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Afinal, “tradição” é a matéria que cabe a uma história da literatura

ordenar. Escrever história da literatura implica uma maneira de perceber e de


ordenar o
tempo que está marcada pela busca e recuperação do passado, de modo a
reordená-lo simbolicamente em face do presente não apenas segundo um
sentido de ruptura, mas, sobretudo, de continuidade. É isso que permite
ao historiador estabelecer, de modo mais ou menos arbitrário (conforme
as convenções da época), uma cadeia evolutiva relativamente coesa para
realizações literárias diversas. Assim, obras produzidas em contextos muito
diferentes e sem relações internas necessárias entre si são qualificadas como
“nacionais”, enquanto várias outras são excluídas desse cânone (cf. Mallard,
1994; Moreira, 2003; Sussekind e Dias, 2004

Neste sentido, alargam-se as fronteiras das reflexões acerca da


identidade e, assim,inicia-se um processo de desestabilização dos gestos
narrativos unilateralistas das nações, quetendiam a criar um panorama restrito
daquilo que faz parte ou não de seu conjunto simbólico. Começam a existir, pois,
maneiras de se contar/relatar a nação sob diferentesperspectivas. E assim como
Hall (2014) nos aponta que o sujeito pós-moderno passa por umacrise de
identidade, consequentemente as nações também passam a ser recontadas
erepresentadas de maneira mais complexa. Passam a ser contadas também por
vozes até entãosilenciadas ou mesmo enrouquecidas pelo tom homogeneizante
de uma representaçãosimbólica estanque e unilateralista, cultivada ao longo de
décadas.O discurso homogeneizante da Nação é, sem dúvidas, excludente, pois
não consideratodas as complexidades, as diferenças e problemáticas que nela
residem. E é tambémperigoso, pois de tanto ser reproduzido, cristaliza-se e
instaura uma maneira de o indivíduo seperceber como membro dela. Se há
identificação dos membros com os símbolos postos comonacionais, tudo
resolvido, mas quando não há, pulula a sensação de não pertencimento,
deestranhamento, de peça descolada.
A citação de Hall reitera o que se busca expor sobre a força do discurso nacional
noestabelecimento da noção do que é ser integrante de uma comunidade. É
esse discurso queconstrói pontes de identificação entre os sujeitos e os símbolos
da Nação. Esse processo é deuma força sobrecomum. Contudo, por não abarcar
todos os modos de existência na nação,torna-se excludente e urgentemente
necessário de ser revisto. Surgem, então, o que Bhabhachamará de contra
narrativas da nação

Segundo Bhabha (1998), assim como já falou Hall, a nação é discurso. Logo, a
naçãoé narração. O autor indiano nos aponta duas modalidades narrativas: uma
pedagógica, cujoobjetivo é quase mítico, pois busca na inventividade fundacional
sua razão de existir e a outraperformativa, aquela que questiona a tradição
simbólica paradigmática da nação, rasurando-ae dando voz a grupos
marginalizados/excêntricos

Essa mudança de perspectiva acerca da nação, mais ampla e complexa,


reclamadacom o aparecimento de narrativas a partir de vozes marginalizadas ou
desconsideradas atéentão, amplificam nossos horizontes sobre o que de fato é
a Nação. Esse novo olhar nos impõe implacavelmente que consideremos a
existênciadiversificada de culturas, identidades e grupos diferentes, mas
também dos acirramentosconstantes entre eles na composição da ideia naciona

século XX e na contemporaneidade, a tendência é que nação passe a ser


entendidade modo mais amplo, considerando as diferentes e complexas
possibilidades de existência. A ideia de nação passa a ser duplicada, então. Não
deixam de existir as narrativaspedagógicas que repõem os símbolos-emblemas
consagrados da identidade nacional, mas elasconcorrem com as narrativas
performativas que tentam dar conta das franjas existentes nasociedade.Diante
dessas formulações teóricas, procurarei analisar, discorrer e refletir em
quaismedidas as produções literárias selecionadas apresentam traços de uma
narratividadepedagógica ou performativa, ao representar e vocalizar o negro e o
mestiço no panorama dasociedade brasileira do século XIX, tempo em que se
situam as tramas, mas que foramproduzidas posteriormente, a de Amado no
século XX e a de Penna no século XXI.
Entretanto, embora existam peculiaridades contextuais de cada obra, a
questãotemática motivadora dessa pesquisa é muito presente nas duas
produções escolhidas comoobjeto de análise. Isso significa dizer que tanto
Amado quanto Penna trazem uma propostanarrativa do Brasil, via representação
étnica, muito diferente do que comumente se viu emnossa literatura. Cabe-nos
pensar, então, como a nação brasileira é relatada nessas duasnarrativas,
partindo, notadamente, da investigação acerca da representação da etnicidade
donegro e do mestiço e seus espaços de articulação e poder

(A busca pela respots talvez)(o sera ) O que nosleva a pensar como a literatura
funciona como espaço discursivo de constante significação,mas, acima de tudo,
de ressignificação em seu processo representativo da sociedade

O que estava em questão era a reconfiguração da tradição artística ocidental e


o redirecionamento da imaginação

Como essa "moderna tradição" foi encampada em terras brasileiras ? Como foi
percorrido o campo das tensões ?interessa analisar, enfim, como as idéias foram
experimentadas, decodificadas e integradas passando a forjar
novasinteligibilidades, sensibilidades e configurações culturais. Polissêmica,
multifacetada e extremamente dinâmica nasua capacidade de articular e
combinar valores, a brasilidade modernista marca-se pela confluência de
distintastradições e temporalidades

Repensar a "tradição da ruptura", como observa Otavio Paz, implica em repensar


o tempo, história, ética e poética
Essa é uma outra questão obrigatória na pauta de discussão do
modernismo brasileiro. A capacidade de construirnovas inteligibilidades
articuladoras ampliando-se o patamar do moderno brasileiro

Cabe destacar a historicidade que marca a construção desse imaginário


Uma "história das confluências" possibilita trafegar por ambas vias,
considerando que elas se fertilizamreciprocamente na sua articulação com o
presente
Essa proposta de pesquisar, preservar, e combinar novos materiais em sintonia
com a memória e identidades

(Eixo introdutório)A Literatura é entendida como a arte de criar e recriar textos;


de compor ou estudar escritos artísticos; o exercício da eloquência e da poesia;
o conjunto de produções literárias de um país ou de uma época. É além disso o
retrato da atividade humana, gerada pelas manifestações socioculturais de uma
população em um determinado tempo e espaço social

Contudo, ao pensarmos sobre a nação, vemos que a construção de uma


identidade única é sempre problemática e inacabada