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Cambridge University Press ‘Titulo original inglés: Myth, Ritual and the Oral Direitos de publicagio em lingua porruguesa ~ Brasil: 2012, Editora Vozes Lh, Rua Frei Luis, 100 25689-900 Petrdpolis, RJ Internet: htep://Wwww.vozes.com. br Brasil ‘Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra poder ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletronico ou mecénico, incluindo forocbpia e gravagio) au arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissio escrita da caltora, Diretor editorial Frei Antonio Moser Editores Aline dos Santos Carneiro José Maria da Silva Lidio Peretti ‘Marilac Loraine Oleniki Secretirio executive Joao Batista Kreuch Esitoragéo: Blaine Mayworm Prajto rice: Sheilandre Desenv. Gritico ‘Capa: Felipe Souza | Aspecto Imagem da capa: “Mdscaras Afticanas” © Jessica Wart/Dreamstime.com ISBN 978-85-326-4336-0 (edigio brasileira) ISBN 978-0-521-12803-2 (edigao norte-americana) Fditado conforme 0 novo acordo ortogrifico, Este Livro foi composto c impresso pela Kalitora Vozes Lda, Sumario Agprdecimentas, 7 Introdgt0, 9 1 Religito ¢ ritual de Tylor até Parsons: o problema da definigzo, 19 2 “Literatura” oral, 43 3 O antropélogo co gravasdor de sons, 58 4 Gratividade oral, 63 5 Os contos populares ¢a histéria cultural, 68 6 Animas, humanos e deuses no norte de Gana, 81 7 © Bagre em toda sua variedade, 91 8 Do oral ao escrito: um avango antropolégico na atividade de contar hisrias, 110 9 A meméria esrita ea meméria oral: a importincia do “Iecto-oral”, 142 Apéndice — Contos populares no norte de Gana, 151 Referéncias, 155 Indice remisivo, 168 I Religiao e ritual de Tylor até Parsons: © problema da definigéo lo* Proprios membros dessas sociedades, asim coma. ry i renestre re bros dessas sociedad ides, assim c: o rant ci fanto por menestréis am. i = dl i nulantes — por aqueles poucos especialistas que vo de uma aldeia a outra,aind: q outra, ainda que apenas para se manter com cer i a 'm cerveja ¢ mingau, mas também ios Como no caso do tocador de tambor profi cr Este capitulo representa uma primeira tentativa de solucionar © problema que circunda o uso dos termos ritual e religiZo. Tentei fazer o mesmo com 0 termo mito, em um artigo que escrevi com Tan Watt. Ambos sio, na verdade, um texto preliminar as minhas anilises especificas do material etnogréfico. Achei que 0 uso posterior nio tinha solucionado os primeiros problemas e que dependfamos de uma visio “raci nalista”, apesar dos esforgos para evitar que isso ocorresse. Para comecar quero explorar 0 problema que a categorizagio de atos e crengas como religiosos, ou rituais, ou mégico-religiosos envolve, com objetivo nao s6 de abrir caminho para o tratamento subsequente de meus priprios dados empiticos {principalmente relacionados com os LoDagaa e os Gonja do norte de Gana), mas também de esclarecer certos aspectos da andlise clos sistemas sociais de um modo geral. Para alguns autores uma investigacio desse tipo pareceu ser uma tarefa intitil. No comeco de Themis: A Study of the Social Origins of Greck Religion (Themis: Um estudo das origens sociais da religio grega) — um livro que, como seu subtitulo sugere, deve muito 3 obra do socidlogo francés Durkheim, bem como aos antropélogos ingleses -, a especialista em Kinguas cléssicas Jane Harrison comenta sobre a abordagem etrdnea daqueles pesquisadores que comesam com um termo geral religido, do qual tém uma {dela preconcebida, e depois tentam encaixar nele quaisquer fatos que surjam. Em vez disso, ela nfo propde qualquer definigio inicial, mas observa que *iremos coletar os fatos que sio reconhecidamente religiosos e ver de que atividades humanas cles pare- ccm ter se originado”’. E ainda mais tentador para aquele que investiga sociedades ‘mais distantes de nossa prépria tradigao do que a Grécia Antiga adotar uma aborda- gem semelhante e silenciosamente fazer vista grossa aos problemas de definicio. Os riseos, no entanto, sfo maiores que as vantagens. Ao recusar definir sua drea de discurso, Hartison estava longe de evitar o proble- ‘ma que percebeu; simplesmente se refugiou em um juizo implicito~e nfo em um jui- 2o explicito — daquilo que constitui o “reconhecidamente religioso”. Nem é preciso dizer que essas decis6es ocultas podem influenciar a investigagio de eventos espectfi- Diferenciei mito, lenda ¢ conte no contexto do recital. Gilbert Ler dem recitar todas as trés varie °s populares por virias raz6es, mas especialmente Hada itlca que, na Nova Guing, senhorasidosas po- unstincias eu consideratia os tés como ie ae it 0s trés como sendo contos populares: o¢ ‘se misturar em contextos diferentes, me 1580, entio, 60 que of - 6 0 que oferego como contribuicgs 4 a0 estudo do mito, enfatizando o fator eed indo ncaa lade, ¢, portanto, a dificuldade fandamental lima que varia entre certo parimet ‘Uma forma e um contexto relativamente fy ae (cem outros produtos orais breves) q 0s realmente existem nos contos populares le podem ser facilmente memorizados ¢ transi = 18, Lewis, 2000, 1, Harrison, 1912: 29. neem ieen examinar 0s funerals © as apresentagdes do Bagre dos LoDa- er ree htetes mais apis eno fons pel ito dea Billie das dado icpender, pelo menos até certo ponto, da posicio geral estiga- Sor adota em relasio ackes Além disso, as dificuldades que surgem dd ana nen dade de cetimirar adequadamente nosso universo de discurso oman ce eee complexas quando estamos lidando com estucdos comparativos. Com een nn comment, portant, tentareireveralgumas ds dicate genset ime daquilo que — de vitias formas diferentes e de uma mancira um tanto inn gan a ~ foi descrito como fendmenos riuais, cerimoniais ou eligiosos, ‘0 tentar esclarecer esses conceitos com objetivos socioldgicos ni do char 0 gta bso trannies emo mig apn eo chamou de categorias populares das socieda- S280 de defini categoriasadequadas dou origem a problemas controverson de ence deravel magnitude, como mostra ai reza 5 C a discussio que surgiu sobre a n: fami (ou das instituigdes juridicas, paeaee temas de parentesco, ee brea bare fiquem ainda mais entediantes para o leitor comum. a isso seja algo a ser lamentado, s6 porte ser evitado em volvimento do estudo das it ‘tituigdes humanas. pe et Nessa anilis s viiris a Ac Ba. i ‘lise das virias. abordagens Adefinigao dos fenémenos. teligiosos e rituais, ac coms contbuies, no séulo XIX, do antroplogo EB, Tylor deo, tc acompanharam a mesma dirego geral de interesses. A tog na dre s. A seguir examinatei a = de Durkheim, do. antropdlogo Ppolonés Bronislaw Malinowski e de alguns a manat, Dosterores, especialmente o socidlogo noree-americano Talcott Parsons A Pancira perspicaz com aqua est ikimo tatou as questes principals serine um fio que nos guiard atswve eu Ho are nes gua através de todo o agumento, Mas chora Sua cus sof mantida também por um mimero de av nossa atengio obvi io do desenvolvimento de uma sociologia comparativa das instituigdes vamos voltar ao comego, ae 2. Bohannan, 1957, 20 Quando Tylor escreveu sobre o culto dos mortos como sendo central para 0 de~ senvolvimento da religigo, o significado ¢ claro porque ele propde uma definigao mi- nnima de religigo: a crenga em scres espirituais, ou seja, o animismo. Essa formulagéo {oi ctiticada a partir de duas diregbes principais. Em primeiro lugar, registros antigos das crengas de povos que desconheciam a escrita descreviam conceitos pertencentes a forgas misticas de um tipo ndo personalizado; tipicos entre elas s40 o mana da Mela- nésia ¢ 0 wakan dos Dakotas. O antropdlogo R.R. Martett indicou as semelhangas centre essas ideias, ds quais ele se referia como animatismo, ¢ as crengas animistas utili- zadas por Tylor como a differentia da religiéo. Embora Marett considerasse tanto 0 animismo quanto 0 animatismo como no religiosos em si, considerando a adigio de facores emocionais como criticos nesse aspecto, sta contribuiggo teve 0 efeito de bor- rara distingao anterior entre magia religigo ¢ levou & adogio de termos conciliatérios tais como ritual, sagrado, nao lgico ou até migico-religioso para designar o dominio anteriormente ocupado pelos elementos ndo cientificos na divisio tripartida do mun- do da crenga utilizada pelos autores antigos cm magia, religido e ciéncia. Embora Maretttrabalhasse basicamente a partir do mesmo ponto de partida que seus colegas Tylor e Frazer, a segunda objecio principal veio de uma direcio radical- mente diferente. Aos aspectos gerais da tese de Durkheim voltarei mais tarde. Sua critica especifica da prdpria defini¢go de Tylor esta relacionada com a questo do bu- dismo. Aqui, afirma ele, esté um conjunto de priticas e crencas, normalmente consi- derado como uma das grandes religides mundiais e, no entanto, descrito por uma au- toridade como “uma interpretagio ostensivamente materialista e ateista do univer: so”. Para incluir essa interpretagio do budismo, alguma formulacio alternativa tinha de ser arquitetada. Comegando de um ponto de vista proposto pelo tedlogo Robert- son Smith, Durkheim desenvolveu a tese de que todos os povos reconheciam uma di- cotomia radical do universo entre 0 sagrado ¢ o profano. De acordo com essa propo- siglo, ele ofereceu sua famosa definigio de religido como “um sistema unificado de crengas ¢ priticas relacionadas com coisas sagradas, isto €, coisas separadas e proibi- das —crengas e priticas que unem em uma tinica comunidade moral chamada de Igre- ja todos aqueles que aderem a elas”, Existiram outras tentativas de definir a esfera dos fendmenos rcligiosos por refe- réncia, por exemplo, a critérios emocionais tais como sentimentos de reveréncia. Mas esforcos para isolar experiéncias religiosas especificamente dessa forma demonstra- ram ter muito pouco valor para investigadores cm outras sociedades. Evans-Prit- chard, por exemplo, escreveu: “Certamente nao podemos falar de qualquer emogio teligiosa especifica para os Nuer”*, Em geral os que esto pragmaticamente interessa- dos nessas questies estiveram inclinados a adotar a abordagem inclusiva proposta 3. Durkheim, 1947: 47. 4. Bvane Pritchard, 1956: 312. 21 —— Se nner de Maret receberam pouco apoio de escritoes sub tes, ¢ ndo apenas em virtude de sua introducio. crités is bows, por exemple, negeno rclcenamenno ase ox emorions Mal animistas do tipo mana pelo outro. Em defesa de seu dakora que diz que “toda a vida & wakan” e contrasta esse ‘conceite stan ” com os atributos mais especificos da magia melandsia... “hd pouco em comian on 0s conccitos do tipo do mana e a virtude especial do feitigo e da ito magivos"® Ne gntanto, outros autores acstaram a percepeso que Marett tem de um eaivionany ae Ppodetes pessoais¢ impessoais sobrenaturais , 20 contritio dele, incluftam ambos as ¢sferas no clominio do religioso. Segundo essa ideia, a definigdo minima de Tylor a ta de ser re-esrita para “uma crenga em aggncias espirtuais [ou sobrenaturais)”, . A dificldade principal aqui é distinguir entre o sobrenarural eo natura ou entre agénciasesptituaisenio espiriuais. Com “seres”sendo concebidos comorenca, des coneretas do modelo humano, a distingio € passivel de ser usada. Mas, ao lidar com agéncias nao humanas e poderes misticos,é, em muitos casos, dificil diverse cn conceitos so mais semelhantes & forga do fsico ou ao dlan vital bergsoniavo, Ove uma vez mais, © conceito pode abarcar tanto os polos de significado prasmitt, ¢o-cienificos quanto os de significado filosdfico-eligiosos, sen Die force tat throug te green se drive the cages ethos That bets he rots of tres As my destroyer. Dylan Thomas (A forsa que através do fuso verde impulsiona a flor impulsiona minha idade verde; gue detona as razes de drvores E minha destruidora.) ‘Um exemplo de um conceito assim ni ce io diferenciado ¢ a nogo de “medicina” LoDagaa, que tém um conccito semelhante em muitas oatras sciedacder nie correu; ¢aplicada também a muitos tipos diferentes de sim como arafzes secas comidas pelos cayador : es pata permitir ma exara e certeira, eee Das duas definigdes princi siva— é essa tiltima que tem w inclusive & pélvora, as- que atirem de uma for- pais de religiéo que observamos ~a exclusiva ea inchu- ima circulagao mais ampla, pois esté implicita na tese de eee 8. Malinowski, 1954: 77-78, 22 farett, foi proposta explicitamente por Durkheim ¢ subsequentemente incorporada na obra de Radcliffe-Brown e de seus alunos, © que constituit uma contribuigao im- portante para o estudo comparativo de fendmenos religiosos. Outra fonte eficiente de difusao foram os escritos de Talcott Parsons, 0 qual utilizou essa definicio como um ponto de referéncia basico em seu esquema analitico. Portanto, comesarei por considerar as implicagdes de adotar 0 ponto de vista extensivo desenvolvido por Durkheim, dando uma atengao particular a suas implicagdes para o estudo das priti- ‘eas ¢ crengas associadas com a morte. ‘A prépria definigio de Durkheim contém dois elementos: a religifo consiste de ‘erengas ¢ préticas relacionadas com o sagrado e que sao distintas das coisas profanas. ‘Mas, diz cle, o mesmo ocorre com a magia. Para distinguir entre essas duas esferas ele introduz um segundo critério; aqui ele depende de Robertson Smith, que tinha dito que a magia estd para a religiao como o individual para o social. A religigo ¢ puiblica e tem uma igrcja, enquanto que o mégico tem apenas sua clientela, nunca uma congre- gagio. O contraste entre o praticante individual com relagdes particularizadas com seus clientes, um médico primitivo trabalhando com sua “ciéncia bastarda” ¢ o lider sacerclotal, o mestre de cerimOnias, é um contraste de alguma importincia na andlise de muitos sistemas sociais. Mas a distingZo entre esses papéis privados e piblicos, ‘embora relacionada com outras facetas da religigo ¢ da magia, oferece um foco me- nos que adequado para a definigio de fenomenos religiosos. Alis, em uma discuss excelente desse problema em relagZo ao material dos Murgin do norte da Austria, ‘Warner observa que a magia também tem sua igreja, no sentido de que os efeitos tan- to da magia boa quanto da magia ruim dependem até um ponto considerdvel da compromisso dos clientes com uma crenga na eficdcia dos procedimentos que os m4- gicos utilizam®. Consequentemente, o magico e sua clientela também constituem um. certo tipo de comunidadle moral, que, embora ndo to explicita quanto em cerimoniais piiblicos, pode ser tanto morfoldgica quanto funcionalmente muito semelhante. Quando Durkheim afirma que a magia nio tem igreja, ele quer dizer que ela no ‘une as pessoas da mesma maneira que as cerimdnias religiosas o fazem; ¢ ele vé 0 epi tome dos procedimentos solidérios na reuniao fisiea dos membros do grupo, isto é, ‘em ceriménias de massa. E bem verdade que as reuniGes desse tipo podem desempe- rnhar € realmente desempenham uma parte importante na reafirmagio de algumas das instituigGes centrais de uma sociedade; isso é o que ocorre com os servigos de co- roagio, com os desfiles do Exército Vermetho ou com as comemoragées do dia 14 de julho na Franga. No entanto, ao fazer disso a caracteristica diferenciadora da acio re- ligiosa, Durkheim tende a cair no mesmo erro que confunde seu tratamento anterior do problema do individuo e da sociedade. Inicialmente pelo menos ele parece con- fandir dois tipos de distinco, por um lado aquela entre a sociedade como uma coleti- 6. Warner, 1987, cap 8 23 lemento social dentro da personalidade humana Hinico ou instintual. Eventnalmente, cle escolhe a oaquela entre a sociedade como o el © 0 individuo como o elemento org liltima distingto”, mas nao antes de © grupo se reunir, ou, como alguns ancropa no alguns antropdlogos sociais usariam o term caracteristicas corporativas*. Em um determinado momento ele coment pela qual o grupo se retine é relativamente sem im reunio em si. no, em suas ta que a ras portincia se comparada ao fato da i ie coisa nee a importancia de grupos que se retinem (convene, em ing lois significados de convengio (conventi i te lois signif ‘10 (convention, uma assembleia e um cost pa sai, nio séo acidentas, E é outra igualar esses grupos cea siti : des morais”, como: éprio kheir es £75 . ook arma Ey a. ' proprio Durkheim as vezes faz; uma congregaciio pode scr me- Fe de Prank” § Portanto, menos “moral” por ser dispersa, mas como os coment | ole et emonstam, a existéncia de normas comuns, que por certo é a tinica interprctacao possivel para a frase “comunidade. noral”, ni sen ja moral”, nfo necessariamente de - — ‘téncia de assembleias Serais. Presumir tal coisa é cair no eee pe Dl en cn sta referencia a Robertson Smith”, ou seja, 0 erro de confn. ee ea Embora em qualquer socedade specifica possa haver um: rande rotatividade de procedimentos mégicos ~c alids a combinacz ; pitico ¢ de meios ndo empiticos faz co: eee d Im w com que isso seja até certo eviével - magia nao é menos um fendmeno social, no ser eee de certs " oe : » do quea religito. A fei- ize, Por exemplo, depende para seus eitos de um certo grande eonsenso, da ae 20 de um conjunto de normas socais por uma proporcio signifcativa dos man, mem- 7. man double. Thee ae Zighglman double Thue aru Rings in im: ainda eng which hast ad suena an sal ing which eet the ihe ety nee elena Faaag stn by observation mean sce" (DURKHEING 147 10 (hen hee ae rsa ns diluent m onan] cumce eee eee aa i orl que nds podcmos concer eh Otero pace a 8 Nem Maine nem Weber in rio. Tanipouce Radel 2¢"((cimpresom Rai Ieee on toe tiene cmt ‘on alguns deles;refiro-me aeles como Fi Saline des Hes como “grupos pramidais® de acordo com o uso de Fortese Frsee ae 9. Durklscim, 1947: 45, n. i 24 cla é extremamente “social”, pois a persisténcia da crenga na concretizacio dos fins pragmiticos por meios nao empiricos depende intciramente de fatores nao ambien- fais; nao hé qualquer reforgo direto no mundo externo, extra-humano. A tendenciaa incorporar 0 critério de interagao simulténea face a face nto concei. to de grupos sociais em geral e de grupos religiosos em particular gera certas dificul- dades inevitiveis, que 0 préprio Durkheim parcialmente previu. Ele teve de dar uma consideracio especial & posigao das erengas em um destino pessoal, 20s cultos dos es- piritos guardies e a outras formas do “sobrenaturalismo” que nao se retinem. Seu tratamento dessas formas nio é completamente feliz, €, consequentemente, especia. listas na religido dos indios americanos tais como Radin, Lowie ¢ Goldenweiser fo- ram levados a subestimar sua contribuigso total para o estudo da religiao, Em reagio & sua formulagao do problema, eles seguiram Marett ao tentar estabelecer vitios crtérios emocionais dos fenémenos religiosos, um procedimento que pesquisadores subse- uentes acharam de pouco valor. O que Durkheim fez foi admitir esses cultos “priva- dos” como fendmenos religiosas verdadeiros, mas apenas conectando-os a algum siste~ ma religioso mais inclusivo. Por isso 0s cultos indivicluais sio considerados unicamente no contexto do culto coletivo ou da Igreja, e, quanto 3 Igreja, ele notmalmente a consi- derava ndo apenas como os membros de uma f, a congregacio, mas sim como um grupo que se reunia em um lugar, a congregagio fisicamente unida em um corpo. Embora essas relagdes de grande escala face a face sejam de muita importincia, especi: almente no concernente & efervescéncia que Durkheim associava is atividades religio- sas, clas nem sio 0 tinico tipo de relacionamento social que produz esse tipo de solida- riedacle, nem podem ser satisfatoriamente identificadas com atividades religiosas pro- priamente ditas, ou com procedimentos sagradios em geral. Na verdade, aquilo a que ‘Durkheim se refere na maior parte de sua andlise em Asjormas elementares dat vida reli- _giosa pode ser chamado mais precisamente de cerimonial. Com relativa frequéncia cle atribui A religido as fungGes € propriedades que poderiam mais apropriadamente ser atribuidas a um fenémeno de generalidade muito maior, o cerimonial de mass. ‘Até aqui venho considerando a adequagio dos critérios que Durkheim utilizou para distinguira religido da magia, ow seja, sua associagZo com uma Igreja no sentido, de uma comunidade moral, Agora gostaria de examinar a maneita pela qual ele ten- tou diferenciar toda a esfera de atos e crencas magico-religiosos por referéncia & dico- tomia entre o sacto eo profano. Essa esfera ¢ aquela a que Radcliffe-Brown se refere como “ritual””, um termo sobre o qual é necessério oferecer um comentirio explica- tivo. Geralmente o termo foi usado para referir-se a0 componente da ago dos fend- ‘menos mégico-religiosos em comparagao ao componente da crenga desses mesmos fendmenos. Mas a palavra também é usada para tentar evitar a distingao feita por au- 10. Radelife-Brown, 1952. 25 sfovlxigussiorcmumasocedadeeigion ders leone ee srk tpiomis Flr obenin coin can panes xar de fazer 0s ritos mégicos € apenas arriscar ter ma sorte. Segundo Malinowski, um ito magico tem um propésito pritico espectico que é conhecico a rodos que o peat cam e que pode set facilmenteinvestigadoa partir de qualquer informants nativn, en. quanto que um rito ¢ religioso se ésimplesmente expressivo endo tem qualquce ojo, tivo particular, sendo nfo um meio para um fim, mas umn fim em si mene Fen oy base da clasticagdo de rtuais de Parsons como “religiosos na medida em spe a meta procurada néo é empirica, e magicos, na medida em que essa meta é empiia" Embora sem negar o interesse tedrico possivel dessas ¢ de outras diferenciagSes entre atividades magicas e religiosas, em seu texto sobre “Tabu”? Radcliffe-Brow! fees ambiguidades envolvidas quando se emprega.o tetmo “ritual” para! cod rit fendmenos magico-religi ur lo geral”™’. do, de® be Keates poe ae deum modo geral’?. Ele fala, enti, de “valores ri- E todo 0 compasso de atividades rituais ou mégico-religiosas que Durkheim associa ao sagrado em oposigo a0 profano, uma dieotomia que ele descreve da se- guinte maneira: “Todas as crengasreligiosas conhecidas, sejam simples ou comple- Za presentam uma caracterdticacomum: eas pressupem uma cssfcago de 28 coisas, reais e ideais, sobre as quais os homens pensam, em duas classes ou Srupos opostos, geralmente designados por dois termos distintos que sio bastante bem traduzidos pelas palavras profane e sagrado”"*, Essa classificagio é, em todos os aspectos, uma classificagio relativa. “O cfrculo de objetos sagrados no pode ser de terminado, entio, de uma vez por todas. Sua amy ee do as diferentes rcigices™™ iplituce varia infinitamente, segun- ae oem observar que, para Durkheim, a dicotomia sagrado/profano existe ro do sistema de coordenadas do ator; cle afirma estar lidando com conceitos ‘que estdo realmente presentes em todas as culturas, € que sio significativos Préprio povo. £ por essa razio que sua definiggo desempenha um papel ce 0 ae na valiosa discussio que Parsons faz das convergéncias ican scciolog de lio, ‘Um dos aspectos mais importantes desse desenvolvimento é a concor- ia de que “as situagdes devem ser definidas subjetivamente e as metas e valores Para os quais a agio esté otientada devem scr congruentes com essas definicées, ito rOTECA AL. Parsons, 1951: 375. B 12. Radelitfe-Brown, 1939 [reimpresso em 1952}, 13, Radlitfe Brown, 1952; 136-139, 14, Durkineim, 1947: 37, 15. Ibid. 26 6, devem fazer ‘sentido™"*, Parsons vé essa posigo como sendo coerente nao s6 com aideia do entendimento (Versteben) de Weber nas ciéncias sociais, mas também com, 4 afirmaggo de Malinowski de que os habitantes das Ihas ‘Trobriand reconhecem a distingao entre atos tecnol6gicos, mégicos ¢ religiosos. Na verdade, ele considera ‘Tylor e Erazer como parte da mesma linha de desenvolvimento intelectual porque a «ariedade racionalista do positivismo” era caracterizada pela “tendéncia a tratar ror como se ele fosse um investigador cientifico racional, agindo “razoavelmente” & juzdo conhecimento que lhe era disponivel””. Embora seja verdade que Tylor ¢ Fra- zet-~corretamente ov no ~ atribuiram 3 religigo uma origem intelectualista isso cet- tamente foi o resultado de sua dedicagio As categorias ¢ modos de pensar correntes na sociedade europeia do final do século XIX e nfo da adogio do ponto de vista do ator do “outro”, a0 qual cles tinham acesso apenas por meio dos relatos de missionarios € sjajantes. Por mais que isso seja verdade, & claro que seu ponto de partida era menos relativo que o de Durkheim, cujo tinico ponto estabelecido € a “dualidade universal dos dois reinos”, o sagrado eo profano. ‘Mas voltemo-nos agora para a evidéncia empiica e perguntemo-nos se a dicoto- mia é, com efeito, uma caracteristica universal ou até mesmo recorrente do sistema de coorcenadas do ator. Pois embora Durkheim tenha expressado seu argumento de tal forma que a descoberta de qualquer sociedade que nfo reconhecesse essa dlivisi0 poderia ser usada como refuracio, da mesma maneira como ele utilizou o budlismo para rejeitar a definigio minima de religigo de Tylor, aqui estamos menos interessa~ dos na questZo da universalidade dos fenémenos e mais na clucidagio de conceitos analiticas tieis. Uma dificuldade importante se apresenta imediatamente. Se a dico- tomia é realmente tao relativa como afirma Durkheim quando fala de variagdes infi- nitas, entio claramente nio é fécil decidir 0 que procurar. Muitos dos autores que adotaram essa abordagem igualam o profano ¢ o sagrado respectivamente com “nor- mal” por um lado, ¢ com “coisas separadas ¢ proibidas” por outro, como Durkheim fez em sua definigio original. Mas sera que isso nao nos leva muito além dos limites do reconhecidamente religioso, para usar a frase de Jane Harrison? Na auséncia de ritérios objetivos, nao poderfamos igualmente apontar para qualquer dicotomia que aquele povo especifico faz, “bom” e “mal”, “negro” ¢ “branco”, “dia” e “noite” e de- clarar que isso constitui o equivalente de sagrado e profano? ‘As dificuldades empiricas podem ser ilustradas com a ajuda de duas discusses importantes desse problema, que tratam os dados sobre uma sociedade espectfica no contexto da teoria geral. Refiro-me ao exame que Malinowski fez da magia Trobriand do relaro de Evans-Pritchard sobre a feitigaria azandle, No esbogo que Parsons faz “Idd ep ogseonp3 6 seuewnys seouaio ap enarorala VO3aLOIISIS 16, Parsons, 1954: 209-210. 17. i: 199, Ipals Na sociologia da religi cial por demonstrar a existéncia, dentro do tomia entre fenémenos rituais € nao rituais, Seu comentério é 0 seguinte: {ado a lado com ese sistema de conhecimenty¢ técnica racionnis, no entanto,¢ ‘Speciicamente em estar misurado ele, havia wa sistema de erenge pete Inigics. Bssas creas tefériam-se & possivel intervengio ma staasio de forgas¢ caries que sio “sobrenaturss” no sentido de que no 40, co nosso ponte dle Vista, abjetos de observagao e experiencia empirica e sim aguilo que Parco cha, ‘maria de enidades “angingvas” com um caréerespecitcamente sagtado » Malinowski € de importancia e tema de coordenadas do ator, da dico ‘no contexto das atividades pesqueiras. Parsons conclu que “essa abordagci 3 anise da magia primitiva permit que Malinowski claramente refutasse tanto aideia de Lévy-Bruhl, segundo a qual » hoe ‘mem primitivo confiunde o dominio do sobrenatural do sagrado com o utilitiriow 0 facional ¢tambycm a visio que foi elassicamente proposta por Frazer de que a magia ra essencialmente a ciéncia primitiva, servindo As mesmas fungdes fandamentais”®, Mislinowski, no encanto, embora certamente airmasse que 0s atos mégicos eam fe. conhecidos como tais pela sociedade, nao achava que tinha rejeitado Frazer em ecu Primciro relurio, Dos termos magia c regio, ele escreve em Argonaut ofthe Wes tom thaifc (Argonautas do Pacifico Ocidental): “embora ew tenha comerac mea trabatho de campo convencido de que as teorias ce religito e de magia apresentacas cm The Golden Bough sto inadequaas, fui obrigado, por todas as minhwus observa, ses na Nova Guiné, a concordar com a posigio de Frazer”, As dificuldads de eeconciiar essa acetagio de Frazer, para quem a magia era