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Manual de Formação

1. Acompanhante de Crianças (FM-RDM)

Desenvolvimento da criança dos 0 aos 3 anos- iniciação

Marta Ferreira
abril 2018

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Índice

1. Fases do desenvolvimento da criança dos 0 aos 3 anos…………………………...3

1.1.Desenvolvimento físico e psicomotor…………………………………………...3

1.2.Desenvolvimento cognitivo……………………………………………………….8

1.3.Desenvolvimento da linguagem………………………………………………..11

1.4.Desenvolvimento sócio-afetivo…………………………………………………13

2.Fatores condicionantes do desenvolvimento da criança………………………….…16

3.Problemas do desenvolvimento: sinais de alerta…………………………………….18

4.Crianças com alterações nas funções ou estruturas do corpo ou com risco grave
de atraso de
desenvolvimento………………………………………………………………..………….21

Bibliografia…………………………………………………………………………………..24

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1. Fases do desenvolvimento da criança dos 0 aos 3 anos

1.1.Desenvolvimento físico e psicomotor

Desenvolvimento físico

Tal como acontece antes do nascimento, o crescimento e o desenvolvimento físico


seguem o princípio cefalocaudal e o princípio próximo-distal.
Relativamente ao princípio cefalocaudal, o crescimento ocorre de cima para baixo.
Como o cérebro cresce rapidamente antes do nascimento, a cabeça do recém-nascido é
desproporcionalmente grande. A cabeça torna-se proporcionalmente menor à medida que
a criança cresce em altura e as partes inferiores do corpo desenvolvem-se. O
desenvolvimento sensorial e o motor seguem o mesmo princípio: os bebês aprendem a
usar as partes superiores do corpo antes das partes inferiores. Eles veem objetos antes de
poderem controlar o tronco, e aprendem a fazer muitas coisas com as mãos muito antes
de conseguirem gatinhar ou andar.
Quanto ao princípio próximo-distal (de dentro para fora), o crescimento e o
desenvolvimento motor ocorrem do centro do corpo para as extremidades. No útero, a
cabeça e o tronco se desenvolvem antes dos braços e das pernas, depois são as mãos e
os pés e, em seguida, os dedos das mãos e dos pés. Durante a primeira e a segunda
infância, os membros superiores e inferiores continuam crescendo mais rápido que as
mãos e os pés. De igual forma, primeiro a criança desenvolve a capacidade para usar a
parte proximal dos braços e das pernas (que estão mais próximas do centro do corpo),
depois os antebraços e a parte distal das pernas, em seguida as mãos e pés e, finalmente,
os dedos das mãos e dos pés.
A criança cresce rapidamente durante os três primeiros anos, especialmente durante
os primeiros meses, mais do que em qualquer outro período da vida. À medida que o bebê
cresce, a forma e proporção também sofrem alterações.
A nutrição apropriada é fundamental para um crescimento saudável. A alimentação
precisa sofrer alterações e ajustes rápidos durante os três primeiros anos de vida.
Alimentar o bebê é um ato emocional e físico. O contato afetuoso com o corpo da
mãe estabelece um vínculo emocional entre mãe e bebê. Esta ligação pode acontecer por
intermédio alimentação, do peito ou da mamadeira, bem como de outras atividades

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assistenciais, a maioria das quais podendo ser desempenhada quer pelo pai como pela
mãe. A qualidade do relacionamento entre pais e crianças, bem como o afeto e o
aconchego oferecidos à criança, no mínimo, são tão relevantes quanto o método de
alimentação.
O crescimento do cérebro é um processo que dura a vida toda e que é fundamental
para o desenvolvimento físico, cognitivo e emocional. Por meio de várias técnicas de
imageamento do cérebro, os pesquisadores estão obtendo um quadro mais nítido de como
ocorre o desenvolvimento desse órgão.

Desenvolvimento psicomotor

O desenvolvimento psicomotor é um processo contínuo durante o qual se dá a


evolução da inteligência, da comunicação, da afectividade, da sociabilidade e da
aprendizagem de forma global e simultânea. Decorre por etapas e depende da maturação
do sistema nervoso central. A totalidade das crianças passa por todas as etapas, embora o
ritmo na aquisição possa variar de uma para a outra.
Quando a criança nasce, mostra aquilo que conhecemos como reflexos primitivos,
que, mais tarde, possibilitarão os movimentos voluntários.
Estes reflexos, inatos em todas as crianças, permitem ao bebé realizar as funções
básicas de respirar, comer ou virar a cabeça à procura do peito ou da tetinha do biberão.
Durante os dois primeiros anos de vida, o desenvolvimento da motricidade e do psiquismo
confundem-se e sobrepõem-se através do desenvolvimento sensorial, motor e
cognitivo, que constituem o desenvolvimento psicomotor.
Neste desenvolvimento intervêm factores genéticos, factores do meio em que a
criança vive e o sexo do bebé. Os factores genéticos referem-se a tudo o que cada criança
herda dos pais. Por outro lado, em função do meio em que o bebé viva, aprenderá
rapidamente o que lhe ensinamos. É por isso que é muito importante proporcionarmos à
criança um ambiente rodeado de estimulos, a possibilidade de brincar e de explorar,
porque assim oferecemos-lhe uma oportunidade única de adquirir rapidamente
conhecimentos.
O sexo também tem influência sobre o modo como um bebé se vai desenvolvendo. Por
exemplo, as meninas têm mais facilidade para aprender a linguagem, e os meninos, por
outro lado, são geneticamente mais hábeis no desenvolvimento da motricidade. No início,
a aprendizagem é muito global, isto é, o bebé aprende de forma simultânea a deslocar-se,
a prestar atenção ao que lhe dizem, a estabelecer um vínculo com a figura de afeição.

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À medida que o bebé vai crescendo, podemos estimulá-lo de forma mais precisa.
Podemos estimular apenas a sua motricidade, a linguagem ou a percepção, e assim
sucessivamente com todas as capacidades.
Neste contexto importa distinguir os conceitos de motricidade global e motricidade fina:
Motricidade Global diz respeito a movimentos amplos dos membros e a Motricidade Fina
Relaciona-se com a coordenação óculo-manual.

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Os bebês nascem com um reflexo de preensão. Se a palma da mão do bebê for


acariciada, a mão fecha com firmeza. Cerca dos três meses e meio de idade, a maioria dos
bebês consegue agarrar um objeto de tamanho moderado, como um chocalho, mas tem
dificuldade em segurar objetos pequenos. Depois eles começam a pegar objetos com uma
das mãos e transferi-los para a outra, e em seguida segurar (mas não apanhar) pequenos
objetos. Entre 7 e 11 meses, as mãos tornam-se suficientemente coordenadas para
apanhar objetos pequenos, como uma ervilha, usando a preensão em pinça. Por volta dos
15 meses, um bebê mediano sabe montar uma torre com dois cubos. Alguns meses após
o terceiro aniversário, uma criança mediana consegue copiar um círculo razoavelmente.
Locomoção- Depois de três meses, um bebê mediano começa a rolar
deliberadamente (e não acidentalmente, como antes) –, primeiro de frente para trás,
depois de trás para frente. Um bebê mediano consegue sentar-se sem apoio por volta dos
6 meses de idade e assume a posição sentada sem auxílio por volta dos 8 meses e meio.
Bebês que gatinham tornam-se mais sensíveis ao lugar onde os objetos estão, seu
tamanho, se eles (os objetos) podem ser deslocados e como se parecem. O ato de
engatinhar ajuda a avaliar distâncias e a perceber profundidade. Todos esses
desenvolvimentos levam à principal realização da infância: andar.
Os humanos começam a andar mais tarde que as outras espécies, provavelmente
porque a cabeça pesada e as pernas curtas do bebê dificultam o equilíbrio. Durante alguns
meses antes de poderem ficar de pé sem apoio, os bebês ficam circulando apoiando-se
nos móveis. Logo após conseguir ficar em pé sozinha, a maioria das crianças dá o seu
primeiro passo sem necessitar de ajuda. Depois de algumas semanas, logo após o
primeiro aniversário, uma criança mediana consegue andar razoavelmente bem.

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Durante o segundo ano, a criança já começa a subir degraus, um de cada vez,


colocando um pé após o outro no mesmo degrau; mais tarde começa a alternar os pés. Só
depois passa a descer os degraus. Também no segundo ano, a criança corre e pula. Aos 3
anos e meio, a maioria delas consegue equilibrar-se brevemente em um pé só e começa a
saltar.

1.2.Desenvolvimento cognitivo

Como os bebês aprendem a resolver problemas? Quando a memória desenvolve-se?


Como explicar as diferenças individuais nas habilidades cognitivas? Podemos medir a
inteligência de um bebê ou prever seu grau de esperteza no futuro? São questões que há
muito inquietam os cientistas do desenvolvimento. Existem seis abordagens para nos
ajudar a responder a estas questões e a perceber como acontece o desenvolvimento
cognitivo:

• A abordagem behaviorista estuda os mecanismos básicos da aprendizagem. Os


behavioristas querem saber como o comportamento muda em resposta à experiência.
Defende que os Bebês nascem com a capacidade de aprender com aquilo que veem,
ouvem, cheiram, degustam e tocam, mesmo não tendo capacidade de lembrar o que
aprenderam. Embora os teóricos da aprendizagem reconheçam a maturação como
fator limitante, o seu interesse maior são os mecanismos da aprendizagem. Dois
processos de aprendizagem estudados pelos behavioristas designam-se de:
condicionamento clássico e condicionamento operante. O condicionamento clássico
refere que aprendizagem baseada na associação de um estímulo que normalmente
não elícita uma resposta com outro que a elícita. O condicionamento operante
Aprendizagem baseada na associação do comportamento com suas consequências.
• A abordagem psicométrica mede as diferenças quantitativas nas habilidades que
compõem a inteligência, usando testes que indicam ou preveem essas habilidades.
Embora não haja um consenso científico claro sobre a definição de comportamento
inteligente, a maioria dos profissionais concorda que o comportamento inteligente é
orientado para uma meta e é adaptativo: direcionado para se adaptar às
circunstâncias e condições de vida. A inteligência permite às pessoas adquirir,
lembrar e utilizar conhecimento; entender conceitos e relações; e resolver os
problemas do quotidiano.

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• A abordagem piagetiana direciona-se para as mudanças, ou estágios, na


qualidade do funcionamento cognitivo. Pretende saber como a mente estrutura as
suas atividades e se adapta ao ambiente. Piaget elaborou assim, quatro estágios do
desenvolvimento cognitivo.
Sensório motor (do nascimento até aos 2 anos) – Devagar o bebê torna-se capaz
de organizar atividades em relação ao ambiente segundo as atividades sensorial e
motora. Pré-Operatório (dos 2 aos 7 anos) - A criança desenvolve um sistema
representacional e recorre a símbolos para representar pessoas, lugares e eventos. A
linguagem e o jogo imaginativo são fulcrais manifestações desse estágio. O
pensamento ainda não é lógico. Operatório-concreto (7 a 11 anos) - A criança é
capaz de resolver problemas logicamente se estiver focada no aqui e agora, mas não
consegue pensar abstratamente. Operatório-formal (11 anos até a idade adulta) - A
pessoa consegue pensar abstratamente, lidar com situações hipotéticas e pensar
sobre possibilidades.
• A abordagem do processamento de informação foca-se na percepção,
aprendizagem, memória e resolução de problemas. Tem como objetivo descobrir
como as crianças processam as informações do momento em que as recebem até
utilizá-las. Os investigadores do processamento de informação analisam
separadamente cada parte de uma tarefa complexa, como aquelas de busca de
objeto de Piaget, para tentar entender quais são as habilidades necessárias para
cada parte da tarefa e em que idade essas habilidades se desenvolvem. Também
medem aquilo a que os bebês prestam atenção, e por quanto tempo, e fazem
inferências com base nesses dados.
• A abordagem da neurociência cognitiva estuda as estruturas cognitivas do
cérebro. Examina o hardware do nosso sistema nervoso e procura identificar quais
são as estruturas do cérebro envolvidas em aspectos específicos da cognição. Alguns
pesquisadores têm utilizado técnicas de escaneamento do cérebro para determinar
quais as funções cognitivas afetadas por determinadas estruturas do cérebro e
mapear as mudanças no desenvolvimento. Esses escaneamentos fornecem
evidências físicas da localização de dois sistemas distintos de memória de longo
prazo – implícita e explícita – que adquirem e armazenam diferentes tipos de
informação. A memória implícita, desenvolve-se no ínicio da primeira infância, e

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refere-se à recordação que ocorre sem esforço ou mesmo inconscientemente; diz


respeito a hábitos e habilidades, por exemplo, saber como jogar uma bola – ou os
chutes de um bebê quando vê um móbile familiar. A memória explícita, também
chamada de memória declarativa, é a recordação consciente Durante a segunda
metade do primeiro ano, o córtex pré-frontal e circuitos associados desenvolvem a
capacidade para a memória de trabalho – o armazenamento de informações de curto
prazo que o cérebro está ativamente a processar e a utilizar. É na memória de
trabalho que as representações mentais são preparadas para armazenamento, ou
recuperadas.
• A abordagem sociocontextual examina os efeitos dos aspectos ambientais dos
processos de aprendizagem, particularmente o papel dos pais e de outros cuidadores.
Estudam de que forma o contexto cultural afeta as primeiras interações sociais que
podem promover a competência cognitiva. A participação guiada refere-se a
interações mútuas com adultos que ajudam a estruturar as atividades da criança e
preenchem a distância entre a compreensão da criança e a do adulto. A participação
guiada geralmente ocorre em brincadeiras compartilhadas e nas atividades normais
do dia a dia, quando a criança aprende informalmente as habilidades, o conhecimento
e os valores relevantes da sua cultura.

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1.3.Desenvolvimento da linguagem

A linguagem é um sistema de
comunicação baseado em
palavras e gramática.
Quando a criança conhece
as palavras, pode usá-las
para representar objetos e
ações. A criança pode refletir
sobre pessoas, lugares e
coisas; e pode comunicar as
suas necessidades,
sentimentos e ideias a fim de
exercer mais controle sobre
sua vida. Antes mesmo de
utilizar palavras, o bebê faz
as suas necessidades e
sentimentos serem
conhecidos por meio de sons
que evoluem do choro para o
arrulho e o balbucio, e então
posteriormente para a
imitação acidental e então
para a imitação deliberada.
Esses sons são conhecidos como fala pré-linguística. Também evolui a capacidade do
bebê de reconhecer e entender sons de fala e usar gestos significativos. É comum o bebê
pronunciar a sua primeira palavra por volta do final do primeiro ano de vida e começar a
falar utilizando frases entre oito meses e um ano depois.
O choro é o primeiro meio de comunicação do recém-nascido. Diferentes tons,
padrões e intensidades sinalizam fome, sono ou raiva. Os adultos têm aversão ao choro
por um motivo – motiva-os a encontrar a causa do problema e resolvê-lo. Assim, o choro
tem um grande valor adaptativo.

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Entre as 6 semanas e os 3 meses de vida, os bebés começam a produzir sons


quando estão contentes. O arrulhar inclui a produção de guinchos, murmúrios e sons
vocálicos como “ahhh”.
Entre os 3 e os 6 meses, os bebés estreiam-se a brincar com os sons da fala,
ajustando os sons que ouvem das pessoas que o rodeiam.
Entre os 6 e os 10 meses acontece o tagarelar – repetindo sequências de consoante-
vogal como “mama- mama” e geralmente é confundido com a primeira palavra do bebé.
Não é uma linguagem verdadeira, uma vez que não comporta significado para o bebé,
embora se torne mais parecida com as palavras.
Aos 9/10 meses de vida, os bebés imitam deliberadamente sons sem os
compreenderem.
A partir do momento em que possuem um repertório de sons, associam-nos em
padrões que soam como a linguagem, mas que parecem não ter qualquer significado. Aos
13 meses, as crianças utilizam gestos representacionais mais elaborados - por exemplo, é
capaz de levantar os braços para mostrar que quer ser pegada ao colo.
Gestos simbólicos, tais como soprar para significar “quente”, normalmente emergem
na mesma altura em que os bebés pronunciam as suas primeiras palavras; estes gestos
revelam que as crianças compreendem que os objetos e as ideias têm nomes e que os
símbolos podem referir-se a objetos, acontecimentos, desejos e circunstâncias específicas
do quotidiano.
Os gestos surgem geralmente antes de a criança ter um vocabulário de 25 palavras e
diminuem quando a criança aprende a palavra correspondente à ideia que está a
gesticular, podendo dizê-la, em vez de recorrer ao gesto. Em geral, os bebés começam
pelos nomes. Entre os mais vulgares contam-se o nome que a criança dá à pessoa que
cuida dela e a palavra que usa para se referir a gatos, cães, chávena ou biberão e comida.
O bebé, em média, pronuncia a primeira palavra algures entre os 10 e os 14 meses,
iniciando o discurso linguístico – expressão verbal que transmite um significado. Daqui a
pouco, o bebé irá usar muitas palavras e irá mostrar alguma compreensão de gramática,
de pronúncia, de entoação e de ritmo. Com 2 anos a criança pronuncia mais de 200
palavras. Quase todas as crianças percebem muitas mais palavras do que sabem dizer e
conseguem obedecer a instruções precisas, apesar de dizerem poucas palavras. Outras
dizem uma palavra quase ao mesmo tempo que sabem o que ela significa. A variação na
rapidez com que as crianças aprendem novas palavras e a nitidez da sua primeira fala
advém da sua capacidade de articular as palavras.

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Tal como as primeiras “palavras” são de facto sinais, também as primeiras frases são
combinações de sinais e de palavras. Ao apontar para um cão, a criança diz “au-au”. O
que ela poderá querer dizer é: “Olhem, está ali um cão!” Se estender as mãos e disser a
palavra “bolacha”, isso significa “Dá-me uma bolacha”.
Aos 21 meses a grande parte das crianças domina cerca de 200 palavras antes de
começar a falar por frases. É mais importante o número de palavras do que a idade. Assim
que o processo está em marcha, avança rapidamente. Não é impossível que uma criança
use 100 novas frases de duas palavras num mês.
As combinações que a criança faz exprimem posse (“casaco mamã”), ação (“carro
vai”), localização (“cadeira ali”), pedidos (“dar bolacha”), nome e ênfase (“aquela casa”) e
fazem perguntas (“o que é isto?”). A isto chama-se discurso telegráfico – forma primitiva de
frase que consiste apenas em algumas palavras essenciais, como a maioria dos
telegramas. Entre os 20 e os 30 meses, as crianças adquirem os fundamentos da sintaxe –
as regras para juntar frases na sua língua. Começam por utilizar artigos (o/a, um/uma),
preposições (no/na, em), conjunções (e, mas), plurais, terminações de verbos, tempo
passado dos verbos e a forma do verbo se.
Aproximadamente aos 3 anos, o discurso é fluente, mais extenso e complexo, embora
as crianças muitas vezes omitam partes do discurso, elas conseguem manter o seu
significado.

1.4. Desenvolvimento sócio-afetivo

A vinculação é uma ligação emocional recíproca e longa entre o bebé e a figura


parental, em que cada um colabora para a qualidade da relação. A vinculação tem um
valor adaptativo para o bebé, assegurando-lhe que as suas necessidades psicossociais e
físicas são satisfeitas. Na oitava semana de vida, os bebés dirigem alguns desses
comportamentos mais à mãe do que a outra pessoa. Estas aproximações são bem-
sucedidas quando a mãe responde calorosamente, expressa contentamento e oferece ao
bebé contacto físico frequente e liberdade para explorar. Tanto as mães como os bebés
colaboram para a segurança da vinculação segundo a sua personalidade e
comportamento, e através do modo como respondem um ao outro. A segurança da
vinculação desenvolve-se a partir da confiança; a insegurança da vinculação reflete
desconfiança.

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Os bebés com uma vinculação segura aprendem a confiar não apenas nas figuras
parentais, mas também na sua capacidade de obter aquilo que necessitam. Portanto, os
bebés que rabujam e choram e cujas mães respondem sossegando-os, tendem a ter uma
vinculação segura. Muitos estudos revelam que as mães de bebés com uma vinculação
segura tendem a ser sensíveis e responsivas. No entanto, a sensibilidade não é o único
fator importante. Igualmente importantes são os aspectos da atividade maternal como a
interação mútua, a estimulação, uma atitude positiva, calor humano e aceitação e apoio
emocional. Quanto mais segura for a vinculação da criança ao adulto, mais fácil parece ser
para a criança tornar-se independente desse adulto e desenvolver boas relações com os
outros.
O momento em que as crianças vão para a Creche ou Jardim-de-infância é o primeiro
distanciamento ou separação da presença permanente da mãe. Trata-se de um facto
importante não só para a criança como para a mãe e as dificuldades que nestes casos são
apresentadas dependem, sobretudo, do clima que os pais tenham criado. Quando a
criança reage com ansiedade, agarra-se à sua mãe e chora no momento em que tenta
deixá-la, é necessário prepará-la adequadamente. Todavia, a criança segura e confiante,
que foi habituada a sair com os seus pais, geralmente não apresenta nenhuma dificuldade
e aceita como natural esta separação temporal. Em muitas situações a grande parte dos
problemas que as crianças apresentam são consequência de questões não resolvidas por
parte dos pais. Desta forma, algumas mães não têm consciência de que são elas que se
agarram aos seus filhos, apesar de aparentemente darem a impressão de que desejam
levá-los para o jardim-de-infância. As lágrimas e os gritos da criança surgem como
resposta à ansiedade que percebe na sua mãe.
Nas últimas três décadas, o estudo das interacções e relações que as crianças e
adolescentes definem com os seus pares têm desempenhado um papel de relevo nos
domínios da psicologia clínica e da psicologia do desenvolvimento. É através das
interações que nos desenvolvemos enquanto humanos, e que aprendemos a
relacionarmo-nos com as outras pessoas que nos rodeiam. Para Vigostky é a interação do
individuo com o meio a característica definidora da constituição humana. A creche e o
jardim-de-infância são locais onde se favorecem as interações em grupo, através da
brincadeira ou de trabalhos realizados no ambiente que estão inseridas.
As interações entre as crianças despoletam desde muito cedo, apenas com alguns
meses de idade já se conseguem fixar nos pares e, mesmo não verbalizando com eles,
essa interação é percebida e importante. Ainda na creche as crianças já demonstram

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preferências por determinados pares, procurando-os para as suas brincadeiras. A escolha


dos pares pelas crianças é seletiva, elas preferem geralmente crianças aproximadamente
da mesma idade e do mesmo sexo. Esta escolha é estruturada, as crianças elegem as que
mais se aproximam a si enquanto pessoa, pela maneira de estar com os outros, e
sobretudo pelas preferências das brincadeiras. Todavia, mesmo sentindo-se bem a brincar
com outra criança, não significa que estas se tornem amigas, mas sim, companheiras de
brincadeira.
Vários são os fatores que podem influenciar a entrada da criança no grupo. Por
exemplo se a criança for tímida terá tendência a isolar-se muitas vezes do grupo, não
sendo convidada a participar nas atividades. Esta timidez pode tornar-se uma
preocupação, e o adulto poderá ser chamado para intervir, ajudando estas crianças a
interagirem umas com as outras, tentando perceber quais as capacidades que lhe faltam
para não ter essa confiança. Não há motivos para preocupações se a criança decidir
brincar sozinha, desde que, quando seja necessária uma interação, ela a realize de uma
forma eficaz e satisfatória.
É de máxima importância que exista uma boa interação entre o adulto e a criança pois
essa interação vai difundir na criança a construção da sua identidade. Os adultos devem
criar estratégias de interação positivas, estabelecendo relações com elas, brincando, e
ajudando no conflito social. Deste modo, as crianças começam a ter liberdade e confiança
para dialogar com o adulto. Esta interação entre adulto e criança deve estar relacionada
com a reciprocidade, ou seja, pela igualdade de direitos entre o adulto e a criança, no que
diz respeito também a atitudes autoritárias.
Os adultos ao partilharem o controlo e o poder com as crianças estão a criar uma
atmosfera de confiança e respeito mútuo. O adulto pode, e deve, ajudar as crianças a
realizar as atividades quotidianas que lhes são devidas, trabalhando com elas. As crianças
sentirão uma maior motivação ao realizar esse trabalho, irão encarar possíveis insucessos,
mas sentem-se confiantes pois têm o adulto do seu lado. Nesta partilha, ambos
conquistam algo de útil para o seu desenvolvimento, a criança aprende através da
experiência, e o adulto aprende também, acerca de cada criança, e como deve interagir
com cada uma delas para que as possa ajudar no seu desenvolvimento. É também
importante dar às crianças um reconhecimento positivo e específico, um feedback honesto
a comportamentos específicos ajuda as crianças a crescer e leva a mais mudanças do que
um comentário global do tipo ”bom trabalho”.

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Outro aspeto de realçar é a curiosidade e o ímpeto exploratório que consiste na


predisposição da criança para realizar novas aprendizagens durante a vida, através de
uma grande motivação intrínseca. Este conceito caracteriza-se ainda pela curiosidade e
abertura face ao mundo circundante, permitindo inúmeras formas de envolvimento e
concentração. O ímpeto exploratório encontra-se fortemente associado ao raciocínio e ao
pensamento conceptual matemático e é ele que impulsiona a compreensão do mundo
físico e social e desenvolve-se a capacidade de atribuir significado ao mesmo através da
construção de conhecimentos, constituindo-se uma das dimensões básicas do currículo.

2. Fatores condicionantes do desenvolvimento

De forma a que o desenvolvimento da criança passe por todas as áreas importantes,


a mulher (enquanto gestante) deve procurar fazer uma série de comportamentos
fundamentais que possibilitam o bom desenvolvimento intrauterino. Após o nascimento, a
criança deve, ver as suas necessidades nutricionais e de sono satisfeitas, sentir-se segura
e amada dentro do núcleo familiar e dispor de várias oportunidades de interação social em
ambientes construtivos, estimulantes e seguros.
O acompanhamento médico apropriado e a prevenção de situações de doença
constantes (ou compreensão face a doenças crónicas, por exemplo) parecem contribuir,
paralelamente com outras condições, para o bom desenvolvimento da criança, enquanto
suportes positivos de apoio.
O desenvolvimento da criança parece ocorrer através:
*da satisfação das necessidades básicas de saúde e higiene;
*do envolvimento afetivo;
*da convivência intensa; e
*da exposição contínua ao mundo do adulto.
O envolvimento do bebé em trocas internacionais significativas possibilita concretizar
uma das necessidades primárias da criança: o apego ou vinculação. Uma vinculação
segura depende de uma satisfatória estimulação interativa, de um parceiro previsível,
comunicativo e que transmita segurança. É desta forma que se diz que a fala materna
carinhosa, o contacto físico próximo, o colo e a amamentação natural têm (muito
provavelmente) efeitos surpreendentes no desenvolvimento. Por outro lado, a baixa
qualidade nas relações estabelecidas com os pais, caracterizadas como comportamentos

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hóstis, punitivos, autoritários, inconsistentes e a fraca afeição e atenção podem estar


estreitamente associados ao surgimento de problemas na criança ao nível do
desenvolvimento psicológico.
A mãe, em particular, sempre surgiu como figura central no mundo da criança.
Todavia, em poucas décadas, o pai começou também a marcar o seu lugar envolvendo-se
e participando ativamente na educação e nos cuidados prestados à criança. A presença da
figura paterna junto dos seus filhos enriquecem a autoimagem destes e contribuem para
um apoio familiar mais estável à criança. O apoio social dado pelos avós contribui,
paralelamente ao dos pais, para um crescimento saudável da criança. Estas figuras dão
um sentido de continuidade aos pais, um laço vital.Também os irmãos e outros membros
da família possibilitam a construção da estrutura básica Segundo a qual se desenvolve a
personalidade da criança. A partir da altura em que a criança ingressa num contexto de
acolhimento (creche), os educadores (e auxiliares ou amas) passam, também eles, a
representar figuras de referência com grande responsabilidade aos níveis da educação e
prestação de cuidados de saúde, higiene e segurança.
O desenvolvimento da criança é afetado por um conjunto de fatores que podem ser
promotoras ou assumirem-se como um risco para o desenvolvimento.
Como fatores promotores do desenvolvimento temos os seguintes:

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Como fatores de risco para o desenvolvimento temos:

Em síntese, tudo aquilo que é promovido para promover o bem-estar da criança


assume-se como um fator favorável ao desenvolvimento.
Sempre que surgirem obstáculos ou crises, cabe aos adultos auxiliar a criança na
descoberta das suas potencialidades e competências, a fim de que se construam os
alicerces pessoais de defesa, resiliência e autonomia, fundamentais ao aparecimento da
autoconfiança e da auto-motivação.

3. Problemas de desenvolvimento: sinais de alerta


O interesse pelo desenvolvimento infantil tem aumentado nos ultimos tempos.
Progressivamente, foi crescendo a noção da multiplicidade de factores que podem
influenciar o desenvolvimento da criança e foi-se, assim, obtendo uma maior capacidade
de distinguir estes diferentes aspectos e patologias.
Da ideia básica de que havia um «atraso do desenvolvimento psicomotor» ou
«atraso na fala», houve uma progressão para um melhor conhecimento das diferentes
áreas: a motricidade global (movimentos amplos dos membros), a motricidade fina
(coordenação óculo-manual), os sentidos (visão, audição, olfacto, paladar e tacto), a

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linguagem (compreensão e expressão), a cognição não verbal (realização de construções,


encaixes, etc.), o raciocínio prático (noções abstractas), o comportamento, as emoções, as
competências sociais e a autonomia.
No recém-nascido, os sinais de alerta para eventuais problemas de
desenvolvimento são: bebé demasiado rígido, irritável, com espasticidade global ou
localizada com reflexos osteotendinosos aumentados, pode ter uma lesão cerebral
periparto; a presença de assimetrias pode fazer-nos pensar em lesões localizadas e a
fontanela procidente com olhar em sol poente sinalizar hipertensão intracraniana; o recém-
nascido demasiado hipotónico, que não recupera a sua posição em semi-flexão dos
membros, que não tem bons reflexos primitivos, ou seja, presentes e simétricos, e que tem
reflexos osteotendinosos fracos ou abolidos e dificuldade na regulação do sono pode ter
patologia metabólica ou neuromotora e deve ser referenciado; Não esquecer, no entanto,
que se o recém-nascido está a dormir, se acabou de comer ou se é prematuro pode ter
esta hipotonia sem patologia subjacente. Assim como se estiver com fome pode mostrar-
se tão irritado que se torna hipertónico. No entanto deve ser reavaliado em breve e
ponderada a necessidade de referenciação.
Entre as 4 e as 6 semanas são sinais de alarme: Ausência de tentativa de controlo
cefálico; Hiper ou hipotonia; Não segue a face humana ou o olho de boi ou apresenta
movimentos erráticos dos olhos; Não vira os olhos para o som (mesmo da voz humana),
parecendo não reagir ao mesmo; Dificuldade em se manter alerta com transições abruptas
entre o sono e a irritabilidade, revelando má regulação dos estádios.
Aos três meses de idade é sinal de alarme se o bebé: não fixa nem segue objectos,
nem mesmo a face humana; não vira os olhos para o som (sobretudo com a voz humana);
não sorri; não tem controlo cefálico; mãos sempre fechadas, não as abrindo mesmo se
estimulado o dorso da mão; Membros rígidos em repouso, espástico; sobressalto ao menor
ruído; chora e grita quando se toca; Pobreza de movimentos; mais uma vez estes sinais de
alarme ajudam a detectar patologia periparto, metabólica ou défices sensoriais graves.
Aos 6 meses é sinal de alerta: Ausência de controlo cefálico; membros inferiores
rígidos, com passagem directa à posição de pé quando se tenta sentar, revelando
espasticidade; não olha nem pega em objectos, o que pode ser por défice sensorial, por
falta de interesse na exploração ou por incapacidade motora para o fazer; assimetrias
(usar só uma mão, por exemplo, pode ser sinal de patologia localizada cerebral – acidente
vascular cerebral ou atrofia cortical localizada pós asfixia); não reage aos sons por surdez
ou desinteresse; não vocaliza, silencioso ou muito monocórdico; desinteresse do ambiente,

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não estabelece contacto, apático; Irritabilidade, estremece sempre que é tocado;


estrabismo manifesto e constante; persistência de reflexos primitivos.
Por volta dos 9 meses é sinal de alarme se o bebé: não se senta; permanece imóvel
e não tenta mudar de posição; assimetrias, posturais ou de movimentos; estrabismo,
mesmo que inconstante; sem preensão palmar e não explora objectos oralmente; não
reage aos sons; vocaliza monotonamente ou deixa de vocalizar; apático e sem reacção
aos familiares; engasga-se com facilidade.
Aos 12 meses é sinal de alarme se o bebé: não aguenta o peso nas pernas, por
hipotonia; não se senta; permanece imóvel e não tenta mudar de posição; assimetrias;
estrabismo; não pega nos brinquedos ou fá-lo só com uma mão; não faz pinça fina.
Cerca dos 15 meses, assume-se com sinal de alerta: ausência de tentativa de se
deslocar ou de explorar o ambiente; exploração dos objectos ainda prioritariamente oral;
não faz sons variados e polissílabos, não tenta imitar o som do adulto; não faz pinça fina e
não usa funcionalmente os objectos; não aponta ou tenta usar o gesto como suporte da
comunicação; não cumpre ordens simples.
Aos 18 meses é sinal de alarme se o bebe: não se põe de pé, anda em pontas; não
anda; assimetrias; não faz pinça fina, atira objectos ou leva-os sistematicamente à boca,
não apresentando uso funcional; ausência de resposta à voz, não vocaliza
espontaneamente, não tem a palavras perceptíveis; não se interessa pelo que o rodeia,
não estabelece contacto e não apresenta intencionalidade comunicativa; não cumpre
ordens.
Aos 2 anos é alarmante se o bebé: não anda ou anda sistematicamente em pontas,
o que pode ser um sinal de hipertonia distal dos membros inferiores ou alertar para
aspectos comportamentais (por ser uma estereotipia); deita objectos fora e não constrói
nada; não parece compreender o que lhe dizem; não tem palavras inteligíveis; não procura
imitar, não se interessa pelo meio e pelas pessoas e não tenta interagir; não aponta, não
pede, não mostra; birras desajustadas em frequência e intensidade ou sem motivos
aparentes.
Por volta dos 3 anos é alarme se: anda sistematicamente em pontas; mantém
flapping dos braços quando excitado. Este comportamento pode ser normal até esta idade,
desde que seja isolado e não associado a outras estereotipias, mas deve desaparecer a
partir dos três anos; não parece compreender o que lhe dizem, não junta duas palavras;
não usa funcionalmente os objectos e não tenta fazer algo construtivo ou criativo; não tenta

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interagir com os outros, não socializa, não mostra, não partilha, não pede; não usa o gesto
como suporte da comunicação no caso de dificuldades na expressão verbal.

4. Crianças com alterações nas funções ou estruturas do corpo ou com risco


grave de atraso de desenvolvimento

O ritmo de desenvolvimento varia de criança para criança. Desta forma, muitas


vezes é difícil separar o que é uma particularidade e o que é um verdadeiro atraso no
desenvolvimento, que possa estar a ser desencadeado por alguma condição que necessite
ser investigada e resolvida.
A observação dos pais e das pessoas mais próximas da criança é a melhor forma
de identificar eventuais atrasos. Caso seja observado algum problema, as intervenções
médicas ou terapias específicas ajudam a diminuir eventuais prejuízos futuros,
especialmente se começarem cedo.
A percepção dos fatores de risco que podem conduzir ao atraso no
desenvolvimento, é indispensável para a implementação de recursos que visem diminuir a
sua incidência ou diminuir os seus efeitos quer na criança como na família.
Defende-se a existência de três tipos de condição de risco para o atraso no
desenvolvimento da criança: o risco estabelecido, relacionado com as desordens médicas
definidas, particularmente as de origem genética; a de risco biológico, referindo-se a
eventos pré, peri e pós-natais, que resultam num dano biológico e que podem aumentar a
probabilidade de comprometer o desenvolvimento, e, finalmente, o risco ambiental
relacionado com as experiências de vida associadas às condições precárias de saúde, à
falta de recursos sociais e educacionais, aos eventos de stress familiar e às práticas
inadequadas de cuidado e educação.
Os médicos usam o termo "atraso no desenvolvimento" quando uma criança não
atinge alguns dos marcos do desenvolvimento com a idade esperada, mesmo já levando
em conta as variações individuais. O atraso pode ocorrer em uma ou mais áreas:
Coordenação motora ampla (habilidades físicas como rolar, sentar e andar); Coordenação
motora fina (capacidade de segurar as coisas, manipular objetos) ; Linguagem e fala (tanto
a compreensão quanto a fala); Habilidades sociais (relacionamento com outras pessoas);
Capacidade de autocuidado (vestir-se, usar o banheiro).
Em algumas situações, o atraso no desenvolvimento tem uma causa médica
identificável, como complicações de um nascimento prematuro ou uma condição genética

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como a síndrome de Down ou outras síndromes. Também pode ser causado por algum
acidente ou doença. Problemas na fala e na linguagem podem ser causados
por dificuldade de audição, questões físicas ou neurológicas ou ainda transtornos
cognitivos.
As crianças com alterações nas funções ou estruturas do corpo que podem
conduzir a um grave risco de atraso no desenvolvimento são:

*Crianças com deficiência músculo-esquelética


As deficiências músculo-esqueléticas dizem respeito às alterações mecânicas e
funcionais do rosto, cabeça, pescoço, tronco e membros, bem como os défices destes
últimos. Exemplos destas deficiências são: deficiências mecânicas e motoras dos
membros superiores, inferiores, ou de ambos; paralisia espática de mais de um membro
(hemiplegia, paraplegia e tetraplegia); alterações motoras com repercussão na articulação
e ritmo da linguagem; dificuldades específicas em manter o equilíbrio; descoordenação
motora de uma ou várias partes do corpo. É frequente associar-se a deficiência motora à
utilização de cadeira de rodas, no entanto, diversas outras técnicas podem ser necessárias
para facilitar a mobilidade, tal como canadianas, próteses e bengalas.

*Crianças com deficiência Visual


A deficiência visual relaciona-se com um dano no sistema visual ou global e pode
variar consoante as causas (traumatismo, doença, malformação, nutrição deficiente) e/ou
natureza (inata, adquirida ou hereditária), traduzindo-se numa diminuição ou numa perda
da capacidade para executar tarefas visuais (ler, reconhecer rostos).
A deficiência visual abrange duas grandes categorias: a cegueira e a ambliopia. A
cegueira refere-se a quando uma criança tem potencial visual mas que pode, algumas
vezes, ter uma perceção da luminosidade. A ambliopia, também conhecida por baixa visão,
refere-se a uma reduzida capacidade visual - qualquer que seja a origem - e que não
melhora através de correção ótica.

*Crianças com deficiência Auditiva


A deficiência auditiva está relacionada com a perda parcial ou total da capacidade
de ouvir. Considera-se surda toda a criança cuja audição não é funcional no seu dia a dia;
pelo contrário considera-se parcialmente surda aquela criança cuja capacidade de ouvir,
mesmo que deficiente, é funcional, com ou sem prótese auditiva.

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*Crianças com problemas de aprendizagem- dislexia

“A dislexia é uma dificuldade de aprendizagem específica de base neurológica, que


implica: dificuldades no correto e/ou fluente reconhecimento de palavras e/ou pobres
capacidades de descodificação e problemas na ortografia; défice na componente
fonológica; dificuldades inesperadas relativamente a outras competências cognitivas e a
um ambiente escolar favorável; problemas na compreensão da leitura e reduzida
experiência de leitura (…).”
A dislexia está associada a uma dificuldade relacionada com alterações
neurológicas, sendo muitas vezes confundida com desinteresse, desmotivação, falta de
inteligência.

*Crianças com Síndrome de Asperger

“a Síndrome de Asperger é uma perturbação neurocomportamental de base


genética, pode ser definida como uma perturbação do desenvolvimento que se manifesta
por alterações sobretudo na interação social na comunicação e no comportamento.
Embora seja uma disfunção com origem num funcionamento cerebral particular, não existe
marcador biológico, pelo que o diagnóstico se baseia num conjunto de critérios
comportamentais”.
Alguns dos sintomas que as crianças com Síndrome de Asperger podem manifestar
são: dificuldade na comunicação; dificuldade no relacionamento social; dificuldade no
pensamento abstrato; interesses limitados; comportamentos rotineiros; peculiaridade do
discurso e da linguagem; perturbação na comunicação não verbal; descoordenação
motora.

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Bibliografia

Becker, S., Bandeira, C., Ghilardi, R., Hutz, C., Piccinini, C. (2013). Psicologia do

Desenvolvimento Infantil: Publicações Nacionais na Primeira Década do Século

XXI. Psico, 44(3), 372-381.

Filipe, L., Pereira, P., & Alves, S. (2014). Necessidades Educativas Especiais: manual

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Pinto, M. (2009). Vigilância do desenvolvimento psicomotor e sinais de alarme.

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Silva, T. (2013). Relatório de estágio de mestrado (Doctoral dissertation).

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