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Anotações de aula- Eclesiologia 09/07/19

1. Etimologia da palavra Ekklesía - Origem histórica do termo

O termo Igreja no N.T é tradução da palavra grega Ekklesía, que é a junção da


preposição Ek (que indica movimento para fora de); e o verbo Kaleo (chamar, convocar,
convidar)1. A partir destes dados linguísticos, podemos afirmar que a palavra Ekklesía é:
reunião de pessoas em assembleia. Na Grécia antiga os cidadãos reuniam-se na Ágora1
que era um espaço público destinado a discussões de políticas públicas. Participavam
destas assembleias, cidadãos gregos que tinham acima de vinte um ano de idade. Aquele
era o local onde se exercia a democracia no mundo grego, de modo especial em Atenas 2
que ocupava lugar de destaque nestas questões.

2. Novo Testamento (Rm 16.1; At 18.22; ICo 14.4)

No Novo testamento a palavra Ekklesía aparece 114 vezes, só nas cartas de Paulo, há
cerca de sessenta e cinco ocorrências. Seu uso é comum e aparece em diversas
situações tais como, para designar ajuntamento de pessoas em assembleia para
discutir questões de carácter sócio-políticos (At 19.32,39), bem como para se referir a
congregação/Igreja local (Rm 16.16); Igreja no sentido universal (Mt 16.18). Sendo
assim, nota-se que a palavra foi usada de modos diversos e em várias situações, não se
restringindo a vida religiosa, mas tendo seu uso bem antes da era cristã.

A partir das afirmações acima, chega-se à conclusão que etimologicamente os


escritores do Novo testamento, tomaram o termo Ekklesía por empréstimo da língua
grega e, aplicaram ao ajuntamento e reuniões dos primeiros cristãos, nascendo daí um
conceito de Ekklesía com características estritamente neotestamentárias.

Podemos a partir de tudo já dito, conceituar Igreja como uma congregação de cristãos,
que tem como fundamento de vida e prática os ensinos de Cristo, e partindo destes,
uma vida de intensa interação e comunhão (At. 2.42-47)

2
3. Antigo Testamento

A palavra igreja não aparece no antigo testamento hebraico, porém, isso não indica a
ausência da ideia de Igreja no texto veterotestamentário, mas sim, que ali está presente, de
modo, peculiar, pois, a Igreja de Cristo é junção de crentes do passado, presente e futuro.
Vejamos abaixo os termos que apontam para a presença da Igreja no A.T.

3.1 Bíblia Hebraica

No A.T as palavras utilizadas para expressarem a ideia de uma congregação é ( qahal), que
foi traduzida na Septuaginta por Sunagogens (Nm 14.5; Nm 1.16; Ex 16.9; 17.1) que vem
a significar "reunir", "ajuntar", este ajuntamento geralmente tem fim religioso. Outro
termo utilizado é ('edah), que foi traduzido para o termo Ekklesía Nm 14.7; que quer dizer
"congregação" ou "assembleia". O primeiro, passou a ser utilizado para representar mais a
congregação de judeus, já a segunda utiliza-se mais, para a congregação dos cristãos.

4. Igreja Invisível/ Visível

A Igreja de Cristo é única e indivisível na história, contudo, para uma melhor


compreensão de sua natureza divino-humana, é necessário observá-la em
perspectivas diversas. Ao fazer tal exame, iremos notar de modo mais preciso sua
extensão e profundidade, tanto nas questões de carácter espiritual, como humano. A
igreja será vitoriosa, pois, esta foi a promessa do Messias:

“Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e
as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt. 16.18)NAA

A igreja está fundamentada em Cristo e, Nele vive e tem sua esperança alicerçada (Jo
14.1-3); Cristo é a cabeça da Igreja (Cl 1.18). Além do que já foi mencionado acima,
pode-se afirmar da Igreja, que ela foi planejada antes da história humana (Ef 1.4), e
que foi enviada ao mundo como o próprio Cristo foi enviado pelo Pai; destarte Cristo
foi o apostolo de Deus, bem como a Igreja e apostolo de Cristo (Jo. 17.17-18).

4.1 Conceito de Igreja na Tradição2 na perspectiva reformada

O cristianismo tem suas fontes de revelação, nós como protestantes confessamos


abertamente o conceito de sola scriptura3, criado e desenvolvido pelos pais
reformadores, no entanto, o reconhecimento de fontes secundárias e subordinadas as
escrituras sagradas, são permitidas com as condições citadas. Neste sentido, a tradição
protestante reconhece como fontes teológicas os credos, confissões e catecismos;
dentre estes citemos abaixo o credo apostólico.

 Credo Apostólico:3

Creio em Deus Pai, Todo-poderoso, Criador do Céu e da terra.

Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, o qual foi concebido por
obra do Espírito Santo; nasceu da virgem Maria; padeceu sob o poder de Pôncio
Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; ressurgiu dos mortos ao terceiro dia;
subiu ao Céu; está sentado à direita de Deus Pai Todo-poderoso, donde há de vir
para julgar os vivos e os mortos.

Creio no Espírito Santo; na Santa Igreja Universal; na comunhão dos santos; na


remissão dos pecados; na ressurreição do corpo; na vida eterna. Amém.

 Confissão de Fé e catecismo maior de Westminster

No capítulo XXV artigos de I a VI trata-se acerca da Igreja, ali há referências a


duas formas de enxergamos a noiva de Cristo, o capítulo I, aponta o caráter
invisível da Igreja, vejamos abaixo:

I. A Igreja Católica ou Universal, que é invisível, consta do número total dos eleitos que já
foram, dos que agora são e dos que ainda serão reunidos em um só corpo sob Cristo, seu
cabeça; ela é a esposa, o corpo, a plenitude daquele que cumpre tudo em todas as coisas.

3
Ef. 1: 10, 22-23; Col. 1: 18.

II. A Igreja Visível, que também é católica ou universal sob o Evangelho (não sendo restrita
a uma nação, como antes sob a Lei) consta de todos aqueles que pelo mundo inteiro
professam a verdadeira religião, juntamente com seus filhos; é o Reino do Senhor Jesus, a
casa e família de Deus, fora da qual não há possibilidade ordinária de salvação.

I Cor. 1:2, e 12:12-13,; Sal .2:8; I Cor. 7 :14; At. 2:39; Gen. 17:7; Rom. 9:16; Mat. 13:3 Col.
1:13; Ef. 2:19, e 3:15; Mat. 10:32-33; At. 2:47.

Catecismo maior de Westminster- Cap 61 a 65

Igreja sua missão neste mundo...

Iniciamos esta reflexão analisando a origem do termo Igreja, buscamos suas raízes
históricas, bem como o seu desenvolvimento na curva do tempo. Logo em seguida,
voltamos o olhar para a natureza da Igreja, e dentro da sua estrutura divino-humana,
compreendemos o aspecto visível e invisível pertinente a sua essência. Porém, para uma
noção mais ampla em relação à Igreja, é necessário continuarmos mergulhando, pois, as
águas devem ir além dos tornozelos, só em águas mais profundas, e com os pés sem tocar
o chão é que iremos de fato desfrutar a beleza da noiva de Cristo. E para a execução desta
tarefa, precisaremos discutir e considerar a missão da Igreja.

Para início de conversa, cabe perguntar neste momento, se de fato há uma missão
da Igreja e, se existir, que missão é esta? No entanto, ainda se faz mister, saber quem deu a
missão a Igreja? Estas entre outras questões serão suscitadas aqui, neste trabalho tentarei a
luz da Bíblia e da teologia, buscar uma resposta sensata.
A igreja tem uma missão?

Por missão entende-se que uma incumbência foi dada a alguém a pedido ou por
ordem. Enfim, há uma responsabilidade sobre os ombros daquele que recebeu a missão, e
este deve a partir deste momento, assumir seu dever e trabalhar para que sua parte seja
realizada. Ao verificarmos o conceito acima, cabe perguntar se a Igreja tem uma missão?
A resposta de imediato é sim! Ela tem uma tarefa a realizar, uma missão a cumprir, e isso,
fica evidente quando analisamos as palavras do próprio filho de Deus na grande comissão
(Mt 28. 19,20; Mc 16. 15-18). Nos textos citados acima, é patente o comissionamento da
Igreja. O ide é direcionado a toda a Igreja.

Um fato dentre muito importante a se destacar na missão que pesa sobre os


ombros da congregação dos santos, ela recebeu por delegação esta missão, não pertence
originalmente à igreja, mas, é de propriedade do próprio Deus (Jo 17.4). A Igreja realiza a
missão de Deus, mas, que foi delegada por Jesus Cristo à sua amada Igreja (Jo 17.18,
20.21). Destarte, a obra em essência pertence ao Deus Trino, que a planejou antes da
fundação da história humana (Ef 1. 1-15, Ap 13.8).

Quando lemos a oração sacerdotal de Jesus no evangelho de João, Ele declara que
foi enviado pelo Pai ao mundo e, que do mesmo modo, enviaria a Igreja ao mundo. O
texto citado apresenta aos leitores do evangelista uma clara indicação de que a Igreja
passa a ter uma missão, e que esta, executará nesta tarefa parte daquilo que Cristo fez
quando encarnou neste mundo, ou seja, ela terá como parâmetro a própria missão de
Jesus, realizada e ensinada por Ele no seu ministério terreno. Em resumo, podemos a partir
do ide afirmar que a missão da Igreja tem como foco a glorificação do Pai, por meio da
adoração e comunhão da Igreja, bem como a pregação do evangelho aos pecadores.

Muitos são os textos que reforçam tal entendimento missional da igreja (Mt 28.
18-20; Jo 17.18, 20.21, At 1. 7,8); todas estas porções das sagradas escrituras, dão ênfase
a missão que cabe à Igreja na história da salvação. Nos textos bíblicos citados, fica
evidente não somente a missão em si, mas, ali está presente o conteúdo missional também,
que se apresenta numa estrutura tríplice, fazendo com que a Igreja, repouse sua missão
sobre três pilares basilares que são: Adoração, Comunhão e proclamação.
Falamos que a Igreja tem uma missão, e que esta foi delegada pelo filho de Deus a
sua noiva, missão esta de caráter tríplice e tendo como parâmetro a própria missão de
Deus. Mas, quais são as implicações da missão da Igreja para os cristãos atuais? Como se
opera de modo prático à vida das pessoas comuns no viver diário? Vejamos abaixo
algumas tentativas de respostas, em primeiro lugar devemos começar a falar desta missão
pelo início, pois, só assim não cometeremos erros de metodologia.

A princípio a missão da Igreja é de adoração e glorificação do Deus Trindade (Jo


4.19-24; Gn 3.1-11; Sl 100.1-5,150. 6, Ap 4.11), sem adoração realizamos a nossa
principal função, que é exaltar o nome do cordeiro de Deus. Uma vida de adoração é uma
vida de alegria no Senhor, pois, mostramos a Ele toda nossa gratidão por tudo em nossa
vida. Mas, não podemos confundir adoração com cânticos e músicas cantadas a Deus,
uma vida de adoração precisa necessariamente ser uma vida coram deo 4, ou seja, uma
viver diante da face de Deus, em tudo glorificando o seu nome nos mínimos detalhes:
“Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a
glória de Deus.” 5 Esse versículo demonstra muito bem a ideia de coram deo, tudo o que
fizermos, não importando ser algo grande ou pequeno diante da nossa consciência e
sociedade, temos que executar para a exaltação do nome de Cristo.

Essa glorificação efetiva-se pelo testemunho cristão, ou seja, ao agir como a Bíblia
prescreve, estamos realizando a vontade do Pai revelada pelo Cristo ao mundo. O
catecismo maior de Westminster traz em sua pergunta número um, a seguinte indagação;
qual é o fim supremo e principal do homem? Em resposta afirma: O fim supremo e
principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre. 6 Essa resposta demonstra a
perspectiva reformada onde seres humanos, devem em primeira instância voltar-se para
Deus, neste sentido, seguem o pensamento de Agostinho sobre a razão de ser dos seres
humanos expressada na famosa frase: “Fizeste-nos, Senhor, para ti, e o nosso coração anda
7
inquieto enquanto não descansar em ti.” Essa afirmação só reverbera a verdade já
4

5 1 Co 10.31; 1 Pe 4.11, Cl 3:17.

6 CATECISMO MAIOR WESTMISNTER PERGUNTA 1.

7
expressa nas sagradas escrituras, que o homem e toda a criação anseiam para
implantação do reino de Deus.8

Vida em comunhão

A temática da comunhão é praticamente vista em toda a extensão da Bíblia, o assunto é


mais do que apresentado em todas as suas possíveis nuances, Jesus fala de comunhão em
seus ensinamentos (Lc 10.25-37), o salmista expressa o valor da comunhão (Sl 133.1-5),
Lucas no diz que a igreja perseverava não somente na doutrina, mas, na comunhão. Isto
indica que a comunhão é tão importante quanto a doutrina e a oração na vida cristã, por
isso, ela é citada como prática na igreja primitiva. Ter doutrina, mas, não conseguir
expressá-la nas relações interpessoais, é agir como os fariseus na época de Jesus, de modo
hipócrita e moralista, enfatizando a teoria dissociada da prática.

Comunhão como seu próprio sentido indica algo em comum entre pessoas distintas, nós
como cristãos temos em comum a fé em Cristo, isso já motivo mais que suficiente para
vivermos em interação diária. No entanto, deve ser levado em conta, as diferenças de
personalidades, que criam arranhões nas relações interpessoais, causando divisões e
disputas na Igreja de Cristo. Deve-se levar em conta que, a Igreja é apresentada como
sendo o corpo de Cristo (Ef 1.22,23; Cl 1.24), e por este motivo, somos membros uns dos
outros (Rm 12.5), nesta realidade corporal todos os membros precisam uns dos outros (1
Co 12. 21) é mais importante que outro.

Comunhão é sintonia de pensamento e ações é viver diário, ou seja, é intensa interação


vivida na comunidade cristã. Mas, a comunhão não é apenas relação, está relacionada ao
amor. Na primeira epístola de João lemos que a seguinte afirmação: “aquele que diz que
ama a Deus, mas, odeia seu irmão é mentiroso” (1JO 4,20). O amor é a identidade do
cristão é a forma que este é conhecido pela sociedade (Jo 13.35). O apóstolo Paulo falando
aos coríntios no conhecido capítulo 13 da primeira carta diz que o amor é dom supremo,
ou seja, ele está acima de qualquer dom ou ministério. Jesus amou! Essa foi a razão para
Ele ter vindo a este mundo morrer em nossa lugar; a Trindade vive uma intensa relação de

8
amor sendo paradigma para nossas expressões de amor, 9 isso tudo deve servir para de
definitivamente como razão absoluta para a Igreja viver o amor em sua existência. O
amor deve ser a marca registrada dos cristãos.

Proclamação do evangelho

Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura é uma das passagens mais
conhecidas da Bíblia, ela é conhecida como a grande comissão e está registrada em nos
evangelhos10. O dever de anunciar o evangelho pesa sobre os ombros de todos os cristãos,
a cada de um nós é imposta esta sublime tarefa (Mt 10.7-10), e ninguém deve eximir-se
te tão privilegiado ministério que até os próprios anjos desejavam realizar( 1 Pe 1.12).

O anúncio do evangelho deve começar em casa...

A família deve ser o nosso primeiro campo missionário é dentro da casa de cada cristão,
que a palavra de precisa ser semeada inicialmente, pois, do que adiantar levar a
mensagem de salvação para os de fora, quando na realidade não levamos a boa notícia a
aqueles que são nosso círculo mais íntimo.

O anúncio do evangelho na comunidade onde moramos...

Jesus ao responder as perguntas dos discípulos quando estava dando as ultimas


orientações a estes, disse que eles deveriam ficar em Jerusalém até que fossem revestidos
de poder e, de Jerusalém deveriam fazer a proclamação do evangelho e daí em diante
partir para toda a região da Judeia, Samaria até alcançar os confins da terra. Vemos nessa
fala do mestre, que tudo começaria em Jerusalém, para só em seguida lançarem voos mais
altos, isso nos ensina uma verdade interessante; é onde estamos é o nosso campo
missionário particular, sendo assim, em obediência à Cristo temos que assimilar esta
verdade e pregar o reino de Deus na comunidade onde moramos.

O anúncio do evangelho deve ser feito a todas as pessoas

Por fim, o cristão deve entender que a proclamação das boas novas do evangelho deve

10 Mt 28. 19,20; Mc 16. 15-18


atingir todo o mundo (At 1.8), estas foram as últimas palavras de Cristo evidenciando
assim a seriedade do assunto. Percebemos diante do exposto acima, que a Igreja deve
evangelizar a todos e em todos os lugares, porém, individualmente o cristão tem a
responsabilidade de pregar aos que estão mais próximo.

Atributos da Igreja de Cristo

Falar de atributos é descrever as características de uma pessoa, é descrever aquilo que


pertence a esta pessoa e que é marca característica única e pessoal. A igreja têm seus
atributos, estes a diferenciam das demais instituições do mundo. Geralmente os atributos
citados para a Igreja são;

Unidade

Por unidade devemos compreender que a Igreja é uma, independente do tempo e do


espaço. É a reunião de todos crentes na cronologia da história humana, e o que une todos
estes cristãos é a fé em Cristo que é a cabeça da Igreja ().

Catolicidade

Catolicidade deve ser entendida aqui como universalidade, ou seja, frisa-se o caráter
internacional da Igreja de Cristo. Em todas as raças Deus têm seus eleitos, ou seja, no
plano da salvação não há lugar para racismo, xenofobismo ou qualquer outro tipo de
discriminação, pois, Deus tem entre seus eleitos homens e mulheres de todas as tribos e
raças (Ap 5.9). Aqui temos uma verdade incontestável e absoluta; a Igreja não pertence a
um tipo específico de pessoas ou grupos, ela é constituída de eleitos oriundos de todo o
mundo, em outras palavras, não há espaço para qualquer discriminação entre o povo de
Deus.

Santidade

Santidade da igreja repousa na regeneração operada por Cristo, foi por meio delE que
temos aceso a uma vida de santidade (1 Pe 1.19,23, 2.9;1 Co 1.2; Rm 1.7; ). Este atributo
revela que a noiva de Cristo foi separada para adoração do cordeiro de Deus. A santidade
da Igreja opera-se na vida da Igreja pela ação do Espírito Santo de Deus, que aplica suas
verdades em nossas vidas, tornando-as realidades. Em fim, o atributo da santidade é prova
viva e clara da ação de Deus por meio de seres humanos resgatados do pecado.

Apostolicidade

Em atos 2.42 temos a seguinte sentença... “E perseveram na doutrina dos apóstolos” ... Esta
frase aponta um princípio imperioso a todos os que confessam a Cristo como salvador: -
temos que nos submeter a Tradição apostólica 11 como expressada neste trecho das
sagradas escrituras. O texto em apreço destaca que há uma sucessão doutrinária e, não
uma sucessão de pessoas como ensinado pela Igreja católica romana. Estes homens foram
escolhidos para ser o círculo íntimo de Jesus no seu ministério terreno, aprenderam e
testemunharam o evangelho diretamente dEle, ou seja, eles caminharam com o Deus
encarnado, o filho de Deus, a boa notícia de Deus ao mundo em pecado. Em relação a isso
o apóstolo Paulo expressa a seguinte afirmação: “Edificados sobre o fundamento dos
apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular (Ef 2.20)”.

Sete marcas de uma igreja ideal

Posted by ultimato

Parece legítimo considerar que, juntas, as sete igrejas da província da Ásia (Apocalipse 2 e
3) representam a igreja universal. E já que um aspecto específico é destacado em cada
igreja, talvez possamos entender essas sete características como as marcas de uma igreja

11
ideal.

Amor. Essa é a primeira marca de uma igreja ideal. A igreja em Éfeso possuía muitas
qualidades. Cristo conhecia seu trabalho árduo e perseverança, sua intolerância ao mal e
seu discernimento teológico. Alguns anos mais tarde, no início do segundo século, o Bispo
Inácio de Antioquia, a caminho de Roma para ser executado como cristão, escreveu aos
efésios em termos muito elogiosos: “Vós todos viveis de acordo com a verdade e nenhuma
heresia tem abrigo entre vós; aliás não vos prestais a ouvir ninguém que fale outra coisa
senão acerca de Jesus Cristo e sua verdade”.

Ainda assim, Jesus tinha algo contra a igreja efésia: “você abandonou o seu primeiro amor”
(2.4). Todas as virtudes dos efésios não compensavam aquela falha. Não há dúvida de que
na época da conversão o amor deles por Cristo havia sido ardente e vivo, mas agora as
chamas haviam definhado. Lembramos da reclamação de Javé a Jeremias acerca de
Jerusalém: “Eu me lembro de sua fidelidade quando você era jovem: como noiva, você me
amava…” (Jr 2.2). Como em Jerusalém, assim também com Éfeso: o noivo celestial
procurava cortejar a noiva para que ela voltasse ao primeiro êxtase de seu amor:
“Lembre-se de onde caiu! Arrependa-se e pratique as obras que praticava no princípio”
(2.5). Sem amor, tudo é nada.

Sofrimento. Se a primeira marca de uma igreja viva é o amor, a segunda é o sofrimento. A


disposição de sofrer por Cristo prova a genuinidade de nosso amor por ele.

Cristo conhecia as aflições, a pobreza e injúria que a igreja de Esmirna estava tendo de
enfrentar. Talvez esses sofrimentos estivessem associados com o culto local ao imperador,
pois Esmirna orgulhava-se de seu templo em homenagem ao Imperador Tibério. De
tempos em tempos, os cidadãos eram convocados para jogar incenso no fogo que
queimava diante do busto do Imperador e confessar que César era o senhor. Mas como os
cristãos poderiam negar o senhorio de Jesus Cristo? Em 156 d.C., o venerável Policarpo
era Bispo de Esmirna. Ele enfrentou esse mesmo dilema. No anfiteatro lotado, o procônsul
instou-o a reverenciar o gênio de César e insultar Cristo, mas Policarpo recusou-se,
dizendo: “Por oitenta e seis anos o tenho servido, e ele nenhum dano me causou; como
então poderia eu blasfemar meu rei que me salvou?” Ele preferiu ser queimado numa
estaca a negar a Cristo.2

Mais de um século antes daquilo, Cristo já havia alertado a igreja de Esmirna de que
provações severas estavam chegando, inclusive prisão e talvez morte. “Seja fiel até a
morte”, disse-lhes Jesus, “e eu lhe darei a coroa da vida” (2.10).

Verdade. A igreja de Pérgamo era dedicada à verdade. Assim, Jesus se apresenta como
aquele que tem uma espada afiada de dois gumes saindo da boca, simbolizando sua
palavra. Ele descreve a igreja de Pérgamo vivendo “onde está o trono de Satanás”, pois
Pérgamo era um centro de culto pagão. Mas “precisamos concluir”, escreveu Colin Hemer,
“que a expressão ‘trono de Satanás’ refere-se basicamente ao culto ao imperador
conforme imposto por Pérgamo numa época de confronto para a igreja”.3 Ainda assim,
apesar da oposição e até do martírio de Antipas, a igreja permanecera leal ao nome de
Cristo e não havia renunciado à fé nele, embora alguns membros da igreja tivessem
sucumbido a falsos ensinos que toleravam a idolatria.

Santidade. Jesus escreve a seguir à igreja de Tiatira, destacando que a santidade é outra
marca de uma igreja viva. Ele começa em termos de elogios calorosos, pois conhece o
amor e a fé, o serviço e a perseverança deles. Essas são quatro virtudes superiores e
incluem a tríade de fé, esperança e amor.

Mas, infelizmente, esse não era o quadro completo pois, junto com as elevadas qualidades
cristãs, a igreja era culpada de transgressão moral. A igreja tolerava uma pretensa
profetisa maligna, simbolicamente chamada Jezabel por causa da esposa perversa de
Acabe, que estava desviando servos de Cristo, levando-os à imoralidade sexual bem como
à idolatria. Cristo lhe havia dado tempo para se arrepender, mas ela não se dispunha a
tanto, de modo que o julgamento recairia sobre ela.

A santidade do autocontrole e da semelhança a Cristo é outra característica essencial de


uma igreja viva. A tolerância não é uma virtude se o que se tolera é o mal. Deus ainda diz
a seu povo: “Sejam santos porque eu sou santo”.

Sinceridade. A carta de Cristo a Sardes é a única que não contém nenhum elogio de
nenhuma espécie. Antes, ele reclama: “você tem fama de estar vivo, mas está morto”. Essa
igreja não parece ter tolerado o erro ou o mal, nem ter sido deficiente em amor, fé ou
santidade. Ela apresentava todo sinal de vida e vigor. Mas sua reputação era falsa.

As Escrituras têm muito a dizer sobre a diferença entre reputação e realidade, entre aquilo
que os seres humanos veem e o que Deus vê. “O SENHOR não vê como o homem: o
homem vê a aparência, mas o SENHOR vê o coração” (1Sm 16.7). Ser obcecado pela
aparência e reputação leva naturalmente à hipocrisia (que Jesus odiava) e nos ensina que
a sinceridade caracteriza uma igreja viva e verdadeira.

Missão. Ao escrever para Filadélfia, Jesus descreve-se como alguém que detém a chave de
Davi com que era capaz de abrir portas fechadas e fechar portas abertas. Assim, ele podia
dizer à igreja de Filadélfia: “Eis que coloquei diante de você uma porta aberta que
ninguém pode fechar” (3.8). O significado mais provável é que se trata da porta da
oportunidade, como quando Paulo escreveu que em Éfeso “se abriu para mim uma porta
ampla e promissora” (1Co 16.9). Isso significa que a missão é outra marca de uma igreja
verdadeira. Citando G. K. Beale, todas as cartas às igrejas “tratam de maneira geral da
questão do testemunho em favor de Cristo em meio a uma cultura pagã”.4

Talvez isso seja destacado na carta à Filadélfia por causa de sua localização estratégica. A
Filadélfia estava situada num vale amplo e fértil que dominava rotas mercantis em todas
as direções. Sir William Ramsay escreveu que a intenção do fundador da cidade fora
torná-la centro de disseminação da língua e da civilização grega. Filadélfia “era uma
cidade missionária desde o início”. Assim, pode ser que Cristo quisesse que Filadélfia fosse
agora para a disseminação do evangelho o que fora para a cultura grega. A porta estava
escancarada. Ainda que a igreja fosse comparativamente fraca, precisava atravessar a
porta com ousadia, levando as boas novas.

Integridade. Não pode haver dúvidas acerca da mensagem de Cristo à igreja de Laodiceia:
ele quer que sua igreja seja caracterizada pela integridade. Ele é muito franco. Cristo
prefere que seus discípulos sejam ou quentes em sua devoção a ele ou gelados em sua
hostilidade, e não mornos em sua indiferença. Ele considera a mornidão nauseante.

Do lado diretamente oposto de Laodiceia, do outro lado do Rio Lico, ficava Hierápolis,
cujas fontes quentes enviavam águas tépidas por sobre os penhascos de Laodiceia,
deixando depósitos de calcário que podem ser vistos ainda hoje. Assim, o adjetivo
“laodiceno” entrou no vocabulário inglês para denotar pessoas mornas quanto à religião,
política ou qualquer outro assunto. Laodiceia parece representar uma igreja que por fora
é respeitável, mas superficial por dentro, uma das igrejas puramente nominais com que
estamos familiarizados.

Quando a metáfora muda para mendigos nus e cegos, começamos a perguntar se os


membros da igreja de Laodiceia eram de algum modo cristãos genuínos. Então ela muda
de novo para a de uma casa vazia. Cristo coloca-se à porta, bate, fala e espera. Se abrirmos
a porta, ele entra, não só para comer conosco, mas para tomar posse. Essa é a essência da
integridade a que Cristo nos chama.

Assim, o Senhor ressuscitado revela-se como o pastor principal de seu rebanho. Vigiando,
inspecionando e supervisionando suas igrejas, ele possui um conhecimento íntimo delas e
é capaz de apontar as sete marcas que gostaria de ver manifestas em todas as igrejas: amor
a ele e a disposição de sofrer por ele, verdade doutrinária e santidade de vida e dedicação
à missão, junto com sinceridade e integridade em tudo.

Também observamos a igreja afligida internamente pelo pecado, erro e letargia e,


externamente, por tribulação e perseguição, especialmente pela tentação de trair Cristo
por César e pelos riscos reais de martírio.

Assim, com Apocalipse 4 nos voltamos abruptamente da igreja sobre a terra para a igreja
no céu, de Cristo entre candelabros cintilantes para Cristo bem no centro do trono
imutável de Deus. É o mesmo Cristo, mas de uma perspectiva inteiramente diferente.
Notas

1 – A Epístola de Inácio aos Efésios, cap. 6.

2 – O Martírio de Policarpo, cap. 9-16 em B. J. Kidd (ed.), Documents Illustrative of the


History of the Church (SPCK, 1938), vol. 1, p. 68-71.

3 – C. J. Hermer, The Letters to the Seven Churches of Asia in their local setting (JSOT
Press, 1986), p. 87, cf. p. 104.

4 – Beale, Revelation, p. 226. 11 W. M. Ramsay, The Letters to the Seven Churches of Asia
(Hodder & Stoughton, 1904), p. 391-392.

Texto originalmente publicado em O Incomparável Cristo, da ABU Editora.


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