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t ESPAÇO URBANO E PÓS­

MODERNIDADE

Professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo

o PODER destes tempos, vai rapidamente transformando


e retransformando seus ideários e soluções.

H
oje, a já mais que centenária Quem ou que instância julgará aspectos de
aspiração de ganho imobiliário uma topografia intraurbana, dependente na
expandiu, destruiu, reformou, sua escala da desterritorialização em curso?
reconstruiu e tomou a reconstruir nossa paisa­ Como ponderar exemplos, discussões e dúvi­
gem urbana. Inventou novas plantas e facha­ das levantadas em outras bandas para essa
das para velhas necessidades construtivas, in­ mesma escala do lugar, ou para outras escalas
ventou novos programas e arquétipos de edi­ que a todos envolvem?
fícios , inventou novos partidos e soluções ar­ O que tem sido e o que tende a ser o
quitetônicas. Aí compreendidas as invenções barnabé em nossos dias? Diante de taxas iné­
urbanísticas ... como a própria palavra urba­ ditas de urbanização, em regiões menos ou
nismo! Dos galpões industriais e estações fer­ mais industrializadas, de vida urbana menos
roviárias aos grandes armazéns e cais dos ou mais sofisticada, de um estado nacional em
portos, dos grandes bulevares e viadutos aos que preponderam os assuntos da cidade ou
jardins públicos e privados, dos edifícios com que se administram da cidade, em que os
elevador multiplicando inúmeras vezes o piso meios de comunicação ainda que precária e
às lojas com vitrine, lojas de departamento e novidadeiramente vão se oferecendo àquela
galerias comerciais. Hoje esse novo espaço preponderância e controle, em que o governo
urbano, difícil de caracterizar bem em sua ri­ local inegavelmente voltou a avançar recen­
queza, pobreza ou gama contraditória de solu­ temente, que papel tendem a ter as nossas pre­
ções, defronta-se, depois de tantas, seguidas e feituras e câmaras de vereadores? E o servidor
diferentes, com nova arremetida de desafios. público municipal, que tarefas terá em todos
Que cidade e com que edilidade desenhar para os seus níveis técnicos, administrativos e de
ou contra o mundo da globalização? atendimento? No que tange ao manejo do es­
Nestes últimos, pouco mais pouco me­ paço, como atuará diante de um planejamento
nos de cem anos, livre o trabalho, logo mais o territorial e urbano que, paradoxalmente, pa­
comércio, mais tarde a terra, o jogo de merca­ rece despencar como prioridade política?
do se impôs, com lógica implacável e previa­ Como e o que fiscalizará diante de um âmbito
mente explicitada e com balanço sempre pos­ privado progressivamente enaltecido e um
tergado. Um outro traçado urbano surgiu, com público, o seu, intimidado pelos apelos da ter­
variantes, com contraposições ousadas, com ceirização? Em todos os níveis, qual a futura
lógica implacável e incontida. Esta outra ma­ função, referência e dignidade do barnabé? E
neira de distribuir e locar atividades e gentes qual a nobreza que resta para o mandato de
nos legou, e vai presidindo, a cidade em que vereador?
vivemos, por toda a parte repetida à exaustão Em planos distintos, passados cerca de
e aborrecimento. A cidade, no sentido físico e uma centúria apenas da liberação da terra para
no de concentração das energias e inspirações o negócio entre nós, qual é o papel possível

Rev. Mediações - Edição Especial, Londrina, p. 29 - 45,1997


para cidadãos, edis e empreendedores? Em mente recentes "urbanizações". Assim des­
planos distintos, porque, se atuação possível pontou esse traçado arriscado com o advento
existe ainda, certamente não é a mesma para do mundo industrial, de outra fase do capita­
cada um desses agentes, como antes não era. lismo, o imperialismo, e de determinada mo­
Os empreendedores pequenos continuam com dernização das relações entre o trabalho, o
limitada capacidade de interferir além das capital e, indubitavelmente também, a apro­
bordas de sua parcela de solo, embora em priação da terra. Com o ocaso não da indús­
número incomparavelmente maior; os empre­ tria, mas daquele mundo industrial, em outra
endedores grandes, muito maiores hoje por fase do capitalismo mundial ainda por bem
razões que transcendem o alcance de leis mu­ compreender e batizar (pós-moderna, pós in­
nicipais, controles estaduais e as próprias ins­ dustrial ?), diante de outras modernidades ofe­
tituições nacionais, potencializaram seu poder recidas, que cidade esperar ou fazer? Que ris­
de transformar o lugar, a região e todo o ter­ co suportar ou antepor?
ritório nacional. Contra aquela transcendência
sobre as normas de todo o tipo e esta potência
crescente empresarial pouco podem, vereado­ A TERRA
res e prefeitos, para não dizer, tão distantes
orno se fica hoje, quando avan­

C
das questões locais em suas prerrogativas e
atribuições, deputados, governadores ou pre­ ça a crença na mais intensa libe­
sidentes. E os moradores em sua cidade? ração de toda ordem de troca de
As profundas transformações da eco­ produtos, de prestação de serviços ou de pré­
nomia, enquanto insistem em causar proble­ dios rústicos e urbanos? Como se fica hoje,
mas se não traumatismos locais, costumam quando a produção da fazenda e da fábrica, o
ser decididas geral e ostensivamente muito negócio da loja e do escritório e o senhorio
longe. Problemas e tentativas de solução que absoluto sobre qualquer imóvel têm o mundo
tendem em nossos dias a se acentuar em suas como clientela? Como se fica hoje, quando as
opções geográficas, chegando mesmo a emba­ fronteiras geográficas, mesmo as do estado
ralhá-las. Insistem os primeiros em se con­ nacional, são ultrapassadas por novos tipos de
centrar nas aglomerações, parecem as segun­ "corporações" internacionais, poderosas e im­
das provirem de plagas (ou pólos de centrali­ palpáveis? Como se fica hoje, quando e con­
dade) sempre mais distantes. Ao menos tal traditoriamente aqueles limites entre o de to­
acentuação de opções quanto a diferentes es­ dos e o de cada um, caros ao próprio libera­
calas espaciais serve de triste consolo para lismo, tendem a ficar menos claros, como
legisladores e executivos locais: outros em também aqueles físicos entre as áreas comuns
esferas mais amplas de jurisdição também so­ e as particulares, todas de domínio absoluto
frem dessa sensação e realidade de impotên­ agora, todas propriedades públicas ou priva­
cia. Num tal embaralhar de alcance social e das?
escalas espaciais, que tem merecido o especial De fato, nas relações de trabalho uma
cuidado de Milton Santos, que participação boa parte, tolerada ou estimulada, vai se
têm tido e poderão vir a obter empresários, constituindo à margem das normas e dos fis­
munícipes e vereadores na modelagem do seu cais, classificada como "informal"; outra
ambiente local, no planejamento efetivo e efi­ "formalmente" pleiteia a flexibilização da­
caz do seu lugar? quelas e a conivência destes. No mercado de
Ora, o desenho da cidade riscado sobre capitais as opções se multiplicam e desdo­
o chão implicou em arriscadas iniciativa para bram para o jogo de alguns, sob o beneplácito
o empreendedor e novo "urbanizador", tran­ de responsáveis públicos apenas nominais e
sação para seu comprador, financiado ou não, com efeito pronto para multidões. No jogo
e obrigação do governo municipal em regu­ livre de mercado - de liberalidade crescente
lamentar, aprovar e fiscalizar essas historica­ perante as normas específicas de organização

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do espaço urbano ou da promiscuidade decla­ como fora contestada em diferentes propostas
rada entre investidores e regulamentadores­ visionárias de outras relações sociais ou cita­
impõe-se uma verdadeira parceria entre o Ím­ dinas possíveis, vem sendo mais recentemente
peto de lucro imobiliário lógico do empreen­ menos negada do que confundida. Nos últi­
dedor, a desorientação do setor público e a mos cem anos, quando o alinhamento triunfa­
confusão completa da população local. Para va por toda parte como expressão do sistema
esta e para a localidade surge uma paisagem de compra e venda de imóveis, utopias gene­
literalmente de parceria entre soluções de uso rosas o diluíam como idéia na cidade-jardim
e ocupação do solo aqui e dissoluções acolá. ou, mais tarde, o baniam como na solução da
Parceria entre a solução de continuidade e a super-quadra. Nos últimos anos, contudo, sem
dissolução de limites ... buscar alternativas para a ordem social que
Em tempos de liberação aparentemente exige o alinhamento e, pelo contrário, pro­
mais intensa dos negócios de' todo o tipo, de pondo levá-la às últimas conseqüências, inte­
um Estado a seu serviço por opção ou cons­ resses setoriais e privados o afrontam e solu­
trangimento, de cidadãos que se confundem ções oportunistas e casuísticas se tomam cor­
mais e mais com consumidores, insinua-se um riqueiras: passadiços aéreos e subterrâneos
retrocesso de conquistas liberais ainda muito (no exterior tantas vezes justificados pelo
recentes em termos espaciais. Como a nitidez clima rigoroso), áreas públicas se confundin­
desses limites incontornáveis entre áreas pú­ do com as privadas e vice-versa, marquises
blicas e privadas, como a força pelo caráter oferecendo sua proteção efetiva e avanço dis­
uniforme e padrão das normas que sobre elas simulado sobre os passeios...
incidem, como o prestígio dos órgãos técnicos A vanço sobre vizinhos, nunca. Entre
competentes para delinear, programar e im­ vizinhos, de lote e de sorte, entre iguais pe­
plementar soluções ambientais. Cada vez rante a lei, curiosa ou compreensivelmente,
mais convivemos com exemplos já óbvios: a demarcar os terrenos se fez ou motivo de con­
indefinição de áreas comuns e restritas num fronto cruento ou, mais comumente, uma ati­
centro de compras, idem em áreas públicas tude de consenso e respeito. Trata-se de asse­
antes claramente "de domínio e uso comum gurar perante as instituições, garantidoras dos
do povo", o estatuto dos chamados condOmÍ­ mesmos direitos, e entre si o respeito pelo
nios horizontais et pour cause fechados , as domínio absoluto conquistado sobre um peda­
concessões ou regalias concedidas pelo poder ço de chão; o direito, por todos e, o terreno,
público a alguns interessados, de variado tipo por cada um. Curioso que essas fronteiras
e incluindo o desregular as normas urbanísti­ comuns e entre particulares não têm sofrido
cas casuisticamente, como resultado das men­ ameaças perante um quadro de outras mudan­
cionadas parcerias - termo emprestado do ças em curso na ordem econômica e social.
mundo rural, onde sem dúvida por séculos, se Avanços e recuos podem se dar, ou conivên­
não por milênios, tem sido mais transparen­ cias, quando se trata do alinhamento, da
te -, a perda da autoridade de técnicos, equi­ fronteira entre a área privada e a pública, não
pes e organismos, responsáveis pela regula­ quando dizem respeito a limites comuns.
mentação e pelo desenho do espaço de todos . Quando muito, vizinhos em um loteamento
Que desenho? convencional ou clandestino, em um condo­
O alinhamento costuma ser nítido, de­ mínio vertical ou - até mesmo! - horizontal
finidor e uma linha de partida para qualquer admitirão porteiras, áreas comuns, servidões
projeto de rua ou construção. Antes de sua de passagem ou um passadiço de segurança ...
aprovação, antes do próprio desenho, tal linha e ainda se constrangidos pelo poder público.
de testada ou curso de via comanda tudo por É que a superfície exata dos prédios ur­
uma questão de escritura, de domínio certifi­ banos, entre outras qualidades suas e antes de
cado sobre o bem, sobre a propriedade, seja todas, se transformou em seu valor virtual e
pública, seja particular. Entretanto, assim real, pedido., contraposto e acordado, passível

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de financiamento e de tributação. Por isso, a mais do que nunca como elemento de circula­
área de terreno e a construída interessa ao ção, de ligação. Restringiu-se nas atribuições
proprietário, ao eventual comprador e ao fis­ e em nome de uma liberalização em diferentes
co... e merece respeito. Como medida desse esferas de vida e de normas correspondentes
valor de troca, como padrão, permanece ina­ para a organização do espaço. A mesma liber­
balável o metro quadrado, ou, pelo contrário, dade e jogo de mercado acirrado, a mesma
avança. Avança esse padrão, que se pretende ordem não mais buscada nos coloca hoje di­
universal desde sua concepção, como outros ante de uma tal via anônima e desinteressante.
padrões métricos, enquanto se intensifica com Circulamos de nossas casas, de edifícios de
mudanças e alterações profundas a ordem de apartamentos, de condomínios horizontais,
trocas que o imaginou. Ainda que tais mudan­ para a loja departamental, o supermercado,
ças e alterações incidam sobre o capital imo­ para o centro de compras, a casa de cultura,
bilizado, e sem dúvida o estão fazendo de para o centro de exposições, a passarela do
inúmeras maneiras, a necessidade e a reverên­ samba, até mesmo para a "Rua 24 Horas"!
cia do padrão, de um padrão, persistem e não Tudo como quadro físico se uniformi­
se discutem . Qualquer discussão ou novidade za, em princípio, para fruição das barreiras
em outra fase dessa ordem se dará quanto ao derrubadas para a circulação das gentes e das
papel e à participação do jogo imobiliário em mercadorias, para o laissez passer. Na prática,
novas relações que se forem forjando com o essa sociedade e esse mercado livres criarão
capital e o trabalho . os seus pontos novos; na uniformidade, as su­
as novas distinções: "centros" de todo tipo,
palas ou distritos, clubes privados, condomí­
o MORAR nios fechados... À medida que o mercado
conquista o tecido urbano como um todo e,

H
oje, em tempos de desterritori­
com isso, impõe a quebra de antigas ou ante­
alização, vê-se acirrar o jogo
riores hierarquias, a desaparecida travessa
do mercado na vida industrial,
como que se vinga da rua em nossos dias.
comercial e de serviços de todo tipo. Percebe­
Pois, se tudo é rua, poder-se-ia dizer, de muito
se que, muito antes, tal jogo propiciou o esva­
pouco tempo para cá, que tudo é travessa,
ziamento ou a desvalorização de muitas áreas
elemento de ligação entre outros mais impor­
urbanas em prol de outras, a concentração
tantes. Se igualam as antigas travessa e rua na
nestas de uma série de empreendimentos di­
função a que ficaram restritas, de ligar centros
versos, o surgimento de complexos de grande
disso e daquilo, centros de compra e empresa­
porte, distritos industriais, centros comerciais
riais, de cultura e educacionais, distritos in­
e de escritórios transformando a vida das ci­
dustriais e de lazer, de ligar vias expressas,
dades' especialmente nas áreas metropolita­
auto-estradas, trens suburbanos ou metropo­
nas. Diante disso, respostas menos ou mais
litanos subterrâneos, de superfície ou aéreos.
tímidas - algumas já históricas ou clássicas­
Até mesmo, quanto a esse intensificado cir­
de remanejamento urbanístico tentam dar a cular, a função reduzida da via pública se tor­
volta por cima. Entre opções extremas atuais, na secundária, complementar; elevados e
entre o zoneamento rigoroso e a completa subterrâneos, em outra escala e preferência,
mistura de funções, como vamos dispor ou coligam pelos seus portões e portarias os
indispor pelo tecido urbano as gentes, os ne­ fragmentos do mosaico citadino contemporâ­
gócios, os níveis de renda? Como vamos neo.
compor fisicamente o espaço urbano? Um morar distinto tem buscado, entre
A rua foi liberada de sua função tradi­ outras novidades, a efetivação se não a eficá­
cional de segregar e de congregar, continua a cia dessa liberdade de acesso e de transmissão
servir ao mercado apesar da concorrência de imobiliária, segundo o jogo de mercado. Entre
novos espaços, é vista simples e vulgarmente outras novidades, porque, por um lado, será

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um morar condidicionado pela capacidade de O destino do "lugar" está hoje ao sabor
disputar - livremente - um prédio em termos do que se passa em distintas escalas, de um
de preço e, por outro, será um morar atento, mercado que se pretende livre para a partilha,
primordial e inescapavelmente atento, às ocupação e uso do solo, da caprichosa distri­
oportunidades de oferta de trabalho ou de buição dos grupos e classes sociais. A tessitu­
conquista de emprego. Separou-se a casa do ra da cidade denota impotência ou subservi­
negócio, redesenhou-se a cidade para o negó­ ência ante esferas decisórias estranhas, inicia­
cio. Em tempos de terceirização do trabalho, tivas setoriais arrogantes, modos de congregar
de um número crescente de atividades no e segregar que lhe escapam. O ambiente co­
campo e na cidade, de atividades industriais, mum reflete outra página da geografia e da
comerciais e de prestação de serviços, muitos história, cuja plenitude não conhecemos e da
deles novos e característicos, que lições tirar? qual talvez estejamos nos despedindo: um es­
Que referência tomar daquela mudança espa­ paço de liberalidade que se pretendeu libera­
cial que abriu novos tempos e que, parece, os do, um tempo de liberais que se prometeu li­
nossos estão fechando? Que lições tirar desse bertário.
morar que substituiu então a segregação verti­
cal, entre o residir e o prestar serviços num
mesmo ponto, pela segregação horizontal, que
separa determinadas comunidades e idênticas
atividades e as mistura de outra forma pelo
resto da cidade?
Separa-se a casa do negócio, a casa vira
Professr do Depto. de Arquitetura da UEL
em si objeto de negócio. A casa deixa de abri­
gar o ofício de seu dono enquanto se toma
objeto de outros ofícios. Ao lado dos tradicio­

G
ostaria de fazer algumas obser­
nais, diversas atividades ligadas à construção vações sobre o tema. Observa­
e a seu equipamento, outros despontaram,
ções opostas ao que o Murillo
como o do loteador, que propicia o chão, o do
expressou de uma maneira até melancólica,
empreendedor ou incorporador, que financia a
hoje aqui. Afinal de contas, Murillo é um ar­
construção, o do corretor imobiliário ... Essa
quiteto moderno (acho que os sociólogos pre­
nova gente passou, com seus critérios e outros
sentes não sabem muito bem a diferença entre
interesses, a oferecer e ajudar a constituir um um arquiteto moderno e um pós-moderno): o
novo modo de morar. Se o seu surgimento em arquiteto moderno é aquele que não aceita a
nossos grandes centros urbanos é constatado "desordem" como ordem, enquanto o arqui­
na segunda metade do século passado, estará teto pós-moderno aceita a "desordem" como
o seu desaparecimento em curso? Estará data­ ordem. Basicamente, essa é a diferença. Nos
da sua contribuição como fase em breve su­ últimos duzentos anos, o arquiteto moderno
perada? Novos recursos de trabalho, novas cresceu com a ilusão de uma ordem matemá­
relações e condições de trabalho ou de empre­ tica que uniria economia e ciência ante os
go da mão-de-obra, novas condições econô­ grupos sociais, numa única sociedade a ser
micas e sociais trarão de volta o trabalho para desenhada por ele.
casa? O ofício ... ou a falta de ofício? Para E nós sabemos que está na gênese da
quem, em quanto tempo, por quanto tempo? modernidade uma tendência contrária a esse
Quantos estarão empregados em casa e quan­ espírito matemático de união, que é a tendên­
tos desempregados na rua? Estaremos quantos cia à dispersão, à conquista da liberdade indi­
negociados, terceirizados trabalhando em casa vidual. Essa conquista da liberdade individual
de portas fechadas? Estaremos logo instala­ leva a outros desdobramentos, a outras indivi­
dos, sem profissão e sem clientela? dualidades. Sabemos, também, que cada indi­
vidualidade tende a construir seu espaço, a

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moldar seu espaço de acordo com uma proje­ esta já não cumpre seu papel centralizador,
ção mental, como uma obra de arte. A cidade deixando de existir um único centro primiti­
é uma obra de arte. A rua, a praça, é uma ex­ vo. A nova cidade cria um pseudo-centro,
pressão do indivíduo; cada canto da cidade com comércio, áreas de lazer, etc.
representa algo desse mundo interior do ser Logo temos o surgimento de uma outra
humano. metacidade, que é o shopping. A partir de
Então, se pensamos na cidade evoluindo uma pesquisa de mercado, chega-se à conclu­
- cada vez mais - para as divisões, pensamos são de que Londrina precisa de um centro
também em uma cidade em perpétuo conflito. comercial idealizado. Surge o Shopping Ca­
Aí está a semente de algo que os modernos tuaí, também metacidade, distante, quase um
não suportam: as oposições ideológicas, cultu­ castelo, uma forma particular, um verdadeiro
rais, econômicas, oposições de toda ordem. paraíso, uma paisagem com trezentos e ses­
Aqueles que vivem em Londrina há mais de senta graus de amplitude, onde não se avista
trinta anos devem ter notado que Londrina nada do conflito da cidade original.
passou de uma cidade moderna para uma ci­ O fenômeno mais atual de manifestação
dade pós-moderna num período muito curto, dessas di versas cidades é o condomínio hori­
ou seja, a rua principal, que era a avenida Pa­ zontal' ou seja, uma demonstração da necessi­
raná, era um ponto de encontro entre as pes­ dade de superar as limitações do edifício ver­
soas até meados da década de 70. Quer dizer, tical que se construiu abaixo da avenida Higi­
a avenida Paraná cumpria o papel de main enópolis. É a volta à idéia primitiva de casa
street, de rua principal. Alí, aquela pequena com lote urbano e a idéia idílica do jardim. Aí
sociedade homogênea, que trabalhava com a começam os conflitos mais interessantes e
riqueza do café, conseguia se encontrar. A ci­ mais graves dentro da cidade, porque, de re­
dade não oferecia todas as possibilidades que pente, cria-se um bairro inteiro murado que
oferece hoje, em termos de vida, de represen­ interrompe todo o fluxo, todo o trânsito da
tação dessa sociedade. Não havia universida­ cidade, e a legislação urbana atual não con­
de, ou seja, a cidade ainda não abrigava o ho­ templa e não admite esse tipo de problema.
mem científico que quer se caracterizar, que Mas existe uma forma de burlar a lei, que é
constrói o seu próprio espaço. Não havia ain­ fazer primeiro o condomínio com uma série
da a cidade pluralista, a cidade da classe mé­ de quarteirões e, só depois, é pedido que seja
dia, a cidade dos serviços. Era uma sociedade murado. São artifícios que não foram bem re­
mais homogênea. solvidos do ponto de vista da organização da
No momento em que a cidade começou cidade. Ma a exigência está aí e a cidade
a crescer, começou a multiplicar suas indivi­ atende a essa exigência. Neste momento,
dualidades, começou a se separar. Provavel­ Londrina está crescendo com uma série de
mente, a primeira metacidade foi a cidade condomínios horizontais, como se fossem ci­
universitária, ou seja, a concepção de que a dades idealizadas à margem desse cinturão
cidade do cientista não poderia ser a mesma urbano, como um pedaço de Cambé 1 .
cidade do agricultor. Aí, na época, distancia­ Que fenômeno é esse? É o fenômeno
dos alguns quilômetros do centro, foi feita recente da individualidade conquistada. O fe­
essa utopia que vivemos hoje. Isso foi apenas nômeno dessas classes que querem criar seu
o princípio da expressão dessa pluralidade que espaço particular, onde tudo o que idealiza em
não tem fim. termos de mundo esteja presente no habitat:
Logo em seguida, observamos o surgi­ teto, lazer, troca de serviços são colocados
mento de uma classe média muito abastada nessa pseudo-cidade. Estamos falando não
que se separa do centro e constrói um bairro mais de uma cidade no sentido primiti-
paralelo, de classe média alta, entre as aveni­
das Higienópolis e JK. Então, temos outra
I Cambé é um município vizinho de Londrina e bas­
cidade, que abandona a cidade original, pois
tante próximo ao Shopping Catuaí.

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vo/modemo, com uma estruturação homogê­
nea desenhada por um homem ou por um úni­
co grupo, mas sim de uma cidade vista no Professor do Depto. De Ciências Sociais da UEL
sentido de uma colcha de retalhos , ou seja, de
uma nova ordem na qual os urbanistas não

D
e modo particular parabenizo o
estão preparados para resolver. departamento de Ciências So­
Isso porque eles usam os mesmos méto­ ciais que está trazendo para
dos primitivos de controle do desenho, esque­ nós docentes e estudantes de ciências sociais e
cem os métodos de organização dessa nova outros cursos, pensadores e pesquisadores,
ordem social que começa a construir a cidade. com reflexões que poderão nos ajudar a en­
Acho que o desafio para arquitetos e urbanis­ tender uma série de problemas que se encon­
tas - gente que trabalha nos órgãos públicos, tram presentes no mundo em que vivemos e
no sentido de criar um a um esses mundos de modo particular fazem o dia a dia de nos­
particulares - é compreender como se dará a sas cidades.
passagem de um mundo para outro dentro de A conferência do professor Murillo
um sistema de ordenação da paisagem. Va­ Marx foi muito importante e suas análises
mos pensar sempre assim: dar ordem a esse bastante profundas, e confesso me terem sus­
caos geométrico, transformando o caos orgâ­ citado alguns questionamentos por se tratar de
nico em ordem orgânica. um estudo vigoroso em termos de compreen­
J á temos alguns exemplos muito inte­ são da arquitetura, do urbanismo, enfim do
ressantes desse tipo de trabalho. A cidade já é, modo de vida da cidade hoje, redimensionan­
de certa forma, um grande exemplo. A cidade do aquilo que conhecemos. Lamento não ter
existe, as pessoas estão vivendo, transitam, tido acesso antes, como debatedor, ao conteú­
vão do shopping à universidade, da universi­ do da própria conferência, para poder colabo­
dade ao condomínio horizontal, para o interior rar mais apropriadamente com algumas su­
dos muros . Já estamos habituados a viver essa gestões. Doutra feita, a análise realizada pelo
pluralidade, só não estamos ainda habituados segundo conferencista, prof. Kleber deixou­
a encontrar uma ordem formal entre esses di­ me também com algumas indagações, uma
versos mundos complexos que se organizam. vez que faço uma outra leitura do contexto
Tanto aqui na universidade quanto no mundo histórico e social da cidade de Londrina.
da teoria ainda não surgiram respostas capa­ As idéias do professor Marx foram ex­
zes de superar o pessimismo na paisagem postas de modo tão abrangente que ocasiona­
moderna, o seu olhar é interrompido a cada ram uma verdadeira viagem no tempo em
metro pelo surgimento de um outro mundo, busca da questão da cidade e da globalização.
de um outro topos, de heterotópias. A essa Seu percurso histÓ11CO foi longo ao trabalhar a
nova ordem temos que nos habituar, porque é questão do urbano, com suas referências cal­
a ordem da liberdade, mais da liberdade do cadas em David Harvey, Milton Santos e ou­
que a ordem moderna dos iluministas que, na tros autores que se preocupam com essa te­
realidade, não era tão livre assim. Os ilumi­ mática. A partir do que, trabalhando com um
nistas eram livres para pensar entre um grupo quadro teórico idêntico eu perguntar-Ihe-ia o
fechado, mas não eram livres para admitir seguinte: sua idéia de cidade, estaria circuns­
conflitos. crita na sua fala a idéia de urbano - local de
Seria um tema interessante para debater, consumo?
a superação do pessimismo em relação à ci­ O acentuado enfoque da questão dos
dade moderna - que é a da ordem única - e a serviços, na sua exposição, caracteriza de
aceitação dessa nova ordem, orgânica, de certa forma a cidade tida mais como um meio
agregação entre partes independentes. Que de consumo. Deixando de lado a relação entre
futuro isso poderá ter para nós que estamos o espaço local e o espaço da globalização,
moldando o espaço? inicialmente anunciada, configurando com

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isso a cidade fora de sua região e toda a rede As questões de tempo e espaço do mo­
urbana da totalidade do seu território de que derno mundo de hoje, estudadas até a partir de
faz parte. Dessa forma, não estamos perdendo pequenas realidades locais quaisquer que se­
um pouco o entendimento e a conceituação jam, redimensionaram essa visão de cidade e
da cidade-urbano moderno ou mesmo até pós­ de espaço urbano que trabalhávamos como se
moderno como querem alguns autores? fosse algo sem sentido, falar sobre "aquela
N a relação tempo/espaço em que o cidadezinha." Debruçarmo-nos a discutir ver­
meio urbano hoje se coloca, as cidades e de ticalizacão, tipos de prédios, avenidas, ruas,
modo particular as de porte médio, bem viadutos, etc. é muito importante. Mas anali­
como as metrópoles, estão estritamente liga­ sar a cidade só como meio de consumo desse
das e circunscritas a uma dinâmica nova, a um tipo, dissociada de sua região e de seu territó­
elemento importante, que é a questão dos rio pode, em determinado momento, parecer
meios de comunicação, principalmente a in­ uma análise pobre. Gostaria, contudo, de
fonnática. E a partir dai, uma nova compreen­ acrescentar a esse dia de estudo essa análise,
são de tempo e espaço redimensionam o con­ hoje muito divulgada em diversos trabalhos
ceito de cidade. Milton Santos mostra que as sobre a cidade e a questão mbana redimensio­
cidades, hoje se estruturam pelo poder que nada no seu tempo, no seu espaço local e re­
têm de informar e de articular as varias di­ gional, colaborando com as questões aqui
mensões do que se passa no seu entorno e no propostas pelo professor Marx, como também
mundo, através da possibilidade de organizar pelo professor Kleber.
e gestionar um amplo processo informativo de A leitura de Londrina, da avenida Higi­
possíveis respostas. Aí sim ela tem, sem dúvi­ enopólis feita pelo professor Kleber, foi muito
da, no espaço da sua região, uma dimensão sugestiva, ao analisar as expectativas da bur­
maior desse mbano globalizado, não circuns­ guesia quando se instalou naquela região, em
crito à questão puramente local. É o espaço e relação à localização e definição do seu espa­
tempo moderno, das cidades modernas, a par­ ço e usufruto do mesmo .0 que para mim fi­
tir do momento em que o pós-moderno se cou claro é que, a partir do momento em que
instala, ainda que alguns autores digam, que o comércio começou a penetrar na avenida
nem sequer concretizamos a modernidade e já Higienopólis, com parada dos ônibus à porta
estamos falando da pós-modernidade. das residências, gente nas calçadas, com o
Gostaríamos de apresentar outra ques­ atendimento de pequeno mercado ambulante,
tão: a cidade foi apresentada aqui como a ci­ a burguesia não suportou, sentiu-se muito in­
dade do consmno. E a cidade da produção? E vadida e seu mundo devassado. Mudou-se
as outras relações, de poder, do Estado, da para o Shangri-Iá . Foi a opção daquele mo­
política, dos momentos outros que perpassam mento, na década de 50. Um local privilegia­
o tempo e o espaço das cidades? Essas rela­ do, com um planejamento muito bem feito.
ções são tão ricas quanto aquelas e não devem Mas junto ao Shangri-Iá 1, surge o
se perder na análise para não se reduzir a ci­ Shangri-Iá 2 e um assim também considerado
dade àquele determinado espaço físico onde Shangri-Iá 3. Depois o Jardim do Sol, e a li­
as pessoas caminham e consomem, esquecen­ nha do trem relativamente próxima e um pou­
do toda a outra dimensão do que a cidade de co mais em baixo a favela da Caixa Econômi­
fato é. Uma cidade como Londrina, por ca. Tudo isso traz um certo incômodo. Dessa
exemplo, exerce uma liderança pelas condi­ forma, uma nova opção como bairro "chic"
ções que oferece, ligada aos meios mais mo­ londrinense na década de 60, foi o Aeroporto.
dernos de comunicação e demais padrões de A Avenida Santos Dumont e adjacências
satisfazer às necessidades de sua população eram expressão máxima de prestígio. O Ae­
no que diz respeito ao vasto leque das rela­ roporto local do encontro, com a chegada e
ções acima descritas, tanto em nível de região saída de grandes fazendeiros, muitos deles
quanto global. com seus próprios aviões ainda que de peque-

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no porte, davam a Londrina uma importância Acredito que essa questão os senhores
significati va como capital regional. E o bairro poderão muito nos ajudar a entender e anali­
por sua vez espelhava essa pujança. Mas vie­ sar.
ram as mudanças. A chegada dos aviões de Obrigado.
grande porte e todo o transtorno que os gran­
des aeroportos trazem, as crises do café, trans­
formações na estrutura da economia local,
crescimento do comércio e como resposta à
expectativa de reassentamento da elite , na Professor da Faculdade de Arquitetura da USP
transição dos anos 60 para as décadas 70/80
desponta a colina do Quebec e depois para o
Lago Parque, Bela Suíça e assim por diante.

A
gradeço os elogios, e vou res­
O professor Kleber em sua abordagem ponder a meus dois colegas de
sobre as várias formas de estruturação da ci­ mesa de forma conjunta, certa­
dade, mostrou que a ordem anterior acabou mente alterando a ordem em que colocaram,
sendo desorganizada. No entanto esses são os muito bem, suas observações. E já vou dando
momentos que traduzem a relação espaço­ uma resposta a meu amigo Kleber, que muito
físico e espaço-social da segregação, a partir me impressionou quando se referiu a uma
do meu ponto de vista. Essa é uma cidade que melancolia .no meu texto. Lamento ter passa­
nasceu, como dizem os autores: Prandini e do essa impressão, mas não é melancolia não
Muller com seus espaços segregados. - é revolta, pelo meu estado de estupefação e
Atrás da linha de ferro havia outra ci­ de não encontrar saídas; pelo meu estado de
dade. Era a cidade do lado de cá da linha e a pouca clareza no entendimento, na apreensão
cidade do lado de lá da linha. A cidade sem­ do que está aí. Aí sim, melancolia e senti­
pre teve esse processo de segregação: a cidade mento - em relação à fala do professor João
do rico, nouveau-riche, e a cidade daqueles Batista - não de ajudar, mas talvez como
que vieram como força de trabalho e que não Chacrinha, de ajudar a confundir.
tinham lugar melhor para morar a não ser as Em parte, essa tristeza, essa eventual
vilas distantes e carentes de infra-estrutura. E melancolia, se melancolia tenho, não é diante
como contribuição ao debate, acho que não se do que está aí, mas diante de nossa postura
trata apenas de uma desorganização. A partir frente ao que está aí, no âmbito das ciências
dessa leitura, perguntaria ao prof. Kleber, ar­ humanas, no âmbito de cultura, e aí incluo a
quiteto, como os urbanistas propõem superar arte e a arquitetura, que são o meu espaço. No
uma série de dificuldades, que ao meu ver âmbito da minha república, que ainda se cha­
existem na organização desse espaço urbano, ma Brasil, num estado que é um dos mais ri­
uma vez que o uso da terra, o solo urbano, cos do Brasil, o Paraná, nessa cidade de Lon­
atende a diversas implicações político­ drina, que é um centro de gravidade do perío­
econômico-sociais. do histórico que trouxe esse mundo em que a
Nesse ponto retorno ao professor Marx, terra passou a ser negócio, esse mundo em
terminando minha intervenção sobre a cidade que o comércio - isto é recente, e não apenas
- o meio urbano, colocando a problemática no Brasil - passou a ser codificado, regula­
em todos os seus desdobramentos: de quem é mentado (palavra que virou pecado, atual­
a cidade? Essa é uma das questões que consi­ mente). Esse mundo, que fez o nosso contem­
dero importante e que Milton Santos trabalha porâneo, que se consolidou com a proclama­
quando interroga: de quem é a cidade? Quem ção da república, ainda ontem, que deixou de
planeja a cidade? Para quem se planeja a ci­ estar calcado no trabalho gratuito, escravo,
dade? Como se planeja a cidade? Com quem ainda ontem; esse mundo, dessas novas liber­
se planeja a cidade? dades e dessas normas, é muito recente e já
está tendo sua página virada. Nesse mundo

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não sei se meu país entrou e sei que já está está no plano mundial, em termos de socieda­
saindo. de no sentido mais amplo.
Mas não é o mundo novo que está aí Que desordem aplaudir? Não me refiro
que me preocupa e sim, nossa falta de ação. à física, espacial, não é essa a desordem que
Esse mundo, essa página que vai sendo vira­ devemos encarar em primeiro lugar. Parece­
da, de pouquíssimos anos para cá, é natural me que é mais uma desordem do mundo que
que nos deixe desinstrumentalizados, estupe­ se reordena com uma nova ordem fortíssima,
fatos, sem ação em todos os níveis, inclusive prevendo a desordem, pregando a liberdade,
no meio universitário. Porém, talvez, não es­ em que nós, a imensa maioria, vamos sucum­
tejamos enxergando claro por ser tão pouco bir, literalmente como "gente", como ofício,
tempo. Respostas claras não podemos ter, mas como atividade. Sucumbir, como já estão de­
as perguntas - isso é importante - temos obri­ saparecendo profissões, como já estão dimi­
gação de fazê-las. E aonde há iniciativas para nuindo mercados, nessa oportunidade "mara­
isso? Quais os critérios, por exemplo, no meio vilhosa" que se abre no mundo de forma tru­
acadêmico, para estimular, levantar questões, culenta.
propiciar fóruns de debate que não fiquem na Ficar inerte frente a isso? Não é melan­
superfície? Sem dúvida, os que decidiram e colia; pode ser revolta, melancolia não é. Por
organizaram este Seminário. isso não fiquei constrangido hoje em aportar
E aí eu me refiro à observação perti­ com tantas e cansativas perguntas sucessivas.
nente e oportuna do professor João Batista, À cidade moderna ou pós-moderna - e aí es­
em relação às cidades frente à produção. No tou me referindo às observações diferentes e
âmbito das ciências sociais, das ciências que seguidas dos dois colegas de mesa - é preciso
têm que discutir, que têm, às vezes, de encarar perguntar mais uma vez: que moderno é esse?
coisas desagradáveis, que incomodam, como De que modernidade se fala? Entendi que o
o conflito das idéias, o conflito de classes, o professor Kleber se referia: ao moderno quan­
conflito de grupos sociais, ou contradições do falou em artes plásticas e, mais especifi­
mais agudas, vai ser muito difícil mesmo, camente, em arquitetura. Alguns preferem
porque nós somos "chatos" e incomodados e chamar de modernismo ao movimento que
só seremos gente na medida que incomodar­ respondeu, no nosso século, a uma aspiração
mos . Essa é minha opinião. de modernização, entre os anos 20 e 40; por
A segunda anotação que fiz sobre a in­ toda parte, com várias modernidades aspira­
tervenção do professor Kleber, diz respeito a das, por vezes com comportamentos contra­
como nos portamos perante as coisas. Ele tem ditórios, se não opostos. Vou dar um exem­
toda razão no percurso histórico que fez, es­ plo: no anos 30, a tal arquitetura moderna a
pecificamente para o mundo da arquitetura. que se referiu Kleber , e outras artes e outras
Para o mundo do desenho, da composição da contribuições nas quais o Brasil veio a se
cidade. Mas a cidade reflete uma sociedade ... destacar, respondia a determinada aspiração
Milton Santos - mais uma vez, hoje já nos de modernidade que não era a mesma que ti­
referimos a ele várias vezes - notou isso: a nha trânsito, que tinha todo o aplauso, a ex­
sua forma interfere, condiciona essa socieda­ clusividade, na Itália e na Alemanha de então.
de; mas são as relações entre os homens, em Refletiu-se esta nas artes? Sim; há filmes, do­
certo momento da história, que conformarão a cumentários maravilhosos sobre isso. E refle­
cidade assim ou assado. Depois estabelecem tiu-se como aquela na paisagem de nossas ci­
um diálogo com esta forma realizada e a re­ dades, pelo menos do Rio e de São Paulo.
formam, eventualmente. Não é, a meu ver, o No plano do urbanismo, homens como
caos em termos de geometria ou o caos em Alfred Agache, o mais eminente urbanista de
termos - já para provocar - de organicidade, seu tempo, ainda na República Velha, veio
que parece estar em jogo, ou veio em primeiro planejar o Rio, a capital federal. Na mesma
lugar. Mas sim um caos , uma desordem, que época, veio para cá um senhor Le Corbusier

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que tinha outras visões, outras imagens, outras cia estiver, está solapado, lhe tiraram o tapete
propostas de cidade contemporânea na cabe­ e, no âmbito de sua pequena paisagem, ele
ça. Na mesma época, veio o senhor Frank perdeu o pé de seu paese, do seu hamlet. Está
Lloyd Wright, eminentíssimo arquiteto, com solapada a sua autoridade em casa - digamos,
propostas radicalmente distintas. E nos anos forçando um pouco - intra-muros a cidade
seguintes passou por aqui, como Le Corbusier não se governa. É o quadro claríssimo que
o senhor Piacentini, eminente professor da vemos no jornal todo dia.
Universidade de Roma e não um arquiteto Moro em uma cidade totalmente neuró­
fascista ou do fascismo, mas o arquiteto com tica, sem horizonte, fascinante na dinâmica e
as maiores responsabilidades na arquitetura e na fragmentação injusta que tem, que é São
no urbanismo do moderno Benito Mussolini. Paulo. Está na mesma e, no entanto, detém o
A cidade de São Paulo tem um legado magní­ terceiro orçamento da república. O governo de
fico de sua autoria, que é talvez o prédio mo­ São Paulo só tem menos dinheiro que o go­
derníssimo, no sentido vulgar, de escritórios verno da união e o governo do estado de São
que aquele linguajar arquitetônico e artístico, Paulo. Nos últimos anos, ultrapassou o Rio de
aquela determinada busca de modernidade Janeiro e o estado de Minas em termos de di­
fez: é a sede antiga do grupo Matarazzo, no nheiro arrecadado. Mas em termos de frag­
Viaduto do Chá. Vale a pena entrar no antigo mentação, é o pior exemplo. Como já foi
edifício Matarazzo. Aquele linguajar é de uma apontado pelos dois colegas de mesa, Londri­
modernidade aspirada; outra a do senhor Le na, com sua riqueza - e ela é enorme em ter­
Corbusier que veio marcar presença no Brasil. mos relativos de Brasil - já ostenta esses
Ora, precisamos considerar essas mo­ fragmentos que não querem se justapor, mas
dernidades no seu caráter sincrônico e no seu têm que fazê-lo. Daí as cercas, as guaritas, os
caráter diacrônico, ou seja, tendo a consciên­ muros, e as voltas "por cima e por baixo",
cia de que elas se sucedem no tempo, no sé­ convenhamos, que são feitas - com todo o
culo passado e no atual, mas que também respeito aos eventuais colegas advogados pre­
acontecem ao mesmo tempo, como é o caso sentes - em termos jurídicos, com essa coisa
dos anos 30, a que me referi. Não se trata, nova que "pegou" que são os condomínios
portanto, de caos geométrico. Isso tem senti­ horizontais. Vamos voltar às cidades da Idade
do, de um modo ou de outro, dependendo da Média? Eu não quero. Esta modernidade eu
aspiração de modernidade que nós tenhamos. não quero.
Os senhores têm? Qual é a aspiração de mo­ Agora, vou provocar o doutor Kleber. E
dernidade dos senhores? E a do presente go­ essa organicidade? Que modernidade aspira­
verno da república? E a do governo do Para­ mos? Nesse sentido, a região "dançou". Se o
ná? Não sei se há diferença. Os senhores já governo do lugar também "dançou" para cui­
escolheram em quem vão votar para verea­ dar das coisas locais - e aí estão os aspectos
dor? físicos, urbanísticos, arquitetônicos, do espaço
Em relação à observação, muito perti­ - se ele está impotente perante isso, imaginem
nente' do professor João Batista, de que sentiu essa ascendência que há séculos, se não há
na minha fala - e tem toda razão - a questão milênios, a civilização européia tem sobre a
da cidade em relação com a região. A cidade, região. Não é de graça que, quando se coloca
que é o lugar, reunindo e concentrando tanta questões sobre a globalização, se faz a contra­
coisa, tanta gente, tanta idéia e até, tanta aspi­ posição do mundo com o lugar e não com a
ração de modernidade, comandando há sécu­ região. O que se vê é um refluxo da questão
los, nesta civilização que vem da Europa, a regional. O que se vê é a fragmentação tam­
região. Isto se rompeu, pois exatamente o que bém numa escala maior de mundo que se
colocamos no texto, como preocupação, é que pretende ou vai se tornando global, reforçar-se
a cidade não manda mais nem mesmo nos a posição do local, do lugar, na acepção dos
seus pés. O governo do lugar, em que instân­

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geógrafos. Aí sim, se perdeu ou minguou a do Néstor Canclini. Não é uma visão cética,
presença da região. pelo contrário; ele se revolta, mas vê esse li­
A observação muito perspicaz do pro­ beralismo que nasceu há duzentos anos e que
fessor João Batista, é perfeita: e a produção não era "sopa" não. Não eram mausinhos nem
industrial na cidade? Não existe mais? A ob­ bonzinhos, eram corruptos e não-corruptos,
servação passou a impressão de um quase que eram Danton e Robespierre. Tinha guilhotina,
deter-se ao consumo, às questões do consumo, mas quem faria de outra forma, neste mundo
às relações da cidade com o consumo. Ele tem em que nasceu o cidadão e o consumidor?
toda a razão! Não será isto, no entanto, que Claro que na minha fala - e eu agradeço
estamos vi vendo nesta outra fase e que en­ a presença de todos - estava a preocupação do
contramos por toda parte? O que é essa glo­ consumidor buscar os caminhos possíveis
balização? Alguns concluem, com muita cla­ para um resgate, não deste ou daquele dese­
reza, como sendo uma palavra perigosa, deli­ nho geométrico orgânico, fragmentado ou
mitadora e sectária. não, mas de uma sociedade em que se resgate
Quando tocou aquele telefone 2,que é o cidadão. Será que isto é possível ainda? Se
um instrumento dessa agilização dos contatos, há uma possibilidade - e esta é uma aspiração
e desse roubo a mão armada que fazem do válida - é nessa modernidade que eu também
tempo para pensar, do tempo para conversar... não saberia balizar e gostaria que não fosse
A gente se embaralha agora em ondas hertzia­ pós alguma coisa. E eu terminaria com uma
nas que, aliás são propriedade do governo da frase que anotei do professor João Batista, um
União. trecho, desculpe-me, tirando-o do contexto,
A cidade, este mundo de globalização, mas que fecha o debate dentro desta preocu­
seria um momento novo de mundialização. pação com a cidadania: a consciência de que
Seja o que for, este momento novo tem exa­ este moderno e esta modernidade ou aspira­
tamente toda a sociedade voltada sobretudo ções de modernização são históricos e, por­
para o consumo, ou seja, a tônica desse mo­ tanto, mudam. Será que dá para continuarmos
mento capitalista de final do século XX, de a ser cidadãos?
fim do segundo milênio, é de ênfase - não de Obrigado.
exclusividade, mas de ênfase - não mais na
produção e naquilo que se convencionou
chamar nas línguas anglo-saxônicas de tay­
lorismo ou, se quiserem, de fordismo mas
sim em outra faceta: o consumo, com a co­
municação a seu dispor.
Aquele telefone celular, a televisão, o
rádio, e agora toda a carga informática das
WEBs, NETs, etc., a serviço desse comprar,
desse mercado que se quer ampliar no mundo,
no Brasil (com a população de 160 milhões).
Então, concordo com o professor João Batista,
mas gostaria de transmitir um pouco desta
preocupação também com a ênfase no consu­
mo. Se tem razão o Kleber em sentir uma
melancolia, e tem porque inteligente ele é,
vale a pena insistir com ele e com todos a
procurarem esse trabalho fascinante, o último

2 O expositor refere-se ao som do telefone celular que


se ouvia na sala.

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