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CAP 6 – CAPITAL CONSTANTE E CAPITAL VARIÁVEL

Os diversos elementos do processo de trabalho desempenham papéis diferentes na formação dos valores dos
produtos.

O trabalho acrescenta ao objeto de trabalho novo valor, por meio do acréscimo de determinada quantidade
de trabalho. Já os valores dos meios de produção consumidos reaparecem como partes componentes do valor
do produto.

“Apenas por adicionar valor novo, conserva o antigo. O acréscimo de valor novo ao material de trabalho e
a conservação dos valores antigos no produto são dois resultados totalmente diversos produzidos pelo
trabalhador ao mesmo tempo, embora execute apenas um trabalho” (MARX, 2016, p. 235).

O trabalhador acrescenta valor ao produto através de um trabalho útil particular, uma determinada atividade
transforma valores de uso dos objetos de trabalho em novo valor de uso. A velha forma do valor de uso
desses objetos desaparece para reaparecer sob nova forma.

Ex. O trabalho do fiandeiro é transformar os valores de uso do algodão e meios de produção em fio.

A mais-valia relaciona-se ao tempo de trabalho dispendido e não ao tipo de trabalho.

“Acrescenta valor, portanto, com o seu trabalho, não por ser trabalho de fiação ou de marcenaria, mas
apenas por ser trabalho abstrato social. Acrescenta determinada magnitude de valor, não por possuir seu
trabalho conteúdo útil particular, mas porque dura um tempo determinado. O trabalho do fiandeiro, por sua
propriedade abstrata geral de dispêndio de força humana de trabalho, acrescenta aos valores do algodão e
do fuso valor novo e, por sua propriedade concreta especial, útil, característica do processo de fiação,
transfere o valor desses meios de produção ao produto, preservando-o no produto. Daí a dupla natureza do
resultado obtido ao mesmo tempo” (MARX, 2016, p. 236).

Imagine que uma nova invenção permita que um fiandeiro produza em 6 horas 36 kg de fio (6 vezes mais
que antes de tal invenção):

Quando a JORNADA DE 6 HORAS – PRODUZ 6 KG DE FIO


Consome:
6 kg algodão – R$ 10,00
Agulhas – R$ 2,00
6 horas trabalho – R$ 3,00
Valor de 6 kg de fio – R$ 15,00 (representando 2 dias e meio de trabalho)

Valor do Kg de fio – R$ 2,50


Mais-valia (jornada diária 12 h) – R$ 3,00
Valor criado por Kg de fio1 – R$ 0,50

JORNADA DE 6 HORAS – PRODUZ 36 KG DE FIO

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Esse valor consiste no valor da força de trabalho + mais-valia.
Consome:
36 kg algodão – R$ 60,00
Agulhas – R$ 12,00
6 horas trabalho – R$ 3,00
Valor de 36 kg de fio– R$ 75,00 (representando 12,5 dias de trabalho)

Valor do Kg de fio – R$ 2,08


Mais-valia (jornada diária 12 h) – R$ 3,00
Valor criado por Kg de fio2 – R$ 0,08

“Nas 6 horas de fiação conserva-se e transfere-se ao produto um valor de matéria-prima seis vezes maior,
embora se acrescente a cada quilo de matéria-prima um novo valor seis vezes menor. Isto demostra que a
propriedade por meio da qual o trabalho conserva valores é essencialmente diversa da propriedade pela
qual, no mesmo processo indiviso, produz valor. Quanto maior o tempo de trabalho necessário aplicado à
mesma quantidade de algodão pelo fiandeiro, maior o valor novo que se acrescenta ao algodão, e, quanto
maior a quantidade de algodão fiada no mesmo tempo de trabalho, maior o valor antigo que se preserva no
produto” (MARX, 2016, p. 237).

Se a produtividade da fiação não variar, mas o valor dos meios de produção se elevarem, o valor que estes
transferirão a mesma quantidade de fio se elevará.

Suponha que por uma quebra de safra reduza a produtividade da plantação de algodão à metade. O valor de
6kg de algodão subirá de R$ 10,00 para R$ 20,00. Uma jornada de 6 horas continua resultando em 6 kg de
fio, mas o valor do algodão transferido ao fio dobrará.

JORNADA DE 6 HORAS – PRODUZ 6 KG DE FIO


Consome:
6 kg algodão – R$ 20,00
Agulhas – R$ 2,00
6 horas trabalho – R$ 3,00
Valor de 6 kg de fio – R$ 25,00 (representando 4,17 dias de trabalho)
O oposto ocorre caso os meios de produção tornem-se mais baratos.

Marx descreve como os valores dos meios de produção são incorporados ao produto ao mesmo tempo que
perdem a figura original de seus valores de uso.

Alguns materiais auxiliares desamparem na produção sem deixar vestígio – carvão, óleo lubrificante de
máquinas etc.

Outros materiais auxiliares desamparem na produção, reaparecendo nas qualidades dos produtos – tintas, por
exemplo.

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Esse valor consiste no valor da força de trabalho + mais-valia.
A matéria-prima muda de forma ao constituir a substância do produto.

Ferramentas, máquinas, edifícios de fábricas não perdem sua figura original, mas seu valor de uso será
consumido inteiramente na produção durante sua vida útil.

Por experiência, sabe-se quanto tempo dura um instrumento de trabalho. Suponha que ele dure 10 anos, cada
dia ele perde em média 1/3650 de seu valor de uso e cede, por isso, 1/3650 de seu valor ao produto diário. É
deste modo que se computa o desgaste de todo o instrumento de trabalho; à perda diária que ocorre no seu
valor de uso (depreciação) corresponde a uma transferência diária de valor ao produto.

“[...] um meio de produção não transfere ao produto mais valor que o que perde no processo de trabalho
com a destruição do próprio valor de uso. Se não tiver nenhum valor a perder, isto é, se esse instrumento
não for ele mesmo produto do trabalho humano, não transferirá valor ao produto. Terá servido para criar
valor de uso sem criar valor de troca. É o que sucede com todos os meios de produção oferecidos pela
natureza sem qualquer intervenção humana, tais como a terra, o vento, a água, o ferro nas minas, a madeira
na floresta virgem etc.” (MARX, 2016, p. 239).

A máquina entra inteira no processo de trabalho, mas só em parte no processo de produzir valor, pois sua
força decresce aos poucos.

Inversamente, pode um meio de produção entrar inteiramente no processo de formar valor e apenas
parcialmente no processo de trabalho.

“Os meios de produção só transferem valor à nova figura do produto na medida em que perdem valor na
figura de seus valores de uso originais durante o processo de trabalho. O máximo de perda de valor que
podem experimentar no processo de trabalho está, evidentemente, limitado pela magnitude do valor original
com que entram no processo de trabalho, ou seja, pelo tempo exigido para a sua própria produção. [...] Seu
valor não é determinado pelo processo de trabalho em que entra como meio de produção, mas pelo processo
de trabalho do qual sai como produto” (MARX, 2016, p. 241).

O dinheiro investido na produção de mercadorias para a venda, o capital (C) decompõe-se em duas partes:

Capital Constante (c): corresponde a parcela do capital convertida em meios de produção (matéria-prima,
instrumentos de trabalho etc.). A magnitude do valor destes não muda no processo de produção.

Capital Variável (v): corresponde a parcela do capital convertida em força de trabalho. A magnitude do valor
desta altera-se no processo de produção. Reproduz o próprio equivalente e, além disso, proporciona um
excedente, a mais-valia, que pode variar.

As mesmas partes do capital podem ser analisadas:

1. Do ponto de vista do processo de trabalho: Distinguem-se em elementos objetivos (meios de


produção) e subjetivos (força de trabalho);
2. Do ponto de vista do processo de produzir mais-valia: Distinguem-se em capital constante (meios de
produção) e capital variável (força de trabalho);

Uma mudança no valor dos meios de produção não altera o seu caráter de capital constante.