Você está na página 1de 3

1) Como Platão responde ao divórcio entre a filosofia e a cidade, experimentado de modo

trágico pela própria condenação de Sócrates?

A condição necessária ao nascimento de um novo modo de pensar, surgido por volta do século VI,
alicerçado no pensamento racional, no questionamento e na livre análise, foi domínio o próprio
surgimento da polis. É na polis onde estão reunidas todas características de uma vida social (advindas
de uma ruptura com o modelo das monarquias palacianas anteriores) que fundamentariam aquilo que
conhecemos por filosofia. Dentre essas condições, podemos citar a ideia de "espaço público", lugar
de debate sobre os negócios da cidade em que as disputas se dão através da oratória. É importante
salientar, que o próprio "espaço público", o fazer político (que no desenvolvimento histórico grego
expressou-se na agora) era o que definia o sujeito como participante da sociedade, já que não havendo
uma separação entre o social e o político, os gregos só alcançariam o status de cidadão no momento
de emancipação da "ditadura das necessidades" do ambiente privado, emergindo numa democracia
direta que constituía o fundamento do sujeito social da polis. A superação do privado emanciparia os
gregos pois seria o do homem sobre a natureza, o momento em que as condições necessárias a
manutenção da vida (incluindo a própria prática da escravidão) seriam realizadas e o grande grupo de
famílias, que constituem a polis, poderiam participar do espaço político e público da cidade. A
superação do privado demarca também o nascimento da cultura. Em oposição à natureza, a cultura
surge a partir do que faz com que os humanos diferenciem-se dos animais: o trabalho. Em outros
termos, o homo faber, diferente do animal laborans, seria justamente o que consegue através de sua
ação transformar a natureza. Isso se dá, de modo simplificado, através da própria instrumentação
desenvolvida por essas comunidades. É importante explicitar tais questões para sinalizar que o
fundamento da filosofia e da própria política, a palavra (o logos), se dá num contexto de nascimento
da cultura. Essas questões são fundantes no pensamento socrático/platônico e respondem a oposição
que a filosofia experimentará em relação à cidade e que terá como expressão mais radical a morte de
Sócrates.

Para o pensamento platônico/socrático, a polis e a democracia ateniense radicalizaram


negativamente a oposição cultura e natureza, distanciando tanto uma da outra que já não podemos
encontrar a essência, a verdade, nos discursos da agora. O discurso nos espaços públicos se
expressava através de uma forma e buscava, sobretudo, o convencimento ao invés da verdade. Como
coloca Adimanto no debate com Sócrates "a aparência vence a própria verdade é dona da felicidade,
a ela devo dedicar-me inteiramente". A crítica platônico/socrático é uma crítica ao sofismo e ao estado
atual da polis, mas também é uma afirmação de que só uma teoria do conhecimento pode desvelar a
real essência das coisas. Essa essência está perdida justamente pela valorização do mundo sensível. O
sensível representa o oposto dos intentos de Sócrates e Platão, pois é o mundo do movimento, da
mudança, ou seja, é o mundo onde se dá a impossibilidade do conhecimento. O conhecimento advém
de uma tentativa de colocar uma ordem e estabelecer uma unidade no mundo. Como o próprio
Sócrates questiona "E não são as coisas mais perfeitas as menos sujeitas a transformações ou
alterações causadas por um agente externo?". Parte do projeto de sociedade dos dois filósofos gregos
se estruturaria, então, numa busca pela imutabilidade das formas, e as leis, mesmo não as garantindo
em sua totalidade colocariam uma aproximação ao objetivo central do projeto. Dessa forma, Sócrates
escolhe beber cicuta por uma irredutível defesa de um método filosófico, consequentemente, uma
irredutível defesa da verdade, mas, sobretudo, a defesa de um projeto político que não condizia com
a realidade corrompida e dominada pelas aparências que as classes dominantes gregas visavam
manter. De certa forma, Sócrates morre pela recusa de conformar-se que o destino da humanidade
estaria, por fim, na permanência na caverna.
2) Como o dualismo entre mundo sensível e mundo inteligível se apresenta na discussão sobre a
cidade e a justiça?

O mundo sensível demarca uma contradição com o mundo inteligível pois seu foco na aparência, nas
formas transitórias e na destruição da unidade apontam para uma impossibilidade de conhecimento.
O conhecimento, platônico/socrático, deriva de uma busca pela aplicação de uma ordem num mundo
dominado pelo caos da instabilidade. Dessa forma, só pode derivar de formas imateriais. Ou seja, o
que se apresenta desde o surgimento da cultura e, consequentemente, o nascimento da polis
impossibilita qualquer forma genuína de conhecimento. A injustiça, que tem por fundamento o
domínio do mais forte, porém desqualificado em relação ao mais fraco e qualitativamente superior,
legitima-se justamente a partir do mundo sensível, já que para o desqualificado sobrepor-se ao
qualificado, o enfoque nas aparências, na guerra e, consequentemente, no fim da unidade deve ser
valorizado. A justiça, por outro lado, seria a melhor forma de conduta para uma cidade, pois
conseguiria estabelecer uma coesão social e, portanto, uma ordem no mundo. Partindo do método
desenvolvido por Platão e Sócrates, é necessário buscar em primeiro lugar a natureza da justiça no
Estado (no maior), para depois procura-la nos indivíduos (no menor). Analisando o surgimento do
Estado, os dois filósofos, percebem que o mesmo surge da necessidade humana de associação para
suprir as necessidades e manter a existência. Para que isso aconteça, é fundamental, a distribuição
das funções na cidade e que todo produto dos trabalhos desenvolvidos reverta-se à comunidade
inteira. É imprescindível perceber que a produção dos bens necessários a vida na Grécia não se dava
através de uma indústria desenvolvida como conheceremos a partir da Revolução Industrial. O próprio
modo de produção escravista desenvolvido na antiguidade colocava limite para o desenvolvimento
de tal espécie de produção em larga escala, já que os escravos em sua maioria presos ao ambiente
privado e os senhores dados ao ócio da contemplação ou a vida pública na política, não conseguiam
produzir uma base para que o desenvolvimento tecnológico florescesse. Assim, a defesa de socratico-
platônica, é de que a produção se reverterá com qualidade à polis através de uma divisão do trabalho
que valorize a dedicação exclusiva do trabalhador a uma única função. Dessa forma, é a valorização
do mundo inteligível, através da busca por uma ordem, eticamente representa no ideal de justiça, que
garante a polis não só sua existência, mas uma boa existência.

3) Quais são os principais aspectos da “reforma pedagógica” proposta pelo autor?

A reforma pedagógica platônica tem por objetivo expressar na educação o projeto político
desenvolvido pelo autor. A educação tem por intento valorização de uma ética da justiça e
fortalecimento da ideia de ordem social nas gerações futuras. Dessa forma, os principais aspectos que
guiariam uma boa educação fundamentam-se na divisão de seu conteúdo entre a ginástica e a música.
Por música, onde o autor começa sua explanação, deve-se entender as artes de modo geral. A música,
que serviria de "educação para a alma", busca erigir a moral dos jovens através da literatura outras
práticas culturais. Esses elementos culturais devem ser submetidos à censura do Estado para que
sigam à risca os preceitos que devem guiar a pedagogia da polis e não desvirtuem a formação dos
jovens. Quando os estudantes conhecerem as divindades, por exemplo, devem saber da importância
da unidade, de que todos os deuses visam unicamente o bem e a justiça e, consequentemente, não
se apresentam no mundo sensível. Por outro lado, os guardiões devem ser impetuosos, pois devem
defender os interesses de sua localidade contra os inimigos e serem mansos com os cidadãos. Logo,
precisam de um treinamento devotado à arte da guerra. Dessa união entre ginástica e música,
teríamos por consequência a temperança, que para Platão, simboliza-se na atitude do cão, que pode
ser afável ou raivoso a depender de quem o acaricia, se é um amigo ou um inimigo.

4) Examine a analogia entre alma individual e cidade.

A dicotomia indivíduo e sociedade em Platão está posta a partir do momento em que todos indivíduos
devem colocar sua ação em favor da sociedade para que a mesma possa seguir existindo e que o ideal
de justiça seja mantido. A ordem deve reinar, pois a cidade é um todo formado por partes com
diferentes interesses. E a necessidade da unidade da alma é a necessidade da luta do Bem comum
contra a injustiça e ignorância do bem individual, dos interesses das partes. Para que a justiça exista e
a cidade e as partes que a compõem mantenham-se, é necessário que o homem vise elevar seus
objetivos ao mundo inteligível que busca a construção da ordem em meio ao caos que existe no
mundo sensível.