Você está na página 1de 21

C iência: M ito s, Equ ívo co s e Controvérsias*

Edmundo Campos Coelho

Após a Reforma Universitária de 1968 ocor­ Uma conseqüência da conjunção destas ten­
reram muitas transformações na universidade dências foi a instauração nas universidades de
brasileira, e com eias surgiram novos problemas. uma divisão profunda entre o ensino e a pesqui­
Nestes dezessete anos a pesquisa científica sa, por um lado, e entre os níveis de graduação
expandiu-se em ritmo acelerado, foi instituída a e pós-graduação, por outro. E ntretanto, como
pós-graduação e multiplicaram-se os centros de os recursos federais para a pesquisa universitária
formação pós-graduada, constitui-se uma comu­ foram naturalmente canalizados para os docen­
nidade cientifica acadêmica numerosa e razoa­ tes mais qualificados em programas de doutora­
velmente organizada, os recursos governamen­ mento no país e no exterior; e como, ademais,
tais para a pesquisa universitária nunca foram estes docentes estavam concentrados nos pro­
tão abundantes e jamais foram tão satisfatórias gramas de pós-graduação, a divisória foi traçada
as condições de trabalho dos cientistas, ainda alinhando de um lado o ensino com a gradua­
que a persistente insatisfação destes possa suge­ ção, e de outro a pesquisa com a pós-graduação.
rir o contrário. E é assim que a universidade brasileira está hoje
Mas ao mesmo tempo a demanda por vagas composta de dois segmentos fragilmente inter­
criou uma pressão muito grande sobre o sistema ligados, um dos quais já escapou virtualmente
universitário, as matrículas expandiram-se de­ do seu controle. Por efeito das modalidades de
masiada e desordenadamente, a ampliação dos financiamento à pesquisa, a pós-graduação vin­
quadros docentes não obedeceu a nenhum pla­ cula-se à universidade apenas pela folha de salá­
nejamento e as universidades viram minguar em rios pagos aos docentes-pesquisadores e pela
termos relativos os seus recursos orçamentários. ocupação de suas instalações físicas. No mais,
Não parece que a qualidade do ensino universi­ ela saiu da órbita do sistema educacional sob o
tário tenha melhorado durante este período. MEC para gravitar pelo sistema de ciência e
Neste particular quero chamar a atenção para o tecnologia vinculado, até princípios de 1985, à
fato de que o corpo docente das universidades Secretaria de Planejamento da Presidência da
registrou escassas taxas de qualificação, e que República (CNPq, Finep) e empresas estatais.
tentativas de melhorá-las através dos programas Para muitos observadores do nosso sistema uni­
de pós-graduação encontraram firme resistência. versitário esta situação não apenas é normal,

* Este trabalho constitui o primeiro capítulo do livro que publicarei em breve, intitulado A Sinecura
Acadêmica: a Política do Ensino e da Pesquisa.

26 BIB, Rio de Janeiro, n. 22, pp. 26-46, 2.° Semestre 1986


mas também é desejável; e o que não lhes pare­ esta perspectiva não seja m uito comum no estu­
ce faltar são argumentos em defesa da autono­ do sociológico da atividade científica, como se
mia do binômio pesquisa/pós-graduação frente tratasse de uma profissão essencialmente diversa
às administrações universitárias. das demais. Pode ser até mesmo que nisto se
Tais argumentos supõem que a dissociação manifeste a força dos m itos da ciência, que pro­
entre ensino e pesquisa é algo natural que reside curam apresentá-la como uma atividade livre de
na constituição essencialmente distinta dessas interesses mercantilistas, imune ao apelo de
duas atividades; pretendo examinar alguns deles valores materiais e ao egoísmo, isenta de ambi­
mas nos meus próprios termos. Não discutirei as ções subalternas e devotada apenas à busca da
relações entre ensino e pesquisa como se exis­ verdade como valor últim o. Mas os mitos, tanto
tisse um principio de unidade entre ambos. O quanto seus propagadores, não têm a pretensão
termo “princípio” sempre sugere a conotação de dizer a verdade (ou pelo menos toda a verda­
de coisa abstrata, fixa e invariável em qualquer de); visam apenas influir sobre, e se possível
tempo e lugar, o que confunde mais do que im por, interpretações da realidade.
esclarece quando se trata de analisar algo que é Dizer que a ciência é uma atividade humana
variável e impermanente. Será necessário tam ­ significa também que é necessário remeter a
bém evitar as armadilhas da linguagem que nos análise, à constelação das forças que na socie­
levam a reificar conceitos como “ciência” fa­ dade produzem a diversidade histórica de defi­
zendo-nos esquecer que se trata de uma ativida­ nições de ciência tanto quanto a diversidade de
de humana nada transcendente, e de que o m ui­ formas historicamente observáveis de organiza­
to de mistério e esoterismo associado à ciência ção da ciência. Isto quer dizer que a forma con­
constitui-se de mitos criados pelos próprios temporânea de organização da atividade cientí­
cientistas. fica não é historicamente necessária, mas con­
A ciência é uma atividade humana; e será tingente; que ela é uma entre várias outras que
sociologicamente indefensável examiná-la inde­ poderiam ter ocorrido se as condições gerais da
pendentemente das motivações, interesses e sociedade lhes tivessem sido propícias; que ela
comportamentos individuais e de grupo que lhe não é a melhor nem a mais eficiente, mas ape­
dão seu significado social. Por que os cientistas nas a forma permitida pelo jogo das forças
contemporâneos defendem a idéia de que só sociais num determinado momento da história.
profissionais credenciados para a atividade, Isso posto, posso agora expor os argumentos
através de uma educação específica e formal, com os quais se advoga a separação entre ensino
têm competência e autoridade para definir o e pesquisa. São eles: o da excepcionalidade his­
que é a ciência e para avaliar o trabalho uns dos tórica; o da autonomia; e, o da “comunidade de
outros? Por que é tão importante para eles a talentos” .
distinção entre ciência e outras modalidades de
conhecimento, ou entre o cientista profissional
e o amador? Sabemos que nem sempre foi O Argumento da Excepcionalidade Histórica
assim, e que muitos dos progressos do conheci­
m ento sobre a natureza e a sociedade foram Para começar, é importante examinar a afir­
produzidos por pessoas que não seriam conside­ mação de que a unidade entre o ensino e a pes­
radas cientistas pelos critérios de ciência con­ quisa foi um acidente produzido por uma con­
temporânea; sabemos também que nem sempre junção excepcional de fatores dentro da socie­
existiu a ciência como um corpo de conheci­ dade e da universidade alemãs do século XIX,
mento separado, por exemplo, do conhecimen­ mas jamais repetido em qualquer outro lugar ou
to filosófico ou da reiigião. A autonomia insti­ tem po posterior. Após notar que “o postulado
tucional da ciência e a profissionalização do da unidade ensino-pesquisa não é, de forma
trabalho científico são fenômenos relativamen­ alguma, auto-evidente” , Simon Schwartzman
te recentes e ocorreram de forma mais ou me­ continua:
nos semelhante ao que se verificou na medicina
e em várias outras atividades que se tornaram “As universidades brasileiras são organi­
profissões.1 Ora, a ascensão dessas profissões zadas em função da educação profissionai e
resultou da conquista de um monopólio seja a Alemanha do século XIX talvez seja o úni­
sobre a produção de um corpo particular de co caso histórico de uma união realmente
conhecimentos, seja sobre a prestação dc deter­ efetiva entre pesquisa científica e ensino
minados serviços. Não creio que as coisas te­ profissional. Os Estados Unidos hoje pos­
nham se passado de maneira diferente na área suem uma atividade científica universitária
da ciência, embora seja no m ínim o curioso que de alto nível, mas ela está, essencialmente,

27
ligada à formação de cientistas profissionais, mente nas escolas de filosofia e humanidades,
através de seus programas de P hD . Outros tinha um nítido sabor romântico e idealista.
países - os exemplos mais claros atuais são Constituía uma espécie de reação contra o prag­
a França com o CNRS (Centre Nationale de matismo do Iluminismo que havia impregnado
la Recherche Scientifique) e a União Sovié­ as antigas universidades alemãs, e ao qual se
tica, com a Academia de Ciências - mantêm atribuía parcialmente o “espírito” predominan­
a atividade científica bastante separada da te na burocracia prussiana incapaz de reagir
atividade universitária, do ponto de vista com “idéias novas” à avalanche napoleônica
institucional, ainda que possa haver, eviden­ que terminaria na derrota em Iena, em 1806. A
tem ente, diferentes formas de in ter-relacio­ nova universidade dos reformadores deveria ser
namento e cooperação” (1980: 58-9). o símbolo da renovação nacional. Por outro
lado, foi esta reação ao pragmatismo do Ilumi-
Infelizmente, Schwartzman nada diz sobre, nismo e, de certa forma, ao utilitarismo peque­
por exemplo, a situação da pesquisa científica no burguês que determinou o deslocamento
nas universidades americanas (e russas) no sécu­ para fora da universidade dos estudos “práti­
lo XIX ou mesmo nas primeiras décadas do cos” para a formação profissional; às universida­
século XX, o que faria a comparação histórica des caberia apenas o ensino da base intelectual
muito mais relevante e apropriada. Em parte das carreiras profissionais.
por isso estabeleço em seguida algumas linhas Ao longo da segunda metade do século XIX
de comparação entre sistemas nacionais de a Wissenschaftsideologie foi ganhando terreno
ensino universitário, mas também para enfati­ na área das ciências naturais, ao mesmo tempo
zar, por contraste com a situação atual, o cará­ em que a concepção original de saber cedia
ter sempre contingente das formas de relação lugar a um a noção mais positivista e empírica
entre o ensino e a pesquisa. de “ciência” . Foram vários os fatores que con­
tribuíram para esta mudança, mas a intervenção
a) Alemanha do Estado nos processos de recrutam ento e de
fixação de critérios para a progressão na carreira
O princípio da unidade entre ensino e pes­ docente foi fundamental (Turner, 1971). Em­
quisa foi uma criação dos reformadores da bora o objetivo fosse mais a excelência do ensi­
universidade alemã na primeira metade do sé­ no do que propriamente a contribuição original
culo XIX. Todavia, seu significado original era ao saber, o Estado estabeleceu a publicação de
bastante diverso daquele que viria a predominar trabalhos originais como o critério da compe­
na segunda metade do século fazendo das uni­ tência, o que deu impulso à pesquisa e estimu­
versidades alemãs neste período os grandes cen­ lou a competição entre os Ordinarien (professo­
tros da produção científica européia. res titulares) e os Privatdozenten, abrindo espa­
A noção hum boldtiana de que a universida­ ço para que estes últimos renovassem currículos
de era o lugar onde professores e seus estudan­ e criassem novas disciplinas. A própria competi­
tes poderiam devotar-se ao cultivo desinteressa­ ção entre as universidades, tanto por estudantes
do do “saber” (Wissenschaft) não incorporava a quando por docentes altamente qualificados,
idéia de que a contribuição original a este saber resultava numa fermentação intelectual sem
constituísse um fim em si mesmo, pois o que precedentes.
visavam os reformadores era um instrumento Também a expansão dos seminários e insti­
para a formação da personalidade do indivíduo tutos, freqüentem ente com o apoio do Estado,
e para a aquisição de hábitos de pensamento deu impulso à especialização e ao desenvolvi­
claro e original. De fato, a idéia de contribuir mento da pesquisa:
para o aumento do saber não lhes agradava,
pelas semelhanças com a preferência de tradição “De maneira típica, o líder do seminá­
iluminista pela “ coleta” de fatos. Pelo contrá­ rio (professor) escolheria a área mais ampla
rio, a influência do neo-humanismo e da Natur- a ser investigada; os participantes do semi­
philosophie orientava os reformadores para a nário (estudantes) dividiriam então o tra­
noção de um saber orgânico e unitário (McCle- balho em unidades discretas. Muito cedo
land, 1980:124). Era-lhes estranha a concepção em sua carreira acadêmica o jovem pesqui­
do conhecimento compartimentalizado em sador era assim introduzido a hábitos de
especialidades disciplinares e a diversidade de estreita meticulosidade em contraposição à
métodos. orientação universalista característica dos
A Wissenschaftsideologie, a ideologia do escritores do século dezoito” (McCleland,
“saber pelo saber” , que tomou impulso original­ 1980:180).

28
Perdia sua força a noção do saber como um trópole da ciência”. A história da perda desta
corpo orgânico e totalizante. Todavia, e como liderança já na segunda metade do século não
observou Ben-David (1972: 89), os seminários e pode ser contada aqui senão nos seus traços
institutos eram de iniciativa pessoal dos catedrá­ básicos.
ticos e institucionalmente não faziam parte da A Revolução, sob o pretexto de que as uni­
universidade, que por eles não se sentia respon­ versidades e instituições científicas eram redu­
sável. Favorecia-os, entretanto, como forma de tos de privilégios corporativos, destruiu-as, com
gratificar os professores de prestígio. exceção do Collège Royal (mais tarde Collège
A própria pesquisa não era uma atividade de de France). As reformas napoleônicas restaura­
tempo integral, uma profissão e uma carreira no ram muitas destas instituições, criaram outras
sentido atual destes termos. Os Ordinarien eram como a École Polytechnique, mas sob formas
remunerados em parte com as taxas pagas pelos inteiramente distintas. Um dos aspectos destas
estudantes inscritos nos seus cursos e se não transformações foi o de atribuir a tipos diferen­
havia estudantes não havia salário, tal como tes de instituições uma função particular.
ocorria com os Privatdozenten. A pesquisa era Assim, a pesquisa foi concentrada nos grandes
profissional apenas no sentido do rigor dos cri­ estabelecimentos científicos como o CoJiège de
térios de recrutam ento, da qualidade, da crítica France ou o Muséum d’Histoire Naturelle; o
interna e da autonomia de escolha científica. ensino das profissões e formação de professores
Ao espirito do professor alemão da segunda para os lycées foram entregues às facultés
metade do século XIX era totalmente estranha onde também ensinavam-se as ciências, mas não
a idéia da ciência como esfera autônoma, e re­ se fazia ciência; finalmente, a formação de
pugnava-lhe a noção da pesquisa como profissão técnicos para a administração do estado era en­
e carreira independentes das atividades docen­ cargo das grande écoles (Gilpin, 1968: 86-87).
tes. Pelo contrário, a pesquisa era essencialmen­ Neste conjunto, a pesquisa destacava-se na
te definida como um instrumento pedagógico, École Polytechnique, pioneira na introdução de
“uma atividade a ser exigida mesmo dos indiví­ laboratórios no ensino de terceiro nível, e na
duos destinados às carreiras estritamente práti­ École Normalle Supérieure responsável pela
cas” (Turner, 1971: 153). O programa de três formação de parte considerável da elite cientí­
anos de estudo, com um único grau ou nível, fica da época. Quanto às facultés, estavam por
certamente era muito especializado para formar demais impregnadas da tradição de uma cultura
um estudante generalista; mas, sem dúvida, era clássica voltada para a literatura, filosofia e
também m uito pouco especializado para treinar ciências matemáticas.
pesquisadores profissionais. Esta separação institucional entre ensino e
A despeito de todas as suas realizações e da pesquisa - entre as facultés, por um lado, e
excelência do seu trabalho, a universidade ale­ as instituições não-universitárias, por outro -
mã era um a instituição apropriada a uma ordem ajustava-se bem à concepção francesa do pro­
pré-industrial, incapaz de responder às deman­ fessor como indivíduo detentor de saber enci­
das do processo de industrialização. Suas defi­ clopédico, o savant mas não o especialista que
ciências ficariam patentes ao findar do século contribuísse para o avanço do conhecimento.
XIX e na medida em que se desenvolvia o setor Mas sobretudo a extrema centralização do sis­
produtivo. A ciência transbordaria das frontei­ tema educacional não abria espaço para muitas
ras da universidade, e um exemplo disto seria a inovações, e conduzia a uma rígida padroniza­
criação do Kaiser-Wilhelm-Gesellschaft em 1911 ção de currículos e procedimentos. Uma mani­
(mais tarde Instituto Max Planck), financiado festação deste excesso centralizador era certa­
por industriais que perceberam a utilidade da mente ^ posição dominante de Paris na ciência
ciência no campo prático. O papel do setor pro­ francesa, exatamente o inverso da descentraliza­
dutivo privado no financiamento da pesquisa ção do sistema universitário alemão que estimu­
cientifica cresceria continuamente desde o iní­ lava a diversidade e a competição. Por outro
cio deste século, assim como o espaço ocupado lado, os currículos não comportavam inovações
por instituições n fc universitárias de pesquisa. porque com base neles eram montados os con-
Este padrão viria a predominar após a II Grande cours para admissão às grande écoles e à carreira
Guerra. docente nas facultés:

b) França “enquanto que o professor alemão era sele­


cionado porque demonstrava capacidade
Na primeira metade do século XIX Paris era, para o trabalho científico original, o profes­
na expressão de Humboldt, “a verdadeira me­ sor francês o era através de um exame do

29
seu domínio do conhecimento já existente. constituída por egressos da École Normalle
O sistema francês produziu uma elite de daria sua adesão plena às idéias reformistas, mas
grande erudição para as universidades e também compartilharia de suas contradições
lycées; o alemão orientou para a pesquisa os (Weisz, 1977).
indivíduos capazes, do que resultava pesqui­ O fato é que a universidade francesa perma­
sadores científicos criativos” (Gilpin, 1968: neceu dedicada ao ensino de uma cultura clássi­
103). ca e retórica e ao credenciamento de profissio­
nais para o mercado de trabalho. Ao contrário
A inserção das instituições universitárias do que ocorrera na Alemanha, as carreiras na
como ramo da administração pública também burocracia e no setor privado da economia eram
não estimulava a competição intelectual ou a mais gratificantes na França do que a carreira
excelência do desempenho; pelo contrário, pri­ científica na universidade, embora o prestígio
vilegiava o caráter meramente credencialista da da ciência a í não fosse pequeno. De alguma
educação superior. forma, a inserção do sistema universitário na
Após o Segundo Império, o movimento da administração pública também não atraía voca­
reforma do ensino superior, que desembocaria ções, situação que permanece até os dias de
na Reforma de 1860 que reagrupou as facultées hoje:
em universidades, insistiu permanentemente na
idéia de promover a pesquisa científica como “independentemente dos méritos individuais
função essencial da vocação universitária: so­ os professores tendem a ter carreiras e remu­
mente a universidade, diziam os reformadores, neração semelhantes, em grande parte por­
estão adaptadas à natureza do saber, à sua diver­ que os professores são funcionários públicos
sidade e unidade. Nas facultées de ciências havia sob a autoridade do serviço público francês.
uma produção intelectual e uma pesquisa bas­ Este conceito de ‘remuneração igual por tra­
tante limitada, produto marginal do sistema que balho igual’ tem dificultado os incentivos
consagrara a divisão do trabalho entre as insti­ para que os professores pesquisem, ou a ele­
tuições do ensino superior. Assim, vação dos salários nas áreas menos desenvol­
vidas com a finalidade de atrair os jovens.
“pensava-se que a criação das universidades Mesmo em épocas recentes a noção de igual­
facilitaria o desenvolvimento da pesquisa. Os dade tem solapado as tentativas do governo
detalhes desta transformação eram geral­ francês para estimular mais pesquisas na uni­
mente pouco precisos, em particular porque versidade” (Gilpin, 1968: 98).
os reformadores previam que as universida­
des seriam, pelo menos no começo, uma O que é surpreendente neste sistema é a sua
união administrativa das faculdades profis­ capacidade de resistir a qualquer mudança. A
sionais existentes. Contudo, dado que por “asfixiante centralização napoieônica” que íeva
definição a ciência e a pesquisa deviam ser à excessiva padronização e à exagerada ênfase
realizadas nas universidades, estava-se de no formalismo (Crozier, 1972: 118), a “combi­
acordo em que a ciência desinteressada en­ nação de jacobinismo igualitário e de aristocra-
contraria na ampla e liberal organização de tismo escolar” que produz uma disposição am­
um centro universitário o lugar que lhe é bivalente com relação às realizações científicas
necessariamente recusado, ou reduzido, nu­ e leva à defesa coletiva contra as diferenciações
ma faculdade isolada onde o ensino profis­ baseadas no desempenho e à exaltação dos gran­
sional reina absoluto e exclusivo” (Weisz, des intelectuais (Bourdieu, 1984: 133-4) pare­
1977:229). cem ser traços profundamente enraizados no
espírito francês, tal como a cultura literária.
Os interesses dos reformadores, geralmente Um observador comentava que o francês culto
intelectuais e cientistas, eram no entanto con­ admite tranqüilamente, sem o menor complexo
traditórios. A introdução da pesquisa científica de inferioridade, sua ignorância da física nuclear
num a posição de relevo dentro da universidade ou da biologia molecular, mas jamais ousará re­
parecia-lhes o caminho para a obtenção de pres­ velar que não leu Stendhal ou Paul Valèry (Le-
tígio internacional, reconhecimento de suas vy, 1980: 159-60); e outro notava que o poder
realizações, autonomia de trabalho e recursos universitário está concentrado nas disciplinas
financeiros; mas ao mesmo tempo desejavam canônicas (história da literatura francesa, letras
conservar suas posições estáveis de funcionários clássicas ou filosofia) estreitamente ligadas aos
de uma burocracia estatal centralizadora. Após programas e às provas escolares e através destas
1880, uma nova geração de altos funcionários ao ensino secundário (Bourdieu, 1984:134).

30
c) Estados Unidos “Antes desta época a pesquisa era uma
espécie de overhead do ensino. A maior par­
A influência da universidade alemã sobre a te dos recursos da universidade vinha do en­
norte-americana do século XIX é fato bem esta­ sino liberal de graduação e profissional. A
belecido, mas é im portante enfatizar diferenças educação pós-graduada nas artes e ciências
que são fundamentais para a compreensão do desenvolvia-se em estreita relação com os
desenvolvimento da atividade científica nesta estudos graduados e profissionais, especial­
última. Por exemplo, a pesquisa básica não teve mente como resultado da demanda por pro­
na sociedade americana do século XIX, pragmá­ fessores com petentes nas novas disciplinas.
tica e utilitarista, o mesmo prestigio que alcan­ A pesquisa era uma condição para o treina­
çou na Alemanha (Shryock, 1962), e a idéia do mento de estudantes pós-graduados, mas
saber desinteressado, da ciência como um valor esta não era a única finalidade da pesquisa.
em si mesma teve conotações absolutamente Algumas universidades americanas conside­
diferentes nos Estados Unidos: ravam-na como uma atividade independente
que não necessitava de nenhuma justifica­
“Como vimos, o conceito do ‘saber pelo ção; mas ainda assim julgavam que o treina­
saber’ nunca esteve livre de ambigüidade. Na mento de estudantes pós-graduados era a
Alemanha ele trazia conotações de filosofia mais im portante aplicação ‘prática’ da pes­
idealista, de religião e de um ideal de realiza­ quisa universitária” (1972:107).
ção cultural aristocrática ou Bildung. Na
America estes termos vieram significar, co­ Vê-se, assim, que a pesquisa nos programas
mo regra, conhecimento aplicado a serviço de pós-graduação americanos destinava-se tam ­
da sociedade” ( 0 ’Boyle, 1983: 23). bém à qualificação de docentes para a universi­
dade, não estava desvinculada do ensino profis­
Estes mesmos utilitarismo e pragmatismo sional ao nível de graduação e servia ao treina­
não perm itiam , como ainda não permitem em m ento avançado para qualquer área de ativida­
medida considerável, que as universidades se de, e não apenas para as carreiras científicas. E
dessem ao luxo de distinções tais como ensino- correto que houve tentativas de isolar a pesqui­
pesquisa, ensino de graduação-ensino de pós- sa científica do ensino de graduação já na se­
graduação, pesquisa básica-pesquisa aplicada. gunda metade do século XIX: William Rainey
Pelo contrário, e como mostrou Ben-David, o Harper, presidente da Universidade de Chicago
ensino de graduação, pelo menos até o in/cio da tentou a separação institucional entre o college
década de cinqüenta, era ministrado por cientis­ e a universidade como forma de dotar esta últi­
tas competentes como parte substancial de seu ma de um corpo docente distinto e de torná-la a
trabalho; o estím ulo para a pesquisa vinha dè sede da pesquisa científica; mas o que prevale­
uma demanda real ou potencial por serviços em ceu foram posições como a de Charles W. Elliot,
iireas definidas de maneira vaga e não-científica; presidente de Harvaid, que embora visse a pes­
c o treinamento de profissionais liberais era quisa ao nível de pós-graduação como o coroa-
uma função normal mesmo das schools mais m ento de todo o sistema universitário, defendia
orientadas para a pesquisa (1972: 51, 9 3 ,1 0 2 ). sua integração com o ensino graduado e insistia
K ao contrário do que geralmente se pensa, o também em suas aplicações práticas como úni­
(reinamento de profissionais em nível avançado cas estratégias capazes de atrair recursos priva­
foi de grande importância para o fortalecimento dos para a universidade.
das áreas de ciência básica: a pós-graduação pro­ Este espírito pragmático haveria, por outro
fissional ampliou o mercado de trabalho para os lado, de marcar a atividade de pesquisa com
Ph.Ds. das áreas básicas ao criar demanda por uma forte orientação empresarial na sua fase de
docentes altamente qualificados. profissionalização. Como observou Ben-David,
A idéia de que o ensino profissional está
desvinculado da pesquisa científica nos progra­ “a pesquisa se tom ou um serviço profissio­
m s americanos de doutorado é só parcialmente nal similar ao direito ou a medicina, e um
verdadeira, e retrata apenas uma situação m uito P h D . em humanidades ou em ciências tinha
recente. De fato, ela é posterior à Segunda a mesma função que a de um M.D. em medi­
( í ran de Guerra e só ganhou contornos bem cla­ cina. Ambos os títulos designavam pratican­
ros após o lançamento do Sputnik na década tes qualificados. Isto implicava um a atitude
th- cinqüenta. Comentando as transformações m uito mais empresarial em relação à pesqui­
ocorridas após o segundo conflito mundial, sa do que a que havia prevalecido antes. A
observa Ben-David que: pesquisa não era nem o passa-tempo dos

31
excepcionalmente talentosos nem do punha­ As ligações entre as universidades e estes
do de carismáticos, mas era uma carreira na institutos ou centros de pesquisa eram muito
qual era justificado, dentro dos limites da frágeis; os pesquisadores, até 1937, podiam mi­
ética profissional, procurar oportunidades nistrar cursos nas escolas e faculdades profissio­
de trabalho e vender serviços sob as melho­ nais, mas eles o faziam como forma de comple­
res condições possíveis” (1972:102). mentar salários. Em 1937 a “ lei da desacumula-
ção” interrompeu esta prática. Era natural que
muitas vocações para a pesquisa se frustrassem
d) Brasil em tal ambiente intelectual e manifestassem seu
descontentamento com a preponderância do
O caso brasileiro merece uma referência pela ensino profissional. Creio, todavia, que há exa­
tendência em amalgamar elementos díspares gero em se falar de hostilidade das escolas pro­
dos modelos estrangeiros, e até mesmo porque fissionais em relação à ciência, inclusive porque
na tradição universitária brasileira a unidade do não havia ciência para ser hostilizada, nem co­
ensino com a pesquisa foi sempre um princípio munidade científica para ameaçar a posição dos
das diversas reformas. professores. O que havia era uma idéia excessiva­
Na Reforma Francisco Campos (Decreto n.° mente idealizada e romântica da atividade cien­
19.951 de 11.04.1931) o ensino superior seria tífica, geralmente livresca e sem muita referên­
organizado em universidades, com o que preten­ cia na prática, à qual davam circulação amado­
dia remediar deficiências do modelo vigente, res da ciência, membros da elite culta da época
composto de uma coleção de escolas e faculda­ e um certo número de “cientistas” sem a menor
des profissionais virtualmente autônomas onde formação avançada nos procedimentos de pes­
qualquer unidade existia apenas na letra da lei. quisa. Eram eles que hostilizavam o ensino pro­
E de fato, o arcabouço formal da estrutura uni­ fissional, não sem uma considerável carga de
versitária estava contido na reforma, apenas que arrogância dificilmente compreensível tendo em
nunca funcionou: permaneceu a ampla autono­ vista sua própria carência de treino científico.2
mia didática, administrativa e financeira das O conflito tornou-se inevitável.
diversas escolas frente a administração central Um bom exemplo é a experiência de implan­
das universidades. O modelo “ napoleônico” se tação da pesquisa científica na Faculdade de
completaria em 1939 com a Reforma Capane- Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de
m a que implantou no país o regime da padroni­ São Paulo (USP). O projeto original previa a
zação uniforme para o ensino superior brasilei­ transferência dos cursos básicos de ciência do
ro. Todos os currículos passaram a obedecer às currículo das escolas profissionais para o da
normas do MEC. Faculdade, onde seriam ministrados por cientis­
As mensagens que acompanharam as refor­ tas contratados no exterior, e expurgados dos
mas de 1931 e 1939 insistiam no duplo papel interesses práticos da formação meramente pro­
da universidade como centro de treinamento fissional. O espírito era bem o das universidades
das elites profissionais e como ambiente propí­ alemãs do século XIX, embora o modelo da
cio para as vocações especulativas e desinteres­ USP fosse a Sorbonne, e o da Faculdade as
sadas; a universidade deveria transcender ao facultés de sciences francesas. Era tão intensa a
propósito de ensino para envolver-se com a in­ adesão ao ideal da “ciência desinteressada” , do
vestigação e a ciência pura. O lugar por excelên­ “ saber pelo saber” que entre os fundadores da
cia desta seriam as Faculdades de Educação, USP haviam sérias dúvidas a respeito de se as
Ciências e Letras na reforma de 1931, transfor­ escolas profissionais deveriam ser incorporadas
madas em Faculdades de Filosofia, Ciências e à nova universidade, pois receavam que viessem
Letras em 1939, âs quais se atribuía também o a contaminá-la com seus “vícios incuráveis” ; a
papel “eminentemente prático e utilitário” de inclusão foi decidida com base na convicção de
formação do pessoal do magistério secundário e que o contrário ocorreria se houvesse severa
normal. Esta viria a ser sua função preponderan­ vigilância, e de que as escolas profissionais ter­
te, senão exclusiva. A pesquisa científica ficaria minariam por ceder à força irradiadora da ciên­
circunscrita a algumas instituições não-universi- cia. Um prognóstico irreal e excessivamente o ti­
tárias ligadas a secretarias de estado ou a minis­ mista como se veria depois.
térios (Museu Nacional, Instituto de Mangui- A noção idealizada de ciência que animava
nhos, Instituto Butantã, Observatório Nacional os fundadores da USP tinha suas raízes em
etc.) e seria quase sempre dirigida para finalida­ movimentos reformistas dos anos 20, como o
de práticas (saúde pública, agronomia, m eteoro­ da Associação Brasileira de Educação que de­
logia etc.). fendia a idéia de uma universidade onde ciência

32
e ensino profissional permaneceriam segregados tornaram-se centros de pesquisa m uito mais im­
como se fossem elementos irreconciliáveis; e o portantes e inovadores do que a conservadora
discurso da ciência “ pura” e do “saber desinte­ Academia de Ciências (Vucinich, 1970: 73-83/
ressado” chegava às vezes aos limites da mais 199-213); esta situação só se inverteria com a
delirante exaltação, como se lê em alguns depoi­ revolução de 1914.
mentos e citações coletados e reproduzidos por Em segundo lugar, é fundamental reter o
Simon Schwartzman em seu livro sobre a form a­ que mostra a comparação entre Alemanha e
ção da comunidade cientifica brasileira (1979, Estados Unidos: a ‘Umidade” entre o ensino e a
especialmente cap. 6, 7 e 8). No entanto, a im ­ pesquisa pode ocorrer inspirada em concepções
portância inegável da Faculdade de Filosofia, diametralmente opostas sobre a natureza da
Ciências e Letras da USP na formação de toda ciência. O pragmatismo americano funda sua
uma geração de cientistas parece estar mais inti­ concepção de ciência numa sólida orientação
mamente ligada à excelência do ensino de ciên­ para a prestação de serviços, ao contrário do
cias que proporcionou na época do que propria­ idealismo alemão que a concebe como realiza­
mente às dimensões ou originalidade da pesqui­ ção cultura] aristocrática totalm ente desvincula­
sa científica realizada por seus professores e da dos interesses materiais da burguesia. Vê-se
alunos. como é infundada a noção de que a ciência é
De fato, a pesquisa na Faculdade era feita “p or natureza” , ou “essencialmente” , incompa­
cm laboratórios pequenos onde o professor, tível com as atividades de ensino; de fato, o que
geralmente estrangeiro, podia dedicar-se aos é a “ natureza” ou a “essência” da atividade
seus interesses científicos pessoais, cercado por científica é algo definido socialmente, e a “in­
um número restrito de estudantes por ele sele­ compatibilidade” nada mais é do que a forma
cionado; quando não improvisado para experi­ de dizer que algumas pessoas, grupos ou estra­
mentos, o laboratório era, via de regra, pobre­ tos sociais não desejam, por razões m uito con­
mente equipado e o trabalho de pesquisa ocupa­ cretas, ver a pesquisa associada ao ensino.
va pequena parcela do orçamento de tem po do Em terceiro lugar, o que aproxima os casos
professor que o consumia quase todo em ativi­ da França e do Brasil não é tanto a separação
dades de ensino.3 Mas esse era certamente esti­ entre ensino e pesquisa, mas o pouco apreço
mulante e a participação dos estudantes nos que merece a ciência no ambiente cultural e
projetos dos professores cristalizava vocações, junto das elites dirigentes. Na França como no
:tinda que a pesquisa estivesse longe de ser de Brasil as universidades tiveram mais funções de
fronteira ou originai. E nem sempre esse ensino seleção e de recrutam ento para grupos de status
dinâmico foi ministrado por cientistas profissio­ ou estratos sociais bem definidos do que de
nais, como eram os estrangeiros; muitas vezes, e treinam ento para atividades produtivas. A com­
iiíío só na USP, ele esteve a cargo de docentes petência adquirida torna-se menos importante
bom dotados mas carentes de base científica do que a certificação de que o indivíduo foi
experimental, os “propiciadores da ciência” submetido ao processo de socialização nos valo­
como os chamou Schwartzman. Seja como for, res da cultura dos grupos ou estratos para os
.i experiência da Faculdade foi um marco na quais é encaminhado pelo sistema educacional.
história do ensino da ciência em universidades A ênfase nos concursos e nos exames é o indi­
hi asileiras, embora a pesquisa propriamente dita cador mais seguro deste credencialismo, assim
loxse permancer por m uito tempo ainda como como a centralização do sistema de ensino e a
iilividade marginal dentro e fora das instituições padronização dos currículos o é do interesse do
universitárias, a excessão de alguns poucos cen- Estado pela redução do dissenso, da controvér­
Iro.s e institutos isolados. sia e do conflito no âm bito da cultura. Não
Pois bem , o que se conclui da comparação surpreende, pois, que a ciência tenha reduzido
desses casos? Em primeiro lugar que não é intei- espaço nas universidades.
iiunente correta a firmação da excepcionalidade E ntretanto, estes contrastes e semelhanças
histórica da universidade alemã do sécülo XIX não devem ser exagerados ou enfocados de uma
no que diz respeito à integração entre ensino e perspectiva essencialista. Pelo contrário, devem
posquisa; nos Estados Unidos esta integração só ser contextualizados historicamente. As univer­
w desfez a partir da II Grande G uerra, com os sidades francesas fazem hoje m uito mais pesqui­
prsados investimentos federais na pesquisa cien- sa do que no início do século, e as brasileiras
lilica. Outra evidência que desconfirma a te se muito mais do que há 20 anos; a pesquisa cien­
iIji excepcionalidade alemã é fornecida pela tífica na Alemanha transpôs os limites das uni­
Uussia; com o estatuto de 1860, mas principal- versidades e ganhou densidade em instituições
iiion(c a partir de 1863, as universidades russas não-universitárias como o Instituto Max Planck,

33
e nos Estados Unidos ela se concentrou em criação de conhecimento, para a invenção de
algumas poucas universidades de elite. Em sín­ pensamento e mecanismos originais, tal pres­
tese, o que uma visão histórica comparada auto­ tação de ensino é estéril, é um ensino livres­
riza dizer é que o grau de convivência entre o co, repetição exclusiva e monótona do que
ensino e pesquisa dentro das universidades sofre outros fizeram e escreveram” (Lopes,
variações ao longo do tem po e numa mesma so­ s/d: 1).
ciedade, e que estas variações são mais freqüen­
temente provocadas por uma vontade política. Mas quem, senão os próprios cientistas, são
Tanto num sistema universitário descentraliza­ estes “homens indispensáveis” para fornecer a
do e competitivo como era o alemão no se'culo base científica ao ensino universitário e melho­
XIX, como sob uma centralização acentuada do rar sua qualidade?
ensino superior como na França ou no Brasil o A maior proporção da pesquisa que se faz
papel do Estado foi fundamental na definição hoje no Brasü está dentro das universidades, e é
daquele grau de convivência, como permanece a de melhor qualidade em função dos investi­
sendo até hoje. Em outros termos: as relações mentos em aquisição de periódicos científicos,
entre o ensino e a pesquisa universitária não são importação de equipamento e formação de pes­
destituídas de uma boa dose de desconforto e soal altamente qualificado. A presença da pes­
conflito, o que é natural tratando-se, como efe­ quisa científica dentro das universidades é, to ­
tivamente se trata, de um jogo de interesses davia, m uito mais física do que intelectual; ela
muito bem definidos. permanece tão separada do ensino quanto sem­
Uma observação final: o argumento da pre esteve como para demonstrar os efeitos per­
excepcionalídade histórica da universidade ale­ versos das self-fulfilling prophecies. Por detrás
m ã do século XIX repousa na idéia da separação destas, como mostrou Merton em seu estudo,
institucional entre ensino e pesquisa, na noção não é difícil encontrar preconceitos enraizados
de que a pesquisa científica não encontra am­ e interesses renitentes.
biente favorável nas universidades, e na tese de
que seria mais adequado abandonar o “princí­
pio” da unidade entre ensino e pesquisa. É isto O Argumento da Autonomia Institucional
que Simon Schwartzman tem em mente quando
afirma que a atividade científica pode eventual­ Em suas linhas gerais, o argumento da auto­
mente estabelecer-se em instituições relativa­ nomia institucional na ciência é o seguinte: a
mente marginais ao sistema de ensino superior, ciência (sempre entendida como ciência acadê­
mas que provavelmente nunca coube nem cabe­ mica básica ou fundam ental) tem sua própria
rá no centro de um sistema como o brasileiro, “lógica” de crescimento, suas “necessidades”
orientado para a predominância do ensino pro­ peculiares e distintas das de outras esferas insti­
fissional (1980:114).4 Esta posição, m uito mais tucionais como a economia, a educação ou a
generalizada dentro da comunidade científica tecnologia, não podendo assim subordinar-se ou
universitária do que se possa imaginar, merece ser posta a serviço de nenhuma delas. Isto signi­
pelo menos a observação de que é um exemplo fica que o pesquisador não pode e não deve ser
claro do que Merton chamou de profecia que se desviado para as funções de ensino profissional
auto-realiza (Merton, 1968:475-488). De fato, ou para a pesquisa aplicada que visa a solução
ao definir a universidade brasileira como inexo­ de problemas práticos (econômicos, tecnológi­
ravelmente condenada ao ensino profissional (e cos, sociais etc.). Pelo contrário, seu compro­
ao ensino de baixa qualidade), os docentes-pes- misso único é com o avanço do conhecimento
quisadores mais qualificados esforçam-se por se em sua disciplina ou especialidade, e isto requer
desvinculai dela, contribuindo paia que nada dedicação exclusiva à pesquisa e liberdade total
mude; mas ao mesmo tempo apontam a ausên­ para escolher o tema de sua investigação. Fica
cia de mudanças como evidência do acerto da entendido também que os investimentos na pes­
profecia e da necessidade de se por a ciência a quisa científica não podem e não devem obede­
salvo da mediocridade do ensino universitário. cer a critérios pragmáticos o u utilitários; pelo
Observava um cientista brasileiro que contrário, os recursos aplicados em pesquisa
científica são im portantes e devem crescer por­
“a prestação do ensino num ambiente em que a busca das leis fundam entais do universo e
que não se faz a pesquisa científica, numa da “verdade” constitui valor em si mesma e não
universidade sem laboratório, sem bibliote­ necessita de nenhuma outra justificação. A par­
cas adequadas, sem os instrumentos e sobre­ ticipação nesta empresa (que, em última análise,
tudo sem os homens indispensáveis para a seria a do espírito humano) exige, além de dedi­

34
cação integral, uma competência especifica: o base do modelo acadêmicç de organização pro­
pesquisador deve submeter-se a um longo pro­ fissional da ciência contemporânea:
cesso de treinamento formal para aquisição de
habilidades peculiares e de um corpo de conhe­ “É certo que todas as formas de profis­
cimento esotérico, não acessível aos leigos e dis­ sionalização comportam exclusão e fecha­
tinto de outros corpos de conhecimento como mento. Mas desde que as reputações nas
o religioso, o filosófico ou o de senso comum. áreas científicas ficaram atadas a cargos e ao
Esta especificidade justifica a separação institu­ acesso a facilidades para pesquisa, os investi­
cional da atividade cientifica e a natureza auto- mentos nas habilidades e objetivos específi­
referida da comunidade de seus praticantes; isto cos destas áreas tornaram-se mais ponderá­
é, os critérios de excelência são definidos den­ veis e mais importantes. O controle sobre
tro da própria comunidade cientifica, e o julga­ os mercados de trabalho é um aspecto essen­
mento dos pares é a forma apropriada de avalia­ cial das organizações profissionais, e estraté­
ção da atividade dos membros. gias de fechamento social tornam-se mais
O argumento da autonomia não é novo, nem centrais e importantes para as comunidades
é exclusivo da ciência contemporânea. Pelo con­ reputacionais quando elas são profissionali­
trário, ele foi elemento fundamental para todas zadas. Contudo, a identificação específica
as ocupações que se profissionalizaram, e per­ de objetivos e procedimentos intelectuais
manece sendo de vital importância porque está com unidades de educação e treinamento
indissociavelmente ligado à obtenção e conser­ provavelmente aumentou o grau de fecha­
vação de monopólio sobre a produção de co­ mento intelectual e social para m uito além
nhecimento (prático e teórico), sobre a presta­ do que se obteria se a profissionalização ti­
ção de determinados serviços e sobre a reprodu­ vesse tomado uma forma diferente” (Whit-
ção de especialistas nestes corpos de conheci­ ley, 1982:318).
mento e técnica. A medicina constitui o exem­
plo paradigmático do uso bem sucedido do Em outros termos: o desenvolvimento de
argumento da autonomia, de profissionalização estruturas formais de treinamento, a afirmação
c de obtenção de monopólio. As organizações de habilidades e conhecimentos altamente espe­
médicas profissionais controlam rigidamente o cializados, a exclusão dos leigos e dos “amado­
exercício da prática curativa através de sua in­ res” do sistema de competição, o controle do
fluência na fixação dos currículos das escolas recrutam ento, treinamento e distribuição de re­
profissionais, certificação de competência e cre­ compensas, todos estes são elementos do mo­
denciamento para o exercício da atividade. Elas delo acadêmico de organização profissional da
mobilizam a lei contra os que exercem a prática ciência. E se alguns deles não atingiram a mes­
curativa sem terem passado pelo treinamento ma abrangência e rigor como na medicina (por
formal requerido, ou sem satisfazer os critérios exemplo, o suporte do Estado para punir legal­
estabelecidos pela comunidade profissional; e mente os praticantes não credenciados) é por­
estigmatizam, explicita ou veladamente, aqueles que os profissionais da ciência não conquista­
que adotam princípios e métodos não conven­ ram o mesmo grau de prestígio social e de
cionais ou não estipulados no corpo teórico e poder político de que gozam os médicos e os
técnico da profissão, quaisquer que sejam os advogados.
resultados obtidos.5 Curar não é suficiente; é Não estou sugerindo de forma alguma que a
necessário fazê-lo segundo o paradigma predo­ autonomia não seja uma condição desejável
minante na medicina, e com expressa autoriza­ para o trabalho dos cientistas, ou que a pesquisa
ção das associações profissionais. científica não requeira habilidades e conheci­
Esta vinculação entre o argumento da auto­ mentos especializados e estruturas formais para
nomia, por um lado, e a profissionalização e o o seu aprendizado. O que desejo é endossar a
monopólio sobre a produção de um saber parti­ observação de Gouldner (1979) de que a auto­
cular, por outro, existe também na ciência, e nomia é mais do que uma formação; ela é tam ­
historicamente está associada à institucionaliza­ bém constituinte do profissionalismo como
ção da pesquisa nas universidades, onde ela se ideologia de um vasto segmento social que de­
vinculou a departamentos acadêmicos que pas­ tém o monopólio do capital cultural, e neste
saram a monopolizar disciplinas, a posições na status sua função é totalmente diversa, mas não
carreira docente e a sistemas administrativos menos im portante. Tome-se, para exemplo, o
para controle do acosso a instalações, equipa­ critério da avaliação interpares: não é difícil
mentos e recursos I íiu iihH , K I
i o n vinculação,
n u concordar em que um físico nuclear não dispõe
historicamente sllumln no .m in XIX, omIií nu tle competência para avaliar a qualidade de pes­

35
quisas em biologia molecular, da mesma forma mente apresentados. Os mais comuns: a) à ciên­
que um microbiologista não terá como fazer cia aplicam-se critérios científicos de desempe­
avaliações deste tipo na área da física de altas nho (qualidade) elaborados e operados pelos
energias. De fato, cada um destes especialistas próprios cientistas, não critérios econômicos ou
não tem , fora do seu campo específico de tra­ sociais (rentabilidade ou utilidade), que são cri­
balho, muito mais competência para avaliações térios “leigos” e estranhos à atividade de pes­
do que o cidadão comum para apreciar qual­ quisa; b) a ciência lida com o desconhecido, na
quer modalidade de pesquisa científica. Resta a fronteira do conhecimento e seus resultados são
avaliação interpares como mecanismo de con­ imprevisíveis por natureza, o que demonstra a
trole do desempenho profissional. Veja-se agora impossibilidade de se estabelecer qualquer con­
o mesmo critério sob outro ângulo: é próprio de trole sobre, por exemplo, a relação pesquisa
qualquer tipo de capital, a í incluído o capital básica/produção de tecnologia; a ciência é um
cultural, procurar dissociar suas rendas, por um ramo da “alta cultura” (tal como as artes e as
lado, e seu desempenho, por outro, ou dissimu­ humanidades) e os investimentos em pesquisa
lar o mau desempenho de tal forma que suas não necessitam, além dessa, de qualquer outra
rendas permaneçam; se o monopólio do conhe­ justificativa.
cimento soluciona a primeira questão para os Pois bem, não creio que as coisas sejam tão
grupos profissionais, a avaliação interna solucio­ simples, e há pelo menos um fato que se ajusta
na a segunda, pois permite esconder os fracassos mal a este arrazoado ideológico: as nações mais
e, conseqüentemente, qualquer discrepância desenvolvidas econômica e tecnologicamente
entre rendas e desempenho (Gouldner, 1979: são também as que mais investiram (e investem)
22). Que proporção de projetos de pesquisa de em pesquisa científica, e parece-me ingênuo
má qualidade é desativada, ou que proporção de supor que tais investimentos tenham sido na
pesquisadores incompetentes perde suas posi­ ciência como ramo da “alta cultura” , no “ saber
ções ou o acesso a recursos financeiros por pelo saber” ou na “aventura do espírito hum a­
força da avaliação interpares? Eu diria que esta no” . Desde as primeiras décadas deste século o
proporção é desprezível a despeito do fato de crescimento dos recursos governamentais aplica­
que apenas uma pequena fração da comunidade dos em pesquisa científica esteve ligado a
científica contribui para o desenvolvimento da expectativas muito claras de resultados práticos
ciência, matéria sobre a qual terei algo mais a tanto no campo militar quanto no econômico e
comentar adiante. O que importa agora é cha­ social, e não penso que as nações ricas tenham
mar a atenção sobre este aspecto da autonomia conquistado sua posição privilegiada indepen­
como pura ideologia profissional, instrumento dentemente do grau de satisfação destas expec­
dos interesses corporativos da comunidade cien­ tativas; muito pelo contrário, a pesquisa cientí­
tífica. fica (e também a tecnológica) foi, e continua
Sob o mesmo ângulo pode ser discutida a provavelmente a ser, o fator singular mais c ríti­
questão das relações da ciência com outras esfe­ co para a obtenção do nível atual de afluência
ras institucionais.. Por exemplo, qual a conexão de que gozam hoje. Por outro lado, não parece
entre desenvolvimento científico, por um lado, irrazoável supor que, paradoxalmente, foram
e desenvolvimento tecnológico e econômico, estes os fatos que exacerbaram a retórica ideo­
por outro? Porque se, de fato, a atividade cien­ lógica e o sentido corporativo das diversas co­
tífica não busca resultados práticos ou não tem munidades científicas nacionais. Numa fase de
em si mesma finalidades utilitárias, então o de­ expansão das fronteiras do conhecimento o su­
senvolvimento (ou o atraso) tecnológico e eco­ cesso econômico e tecnológico da pesquisa cien­
nômico ocorre independentemente do estágio tífica não era incompatível com o progresso da
da pesquisa científica em determinada socieda­ ciência em seus próprios termos; mas a situação
de, e não em função dele. Infelizmente, os pró­ é inteiramente outra quando as expectativas da
prios cientistas e suas associações são muito am­ sociedade por resultados “práticos” (estim ula­
bíguos a este respeito, se não simplesmente de­ das pelos próprios cientistas) coexistem com
sonestos. Quando se trata de reclamar para a uma relativa exaustão dos horizontes do conhe­
pesquisa científica parcelas sempre maiores dos cimento científico. A sombra da ingerência do
recursos públicos eles não vacilam em apontar a Estado começa a pairar sobre a ciência institu­
ciência como fator essencial para a riqueza e cionalizada:
bem-estar das sociedades a que pertencem;mas
quando se trata de avaliar tais efeitos dos inves­ “O progresso científico contribuiu para
timentos em pesquisa científica, todos os argu­ o desenvolvimento econômico e deu solu­
mentos da ideologia profissional são enfatica­ ções a problemas sociais, mas por vias impre-

36
visíveis que os governos ou qualquer outra conhecimento, no limiar do desconhecido; a
agência centralizadora dificilmente podem m aior proporção dela constitui-se de “ciência
controlar” (Ben-David, 1980: 107) (ênfases normal” onde, segundo Kuhn (1971), a solução
minhas). dos problemas pode ser antecipada em detalhes
(embora o trajeto até ela inegavelmente requei­
A í está: Ben-David traduz com m uita exati­ ra habilidades e engenhosidade) e o propósito
dão o receio dos cientistas de que os governos de inovar é reduzido. Finalmente, existem áreas
sintam-se estimulados ao planejamento da ciên­ onde, para usar a metáfora de Toulmin, as pro­
cia como forma de obter retorno (em inovações babilidades de “reluzir o relâmpago” criador de
tecnológicas ou em produtos socialmente úteis) resultados práticos não são pequenas: entre elas
para os elevados investimentos feitos no estabe­ não está a física das altas energias, mas certa­
lecimento científico. E continua ele: mente encontram-se as ciências biológicas onde
a unidade de objeto faz com que “quase tudo
“O principal critério para o suporte [à do que aprendemos sobre os mecanismos bioló­
ciência básica] e intervenção [do estado] gicos em virtualmente qualquer animal tenha
deverá ser a qualidade da pesquisa, do ensi­ probabilidade de uma aplicação médica final”
no e da formação, antes que contribuições (Weinberg, 1968: 102). Entre estes extremos
específicas à solução de problemas bem defi­ existe toda uma gama de possibilidades que
nidos. Se a qualidade dos pesquisadores num vários estudos empíricos têm revelado e que
país é grande, é provável que eles se dedica­ sugerem, entre outras coisas, que a distinção
rão ao que tem valor e se absterão de esco­ ciência pura/ciência aplicada tende a se tom ar
lhas inúteis” (Ben-David, 1980:110). obsoleta.
Dicotomias como esta são cada vez mais
Encontramos, novamente, o argumento da au­ insuficientes para apreender as transformações
tonomia. por que vem passando a organização da ciência
Todas estas questões têm sido discutidas na contemporânea sob o influxo das expectativas e
volumosa literatura sobre política científica e demandas por contribuições práticas à elevação
não há como resumir aqui a diversidade de do nível de bem-estar das sociedades. O crescen­
teses.6 Alguns pontos, entretanto, merecem te trânsito de cientistas entre a “pesquisa pura”
comentários ainda que breves. Em primeiro lu­ e a “pesquisa aplicada” tem indicado que elas
gar, é certo que não há como sustentar a idéia não são mutuamente exclusivas; as orientações
de que o nexo entre a pesquisa básica e suas disciplinares da pesquisa básica tem penetrado
aplicações práticas obedece a um processo li­ no âmbito da pesquisa aplicada, e as desta são
near: ciência básica -> ciência aplicada - » inven­ “traduzidas” na esfera da primeira para permitir
ção -* desenvolvimento -*■inovações disponíveis sua absorção; problemas práticos estimulam de­
no mercado. Isto é, evidentemente, um equívo­ senvolvimentos teóricos (quando não criam
co e um a simplificação. Estes vínculos são mui­ novas disciplinas teóricas); formam-se às vezes
to mais complexos, relativamente pouco conhe­ “comunidades híbridas” com seus próprios sis­
cidos e de difícil definição.7 Isto não significa temas de comunicação e avaliação de desempe­
dc forma alguma que o argumento da imprevisi- nho.8 Simultaneamente, cientistas acadêmicos
bilidade seja inteiramente correto ainda quando fundam suas próprias empresas para explorar
sc reconhece que nenhuma fórmula pode captar economicamente o resultado de suas pesquisas9
o processo das grandes descobertas científicas e as universidades formam jo in t ventures com
ou o da geração de tecnologia pela pesquisa bá­ grandes corporações (Etzkowitz, 1983). Tudo
sica. Apenas para mencionar uma idéia bem isso gera resistência e conflitos, o que apenas
antiga, a constatação de que descobertas múlti­ indica que não se trata de fatos isolados ou de
plas são, aparentemente, mais a norma do que a desvios ocasionais facilmente retificáveis através
excessão sugere fortemente que os cientistas da invocação da ética acadêmica e dos valores
subem razoavelmente qual o caminho a percor­ não utilitários da ciência. G eio que se trata de
rer e onde estão as probabilidades do sucesso; transformações estruturais importantes que
dc forma alguma eles agem às cegas como se o abrem o leque de formas alternativas de organi­
processo da descoberta fosse inteiramente alea- zação da ciência. De fato, mesmo as profissões
lório e imprevisível, até porque a atividade de liberais clássicas enfrentam hoje desafios seme­
pesquisa é também um processo de aprendiza- lhantes: as características dos mercados para
«cm pelo qual se to m a possível reduzir as incer­ seus serviços na sociedade contemporânea e as
tezas. Ademais, apenas fração muito reduzida condições atuais de sua prática profissional têm
<h> pesquisa científica é feita na fronteira do forçado médicos e advogados a redefinirem e

37
alterarem consideravelmente os parâmetros de cas (hierárquicas) de organização gera conflitos
sua autonomia (Powell, 1985; Herzlich, 1982; e rejeições. O cientista acadêmico (e de maneira
Donnangelo, 1975). mais geral, o docente) não tem de si mesmo a
Ora, além de recente, a vinculação da ciência imagem de um assalariado a serviço de uma
com instituições de ensino foi historicamente organização, mas a de um profissional autôno­
contingente; apenas porque existe entre os espe­ mo que controla as condições e o conteúdo de
cialistas no estudo da ciência a tendência em seu trabalho, e que espera da administração uni­
compreendê-la do ponto de vista da ciência con­ versitária que ela lhe propicie todas as facilida­
temporânea (e da história da ciência européia) é des, tomando a precaução de não tratá-lo como
que se crê no caráter necessário da sua vincula­ empregado. Evidentemente, este modelo supõe
ção com o modelo acadêmico de organização que os interesses do docente-pesquisador coin­
profissional (Katouzian, 1982; Whitley, 1982). cidem necessariamente com os interesses da uni­
Para escaparmos desta falácia do determinismo versidade, e que a forma de satisfazer os últimos
retrospectivo, para usar a feliz expressão de consiste em atender os primeiros, o que não é
Reinhard Bendix, temos de admitir que existi­ de form a alguma evidente e nem sempre verda­
ram no passado outras alternativas de organiza­ deiro. A ideologia do profissionalismo é, entre
ção da ciência, da mesma forma como temos de outras coisas, um recurso para redução das in­
admiti-las no futuro. Por outro lado, há um consistências e incongruências do modelo, mas
evidente equívoco na identificação do modelo não tem tido muito sucesso. As organizações
profissional da ciência com o de outras profis­ docentes, que pretendem desempenhar funções
sões clássicas como a medicina e o direito. Não idênticas às que, por exemplo, as associações
existe na esfera da ciência (pelo menos desde o médicas cumprem para seus associados, têm
século XIX) nada comparável ao exercício pri­ experimentado um processo de desgaste em
vado da medicina em que o clínico tem total vários países, ao mesmo tempo em que o sindi­
controle sobre o conteúdo e as condições de seu calismo mobiliza parcelas cada vez mais signifi­
trabalho (uma forma clássica de exercício pro­ cativas do corpo docente das universidades.
fissional cada vez mais limitada pelo assalaria- E é significativo que o profissionalismo seja
mento de proporções crescentes de médicos). a ideologia dominante nos “colégios invisíveis”
Ao vincular-se às universidades a ciência colo­ das universidades, e que o sindicalismo venha
cou-se também sob normas e controles adminis­ afirmando-se como a forma de ação preferida
trativos típicos de qualquer organização buro­ das categorias docentes inferiores. Ê verdade
crática; o cientista acadêmico foi desde o início que nesta divisão há m uito de diferencial de
um assalariado constrangido a submeter-se a competência, tanto quanto há de privilégios
algumas condições contratuais que restringem com base duvidosa e de exploração do trabalho
sua liberdade, embora lhe deixassem ampla dos menos qualificados.
autonom ia com relação ao conteúdo do seu tra­
balho. Que estas restrições tenham sido, e sejam
ainda hoje, consideravelmente menores do que O Argumento da “Comunidade de Talentos”
as que regulam a atividade do cientista no setor
privado da economia não faz do cientista acadê­ A crer nos mitos da ciência contemporânea,
mico um profissional autônomo. Antes, a auto­ a comunidade científica é constituída de indiví­
nomia (no grau em que é reclamada) é simples­ duos particularmente talentosos e criativos em­
mente uma aspiração individual dos cientistas e penhados em ampliar as fronteiras do conheci­
um interesse da comunidade científica como mento, em desvendar o desconhecido. Para que
corporação. Ela não é uma “ necessidade” da cumpram sua missão é necessário, todavia, que
ciência, porque a ciência como a medicina não a sociedade ofereça-lhes estímulos adequados;
têm “necessidades”, que são meros juízos de eles devem ser bem remunerados, necessitam de
valor. A ciência, como a medicina ou o direito, liberdade absoluta em seu trabalho, não podem
apenas obtém o que lhe permite e concede o dispensar suporte material em nível adequado
arranjo das forças sociais em cada sociedade e para suas pesquisas e esperam que suas realiza­
em cada conjuntura histórica determinada. ções lhes granjeie reconhecimento e prestígio
O modelo acadêmico de organização da social.
ciência foi no mínimo ambíguo desde seu surgi­ Como em qualquer outra profissão, não há
mento; ele não consegue integrar satisfatoria­ porque duvidar de que em ciência trabalhem
mente pretensões de autonomia profissional pessoas de talento, bem dotadas e inovadoras
com necessidades de controle administrativo, e que merecem ser adequadamente compensadas
a justaposição de formas colegiadas e burocráti­ e apoiadas. O que não é evidente é que pessoas

38
com tal perfil existam em proporção maior na dos levam à conclusão preliminar” — finalizam
área científica do que em outras esferas profis­ os Cole - “de que a redução do número de
sionais; não parece de forma alguma razoável cientistas não reduziria a taxa do progresso
supor que a distribuição de talentos inovadores científico” (Cole e Cole, 1973: 231). Esta é
na sociedade privilegia a ciência em detrim ento, um a percepção bastante comum hoje no que
por exemplo, da área gerencial, nem parece diz respeito à ciência acadêmica: ainda que se
haver muitas evidências de que dentro da área admitisse que a função e justificativa únicas da
científica os indivíduos talentosos e criativos atividade dos docentes-pesquisadores fosse a
constituem a proporção maior. E para que não produção de conhecimento novo em suas disci­
fiquem dúvidas a respeito do que entendo por plinas (o que não é de forma alguma verdadei­
“talentosos” e “ criativos” na esfera científica, ro), mesmo assim a ciência acadêmica estaria
refiro-me aos cientistas que contribuem signifi­ superdimensionada pois, de fato , contribuições
cativamente para o progresso da ciência, e neste significativas são feitas por uma pequena fração
ponto o que vem à lembrança são indivíduos dos docentes-pesquisadores associados a uma
que alteraram os rumos da ciência através de fração também pequena do sistema universitá­
revoluções paradigmáticas, como foi o caso de rio (Alpert, 1985).10
Einstein. Todavia, o desenvolvimento científico Para alguns, esta ineficiência da comunidade
é também constituído de inovações ao nível dos científica em relação ao seu tamanho é uma das
quebra-cabeças deixados aos cientistas menos muitas manifestações do keynesianismo creden­
eminentes pelos que revolucionam a ciência. cial: os investimentos em educação e o creden-
Tanto estes últim os quanto os solucionadores cialismo ocupacional não visam promover a efi­
de quebra-cabeças da ciência normal consti­ ciência, mas simplesmente contribuem, de forma
tuem , somados, um a pequena proporção da peculiar, para manter alto o nível do consumo
população de cientistas ativos. Uma elite,enfim . na economia através da multiplicação de sine-
Mas, então, o que fazem os milhares de cien­ curas protegidas pelos monopólios ocupacionais
tistas que não se destacam por contribuições e artificialmente estruturadas com requisitos de
significativas, cujas pesquisas não despertam a uma formação especializada e prolongada, mas
m enor curiosidade ou interesses na comunidade freqüentemente desnecessária (Collins, 1979:
de seus pares, que raram ente têm seus artigos 53-58, 196). A ciência não foge à regra: a neces­
publicados nas revistas mais importantes, ou sidade de tanto treinamento convence tanto
que se publicados raramente são citados, ou são quanto a de tanta pesquisa irrelevante. Assim,
citados apenas por outros cientistas que nunca nos países que lideram o progresso científico a
se destacaram por contribuições significativas ciência feita nas universidades seria de toda ma­
etc.? Qual a função desta massa de cientistas neira constituída de alguns gigantes que a fazem
medianos e medíocres? Ortega y Gasset. form u­ avançar e de uma multidão de pigmeus que ape­
lou a seguinte hipótese que levaria seu nome: o nas vivem dela, firmemente instalados dentro de
progresso da ciência deve-se em grande parte ao uma vasta (e onerosa) rede de sinecuras acadê­
trabalho destes homens medianos, medíocres e micas para a manutenção das quais necessitam
até mesmo menos que medíocres em cujo agre­ apenas publicar vez ou outra em revistas cientí­
gado de pequenas contribuições se apoiam os ficas independentemente da qualidade do traba­
grandes cientistas que promovem o avanço do lho (ou da revista); pois como ensina Price
conhecimento. Entre outros, a hipótese de (1972), ciência é o que se comunica em artigos
Ortega incorre no seguinte equívoco: mesmo as publicados em revistas científicas, e cientista é
contribuições “menores” da ciência normal são aquele que alguma vez na vida produziu um
obra de cientistas de elite, não de pesquisadores desses artigos.11
medianos. E os eminentes utilizam-se basica­
mente do trabalho de seus colegas também emi­
nentes, e apenas em proporção m uito pequena Pesquisa e Ensino
da produção de cientistas medianos. Em pesqui-
II que fizeram na área da física os Cole encon- Mas se essa massa de cientistas de medianos
imram que apenas 15 a 20% dos trabalhos para medíocres nada tem com que contribuir
mencionados pelos físicos de elite eram produ­ para a ciência, por que não utilizá-los mais in­
zidos por colegas medianos, e concluem que tensamente no ensino de ciências aos não-cien­
pura produzir estes 15 ou 20% não seria neces- tistas? Posso antecipar que a muitos esta pro­
•i«Srio manter ocupados 80% dos físicos (que é a posta parecerá no mínim o incoerente: como
proporção dos medianos) pois, provavelmente, podem cientistas pouco competentes serem
ti metade seria suficiente: “os dados apresenta­ bons professores? Qual o ganho em utilizá-los

39
mais intensivamente no ensino? Ora, os que se equipados para o ensino: têm experiência direta
opõem à idéia da integração entre ensino e pes­ com o m étodo científico, familiaridade com o
quisa sempre usam o argumento de que um corpo já codificado do conhecimento discipli­
bom cientista não é sempre-, ou necessariamen­ nar, estão a par do que outros cientistas produ­
te, um bom professor e que pouco ou nada se zem na fronteira do saber, habituados a expor
ganharia pondo-o num a sala de aulas. Creio, suas idéias à avaliação de outras pessoas, ao con­
pois, que não objetarão à idéia de que um fronto das idéias com as evidências, ao pensa­
cientista m edíocre pode ser um bom docente: mento crítico. Nas salas de aulas, ou ju n to aos
não sofre a lógica, eles nada perdem e o ensino estudantes nos laboratórios, alguns saberão
pode ganhar, como efetivamente creio. Aliás, a melhor que outros utilizar de forma estimulante
idéia não é original. sua experiência de pesquisa; é provável que para
Price argumenta que a “verdadeira justifica­ muitos o ensino continue a ser uma atividade
tiva para a pesquisa científica fundam ental e desinteressante, o que não significa que sejam
aplicada, desde que o produto final consiste mal equipados para a função, mas apenas que
numa publicação, reside no fato de que sem não deveriam ter escolhido a universidade como
um a tal atividade o cientista ficará rapidamente local de trabalho. Ademais, e para não fugir ao
“fora do circuito” e perderá as outras funções lugar-comum, provavelmente poucos terão os
sociais para as quais nós os remuneramos” atributos que distinguem o bom comunicador;
(1980: 81) (ênfase minha). Price quer dizer que creio, todavia, que dá-se importância excessiva à
além de contribuir com seu artigo (seja ele ruim habilidade de comunicação verbal como critério
ou bom ) para o estoque mundial de conheci­ para distinguir o bom professor, talvez porque a
m ento (publicações), o pesquisador mantém-se aula magistral permanece como o modelo de
atualizado para bem exercer suas outras funções ensino, mas também porque não se reconhece
sociais para o desempenho das quais a sociedade que o im portante é a qualidade da relação pro­
o remunera. Ora, estimando que a taxa de cres­ fessor/aluno e que esta pode desenvolver-se em
cimento do estoque mundial de conhecimento vários planos e de forma estimulante para am­
cresce à taxa de 1% ao ano, Price conclui que bos ainda quando o docente-pesquisador não
para se m anter atualizado o pesquisador precisa seja um bom comunicador. Não sei se os cientis­
investir a um a mesma taxa: por exemplo, dedi­ tas estrangeiros contratados pela USP nos anos
car à pesquisa (e à publicação do resultado) um 30 possuíam este tipo de habilidade, mas é
terço ou um quarto de ano ao longo de quatro razoável supor que em muitos casos diferenças
anos, ou um ano inteiro a cada quatro. E fina­ de idioma tornavam difícil a comunicação com
liza: “O melhor proveito que a sociedade pode os estudantes; por o u tro lado, eles não eram
tirar do trabalho do pesquisador não está neste pesquisadores de renome com contribuições
investimento, mas nos outros dois terços ou três significativas à ciência. Apesar disso, uma gera­
quartos de sua atividade não consagrados à pes­ ção de cientistas, engenheiros e outros profissio­
quisa” (Price, 1980: 82) (ênfase minha). nais que passaram pela Faculdade de Filosofia
Não é im portante saber qual a exatidão dos da USP atesta a importância do professor com
cálculos de Price que, ademais, reconhece que experiência de pesquisa, da participação do es­
nem toda atividade de pesquisa admite soluções tudante de graduação nos projetos dos docen­
de continuidade. Interessa a idéia geral de que a tes, da recepção da idéia da ciência como algo
pesquisa não é e não pode ser um a ocupação de dinâmico, instigante e criativo mesmo para os
tem po integral; que os pesquisadores acadêmi­ estudantes que não pretendem prosseguir na
cos têm outras obrigações além da pesquisa; e carreira científica. Evidentemente, a outra con­
que para a maioria deles a pesquisa deve ser dição para que exista o bom ensino (como ativi­
apenas um instrum ento destas outras funções. dade que se define relacionalmente) é a exis­
Mas que funções? O ensino é certamente a mais tência de estudantes capazes de aprender até
im portante delas, e todo o argumento de Price mesmo com professores incompetentes. Isto
sugere que o docente que pesquisa desempenha não é apenas um a questão de aperfeiçoamento
melhor esta função do que o que não pesquisa. dos mecanismos de seleção, embora este as­
Se possuir competência didática, tanto melhor; pecto seja fundam ental; trata-se também de
mas este argumento não é essencial (a não ser equipar as universidades com boas bibliotecas
quando se pretende colocar os bons cientistas e laboratórios, facilitar o contato com os me­
fora do alcance dos estudantes). lhores docentes-pesquisadores, distribuir o
Agora parece estar mais claro porque os maior número possível de bolsas de estudo ou
docentes que pesquisam, ainda que não sejam instituir outras modalidades de auxílio ao estu­
pesquisadores brilhantes, estão particularmente dante .

40
Uma forma eficiente de não se fazei qual­ desvincula-a definitivamente do ensino. Jfcu nffo
quer destas coisas e de agravar a já difícil convi- a contestaria se, de fato, a comunidade científi­
vivência entre ensino e pesquisa consiste em per­ ca estivesse constituída apenas pelos pesquisa­
manecer aferrado a uma definição artificiosa, dores criativos e produtivos que trabalham na
desnecessariamente restrita e inconseqüente de fronteira do conhecimento; poder-se-ia até
ciência. Por exemplo: insistir num a definição admitir que esta pequena parcela de cisntístas
que só comporte a pesquisa de fronteira, ou ficasse liberada de suas outras funções acadêmi­
numa definição de cientista que só inclua o cas, a í incluído o ensino. N o entanto, as comu-
reduzido círculo dos pesquisadores de elite. nidades científicas reais são outra coisa e a defi­
Este é o caso do II Plano Nacional de Pós-Gra­ nição restrita não altera (nem deseja efetiva­
duação (CAPES, 1982) de cujo texto se deduz mente alterar) o fato de que empiricamente a
que só merece o nome de pesquisa cientifica ciência como sistema social consiste na distri­
aquela que é original e conduzida nas fronteiras buição diferenciada de recursos, recompensas,
do conhecimento; veja-se também o que diz poder e privilégios com base tanto nas diferen­
Schwartzman: ças individuais de talento, competência e repu­
tação quanto, independentemente destas, na
“ A ciência só é ciência quando é de nível procedência institucional dos pesquisadores;
internacional, quando é de fronteira, e não isto é, na hierarquia das universidades nas quais
tem sentido manter um a atividade científica os cientistas obtêm seu treinamento. Sociologi­
de segunda classe no pais a pretexto do sub­ camente, tão importante quanto a elite de cien­
desenvolvimento nacional” (1980:67). tistas como elemento constitutivo do sistema
social da ciência é a massa dos pesquisadores
O problema com este tipo de definição é anônimos, dos improdutivos, dos medianos e
que, em primeiro lugar, os seus autores não pre­ dos incompetentes, e mais importante do que
tendem , de fato, que ela seja levada a sério e até qualquer destes estratos são as relações que se
suas últimas conseqüências. Com a sua aplicação estabelecem entre eles; tanto quanto o sistema
simplesmente deixariam de existir por inteiro as social da ciência é constituído pela organização
comunidades científicas nacionais que, como a departamental das disciplinas nas melhores e
brasileira, pouco ou nada contribuíram ou têm mais reputadas universidades, ele também o é
contribuído para o desenvolvimento da ciência, pelos departamentos das universidades situadas
ou cuja produção (ainda que de qualidade dis­ na cauda da "procissão acadêmica” , e mais im­
cutível,) constitui fração reduzidíssima do esto­ portante do que qualquer universidade ou estra­
que mundial de conhecimento científico (publi­ to de universidades são as relações que hierar­
cações). quizam dentro desta rede institucional.
Em segundo lugar, tal tipo de definição res­ A concepção de uma ciência constituída
trita exigiria, para ser menos equívoca, que as unicamente da pesquisa de ponta, dos pesquisa­
comunidades científicas nacionais assumissem a dores eminentes e talentosos e das universidades
responsabilidade de identificar e desclassificar mais reputadas não é menos dúbia do que tan­
os pesquisadores apenas medianos e os m edío­ tas outras idealizações e tantos outros mitos
cres num processo de depuração interna que, que a sociologia da ciência, sobretudo em sua
entre outras coisas, bloqueasse seu acesso aos vertente funcionalista, tem procurado nos im­
escassos recursos para pesquisa. Uma ação desta pingir. É necessário tê-las pelo que realmente
natureza constituiria uma efetiva instância de são, sobretudo porque tendem a ter mais força
exercício de autonomia institucional, de rigo­ ali onde a organização da ciência é mais fraca. A
rosa avaliação interpares e de adesão indiscutí­ quê ou a quem servem elas? No II Plano Nacio­
vel ao critério da competência profissional. To­ nal de Pós-Graduação a concepção restrita de
davia, será ingênuo supor e esperar que os cien­ ciência serve de base para os seguintes propósi­
tistas levem tão a sério sua ideologia a ponto de tos: a) dificultar a pós-graduação nas áreas pro­
por ela pautarem seu comportamento, tanto fissionais e concentrá-la na área das ciências bá­
quanto será também ingênuo supor que acei­ sicas; b) privilegiar a pós-graduação como a
tem , sem as costumeiras denúncias de violação esfera por excelência da pesquisa e reduzir sua
da autonomia da ciência, que agências externas importância no ensino de graduação; c) man­
assumam a tarefa e a responsabilidade dela de­ ter a distinção entre “universidades que ensi­
corrente. nam” , por um lado, e “universidades que pes­
Em terceiro lugar, a definição restrita insiste quisam” , por outro. Em síntese, consagrar o
cm atribuir à pesquisa a única e exclusiva fun- status quo identificando-o com “necessidades”
çffo de produzir conhecimento novo, e com isso da ciência.

41
O fato é que esta postura conservadora da põem em risco a economia política da pesquisa
comunidade científica (ou dos seus ideólogos) e sua moeda corrente, o curriculum vitae: amea­
na defesa de interesses corporativos e de ganhos çam as hierarquias de competência, contestam
recentes obtidos à sombra de um Estado autori­ as reputações estabelecidas, investem contra a
tário que fez do sistema nacional de ciência e autoridade intelectual, politizam todo o espaço
tecnologia um dos instrumentos da doutrina acadêmico e atacam no ponto vulnerável da co­
militar de segurança nacional, afastou-a da uni­ munidade científica, no fato de que a pesquisa
versidade e isto foi particularmente desastroso universitária é fortemente subsidiada pelo ensi­
como a experiência veio demonstrar. Ao abdi­ no, e isto em mais de um aspecto. Não se trata
car de suas responsabilidades com o ensino pro­ apenas de que, como em outros países, os pes­
fissional e de graduação e ao transferir suas leal- quisadores são remunerados com os recursos
dades da instituição que os abriga (e paga seus destinados ao ensino, mas também de que seus
salários) para as respectivas comunidades disci­ encargos docentes tomaram-se cada vez mais
plinares, os mais qualificados e competentes reduzidos. Na medida em que os pesquisadores
docentes-pesquisadores abdicaram também da afastavam-se do ensino profissional e de gradua­
liderança intelectual e moral que lhes caberia ção, a distribuição das cargas docentes entre os
exercer na universidade seja sobre os colegas mais e os menos qualificados tomou-se foco de
mais jovens ou menos qualificados, seja sobre os preocupação, descontentamentos e conflitos
estudantes. Este espaço terminou por ser previ­ nas universidades onde exista alguma atividade
sivelmente ocupado pelo chamado “ baixo cle­ institucionalizada de pesquisa, e as inúmeras
ro ” organizado em agressivas associações docen­ investigações sobre o orçamento de tempo dos
tes com atuação quase sindical. Por um largo professores atestam a polêmica que se estabele­
período de tem po, e até que as greves mais re­ ceu sobre a questão. Por um lado, a relação
centes e prolongadas revelassem em que mãos tempo dedicado à pesquisa/tempo dedicado ao
efetivamente estava a liderança do corpo docen­ ensino tornou-se o aspecto mais visível e con­
te e a extensão da contestação à autoridade in­ troverso do “princípio” da integração entre as
telectual e moral dos “ cardeais” (limpidamente duas funções, e em vários países ela serve de
manifestada nas assembléias que se sucediam ao parâmetro para políticas de alocação de recur­
longo das greves), foi possível deixar operar um sos; por outro lado, esta relação tem deixado a
dos efeitos mais perversos da situação estabele­ nu as extremas desigualdades que, em alguns
cida nas universidades. Organizada em associa­ países ou universidades, fazem das categorias
ções disciplinares, a comunidade científica fazia inferiores de docentes objeto de exploração
demandas restritas às “necessidades” da ciência pelas categorias superiores.
(sobretudo, verbas governamentais) e dava-se ao Para finalizar: as controvérsias suscitadas
luxo de se manter à margem dos movimentos pela difícil convivência entre ensino e pesquisa
do “baixo cleio” como se nada tivesse a ver não serão dirimidas com propostas que separem
com ele ou com suas aspirações; afinal, o que se um da outra sem que ambos e a uftiversidade
reivindicava eram melhorias salariais, algo que como um todo sofram irreparáveis prejuízos.
os economistas chamam de bem público: con­ Blau (1973) observou que a diversidade das
cedido a uns toma-se extensivo a todos inde­ especializações disciplinares da pesquisa encon­
pendentemente do grau de participação nos mo­ tra no ensino de graduação o fator de coesão
vimentos coletivos. Se ao contrário do ensino a que, paradoxalmente, torna possível a crescen­
ciência não faz greves, a alienação da comuni­ te especialização. Sem a atividade educacional a
dade científica acadêmica encontrava não ape­ universidade se fragmentaria a ponto de perder
nas sua justificação ideológica, mas também sua identidade. Ademais, ensino e pesquisa de­
suas recompensas monetárias sem os custos da pendem em ampla medida de condições idênti­
participação. cas para se desenvolverem: da qualificação supe­
O problema é que os movimentos reivindica- rior dos docentes e de um clima intelectual
tóiios do “baixo clero” (e n lo apenas no Brasil) sério e responsável que penetre o cotidiano das
trazem em sua cauda demandas igualitárias que universidades.

Notas

1. A distinção entre “profissões” , “ocupações” e “ocupações semi-profissionalizadas” é im portan­


te e produziu uma vasta literatura sociológica. Ver Moore (1970), Larson (1977) e Etzioni (1969).

42
2. Estou servindo-me amplamente do excelente trabalho de Schwartman (1979); minha leitura do
seu livro é, todavia, muito pessoal (como, ademais, ocorre com toda leitura) e corresponde muito
pouco às idéias do próprio autor.

3. Que as cargas docentes eram pesadas pode-se deduzir do seguinte depoimento de Gleb Wata-
ghin, físico e matemático: “chegando, no Brasil, eu e Fantappié, nos pediram para fazer o curso com ­
pleto. Fantappié fazia todas as matemáticas. Eu fazia a física experimental e teórica e a mecânica
teórica, o que já era m uita coisa. Fazíamos bastante aulas. Além disso me disseram: é preciso criar
um laboratório experimental . . (Schwartzman, 1979: 254).

4. Em trabalhos mais recentes, Schwartzman reviu consideravelmente esta posição ao coletar e


publicar evidências de que não apenas faz-se nas universidades brasileiras a maior proporção da
pesquisa científica no país, mas também a pesquisa de melhor qualidade. Ver Schwartman (1984).

5. Veja-se o caso da acupuntura. A American Medicai Association absorveu esta forma de trata­
mento para reduzir sua prática por pessoas sem formação médica; em seguida, no entanto, baniu a
acupuntura de dentre as modalidades curativas profissionalmente legítimas e autorizadas. Ver Wolpe
(1985).
6. O leitor poderá consultar com proveito a coletânea organizada por Shils (1968).

7. As tentativas de quantificar a relação tem dado resultados m uito imprecisos. Ver Keller (1984)
para uma discussão sobre a questão. Ver também Ganz (1981) para uma revisão bibliográfica.

8. Exemplificações destes pontos o leitor encontrará em Van Den Daele e t alii (1977).
9. O exemplo mais expressivo é o do bioquímico Walter Gilbert, prêmio Nobel de Química em
1980. Licenciou-se de Harvard para ocupar cargo executivo na Biogen S.A., empresa de que era
co-fundador; um ano depois, em 1982, viu-se obrigado a abandonar a universidade por pressão dos
colegas e da administração.
10. Segundo Price (1963) o número de autores que produzem n arfigos científicos é proporcional a
l / n 2. Se cada um de cem autores escrever um único artigo, 25 escreverão 2 artigos, apenas 6 escreve­
rão 4, e assim sucessivamente. Ou imagine-se 165 autores e 586 artigos: 50% destes serão produzidos
por apenas 10% daqueles cientistas, ficando a outra metade distribuída entre os pesquisadores no
nível intermediário (40% de autores/40% de artigos) e na base da pirâmide de produtividade (50% de
autores/10% de artigos).

11. A ciência, diz Price, é papirocêntrica ao contrário da tecnologia que é papirofóbica. O cientista
não deixa de sê-lo por produzir trabalhos de má qualidade, ou por produzi-los infreqüentemente;
isto apenas indica que ele é incompetente.

Bibliografia

Alpert, Daniel
1985. “Performance and Paralysis: the Organizational Context o f the American Research
University” . Journal o f Higher Education, 5 6 ,3 , May-June, 241-281.

Blau, Peter M.
1973. The Organization o f Academic Work. Nova Iorque, John Wiley.

Ben-David, Joseph
1972. American Higher Education: Directions Old and N ew . Nova Iorque, McGraw-Hill.
1980. “Le Rôle des Gouvernements dans le Soutien et la Planification de la Science” . In
André Philippart (éd.), Ordre e t Desordre en Politique Scientifique. Bruxelas, Comité
de Recherche Science e t Politique, Association Internationale de Science Politique,
89-113.

43
Bourdieu, Pierre
1984. H omo Academicus. Paris, Les Éditions de Minuit.

CAPES
1982. I l Plano Nacional de Pós-Graduação. CAPES Informa, 4 , 2, Novembro.

Cole, Jonathan R. e Stephen Cole


1973. Social Stratification in Science. Chicago, The University o f Chicago Press.

Collins, Randall
1979. The Credential Society. Nova Iorque, The Academic Press.

Crozier, Michel
1972. La Sociedad Bloqueada. Buenos Aires, Amorrortu Editores.

Donnangelo, Maria C. F.
1975. Medicina e Sociedade. São Paulo, Pioneira.

Etzioni, Amitai
1969. The Semi-Professions and their Organization. Nova Iorque, The Free Press.

Etzkowitz, Henry
1983. “Entrepreneurial Scientists and Entrepreneurial Universities in American Academic
Science” . Minerva, XXI, 2-3, Summer/Autumn, 198-233.

Ganz, Carole
1981. “Linkages between Knowledge Creation, Diffusion and Utilization” . In R obert F . Rich
(ed.), The Knowledge Cycle. Beverly Hills, Sage Publications, 185-214.

Gilpin, Robert
1968. France in the Age o f the Scientific State. Princeton, Princeton University Press.

Gouldner, Alvin W.
1979. The Future o f Intellectuals and the Rise o f the N ew Class. Londres, The McMillan
Press.

Heizlich, Claudine
1980. “The Evolution o f Relations between French Physicians and the State from 1880 to
1980” . Sociology o f Health and Illness, 4 , 3, November, 241-253.

Katouzian, Homa
1982. “The Hallmarks o f Science and Scholasticism: a Historical Analysis” ./« N orbert Elias,
Herminio Martins e Richard Whitley (eds.), Scientific Establishments and Hierarchies.
D ordrecht, Holland, D. Reidel Publidiing Co.

Keller, Alexander
1984. “Has Science Created Technology?” . Minerva, XXII, 2, Summ er, 183-195.

Kuhn, T. S.
1971. The Structure o f Scientific Revolutions. Chicago, University o f Chicago Press.

I-arson, Magali Sarfatti


1977. The Rise o f Professionalism. Los Angeles, University o f California Press.

I,cvy, Maurice
1980. “ La Politique Scientifique et le Nouvel Ordre Économique M ondial” ./« André Philip-
part (éd.), Ordre e t Desordre en Politique Scientifique. Bruxelas, Comité de Recherche
Science et Politique, Association Internationale de Science Politique, 153-162.

44
Lopes, J . Leite
s/d- “A Universidade e seus Primeiros Princípios” . Mimeo.

McCleland, Charles E.
1980. State, Society and University in Germany, 1700-1914. Cambridge, Cambridge Univer­
sity Press.

Merton, Robert K.
1968. Social Theory and Social Structure. Nova Iorque, The Free Press.

Moore, Wilbert E.
1970. The Professions:Rules and Roles. Nova Iorque, Russel Sage Foundation.

O’Boyle, Lenore
1983. “Learning for its Own Sake: the German University as Nineteenth Century Model”.
Comparative Studies in Society and History, 2 5 ,1 , January, 3-25.

Price, Derek de S.
1963. Little Science, Big Science. Nova York, Columbia University Press.
1972. “The Structure of Publication in Science and Technology” . In Barry Barnes (ed.),
Estúdios sobre Sociologia de la Ciencia. Madrid, Alianza Editorial, 163-177.
1980. “Les Concepts de Base de la Politique de la Science et de la Technologie” . In André
Philippart (éd.), Ordre et Disordre en Politique Scientifique. Bruxelas, Comité de
Recherche Science et Politique, Association Internationale de Science Politique, 75-88.

Powell Jr., Michael


1985. “Developments in the Regulation o f Lawyers: Competing Segments and Markets,
Client, and Government Controls” . Social Forces, 64, 2, December, 281-305.

Shils, Edward (ed.)


1968. Criteria fo r Scientific Development: Public Policy and National Goals. Cambridge,
Massachusetts, The MIT Press.

Shryock, Richard H.
1962. “American Indifference to Basic Science during the Nineteenth Century” . In Bernard
Barber (ed.), The Sociology o f Science. Nova Iorque, The Free Press, 98-111.

Schwartzman, Simon
1979. Formação da Comunidade Cientifica no Brasil. Rio, Finep/Cia. Editora Nacional.
1980. Ciência, Universidade e Ideologia: A Política do Conhecimento. Rio, Zahar Editores.
1984. “Coming Full Circle: for a Reappraisal o f University Research” . Rio, Iupeq, Série
Estudos, n .° 31.

Turner, R. Steven
1971. “The Growth of Professional Research in Prussia, 1818 to 1948: Causes and Con­
tex t” . In Russel McCormmach (ed.), Historiai Studies in the Physical Sciences. Pennsyl­
vania University Press, 137-183.

Van Den Daele, Wolfgang, Solfgang Krohn e Peter Weingart


1977. “The Political Direction o f Scientific Development” . In Everett Mendelsohn, Peter
Weingart e Richard Whitley (eds.), The Social Production o f Scientific Knowledge.
D ordrecht, Holland, D. Reidel Publishing Co., 219-243.

Vucinich, Alexander
1970. Science in Russian Culture. Stanford, Stanford University Press.

Weinberg, Alvin M.
1968. Reflections on Big Science. Cambridge, Massachusets, The MIT Press.

45
Wessz, Paul
1977. “Corps Professoral de l’Enseignement Supérieur et Ideologie de la Reforme UniversiT
taire en France, 1860-1885” . Revue Française de Sociologie, XVIII, 2, avril-juin,
201-232.

Whitley, Richard D.
1982. “The Establishment and Structure o f the Sciences as Reputational Organizations” ./«
Norbert Elias, Herminio Martins e Richard Whitley (eds.), Scientific Establishments
and Hierarchies. Dordrecht, Holland, D. Reidel Publishing C., 313-357.

Wolpe, Paul Root


1985. “The Maintenance o f Professional Authority: Acupuncture and the American Phy­
sician” . Social Problems, 32, 5, June, 409-424.

46