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O ENSINO DE PORTUGUÊS PARA IMIGRANTES SÍRIOS: RELATO DE UMA

EXPERIÊNCIA

APRESENTAÇÃO
O presente relato tem como objetivo compartilhar a experiência de ensino de
português como língua adicional de uma aluna do curso de Letras Línguas Adicionais -
Inglês, Espanhol e Respectivas Literaturas, ofertado pela Universidade Federal do
Pampa (UNIPAMPA), Campus Bagé. A aula ministrada contou com a presença de
somente um dos quatro alunos, com nível básico de Português. Nesta aula, foi
utilizado um material didático produzido no componente curricular Ensino de
Português Como Língua Adicional (EPLA), do 4º semestre do curso.
No início das aulas haviam quatro aprendizes, todos tinham o nível básico de
Português e um leve desnível um em relação ao outro, todos estão no Brasil há
aproximadamente dois anos. Os alunos são sírios refugiados que tiveram que deixar
seu país de origem e começar do zero no Brasil, eles residem na cidade de Bagé, Rio
Grande do Sul. Apesar do Árabe ser um idioma muito distante do Português, eles
buscam manter contato com os moradores da cidade, mesmo tendo dificuldades para
se expressarem.
Os alunos sírios trabalhavam na Síria como Cabeleireiros e Pedreiros, porém
continuam exercendo as profissões na cidade de Bagé. Alguns deles têm alguma noção
do inglês, então recorremos a esse idioma no caso de precisarmos de uma língua
comum às duas partes, para uma melhor comunicação. Ao final do ano de 2015 a
orientadora da experiência aqui relatada e professora do componente curricular EPLA,
Clara Zeni Camargo Dornelles teve conhecimento do interesse destes alunos na
aprendizagem do português e isso a motivou a intensificar experiências de ensino de
português aos imigrantes.
No segundo semestre do ano de 2016, a Profa. Dra. Clara conseguiu
juntamente com a turma de EPLA produzir materiais didáticos e ministrar aulas para os
alunos sírios. A discente Maristela Santos de Oliveira estava entre os alunos que
ministraram as aulas de português para os imigrantes.

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FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Durante o planejamento das aulas, houve uma imensa preocupação em relação
ao que deveríamos ensinar. Tivemos muitos questionamentos: poderíamos ensinar
sobre nossa cultura, mas será que haveria um interesse por parte dos alunos? Também
poderíamos abordar a cultura deles, mas estaríamos os preparando para o contexto no
qual estão inseridos?.
[...] Especialmente no que se refere à cultura, as diferenças, singularidades e até
oposições podem servir de pontos de apoio, não de atrito. A comparação entre as
bagagens dos diferentes povos pode e deve servir como fonte de autoquestionamento
e valorização da própria cultura.(Schlatter,2000,p.01)
No artigo de Schlatter (2000), Inimiga ou Aliada? O papel da cultura no ensino
de língua estrangeira, há um trecho no qual a autora cita Kramsch, que menciona a
importância de estabelecer a interculturalidade em uma aula envolvendo cultura.
Houve dúvidas no início sobre como trabalhar a interculturalidade, pois o tema da aula
era sobre Descrições de Pessoas, então resolvi utilizar na pré-atividade da unidade uma
cantora, deduzi que os alunos poderiam conhecer. Nesta atividade os alunos tinham as
características em um quadro e as imagens de Asalah Nasri (cantora síria) e Dilma
Rousseff (ex-presidente da república), e deviam escrever as características na imagem
correspondente. A partir da citação abaixo entendemos que é importante estabelecer
a interculturalidade relacionando a nossa cultura com a cultura do outro.
[...] O estabelecimento de uma interculturalidade. A relação entre as formas
linguísticas e seu papel social não é óbvia, mas tem de ser estabelecida. Compreender
uma outra cultura requer relacioná-la com sua própria. (Schlatter, 2000, p.02)
Em seu artigo, Schlatter (2000) nos faz pensar sobre questões comunicativas e
seus sentidos, que são pontos importantes a serem observados no outro e
consequentemente em sua cultura. A autora apresenta como a cultura pode nos
auxiliar no tratamento e entendimento do outro, por que o outro age de tal forma, por
que fala de tal modo, e formas de expressões próprias daquele grupo de pessoas. O
fragmento abaixo mostra um exemplo das formas de tratamento utilizadas no Brasil:
[...] Podemos olhar para nossa própria língua e para a língua do outro e estudar
e tentar compreender o que é dito, como é dito e como os falantes se interrelacionam
através da língua e como se interrelacionariam em outra cultura. Tentar entender, por
exemplo, as tantas formas de tratamento que utilizamos e o significado delas -
telefonistas chamam seus interlocutores de “meu bem”, “querida”, caixas de banco
dirigem-se aos clientes como “meu filho’” (Schlatter, 2000, p.07)
Também tive como base o artigo de Torquato (2014), Ser estrangeiro num
contexto acadêmico brasileiro nas vozes de estudantes PEC-G, que trata de mostrar a
visão de estrangeiros em um contexto acadêmico. O artigo descreve as expectativas
dos alunos e o que aconteceu quando foram inseridos no contexto acadêmico. Há
relatos de como se sentiram ao chegar ao Brasil, alguns se sentiram deslocados, outros
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sofreram preconceito e também tiveram dificuldades de socialização. Este artigo foi
essencial para pensar nos alunos sírios e suas dificuldades e limitações na cidade de
Bagé.
Acredito que conseguimos adaptar pontos importantes da discussão de
Schlatter (2000) e Torquato (2014) para nossas aulas com os imigrantes sírios.
Podemos ver na tabela abaixo a distribuição das temáticas que seguiram uma
sequência, com diferentes professores:

Professor Tema Carga Horária


Gabriele Comida Sírio Libanesa 3h/a
Lucas Direções 1h30/a
Amanda Profissões 1h30/a
Maristela Descrições de Pessoas 1h30/a
Pâmela Tempo 1h30/a
Ana Carolina Fatos Ocorridos1 1h30/a
Quadro 01 – Ordem das aulas ministradas.

A primeira aula teve como tema principal a cultura, o foco era tratar sobre a
comida sírio libanesa e relacionar às comidas brasileiras. Essa aula serviu para os
alunos sentirem-se à vontade e trabalhar com conteúdos familiares, como por
exemplo, sua própria culinária. Nas demais aulas foi possível adicionar outros
conteúdos, utilizando sempre algo que fosse familiar aos estudantes, porém dando
foco para conteúdos novos.

DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA
O componente curricular EPLA, do curso de Letras Línguas Adicionais e
Respectivas Literaturas da UNIPAMPA – Campus Bagé, induz os seus discentes a pensar
no ensino do Português como língua adicional, pensando em um público estrangeiro.
O componente traz o ensino do Português de outro ponto de vista, de uma perspectiva
diferente.
Optei por produzir material didático e ministrar a aula para os imigrantes
posteriormente à realização de uma roda de conversa com Mariel Araújo e Josiane
Laner (2015). Roda na qual as autoras compartilharam suas experiências e um relato
que escreveram sobre o ensino de português para alunos chineses, tarefa realizada no
contexto do componente EPLA. Ver a emoção e sentimento de gratidão das antigas
alunas me despertou uma curiosidade e vontade de passar por esta experiência. No


Para a realização das aulas, contamos com a parceria da Escola Monsenhor Constabile Hipólito, que
fica localizada no centro da cidade de Bagé. Para os imigrantes sírios foi importante utilizar a sala de
aula que foi disponibilizada, pois trata-se de uma escola em que estudam duas crianças sírias, filhas do
casal que participou da experiência pedagógica.
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componente curricular havia diferentes opções de avaliação, poderíamos escolher
entre passar pela experiência docente ou realizar um seminário. Optei pela experiência
docente e comecei a pensar no que ensinaria aos alunos sírios, tive dúvidas quanto ao
nível de Português deles, então decidimos observar o que lhes era dificultoso e o que
tinham necessidade e interesse para aprender.
Todos os professores se reuniram com os alunos sírios para avaliar seu nível de
proficiência de Português. Para esta avaliação, nos baseamos no manual do
examinando do Certificado de Proficiência em Língua Portuguesa para Estrangeiros
(Celpe-Bras ed. Nov. 2015). Neste encontro os professores conversaram com seus
futuros alunos; a conversa foi gravada para ser analisada e utilizada para identificar
dificuldades dos alunos.
A primeira aula para os alunos sírios foi ministrada pela orientadora Profa. Dra.
Clara Dornelles, esta aula serviu para que observássemos a postura da professora, para
posteriormente agir de tal maneira, analisar as dificuldades linguísticas e preparar-nos
para as dúvidas dos alunos. Todos os alunos professores assistiram à aula da
orientadora. Após a aula, foi feito um rodízio para que um assistisse à aula do outro e
pudesse dar continuidade aos encontros de maneira adequada. As aulas foram
gravadas e fotografadas para que pudessem servir de apoio ao planejamento das aulas
seguintes. Ministrei a quarta aula (Quadro 01), tarefa que foi muito gratificante,
enriquecedora e desafiadora. Ver o português sendo aprendido por um imigrante me
fez pensar pelo ponto de vista dele e contribuir para a construção da sua
aprendizagem foi uma experiência maravilhosa.
Minha aula teve como tema principal Descrição de Pessoas. Ministrei a aula
com o objetivo de ensinar o uso da língua, mais próximo possível da realidade, com
vocabulário e gramática contextualizados. Ensinei as próprias características dos
alunos para que houvesse um maior interesse e abordei os pronomes possessivos e
interrogativos. Em um primeiro momento a aula seria ministrada para os quatro
alunos, mas somente um deles pode participar.
No início realizei uma atividade com fotos de pessoas famosas, uma delas
brasileira e outra síria e havia algumas características as quais o estudante deveria
definir à qual pessoa pertencia (Imagem 02). Além disso, o aluno realizou atividades
para reconhecer pessoas através de descrição física, descrever a si mesmo e outra
pessoa. O aluno participou ativamente e retomava sempre o que havia aprendido.
Abaixo estão algumas imagens do material utilizado:

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Imagem 01

Imagem 02

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AVALIAÇÃO DOS RESULTADOS
A aula ministrada teve duração de 1h30min. Durante este breve período já
percebi um avanço na aprendizagem do aluno. No início foi feita uma atividade de
Warm Up, nela pude perceber que ele reconhecia algumas características, como o
comprimento do cabelo, porém não sabia suas denominações.
As atividades foram pensadas para serem feitas pelo aluno juntamente com a
professora, porém ao longo da aula ele foi recordando de explicações anteriores e
desenvolvendo as atividades com autonomia. Pedi para que ele repetisse algumas
palavras para se aproximar de uma pronúncia adequada, o que foi um pedido do
estudante.
Ao final da aula, fiz a pergunta: O que você aprendeu hoje? Que serviu como
uma avaliação e revisão. Depois desta pergunta, também relembrei algumas
informações do que trabalhamos no encontro que o aluno não mencionou. Ficou
nítida durante a aula a preocupação do aluno em utilizar as lições aprendidas no seu
dia a dia, pois ele contou que a cada semana praticava o que aprendia em sala de aula
no seu cotidiano.

Graduanda/Professora Maristela na aula para aluno sírio


Foto: Amanda Lemos

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CONSIDERAÇÕES FINAIS
O que a princípio parecia um grande desafio aos poucos foi tornando-se algo
possível e mais próximo de minha realidade. Foi uma experiência enriquecedora, pois
como faço parte do curso de Línguas Adicionais, sendo o principal objetivo formar
professores de inglês e espanhol, tive a primeira experiência ministrando aula de
português. Comecei a refletir sobre o ensino do português como língua adicional e
percebi que dentro e fora do Brasil há muitas pessoas querendo aprender e falar o
português, foi gratificante contribuir para que isso se tornasse realidade para alguém.
Para concluir, não somente ensinei como também aprendi muito com essa
experiência, adquiri novas percepções no ensino de português como língua adicional.
Estive diante de outros costumes, cultura e, durante a aula, compartilhamos ideias,
aprendizagens, tivemos momentos de empatia e de olhar um ao outro como olhamos
a nós mesmos, para que ambos pudéssemos chegar a um resultado. Fiquei muito
contente após passar pela minha primeira experiência docente.

REFERÊNCIAS:

SCHLATTER, Margarete. Inimiga ou Aliada? O papel da Cultura no Ensino de Língua


Estrangeira. In: Indursky, F. & Campos, M. C. (org.) Discurso Memória e Identidade.
Coleção Ensaios, Porto Alegre: Sagra. 2000. P 517-527.

TORQUATO, C. P.. Ser estrangeiro num contexto acadêmico brasileiro nas vozes de
estudantes PEC-G. In: FERREIRA, A. de J.; JOVINO, I. da S.; SALEH, P. B. de O.. (Org.).
Um olhar interdisciplinar acerca de identidades sociais de raça, gênero e sexualidade.
1ed. Campinas, SP: Pontes Editores, 2014, v. , p. 201-233.

LANER, Josiane Nunes; ARAÚJO, Mariel Monteiro. Aula de português como língua
adicional para alunos chineses. In: DORNELLES, Clara; COUTO, Regina C.; MARINS, Ida
M.; DOMINGO, Luciana C. INTERCULTURALIDADE E EXPERIÊNCIAS DOCENTES. Bagé-
Jaguarão: Universidade Federal do Pampa, 2015. p. 94-5.

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