de
excluir a legitimidade dos Filipes como reis de Portugal. Na verdade, Filipe 11 foi
aclamado nas Cortes de Tomar, em 1581, com fundamento no facto de ser filho de D.
Isabel de Portugal (casada com Carlos V), a qual era filha do nosso rei D. Manuel I.
Há, de facto, no documento várias passagens que dificilmente poderiam ter sido escritas no
século XII. E o próprio António Brandão formula as suas dúvidas sobre a autenticidade do
documento, e só o publica sob caução.
É, no entanto, muito curioso que toda a gente tenha acreditado na autenticidade das Cortes
de Lamego durante pelo menos três séculos; e, a seguir à Restauração, as regras das Cortes
de Lamego foram mesmo consideradas como leis fundamentais do reino.
A melhor prova de que as Cortes de Lamego foram durante muito tempo tidas por
autênticas e importantes para os destinos de Portugal está em que, aquando da proclamação
da Constituição liberal de 1822, em Lisboa, o juiz do povo - querendo evocar o passado e
lançar a ideia de um «começar de novo» - declarou da varanda para a rua, no meio de
grande exaltação:
- Vivam as Cortes de Lamego!
Capítulo XVI
O casamento com D. Mafalda de Sabóia

Como vimos, desde 1138, pelo menos, que D. Afonso Henriques tinha encontrado a grande
paixão da sua vida - a jovem e bonita fidalga galega Flâmula Gomes, da poderosa família
dos Peres de Trava.
Dela tinha já tido um primeiro filho, em 1139, D. Fernando Afonso. Dela veio a ter, pouco
depois, um segundo filho, D. Afonso. Ambos viriam a dar que falar quando adultos.
Com ela terá querido, empenhadamente, casar. Seria um casamento de amor e,
simultaneamente, uma forma de legitimar os dois filhos naturais já nascidos.
De 1139 a 1146 passaram sete anos em que o Rei português não casou, mas em que terá
tentado tudo para casar com Flâmula Gomes. Há mesmo quem diga que chegou a casar,
vendo pouco depois o seu casamento anulado pelo facto de Flâmula Gomes ser devota (Deo
vota, consagrada a Deus) e ter entretanto perdido o direito de casar, por determinação do
Concílio de Latrão de 1139.’ Não há, contudo, qualquer prova documental de um tal
casamento, nem da respectiva anulação - actos que no século xii costumavam ser sempre
bem documentados.’ Julgo, pois, que D. Afonso Henriques terá tentado casar com Flâmula
Gomes, mas que não conseguiu.
E não conseguiu porquê? Por um lado, é sabido que na Europa medieval, marcada pela
indisputada autoridade da Igreja Católica, os reis não podiam casar com as amantes, e os
filhos ilegítimos não podiam suceder-lhes na Coroa (o mesmo aconteceu com Henrique I de
Inglaterra, que reinou de 1100 a 1135). Acresce que Flâmula era devota e estava
canonicamente impedida de casar. Ora, D. Afonso Henriques prestou vassalagem ao Papa
em 1143 e precisava do apoio da Santa Sé para consolidar a sua independência face à
monarquia leonesa: tinha, pois, de se assumir como um monarca católico bem comportado.
Por outro lado já vimos que os principais conselheiros do Rei - em especial, Egas Moniz e
D. João Peculiar - consideravam altamente inconveniente para os superiores interesses de
Portugal qualquer ligação oficial entre a Coroa portuguesa e a nobreza galega. Já a rainha
D. Teresa causara os maiores problemas com a sua relação amorosa com Fernão Peres de
Trava: não seria agora admissível que D. Afonso Henriques fosse repetir o mesmo erro,
casando com uma sobrinha do grande magnata galego. Era abrir de novo uma porta, que
tanto custara a fechar, à penetração influente dos Travas - a mais poderosa família da
Galiza - na governação de Portugal. E que complicações não traria o facto de o futuro
herdeiro da Coroa portuguesa ser um neto do conde de Trava? Decididamente, a Igreja e a
alta nobreza não podiam consentir no casamento do Rei com a sua amada. Mas D. Afonso
Henriques tinha de casar. Numa monarquia hereditária, é dever fundamental do monarca
assegurar a sua descendência legítima para garantir a continuidade e independência do
reino.
É fácil imaginar as conversas dos conselheiros e amigos mais íntimos do rei: «Senhor, é
motivo da mais funda preocupação para os vossos súbditos ver que el-rei, já com 35 anos
de idade e sempre em guerras e perigos esforçados, ainda não deu um herdeiro ao trono»;
«Senhor, já conseguistes o mais difícil, que era obter o reconhecimento de vosso primo, o
Imperador Afonso VII, e de Sua Santidade o Papa, e desbaratar os mouros em Leiria e em
Ourique. Agora é preciso assegurar, pela descendência legítima, a continuação do reino de
Portugal»; «Senhor, se acaso morrerdes sem filhos legítimos, o Imperador de Leão
retomará plenos poderes sobre Portugal e todo o vosso esforço terá sido em Vão».
D. Afonso Henriques deve ter acabado relutantemente por aceder: tinha de casar, e tinha de
casar com outra mulher.
Mas com quem havia D. Afonso Henriques de casar? Ao contrário de muitos outros
exemplos na época, não foram os pais de D. Afonso que lhe arranjaram o casamento - D.
Henrique já tinha morrido há 34 anos e D. Teresa há 16. Aqui, a decisão foi do próprio Rei,
naturalmente assessorado pelos seus principais conselheiros.
Como a decisão era política, havia um objectivo fundamental a prosseguir: casar fora do
âmbito da monarquia leonesa; não escolher noiva nem na Galiza, nem no reino de Leão;
saltar por cima do Império das Espanhas, indo buscar uma aliança mais longe, além-
Pirenéus. O princípio da maior proximidade (Galiza, Leão, Castela) devia ser substituído
pelo princípio do maior distanciamento (França, Itália, Alemanha). O casamento de D.
Afonso Henriques constituiu mais um acto de independência face ao império leonês.
A escolha recaiu na Casa de Sabóia, senhora de importantes territórios, então
independentes, situados entre a França e a Itália, no eixo central da Europa.
Sabóia era nessa altura um condado autónomo - como a Borgonha, como a Flandres, como
Barcelona. Era seu chefe político Amadeu III, conde de Sabóia e Moriana, casado com a
condessa Mafalda de Albon. Curiosamente, em cinco gerações, vários Sabóias tinham
casado com a nobreza da Borgonha’ - havia, pois, laços familiares quase permanentes entre
Sabóia e Borgonha, aliás territórios vizinhos.
A princesa escolhida para casar com D. Afonso Henriques foi uma filha daquele casal,
também de nome Mafalda como a mãe. D. Mafalda de Sabóia - eis a infeliz donzela
destinada a um casamento político, de conveniência, com o Rei de Portugal.
Como se chegou, da parte de Portugal, a esta escolha? Nenhum documento no-lo revela.
Daí que os historiadores se limitem a formular algumas conjecturas.
Alexandre Herculano, bom conhecedor dos factos e situações da época, chamou a atenção
para as relações que havia entre as casas de Sabóia e de Borgonha, à qual por seu pai
pertencia D. Afonso Henriques. E não há dúvida que esta relação triangular «Portugal -
Borgonha - Sabóia» deve ter sido o pano de fundo em que se desenvolveu o processo de
escolha. Mas isso não nos diz muito sobre o modo como as coisas aconteceram.
Veríssimo Serrão dá-nos algumas pistas interessantes. Em primeiro lugar, afigura-se-lhe
que o cardeal Guido de Vico, quando esteve com D. Afonso Henriques nas pazes de
Zamora, em 1143, pode ter advogado junto do Rei português o casamento com a infanta de
Sabóia. Julga assim que Roma terá contribuído decisivamente para o matrimónio do nosso
primeiro monarca. Se nos lembrarmos de que o Rei português colocou o seu trono sob a
protecção de S. Pedro e que a Santa Sé, segundo a minha interpretação, estava já
comprometida com a independência portuguesa, não será difícil aceitar que Roma tenha
querido unir em matrimónio o monarca português com uma das mais prestigiadas famílias
da Cristandade.
Em segundo lugar, entende Veríssimo Serrão que o conde de Sabóia, que tomou parte na 2.ª
Cruzada do Oriente, podia constituir um excelente aliado para a expulsão dos mouros do
território português. Deste modo, o plano das cruzadas do Ocidente, a levar a efeito na
Península Hispânica, justificaria plenamente a aliança luso-saboiana, que poderia mesmo
ter sido promovida por D. Afonso Henriques, a fim de evitar que os cavaleiros portugueses
tivessem de participar na cruzada à Terra Santa.
Qualquer destas explicações - iniciativa de Roma ou iniciativa do Rei português - parece
verosímil. Não é de excluir também que a negociação do contrato de casamento tenha
pertencido ao arcebispo de Braga, D. João Peculiar, grande amigo e conselheiro político de
D. Afonso Henriques, que actuou na prática como verdadeiro Ministro dos Negócios
Estrangeiros de Portugal.
D. Mafalda. Mas já Tão-pouco se sabe com que idade casou era uma rapariga núbil, porque
logo um ano depois do casamento deu à luz o seu primeiro filho, D. Henrique.
Dizem as crónicas antigas que Mafalda de Sabóia foi escolhida por ser «mui formosa e
dotada de muitas bondades.
O casamento teve lugar, ao que se supõe, em Coimbra, nos princípios do ano de 1146. D.
Afonso Henriques tinha então 37 anos de idade e ia no oitavo ano do seu reinado.
Ignoram-se as festas que possa ter havido. Mas pela descrição que as crónicas fazem do
casamento de uma das filhas de D. Afonso Henriques, D. Mafalda, podemos supor que o
casamento real, embora sem grande opulência, terá sido uma ocasião festiva - com
recepção à noiva e seus acompanhantes nas vésperas, presença de numerosos prelados e
cavaleiros da corte, várias comidas reais, uma cerimónia solene na Sé e, por fim, uma
grande boda.
Quem era D. Mafalda de Sabóia? Já vimos que devia ser uma jovem em idade núbil - talvez
entre os 16 e os 20 anos -, e que era tida como formosa e prendada. Devia ser também,
como todas as princesas das casas reinantes na Europa daquele tempo, uma pessoa de
cuidada formação moral e religiosa.
Mas não tinha bom feitio. Quem sabe se pela sua originária maneira de ser, ou pelos
desgostos amorosos que o marido lhe terá causado, chegou até nós a menção do seu mau
génio, que foi ao ponto de provocar um conflito sério com o prior da Igreja de Santa Cruz,
S. Teotónio.
Cumpriu exemplarmente a função maternal que dela se esperava: deu à luz sete filhos, em
apenas 12 anos.
Mas D. Mafalda foi bastante infeliz: não só porque veio encontrar um marido que amava
outra mulher e já tinha dela dois filhos, mas também porque viu morrer o filho mais velho,
D. Henrique, com oito anos.
Não consta que D. Mafalda tenha exercido qualquer influência no marido ou na Política do
país - Ou por não ter jeito para tanto, Ou Por ser estranha ao clã galaico-português que
dominava a corte.
Com D. Afonso Henriques sempre envolvido na governação geral do reino e em grandes
batalhas - Santarém, Lisboa, Alcácer do Sal -, a rainha dedicou-se, para além da ed’ucação
dos filhos, a algumas actividades religiosas e de caridade (mosteiro da Costa, em
Guimarães, e Albergaria do Marco de Canaveses) bem como à construção de obras de
utilidade Pública (barcas de passagem, em Lamego, ponte de Barqueiros, em Mesão Frio,
ponte sobre o Tâmega).
Durante oito anos, educou o filho mais velho, D. Henrique, como herdeiro do trono. Mas a
morte deste transferiu a sucessão para o filho mais novo, D. Sancho, que só conviveu com a
mãe durante um ano, não tendo sido, por consequência, educado por ela.
À medida que ia tendo filhos, D. Mafalda foi sofrendo partos cada vez mais difíceis.
Acabou por morrer, 12 anos depois de casada, das consequências do último parto (o da
infanta D. Sancha). Encontra-se sepultada, junto do marido, na Igreja de Santa Cruz, em
Coimbra.
Capítulo XVII
Os filhos de D. Afonso Henriques

Tanto quanto se sabe, o primeiro Rei de Portugal teve sete filhos legítimos (do seu único
casamento, com D. Mafalda) e quatro filhos ilegítimos.
Os sete filhos legítimos foram os seguintes, com as datas dos respectivos nascimentos: D.
Henrique (1147), D. Urraca (1148), D. Teresa (1151), D. Mafalda (1153), D. Sancho
(1154), D. João (1156), e D. Sancha (1157).
Destes, quatro não chegaram a adultos: D. Henrique morreu com oito anos (1155), D.
Mafalda morreu com 11 ou 12 anos (depois de 1164), D. João morreu com sete anos (1163)
e D. Sancha morreu com dez anos (1167).
Nota: As datas que mencionamos no texto são extraídas do minucioso estudo de José Ariel
de Castro, intitulado Sancho e Teresa entre seus irmãos, que representa a investigação mais
recente sobre a vida dos filhos de D. Afonso Henriques.
Note-se que D. Mafalda esteve prometida em casamento a Afonso II, rei de Aragão, mas o
casamento não se realizou devido à morte dela.
Vingaram, pois, apenas três filhos: um rapaz, D. Sancho, e duas raparigas, D. Urraca e D.
Teresa.
D. Sancho nasceu no dia de S. Martinho - 11 de Novembro de 1154: por isso lhe foi posto,
inicialmente, o nome de Martinho. No Verão do ano seguinte, porém, tendo morrido o seu
irmão mais velho, Henrique, herdeiro da coroa, D. Afonso Henriques, prevendo que
Martinho viria a ser rei, resolveu dar-lhe um nome mais usual entre os monarcas leoneses:
Sancho. Durante algum tempo ainda lhe chamaram Martinho, dizendo que tinha o
«cognome» de Sancho. Mas foi com este segundo nome que ele passou à história.
D. Sancho acabou por ser o sucessor de D. Afonso Henriques, por morte deste, com o nome
de D. Sancho I, aos 38 anos (1185). Mas, muito antes de se tornar no segundo rei de
Portugal - e o primeiro a usar, depois da conquista de Silves, o título de «Rei de Portugal e
dos Algarves» -, D. Sancho foi associado pelo pai à regência efectiva do reino (1173),
quando tinha apenas 19 anos. Adiante falaremos disso.
Casou em 1174 com D. Dulce de Aragão. Embora sem a grandeza política do pai, o filho
foi um digno continuador da estratégia política e militar do Fundador, sustentando a
independência do reino e procurando prolongar a fronteira do país mais para sul, em luta
constante contra os muçulmanos.
D. Urraca, a mais velha das filhas do monarca português, casou em 1160 com o rei
Fernando II, de Leão, que tinha começado a reinarem 1157.
Deste casamento resultou um filho, que veio a ser rei de Leão e Castela, com o nome de
Afonso IX.
D. Urraca parece ter exercido uma influência benéfica e moderadora sobre o marido,
Fernando II, pois este comportou-se de forma muito decente e leal para com o sogro, D.
Afonso Henriques, quando ele ficou prisioneiro, em Badajoz, das tropas leonesas (1169).
Este casamento durou apenas 11 anos. Em 1171, o Papa procedeu à anulação do
matrimónio de D. Urraca e Fernando II, com fundamento na falta de dispensa de
parentesco. Na verdade, os dois cônjuges eram primos segundos, por as respectivas avós
serem irmãs (D. Urraca e D. Teresa).
As crónicas referem que, depois de viúva, a rainha D. Urraca foi viver para Zamora, tendo
recebido a tenência» dessa terra, que pertencera a seus avóS.
Por fim, D. Teresa foi uma grande mulher, cujo nome ficou
na história a vários títulos. Não tendo sido prometida em casamento quando criança,
cresceu e foi educada na corte. Desde cedo se tornou na filha predilecta de D. Afonso
Henriques. Rapariga muito bela, muito inteligente e cheia de qualidades, foi durante longos
anos uma grande colaboradora de seu pai, que a associou a diversas tarefas importantes.
Sobretudo depois do desastre de Badajoz, com o rei ferido, D. Teresa, já de 18 anos,
assumiu um papel preponderante na vida da corte, e foi a grande auxiliar e confidente de D.
Afonso Henriques.
D. Teresa veio a casar tarde, com 33 anos (1184), justamente um ano antes da morte de seu
pai.
Como se vê deste breve resumo, dos sete filhos legítimos que teve de D. Mafalda de
Sabóia, D. Afonso Henriques só privou de perto e prolongadamente com dois - D. Teresa e
D. Sancho. Sobretudo a partir do desastre de Badajoz (1169), estes
dois filhos foram os pilares em que o Rei inválido fez assentar a governação do país - D.
Teresa ocupou-se da corte e, porventura, da administração civil do reino; D. Sancho
ocupou-se da parte militar. Fizeram, durante 15 anos, uma dupla de sucesso.
D. Afonso Henriques teve, além destes, quatro filhos fora do casamento - filhos ilegítimos,
como então se chamavam. Eram dois rapazes e duas raparigas - D. Fernando Afonso e D.
Afonso, filhos de Flâmula Gomes, e D. Teresa Afonso e D. Urraca Afonso, filhas de Elvira
Gualtar.
As datas dos nascimentos são praticamente desconhecidas, salvo que sabemos ter o filho
mais velho nascido em 1140, como já foi dito. Mas tudo leva a crer que as coisas se
passaram assim: D. Afonso Henriques, ainda solteiro, viveu em união de facto com Flâmula
Gomes, entre 113 8 e 114 5, e dela teve dois filhos varões; depois, em 1146, casou pela
Igreja com D. Mafalda de Sabóia e dela teve sete filhos seguidos, até 1158; finalmente,
após ter ficado viúvo (com 48 anos), encontrou outra mulher de quem gostou
- Elvira Gualtar - e de quem teve duas filhas. O primeiro Rei de Portugal foi, pois, um
homem apaixonado e que viveu com três mulheres diferentes, mas não há provas de que
tenha sido promíscuo durante o casamento.
Dos quatro filhos ilegítimos de D. Afonso Henriques apenas se conhece razoavelmente a
vida do mais velho dos rapazes, D. Fernando Afonso, e da mais velha das raparigas, D.
Teresa Afonso.
D. Fernando Afonso, filho de Flâmula Gomes, viveu na corte, foi guerreiro hábil e precioso
auxiliar do pai nas batalhas travadas com os mouros, e chegou a desempenhar o alto cargo
de alferes-mor (o equivalente ao actual Chefe do Estado-Maior do Exército) - Depois,
protagonizou uma importante luta política interna no reino de Portugal (de que falaremos
mais adiante) e, já após a morte do pai, veio a ser designado para uma elevada função
internacional - a de grão-mestre da Ordem do Hospital, de São João de Jerusalém (mais
tarde denominada «Ordem de Malta»).
Regressou a Portugal durante o reinado do seu meio-irmão D. Sancho I, e morreu em
circunstâncias misteriosas.
Por seu turno, D. Teresa Afonso, filha de Elvira Gualtar, após um primeiro matrimónio,
casou em segundas núpcias com D. Fernando Martins Bravo, senhor de Bragança e de
Chaves, um dos mais poderosos magnatas do seu tempo. Não consta que D. Teresa Afonso
tenha vivido junto de seu pai ou que o tenha auxiliado no que quer que fosse.
Urraca Afonso, a mais nova das raparigas, casou com D. Pedro Afonso Viegas, neto de
Egas Moniz.
Do quadro genealógico que fica desenhado a traços largos resulta, a meu ver, uma
conclusão interessante, no plano da política externa seguida por D. Afonso Henriques.
Sabe-se como na Idade Média (e até mais tarde) os casamentos régios eram actos de
política internacional - alianças entre casas reinantes, que visavam criar ou reforçar laços
político-militares entre os respectivos países, muitas vezes como contrapeso oponível a
vizinhos incómodos ou demasiado poderosos.
Se a estratégia geral de D. Afonso Henriques tivesse sido a de aceitar a meia-vitória de
Zamora (1143), manter Portugal integrado na monarquia leonesa, e estabelecer uma aliança
militar com Afonso VII para combater conjuntamente os mouros no sul da Península
Ibérica, a política de casamentos régios teria sido bem diferente - preferindo-se,
naturalmente, a escolha de princesas leonesas, galegas e castelhanas.
Mas a estratégia geral do nosso primeiro Rei foi outra: rejeitar Zamora, assumir a
independência total perante Leão, obter para si a protecção de Roma, e enfrentar sozinho o
inimigo muçulmano no sul «português», sem qualquer aliança militar com
os reis de Leão e Castela.
Deste modo, e no contexto desta outra estratégia, a política de casamentos régios definida
por D. Afonso Henriques tinha de ser bem diferente - não podia privilegiar entendimentos
com Leão, Galiza ou Castela, antes tinha de dar preferência a alianças matrimoniais que
saltassem para fora da zona de jurisdição do Imperador Afonso VII.
Assim se explica que o próprio Rei português tenha casado com uma princesa de Sabóia- e
que quase todos os seus filhos legítimos tenham casado, ou sido prometidos em casamento,
out Of area: D. Sancho com uma princesa de Aragão, D. Teresa com o conde da Flandres,
D. Mafalda com o Rei de Aragão.
A única excepção à regra foi o casamento de D. Urraca com o Rei Fernando II de Leão.
Para explicar o facto, há que ter presentes duas circunstâncias: por um lado, que à data do
casamento (1160) já tinham nascido três filhos varões a D. Afonso Henriques e D. Mafalda,
pelo que o risco de o trono vir a ser entregue à filha mais velha era relativamente pequeno;
e, por outro lado, que na altura do casamento já tinha morrido o Imperador Afonso VII, já
se tinha desfeito o «Império de toda a Espanha», e o território imperial fora dividido em
dois reinos - o de Leão e Galiza, a cargo de Fernando II, e o de Castela, entregue a Sancho
III, motivos pelos quais já não havia tanto perigo em casar uma filha com um monarca
leonês. Pode ser até que, ao estabelecer uma aliança matrimonial com o novo Rei de Leão,
diminuído na sua autoridade e reduzido no seu território, D. Afonso Henriques visasse
manter com o filho do Imperador o acordo de paz e amizade firmado com o pai dele em
Zamora.
Seja como for, o certo é que o casamento de D. Urraca com Fernando II de Leão viria a
revelar-se providencialmente benéfico para o Rei de Portugal, pois o livrou das
consequencias potencialmente nefastas do desastre de Badajoz. A ruptura desse
matrimónio, em 1170, eliminou a excepção estratégica que o casamento de D. Urraca
constituíra.
O Portugal de D. Afonso Henriques, a partir daí, apenas comportou casamentos fora do
território leonês.
Capítulo XVIII
A conquista de Santarém

Na segunda metade do ano de 1146, D. Afonso Henriques repousa em Coimbra: é Rei de


Portugal, tem 38 anos, casou há poucos meses. A rainha conhece a sua primeira gravidez.
O nosso monarca está contente: fez as pazes com o Imperador de Leão, não tem problemas
na fronteira norte; e todas as notícias que lhe chegam da fronteira sul dão conta de uma
grande confusão e desordem no mundo árabe: um novo fundamentalismo religioso,
assumido pelos almóadas, substitui vitoriosamente os antigos e corruptos almorávidas.
É altura de lançar a grande ofensiva da Reconquista Cristã para sul de Leiria: os grandes
objectivos são três - Santarém, Lisboa e Sintra.
Lisboa é o mais importante: trata-se de uma grande cidade, de enorme população, e do
principal porto de mar da Península Ibérica. Mas Lisboa não é alcançável enquanto não for
derrubada a sua grande barreira defensiva - Santarém. É aí que estão concentradas as tropas
muçulmanas mais aguerridas, sob o comando de Ismar: de lá partem constantes incursões
contra Leiria, pondo em sério risco a própria cidade de Coimbra.
Santarém é, pois, um fruto muito apetecido. Desde logo, trata-se de uma zona fértil e rica,
segundo as crónicas:
Santarém era «a melhor vila do reino, pela nobreza e abastança do seu assento. Pois, da
parte do oriente, a vista dos homens não se pode fartar de ver a formosura dos campos mui
chãos, abastados de muito pão, e correndo por eles o grande e mui nomeado rio Tejo. Isso
mesmo a ocidente e a sul, desfalece a vísta em um ver espaçoso. E ao norte, contra os
montes, há grande abundância de vinhas e olivais. ...El-Rei chama-lhe paraíso deleitoso».
Mas não é esta a razão principal que motiva D. Afonso Henriques: o seu pensamento é
estratégico, os seus objectivos são políticos. O que mais lhe interessa é manter o poder já
conquistado, e alargar esse poder a novos territórios, progredir para sul.
Ora, acontece que Santarém é o maior obstáculo à realização desses objectivos. Porque, do
lado árabe, a velha Scalabis desempenha uma dupla função da maior importância: situada a
meio caminho entre Leiria e Lisboa, por um lado, é de lá que partem os ataques mouros
contra Leiria, e, por outro, é lá que podem ser travados todos os ataques cristãos a Lisboa.
Como escreveu um autor, «enquanto Santarém estivesse na posse dos muçulmanos, nem os
cristãos podiam aventurar-se a transpô-la para fazerem conquistas mais ao sul, nem
deixariam de partir dali forças que assaltavam terras já em posse dos portugueses», mais ao
norte.
Santarém era, pois, um pólo militar que lançava ataques para o norte, e impedia ataques
para o sul. Era simultaneamente uma mola e um tampão.
Por isso mesmo, Santarém incomodava duplamente D. Afonso Henriques: não lhe garantia
a segurança de Leiria (e portanto de Coimbra), nem lhe permitia a conquista de Lisboa. O
controlo mouro de Santarém era um alvo prioritário a abater. Mas como atacar Santarém?
Duas tácticas militares eram de excluir à partida: a táctica do cerco ao castelo e a táctica da
batalha em campo aberto. A primeira, por Santarém ser muito rica e poder resistir
indefinidamente; a segunda, por os exércitos muçulmanos concentrados em Santarém
serem superiores ao exército português.
D. Afonso Henriques reflectia nisto há anos:
El-rei «havía muito tempo que tinha grande vontade e desejos de tomar a víla de Santarém -
mas, «como quer que ele muitas vezes cuidasse em seu pensamento se a poderia tomar pela
força, ou por algum despercebimento [astúcía], aqueles a quem esta coisa comunicava
apresentavam -lhe sempre grandes dúvídas de muito perigo e receios».
O Rei de Portugal concebeu então uma terceira táctica: tomar Santarém de surpresa, pela
calada da noite, à frente de um pequeno grupo de militares, e com base num estratagema
destinado a enganar o inimigo.
A operação, levada a cabo por cerca de 120 homens,’ na noite de 14 para 15 de Março de
1147, foi um acto corajoso e bem executado, mas que em si mesmo nada teve de especial:
fizeram-se umas escadas, encostaram-nas às muralhas do castelo, os soldados subiram ao
muro, eliminaram três sentinelas, partiram por dentro os ferrolhos das portas, abriram-nas,
entraram os soldados portugueses com o Rei à frente deles, e o exército cristão realizou
uma larga carnificina» cumprindo assim as prévias instruções de D. Afonso Henriques:
Vós a nenhuma pessoa não perdoeis, nem deis a vida a homem nem mulher, nem moços
nem velhos, de qualquer idade e qualidade que sejam.
O que se afigura mais interessante e digno de nota é que D. Afonso Henriques envolveu
esta operação num manto de grande segredo, para assegurar o êxito do ataque de surpresa, e
empregou técnicas requintadas de espionagem e ludíbrio do inimigo.
Com efeito, o Rei português começou por mandar a Santarém um espião, Mem Ramires,
homem astuto, cauteloso e atraente, incumbido de examinar qual seria o sítio do castelo
mais acessível de noite e qual o atalho mais seguro para chegar ao pé dele. Depois, manteve
o seu plano secreto, só o dando a conhecer a três oficiais superiores - D. Lourenço Viegas,
D. Gonçalo de Sousa e D. Pero Pais, alferes-mor -, «mandando-lhes que o tivessem em mui
grande segredo sob pena de morte». Enfim, as tropas portuguesas saíram de Coimbra sem
conhecerem o seu destino: Então partiu El-Rei uma segunda-feira, não sabendo ninguém
para onde ia, salvo aqueles a quem o comunicara; e levaram o camínho tão revesado e
encoberto que os mouros não tiveram novas deles.Boa táctica militar, como se vê, que
qualquer general dos nossos dias adoptaria certamente.
O que já não tem a ver com o comportamento de um militar, mas sim com a atitude de um
político, foi o hábil estratagema concebido por D. Afonso Henriques para enganar os
mouros do castelo de Santarém.
Dá-se o caso de que, por aquele tempo, haviam sido estabelecidas tréguas entre as tropas
portuguesas e a guarnição de Santarém. Mandavam os usos da época que se não pudesse
atacar, havendo tréguas, sem primeiro avisar o inimigo. Então D. Afonso Henriques, na
terça-feira - segundo dia da marcha de Coimbra para Santarém - enviou um tal Martim
Mohab (provavelmente moçárabe) comunicar aos ocupantes do castelo que as tréguas
ficavam rotas por três días. Os mouros aguardaram o ataque de quarta a sexta-feira; como
ele não veio, no sábado descansaram as armas. Pois bem: D. Afonso Henriques, contra o
que se poderia esperar, atacou na noite de sábado para domingo; e tão desprevenidos
encontrou os seus inimigos que só havia duas sentinelas nos muros do castelo.
Alexandre Herculano considera que houve aqui, da parte do Rei de Portugal, uma
«perfídia». Outros dirão, por certo, que foi uma manobra inteligente e hábil, típica da arte
da guerra. Foi, de qualquer modo, uma decisão política - fazer um acordo e rompê-lo.
Assim, a tomada de Santarém não constitui apenas uma corajosa e bem executada operação
militar: foi igualmente uma astuta manobra política. O Rei de Portugal começava a
assumir-se como um hábil chefe político, tanto ou mais do que como guerreiro. -Por falar
em guerreiro corajoso, é interessante mencionar aqui que, na véspera da partida de Coimbra
para Santarém, D. Afonso Henriques foi ao mosteiro de Santa Cruz falar com o respectivo
prior, o futuro S. Teotónio. E encomendou-lhe sua alma e seu estado, assím como se
houvesse de partír deste mundo.
Quer dizer: pela primeira vez, tanto quanto sabemos, D. Afonso Henriques teve medo da
morte: era um ser humano: tinha as suas fraquezas. Mas, porque era corajoso, venceu o
medo e resolveu dar a cara.
Na véspera do combate, os seus cavaleiros também recearam pela vida do Rei, conforme
rezam as crónicas: Considerando eles entre sí a grande ousadía de El-Rei, e o muito perígo
a que se quería pôr, apartaram-se com ele, e disseram:
- Senhor, vossa pessoa não irá connosco: é preciso que seja salva vossa pessoa, e tirada de
semelhante risco, cuja perda, que Deus não permíta, seria perder-se Portugal.
El-Rei, respeitando o que assim lhe díziam com muito amor, respondeu-lhes com outro
tanto, estas palavras:
- Ó amigos, rogo a Deus que, se este ano eu tiver de viver sem vós tomardes esta vila, antes
eu desta vez nela morra.
E el-rei participou actívamente no combate, sem medo, bradando aos seus:
- Andai, matai-os a todos à espada. Que não escape nenhum!
A tomada de Santarém - que nunca mais voltou a ser ocupada pelos mouros - foi um
«acontecimento extraordinário», no dizer de Alexandre Herculano; abriu o caminho, em
linha recta, para a conquista de Lisboa; pôs em segurança Leiria e Coimbra, e aumentou a
confiança e a audácia das hostes portuguesas.
Há quem diga que o objectivo último de D. Afonso Henriques era chegar a Lisboa, e ficar
por aí, conseguindo assim «reconstituir o antigo condado que seu avô Afonso VI [de Leão]
formara em 1093, tendo por capital Santarém, condado que abrangia toda a linha do Tejo
até ao seu estuário».
É óbvio, porém, que Lisboa, sendo o objectivo imediato, não era o último: o Rei de
Portugal queria continuar à conquista do sul: queria todo o Alentejo - e quem sabe se o
Algarve. Dedicou a esse objectivo, como veremos, os 20 anos seguintes da sua vida. Era
um homem de vistas largas. Tinha um projecto global.
Capítulo XIX
A tomada de Lisboa

Após a conquista de Santarém, D. Afonso Henriques regressou a Coimbra, onde vivia há 16


anos.
Mas não foi para lá descansar. O seu espírito não tinha sossego. Era preciso tomar Lisboa
aos mouros. Isso já tinha sido tentado em 1142, mas sem êxito. Como vencer desta vez?
Era grande a tentação de repetir o esquema tão bem sucedido em Santarém. Contudo, tal
não era possível: impediam-no a grandeza da cidade e a largura do rio, a densidade da
população e os cerca de 15 mil homens armados que defendiam Lisboa.
Tão-pouco era prudente procurar atacar sozinho, e de uma assentada, a princesa do Tejo»: o
exército português, mesmo reforçado, não chegaria para tanto. Na verdade, D. Afonso
Henriques, através de uma mobilização geral, não conseguiria reunir mais de 12 a 15 mil
homens - tantos quanto os muçulmanos, estes com a vantagem enorme de possuírem o
castelo.
Restava, pois, uma terceira táctica, que se apresentou como a mais razoável: formar um
exército com o dobro do tamanho da guarnição militar de Lisboa, e pôr cerco à cidade e ao
castelo, mesmo que tal cerco tivesse de prolongar-se por vários meses.
Esta opção implicava, para o nosso Rei, duas necessidades: uma era a de reforçar o exército
regular, fazendo no norte de Portugal um apelo geral às armas - o que D. Afonso Henriques
fez, partindo logo para o Porto, após breve pausa em Coimbra.
A outra era mais difícil e complexa: arranjar 10 a 15 mil homens armados, fora do território
português, e convencê-los a vir combater o infiel libertando Lisboa, a “pérola do Ocidente”.
Não consta que D. Afonso Henriques tenha tentado pedir ajuda a seu primo, Afonso VII,
Imperador das Espanhas: fazê-lo seria o mesmo que confessar a incapacidade de lutar
sozinho contra o inimigo muçulmano e, portanto, privar de base e fundamento o próprio
conceito estratégico da independência de Portugal.
Pensando no seu pai e no seu sogro, o Rei de Portugal poderia ter concebido a ideia de
pedir auxílio aos condes de Borgonha e de Sabóia: mas estes provavelmente não teriam
capacidade de mobilizar e disponibilizar para fora dos seus territórios um tão elevado
número de homens armados como se precisava.
Não, a solução tinha de ser outra, e mais vasta: havia que recrutar milhares de homens na
grande Europa - França, Inglaterra, Alemanha, Países Baixos.
Deu-se então a feliz coincidência de o mais prestigiado monge clunicense da Europa - o
abade Bernardo de Claraval - andar desde 1145, por ordem do Papa Eugénio III ou com o
apoio dele, a pregar por toda a Europa cristã a necessidade de uma 2.ª Cruzada à Terra
Santa, tarefa em que teve o maior êxito, mobilizando dezenas de milhares de jovens
combatentes, entre os quais o Rei de França (Luís VII) e o Imperador da Alemanha
(Conrado III). Uns partiram por terra, seguindo pela Hungria e pelo Bósforo; outros
preferiram ir pelo mar, juntando-se no porto inglês de Dartmouth, de onde, passando por
Lisboa, continuariam pelo Mediterrâneo até aos lugares santos.
Naquele local do sul de Inglaterra convergiram, pois, em Maio de 1147, cerca de 13 mil
homens provenientes da Alemanha, da Flandres, da Normandia e, maioritariamente, da
própria Inglaterra.
Ora, D. Afonso Henriques mantinha contacto estreito com Bernardo de Claraval. E, ou
porque lhe tivesse feito chegar a necessidade em que estava de mais de uma dezena de
milhares de bons combatentes, ou porque o abade clunicense dela tivesse tido
conhecimento, o certo é que «S. Bernardo pôde avisar [D. Afonso Henriques], a tempo, da
vinda dos Cruzados que passavam para a Palestina».
Era um presente caído dos céus! D. Afonso Henriques escreve de imediato uma carta ao
bispo do Porto, D. Pedro de Pitões, pedindo-lhe que, «se os navios das cruzadas aportassem
ali, tratasse aquela gente o melhor possível e que, se alcançasse ajustar com os seus chefes
servirem-no na guerra, concluísse um acordo sobre isso, dando todas as seguranças
necessárias e embarcando com eles para a foz do Tejo».
O bispo assim o tentou, e conseguiu: fez-lhes um discurso em latim, que logo foi sendo
traduzido para as várias línguas, e eles aceitaram a missão espinhosa de ajudar o Rei
português a conquistar Lisboa aos mouros. Sob reserva - é claro - de chegarem a acordo
com ele, acerca do «preço» dos seus serviços.
Estavam assim reunidas todas as condições para D. Afonso Henriques montar e lançar a
maior operação militar do seu reinado - a tomada de Lisboa.
O Rei de Portugal marchou com o seu exército, do Porto para Lisboa, em meados de Junho
de 1147; os cruzados, em cerca de 200 navios, estiveram no Porto de 16 a 24 de Junho (dia
de S. João), e entraram no Tejo a 29 (dia de S. Pedro).
Começaram então as negociações entre o nosso Rei e os cruzados europeus, as quais foram
demoradas e difíceis, tendo estado várias vezes a ponto de se romperem. Mas finalmente
conclui-se um acordo, bastante «caro» para o lado português e muitíssimo vantajoso para os
Cruzados: era D. Afonso Henriques quem mais precisava de fechar o contrato, por isso foi
ele quem mais cedeu. O Rei prometeu-lhes, no fim de contas, três coisas muito valiosas -
que os bens do inimigo lhes pertenceriam; que o saque da cidade seria todo para eles; e que
aqueles que quisessem depois ficar a viver em Portugal poderiam guardar aqui as
liberdades, foros, usos e costumes dos seus países, bem como gozar de imunidade de
portagens e peagens para os seus navios e mercadorias em todos os portos e estradas de
Portugal. E teve de fazer ainda outra promessa: jurar que não retiraria as suas tropas senão
por motivo muito grave, e que não inventaria nenhum pretexto para faltar ao combinado.
Esta promessa foi uma exigência de alguns cruzados, pela desconfiança que lhes provocara
manobra idêntica aquando do primeiro cerco a Lisboa, em 1142.
Era, como se pode ver, um contrato leonino: imensamente vantajoso para uma das partes,
pesado e muito custoso para a outra. Mas D. Afonso Henriques estava habituado a negociar
e sabia ceder no acessório para ganhar no essencial: já fora assim em Tui e em Zamora,
seria assim também em Lisboa.
O resultado deste acordo político-financeiro-militar - verdadeiro «contrato de prestação de
serviços bélicos», com contrapartida remuneratória adequada - foi a constituição de uma
poderosa coligação militar internacional, de cariz europeu, cujo comando estratégico ficava
implicitamente a cargo do monarca português, mas com comandos operacionais atribuídos
aos chefes militares dos vários segmentos nacionais: alferes-mor dos portugueses, Fernando
Cativo; comandante do corpo inglês, Herven de Glanville; comandante do corpo alemão,
Arnulfo de Areschot; comandante do corpo flamengo, Cristiano de Gisteli; e chefes dos
piratas normandos, os irmãos Wilhelm e Radulph.
Ao todo, e para além dos 200 navios ancorados no Tejo, estava ali um poderoso exército de
25 a 30 mil homens, dos quais um pouco mais de metade (13 a 16 mil) eram portugueses, e
um pouco menos (12 a 14 mil) eram cruzados europeus.
O comandante-supremo era D. Afonso Henriques - dos 30 cavaleiros do bafordo de
Valdevez, o Rei de Portugal passava, em menos de dez anos, a chefiar 30 mil homens. Era
o momento mais alto da sua carreira.
Mas os problemas principais que teve de enfrentar não foram problemas militares.
Os problemas especificamente militares existiram, e foram resolvidos - bem resolvidos -
pelos chefes dos vários exércitos envolvidos. Cada um ocupou uma zona diferente, e cada
um lutou arduamente durante um longo cerco que durou de Junho a Outubro - quatro
meses!
Não vou aqui descrever os inúmeros episódios desse cerco e o ataque final ao castelo, que
só por si dariam um livro. Vale a pena, no entanto, chamar a atenção para as técnicas
modernas, para a época, que os Cruzados trouxeram consigo e aplicaram com êxito -
nomeadamente, as várias espécies de torres de ataque às altas muralhas do castelo, a saber:
a «torre de rodízios» dos alemães, a «torre móvel» dos anglo-normandos e a «terceira
torre», de 83 pés de altura, concebida por um italiano e manejada por ingleses e
portugueses, construída sob a directa supervisão de D. Afonso Henriques, e que se revelou
afinal como «o decisivo instrumento da vitória». Era a modernização tecnológica, trazida
pela «Europa connosco»!
Como se disse, os problemas principais que D. Afonso Henriques teve de enfrentar para a
conquista de Lisboa não foram problemas militares, mas sim problemas políticos.
Tudo começou no plano político - contactos com Bernardo de Claraval, instruções escritas
ao bispo do Porto, negociação do contrato com os Cruzados em Lisboa.
Agora, a condução superior das operações do cerco também se revelava essencialmente
política.
Foi primeiro a decisão de dar uma chance aos mouros, antes do início das hostilidades,
propondo-lhes uma «capitulação vantajosa.
Houve tréguas de parte a parte; do lado português foram parlamentários os bispos de Braga
e do Porto, juntamente com alguns capitães estrangeiros. Os árabes recusaram, dizendo:
Fazei o que puderdes; nós faremos o que for da divina vontade.
Depois, houve que resolver o problema dos abastecimentos às tropas cristãs, felizmente
facilitado por se terem ocupado logo no mês de Junho «cem mil cargas de cereais e
legumes», armazenados pelos muçulmanos.
De Julho a Setembro, sempre que o considerou oportuno - em função de combates
favoráveis aos sitiantes -, D. Afonso Henriques tomou a iniciativa, e assumiu a
responsabilidade, de propor (mais de uma vez) uma «capitulação vantajosa» aos sitiados.
Só a rejeição sistemática destas propostas do lado muçulmano lançou o Rei português para
a confrontação física final.
Também interessante é um episódio que deve ter ocorrido em Julho ou Agosto, quando os
mouros sitiados no castelo se começaram a sentir aflitos e antecipadamente derrotados:
num pequeno barco que navegava ao anoitecer, de Lisboa para Palmela, abandonado pelos
mouros quando atacados pelos cristãos, apareceu uma carta escrita em árabe, dirigida ao
governador de Évora, Abu-Mohammed, na qual os sitiados pediam desesperadamente
reforços e auxílio, sob pena de ali morrerem todos e de se perder Lisboa para o Islão.
Alguns dias mais tarde, aparece atada ao braço de um homem afogado a carta de resposta
proveniente de Abu-Mohammed: «dizia-lhes que tratassem de resgatar-se a peso de ouro,
sacrificando à salvação as riquezas. Da sua parte nada podia fazer. Tinha assentado tréguas
com Afonso Henriques, e não lhe era lícito quebrar a fé jurada acometendo-o a ele ou aos
seus aliados».
É claro que a notícia dessa carta gerou o maior entusiasmo entre os cristãos e o maior
pânico entre os muçulmanos, como bem se compreende: a defesa da Lisboa mourisca não
seria reforçada com um exército vindo do Alentejo.
Mas o curioso é observar que em pleno cerco de Lisboa, D. Afonso Henriques colheu os
frutos de uma habilíssima política de tréguas intermitentes, que ia negociando com os
principais chefes militares muçulmanos: recorde-se que, no mesmo ano de 1147, havia
tréguas ajustadas com Santarém- e o certo é que, embora o Rei português não tivesse usado
de muita lisura com os mouros de Santarém, os de Évora mantiveram-se fiéis aos acordos
firmados com D. Afonso Henriques. Este facto beneficiou-o decisivamente na conquista de
Lisboa. O político auxiliou sobremaneira o guerreiro. Era o corolário lógico de uma
inteligente e subtil cooperação amigável iniciada em 1145 com o váli de Mértola, Ibu Kasi,
que decidira aliar-se ao Rei de Portugal para se reforçar nas discórdias com os seus
adversários muçulmanos.
Sabido que faltavam forças aos sitiados de Lisboa, e sabido também que não viriam
reforços de fora, os ataques do exército cristão contra os mouros cercados em Lisboa
aumentaram em número e intensidade. Os engenhos trazidos pelos Cruzados despejavam
agora 500 pedras por hora sobre o inimigo, uma média de 5000 pedras por dia. Uma
caverna escavada por baixo de uma das muralhas do castelo, enchida de lenha e matérias
inflamáveis, provocou um enorme incêndio no fim de Setembro. Um «extenso lanço de
muro» caiu e desmantelou-se. Aí por meados de Outubro, a “terceira torre” foi encostada às
muralhas do castelo: e tudo ficou a postos para a invasão final.
Aqui, os mouros consideraram-se perdidos e pediram uma trégua de 24 horas para se poder
negociar a capitulação. D. Afonso Henriques ia ser novamente testado na sua capacidade
negocial: mal adivinhava ele, porém, que ia também ser posto à prova na sua autoridade de
comandante supremo dos exércitos cristãos.
Estava-se a 21 de Outubro. Parou o ataque do lado de fora. Foram designados para falar
com os mouros o alferes-mor português, Fernando Cativo, e o comandante inglês, Herven
de Glanville. Estes concordaram com o cessar-fogo, mas puseram duas condições - que os
muçulmanos não aproveitassem a noite para atacar os engenhos e máquinas dos cristãos, e
que como garantia dessa promessa entregassem dois reféns.
Os reféns árabes foram postos, pelos dois chefes citados, às ordens e sob a guarda do Rei de
Portugal: era o reconhecimento explícito deste como verdadeiro comandante supremo
daquela coligação de exércitos. Os Cruzados, porém, receberam isto muito mal - e, com o
argumento de que deviam ter sido eles a guardar os reféns, porque temiam uma traição do
Rei português, entraram em desordem crescente durante a noite.
Era um xeque ao Rei: a autoridade suprema de D. Afonso Henriques era posta em causa
pelos combatentes estrangeiros, nas vésperas da vitória final, e já com o inimigo de joelhos,
oferecendo a sua rendição. Tudo podia ser deitado a perder. Foi o maior desafio à sua
autoridade que D. Afonso Henriques sofreu em toda a vida. Podemos imaginar como ele se
terá sentido naquele momento - irritado com a rebeldia, preocupado com o desfecho,
incrédulo perante o incidente que assumia uma dimensão desproporcionada e absurda
perante a iminência da vitória.
O “perigo de anarquia” prolongou-se pelo dia 22, com os anglo-normandos a acusarem o
seu comandante, Herven de Glanville, com gritos de: “Morra o malvado, abaixo o traidor.”
D. Afonso Henriques manteve-se sereno e não perdeu a calma: primeiro negociou a
rendição de Lisboa, depois tratou de restabelecer a ordem no caos.
A capitulação foi negociada nestes termos: «A cidade render-se-ia ao Rei, ficando o alcaide
e um seu genro com tudo o que lhe pertencesse, e os demais habitantes só com as vitualhas
que tivessem.» Estes termos e condições eram mais vantajosos para os muçulmanos de
Lisboa do que o que ficara previsto no contrato inicial entre o Rei e os Cruzados, que
estabelecia um confisco geral.
Por isso, estes recusaram o acordo e amotinaram-se de novo, acusando D. Afonso
Henriques de «parcialidade a favor dos sarracenos».
Os agitadores eram agora sobretudo os alemães e os flamengos: e os respectivos
comandantes, Areschot e Gistell, não conseguiam discipliná-los. Em face do perigo para o
Rei e da desordem geral, as tropas portuguesas «pegavam em armas e preparavam-se para
repelir a violência».
D. Afonso Henriques não podia esperar mais. Tinham-se esgotado as possibilidades da
negociação e do consenso: chegara o momento de praticar um acto de autoridade. Era
preciso meter os Cruzados na ordem.
O Rei de Portugal assim fez: enquanto mandava preparar as tropas portuguesas para
controlarem a parte rebelde dos Cruzados, chamou os comandantes alemão e flamengo e
exigiu-lhes garantias de que os seus homens seriam de imediato disciplinados; caso
contrário - acrescentou, em tom de ameaça -, «se as coisas continuassem assim,
abandonaria o assédio [cerco], porque preferia ao senhorio de Lisboa a própria honra».
Os Cruzados sabiam bem, até pela experiência amarga de cinco anos antes, o que teria de
catastrófico uma retirada súbita e em bloco do Rei de Portugal e do seu exército: seria com
certeza a debandada geral do lado cristão, ou uma luta de morte com os mouros, em que
não haveria vencedores.
Esta solene ameaça do Rei português e a intervenção pessoal dos comandantes alemão e
flamengo surtiram o efeito desejado. A noite foi boa conselheira: na manhã do dia 23 de
Outubro, os Cruzados aceitaram o ultimato de D. Afonso Henriques
- restabeleceram a ordem e a disciplina, juraram ao rei «preito e lealdade» por todo o tempo
que estivessem em Portugal, e aceitaram o acordo feito no dia anterior com os muçulmanos
sobre as condições da capitulação de Lisboa.
Ao fim de três dias de crise, D. Afonso Henriques podia suspirar de alívio: tinha
conseguido uma grande vitória política. Restabelecera a sua autoridade. Lisboa ia ser sua.
Novo acordo foi celebrado com os chefes mouros, sobre o modo de entrada no castelo,
repartição dos despojos e direitos de saque.
Em 24 de Outubro, uma guarda avançada de 300 homens penetrou no castelo, recebeu o
dinheiro e haveres dos habitantes, e revistou as casas.
E em 25 de Outubro de 1147 precedido pelos chefes militares estrangeiros e pelos bispos
portugueses, o Rei de Portugal entrou no castelo - e na torre mais elevada colocou uma cruz
de Cristo .
Estava consumada a vitória dos cristãos sobre os muçulmanos no principal porto marítimo
da Península Ibérica. Lisboa não mais voltaria a ser dominada pelos mouros. A fronteira
meridional de Portugal, em menos de um ano, passava de Coimbra/Leiria para Lisboa.
Nos meses seguintes, caíram em poder do Rei português os castelos dos arredores de
Lisboa - Sintra, Palmela, Almada, e vários outros.
As conquistas de Santarém e de Lisboa não alargavam apenas o território português:
aumentavam - e muito - a sua riqueza.
Por outro lado, com a queda do poder militar muçulmano em Lisboa e arredores, ficava
aberto e livre o caminho para a conquista do Alentejo.
Mas não só isso: em Portugal, a autoridade de D. Afonso Henriques tornava-se superlativa;
e em Leão, na Europa em geral, e em Roma em especial, passava a respeitar-se um Rei de
Portugal cheio de prestígio.
D. Afonso Henriques provara, a si próprio e aos outros, que não era um rei qualquer, que
não era apenas um bom guerreiro e um hábil combatente: era um chefe, isto é, tinha
autoridade e tinha poder: sabia mandar e fazia-se obedecer.
Capitulo XX
O feito de Martim Moniz e a trasladação de S. Vicente
Como não podia deixar de ser, a conquista de Lisboa aos mouros também deu origem a
uma longa série de narrativas de milagres e de lendas. Uma delas diz respeito a um
guerreiro português que morreu mártir - Martim Moniz - e outra, a um santo ibérico que se
tornou padroeiro de Lisboa - S. Vicente.
Martim Moniz era um fidalgo da corte de D. Afonso Henriques, mas não pertencia à
família de Egas Moniz: era descendente, sim, de D. Osório, conde de Cabreira e Ribeira,
nobre de origem galega que veio viver para Portugal no tempo do conde D. Henrique.
Martim Moniz terá participado em todas as principais batalhas de D. Afonso Henriques -
nomeadamente, terá estado na batalha de Ourique, em 1139. Interveio activamente no cerco
e ataque à cidade de Lisboa. E terá sido no decorrer do ataque, no dia 21 de Outubro,
quando as tropas portuguesas tentavam abrir um portão e penetrar no castelo, que se passou
o seguinte episódio, segundo a Monarquia Lusitana de Frei António Brandão:
Morreu Martim Moniz à entrada da porta que conserva o seu nome, parte mais arriscada
por onde os portugueses acometeram.
Uns dizem que, tendo os nossos entrado na Cidade, e sendo rebatidos pelos mouros, que
pretendiam fechar outra vez aquela porta, pelejou com tanto valor o esforçado capítão até
que, perdendo a vida, fez do seu corpo uma ponte para os nossos passarem, e impediu aos
mouros o seu intento.
Outros querem que, sendo ferido na entrada desta porta de um golpe mortal, foi
milagrosamente seguindo e ferindo os mouros, com a cabeça meio cortada, até cair morto
na outra parte do Castelo, onde fica a Igreja do Apóstolo Santiago. De qualquer modo, se
teve sua morte por notável, e em um nícho sobre a mesma porta se mandou pôr uma cabeça
de pedra, que ainda hoje se conserva em memóría da sua honrosa lembrança e justa
remuneração devida a quem com tanta glóría ofereceu a vida pela fé e honra da pátria, na
entrada da maior cidade, no lugar de maior dificuldade.
A versão que chegou até aos nossos dias é um misto das duas acima referidas: Martim
Moniz atravessou-se numa porta do castelo para os seus companheiros passarem, o que
conseguiu, mas ficou gravemente ferido e os mouros cortaram-lhe a cabeça.
Narra a história que o próprio D. Afonso Henriques, em homenagem ao feito de Martim
Moniz, mandou esculpir na muralha o nome e o busto do herói mártir. E que em 1666 o
conde de Castelo Melhor mandou aí colocar uma inscrição.
Nem todos os historiadores aceitam a veracidade desta lenda, embora alguns a tenham
como boa. O certo é que ela se mantém viva na memória do povo de Lisboa, que assinalou
no Castelo de S. Jorge a porta de Martim Moniz e atribuiu o nome de «Praça de Martim
Moniz» a um lugar central da Baixa lisboeta.
Nota: O Conde de Castelo Melhor governou o reino, como escrivão da puridade de D.
Afonso VI, entre 1662 e 1667.
O caso da lenda de S. Vicente é distinto. Durante o cerco de Lisboa, D. Afonso Henriques
mandou erguer duas capelas nos cemitérios dos dois acampamentos dos cruzados - as quais,
ampliadas e reconstruídas mais tarde, originaram o Mosteiro de S. Vicente de Fora, na parte
oriental da cidade, e a Igreja dos Mártires, na parte ocidental.
Após a vitória - e continuando, na paz, a servir-se do auxílio dos europeus -, o Rei de
Portugal nomeou para bispo de Lisboa D. Gilberto, um inglês «de muito boa vida e
costumes»,’ e para prior de S. Vicente um flamengo, D. Gualtar, escolhido entre «Clérigos
bons e honestos». O Rei dotou S. Vicente de Fora «de muitas possessões». Qual era o seu
objectivo?
Segundo uma explicação que nos parece bastante plausível, D. Afonso Henriques, depois
de Ourique e de Zamora, precisava de legitimar religiosamente o seu poder face ao
Imperador Afonso VII de Leão. Ora, este tinha consigo um grande santo da cristandade,
motivador de imensas peregrinações europeias - Santiago de Compostela. Portanto, o Rei
de Portugal precisava de outro grande santo venerado pela Igreja Católica. E pensou em S.
Vicente, que nascera em Huesca, no tempo dos romanos, e morrera mártir em 304 d. C..
Uma tradição muito antiga diz-nos que, após a invasão da Península Ibérica pelos
muçulmanos, o corpo do santo foi trasladado, em grande segredo, para uma pequena igreja
no Promontório Sacrossanto da ponta de Sagres), mais tarde chamado, por isso mesmo,
cabo de S. Vicente. O corpo do santo mártir, segundo essa tradição, teria sido sempre
guardado por corvos negros, que nunca abandonaram o local.
Assim, D. Afonso Henriques terá pensado trazer as relíquias de S. Vicente para junto de si.
Fez uma primeira tentativa sem êxito - os seus homens não conseguiram encontrar as
relíquias ou, noutra versão mais saborosa, o Santo não se deixou encontrar... «por Nosso
Senhor ter ordenado que a jazida deste glorioso mártir fosse na cidade de lisboa, a qual
ainda então era de mouros».
D. Afonso Henriques terá mandado ampliar e dotado com muitos bens o Mosteiro de S.
Vicente de Fora, na mira de aí instalar um dia as sagradas relíquias.
E a verdade é que parece ter conseguido o seu intento: em
1173, «havendo 26 anos que a cidade de Lisboa era em poder dos cristãos, tomada aos
mouros», alguns homens de Lisboa foram de barco ao Algarve fazer uma nova tentativa: E
sem nenhum ímpedímento nem dificuldade chegaram e desembarcaram no devido lugar,
onde, postos em oração, pediram com muita vontade a Deus que lhes mostrasse onde jazia
o corpo daquele seu glorioso mártír.
Após isto, começaram a cavar, e aprouve a Nosso Senhor que o achassem; e deram muitas
graças e louvores, tomaram-no com muito prazer e devoção, e puseram-no dentro de uma
barca. E assím o trouxeram com muito prazer a salvamento. O corvo veio sempre na barca
com ele, e o acompanhou até Lisboa.
Desta vez, como Lisboa já era cristã, o Santo deixou-se encontrar... e veio para Lisboa. As
suas relíquias foram depositadas na capela-mor da Sé. «El-Rei mandou escrever o dia e a
hora em que o corpo deste glorioso mártir veio para Lisboa: e foi aos 20 dias de Setembro
de 1173».
D. Afonso Henriques tinha, assim, consigo um grande santo da Igreja Católica, porventura
capaz de ombrear com Santiago de Compostela. E a cidade de Lisboa ficava com um
padroeiro oficial, adoptando mais tarde como brasão municipal uma barca e dois corvos,
em memória da trasladação marítima de S. Vicente.

Capítulo XXI
A conquista do Alentejo

Passaram quatro anos sobre a tomada de Lisboa aos mouros.


D. Afonso Henriques descansa do esforço gigantesco, convive em Coimbra com a família e
com os amigos, toma providências sobre a administração do reino.
De fins de 1147 a 1151 não há notícia de quaisquer feitos militares ou outros de
importância significativa: sinal evidente de que estamos perante o «repouso do guerreiro».
Casado há pouco mais de um ano com D. Mafalda, é em 1147 que nasce o primeiro filho
legítimo, D. Henrique, e em 1148 a primeira filha, D. Urraca. Entretanto, ia já nos seus sete
ou oito anos o filho mais velho, Fernando Afonso, e era um pouco mais novo o segundo,
Afonso, ambos tidos de Flâmula Gomes.
Não sabemos se a relação amorosa com esta se mantém ou não, na constância do casamento
com D. Mafalda. Mas podemos presumir que, conforme o costume da época, os filhos
havidos fora do matrimónio são educados na corte juntamente com os filhos legítimos.
Os amigos e conselheiros vão mudando: Egas Moniz morreu em 1146; Fernando Peres é
agora o Dapífer curíae, principal alto funcionário; Pêro Pais, da Maia, é o novo alferes-mor
(chefe dos exércitos); o mestre Alberto é o novo chanceler-mor- e D. João Peculiar,
arcebispo de Braga, torna-se no maior amigo e principal conselheiro político do Rei.
D. Afonso Henriques, monarca admirado e respeitado dentro e fora de Portugal, ocupa-se
com algum vagar dos problemas mais importantes da adininistração pública: concede forais
a numerosos concelhos, faz doações de terras aos cruzados que o ajudaram na conquista de
Lisboa e que decidiram ficar por cá, e encarrega uns e outros de povoarem, explorarem e
defenderem as suas terras - sobretudo nos arredores de Lisboa: Atouguia, Lourinhã, Vila
Verde, Alardo, etc.
Também «as ordens de cavalaria, as catedrais, as corporaÇões monásticas foram
liberalmente dotadas nas terras novamente adquiridas»; e a igreja de S. João de Tarouca e o
mosteiro de Alcobaça foram construídos e beneficiados com privilégios.’Alcobaça veio
mesmo a ser, no dizer de Herculano, «o mais célebre
(mosteiro) de Portugal» - «a cujos monges se deveu sucessivamente a cultura de uma
extensa parte da Alta Estremadura, a qual até aí fora uma vasta solidão».
Tudo leva a crer, portanto, que com estas várias actividades, de cunho marcadamente
administrativo, D. Afonso Henriques tenha começado a interessar-se pela organização da
paz, quando estava agora liberto da guerra por uns anos, e que o tenha feito sobretudo com
vista ao desenvolvimento e fortalecimento «da nova província que incorporara nos seus
domínios» - a saber, a zona entre Leiria e Lisboa, incluindo Santarém, zona essa que se
vinha assim somar aos condados de Portucale e de Coimbra, que D. Afonso Henriques
herdara de seus pais. O território português inicial estava agora aumentado em mais de um
terço.
Mas D. Afonso Henriques não podia ainda descansar: o seu projecto político - a ideia de
um reino cristão alargado até ao sul
- chamava por ele e impunha-lhe «novos e cristãos atrevimentos».
Qual devia ser a estratégia a definir para os próximos 15 ou 20 anos?
Abandonado o sonho da Galiza, firmado robustamente o poderio dos leoneses na fronteira
leste de Portugal, tomados os pontos nevrálgicos de Santarém e Lisboa aos mouros e
principiada já, no rescaldo da conquista de Lisboa, a descida para o sul do Tejo - com a
posse de Almada, Palmela e Sesimbra -, o caminho dali em diante só podia ser um: nem
para o Norte, nem para o Leste, mas para o Sul. Havia que conquistar o Alentejo.
Ora, no Alentejo, havia naquela altura três praças-fortes nas mãos dos muçulmanos:
Alcácer do Sal, Évora e Silves.
Alcácer era uma «forte povoação»; Évora podia ser considerada como a segunda mais
importante cidade da província de Badajoz; e Silves era o «empório das províncias do
Gharb, opulenta rival de Lisboa em riqueza, navegação e comércio».
De modo que a estratégia a definir por D. Afonso Henriques não podia dar lugar a grandes
dúvidas - havia que conquistar primeiro Alcácer, depois Évora (e Beja), e por fim Silves,
alastrando daqui para todo o Algarve.
O Rei português adoptou e seguiu essa estratégia até Beja, como vamos ver de imediato.
Saberemos mais adiante porque não foi até Silves.
O primeiro objectivo era, pois, a partir de Lisboa, conquistar Alcácer do Sal - que fica a
cerca de 100 quilómetros para sul.
Não era tarefa fácil, porque o castelo de Alcácer estava muito bem defendido.
Os portugueses, com a ajuda de cruzados ingleses, investiram uma primeira vez em 1151, e
foram rechaçados; D. Afonso Henriques ficou ferido numa perna.
O Rei volta a Coimbra e espera melhor oportunidade. Nascem as infantas D. Teresa
(1151) e D. Mafalda (1153). Em 1154 nasce o segundo filho legítimo e varão: é baptisado
com o nome de Martinho, por ter nascido no dia do santo. Mas no ano seguinte morre o
primogénito Henrique, que já tinha oito anos. É muito grande o desgosto dos pais. O Rei
percebe que Martinho poderá vir a ser o herdeiro da coroa: por isso muda-lhe o nome para
Sancho, que é um nome de linhagem real, mais apropriado dentro das tradições da
monarquia leonesa. É este filho que, de facto, lhe virá a suceder no trono com o nome de D.
Sancho I.
Em 1153, está o Rei com 48 anos, organiza-se uma segunda tentativa para conquistar
Alcácer. Novamente o monarca português apela ao auxílio de cruzados, desta vez
capitaneados por Thierry, conde da Flandres, que se dirigia para a Síria. Mas a coligação
luso-flamenga é derrotada pelos sarracenos.
Outros acontecimentos vêm somar-se, neste difícil ano de 1157, à raiva sentida por D.
Afonso Henriques com a segunda derrota de Alcácer.
Em 21 de Agosto de 1157, morre o Imperador de Leão, Afonso VII, primo e
durante longo tempo rival de D. Afonso Henriques - mas de quem este
conseguira obter o reconhecimento da sua realeza e, um pouco mais tarde,
a aceitação prática da independência de Portugal. A sua morte, seguida da
partilha do território imperial pelos dois filhos - Sancho III, que ficou
rei de Castela, e Fernando II, que se tornou rei de Leão e da Galiza
foi de início favorável à posição autónoma do monarca português, já que
deixou de haver um Imperador de toda a Espanha» e passaram a existir, em
completa igualdade, vários reis peninsulares, nenhum dos quais podia
considerar-se, à partida, em posição de supremacia face aos demais. Mas
D. Afonso Henriques não podia ter a certeza - pelo menos, não tinha
garantias - de que o seu mais próximo vizinho, Fernando II, senhor da
Galiza e de Leão, dominando as fronteiras norte e leste de Portugal, não
viesse a causar-lhe problemas.
Instalou-se, assim, no espírito do Rei português, uma dúvida, uma
incerteza: qual seria a política do novo rei leonês - seu primo segundo -
para com Portugal?
A dúvida rapidamente se transformou em fundado receio quando, poucos
meses volvidos, os dois filhos de Afonso VII ajustam entre si o «tratado
de Sahagun (22 de Maio de 1158), nos termos do qual se obrigam, por um
lado, a não celebrar qualquer acordo separado com o Rei de Portugal sem
mútuo assentimento e prevêem, por outro lado, a conquista conjunta do
território português e a partilha deste pelos dois irmãos.
Era uma ameaça directa e frontal de Castela e Leão contra Portugal: os
filhos estavam dispostos a vingar a compreensão e as cedências do pai. D.
Afonso Henriques deve ter percebido que, a partir daquele momento, o
perigo cristão «(espanhol») era mais forte do que o perigo muçulmano.
Deveria ele desistir da conquista do Alentejo e voltar à ofensiva contra
a Galiza e contra os territórios da fronteira leste? A hipótese começou a
estimular o seu espírito guerreiro e a sua intuição estratégica.
Antes, porém, de tomar qualquer decisão, D. Afonso Henriques foi abalado,
nos finais de 1157, por um drama pessoal: em 3 de Dezembro, sua mulher, a
rainha D. Mafalda, ao dar à luz a filha D. Sancha, morre de parto. Tinha
durado apenas
11 anos o casamento de D. Afonso Henriques (de 1146 a 1157). A rainha
tinha-lhe dado sete filhos, dos quais o mais velho, Henrique, já tinha
morrido. Restavam seis, dois rapazes e quatro raparigas; um dos rapazes e
duas das raparigas haviam de morrer brevemente, ainda jovens.
Não foi um casamento feliz, o de D. Afonso Henriques e D. Mafalda: mas
assegurou a sucessão do trono e a continuidade do reino de Portugal. Na
época, era isso o que mais importava.
D. Afonso Henriques, com 49 anos de idade, chega ao Verão de 115 8 «na mó
de baixo»: morreu-lhe a mulher, sofreu duas derrotas perante os
muçulmanos em Alcácer, e tornou-se o alvo apetecido das ambições
militares e territoriais dos seus primos, os reis de Leão e de Castela.
Ultrapassado, decerto sem grande sofrimento, o luto pela morte da rainha,
o monarca opta por tentar mais uma vez a conquista de Alcácer do Sal: a
prioridade da luta contra os infiéis não é abandonada; e se a vitória lhe
sorrir, mais reforçado ficará para negociar com os primos ou, em último
caso, para os enfrentar pela força das armas.
Em Abril de 1159, lança-se pela terceira vez sobre o castelo de Alcácer.
E a sua coragem e determinação são tais que, desta feita, vai só: não
pede auxílio a estrangeiros. A luta é renhida e prolonga-se por dois
meses. Mas, como diz o ditado popular, às três tem vez. Alcácer do Sal é
conquistada em 24 de Junho de 1159, precisamente 30 anos depois da
batalha de S. Mamede, e quase 11 anos volvidos sobre a tomada de Lisboa.
Os portugueses vencem sozinhos, aí onde haviam falhado as coligações
luso-inglesa e luso-flamenga. E o monarca português é magnânimo: mais uma
vez, o político trava o militar: os mouros, depois de derrotados, não são
passados à espada, mas autorizados a partir, com suas famílias, para os
férteis terrenos do Sado.
D. Afonso Henriques fica radiante e recupera totalmente a fé na sua boa
estrela. Está aberto o caminho para o Alentejo profundo. Évora e Beja
estão à vista. E o prestígio do Rei português, já enorme pela conquista
de Lisboa, aumenta de novo significativamente por ter tomado Alcácer «sem
auxílio estranho»: nesta altura, no dizer de Alexandre Herculano, «a
reputação militar de Afonso I excedia a de todos os príncipes da Espanha
cristã, pelo brilho das vitórias e pela rapidez das conquistas».
Era preciso, agora, não deixar arrefecer os ânimos, não quebrar o ímpeto
dos portugueses, e explorar o medo que se tinha apoderado dos mouros: e,
assim, D. Afonso Henriques determinou que se avançasse de imediato para
leste e para sul: Évora foi conquistada em Abril de 1159 e Beja em
Dezembro do mesmo ano.
Todo o Alentejo estava nas mãos dos portugueses, quando D. Afonso
Henriques completou os 50 anos de idade. O território português aumentara
mais de metade em relação ao que era há dez anos, e estava no dobro do
que o jovem príncipe recebera de seus pais. Os muçulmanos haviam sido
rechaçados para o Algarve: do Minho a Beja, a Reconquista Cristã
triunfara totalmente.
D. Afonso Henriques estava mais forte e prestigiado do que nunca: era a
altura de lidar com a ameaça político-militar dos seus primos, os reis de
Leão e de Castela.
Havia duas maneiras de conter as ambições expansionistas dos reis
vizinhos e rivais: uma era pela diplomacia, outra era pela guerra. D.
Afonso Henriques, cada vez mais político até à medula dos ossos, optou
pela primeira; só se ela falhasse é que lançaria mão da segunda.
Ao proceder assim, o Rei português não teve sequer de pedir nada aos seus
congéneres hispânicos: foram eles que tomaram a iniciativa e surgiram
como demandantes.
«A glória adquirida por Afonso I fazia naturalmente desejar a sua aliança
aos outros príncipes da Espanha cristã»: foi assim que logo no ano
seguinte ao da conquista de Évora e Beja, ou seja, em 1160, D. Afonso
Henriques foi procurado pelo conde de Barcelona, Raimundo Berenguer, que
queria casar o filho com uma infanta portuguesa, e pelo Rei de Leão e da
Galiza, Fernando II, que também pretendia selar uma aliança política com
o Rei dos Portugueses -casando, ele próprio, com uma filha deste.
O primeiro pacto foi celebrado em Tui, em Janeiro de 1160, tendo-se
estabelecido, por um lado, uma aliança militar entre Portugal e Barcelona
e Aragão e, por outro, um contrato de casamento entre o filho do conde -
o futuro Afonso II - e a infanta portuguesa D. Mafalda. Através deste
pacto, D. Afonso Henriques continuava a projectar as suas alianças para
além da zona perigosa de Leão e Castela e, além disso, obtinha um
importante apoio peninsular, que poderia revelar-se precioso em caso de
conflito com os seus primos de Castela e de Leão.
O vizinho mais próximo - e por isso, mais perigoso - era Fernando II, rei
de Leão e da Galiza: os seus territórios circundavam as terras de
Portugal, ao norte pela fronteira da Galiza e a leste pela fronteira de
Leão, que vinha pelo menos até à altura do eixo Guarda-Covilhã-Castelo
Branco. Era com este monarca que era preciso negociar - e negociar em
grande.
Deu-se o caso de Fernando II se encontrar envolvido em «discórdias civis»
com Castela e, por isso, sentir necessidade de uma aliança estratégica
com o seu vizinho ocidental para melhor se opor ao vizinho oriental: e,
assim, preferindo o primo mais velho ao jovem sobrinho que sucedera a
Sancho III, por morte deste (Agosto de 1158), Fernando II promoveu um
encontro com D. Afonso Henriques, na segunda metade do ano de 1160, em
Cellanova, na Galiza.
Não há documentos que evidenciem, de modo directo e imediato, o que foi
tratado e acordado em Cellanova: mas a reconstituição histórica a que se
tem procedido dá-nos uma ideia suficientemente clara do que se terá ali
passado.
Tal como em Tui, celebrou-se em Cellanova um duplo acordo - um contrato
político, confirmado e garantido por um contrato de casamento.
O contrato político foi, antes de mais, um tratado de paz e amizade: as
partes assumiram um compromisso solene de não agressão mútua, o que, nas
circunstâncias daquele momento significava a renúncia pelo Rei de Leão e
da Galiza às suas pretensões de Sahagun, permitindo a D. Afonso Henriques
manter a política de prioridade ao combate aos mouros do sul.
Mas o contrato político foi também um acordo de fronteiras e de
repartição de zonas de influência: os dois monarcas não só terão
prometido respeitar as fronteiras então existentes entre os dois reinos,
como terão assumido o compromisso de demarcar os limites futuros dos
respectivos Estados, o que, nas circunstâncias de então, significava a
renúncia pelo Rei de Portugal à eventual pretensão de «levar as suas
armas até ao coração da Andaluzia, tomando assim o passo às conquistas
dos leoneses e castelhanos». A fronteira do Guadiana ficava esboçada como
linha de separação entre os dois países: já por aí se entrevia que Elvas
ia pertencer a Portugal, mas Badajoz seria zona a conquistar pelo Rei de
Leão.
Este acordo de fronteiras celebrado em Cellanova viria mais tarde, em
Badajoz, a ser invocado pelos leoneses contra D. Afonso Henriques.
A selar este importante tratado político - em que, como não podia deixar
de ser, ambas as partes cederam alguma coisa e ganharam outro tanto, numa
teia complexa de direitos e deveres recíprocos e entrecruzados -, os dois
reis vizinhos firmaram um contrato de casamento: D. Afonso Henriques
concedia a mão da sua filha mais velha, D. Urraca, então com 12 anos, ao
próprio Rei de Leão e da Galiza, Fernando II.
Era uma decisão arriscada da parte do monarca português, que com ela
ignorava a doutrina de não casar infantas portuguesas com príncipes da
monarquia leonesa. Já acima tentei explicar as razões da sua atitude.
Firmadas estas duas alianças estratégicas de bastante significado
político, a de Tui e a de Cellanova - que «eram um testemunho evidente da
alta reputação do Rei de Portugal, bem como da sua grande habilidade
diplomática -, D. Afonso Henriques podia legitimammente desejar alguns
anos de descanso, antes de se lançar no que devia ser a última fase do
seu projecto político: a conquista de Silves e, a partir daí, de todo o
Algarve.
Mas estava escrito que não havia de ser assim. As coisas complicaram-se
no Alentejo, e o monarca português foi obrigado pelos muçulmanos a
defender e, nalguns casos, a recuperar as possessões anteriormente
adquiridas - antes de poder pensar em novos avanços.
Abriu-se então um período agitado da nossa história político-militar:
cinco anos loucos, de constantes correrias, de vitórias e derrotas, e -
pela primeira vez - de confusão e indisciplina na cadeia de comando
portuguesa.
Tudo começou com uma grande ofensiva dos almóadas em 1161 no Alentejo. O
emir de Marrocos, Abdul-Mumen, inconformado com as derrotas muçulmanas da
última década, aproveitou a oportunidade que lhe era oferecida pela
conclusão da conquista da Mauritânia e atravessou o estreito de Gibraltar
para dar combate aos portugueses: dizem que dispunha de 18 mil cavaleiros
armados. Sabe-se que Abdul-Mumen travou uma grande batalha com D. Afonso
Henriques, em pleno coração do Alentejo, e que derrotou o Rei português,
que terá perdido seis mil homens. Os números são decerto exagerados, mas
a verdade é que Portugal ficou outra vez sem Beja, sem Évora e sem
Palmela. Os mouros reaproximaram-se perigosamente de Lisboa.
Foi imediata a contra-ofensiva dos portugueses: de tal modo que, em cinco
anos, isto é, de 1162 a 1167, conseguiram não só recuperar Palmela, Évora
e Beja, como conquistar pela primeira vez todas as praças fortes do
Alentejo - nomeadamente, Elvas, Juromenha, Moura, Serpa, Monsarás e, ao
que parece, ainda Mourão, Arronches, Crato, Marvão, Alvito e Barrancos,
bem como penetrar na zona de influência do Reino de Leão e arrebatar aos
mouros Trujillo, Cáceres, Montâchez e Lobón.
O mapa de Portugal estava cada vez maior: já se estendia não apenas para
o sul de Lisboa, mas também para leste do Tejo e do Guadiana.
Há, porém, em todo este período de cinco anos, alguns mistérios, que
cumpre examinar.
Na verdade, enquanto até 1161 os exércitos portugueses aparecem sempre
comandados pessoalmente por D. Afonso Henriques, e executando com
fidelidade uma estratégia por ele definida, numa unidade perfeita de
comando e acção, o mesmo não acontece durante a contra-ofensiva cristã
que se desenrola no Alentejo entre 1161 e 1167: quem aí vai actuar nesse
período são «os populares», são «correrias de cristãos», são «tropas
municipais», ou milícias populares» capitaneadas por líderes locais -
como Fernando Gonçalves, de Santarém, que tomou Beja, em Novembro de
1162, ou o famoso Geraldo Geraldes, o Sem Pavor, que reconquistou Évora,
no Outono de 1165 - e terá chefiado todas ou quase todas as demais
operações de recuperação de castelos alentejanos.
Geraldo sem Pavor - que alguns consideram «um verdadeiro herói, não de
romance, mas de epopeia» e outros um «chefe de uma quadrilha de ladrões
que um dia resolveu reabilitar-se» - acabou por se instalar em 1166 no
castelo de Juromenha (em frente a Olivença) de onde dirigia constantes
ataques a Badajoz, que era o centro militar mais importante da Andaluzia
sarracena. Esta obsessão de Geraldo - porventura dirigida à
reconstituição do antigo reino de Badajoz - iria arrastar, três anos mais
tarde, o Rei de Portugal para um episódio infeliz.
Mas importa perguntar desde já: como se explica esta ausência, este
distanciamento, este laissez-faire de D. Afonso Henriques? Trata-se de um
comportamento que não condiz nada com o perfil liderante e voluntarioso
do monarca português, antes e depois desse estranho período de cinco
anos. Herculano fornece uma explicação: «O Rei de Portugal e os seus
ricos-homens, entretidos em reparar a grave perda do ano anterior [
1161], abandonavam aos populares o prosseguimento dessas algaras ou
entradas que, levando a assolação aos campos e lugares não fortificados,
abriam caminho para as importantes conquistas das cidades e castelos
defendidos por guarnições numerosas.
Esta explicação não parece, porém, convincente: porque o que se passou
não foi o Rei deixar as milícias populares fazer correrias e fossados nos
lugares não fortificados», para depois entrar ele com o seu exército nas
«cidades e castelos». Não. O que se passou foi diferente: foram as
próprias milícias populares que, entregues a si próprias, e chefiadas por
aventureiros não nomeados pelo Rei para a função, conquistaram Beja,
Évora e uma dezena de vilas menores.
À falta de outra explicação para este invulgar «eclipse de soberania»,
sou levado a pensar que D. Afonso Henriques terá ficado gravemente ferido
na batalha alentejana de 1161 contra Abdul-Mumen, o que o terá retido em
Coimbra durante cinco anos; ou então que o exército real ficou de tal
forma desfeito e arrasado nesse prélio que o monarca não conseguiu
reconstituí-lo senão passados cinco anos. Não é de excluir, também, que
estes cinco anos de pousio em Coimbra tenham sido os do seu idílio
amoroso com Elvira Gualtar - a terceira mulher que D. Afonso Henriques
amou intensamente, e de quem teve duas filhas, D. Teresa Afonso e D.
Urraca Afonso.
Uma coisa, porém, é certa: de 1161 a 1166 o comandante abandonou o
comando, e deixou que a política militar portuguesa, incluindo a condução
de importantes operações de guerra contra os muçulmanos, fosse assumida e
liderada por outrem que não o Rei ou o seu alferes-mor. D. Afonso
Henriques, pela primeira e única vez em todo o seu reinado, em vez de
liderar, foi a reboque de outros: por essa falha grave de liderança veio
a pagar, poucos anos mais tarde, em Badajoz, um preço demasiado alto.
Capítulo XXII
Desvios estratégicos: o desastre de Badajoz

Enquanto, a partir de 1166, Geraldo sem Pavor executava sistematicamente


a sua» política de flagelação de Badajoz, criando condições para o
assalto final, em 1169, a este centro militar do poder sarraceno na
Andaluzia, D. Afonso Henriques deixava que isso acontecesse sem reagir e
esquecia, ou adiava indefinidamente, o grande objectivo estratégico que
se impunha prosseguir
- não a conquista do Leste, reservado pelo acordo de Cellanova ao rei de
Leão, mas a conquista do Sul, em direcção a Silves e ao Algarve, zona de
influência provavelmente garantida pelo mesmo pacto ao Rei de Portugal.
Pela primeira vez, em cerca de 30 anos, o grande estratega que optara
pela conquista do Sul, e que fiel a essa orientação deslocara sabiamente
a “capital” do reino de Guimarães para Coimbra, e daí avançara com as
suas tropas sobre Leiria, Santarém, Lisboa, Alcácer do Sal, Évora e Beja,
ia agora deixar-se envolver em três importantes desvios estratégicos - e
todos eles se saldaram em derrotas políticas. Em vez de continuar para o
sul, apoderando-se de Silves e dominando o Algarve, o monarca, diminuído,
inflectiu para leste e para o norte, ignorando os seus compromissos
diplomáticos anteriores e, pior ainda, agindo contra os seus mais
evidentes interesses políticos. Foi o princípio do fim.
O primeiro desvio estratégico ocorreu em 1167 na zona da Guarda e de
Almeida. Consta que «um servo ou familiar de Afonso I, movido de certas
ofensas que deste recebera, fugira para a corte do príncipe leonês e que
lhe persuadira fundasse Ciudad Rodrigo, donde Fernando II fez muitos
danos a Portugal. D. Afonso Henriques ficou irado com o primo, agora
também seu genro (o casamento com D. Urraca tivera lugar em 1165). E,
fora de toda a proporção, em vez de realizar diligências diplomáticas,
que os novos laços familiares certamente facilitariam, ou ordenar
represálias locais de grau idêntico às «correrias» sofridas em Portugal,
decide organizar uma forte expedição militar contra Ciudad Rodrigo, para
«tentar logo destruir a povoação, entrando na Extremadura espanhola com
mão armada». Para habituar o filho D. Sancho, com apenas 12 anos de
idade, às artes da guerra, fê-lo incluir no exército português que
marchou para Ciudad Rodrigo. Os leoneses vieram ao caminho e, na batalha
de Arganal, derrotaram os portugueses. D. Sancho teve de fugir.
D. Afonso Henriques ficou colérico com este desaire e decidiu vingar-se,
retaliando na Galiza - segundo desvio estratégico. Logo parte com as suas
tropas para o norte e, ainda em 1167, apodera-se de Tui e dos condados de
Límia e Toronho. De novo a nobreza local o apoia, em parte por convicção,
em parte por corrupção, em troca de benesses. O Rei português chega mesmo
a construir um novo castelo na Galiza - o castelo de Cedofeita, perto de
Cellanova. O sul da Galiza continua a sentir uma atracção fatal pelo
nosso Rei, que assim fica senhor, durante dois anos, do mais largo
território que lhe foi dado possuir durante todo o seu reinado. Como nota
Alexandre Herculano, «a extensão dos seus domínios era equivalente à do
moderno Portugal; porque, se lhe faltava o senhorear o território a que
hoje chamamos Algarve, essa falta ficava de sobra compensada com as
últimas conquistas além do Minho.
Mas, apesar da «indisputável superioridade de talento militar», revelada
mais uma vez por D. Afonso Henriques, esta estratégia do eterno retorno à
Galiza estava errada: e por isso as conquistas aí feitas só perduraram
dois anos, e foram perdidas no rescaldo do terceiro desvio estratégico
cometido pelo Rei de Portugal - Badajoz.
Guarnecidos os castelos e praças fortes da Galiza, obtida uma clara
vitória sobre Fernando II, satisfeito o orgulho ferido em Arganal,
reafirmada a superioridade militar e política do sogro sobre o genro e
dos portugueses sobre os leoneses, D. Afonso Henriques «retrocedeu para
Portugal a fim de continuar a guerra com os sarracenos nas fronteiras
meridionais».
O único objectivo estratégico que devia atrair D. Afonso Henriques, agora
que dominava integralmente o Alentejo, era partir à conquista de Silves -
porque era a mais importante cidade do Algarve, porque abriria caminho à
posse dessa província, e também porque estava dentro da esfera de
influência reservada a Portugal no Tratado de Cellanova, não provocando
tal conquista quaisquer represálias do Rei de Leão.
Mas D. Afonso Henriques, que em 1169 completou 60 anos de idade e,
segundo a nossa conjectura, deve ter ficado diminuído na batalha com
Abdul-Mumen, não foi capaz de ver claramente o seu interesse, nem
conseguiu reassumir a liderança das operações militares no Alentejo. Foi
a reboque de Geraldo sem Pavor.
Este, como se viu, estava instalado no castelo de Juromenha, desde 1166 e
de lá atacava frequentes vezes Badajoz. Como explica José Mattoso,
«embora as suas conquistas sigam uma linha sinuosa, imposta pela táctica
da surpresa, transparece o claro objectivo de ocupar sucessivamente os
pontos de apoio militar que rodeavam Badajoz e asseguravam a sua defesa,
para finalmente, isolar esta cidade». Por fim, em Abril de 1169, «Geraldo
desencadeou o ataque final à poderosa fortaleza. Conseguiu passar as
muralhas exteriores e entrar na povoação, mas resistiu-lhe a alcáçova [o
castelo] onde os guerreiros almóadas se refugiaram. O caudilho chamou
então em seu auxílio o Rei de Portugal, que veio reforçar com as suas
tropas o cerco da alcáçova».
Assim caiu D. Afonso Henriques no erro de ir atacar Badajoz, que
pertencia à esfera de influência do Rei de Leão, em vez de se dirigir
contra Silves, que pertencia à esfera de influência do Rei de Portugal.
Não liderou, foi atrás de outros. Ora, as falhas de liderança pagam-se
caro.
D. Afonso Henriques pensou talvez que os portugueses levariam a melhor
sobre os sarracenos: não contou, porém, com a firmeza estratégica de
Fernando II, Rei de Leão, seu primo e seu genro, que não aceitou ver-se
privado de uma posição militar que lhe estava destinada pelo pacto de
Cellanova, nem contou com o facto de o governador da cidade se ter feito
anteriormente vassalo do Rei de Leão.
Este aliou-se rapidamente aos mouros sitiados e veio do norte com as suas
tropas, cercando D. Afonso Henriques. O Rei português ficou incomodamente
colocado entre dois fogos: de dentro do castelo, os mouros defendiam-se
contra ele; por fora, eram os leoneses de Fernando II que o encurralavam.
D. Afonso Henriques ainda conseguiu, numa finta hábil e arrojada, escapar
a essa poderosa tenaz; mas, ao tentar sair a cavalo para fora da cidade,
bateu com a perna no ferrolho da porta, caiu ao chão e ficou seriamente
ferido: E aconteceu que o cabo do ferrolho não ficara bem colhido ao
abrír das portas, e o cavalo, assím como ia correndo, topou nele com a
ílharga de guisa que D. Afonso Henriques se feriu muito: e quebrou a
perna a el-Rei. Nisto, o cavalo que ia ferido, não podendo mais suster-
se, caiu com el-Rei sobre a mesma perna, e acabou-lha de quebrar de todo,
de maneira que os seus não puderam mais alevantá-lo, nem Pô-lo a cavalo.
Os soldados de D. Fernando II deitaram-lhe a mão e fizeram-no
prisioneiro: e, no dizer expressivo de Carlos Selvagem, «o vencedor de S.
Mamede, Cerneja e Ourique, o herói de Santarém, de Lisboa, de Alcácer, o
conquistador da Galiza, foi levado a coxear, à tenda do seu genro, como
prisioneiro de guerra.
O caçador caía caçado nos próprios laços que armara».
Durante dois meses, o Rei de Portugal esteve prisioneiro do Rei de Leão:
o seu erro colossal colocou-o à mercê do genro e, se Fernando II tivesse
o chamado killer ínstinct, poderia ter acabado ali com a vida de D.
Afonso Henriques ou com a sua liberdade e, de uma maneira ou doutra,
teria posto ponto final no projecto político de um Portugal independente.
Mas Fernando II tinha «carácter generoso» e «nobreza de alma»; porventura
amava sua mulher, a rainha D. Urraca, e respeitava o sogro; sentia uma
certa afinidade galaico-portuguesa; e, de qualquer modo, interessavam-lhe
mais os assuntos castelhanos do que os assuntos portugueses - quer
dizer, preferia vir a ser rei de Leão e Castela, sonhando reunificá-las,
a tornar-se rei de Leão e Portugal. Por isso, não se aproveitou da
vitória e, como seu pai, Afonso VII, deixou D. Afonso Henriques ser Rei
de Portugal, a quem terá dito: «Restitui-me o que me tiraste e guarda o
teu reino. Estava-se em Junho de 1169.
A contrapartida exigida foi, por conseguinte, apenas uma obrigação de
restituição - restituição, de um lado, dos condados de Límia e Toronho,
na Galiza, e, de outro, das terras da Extremadura espanhola, na margem
esquerda do Guadiana, designadamente Cáceres. As fronteiras acordadas no
pacto de Cellanova eram assim reconfirmadas: Portugal poderia expandir-se
para o sul de Évora e de Beja, mas não para o leste do Guadiana. «E a
miragem da Galiza» ficou para sempre desfeita. Consta ainda que D. Afonso
Henriques terá tido de pagar ao genro um resgate em espécie - 20 cavalos
de batalha e 15 mulas carregadas de ouro.
Os cronistas supersticiosos acharam que o desastre de Badajoz foi uma
maldição que caiu sobre D. Afonso Henriques por ter posto a ferros sua
mãe, no final da batalha de S. Mamede: E este seu quebramento da perna
foi sempre atríbuído ao que sua mãe lhe rogou, quando a pôs em prísão:
«D. Afonso, fílho, prendêste-me e deserdaste-me: a Deus peço que preso
sejais vós, e porque pusestes minhas pernas em ferros, com ferros sejam
as vossas quebradas»; e depois aconteceu a este príncipe D. Afonso, sendo
já Rei, que se lhe quebrou uma perna em saíndo pela porta de Badajoz, e
foi preso de el-Rei D. Fernando de Leão, dizendo todos que isso lhe
acontecera por lho assim maldizer sua mãe.
A vida política do nosso primeiro Rei não terminou com o desastre de
Badajoz: mas D. Afonso Henriques ficou fisicamente inválido, teve de
cessar por completo a sua actividade militar, e viu-se de repente
confrontado, aos 60 anos de idade, com o problema da sua sucessão, em que
até ali - ao que consta - nunca tinha pensado.

Capítulo XXIII
A crise da sucessão

Em Junho de 1169, D. Afonso Henriques volta de Badajoz para Portugal,


enfermo e prostrado, e vai tratar-se para as Caldas de Lafões, no actual
distrito de Viseu.Qual a natureza precisa da enfermidade que assim o
afectava, não sabemos ao certo. Estaria apenas ferido num joelho, como
dizem uns, ou teria partido a anca, como outros sugerem?
A fazer fé na crónica de Duarte Galvão, o Rei começou por partir a perna
contra o ferrolho da porta de Badajoz e, mais adiante, o cavalo, que ia
ferido, caiu sobre a mesma perna «e acabou-lha de quebrar de todo». Deve,
portanto, ter sido a anca que ficou desfeita, e a perna paralisada.
A verdade é que o Rei de Portugal nunca mais foi o mesmo e não pôde
voltar a andar a pé ou a cavalo: tinha de ser transportado num carro, «em
anda, ou em colo de homens».
Pelas decisões que logo tomou a seguir, e mais tarde, podemos concluir
que D. Afonso Henriques não ficou atingido nas suas faculdades mentais,
nem na sua capacidade política: mas, aos 60 anos de idade, deve ter sido
bem penoso para um homem como ele saber que tinha passado a ser
fisicamente inválido. O vencedor de S. Mamede, de Santarém e de Lisboa
não podia voltar a conduzir pessoalmente a guerra, nem ao norte, nem ao
sul.
E se do Norte era mais fácil abstrair, o Sul continuava a ser fonte das
maiores preocupações: o Alentejo era um território muito extenso, e
estava mal defendido. A todo o momento podiam repetir-se novas ofensivas
dos muçulmanos, que facilmente conseguiriam - se a nossa defesa não fosse
de imediato reforçada - recuperar Beja, Évora e Alcácer, e talvez mesmo
tentar novos ataques contra Lisboa ou Santarém.
O Rei de Portugal tinha, pois, de tomar providências urgentes para a
defesa do reino.
Foi o que fez, com raro sentido de oportunidade e acerto político, ainda
nas Caldas de Lafões, logo em Setembro de 1169.
A primeira decisão - como não podia deixar de ser - foi a demissão do
alferes-mor que tinha sofrido a derrota militar de Badajoz: Pêro Pais, da
Maia, foi sumariamente afastado do cargo, e saiu para a corte leonesa.
A segunda decisão foi também imediata, mas bastante mais difícil de
tomar: foi a escolha do novo alferes-mor. Dela falarei já adiante.
A terceira decisão foi quase simultânea das duas primeiras: sabendo como
a defesa do Alentejo era vital para a manutenção das conquistas já
feitas, e reconhecendo que o exército real não podia ocupar-se de tudo,
D. Afonso Henriques, ainda em Setembro de 1169, fez uma vastíssima doação
de terras e castelos à Ordem do Templo (ou dos Templários, prometendo-lhe
a propriedade de um terço de tudo o que viesse a tomar e povoar no
Alentejo, «com a condição de despender as rendas que dessas terras lhe
deviam provir no serviço dele e de seus sucessores, enquanto continuasse
a guerra entre cristãos e sarracenos».
Era a maior delegação de funções régias numa entidade não estatal até ali
efectuada pelo Rei de Portugal, que assim lucidamente reconhecia não
poder a Coroa fazer sozinha tudo o que era necessário para o bem comum.
Mas o país tinha de ter um exército real, às ordens imediatas do Rei,
para acorrer aos embates mais possantes do inimigo: e, na impossibilidade
física de um comando directo pessoalmente assumido, como até aqui, pelo
monarca, havia que nomear
urgentemente um alferes-mor (equivalente ao cargo actual de chefe do
Estado-Maior do Exército).
A escolha do novo alferes-mor não era fácil. Pêro Pais fora demitido de
modo infamante: era a primeira vez que um comandante operacional do
exército português era destituído como punição por uma derrota militar.
Quem estaria disposto a substituí-lo, agora que, com a invalidez do Rei,
todo peso das responsabilidades militares cairia directamente sobre o
novo alferes-mor?
Dos amigos e companheiros de D. Afonso Henriques, nenhum quis aceitar ou
foi julgado capaz de desempenhar bem o cargo.
Por outro lado, o mais velho dos filhos legítimos do Rei, D. Sancho,
tinha apenas 15 anos: era impensável confiar-lhe, nessa idade, o comando
do exército e a defesa do reino.
Então D. Afonso Henriques resolve recorrer ao seu filho mais velho,
embora ilegítimo - Fernando Afonso, nascido de Flâmula Gomes em 1140, e
que tinha agora 29 anos de idade. Era de sangue real, merecia toda a
confiança do pai, gozava do respeito da nobreza por ser quem era, e já
devia por certo ter dado provas de ser bom cavaleiro e destro nas armas,
nomeadamente nas conquistas do Alentejo.
Sua mãe, Flâmula Gomes, 12 anos depois da morte da raínha D. Mafalda,
terá tido alguma influência nesta escolha? É possível, se o Rei tivesse
voltado entretanto ao seu primeiro e grande amor.
O facto é que, pela simples diferença de idades, D. Afonso Henriques não
podia hesitar entre Fernando Afonso (quase nos 30, um homem feito) e
Sancho (15 anos apenas, um jovem adolescente).
Fernando Afonso foi, pois, nomeado alferes-mor do reino, em Setembro de
1169.
Nota: Todas as datas de nomeações e exonerações de altos cargos militares
na corte portuguesa que mencionar daqui em diante foram-me confirmadas,
em carta de 27-2-99, do Sr. Prof. Doutor José Mattoso, que muito
reconhecidamente agradeço.
O facto, que acabou por não ter grande significado militar - pois não
houve nenhum combate efectivo enquanto durou a comissão de serviço -,
veio a ter importantes consequências políticas.
Desde Alexandre Herculano até há poucos anos, ninguém detectou nos
documentos da época qualquer sintoma de uma crise de sucessão em relação
ao primeiro Rei de Portugal.
Porém, recentemente, o historiador brasileiro José Ariel Castro veio
defender, com grande cópia de argumentos, que durante algum tempo se
desenrolou na corte portuguesa - decerto em Coimbra, para onde D. Afonso
Henriques voltou, após os
tratamentos de Lafões - uma viva luta pela sucessão do Rei inválido,
entre Fernando Afonso e os seus adeptos (sobretudo a Ordem dos
Templários) e D. Sancho e os seus apoiantes (sobretudo as ordens de
Santiago e de Évora).
Em sentido contrário se pronuncia, dubitativamente, José Mattoso, em
texto anterior à mais recente e desenvolvida argumentação do historiador
brasileiro.
Apresentarei, de seguida, a minha própria opinião. Fernando Afonso é
nomeado alferes-mor em Setembro de 1169 e demitido dessas funções em
Setembro de 1172 .Exerce, portanto, aquele alto cargo durante
três anos completos - tempo suficiente, em meu entender, para que possa
de facto ter havido uma luta pela sucessão.
Recorde-se o quadro geral da época: o Rei tinha 60 anos e estava «irremediavelmente
inabilitado para a vida militar»; pior ainda, não podendo andar, estava condenado a viver
deitado ou sentado, quase sempre imobilizado, e consequentemente sujeito a qualquer
pneumonia ou outra causa de morte rápida. O problema da sucessão punha-se, pois, com
acuidade.
Por outro lado, os muçulmanos ocupavam o sul de Portugal (sobretudo o Algarve) e uma
parte muito maior do sul de Espanha, incluindo Badajoz: a desforra sobre as tropas
portuguesas no Alentejo, e quiçá em Lisboa ou Santarém, era inevitável - o que, de resto,
veio a acontecer logo em 1171, como veremos. O reino precisava, pois, de um chefe militar
capaz, que o defendesse.
Não considerando os mais importantes elementos da nobreza, a escolha tinha de fazer-se
entre Fernando Afonso, de 29 anos, e D. Sancho, de 15.
Quem se pode admirar de que o Rei tenha escolhido o primeiro? E quem se poderá
surpreender que este tenha sentido a ambição do poder, enquanto o irmão mais novo apenas
sabia’ brincar com as crianças da sua idade?
E quem há-de estranhar que logo ali se tenham formado dois partidos, como sempre
acontece, em torno dos dois pretendentes ao trono? Segundo José Ariel Castro, apoiavam
Fernando Afonso a nobreza minhota e as ordens militares internacionais (sobretudo os
Templários e os Hospitalários), enquanto ao lado de D. Sancho se colocaram a nobreza
sulista (os magnatas da fronteira) e as ordens militares hispânicas (Santiago, ou Uclés, e
Évora)
O mencionado historiador brasileiro indica, no seu estudo, os factos em que se apoia para
tentar demonstrar que Fernando Afonso, além de alferes-mor, passou a ser,
indiscutivelmente, a segunda figura da monarquia portuguesa - em particular, o facto de,
num «momento de apogeu», ele chegar a «ser chamado apenas de Fernando, filho do rei e
«encabeçar as listas de confirmantes» dos documentos régios.
Não são conhecidos os episódios desta luta pela sucessão no trono de D. Afonso Henriques.
É legítimo concluir da ausência de quaisquer referências nas crónicas medievais que não
ocorreu nenhuma confrontação armada, mas apenas, provavelmente, uma luta de
influências.
Podemos sintetizar aqui os argumentos a favor de um e de outro, que terão sido jogados em
inúmeras reuniões com D. Afonso Henriques.
Do lado de Fernando Afonso podia apontar-se sobretudo a sua idade: com cerca de 30 anos,
era um homem feito, e podia de ímediato suceder ao pai se este subitamente morresse ou se
tornasse inválido. Tinha o apoio das ordens militares internacionais e, quiçá, o grande apoio
de sua mãe, Flâmula Gomes, junto do Rei.
Do lado de Sancho, não podia obviamente argumentar-se com a idade: mas este era um
problema que com o tempo acabaria por se resolver. As grandes razões a seu favor eram a
legitimidade dinástica e, portanto, a sua mais fácil aceitação, quer no reino quer fora dele.
Também era menos difícil casá-lo com uma princesa de alta estirpe. Tinha o apoio das
principais ordens militares hispânicas (ultimamente a crescer de influência em Portugal) e,
sobretudo, era o candidato da Igreja Católica.
Neste contexto difícil, coube a D. Afonso Henriques - bem vivo e bem lúcido - arbitrar o
conflito. Como o fez?
Numa primeira fase, D. Afonso Henriques apostou tudo em Fernando Afonso: a diferença
de idades em relação a D. Sancho e a situação militar do reino bastam para explicar tal
atitude, que era no momento a única possível.
Mas logo em 15 de Agosto do ano seguinte (1170), no dia de Nossa Senhora da Assunção,
D. Afonso Henriques resolve armar cavaleiro o filho legítimo, D. Sancho, na Sé Catedral de
Coimbra. Há quem veja neste facto o início de uma manifestação de preferência pelo filho
mais novo: a verdade, porém, é que, se fosse essa a intenção do pai, o mais natural era que
tivesse deixado o filho armar-se a si próprio cavaleiro - como ele mesmo, D. Afonso
Henriques, fizera em Zamora. Penso, por isso, que este acto não teve um significado tão
relevante como o que se lhe quer atribuir - e que a luta continuou.
Em 1171 os mouros cercaram, em grande número, Santarém: era a vingança que se
esperava. Não chegou, porém, a haver combate, porque as tropas de Fernando II de Leão,
genro de D. Afonso Henriques, vieram socorrer o sogro e os sarracenos retiraram. Fernando
Afonso perdeu, assim, a grande oportunidade que teria tido de demonstrar as suas
capacidades de chefia militar frente ao inimigo e de, por esse modo, reforçar e consolidar as
pretensões ao trono que alimentava.
Em 1172, a luta pela sucessão prossegue. Leva já mais de dois anos. Mas as coisas
começam a correr mal para Fernando Afonso: não só as ordens militares hispânicas ganham
ascendência sobre as internacionais como se afigura que, nesse entretempo, terá sido
decisiva a influência da Igreja Católica a favor de D. Sancho.
A Igreja, provavelmente por intermédio de D. João Peculiar, terá feito sentir ao Rei de
Portugal duas coisas da maior importância: por um lado, um filho ilegítimo não podia
suceder na Coroa a um rei cristão (foi o que se passou, na mesma altura, em Inglaterra, com
a sucessão de Henrique I: este tinha vários filhos ilegítimos, mas «nem o costume do reino
nem a Igreja os autorizariam a suceder-lhe); por outro lado, um rei que ansiava por obter o
reconhecimento solene e expresso do Papa sobre a sua realeza e a independência do seu
reino face a Leão e Castela, e que mantinha repetidas diligências em Roma para o efeito,
não podia indispor contra si a Santa Sé.
Tenho para mim que, independentemente de outros factos, foi na realidade a Igreja Católica
que, mais uma vez, condicionou a liberdade de escolha de D. Afonso Henriques: tal como
não o deixara casar na altura própria com a mãe de Fernando Afonso, também lhe não
consentia agora que o filho dessa união ilegítima cingisse a coroa de Portugal.
Se é verdade que a Igreja ajudou muito - e decisivamente a independência do reino, não é
menos verdade que também condicionou bastante - e mais de uma vez - as grandes opções
do Rei de Portugal.
Decerto em consequência da pressão irresistível da Igreja, em Setembro de 1172 a situação
finalmente clarifica-se, como se vê do documento em que o Rei faz doação do Castelo e
Vila de Monsanto (em Idanha-a-Nova, distrito de Castelo Branco) à ordem de Santiago.
Este documento é importante a mais de um título: primeiro, porque constitui prova de que
na luta de influências entre a Ordem dos Templários e a Ordem de Santiago, esta começou
a levar a melhor: com efeito, Monsanto havia sido anteriormente doada pelo Rei aos
Templários e, agora, é-lhes retirada e concedida à Ordem de Santiago; segundo, porque
entre os confirmantes do documento figuram o Rei Afonso, o filho Sancho e a filha Teresa
- dizendo-se desta que deverá ser obedecida «se vier a ter o meu reino», o que significa que
D. Afonso Henriques admitiu, neste documento, que a filha (e não qualquer dos filhos) lhe
viesse a suceder no trono; terceiro, porque é esta a primeira vez, desde há três anos, que
Fernando Afonso não figura como alferes-mor do Rei, mas apenas como sígnifer (alferes)
de D. Sancho.
Isto quer dizer que Fernando Afonso perdeu a luta pela sucessão - e que esta está agora,
após três anos de indefinição, a ser encaminhada, de acordo com a posição da Igreja, para
os únicos dois filhos legítimos do Rei, D. Sancho (com 18 anos) e D. Teresa (com 21).
A autoridade régia e paternal de D. Afonso Henriques fez sentir todo o seu peso, não só
enquanto arbitrou o conflito em favor da linha legítima da sucessão, mas também na
medida em que impôs a Fernando Afonso o sacrifício supremo de aceitar ser despromovido
de alferes-mor do reino para sígnifer do príncipe D. Sancho, seu irmão mais novo. Esta
decisão não pode deixar de ter tido para o filho mais velho um carácter humilhante, e por
isso a nova posição que lhe foi destinada durou pouco: algum tempo depois saiu para
Espanha e, mais tarde - já lançado na alta política internacional -, terá chegado a grão-
mestre da Ordem do Hospital de S. João de Jerusalém (posteriormente designada Ordem de
Malta).
A primeira decisão política de D. Afonso Henriques, quanto à sua sucessão, estava tomada.
Havia agora que escolher entre a fIlha mais velha, D. Teresa, com 21 anos de idade, e o
filho mais novo, D. Sancho, com 18.
Na doação de Monsanto, D. Teresa aparece mais avantajada, pois só quanto a ela se prevê
que possa um dia «vir a ter o reino». Noutros documentos, porém - e são numerosos -, o rei
fala «no meu filho rei D. Sancho e na minha filha rainha D. Teresa, co-herdeiros do meu
reino» (regni mei coheredibus).
Estaria D. Afonso Henriques a pensar numa co-regencia dos dois irmãos durante a sua
enfermidade? Penso que não: a expressão «co-herdeiros» devia ter apenas significado
patrimonial. Prova disso é que, um ano após a doação de Monsanto, o Rei chama D. Sancho
(e apenas este) a uma co-regência entre pai e filho, entre rei e príncipe herdeiro: sabemo-lo
pelo documento da trasladação de S. Vicente, de 1173 (revelado por Alexandre Herculano),
em que a D. Sancho se chama, não apenas «co-herdeiro» (coheredibus) mas sobretudo «co-
reinante» ou co-regente» (conregnante).
A partir daqui não pode haver mais dúvidas: D. Sancho é o herdeiro oficial da Coroa
portuguesa, como tal escolhido e apontado por seu pai, o Rei ainda vivo e em funções - e
nessa qualidade é associado, aos 19 anos, à regência e governação do reino. As pretensões
do irmão mais velho, bem como a hipótese teórica de a sucessão vir a caber à sua irmã D.
Teresa, foram postas de parte - sem lutas fratricidas, sem grave perturbação da vida do
Estado, e por decisão política resultante da autoridade pessoal do monarca.
Sancho é o príncipe herdeiro e assume a regencia efectiva, em virtude da enfermidade do
Rei: e em 1185, quando o pai morrer, suceder-lhe-á como D. Sancho I.
Nota: José Ariel Castro admite a hipótese de D. Afonso Henriques ter ficado mentalmente
incapaz, em consequência de um acidente vascular cerebral. Não encontro, porém, nenhum
indício que aponte nesse sentido, antes pelo contrário: D, Afonso Henriques aparece-nos
como um homem lucidíssimo, desde Badajoz até à sua morte.
Para que tudo se faça conforme a tradição e segundo as conveniências da Coroa portuguesa,
falta apenas que D. Sancho contraia matrimónio com uma princesa real, se possível fora das
monarquias leonesa e castelhana. É o que D. Afonso Henriques vai conseguir, logo no ano
seguinte (1174), em mais uma vitória diplomática significativa: D. Sancho casará, aos 20
anos de idade, com a princesa D. Dulce, filha dos reis de Aragão. Era uma nova
confirmação da política, já antes exposta, dos casamentos régios out Of area.
Armado cavaleiro em 1170, preferido ao irmão mais velho em 1172, associado à regência
em 1173, e casado com uma princesa real estrangeira em 1174 - D. Sancho parecia estar
pronto a assumir plenamente as responsabilidades do poder.
Seu pai, doente mas lúcido como sempre não pensou porém desse modo. O príncipe
herdeiro tinha apenas 20 anos de idade; não seria talvez um modelo de maturidade; e a
única experiência militar ao vivo em que participara (Ciudad Rodrigo) falhara
completamente.
D. Afonso Henriques resolveu então - noutro acto político de grande sabedoria - adiar por
alguns anos a entrada efectiva em funções de D. Sancho como comandante-chefe do
Exército português. Para tanto, aproveitando-se das circunstâncias políticas que lhe eram
favoráveis do lado muçulmano, negociou uma trégua militar de cinco anos com o emir de
Marrocos, a qual foi efectivamente respeitada por ambas as partes entre 1173 e 1178.
Alguns historiadores de nomeada - entre eles Alexandre Herculano - viram nesta trégua um
sinal da fraqueza física e moral em que a invalidez fizera cair D. Afonso Henriques após o
desastre de Badajoz.
Não é essa, contudo, a minha opinião. A negociação daquelas tréguas, por aquele período, e
naquele preciso momento, não foi um acto de fraqueza - como o provam as decisões de ir
para a guerra outra vez, tomadas e mantidas com tenacidade e coragem mais tarde, a partir
de 1178. Não: as tréguas foram um acto político de grande visão, tendo como principal
razão de ser dar tempo a que D. Sancho crescesse, amadurecesse e ganhasse dimensão de
estadista e chefe militar. D. Afonso Henriques revelou-se aqui, novamente, não um mero
guerreiro obcecado com cavalgadas e batalhas, mas um hábil político, capaz de fazer
alternar - conforme os superiores interesses do país - a guerra e a paz, o belicismo e a
diplomacia, a política de expansão territorial e a política de administração e fomento
interno.
Cinco anos mais tarde, precisamente no termo das tréguas acordadas com os sarracenos
(1178), D. Sancho foi mandado pelo pai comandar um ataque contra os «infiéis»: tinha
então 24 anos, e saiu vitorioso nos arredores de Sevilha.
D. Sancho era agora, como se dizia em França, o dux exercitus e, mais ainda, o rex
designatus.
Todo o esquema arquitectado por D. Afonso Henriques desde a derrota de Badajoz -
incluindo a escolha de um continuador e a resolução da luta pela sucessão - resultou em
cheio: o monarca português, depois de cair fisicamente inválido, conseguira, numa década -
e como diríamos hoje -, dar a volta por cima.
Capítulo XXIV
Os anos do fim

O período de cinco anos de tréguas decorrido entre 1173 e 1178, em que D. Afonso
Henriques passou dos 64 aos 69 anos de idade, não foi um período de inacção política,
apesar da inactividade física: resolvida a crise da sucessão, o Rei de Portugal ocupou-se
intensamente da política externa e da administração interna do reino.
Antes de mais, a política externa: D. João Peculiar, arcebispo de Braga, morreu em 1175.
Foi um rude golpe para o monarca português - falecera o seu maior amigo e conselheiro
político desde que a morte levara, há quase 30 anos, Egas Moniz. A D. João Peculiar coube,
entre várias outras coisas, executar a política externa portuguesa, nomeadamente no plano
das relações com a Santa Sé: até ao fim, ele batalhou sem cessar pelo reconhecimento
expresso e formal da realeza de D. Afonso Henriques e da independência plena do reino de
Portugal. Deixou tudo bastante adiantado. Mas, agora que o Rei se submetera às condições
da Igreja na designação do seu príncipe herdeiro, era a altura de aumentar a pressão sobre
Roma. O novo arcebispo de Braga - D. Godinho, que tomou posse em 1176 - foi incumbido
dessa missão e foi a Roma logo em 1177, tendo recebido instruções para aumentar
significativamente (quadruplicar) o montante do tributo anual que Portugal estaria disposto
a pagar à Santa Sé: dois marcos, em vez de quatro onças de ouro.
No campo da administração interna do reino, D. Afonso Henriques continuou a cuidar da
situação das minorias estrangeiras, que desejava fossem respeitadas e integradas na
comunidade portuguesa: depois das medidas tomadas para a integração dos cruzados que
por cá quiseram ficar após a conquista de Lisboa, o Rei, em Março de 1170, menos de um
ano depois de Badajoz, ainda convalescente mas já em Coimbra, assina uma «carta de
segurança e privilégios» em favor dos mouros forros de Lisboa, Almada, Palmela e
Alcácer, “para que na minha terra nenhum mal injustamente recebais”. Não houve, pois,
como se vê, qualquer política de «limpeza étnica» no Portugal do século xii. Este foi um
dos actos políticos de mais alto significado e de maior alcance que D. Afonso Henriques
praticou em todo o seu reinado: e não consta que tenham sido desrespeitadas as suas
instruções.
Continuou também neste período a concessão de forais, agora beneficiando sobretudo
(1179) as três principais cidades do reino - Coimbra, Santarém e Lisboa.
E nos dois testamentos que deixou feitos, ambos de 1179, bem como nas últimas doações
efèctuadaS contemplou generosamente os grandes centros religiosos e culturais da sua
predilecção - Santa Cruz de Coimbra, S. Vicente de Fora (em Lisboa), e Alcobaça -, além
de numerosas igrejas e mosteiros.
Até um embrião de «marinha de guerra» D. Afonso Henriques mandou construir e confiou
ao seu primeiro «almirante», o célebre D. Fuas Roupinho, para defender a costa portuguesa
dos ataques dos sarracenos pelo mar, tendo aliás conseguido significativas vitórias navais
na zona do cabo Espichel.
Como se vê, estar imobilizado fisicamente não foi o mesmo que estar inactivo
politicamente. Sobretudo, deve ter sido muito frutuoso o contacto, o diálogo, a transmissão
de conhecimentos e experiências entre D. Afonso Henriques e D. Sancho: dos 19 aos 24
anos, o filho foi amadurecendo com os ensinamentos do pai. E deste terá ouvido,
provavelmente, entre muitas outras coisas, que fora um erro atacar Badajoz, que o caminho
natural da Reconquista era o sul, e que o próximo alvo tinha de ser Silves:
não foi decerto por acaso que D. Sancho I, como Rei de Portugal, apenas quatro anos
depois da morte do pai, organizou e venceu - como sua primeira operação militar - a
tomada de Silves aos mouros, logo seguida do apossamento do castelo de Alvor.’
Quando as tréguas de cinco anos com os sarracenos terminaram, em 1178, D. Afonso
Henriques julgou maduro e pronto para a guerra o seu filho, D. Sancho, e logo o mandou
avançar - como vimos. Terminara o estágio do príncipe herdeiro.
Com o regresso vitorioso de D. Sancho, o Rei português, já próximo dos seus 70 anos de
idade, podia ter dado por terminada a sua obra - realizara tudo o que fora possível no plano
militar, tinha a defesa do reino assegurada, e resolvera com êxito a crise da sucessão.
Mas não se ficou por aqui: o destino ainda lhe reservou, nos últimos sete anos de vida, três
grandes alegrias, provenientes de outras tantas vitórias - uma no plano diplomático, outra
no campo militar, e a última no âmbito familiar.
A grande vitória diplomática, ocorrida no final do reinado, foi a bula Manifestis probatum,
emitida pelo Papa Alexandre III em 23 de Maio de 1179.
Através deste documento, o chefe da Cristandade - com todo o poder e autoridade que
nessa época lhe advinham da doutrina agostiniana da supremacia do poder espiritual sobre
o poder temporal - veio dizer a D. Afonso Henriques (e aos europeus em geral) o seguinte:
por um lado, o Papa confirma tudo quanto já dissera Lúcio II, 35 anos antes, na
Devotíonem tuam - isto é, aceita a vassalagem de D. Afonso Henriques à Santa Sé, aceita o
tributo anual em ouro, e concede protecção contra os inimigos do chefe dos Portugueses;
por outro lado, o Papa reconhece pela primeira vez que D. Afonso Henriques é «Rei de
Portugal», trata o nosso país como «reino de Portugal», e (sem nunca mencionar a palavra)
reconhece a independência portuguesa, na medida em que consagra as «inteiras honras do
reino» de Portugal, declara que neste e nas suas conquistas «não podem reivindicar direitos
os vizinhos príncipes cristãos», e proíbe, sob severas penas, a todos os homens, que violem
«os direitos do reino [de Portugal] e do seu Rei»; enfim, o Papa estende os direitos
reconhecidos a D. Afonso Henriques no território portucalense, bem como em “todos os
lugares que arrancares às mãos dos sarracenos», aos sucessores legítimos do Rei: «Quanto
te concedemos a ti, isso mesmo concedemos também aos teus herdeiros”.»
Em resumo, o Papa reconheceu o título de Rei a D. Afonso Henriques, reconheceu-lhe a
independência do reino, e alargou aos herdeiros do monarca português os direitos sobre os
territórios conquistados ou a conquistar aos mouros, com exclusão de eventuais pretensões
alheias sobre as mesmas terras.
Não foi este, como alguns têm pensado, o momento em que Portugal se tornou
independente: como disse, a independência já vinha de 1143-44, do acto de vassalagem ao
Papa e da sua (implícita) aceitação pela bula Devotionem tuam. Mas o que então fora
apenas implícito tornava-se agora bem explícito; o que fora marcado pela prudência
diplomática transformava-se em proclamação política; e o que havia 35 anos visara apenas
a condição subjectiva do chefe dos Portugueses face ao Imperador de Leão alargava-se
agora à situação objectiva de Portugal na Península Ibérica, e tanto para o reinado do nosso
primeiro Rei como para todos os seus sucessores.
A Manifestis probatum não atribuíu a independência a Portugal, pois essa estava há muito
conquistada «de facto» e unilateralmente declarada: mas reconheceu «de jure» essa
independência, no presente e para o futuro, perante os Portugueses e perante terceiros. Não
foi um acto fundamental de concessão, mas foi uma importante declaração, de carácter
pessoal, patrimonial e sucessório, dotada de relevantes efeitos jurídicos e políticos. Estava
confirmada, ampliada e consolidada a Devotionem tuam. Roma dissera a última palavra.
Tal documento - que ninguém contestou (ao que se sabe) do lado leonês ou castelhano -
deve ter sido recebido com a maior alegria, gratidão e legítimo orgulho por D. Afonso
Henriques: era o mais alto prémio a que podia aspirar, e bem merecido por uma longa vida
de acertada estratégia política e corajosa actividade militar, aliás francamente bem
sucedida.
Alguns sacrifícios, pessoais e financeiros, tinham sido necessários para obter da Santa Sé o
reconhecimento oficial tão desejado: mas, para um ilustre cavaleiro medieval, que
importavam o amor e o dinheiro perante os valores mais altos da independência do reino e
da Reconquista cristã?
Com uma família bastante reduzida, e com os grandes amigos e companheiros já quase
todos falecidos, D. Afonso Henriques, retido no leito mas inteiramente lúcido, deve ter
festejado os seus 70 anos em plena glória e completo júbilo - na companhia dos dois únicos
filhos que restavam junto de si: D. Sancho, o herdeiro do trono, e D. Teresa, a belíssima
filha predilecta e muito querida, que desde Badajoz amparava e tratava o pai com um
carinho e uma dedicação inexcedíveis.
Os dois últimos acontecimentos importantes da vida de D. Afonso Henriques tiveram a ver,
precisamente, com cada um destes dois filhos.
Por aquela época, o imperador de Marrocos, Mohamed ibn Yusuf, estava profundamente
irritado com os Portugueses: não só lhe tinham tomado todo o Alentejo, como tinham
destruído Triana, nos subúrbios de Sevilha, e tinham vencido as escaramuças navais ao
largo do cabo Espichel. Impunha-se uma desforra.
Yusuf decidiu, pois, reunir um grande exército em Marrocos, o qual passou o estreito até
Gibraltar e daí seguiu por Algeciras até Sevilha. Aqui juntou-se ao poderoso exército de seu
filho, Abu Ishak, e como um todo marcharam para ocidente, evitando Lisboa e pondo cerco
a Santarém. Estava-se em Junho de 1184.
A ameaça era frontal e ficava apontada ao centro nevrálgico da organização militar
portuguesa: se Santarém fosse tomada, Lisboa ficaria imediatamente ameaçada, pelo norte
e pelo sul.
A guarnição lusa de Santarém defendeu-se com valentia «durante três dias e três noites, até
que, rotos os muros, os almóadas penetraram dentro, obrigando a guarnição a refugiar-se na
alcáçova».
Foi então que, decerto por ordens do Rei seu pai, D. Sancho desceu de Coimbra com um
numeroso «corpo de cristãos», em que vinha também o bispo do Porto.
O confronto foi violento, mas D. Sancho saiu vencedor e um dos principais chefes
muçulmanos, Ghamin Mardarnix, morreu em combate.
A lenda conferiu ao príncipe herdeiro grandes qualidades de chefia militar:
... o Infante, depois de corrigir os muros e ordenar a defesa, saiu-se fora ao arrebalde, e
tomou uma parte dele para o barreirar de cubas e portas e escudos: e fez palanque e lugares
em que se pudesse estar para defender, mandando derrubar todas as casas em redor: então
repartiu a sua gente pelo palanque, e ele pôs-se com a sua bandeira onde havia de ser a
maior pressa.
Mas o cerco continuava - e os portugueses começaram a receber reforços, primeiro do
arcebispo de Santiago de Compostela, depois de Fernando II de Leão. Era a situação
tradicional que se invertia: galegos e leoneses vinham, sem pretensões territoriais, ajudar a
Coroa portuguesa no combate aos sarracenos!
Chegou mesmo a correr que D. Afonso Henriques estava a chegar de Coimbra em socorro
do filho - o que não pode ser verdade, mas muito deve ter contribuído para desmoralizar os
sitiantes, tal era a fama do Rei de Portugal entre os mouros.
Yusuf, entretanto, sucumbiu aos ferimentos recebidos durante o cerco: levado para
Algeciras, aí faleceu em finais de Julho de 1184 sem conseguir passar para África.
Espalhada esta notícia, «o pânico apoderou-se do exército [muçulmano], que fugiu
desordenadamente». D. Sancho acabava de averbar a sua primeira grande vitória militar em
solo pátrio. Tinha 30 anos: era o princípio de uma brilhante carreira. Em menos de ano e
meio seria Rei de Portugal.
De regresso a Coimbra, com os louros da vitória, deve ter sido recebido com grande alegria
por seu pai, que assim via confirmado o acerto da difícil escolha feita e sentia assegurado o
futuro do reino. O seu pensamento só pode ter sido um - temos homem!
Quem ainda não tinha marido era a infanta D. Teresa, que já ia nos seus 33 anos. Até então,
ou não se apaixonara por ninguém ou - o que é mais provável - o pai não tinha promovido
ou consentido quaisquer diligências com vista ao matrimónio da filha. Esta era o grande
amparo do Rei, desde Badajoz, e a atitude dele tanto tinha de amor paternal como de
necessidade de apoio e carinho na invalidez.
Eis, porém, que surge uma pretensão tão forte que D. Afonso Henriques a não pode recusar
- um pedido de casamento feito por Filipe, conde da Flandres, filho do célebre Thierry da
Alsácia.
Não se sabe ao certo como surgiu a ideia deste casamento: há quem diga que Filipe se
apaixonara por Teresa quando, seis anos antes, passara por Portugal em viagem à Palestina.
Diz a crónica:
... E vieram por ela senhores e cavaleiros, muitos, e outra gente mui luzida, em naus mui
bem guarnecídas, à cidade do Porto. E logo que el-Rei soube que eles aí estavam, partiu
com sua filha para lá, levando consigo desses grandes do reino, e homens princípais, e
gente muito bem aprontada. E quando chegou, os senhores e cavaleiros que vínham por ele
saíram para el-Rei e para a Infanta, por quem foram recebidos com muita honra e agasalho,
perguntando-lhes el-Rei com muita afeição, e também a Infanta, por novas de boa saúde e
disposíção do conde e do seu estado. Depois disto, entregou-lhes el-Rei sua filha mui
honradamente, mandando com ela em outras naus os seus naturais, alguns grandes do reino
e pessoas principais, e também donas e donzelas de linhagem, quantas cumpria.
D. Afonso Henriques parece ter-se feito rogado por algum tempo, mas acabou por ceder: a
Flandres era o centro da Europa, Filipe era um príncipe da mais alta nobreza, o casamento
agradava - por razões diversas - ao rei de França e ao rei de Inglaterra e, enfim (é bom não
o esquecer), era mais um casamento out Of area, isto é, fora das cortes de Leão e Castela, o
que assumia grande importância, como sabemos, na política externa do primeiro Rei de
Portugal.
Em 1184 veio uma armada da Flandres a Portugal buscar a infanta, a quem o Rei dotou
com grandes «riquezas em ouro, prata e pedraria preciosa, sedas e estofos à moda do SUl.
A despedida entre o pai e a filha deve ter sido pungente: nunca mais se voltariam a ver.
Na viagem de Portugal para a Flandres, a armada flamenga foi assaltada por piratas
normandos, que tentaram roubar o tesouro que Teresa levava consigo. Mas Filipe, que
esperava impacientemente a sua noiva, estava vigilante e caiu em cima deles: aprisionou-
os, recuperou o dote, e enforcou-os a todos ao longo da costa.
O casamento teve lugar em Agosto de 1184, na catedral de BrugeS e, à moda visigótica, o
noivo dotou a noiva para se assegurar da «compra do seu corpo», doando-lhe, além de
terras e povoações menores, «as duas jóias da Flandres: Gand e Bruges».
O casamento, porém, não foi fecundo: Filipe morreu sem filhos, da peste contraída em
Jerusalém, em 1191.
Três anos depois, Teresa casa com seu primo, Eudo III, duque da Borgonha, de quem
também não tem filhos, vindo a separar-se dele e a obter a anulação em Roma invocando o
parentesco (ambos descendiam dos duques da Borgonha).
Regressada à Flandres, Teresa, ou Mahaut, reina com grande firmeza e à-vontade e, apesar
de rainha-viúva, afirma-se como estadista consumada durante quase 20 anos. Morre em
1216, da queda de um cavalo.
D. Afonso Henriques, para sempre privado da filha predilecta, não chegou nunca a saber
como decorreu a vida dela no coração da Europa: mas, se o soubesse, teria ficado orgulhoso
de Teresa - que sobretudo como condessa-viúva da Flandres se revelou, na paz e na guerra,
durante duas décadas, como uma grande mulher. Deixou tal fama atrás de si que ainda hoje,
na procissão do Santo Sangue de Cristo, levada a efeito todos os anos, em Maio, na cidade
de Bruges, aparece sempre a cavalo, com o brasão e as Quinas de Portugal, a nobre figura
da «condessa Mahaut» - como ficou sendo conhecida naquelas paragens. Tal como a do
pai, a sua fama chegou aos dias de hoje, lá onde viveu e deixou a sua marca.
No ano de 1185, Portugal vivia em paz. A sua independência política estava reconhecida. O
príncipe herdeiro achava-se designado, e já comandava com êxito o exército. A única filha
solteira do Rei que havia sobrevivido estava casada, e bem casada, no centro nevrálgico da
Europa. As relações com a Igreja portuguesa e com Roma não podiam ser melhores. O
arcebispo de Santiago e o Rei de Leão e Castela respeitavam as fronteiras de Portugal e
ajudavam-no a combater o «infiel». Os muçulmanos estavam derrotados e desmoralizados.
Portugal estendia-se do rio Minho até Beja e mais do que duplicara em dimensão. A chefia
militar do reino estava garantida e já fora comprovada na luta e engrandecida na vitória.
Aos 76 anos de idade, o primeiro Rei de Portugal podia, enfim, morrer descansado e sem
receio do futuro.
D. Afonso Henriques faleceu em 6 de Dezembro de 1185,’ em Coimbra.
Aí se encontra sepultado, na Igreja de Santa Cruz, no mesmo túmulo em que o acompanha
sua mulher, a rainha D. Mafalda.
No túmulo em frente desse, do lado oposto da capela-mor, repousam os restos mortais de
D. Sancho I, filho de ambos, que, assegurou a continuidade do reino e transmitiu às futuras
gerações o legado político de seu pai.
Capítulo XXV
D. Afonso Henriques: o Homem e a obra

Quem foi D. Afonso Henriques como homem? Fisicamente era um homem alto e forte,
com uma saúde de ferro: governou Portugal durante 57 anos, dos quais 45 com o título de
Rei. Foi o mais longo reinado ou mandato governativo, até hoje, na História de Portugal,
em monarquia ou em república.
Pouco sabemos da sua maneira de ser - se era jovial ou austero, cordato ou irascível,
caloroso ou frio e distante. Mas sabemos que conheceu os principais sentimentos de um ser
humano normal - foi corajoso mas teve medo, foi aventureiro mas prudente, foi rude na
guerra mas magnânimo na paz, sobretudo com os vencidos. E foi um homem normal, que
amou intensamente, viveu com três mulheres e de todas teve filhos, sofreu com a morte
prematura de alguns deles e gozou o carinho suave e delicado da sua filha Teresa, bem
como a progressiva afirmação de Sancho como herdeiro. Soube o que é ter uma família e
conviveu com ela.
Conheceu o triunfo e o desastre - esses «dois impostores», no dizer de Kipling. Mas nem
aquele o cegou de vaidade insana nem este o deprimiu com desânimo desmotivador. Ano
após ano, década após década, seguiu o seu caminho e liderou os seus seguidores. Soube
mandar.
Foi decerto um monarca «absoluto», mas não foi um tirano
- pois nem a nobreza, nem o clero, nem o povo se revoltaram alguma vez contra ele.
Revolta, e grande, só enfrentou uma, desencadeada por alguns cruzados estrangeiros em
plena conquista de Lisboa - e dominou-a com a sua autoridade natural, sem precisar de
mais do que ameaçar com o recurso à força.
A mesma autoridade natural lhe permitiu decidir, sem graves consequências e com o
respeito geral, a luta pela sucessão, que contrapôs dois filhos seus, e implicou duas facções
da nobreza, diversas ordens militares, e a própria Igreja.
Foi cristão e homem de fé, mas não hesitou em defender a autonomia do poder temporal
face ao poder espiritual. E, se com este colaborou de forma permanente, foi mais para
benefício do Estado do que da Igreja, aliás generosamente dotada com bens materiais, aqui
e em Roma.
A sua vida sentimental e política entrou, pelo menos duas vezes, em choque com a doutrina
rigorosa da Igreja em matéria de casamento e filiação. E aí teve de ceder, porque o direito
da familia não era ainda regulado pelo Estado mas pertencia à jurisdição eclesiástica.
Sacrificou um casamento de amor e, porventura, a atribuição da sucessão da Coroa ao filho
mais velho nascido de uma primeira união de facto, à razão de Estado, que tudo sobreleva
quando existe um projecto político superior ao qual se entrega uma vida inteira sem
partilha.
Foi D. Afonso Henriques um santo, que Roma deveria canonizar, como defendeu José
Pinto Pereira, no século xviii, ou foi pelo contrário um carácter que, embora valente e
tenaz, se definiu sobretudo como «medíocre, brutal e pérfido», como sustentou Oliveira
Martins no século XIX? Terá sido o nosso primeiro Rei um monarca equilibrado e
respeitável ou, bem diferentemente - e ainda segundo Oliveira Martins -, um “chefe de
bandidos”, um “doido” obcecado pela «paixão da guerra»? - De tudo quanto fomos
expondo ao longo deste livro parece resultar, com total clareza, que D. Afonso Henriques
não foi um santo, nem um louco.
Que ele não foi um santo - nem decerto o quis ser -, é evidente e não merece grandes
desenvolvimentos. Aliás, são pobres os argumentos utilizados para defender a sua
canonização.
Já a acusação de Oliveira Martins teve e tem mais peso, e ainda hoje perturba algumas
pessoas, sensíveis às opiniões do ilustre historiador. Vale a pena dedicar-lhes algumas
linhas de reflexão serena.
Se bem repararmos, Oliveira Martins não faz uma, mas duas acusações a D. Afonso
Henriques: primeira, foi um louco obcecado pela paixão da guerra; segunda, na arte da
guerra, a que exclusiva e obsessivamente se dedicou, foi medíocre «(perdeu sempre as
batalhas feridas com as tropas leonesas»), foi brutal (tinha a «tenacidade brava e bronca do
javali») e foi pérfido «(mentia a todas as promessas, rasgava todos os tratados»).
Analisemos a primeira acusação: foi D. Afonso Henriques um louco obcecado pela paixão
da guerra? Quem ler, num simples relance, a longa lista das batalhas e conquistas do nosso
primeiro Rei, poderá talvez, num momento inicial, pensar que este se encontrava dominado
pela ideia fixa da guerra. Mas esta concepção não resiste a alguns momentos de exame mais
profundo. Com efeito, o nosso primeiro Rei foi muito mais um político, que soube servir-se
da guerra quando dela necessitou, do que um combatente obcecado pela guerra como fim
em si.
Ainda jovem, D. Afonso Henriques não se atirou cegamente para a guerra, antes preferiu -
sempre que as circunstâncias o aconselharam - a negociação diplomática: foi assim no
cerco de Afonso VII a Guimarães, foi assim com o acordo de paz em Tuy, e foi também
assim na conferência de Zamora. Mais velho, o Rei de Portugal várias vezes propôs e
obteve tréguas com os muçulmanos: foi assim antes da conquista de Santarém, foi assim
com OS Mouros de Évora aquando do cerco de Lisboa, e foi do mesmo modo - por cinco
anos! - quando precisou de dar tempo à preparação e amadurecimento do príncipe herdeiro,
D. Sancho. E até na conquista de Lisboa, quando os cristãos tinham tudo preparado para o
ataque ao castelo, foi D. Afonso Henriques quem mandou primeiro perguntar aos chefes
mouros sitiados se queriam um acordo de rendição, que evitasse a carnificina.
A guerra - isto é, a paixão violenta do combate, a cegueira da luta corpo a corpo - não era,
pois, uma obsessão em D. Afonso Henriques, mas um acto frio e calculado, ditado pela
razão política, e sabiamente doseado com a paz e a diplomacia.
Mas muitas vezes ele teve, de facto, de fazer a guerra: não foi decerto o primeiro nem o
último chefe político a optar por ela. Quando a fez, fê-la bem feita: com a excepção
principal de Badajoz (onde, aliás, só foi derrotado pela aliança contranatura dos sarracenos
com os cristãos leoneses), D. Afonso Henriques venceu quase todas as grandes batalhas em
que envolveu as suas tropas. E venceu-as com brilho e com glória: a sua fama atravessou
fronteiras. Não foi, portanto, «medíocre» na guerra.
Terá sido «brutal»? Decerto que sim. Mas como se pode fazer a guerra sem ser brutal?
Acaso será hoje em dia, em pleno final do século xx, menos brutal a guerra? Nas batalhas
em que o nosso primeiro Rei participou predominava a luta corpo a corpo, e de ambos os
lados havia baixas: o próprio Afonso Henriques foi ferido mais de uma vez. Hoje, a guerra
“limpa” consiste em poder matar sem ter de morrer: por conseguinte, a imoralidade está
muito mais na guerra cirúrgica dos nossos dias do que no combate com igualdade de armas
e de oportunidades do século XII.
O Rei de Portugal não foi mais brutal com os sarracenos do que estes com os cristãos; mas
foi magnânimo com eles e protegeu-os na paz, como o prova a «carta de segurança e
privilégios» passada em 1170 a favor dos mouros de Lisboa, Almada, Palmela e Alcácer do
Sal.
Resta a acusação de «perfídia», que se fundamentaria numa atitude geral de desrespeito
pela palavra dada nas promessas e nos tratados. A história diplomática dos países ditos
civilizados está cheia de promessas não cumpridas e de tratados frequentemente violados:
também aqui, D. Afonso Henriques não foi o primeiro a prevaricar, nem seria o último. As
promessas e os tratados, entre países ou entre facções em luta, valem apenas enquanto as
circunstâncias os mantiverem úteis para ambas as partes, ou até que um «interesse vital» de
qualquer dos lados se sobreponha às vantagens da manutenção do compromisso assumido:
sempre assim foi, sempre assim será.
Quem faltar ao prometido pode incorrer num juízo moral negativo. Mas o juízo político
pode ser, e muitas vezes é, positivo, desde que se prove que o estadista ou o político agiu
movido pela defesa de um «interesse vital do seu país ou do seu grupo.
Ora, o interesse vital dos portugueses, no século xii, era conquistar a independência, a
norte, e expulsar do território o invasor árabe, a sul. D. Afonso Henriques agiu sempre
movido por este duplo motivo, quer quando violou os compromissos assumidos com os
leoneses em Tuy, quer quando rompeu as tréguas negociadas com os mouros em Santarém
ou no Alentejo. É por isso que o havemos de condenar?
Mas se D. Afonso Henriques não tivesse procedido assim, como poderia ele ter conseguido
cumprir «a ideia fixa de consolidar a (nossa) independência»,’ a norte, e ter tido êxito, a sul,
nas «fecundas empresas do conquistador» do Al-Gharb? Se o nosso primeiro Rei não
tivesse usado certas armas típicas, ainda que censuráveis, de uma diplomacia dúctil ao
serviço de uma grande causa, como poderia Oliveira Martins chamar-lhe, muito justamente,
«mestre na arte de reinar?
Oliveira Martins acaba, aliás, por prestar inteira justiça a D. Afonso Henriques quando, por
duas vezes, escreve a seu respeito: «Foi ele quem verdadeiramente consumou a separação
de Portugal»;” «a separação de Portugal foi um facto consumado, graças ao carácter de
Afonso Henriques”.
Utilizou procedimentos ardilosos, menos lisos, algumas vezes imorais? Sem dúvida. Mas
não foi mais imoral ou mais brutal do que o habitual na sua época. Foi, sim, mais forte,
mais inteligente e mais ganhador do que os seus inimigos e rivais. Por isso triunfou.
Nas suas qualidades e nos seus defeitos, nas suas vitórias e nas suas derrotas, na sua dureza
e na sua magnanimidade, na sua solidão de soldado e na sua capacidade de amar os outros
como marido, como amante e como pai - D. Afonso Henriques foi, na plena acepção da
palavra, um Homem.
Os manuais escolares costumam atribuir-lhe o cognome de Conquistador: melhor se lhe
daria, contudo, o epíteto de Fundador.
Porque concebeu uma ideia original - a independência a Norte e a reconquista a Sul -, criou
ou utilizou os meios necessários para a pôr em prática, empregou na governação uma
vontade indómita e uma energia transbordante e, assim, conseguiu construir em vida uma
obra que perdurou muito para além da sua morte.
Cronologia-
1096 - Casamento dos condes D. Henrique e D. Teresa - Concessão do Condado
Portucalense
1105 - Nascimento do futuro Afonso VII
1109 - Nascimento de D. Afonso Henriques
Nota: Os algarismos colocados entre parêntesis indicam a idade de D. Afonso Henriques no
ano correspondente.
1112(3)- Morte do conde D. Henrique. D. Teresa assume a chefia do Condado Portucalense
1115 (6) - D. Teresa participa na cúria régia de Oviedo
1121 (12) - D. Paio Mendes é nomeado arcebispo de Braga. Fernão Peres de Trava
governa o Porto e Coimbra, e começa a afastar dos seus cargos a nobreza minhota
1125 (16) - D. Afonso Henriques arma-se a si próprio cavaleiro, em Zamora
1126(17) - Morte da rainha D. Urraca. Início formal do reinado de Afonso VII de Leão
1127 (18)- Cerco de Afonso VII a Guimarães. Episódio de Egas Moniz
1128(19)- Batalha de S. Mamede. D. Afonso Henriques assume a chefia do Condado
Portucalense
1130(21)- 1ª invasão da Galiza. Morte de D. Teresa, na Galiza Afonso VII assume o
governo efectivo de Leão
1131 (22)- A capital do reino passa para Coimbra
Início da construção do Mosteiro de Santa Cruz
1132-33 (23-24)- 2ªinvasão da Galiza
1134 (25) - 3ª invasão da Galiza, construção do castelo de Celmes
1135 (26) Solene coroação imperial de Afonso VII Construção do castelo de Leiria
1136(27) - Egas Moniz é nomeado Dapífer Curiae
1137 (28)- 4ª invasão da Galiza, Paz de Tui, Tomada de Leiria pelos mouros
1138(29) - D. João Peculiar é nomeado arcebispo de Braga
1139(30) - Reconquista de Leiria, Batalha de Ourique
1140(31) - D. Afonso Henriques começa a usar o título de Rei. Nasce o seu primeiro filho,
ilegítimo, Fernando Afonso, 5ª invasão da Galiza, Início da construção da Sé Velha,
Coimbra
1141 (32) - Recontro de Arcos de Valdevez, Os mouros recuperam Leiria
1142(33) - Tentativa frustrada de conquista de Lisboa
1143(34) - Conferência de Zamora, Acto de vassalagem ao Papa
1144(35) - Bula papal Devotionem tuam
1145(36) - Reconquista de Leiria
1146(37) - Casamento com D. Mafalda de Sabóia, Morte de Egas Moniz
1147(38) - Tomada de Santarém, Tomada de Lisboa, Rendição de Sintra, Almada e
Palmela, Fundação do Mosteiro de S. Vicente de Fora, em Lisboa, Nasce o infante D.
Henrique
1148(39)- Nasce a infanta D. Urraca
1151 (42)- Nasce a infanta D. Teresa, Primeira tentativa de tomada de Alcácer do Sal
1153 (44)- Nasce a infanta D. Mafalda, Fundação da Abadia de Alcobaça
1154(45) - Nasce o infante D. Sancho
1155 (46)- Morre o infante D. Henrique
1156(47) - Nasce o infante D. João, Afonso VII trata de igual para igual com D. Afonso
Henriques
1157 (48) - Morre o Imperador Afonso VII, Morre a rainha D. Mafalda, Nasce a infanta D.
Sancha, Segunda tentativa de tomada de Alcácer do Sal
1158(49) - Tomada de Alcácer do Sal, Acordo de Sahagun
1159(50) - Tomada de Évora e Beja
1160(51) - Pactos de Tui e Cellanova
1161 (52) - Perda de Alcácer do Sal, Évora e Beja
1162(53) - Reconquista de Beja
1165 (56) - Reconquista de Évora
1166(57) - Tomada de Serpa e de Moura
1167 (58) - Tomada de Monsaraz
1169(60)- Derrota de Badajoz, Prisão e libertação de D. Afonso Henriques, Fernando
Afonso é nomeado alferes-mor, Concessão de terras no Alentejo aos Templários
1170(61)- D. Sancho é armado cavaleiro pelo pai, em Coimbra, D. Afonso Henriques toma
medidas de protecção em relação aos mouros de Lisboa e arredores
1171 (62) - Cerco dos sarracenos a Santarém
1172(63) - Fernando Afonso é demitido de alferes-mor, D. Teresa e D. Sancho são
designados co-herdeiros do reino
1173(64) - D. Sancho é associado à regência de seu pai, Tréguas de cinco anos com o emir
de Marrocos
1174(65) - Casamento de D. Sancho com D. Dulce de Aragão
1175(66) - Morte de D. João Peculiar
1178(70)- Bula papal Manífestis probatum, Vitórias navais de D. Fuas Roupinho sobre os
mouros
1179(71)- Testamento de D. Afonso Henriques
1184(75)- Grande ofensiva almóada no Alentejo, Cerco de Santarém, vitória de D. Sancho,
Casamento de D. Teresa com o conde da Flandres
1185 (76)- Morte de D. Afonso Henriques, em Coimbra
Agradecimentos
Desejo aqui deixar expresso o meu profundo agradecimento a todos quantos me auxiliaram,
desinteressadamente, na pesquisa de documentos ou no esclarecimento de questões mais
difíceis - a saber, os Professores José Mattoso, da Universidade Nova de Lisboa, Baquero
Moreno, da Universidade do Porto, Manuel Recucro Astray, da Universidade de Vigo,
Gregoria Cavero Domínguez, da Universidade de León, e Ana Maria Rodrigues, da
Universidade do Minho; o historiador brasileiro José Ariel Castro; os investigadores
portugueses José Sarmento de Matos, Nuno Pizarro Dias e Maria Adelaide Pereira de
Morais; e, ainda, os meus colaboradores de longa data, drs. António Araújo e Miguel
Nogueira de Brito, assistentes da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, bem
como o meu filho Pedro Freitas do Amaral, estudante do curso de História.
A todos eles, e ainda aos amigos que tiveram a paciência de ler o original e de sugerir
emendas ou melhorias, o meu sincero obrigado.
D.F.A.
Bibliografia seleccionada
a) Crónicas antigas
- Cróníca dos Godos, (s. XII), in Frei António Brandão, Crónica do Conde D.
Henrique.... ínfra, p. 263-273.
- Cróníca Geral de Espanha de 1344, ed. crítica por L. F. Lindley Cintra, vol. IV,
«Academia Portuguesa da História», Lisboa, 1990.
- Duarte Galvão, Crónica de El-Rei D. Afonso Henriques, LIsboa, 1505, “Imprensa
Nacional - Casa da Moeda”, Lisboa, 1995.
- Frei António Brandão, Crónica do Conde D. Henríque, D. Teresa e Infante D. Afonso,
«Livraria Civilização», Porto, 1944.
- Idem, Crónica de D. Afonso Henriques, «Livraria Civilização», Porto, 1945.
b) Histórias de Portugal
-Almeida (Fortunato de), Históría de Portugal, «Promoclube», Lisboa, s.d.
- Ameal (João), Hístória de Portugal, 5.ª ed., «Livraria Tavares Martins», Porto, 1962.
- Azevedo (Luís Gonzaga de), História de Portugal, IV, «Edições Bliblion», Lisboa,
1942.
• Birmingham (David), A concise History of Portugal, «Cambridge University Press»,
Cambridge, 1993.
- Ennes (António), História de Portugal, I, «Empreza Literária de Lisboa», Lisboa, 1876.
- Herculano (Alexandre), Hístória de Portugal, 1846, tomo 1, prefácio e notas críticas de
José Mattoso, «Livraria Bertrand», Lisboa, 1980.
• Livermore (H. V), A new History of Portugal, 2.ª ed., Cambridge University Press»,
Cambridge, 1976.
- Marques (A. H. de Oliveira), História de Portugal, vol. I, a «Editorial Presença», 13. ed.,
Lisboa, 1997.
- Martins (J. E Oliveira), Hístória de Portugal, [1879], edição crítica de Isabel de Faria e
Albuquerque, com prefácio de Martim de Albuquerque, “Imprensa Nacional - Casa da
Moeda”, Lisboa, 1988.
- Mattoso (José), dir., História de Portugal, vol.II, «Círculo de Leitores», Lisboa, 1993.
- Medina (João), dir., História de Portugal, vol. III, «Ediclube», Amadora, 1994.
- Peres (Damião), dir., História de Portugal, [Barcelos], vols. I e II, «Portucalense Editora»,
Porto, 1928-29.
- Pimenta (Alfredo), Elementos de História de Portugal, 5.ª ed., «Imprensa Nacional de
Publicidade», Lisboa, 1937.
- Saraiva (José Hermano), História concisa de Portugal, 18ª ed., «Publicações Europa-
América», Mem Martins, 1996.
- Schaeffer (Henrique), História de Portugal, Porto, 1893.
- Sérgio (António), Breve interpretação da História de Portugal, 11ª ed. «Livraria Sá da
Costa Editora», Lisboa, 1983.
- Serrão (Joel) e Marques (A. H. de Oliveira), Nova História de Portugal, vol.III, «Editorial
Presença», Lisboa, 1995.
- Serrão (J. Veríssimo), História de Portugal, vol. I, «Verbo», Lisboa, 1977.
- Tavares (Maria José Ferro), História de Portugal Medievo, «Universidade Aberta»,
Lisboa, 1992.
C) Outros trabalhos genéricos
-Actas do 2º Congresso Histórico de Guimarães, [ 1996], 7 vols., «Câmara Municipal de
Guimarães e Universidade do Minho», Guimarães, 1997.
• Grun (Bernard), The Timetables of History: a horizontal linkage of people and
events, «Simon and Schuster», Nova Iorque, 1982.
- Serrão (Joel), Cronologia Geral da História de Portugal, 5ª ed., «Livros Horizonte»,
Lisboa, 1986.
- Serrão (Joel), dir., Dicionárío da História de Portugal, 4 vols., «Iniciativas Editoriais »,
1971.
d) Monografias, artigos e outros textos
- A. A. F., Cercos de Lisboa, I - Cerco de D. Afonso Henriques, in «Dicionário da
História de Portugal», dir. Francisco Santana/Eduardo Sucena, Lisboa, 1994, p. 262-263.
- A.A.F., Conquista de Lisboa, ibidem, p. 306-308.
- Amaral (Diogo Freitas do) Em que momento se tornou Portugal um país independente,
in «Actas do 2º Congresso Histórico de Guimarães», p. 154 e segs.
- Astray (Manuel Recuero), Alfonso VII, Emperador. El império híspanico en el síglo
XII, León, 1979, ed. «Centro de Estudios y Investigation San 1sidro», p. 193 e segs..
- Astray (Manuel Recuero) - Vásquez (Marta González) - Portilla (Paz Romero),
Documentos medievales del Reino de Galicia: Alfonso VII (1116-1157), ed. «Xunta de
Galicia e Universidade da Coruña», 1998.
- Azevedo (Ruy Pinto de), Documentos Medievais Portugueses. Documentos régios,
«Academia Portuguesa da História», vol. II, Lisboa, 1958.
- Barros (H. da Gama), História da Administração Pública em Portugal nos séculos XII a
XV, tomo 1, 2. ed., «Livraria Sá da Costa, Editora», Lisboa, 1945.
- Beckert D’Assunção, Henrique V, in «Enciclopédia Verbo», 9, c. 1778-1779.
- Benevides (Francisco da Fonseca), Rainhas de Portugal. Estudo histórico, tomo 1,
“Typografia Castro Irmão”, Lisboa, 1878.
• Blõcker - Walter (Monica), Alfons I von Portugal, «Fretz und Wasmuth Verlag»,
Zurique, 1966.
• Brooke (Christopher), From Alfred to Henry III
871/1272, «W. W Norton & Company», Nova Iorque - Londres, 1961, reimp. 1969.
- Caetano (Marcello), História do Direito Português, vol. 1, «Verbo», Lisboa, 1981.
- Castelo-Branco (Fernando),O feito de Martím Moniz, in «Bracara Augusta», vols. XIV-
XV, 1963, p. 184 e segs..
- Castro (José Ariel), Sancho e Teresa entre seus írmãos e na política de Afonso Henriques
após o desastre de Badajoz, in «Actas do 2º Congresso Histórico de Guimarães», vol. II, p.
287 e segs..
- Cintra (L. F. Lindley), Sobre a formação da lenda de Ourique (até à Crónica de 1419 , in
Revista da Faculdade de Letras de Lisboa, 23 (1957), p. 168 e segs.
- Conquista de Lisboa aos mouros em 1147: Carta de um cruzado inglês, trad. port. de José
Augusto de Oliveira, “Livros Horizonte”, Lisboa, 1989.
- Cordeiro (José Luciano), A Condessa Mahaut, 1899, cit. por Maria Roma, ob. cit., p. 461.
- Corte-Real (Manuel), As alianças matrimoniais dos fílhos de D. Afonso Henriques na
política externa portuguesa, in «Actas do 2º Congresso Histórico de Guimarães», vol. II, p.
447 e segs..
- Costa (Avelino de Jesus), Mendes, D. Paio, no Dicionário de História de Portugal, vol. III,
p. 17.
- Erdman (Carl), De como D. Afonso Henriques assumiu o título de Rei, Coimbra, 1940.
- Erdman (Carl), O Papado e Portugal no primeiro século da História Portuguesa, separata
do «Boletim do Instituto Alemão», Coimbra, 1935, reimpressão Braga, 1996.
- Fausto (Gonçalves), Alentejo baluarte da nacionalidade (Notas históricas), Lisboa, «
Livraria Portugal), 1961.
- Fernandes (A. de Almeida), Dom Egas Moníz de Ribadouro, «Editorial Enciclopédia»,
Lisboa, 1946.
- Fernandes (A. de Almeida), Viseu, Agosto de 1109: nasce D. Afonso Henriques, in
«Beira Alta», «Assembleia Distrital de Viseu», vols. XLIX, 1-2 e 3-4, e L, 3, Viseu, 1990,
p. 29 e segs..
- Fernandes (A. de Almeida) et alii, D. Afonso Henriques e sua descendência, in “Nobreza
de Portugal e do Brasil”, I, Lisboa, 1960, p. 86.
- Fernandes (A. de Almeida)/António Sérgio/Hernâni Cidade/Pedro Batalha Reis/Afonso
Zúquete, Dom Afonso Henriques (1110?-1185) e sua descendência, in «Nobreza de
Portugal», I, Lisboa, 1960, p. 85 e segs..
- Freire (Pascoal de Melo), História do Direito Civil Português, (1777), trad. port., sep. do
«Boletim do Ministério da Justiça», Lisboa, 1968.
- Grassotti (Hilda), Las instituciones feudo-vassalláticas en León y Castilla, 2 vols.,
Spoleto, 1969.
- Herculano (Alexandre), O Bobo [1843, 18781, ed. «Ulisseia», Lisboa, 1992.
- Krus (Luís), Afonso I, D., no «Dicionário Enciclopédico da História de Portugal), 1, Alfa,
Lisboa, 1985, p. 23.
- Linehan (Peter), Utrum reges Portugalie coronabantur annon, in «Actas do 2º Congresso
Histórico de Guimarães», vol. II, p. 390.
- Lopes (David), Alexandre Herculano, Antónío Caetano Pereira e a batalha de Ourique, in
Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, nº 5, 1898-99, com separata de 1900.
- Lopes (David), Os árabes nas obras de Alexandre Herculano, in Boletim da Segunda
Classe [classe de Letras] da Academia das Cências de Lisboa, III, 1910, p. 165 e segs..
- Lopes (David), A batalha de Ourique e comentário leve a uma polémica, separata da
revista Biblos,III, nº. 11 -12, Coimbra, 1927.
- Lopes (David), O Cid português, in «Revista Portuguesa da História», I, Coimbra, 1941,
p. 94.
- Magalhães (José Calvet de), Alexandre III reconhece o reino de Portugal, in «8º
Centenário do Reconhecimento pela Santa Sé (Bula «Manifestis probatum» - 23 de Maio
de 1179), Comemoração Académica, «Academia Portuguesa da História», Lisboa, 1979, p.
210-211.
- Marques (A. H. de Oliveira), Lamego - problema das Cortes de, in Dicionário da História
de Portugal, vol. II, p. 653-654.
- Marques (A. H. de Oliveira), Moníz (Egas), no Dicionário da História de Portugal, III, p.
98.
- Marques (Paulo Louwndes), Intervenção britânica na conquista de Lisboa, 1147, in
«Actas do 2º Congresso Histórico de Guimarães»,II, p. 51 e segs..
- Mattoso (A. G.), Luís VI, in «Enciclopédia Verbo», 12, c 672-3.
- Mattoso (A. G.), Henrique I, in «Enciclopédia Verbo», 9, 1786.
- Mattoso (José), A formação da nacionalidade no espaço ibérico (1096-1325), in Hístória
de Portugal, dir. por José Mattoso, vol.II, p. 46 e segs..
- Mattoso (José), A primeira tarde portuguesa, in Portugal medíeval novas interpretações,
Lisboa, “Imprensa Nacional Casa da Moeda”, 1985.
- Mattoso (José), As três faces de Afonso Henriques, in «Penélope - fazer e desfazer a
História», nº 8, 1992, p. 25 e segs..
- Mattoso (José), Identificação de um País. Ensaio sobre as origens de Portugal: 1096-1325,
vol. I, «Editorial Estampa», Lisboa, 2. ed., 1985.
- Maurício (Domingos), Mosteiro de S. Vícente de Fora, in Verbo», 16, c. 1462-3.
- Merêa (Paulo), O Tratado de Tui de 1137 do ponto de vista jurídico, in «História e Direito
(escritos dispersos) », tomo 1 Universidade de Coimbra, Coimbra, 1967.
- Moníz (D. Martím), in «Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira», vol. 17, p. 634.
- Morais (Maria Adelaide Pereira de), Dona Urraca, Dona Sancha, Dona Teresa e Doña
Sancha, in «Actas do 2º Congresso Histórico de Guimarães», vol. II, p. 429 e segs..
- Oliveira (José Augusto de), A conquísta de Lísboa, ín Lisoito séculos de história, I,
“Câmara Municipal de Lisboa”, Lisboa, 1947, p. 119 e segs.
- Oliveira (Manuel Alves de), Vicente (São), in «Verbo», 18, c. 1028-9.
- Pascoal (Pascoal III), in «Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira», vol. 20, p. 512-
513.
- Pereira (Josephus Pinto), Apparatus Historicus decem continens argumenta, sive non
obscura Sanctitatis indicia, reliogiosissimi principis D. Alfonsi Henrici, primi Portugalliae
Regis, dirigido ao Papa Benedito XIII, Roma, «Typographia Rochi Bernabo», 1728.
- Pimenta (Alfredo), Estudos Históricos. XV - A façanha de Martim Moníz, Lisboa, 1940.
- Alfredo Pimenta, Fontes Medievais da História de Portugal, Lisboa, 1948.
- Pina (General Luiz M. da Câmara), A Batalha de S. Mamede (24 de Junho de
1128).Subsídios para a sua história militar, «Academia Portuguesa da História», Lisboa,
1979.
- Ramos (Manuel), A consolidação da independência, in História de Portugal, Barcelos,
vol. II, p. 26-27.
- Ribeiro (Ângelo), Jornadas de além-Tejo, in História de Portugal, Barcelos, II, p. 82 e
segs..
- Ribeiro (Orlando), Portugal (Formação de), in Dicionário da História de Portugal, III, p.
445-446.
- Rocha (Coelho da), Ensaio sobre a história do governo e da legislação de Portugal, 1ª
ed.,Imprensa da Universidade», Coimbra, 1841.
- Rodrigues (Ana Maria S. A.), Em busca de D. Afonso Henriques através de oito séculos
de Historiografia Portuguesa, in «Actas do 2º Congresso Histórico de Guimarães», vol. III,
p. 5-19.
- Rodrigues (Maria Teresa Campos), Ourique, batalha de (1139), no Dicionário da História
de Portugal, vol. III, p. 253-254.
- Roma (Maria), Teresa de Portugal, Condessa da Flandres, Duquesa da Borgonha, in
«Actas do 2º Congresso Histórico de Guimarães»,II, p. 459 e segs..
- Saraiva (António José), A épica medieval portuguesa, a «Ministério da Educação -
ICALP», Lisboa, 2. ed., 1991.
- Saraiva (José), Leiria. Breve estudo crítico das suas origens e notícia histórica,
arqueológica e artística das ruínas do seu Castelo, da Catedral, do Santuário da Sra. da
Encarnação e da Igreja de S. Pedro, «Litografia Nacional - Edições», Porto, 1929; nova
edição na colecção «Monumentos de Portugal: Leiria (n.VI), ed. «Associação dos
Arqueólogos Portugueses» e «Conselho Nacional de Turismo», Lisboa, 1986.
- Saraiva (José Hermano), História de Portugal. A fundação, parte I, «Vídeos RTP», 1997.
- Saramago (José), História do Cerco de Lisboa, «Caminho», Lisboa, 1989.
- Selvagem (Carlos), Portugal militar, «Imprensa Nacional de Lisboa», Lisboa, 1931.
- Serrão (J. Veríssimo), Ensaio histórico sobre o significado e valor da tomada de Santarém
aos mouros em 1147, Santarém, 1947.
- Serrão (J. Veríssimo), Portugal no mundo nos séculos, XII a XVI, «Verbo», Lisboa, 1994.
- Soares (Torquato de Sousa), Afonso I, no «Dicionário História de Portugal», I, p. 36.
- Soares (Torquato de Sousa), O governo de Portugal pela infanta-rainha D. Teresa (1112-
1128), in Colectânea de Estudos em honra do Prof. Doutor Damião de Peres, Lisboa, 1974,
p.115
- Soares (Torquato de Sousa), Significado Político do Tratado de Tui de 1137, in « Revista
Portuguesa da História, Coimbra, 1943, p. 331-332.
- Sousa (António Caetano de), História Genealógica da Casa Real Portuguesa, tomo I,
[Lisboa, 1735], «Atlântida, Coimbra, 1946.
- Valdeavellano (Luís G. de), História de España antigua Y medieval, vol. II, «Alianza
Editorial», Madrid, 1988 [1980]
- Veiga (A. Botelho da Costa), Estudos de História M. Portuguesa, I, parte II, Lisboa, 1939.